CONTISTAS

CRIS

MARCO

LIANA

LUCI

CIDA

LORENZA

TOTAL

Cinthia Kriemler

Para, enfim, me deitar na minha alma

9,2

10,0

10,0

10,0

10,0

8,4

57,6

Artur Cotias E Silva

Pigmalião e Galatéia

8,6

9,6

9,8

9,2

10,0

7,8

55,0

Osmar P. Lannes Jr.

O  Acordo

9,8

9,2

9,0

9,4

9,4

8,0

54,8

Maria Raquel Melo

Sem limites

9,4

9,8

9,6

9,6

8,8

7,4

54,6

Antonio Cardoso Neto

O Protagonista Que Derreteu

9,0

8,8

9,4

9,0

9,0

8,8

54,0

Monica Thaty da Silva

O encontro de Ícaro

8,8

9,0

9,2

9,8

9,6

7,6

54,0

Ari  Gurcz

O Farol do Fim do Mundo

9,6

9,4

8,6

8,6

9,2

8,2

53,6

Washington Dourado

Psique

10,0

8,6

8,8

8,8

8,6

8,6

53,4

 

 





CONTO 1:

O encontro de Ícaro


Não lembro quando conheci Ícaro. Parece que estivemos juntos a vida inteira, e, de tão diferentes, nos tornamos complementares. Ele amava os pássaros. Passava mais tempo olhando para o céu do que para onde os seus passos deveriam levá-lo, imaginando como seria poder viver no alto, junto às aves, sentindo a chuva antes de todos, conhecendo do que eram feitas as nuvens, recebendo o calor mais forte do sol. A necessidade de sentir seu corpo livre, pendendo do ar, era maior do que qualquer pensamento racional.

Ícaro tinha a mania de escalar as árvores e saltar dos galhos mais altos como quem pula para o infinito. Isso para o meu desespero de menina, já que desde muito nova sempre preferi manter os pés em solo firme, criando raízes que me dessem segurança e que não deixassem o vento me levar a lugares inesperados. Não preciso dizer que ele levava consigo as marcas do sonho de voar: joelhos esfolados, pernas arranhadas, machucados por todo o corpo. Eu, quando muito, tinha as mãos sujas. Nada que um pouco de água não resolvesse.

Lembro bem como ele estava ansioso em sua primeira viagem de avião, ainda criança. Não dormiu uma única noite da semana do tão esperado vôo. Que foi uma decepção, claro. Estar preso dentro do gigante tubo de metal não tinha a menor graça para Ícaro. E a frustração só não foi maior porque grudou o nariz na janelinha e deixou-se levar pelas nuvens que passavam suavemente pelo avião e pelas paisagens maravilhosas que viu lá de cima. Aumentou ainda mais sua vontade de voar, mas voar de verdade, como pássaros livres, e não engaiolados. Eu achava graça. Para mim, estar dentro de uma aeronave não era como estar presa, mas perigosamente solta no ar.

Crescemos, assim como a nossa improvável amizade. Muitos dos meus sonhos de infância, eu fui deixando enterrados pelo caminho. Mas Ícaro não. Ainda estava convencido de que um dia iria voar e uma vez, em que consenti em observar o céu com ele – desde que se deitasse no chão comigo – fez-me uma confidência, que resumia tudo o que sentia.

- Daria tudo para voar, Petra. De verdade!

- Tudo o quê?

- Tudo que eu tivesse, tudo que me pedissem.

- Que loucura, Ícaro.

- É um sonho, Petra. E sonhos não têm preço.

Eu não o entendia. Ele já tinha idade suficiente para saber discernir o que era real da imaginação, o possível do impossível. E voar, da maneira como ele queria, não era mais do que um sonho. Nascemos para caminhar. Um pé após o outro, presos às nossas pernas, à terra. Inventamos carros e aviões e navios. Mas não inventamos asas. Porém Ícaro não aceitava os limites do bom-senso. Dava vida a sonhos improváveis até em seu dia-a-dia. Praticava esportes radicais. Fazia investimentos arriscados. Entregava seu coração a paixões desenfreadas e superficiais, mas sempre o recolhia a qualquer sinal de compromisso.

- O instante, Petra! Nós vivemos o momento, o presente. Quem sabe do amanhã?

Pelo menos eu não era a única a ficar aflita com o comportamento de Ícaro. Dédalo, seu pai, engenheiro e racional, também tentava deixar o filho amarrado à realidade. Mas, por ironia, do destino, foi ele quem levou Ícaro para mais perto do seu sonho.

Dédalo ocupava um alto cargo no governo, mas acabou envolvendo-se em intrigas palacianas e despertou a fúria de homens poderosos. Engendrou-se em um verdadeiro labirinto, do qual era impossível escapar. Entre acusações de tráfico de influências, corrupção e espionagem que lhe foram injustamente imputadas, Dédalo viu-se aprisionado naquela teia, e passou a temer pela sua vida e de seu filho. Mas seu espírito empreendedor não iria permitir que fosse oferecido em sacrifício como um jovem às feras. Começou a bolar um plano. Uma rota de fuga pelos céus.

Os dois não tinham como fugir por terra ou em um vôo de carreira. Estavam sendo vigiados pela Polícia Federal. Passaram então a fazer aulas de pilotagem de ultraleve. A idéia era simples. Só precisavam chegar à fronteira com a Argentina, onde um amigo de Dédalo os abrigaria até que eles conseguissem ir para mais longe. Para Ícaro, aquilo era o que mais se aproximava da possibilidade de voar. Tirou o brevê em tempo recorde. Tudo o que queria era ter o seu momento sozinho nos céus.

O dia do primeiro vôo solo de Ícaro acabou sendo aquele da fuga. Apesar da pouca experiência, não havia mais como esperar. Dédalo soube que já haviam pedido a sua prisão, era uma questão de tempo até o encontrarem. Comunicou a Ícaro de madrugada. Ele mal teve tempo de arrumar a pequena mochila e deixar-me um bilhete, que de tantas vezes lido e relido, sei recitar como um poema antigo.

“Querida Petra, sinto meu coração batendo descompassado, como se estivesse querendo livrar-se das amarras de veias e artérias e sair aos pulos de dentro do meu peito. Mas é uma ansiedade boa, como aquelas que sentíamos nas manhãs de Natal, para ver o que Papai Noel havia trazido. Estou recebendo agora o presente pelo qual esperei durante toda a minha vida. Não sei quando poderemos nos ver de novo, minha amiga, mas sei que você irá superar seu medo de voar para ir me visitar. Beijos, Ícaro”.

Tudo o mais que eu sei, é especulação. E ainda assim, quase certeza. Ouso escrever o que Ícaro sentiu porque cada alegria sua corresponde a um medo meu. E por seu êxtase ser equivalente ao meu mais profundo temor, narro passo a passo o que aconteceu.

No aeroclube, Ícaro forçou-se a manter a calma. Não por prudência, mas por temer que, ao perceber a sua agitação, o pai desistisse do plano. Ouviu as recomendações sem dar importância a alguma. Prestar atenção aos... Não fazer... Evitar... O tempo de autonomia é... Abastecer em... Bláblábláblá. A maquininha de voar prendia os cinco sentidos de Ícaro. Cego e surdo, o corpo dormente, a língua paralisada, a respiração suspensa. Não existia nada no mundo além de ele e o ultraleve à sua frente.

Levantar vôo, sem o pai ou o instrutor, foi como tomar posse de suas asas.

O calor do sol envolvia o corpo de Ícaro. A alma de Ícaro. Aquecia ele inteiro, como um amigo protetor e reconfortante. Tornava o ar um leito seguro, onde ele poderia até deitar-se, se quisesse. Viveria para sempre ali, vigiando de cima os rios, lagos e oceanos, abraçado ao sol. E as estrelas? Que viessem as estrelas. Quem sabe próximo a elas descobriria o seu segredo. Como podiam estar tão perto e tão longe. Dando mostras de sua existência e inatingíveis. Ali, no céu, tudo parecia mais certo e palpável. Tudo tinha mais sentido. A solidão o preenchia de uma maneira como nunca achou que fosse possível ocorrer e respondia a todas às suas dúvidas. O silêncio, quebrado apenas pelo barulho do motor, ressoava nele como a canção que procurou por toda a vida. Liberdade. Não havia outra definição para aquilo. E não havia outra forma de senti-la senão daquela maneira.

Mudou a rota. Em vez de oeste seguiu para o nascente. Em direção ao sol, em direção ao mar. Era um pecado estar ali e não ir ver o mar. Sabe-se lá quando teria outra oportunidade daquela.

O ponteiro do combustível apontava perigosamente para além da reserva, mas Ícaro não iria se prender a mesquinharias. Detalhes tão prosaicos. O que era uma fonte de energia humana perto da sensação de divindade? Não temeu nem mesmo quando o motor desligou e o aparelho começou a planar. Mas lembrou-se do que havia esquecido por perigosos momentos: que estava em uma invenção humana. Falível como um homem. Limitada como um homem. Tentou manobrar, voltar à terra, mas a máquina rebelou-se. As asas, que por um momento acreditou que eram suas, abandonavam-no sem qualquer remorso. Deixou escapar um suspiro seu, junto com o último da engenhoca. Fechou os olhos e mergulhou no ar de braços abertos, em seu primeiro e último vôo, sentindo-se águia gaivota falcão e pardal. E então peixe. Perfurando a água, sentindo o gosto salgado na boca, entrando no reino proibido dos oceanos. Livre.



CONTO 2:

O Protagonista Que Derreteu


Do escritório, Procópio Teodoro telefonou à sua mulher, Teodolinda, e perguntou se ela estava vendo televisão. Como ela respondesse que sim, indagou se estavam comentando o resultado da apuração dos votos. Ela disse que a apuração ainda não havia terminado, mas que, pelo andar da carruagem, o resultado deveria ser mais ou menos o que havia sido previsto pelas pesquisas de opinião. Ele teimou que acabara de ver o resultado final pela internet, mas ela respondeu que havia visto, agorinha mesmo, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ao vivo, analisando o andamento da apuração, e que mais da metade dos votos ainda não tinha sido apurada. Terminaram a conversa e Procópio Teodoro voltou à página da internet onde havia visto a notícia, mas ela não estava mais lá. Em seu lugar, havia a quantificação dos quase cinqüenta por cento dos votos já apurados, como lhe informara a mulher. “Que coisa estranha! Mas, pelo menos, acabou aquele zumbido no ouvido”, exclamou. E voltou ao trabalho.


Só voltou a pensar novamente naquilo no dia seguinte, ainda de pijamas, assim que tacou o olho no jornal, na soleira da porta. O resultado da eleição havia sido exatamente o mesmo que afirmara haver lido na internet no dia anterior. “Alguém deve ter se descuidado e colocado o resultado, obviamente fraudulento, na rede, antes do final das apurações”, comentou com a mulher, que fez um muxoxo de pouco caso: “você deve ter visto o resultado de alguma pesquisa de boca-de-urna, e se enganou. Isso é estafa... estresse”, disse ela. Ele tomou o café e despediu-se dela mais cedo que de costume, tomou o ônibus, chegou ao escritório e ligou o computador. Tudo mais cedo que de costume. Entrou na internet e abriu a mesma página que vira no dia anterior. Eram os mesmos resultados que havia visto com antecedência. “Ou houve fraude na eleição ou estou ficando maluco”, disse. Dona Prudência, a secretária, olhou-o, surpresa, por cima dos óculos; “o doutor sempre foi tão discreto”, cochichou consigo mesma; também estranhou as meias dele, uma amarela e outra preta, mas resolveu ficar calada.

Quase no final do expediente, Procópio Teodoro recebeu um telefonema do chefe, Dr. Menelau, dizendo que tinha informações seguras de que as ações mais altas da Bolsa de Valores despencariam no dia seguinte e que as que estavam em baixa iriam subir vertiginosamente da noite para o dia. Disse-lhe que pagara uma nota por essa informação. Pediu-lhe que fizesse uma pesquisa meticulosa sobre as cotações na Bolsa pela internet, e que lhe informasse quais eram as mais baixas para que ele pudesse investir uma enorme soma nelas. “Uma pesquisa meticulosa”, frisou. E desligou o telefone.

Procópio Teodoro entrou na página da Bolsa de Valores, virou-se para Dona Prudência e disse “a senhora não está ouvindo um zumbido estranho?”. Ela tornou a olhá-lo por cima dos óculos, dizendo-lhe que ele devia tirar umas férias. “Ontem ouvi o mesmo zumbido. Acho que preciso mesmo de férias”, concordou ele. Verificou os valores das ações e enviou um e-mail para o chefe com os nomes das três companhias que estavam com as piores cotações. “Que coisa intrigante! O zumbido parou novamente. A senhora não ouviu, mesmo?”. Dona Prudência limitou-se a dar de ombros, e a olhá-lo de soslaio, notando que ele provavelmente percebera as meias diferentes uma da outra e as trocara, pois estava agora com as duas amarelas.

Durante o jantar, Procópio Teodoro comentou sobre o zumbido com Teodolinda, que tornou a lhe dizer que devia ser o cansaço. Na manhã seguinte, ela comentou que ele devia ter tido algum pesadelo, pois se debatera a noite toda. Insistiu em que ele procurasse um médico ou tirasse uns dias de folga, mas ele a beijou no rosto e se encaminhou ao ponto de ônibus.


Procópio Teodoro trabalhou a manhã toda sem se lembrar do zumbido. Logo depois do almoço, a secretária do Dr. Menelau telefonou, dizendo-lhe que fosse imediatamente à sua sala, para uma reunião de emergência. Ele foi, e encontrou toda a diretoria executiva à sua espera. Sem muito rodeio, o chefe foi logo gritando:

 Você arruinou nosso negócio ao sugerir que comprássemos exatamente as ações que estavam em alta. E eu que sempre confiei em você. Veja aqui no monitor do computador. Comprei todas essas ações que hoje não valem mais nada.

 Mas as cotações não mudaram. Elas já estavam em baixa, ontem. Eu...

 Não tente me enrolar. Ponha-se daqui pra fora, seu velhaco!

Ao abrir a porta, o chefe ainda gritou, para todos ouvirem:

 Você está louco, ouviu? Louco!


Procópio Teodoro pegou seus pertences na gaveta, colocou-os na valise, sentou-se na cadeira e entrou na internet, quando o zumbido começou de novo. Dessa vez, não comentou nada com Dona Prudência. “Parece que o zumbido vem de dentro do computador”, pensou. De repente, deu um salto na cadeira e entrou no site do jornal local. Dona Prudência olhou-o por cima dos óculos e fez um ar de piedade, observando que ele havia trocado de gravata. A internet estava meio lenta, e ele ficou procurando o hiperlink em que queria entrar. Passou de relance por manchetes de política nacional, futebol, obituário, acidentes de trânsito, atropelamentos, mas nem chegou a ler qualquer coisa, pois só queria encontrar o link. Depois de alguns minutos, ocorreu-lhe entrar na página da Receita Federal, onde acabou encontrando seu tão desejado hipertexto. Anotou o resultado da Mega Sena na caderneta de bolso, pegou uma chave de fenda no armário, abriu a CPU, arrancou a placa-mãe e a colocou na valise, enquanto gritava ”eu vou pagar! Podem deixar que eu pago por essa porcaria!”. Despediu-se de uma atônita Dona Prudência, passou na Seção de Pessoal e assinou seu desligamento da empresa. Pegou o dinheiro que lhe deviam, amassou as cédulas, atirou-as para cima e disse “o dinheiro para o ônibus me basta!” Abriu a porta e saiu. Não parava de rir.

Tomou o ônibus e foi para o centro da cidade. Comprar roupa ou sapato sempre fora um suplício para ele, mas entrou em uma camisaria e comprou cinco camisas, três calças e um paletó, com o cartão de crédito. Colocou o paletó que acabara de comprar, e saiu da loja com as sacolas de roupa. “Você viu só que cara esquisito? Fez um rasgo no forro do paletó com os dentes, mas eu não podia fazer nada, pois ele já tinha pagado pela compra”, disse a moça do caixa a uma colega, assim que ele deixou a loja. Procópio Teodoro entrou em uma sapataria, escolheu três pares de sapato, e fez questão de, para desespero do vendedor, trocar de camisa e calça, em todas as quinze combinações possíveis, a cada par de sapato que provava. Acabou comprando apenas um par, também com cartão de crédito. Entrou em uma loja de fantasia e experimentou um gorro de arlequim, uma peruca com careca de palhaço e uma máscara de Groucho Marx. Largou as fantasias para trás e desceu pela escada rolante.

Estava parado, com o olhar hipnótico na pequena vitrine de uma clínica de cirurgia plástica, quando um transeunte perguntou-lhe que horas eram. Assim que Procópio Teodoro olhou o relógio, saiu em disparada, deixando que o assombrado passante continuasse ignorando as horas. Chegou esbaforido na fila da Casa Lotérica. Eram seis e meia da tarde daquela quarta-feira, e as apostas terminariam às sete. Às oito e pouco ele seria milionário. Abriu a caderneta em que anotara os dados da internet, pegou um volante da Mega Sena e, cuidadosamente, copiou nele sua aposta, sem conseguir parar de rir. Entregou o volante da aposta à funcionária, pagou, pegou o bilhete e o escondeu no rasgo do forro do paletó. “Estou alterando meu futuro!”, gritou. Enquanto subia a escada rolante, abriu a valise de onde retirou a placa-mãe, colocando-a no rasgo do forro do paletó onde escondera o bilhete da loteria.

Saiu do Shopping Center olhando para o horizonte, com a boca quase juntando uma orelha à outra. Atravessava a pista gargalhando, quando um caminhão jogou-o no meio-fio. No dia seguinte, Procópio Teodoro entrou no forno do crematório, vestido com os sapatos, uma camisa, uma calça e o paletó que comprara na véspera.

CONTO 3:

Para, enfim, me deitar na minha alma


Se eu conhecesse o medo, talvez pudesse nomear a sensação que me toma quando essas portas se abrem. Um a um, a dois, em bando eles adentram e iniciam a profanar o que não entendem. Não há consentimento. Defloram.


O desaforo que o trabalho quase arqueológico de Vanessa, minha marchande, recebe dessa turba é nauseante. Ela passa meses pesquisando e escavando prédios antigos para assentar neles minhas exposições de forma tão magnífica. E sempre encontra lugares de boa fortuna. Desta vez, por sinal, ela se superou. As colunas dóricas da sala principal são magníficas! Lamento por mim, lamento por ela que o destino de tanta maravilha seja uma reunião de bárbaros.


Eu não posso impedi-los de entrar, de percorrer, de perguntar. É imprescindível que os receba, que os entenda, que perdoe a ignorância com que deitam seus olhares e sorrisos sobre as minhas formas de argila, madeira, ferro. Eu e minhas criaturas somos unos, indivisíveis. Eles são fragmentos desarmônicos.


Como é possível ter que compartir meu resplendor com esses imprestáveis que fazem do templo um mero passeio de trajes e elegâncias? Apenas vez ou outra encontro uma alma que me reverencia. No mais, apenas vendilhões.


Vanessa insiste em que eu me civilize mais. Que eu pare de implicar com as pessoas. Que eu abandone as frases secas pelas conversas intensas. Ela persiste na idéia de que para seduzir essa amante ingrata, que é a sorte, eu preciso negociar diálogos. Mas eu não sou desses aparvoados que vomitam palavrórios frouxos sobre suas obras. Não reproduzo com meus dedos intensos nem a tristeza de amores perdidos, nem paixões inacabadas, nem homens ou mulheres que habitam o meu éter. Não me importo com isso, são banalidades fracas. Minha obra sou eu. Completamente e tão somente eu. Eu sou a argila permeável, o ferro incandescente. Quando esculpo, sôfrego e entorpecido, é minha essência em cada busto, é minha ânsia em cada entalhe. Por isso, só o que espero de um olhar é devoção, adoração, contemplação.


- Quanto tempo demorou para fazer esse busto? – me pergunta uma voz masculina empostada.


Pronto, começou! Eis o primeiro que descumpre o caminho e vem direto a mim. Ele não quer saber do busto, quer vir até mim e me bajular com lisonjas! Ensaiou essa frase, por certo, desde a porta.


- Talvez uma quinzena...um mês no máximo – respondo sem pensar se a resposta é precisa.

- A sua obra se inspira em quê? – insiste o dono da voz.


Estou sendo cortejado mais uma vez! E o que mais me enfada no flerte inconseqüente não é a cantilena monótona que repetidamente acontece durante as minhas exposições, mas a sucessão de homens que oferecem a mim seu sexo empobrecido. Nenhum deles ofertou sua volúpia ao barro, à areia, ou ao metal que expus despudoradamente nestas salas! Se o fizessem, não precisariam vir a mim...eu já estaria neles, e seria eu a arrastá-los para fora dali para entregar-me como oferenda. No entanto, os que me ocupam as noites são hienas sorrateiras: sua avidez é pelos restos. Os suspiros de gozo que escuto no meu leito são gemidos de bestas que me afastam da beleza que sou, da beleza que crio.


No avançado da hora, quando o ressonar substitui as carícias, me esforço em moldar os corpos desajeitados que me acompanham. O negrume do quarto, que impede a visão de ter certezas, é minha desculpa para esquadrinhar com as pontas dos dedos cada pedaço de carne. Depois, antes que o sol venha me fazer homenagem, eu deixo a febre se apossar de mim e passo horas, ainda na escuridão, repetindo em substâncias o ato retido em minha mente. Não há nos corpos a menor essência do belo. Sou eu que filtro para a perfeição a vulgaridade enfadonha das feições. Na verdade, nem preciso deles.


A conversação já foi longe demais por esta noite. Hoje, não admito mais máculas. Peço licença e me afasto do pequeno grupo que já começa a formar-se. São outras perguntas, outros rostos inexpressivos, outros ignorantes. Mas onde está Vanessa? Talvez por aí, envolta com pessoas. Sempre guardiã das minhas belezas.


Escapo do ambiente sufocante para percorrer os corredores do casarão. Em cada sala, meu eu se espraia em triunfo. Não há melhores. Tudo é excelência. Não sei por que ainda exponho minha criação aos indivíduos, por que desperdiço meu tempo permitindo a esses pretensiosos julgar e poluir as minhas formas. Eu sou irretocável.


Vanessa me prometeu uma surpresa no último cômodo da mansão. Pediu que eu me deslocasse até lá lentamente, para saborear melhor o inesperado do presente. Agora é hora de consumar a expectativa.


Na entrada do salão, que ainda está às escuras, um homem de terno, impessoal e casual, me recebe.


- Acendo, senhor? – me pergunta ele respeitosamente.

- Acender?

- As luzes do salão, senhor.

- Pode acender....não, não espere um pouco...eu quero ficar um pouco no escuro.


Ah, os homens de terno treinados como eunucos! Obedecem, poupando as emoções inúteis.


Finalmente me sinto relaxado. Somos eu e a penumbra. Eu, a penumbra e as silhuetas irregulares das formas que daqui a pouco serão invadidas pela turba que se arregimenta. Enquanto aguardo, meu toque encontra asperezas, saliências, contornos, relevos. E meus dedos fazem amor com as substâncias, consumando deleites.


E então, um súbito acontece! As luzes se acendem sem que eu tenha ordenado ao homem de terno, e uma sensação pior que a proximidade dos visitantes me esbofeteia. Espelhos imensos refletem a minha criação por todo o salão. Esplêndidos! São formas que me abraçam, acolhem, aninham.


Cada superfície reproduz mais que o tom da minha obra! Fui excedido! Olho as imagens de gesso, argila, ferro e as enxergo melhores, mais iluminadas, mais vivas. Como se atrevem a mais beleza do que a beleza que eu lhes permiti? Os espelhos me sobrepujam, elevam minha obra acima de mim, não me querem mais o senhor das formas!


Vou destroçar esses vidros arrogantes e reduzi-los a pedaços cortantes! Não me importa se interrompo, assim, a visitação indesejada. Nada do que é meu escapa de mim! Não vou permitir superação, nem consentir que a platéia desvie o seu olhar de mim ou da beleza que pratiquei aqui! Ninguém vai desprezar-me por espelhos! É a mim que buscam. É a mim que cultuam. Sou mestre, sou obra, sou guia para os seus olhos míopes!


Minhas esculturas promoveram o meu suicídio.


- Ingratas, ingratas, ingratas! – grito a cada uma em seu reflexo.


Pois que morram assim, apenas refletidas. A mim não induzem à morte!


Viro-me aos espelhos, desafiante, e olho o inimigo nos olhos, mas...que inesperado...há um reflexo dedicado a mim e que me captura sem embate, e me convida a mergulhar na luz, e a gozar, e a repetir o gozo. A superfície polida me prende, me apreende, mas me devolve intacto e frontal, invertido e límpido...só não mais igual.


Toco o homem do espelho e retraio lentamente o braço em direção ao meu rosto. Faço isso repetidas vezes. Como somos perfeitos, o de carne e o refletido!


Depois que me apaixono pela beleza desse eu multiplicado, minhas mãos se desvencilham da vergonha e, repletas de vontade, buscam o resto do meu corpo pulsante. A beleza que sou, homem ou imagem, me desacanha os prazeres, e o impudor é consentido. Na pele e no espelho.


Não necessito mais paixões na escuridão. Enfim o amor, visível, fulgurante veio se prostrar perante mim para doar-me devoção, adoração, contemplação. Entrego-lhe o meu ápice, em rigidez e fluido. E é de morte o gosto perfeito que me saliva a boca.


Tranco a porta. Quero morrer em todos os reflexos.


E quando eu estiver exausto de morrer, que a superfície de luz se faça céu. E me deixe ascender para, enfim, me deitar na minha alma.


CONTO 4:

Pigmalião e Galatéia


Todas as lendas da mitologia grega se parecem entre si, todas contam histórias de deuses e heróis, amores impossíveis, aventuras e feitos fantásticos. Algumas não se deixaram aprisionar no passado, e voltam sempre a acontecer, como se estivessem sendo trazidas de volta à praia da existência humana pelas ondas dos antigos mares. Por força dessa eternidade, culturas antigas sobrevivem, reinventadas a cada geração, com suas histórias redesenhadas com cores atuais. E é graças a esse movimento recorrente que esta história, que tem suas origens em um tempo longínquo, na ilha mediterrânea de Chipre, vem ressurgir na São Paulo dos dias atuais. E surge diante de nossos olhos com um vigor tal que parece querer nos fazer enxergar que, entre o mito grego do passado e a racionalidade urbana do presente, não há mais que a distância que separa os lábios de dois amantes.

O cenário é o de um fim de tarde comum na capital paulista. Uma réstia mínima de sol alaranjado tinge o horizonte. Há um trânsito frenético a envolver a praça, localizada no centro histórico da cidade. Está congestionada, os carros a circulá-la em movimento incessante, como se fora ela um carrossel. Cai uma chuva fininha, irritante, que molha os desavisados que não trouxeram guarda-chuva. Na porta da centenária faculdade, por causa do corre-corre para fugir da chuva, há um certo rebuliço nos que têm de chegar ali naquela hora e naquele dia. Os ânimos de todos parecem um pouco exaltados, à exceção de um homem que, alheio a todo o movimento, postado junto à grossa pilastra, abrigado sob a marquise, apenas observa, folheando com desinteresse um livro de bolso.

Dali a alguns minutos, o grande relógio da torre soa uma badalada. O homem interrompe a leitura, levanta o braço esquerdo, afasta a manga do casaco e olha o relógio: sete e meia. Está na hora. Fecha o pequeno livro, guarda-o no bolso interno do paletó, ajeita os óculos e se dirige à escadaria.

Depois de atravessar a porta central e contemplar por alguns instantes o amplo salão principal do velho edifício, busca uma sala lateral, próxima ao auditório, onde está o grupo de jovens, pronto para a entrada solene. O homem caminha vagarosamente entre os jovens sorridentes, todos trajados com a mesma beca negra ornada pela faixa vermelha. Os cabelos grisalhos do visitante contrastam com o escuro das vestes, quase tanto quanto seu semblante melancólico contrasta com a alegria ali reinante.

No fundo da pequena sala, alegre e bonita como nunca, está ela, Helena, a razão de sua busca, conversando animadamente com duas amigas. As garotas percebem a aproximação do homem e se afastam, quase constrangidas. Ele se aproxima com o rosto impassível e pára diante dela.

Os olhares dos dois se encontram e a sala parece esvaziar-se; desaparecem até as paredes. Há um silêncio pesado a envolvê-los. Ele faz menção de abraçá-la, mas o gesto fica contido, indeciso. Ela também não está à vontade. Terminam por ceder a um recatado aperto de mãos.

― Está perfeita.

Embora singela, a minúscula frase exala um calor que faz corar ligeiramente as faces da moça; ela desconversa com um sorriso um pouco sem graça, enquanto permanecem ainda unidas as mãos.

Helena é, certamente, a mais bonita de todas as jovens formandas. O fato de estarem todas trajadas iguais não as iguala, ao contrário, faz ressaltar sua beleza diante das outras, os dentes perfeitos, a harmonia dos traços, os cabelos levemente caídos sobre a testa pequena e lisa, sem marcas, os olhos castanhos não muito escuros, a adequada proporção das linhas do rosto.

O professor Flávio quase não pode reconhecer nesta bela e jovem mulher à sua frente aquela menina humilde que o procurara na faculdade, pedindo que a ajudasse. “Não posso, filha, não quero me envolver com alunas”, foi o que lhe disse na primeira oportunidade, só vindo a descobrir muito mais tarde que a menina nem aluna era ainda, que era filha do porteiro de seu prédio, e que pretendia sua ajuda justamente para que pudesse vir a estudar, freqüentar a faculdade.

― Não pensei que viesse...

― Quer que vá embora?

― Não, não - atalhou aflita, os olhos quase a pedir perdão. É que pensei que.... você sabe, o Caio...

O Caio, claro. Caio César Augusto de Noronha. Os dois haviam se conhecido no último ano da faculdade, e o relacionamento se tornou mais estreito desde que Helena foi estagiar no conceituado escritório de advocacia do pai de Caio. O rico e fútil Caio não sabia da história anterior de Helena e Flávio, da ajuda mútua que se prestavam um ao outro há vários anos, do apartamento que Flávio montara para a moça, dos estudos que lhe pagara desde o preparatório até a faculdade particular, dos livros que adquiria para que ela pudesse estudar, se formar, progredir na vida, deixar a vida difícil que levava antes de conhecer o recluso e celibatário professor. Caio não conhecia nada do passado de Helena, nem mesmo sabia da existência de Flávio.

― O Caio, é claro...

Devagar como se uma flor se desprendesse naturalmente do caule, a mão de Flávio começa a escorregar da mão de Helena, a fim de desfazer o cumprimento. O professor abaixa os olhos, mas depois volta a fixá-los ainda uma vez nos de Helena.

― Queria que aceitasse algo.

Retira do bolso esquerdo do casaco um pequeno estojo de veludo. Abre-o com solenidade e vagar e de lá retira um anel de ouro amarelo encimado por uma pedra vermelha. Um anel de formatura. Com um gesto quase paternal, estende a mão esquerda pedindo a Helena que lhe dê a sua mão direita.

― Não posso, Flávio.

― Por favor, peço que aceite, em nome da nossa história.

Nossa história. Puxa vida, aquilo prendeu Helena. Lembranças de um tempo feliz. Os dois juntos, no pequeno apartamento, às voltas com os estudos, livros, as aulas particulares que Flávio carinhosamente lhe ministrava quando a visitava.

Flávio, no princípio arredio às ainda tímidas investidas da moça, parecia não querer se deixar envolver. Era solteiro e rejeitava a idéia de se prender a um relacionamento amoroso. Dizia sempre que se casara com sua profissão, que a Procuradoria no Tribunal Militar e as aulas na faculdade consumiam todo o seu tempo. Não podia, ou não queria, se dedicar a uma mulher.

No caso de Helena, seu interesse era apenas ajudá-la profissionalmente. Cuidava de seu aprimoramento técnico, corrigia os trabalhos, mais tarde as petições, ensinava-lhe a pesquisar a jurisprudência dos tribunais, revisava as sentenças, e terminou por se transformar em orientador paralelo em sua monografia de graduação. Sonhava torná-la o seu modelo ideal de mulher, uma brilhante advogada, uma juíza, ou ministra de tribunal, quem sabe aonde Helena poderia chegar, guiada por suas mãos habilidosas?

Certas forças, porém, são quase inevitáveis, não há resistência que as contenha. Assim é que, com o tempo, o relacionamento de professor e aluna foi se tornando mais forte, mais íntimo, mais carinhoso, até culminar em algo muito próximo do que se poderia denominar amor. Helena se lembrava agora inclusive dos momentos de sexo prazeroso que desfrutara com aquele homem maduro, mas ainda viril e carinhoso. Nossa história, suspirou consigo mesma.

Em nome das lembranças, a moça sorri, estende a mão e acolhe no dedo anelar a investida calorosa do presente, que roça lentamente pelo dedo até alcançar o final da falange, o seu local definitivo. Um calafrio percorre-lhe a alma; e passado, presente e futuro confundem-se naquele instante fugaz.

Chegara mesmo a sonhar - e ainda sonha - em ficar com aquele homem gentil e delicado. Casar-se com ele, longe de tudo e de todos. Viver em um lugar muito distante, só os dois, sem ninguém a importuná-los.

O professor sempre brincara com ela sobre o mito de Pigmalião. Dizia que ela era sua estátua de marfim tornada mulher, sua Galatéia. No mito grego, depois de levar à perfeição sua estátua, Pigmalião se apaixona por ela, tornada mulher pela deusa Vênus, e os amantes ficam juntos, para sempre. Na versão de Flávio e Helena, porém, o amor dela pelo seu Pigmalião enfrenta dificuldades para se concretizar, pois apesar da relação carnal que os une, ela o ama com um amor acima do amor terreno, algo quase como o amor divino.

Sua relação com Flávio foi construída sobre a generosidade com que o professor sempre providenciou tudo quanto necessitava de bens materiais, que inclusive satisfazia seus desejos e vaidades de moça, dava-lhe presentes, pequenos mimos, flores, jóias, perfumes, roupas para deixá-la mais bonita. Ela, em troca, dava-lhe o carinho e o afeto que Flávio nunca tivera em toda a sua vida de solteiro. Mas Helena sente em seu coração que o que nutre por Flávio não é amor no sentido pragmático da palavra. No sentido terreno do sentimento. Neste aspecto, seu amor é Caio.

Sabe que a união com Flávio seria viver uma vida impossível, a vida inventada de que fala o poeta Fernando Pessoa. A vida real é Caio. Ele é seu futuro. E ela não pode arriscar o futuro em nome de um amor impossível. Por isso combinaram de se casar ainda este ano, tão logo esteja formada.

A lembrança do casamento remete sua visão ao dedo anelar esquerdo, onde estará dali a algum tempo a aliança, e essa imagem virtual conflita com a imagem real do bonito anel que agora lhe orna o dedo da mão direita. Aflita, ela levanta o rosto e encontra os olhos de Flávio:

 Não posso, Flávio, sinto muito – diz, retirando o anel e devolvendo-o ao professor. Caio não compreenderia jamais. Nós vamos nos casar em breve e não quero que...

 Casar?

 É. Decidimos semana passada. Eu ia te avisar, mas...

O professor, que ainda tem nas mãos o estojo de veludo, guarda nele o anel, com dificuldade, as mãos trêmulas, e retira de dentro do estojo um pequeno envelope; entrega-o à moça e diz, com a voz embargada:

― Quero que guarde, então, uma pequena lembrança minha.

Helena abre o pequeno envelope com carinho e dentro encontra um bilhetinho branco, com as bordas douradas, no qual consta alguma coisa escrita em letras pequenas, delicadamente desenhadas. A jovem aproxima o conjunto dos olhos para poder ler as pequeninas letras.

Mal tem tempo de agradecer a Flávio a delicadeza. Um estampido ecoa na sala. Um fio de sangue escorre de seu peito, quase imperceptível a manchar a veste negra. Uma fina e breve coluna de fumaça sai da pistola que Flávio tem na mão direita. O marfim está irremediavelmente trincado. Antes que seu corpo desabe, na mão de Helena ainda se pode ver o delicado bilhete onde se lê, secundada pela data que deveria ser a de sua formatura, a inscrição: “Pigmalião & Galatéia, juntos para sempre”.



CONTO 5:

Sem limites


Leu, pela terceira vez, a manchete no jornal. Podia adivinhar o que a notícia de página inteira revelava sobre o acidente. Por isso, resistia à leitura. Pra quê? Estava certo de que não encontraria novidades, no máximo detalhes sórdidos, sutilezas que bem exploradas pela imprensa engrossam o caldo para um bom escândalo. Em quantos pedaços se quebrou o fêmur da vítima, quantos carros importados o pai do criminoso tem na sua garagem, quantas pobres bocas inocentes ficaram sem pão, quantas multas por excesso de velocidade foram registradas no nome do irresponsável... Não, não estava disposto a conferir os números dessa contabilidade manipulada e tendenciosa. Bastava o remorso pela sua própria culpa, a dor do arrependimento, a memória acusativa que não o deixava esquecer tantas concessões. A verdadeira história, aquela que ele conhecia tão bem, não estava estampada nos jornais e nunca fora escrita a sua revelia. A história de uma juventude inconseqüente e audaciosa, patrocinada por uma paternidade culpada e ausente. A história que terminava grotescamente retratada em uma matéria sangrenta de um jornal sensacionalista cuja manchete alardeava: “Playboy atropela três em racha e foge”.

Diante dos fatos que tantas vezes ele mesmo previra, tinha a sensação de estar errando mais uma vez, repetindo a confusão que sempre o levara à pior decisão. Entre amar demais para conceder o sim e amar demais para ser capaz de sustentar o não, nunca conseguira se livrar dos excessos. Por isso sabia agora, com uma temerosa certeza, que a inconseqüência do filho era o fruto de uma semeadura excessiva de amor, somada a regas ilimitadas e podas muita raras para um crescimento saudável.

Lembrou-se do menino desinibido e diligente que apareceu tardiamente na sua vida. “Minha mãe me disse que sou seu filho!” Sim, era seu filho, e naquele primeiro instante, experimentou um grato sentimento de orgulho por isso. Bastava perceber a postura destemida, o olhar ambicioso, o andar determinado, os sonhos aflorando no falar. Sobressaia no rapaz franzino e comum, um espírito forte e decidido. Também era evidente seu deslumbramento com a situação do pai, mas apesar disso, não vinha lhe cobrar nada, apenas exibir sua coragem e capacidade de chegar onde queria.

Assim chegou aos pés do poderoso dono da escuderia, ex-piloto de corrida, por coincidência o pai que o abandonara, para declarar-se vivo e cheio de futuro, ávido para alcançar o que a infância lhe negara e experimentar todos os prazeres que aquele mundo desconhecido pudesse lhe conceder. Encontrava-se diante da porta do castelo de ilusões que idealizara durante toda a vida. Era firme, arrojado e impressionantemente seguro para um menino de apenas 16 anos. Não apresentou nenhuma conta, mas vinha claramente disposto a resgatar quaisquer créditos que porventura lhe pertencessem, inclusive a verdade sobre sua existência, por tantos anos camuflada. Vinha para exibir a força de sua determinação e fazer-se homem, para então recomeçar sua história desde o princípio. Não precisava de um pai, mas de alguém para admirar e, mais importante do que isso, queria fazer-se admirável por alguém. Este era o seu principal compromisso, não com o pai, mas com ele mesmo: faria de sua vida um bom motivo para que as pessoas o admirassem. Estava ali para uma troca: sua capacidade por uma oportunidade.

Ao mesmo tempo que se sentiu ligeiramente ameaçado, o pai pôde ver sua própria juventude refletida naquele figura. Vislumbrou no jovem resoluto e corajoso uma promessa de permanência, uma possibilidade de renovar-se a si mesmo. Começava a sentir o peso da idade, mas não conseguia admitir-se velho. Ainda corria com seu carro de estimação, uma bela Ferrari 70, junto com a turma de seniors nos finais de semana. Mantinha a atividade como um hobby, como um capricho que valorizava excessivamente. Era uma forma de sentir a adrenalina fluir pelas veias. Tentava resgatar a sensação de vitória cujo prazer fora frustrado quando ainda era um profissional promissor das pistas. Apesar de ter sido considerado um talento, jamais conseguira subir ao pódio. O poder da velocidade, a habilidade da direção, o desafio da mecânica perfeita e o risco iminente, tudo isso o fazia sentir-se vivo e iluminado. Bastava tomar o comando do velho carango para desafiar sua capacidade e resgatar sua auto-estima. Estar no controle daquela máquina provocava uma deliciosa experiência de poder e isso lhe fazia muito bem.

Descortinou, no aparecimento do filho, sua chance de realizar o projeto de êxito que perseguira quando jovem e que, por pura vaidade, continuava a alimentar. Afinal, sem planejar, arranjara para si um herdeiro que provava com sua atitude ser tão voluntarioso e propício ao sucesso como ele mesmo fora. Ver no filho refletida a sua própria imagem de audácia, ambição e coragem o envaideceu. Aliada ao sentimento de orgulho pela qualidade genética revelada no rapaz, uma sensação de compromisso irrefutável cresceu em seu coração. Dali para frente, assumiria plenamente o garoto e a ausência de anos seria fartamente recompensada. Estava pronto para a troca: seu patrocínio pela certeza de reviver a glória.

Não precisou cultivar no menino o gosto pelo esporte. Reconhecia na volúpia do filho o principal ingrediente para o sucesso. O rapaz tornou-se um homem movido a desafios e isso, com certeza, faria dele um campeão. A cada conquista, um novo desejo de superação. O fascínio pela velocidade e o poder de acelerar a sua existência rumo ao triunfo alimentavam no jovem corredor a obstinação pelo êxtase de ser o dono da máquina, o senhor do tempo, o controlador da vida.

Apesar de dominar a técnica, o piloto-revelação ansiava por desempenhos irreparáveis e sua busca pela vitória tornou-se obsessiva. Os investimentos em motores mais potentes, chassis mais leves, e toda sorte de equipamentos especiais para mantê-lo no pódio do automobilismo não saciavam sua sede por afirmação no mundo da velocidade. O que inicialmente eram ofertas generosas do pai, aos poucos, tornaram-se obrigações exigidas pelo filho. A relação de troca cristalizava entre os dois uma permissividade perigosa, porém adequada ao propósito de ambos. Entre eles estabeleceu-se um acordo tácito que ignorava limites. Enquanto o filho idealizava sonhos infindáveis de velocidade e fama, o pai bancava a estrutura necessária para ver realizado no rapaz seu desejo de vingar o passado de frustração.

O jovem acostumou-se às vitórias. A certeza de que todos os investimentos e esforços necessários eram sempre envidados para satisfazer as aspirações do rapaz acabou por transformar as corridas em caprichos banais. A expectativa pelo pódio esvaziou-se. Vencer competições sobre veículos engenhosamente preparados já não representava para ele qualquer desafio. Pouco valor restava ao seu talento ou ao seu empenho. As posições no pódio tornaram-se um artigo de prateleira. O requinte de comprar vitórias não o satisfazia mais. O menino ambicioso percebeu que a glória almejada tinha um preço, e pagar por ela o deixava mais insatisfeito e derrotado do que não possuí-la. Conforme planejara, conseguira ser admirado por todos e também aprendera a admirar o pai que, afinal, transformara-o em um piloto muito melhor do que ele próprio Fama, reconhecimento, sucesso: o que intencionara obter estava sob seu domínio e ao seu dispor.

O que lhe restava então conquistar? Não lhe preenchia o ego superar os limites de velocidade da vida real. Já não lhe bastava ser o que era, não lhe bastava ser como o pai ou melhor do que ele. Não, não queria ser melhor do que ninguém. Queria ser melhor do que si mesmo. Queria varar o limite do absurdo, atravessar as raias da loucura. Restava-lhe inventar um desafio impossível para descobrir o prazer de superá-lo. Restava-lhe correr o mais rápido que pudesse para fugir da angústia que assolava sua existência.


* * *

Fechou o jornal e respirou fundo para iniciar seu depoimento. Até então estava anônimo na delegacia e isso lhe rendera um chá de espera bastante oportuno para que pudesse finalizar aquela dolorosa retrospectiva. Seus pensamentos pareciam mais organizados agora. Pensar na trajetória do filho ajudara-o a compreender melhor as últimas atitudes do rapaz. Jamais poderia imaginar-se naquela situação, prestes a entregar o próprio filho. Entretanto, indagava-se, com pesar, se algum traço daquele caráter audaz do jovem que um dia conhecera ainda poderia ser reconhecido depois de tudo aquilo... Apesar de sentir a dor invadir-lhe a alma ao cumprir esta missão, orgulhava-se de ser capaz de erguer o rosto perante o delegado e contar tudo o que sabia. E essa coragem inesperada, essa ousadia inexplicável que o tomava naquele momento admitia não serem suas. Devia-as ao filho, às imagens tão vívidas da personalidade marcante de determinação e audácia que o rapaz demonstrara ter.


O delegado antecipou-se:

- Tudo o que o senhor puder falar pode ser interessante para instruir o processo. O senhor sabe que seu filho está foragido desde ontem. Tentamos em vão localizá-lo logo após o acidente, mas sequer o carro foi encontrado.

- Eu tenho as informações que o senhor quer. Mas preciso dizer algumas coisas importantes antes disso. Peço que o escrivão apanhe desde já o meu depoimento. Quero que fique registrado o que sei sobre meu filho.


O pai foi prontamente atendido.

- O meu carro, meu velho e bom carango de corrida, foi levado por meu filho naquela noite sem que eu soubesse de nada. Ele estava mais do que avisado que o motor era antigo, tecnologia ultrapassada... Era um capricho meu, mania de um aficionado... Eu mantinha a Ferrari só para minhas brincadeiras de final de semana. Nunca pude supor que o Felipe tivesse algum interesse por ela... Não prestava mais para arrancadas violentas, para grandes esticadas, para loucuras em busca de emoção... Talvez por isso mesmo ele tenha se seduzido e... Ele perdeu o controle da máquina, não estava acostumado a voar em um motor dos anos 70... Então, aconteceu a tragédia que..., bem, o senhor sabe muito bem o que tamanha imprudência acabou provocando.


O delegado interveio impaciente:

- Claro, claro! Não precisamos detalhar essa parte. Os estragos estão em evidência em todos os jornais do dia.


O homem retomou o controle da conversa e continuou firme:

- Nem todos, doutor... Existem estragos que nunca são revelados... Eu errei demais com ele, preciso reconhecer... Mas nem o senhor e nem os jornalistas sabem o que eu sei. Ninguém pode enxergar um palmo além da insanidade destacada nos jornais. Ninguém é capaz de ir uma gota além do sangue estampado nas manchetes. Só eu, só eu que testemunhei a imensa força do meu filho, a ousadia maior, a sua desesperada tentativa de remissão... Depois do acidente, vi meu garoto chegar destroçado, conduzindo, não se sabe como, o que sobrou daquele maldito carro... Mas mesmo naquela situação lamentável, ele se desafiou ainda uma última vez, foi capaz de vencer a dor e veio ao meu encontro... Mal posso imaginar o esforço que fez para chegar até mim, entregar-me a chave do carro e morrer em meus braços com um olhar suplicante de perdão... Toma aí, doutor, o endereço está escrito no papel. Pode ir lá buscar o corpo do meu menino.

CONTO 6:

Psique

Em Salvador, na ladeira do Curuzu, tinha uma neguinha linda, beleza pura, como disse o Caetano.

Era do Ilê e do Axé e tinha uma voz ivetegalbetaniana, cheia do balacobaco, e enfeitiçava a homaiada da Liberdade.

Quando ela chegava, o batuque ficava mais gostoso, o ritmo mais quente, a roda pegava fogo, saía fumaça dos atabaques, era o transe total.

Mãe Sinhá, a Ialorixá, tava gostando nada disso não, zifi.

- Vem cá zifi, agora suncê é ogan, é da corrente, suncê que amarra e desmancha os nó. Faz trabaio pra módi neguinha pará de enfeitiçá os homi tudo daqui. Eles nem num vem mais na tenda... terreiro vazio, orixá num gosta, mandou amarrá.

É procê marrá ela, zifi. Exu que mandou. Ele disse nos buzo, pra marrá ela com turista. Ela vai simbora, deixa nóis em paz.

Faz mandinga, Zifi, amarra forte que só ogum prá quebrá.

- Apois mãinha, se orixá manda e mãinha pede assim, nóis fais. Podexá que nóis fais!

Na sexta-feira à meia-noite, amarrou a boca do sapo com linha da guiné pra neguinha se apaixonar pelo primeiro homem que ele visse na frente e para o tal também ficar doido por ela. Já ia era logo procurar um.

Mas por um descuido medonho, ou por obra do outro mundo, o danado do sapo achou de abrir os olhos. Ele achou aquilo esquisito, mas olhando dentro deles, quem foi que ele viu? Apois então, caiu de paixão pela moça. Tremeu-se, estrebuchou, revirou os olhos e, no transe, era só ela que via.

Assim que acordou, de enfeitiçado que tava, foi fazer logo outro despacho pra Exu. Abriu um coração de bode preto, costurou dentro o papel com o nome dele e o dela pra ser só um do outro e de ninguém mais.

Mãe sinhá não viu. Quem avisou foi mesmo Exu. Pra livrar o filho, fez ele dormir até passar o encanto que não sabia quando era, não sabia quantos foram os nós que ele deu.

Logo neguinha, muito da esperta, notou que agora eram só olhares, só admiração de longe, alguns elogios, mas ninguém mais se achegava. Estranhando a falta de atitude dos meninos, foi se queixar a Mãe Joana que era a iiá kerere do terreiro. ;e Joana que era a iiitude dos neguinhos do pedaço, foi se queixar a Ma spo achou de abrir os olhos, ele achou esquisito, mas ol kerere do terreiro.

Mãe Joana consultou os búzios e avisou que tinha coisa feita. Só ela vindo no terreiro pedir pra mãe sinhá mandar desmanchar. Tinha de trazer duas galinhas pretas, dois charutos, uma garrafa de pinga, um vidro de água de cheiro e uma faca de lâmina virgem pra fazer o trabalho.

Neguinha ficou pensando, pensando que aquela agonia no fundo do coração, o baticum, a falta de não-sei-o-quê, só podia ser amor, a tal da paixão que falam nas músicas e que ela mesma não conhecia... Onde é que tava este amor? Carecia descobrir.

Munida das encomendas e tremendo de medo, foi ao terreiro pra falar com mãe sinhá. Ela não estava. Encontrou foi o filho que dormia sereno, sonhava com ela e sorria como um anjo.

Foi como se se visse no sonho.

No mesmo instante, alertada pelo atabaque que batia no peito, descobriu que era aquele que lhe estava destinado.

Recolheu as oferendas e retirou-se calmamente.

Sem reclamar da sorte, desde este dia não mais cantou. Foi pra casa esperar pela lua e bordar suas saias de renda.



CONTO 7:

O Farol do Fim do Mundo


Seus dias eram longos e lentos. A tristeza dos dias era sublinhada quando o sol descia no mar e o frio acentuava-se.  Os poucos pássaros que ainda restavam recolhiam-se cedo. Havia pouco naquela ilha. Pouco o que pescar, pouco o que se ver, pouca vida, futuro nenhum. Só abundavam a solidão e as lembranças.  Essas, passados dias e estações e anos a fio, não arrefeciam. Talvez mudassem um pouco.  A memória era mutante, como são todas as memórias: imprecisas,  voláteis, influenciáveis  por qualquer variação do estado d’alma, da cor do céu, do mar. No inverno, então, tão mais  quentes ficavam os verões passados, tão mais livres tornavam-se as antigas andanças, tão mais puros os amores vividos, tão maiores as dores sofridas.

O farol precisava estar ligado. Era a nesga que o mantinha ligado ao mundo real.  A cada noite o farol precisava estar ligado, como precisava estar aceso a cada dia enevoado ou a cada tempestade que resolvesse castigar aquela parte do mundo. Fim do mundo. Lugar adequado para a sina que lhe coube, guardião do fim do mundo.

Por companhia apenas os livros que amealhara nos anos em que perambulara, sem mais o que o sustentasse que não as histórias dos outros, que a sua já findara. Foram anos sem fixar morada, sem encontrar abrigo em que coubesse, até que a ilha do farol do fim do mundo lhe serviu. Ali não haveria novas ações, novos encontros, ou amores, ou intrigas, ou traições.

As tarefas cumpridas, sentou na rocha da sumidade da face escarpada da ilha e esperou que o sol terminasse de descer no mar escuro e o feixe de luz amarela percorresse  a névoa salgada em um rodopio interminável.  Ficou ali, imóvel.

 

A noite seria especial: A noite da posse. A noite que tanto esperava desde sua temporada na faculdade européia, desde que os agitados dias de Paris lançaram uma onda liberalizante incontrolável sobre o continente e de lá para o mundo. No seu país a resposta foi dura. A elite usou com eficiência a mão de ferro dos sucessivos generais para adiar o que se imaginava inevitável. Os anos de espera haviam sido longos e penosos, mas, quando a oportunidade se apresentou, foi capaz de reconhecê-la, de aproveitá-la. 

A campanha havia sido brilhante. Era articulado, charmoso, convincente. Não se importava de não ser o personagem principal. Contentava-se em saber-se capaz de aglutinar os mais aguerridos adversários, brancos e negros, os mais ferrenhos defensores dos privilégios - conquistados e mantidos desde antes do advento da república - e os militantes mais radicais das mudanças coletivizantes. Foi incensado como o esteio da nova ordem, o fiador da moralidade e da estabilidade do novo governo, a garantia que não haveria aventuras irresponsáveis, que as armas seriam depostas e que os ânimos seriam tranqüilizados.

A posse transcorreu solene, mas emocionada. Os sonhos de toda uma geração materializavam-se diante das câmaras das televisões do mundo todo. Um exemplo de civilidade sem precedentes naquela porção da África. Havia felicidade no ar. Estava pleno de orgulho. Orgulho pelo trabalho bem feito, convencia-se.

Não tardou para que os pretendentes a sócios da prosperidade prometida aparecessem.  Uns mais sedutores, outros mais ousados, traziam presentes impressionantes, propostas irrecusáveis. Ainda ensaiou algum pudor. Pouco  duradouro.  Em pouco tempo afeiçoou-se aos mimos. Afinal, quem, se não ele, merecia todos? Já não dispensava as facilidades de que dispunha. Sentia que podia e poder o inebriava. Esforçava-se por manter satisfeitos seus parceiros. Precisava, entretanto, de novos parceiros que aumentassem seu raio de influência. Ser o segundo já não era tão confortável. Como um amante fogoso, logo o entusiasmo superou a prudência. Os poderosos antigos pareciam começar a incomodar-se. Não precisavam de um concorrente. Queriam-no domado.  O governante foi advertido, seu posto estaria ameaçado.

Já a meio mandato, a imprensa passou a receber informações sobre relações entre alguns empresários de segunda linha e políticos de terceira. O governo incumbiu seu principal articulador dos desmentidos. Os fatos que eram apurados contradiziam de forma cabal a versão oficial. O vulto dos sucessivos escândalos foi tal que, antes do final do ano, o banquete de cabeças estava servido e disponível à sanha saneadora dos eleitores. De preferido do povo, ungido pelas elites, escolhido pelas forças antagônicas para a pacificação do país, passou à personificação do Mal. Banido da corte, seu nome tornou-se em adjetivo. O que destrói, o que faz desmoronar o sonho de um povo, o que trai. Os que buscavam sua benção passaram a negar que, sequer, o conhecessem. De herói a degredado. Os que urdiram sua queda passaram a exibir seu expurgo como prova de hombridade e honestidade. A menção de seu exemplo fez acovardar adversários e prolongar no poder os que o seduziram.

Sentado nas trevas, permanecia imóvel. Ansiava, mal convicto, por um Perseu que o viesse degolar. Quem sabe de sua carótida verteria um remédio que a tudo cura. Algum bem, afinal.


CONTO 8:

O Acordo

Olhou em volta, como um explorador que tivesse alcançado o topo do mundo. Aliás, era assim que se sentia: no topo do mundo. Havia chegado ao ponto culminante do seu mundo. O píncaro de uma vida bem organizada, bem conduzida. Uma jornada calculada, passo a passo. Uma escalada metódica, degrau a degrau. Pela primeira vez em décadas, concedeu-se o luxo de um balanço, uma visão panorâmica do que tinha percorrido.

Lembrou-se da infância. Os pais sempre atentos, carinhosos, protetores. “- Esse menino é uma gracinha ! Tão inteligente, tão estudioso !”, o bordão que o acompanhara naqueles anos. Era o orgulho da família modesta, pai auxiliar de escritório, mãe dona-de-casa. Cedo descobriu que tinha facilidade nos estudos, suas notas sempre eram as maiores da turma. Seu desempenho despertou a admiração da Diretora da escola pública. Uma abnegada, ele hoje reconhecia, uma sacerdotisa a serviço da sua vocação.

Com as devidas recomendações, conseguiu a oportunidade de participar de um concurso de bolsas de estudo em um colégio particular da elite. Foi aprovado. Redobrou sua aplicação. Intuía que fora sorteado pelo Destino. “- Não deixe passar o cavalo selado !”, repetia sempre seu pai, no tom da ancestral sabedoria popular. Sim, o cavalo passara à sua frente e ele conseguira domá-lo. Agora, era seguir a galope.

E ele foi. O Ensino Médio foi concluído com brilhantismo. O passo seguinte seria o Vestibular. Nunca ninguém de sua família chegara tão longe. Agora, não era mais apenas ele. Também era seu pai e sua mãe, seus avós e tios e primos e gerações de antepassados desconhecidos. A esperança coletiva da tribo anônima que o gerara adquiria densidade concreta, como um vento que mudava o seu rumo. Não era apenas o que ele queria. Era, também e principalmente, o que se esperava que ele quisesse.

Tinha que ser assim, ele concordava. Ele queria subir na vida, mais que tudo. Precisava subir na vida. Precisava corresponder às expectativas, aproveitar as oportunidades. Entendeu, a partir daí, que suas escolhas não mais representariam o mero exercício de sua vontade – ou, de maneira equivalente, que sua vontade já não provinha apenas de si. Em nome desta maturidade precocemente incorporada, abandonou o sonho infantil de ser escritor. Ninguém ganha dinheiro escrevendo mesmo, convenceu-se. Decidiu-se, então, pelo curso de Administração de Empresas, tendo sido aprovado no exame de seleção da melhor universidade pública do País.

Foi a primeira grande ruptura em sua vida. A Faculdade de Administração ficava em outro Estado. Teria que se afastar de sua família – e, também, da sua namorada. A sua primeira e, até então, única namorada. Conheceram-se no colégio particular. No começo, houvera oposição dos pais dela, que relutavam em aceitar o namoro com um rapaz de origem humilde. Com o tempo, porém, as afinidades entre os dois e o respeito e devoção que ele demonstrava para com ela acabaram por convencê-los de que era uma boa companhia para a filha. Eles se gostavam muito, sentiam-se bem um com o outro. A decisão de ir embora para outra cidade foi sofrida para ele e para ela. Despediram-se com juras de espera recíproca. No dia em que viajou para começar os estudos, já no ônibus, ele descobriu o bilhete que ela escondera no bolso de sua camisa sem que ele percebesse, uma folha de papel levemente perfumado, dobrada em quatro.

Empenhou-se a fundo no curso de Administração. Apesar de não se identificar com a carreira, entregou-se a essa missão com um denodo monástico. Isso incluía a redução da freqüência de visitas à sua cidade: as viagens eram caras, atrapalhavam os estudos. E o mais importante era se destacar perante os professores, pensava, já preocupado em conseguir um estágio em uma ótima empresa. O namoro não resistiu à distância entre eles – não a física, mas a emocional. Lembrava-se até hoje, com amargura, do dia em que eles decidiram terminar. Ele tentara explicar a ela que eles não tinham mais futuro, que ele precisava estudar, precisava ficar mais tempo longe. Ela chorou muito. Mas tinha que ser assim.

Seus planos foram se concretizando, um a um. Conforme previra, no último ano da Faculdade foi indicado por um professor para estagiar em uma grande empresa comercial. Sua inteligência e aplicação incomuns logo chamaram a atenção dos seus supervisores. Assim que se formou, foi convidado para trabalhar lá, agora como funcionário efetivo. Trabalhava doze, treze, quatorze horas por dia. Não tinha outro objetivo que não o sucesso. A noção de dever – profissional e familiar – era uma obsessão exercitada continuamente.

Um dia, foi apresentado a uma nova colega, transferida para o seu departamento. Ela era bonita, inteligente. Mais que isso: descobriu que era filha do dono da empresa. Impressionou-a com sua capacidade de trabalho, seu dinamismo. Aproximou-se dela. Passaram a trabalhar juntos em projetos de ampliação da empresa, abertura de novas filiais, aquisição de concorrentes. A convivência foi-se estreitando. O namoro surgiu quase inevitavelmente. Daí a freqüentar a casa do seu patrão foi um passo. Em pouco tempo, ganhou a confiança da família. Portas abriram-se-lhe na firma com rapidez. Foi nomeado assistente da Direção.

Não amava sua namorada, mas concluiu, racionalmente, que o casamento seria uma alternativa irrecusável. Passaria a ser parte daquela família, teria garantido o acesso a uma vida confortável, quase luxuosa. Deixaria para trás, definitivamente, o passado humilde. Poderia, também, assegurar uma velhice digna para seus pais. O amor, ora... o amor, pensou, é uma ilusão passageira. Aprenderia a conviver com sua esposa. E o trabalho sempre seria a parte mais importante de sua vida.

A cerimônia de casamento fora faustosa. Lua-de-mel no exterior, um apartamento completamente montado no melhor bairro da cidade como presente do seu sogro. Os sonhos se tornavam realidade em um ritmo cada vez mais acelerado. Tudo parecia dar certo para ele. Em dois anos, aprendeu as nuances das brigas palacianas da alta administração da empresa. Sua inteligência, agora a serviço da ambição desmedida, livrou-se das últimas amarras morais. Com hábil manipulação de idéias, pessoas e dinheiro, afastou o Diretor de Produção, que trabalhava na firma há quase trinta anos, e tomou o seu lugar.

Orfeu olhou em volta. E agora, enfim, a Presidência, após a morte do sogro, um ataque cardíaco fulminante. Chegara ao topo. Estava ansioso para pôr em prática sua filosofia agressiva e moderna de gestão, em substituição aos métodos arcaicos anteriores. Já antevia as primeiras medidas: redução dos custos, enxugamento do quadro de funcionários, a aquisição hostil do seu principal concorrente. Faltava apenas a decisão da Diretoria, mas ele não tinha dúvidas de que ela lhe seria favorável. Estava a um passo da sua meta última, preparava-se para transpor o umbral derradeiro que o separava da luz da vitória final.

Congratulou-se intimamente. Era o ungido dos deuses do mundo real. Claro que tivera sorte ao ser premiado com uma inteligência fulgurante, mas ele soubera empregar seu talento na conquista de seus objetivos, soubera convencer as pessoas do seu valor, soubera dobrar as circunstâncias a seu favor, soubera, enfim, arrancar do Destino, ou do Acaso, um acordo impossível: a superação de obstáculos intransponíveis como recompensa por uma determinação incomum.

Então, concluiu, ele era feliz. Completamente feliz. Não era? Não tinha tudo que queria? Seguira uma estrada reta – íngreme, por certo, mas sem desvios – desde os escuros subterrâneos da infância pobre, passando pelos rios traiçoeiros da dedicação profissional absoluta e pelos sentinelas cruéis da submissão da vontade à causa maior. Agora, estava a ponto de chegar à superfície. Ele só podia ser feliz. Ele tinha confiança nessa felicidade.

E, pela primeira vez em muitas décadas, não olhou apenas à frente ou em volta, mas virou-se para trás. Percebeu, com assombro e terror, que não estava sozinho. Viu-se em vários espectros: o adolescente tímido, portando um velho caderno com os seus primeiros contos. O jovem universitário, torturado pela entrega a uma profissão que não lhe era natural. O marido vazio de ternura por sua mulher precocemente sofrida. O profissional embrutecido pela sordidez adquirida com os cabelos brancos. Todos eles, pedaços de si que ele fora abandonando pelo caminho. Ao final daquele cortejo, a primeira namorada, o único e sufocado amor de sua vida, que o abraçou em soluços, como naquela tarde distante da rodoviária de sua cidade natal.

Entendeu, de chofre, que violara o seu acordo com o Mundo: olhara para trás, Olhara para dentro de si. Agora, a fatura lhe era cobrada. A sala da Presidência, a sala da Diretoria, a igreja do casamento, os bancos escolares da Faculdade, tudo se desvaneceu ante seus olhos incrédulos.



* * *



O Delegado não tinha dúvidas: fora suicídio. Restava descobrir por que um homem como aquele homem tão poderoso, tão bem sucedido, se jogara do vigésimo andar. Examinou o corpo transformado em pasta humana. O falecido não deixara bilhete, nada, a não ser aquela folha de papel levemente perfumado no bolso de sua camisa, dobrada em quatro, com uma única frase em caligrafia miúda de mulher: “Orfeu, esperarei sempre por você”.



FORA DO DESAFIO

O destino nas cartas


O assunto da conversa entre André e Lorena invariavelmente recaia na escolha do nome do primeiro filho. Ela argumentava a favor de Tiago, João ou Lucas para menino e Tiana, Joana ou Luciana para menina. Ele preferia nomes compostos, qualquer um. Considerava interessantes Fábio Alfredo ou Cecília Marta, homenagem aos quatro avós.

Nenhum nome agradava ao casal.

Um dia, sentados no banco da praça, receberam um impresso em papel jornal:


CIGANA SIBILA

Sua sorte mudou. Faça uma visita agora. Cigana Sibila tem a resposta para você

Com seriedade, sigilo, encontrará respostas para seus conflitos gerais. Amores

mal correspondido, impotência sexual, negócios fracassados, vidas passadas, futuro.

Orientação com búzios, tarot com clara vidência.


Aquele bilhetinho, apesar do português capenga, marcou fortemente o jovem professor de história enquanto Lorena externou que não gostou do nome Sibila, lembrava sílaba. Qualquer coisa era motivo para garimparem nomes.

Lorena chegara ao oitavo mês e a lista de nomes variou muito. Elias, Paulo ou Levi para menino e Eliana, Poliana ou Leviana, para menina, eram os eleitos dela. Floriano Getúlio e Isabel Anita representantes da história brasileira compunham as dobradinhas dele.

A preocupação de André sobre o futuro da criança era muito insistente e, questionando-se, resolveu procurar aquela cigana para amansar as expectativas.

André esperou um pouco na penumbra da sala apreciando a coleção de cristais multicoloridos sob o olhar do gato, dono da poltrona cor de vinho.

– Vamos entrar?

Para sua surpresa, Sibila era uma senhora bonita e exuberante. O enfeitiçou ao primeiro olhar. Imaginara uma velha com turbante na cabeça. Ao menos acertara em duas coisas: uma vela acesa e o incenso compunham o cenário.

– Sente-se, por favor!

Cativado pelo ambiente e aquela surpreendente mulher, André observou o baralho de magníficas figuras que certamente já desvendara o destino de muitas pessoas.

A cigana recolheu as cartas e olhou-o nos olhos.

– Você está aflito. Seu filho vai nascer e ainda não tem nome.

André que havia preparado uma série de perguntas ficou mudo ao ouvir certeira colocação sem ter fornecido uma única pista.

Suavemente a cigana depositou cinco cartas, uma a uma, formando uma linha.

– A primeira carta é o significante. Todas as outras estão relacionadas com a primeira. Este valete de copas representa a juventude. O início da aprendizagem. A segunda é o louco e representa inconsciência, espírito de aventura, confiança e ingenuidade.

A terceira carta, o demônio com chifres e asas assustou André.

– Esta carta é um arcano maior. Na mão esquerda ele traz uma tocha, imagem da fatalidade. – Aliviou a vidente

– A quarta carta, o dois, sugere a duplicidade, a dualidade, a contradição enquanto a quinta e última é a torre, imagem da ruína e da destruição.

Da mesma forma gentil em que havia depositado as cartas, Sibila juntou-as num único monte. E, de forma segura, fitou os olhos de André.

– O destino é refletido como um espelho de faces múltiplas. O pensamento ajuda a canalizar e dominar essas emoções de forma que o caos não se instale. Não existem figuras positivas ou negativas no tarô. Cada carta é adequada ao padrão de consciência do ser humano e, definitivamente, a interpretação deve fugir da visão fatalista. Fatos negativos ou positivos analisados podem trazer até efeitos. A torre também significa mudança. Depende de você! A escolha do nome do menino será seu destino. O nome é seu destino!

André não contou nada para Lorena, entretanto à noite, na cama, revirou-se enquanto as palavras de Sibila ecoavam: – O nome é seu destino, depende de você!

– Esta é a chave. Com ela abrirei o caminho para meu filho – sonhou o aflito André.

Aliviado, despertou sereno e foi para mais uma aula.

Externou que a Idade Média foi momento da criação da sociedade moderna em contraponto à civilização camponesa. Criou-se a cidade, a nação, o Estado, a universidade, o livro e a revolução. Carlos Magno foi o grande revolucionário. Conquistou vários povos, expandiu as fronteiras do estado franco e promoveu uma revolução cultural.

– Este vai ser o nome do meu filho: Carlos. – Pensou orgulhoso. – Só Carlos? Carlos Deodoro, Carlos Getúlio ou Carlos Caxias? – Questionou-se.

Na aula seguinte, sobre o desenvolvimento de símbolos pátrios, falou de escudos, brasões, heráldica, bandeiras e hinos. Depois distribuiu as letras dos hinos e um glossário com as palavras tão distantes dos nossos costumes: margens plácidas, brado retumbante, símbolo augusto da paz e finalizou promovendo o canto ao Hino à Bandeira.

– Augusto da paz? Augusto? Augusto: Respeitável, elevado, sublime, magnífico, majestoso. – Viajou em pensamento. – Este vai ser o nome do meu filho: Carlos Augusto. Até soa bem!

No almoço. Correria. Restaurante simples. Muita gente. Barulho. Calor. Desordem. E um pensamento recorrente: – O nome é seu destino. Depende de você!

A cabeça de André fervilhava: Carlos Augusto não era suficiente, deveria acrescentar algo para reforçar organização, pessoa seguidora das regras, pessoa do bem.

O metódico professor abriu seu dicionário mental à cata de nomes para juntar ao Carlos Augusto. Pacífico? Leal? Arrumado? Tem de ser forte, claro e determinado como uma ordem. Ordem? Ordenado? Ordenador? Ordeiro? Lorena sempre implica com os nomes que escolho só que agora é definitivo. Carlos Augusto Ordeiro Santos. Santos é ótimo, nome protegido, fechado, e já vem de família. Genial! Só falta convencer Lorena.

Ao chegar em casa Lorena estava com as primeiras contrações e, conciliadora, sugeriu escolher o nome se fosse menina enquanto ele escolheria se fosse menino.

Selaram a concordância com um beijo.

Carlos Augusto desde pequeno foi um garoto forte e sadio. Falou cedo, andou cedo, livrou-se cedo da chupeta e das fraldas também. Parecia, porém, carregar um estigma.

Aos quatro anos fora com os pais a um jantar de noivado. A prima de Lorena estava para desencalhar. Enquanto se desenrolava o jantar, Carlos Augusto brincava no quarto com a aliança recém descoberta. Deixou-a cair no ralo da pia. Confusão armada. A bronca foi tão grande que, assustado, fez xixi nas calças e no tapete. Acabou a festa e o noivado.

Aos dez anos estava na praça perto de casa, atirando pedras, tentando tirar uma manga do pé. Uma das pedras acertou o pára-brisa do ônibus que passava. O ônibus colidiu com mais dois outros carros. Ninguém se feriu.

Quando estava no segundo grau, numa aula no laboratório de química foi ao armário pegar um frasco. Esbarrou e derrubou simultaneamente dois vidros: enxofre e amônia. Além do pandemônio instantâneo, o laboratório acabou interditado por uma semana.

Carlos Augusto, já adolescente, telefonou apressado para o trabalho da mãe para informar que havia comprado a bombinha contra asma.

– Olha, tô ligando para dizer que coloquei a bomba na gaveta. Tchau. – E desligou.

Desnecessário dizer que não foi a mãe de Carlos Augusto quem atendeu à chamada. Também é desnecessário dizer que houve pânico, que o prédio foi evacuado, que a polícia fez revista em todo prédio enquanto Carlos Augusto estava no cinema.

As coisas não andavam bem. Acusavam-no de ser semeador de discórdias, plantador de conflitos. Muitos o evitavam. Desistiu de namorar depois de declarar ao pai da garota o amor e atração que sentia. Carlos Augusto trocou o nome da garota pelo da mãe dela. Foi expulso da casa. Os pais da garota se separaram.

Certa feita, incomodado com tantas confusões que involuntariamente provocava, resolveu fazer pedido para seu santo protetor. No trabalho acendeu uma vela e rezou. Por falta de espaço colocou a vela em cima da estante. Não, não houve fogo. Os sprinklers, aqueles detectores de calor entraram em ação e despejaram água por todo o andar provocando enorme balbúrdia.

Aos trinta e cinco anos passou uma tarde vagando pela cidade, questionava a desgraça que era sua vida. A noite começou a cair e desanimado com tudo resolveu pegar o ônibus e retornar para casa. Na parada, grudado, havia um papelzinho.


CIGANA SIBILA

Está pertubado, sem prosperidade? Tem vícios de alcoolismo? Impotência sexual?

Está deprimido, infeliz e inseguro? Está possuído, endemonhado? Está com encosto

ou foi vítima de emacumbamento?

NADA NA VIDA ACONTECE POR ACASO TUDO TEM UM PORQUE DE ACONTECER

Não destrua sua vida sem antes visitar a CIGANA SIBILA


Carlos Augusto leu e releu. O endereço era próximo e foi a pé. Lembrou-se de muitos problemas que havia causado e como um autômato seguiu o caminho até o número 75 daquela rua. Cigana Sibila o aguarda, dizia o pequeno letreiro.

Calos Augusto não tocou a campainha. O portão estava aberto e a porta também.

Antes que sentasse, uma voz saiu de um quarto pedindo que ele se aproximasse.

– Esperei muito tempo por notícias suas. Tenho a resposta que você procura.

O quarto estava quente, aquecido por chamas de velas multicoloridas. Estava sentada à sua frente, com um gato no colo, uma senhora de idade avançada.

Carlos Augusto estava assustado, curioso e totalmente entregue àquela situação.

– O nome é seu destino.

Carlos Augusto gelou. Lembrou-se da história contada por seu pai quando era pequeno. Refletiu que não conquistou nada nem ninguém apesar do Carlos. Em vez de Augusto poderia ter sido vil. Carlos Vil.. Ordeiro? Quanto sarcasmo! Apenas provoco a discórdia! Santos? Estou muito mais próximo do satanás.

– Filho qual é seu nome? Escreva-o neste papel.

Carlos Augusto Ordeiro Santos.

– O nome é seu destino. Leia as primeiras letras de cada nome e terá sua resposta.



Narciso


Narciso era auto apaixonado. Seus pais eram o deus-rio Cefiso e a ninfa Liríope. E,por ser filho de deus se achava lindo, divino e maravilhoso. Passava o dia admirando-se no reflexo das águas da lagoa Eco. O problema era ficar de quatro, alguém poderia querer amá-lo também.

Por ordem de Narciso, o melhor artífice do reino criou o espelho: recortou um pedaço da lagoa e colocou-o numa moldura de brancas nuvens.

Narciso ao contemplar-se pela primeira vez ouviu o espelho repetindo: – Eco, eco, eco. – Curioso e intrigado, aproximou-se bem do pedaço da lagoa e perguntou:

– Você só sabe dizer eco? O que dizes de mim?

– Você tem mau hálito.





DESAFIO 9
GRANDES PERSONAGENS

 

AS 10 HIPÓTESES ABAIXO SERÃO SELECIONADAS ENTRE OS PARTICIPANTES. A TAREFA DA SEMANA É SIMPLES: FAÇA O SÍMBOLO GANHAR VIDA NUMA PERSONAGEM HUMANA CONTEMPORÂNEA.

CONTISTAS

SORTEIO NONO

DESAFIO

Antonio Cardoso Neto

PROTEU

Ari  Gurcz

MEDUSA

Artur Cotias E Silva

PIGMALIÃO

Cinthia Kriemler

NARCISO

Maria Raquel Melo

FAETONTE

Monica Thaty da Silva

ÍCARO

Osmar P. Lannes Jr.

ORFEU

Roberto Klotz

SIBILA

Soraia Maria Silva

FEDRA

Washington Dourado

PSIQUÊ

 

 

 

1-Faetonte

 

Esta é uma dos melhores histórias de Ovídio, que a conta com grande vivacidade. Os detalhes não são introduzidos apenas a título de decoração; seu objetivo é, fundamentalmente, uma maior intensificação dos efeitos.

       O palácio do Sol era um lugar fulgurante. Tinha o brilho do ouro, o lampejo do marfim e a cintilação das jóias. Por dentro e por fora, tudo era resplendor e luminescência. Era sempre meio-dia, e a penumbra sombria nunca vinha turvar a claridade. A escuridão e a noite eram ali desconhecidas. Poucos dentre os mortais teriam resistido por muito tempo àquela luminosidade imutável, mas também poucos tinham descoberto o caminho que levava até lá.        Não obstante, um dia ousou aproximar-se desse lugar um jovem que, de parte de mãe, era mortal. Teve que parar muitas vezes para esfregar os olhos ofuscados por tanta luz, mas o propósito que o trouxera até ali era tão urgente que ele se manteve firme e apressou ainda mais os passos ao entrar no palácio, atravessando as portas polidas que conduziam à sala do trono, onde estava o Deus-Sol, envolto por um brilho resplandecente e ofuscante. Ali o jovem parou, incapaz de dar mais um só passo. Nada escapa aos olhos do Sol, que imediatamente se deu conta da presença do jovem e para ele olhou com grande amabilidade. "O que te trouxe aqui?", perguntou, "Aqui estou", respondeu com grande ousadia o outro, "para descobrir se és ou não meu pai. Minha mãe disse que sim, mas meus amigos riem de mim quando lhes digo que sou teu filho, já que em nada disso acreditam. Contei tudo isto à minha mãe, e sua resposta foi que eu viesse pessoalmente procurar-te." Sorridente, o Sol tirou sua coroa de luz ofuscante, para que o jovem pudesse olhá-lo sem maltratar os olhos. "Aproxima-te, Faetonte!", ordenou-lhe. "Clímene te disse a verdade. És meu filho, e espero que também não duvides da minha palavra. Pretendo, porém, dar-te uma prova de que não minto. Pede-me qualquer coisa que quiseres e serás atendido. Como testemunha da minha promessa, vou invocar o Estige, o rio do juramento dos deuses."

       Sem dúvida, Faetonte já observara muitas vezes o Sol a percorrer os caminhos do Céu, dizendo para si mesmo com um sentimento misto de respeito e admiração: É meu pai que por ali passa!" Em seguida, punha-se a imaginar como seria estar também naquele carro, dirigindo os corcéis ao longo daquela vertiginosa trajetória com a finalidade de levar a luz ao mundo. Agora, depois de ouvir as palavras do pai, esse sonho louco estava prestes a concretizar-se. Num instante, exclamou: "Deixa-me tomar o teu lugar, pai! Não há coisa que eu mais queira. Só por um dia, por um único dia, deixa-me conduzir o teu carro."
       O Sol então deu-se conta da sua própria loucura. Por que fizera aquele juramento fatal, comprometendo-se a satisfazer qualquer desejo que passasse pela cabeça jovem e imprudente do filho? "Meu caro menino", disse ele, "eis aí a única coisa que eu lhe teria recusado. Sei que não posso fazê-lo, pois jurei pelo Estige. Caso insistas, tenho que ceder, mas não creio que o faças. Ouve bem os esclarecimentos que tenho a fazer sobre o teu pedido. És filho meu e de Clímene. Assim, és também mortal, e a mortal algum é dado dirigir o meu carro. Na verdade, nenhum outro deus pode dirigi-lo, nem mesmo o Rei dos Deuses. Reflete sobre a trajetória que é preciso seguir. Subindo a partir do mar, o caminho é tão íngreme que os cavalos mal conseguem avançar, por mais descansados que estejam pela manhã. Ao chegar a metade do percurso, a altura é tão vertiginosa que nem eu mesmo gosto de olhar para baixo. Mas ainda muito pior é a descida, e esta se precipita de tal forma que os Deuses do Mar, à espera de minha chegada, ficam admirados ao ver que não me lanço de cabeça para baixo. Guiar os cavalos é também uma luta infindável. Sua natureza de fogo vai tornando-os mais impetuosos à medida que sobem, e só com muita dificuldade consigo mantê-los sob meu controle. O que não fariam eles contigo?

       "Deves imaginar que lá em cima existem todas as espécies de maravilhas, cidades divinas cheias de coisas belas, mas nada disso existe. Terás de passar por feras e terríveis animais de rapina, que serão tudo o que terás para ver. O Touro, o Leão, o Escorpião, o grande Câncer, todos eles tentarão fazer-te algum mal, e não duvides por um só instante que assim será. Olha ao teu redor e vê quantas coisas belas existem no mundo. Escolhe uma que seja o mais profundo desejo de teu coração, e ela será tua. Se desejas uma prova de que sou teu pai, que prova melhor posso dar-te do que meus receios pela tua vida?"

       Para o jovem, porém, toda a sabedoria contida nessa conversa não surtiu melhor efeito. Uma perspectiva gloriosa abria-se diante dele, que já se via orgulhosamente em pé naquele carro maravilhoso, guiando os corcéis que nem o próprio Jove era capaz de controlar. Não ligou a mínima para os perigos que seu pai lhe descrevera. Não se deixou perturbar um só instante pelo medo, nem pela dúvida sobre sua própria capacidade. Por fim, o Sol desistiu de tentar convencê-lo. Viu que toda tentativa seria inútil e, além disso, já não havia mais tempo para nada: o momento da partida aproximava-se. As portas do Leste já se tingiam de seu brilho purpúreo, e a Aurora já vinha abrindo o seu caminho cheio de luz rósea. As estrelas abandonavam o Céu, e até mesmo a retardatária estrela da manhã já se apagava.
       Era preciso apressar-se, mas tudo estava pronto. As estações do ano, as guardiãs do Olimpo, aguardavam o momento de abrir as portas de par em par. Os cavalos tinham sidos preparados e estavam emparelhados ao carro. Com grande júbilo e orgulho, Faetonte subiu para o mesmo e partiu. Tinha feito sua escolha, e só lhe restava agora arcar com as conseqüências. Não que desejasse mudar alguma coisa naquela primeira corrida magnífica pelos ares. O próprio Vento Leste foi ultrapassado e deixado muito por trás. As velozes patas dos cavalos passavam pelas nuvens baixas, mais próximas do oceano, como se estivessem atravessando uma fina névoa marítima, e depois se elevavam rumo aos ares translúcidos das grandes alturas do Céu. Durante alguns momentos de puro êxtase, Faetonte sentiu-se o próprio Senhor do Firmamento. De repente, porém, algo se modificou. O carro começou a oscilar fortemente de um lado para o outro; a velocidade se tornou muito maior, e Faetonte percebeu que não tinha mais o controle de nada. A corrida não era mais dirigida por ele, mas pelos cavalos. Eram senhores da situação, e nada havia como controlá-los. Saíram do caminho habitual e se lançaram para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita. Por pouco não lançaram o carro contra o Escorpião; depois, em uma vertiginosa escalada, quase se arrebentam contra o Câncer. A esta altura, o pobre condutor estava quase desmaiado de terror, e então deixou cair as rédeas.

       Foi o sinal para que a corrida se tornasse mais louca e avassaladora. Os cavalos voaram para o ponto mais alto do Céu, e em seguida, mergulhando de cabeça para baixo, incendiando o mundo. As mais altas montanhas foram as primeiras a queimar – Ida e Helicon, onde vivem as Musas, o Parnaso e o Olimpo, que se eleva para além dos Céus. Através de suas encostas, as chamas desceram para os vales mais baixos e planos e para as terras cobertas de florestas escuras, até que tudo passou a ser consumido pelas chamas. As fontes evaporaram-se, e os rios foram transformados em regatos. Diz-se que foi aí que o Nilo fugiu e escondeu sua nascente, que ainda hoje continua escondida.

       Faetonte, que mal conseguia manter-se no carro, foi envolto por um calor infernal e uma fumaça espessa que parecia saída de uma fornalha. A única coisa que agora queria era acabar o mais rápido possível com todo aquele tormento e terror. Teria saudado alegremente a própria morte. A situação também se tornou insuportável para a Mãe terra. Lançou um grito avassalador que foi ecoar junto aos deuses. Estes, ao olharem lá do Olimpo para baixo, viram que a salvação do mundo dependia de uma ação muito rápida de sua parte. Jove pegou o raio e lançou-o contra o condutor imprudente e arrependido. Faetonte caiu morto, o carro foi destroçado e os cavalos enlouquecidos foram lançados nas profundezas do mar.
       Através dos ares, Faetonte caiu como uma bola de fogo sobre a Terra. O misterioso rio Eridano, nunca visto por qualquer mortal, recebeu-o, extinguiu o fogo e esfriou-lhe o corpo. As Náiades, com pena de vê-lo morrer tão jovem e cheio de coragem, sepultaram-no e gravaram em seu túmulo:

Aqui jaz Faetonte, que dirigiu o carro do Deus-Sol.
Foi grande o seu fracasso, mas grande também sua
[ousadia.

       As irmãs dele, as Helíades (filhas de Hélio, o Sol), vieram chorá-lo em sua sepultura, e foram transformadas em álamos ali mesmo, junto às margens do Eridano,

Onde, pesarosas, vertem lágrimas eternas no leito
[do rio.
E cada uma delas, ao cair, cintila em suas águas
Como reluzente gota de âmbar.

http://www.geocities.com/athens/styx/4087/faetonte.html

 

2-Pigmalião

 

Esta história só é contada por Ovídio, e por esse motivo a Deusa do Amor nela aparece como Vênus. Trata-se de um excelente exemplo do modo como Ovídio torna os mitos ainda mais interessantes (...).

       Pigmalião, tem um jovem e talentoso escultor oriundo de Chipre, era um homem que detestava as mulheres.

Odiando os defeitos ilimitados com que a natureza
[dotou as mulheres,

resolveu que jamais se casaria. Dizia para si mesmo que sua arte lhe bastava. Não obstante, a estátua à qual dedicara toda a força do seu gênio representava uma mulher. Ou não conseguia cultivar em espírito o mesmo desprezo que, em sua conduta, dedicava ao sexo feminino, ou então pretendia esculpir uma mulher que, de tão perfeita, pudesse mostrar aos homens os defeitos das mulheres com que estavam habituados a conviver.
       Seja como for, trabalhou com grande afinco e dedicação durante muito tempo, e o resultado foi uma obra de arte do mais extremo requinte. Contudo, por mais bela que fosse a estátua, Pigmalião não se dava por satisfeito. Não cessava de aperfeiçoá-la, e cada dia, ao toque de seus dedos habilidosos, a figura tornava-se mais bela. Não havia mulher ou estátua que se lhe pudesse comparar. Quando já não havia mais o que acrescentar a tanta perfeição, algo de muito estranho aconteceu com o criador: apaixonou-se perdidamente por sua criação. É preciso que se diga, a título de esclarecimento, que a estátua não parecia uma estátua; diante dela, ninguém afirmaria tratar-se de marfim ou mármore, mas de carne humana, inerte apenas por alguns momentos. Tal era o assombroso poder desse jovem altivo e arrogante – havia alcançado a suprema realização artística, a arte de ocultar a arte.
        A partir daí, porém, o sexo que ele via com tanto desprezo teve sua vingança. Pigmalião tornou-se mais desesperadamente infeliz do que o mais desgraçado dos amantes alguma vez rejeitado por uma mulher. Beijava aqueles lábios tentadores, mas os seus beijos não eram correspondidos: acariciava o rosto e as mãos da estátua, mas ela continuava inerte; tomava-a nos braços, mas ela continuava sendo uma forma fria e impassível. Durante algum tempo, tentou fingir como fingem as crianças com seus brinquedos. Enfeitava-a com trajes suntuosos, experimentando sucessivamente os efeitos de cores suaves ou muito vivas, e imaginando que assim ela ficaria satisfeita. Trazia-lhe todos os presentes que as jovens de carne e osso tanto apreciam: pequenos pássaros, flores alegres e as brilhantes lágrimas de âmbar que choram as irmãs de Faetonte, sonhando que por essas coisas ela lhe agradecia com fervoroso afeto. Á noite, punha-a para dormir em um leito macio e aconchegante, exatamente como as meninas fazem com suas bonecas. Pigmalião, porém, não era nenhuma criança, e seria impossível continuar com todo esse fingimento. Acabou desistindo, pois amava uma coisa sem vida que o estava levando a um desespero profundo e irremediável.
       Uma paixão tão excepcional assim não podia continuar por muito mais tempo ignorada pela Deusa do Amor. Vênus encheu-se de interesse por algo que raramente se deparava, uma nova forma de apaixonado, e resolveu ajudar o jovem que conseguia apaixonar-se com tanta originalidade.
       A festa dedicada a Vênus era especialmente celebrada em Chipre, a primeira ilha a receber a deusa depois de ela ter nascido da espuma do mar. Eram-lhe oferecidas novilhas brancas com os chifres dourados: o perfume celestial do incenso espalhava-se por toda a ilha, proveniente de seus inúmeros altares; as multidões se comprimiam nos templos, e todos os amantes infelizes compareciam com suas dúvidas, orando para que o seu amor passasse a ser correspondido. Pigmalião, que ali também se encontrava, ousou a pedir a deusa que lhe permitisse encontrar uma jovem igual a sua estátua. Mas Vênus sabia muito bem o que ele realmente queria, e, como sinal de que sua prece seria atendida, fez com que a chama do altar diante do qual ele se encontrava se elevasse três vezes no ar.
       Incapaz de tirar da cabeça esse bom presságio, Pigmalião voltou para casa e para seu amor, aquela coisa que tinha criado e à qual entregara o seu coração. Ali estava ela em seu pedestal, gloriosamente bela. Acariciou-a, e assustou-se. Seria um engano dos seus sentidos, ou ele de fato a sentira quente ao seu toque? Beijou seus lábios em um lento e prolongado beijo, e sentiu-os irem suavizando-se sob seus próprios lábios. Tocou-lhe os braços e os ombros, e sentiu que a rigidez anterior não mais existia. Era como se uma estátua de cera estivesse amolecendo no contato com o Sol. Apertou-lhe o pulso e percebeu que o sangue ali pulsava. Lembrou-se imediatamente de Vênus; tratava-se, sem dúvida, de obra da deusa. E, como gratidão e alegria indizíveis, envolveu-a em seus braços, vendo-a sorrir e corar enquanto olhava para ele.
       A própria Vênus honrou-lhes o casamento com sua presença, mas nada sabemos do que passou a seguir, a não ser que Pigmalião deu à jovem o nome de Galatéia e chamou o filho de ambos de Pafo, nome que mais tarde passou a designar a cidade favorita de Vênus.

http://www.geocities.com/athens/styx/4087/pigmaliao.html

 

 

3-Orfeu

 

 

A história de Orfeu com os Argonautas só é contada por Apolônio de Rodes, um poeta grego do séc. III. O resto da história tem um relato muito melhor nos textos de dois poetas romanos, Virgílio e Ovídio, que têm, inclusive, estilos muito parecidos. Portanto, usamos aqui os nomes latinos dos deuses. Virgílio foi muito influenciado por Apolônio. Na verdade, qualquer um dos três poderia ter escrito a história toda, de modo como ela vem aqui apresentada.

       Os primeiros músicos foram os deuses. Atena inventou a flauta, mas nunca usou nem se destacou nessa arte. Hermes fez a lira e deu-a a Apolo, que dela tirava sons tão melodiosos que, ao tocar no Olimpo, os deuses se esqueciam de tudo o mais. Hermes também inventou a flauta de pastor para uso próprio, e dela extraía uma música encantadora. Pã criou a flauta de caniço, que canta tão docemente quanto o rouxinol na primavera. As musas não tinham nenhum instrumento específico, mas suas vozes eram belas para além de toda comparação possível.
       Também houve alguns mortais que, de tão magníficos em sua arte, quase se igualavam aos intérpretes divinos. Dentre todos, o maior sem dúvida Orfeu. De parte de mãe, era mais que um simples mortal. Era filho de uma das Musas, e também um príncipe trácio. Sua mãe dera-lhe o Dom da música, e a Trácia, onde viveu, só fez por aperfeiçoar ao máximo esse dom. Os trácios eram o mais musical de todos os povos gregos. Orfeu, porém, não tinha rival nem nesse país, nem em qualquer outra parte, a não ser quando comparado aos deuses. Sua arte no tocar e cantar não tinha limites. Nem as coisas, nem as pessoas podiam resistir-lhe.

Nas profundezas silenciosas dos bosques das
[montanhas trácias
Orfeu regia o movimento das árvores com o som de sua
[lira,
E conduzia os animais selvagens da floresta.

       Tudo o que havia de animado e inanimado o seguia. Os rochedos dos montes se moviam à sua passagem, deixavam de ser os mesmos os cursos dos rios.
       Pouco se conta sobre sua vida antes do infeliz casamento pelo qual ele é muito mais conhecido do que pela música; sabe-se que participou de uma famosa expedição, e nela deu provas de ser um de seus mais úteis membros. Partiu com Jasão, no Argo, e ali, sempre que os heróis estavam exaustos ou o remar se tornava especialmente difícil, punha-se a tocar sua lira. No mesmo instante todos recobravam o ânimo, e os remos golpeavam o mar ao ritmo da melodia. Sempre que uma briga ameaça perturbar-lhes a paz, tomava também da lira e tocava com tanta doçura e suavidade que até mesmo os espíritos mais exaltados se acalmavam e esqueciam do ódio. Também salvou os heróis das Sereias. Quando começaram a ouvir ao longe, no mar, o canto tão doce e melodioso que os fazia esquecer de tudo, a não ser de um desejo desesperado de ouvir sempre mais, e aproavam o navio em direção à praia onde estavam as Sereias, Orfeu se pôs a tocar uma melodia tão bela e vibrante que abafou o som daquelas vozes maravilhosas, mas fatais. O navio retomou seu curso, e os ventos o afastaram daquele lugar perigoso. Se Orfeu ali não estivesse, os Argonautas também teriam deixado os seus ossos na Ilha das Sereias.
       Não se sabe onde Orfeu encontrou e como cortejou sua amada, Eurídice, mas fica claro que nenhuma jovem que ele desejasse teria forças para resistir ao poder de sua música. Casaram-se, mas sua felicidade durou muito pouco. Imediatamente depois do casamento, quando Eurídice caminhava pelo campo em companhia de suas damas de honra, foi picada por uma víbora e morreu. A dor de Orfeu foi avassaladora, e ele não a podia suportar. Resolveu descer ao reino da Morte e trazer Eurídice de volta. Disse, então, para si próprio:

       Com o meu canto,
       Vou seduzir a filha de Deméter
       E também o Senhor dos Mortos,
       Comovendo-lhes os corações com minha música,
       E a trarei de volta do Hades.

       Ousou mais do que qualquer homem jamais ousaria por amor, e iniciou a terrível descida ao mundo subterrâneo. Ao chegar, pôs-se a tocar sua lira, ao som da qual toda a imensa multidão dos que ali estavam se calou, encantada com o que ouvia. O cão Cérbero deixou de ser o vigilante implacável; a roda de Íxion deixou de girar; Sísifo sentou sobre sua pedra; Tântalo esqueceu-se da sede e, pela primeira vez, os terríveis rostos das Fúrias encheram-se de lágrimas. O Senhor do Hades aproximou-se com sua rainha para escutar melhor, e Orfeu então cantou:

       Os deuses que regem o mundo das trevas e do silêncio,
       Aos quais vêm juntar-se todos os filhos das mulheres
       Todas as coisas belas acabam aqui um dia, diante de vós
       Sois os credores que jamais deixam de receber o devido.
       Breve é o momento que permanecemos na Terra
       E depois a vós pertencemos para todo o sempre
       Mas busco alguém que muito cedo veio ter convosco
       Um botão colhido antes que desabrochasse a flor.
       Tentei suportar essa perda, mas fui incapaz de fazê-lo.
       O Amor foi-me um deus por demais poderoso. Tu
                                                                       [sabes, ó rei.
       Se é verdadeira aquela velha história que sempre nos
                                                                                 [contaram
       Sobre as flores que presenciaram o rapto de Prosérpina.
       Deixa, pois, que se teça de novo para a doce Eurídice
       O pano da vida precocemente arrancado do tear.
       Vê, então, que é quase nada o que te peço
       Pois não é para todo o sempre que desejo tê-la de volta,
       Ela será tua de novo quando os seus anos chegarem ao fim.  
                     

       Sob a magia de sua voz, não havia como recusar-lhe nada. Ele

Fez com que lágrimas de ferro descessem pelo rosto de
[Plutão,
E levou o Inferno a restituir o que o amor procurava.

       Chamaram Eurídice e devolveram-na a Orfeu, mas com uma condição: ela o seguiria de perto, mas ele não deveria olhar para trás enquanto não chegassem à superfície terrestre. Assim, passaram os dois pelos grandes portões do Hades e tomaram a estrada que, sempre subindo, os levaria para fora da região das trevas. Ele sabia que Eurídice estaria logo atrás dele, mas deixou-se tomar por um desejo incontrolável de olhar de relance, para certificar-se de que ela realmente ali estava. Mas percebeu que estavam quase chegando, pois a escuridão começava a transformar-se em luz cinzenta; e de um passo saiu das trevas, rejubilando-se com a luz do dia. Voltou-se então, mas o fez cedo demais: Eurídice ainda estava dentro da caverna. Orfeu viu-a na penumbra, e estendeu-lhe os braços para ver se a agarrava; mas no mesmo instante ela desapareceu. Deslizava de novo para o mundo das trevas. Ele ouviu apenas uma palavra distante: "Adeus."
       Desesperado, tentou correr atrás dela e seguí-la, mas foi proibido de fazê-lo. Os deuses não permitiriam que ele entrasse no reino dos mortos pela segunda vez enquanto ainda estivesse vivo. Foi obrigado a voltar sozinho para a Terra, mergulhado em profunda desolação. Renunciou então ao convívio dos homens e ficou a vaguear pelos ermos selvagens da Trácia, contando apenas com o conforto de sua lira, que nunca deixava de tocar. Tinha por únicos companheiros as montanhas, os rios e as árvores, que alegremente o ouviam. Por fim, foi atacado por um bando de Mênades tão enfurecidas quanto as que haviam dado a Penteu uma pavorosa. Trucidaram o músico gentil, arrancando-lhe membro após membro, depois do que lançaram sua cabeça desfigurada nas águas velozes do rio Hebro. Sempre levada por ele, passou pela foz e, intacta pelas águas, foi terminar sua trajetória na praia de Lesbos, onde as Musas a encontraram e enterraram no santuário da ilha. Juntaram todos os membros e colocam-nos em um túmulo no sopé do Olimpo, onde até hoje os rouxinóis cantam mais docemente do que em qualquer outro lugar.

http://www.geocities.com/athens/styx/4087/orfeu.html

 

4-Narciso

 

A lenda de Narciso, surgida provavelmente da superstição grega segundo a qual contemplar a própria imagem prenunciava má sorte, possui um simbolismo que fez dela uma das mais duradouras da mitologia grega.

 

Eco e Narciso (1903) por John William Waterhouse.

Na Mitologia Grega, Narciso (do Grego Νάρκισσος), era um herói do território de Téspias na Beócia, famoso pela sua beleza e orgulho.

Era filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. No dia do seu nascimento, o adivinho Tirésias vaticinou que Narciso teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura.

Várias versões do seu mito sobreviveram: a de Ovídeo, das suas Metamorfoses; a de Pausânias, do seu Guia para a Grécia (9.31.7); e uma encontrada entre os papiros encontrados em Nag Hammadi, ou Chenoboskion, também chamada Oxyrhynchus.

Pausânias localiza a fonte de Narciso na "cama de juncos" em Donacon, no território dos Téspios. Pausânias acha incrível que alguém não conseguisse distinguir um reflexo de uma pessoa verdadeira, e cita uma variante menos conhecida da história, na qual Narciso tinha uma irmã gémea. Ambos se vestiam da mesma forma e usavam o mesmo tipo de roupas e caçavam juntos. Narciso apaixonou-se por ela. Quando ela morreu, Narciso consumiu-se de desgosto por ela, e fingiu que o reflexo que via na água era a sua irmã. Onde o seu corpo se encontrava, apenas restou uma flor: o narciso.

Como Pausânias também nota, outra história conta que a flor narciso foi criada para atrair Perséfone, filha de Deméter, para longe das suas companheiras e permitir que Hades a raptasse.

A versão de Ovídeo

Nas Metamorfoses, Ovídeo conta a história de uma ninfa bela e graciosa chamada Eco que amava Narciso em vão. A beleza de Narciso era tão inigualável que ele pensava que era semelhante a um deus, comparável à beleza de Dionísio e Apolo. Como resultado disso, Narciso rejeitou a afeição de Eco até que esta, desesperada, definhou, deixando apenas um sussurro débil e melancólico. Para dar uma lição ao rapaz frívolo, a deusa Némesis condenou Narciso a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua própria beleza, Narciso deitou-se no banco do rio e definhou, olhando-se na água. As ninfas construíram-lhe uma pira, mas quando foram buscar o corpo, apenas encontraram uma flor no seu lugar: o narciso.

Versão arcaica

Esta, uma versão mais arcaica do que a contada por Ovídeo nas suas Metamorfoses, é um conto moral no qual o orgulhoso e insensível Narciso é punido por ter desprezado todos os seus pretendentes masculinos. Pensa-se que era um conto de aviso dirigido aos rapazes adolescentes. Até recentemente, a única fonte desta versão era um segmento em Pausânias (9.31.7), cerca de 150 anos após Ovídeo. Contudo, um relato muito parecido foi descoberto entre os papiros de Oxyrhynchus em 2004, um relato que antecede a versão de Ovídeo por pelo menos quinze anos.

Nesta história, Amantis, um jovem, amava Narciso mas era desprezado. Para se livrar do chato Amantis, Narciso deu-lhe uma espada de presente. Amantis usou essa espada para se matar à porta de Narciso e rogou a Némesis que Narciso conhecesse um dia a dor do amor não correspondido. Esta maldição foi cumprida quando Narciso ficou encantado pelo seu reflexo na lagoa e tentou seduzir o belo rapaz, não se apercebendo de que aquele que ele olhava era ele próprio. Completando a simetria do conto, Narciso toma a sua espada e mata-se por desgosto.

Diferentes versões da história dizem que Narciso, após desdenhar os seus pretendentes masculinos, foi amaldiçoado pelos deuses para amar o primeiro homem em que pousasse os olhos. Enquanto caminhava pelos jardins de Eco, descobriu a lagoa de Eco e viu o seu reflexo na água. Apaixonando-se profundamente por si próprio, inclinou-se cada vez mais para o seu reflexo na água, acabando por cair na lagoa e se afogar.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Narciso

5-Ícaro

Na mitologia grega, Ícaro (grego: Íkaros, língua etrusca: Vicare, alemão e inglês: Ikarus) ficou famoso pela sua morte por cair no Egeu quando a cera segurando suas asas artificiais derreteu.

Ícaro era filho de Dédalo, um dos homens mais criativos e habilidosos de Atenas. Um dos maiores feitos de Dédalo foi o labirinto do palácio do rei Minos de Creta, para aprisionar o Minotauro. Por ter ajudado Ariadne, a filha de Minos a fugir com Teseu, Dédalo provocou a ira do rei que, como punição, ordenou que Dédalo e seu filho fossem jogados no labirinto.

Dédalo sabia que sua prisão era intransponível, e que Minos controlava mar e terra, sendo impossível escapar por estes meios. "Minos controla a terra e o mar", teria dito Dédalo, "mas não as regiões do ar. Tentarei este meio".

Dédalo projetou asas, juntando penas de aves de vários tamanhos, amarrando-as com fios e fixando-as com cera, para que não se descolassem. Foi moldando com as mãos e com ajuda de Ícaro, de forma que as asas se tornassem perfeitas como as das aves. Estando o trabalho pronto, o artista, agitando suas asas, se viu suspenso no ar. Equipou seu filho e o ensinou a voar. Então, antes do vôo final, advertiu seu filho de que deveriam voar a uma altura média, nem tão próximo ao Sol, para que o calor não derretesse a cera que colava as penas, nem tão baixo, para que o mar não pudesse molhá-las. Dédalo levantou vôo e foi seguido por Ícaro.

Eles primeiramente se sentiram como deuses que haviam dominado o ar. Passaram por Samos, Delos e Lebinto.

Ícaro deslumbrou-se com a bela imagem do Sol e, sentindo-se atraído, voou em sua direção esquecendo-se das orientações de seu pai, talvez inebriado pela sensação de liberdade e poder. A cera de suas asas começou rapidamente a derreter e logo caiu no mar. Quando Dédalo notou que seu filho não o acompanhava mais, gritou: "Ícaro, Ícaro, onde você está?". Logo depois, viu as penas das asas de Ícaro flutuando no mar. Lamentando suas próprias habilidades, enterrou o corpo numa ilha e chamou-a de Icaria em memória a seu filho. Chegou seguro à Sicília, onde construiu um templo a Apolo, deixando suas asas como oferenda.

http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dcaro

 

6-Fedra

 

Fedra é a filha de Minos (rei de Creta) e Pasífae (filha de Helio, mãe do Minotauro), irmã de Ariadne, Deucalião e Catreu.

Deucalião, rei de Creta, como sucessor do irmão mais velho Catreu, decide que ela se casará com Teseu (rei de Atenas), que, segundo algumas versões, já era casado com uma amazona (Antíope, Hipólita), a quem aparentemente tinha raptado. No dia da boda entre Teseu e Fedra, irrompeu uma guerra com as Amazonas, e estas foram derrotadas.

Hipólita e Teseu teriam tido um filho, Hipólito. O jovem era formoso e casto e Fedra apaixonou-se perdidamente por ele. Hipólito, devido á sua castidade e ao respeito pelo pai, rechaça Fedra.

Fedra começa então a preocupar-se de que Teseu venha a ter conhecimento do seu amor secreto e acredita que Hipólito é capaz de contar-lhe tudo num ato de fidelidade e honestidade. Para evitar que isso acontecesse, Fedra levanta uma calúnia contra Hipólito, fazendo parecer que ele é que a ultrajara.

Teseu, levado pela ira, manda desterrar o filho e pede a Poseidon a sua morte. Hipólito morre arrastado pelos seus cavalos. Fedra angustiada pela culpa, enforca-se.

O trágico grego Eurípides encarregou-se de mostrar duas versões desta tragédia, da qual se conserva uma, que é a fonte mais conhecida do mito.

 

7-Medusa

Medusa era portadora de extrema beleza juntamente com suas duas irmãs. Quando estava sentada num campo cercada de flores de Primavera, o deus do Oceano, Posídon, une-se a ela que gere dois únicos filhos, mas estes só nascem no momento da morte de Medusa. As vidas das três irmãs, vidas debochadas e dissolutas, aborrecia os demais deuses, principalmente a deusa Atena. Para castigá-las, Atena as transformou em monstros com serpentes em vez dos seus belos cabelos, presas pontiagudas, mãos de bronze, asas de ouro, e seu olhar petrificava quem olhasse diretamente em seus olhos.
Temidas pelos homens e pelos deuses, as três habitavam o extremo Ocidente, junto ao país das Hespérides e vizinhas de Nix (a deusa da Noite).

Simbolismo da Górgona Medusa

 

 

Símbolo da Górgona Medusa.
Esta imagem na placa de terracota, era bastante frequente encontrar-se nos telhados à entrada dos Templos Gregos.
A pose flectida dos joelhos era usada pelos artistas para sugerir figuras em fuga.

Aegis é o nome do escudo da deusa Atena, o qual tem a Górgona , e que viria originar o nome em português de Égide, que significa precisamente “escudo”.

As gravuras da Górgona Medusa que decoravam os telhados dos templos gregos tinham como objectivo assustar os maus espíritos. As mais famosas dessas gravuras encontravam-se nos frontões do Templo de Ártemis (a quarta maravilha do Mundo Antigo) na ilha de Éfeso.

Algumas das taças de vinho atenienses nos meados do séc. VI a. C. apresentavam o seguinte aspecto: cerca da berma, no interior da taça, desenhavam-se cachos de uvas, não deixando dúvidas que naquela taça se servia apenas vinho; já perto do fundo, estão desenhadas em todo o contorno umas figuras negras de rapazes nus a servirem vinho aos convidados, enquanto que na base da taça, estava estampado o símbolo da Górgona, ou seja, quem bebesse por essas taças, no momento em que o vinho chegasse a um nível onde que era permitido poder-se ver as figuras negras, os servidores desnudados, significava que a taça necessitava de ser enchida; a cabeça da Górgona depositada no fundo, seria uma mensagem humorística que indicava ao convidado manter a taça do vinho sempre cheia durante a festa, caso contrário, viria a figura da Górgona desvendada e seria transformado em pedra .

8-Psiquê

O mito de Psiquê (Espírito) é narrado no livro O Asno de Ouro de Apuleio, que a cita como uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor se apaixonou. Tão bela que despertou a fúria de Afrodite, deusa da beleza e do amor, mãe de Eros- pois os homens deixavam de freqüentar seus templos para adorar uma simples mortal.

A deusa mandou seu filho atingir Psiquê com suas flechas, fazendo-a se apaixonar pelo ser mais monstruoso existente. Mas, ao contrário do esperado, Eros acaba se apaixonando pela moça - acredita-se que tenha sido espetado acidentalmente por uma de suas próprias setas.

Com o próprio deus do Amor apaixonado por ela, suas setas não foram lançadas para ninguém. O tempo passava, Psiquê não gostara de ninguém, e nenhum de seus admiradores tornara-se seu pretendente.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Psiqu%C3%AA

9-Sibila de Cumas

 

Sibila de Cumas

A Sibila de Cumas era natural de Éritras, importante cidade da Jônia (na costa ocidental da atual Turquia). Seu pai era Teodoro e sua mãe uma ninfa. Conta-se que ela nasceu numa gruta do monte Córico. Tinha, desde o nascimento, o dom da profecia, e fazia suas previsões em versos. Ficou conhecida como a sibila de Cumas porque passou a maior parte de sua vida nesta cidade, situada na costa da Campânia (Itália).

Histórico e lenda

Na Antigüidade era considerada como a mais importante das dez sibilas conhecidas. Era também conhecida como a Deífoba - palavra que significa deidade, ou que tem a forma de deusa. Apolo era o deus que inspirava as profecias das sibilas. À Sibila de Cumas consta que havia prometido realizar um grande desejo. A Sibila então colocou um punhado de areia em sua mão e pediu-lhe para viver tantos anos quantos fossem as partículas de terra que tinha ali. Mas esqueceu-se de pedir, também, a eterna juventude, assim foi que com os anos tornou-se tão consumida pela idade que teve de ser encerrada no templo de Apolo em Cumas. A lenda diz que viveu nove vidas humanas de 110 anos cada.

Conta-se, ainda, que ela, numa ocasião, guiou Enéias, príncipe de Tróia, através do Hades em visita a seu pai Anquises.

Noutra ocasião apresentou-se ela ao rei romano Tarquínio, o Soberbo como uma mulher muito velha e lhe ofereceu nove livros proféticos a um preço extremamente elevados. Tarquínio negou-se, pensando em obtê-los mais baratos, e então a sibila destruiu três dos livros. Em seguida, ofereceu os seis livros restantes pelo mesmo preço. Tarquínio novamente negaciou e ela destruiu outros três. Temendo que todos assim desaparecessem, o rei aceitou comprar os três restantes, pagando por eles o preço pelo qual a sibila pedira pelos nove. Estes três livros foram guardados no templo de Júpiter e eram consultados em situações muito especiais.

Em 83 a.C. o fogo destruiu os chamados Livros Sibilinos originais e teve-se de formar uma nova coleção, que não chegou até os tempos modernos porque em 405 também foram destruídos. Estes livros exerceram grande influência na religião romana até o reinado de Augusto.

10-Proteu

Proteu aparece na mitologia grega como filho dos titãs Tétis e Oceanus (que outrora reinava sobre o mar, porém perdeu seu posto para Poseidon (Netuno).

Tinha o dom da premonição e assim atraia o interesse de muitos que queriam saber as artimanhas do poderoso destino. Porém ele não gosta de contar os acontecimentos vindouros; então, quando algum humano se aproxima, ele foge ou assume aparências monstruosas e assustadoras. Porém, se o homem for corajoso o bastante para passar por isso, ele lhe conta a verdade. Um desses homens foi Menelau, rei de Esparta, que queria saber se seria possível voltar a ela após a guerra de Tróia.

Proteu

Proteu, deus marinho, era filho de Oceano e de Tetis ou, segundo uma outra tradição, de Netuno e de Fênice. Segundo os gregos, a sua pátria é Palene, cidade da Macedônia. Dois dos seus filhos, Tmolos e Telégono, eram gigantes, monstros de crueldade. Não tendo podido chamá-los ao sentimento da humanidade, tomou o partido de retirar-se para o Egito, com o socorro de Netuno, que lhe abriu uma passagem sob o mar. Também teve filhas, entre as quais as ninfas Eidotéia, que apareceu a Menelau, quando voltando de Tróia esse herói foi levado por ventos contrários aobre a costa do Egito, e lhe ensinou o que devia fazer para saber de Proteu os meios de regressar à pátria.

Proteu guardava os rebanhos de Netuno, isto é, grandes peixes e focas. Para o recompensar dos trabalhos que com isso tinha. Netuno deu-lhe o conhecimento do passado, do presente e do futuro. Mas não era fácil abordá-lo, e ele se recusava a todos que vinham consultá-lo.
Eidotéia disse a Menelau que, para decidi-lo a falar, era preciso surpreendê-lo durante o sono, e amarrá-lo de maneira que não pudesse escapar, pois ele tomava todas as formas para espantar os que se aproximavam: a de leão, dragão, leopardo, javali; algumas vezes se metamorfoseava em árvore, em água e mesmo em fogo; mas se se perseverava em conservá-lo bem ligado, retomava a primitiva forma e respondia a todas as perguntas que se lhe fizessem.

Menelau seguiu ponto por ponto as instruções da ninfa. Com três dos seus companheiros, entrou de manhã, nas grutas em que Proteu costumava ir ao meio-dia descansar, juntamente com os rebanhos. Apenas Proteu fechou os olhos e tomou uma posição cômoda para dormir. Menelau e os seus três companheiros se atiraram sobre ele e o apertaram fortemente entre os braços. Era inútil metamorfosear-se: a cada forma que tomava, apertavam-no com mais força. Quando enfim esgotou todas as suas astúcias Proteu voltou à forma ordinária, e deu a Menelau os esclarecimentos que este pedia.

No quarto livro das Geórgicas, Virgílio, imitando Homero, conta que o pastor Aristeu, depois de haver perdido todas as suas abelhas, foi a conselho de Cirene, sua mãe, consultar Proteu sobre os meios de reparar os enxames, e para lhe falar, recorreu aos mesmos artifícios

http://www.mhelena.adv.br/spasso/h_m_proteu.htm

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GRANDES PERSONAGENS

 

BREVE

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