Uma Aventura Interior

 

 

 

"Jeune homme assis au bord de la mer de Jean Hippolyte Flandrin

 

 

Conto 1

 

Os olhos oblíquos de Clarice

Artur Cotias E Silva

 

No instante em que começo a datilografar esta linha, já é madrugada de quinta-feira. A vidraça me diz que lá fora vai amanhecer já, já. Mesmo debaixo de uma chuvinha que começa a cair, acho bonita a cidade. Confesso que há uma predisposição em achar tudo bonito, porque a seleção brasileira acabou de conquistar o tricampeonato de futebol no México e uma euforia toma conta do país todo. Aqui no Rio, então, nem se fala. Nesse clima de festa, reina uma boa vontade para com a imprensa esportiva, e essa atmosfera se estende aos outros tipos de imprensa, o que facilita um pouco o nosso trabalho de jornalista, apesar da dificuldade que estamos enfrentando com o regime militar. Nem eles conseguem embaçar o alto astral que se instalou na alma do brasileiro. E foi acreditando nessa conjuntura favorável que decidi tentar entrevistar a escritora Clarice Lispector.

Há vários anos trabalhando no caderno B do jornal, meu editor sempre me escala para conseguir entrevistas difíceis, de artistas e gente que não gosta de falar. “Você é craque nisso, Adalberto, vai lá e arranca tudo do homem”. É. Pode ser. Deve ser porque gosto do que faço, e talvez, também, porque antes de fazer jornalismo, fiz psicologia. Sei interpretar a alma das pessoas, às vezes pela expressão que trazem no rosto. É difícil alguém me dizer um não.

Duplamente encorajado, anteontem, segunda-feira, telefonei para tentar marcar a desejada entrevista. A escritora me atendeu de primeira. Fiquei animado. O clima bom do futebol parece tê-la contagiado, pois esperou que eu me apresentasse, me ouviu calmamente e, no final, disse que sim, que daria a entrevista. Marcamos para dali a dois dias, justamente na quarta-feira que ora vai se acabando. Havíamos combinado às 3 horas da tarde, em seu apartamento no Leme. Estranhei que ela até tivesse me dito por telefone que estava feliz. Até onde eu sei, Clarice Lispector não é disso, de externar felicidades. Mas nesse dia, sei lá por que, externou, disse-me que daria a entrevista porque estava se sentindo em paz com Deus.

Por volta de meio-dia, bem antes da hora marcada, saí de casa direto para o encontro, nem passei na redação. Por pura infelicidade, o táxi que me levava ficou preso em um engarrafamento na saída do túnel e eu cheguei muito atrasado, quase às quatro. Não deu para ligar antes porque no túnel não havia orelhão. Quando cheguei em sua rua, saltei do táxi voando e corri para o apartamento. O porteiro não estava e toquei o interfone uma, duas, três vezes, mas ninguém respondeu. Cheguei até a esquina, procurei um telefone e liguei, mas também chamou várias vezes e ninguém atendeu. Deve ter saído, pensei. Droga, perdi a entrevista. Que foca hein, Adalberto. Tremendo vacilo.

Guardei as fichas devolvidas pelo telefone e decidi ir a pé mesmo para a redação. Dali a pouco, estava andando pela Avenida Copacabana, pensando na desculpa que ia ter de arrumar para tentar falar com Clarice de novo. Engarrafamento? Ah, isso não é desculpa que se apresente. Ainda mais no Rio de Janeiro, onde tem trânsito lento todo dia. Tem de ser coisa mais elaborada, Adalberto. E ia andando assim, concentrado nesses pensamentos, quando, de repente, avistei, na outra calçada, uma figura conhecida vindo em minha direção, distante uns poucos metros. Era ela, Clarice Lispector. Não acredito! Que sorte hein, rapaz? Obrigado, meu santo protetor dos jornalistas engarrafados.

Apertei o passo. Fixei o olhar em sua expressão facial para reparar se ela poderia estar com cara de zangada, de quem levou bolo de um jornalistazinho de quinta categoria. Mas não, ela parecia feliz, jovial, alegre mesmo. Seu rosto estava sereno como uma pintura. Parecia que continuava feliz como me dissera na segunda-feira. Preparei-me, então, para abordá-la. Na cabeça, maquinava o que ia falar. “Com licença, a senhora não é a escritora Clarice Lispector? Perdão, sou Adalberto da Costa Manso, jornalista do caderno B. Marquei entrevista com a senhora, mas tive um contratempo e...”. Mal tive de tempo de costurar minha desculpa esfarrapada e um terremoto fez ruir meu plano.

A poucos metros de mim, Clarice estacou de repente, por causa de alguma coisa que viu na calçada. Em seu rosto, antes sereno, havia agora uma expressão de terror, de pânico, os olhos fixos no chão. Parei também de caminhar e fiquei observando. Saiu correndo, quase se esbarrando nas pessoas, e foi parar no outro quarteirão, agarrada a um poste, trêmula e branca feito uma folha de papel. Cerrava os olhos com força como se quisesse não mais ver o que havia visto. Como se quisesse apagar da mente uma imagem terrível que a afligia.

Sem perdê-la de vista, atravessei a avenida e caminhei até o ponto onde algo a assustara. Olhei em volta e não vi nada de mais. Ao pé de um poste, alguns sacos plásticos de lixo, dois caixotes de madeira com restos da frutaria que fica ali defronte e, sim, só pode ser isso, um rato morto! Um rato comum. Grande, mas morto. Será que aquele rato morto era a razão de tanto abalo?

Clarice voltou a caminhar, pouco adiante de mim, e passei a segui-la, a distância. Voltei para a calçada do outro lado da avenida a fim de poder observá-la de lado enquanto caminhava. Seu rosto agora apresentava outra expressão, parecia revoltada ou algo assim. Tinha as faces rubras de sangue e alternava um ar de desconsolo e decepção. Olhou ligeiramente para trás, depois lançou o olhar a uma janela e chutou com força umas pedrinhas no chão. Parecia estar com raiva.

Na hora, pensei: não dá para tentar abordá-la agora. Nem é preciso experiência para saber que, de humor alterado, Clarice reagiria mal a minha abordagem de jornalista atrasado. Perdi a entrevista, pensei, mas na hora tive outra idéia: ganhei uma excelente crônica! Meus leitores vão se deliciar com toda essa fragilidade exposta da grande autora, que inclusive já venceu um Prêmio Jabuti. Sim, isso é crônica, sinto pelo cheiro, pois essa fragilidade diante de um rato morto é coisa banal, comum, mas não para Clarice. A Clarice que o leitor conhece é a mulher forte, enigmática, que já encarou até um búfalo em seus contos, e agora este rato a desnudar sua verdade frágil.

Ah, e eu adoro desnudar as pessoas nas minhas crônicas, revelar-lhes os defeitos, as fraquezas. Possuo um estilo ferino, quase sarcástico, que desenvolvi desde os tempos da faculdade. Na redação, todos adoram, especialmente os donos do jornal. Sinto muito, Clarice, vou expor sua fraqueza ao mundo.

Duas quadras adiante, Clarice acenou para um táxi. O fusquinha amarelo parou logo em seguida. Ela jogou fora a ponta do cigarro, entrou e partiu. Depois fui eu também atrás de um táxi que me levasse rápido para o jornal.

Cheguei quase no fim da tarde a esta redação, onde agora aprecio a madrugada, e tão ansioso estava que quase não falei com ninguém. Sentei-me depressa à máquina de escrever e comecei a datilografar a crônica. Com sorte, sairia publicada no dia seguinte. No final do segundo parágrafo, quando ia datilografar pela primeira vez a palavra “rato”, três tipos metálicos, creio que mais ansiosos que eu mesmo pelo texto acabado, tentaram chegar juntos à fita, e se engancharam. Antes que eu pudesse soltá-los, um pensamento me tomou de assalto. A imagem do rato morto preencheu a tampa da máquina e o papel à minha frente. Sem entender por que, associei aquele rato ao meu comportamento, e no segundo seguinte estava a refletir se seria decente a minha atitude com Clarice. Veio-me à lembrança o seu sim incondicional, amoroso, a meu pedido de entrevista. A confissão de que estava feliz, em paz com Deus. Fora prestativa e humilde. Fiquei imaginando seus olhos oblíquos a me dizerem isso com doçura. Seria uma grande covardia eu enfiar essa faca em suas costas. Faltar à entrevista e, no dia seguinte, em lugar de me desculpar, publicar uma crônica infame dessas, revelando a todos sua fragilidade diante de um rato morto. Eu me senti o próprio rato que assustou Clarice.

Mas que coisas são essas em que estou pensando? Afinal, não é esse o meu trabalho? Então não é para isso que sou pago? Não é por isso que o jornal me dá essa liberdade, esse horário flexível, chopinho no fim do dia, um certo ócio para criar? Vamos lá, cara. Escreve aí.

Não dá, não consigo. As mãos ficaram pousadas sobre as teclas da máquina de escrever, agora descansadas do tec-tec alucinado de há pouco, enquanto revi, sem querer, minha vida toda diante da imagem daquele rato morto.

Será que não estarei eu, aqui nesta redação, praticando uma espécie de tortura mental com Clarice, um ato tão vil quanto a tortura que nós, jornalistas, tanto condenamos neste regime? Será que por ter aberto uma janela em seu coração, Clarice merece que eu jogue dentro dela esta página repugnante?

E o pior me veio em seguida à mente: será esta a minha resposta ao estado de coisas que mergulhou o país nessa situação? Minha reação à censura que proíbe páginas e capas inclusive do meu jornal? Este rato morto de Clarice é tudo o que tenho para me rebelar contra isso? Esse é todo o meu jornalismo psicológico, um rato?

Aos poucos vi o dia da redação ir se escoando. Os colegas foram saindo, a ampla sala foi se esvaziando e nada de eu conseguir prosseguir com meu texto. Que direi ao chefe? Ora, que se dane o chefe! Que diria eu a Clarice, pombas! Isso sim é o que importa.

Quem quer saber se Clarice Lispector tem medo de ratos mortos? Ninguém, posso garantir. Os leitores de Clarice querem saber é de seus livros, de seus contos, de seus romances. Da poesia que verte em sua prosa, dos sentimentos nobres que nos elevam a alma acima desse mar de lama. Que é do escritor fora de sua obra? Nada. Ninguém deve sequer se meter a esmiuçar coisas dos escritores fora da literatura. Já não basta a confissão diuturna que gente como Clarice faz na imprensa, nas crônicas, nos contos? Para quê essa coisa obsessiva, que eu sempre quis revelar aos leitores do jornal, de querer saber por que o escritor escreve, por que começou a escrever. E o pior, ocorre-me agora: para quê revelar uma bobagem, um temor quase infantil de ratos?

Não, Clarice, a crônica não podia continuar. Essa minha Remington não há de cometer tamanha injustiça. Interrompi a datilografia, arranquei a folha de papel quase com raiva e rasguei. Desisti da crônica, e desisti também de tentar de novo a entrevista. Meu editor não compreendeu minhas razões e não houve meio de eu continuar trabalhando com ele. Disse-lhe que não faria mais aquele tipo de jornalismo. Desisti até da missão seguinte, para a qual já estava escalado: ir a Curitiba tentar falar com o recluso Dalton Trevisan.

Voltei a minha mesa quando já acabava a noite. Pus outra folha em branco na máquina e comecei a escrever estas linhas, que também não se destinam a serem publicadas. Escrever é apenas o meio de que disponho para evitar que eu me envenene com as letras e com as palavras.

Este é o último texto que escrevo nesta mesa. Vou sentir saudades dessa madeira velha, das ranhuras, das marcas que revelam há quanto tempo estamos juntos. Mas estou convencido de que a minha hora chegou. Acho que vou para o caderno de esportes, com talento e sorte, quem sabe consigo ir à copa do mundo de 74 na Alemanha, e ajudo o Brasil a trazer o tetra. 

Este texto ficará guardado, enquanto eu viver, como uma lembrança de um dia em que minha vida mudou. Assim como a pedra de Drummond mudou a vida de muita gente, o seu rato, Clarice, mudou a minha.

Não sei quanto a você, se vai querer contar a seus leitores essa experiência, se vai querer expor essa sua fragilidade. Até poderia, pois seus escritos têm um tom intimista, confessional, que cai bem a essas revelações. E tenho certeza de que o faria com uma classe ímpar. Mas isso é decisão literária sua. De minha parte, eu não pretendo revelar nada. Vou continuar reverenciando, nas crônicas que eu escrever por onde passar, a Clarice das obras, dos contos, a Clarice escritora, a Clarice mulher. A outra, a Clarice frágil, a Clarice menina, que vi diante de meus olhos na Avenida Copacabana, esta ficará oculta nestas páginas. Enquanto eu não a revelar aos outros, ela não existe.

 

Jurados

Marco Antunes: O conto parte de uma idéia muito inteligente e, até certo ponto, muito bem realizada, mas nada me põe mais em guarda contra um texto do que uma percepção de inverossimilhança como as razões do abandono do caderno B, que, no mínimo, foram expressas de modo apressado. Tal percepção deixa a primeira parte excelente e o bom  final separados por um trecho que parece uma esgarçadura da trama. Lembre-se sempre de que a grande característica do conto é a impressão única que ele deixa no leitor: não há tempo para grandes digressões por parte do escritor, nem de um perdão por um deslize da parte do leitor. Esta é sua mágica e sua maior crueldade! Nota 9

Cristiane Brum: Interessante a intertextualidade criada no texto, a ponto de entrecruzar as duas histórias e tirar de uma as conseqüências da outra. Acho, contudo, que o tom jornalístico da narração atrapalhou a “viagem interior”. Fiquei esperando uma reflexão mais aprofundada do cara sobre si mesmo, algo mais pessoal que profissional, ainda que não seja possível separar as coisas. Nota 8

Liana Ferreira: A história é bem interessante e agradável de se ler. A época em questão está bem retratada. Um jornalista como observador privilegiado de um momento ficcional de Clarice Lispector, dividido entre veicular a notícia em forma de crônica, ou calar em respeito à exposição de fragilidade do ser humano. Nota:: 9,8

Cida Sepúlveda : A linguagem merece enxugamentos. O conto merece, pois está maravilhoso. O autor/a conseguiu atingir algumas questões crucias relativas ao criador/a (no caso, Clarice): sua obra e sua vida pessoal, assim como tocou na postura da mídia e das pessoas em geral, com relação aos mitos que na verdade, não passam de artistas. Ainda por cima, aponta saída para os comportamentos desumanos, portanto, filosofa.  Nota: 9,5

Luci Afonso: Enredo convincente, com base no texto de Clarice Lispector. Redação impecável. A última frase é inspirada   Nota: 9

Total: 45,3

 

Conto 2

 

Brancas páginas

Soraia Maria Silva

 

 

Querido José, eis que esta é uma carta branca, daquelas cujos sinais são revelados não pela remoção da luz do papel pela tinta simétrica da letra impressa. É mais uma carta ao inverso, cuja escultura final do sentido é marcada pela luz que nela ficou, se alguma ainda restar ao teus cansados olhos. Eis o ponto, não no sentido científico abstrato de encontro, cruzamentos, atrito ou fraqueza, mas apenas o ponto no sentido teatral, da ajuda programada, do verbo que nos é ditado e exterior, dos símbolos que se movem por sentidos ancestrais: qual é a experiência dessa dança? Estou lhe escrevendo porque sei que entendes desses ritmos, inusitados. E porque toda vez que chego à sua casa o alarme toca e você não sabe desliga-lo. Como é certa a velhice que vem! Meus cabelos maquiados, meus pontos corporais cardeais, de mistérios e espinhos dolorosos. Meu coração está acorrentado a bobagens, mas preciso confessá-las. Sei que não é padre, mas também sei de uma íntima vocação sua. Não espero absolvições, pois à minha alma apenas misericórdia e piedades divinas são eficazes. Dizes que a vida é afável, para mim ela tem sido muito amável, eu sou a detestável da história. Filha de pais justos e corretos nasci ao revés da vida iluminada, cuja claridade só antevia na alegria do meu corpo adestrado em movimentos. Sempre dancei para comemorar essa vitalidade, mais tarde é que aprendi a dançar para afastar a morte. Acho que isso começou cedo. Quando na mais remota memória, de criança delicada, franzina e sorridente, senti um forte desejo: comer uma adorável e suculenta fruta reluzente no alto de uma passiva árvore. Como alcança-la? Pedi ao jovem jardineiro que a pegasse para mim, minha memória é um pouco danificada nesse acontecimento, mas o fato é: o empregado não obedeceu às ordens da senhorita. E momentos depois me vi tranqüila com uma borduna de madeira ensangüentada nas mãos. Na hora, fiquei apenas surpresa com a força daquela cena e com a passividade do menino que nada fez a não ser gritar ajuda para minha mãe. Fiquei assustada quando me disseram que aquilo era errado, e um sentimento, a partir desse momento, se instalou definitivamente em algum lugar do meu corpo (penso que foi nos meus olhos): a culpa... Mas eu queria tanto a fruta... Nem cheguei a comer a fruta do meu desejo e já fui expulsa do paraíso. E assim foi sempre, expulsa dos paraísos, por espancar Adãos infantis e insubmissos. Essa é uma carta cujo destino é apagar as magoas de uma vida finita e pueril. Não que eu não tenha tido bons momentos, de uma felicidade completa, “eterna enquanto dura”. Um filho, uma redenção, e esse foi o meu legado. Tive um rebento, daqueles que já nascem sob o signo da alegria e das boas luzes. Depois das dores de um parto selvagem e acocorado no qual a força era para que o fruto não despencasse da árvore mãe para o chão duro das erradas mãos, todo o hospital ficou reluzente de poderosos holofotes interiores. Por uma semana aquelas sombras de uma culpa ancestral não mais atormentavam meus olhos, mas foi só por uma semana. Inesquecíveis dias de inigualável desfrute... Nesse momento de minha vida senti a presença profunda e confortante de Deus. Apagadas a luzes da cena neonatal volto a navegar nas impossibilidades prováveis, só respirando de quando em quando contemplando algumas paisagens cujos climas revelados por um quadro, um poema, uma música, uma dança, um livro, um conto ou barulho da geladeira me traziam paz ou uma calma momentâneas. A minha verdade não basta, cansei. Sou fraca e tenho medo. Querido José sei que estás cansado e que seus olhos já não vêm grandes frestas de luz por essas linhas, mas um dia também vi a foto de sua história. Sua querida Gigi, ainda pequena ao lado da mãe, elas estavam em uma praia. Desviei o olhar, aqueles olhos, pois me pareciam muito tristes, mas em sonho olhei novamente a foto.  No início Gigi estava apenas posando para a foto, os braços estavam abertos e um sorriso meigo marcava-lhe os lábios, como era seu costume. O gesto era fixo, as cores eram meio pálidas, aí comecei a admirar seus longos e magros braços e observei que eles se moviam, e o gesto se repetia. Ela abria os braços e sorria segurando-os abertos para a foto e a cena se transformava novamente estática. O vento soprava, ela estava feliz e várias contemplei a mesma cena. Então fiquei sabendo que estava sonhando e me diverti muito observando aquela foto que se movia ao reverso. Seus braços eram lindos, ela tinha uma leve e transparente camisa de seda, de manga longa, de tons escuros, mas que deixava ver todo o contorno e a forma especialmente alongada de seus braços e mãos. Era um gesto muito, muito bonito... Fiquei pensando naquele movimento, no que me atraia para ele, se era o como era realizado ou se era pela forma especial daqueles braços. Ninguém poderia fazer aquele gesto, era preciso ter aqueles braços bailarinos. Na mesma noite fui ver o Lago dos Cisnes por uma companhia russa, e vi vários braços como aqueles do sonho. Mas elas definitivamente estão no mundo dos sonhos. A vida é tão breve! “O homem é como um sopro, os seus dias como a sombra que passa”. A sombra de uma cruz no telhado de uma casa. No dicionário a definição de cruz é: instrumento de suplício; tormento. Cruz o que é a cruz? Um signo maior do cristão? Um símbolo de morte? Morte da vontade e desejo não satisfeitos. Bom, essa cruz parece me dizer: você nunca será satisfeita sua vampira!!!!! Essa forma cruzada, forma de homem de braços abertos...  “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou” (Gênesis 1:27) e essa imagem ficou sendo o símbolo da morte do homem natural que em Jesus tomou sua forma pela crucificação, uma forma vazia assustadora se não olharmos além da sombra, além do gesto (cruci)fixo. Fotos, fotos, tirar uma foto é como crucificar a cena, a vida. O paralelismo das formas na pausa do movimento. Jesus Cristo foi o sacrifício vivo de Deus na forma humana, o cordeiro de Deus, que liberta de toda a escravidão do desejo e da vontade humana caída e insaciável. E que vem a nós ainda como espírito vivo e intensificado, independente da nossa condição, basta-nos crer nesse Espírito, na unção desse Espírito, a qual é poesia divina aos ouvidos humanos, aquela que jamais fica presa nos paralelismos da morte. O qual a tudo ilumina e dá a verdadeira vida, aquela que se movimenta e sorri de alegria. Fora de Cristo me sinto sempre errando, por isso preciso de Jesus, para não morrer para a Vida! Não sou nada forte, sou muito, muito fraca e preciso de Jesus como o doente precisa do Sol e da Luz para nutrir os seus fracos ossos! Sem ele eu sou um monstro de dor, devorador que nada, nada satisfaz. Tenho inveja da Gigi, pois ela teve você que a confortou por muito anos nessa surrealista vida. Comer ovos mexidos por ti, foi um conforto. Também outro conforto de ovos rolou pelas costas do meu velho espírito cansado, em memórias da China, gestos de comemoração a mais um ano de vida. Observar a dor dos corpos que se movem me emociona, muitas vezes matizados, densos, inesperados, criados, recriados. Como não chorar diante da revelação do espírito do corpo que se reconhece alma e da alma que se reconhece corpo? E essa música que me acompanha sempre, há tanto tempo... Será o prenuncio dos ritmos da eternidade? Como é a dança na eternidade? Não falo da dança da morte, pois essa já sabemos os seus sincopados passos. Querido José das Marias errantes, do reino encantado dos Merlins, um José de fé, de olhar afago e sentimento calado, calmo como as calmas almas dos girassóis que nunca olham para o escuro ou as sombras, e de um otimismo panglosiano. E agora José? Onde está o sentido das palavras, elas me enjoam? E as saudades errantes? Que dor é essa que dói e dá medo? Medo do fim? Que bobagem, todo dia é findo. Tenho medo das pessoas e das crianças que não tem para onde ir. Tenho medo de perder as pessoas que conheci nas esquinas dos dias, e vivo perdendo todas elas, assim como te perdi. Também tenho medo do tio que fuma o cigarro até o fim, do amor que ficou esquecido em algum lugar quando eu tinha sete anos. Agora contemplo no telescópio da memória a lua silenciosa a iluminar a escuridão do desejo insatisfeito, da dor do infinito. No pano de fundo da rotunda preta do universo disputam espaço as apagadas estrelinhas, algumas tão cansadas, sem a chama da juventude, apenas reluzem um brilho já passado em sua extática dança. O palco do céu anoitecido não deixa de ser um triste espetáculo, naqueles dias em que a lua quer ser estrela soberana sobre os desejos das femininas ondas, fases vingativas das minguas do peito insatisfeito. Agora contemplo sons de páginas rasgadas que se fazem presentes, gestos de libertação em fragmentos picados os quais marcam o passado emitindo os seus derradeiros grunhidos não mais a deriv(ar). Lanço ao (m)ar as ressacas e as culpas, as âncoras e os pára-quedas, os remos e os homens. Não mais andarei na vaidade dos meus próprios pensamentos.

 

 

Maria 

 

Jurados

Marco Antunes: Nossa função aqui é bastante ingrata, pois temos que fornecer pistas ao escritor dos pontos em que seu trabalho não foi tão bem sucedido. Neste conto de belas passagens há alguns problemas que preciso destacar: a anteposição de adjetivos, que em algum ponto da história da estética da nossa língua já produziu belos efeitos, sofreu o desgaste do uso e se tornou um desagradável clichê, quase uma cacofonia que se tornou símbolo de desconhecimento da naturalidade reclamada (nos dois últimos séculos talvez) pela literatura contemporânea, afinal literatura e oralidade são inseparáveis. O aspecto monolítico do texto é definitivamente antipático para o leitor, pois torna a leitura quase exasperante, parágrafos existem para serem usados! O momento do texto em que ele se confunde com pregação também é muito incômodo! Senti vontade de sugerir ao autor que assista ao filme “The Big Kahuna” (não me recordo o título em português porque é simplesmente ridículo!) com Kevin Spacey e Danny DeVito que dirá melhor do que eu da inadequação da mensagem religiosa fora de seu contexto  próprio. Nota 8

Cristiane Brum: Confesso que tenho uma certa dificuldade com narrativas de “viagens interiores”. Provavelmente me faltam sensibilidade e paciência para captar todas as nuances de sentido que o (a) autor (a) criou. A avaliação, portanto, será sempre prejudicada. Cumprindo com a tarefa, contudo, creio que não consegui entrar no ritmo do conto, nem compreender bem a sua dimensão. Não identifiquei o ponto principal da história, que provoca a reviravolta da personagem: a agressão contra o empregado, o nascimento do filho ou a descoberta de Deus? Ou tudo junto? Nota 8

Liana Ferreira:Há uma voz que se pode reconhecer nesse texto, mas na verdade não se ouve senão essa voz, e não é possível dizer o que ela de fato exprime, apesar da angústia, da desolação e da falta de saída do enredo. Será real ou sonho? Será um quebra-cabeça? E quem será assim? O autor e o texto? Ou um e não o outro? Embora cite Voltaire, lembra Kafka. O certo, parece-me, é que estamos diante de um enigma. Melhor seguir o desejo do autor e não decifrá-lo. Nota: 8,5

Cida Sepúlveda: Texto poético, sem conflito (entenda-se ação). Linguagem rebuscada, muito adjetiva.  Nota: 8,0

Luci Afonso: Belas imagens, ritmo vertiginoso. A partir da metade, o texto se torna de difícil compreensão. É preciso uma pequena revisão ortográfica  Nota: 8,5

Total: 41

 

Conto 3

Bom dia

Ari  Gurcz

 

    Bom dia , dizem os que entram, Como está hoje? Como se se importassem de verdade, como se realmente quisessem saber. Qual nada. Um gesto automático, como o atenciosamente que se põe no fim das correspondências. Entram e Bom dia senhor, como vai hoje? e abrem as cortinas do cubículo e mexem nas coisas, puxam o lençol, levantam o encosto da cama, na hora do remedinho. Que remedinho? Que remedinho?! É remedinho, é lanchinho, é sopinha. Tão pensando que eu sou criança, que estão lidando com um retardado? Vamos tomar um banhinho? E se eu quiser ficar sujo, fedendo, o que é que eles têm com isso? E se eu não quiser a gosma da sopinha, se eu não quiser a porra do remedinho? Não, mas eles não dão chance, Abre a boquinha, e enfiam o memedinho no meio da goelinha e se não tomar cuidado você acaba engasgando e quando estiver quase sufocado, azulzinho, azulzinho, a enfermeirinha lhe enfia um tubinho pra aspirar a rolha que ela mesma enfiou. Aí o seu pulmãozinho quase sai todo pela boca enquanto você se esgoela de tanto que tosse até que vomita. Ai, que feio! Tem que engolir tudinho. Agora, vamos ter que tomar outro banhinho. E começa a sessão. Você fica nu na frente daquelas moças que lhe tiraram a roupa sem qualquer cerimônia. Começam a lhe esfregar com bucha e sabão sem perguntar se podem, se doendo, se você está constrangido. Esfregam tudo. Todas as dobras, todos os buracos, todos os recantos que nem a gente costuma lavar com tanto afinco. E fazem isso como se estivessem na lavanderia. Conversam umas com as outras sobre os namorados, os filhos, fofocam sobre a vida do chefe, dos colegas, das artistas de televisão, da novela. Da novela sabem tudo. Sabem quem namora com quem, quem trai quem. Agora, de quem está ali, sendo revelado, lavado e enxugado, não sabem nem o nome. Lidam com nossas partes com uma desinibição impressionante. É que não são as minhas partes que elas vêem e pegam. São assim como um tapete, uma toalha, a louça de casa, é assim que a gente se sente, como se fosse uma vasilha sendo lavada e enxugada. Elas têm um trabalho pra fazer e fazem, é simples. É como se a gente não estivesse ali.

     Talvez não esteja. Talvez só parte de mim tenha ficado. Qual parte? Que parte terá sobrado do acidente? Qual devo esperar encontrar de novo? Tenho pouco controle de mim. Desse lado o braço não mexe. As pernas, o que haverá sobrado delas quando tirarem o gesso? Não dá pra falar com essa tubo de metal enfiado na garganta. Quando será que eles vão tirar isso? Há quanto tempo me tiraram das ferragens? Não vejo luz que não a do teto. Minha noção de dia e noite deve estar meio bagunçada. É noite se durmo, é dia se estou acordado. Se estou acordado, melhor que dormisse. Podia sonhar em não estar aqui, a mercê das lavadeiras, dependente dos ditadores do remedinho. Ai, que dor estar assim! A independência sempre foi a minha vida. Nunca dependi de ninguém desde que desmamei. Na casa do meu pai, ninguém sabia onde eu estava ou o que fazia. A liberdade é o que eu queria e o que eu tinha. Os diretores, os professores, coitados, esses penaram tentando me dar um rumo. Eu lembro do dia em que assisti no teatro da escola um professor dizer vermelho, com as veias do pescoço saltadas “Não sei por onde vou, Não sei pra onde vou, Sei que não vou por aí”. Era José Régio a por em palavras o sentimento que me animava desde sempre. Pra mim não era um poema, era um vaticínio. Os caminhos fáceis, já desenhados, esses eu não queria pra mim, que ficassem com os acomodados. Acomodado eu nunca fui. Sempre procurei o diferente, o constestador. As coisas que me obrigavam a fazer, fazia do jeito mais inusitado que podia inventar. Nunca quis uma casinha branca com varanda, nunca quis ser estável. Nunca fundeei. Mudei de cidade, de estado, de país. Corri mais trilhas, saltei mais valas, tive mais namoradas que qualquer outro que conheci. Tive mais amores que amigos. Algumas vezes cheguei perto de amar, umas poucas. Mas, sempre que sentia que ficava sério demais, estável demais, sereno demais, sempre que as escovas de dentes delas dormiam no meu banheiro por mais de duas semanas, meu José Régio gritava lá do fundo, Não vou por aí!, e não ia.

     Pra onde vou agora? Já não me chamam, Vem por aqui, já não me abrem os braços, me levam e trazem e viram e lavam e furam e viram do avesso. É pro seu bem, é o que dizem. Quem sabe? Não eu. E se não me levassem, onde estaria agora? Quando sair daqui, quem sairá? Pra onde, nessa cidade estranha?

     Bom dia, vamos tirar esse tubo da garganta? Aí o senhor vai poder falar e nos dizer seu nome, onde mora. bom? Claro que bom, tira isso, é tudo que eu quero agora.

Quando eu puxar vai incomodar um pouco, o senhor vai tossir... e tusso, tusso, tusso. melhor agora? Ai, que alívio! eu ouço a minha voz. Está mais rouca, mas é a minha voz. Como é seu nome? Eu ouço a minha voz, mas eles parecem não entender o que eu digo. O que é que estão olhando? Que é que errado? Calma, calma, não adianta se agitar. Calma, o cacete! Eu dizendo que... vocês não estão entendendo? Minha voz saindo, eu escutando! Sua fala pode voltar ao normal, é só ter paciência e com a fonoaudiologia... Minha voz saindo, eu consigo ouvir... e se eu gritar? Calma, assim o senhor não ajuda. Eu não quero ajudar! Eu quero sair daqui! Não me dá mais remédio, o que é isso que vocês estão me dando? Eu não consigo que eles me entendam. Eu não quero dormir! Eu não quero dormir... a noite... amanhã...

     Amanhã o senhor vai estar melhor, tente relaxar... (Vem por aqui.)

 

 

Jurados

Marco Antunes: O conto é verdadeiro, honesto e profundo. O que mais dizer?. Nota 9,5

Cristiane Brum: A identificação do leitor com a personagem é quase instantânea, afinal quem não se sentiria preso em uma situação como aquela? Quem não ficaria incomodado ou constrangido ao ter consciência de sua impotência diante da ação dos outros sobre si mesmo? Creio que há muito a ser explorado no conto, mais que o aspecto prático da questão. Gostei do tom ácido e revoltado, que aproxima sem melodramatizar. Nota 9.5

Liana Ferreira: O autor consegue descrever bem o angustiante desconforto provocado pelo desencontro entre um cérebro ágil e um corpo que já não corresponde, que não obedece a comandos. Mostra-nos, também, como o contato diário e permanente com a miséria humana pode tornar algumas pessoas insensíveis. Nota:9,0

Cida Sepúlveda: A idéia está excelente. O conflito, claro. A finalização também. Mas a linguagem do protagonista é muito explícita e comportada para alguém que está ansioso, irritado; este é um ponto a ser retrabalhado. Nota: 9,0

Luci Afonso: Texto bem interessante. Só não identifiquei o “evento aparentemente banal” pedido no desafio — não pode ser o grave acidente sofrido pelo personagem. Bom final.  Nota: 8,5

Total: 45,5

 

Conto 4

 

Vida de flor

Cinthia Kriemler

 

É hábito meu antigo apreciar jardins. Eu poderia olhar e me encantar também com o céu, todos os dias, mas o céu às vezes fica tão bravo, tão bravo que se derrete em lágrimas! As flores têm sempre melhor humor.

                              

Faço caminhadas diárias, comandadas pelo medo de sentir cessar as batidas do único amigo verdadeiro de uma existência inteira. Não me importo de ser velha ou jovem.  Não me impressionam as rugas, a perda de visão gradativa, a imperfeição dos dentes. Para tudo isso, se eu quiser, há remendos humanos. O que me importa é muito mais que um amontoado de pendengas físicas. Eu quero vida! E foi dessa senhora, que de nós se separa apenas uma vez, que meu coração recebeu avisos para se cuidar!

 

Mas não me basta caminhar e assumir a rotina do passo a passo em frente a casas inertes, prédios-esfinges. Isso me irrita, me fatiga a paciência que já se faz tão curta. Para desfazer esse cansaço que as coisas imóveis costumam provocar, eu me distraio, em qualquer caminho, perscrutando jardins. Sou capturada pelo frescor de uma alameda, pela cor de um ramo florido, por uma folhagem que brinca com as nuanças do verde.

 

Prefiro, com toda a certeza, um tal jardim que fica na rua de cima, a despeito mesmo do pequeno aclive que preciso encarar no caminho. É um jardim irregular, desses que talvez escape a olhares mais estéticos, mas é tão, tão... coerente que não permite reparo!  Ostenta uma poda necessária, mas não excessiva, uma ordem desorganizada no plantio das flores, um inteligente desprezo pelo convencional.

 

Parada em frente ao muro baixo que me separa do universo de seivas, medito sobre a beleza das coisas que não têm padrão. É um jardim com caráter. Tem sofrimento plantado aqui. E esse muro simbólico que o circunda é somente uma sentinela a proteger algum recato.

 

Abaixo a mão furtiva sobre uma cinerária lilás e arranco-a da folhagem cinza com a sofreguidão dos invasores. Pego a menorzinha de tantas, para que meu pecado tenha igual penitência. Tomo cuidado em não pisar na grama e respeito o rubro de um hibisco que parece se envergonhar do meu atrevimento.

 

Dias após dia, incentivada pelo sucesso do primeiro delito, furto de novo. E o instante da posse é sempre afogueado e pleno.

 

Mas o que é isso? Tenho a sensação de um olhar sobre o meu ato! Talvez seja mais sensato cumprir a vontade imediata dos meus tornozelos...mas correr é prova do delito! Melhor ter certeza, primeiro, de que há mesmo um olhar. 

 

A janela da frente é a minha primeira opção. Subo os olhos medrosos até a vidraça entreaberta, preparando um sorriso convencional e uma fala improvisada.  Ninguém está lá.  Olho para a porta, percebendo a solidez das trancas e desejo ser menos cismada. Mais que coisa! Soltar um suspiro logo agora! Os suspiros sempre acompanham os malfeitos. Olho para o céu, disfarçando a busca e é exatamente neste giro de olhos que me choco com a presença de um homem me encarando da varanda do andar de cima.

 

- Bom dia... – arrisco.

 

Um aceno de cabeça é tudo o que recebo do taciturno.

 

- Desculpe ter arrancado uma flor. É que o seu jardim é tão lindo! – Arrancar? Como então começo a minha confissão de culpa comprovando a brutalização daquele montinho lilás que escondo atrás do corpo!

 

Recebo um frio “Está certo” distorcido pela grata distância entre nós. O homem se volta e entra, me deixando com a lembrança incerta de um sujeito alto, magro, de meia-idade, assim como eu. Chego a imaginá-lo pálido, mas não sei se há espaço suficiente para garantir essa percepção. Ele se foi rápido...E eu me vou mais rápido ainda!

 

Enquanto caminho, suada pelos passos apressados da fuga, enfrento o fato de que o meu bom humor está em frangalhos. Eu me tornei uma assassina de flores! Arrancando as pequeninas da sua mansão de sol, chuva, vento, liberdade! Destruindo suas forças, roubando-as da companhia amiga de outras flores! Aquele homem frio e taciturno de meia-idade é, agora, por minha causa, um criador sem criatura. A vida que tanto almejo reter é a mesma que arranco de uma simples flor de jardim!

 

Não estou acostumada a me ter como egoísta, muito menos a pensar em mim como alguém propenso ao fim das coisas. Sou pelos começos, pelas permanências, pela duração. E é por isso que decido não cessar os meus passeios matinais. Não posso permitir que nada além de uma noite de sono me separe das caminhadas que me fazem tão bem. Nem a descoberta do desequilíbrio que faz de mim uma mulher de contrastes.

 

Hoje, caminho por outras ruas, outros quarteirões, mas...não adianta!  Meus pés se contorcem teimosos em direção àquele aclive. Melhor não resistir à ansiedade que me descompassa o coração. Isso pode ser fatal. É preciso promover um cara-a-cara urgente com os acontecimentos.

 

Estou aqui, de novo, nesta rua tão prazerosa. Tomo fôlego porque a tarefa é árdua: preciso pedir perdão às pequeninas.

 

Sobre o murinho, me enfeitiçando, um gladíolo alaranjado, ainda fresco. Parece deitado à espera de alguém. De mim?!?  Impossível! Que pretensão sem sentido!  Mas está aqui, solto, lânguido, sem dono. Então...é meu!  E o perdão vai esperar por outra hora.

 

Já faz dias que é assim. Talvez semanas, porque mesmo agora que o inverno chegou, e as flores se recolheram para dormir um pouco mais, encontro no muro, a cada dia, uma rosa, uma cinerária, uma margarida. As minhas noites se resumem à antecipação da flor da minha manhã.

 

Vez ou outra, levanto os olhos e recebo o mesmo contido aceno daquele homem alto, magro e de meia-idade. Existe aconchego no gesto diário desse amigo que não conheço. 

 

Não me sinto mais ceifando a vida das flores. Recebi, num sussurro de folhas, o segredo das pequeninas, a me dizer que foram mesmo feitas para serem arrancadas. São como as pessoas: germinadas com um destino. Têm começo, meio, fim. Inquietam-se, gemem, choram, rejubilam-se. E aí, brilham. Como as pessoas. Depois se vão para um não sei onde, cumprido o seu papel na perfeição de Deus.

 

É com as flores que a minha crença miúda se converte. Não há mais o Deus que tripudia de mim despejando nos meus anos dor, velhice, morte! O Deus das flores me diz para arrancar o que eu preciso. E diz a elas que se doem a mim. Não há culpas.

 

Olho as pequeninas estendidas preguiçosamente ao sol e me lembro das pessoas que esbarraram em mim durante toda a minha vida, ora me entregando cor, beleza, frescor, ora me pedindo ajuda, conselho ou simples companhia. Penso em quantas vezes arranquei essas flores e em quantas vezes me neguei a ser arrancada. A gente entrega o que tem, recolhe o que precisa...até que de tanto retirar e repor chega, enfim, a hora em que cessam as barganhas. 

 

Amanhã, eu venho de novo. Quero dizer olá ao meu amigo que não conheço e agradecer a ele cada flor que o muro me entregou. 

 

Pode ser que eu aprenda com ele a remexer a terra, a plantar, a saber o momento de colher.

 

Quero essa vida de flor que ainda tenho tempo para começar. Quero ser eu também semeada, e cuidada, e afagada. Quero ser um jardim. 

 

E quero ser arrancada todos os dias. 

 

 

Jurados

Marco Antunes: Que arrepio! Meu Deus, como eu adoro isso! Quero dizer, esse momento único e quase indescritível que minha curiosidade pela alma humana encontra num texto literário a satisfação perfeita! É raro! É tristemente bissexta essa sensação, mas só porque ela existe é que .volto todas as manhãs aos jardins dos livros e entre as folhas, procuro a flor. E eu também arranco e guardo para sempre sem pudor nem culpa!  Para esse momento nasci! Para encontrar o texto humano, vivo e inquestionavelmente perfeito! Nota 10 (queria poder dar mais, porque, finalmente, neste concurso de tão notáveis textos, encontrei a plenitude: Poesia e verdade!)

Cristiane Brum: Muito legal a comparação da vida humana com a vida das flores. Achei singelo e bastante lírico. Gostei também do fim do conto.. Nota 9,5

Liana Ferreira: Enquanto caminha para manter a saúde do corpo a personagem cuida da alma roubando flores, e assim vai desenredando a meada de seus próprios sentimentos. Um texto leve, cheio de romantismo e bem desenvolvido. Nota:: 9,5

Cida Sepúlveda: A idéia é excelente. O diálogo com o observador, a mulher-flor, flor-mulher, ser cultivada e arrancada. A linguagem pode ser melhor lapidada, para dar ao texto mais fluidez. Por exemplo, o parágrafo inicial é dispensável, pode-se dizer que está anacrônico. Nota 9,5

Luci Afonso: Profundo e comovente. Sublinhei várias frases que me emocionaram. Dá vontade de reler muitas vezes.  Nota: 10

Total:48,5

 

Conto 5

 

Águas de outubro

Washington Dourado

 

Fim de outubro, sábado. Da rede na varanda, observo a chuva fininha, indecisa. Cheiro de terra molhada, as plantas ressequidas parecem agradecer o alento.

 Lembro a música do Tom. Está chovendo na roseira, chuva boa e prazenteira. Distraído, olho os pingos que rolam das folhas e caem. Cristalinos, límpidos. Penso que são água destilada que cai do céu. Não importa de que sujeiras faziam parte aqui na terra. Sobem aos céus isentas de toda a impureza e um dia descem à terra para lavá-la.

 Com um sorriso bobo nos lábios, sem pensar em nada, fico olhando a chuva.

 As gotas caem num ritmo lento e contínuo. Pingam, pingam limpas, pingam puras. Gotas destiladas. Destiladas como  água de injeção, como o soro que goteja do frasco para a veia. Uma a uma. Vinte, trinta por minuto.

A distração custa caro.

Abduzido num piscar, deixo o corpo desabitado balançando na rede. Um clique num link mental e sou arrastado de volta ao Pronto Socorro.

Vejo o soro, acompanho o fluxo aquoso que passa pela agulha que entra na veia e percorre o fino braço.

Imóvel, ele me olha. Olhar cristalino, vítreo, que reflete minha cara, minha  máscara. Córneas de olhos de boneca, quase opacas. Por instantes parece me reconhecer e acompanhar. Quando isto acontece, me incomodo. Não sei se está naqueles olhos fixos em mim ou em mim tal sentimento. Nem sei se de dor ou desespero. Olhar indecifrável, face inexpressiva, corpo devastado.

  Entregue, incondicionalmente rendido. Olhar vago, mas por vezes parecendo expressar tanta dor, tanto desespero -em mim ou nele? Que não consigo fitá-lo por muito tempo. Perco o duelo, tomara que ele não esteja tentando me decifrar.

Não é simples definir o sentimento. Não é apenas a solidariedade, a natural simpatia por um ser humano que perdeu tudo, até a si mesmo. Sem família, sem amigos, só tem a nós. E nós, sabemos, somos tão pouco! Há também a repulsa. Não só estética por aquele corpo carcomido, mas pelo que tem de espelho. Vemo-nos tão vulneráveis quanto ele, sem garantias. Ele está ali para nos lembrar. Nosso semelhante, reconheçamos ou não.

            A ausência de mímica facial, a completa paralisia, a flacidez daqueles músculos não excluem a possibilidade da dor, e pior, da consciência de sua condição deplorável. 

Aquele olhar me invade. Envergonho-me. Ele parece ler nas entrelinhas do meu rosto os sinais de fraqueza ante a sua doença. Tento adivinhar a dor da carne e a consciência, apenas presumível nos olhos, que não se pode exprimir por gestos ou palavras.

Olho o soro que, como a chuva, hesita em cair.

Penso no suplício do Prometeu acorrentado. Os abutres devorando-lhe o fígado. Inúteis os lamentos. Pior é a condição do desgraçado à minha frente, que, transido pela dor excruciante, apenas pelo olhar poderia tentar exprimi-la. Nem um movimento, nem um ai lhe é possível.

 Diariamente médicos, enfermeiros, auxiliares passam, examinam, olham, e não vêem a enormidade desta dor. Ela não aparece em exames. Eles não podem, não sabem, não querem, não têm como vê-la.

Meses de internação sem progresso e, ontem, na avaliação rotineira, encontrei aquele olhar. Ele me encontrou? Teria sido uma nova expressão no olhar de sempre? Ou teria sido diferente o meu olhar?

Oprimido pela sensação de impotência, tratei  de desviar meus olhos e continuar o trabalho, mas é outubro, chove e as lágrimas que se juntaram nos cantos dos olhos mortiços escorrem e pingam, pingam límpidas, cristalinas; como as gotas de chuva, que rolam das folhas da roseira e caem à frente de minhas retinas. Inundam de dor os meus olhos, embaçam-me a visão, encharcam e estragam definitivamente meu sábado de folga.

 

Jurados

Marco Antunes: O texto é muito bom, de fato uma narrativa muito cheia de estilo e vibrante. Mas aquela impressão única que o conto promete deixar (que já me referi acima em outro julgamento) é de que faltou alguma coisa, de que a plenitude não foi atingida, o autor, para usar de uma metáfora, não deu o truque e o êxtase da mágica , aquele que sempre se anuncia num suspiro, não aconteceu. A platéia aplaude a coreografia do número e o figurino do Mágico, mas ficou faltando aquele algo mais que é - para quem o lê ou vê tirar o coelho da cartola – o maravilhoso segundo em que o coração se perde entre o real e o impossível materializado, como se tivesse tirado das mangas um anjo travesso que, por um átimo aboliu a realidade plausível e nos deixou vislumbrar o fantástico de um mundo que, sim, tem sua realidade, mas que existe em paralelo à vida! De modo que no presente conto, temos um “quase”!    Nota 9,5

Cristiane Brum: A dureza da situação – novamente o tema da doença, afinal o que tememos mais: a morte ou a dor? – obviamente aproxima o leitor da narração. Achei o tom do texto bastante opressivo, ainda que correto. Talvez pudesse ter explorado melhor as modificações que a situação provocou na personagem: ela já havia se dado conta do sofrimento ou foi a primeira vez que enxergou a realidade do paciente? Senti falta disso. Nota: 9

Liana Ferreira: O texto tem bom ritmo. É pequeno mas tem densidade. A personagem é invadida por uma melancolia súbita ao pensar no paciente moribundo que, através de olhos profundamente tristes e opacos, lembra-lhe de como é precária a condição humana. Nota:: 9,8

Cida Sepúlveda: Obra-prima. Nota: 10

Luci Afonso: Título sugestivo para um texto em que a água pode ser chuva, lágrima, vida, morte. Gostei da imagem “pingam limpas, pingam puras”, sugerindo a sensação de culpa do personagem. A viagem interior ficou abreviada.  Nota: 8,5

Total: 46,8

 

Conto 6

 

Identidade

Roberto Klotz

 

– Aposto que se o escritor fosse brasileiro a fila dos autógrafos não seria a metade do tamanho. Comento puxando conversa com o moço da frente.

– Este não é qualquer escritor, trata-se do grande Ian Lewis Green.

– Você já leu “O maior colecionador de sorrisos”? – Pergunto para provocar o diálogo.

– Não só li como também grifei um monte de passagens sensacionais – Olhe só! – Adorei a história do açougueiro que vendia flores carnívoras.

A senhora que estava atrás de mim, posicionou-se de modo a comentar que preferia aquela do menino que ia descalço para a escola.

Enquanto trocamos impressões e lembranças a fila caminhava lentamente até a mesa do escritor. De sorte que, de meros desconhecidos, passamos a ser um grupo que discutia entusiasticamente os escritos daquele genial inglês.

A três metros da mesa começamos a nos despedir e a nos apresentar oficialmente.

– Meu nome é Romeu Andrade, foi um prazer conhecê-los. – e prestei uma leve reverência com a cabeça.

– Sou Gustavo, satisfação. – E estendeu-me um cartão de visitas.

Imediatamente recebi ainda os cartões do Prof. Sílvio Aguaforte – Geógrafo, de Beatriz Faria Cerqueira Carvalho – Gerente Comercial e do Dr. Fabrício Freitas Emiliano Júnior – Ortopedia e Traumatologia.

– Desculpe, meus cartões acabaram. – Minto constrangido, o meu contém apenas o meu nome, telefone e endereço.

Fui socorrido pelo fotógrafo de plantão, que cobra para registrar os fãs ao lado do ídolo. Assenti e ele estendeu-me o cartão profissional.

Francamente, nem me lembro se Mr. Green assinou meu livro ou se o fotógrafo disparou o flash. Aliás, nem lembro onde deixei meu livro. Continuo na recepção como um zumbi. Recordo-me apenas que eu preciso mandar fazer novos cartões de visita.

Circulando no meio dos desconhecidos percebo a importância daquele pequeno papel com letrinhas auto relevantes. Eu não sou um João Ninguém. Quem sou eu?

– Sou Romeu Andrade.

– Romeu Andrade, quem? – Pergunto a mim mesmo.

E eu mesmo respondo cheio de determinação: – Romeu Andrade, basta isso. – E repito hesitante: – Romeu Andrade. Preciso mais que isso?

– Sou Romeu, jogador de vôlei da universidade. Enxergo-me sacando o cartão com letras esportivas, tendo ao fundo uma rede e uma bola colorida, com as mulheres disputando meus cartões e admirando minha jogada. A bola cai no chão. Ponto do adversário.

De forma geral antes do nome as pessoas acrescentam o título de professor, coronel ou engenheiro, conforme cada caso, no meu, orgulhosamente, escrevo campeão. Como será que se abrevia campeão? A bola vai ao chão novamente. Outro ponto do adversário. Talvez eu tenha que me apresentar de outra forma.

Ignorando aquelas pessoas que estavam no salão de mármore branco continuo a circular lentamente enquanto converso com minha carteira, ávida por um cartão de visitas profissional.

Monto meu cavalo árabe e num brado altivo, anuncio: – Sou Visconde Romeu Andrade. – Este sou eu, quase um rei, pertenço à mais alta linhagem aristocrática brasileira. – Empunho um cartão bem comprido, afinal embaixo do meu nome está escrito: tataraneto de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência. Isso que é cartão, o resto é papel de rascunho.

– Quanto mais alto o cavalo, maior o tombo. – Concordo comigo e imagino alguma apresentação mais adequada, menos real e com mais realidade.

Empolgo-me tanto com a possibilidade de possuir a minha identidade impressa em pequenos papéis que, enquanto caminho, gesticulo no meio da multidão de leitores e tomadores de vinho. Sirvo-me de um canapé e continuo o meu questionamento.

– Romeu Andrade, pai.– Tiro do bolso da camisa do pijama um bilhete de visitas para marcar as páginas do livro de contos infantis. Sorrio paternal, o mais doce dos sorrisos, revivo aventuras, revisito castelos e conto segredos dos duendes. Por que não podemos nos apresentar como pais? Corro atrás do molequinho e junto com ele esfolo os joelhos. Não é isso que a sociedade espera de nós. Quem sou eu?

Acho que eu não estou apenas pensando. Pois o garçom, responde mal criado:

escrito na testa, o Mané, tu é maluco!

            Na mesma hora me recomponho e peço uma taça de vinho. – Tinto, por favor, e um guardanapo. Assim que o garçom se afasta me aproximo novamente dos meus pensamentos.

– Romeu Andrade, chef de cuisine. Em vez de cartão de visitas apresento um cardápio com a receita de um prato de realidade gastronômica. Ralar três anos na faculdade, assar trinta mil dinheiros em fogo alto, salpicar amor próprio e jogar no lixo do mercado de trabalho. Acompanha chá de lágrima derramada. O que fazer? – Imprimo papelão com a verdade da hipocrisia e falso poder.

– Romeu Andrade, assistente de relações externas – Sob o sol domingueiro abro a porta de mais uma casa, percorro e descrevo o imóvel como o mais aconchegante lar da cidade, depois mostro o mais nobre apartamento do bairro e finalizo a demonstração com meu cartão retirado do paletó cansado.

Imito a voz de uma mulher: – Ah, o senhor é vendedor?

– Corretor senhora, corretor. – Respondo categórico e olho encabulado para os lados para ver se aquele garçom não está me espionando.

Acredito que ninguém quer saber se sou pai amoroso, marido amante, profissional competente, filho agradecido ou bandido violento. Só querem saber de onde vem o dinheiro para comprar meus livros. Não querem saber se sou feliz, se estou estressado, deprimido ou conformado. As pessoas só existem como parafusos dentro de uma grande engrenagem corporativa chamada negócio. Peças sem qualidade ou defeito, porém com marca. As pessoas são logotipos ambulantes.

Olho para minha taça de vinho, a levanto em direção à luz e digo convicto: – Eu sou mais eu! Estou acima da etiqueta e das empresas.

Recebo dezenas de olhares assustados, volto aos pensamentos sem perder minha alegria conquistada.

A partir de agora, ao me apresentar direi orgulhosamente meu nome inteiro, Romeu Vilela Andrade. E, como faziam antigamente, dobrarei um cantinho significando que o cartão foi entregue pessoalmente.

As pessoas saberão quem sou ao lerem o verso nas letras transparentes: responsável, sincero, criterioso, bondoso, trabalhador, generoso, persistente, esforçado, honesto, leal, objetivo, íntegro, mentiroso ou gozador.

O primeiro a receber o cartão será o garçom.

 

Jurados

Marco Antunes: O fato que mais me impressionou neste concurso é a dificuldade que muitos demonstraram de sair de sua zona de conforto e realemnte enfrentar o desafio, algumas vezes, funciona bem, apesar da resistência em abandonar o gênero preferido, seja ele o introspectivo, o humorístico, o lírico, etc; outras, como o presente, infelizmente não só não funcionam  como, por razões específicas do humor, ainda conduzem o autor ao território da crônica. De certa forma o tema foi tocado, mas com olhos de turista, ou, como gostava de dizer certo amigo, com olhos de um suíço em trânsito (pode haver pessoa mmais neutra e pouco envolvida?). Pena, porque o autor (ou autora)  tem evidentes méritos! Nota 7

Cristiane Brum: Interessante a crítica à sociedade capitalista em que a questão da identidade se resume à profissão do cara – ou seja, sua função no esquema da divisão do trabalho. Mas creio que a “viagem interior” ficou meio pálida. A reflexão da personagem foi mais sobre a sociedade do que sobre si próprio. Pelo menos na minha leitura. Nota: 9

Liana Ferreira: Texto leve e interessante sobre as aparências que regem as relações sociais. O penúltimo parágrafo está sobrando. Nota:: 9

Cida Sepúlveda: Um belo conto. As digressões, a partir do meio, vão ficando excessivas...e didáticas. O tema é excelente, para não dizer fundamental. Nota: 9,5

Luci Afonso: Este texto me parece crônica, pelo tema leve e pelo tom divertido. Não cumpre o desafio e, só por isso, a nota.  Nota: 7,5

Total:42

 

 

Conto 7

Fábio, O Fobófobo

Antonio Cardoso Neto

 

E pensar que eu não acreditava nessas coisas. Bem feito! Quem me mandou mexer com isso? Se eu pudesse fazer o tempo voltar para trás... Não, eu não quis dizer voltar no tempo; é só força de expressão, quero ficar aqui mesmo, já chega o que tenho sido obrigado a agüentar desde a semana passada. Como é que eu poderia imaginar que aquela bobagem ia dar nisso? Se eu soubesse que era sério, não teria falado daquela maneira, com tanta convicção. Eu estava só brincando. Jamais imaginaria que ele fosse morrer de verdade. Quando falei em voz alta que entregaria minha alma ao diabo se o avião dele caísse, não imaginava... eu estava meio bêbado, isso... não imaginava que o avião fosse cair de verdade. Não que me sinta arrependido por ter falado que desejava sua morte, pois ele era um canalha que merecia isso mesmo. Também não tenho medo de que as pessoas que me ouviram dizer essa asneira lá no bar pensem que tenho alguma coisa a ver com a queda do avião. Estou apavorado é com Lúcifer, Belzebu, seja como se chame o demônio, Mefistófeles, sei lá. Não, não, não! Não estou invocando o capeta, estou me referindo a ele na terceira pessoa. Será que também não se pode chamar seu santo nome em vão? Santo nome, não. Não foi isso que eu quis dizer. Não estou comparando Deus a Satanás. Meu Deus, já estou começando a blasfemar...

Acho que vou enlouquecer, doutor. Faz quase uma semana que não durmo direito, não agüento mais. Que tormento! Não agüento mais! Meça a minha pressão, por favor. Estou com a boca seca; o senhor me arranja um copo d’água, por favor? Será que estou morrendo? Será que vou me encontrar com ele no inferno? Ajude-me, doutor, pelo amor de Deus. Essas pílulas são boas mesmo? Devo tomar assim, sem água? Ah, está o copo d’água! Obrigado, doutor, mas estou desesperado. Meu Deus do céu, por que fui me meter nisso? O fogo eterno...

Será que o diabo não é um servo de Deus, criado para encurralar nossas pretensas certezas? E se a realidade física for apenas um teste da nossa fé, e tudo for uma provação? Como é que se chamavam mesmo as árvores que existiam no centro do Éden, aquelas do fruto proibido? Não eram a Árvore da Ciência e a Árvore do Bem e do Mal? Pode ser que a Ciência seja um artifício arquitetado pelo Criador para pôr nossa crença à prova. Talvez a racionalidade científica não passe de uma emboscada para aqueles que não têm fé. Mas se for assim, será que Ele teria nos concebido só para provarmos que cremos Nele e que O amamos? Nesse caso, não teria sido mais cômodo se tivesse criado seres crédulos e acima de qualquer suspeita? Porém, como somos incrédulos e mal-agradecidos, pode ser que haja necessidade de que sejamos postos à prova continuamente. Mas se o Príncipe das Trevas estiver a serviço do Criador, há um lado maléfico na essência de Deus. Lá estou eu blasfemando de novo... perdão, meu Deus! É a tentação! O senhor acha que esse comprimido vai me fazer ficar livre do diabo, doutor? Por toda a eternidade...

Se Deus é onipotente, então Ele exerce controle sobre todas as criaturas, não é, doutor? Por outro lado, se Ele estiver limitado a engendrar apenas criaturas que se submetam à sua autoridade, Ele não é onipotente. Mas Ele é bom, e quiçá Sua infinita bondade O tenha feito preferir não ser assim tão onipotente e aceitar os caprichos do diabo, exógenos à sua vontade... mas como sou incoerente, doutor! Estou tentando demonstrar racionalmente que a racionalidade é uma miragem gerada pelo Todo-Poderoso. E tudo isso para provar para mim mesmo, por puro egoísmo, que se o coisa-ruim estiver a serviço da Providência Divina, eu não fiz mais que servir a Deus. O senhor acha que, além de incoerente, eu também estou sendo egoísta?

 

A minha boca não está mais seca como antes. Deve ser efeito do remédio. Como é que fui entrar nessa de horror? Estou morrendo de vergonha do senhor, que fiasco, doutor. Que papelão ficar ali como uma criança com medo do capeta, de Deus e de tudo. Que besteira. Agora estou me sentindo otimamente bem. Como a farmacologia se desenvolveu nesses últimos anos, hem? É uma coisa fantástica. A ciência é uma coisa fantástica. Ah, que disparate acabei de dizer. A ciência é fantástica, veja , doutor. Fantástica, a ciência, justo a ciência. De fantástica a ciência não tem nada; seus princípios incontestáveis se fundamentam na realidade concreta e objetiva. Ela é insensível aos nossos humores e angústias, pois a natureza é indiferente ao martírio do antílope ao ter sua garganta dilacerada pelas garras do leopardo. Se somos frutos de Deus, então também o somos do diabo, pois quem, além do diabo, poderia ter concebido uma obra de tamanha crueldade como a cadeia alimentar?

E a consciência, então? Eis outra obra demoníaca. Por que será que temos consciência, quando poderíamos funcionar muito bem se fôssemos autômatos? Sem cérebro a vida seria muito mais fácil. O sujeito nasceria como se ligassem um motor de arranque. Daí em diante, bastaria acionar o piloto automático e ir vivendo até morrer. Pode ser que não sentíssemos prazer, mas também não sentiríamos culpa, e não teríamos remorso de nada.

Mas é a consciência que nos faz raciocinar. Viva o Império da Razão! Veja essas simples pílulas que o senhor me receitou, doutor. Foi tomar, e pimba! Pouco tempo depois e aqui estou eu, bem humorado, contente; nem pareço aquele cara que na semana passada estava apavorado com o diabo. Esse negócio de alma, espírito, fantasma, é tudo conversa mole. A vida é pura química. Quer maior prova disso do que essas pílulas que tenho tomado? Estou me sentindo outro. E que outro sou eu além de alguns miligramas de substâncias químicas a mais? É isso. A vida é isso. Pura química, nada mais que isso. Não somos nada além de matéria bruta.

O senhor é judeu, não é? O que o senhor acharia se descobrisse que os cristãos, os muçulmanos e os judeus passaram toda a História prometendo um monte de tolices e se trucidando mutuamente por uma causa imaginária? E se a nossa consciência fragmentada em bilhões de mentes não passar de um delírio de Brahma ou de Buda, e tudo isso, inclusive as religiões monoteístas, for uma ilusão? E não precisa ir longe, até a Índia ou o Tibete. Conheci um irlandês que dizia que a realidade é uma alucinação causada por abstinência muito prolongada de álcool.

De acordo com os físicos que trabalham com Mecânica Quântica, qualquer observação interfere no comportamento das coisas. Segundo eles, a natureza muda seu comportamento quando tentamos esquadrinhá-la, fazendo com que a realidade seja inobservável, tornando, assim, inútil qualquer descrição que tentemos fazer dela. E se não somos capazes de conhecer nem o que nos rodeia, como é que podemos tecer comentários sobre o que está além da vida?

O senhor nunca ouviu dizer que a galinha é a maneira encontrada pela natureza para que um ovo possa produzir outro ovo? O primeiro a surgir foi o ovo, e a vontade do ovo é absoluta, doutor. O ovo usa a galinha sem a menor consideração pelas suas dúvidas existenciais, seus conflitos psicológicos e suas indagações metafísicas. O ovo não é mau; ele é apenas indiferente às aflições da galinha. Na verdade, é uma relação simbiótica a que o ovo estabelece com a galinha. Sim, pois é o ovo que impõe as regras dessa relação. A galinha não tem a menor escolha. Ela fica à procura do orgasmo o tempo todo, mas quem lucra com isso é o ovo. O orgasmo é a arma secreta da evolução e da seleção natural, que, por sua vez, são parte do estratagema construído pela natureza para que as espécies se perpetuem, e a gente passa a vida inteira trabalhando, descobrindo coisas e inventando moda, tentando justificar a existência, que, no fundo, não passa de um efeito colateral dessa estratégia montada pela natureza, para que um ovo produza outro ovo.

Passei a vida juntando meus cacos: uma parte andaluz, um pedaço veneziano, um quarto português e outro tanto meio desconhecido disputado entre batavos, provençais, quimbundos e tupinambás acorrentados aos grilhões inquebrantáveis de DNA. Nem eu nem ninguém somos culpados por agir assim ou assado, visto que somos fantoches da tirania genética; meros títeres manipulados pelos cromossomos. Ah, sim... também a herança comportamental que adquirimos como resposta à manifestação da sociedade na nossa vida pessoal. Mas a sociedade só existe porque nossa frágil espécie, não tendo garras nem couraça, foi forçada a viver coletivamente. Sempre que surge uma oportunidade, as pessoas preferem ficar sossegadas, longe da turba, e sabem que sexo é mais importante que política. Se a realidade é naturalmente injusta, só resta à sociedade transformá-la em algo artificialmente injusto. Cabe à sociedade racionalizar a injustiça inerente à existência. Tenho mais esperança no passado que no futuro da Humanidade. A vida mundana não tem o menor sentido, e a consciência não sobrevive à morte. Parece que foi Manuel Bandeira quem descreveu um defunto como sendo matéria liberta para sempre da alma extinta, não foi? Estou começando a ficar atormentado com isso. Que vazio, que abismo... como é que eu faço para sair dessa, doutor? Me ajude, por favor...

***

 

 

Jurados

Marco Antunes: O texto, obviamente, tem méritos, mas a ironia e humor e o racionalismo excessivo o prejudicam,  pois causam a incômoda percepção do desconforto do autor (ou autora) com o tema  mais subjetivo e sensível. Até consegue, em alguns momentos, driblar as hesitações e produzir um conto aceitável como conto(diferente do trabalho do autor acima que resvalou para a crônica) mas faltou aquela verdade orgíaca de quem se entrega ao tema e vai fundo, sem preservativos, na viagem interior – e, definitivamente, não senti mesmo o prazer do autor em vivenciar a experiência proposta, mas o que mais me incomodou foi o penúltimo parágrafo que resume o conto extraordinário de Clarice Lispector “O Ovo e a Galinha”, sem ter tido o cuidado de atribuir à autora sua origem. Mesmo modificado e sumarizante, não se pode prescindir de citar a origem. Mas o principal para a nota é mesmo o não envolvimento com a proposta! Que pena! Que pena que o autor (ou autora) se guardou de nós! E, se me permite a nota humorística, em literatura não se consegue fingir o orgasmo! Nota 8,5

Cristiane Brum: Haja pílula para resolver tantas questões existenciais! Fiquei um pouco incomodada, contudo, com o tom “humorístico” do recurso ao doutor. Achei desnecessário ao texto. Parece que o (a) autor (a) ficou pedindo desculpas ao leitor por tocar em temas tão profundos. Nota: 9

Liana Ferreira: As inquietações humanas diante dos mistérios do universo estão registradas nesse conto fantástico e perturbador. A personagem vai da crença na existência de forças sobrenaturais e de um ser superior, criador e controlador da vida, até o mais absoluto ceticismo, numa catarse existencial, movida a psicotrópicos. Nota: 10

Cida Sepúlveda:Maravilhoso. Nota: 10

Luci Afonso:  O conto dissertativo não é o meu preferido, mas não há como negar a qualidade deste texto, em que o personagem não consegue escapar dos seus tormentos interiores. Acho que todos somos um pouco fobófobos. Nota: 10

Total:47,5

 

Conto 8

Engano

Maria Raquel Melo

 

A cabecinha loira, cachinhos de anjo, jaz enterrada no ombro da mãe. A criança está sonolenta. Eu também. A fila para o embarque, rumo à sonhada viagem de núpcias, parece muito cansativa após uma noitada de festa. De perto, o casamento me parece uma viagem muito mais longa do que eu poderia supor.  Estou cansada, porém, realizada. Parte do caminho foi vencida. A festa foi perfeita. Como é perfeito meu noivo, agora marido. Como perfeita será nossa lua-de-mel, como perfeita, será a vida que construiremos.

            Ele é bonito: alto, forte, moreno. É inteligente e bem sucedido. Tenho todos os motivos para ser a mulher mais feliz do mundo, esse homem agora é meu. Ele também pode se orgulhar da esposa, me esforcei para isso. Quem olha o casal, admira-se. A beleza é confortavelmente perfeita, inquestionável. A beleza é feliz. Somos belos e felizes.

            À minha frente, na fila, a menina esfrega o rosto no ombro da mãe. Seus cabelinhos finos e delicados suscitam desejos de afago. Quase ouso tocá-los, mas meu recém marido detém o gesto carinhosamente: “Pode acordar a criança, deixa a menina quietinha, deve estar cansada”. Ele é sempre tão gentil e tão conveniente nas suas colocações, que chega a me parecer sensível. Tenho sorte de ter encontrado um homem assim. Vários convidados do casamento me felicitaram por isso. “Achou o seu tesouro, querida, agora cuide bem dele!”. Quem tem um tesouro é rico. Sou rica e sou feliz.

            A voz anuncia o atraso. Desmancha-se a fila de embarque. A mãe tem dificuldade para mover-se, carregando, ao mesmo tempo, a criança que dorme no colo e todas as bolsas que estão no chão, junto a seus pés. Ele é muito educado. Oferece ajuda para carregar a bagagem. A mulher responde num espanhol castelhano; é argentina. Meu marido é poliglota. Entabula uma simpática conversa com a jovem senhora. Um rapaz bonito, gentil, educado e poliglota. Escolhi para marido um homem perfeito. Isto é óbvio, basta olhar, um consenso. Estar perto da perfeição me aperfeiçoa.   Estar perto da perfeição é um privilégio para poucos.  Sou privilegiada e feliz.

            Ainda não vi o rosto da criança, mas os cabelos suavemente ondulados e  sedosos, me convidam para uma carícia. A pequena cabeça de madeixas perfeitas e aparência angelical me seduz. Com certeza, aqueles cachinhos dourados escondem uma beleza terna e infantil.  Sem perceber, estou sorrindo e, talvez por isso, a mãe me autoriza o carinho com um olhar. A menina ainda dorme. Aproximo minhas mãos da cabecinha, mas bloqueio minha intenção ao lembrar das orientações do meu marido. Ele sabe o que diz. Desvio o carinho para a cabeça do homem que fabriquei para marido, exemplar de beleza e inteligência. Acariciá-lo deve me fazer feliz. 

            Sentamos os três, mais a pequena, nas desconfortáveis cadeiras da sala de embarque. Pouco me importo, o conforto da perfeição me preenche. Estou ao lado do meu marido, do meu belo, educado, oportuno e sábio marido, prestes a voar para uma maravilhosa lua de mel, minha festa de casamento esteve impecável e, para completar, o universo conspira e traz para perto de mim, um anjinho louro que me inspira ternura e paz.

            Embalada pela satisfação de ter conseguido, enfim, materializar a vida que aprendi a querer para mim, sinto o sono me desacordar da realidade. A criança quer despertar e começa a chorar. Eu quero dormir. Tento me entregar aos mais primorosos delírios que minha mente é capaz de produzir, no berço aconchegante de certezas que me aquecem. Tenho o coração seguro, o futuro garantido e a minha existência está em perfeita ordem. Por mais efêmera que esta sensação possa ser, eternizo-a racionalmente  para manter-me em paz. A felicidade se acomoda muito bem às minhas convicções. Persigo um sonho de belezas.

A criança chora mais alto. Instintivamente, sem abrir os olhos, estendo meu braço para alcançar aquela cabecinha dourada e fazer um cafuné carinhoso. Meu marido segura meu braço energicamente e impede o gesto de forma brusca.  Abro os olhos assustada. Estou de frente para o horror.

Não nos falamos. Sequer nos olhamos.  Minhas palavras despencaram do precipício da indignação, planaram no ar pesado e despedaçaram-se em pensamentos antes de vibrarem em minha garganta. Estou chocada. A percepção da beleza me escapa sem despedidas. A feiúra me imobiliza.  O susto nocauteia o olhar. O rosto que se esconde atrás da beleza inocente dos cachos dourados é de uma criança transfigurada por lábios leporinos de alto grau de deformação. A candura do anjo é falsa. A imagem infantil é imperfeita, feia, mórbida.

Tento disfarçar. A visão perverteu a frágil ordem que acreditei ser capaz de manter.  É preciso disfarçar, não por educação, mas simplesmente porque não sei o que fazer. Não sei lidar com este tipo de armadilha que o destino me apronta. Não sei lidar com os imprevistos que desmentem minhas verdades. A beleza daquela criança era minha mais recente verdade, a mais inocente e conveniente verdade para o momento. A espera da beleza óbvia me deixava segura, certa de mim.

Sinto asco da menina. Mentira! Minto para mim mesma porque a verdade me dá medo. Não resvalo verdades incômodas. Aprendi a criar as minhas do tamanho que me servem, vestem-me perfeitamente.  Não é asco o que sinto, é medo.  E não é da menina, é do que a imagem dela revela sobre mim mesma. Tenho sido preparada para o óbvio.  O óbvio é o que me agrada, é o que me abraça, é o que me conforta. Tenho ao meu lado a alegoria humana da obviedade e da beleza: um marido, uma lua-de-mel, um casamento. Em frente, a realidade aterrorizante e insuportável do imponderável e do medonho: um anjo deformado.  A boca disforme da criança grita silenciosamente dentro da minha alma: nada é óbvio, em toda beleza há um engano.

O marido continua parado, perdido no gesto que reteve meu braço. Inútil perfeição, inerte companhia. Desfaço-me. Alegoria e realidade se misturam. A menina é a mulher, eu sou a criança. A menina é a sabedoria maliciosa da vida, é experiente. Não tem nada a aprender, nada quer ensinar. Expõe francamente as mazelas que me visitaram a vida inteira e das quais fugi bravamente, porque detesto confrontações. Aquela criança me confronta simplesmente porque existe, porque é, porque, miseravelmente, é. Naquela presença infantil não resta nenhum resquício de inocência reconfortante. O insulto à beleza travestido de pueril enfermidade ultraja minha ingenuidade fabricada.  Por mais hábil que eu possa ser na manipulação de minha ignorância, sei que nem isso é capaz de eximir-me das evidências que se apresentam na cara da criança. Enfim, não tenho como fugir ao engano. A criança é o retrato cru da deformidade humana, exibido numa moldura hedionda de carnes mal acabadas em lábios e narinas. Inconsciente, a menina escancara na sua face o rosto da humanidade: imprevisível e imperfeito.

Olho para o modelo indefectível de beleza e perfeição que se casou comigo. Busco um socorro, uma miragem que me salve da constatação brutal que aos poucos destrói minhas verdades inacabadas. Venho alimentando com prazer os enganos que engolem minhas decepções.  Acostumei-me a estes tipos de monstros, os que eu mesma crio. Mas este que está à minha frente, não. Aquilo não é um engano.  Ainda tenho esperança de entorpecer minha consciência com a superficialidade útil do belo, mas já não consigo estabelecer contato com ele. Vislumbro no olhar em fuga do homem, uma matéria esteticamente coerente, porém fria e sem vida. A capa de insensibilidade protege meu marido da chuva de incômodas repugnâncias que poderia atingi-lo... e submergi-lo. Ele também tem medo.

Volto meu olhar para a fisionomia da criança. Nela encontro a perfeita pulsação da vida. Tenho sede de vida. Por isso, mergulho no semblante desfigurado da pequenina e sinto uma força maior do que a minha aversão mover meu braço para aquela cabeça disforme. Acaricio seus cabelos. Busco na sensação um pesar maior, uma dor definitiva que seja capaz de me persuadir a romper de vez os laços que me atam às crenças protetoras que construí para minha cômoda existência. Mas ao contrário, sinto uma rara comoção. Um prazer breve, uma fugaz experiência de superação.   Encaro com coragem aquele rosto.  Nele sou capaz de reconhecer um olhar familiar. É o meu olhar refletido nas pupilas molhadas e vazias de uma criança que já não pode mais sobreviver em mim. E estes olhos, que reconheço meus, me dizem que é inútil fugir: somos muito parecidas. Ambas, menina e eu, exibimos deformações severas e incontestáveis. Nossas imperfeições sempre estiveram e sempre estarão à mostra. 

A voz anuncia o vôo. O rapaz que sustenta uma pesada aliança de ouro no dedo, igualzinha à minha, é incapaz de se mexer. Não enxerga mais a mulher e nem a menina. Desconfio que também não me . Desconfio que nunca nos vimos.

 A mãe da criança sorri há algum tempo, porém só agora encontro seu sorriso. Ela oferece confiante a criança aos meus braços, enquanto faz menção de pegar a bagagem que está no chão. Tomo a menina em meu colo, a mãe ocupa-se das sacolas. Retomamos nosso lugar à fila. Aguardamos em silêncio até à hora do embarque. A pequena acomoda-se em meus ombros e ressona. Desejo que consiga o que, com o esforço equivocado e inútil,  tentei conseguir para mim: um sonho de belezas.

Estamos prestes a embarcar. Devolvo a pequena para os braços da mãe e aguardo que o comissário carregue a bagagem sobressalente. Retribuo o sincero sorriso da mulher. Aproximo meus lábios, obviamente perfeitos e maquiados, da cabecinha loira da menina. Tenho vontade de beijá-la. O homem que me acompanha esboça sua contrariedade, puxando-me sutilmente para trás. Tenho asco do seu toque. Tenho horror daquele rosto obviamente perfeito que me fita em desaprovação. Desfaço-me.

A criança se foi. Mais uma vez, a percepção da beleza me escapa sem despedidas. Descubro tardiamente que, assim como na beleza, em toda felicidade também há um engano. O engano permitido, o engano ignorado de propósito para que a ordem eleita se estabeleça sem fraudes e a vida siga sem ameaças, para que as deformações restem sufocadas pelas belezas óbvias, pela perfeição ululante. Sigo viagem.

 

 

 

 

Jurados

Marco Antunes: Minha nossa! Duas vezes a mesma sensação de ter lido o perfeito! E tão próxima da primeira! Que êxtase! Aqui estou assustado com a verdade nua e crua que o conto nos jogou na cara! Estou ofendido com o realismo interior, mais indecente às vezes que um amoralismo rodrigueano! Estou perplexo com a coragem da autora (seria uma surpresa ainda mais devastadora descobrir que se trata de um autor, pelo que de densamente feminino há no texto). Só que o que mais me toca aqui é mesmo a natureza humana, com sua paisagem desolada! Que viagem bem feita e profunda! Que poderoso mergulho nas tradições constrangedoras desse país a que fomos. Que coragem de saborear-lhe a indigesta culinária! Grande viagem! Grande texto Nota 10 ( e repito o que disse no conto 4: queria poder dar mais, porque, de novo, neste concurso de tão notáveis textos, encontrei a plenitude: Poesia e Verdade!)

Cristiane Brum: Impressionante a força do relato que alia dureza e lirismo. As oposições criadas no texto – belo-feio, inocência/consciência, engano/acerto - desfazem a aparência de normalidade e permitem que o leitor se confronte com seus próprios preconceitos e crenças. Na minha opinião, o texto foi muito bem desenvolvido, sem apelar para nenhuma obviedade. Nota: 10

Liana Ferreira: Quando pensava encontrar-se bem protegida em seu confortável castelo, vem o desencanto; as estruturas frágeis desabam. Nota:: 9,0

Cida Sepúlveda: Belíssima construção. Talvez coubesse algum enxugamento na linguagem. As questões belo, feio e felicidade foram inteligentemente abordadas, num texto simples, fluido. Nota: 10

Luci Afonso: Ao longo do texto, o autor vai plantando pistas instigantes de que as coisas não são o que parecem. É o que afinal descobre a personagem em sua dolorosa viagem interior. A frase final é ótima.   Nota: 10

Total:49

 

 

Conto 9

 

Branco sobre branco

Monica Thaty da Silva

 

            O teto branco. O meu teto. Gosto de acordar e olhar para esse teto que tem um tom de branco diferente de qualquer outro do mundo. Abro os olhos e sei que estou em casa. Gosto de viajar, mas é indescritível a sensação de segurança que tenho em reconhecer cada mancha, cada nesga de luz que se reflete ali, várias nuances do mesmo tom. Não que eu seja uma especialista em branco. Os esquimós têm mais de trinta palavras para essa cor. Eu não chego a tanto. Apenas navego no branco de tetos. Mais do que pés no chão, são os olhos no teto que me dão esteio, que me dizem onde estou. Principalmente em manhãs como essa. Uma manhã que esperei há tanto tempo, com um frio na barriga. Foram anos folheando escondida revistas de noiva. Anotando mentalmente detalhes de cada vestido que eu gostava. Imaginando-me entrando em uma igreja, cercada de tantos amigos e da família, Sandro esperando no altar. Aquele vestido representa o que eu mais quero. É a síntese de um sonho. O símbolo da perfeição.

Só não gosto deste nome: prova final do vestido. Que coisa horrível! Prova de quê? E se o coitado do vestido for reprovado? E quem irá avaliá-lo? Eu, somente eu? E com critérios tão subjetivos, tão pessoais... Que não o colocarão a salvo de críticas maldosas no seu grande dia. Olhares cruéis que irão reparar em cada pequeno defeito, em cada detalhe mal escolhido. É apenas um vestido, meu Deus! O que há de mais em um traje de noiva? É apenas uma convenção social, aceita sem questionamentos por mim, que me julgo tão moderna. Vestidos de casamento são brancos. Jalecos de trabalho são brancos. Tetos de quartos são brancos.

            Na verdade, talvez não seja tão moderna assim. Sou apenas uma boa menina, que segue fielmente o que esperam de mim. Mas o que esperam de mim também não é o que eu mesma espero? Cumprir com perfeição cada desafio que me fazem. “Deve-se estudar antes de casar”, falava minha mãe. E esperei a aprovação na seleção do doutorado antes de marcar a data do casamento. Cinco anos de namoro, dois de noivado. Estou há tanto tempo com Sandro que a história dele se confunde com a minha. Ele passou noites acordado estudando comigo. Eu tornei-me assistente de fotografia toda vez que ele precisava. Mais do que uma dupla nos tornamos um só. Tão unidos que... Que agora tenho dúvidas sobre mim. Não sei nem mesmo se gosto das coisas que acho que gosto ou se gosto delas porque ele gosta. Quando não estou com ele, invariavelmente habito um laboratório, observando o mundo através do microscópio. Olhando através de lentes de aumento ao mesmo tempo que tento ignorar esse dinossauro que está entre nós. Uma montanha de bobagens que foram se acumulando com o tempo. Tantas coisinhas mal-resolvidas! Se eu não estivesse tão ocupada com a carreira e em fazer o que eu achava que iria agradá-lo talvez tivesse percebido antes, enquanto ainda era um montinho que poderia ser varrido. Mas são tantas as obrigações! Manter as unhas curtas e limpas, os relatórios em dia, as roupas arrumadas. Preocupada com o nada.

-         O vestido do casamento é uma das coisas mais importantes da vida de uma mulher!

É? Eu quero ter essa certeza. Eu já tive, mas agora ela dissolve-se em mim como sal em um copo d’água. Está ali, eu sei, mas não consigo juntá-la novamente. E de repente percebo que aquele pano branco costurado e bordado é só uma roupa e que representa algo que me escapa agora. A costureira carrega o vestido como se fosse um bebê, escoltada pela assistente e minha mãe. Vestem-me com gestos exagerados e rituais que eu não saberia repetir. Não sei nem mesmo dizer como cheguei ao atelier. As três esperam ansiosas a minha opinião. Então eu vi:

            Uma mancha próxima à barra. Uma mancha pequena, menor que uma moeda, mas que atrai minha visão como um ímã. Nem mesmo é colorida. Vermelha, amarela, azul. É uma mancha branca sobre o pano branco, que apenas os meus olhos bem treinados conseguem distingüir. Apontei-a para minha mãe. Em segundos, ela, a costureira e a assistente estavam de joelhos, ao lado do vestido, examinando cada milímetro da barra e sem conseguirem ver nada. Eu indiquei o ponto exato, e ainda assim não encontraram. Com a ajuda de uma lanterna e uma lupa identificaram o problema. A mancha – se é que poderia ser chamada assim – era um pequeno defeito no tecido, que fazia com que a área ficasse um pouco mais escura. Escura? Opaca, talvez. Mais branca. Leitosa. Uma concentração indevida de branco, naquele centímetro quadrado. Depois de alguns minutos contemplando a mácula no vestido foi que ergui o olhar. E então, finalmente, vi a mim mesma. Ali, de corpo inteiro, no espelho. Com um vestido espetacular que não tem nada a ver comigo. Com um rosto que não reconheço. Que deveria ser o meu, mas que parece ser o de uma estranha. Cínica e ausente. Apresentando-me, impiedosa, as suas críticas.

            Um casamento tem que ter um sentido. Qualquer um. Mesmo que seja o de casar para não ficar sozinha. Mas nem essa justificativa eu tenho. Não temo a solidão, não acredito que exista uma idade certa para casar. Não há pressa nem urgência. Não existem motivos. Mas, acima de tudo, não há paixão.

            Houve sim, um dia. Eu ainda posso me lembrar dos corações batendo apressados, beijos escondidos na escada, entradas e saídas furtivas. E mesmo depois, durante anos. Havia risos, mãos entrelaçadas, mais risos. Eu poderia até ouvir agora, se quisesse. Mas só o que vem aos meus ouvidos é a voz sem emoção de Sandro, dizendo que eu não sou mais a mesma.

            Ah,é? Pois ele também não é mais o mesmo. Nada mais de gestos arrebatadores e surpresas. Não, senhor. Só a rotina, a monotonia, o dia-a-dia sem tempero. E ainda estamos namorando. O que nos espera depois do casamento? Filhos? Deixar de viver as nossas vidas por nós mesmos para passar a vivê-la pelos olhos de crianças, porque que os nossos já estão cansados do que vêem. Deveria ser mais do que isso, não é? Deveria ser compartilhar, dividir para multiplicar. Minha cabeça dói só de imaginar dias sem imaginação.

            Se eu não sou mais a mesma, a culpa é dele. Ou, pior ainda, é minha. Nunca consegui engolir mocinhas de melodrama, o rosto banhado em lágrimas, com o dedo apontado acusadoramente para algum canastrão e aos berros de “Você destruiu a minha vida!”

Tenho vontade de perguntar a ela: “E onde você estava enquanto ele fazia isso? De férias em Passárgada?” Porque ninguém pode fazer com a nossa alma o que não autorizamos. Se eu me tornei essa massa disforme e sem-graça, que me provoca engulhos, não fui eu mesma a culpada? Não fui eu quem me entreguei de corpo e coração a ele, e deixei que me moldasse a seu bel-prazer? Não fui eu quem disse todos os sims que ele queria ouvir e engoli todos os nãos que quis dizer em prol de um objetivo maior? Pelo nosso amor. Amor? Ah, o amor! Tadinho dele. Assim como os homens cometem barbaridades em nome de Deus, fazem o mesmo em nome do amor. Que não é mais do que um sentimento como outro qualquer, que tem seu pobre nome tomado em vão para justificar atos insanos. Como esse, de se deixar destruir e de querer transformar o outro a nosso gosto. A culpa é dele tanto quanto minha. E o amor não faz parte desse inventário. Aliás, o amor não conta em nada. Principalmente nesse casamento. E essa mancha está aqui, como se quisesse me alertar disso. Um sinal nítido. Um branco diferente do que o branco do vestido deveria ser. Um branco onde não deveria estar, indicando-me que eu também não devo estar aqui, dentro deste vestido. E que não poderei estar lá, naquele relacionamento.

-         Se a mancha te incomoda tanto assim, podemos trazer o bordado até aqui.

Percebi que a costureira falava comigo.

-         Ah, não. Não me incomoda em nada.

Minha mãe olhou-me com um misto de surpresa e irritação. As outras duas mulheres com certeza fariam o mesmo se não fossem tão bem treinadas na arte de adular clientes chatas. Noivas inseguras colocando expectativas de uma vida inteira em uma única roupa. Concordei com tudo que disseram, marquei a data de vir buscar o vestido. Compromisso que jamais cumprirei, eu sei. Despedi-me do longo branco sem pena. Desejei-lhe boa sorte, que possa fazer alguma boa moça feliz. Talvez seja importante para outra. Não é mais para mim.

 

Jurados

Marco Antunes: O conto é poderoso! A autora (de novo seria uma surpresa descobrir um homem do outro lado da criação) enfrentou um dos mais vivos mitos da feminilidade com uma coragem estupenda! Maravilhoso!  Percebo claramente que o timing  da transformação teve que ser discretamente falseado em razão do curto espaço disponível! Isso merece ser revisto antes da publicação! Nota 10

Cristiane Brum: Interessante a reflexão sobre o casamento, mas achei que a transição da crença da personagem para a descrença se deu de forma abrupta e antes da mancha ser percebida. No final, a mancha foi uma conseqüência, pois a reflexão já havia se iniciado na personagem antes de percebê-la. Em resumo, a mancha ficou sem muita função, a menos que intenção tenha sido apenas de corroborar o estado emocional da personagem. Nota: 9

Liana Ferreira: Quando a soma de um mais um não é igual a dois, está na hora de refazer a conta... e a vida. Aparentemente um pequeno problema, imperceptível aos olhos de alguns e até facilmente disfarçável, é suficiente para fazer a personagem chutar o pau da barraca e mudar o curso de sua vida. É desse despertar para a lucidez e de saber recuar no momento certo que nos fala esse conto. Nota:: 9,5

Cida Sepúlveda: Belo conto que expõe a hipocrisia das aparências, acoplada à tristeza que a verdade desperta. Um velho questionamento que está sempre na ordem do dia. Nota: 10

Luci Afonso: Belo e perigoso mergulho. O conto é envolvente desde o título e tem seu ponto alto na descoberta do “branco sobre o branco”. Emocionante   Nota: 10

Total: 48,5

 

Conto 10

 

Não  Me  Deixe !

Osmar P. Lannes Jr.

    “– Não me deixe, Jennie !”, ele implorava mais uma vez, preso no moto contínuo de um mesmo, único, rogo. Os pensamentos tinham curso próprio, folhas ao vento, desordenados, aleatórios, mas as palavras seguiam a mesma litania: “–  Não me deixe, Jennie ! Preciso de você, mais que tudo na vida !” A desorientação agora se estendia aos movimentos incertos das pernas, que cederam. George deixou-se cair frente a uma Jennie quase hirta, seu olhar denunciando o combate que se travava em seu interior. Esteve a ponto de desistir, de cair ao chão junto a ele, de abraçá-lo, de acolhê-lo, de redimi-lo. No último momento, porém, sua Minerva íntima decidiu a questão: afastou-se de George, correu para a porta e se foi.

 

    O vibrante naipe de violinos assenhoreou-se do espaço sonoro, ao mesmo tempo em que o “The End” assumia a tela. Renato olhou para Giovanna, ao seu lado: “– Que tal ?”. Ela espreguiçou-se, com aquele requebro de langor que era só dela. “Meu Deus, como essa mulher é linda”, pensou ele. “– Não sei”, ela respondeu, emendando as palavras com o acorde final do bocejo, “esses filmes dos anos 30 são muito teatrais, mesmo, ? O ritmo é puro palco. Bom, pelo menos quando comparado a um Brian de Palma”. Os dois riram. O riso dela também era um primor de beleza. Ele nunca conseguira formalizar a origem daquele encanto que sentia por ela. Algo a ver, talvez, com as proporções e simetrias plasticamente ideais. Se a gente procurar, brincou de si para si, vai acabar encontrando um monte de razões áureas nesse sorriso. Seus devaneios foram interrompidos por um vaticínio casual: “– Além disso”, ela falou, “não consigo imaginar uma situação dessas, um homem implorando pelo amor de uma mulher. Aliás”, prosseguiu, “nem o contrário, uma mulher se arrastando por um homem. Amor não se pede. Amor se recebe. Até que acabe. Quando eu te der um pé-no-traseiro, não quero saber de você prostrado aos meus pés, não, viu ?”, ela pontuou, com um olhar entre zombeteiro e profundo. “– Quer dizer, se algum dia eu fizer isso”, frisando o condicional. Fitou-o por breves instantes, até se decidir: “– Vou deitar, estou exausta”, levantando-se e saindo do quarto de televisão sem esperar resposta.

 

    Renato olhou-a desaparecer pelo interior do apartamento. Estavam juntos há três anos. Embora não fossem oficialmente casados, ele assim se sentia. Na verdade, ele achava que era assim que deveria ser um casamento: aquela sensação de plenitude, de encaixe. O namoro fora fulminante, em poucos meses já moravam juntos. Ela era sua primeira paixão digna do nome. Ele não concebia mais uma vida ao lado de outra pessoa. Admirava nela a beleza, a inteligência, a sabedoria. Tinha sido tudo tão rápido e tão natural que, às vezes, ele se admirava que tivesse podido viver sem ela algum dia. Mas não só isso: ele também se admirava com a facilidade com que ele dependia dela para ser feliz. Logo ele, que tanto se orgulhava da sua independência, da sua auto-suficiência, desenvolvidas sob as rédeas de uma personalidade forte e ativa, agora se abandonava descuidadamente à embriaguez daquele fascínio.

 

    Quase distraído, lembrou-se do breve diálogo que se seguira ao final do filme. Pé-no-traseiro? Ela nunca havia falado nisso. Deu-se conta, pela primeira vez, meio sem querer, de que eles nunca haviam sequer mencionado, nem de brincadeira, a possibilidade de que algum dia eles se separassem. Era como se fosse um evento impossível, vedado por alguma lei não escrita dos relacionamentos humanos – ou, pelo menos, do relacionamento deles dois. Como assim, pé-no-traseiro ?, estranhou. Por que ela faria isso comigo ? Por que um de nós pensaria em terminar ?

 

    Desligou a televisão, retirou o DVD e guardou-o no estojo. Foi para a sala, iluminada apenas pelo abajur do canto da entrada. Olhou de relance a garrafa de vinho, agora vazia, que servira de aperitivo para a sessão de cinema doméstico. Jogou-se no sofá. Havia como que um ar diferente, o miasma insidioso de um conceito intruso. Ele nunca havia pensado na possibilidade de que algum dia eles se afastassem. Por que ela falara aquilo ? Estaria acontecendo alguma coisa ? Repassou ansiosamente as últimas conversas entre eles, as fisionomias mais recentes dela, escavou sofregamente o solo das suas lembranças em busca de alguma trinca na barragem de suas certezas – e nada. Será que ele estava tão imerso em sua paixão que não captava sinais de perigo ? Será que o jardim de delícias daquela relação havia empazinado seus sentidos emocionais ? Talvez tivesse sido só uma brincadeira inconseqüente, tão anódina quanto os planos da Mega Sena acumulada ou os galanteios que, vez por outra, ela dirigia ao Brad Pitt – que, felizmente, nunca correspondera até então.

 

    Mas, e se acontecesse ? E se algum dia ela lhe comunicasse que a relação estava em crise, que ela queria dar um tempo ? O que ele faria ? Achou estranho pensar nisso. Era uma idéia que chocava pelo absurdo. Ou pelo horror. Levantou-se e foi até o quarto. Ela estava deitada; aparentemente, dormia. Ele apagou a luz do abajur e voltou para a sala.

 

 

    O silêncio noturno havia sido inapelavelmente quebrado pelos rangidos das suas engrenagens mentais, que tentavam processar aquela situação inesperada. Imaginou a cena padrão: ele chega em casa do trabalho. Ela o está esperando na sala, uma mala ao lado. Ele intui o perigo, procura disfarçar, tenta beijá-la. Ela se desvia, olha para o lado e dispara: “– Renato, a gente precisa conversar”.

 

 

    Encosta-se na janela e observa as luzes dos carros que passam silenciosas quinze andares mais abaixo. Sente uma pressão crescer em seu peito. Olha em volta, desamparado. Por que esta angústia, se tinha sido apenas uma brincadeira da parte dela ? Houve outros gracejos antes, ele procura se convencer – muitos outros. Eles brincavam muito entre si, tinham o mesmo senso de humor. Lembrou-se de uma dúzia de ocasiões em que fingiram maldades recíprocas. Por que, então, pela primeira vez soava aquele zumbido de alerta ?

 

    E por que não se jogar aos pés dela ? Esse era o impulso dele. Ele a amava tanto, ele precisava tanto dela, que faria qualquer coisa para mantê-la junto a si. O  personagem do filme ressurgiu: “– Não me deixe”. Um apelo, uma súplica de alguém que sabe que o seu mundo, o mundo que, gradualmente, foi tomando a forma do amor por outra pessoa, não tem sentido sem a companhia dessa pessoa que se quer perto. Então, pensou, esse apelo é, no fundo, quase um pedido de socorro. Funciona mais ou menos como "Não me deixe afundar", ou "Não largue a minha mão". É como alguém que não sabe nadar e tem consciência de que, se aquela bóia lhe faltar, só lhe restarão duas alternativas: ou aprende a nadar ali mesmo, ou se afoga.

 

    Sacudiu a cabeça, confuso. O sono fora, definitivamente, expulso. Sentia uma urgência de pensar, de entender. O instinto ancestral de preservação da espécie – prosseguiu – recomenda que não se abandone um náufrago à própria sorte. Mas, além disso, ponderou, aqui fala mais alto o instinto, igualmente básico, de preservação da felicidade. Se o amor é correspondido, raciocinou, em um solilóquio improvável, se a paixão é aceita, se a presença do outro é bem-vinda, então, para quem recebe o pedido de ajuda, aquele amor, aquela paixão e aquela companhia são a mesma bóia, o mesmo bote salva-vidas. Neste caso, concluiu, o pedido é desnecessário !!! As mãos nunca vão se soltar, o náufrago nunca vai ser abandonado, porque, na verdade, ambos, quem pede e quem recebe o pedido, são navegadores solidários no oceano do mundo, um depende do outro para seguir vivo.

 

    Mas, e se – arrepiando-se com a seqüência de pensamentos – o amor deixa de ser correspondido, ou se a paixão arrefece, ou se o bom senso e a lucidez indicam que os caminhantes devem se separar, seguir estradas diferentes ? Então, neste caso, assustou-se, o pedido é inócuo, ele jamais será atendido, ou, pelo menos, imaginou, é bom para ambos que ele jamais seja atendido. Um amor só se sustenta enquanto ambos os parceiros o desejarem, assentiu a contragosto. Se um dos dois não quer esse amor – ou, mesmo querendo esse amor, não pode vivê-lo –, então, não há porque atender àquela súplica. Melhor será que o náufrago seja deixado só, para que se debata durante algum tempo e aprenda a flutuar. Do contrário, apavorando-se com a extensão de seus argumentos, a bóia se transformará em pedra e a ajuda piedosa se revelará mortal para os dois.

 

    Percebeu que caminhava no sentido longitudinal da sala, indo e voltando da porta à janela, aquele padrão típico dos momentos de preocupação extrema. Por mais que temesse os próprios pensamentos, não conseguia mais interrompê-los. Em resumo, continuou, ou aquele apelo é desnecessário, ou é inútil. Visto assim, sob a óptica fria da racionalidade, ninguém jamais deveria, ou precisaria, dirigir esse pedido de clemência à pessoa amada. Ninguém. Nem ele a ela !! – e parou, enquanto era atropelado pela constatação inexorável. Exatamente como Giovanna lhe falara !

 

    Alguma coisa gritou dentro dele. Era o uivo de pavor diante de um quarto escuro cuja porta é subitamente escancarada. Sentiu-se desmoronar. Cambaleou em direção ao quarto, movido pela mesma angústia com que se tenta desligar um pesadelo. Acendeu a luz. Giovanna estava sentada na cama, o rosto cintilante pelo reflexo das lágrimas.

 

    “– Renato”, ela soluçou, “a gente precisa conversar”.

 

 

Jurados

Marco Antunes: Suzanne Necker  disse que "Ser amado é receber o maior de todos os elogios.", em conseqüência a maior das críticas que se pode fazer ao outro é informar que já não o ama, ou, por outra, que deixou de amar. Cruel e doloroso. Um conto verdadeiro de quem aceitou o desafio!  Nota: 10

Cristiane Brum: : É, quando cai a ficha cai, é dose mesmo. Finais de relacionamento são sempre problemáticos, mas o legal do texto é o processo do cara tomar consciência da situação. Nota: 9

Liana Ferreira: Atire a primeira pedra aquele que nunca se encontrou em uma situação limite igual a essa aqui narrada. Essa horrível sensação de que o chão se abriu a seus pés e que não há onde se agarrar. O momento exato da percepção de que o outro está nos escapando está aqui narrado com muito sensibilidade e beleza. Nota:10

Cida Sepúlveda: que tensão do começo ao fim! E com um final surpreendente. Muito lindo. Nota: 10

Luci Afonso: O desafio foi plenamente cumprido nesta estória aparentemente banal, em que o personagem é habilmente conduzido a uma constatação avassaladora.  Nota: 10

Total:49

 

 

 

Fora da Competição

 

Maria Sem Vergonha

                                                                                              Monique Britto Knox  

 

Todos os dias Maria levantava cedo, fazia o café, arrumava a mesa, colocando os pães cuidadosamente no meio da cesta e ia chamar os filhos para irem à escola. O marido também era chamado. Quando ele sentava à mesa reclamava que o pão estava duro, o leite não estava gelado, os meninos não estavam prontos. Vamos para não chegarmos atrasados na escola, dizia. Não gosto que cheguemos atrasados em lugar nenhum!

Maria despedia dos filhos e do marido com um beijo amargo e fugidio no canto esquerdo dos seus lábios. Nem mais se olhavam no fundo dos olhos. Quando por acaso se cruzavam, furtivos, se recolhiam.

Maria chorava.Tentava sempre fazer o melhor...Não conseguia entender porque nunca agradava. Se sentia sempre como a parte podre da laranja, a sujeira da louça se esvaindo pelo ralo, o cheiro de resto de lixo que permanecia em casa.E quanto mais chorava, mais se sentia impotente e frágil diante da rotina simples e sem graça de sua vida.

Num dia, num desses dias que supomos que os anjos do céu vêm à terra para tornar-se um mortal, Maria foi ao supermercado para comprar batatas e as batatas virarem fritas para os meninos, um bife suculento para o marido, legumes e verduras para si mesma manter-se em forma, se é que podia acreditar que tivesse forma. Lá chegando e comprando todos os suprimentos necessários, encontrou um vaso de Maria- sem-vergonha com flores multicoloridas, singelo, brilhante e colocado estrategicamente no meio de tantos vasos de barro vultuosos e definidos.O vaso encaixava-se num porta vaso de espelhos. Achou estranho aquela combinação de uma flor tão singela, corriqueira até, com um cachê-pot  espelhado que permitia refletir o movimento incessante do supermercado mas resguardava a brandura do colorido misturado das pétalas da flor. Quando segurou o vaso com as mãos, um desejo enorme se apoderou dela, sentindo a força, a vontade de possuir aquele vaso, de tornar-se propriedade, de fazê-lo vivo junto a si mesmo.

E olhou-se no espelho, tendo coragem para enxergar o que realmente via. Notou rugas profundas e bem marcadas no rosto. Viu o corpo deformado pelo tempo e pela idade e viu passando como um filme sua vida de menina , moça, mulher adulta, velha filha?O marido dizia que ela era velha. Que não servia  mais para nada. Maria engolia as lágrimas.Mas desta vez, esta lembrança não lhe trouxe choro. Só riu. Riu do tempo. As flores também têm tempo. Notou que o espelho estava desgastado e sujo. Limpou-o com as mãos calejadas rapidamente. Gostou do que viu. Ficou ali se admirando pelo que era, do que tinha e pelo que não possuía e que talvez nunca pudesse tê-lo. E  via refletido no espelho os olhos, os rostos das pessoas que ali passavam. Algumas pessoas descréditas, outras com cara de desprezo, outras demonstrando interesse...

Maria se espantou consigo mesma. Esta sou eu?! Como sou grande por fora!Como sou grande por dentro! Era  Maria sem vergonha ou Maria com vergonha de si mesma? Não era só qualquer Maria. Era Maria querida, Maria inteira, Maria plantada na terra com sementes e flores. Com raízes e poros. Com vontade de crescer para o sol e para o tempo. Espelhando-se em si mesma, misturando singularidade com sofisticação, da terra úmida nos dedos até a  amplidão interna do ambiente de si mesma.

Pegou seu vaso com firmeza, sim, porque este, era Maria inteira. Colocou-o no bolso.As sementes iriam germinar em suas mãos. Assim o seria.Pegou sua imagem refletida e colocou-a perto do coração. Fez  o movimento de semeadura de novas sementes, jogou um pouco de terra em cima e teve a sensação súbita de que agora poderia ser feliz.

 

Marco Antunes: Um bonito retrato da vida, faltando apenas um pouco mais de desenvolvimento para ser um bom conto.

Cristiane Brum: Muito Achei que o texto não faz jus à complexidade do tema que se propõe a tratar. Ficou muito lugar-comum, parecendo apressado e sem profundidade. Creio que uma reescrita pode desenvolver a grandeza da história de uma Maria específica, não de todas as que se encontram na mesma situação. É preciso criar uma personagem, não um tipo, na minha opinião.

 

 

 

 

Uma Aventura Interior

 

Prezado Concorrente:

Leia o Texto abaixo de autoria de Clarice Lispector

 

PERDOANDO DEUS

 

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso "fosse mesmo" o que eu sentia - e não possivelmente um equívoco de sentimento - que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar - não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele - mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escadalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

 

in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998

 

Agora, partindo de um evento aparentemente banal, retire dele o passaporte para uma viagem interior. Mergulhe na alma da personagem e faça profundamente a salvagem dos tesouros humanos que restaram dos nossos naufrágios cotidianos.

Lembrete importante: Não se esqueça de que todo conto precisa de uma célula dramática, isto é: um evento capaz de promover um deslocamento da personagem no espaço psicológico. Por exagero, pode-se até afirmar que a personagem, submetida à fervura dos acontecimentos, não é mais a personagem que entrou, ainda inocente das conseqüências,  pelas portas da ficção. Examine com  vagar e atenção o conto acima: há nele um primor de elaboração do conto psicológico. Repare no conto que a personagem se transforma em seu próprio  antagonista, repare nas sutilezas e geniais nuances do fluxo mental e do diálogo interior.

 

Do Dicionário Aurélio Eletrônico:

salvagem1

[De salvar + -agem2.]

S. f.

 1.     Direito sobre aquilo que se salvou de um navio naufragado.

 

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Uma Aventura Interior

 

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