DÉCIMO DESAFIO

ALEXANDRA

RODRIGUES

CIDA

SEPÚLVEDA

CRISTIANE

BRUM

LIANA

FERREIRA

LORENZA

COSTA

LUCI

AFONSO

MARCO

ANTUNES

TOTAL

MÔNICA THATY

VINTE ANOS

9,8

9,8

9,8

9,8

9,9

9,6

10,0

68,7

MARIA RAQUEL MELO

POUSO FORÇADO

10,0

9,2

10,0

9,4

9,8

10,0

10,0

68,4

ANTONIO CARDOSO NETO

A VIAGEM DE MIRELA

10,0

10,0

9,5

9,2

10,0

10,0

9,6

68,3

ARTUR COTIAS E SILVA

A MUSA INSPIRADORA

9,7

9,2

9,6

10,0

9,7

9,8

9,4

67,4

CINTHIA KRIEMLER

SEM MAIS SOLIDÕES

9,7

9,6

9,9

9,0

9,0

9,9

9,8

66,9

OSMAR PERAZZO

ARMÁRIOS

9,8

9,4

9,4

9,6

8,5

9,7

9,2

65,6

Marco Antunes:

Li diversas vezes os contos do presente 10º desafio só para me convencer de que não tinha meios de desigualá-los por algum erro de construção, alguma impropriedade estilística, quem sabe alguma fuga de gênero ou mesmo pela menor impressão que me causavam. Juro que cogitei uma conspiratória reunião dos seis candidatos em que decidiram, de comum acordo, nos enlouquecer: cada um escolheria um gênero, um tema, um estilo diferente e faria um conto interessantíssimo no caminho escolhido. Posso ainda imaginá-los rindo muito, antegozando o prazer da peça que nos pregavam. Como sair dessa? Bem, minha primeira hipótese foi: “Dou dez a todos e deixo, pusilanimemente, que as demais juradas decidam!”. Como idealizador do concurso e principal responsável pela organização, não poderia escolher esse caminho...Então, com sofrimento, restou-me escolher aqueles contos com que mais me identifiquei, um método, resigno-me, tão injusto quanto qualquer outro! Então: primeiramente, destaco a fábula moderna da indevassável solidão urbana de “Vinte Anos”, que, ao mesmo tempo, reflete a perplexidade das personagens diante de um mundo complexo; empatado com o drama da senilidade, que conheço de perto em família, mas que me surpreendeu pelo toque de sadismo presente no conto “Pouso Forçado” – oferecendo, a esses dois o meu dez e tentei escalonar os demais pelo mesmo processo. Na seqüência, a sofrida primavera de “Sem Mais Solidões”, em seguida contemplei a beleza lírica da estória cigana contada em “A Viagem de Mirela”, depois destaquei a inteligente fábula da angústia do escritor em “A Musa Inspiradora” e, por fim, a força argumentativa de “Armários” Sabendo sempre que nenhum resultado refletiria a justiça que precisamos fazer a esses seis valentes competidores. Se me resta um consolo, bem, resta sim: independente do resultado final deste certame, todos os seis têm tudo para construírem uma brilhante carreira literária no futuro, um futuro que já começou!

 

Alexandra Rodrigues:

A Viagem De Mirela:

Uma viagem tão desejada quanto inesperada no trem da vida sugere a recriação das memórias de uma vida tecida na cultura nômade. Emergem na narrativa, com impressionante força expressiva, elementos vivos da identidade de um povo, assim como da vivência subjetiva de um tempo que arrasta o espaço do viver.  

Pouso Forçado:

Neste conto, que prima pela sensibilidade, o leitor é forçado a pousar sua atenção sobre as inesperadas fragilidades do processo de envelhecimento humano, a irritar-se com os comportamentos inadequados dos personagens, a encontrar uma saída para uma situação constrangedora, dividido entre aparências sociais e a compaixão por seres que, por diferentes motivos, perderam o eixo do afeto e da comunicação. 

Armários:

O diálogo entre pai e filho, como espaço de crescimento recíproco, introduz uma sugestiva metáfora para apresentar as metamorfoses do desenvolvimento humano e a necessidade de libertação do ser na sua relação com o mundo.  

Vinte Anos:

Aos vinte anos a vida é uma infinidade de possibilidades despertadas por este jovial conto, que nos convida a pensar acerca dos processos de comunicação e metacomunicação geradores de encontros e desencontros, gestos que constituem ou rompem o sutil fio de seda que tece as relações humanas. E que inauguram ou inviabilizam os caminhos do destino.  

Sem Mais Solidões:

Uma dívida simbólica atravessa a vida de uma mulher, no convívio com a fragilidade de uma outra que lhe doou vida. Um interessante conto que nos remete para o jogo da construção existencial, para o processo de constituição mútua entre seres que compartilham afetos. 

A Musa Inspiradora:

Tudo é possível quando a Musa inspiradora, insegura e ansiosa, revela que não pode soprar inspiração para um tema inexistente, mas descobre que o amor à literatura permeia a presença e até a ausência de tema. Neste sugestivo conto transparecem elementos do processo de criação literária, sutil ou explicitamente sugeridos ao longo do dilema que se tenta resolver.

 

Cristiane Brum:

Realmente, foi o desafio mais difícil de avaliar. Até porque os textos estão todos bons. Ruim ter que hierarquizá-los...Mas foi o que tentei fazer, tendo em vista que é um concurso. Deixei uma pequena diferença entre eles porque considerei que havia dois tipos de textos: os muito bons e os melhores ainda.

A Viagem De Mirela:

A narrativa é tão densa que, sinceramente, eu fiquei esperando muito mais do final. Parece que o texto acabou no clímax, sem conclusão.

Vinte Anos:

Realmente, esses momentos de encontros ao acaso são sempre impressionantes. Mais ainda quando não se realizam! A atmosfera envolvente do texto me fez lembrar do filme “Antes do Anoitecer”. Gostei.

Armários:

Achei o tom do texto um pouco didático demais, o que foi confirmado pelo final. No fundo, foi o diálogo – quase monólogo - que me incomodou, pois ficou parecendo irreal, muito forçado pro meu gosto.

Pouso Forçado:

Genial a forma como o texto consegue envolver o leitor na situação, desnudando o absurdo que envolve as personagens. Absurdo tão comum e tão provável na vida de muitos. Impossível ao leitor não se comover com as tragédias humanas tão bem representadas na cena. Excelente!

A Musa Inspiradora:

Difícil avaliar a Musa... Gostei do tom humorístico do texto e achei interessante a estratégia de falar sobre o processo criativo. A idéia dos caras saindo de todos os “setores” pra se reunirem o cérebro me lembrou o filme do Woody Allen. Porém, fiquei com a sensação de que algo do tipo já foi feito neste concurso... Não achei muito original, em suma.

Sem Mais Solidões:

Um texto tão denso que comove profundamente o leitor, com a história das duas irmãs. Fiquei com a impressão, contudo, que nem mesmo o (a) autor (a) agüentou tanta tristeza e resolveu aliviar no fim. O final, pro meu gosto, ficou um pouco deslocado, ainda que não tenha quebrado a força da narração.

 

 

Liana Ferreira

A musa inspiradora:

Durante nove semanas o professor forneceu o tema e este era, na verdade, o estímulo que antecipava o processo criador. Parabéns ao professor que desta vez deixou a musa em crise. Esse conto traz uma reflexão muito importante: como se trabalha com a liberdade de criação? O que fazer com essa liberdade?

Vinte anos:

Esse conto, que prima pela leveza, nos revela como o mundo moderno propicia o distanciamento entre as pessoas. As emoções ficam quase palpáveis, mas não são verbalizadas, fazendo com que os indivíduos se percam em descaminhos. Quem também aborda bem esse tema é o diretor James Yvory, em seu filme “Vestígios do Dia”.

Armários:

Ah! essa sensação de desconforto que nos acompanha em alguns momentos da vida. Esse caminhar com os sapatos menores que os nossos pés. Esse conto encerra uma proposta de uma postura honesta diante do mundo, indepedente das amarras, e discute a capacidade do indivíduo de dizer não ao seu desconforto tanto físico quanto emocional.

Pouso forçado:

A contista escreveu uma boa história e nos leva a refletir sobre o preconceito que envolve uma doença que atinge 24,3 milhões de pessoas no mundo, e se caracteriza pela degeneração progressiva das funções cognitivas: atenção, percepção e memória A falta de informação persiste cem anos depois de sua descoberta.

A viagem de Mirela:

Esse conto começou muito bem e suas personagens foram bem credenciadas. Então, de repente, não entendi o que fazia um cadáver cigano viajando de trem. Se é cigano, é nômade, não deveria ter sido sepultado onde veio a falecer. Sua terra não seria toda a terra e qualquer terra? E não seria essa liberdade e esse desapego sua mais bela característica?

Sem mais solidões:

Esse conto é extremamente realista, bem escrito, porém reproduz a velha fórmula do drama familiar. Talvez tenha tensão dramática em excesso.

 

Lorenza Costa:

Em lugar de "O MEU MELHOR", este desafio deveria se chamar "PARADA DURÍSSIMA". Se isto não fosse um concurso, eu atribuiria notas idênticas a pelo menos quatro contos. Os comentários abaixo contêm menos críticas do que tentativas de demonstrar quais os critérios que tive de encontrar para diferenciar cada trabalho.

A Viagem de Mirela:

No começo, esta poderia ser a primeira viagem de trem de qualquer cigana chamada Mirela; ela poderia estar em praticamente qualquer tempo (desde que fosse um tempo de trens) e em qualquer lugar. O autor não deu a menor pista, não me permitiu erguer uma barreira de proteção contra Mirela. Apenas a partir do antepenúltimo parágrafo, com as "fileiras de batata e beterraba", identifico um ambiente geográfico muito diferente do meu - o que ainda não é suficiente para criar distanciamento em relação à personagem. A empatia já foi muito habilmente instalada pelo autor quando a tragédia se revela em uma única palavra. Muito tarde para escapar do efeito que este conto faz.

Vinte Anos:

O único motivo por que este conto não recebeu nota 10 é a relativa previsibilidade do desfecho. Está muito claro desde o princípio que não haverá comunicação entre os dois - e, já que precisamos de um critério qualquer para atribuir notas, este vai ter de servir! Um conto escrito com sensibilidade e uma visão carinhosa, mas não condescendente, desses personagens tão jovens. A frase "Melhor atribuir a sua aversão (...) ao que realmente era" pede uma reestruturação. E o jogo final - "Bem que podia chover/Bem que podia chorar" - merece ser aplaudido de pé.

Pouso Forçado:

O conto é fortíssimo quando centrado na visão da viúva, que nos seus devaneios e na sua pouca memória consegue sugerir o transcurso de uma vida inteira. Já a filha é um tanto caricatural em sua antipatia. A "providência" que ela toma para resolver seu problema com o comportamento da mãe é mais rica em informações do que toda as suas tentativas de se justificar. Como leitora, eu gostaria de ter visto um pouco menos da filha para me concentrar na beleza que é o fluxo de pensamento da mãe. (Um detalhe que poderia ser repensado: a "alta qualidade" das personagens presentes ao velório só é mencionada pelo meio do texto, quando poderia vir antes. Num velório íntimo, todos estariam mais ou menos cientes da doença da viúva. Já que não está claro desde o início que o defunto foi uma pessoa pública, a atitude indignada da filha parece ainda menos justificável do que na realidade é. O autor faz questão que o leitor odeie essa personagem desde o começo?)

A Musa Inspiradora:

Ágil, bem escrito, divertido. Não tenho muita certeza de que a tese da Musa Inspiradora pare em pé por muito tempo; mas ela mesma talvez concorde comigo, já que não ficou "plenamente satisfeita com a solução alcançada"! Dentro da ordem quase aleatória em que alinhei os primeiros contos deste desafio, este se encontra em quarto lugar porque, embora de leitura muito agradável, não acredito que cause, com o perdão do clichê, a mais profunda e duradoura das impressões. A Musa e seus auxiliares podem ter-se movido e transformado diante de um conflito, mas esta leitora em particular também quer mover-se e ser transformada diante de um conto.

Sem Mais Solidões:

Este conto aparece em quinto lugar por dois aspectos. O primeiro: a história começa bem, mas ao fim da primeira página é interrompida para a interpolação daquilo que vou chamar, por falta de nome melhor, de um "conto-resumo": um escovão em toda a história pregressa das personagens, com excesso de detalhes e generalizações. Parece que o autor teve pressa. Na minha opinião, nem tudo o que um autor sabe sobre suas personagens precisa ser dito; ele tem a obrigação de mostrar o essencial, lembrando que, especialmente numa história curta, o excesso de acessórios reduz a força do principal. O segundo aspecto ligeiramente problemático é a transição abrupta da tragédia para a completa redenção. Ali parece que o autor teve dó. Tirando estes detalhes, um bom conto.

Armários:

Embora a idéia por trás do conto seja interessante, o tom de livro de auto-ajuda incomoda bastante. Além disso, para que a história se tornasse verossímil do ponto de vista literário, seria preciso que o filho fosse um pouco menos obtuso. Ele simplesmente não entende nada do que o velho diz. Como pai e filho, estes personagens mereciam ter um pouquinho mais de afinidade intelectual. Na verdade, o filho só está ali como pretexto para o pai falar e falar.

Luci Afonso:

Foi mesmo difícil escolher, pois são todos ótimos.Tem sido um privilégio conhecer escritores tão bons. Os seis contos são excelentes e dignos de concorrer nesta semifinal. Não há reparos quanto ao mérito nem quanto à técnica. Gostaria que todos os competidores passassem à final, mas, como não é possível, baseei as notas na emoção que cada texto me causou. Agradeço aos contistas por, mais uma vez, embelezarem meu fim de semana com suas estórias.

A Viagem de Mirela:

A grande beleza deste conto está em tudo o que ele diz sem dizer. Uma trágica celebração da vida. Levou-me às lágrimas.

Vinte Anos:

Comovente “quase encontro” entre duas almas jovens e sedentas. Lindo final.

Armários:

A metáfora dos armários nos leva a uma profunda reflexão sobre o “espaço vazio dentro de nós”, oportuna lição que todos precisamos rever.

Pouso Forçado:

Uma sensibilidade superior nos transporta suavemente para um mundo paralelo em que só existem borboletas de seda, “coisinhas nenhumas”, “geladinhas”. Conto inesquecível. Final magnífico.

A Musa Inspiradora:

Texto engenhoso e divertido. Musa inspiradora de personalidade fortíssima. Ótimo final.

Sem Mais Solidões:

Um ser humano raro, a personagem Maria Clara, criada por um igual, o autor desta estória, nos convence a cortejar a vida apesar da dor e do sofrimento — e, ao final, sem mais solidões. Texto e título belíssimos.

 

Cida Sepúlveda:

“A viagem de Mirela” é um exemplo de um texto que nos coloca em xeque-mate. Tem uma suavidade cortante no caminho que leva para um desfecho bárbaro. E como se tudo não passasse mesmo de uma pintura pendurada numa das janelas do trem.  

Vinte anos, Armários e Sem mais solidões trabalham a busca interior das personagens, seus conflitos e soluções ou não soluções. Vinte anos é mais fotográfico.  Os outros dois têm a preocupação em solucionar e explicar as próprias soluções. Em Sem mais solidões, esta frase específica está a meu ver, forçando um impressionismo desnecessário, já que o conto por si só é impressionante, dispensando frases de efeito.   

Pouso forçado é um  texto muito bom, mas o rebuscamento atrapalha um pouco. 

A Musa Inspiradora é um texto que peca pelo didatismo 

 

 

 

 

 

O MELHOR DE MIM

 

Bem,agora, na reta final, eles começam tendo que julgar a si mesmos. Pedimos que enviassem o melhor conto de sua produção, desde que inédito, com os mesmos limites de 3 páginas. Queremos saber agora, o que eles consideram o seu melhor. Se nós concordarmos, eles estarão na final! O problema é que eles são seis só temos três vagas!

 

Conto 1

 

A VIAGEM DE MIRELA

 

O dorso da composição dobrou à esquerda e, sempre que isso acontecia, as fagulhas da chaminé se esvoaçavam sobre a camisa do rapaz loiro, que abanava as cinzas com o quepe, esfregava os olhos com as costas das mãos e depois recostava a mão no braço da poltrona que ficava em frente à porta traseira do vagão. No vagão de trás, a pequena Mirela espiava, por uma fresta, o cabelo dourado do rapaz, e se recordava de uma manhã, para ela distante. Lembrou-se de estar tomando leite e comendo pão com os pais Danira e Mango, e com Drago, seu avô. Havia sido Danira quem lhe mostrara um trem pela primeira vez. Desde então, sempre que via um trem, Mirela choramingava que queria viajar. Não que não viajasse, pois era o que mais fazia na vida. Mas era de trem que ela queria viajar. E agora ela estava, até que enfim, viajando de trem.

Lembrou-se das outras barracas, onde as famílias de Shandor e de Manolo também tomavam leite e comiam pão. E também do desarmar das tendas, do carregar das coisas mais pesadas, dos carroções empanzinados com bagagem, com sofá, com ferramentas, e de tudo sendo coberto com lona.

O trem parou em uma estação pequena para se abastecer de água, e Mirela continuou olhando pela fresta, enquanto uma fila de gente entrava no vagão onde ela estava. Fecharam a porta de correr, Mirela ouviu um apito, e o trem começou a se arrastar pelas barras de ferro que ela não via, mas que sabia parecerem se encontrar, lá, bem longe, muito atrás do último vagão. O trem passou a correr, e as flâmulas desfraldadas e os gonfalões trêmulos confundiram-se com a fumaça.

Recordava-se das viagens na carroça, de seu pai conduzindo os cavalos, dos estalidos do chicote, do tropel dos cascos dos animais se chocando com os pedregulhos, e da mãe lhe ensinando a decifrar a escrita que o destino traça nas palmas das mãos, a interpretar as combinações das cartas, a entender os enigmas dos sinais recatados e os segredos da gramática romani.

Lembrou-se de que havia sido Drago quem lhe dissera que pertenciam ao povo boêmio, e também fora ele quem lhe falara da interpretação manuche dos mistérios do Moçafo sagrado e da importância de morrer ao relento. Drago lhe ensinara tanta coisa... Também havia sido ele quem lhe contara que é o tempo que arrasta o espaço, que um não existe sem o outro, e que, sendo assim, ao contrário do que dizia todo mundo, o nômade não era livre, pois as fronteiras de seu povo, parecidas com as linhas que Danira lhe ensinava a ler nas palmas das mãos, eram desenhadas pelo tempo e não pelo espaço. Ao lembrar-se de Danira, a pequena Mirela sorriu.

Ninguém lhe contara, mas Mirela sabia que o tempo do povo errante corria mais depressa que o do camponês que passava a vida fincado no mesmo lugar. Sabia o quanto era fugidio o termo de sua gente e que era por isso que se agarravam tão loucamente à vida. Lembrou-se do arco lancinante de Drago ferindo as tripas da rabeca encostada ao coração, de Mango a desferir unhaços e arranhões nas cordas da guitarra e da silhueta de Danira, esculpida pelas labaredas noturnas, uivando aos trancos.

 

Ao lado, o sol estirava a sombra do comboio por sobre as cercas e as fileiras de batata e beterraba, e fazia dos trilhos um par de fios delicados de cobre fino, mais vermelho que amarelo. Na estrada paralela aos trilhos, ela avistava, até onde ora a poeira ora a lama ora a fumaça deixavam, mais gente como ela e mais gente como o loiro com quepe da cor de azeitona, que continuava sentado na última poltrona do vagão da frente.

Mirela estava, finalmente, viajando de trem. Cada minuto passava em dobro e parecia, às vezes, durar mais que as horas. O tempo parecia estar, pouco a pouco, congelando. Lembrou-se de cantos lúgubres atrás de portas fechadas e de migalhas dissolvidas na água; de cochiladas intermitentes, de sobressaltos constantes e de espaços reservados às sombras.

Continuava olhando insistentemente pela fresta, pois não queria olhar para trás, para dentro do vagão sem poltronas. Pouco atrás de Mirela, Mango estava deitado com o lóbulo esquerdo rasgado sem o brinco de ouro que ela nunca se cansara de admirar. Tinha os olhos e a boca entreabertos, e, um canino no lugar onde deveria estar um incisivo, somado ao filete coagulado e preto no canto da boca e ao gelado do corpo, dava-lhe um ar vampiresco. O trem foi diminuindo a marcha e, sob a lua, as chaminés de Treblinka lembravam minaretes fumegantes espetados em mesquitas de platina.

 

 

Conto 2

VINTE ANOS

 

            O calor do meio da tarde sufocava, deixava mole. Daniela ia com a cabeça encostada na janela do ônibus. Casa, calçada, gente, carros. Tudo passava depressa. Mas quando o ônibus parava a imagem parecia congelar. Virava um retrato daquele momento. Um retrato somente, que não lhe dizia respeito. Frio e sem vida, porque ela não sentia como se fizesse parte dele. Também não queria fazer. Era apenas a paisagem que via da janela, nem bonita nem atraente. Casa, rua, gente.

            Em uma das paradas, Paulo entrou. Carregava uma mochila e um violão dentro da capa. Lançou um olhar, procurando um assento vazio. Havia vários. Daniela quis e não quis que ele sentasse ao lado dela. Ele sentou.

            “Por que logo aqui?”, ela pensou com um pouco de irritação, recolhendo o corpo, instintivamente, mais para perto da janela. “Bem, se eu tivesse que escolher entre a senhora gorda e o moleque com jeito de punk, também escolheria sentar ao meu lado.” Lançou um olhar de canto de olho para o rapaz. Deveriam ter mais ou menos a mesma idade. Era bonitinho, parecia simpático. Será que era boa companhia para conversar? Não tinha muitos amigos atualmente. Tanta coisa para estudar, tanto trabalho para fazer... Sentiu uma leve pontada no peito. A mesma que sentia a cada vez que tentava se enganar. Na verdade, andava sem paciência para as pessoas, para a vida. Melhor atribuir a sua aversão social à falta de tempo ao que realmente era: uma irritação generalizada, um mau humor crônico, um leve desespero que enchia seu peito toda vez que assistia a um telejornal. Como se não tivesse mais jeito para o mundo. Violência, aquecimento global, corrupção. “Meu Deus, desse jeito tenho um infarto antes dos vinte e cinco anos.” Esvaziou a mente de novo, dedicando o seu olhar aos carros. Prata era a cor da moda. Onde estavam os carros amarelo-ovo, azul celeste, vermelho goiaba? Uns poucos corajosos que se arriscavam a comprar um carro colorido. Os outros eram prata e branco. Às vezes preto. As ruas iam ficando sem-graça, assim como a vida.

            Paulo observou discretamente a sua companheira de viagem. Parecia triste. Melancólica. “Melancólica”, repetiu mentalmente. Era uma boa palavra, essa. Gostava dela, chegava a usá-la com um certo abuso. Deveria controlar-se. Não se pode desperdiçar boas palavras assim. Devem ser guardadas para o momento certo. Mas aquela parecia uma boa hora. Melancólica era a palavra certa para descrever a menina sentada ao seu lado. A pele branca, o cabelo longo e escuro, cacheado. Poderia ter saído de um romance do século dezenove. Ficaria bem em meio a rendas, tendo um desmaio cenográfico. Olhou para os livros que ela carregava no colo. Teoria da literatura, gramática de espanhol, Romeu e Julieta. “É a cotovia, o arauto da manhã; não foi o rouxinol.” Riu sozinho. Os amigos implicavam com o seu jeito, e admitia que tinham certa razão. Quem andava por aí declamando Shakespeare? Essa era sua vida: letras e sons. Começou a cantarolar baixinho uma música.

            Daniela reconheceu a canção. Era do Legião Urbana. Olhou novamente para o rapaz. Cabelo despenteado, óculos de estilo, calça jeans velha e camisa larga branca, de algodão. “O que é isso, reencarnação do Renato Russo?”, pensou com ironia. Em seguida redimiu-se. Ele cantava bem. Será que lembrava de quando o Renato havia morrido? Ela era nova, mas sua irmã tinha dezoito anos na época. Chorou uma semana, e o Legião foi a trilha sonora da casa durante o período de luto. Manhã, tarde e noite. “Eu conheço todas as músicas dele. E você?”

            Paulo ainda estava admirado. A garota lia Romeu e Julieta. As que ele conhecia, quando muito, liam revistas. Mas aquela ali, ao seu lado, carregava um livro de Shakespeare sem a menor cerimônia. E não era exemplar de biblioteca. Prazer ou dever de casa? E qual tipo de música será que gostava? Rock? MPB? Hum, tinha cara de quem curtia Marisa Monte. “Já ouviu o novo CD?”, Paulo quis perguntar. Mas não falou nada. Parou de cantar. O silêncio pesou no ônibus, entre os dois.

            “Continua a musica.”, Daniela pediu. Mas não materializou as palavras. Não olhava mais para fora, mas para a frente do ônibus. Assim, observava discretamente o rapaz pelo canto dos olhos. Ele fazia o mesmo. Sentia um calor que vinha da sua companheira. Calor humano ou da tarde de verão? De qualquer forma o ar quente era quase palpável, e Paulo deixou se envolver pelo mormaço, como em um abraço. Os dois ficaram assim, imóveis, o olhar fixo à frente. A mente gritando.

            Ela: “Tenho tantas coisas para falar, acho que você conseguiria me entender. Porque talvez você, assim como eu, também se sinta perdido e agredido pelo mundo, deixado sozinho à própria sorte. Porque talvez você também tenha sido pressionado a escolher, antes mesmo de ter idade para dirigir, o rumo que queria dar a sua vida. E de repente, percebe que a profissão que você escolheu é apenas mais uma entre um leque infinito de possibilidades, as quais você nunca poderá provar ou escolher. E sente como se você fosse apenas um esboço do que poderia ser. Um rascunho mal feito do que deveria ser a sua obra-prima, você mesmo.

            Ele: “A vida é tão difícil. Trabalho, estudo, trabalho. E mãe que não entende que posso sim, viver de música e para a música. E um pai que talvez entendesse, se alguma vez me ouvisse. São cobranças demais, e não sei se conseguirei pagá-las. Mais do que no bolso, dói na alma. E não posso viver para sempre com a impressão de que estou fazendo a escolha errada.

            Daniela suspirou. “Essa impressão me consome. Está tomando a minha alegria, a minha disposição para viver. Tenho uma irmã tão perfeita! Nada na vida dela pareceu ser difícil ou problemático. Seguiu um caminho que já parecia traçado desde que ela nasceu. Outro dia perguntei se ela nunca se arrependeu de qualquer decisão e ela disse que não, acredita? Eu acordo pela manhã temendo até escolher a roupa errada para aquele dia.”

            Paulo sorriu. “Ou isto ou aquilo, já dizia Cecília Meireles. Li o poema na segunda série, e nunca mais esqueci. Se escolhemos uma coisa, estamos obrigatoriamente abrindo mão de outra. Só que não podemos prever as conseqüências de cada um de nossos passos. Por exemplo, se eu escolher agora não falar com você, será que estou abrindo mão de conhecer uma pessoa incrível ou de levar um fora?”

            Os dois se encararam por um segundo. Paulo esboçou um sorriso, Daniela buscou rápido o conforto da paisagem morta do lado de fora do ônibus. O rapaz baixou a cabeça para a mochila surrada e o violão apoiado entre as pernas. Seu melhor amigo, sua companhia. “Uma namorada, Paulo, você precisa de uma namorada.” Mas ninguém parecia atrair sua atenção. Pelo menos não tanto quanto a moça ao seu lado, naqueles poucos minutos. O cheiro dela era bom. Cheiro de sabonete, de banho recém-tomado. Tinha mãos bonitas, devia ter a pele macia. “Inteligente, ou pelo menos estudiosa. Bonita, cheirosa... Eu só precisava saber se ela gosta de conversar também. Ei, olha pra mim!”

            Daniela sentia o olhar do rapaz sobre ela. Sem mais disfarces. Direto, incisivo. “Eu não estou pronta para isso. Preciso de uma porta para o mundo, mas essa passagem tem que ser aberta dentro de mim, e não por outra pessoa.” Mas será que enfrentar o mundo a dois não seria mais fácil? Ainda por cima com alguém que gostava de música. A música tornava tudo mais fácil, não era? Não precisava falar, era só ouvir uma das tantas letras que expressavam o que sentia melhor do que ela jamais seria capaz de colocar em palavras.

            O rapaz ajeitou a mochila em um dos ombros, preparou-se para levantar. O estômago de Daniela revirou-se, ansioso.

            “Não vai embora assim! Me diz o seu nome, deixa o seu telefone...”

            “Oi, eu sou o Paulo. Aparece hoje à noite lá no Bar do Esquilo. Sabe onde fica? Eu toco lá toda quinta...

            Olharam-se mais uma vez, sem subterfúgios. Paulo pensou em continuar a viagem, finalmente tomar a iniciativa de iniciar a conversa, mas estava atrasado. Tinha compromissos, horários. E não podia se atrasar para o bar. Precisava do dinheiro. Daniela pensou em saltar ali também, ver aonde ele ia, descobrir ao menos o nome do rapaz, mas tinha aula. E prova. E o trabalho em grupo. E enquanto Paulo encaminhava-se para a porta do ônibus, o sutil fio de seda de afinidade que havia sido tecido entre os dois foi se desfazendo.

            Daniela encostou novamente a cabeça no vidro empoeirado do ônibus. Casa, calçada, gente, carro. “Eu podia derreter com todo esse calor.”

            Paulo parou uns segundos na calçada, antes de decidir seguir o seu caminho. “Que calor! Bem que podia chover.” Bem que podia chorar.

 

Conto 3

ARMÁRIOS

 

Ele nunca pensara que as campainhas pudessem transmitir emoções. Pelo menos, até aquele momento, quando o “din, don” da entrada soou o que lhe pareceu um toque angustiado. Deixou que a empregada, quase uma parente, por conta dos longos anos de convívio, abrisse a porta. Ele estava com uma dificuldade cada vez maior para andar, fruto da idade avançada e de uma polineuropatia mal explicada e mal medicada.

Esperou a visita na sua cadeira, onde passava a maior parte do dia. Quando Carlos apareceu na sala de estar, o homem velho constatou que a campainha tinha todos os motivos para estar angustiada. O semblante do rapaz era uma tentativa frustrada de esconder uma alma torturada por sob uma capa transparente de jovialidade e simpatia.

– Que bom, Carlos ! Há quanto tempo não te via !”, disse o velho com sincera alegria. Carlos abraçou-o, mostrando que a recíproca era verdadeira: “– Pois é, a vida está tão confusa, tanto trabalho...”, sentando-se na poltrona ao lado. “– O tempo vai passando, a gente sempre deixa para amanhã e...” – interrompeu a frase, ao mesmo tempo em que mordia o lábio inferior e espalmava as mãos em sinal de conformismo, ou desalento, ou ambos. Olhou fixamente para o velho e disparou: “– Preciso de ajuda”.

O ancião foi surpreendido pela rapidez com que a necessidade foi apresentada. O cenho franziu-se espontaneamente, mas o balanço de cabeça fez as vezes de um convite para que o rapaz continuasse. “– Estou passando por uma fase muito difícil. Não é nada de dinheiro, nem de saúde”, um ricto de alívio escoltando os atenuantes. “– Mas... tem a ver com a Suzana”.

O velho não esperava por isso. Carlos e Suzana estavam casados já há algum tempo, tinham dois filhos adolescentes. Viviam aparentemente bem – não, corrigiu-se, MUITO bem. Nunca se ouvira falar de alguma briga entre eles, algum rompimento. Eram sorrisos e gentilezas mútuas, pelo menos em público. Nada parecia indicar alguma turbulência invisível sob aquele mar sem ondas. Achou que deveria deixar que o jovem continuasse. “– Não está dando mais, não estou mais conseguindo fingir !”, olhando para o teto como se rezasse. Um suspiro profundo acentuou a pausa. “– Estou cansado, estou exausto de tanto fingir”, completou, unindo as mãos e fechando os olhos com os indicadores. De novo, como se rezasse; agora, uma prece de desespero.

O ancião esquadrinhou rapidamente o leque de possíveis respostas. Teria que tentear com cuidado. Sabia que aquele desabafo era algo raríssimo em Carlos, uma pessoa naturalmente reservada. Decidiu-se pela alternativa mais óbvia: “– Você já tentou falar com ela ?”. Outro suspiro introduziu a resposta, quase um lamento: “– Não posso, não posso fazer isso”, ainda olhando para baixo, a cabeça expressando uma negativa enfática. “– Como é que vou contar para ela ? Uma mulher tão boa, tão dedicada, tão amorosa, tão...”, levantou o rosto para completar num sussurro: “... tão apaixonada por mim ! Como é que vou causar a ela uma decepção tão grande, depois de todos esses anos ?”

O velho percebeu que o rapaz ainda não lhe contara o motivo daquela angústia, a causa daquela decepção. Não quis insistir neste ponto. Não ainda, pelo menos. Afinal, fosse o que fosse, havia aspectos mais gerais naquela questão que prescindiam dos detalhes específicos.

Depois de pesados segundos, rompeu o silêncio: “– Você não pode continuar fingindo, Carlos. Ninguém consegue fingir o tempo todo. Nem os atores profissionais, não é mesmo ?”, perguntou com um sorriso gentil, ao mesmo tempo em que, com esforço, chegou-se para a frente. Olharam-se, o que encorajou o velho a prosseguir: “– Chega uma hora em que a gente percebe que o mundo ficou pequeno”. Esperou alguma resposta, que não veio. Respirou fundo e completou: “– Chega uma hora em que a gente percebe que está dentro de um armário apertado. E a gente tem que sair desse armário, Carlos !”.

O rapaz se sacudiu, como se alguns ampères o tivessem percorrido: “– O quê ? Sair do armário ? Que é isso ? Você está me chamando de gay ?”. O velho recostou-se novamente, com vagar. “– Não, Carlos, não estou chamando você de gay. Não sei se você é gay, nem me interessa saber. Não sei o que está se passando com você e a Suzana, nem vou te perguntar. Você me conta se quiser. Mas acontece, Carlos”, passando a escandir as palavras, “acontece”, repetiu, “que o armário não é só para gays. O armário é uma metáfora que se aplica a todos aqueles cujo modelo de mundo já não lhes serve”.

O rapaz balançou mais uma vez a cabeça, agora em sinal de incompreensão. Levantou-se e olhou em volta, buscando inutilmente alguma referência. À falta de alternativas, andou até a mesinha de canto e serviu-se da garrafa de café que acompanhava os dias do habitante quase inválido daquele aposento. Sentou-se de novo e admitiu: “ bom, não entendi”.

O velho sorriu com genuína ternura. “– Lembra do sistema geocêntrico ?”. O rapaz assentiu mecanicamente, claro que sim, sempre fora ótimo estudante. “– Pois é”, prosseguiu o ancião, “a idéia de que a Terra era o centro do Universo e que os astros giravam em torno dela presos a esferas concêntricas funcionou muito bem durante milênios. Só que, quanto mais precisas se tornavam as observações dos movimentos celestes, mais furos apareciam, como, por exemplo”, interrompeu, para bebericar um gole da xícara de café que o rapaz lhe estendera, “aqueles períodos em que alguns planetas pareciam andar para trás, não é ?”. O jovem concordou, ainda em silêncio. “– Aí, ao longo dos séculos, foi necessário introduzir naquele modelo uma enorme quantidade de esferas dentro de esferas, inúmeros eixos de rotação diferentes, engrenagens absurdas, mas não adiantava. Sempre aparecia um planetazinho implicante para desmoralizar aquela construção cada vez mais complicada”. O rapaz não pôde deixar de sorrir, ao se lembrar de um abstruso modelo mecânico construído nessas bases que ele vira em um museu da Europa. “– Chegou um momento, Carlos”, continuou, “em que a humanidade saiu do armário geocêntrico. Ele já não explicava, já não satisfazia. Já não dava mais, entendeu ?”

O ancião percebeu o claro aumento de interesse do seu interlocutor, o que contribuía, por sua vez, para reduzir um pouco a visível tensão em seu rosto. “– E.. ?”, indagou o rapaz.

Dois goles de café depois, o velho respondeu: “– E assim também na vida, moço! A gente passa algum tempo – ou muito tempo ou, até mesmo, a vida toda – dentro de um mundo cujo modelo nos explica bem, nos satisfaz. Até que chega um dia, ou um evento, em que aparece um sentimento inesperado, uma impressão que não podia estar ali, um planeta andando para trás no nosso céu”. O ancião olhou com triste resignação para a sua xícara de café, antes de continuar: “– Quando é que surge a primeira centelha de duvida ? Quando é que nossa voz começa a ser respondida pelo eco trazido por um imenso espaço vazio ? E quando é, Carlos”, suspirou, “que se percebe que esse espaço vazio está dentro de nós ?”

O rapaz ouvia estático, hirto. O ancião não previra tamanha veemência, mas já não havia como voltar atrás. “– Esse momento é diferente para cada pessoa, Carlos. Mas o que é realmente importante”, e apontou para a mesa, um pedido por mais café, “é que, depois que se percebe que se está dentro de um armário, a gente só consegue continuar lá à custa de MUITO esforço, MUITAS contorções, muitas esferas extras. Tem gente que consegue, claro”, encarando o rapaz, “mas paga um preço muito alto por isso”.

O velho parou. Precisava tomar fôlego, físico e mental. Talvez tivesse falado mais do que desejava e devia. Não sabia como o rapaz reagiria. E ele, afinal, replicou: “– Mas, então, é simples assim ? Basta sair do armário, como você sugere, e tudo se resolve ? Você falou no custo de continuar lá dentro. E o preço que se paga para sair ? E as outras pessoas, e a Suzana, e as crianças ?”, levantando-se e andando em círculos pela sala.

O velho meneou a cabeça. “– Não, eu não disse que é fácil, Carlos. E nem disse que só existe UM armário”. O espanto no rosto do jovem revelava a espera por uma explicação: “– Quem sabe”, continuou o ancião, “a vida não possa ser entendida como uma sucessão de armários, um dentro do outro, dos quais vamos saindo para uma aparente liberdade que acaba por se revelar um outro armário, só que mais amplo do que o anterior ? Começa no útero materno, nosso primeiro e aquoso armário. Depois, tantos outros: os armários das ilusões da infância, da infalibilidade dos pais, de um mundo baseado no Bem e no Mal, da onipotência adolescente, da...”, hesitou brevemente, “... da submissão a valores, do amor por uma pessoa. Não é assim ? Vamos deixando atrás de nós os armários dentro dos quais, antes, nos iludíamos e, depois, nos escondíamos, até sermos expulsos pelas contrações da alma para dentro do armário seguinte, sempre com a expectativa de que ele seja, enfim, o armário definitivo, o último, aquele cujas portas dão para as respostas definitivas, últimas”. O rapaz sentara-se. O velho adivinhou seus pensamentos enquanto prosseguia: “– E como termina essa viagem pela vida ? Será que chegamos àquele último armário, o útero universal, a nossa bolha de felicidade? Ou será”, prosseguiu, “que desembocamos em um armário fechado com as grades da nossa covardia e da nossa fraqueza, do qual, enfim, nunca mais sairemos ? Não sei, Carlos”, concluiu com cansaço na voz e no espírito, “mas, se existir, este armário da desistência e da capitulação será, na verdade, um sarcófago. E estaremos mortos em vida”.

Ambos se olharam silenciosa e demoradamente. A pergunta do jovem veio num fio de voz, uma súplica, um pedido de ajuda: “– O que eu faço, pai ?”.

O ancião levantou-se lentamente, apoiou-se na bengala com a mão direita e estendeu a outra para o ombro do rapaz: “– Olhe para o céu, filho. Olhe para o SEU céu. Só você pode saber se está na hora de abrir as portas”.

Abraçaram-se. Pela primeira vez em muito tempo, o pai sentiu-se jovem. E, pela primeira vez em toda a sua vida, o filho sentiu-se adulto.

 

Conto 4

 

POUSO FORÇADO

 

Não mostrava o rosto. Esquecera o olhar na lapela do vestido preto, o que fazia crer a todos que a profunda tristeza era o motivo de seu recolhimento. Perdera-se nas cores sutis, quase transparentes, pintadas como a aurora nas asas fluidas de duas borboletas. Aquelas belezinhas haviam pousado no seu peito em algum instante do passado. Mas quando?

Com os dedos da mão esquerda, acariciava as asas das criaturinhas. Indicador e médio roçavam a seda macia. Era como tocar o nada. Quanto prazer! Às vezes, o anel enganchava nas pequenas antenas e atrapalhava o tato agradável. Então, sentia um aperto sufocar-lhe o peito, como se aquela algema no anelar estivesse ali para acinturar-lhe a  existência. Alguém havia colocado aquele anel no seu dedo. Quando mesmo? Quem? Livrou-se do adorno desconfortável. Lançou longe o incômodo elo com a realidade. O rodopiar ligeiro da aliança no chão escuro interrompeu o prazeroso exercício de acarinhar aquelas coisinhas nenhumas. Sua atenção dissipou-se em outro nada: o giro divertido do minúsculo bambolê, bem embaixo de suas pernas. Muito engraçado! Gargalhou com o movimento da rodinha fugitiva.

- Mamãe! Mamãe! - rosnou a mulher que a acompanhava. - Isso é demais! Jogar sua aliança no chão!! – repreendeu a indignada dona de uma voz artificialmente suave.

- A senhora está no velório do papai! Ah, não! Isso é o fim!

A aliança ainda tilintava no granito enquanto as gargalhadas ecoavam no silêncio pesado do ambiente fúnebre. Os presentes foram arrebatados do aparente luto em que se encontravam. Em instantes, juntou-se às gostosas risadas da viúva, o barulho indiscreto da ruidosa profusão de cochichos.

A única herdeira, constrangida diante dos veladores, meneava a cabeça num gesto de inconformismo. Mas, para tentar dissimular o inusitado da situação, levantou a mão da mãe de forma que muitos a vissem e, enquanto acariciava os dedos magros da velha senhora, dizia em tom audível, porém, entre lágrimas:

- Coitadinha, a aliança não pára mais no dedo. Emagreceu demais desde que papai sofreu o acidente. É muito sofrimento, não é mamãe?

O genro, bem comandado pelo olhar autoritário da mulher, apressou-se em perseguir a aliança antes que ela fizesse o que ele mesmo estivera desejando fazer desde o início daquele teatrinho insuportável: fugir da capela. Aborrecido, enfiou o anel no bolso do paletó.

De volta ao existir pacífico das borboletas sobre o peito, a viúva não esboçava qualquer reação. Seus olhos, perdidos no observar meticuloso dos broches espetados na lapela do traje de luto, não expressavam qualquer sentimento. Reiniciou, com a mão direita, a brincadeira infinita e delicada de roçar dedos nas asinhas sedosas.

- Venha mamãe, vamos dizer mais um adeus ao papai.

A filha enlaçou a senhora pela cintura com o objetivo de arrastá-la até a beirada do caixão. Longínqua, a mãe não saia do lugar. Os olhos permaneciam grudados no vestido. Estava firmemente plantada no solo negro onde, em algum momento do passado, duas delicadas borboletas haviam pousado. 

- Vamos, mamãe. Não dificulte mais ainda isso tudo! Vamos, troque os passos!

A filha mal disfarçava a impaciência com a teimosia da mãe. Com os pés calçados em elegantes scarpins de salto alto empurrou sutilmente os da viúva para a frente, forçando um deslocamento. A senhora sorriu para a filha.

"Oi bota aqui, oi bota aqui, oi bota aqui o seu pézinho..." Então era assim: um pé para frente, outro para trás, troca... Olha o ritmo! Uma volta no lugar, mão na cintura e...

Sentiu a mão gelada apertar seu corpo. Lembrou-se da recente sensação de aperto que acinturava-lhe a existência... E os pés empurrados... Sem sapatilha... Cadê a sapatilha?  Afinal, porque pensavam que ela não podia trocar seus passos sozinha? Desde quando precisava da ajuda de alguém para ir a algum lugar? Que lugar? Não, não queria ir a lugar algum. Queria dançar... E ouvir a cantiga de roda que soava como uma cosquinha nos seus ouvidos...  Cosquinha?  Ah! As borboletas... as suas asinhas fazem cócegas nos dedos... “E depois, não vá dizer que você se arrependeu...

A mulher idosa, porém ainda firme e de andar decidido, já tinha conseguido se desvencilhar do cerco da filha. Com as mãos nos quadris, mergulhada em profunda concentração, cantarolava baixinho, enquanto ensaiava com os pés descalços uma troca de passinhos no mesmo lugar.

- Mamãe, mamãe... Não faz assim! Por favor! Calça a sandália! Mamãe!, - e sacudindo a viúva pelos ombros, disse exaltada: - Papai está morto! A senhora sabe disso? Papai está morto!

Já não conseguia disciplinar a voz. Mãe e filha tornaram-se alvo dos olhares desconcertantes de contritos ex-amigos do defunto. Um quê de penalizada incompreensão pairou sobre a capela.  Ao redor do caixão, cabeças brancas balançaram num queixume mudo de indignação. Pobre senhora...

Mesmo sem a mirada de comando, o marido achou por bem aproximar-se e, contrafeito, abraçou a mulher para sussurrar-lhe ao ouvido:

- Cléia, deixa a velha! Não adianta! Todo mundo já percebeu que sua mãe está demente. Pra que esconder? Você está sendo ridícula! Não é hora de bancar a fina! Pelo menos no enterro do seu pai, vê se larga essa sua afetação! Deixe sua mãe em paz. Ela não sabe nem onde está. Isso é sintoma da doença, você sabe! Conforme-se!

Conformar-se? - pensou, fuzilando o marido com uma raiva silenciosa e contida.

Jamais! Absurdo! Total absurdo aceitar que sua própria mãe não conseguisse chorar uma única lágrima pela morte do seu pai. Dois anos! Somente dois anos separavam aquela cena bizarra da sua tão desejada partida para a Espanha. Dois anos apenas e a mãe estava reduzida àquele traste, incapaz de esboçar um sentimento, incapaz de reconhecer no caixão o companheiro de tantos anos, incapaz de se portar com o mínimo de consideração e decência próprios de um momento como aquele... Conformar-se? Como? A mãe que deixara no Brasil há dois anos era uma mulher culta, sensível, requintada, chique... Alguns lapsos de esquecimento, pequenas distrações... Às vezes ficava muito calada... Mas o diagnóstico era tão vago, sintomas tão genéricos... Um tipo de demência degenerativa, de progressão imprecisa... Não, não podia compreender porque o pai tinha lhe escondido a verdade durante todo este tempo. Tiveram oportunidades, algumas conversas ao telefone, e o pai... Por quê? Por que ocultara o desenvolvimento da doença? Por que omitira a verdadeira condição da mãe? Ela era a única filha e... Admitia que o fato de estar morando fora algum tempo tivesse esfriado a relação com a família.  Mas o pai conhecia bem os compromissos de um diplomata, foi ele mesmo quem acabou enfiando na sua cabeça aquela idéia fixa de seguir a mesma carreira que ele. Estava no auge da profissão. Um país da Europa é tudo o que almeja um oficial de chancelaria. Não fora negligente, simplesmente não podia acompanhar o envelhecimento dos pais com uma carreira tão promissora pela frente. E com o agravante de estar tão longe... E tão atarefada... Meu Deus! Foi tudo muito rápido! De repente, o pai morto... E a mãe...

A mãe já estava calçada, caminhando por uma alameda repleta de improváveis lembranças: recordava-se perfeitamente de coisas que ninguém viu. Exibia, para os que se aproximavam, um sorriso de satisfatória incompreensão e apontava os insetos de pano colorido presos no vestido, como se a visão daquele pouso imprevisível pudesse consolá-los. Por que tanta tristeza?

Pelo menos estava bem maquiada. Não tinha a menor condição de levar a mãe para o enterro do jeito que a encontrou em casa: roupas amassadas, cabelo desanjarrado, dentes sujos... Um horror! Penteara a velha para que não transparecesse um sinal sequer de desleixo. Luto elegante, chapéus e meias pretas, adequados a um sepultamento matinal. Esmerara-se no seu figurino e no da mãe. “Décadence avec élegance!” A própria mãe lhe ensinara essa lição ainda na infância. Não deixaria que a descompostura da viúva virasse o mote do dia no Itamaraty. Pessoas importantes estavam ali! Diplomatas, altos executivos do governo, conhecidos de longa data... Já bastava a caduquice afrontosa da mãe! Aliança no chão, pés descalços... Aquele estúpido comportamento infantil!

Obediente ao comando visual da mulher, o marido ficou em guarda ao lado da sogra, tentando antecipar-se ao próximo constrangimento.  Mas a senhora permanecia ausente, em viagem pela eternidade daquela deliciosa sensação: macias, coloridas e... Geladinhas! Asas de borboletas são geladas como o ar da manhã, bem cedinho. Por isso batem, e voam, voam...

A viúva começou a mexer os braços de leve e desenhava no ar visivelmente tenso da capela ondas de um vôo macio e despretensioso. Vou até aí, Adolfo, nas asas de nossas borboletas...

 

Se soubesse que os broches de seda chinesa comprados em Paris fariam a mãe mergulhar naquela profunda palermice, jamais os teria espetado na lapela do discreto vestido de organza preto. Tolice! Não havia como ignorar. Definitivamente, a doença tinha inutilizado a mãe.  Mas, o velório, não! Inadmissível! Era a despedida do seu pai, um homem tão bem quisto, tão respeitado por sua seriedade, discrição. O velório... Pelo menos o velório do Ministro Adolfo Lima precisava ser salvo de tanta decadência. Não suportava imaginar o escárnio de todos aqueles conhecidos que, ali, diante do caixão, tentavam ocultar os comentários ardilosos por trás de lamentações falsas. Sabia que mais tarde criticariam aquela cena patética. Falariam da figura vexatória na qual sua mãe havia se transformado. O que os comovia não era a morte do pai, mas a condição risível a que sua família havia sido reduzida.

Sinalizou para o marido trazer a mãe para perto. Simulando um abraço carinhoso, aos poucos conseguiu arrastar a senhora até a altura da cabeça do defunto. A mãe cedeu. Parecia cansada de voar. Já havia se esquecido da última lembrança. Seu sentido estava pousado na lapela do vestido e tinha longas asas.

A filha, impaciente, tomou a cabeça da mãe por trás, disfarçou uma arrumação no coque da velha senhora e aproveitou o movimento para desviá-la das borboletas. Colocou os olhos da mãe diretamente sobre os do velho morto.

- Mamãe, mamãe! Veja o papai... Coitado! Ele está morto! Estamos no velório do papai, mamãe! A senhora não está triste? Ele morreu... Olhe para ele! A senhora está vendo?

Não viam. Nem mãe nem filha. O pai era um passado remoto para ambas. A mulher mais nova não conseguia conter a ansiedade. Estava desesperada por uma expressão da mãe, algum traço de sentimento naquele rosto inerte, congelado em um sorriso tão morto quanto o defunto. Encostou a boca no ouvido da viúva e  implorou:

- Mamãe, por favor, concentre-se, é o enterro do papai... É natural que a viúva demonstre algum sofrimento... Chega de sorrir! Por favor, pelo menos uma lágrima...

 

Onde estava mesmo o bambolezinho? Era engraçado vê-lo rodar, rodar... Curvou-se até colocar a cabeça embaixo do caixão, à procura da aliança que há pouco rodopiara pelo chão da capela. O laço perdido, o aro que apertava-lhe a existência girando no breu polido dos ladrilhos...

 

Comandou novamente que o marido se aproximasse. Ele não veio. Com alguma dificuldade, ergueu sozinha a mãe que teimava levantar-se. Mesmo sem ajuda, precisava retirar a viúva do recinto. Já era tempo de por fim àquela situação esdrúxula. Rumo ao banheiro do cemitério, encontrou o padre que celebraria o ritual de despedida. Chegou a ter a esperança absurda de que, talvez na presença do religioso, a mãe conseguisse recobrar a emoção e verter algumas gotas. Engano previsível. A viúva sequer levantou a cabeça. Sua existência eram asas de borboleta.

- Padre, me desculpe. Mamãe está muito emocionada, não está se sentindo bem. Vamos ao banheiro um minuto. Aguarde-nos na capela. estaremos de volta para o senhor iniciar a cerimônia.

 

A capela tumultuada calou-se para ver entrar uma viúva irreconhecível. A súbita dor da senhora comoveu a todos. As mãos da filha já não conduziam mais a mãe. Escondiam, tensas, uma secreta satisfação.

A velha senhora, aos prantos, tateava o peito, compungida pela mais terrível perda. Cabisbaixa, esfregava os dedos na lapela molhada em busca das belezinhas que há pouco haviam pousado em seu vestido. Mas, quando? Para onde teriam voado suas borboletas? Eram tão lindas... Agora, enfim, estavam livres...

Conto 5

A MUSA INSPIRADORA

 

― Como assim, não há tema?

― É isso mesmo, dona Musa. Nesta semana não há tema estabelecido.

― O que é que houve? O professor ficou doente, faltou?

― Não, senhora. Ele está aí.

― Então por que é que não tem tema? Ele sempre escolheu os temas, por que desta vez não?

― Parece que é uma semana diferente, uma inovação. Ele não vai propor tema.

― Ai, ai, ai! Que novidade é essa? Então não sabem que sou apenas a Musa Inspiradora? Acaso agora querem que seja a Musa... Inventadora?!

― Não sei, não senhora, só sei que está lá, na página da rede: nesta semana não tem tema. Que fazemos?

A Musa, que já estava de pé por causa do susto da notícia, pensou um pouco, deu a volta em torno da mesa, alcançou o aparador lateral e começou a preparar uma xícara de café. De súbito, ditou uma ordem, a voz em tom alterado:

― Convoque uma reunião. Urgente. Chame todo o Conselho Criador. Todo mundo, ouviu bem? Em uma hora quero todos na sala de reuniões.

Atendendo às ordens da chefe, correu o esbaforido secretário todos os departamentos, pessoalmente, fazendo as convocações para a reunião. Chamou os que vêem, na rua, as histórias acontecendo dia a dia; os que ouvem coisas no ar, no rádio; os que são capazes de farejar histórias; e, claro, todo o pessoal que fica nos bastidores: pesquisadores, escribas de primeira e de segunda linha, revisores, gramáticos, leitores, todos. Convocou até os que ficam na triagem, para classificar se a história produzida é conto ou é crônica. Esses são os que mais se queixam nessas ocasiões. Trabalham duro, fazem até hora extra, um trabalho estafante realizado após a revisão (“é conto ou é crônica? é conto ou é crônica?”, repetem incessantemente, aos pares, enfileirados em compridas e estreitas mesas), e ainda têm de ir a reuniões do Conselho?

Todo mundo, foi o que disse a Musa. Não pode faltar ninguém, que a hora é delicada. Um cochilo agora e pronto, lá se vai o trabalho de meses, foi a recomendação.

Na hora determinada, estavam todos no último andar, na sala de reuniões, em volta da grande mesa em formato de ponto de interrogação. Postada exatamente no pingo do ponto, a Musa Inspiradora abriu a reunião:

― Senhores, creio que muitos de vocês já tenham tomado ciência do motivo desta reunião; os que ainda não sabem, podem obter informações no papel à frente de suas cadeiras. A situação é delicada, pois nesta semana não há tema definido.

Um rebuliço geral tomou conta da sala. Vozes se entrechocavam e se confundiam em meio ao tilintar cada vez mais alto de uma sineta que a Musa fazia soar:

― Silêncio!! Silêncio!! Senhores, precisamos de ordem, disciplina e método. O problema é grave e o prazo está se esgotando. Como sabem, não posso inventar temas para histórias. Meu papel é o de inspirar. Eu sopro a inspiração a partir de um tema proposto. Como nesta semana não temos tema proposto, estabeleceu-se esse impasse, e por isso convoquei a reunião. Vocês todos participam do processo de criação e devem saber o que funciona e o que não funciona. Pois bem, quero ouvir suas sugestões.

― Ora, se não tem tema, dona Musa, podemos escrever qualquer coisa! - arriscou um dos copistas de segunda linha, daqueles que apenas copiam as frases menos inspiradas, que executam um trabalho, digamos, mais mecânico.

― Alto lá, qualquer coisa não, que o professor e as juradas não estão lá para ler “qualquer coisa”. É preciso noblesse.

― Poderia ser algo folclórico? - questionou a pesquisadora-chefe.

Hum, folclórico? Não sei. Já tivemos folclore antes, deixe-me ver - a voz pausada, os olhos consultando a tela do computador. Ahá! Aqui está. Melhor não. As incursões pelo folclore não foram bem-sucedidas. Melhor não arriscar. Além do mais, temos duas juradas que parecem ser muito atentas a coisas do folclore. Se elas não gostarem, o conto perde pontos preciosos.

― E então, o que pode ser?

― Eu não sei, e foi por isso que chamei vocês aqui. Eu também estou meio perdida - reconheceu a Musa, de pé, as mãos postas em palma sobre a mesa - Já inspirei em muitas situações como essa, quando não há tema. O dilema do escritor diante da página em branco já foi explorado diversas vezes, mas sempre em crônicas. O cronista que não tem do que falar e fala da falta de assunto, isso já é um clássico. Soprei até nos ouvidos de Drummond. Mas nunca vivi esse drama em se tratando de conto. O conto nasce quando alguém tem alguma coisa para contar. Ninguém planeja contar algo que não tem para contar. É kafkiana esta situação em que estamos.

― Que tal se nos inspirássemos em algo pronto? - perguntou um redator novato.

― Nada disso, meu jovem - disse a Musa, enfática. O regulamento é claro: falta de ineditismo é rua! Plágio, então, nem disfarçado! E além disso, eu não vou arriscar minha reputação. Eu já inspirei muita gente famosa que não teve um tema pronto ao iniciar. Até o francês Montaigne, quando disse que qualquer tópico para ele seria fértil, até um inseto.

― Melhor não mexer com insetos, senhora, pois tivemos aqui uma barata que já esgotou a pauta...

― Eu sei, eu me lembro, é claro. Se fui eu que inspirei, como não lembraria? - a voz um pouco impaciente - Eu preciso que vocês me digam o que fazer, e não o que não fazer.

― Esse é o problema, dona Musa. Não sabemos o que fazer. Nós nunca tivemos de nos preocupar com isso.

― É, senhor revisor, essa especialização excessiva é um mal dos dias atuais. Cada um só fica fazendo aquilo que sabe. Ninguém aprende mais nada. É nisso que dá. De hoje em diante, vamos mudar as coisas por aqui. Para começar, vamos fugir da rotina. A rotina é o contrário da poesia, como soprei certa vez ao poeta Ferreira Gullar. E sem poesia não se vai a lugar nenhum. Fujam da rotina, aventurem-se a fazer o trabalho do outro e vocês produzirão algo realmente poético e criativo.

Alheia ao vozerio que se formou em torno da grande mesa, a Musa afastou-se e caminhou até a área envidraçada da ampla sala de reuniões, como se quisesse buscar mais luz para encontrar a solução. Ficou uns instantes em silêncio, a contemplar a paisagem lá embaixo. Em seguida, foi até a parede lateral, onde estavam expostas diversas fotografias suas com artistas do mundo inteiro. Casualmente, fixou a atenção em uma delas, em que aparece abraçada ao escritor Luís Fernando Veríssimo, abaixo da qual se pode ler, escrito com a caligrafia do próprio Veríssimo, o carinhoso desmentido dado à frase a ele atribuída, e amplamente divulgada, de que a musa inspiradora é o prazo. Esse gaúcho é um grande gozador, pensou.

Depois de refletir por alguns instantes, olhando as fotografias, a Musa deu um longo suspiro, virou-se para a mesa de reuniões, pediu a atenção de todos e falou:

― Não é a minha especialidade, como já disse, mas vou me arriscar em uma função que não é a minha. Fazendo isso, dou o exemplo e começo a mudança por mim mesma. Então, nesta semana eu vou propor o tema. E já até pensei em um que me parece bom: pesquisem e vamos escrever sobre o amor.

― Sobre o amor? - questionaram todos, surpresos, as bocas abertas, quase em coro.

― Mas o amor não está em toda parte, na poesia, nas obras de arte, nas canções que já serviram de tema nas semanas anteriores? - perguntou a pesquisadora, preocupada.

― Por isso mesmo.

Todos se entreolharam, perplexos, desentendidos.

Deixa eu ver se consigo explicar a vocês. O professor já ensinou que um conto é uma célula dramática, uma unidade de ação, espaço e tempo em que o personagem se move, se transforma diante de um conflito, e que deve transmitir ao leitor um sentimento único, não é verdade? Pois então, para que possam entender aonde quero chegar, pensem em uma pintura.

― Uma pintura?

― É. Visualizem mentalmente um quadro. Uma tela de que se recordem. As cores expressam ou provocam sentimentos. Com os textos deve ocorrer a mesma coisa.

― Então vamos usar fontes coloridas? - perguntou o coitadinho do formatador, que só faz parte do processo criativo porque é sua função controlar margens, tamanho da fonte, formatação, coisas assim.

A Musa Inspiradora nem se preocupou em responder à ingênua pergunta, continuou com a explicação:

― Na ausência de todas as cores, ainda resta uma cor, que é o preto. A mesma coisa com os sentimentos transmitidos pelas histórias. Se tivéssemos de pensar em uma história da qual fossem retirados todos os sentimentos, ainda haveria de restar um único.

― Qual? - perguntou o revisor, ainda sem entender.

― Vocês mesmos o disseram: o amor. Não disseram que o amor está em toda parte? Pois então. É verdade. Se o conto tenciona transmitir ao leitor um sentimento de ódio, certamente há de falar sobre o seu contraponto, o amor. Se é uma história de inveja, traição, também não pode deixar de mencionar o amor. Assim, na ausência de temas e sem sentimentos a transmitir, resta o amor. Simples, não?

Alguns assentiram com a cabeça, embora todos ainda parecessem confusos. A Musa completou:

― Eu sei que parece confuso, mas se nós pensarmos bem, veremos que a falta de tema ditada pelo professor nada mais é do que sugestão ao amor, amor à literatura, amor à imaginação literária - as faces foram ficando iluminadas, como se ela mesma estivesse se convencendo da idéia que lhe surgia. - É isso! O tema estava o tempo todo diante de nossos olhos e nós não víamos. O tema é amor. Pesquisem o amor em suas diversas formas; vale o lirismo dos relacionamentos, a paixão, o desejo, a solidão de não se ter amor, os crimes por amor. Enfim, o amor, ou a falta dele.

― Será que vai funcionar, chefe?

― Ah, isso não há como saber. Eu mesma não sei. Estou me arriscando em uma região que para mim é desconhecida, mas acredito que em literatura não há fórmulas prontas. Não há o certo e o errado. É preciso a gente se arriscar.

― E os jurados?

― Que é que tem os jurados?

― Será que vão gostar desse tema?

― Apesar de inspirá-los, também, eu não estou na cabeça deles para responder a essa pergunta. O que eu sei é que são todos poetas, escritores, contistas, cronistas, amam sua arte, e certamente haverão de apreciar o amor.

Embora não tivesse ficado plenamente satisfeita com a solução alcançada, a Musa compreendeu que não havia mais o que discutir. Depois que se iniciasse o processo, corrigiria os rumos, soprando aqui e ali o que achasse que devia.

Postou-se novamente na ponta da mesa, diante do pingo da interrogação, e se dirigiu a todos tentando transmitir-lhes confiança:

― Se ninguém tem mais dúvidas, dou por encerrada a reunião. Voltem a seus postos e trabalhem, rápido e bem. Lembrem-se que inspiração sozinha não produz boas histórias. É preciso trabalho duro, transpiração, cuidado na escolha das palavras, apuro gramatical, lapidação delicada e paciente do texto. Todos vocês têm de se esmerar.

Depois que todos saíram, a Musa desabou em uma poltrona próxima à janela, cansada. Acionou o interfone e pediu à secretária que trouxesse um café capuccino e preparasse as chinelas, pois iria precisar delas logo mais. E disse, consigo mesma: “Não tem sido fácil, semana após semana, calçar a chinela turca de Machado e aguardar que façam a leitura do que inspirei. Não tem sido nada fácil” - E emendou, agora com um sorriso nos lábios, olhando para a fotografia - “Mas quer saber, Veríssimo? Eu não troco isso por nada”.

 

Conto 6

SEM MAIS SOLIDÕES

 

Meu estômago está embrulhando de novo. É isso toda dia. Quando chego à porta do hospital, lá vem essa náusea ininterrupta! Eu preciso aprender a me controlar melhor, ou Maria Clara ainda vai perceber o esforço que faço para vir vê-la todos os dias e encontrar seus olhos mortiços.

Faz tanto tempo que havia luz nesses olhos...As mãos de Maria Clara eram macias e mornas, como as mãos da mamãe. A sua voz me fazia virar para ouvi-la até mesmo quando falava banalidades. E os vários sorrisos que me entregava sem nenhum custo afastavam de mim os temores de criança e, mais tarde, as inseguranças juvenis. Hoje, ela se reduz a uma sombra trêmula, pálida, a um som de poucos decibéis.

 

- Bom dia... – falo baixinho para não assustá-la.

 

Nenhuma resposta. Melhor deixá-la entregue um pouco mais ao mundo sem dor do sono. Eu mesma preciso descansar um pouco. Não que eu esteja reclamando desse ir e vir, mas o estômago continua me avisando que não suporta conviver com o quase espectro de Maria Clara.

A minha entrada diária no hospital não disputa horário com nenhum outro visitante. Ninguém mais vem aqui respirar a tristeza de um corpo que definha. Hoje, estou um pouco cansada da correria entre casa, trabalho e hospital, e nem mesmo este sofá tão duro vai me impedir de um cochilo...

 

O peão entrou na roda, ô peão, o peão entrou na roda...

 

- Maria Regina, ô Maria Regina, cadê você? – escuto uma voz inconfundível.

 

Mamãe está aqui me chamando...Como é que ela fez para voltar? Será que Deus permite esse passeio fortuito das almas?

 

- Ela já vai, mamãe – responde em meu lugar Maria Clara.

 

Mas o que é isso? Maria Clara está tão viçosa, tão jovem. Como é que eu não me lembro dela assim? Quando foi que ela se recuperou daquela doença maldita?

 

- Eu chamei a sua irmã. Onde é que ela está? O almoço já está na mesa e ela não pode se atrasar para o colégio! – começa a ralhar a minha mãe.

- Ela já vai. Só um minutinho, mamãe! Eu chamo pra senhora....Maria Regina! Maria Regina....

 

- O que foi?!? O que foi, Maria Clara?

-Você estava sonhando?

 

Não estou mais. Olhando essa criatura cheia de tubos e remédios, enfraquecida no leito, meu sonho ficou grotesco.

 

- Você estava chamando a mamãe, Maria Regina...

- Estava? Engraçado...Eu não me lembro com o que é que eu estava sonhando – minto para não emocioná-la com as minhas lembranças.

 

Maria Clara merece essa redoma de proteção que coloquei sobre ela depois da doença. Preciso poupá-la, em nome das renúncias que ela me entregou.

Em criança, sempre me defendeu das broncas, das palmadas. Comia escondido os legumes que sobravam do meu prato, consertava as pernas e braços das bonecas que eu arrancava toda hora, e me contava histórias de reis e princesas na hora de dormir.

Nós fomos uma família de três. Meu pai morreu cedo demais, de uma aorta entupida, e minha mãe se viu sozinha com uma menina de 10 anos e um bebê temporão. A diferença de idade entre nós só serviu para fazer de Maria Clara uma refém da minha pequena tirania. Enquanto mamãe trabalhava fora até a lua aparecer, ela me levava e me buscava no colégio, orientava a senhora contratada para fazer os serviços de casa e ainda achava ânimo para transformar o restante do meu dia num conto de fadas.

Só bem depois nos anos eu pude perceber que mamãe permitiu à minha vida o que roubou da de Maria Clara: felicidade. Mas nunca houve uma queixa. Só aquele sorriso magnífico me esperando ao fim de cada peraltice, ao fim de cada erro.

A solidão, no entanto, não poupou nenhuma de nós. Mamãe vincou cedo o rosto amargo, transformou-se em fruto ácido e desistiu da vida por volta dos meus 15 anos. Maria Clara abnegou qualquer prazer e prosseguiu sendo a minha mãe-menina. E eu me tornei uma mulher abastecida de egoísmo inumano, me lambuzando nos festins de sexo e embriaguez que conduziram as minhas ânsias a redondezas inultrapassáveis. Se a solidão de mamãe foi por desgosto, e a da Maria Clara por renúncia, a minha, por certo, foi por castigo. A solitude se encanta pelas almas desregradas.

Maria Clara é o único alento que o universo ainda me concede. Sou fruto dela e a ela sempre posso retornar depois de cada erro, de cada culpa, como se voltasse sempre ao ventre de Deus.

 

- Maria Regina? – escuto a voz terna e baixa me chamando de novo.

- O que é, minha irmã?

- Você não está escutando... – ela me olha, tentando adivinhar o que me levou para longe dali.

- Desculpe, você quer alguma coisa?

- Vida, eu quero vida! Será que eu vou viver, Maria Regina, será? – soluça ela.

- Calma, calma! – é só o que consigo responder, surpresa com o rompante dessa mulher que não conheço mais.

 

Olho, estarrecida, Maria Clara se descontrolar num pranto profundo. Primeiro, apenas soluços, depois, um lamento maior, doído, e agora esses gritos horríveis, esses punhos cerrados...e esses olhos...esses olhos que me pedem palavras, que me pedem notícias, que me pedem respostas. Ela me desenraiza do esconderijo de fragilidade que me conveio aos anos e me cobra, inexorável, a sua vida!

Desorientada, recorro aos meus braços sem jeito para me achegar a ela. O meu abraço não a acalma de imediato. Só depois de uns minutos inexatos é que Maria Clara solta um suspiro de exaustão e se aquieta. Nós duas sabemos que o jorro desse sangradouro era esperado.

Mês após mês, entre consultas, telefonemas e expectativas, buscou-se um doador compatível. Eu, nem para isso servi. Sou ainda a mesma parasita que sugou a sua vida, mas que não pode devolvê-la. A força de tantos nãos acabou minando a resistência de Maria Clara. E nós nos perdemos juntas na frustração das tentativas.

Então, percebo, pela primeira vez, um segredo que me esbofeteia: a força de Maria Clara está retida em minhas mãos, e só o calor do meu corpo pode impedir a morte de se deitar sobre ela, como só os meus acenos podem convidar a esperança a entrar neste quarto. Porque só eu, de nós duas, conheci felicidade!

Após esse dia, nos tornei a nós duas Marias de fé. A cada manhã, e também mais à noite, quando volto do trabalho e vou direto para o hospital, Maria Clara e eu nos concentramos em conversar coisas boas. É nossa obrigação dar risadas e dizer à leucemia que somos mais incansáveis do que ela. Se os olhos de uma vagueiam perdidos, os lábios da outra os chamam de volta com o mel de um comentário prazeroso.

 

 

Faz quase um mês que o transplante foi feito. E embora nenhum diagnóstico final tenha sido proferido, a melhora de Maria Clara surpreende a mim e aos médicos. As células novas no seu sangue foram aconchegadas, aninhadas como tudo o mais em que ela toca.

E todos os dias, ao ver que as cores da primavera voltaram ao rosto tão querido, eu não penso na cura que se concretiza, mas nos Deus generoso que permite nos termos agora.

 

Eu a devolvi a si mesma...e encontrei a mim. Estamos, agora, aprendendo a cortejar a vida. Sem mais solidões.

 

Breve

O Que Eu Tenho de Melhor

 

 

No décimo desafio pedimos apenas que nos mostre um exemplo do que considera seu melhor trabalho, seu gênero preferido, sua melhor expressão em suma!

Única exigência além dos tradicionais limites de dimensão já conhecidos: seu conto deve ser integralmente inédito, isto é: não pode ter sido publicado, veiculado por qualquer meio que o tenha tornado conhecido de um público indeterminável.

Deixando bastante claro: não pode ter sido impresso em livr o(ou meio equivalente) jornal ou revista; não pode ter sido lido em eventos públicos como peças, saraus ou espetáculos e não pode ter sido veiculado em TV, rádio, internet ou meios equivalentes.

Leitura em classes ou oficinas literárias, em função do caráter didático, não constitui violação do ineditismo.

Infelizmente denúncia com prova de violação do ineditismo acarretará sumária desclassificação!

O fato de estarmos exigindo ineditismo com ênfase nesta etapa não permite que se depreenda naturalmente e por óbvio, que esta exigência não estivesse presente em todas as etapas. Aqui achamos oportuno destacar a exigência em razão do Tema Livre para garantir justiça e lisura para todos os concorrentes do certame!

 

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