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DÉCIMO DESAFIO |
ALEXANDRA RODRIGUES |
CIDA SEPÚLVEDA |
CRISTIANE BRUM |
LIANA FERREIRA |
LORENZA COSTA |
LUCI AFONSO |
MARCO ANTUNES |
TOTAL |
|
MÔNICA THATY VINTE ANOS |
9,8 |
9,8 |
9,8 |
9,8 |
9,9 |
9,6 |
10,0 |
68,7 |
|
MARIA RAQUEL MELO POUSO FORÇADO |
10,0 |
9,2 |
10,0 |
9,4 |
9,8 |
10,0 |
10,0 |
68,4 |
|
ANTONIO CARDOSO NETO A VIAGEM DE MIRELA |
10,0 |
10,0 |
9,5 |
9,2 |
10,0 |
10,0 |
9,6 |
68,3 |
|
ARTUR COTIAS
E SILVA A MUSA INSPIRADORA |
9,7 |
9,2 |
9,6 |
10,0 |
9,7 |
9,8 |
9,4 |
67,4 |
|
CINTHIA KRIEMLER SEM MAIS SOLIDÕES |
9,7 |
9,6 |
9,9 |
9,0 |
9,0 |
9,9 |
9,8 |
66,9 |
|
OSMAR PERAZZO ARMÁRIOS |
9,8 |
9,4 |
9,4 |
9,6 |
8,5 |
9,7 |
9,2 |
65,6 |
Marco Antunes:
Li diversas vezes os contos do presente
10º desafio só para me convencer de que não tinha meios de desigualá-los por
algum erro de construção, alguma impropriedade estilística, quem sabe alguma
fuga de gênero ou mesmo pela menor impressão que me causavam. Juro que cogitei
uma conspiratória reunião dos seis candidatos em que decidiram,
de comum acordo, nos enlouquecer: cada um escolheria um gênero, um tema, um
estilo diferente e faria um conto interessantíssimo no caminho escolhido. Posso
ainda imaginá-los rindo muito, antegozando o prazer da peça que nos pregavam.
Como sair dessa? Bem, minha primeira hipótese foi: “Dou dez a todos e deixo,
pusilanimemente, que as demais juradas decidam!”. Como idealizador do concurso
e principal responsável pela organização, não poderia escolher esse caminho...Então, com sofrimento, restou-me escolher aqueles
contos com que mais me identifiquei, um método, resigno-me, tão injusto quanto
qualquer outro! Então: primeiramente, destaco a fábula moderna da indevassável
solidão urbana de “Vinte Anos”, que, ao mesmo tempo, reflete a perplexidade das
personagens diante de um mundo complexo; empatado com o drama da senilidade,
que conheço de perto em família, mas que me surpreendeu pelo toque de sadismo
presente no conto “Pouso Forçado” – oferecendo, a esses dois o meu dez e tentei
escalonar os demais pelo mesmo processo. Na seqüência, a sofrida primavera de
“Sem Mais Solidões”, em seguida contemplei a beleza lírica da estória cigana
contada em “A Viagem de Mirela”, depois destaquei a
inteligente fábula da angústia do escritor em “A Musa Inspiradora” e, por fim,
a força argumentativa de “Armários” Sabendo sempre que nenhum resultado
refletiria a justiça que precisamos fazer a esses seis valentes competidores.
Se me resta um consolo, bem, resta sim: independente do resultado final deste certame, todos
os seis têm tudo para construírem uma brilhante carreira literária no futuro,
um futuro que já começou!
Alexandra Rodrigues:
A Viagem De Mirela:
Uma viagem
tão desejada quanto inesperada no trem da vida sugere a recriação das memórias de uma
vida tecida na cultura nômade. Emergem na narrativa, com impressionante força
expressiva, elementos vivos da identidade de um povo, assim como da vivência
subjetiva de um tempo que arrasta o espaço do viver.
Pouso
Forçado:
Neste conto,
que prima pela sensibilidade, o leitor é forçado a pousar sua atenção sobre as
inesperadas fragilidades do processo de envelhecimento humano, a irritar-se com
os comportamentos inadequados dos personagens, a encontrar uma saída para uma
situação constrangedora, dividido entre aparências sociais e a compaixão por
seres que, por diferentes motivos, perderam o eixo do afeto e da comunicação.
Armários:
O diálogo entre pai e filho, como espaço
de crescimento recíproco, introduz uma sugestiva metáfora para apresentar as
metamorfoses do desenvolvimento humano e a necessidade de libertação do ser na
sua relação com o mundo.
Vinte Anos:
Aos vinte anos a vida é uma infinidade
de possibilidades despertadas por este jovial conto, que nos convida a pensar
acerca dos processos de comunicação e metacomunicação geradores de encontros e
desencontros, gestos que constituem ou rompem o sutil fio de seda que tece as
relações humanas. E que inauguram ou inviabilizam os caminhos do destino.
Sem Mais Solidões:
Uma dívida simbólica atravessa a vida de
uma mulher, no convívio com a fragilidade de uma outra que lhe doou vida. Um interessante
conto que nos remete para o jogo da construção existencial, para o processo de
constituição mútua entre seres que compartilham afetos.
A Musa Inspiradora:
Tudo é possível quando a Musa inspiradora, insegura e
ansiosa, revela que não pode soprar
inspiração para um tema inexistente, mas descobre que o amor à
literatura permeia a presença e até a ausência de tema. Neste sugestivo conto
transparecem elementos do processo de criação literária,
sutil ou explicitamente sugeridos ao longo do dilema que se tenta
resolver.
Cristiane Brum:
Realmente, foi o desafio mais difícil de
avaliar. Até porque os textos estão todos bons. Ruim ter que hierarquizá-los...Mas foi o que tentei fazer, tendo em vista que é um
concurso. Deixei uma pequena diferença entre eles porque considerei que havia
dois tipos de textos: os muito bons e os melhores ainda.
A Viagem De Mirela:
A narrativa
é tão densa que, sinceramente, eu fiquei esperando muito mais do final. Parece
que o texto acabou no clímax, sem conclusão.
Vinte Anos:
Realmente,
esses momentos de encontros ao acaso são sempre impressionantes. Mais ainda
quando não se realizam! A atmosfera envolvente do texto me fez lembrar do filme
“Antes do Anoitecer”. Gostei.
Armários:
Achei o tom
do texto um pouco didático demais, o que foi confirmado pelo final. No fundo,
foi o diálogo – quase monólogo - que me incomodou, pois ficou parecendo irreal,
muito forçado pro meu gosto.
Pouso
Forçado:
Genial a forma
como o texto consegue envolver o leitor na situação, desnudando o absurdo que
envolve as personagens. Absurdo tão comum e tão provável na vida de muitos.
Impossível ao leitor não se comover com as tragédias humanas tão bem
representadas na cena. Excelente!
A Musa Inspiradora:
Difícil
avaliar a Musa... Gostei do tom humorístico do texto e achei interessante a
estratégia de falar sobre o processo criativo. A idéia dos
caras saindo de todos os “setores” pra se reunirem o cérebro me lembrou
o filme do Woody Allen. Porém, fiquei com a sensação
de que algo do tipo já foi feito neste concurso... Não achei muito original, em
suma.
Sem Mais Solidões:
Um texto tão
denso que comove profundamente o leitor, com a história das duas irmãs. Fiquei
com a impressão, contudo, que nem mesmo o (a) autor (a) agüentou tanta tristeza
e resolveu aliviar no fim. O final, pro meu gosto, ficou um pouco deslocado,
ainda que não tenha quebrado a força da narração.
Liana Ferreira
A musa inspiradora:
Durante nove semanas o professor forneceu o tema e
este era, na verdade, o estímulo que antecipava o processo criador. Parabéns ao
professor que desta vez deixou a musa
Vinte anos:
Esse conto, que prima pela leveza, nos revela como o
mundo moderno propicia o distanciamento entre as pessoas. As emoções ficam
quase palpáveis, mas não são verbalizadas, fazendo com que os indivíduos se
percam
Armários:
Ah! essa sensação de
desconforto que nos acompanha em alguns momentos da vida. Esse caminhar com os
sapatos menores que os nossos pés. Esse conto encerra uma proposta de uma
postura honesta diante do mundo, indepedente das
amarras, e discute a capacidade do indivíduo de dizer não ao seu desconforto
tanto físico quanto emocional.
Pouso forçado:
A contista escreveu uma boa história e nos leva a
refletir sobre o preconceito que envolve uma doença que atinge 24,3 milhões de
pessoas no mundo, e se caracteriza pela degeneração progressiva das funções
cognitivas: atenção, percepção e memória A falta de informação persiste cem
anos depois de sua descoberta.
A viagem de Mirela:
Esse conto começou muito bem e suas personagens foram
bem credenciadas. Então, de repente, não entendi o que fazia um cadáver cigano
viajando de trem. Se é cigano, é nômade, não deveria ter sido sepultado onde veio a falecer. Sua terra não seria toda a terra e
qualquer terra? E não seria essa liberdade e esse desapego sua mais bela
característica?
Sem mais solidões:
Esse conto é extremamente realista, bem escrito, porém
reproduz a velha fórmula do drama familiar. Talvez tenha tensão dramática em
excesso.
Lorenza Costa:
Em lugar de "O MEU MELHOR", este desafio
deveria se chamar "PARADA DURÍSSIMA". Se isto não fosse um concurso,
eu atribuiria notas idênticas a pelo menos quatro contos. Os comentários abaixo
contêm menos críticas do que tentativas de demonstrar quais os critérios que
tive de encontrar para diferenciar cada trabalho.
A Viagem de Mirela:
No começo, esta poderia ser a primeira viagem de trem
de qualquer cigana chamada Mirela; ela poderia estar
em praticamente qualquer tempo (desde que fosse um tempo de trens) e em
qualquer lugar. O autor não deu a menor pista, não me permitiu erguer uma
barreira de proteção contra Mirela. Apenas a partir
do antepenúltimo parágrafo, com as "fileiras de batata e beterraba",
identifico um ambiente geográfico muito diferente do meu - o que ainda não é
suficiente para criar distanciamento em relação à personagem. A empatia já foi
muito habilmente instalada pelo autor quando a tragédia se revela em uma única
palavra. Muito tarde para escapar do efeito que este conto faz.
Vinte Anos:
O único motivo por que este conto não recebeu nota 10
é a relativa previsibilidade do desfecho. Está muito claro desde o princípio
que não haverá comunicação entre os dois - e, já que precisamos de um critério
qualquer para atribuir notas, este vai ter de servir! Um conto escrito com
sensibilidade e uma visão carinhosa, mas não condescendente, desses personagens
tão jovens. A frase "Melhor atribuir a sua aversão (...) ao que realmente
era" pede uma reestruturação. E o jogo final - "Bem que podia
chover/Bem que podia chorar" - merece ser aplaudido de pé.
Pouso Forçado:
O conto é fortíssimo quando centrado na visão da
viúva, que nos seus devaneios e na sua pouca memória consegue sugerir o
transcurso de uma vida inteira. Já a filha é um tanto caricatural em sua
antipatia. A "providência" que ela toma para resolver seu problema
com o comportamento da mãe é mais rica em informações do que toda
as suas tentativas de se justificar. Como leitora, eu gostaria de ter
visto um pouco menos da filha para me concentrar na beleza que é o fluxo de
pensamento da mãe. (Um detalhe que poderia ser repensado: a "alta
qualidade" das personagens presentes ao velório só é mencionada pelo meio
do texto, quando poderia vir antes. Num velório íntimo, todos estariam mais ou
menos cientes da doença da viúva. Já que não está claro
desde o início que o defunto foi uma pessoa pública, a atitude indignada da
filha parece ainda menos justificável do que na realidade é. O autor faz questão
que o leitor odeie essa personagem desde o começo?)
A Musa Inspiradora:
Ágil, bem escrito, divertido. Não tenho muita certeza
de que a tese da Musa Inspiradora pare em pé por muito tempo; mas ela mesma
talvez concorde comigo, já que não ficou "plenamente satisfeita com a
solução alcançada"! Dentro da ordem quase aleatória em que alinhei os
primeiros contos deste desafio, este se encontra em quarto lugar porque, embora
de leitura muito agradável, não acredito que cause, com o perdão do clichê, a
mais profunda e duradoura das impressões. A Musa e seus auxiliares podem ter-se
movido e transformado diante de um conflito, mas esta leitora em particular
também quer mover-se e ser transformada diante de um conto.
Sem Mais Solidões:
Este conto aparece em quinto lugar por dois aspectos.
O primeiro: a história começa bem, mas ao fim da primeira página é interrompida
para a interpolação daquilo que vou chamar, por falta de nome melhor, de um
"conto-resumo": um escovão em toda a história pregressa das
personagens, com excesso de detalhes e generalizações. Parece que o autor teve
pressa. Na minha opinião, nem tudo o que um autor sabe
sobre suas personagens precisa ser dito; ele tem a obrigação de mostrar o
essencial, lembrando que, especialmente numa história curta, o excesso de
acessórios reduz a força do principal. O segundo aspecto ligeiramente
problemático é a transição abrupta da tragédia para a completa redenção. Ali
parece que o autor teve dó. Tirando estes detalhes, um bom conto.
Armários:
Embora a idéia por trás do conto seja interessante, o
tom de livro de auto-ajuda incomoda bastante. Além disso, para que a história
se tornasse verossímil do ponto de vista literário, seria preciso que o filho
fosse um pouco menos obtuso. Ele simplesmente não entende nada do que o velho
diz. Como pai e filho, estes personagens mereciam ter um pouquinho mais de
afinidade intelectual. Na verdade, o filho só está ali como pretexto para o pai
falar e falar.
Luci Afonso:
Foi mesmo
difícil escolher, pois são todos ótimos.Tem sido um
privilégio conhecer escritores tão bons.
Os seis contos são excelentes e dignos de concorrer nesta semifinal. Não há
reparos quanto ao mérito nem quanto à técnica. Gostaria que todos os
competidores passassem à final, mas, como não é possível, baseei as notas na
emoção que cada texto me causou. Agradeço aos contistas por, mais uma vez,
embelezarem meu fim de semana com suas estórias.
A Viagem
de Mirela:
A grande beleza deste conto está em tudo o que ele diz
sem dizer. Uma trágica celebração da vida. Levou-me às lágrimas.
Vinte Anos:
Comovente “quase encontro” entre duas almas jovens e
sedentas. Lindo final.
Armários:
A metáfora dos armários nos leva a uma profunda
reflexão sobre o “espaço vazio dentro de nós”, oportuna lição que todos
precisamos rever.
Pouso Forçado:
Uma sensibilidade superior nos transporta suavemente
para um mundo paralelo em que só existem borboletas de seda, “coisinhas
nenhumas”, “geladinhas”. Conto inesquecível. Final magnífico.
A Musa Inspiradora:
Texto engenhoso e divertido. Musa inspiradora de
personalidade fortíssima. Ótimo final.
Sem Mais Solidões:
Um ser humano raro, a personagem Maria Clara, criada
por um igual, o autor desta estória, nos convence a
cortejar a vida apesar da dor e do sofrimento — e, ao final, sem mais solidões.
Texto e título belíssimos.
Cida Sepúlveda:
“A viagem de Mirela” é um exemplo de um texto
que nos coloca
Vinte anos, Armários e Sem mais solidões trabalham a busca interior das
personagens, seus conflitos e soluções ou não soluções. Vinte anos é mais fotográfico. Os outros dois têm a preocupação em
solucionar e explicar as próprias soluções. Em Sem mais solidões, esta frase específica
está a meu ver, forçando um impressionismo desnecessário, já que o conto por si
só é impressionante, dispensando frases de efeito.
Pouso forçado é um texto muito bom, mas o rebuscamento atrapalha um pouco.
A Musa Inspiradora é
um texto que peca pelo didatismo