
Segundas de 13h10 às
14h00
CURSOS MENSAIS
A CADA MÊS UM NOVO TEMA: CADA CURSO TEM A
DURAÇÃO DE 4 AULAS
Escritor português, nasceu a 13 de Junho, numa casa do Largo de
São Carlos,
Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e
concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo
(onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo
inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que
viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal,
tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família
paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo
redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes.
De regresso definitivo a Lisboa, em 1905, frequentou, por um período breve
(1906-1907), o Curso Superior de Letras. Após uma tentativa falhada de montar
uma tipografia e editora, «Empresa Íbis — Tipográfica e Editora», dedicou-se, a
partir de 1908, e a tempo parcial, à tradução de correspondência estrangeira de
várias casas comerciais, sendo o restante tempo dedicado à escrita e ao estudo
de filosofia (grega e alemã), ciências humanas e políticas, teosofia e
literatura moderna, que assim acrescentava à sua formação cultural
anglo-saxónica, determinante na sua personalidade.
Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e
Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de
amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital,
envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na
revista A Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária
sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela
crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele
próprio?). Data de
Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa
correspondência e cujas crises acompanhou de perto),
Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o
grupo «Orpheu», lançou a revista Orpheu, marco do modernismo português, onde
publicou, no primeiro número, Opiário e Ode Triunfal, de Campos, e O
Marinheiro, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, Chuva Oblíqua, de Fernando
Pessoa ortónimo, e a Ode Marítima, de Campos. Publicou, ainda em vida, Antinous
(1918), 35 Sonnets (1918), e três séries de English Poems (publicados, em 1921,
na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com Mensagem a um
prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B,
devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas Exílio
(1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926, de que foi
co-director e onde publicou O Banqueiro Anarquista, conto de raciocínio e
dedução, e o poema Mar Português), Athena (1924-1925, igualmente como
co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de
poemas de Alberto Caeiro) e Presença.
A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada
pelo grupo da Presença. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição
das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos
heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados
escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia,
política e páginas íntimas. Entre estes, contam-se a organização dos volumes
poéticos de Poesias (de Fernando Pessoa), Poemas Dramáticos (de Fernando
Pessoa), Poemas (de Alberto Caeiro), Poesias (de Álvaro de Campos), Odes (de
Ricardo Reis), Poesias Inéditas (de Fernando Pessoa, dois volumes), Quadras ao
Gosto Popular (de Fernando Pessoa), e os textos de prosa de Páginas Íntimas e
de Auto-Interpretação, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias,
Textos Filosóficos, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, Da República (1910-1935) e Ultimatum e Páginas de Sociologia
Política. Do seu vasto espólio foram também retirados o Livro do Desassossego
por Bernardo Soares e uma série de outros textos.
A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente
literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos
como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes
uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos
problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a
sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por
assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de
Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na
existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de
tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua
emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que
aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os
heterónimos são a mentalização de certas emoções e
perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se
destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro
(1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa
ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior
parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos
quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor
Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida
escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo
Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem
profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso,
«escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos
rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta
da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a
metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo
diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.
Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas,
recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o
helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica
reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos
temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que
Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De
convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República.
Pagão intelectual, lúcido e consciente, reflectia uma moral estoico-epicurista,
misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o
13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando Antônio
Nogueira Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa
1906 - Matricula-se no Curso Superior de Letras, em
Lisboa
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas
dos três heterônimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu". Pessoa "mata"
Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy
Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requere patente de invenção de
um Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável
1927 - Passa a colaborar com a Revista "Presença".
1934 - Aparece "Mensagem", seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.
http://www.astormentas.com/din/biografia.asp?autor=Fernando+Pessoa
Poemas Abaixo
Soneto
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Índice [esconder]
1 História
2 Estrutura
3 Ligações externas
4 Referências
5 Bibliografia
6 Ver também
Soneto é um poema de forma fixa, composto
por 14 versos.
Pode ser apresentado em 3 formas de
distribuição dos versos:
Soneto italiano ou petrarquiano: apresenta
duas estrofes de 4 versos (quartetos) e duas de 3 (tercetos)
Soneto inglês ou
"Shakespeareano": três quartetos e um dístico
Soneto monostrófico: Apresenta uma única
estrofe de 14 versos.
[editar] História
Ao que tudo indica, o soneto - do italiano
sonetto, pequena canção ou, literalmente, pequeno som - foi criado no começo do
século XIII, na Sicília, onde era cantado na corte de Frederico II da mesma
forma que as tradicionais baladas provençais. Alguns atribuem a invenção do
soneto a Jacopo da Lentini (conhecido como Jacopo Notaro, após receber o título
«Jacobus de Lentino domini imperatoris notarius» ) -
poeta siciliano e imperial de Frederico II, que surgiu como uma espécie de
canção ou de letra escrita para música, possuindo uma oitava e dois tercetos,
com melodias diferentes.
O número de linhas
e a disposição das rimas permaneceu variável até que
um poeta de Santa Firmina, Guittone D'Arezzo, tornou-se o primeiro a adotar e
aderir definitivamente àquilo que seria reconhecido como a melhor forma de
expressão de uma emoção isolada, pensamento ou idéia: o soneto. Durante o
século XIII, Fra Guittone, como era conhecido, criou o soneto guitoniano,
padronizado, cujo estilo foi empregado por Petrarca e Dante Alighieri, com
pequenas variações. Tais sonetos são obras marcantes, se considerarmos as
circunstâncias em que eles surgiram.
Coube ao fiorentino
Francesco Petrarca aperfeiçoar a estrutura poética iniciada na Sicília,
difundindo-a por toda a Europa em suas viagens. Sua obra engloba 317 sonetos
contidos no "Il Canzoniere", a coletânea de poesia que exerceu
influência sobre toda a literatura ocidental. Os melhores poemas desse livro
são dedicados a Laura de Novaes, por quem possuía um amor platônico.
Destacam-se os recursos metafóricos e o lirismo erótico dos sonetos.
Dante Alighieri, o autor da consagrada A
Divina Comédia, e também um seguidor de Guittone, em sua infância já compunha
sonetos amorosos. Seu amor impossível por Beatriz (provavelmente Beatrice
Portinari) foi imortalizado em vários sonetos em "Vita Nuova", seu
primeiro trabalho literário de grande importância.
Graças a uma viagem que fez para a Itália
em 1551, o poeta português Sá de Miranda regressando em 1526, trouxe para
Portugal uma nova estética, introduzindo pela primeira vez o Soneto, a canção,
a sextina, as composições em tercetos e em oitavas e os versos de dez sílabas,
conhecidos como decassílabos.
Anos se passaram até que dois ícones da
literatura mundial, um português e um inglês, deram ao Soneto, cada um ao seu
modo, o toque de mestre: Luís Vaz de Camões e William Shakespeare.
Camões é considerado o
maior poeta clássico da Literatura Moderna. Freqüentou a nobreza em Portugal,
tomou parte em diversas expedições militares, mas foi exilado por suas posições
políticas. Passou alguns anos na prisão, de onde saiu com "Os
lusíadas", uma obra que o colocou entre os maiores poetas mundiais de
todos os tempos. Apesar disso, morreu pobre. Escreveu diversos sonetos, tendo o
amor como tema principal.
Shakespeare, além de teatrólogo,
desenvolveu uma habilidade única na poesia. O seu soneto, o soneto inglês, é
composto por três quartetos e um dístico, diferente da composição original de
Petrarca. O mais célebre dos escritores ingleses escreveu diversos poemas,
alguns deles recheados de metáforas.
Desde então, o soneto adquiriu importância
ao redor do mundo, tornando-se a melhor representação da poesia lírica. Alguns
casos são notáveis: o poeta russo Aleksandr Pushkin compôs Eugene Onegin, um
poema repleto de sonetos adotado por Tchaikovsky para compor uma de suas
óperas; o francês Charles Baudelaire ajudou a divulgar os versos alexandrinos
E por falar em versos alexandrinos,
utilizados por muitos sonetistas, eles remontam - segundo alguns dicionários da
língua portuguesa - a uma obra francesa do século XII chamada Le Roman d'Alexandre, versos de doze sílabas poéticas [1]. Porém, os
dicionários da língua espanhola - apesar de apontarem para a mesma origem -
insistem em afirmar que os versos alexandrinos são aqueles que contêm quatorze
sílabas gramaticais.
Finalmente, após aderir ao humanismo e ao
estilo barroco, o poema dos catorze versos acabou sendo desprezado pelos
iluministas. No século XIX, ele voltou a ser cultivado, com mais fervor, por
românticos, parnasianos e simbolistas, sobrevivendo ao verso livre do
modernismo - que viria em seguida - até os dias atuais.
[editar] Estrutura
O soneto possui uma estrutura lógica com
uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão, constituída pelo último
terceto; esta última tomou o nome de "chave-de-ouro", porque se
constitui como decodificadora do significado global do poema.
[editar] Ligações externas
Sonetos.com.br
(direitos cedidos pelo autor)
Sonetário Brasileiro (direitos cedidos pelo
autor)
Academia Brasileira de Poesia
O soneto é uma casa poética
Referências
↑ Ver
Dodecassílabo
[editar] Bibliografia
CAMPOS, Geir. Pequeno dicionário de arte
poética. Rio de Janeiro: Ediouro, 1960.
SHAKESPEARE, William. Sonetos de William Shakespeare.
Tradução de Milton Lins. Recife: Ed. do Tradutor,2005.
TORRALVO, Izeti Fragata; MINCHILLO, Carlos
Cortez. Sonetos de Camões. Cotia:Ateliê Editorial, 2001.
SEGUNDAS-FEIRAS DE 13H10 A 14H00
Alberto Caeiro
(Portugal)
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à
chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem
desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo
ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever
versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me
lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
O meu olhar é nítido como um
girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num
malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para
pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos
olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho
sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Ao entardecer, debruçado pela
janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele!
Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...
Por isso ele tinha aquela grande
tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores
E
Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos ...
Quando os relâmpagos sacudiam o
ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...
Ah! é
que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...
Sentia-me alguém que nossa
acreditar
Ah, poder crer
(Quem crê que há Santa
Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)
(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós ...
Ali, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde
Das
E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.
Há metafísica bastante em não
pensar em nada.
O que penso eu do
mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar
nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei
lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica
têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das
cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das
cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das
cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos
ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as
árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as
flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si
próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-à fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-à verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
Da minha aldeia veio quanto da
terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo
Com
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espirito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
... ... ...
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
... ... ...
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
... ... ...
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os
meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os
ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e
cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o
sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado
na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
"Olá, guardador de
rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"
"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"
"Muita cousa mais do que
isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."
"Nunca ouviste passar o
vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."
Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem ...
Para que é preciso ter um piano?
o melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza.
Os pastores de Virgílio tocavam
avenas e outras cousas
E cantavam de amor literariamente.
(Depois — eu nunca li Virgílio.
Para que o havia eu de ler?)
Mas os
pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio,
E a Natureza é bela e antiga.
Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.
Não me importo com as
rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural corno o levantar-se vento...
As quatro canções que seguem
Separam-se de tudo o que eu
penso,
Mentem a tudo o que eu sinto,
São do contrário do que eu sou ...
Escrevi-as estando doente
E por isso elas são naturais
E concordam com aquilo que sinto,
Concordam com aquilo com que não concordam ...
Estando doente devo pensar o contrário
Do que penso quando estou são.
(Senão não estaria doente),
Devo sentir o contrário do que sinto
Quando sou eu na saúde,
Devo mentir à minha natureza
De criatura que sente de certa maneira ...
Devo ser todo doente — idéias e tudo.
Quando estou doente, não estou doente para outra
cousa.
Por isso essas canções que me
renegam
Não são capazes de me renegar
E são a paisagem da minha
alma de noite,
A mesma ao contrário ...
Quem me dera que a minha vida
fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças
- tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
No meu prato que mistura de
Natureza!
As minhas irmãs as plantas,
As companheiras das fontes, as santas
A quem ninguém reza...
E cortam-as e vêm à nossa mesa
E nos hotéis os hóspedes ruidosos,
Que chegam com correias tendo mantas
Pedem "Salada", descuidosos...,
Sem pensar que exigem à
Terra-Mãe
A sua frescura e os seus filhos primeiros,
As primeiras verdes palavras que ela tem,
As primeiras cousas vivas e irisantes
Que Noé viu
Quando as águas desceram e o cimo dos montes
Verde e alagado surgiu
E no ar por onde a pomba apareceu
O arco-íris se esbateu...
Quem me dera que eu fosse o pó
da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo. . .
Quem me dera que eu fosse o
burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes isso que ser o que
atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena ...
O luar quando bate na relva
Não sei que cousa me lembra...
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.
E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas ...
Se eu já não posso crer que isso
é verdade,
Para que bate o luar na relva?
O Tejo é mais belo que o rio que
corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha
aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz
pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Se eu pudesse trincar a terra
toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é
dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...
Como quem num dia de Verão abre
a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara
toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de
chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer
perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Verão me passa pela
cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever
senti-lo...
O meu olhar é nítido como um
girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num
malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para
pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho
sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
O que nós vemos das cousas são
as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que
trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras
eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
As bolas de sabão que esta
criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma
filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.
Às vezes, em dias de luz
perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de
viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não
ver senão o visível!
Só a natureza é divina, e ela
não é divina...
Se falo dela como de um ente
É que para falar dela preciso usar da linguagem dos
homens
Que dá personalidade às cousas,
E impõe nome às cousas.
Mas as cousas não têm nome nem
personalidade:
Existem, e o céu é grande a terra larga,
E o nosso coração do tamanho de um punho fechado...
Bendito
seja eu por tudo quanto sei.
Gozo tudo isso como quem sabe que há o sol.
Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos
doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem
que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas flores, se sentissem, não
eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não
eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são
flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos
pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só
pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos
meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.
Nem sempre sou igual no que digo
e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da
sombra.
Mas quem olha bem vê que são as
mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à
terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...
Se quiserem que eu tenha um
misticismo, está bem, tenho-o.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não
pensa.
O meu misticismo é não querer
saber.
É viver e não pensar nisso.
Não sei o que é a Natureza:
canto-a
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha
E essa é a minha definição.
Se às vezes digo que as flores
sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos
rios.
Porque escrevo para eles me
lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da
Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
Ontem à tarde um homem das
cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me
lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os
outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma
capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou
bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa - existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar
nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?
Pobres das flores dos canteiros
dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam...
Acho tão natural que não se
pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...
Que pensará o meu muro da minha
sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.
O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que
penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos
XXXVI
E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas
tábuas!...
Que triste não saber florir!
ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se
não está!...
Quando a única casa artística é
a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é
sempre a mesma.
Penso nisto, não como quem
pensa, mas como quem respira.
E olho para as flores e
sorrio...
Não sei se elas compreendem
Nem sei se eu as compreendo a
elas,
Mas sei que a verdade está nelas
e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela
Terra
E levar ao colo pelas Estações
contentes
E deixar que o vento cante para
adormecermos
E não termos sonhos no nosso
sono.
Como um grande borrão de fogo
sujo
O sol posto demora-se nas nuvens que ficam.
Vem um silvo vago de longe na tarde muito
calma.
Deve ser dum comboio longínquo.
Neste momento vem-me uma vaga
saudade
E um vago desejo plácido
Que aparece e desaparece.
Também às vezes, à flor dos
ribeiros,
Formam-se bolhas na água
Que nascem e se desmancham
E não têm sentido
nenhum
Salvo serem bolhas de água
Que nascem e se desmancham.
Bendito seja o mesmo sol de
outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham
como eu,
E, nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral ...
O mistério das cousas, onde está
ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam
delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto
das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos
aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
Passa uma borboleta por diante
de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
No entardecer dos dias de Verão,
às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que
vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há
imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir. . .
Passou a diligência pela
estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a ação humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.
Antes o vôo da ave, que passa e
não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a
passar!
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente
brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da
minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da
boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou
significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
Um renque de árvores lá longe,
lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são
cousas, são nomes.
Tristes das
almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de cousa a cousa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente
reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que
isso!
Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha.
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras
Nem sempre consigo sentir o que
sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a
nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que
aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me
ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir
a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.
Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.
Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que
isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas ideias.
A Natureza é
partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem
parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.
Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.
Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que
isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas ideias.
A Natureza é
partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem
parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.
Meto-me para dentro, e fecho a
janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu
leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.
Poemas de Ricardo Reis
Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)
(Fonte:http://www.secrel.com.br/jpoesia/reis.html)
Poemas:
• A Abelha que voando
• A Cada Qual
• A cima da Verdade
• A Flor que És
• A guardo
• A qui, dizeis, na
cova a que me abeiro
• A qui, Neera, longe
• A qui, neste
misérrimo desterro
• A o Longe
• A os Deuses
• A ntes de Nós
• A njos ou Deuses
• A Palidez do Dia
• A trás Não Torna
• A Nada Imploram
• A s Rosas
• A zuis os Montes
• B ocas Roxas
• B reve o Dia
• C ada
Coisa
• C ada
dia sem gozo não foi teu
• C ada
Um
• C omo
• C oroai-me
• C uidas, Índio
• D a Lâmpada
• D a Nossa Semelhança
• D e Apolo
• D e Novo Traz
• D eixemos, Lídia
• D ia Após Dia
• D o que Quero
• D omina ou Cala
• E stás só. Ninguém o
sabe.
• E ste Seu Escasso
Campo
• É tão Suave
• F eliz Aquele
• F elizes
• F lores
• F rutos
• G ozo Sonhado
• I nglória
• J á Sobre a Fronte
• L enta, Descansa
• L ídia
• M elhor Destino
• M estre
• M eu Gesto
• N ada
Fica
• N ão a Ti, Cristo,
odeio ou te não quero
• N ão a Ti, Cristo,
odeio ou menosprezo
• N ão Canto
• N ão Consentem
• N ão Queiras
• N ão quero as
oferendas
• N ão quero, Cloe,
teu amor, que oprime
• N ão quero recordar
nem conhecer-me
• N ão Só Vinho
• N ão só quem nos
odeia ou nos inveja
• N ão sei de quem
recordo meu passado
• N ão sei se é amor
que tens, ou amor que finges
• N ão Tenhas
• N
• N egue-me tudo a
sorte, menos vê-la
• N inguém a outro
ama, senão que ama
• N inguém, na vasta
selva virgem
• N o Breve Número
• N o Ciclo Eterno
• N o Magno Dia
• N o mundo, Só
comigo, me deixaram
• N os Altos Ramos
• N unca
• O uvi contar que
outrora
• O lho
• O que Sentimos
• O s Deuses e os
Messias
• O Deus Pã
• O s Deuses
• O Ritmo Antigo
• O Mar Jaz
• O Sono é Bom
• O Rastro Breve
• P ara os Deuses
• P ara ser grande, sê
inteiro: nada
• P esa o Decreto
• P onho na Altiva
• P ois que nada que
dure, ou que, durando
• P razer
• P refiro Rosas
• Q uão breve tempo é
a mais longa vida
• Q uanta Tristeza
• Q uando, Lídia
• Q uanto faças,
supremamente faze
• Q uem diz ao dia,
dura! e à treva, acaba!
• Q uer Pouco
• Q uero dos Deuses
• Q uero Ignorado
• R asteja mole pelos
campos ermos
• S ábio
• S audoso
• S egue o teu destino
• S e Recordo
• S evero Narro
• S ereno Aguarda
• S eguro Assento
• S im
• S ó o Ter
• S ó Esta Liberdade
• S ofro, Lídia
• S olene Passa
• S e a Cada Coisa
• S ob a Leve Tutela
• S úbdito Inútil
• T ão cedo passa tudo
quanto passa!
• T ão Cedo
• T ênue
• T emo, Lídia
• T irem-me os Deuses
• T udo, desde ermos
astros afastados
• T udo que Cessa
• T uas, Não Minhas
• U ma Após Uma
• U ns
• V em sentar-te
comigo, Lídia, à beira do rio
• V em sentar-te
comigo Lídia...
• V ivem em nós
inúmeros
• V ive sem Horas
• V ós que, Crentes
• V ossa Formosa
A Abelha
A
abelha que, voando, freme sobre
A
colorida flor, e pousa, quase
Sem
diferença dela
À
vista que não olha,
Não
mudou desde Cecrops. Só quem vive
Uma
vida com ser que se conhece
Envelhece,
distinto
Da
espécie de que vive.
Ela
é a mesma que outra que não ela.
Só
nós — ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte! —
Mortalmente
compramos
Ter
mai vida que a vida.
A Cada Qual
A
cada qual, como a 'statura, é dada
A
justiça: uns faz altos
O
fado, outros felizes.
Nada
é prêmio: sucede o que acontece.
Nada,
Lídia, devemos
Ao
fado, senão tê-lo.
Acima da Verdade
Acima
da verdade estão os deuses.
A
nossa ciência é uma falhada cópia
Da
certeza com que eles
Sabem
que há o Universo.
Tudo
é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não
pertence à ciência conhecê-los,
Mas
adorar devemos
Seus
vultos como às flores,
Porque
visíveis à nossa alta vista,
São
tão reais como reais as flores
E
no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.
A Flor que És
A flor que és, não a que dás,
eu quero.
Porque
me negas o que te não peço.
Tempo
há para negares
Depois
de teres dado.
Flor,
sê-me flor! Se te colher avaro
A
mão da infausta esfinge, tu perere
Sombra errarás absurda,
Buscando
o que não deste.
Aguardo
Aguardo,
equânime, o que não conheço —
Meu
futuro e o de tudo.
No
fim tudo será silêncio, salvo
Onde
o mar banhar nada.
Aqui,
Dizeis
Aqui,
dizeis, na cova a que me abeiro,
Não
'stá quem eu amei. Olhar nem riso
Se escondem nesta leira.
Ah,
mas olhos e boca aqui se escondem!
Mãos apertei, não alma, e aqui jazem.
Homem,
um corpo choro!
Aqui
Aqui,
Neera, longe
De
homens e de cidades,
Por
ninguém nos tolher
O
passo, nem vedarem
A
nossa vista as casas,
Podemos
crer-nos livres.
Bem
sei, é flava, que inda
Nos tolhe a vida o corpo,
E
não temos a mão
Onde
temos a alma;
Bem
sei que mesmo aqui
Se
nos gasta esta carne
Que
os deuses concederam
Ao
estado antes de Averno.
Mas
aqui não nos prendem
Mais
coisas do que a vida,
Mãos
alheias não tomam
Do
nosso braço, ou passos
Humanos
se atravessam
Pelo
nosso caminho.
Não
nos sentimos presos
Senão
com pensarmos nisso,
Por
isso não pensemos
E
deixemo-nos crer
Na
inteira liberdade
Que
é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.
Aqui
Aqui,
neste misérrimo desterro
Onde
nem desterrado estou, habito,
Fiel,
sem que queira, àquele antigo erro
Pelo
qual sou proscrito.
O
erro de querer ser igual a alguém
Feliz
em suma — quanto a sorte deu
A
cada coração o único bem
De
ele poder ser seu.
Ao Longe
Ao
longe os montes têm neve ao sol,
Mas
é suave já o frio calmo
Que
alisa e agudece
Os
dardos do sol alto.
Hoje,
Neera, não nos escondamos,
Nada
nos falta, porque nada somos.
Não
esperamos nada
E
ternos frio ao sol.
Mas
tal como é, gozemos o momento,
Solenes
na alegria levemente,
E
aguardando a morte
Como
quem a conhece.
Aos Deuses
Aos
deuses peço só que me concedam
O
nada lhes pedir. A dita é um jugo
E
o ser feliz oprime
Porque
é um certo estado.
Não
quieto nem inquieto meu ser calmo
Quero
erguer alto acima de onde os homens
Têm
prazer ou dores.
Antes de Nós
Antes
de nós nos mesmos arvoredos
Passou
o vento, quando havia vento,
E
as folhas não falavam
De
outro modo do que hoje.
Passamos
e agitamo-nos debalde.
Não
fazemos mais ruído no que existe
Do
que as folhas das árvores
Ou
os passos do vento.
Anjos ou Deuses
Anjos
ou deuses, sempre nós tivemos,
A
visão perturbada de que acima
De
nos e compelindo-nos
Agem
outras presenças.
Como
acima dos gados que há nos campos
O
nosso esforço, que eles não compreendem,
Os
coage e obriga
E
eles não nos percebem,
A Palidez do Dia
A
palidez do dia é levemente dourada.
O
sol de inverno faz luzir como orvalho as curvas
Dos
troncos de ramos Secos.
O
frio leve treme.
Desterrado
da pátria antiqüíssima da minha
Crença,
consolado só por pensar nos deuses,
Aqueço-me
trêmulo
A
outro sol do que este.
O
sol que havia sobre o Parténon e a Acrópole
O
que alumiava os passos lentos e graves
De
Aristóteles falando.
Mas
Epicuro melhor
Me fala, com a sua cariciosa voz
terrestre
Tendo
para os deuses uma atitude também de deus,
Sereno
e vendo a vida
À
distância a que está.
Atrás Não Torna
Atrás
não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua
face, Saturno.
Sua
severa fronte reconhece
Só
o lugar do futuro.
Não
temos mais decerto que o instante
Em
que o pensamos certo.
Não
o pensemos, pois, mas o façamos
Certo
sem pensamento.
A Nada Imploram
A
nada imploram tuas mãos já coisas,
Nem
convencem teus lábios já parados,
No
abafo subterrâneo
Da
úmida imposta terra.
Só
talvez o sorriso com que amavas
Te embalsama remota, e nas memórias
Te ergue qual eras, hoje
Cortiço
apodrecido.
E
o nome inútil que teu corpo morto
Usou,
vivo, na terra, como uma alma,
Não
lembra. A ode grava,
Anônimo,
um sorriso.
As Rosas
As
Rosas amo dos jardins de Adônis,
Essas
volucres amo, Lídia, rosas,
Que
em o dia em que nascem,
Em
esse dia morrem.
A
luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes
que Apolo deixe
O
seu curso visível.
Assim
façamos nossa vida um dia,
Inscientes,
Lídia, voluntariamente
Que
há noite antes e após
O pouco que duramos.
Azuis os Montes
Azuis
os montes que estão longe param.
De
eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou
verde ou amarelo ou variegado,
Ondula
incertamente.
Débil
como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que
pesa o escrúpulo do pensamento
Na
balança da vida?
Como
os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego,
filho
Ignorado
do Caos e da Noite
Às
férias em que existo.
Bocas Roxas
Bocas
roxas de vinho,
Testas
brancas sob rosas,
Nus,
brancos antebraços
Deixados
sobre a mesa;
Tal
seja, Lídia, o quadro
Em
que fiquemos, mudos,
Eternamente
inscritos
Na
consciência dos deuses.
Antes
isto que a vida
Como
os homens a vivem
Cheia
da negra poeira
Que
erguem das estradas.
Só
os deuses socorrem
Com
seu exemplo aqueles
Que
nada mais pretendem
Que
ir no rio das coisas.
Breve o Dia
Breve
o dia, breve o ano, breve tudo.
Não
tarda nada sermos.
Isto,
pensado, me de a mente absorve
Todos
mais pensamentos.
O
mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
Que,
inda que mágoa, é vida.
Cada Coisa
Cada
coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não
florescem no inverno os arvoredos,
Nem
pela primavera
Têm branco frio os campos.
À
noite, que entra, não pertence, Lídia,
O
mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com
mais sossego amemos
A
nossa incerta vida.
À
lareira, cansados não da obra
Mas
porque a hora é a hora dos cansaços,
Não
puxemos a voz
Acima
de um segredo,
E
casuais, interrompidas, sejam
Nossas
palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol) —
Pouco
a pouco o passado recordemos
E
as histórias contadas no passado
Agora
duas vezes
Histórias,
que nos falem
Das
flores que na nossa infância ida
Com
outra consciência nós colhíamos
E
sob uma outra espécie
De
olhar lançado ao mundo.
E
assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses
lares, ali na eternidade,
Como
quem compõe roupas
O
outrora compúnhamos
Nesse
desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo
que já fomos,
E
há só noite lá fora.
Cada dia sem gozo não foi teu
Cada
dia sem gozo não foi teu
Foi
só durares nele. Quanto vivas
Sem
que o gozes, não vives.
Não
pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta
o reflexo do sol ido na água
De
um charco, se te é grato.
Feliz
o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu
prazer posto, nenhum dia nega
A
natural ventura!
Cada Um
Cada
um cumpre o destino que lhe cumpre,
E
deseja o destino que deseja;
Nem
cumpre o que deseja,
Nem
deseja o que cumpre.
Como
as pedras na orla dos canteiros
O
Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que
a Sorte nos fez postos
Onde
houvemos de sê-lo.
Não
tenhamos melhor conhecimento
Do
que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos
o que somos.
Nada
mais nos é dado.
Como
Como
se cada beijo
Fora
de despedida,
Minha
Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez
que já nos toque
No
ombro a mão, que chama
À
barca que não vem senão vazia;
E
que no mesmo feixe
Ata
o que mútuos fomos
E
a alheia soma universal da vida.
Coroai-me
Coroai-me
de rosas,
Coroai-me
em verdade,
De
rosas —
Rosas
que se apagam
Em
fronte a apagar-se
Tão
cedo!
Coroai-me
de rosas
E
de folhas breves.
E
basta.
Cuidas, Índio
Cuidas,
ínvio, que cumpres, apertando
Teus
infecundos, trabalhosos dias
Em
feixes de hirta lenha,
Sem
ilusão a vida.
A
tua lenha é só peso que levas
Para
onde não tens fogo que te aqueça,
Nem
sofrem peso aos ombros
As
sombras que seremos.
Para
folgar não folgas; e, se leoas,
Antes
legues o exemplo, que riquezas,
De
como a vida basta
Curta,
nem também dura.
Pouco usamos do pouco que mal temos.
A
obra cansa, o ouro não é nosso.
De
nós a mesma fama
Ri-se,
que a não veremos
Quando,
acabados pelas Parcas, formos,
Vultos
solenes, de repente antigos,
E
cada vez mais sombras,
Ao
encontro fatal —
O
barco escuro no soturno rio,
E
os novos abraços da frieza stígia
E
o regaço insaciável
Da
pátria de Plutão.
Da Lâmpada
Da
lâmpada noturna
A
chama estremece
E
o quarto alto ondeia.
Os
deuses concedem
Aos
seus calmos crentes
Que
nunca lhes trema
A
chama da vida
Perturbando
o aspecto
Do
que está em roda,
Mas
firme e esguiada
Como
preciosa
E
antiga pedra,
Guarde
a sua calma
Beleza
contínua.
Da Nossa Semelhança
Da
nossa semelhança com os deuses
Por
nosso bem tiremos
Julgarmo-nos
deidades exiladas
E
possuindo a Vida
Por
uma autoridade primitiva
E
coeva de Jove.
Altivamente
donos de nós-mesmos,
Usemos
a existência
Como
a vila que os deuses nos concedem
Para,
esquecer o estio.
Não
de outra forma mais apoquentada
Nos vale o esforço usarmos
A
existência indecisa e afluente
Fatal
do rio escuro.
Como
acima dos deuses o Destino
É
calmo e inexorável,
Acima
de nós-mesmos construamos
Um
fado voluntário
Que
quando nos oprima nós sejamos
Esse
que nos oprime,
E
quando entremos pela noite dentro
Por
nosso pé entremos.
De Apolo
De
Apolo o carro rodou pra fora
Da
vista. A poeira que levantara
Ficou
enchendo de leve névoa
o horizonte;
A
flauta calma de Pã, descendo
Seu
tom agudo no ar pausado,
Deu
mais tristezas ao moribundo
Dia
suave.
Cálida
e loura, núbil e triste,
Tu,
mondadeira dos prados quentes,
Ficas
ouvindo, com os teus passos
Mais
arrastados,
A
flauta antiga do deus durando
Com
o ar que cresce pra vento leve,
E
sei que pensas na deusa clara
Nada
dos mares,
E
que vão ondas lá muito adentro
Do
que o teu seio sente cansado
Enquanto
a flauta sorrindo chora
Palidamente.
De Novo Traz
De
novo traz as aparentes novas
Flores
o verão novo, e novamente
Verdesce
a cor antiga
Das
folhas redivivas.
Não
mais, não mais dele o infecundo abismo,
Que
mudo sorve o que mal somos, torna
À
clara luz superna
A
presença vivida.
Não
mais; e a prole a que, pensando, dera
A
vida da razão, em vão o chama,
Que
as nove chaves fecham,
Da
Estige irreversível.
O
que foi como um deus entre os que cantam,
O
que do Olimpo as vozes, que chamavam,
'Scutando
ouviu, e, ouvindo,
Entendeu,
hoje é nada.
Tecei
embora as, que teceis, Grinaldas.
Quem
coroais, não coroando a ele?
Votivas
as deponde,
Fúnebres
sem ter culto.
Fique,
porém, livre da leiva e do Orco,
A
fama; e tu, que Ulisses erigira,
Tu,
em teus sete montes,
Orgulha-te
materna,
Igual,
desde ele às sete que contendem
Cidades
por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou
heptápila Tebas
Ogígia
mãe de Píndaro.
Deixemos, Lídia
Deixemos,
Lídia, a ciência que não põe
Mais
flores do que Flora pelos campos,
Nem
dá de Apolo ao carro
Outro
curso que Apolo.
Contemplação
estéril e longínqua
Das
coisas próximas, deixemos que ela
Olhe
até não ver nada
Com
seus cansados olhos.
Vê
como Ceres é a mesma sempre
E
como os louros campos intumesce
E
os cala prás avenas
Dos
agrados de Pã.
Vê
como com seu jeito sempre antigo
Aprendido
no orige azul dos deuses,
As
ninfas não sossegam
Na
sua dança eterna.
E
como as heniadríades constantes
Murmuram
pelos rumos das florestas
E
atrasam o deus Pã.
Na
atenção à sua flauta.
Não
de outro modo mais divino ou menos
Deve
aprazer-nos conduzir a vida,
Quer
sob o ouro de Apolo
Ou
a prata de Diana.
Quer
troe Júpiter nos céus toldados.
Quer
apedreje com as suas ondas
Netuno
as planas praias
E
os erguidos rochedos.
Do
mesmo modo a vida é sempre a mesma.
Nós
não vemos as Parcas acabarem-nos.
Por
isso as esqueçamos
Como
se não houvessem.
Colhendo
flores ou ouvindo as fontes
A
vida passa como se temêssemos.
Não
nos vale pensarmos
No
futuro sabido
Que
aos nossos olhos tirará Apolo
E
nos porá longe de Ceres e onde
Nenhum
Pã cace à flauta
Nenhuma
branca ninfa.
Só
as horas serenas reservando
Por
nossas, companheiros na malícia
De
ir imitando os deuses
Até
sentir-lhe a calma.
Venha
depois com as suas cãs caídas
A
velhice, que os deuses concederam
Que
esta hora por ser sua
Não
sofra de Saturno
Mas
seja o templo onde sejamos deuses
Inda
que apenas, Lídia, pra nós próprios
Nem
precisam de crentes
Os
que de si o foram.
Dia Após Dia
Dia
após dia a mesma vida é a mesma.
O
que decorre, Lídia,
No
que nós somos como em que não somos
Igualmente
decorre.
Colhido,
o fruto deperece; e cai
Nunca
sendo colhido.
Igual
é o fado, quer o procuremos,
Quer
o 'speremos. Sorte
Hoje,
Destino sempre, e nesta ou nessa
Forma alheio e invencível.
Do que Quero
Do
que quero renego, se o querê-lo
Me pesa na vontade. Nada que haja
Vale
que lhe concedamos
Uma
atenção que doa.
Meu balde exponho à chuva, por ter
água.
Minha vontade, assim, ao mundo exponho,
Recebo
o que me é dado,
E
o que falta não quero.
O
que me é dado quero
Depois
de dado, grato.
Nem
quero mais que o dado
Ou
que o tido desejo.
Domina ou Cala
Domina
ou cala. Não te percas, dando
Aquilo
que não tens.
Que
vale o César que serias? Goza
Bastar-te
o pouco que és.
Melhor
te acolhe a vil choupana dada
Que
o palácio devido.
Estás só. Ninguém o sabe.
Estás
só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas
finge sem fingimento.
Nada
'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens
sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte
se a sorte é dada.
Este Seu Escasso Campo
Este,
seu ‘scasso campo ora lavrando,
Ora
solene, olhando-o com a vista
De
quem a um filho olha, goza incerto
A
não-pensada vida.
Das
fingidas fronteiras a mudança
O
arado lhe não tolhe, nem o empece
Per
que concílios se o destino rege
Dos
povos pacientes.
Pouco
mais no presente do futuro
Que
as ervas que arrancou, seguro vive
A
antiga vida que não torna, e fica,
Filhos,
diversa e sua.
É tão Suave
É
tão suave a fuga deste dia,
Lídia,
que não parece, que vivemos.
Sem
dúvida que os deuses
Nos são gratos esta hora,
Em
paga nobre desta fé que temos
Na
exilada verdade dos seus corpos
Nos dão o alto prêmio
De
nos deixarem ser
Convivas
lúcidos da sua calma,
Herdeiros
um momento do seu jeito
De
viver toda a vida
Dentro
dum só momento,
Dum
só momento, Lídia, em que afastados
Das
terrenas angústias recebemos
Olímpicas
delícias
Dentro
das nossas almas.
E
um só momento nos sentimos deuses
Imortais
pela calma que vestimos
E
a altiva indiferença
Às
coisas passageiras
Como
quem guarda a c'roa da vitória
Estes
fanados louros de um só dia
Guardemos
para termos,
No
futuro enrugado,
Perene
à nossa vista a certa prova
De
que um momento os deuses nos amaram
E
nos deram uma hora
Não
nossa, mas do Olimpo.
Feliz Aquele
Feliz
aquele a quem a vida grata
Concedeu
que dos deuses se lembrasse
E
visse como eles
Estas
terrenas coisas onde mora
Um
reflexo mortal da imortal vida.
Feliz,
que quando a hora tributária
Transpor
seu átrio por que a Parca corte
O
fio fiado até ao fim,
Gozar
poderá o alto prêmio
De
errar no Averno grato abrigo
Da
convivência.
Mas
aquele que quer Cristo antepor
Aos
mais antigos Deuses que no Olimpo
Seguiram
a Saturno —
O
seu blasfemo ser abandonado
Na
fria expiação — até que os Deuses
De
quem se esqueceu deles se recordem —
Erra,
sombra inquieta, incertamente,
Nem
a viúva lhe põe na boca
O
óbolo a Caronte grato,
E
sobre o seu corpo insepulto
Não
deita terra o viandante.
Felizes
Felizes,
cujos corpos sob as árvores
Jazem
na úmida terra,
Que
nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das
doenças da lua.
Verta
Eolo a caverna inteira sobre
O
orbe esfarrapado,
Lance
Netuno, em cheias mãos, ao alto
As
ondas estoirando.
Tudo
lhe é nada, e o próprio pegureiro
Que
passa, finda a tarde,
Sob
a árvore onde jaz quem foi a sombra
Imperfeita
de um deus,
Não
sabe que os seus passos vão cobrindo
O
que podia ser,
Se
a vida fosse sempre vida, a glória
De
uma beleza eterna.
Flores
Flores
que colho, ou deixo,
Vosso
destino é o mesmo.
Via
que sigo, chegas
Não
sei aonde eu chego.
Nada
somos que valha,
Somo-lo
mais que em vão.
Frutos
Frutos,
dão-os as árvores que vivem,
Não
a iludida mente, que só se orna
Das
flores lívidas
Do
íntimo abismo.
Quantos
reinos nos seres e nas cousas
Te
não talhaste imaginário! Quantos,
Com
a charrua,
Sonhos,
cidades!
Ah,
não consegues contra o adverso muito
Criar
mais que propósitos frustrados!
Abdica
e sê
Rei
de ti mesmo.
Gozo Sonhado
Gozo
sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós
o que nos supomos nos fazemos,
Se
com atenta mente
Resistirmos
em crê-lo.
Não,
pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos
seres e no fado me consumo.
Para
mim crio tanto
Quanto
para mim crio.
Fora
de mim, alheio ao em que penso,
O
Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo
o âmbito breve
Do
que de meu me é dado.
Inglória
Inglória
é a vida, e inglório o conhecê-la.
Quantos,
se pensam, não se reconhecem
Os
que se conheceram!
A
cada hora se muda não só a hora
Mas
o que se crê nela, e a vida passa
Entre
viver e ser.
Já Sobre a Fronte
Já
sobre a fronte vã se me acinzenta
O
cabelo do jovem que perdi.
Meus
olhos brilham menos.
Já
não tem jus a beijos minha boca.
Se
me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me
comigo.
Lenta, Descansa
Lenta,
descansa a onda que a maré deixa.
Pesada
cede. Tudo é sossegado.
Só
o que é de homem se ouve.
Cresce
a vinda da lua.
Nesta
hora, Lídia ou Neera Ou Cloe,
Qualquer
de vós me é estranha, que me inclino
Para
o segredo dito
Pelo
silêncio incerto.
Tomo
nas mãos, como caveira, ou chave
De
supérfluo sepulcro, o meu destino,
E
ignaro o aborreço
Sem
coração que o sinta.
Lídia
Lídia, ignoramos. Somos
estrangeiros
Onde
que quer que estejamos.
Lídia, ignoramos. Somos
estrangeiros
Onde
quer que moremos, Tudo é alheio
Nem
fala língua nossa.
Façamos
de nós mesmos o retiro
Onde
esconder-nos, tímidos do insulto
Do
tumulto do mundo.
Que
quer o amor mais que não ser dos outros?
Como
um segredo dito nos mistérios,
Seja
sacro por nosso.
Melhor Destino
Melhor
destino que o de conhecer-se
Não
frui quem mente frui. Antes, sabendo,
Ser
nada, que ignorando:
Nada
dentro de nada.
Se
não houver em mim poder que vença
As
Parcas três e as moles do futuro,
Já
me dêem os deuses o poder de sabê-lo;
E
a beleza, incriável por meu sestro,
Eu
goze externa e dada, repetida
Em
meus passivos olhos,
Lagos
que a morte seca.
Mestre
Mestre,
são plácidas
Todas
as horas
Que
nós perdemos,
Se
no perdê-las,
Qual
numa jarra,
Nós
pomos flores.
Não
há tristezas
Nem
alegrias
Na
nossa vida.
Assim
saibamos,
Sábios
incautos,
Não
a viver,
Mas
decorrê-la,
Tranqüilos,
plácidos,
Lendo
as crianças
Por
nossas mestras,
E
os olhos cheios
De
Natureza ...
À
beira-rio,
À
beira-estrada,
Conforme
calha,
Sempre
no mesmo
Leve
descanso
De
estar vivendo.
O
tempo passa,
Não
nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos,
quase
Maliciosos,
Sentir-nos
ir.
Não
vale a pena
Fazer
um gesto.
Não
se resiste
Ao
deus atroz
Que
os próprios filhos
Devora
sempre.
Colhamos
flores.
Molhemos
leves
As
nossas mãos
Nos
rios calmos,
Para
aprendermos
Calma
também.
Girassóis
sempre
Fitando
o sol,
Da
vida iremos
Tranqüilos,tendo
Nem
o remorso
De
ter vivido.
Meu Gesto
Meu
gesto que destrói
A
mole das formigas,
Tomá-lo-ão
elas por de um ser divino;
Mas
eu não sou divino para mim.
Assim
talvez os deuses
Para
si o não sejam,
E
só de serem do que nós maiores
Tirem
o serem deuses para nós.
Seja
qual for o certo,
Mesmo
para com esses
Que
cremos serem deuses, não sejamos
Inteiros
numa fé talvez sem causa.
Nada Fica
Nada
fica de nada. Nada somos.
Um
pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da
irrespirável treva que nos pese
Da
humilde terra imposta,
Cadáveres
adiados que procriam.
Leis
feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo
tem cova sua. Se nós, carnes
A
que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente,
por que não elas?
Somos
contos contando contos, nada.
Não a Ti
Não
a Ti, Cristo, odeio ou te não quero.
Em
ti como nos outros creio deuses mais velhos.
Só
te tenho por não mais nem menos
Do
que eles, mas mais novo apenas.
Odeio-os
sim, e a esses com calma aborreço,
Que
te querem acima dos outros teus iguais deuses.
Quero-te
onde tu stás, nem mais alto
Nem
mais baixo que eles, tu apenas.
Deus
triste, preciso talvez porque nenhum havia
Como
tu, um a mais no Panteão e no culto,
Nada
mais, nem mais alto nem mais puro
Porque
para tudo havia deuses, menos tu.
Cura
tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a vida
É
múltipla e todos os dias são diferentes dos outros,
E
só sendo múltiplos como eles
'Staremos
com a verdade e sós.
Não a Ti, Cristo
Não
a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo
Que
aos outros deuses que te precederam
Na
memória dos homens.
Nem
mais nem menos és, mas outro deus.
No
Panteão faltavas. Pois que vieste
No
Panteão o teu lugar ocupa,
Mas
cuida não procures
Usurpar
o que aos outros é devido.
Teu
vulto triste e comovido sobre
A
'steril dor da humanidade antiga
Sim,
nova pulcritude
Trouxe
ao antigo Panteão incerto.
Mas
que os teus crentes te não ergam sobre
outros, antigos deuses que dataram
Por
filhos de Saturno
De
mais perto da origem igual das coisas.
E
melhores memórias recolheram
Do
primitivo caos e da Noite
Onde
os deuses não são
Mais
que as estrelas súbditas do Fado.
Tu
não és mais que um deus a mais no eterno
Não
a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Panteão
que preside
À
nossa vida incerta.
Nem
maior nem menor que os novos deuses,
Tua
sombria forma dolorida
Trouxe
algo que faltava
Ao
número dos divos.
Por
isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou
pela triste terra se quiseres
Vai
enxugar o pranto
Dos
humanos que sofrem.
Não
venham, porém, 'stultos teus cultores
Em
teu nome vedar o eterno culto
Das
presenças maiores
Ou
parceiras da tua.
A
esses, sim, do âmago eu odeio
Do
crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos
leigos
Na
ciência dos deuses.
Ah,
aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei
o Olimpo, aos deuses dando
Cada
vez maior força
P'lo
número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas
fez
Por
seu intuito natural fazerem.
Nós
homens nos façamos
Unidos
pelos deuses.
Não Canto
Não
canto a noite porque no meu canto
O
sol que canto acabara em noite.
Não
ignoro o que esqueço.
Canto
por esquecê-lo.
Pudesse
eu suspender, inda que em sonho,
O
Apolíneo curso, e conhecer-me,
Inda
que louco, gêmeo
De
uma hora imperecível!
Não Consentem
Não
consentem os deuses mais que a vida.
Tudo
pois refusemos, que nos alce
A irrespiráveis píncaros,
Perenes
sem ter flores.
Só
de aceitar tenhamos a ciência,
E,
enquanto bate o sangue em nossas fontes,
Nem
se engelha conosco
O mesmo amor, duremos,
Como
vidros, às luzes transparentes
E
deixando escorrer a chuva triste,
Só
mornos ao sol quente,
E
refletindo um pouco.
Não Queiras
Não
queiras, Lídia, edificar no spaço
Que
figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã.
Cumpre-te hoje, não 'sperando.
Tu
mesma és tua vida.
Não
te destines, que não és futura.
Quem
sabe se, entre a taça que esvazias,
E
ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe
o abismo?
Não Quero
Não
quero as oferendas
Com
que fingis, sinceros
Dar-me
os dons que me dais.
Dais-me
o que perderei,
Chorando-o,
duas vezes,
Por
vosso e meu, perdido.
Antes
mo prometais
Sem
mo dardes, que a perda
Será
mais na 'sperança
Que
na recordação.
Não
terei mais desgosto
Que
o contínuo da vida,
Vendo
que com os dias
Tarda o que 'spera, e é nada.
Não Quero
Não
quero, Cloe, teu amor, que oprime
Porque
me exige amor. Quero ser livre.
A
'sperança é um dever do sentimento.
Não Quero
Não
quero recordar nem conhecer-me.
Somos
demais se olhamos em quem somos.
Ignorar
que vivemos
Cumpre
bastante a vida.
Tanto
quanto vivemos, vive a hora
Em
que vivemos, igualmente morta
Quando
passa conosco,
Que
passamos com ela.
Se
sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois
sem poder que vale conhecermos?)
Melhor
vida é a vida
Que
dura sem medir-se.
Não Só Vinho
Não
só vinho, mas nele o olvido, deito
Na
taça: serei ledo, porque a dita
É
ignara. Quem, lembrando
Ou
prevendo, sorrira?
Dos
brutos, não a vida, senão a alma,
Consigamos,
pensando; recolhidos
No
impalpável destino
Que
não 'spera nem lembra.
Com
mão mortal elevo à mortal boca
Em
frágil taça o passageiro vinho,
Baços
os olhos feitos
Para
deixar de ver.
Não só quem nos odeia ou nos inveja
Não
só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não
menos nos limita.
Que
os deuses me concedam que, despido
De
afetos, tenha a fria liberdade
Dos
píncaros sem nada.
Quem
quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É
livre; quem não tem, e não deseja,
Homem,
é igual aos deuses.
Não Sei
Não
sei de quem recordo meu passado
Que
outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como
sentindo com minha alma aquela
Alma
que a sentir lembro.
De
dia a outro nos desamparamos.
Nada
de verdadeiro a nós nos une
Somos
quem somos, e quem fomos foi
Coisa
vista por dentro.
Não Sei se é Amor que Tens
Não
sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O
que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já
que o não sou por tempo,
Seja
eu jovem por erro.
Pouco
os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém,
se o dão, falso que seja, a dádiva
É
verdadeira. Aceito,
Cerro
olhos: é bastante.
Que
mais quero?
Não Tenhas
Não
tenhas nada nas mãos
Nem
uma memória na alma,
Que
quando te puserem
Nas
mãos o óbolo último,
Ao
abrirem-te as mãos
Nada
te cairá.
Que
trono te querem dar
Que
Átropos to não tire?
Que
louros que não fanem
Nos
arbítrios de Minos?
Que
horas que te não tornem
Da
estatura da sombra
Que
serás quando fores
Na
noite e ao fim da estrada.
Colhe
as flores mas larga-as,
Das
mãos mal as olhaste.
Senta-te
ao sol. Abdica
E
sê rei de ti próprio.
Nem da Erva
Nem
da serva humilde se o Destino esquece.
Saiba
a lei o que vive.
De
sua natureza murcham rosas
E
prazeres se acabam.
Quem
nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem
nós os conhecemos.
Negue-me
Negue-me
tudo a sorte, menos vê-la,
Que
eu, 'stóico sem dureza,
Na
sentença gravada do Destino
Quero
gozar as letras.
Ninguém a Outro Ama
Ninguém
a outro ama, senão que ama
O
que de si há nele, ou é suposto.
Nada
te pese que não te amem. Sentem-te
Quem
és, e és estrangeiro.
Cura
de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme
contigo, sofrerás avaro
De
penas.
Ninguém
Ninguém,
na vasta selva virgem
Do
mundo inumerável, finalmente
Vê
o Deus que conhece.
Só
o que a brisa traz se ouve na brisa
O
que pensamos, seja amor ou deuses,
Passa,
porque passamos.
No Breve Número
No
breve número de doze meses
O
ano passa, e breves são os anos,
Poucos
a vida dura.
Que
são doze ou sessenta na floresta
Dos
números, e quanto pouco falta
Para
o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido,
do curso
Que
me é imposto correr descendo, passo.
Apresso,
e breve acabo.
Dado
em declive deixo, e invito apresso
O
moribundo passo.
No Ciclo Eterno
No
ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo
inverno após novo outono volve
À
diferente terra
Com
a mesma maneira.
Porém
a mim nem me acha diferente
Nem
diferente deixa-me, fechado
Na
clausura maligna
Da
índole indecisa.
Presa
da pálida fatalidade
De
não mudar-me, me infiel renovo
Aos
propósitos mudos
Morituros
e infindos.
No Magno Dia
No
magno dia até os sons são claros.
Pelo
repouso do amplo campo tardam.
Múrmura,
a brisa cala.
Quisera,
como os sons, viver das coisas
Mas
não ser delas, conseqüência alada
Em
que o real vai longe.
No Mundo
No
mundo, Só comigo, me deixaram
Os
deuses que dispõem.
Não
posso contra eles: o que deram
Aceito
sem mais nada.
Assim,
o trigo baixa ao vento, e, quando
O
vento cessa, ergue-se.
Nos Altos Ramos
Nos
altos ramos de árvores frondosas
O
vento faz um rumor frio e alto,
Nesta
floresta, em este som me perco
E
sozinho medito.
Assim
no mundo, acima do que sinto,
Um
vento faz a vida, e a deixa, e a toma,
E
nada tem sentido — nem a alma
Com
que penso sozinho.
Nunca
Nunca
a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras
por própria.
Manda
no que fazes,
Nem
de ti mesmo servo.
Ninguém
te dá quem és.
Nada
te mude.
Teu
íntimo destino involuntário
Cumpre
alto.
Sê teu filho.
Ouvi contar que outrora
Ouvi
contar que outrora, quando a Pérsia