Cursos de 1 mês

 

Segundas de 13h10 às 14h00

CURSOS MENSAIS

A CADA  MÊS UM NOVO TEMA: CADA CURSO TEM A DURAÇÃO DE 4 AULAS

  • Setembro e Outubro: Fernando Pessoa – Leitura Comentada

Escritor português, nasceu a 13 de Junho, numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai, vitimado pela tuberculose, e, no ano seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo casamento da mãe, em 1896, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, viveu nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo, no Liceu de Durban, os estudos secundários.
Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes.
De regresso definitivo a Lisboa, em 1905, frequentou, por um período breve (1906-1907), o Curso Superior de Letras. Após uma tentativa falhada de montar uma tipografia e editora, «Empresa Íbis — Tipográfica e Editora», dedicou-se, a partir de 1908, e a tempo parcial, à tradução de correspondência estrangeira de várias casas comerciais, sendo o restante tempo dedicado à escrita e ao estudo de filosofia (grega e alemã), ciências humanas e políticas, teosofia e literatura moderna, que assim acrescentava à sua formação cultural anglo-saxónica, determinante na sua personalidade.
Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe. Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.

Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista A Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele próprio?). Data de 1913 a publicação de «Impressões do Crepúsculo» (poema tomado como exemplo de uma nova corrente, o paúlismo, designação advinda da primeira palavra do poema) e de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes.
Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo «Orpheu», lançou a revista Orpheu, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, Opiário e Ode Triunfal, de Campos, e O Marinheiro, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa ortónimo, e a Ode Marítima, de Campos. Publicou, ainda em vida, Antinous (1918), 35 Sonnets (1918), e três séries de English Poems (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com Mensagem a um prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas Exílio (1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926, de que foi co-director e onde publicou O Banqueiro Anarquista, conto de raciocínio e dedução, e o poema Mar Português), Athena (1924-1925, igualmente como co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e Presença.

A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da Presença. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Entre estes, contam-se a organização dos volumes poéticos de Poesias (de Fernando Pessoa), Poemas Dramáticos (de Fernando Pessoa), Poemas (de Alberto Caeiro), Poesias (de Álvaro de Campos), Odes (de Ricardo Reis), Poesias Inéditas (de Fernando Pessoa, dois volumes), Quadras ao Gosto Popular (de Fernando Pessoa), e os textos de prosa de Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos Filosóficos, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, Da República (1910-1935) e Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Do seu vasto espólio foram também retirados o Livro do Desassossego por Bernardo Soares e uma série de outros textos.

A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.
Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Pagão intelectual, lúcido e consciente, reflectia uma moral estoico-epicurista, misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o



13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando Antônio Nogueira Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa
1906 - Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterônimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu". Pessoa "mata" Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requere patente de invenção de um Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua. Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 - Passa a colaborar com a Revista "Presença".
1934 - Aparece "Mensagem", seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.

http://www.astormentas.com/din/biografia.asp?autor=Fernando+Pessoa

Poemas Abaixo

  • Novembro: A Técnica do Soneto

Soneto

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Ir para: navegação, pesquisa

Índice [esconder]

1 História

2 Estrutura

3 Ligações externas

4 Referências

5 Bibliografia

6 Ver também

 

 

Soneto é um poema de forma fixa, composto por 14 versos.

 

Pode ser apresentado em 3 formas de distribuição dos versos:

 

Soneto italiano ou petrarquiano: apresenta duas estrofes de 4 versos (quartetos) e duas de 3 (tercetos)

Soneto inglês ou "Shakespeareano": três quartetos e um dístico

Soneto monostrófico: Apresenta uma única estrofe de 14 versos.

 

[editar] História

Ao que tudo indica, o soneto - do italiano sonetto, pequena canção ou, literalmente, pequeno som - foi criado no começo do século XIII, na Sicília, onde era cantado na corte de Frederico II da mesma forma que as tradicionais baladas provençais. Alguns atribuem a invenção do soneto a Jacopo da Lentini (conhecido como Jacopo Notaro, após receber o título «Jacobus de Lentino domini imperatoris notarius» ) - poeta siciliano e imperial de Frederico II, que surgiu como uma espécie de canção ou de letra escrita para música, possuindo uma oitava e dois tercetos, com melodias diferentes.

 

O número de linhas e a disposição das rimas permaneceu variável até que um poeta de Santa Firmina, Guittone D'Arezzo, tornou-se o primeiro a adotar e aderir definitivamente àquilo que seria reconhecido como a melhor forma de expressão de uma emoção isolada, pensamento ou idéia: o soneto. Durante o século XIII, Fra Guittone, como era conhecido, criou o soneto guitoniano, padronizado, cujo estilo foi empregado por Petrarca e Dante Alighieri, com pequenas variações. Tais sonetos são obras marcantes, se considerarmos as circunstâncias em que eles surgiram.

 

Coube ao fiorentino Francesco Petrarca aperfeiçoar a estrutura poética iniciada na Sicília, difundindo-a por toda a Europa em suas viagens. Sua obra engloba 317 sonetos contidos no "Il Canzoniere", a coletânea de poesia que exerceu influência sobre toda a literatura ocidental. Os melhores poemas desse livro são dedicados a Laura de Novaes, por quem possuía um amor platônico. Destacam-se os recursos metafóricos e o lirismo erótico dos sonetos.

 

Dante Alighieri, o autor da consagrada A Divina Comédia, e também um seguidor de Guittone, em sua infância já compunha sonetos amorosos. Seu amor impossível por Beatriz (provavelmente Beatrice Portinari) foi imortalizado em vários sonetos em "Vita Nuova", seu primeiro trabalho literário de grande importância.

 

Graças a uma viagem que fez para a Itália em 1551, o poeta português Sá de Miranda regressando em 1526, trouxe para Portugal uma nova estética, introduzindo pela primeira vez o Soneto, a canção, a sextina, as composições em tercetos e em oitavas e os versos de dez sílabas, conhecidos como decassílabos.

 

Anos se passaram até que dois ícones da literatura mundial, um português e um inglês, deram ao Soneto, cada um ao seu modo, o toque de mestre: Luís Vaz de Camões e William Shakespeare.

 

Camões é considerado o maior poeta clássico da Literatura Moderna. Freqüentou a nobreza em Portugal, tomou parte em diversas expedições militares, mas foi exilado por suas posições políticas. Passou alguns anos na prisão, de onde saiu com "Os lusíadas", uma obra que o colocou entre os maiores poetas mundiais de todos os tempos. Apesar disso, morreu pobre. Escreveu diversos sonetos, tendo o amor como tema principal.

 

Shakespeare, além de teatrólogo, desenvolveu uma habilidade única na poesia. O seu soneto, o soneto inglês, é composto por três quartetos e um dístico, diferente da composição original de Petrarca. O mais célebre dos escritores ingleses escreveu diversos poemas, alguns deles recheados de metáforas.

 

Desde então, o soneto adquiriu importância ao redor do mundo, tornando-se a melhor representação da poesia lírica. Alguns casos são notáveis: o poeta russo Aleksandr Pushkin compôs Eugene Onegin, um poema repleto de sonetos adotado por Tchaikovsky para compor uma de suas óperas; o francês Charles Baudelaire ajudou a divulgar os versos alexandrinos em Les Fleurs du Mal. Até Vivaldi usou-se de sonetos.

 

E por falar em versos alexandrinos, utilizados por muitos sonetistas, eles remontam - segundo alguns dicionários da língua portuguesa - a uma obra francesa do século XII chamada Le Roman d'Alexandre, versos de doze sílabas poéticas [1]. Porém, os dicionários da língua espanhola - apesar de apontarem para a mesma origem - insistem em afirmar que os versos alexandrinos são aqueles que contêm quatorze sílabas gramaticais.

 

Finalmente, após aderir ao humanismo e ao estilo barroco, o poema dos catorze versos acabou sendo desprezado pelos iluministas. No século XIX, ele voltou a ser cultivado, com mais fervor, por românticos, parnasianos e simbolistas, sobrevivendo ao verso livre do modernismo - que viria em seguida - até os dias atuais.

 

 

[editar] Estrutura

O soneto possui uma estrutura lógica com uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão, constituída pelo último terceto; esta última tomou o nome de "chave-de-ouro", porque se constitui como decodificadora do significado global do poema.

 

 

[editar] Ligações externas

Sonetos.com.br (direitos cedidos pelo autor)

Sonetário Brasileiro (direitos cedidos pelo autor)

Academia Brasileira de Poesia

O soneto é uma casa poética

 

Referências

Ver Dodecassílabo

 

[editar] Bibliografia

CAMPOS, Geir. Pequeno dicionário de arte poética. Rio de Janeiro: Ediouro, 1960.

SHAKESPEARE, William. Sonetos de William Shakespeare. Tradução de Milton Lins. Recife: Ed. do Tradutor,2005.

TORRALVO, Izeti Fragata; MINCHILLO, Carlos Cortez. Sonetos de Camões. Cotia:Ateliê Editorial, 2001.

SEGUNDAS-FEIRAS DE 13H10 A 14H00

 

 

Alberto Caeiro

(Portugal)

 

 

Guardador de Rebanhos

 

 

1

 

Eu nunca guardei rebanhos, 
Mas é como se os guardasse. 
Minha alma é como um pastor, 
Conhece o vento e o sol 
E anda pela mão das Estações  
A seguir e a olhar. 
Toda a paz da Natureza sem gente  
Vem sentar-se a meu lado. 
Mas eu fico triste como um pôr de sol  
Para a nossa imaginação, 
Quando esfria no fundo da planície  
E se sente a noite entrada 
Como uma borboleta pela janela. 

 

Mas a minha tristeza é sossego 
Porque é natural e justa 
E é o que deve estar na alma 
Quando já pensa que existe 
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso. 

 

Como um ruído de chocalhos 
Para além da curva da estrada, 
Os meus pensamentos são contentes. 
Só tenho pena de saber que eles são contentes, 
Porque, se o não soubesse, 
Em vez de serem contentes e tristes,  
Seriam alegres e contentes. 

 

Pensar incomoda como andar à chuva 
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

 

Não tenho ambições nem desejos  
Ser poeta não é uma ambição minha  
É a minha maneira de estar sozinho. 

 

E se desejo às vezes 
Por imaginar, ser cordeirinho  
(Ou ser o rebanho todo 
Para andar espalhado por toda a encosta 
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo), 

 

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, 
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz 
E corre um silêncio pela erva fora. 

 

Quando me sento a escrever versos 
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, 
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, 
Sinto um cajado nas mãos 
E vejo um recorte de mim 
No cimo dum outeiro, 
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias, 
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho, 
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz 
E quer fingir que compreende.

 

Saúdo todos os que me lerem, 
Tirando-lhes o chapéu largo 
Quando me vêem à minha porta 
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. 
Saúdo-os e desejo-lhes sol, 
E chuva, quando a chuva é precisa, 
E que as suas casas tenham 
Ao pé duma janela aberta 
Uma cadeira predileta 
Onde se sentem, lendo os meus versos. 
E ao lerem os meus versos pensem 
Que sou qualquer cousa natural — 
Por exemplo, a árvore antiga 
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

 

 

 

II

 

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

 

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.  Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

 

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)                  
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

 

 

 

III

 

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

 

Que pena que tenho dele!  Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

 

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E
pôr plantas em jarros...

 

 

 

IV

 

Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos ...

 

Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...

 

Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...

 

Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa Bárbara..
Ah, poder crer em Santa Bárbara!

 

(Quem crê que há Santa Bárbara, 
Julgará que ela é gente e visível 
Ou que julgará dela?)

 

(Que artifício!  Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos... 
Poderia julgar que o sol 
É Deus, e que a trovoada 
É uma quantidade de gente 
Zangada por cima de nós ...
Ali, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das
árvores e das plantas!)

 

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz... 
Fiquei sombrio e adoecido e soturno 
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça 
E nem sequer de noite chega.

 

 

 

V

 

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?  
Sei lá o que penso do mundo!  
Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

 

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos 
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

O mistério das cousas?  Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.  
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

 

Metafísica?  Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, 
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

 

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. 
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores 
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

 

Pensar no sentido íntimo das cousas 
É acrescentado, como pensar na saúde 
Ou levar um copo à água das fontes.

 

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.  
Não acredito em Deus porque nunca o vi.  
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

 

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

 

Mas se Deus é as flores e as árvores 
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

 

Mas se Deus é as árvores e as flores 
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; 
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.  

 

E por isso eu obedeço-lhe, 
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).  
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

 

 

 

VI


Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-à fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-à verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

 

 

 

VII

 

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

 

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

 

 

 

VIII

 

Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com
flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espirito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."

E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
... ... ...
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
... ... ...
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
... ... ...
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

 

 

 

IX

 

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

 

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

 

 

 

X

 

"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"

 

"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"

 

"Muita cousa mais do que isso.  
Fala-me de muitas outras cousas.  
De memórias e de saudades 
E de cousas que nunca foram."

 

"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti." 

 

 

 

XI

 

Aquela senhora tem um piano
     Que é agradável mas não é o correr dos rios 
     Nem o murmúrio que as árvores fazem ...

    

Para que é preciso ter um piano?
     o melhor é ter ouvidos
     E amar a Natureza.

 

 

 

XII

 

Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras cousas 
     E cantavam de amor literariamente.
     (Depois — eu nunca li Virgílio.
    

Para que o havia eu de ler?)

     Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio, 
     E a Natureza é bela e antiga.

 

 

 

XIII

 

Leve, leve, muito leve, 
Um vento muito leve passa, 
E vai-se, sempre muito leve. 
E eu não sei o que penso 
Nem procuro sabê-lo.

 

 

XIV

 

Não me importo com as rimas.  Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me 
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior 

    

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado, 
E a minha poesia é natural corno o levantar-se vento...

 

 

 

XV

 

As quatro canções que seguem
     Separam-se de tudo o que eu penso,
     Mentem a tudo o que eu sinto,
     São do contrário do que eu sou ...

 

Escrevi-as estando doente
     E por isso elas são naturais
     E concordam com aquilo que sinto,
     Concordam com aquilo com que não concordam ... 
     Estando doente devo pensar o contrário 
     Do que penso quando estou são. 
     (Senão não estaria doente),
     Devo sentir o contrário do que sinto 
     Quando sou eu na saúde,
     Devo mentir à minha natureza
     De criatura que sente de certa maneira ...
     Devo ser todo doente — idéias e tudo.
     Quando estou doente, não estou doente para outra cousa.

 

Por isso essas canções que me renegam
     Não são capazes de me renegar
     E são a paisagem da minha alma de noite,
     A mesma ao contrário ...

 

 

 

XVI

 

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

 

 

 

XVII

 

No meu prato que mistura de Natureza!
     As minhas irmãs as plantas,
     As companheiras das fontes, as santas
     A quem ninguém reza...

    

E cortam-as e vêm à nossa mesa
     E nos hotéis os hóspedes ruidosos,
     Que chegam com correias tendo mantas
     Pedem "Salada", descuidosos...,
     Sem pensar que exigem à Terra-Mãe
     A sua frescura e os seus filhos primeiros,
     As primeiras verdes palavras que ela tem,
     As primeiras cousas vivas e irisantes
     Que Noé viu
     Quando as águas desceram e o cimo dos montes
     Verde e alagado surgiu
     E no ar por onde a pomba apareceu
     O arco-íris se esbateu...

 

 

 

XVIII

 

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
     E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

    

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
     E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

    

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
     E tivesse só o céu por cima e a água por baixo. . .

    

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
     E que ele me batesse e me estimasse...

    

Antes isso que ser o que atravessa a vida
     Olhando para trás de si e tendo pena ...

 

 

 

XIX

 

O luar quando bate na relva
     Não sei que cousa me lembra...
     Lembra-me a voz da criada velha
     Contando-me contos de fadas.
     E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
     Andava à noite nas estradas
     Socorrendo as crianças maltratadas ...

    

Se eu já não posso crer que isso é verdade,
     Para que bate o luar na relva?

 

 

 

XX

 

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
    Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
    Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

   

O Tejo tem grandes navios
    E navega nele ainda,
    Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
    A memória das naus.

   

O Tejo desce de Espanha
    E o Tejo entra no mar em Portugal.  
    Toda a gente sabe isso.
    Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
    E para onde ele vai
    E donde ele vem.
    E por isso porque pertence a menos gente, 
    É mais livre e maior o rio da minha aldeia.  

   

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
    Para além do Tejo há a América
    E a fortuna daqueles que a encontram.  
    Ninguém nunca pensou no que há para além
    Do rio da minha aldeia.

   

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.  
    Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

 

 

 

XXI 

 

Se eu pudesse trincar a terra toda 
     E sentir-lhe uma paladar,
     Seria mais feliz um momento ... 
     Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
     É preciso ser de vez em quando infeliz 
     Para se poder ser natural...

    

Nem tudo é dias de sol,
     E a chuva, quando falta muito, pede-se.
     Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
     Naturalmente, como quem não estranha
     Que haja montanhas e planícies
     E que haja rochedos e erva ...

    

O que é preciso é ser-se natural e calmo
     Na felicidade ou na infelicidade,
     Sentir como quem olha,
     Pensar como quem anda,
     E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
     E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
     Assim é e assim seja ...

 

 

 

XXII 

 

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa 
     E espreita para o calor dos campos com a cara toda, 
     Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa 
     Na cara dos meus sentidos,
     E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber 
     Não sei bem como nem o quê...

    

Mas quem me mandou a mim querer perceber?  
     Quem me disse que havia que perceber?

    

Quando o Verão me passa pela cara
     A mão leve e quente da sua brisa,
     Só tenho que sentir agrado porque é brisa
     Ou que sentir desagrado porque é quente,
     E de qualquer maneira que eu o sinta,
     Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

 

 

 

XXIII

 

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

 

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

 

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

 

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

 

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

 

 

 

XXIV

 

O que nós vemos das cousas são as cousas.
     Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
     Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
     Se ver e ouvir são ver e ouvir?

    

O essencial é saber ver,
     Saber ver sem estar a pensar,
     Saber ver quando se vê,
     E nem pensar quando se vê
     Nem ver quando se pensa.

    

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), 
     Isso exige um estudo profundo,
     Uma aprendizagem de desaprender
     E uma sequestração na liberdade daquele convento
     De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
     E as flores as penitentes convictas de um só dia,
     Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
     Nem as flores senão flores.
     Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

 

 

 

XXV

 

As bolas de sabão que esta criança
     Se entretém a largar de uma palhinha
     São translucidamente uma filosofia toda.
     Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
     Amigas dos olhos como as cousas,
     São aquilo que são
     Com uma precisão redondinha e aérea,
     E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
     Pretende que elas são mais do que parecem ser.

    

 Algumas mal se vêem no ar lúcido.
     São como a brisa que passa e mal toca nas flores
     E que só sabemos que passa
     Porque qualquer cousa se aligeira em nós
     E aceita tudo mais nitidamente.

 

 

 

XXXVI

 

Às vezes, em dias de  luz perfeita e exacta,
     Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
     Pergunto a mim próprio devagar
     Por que sequer atribuo eu
     Beleza às cousas.

    

Uma flor acaso tem beleza?
     Tem beleza acaso um fruto?
     Não: têm cor e forma
     E existência apenas.
     A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
     Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
     Não significa nada.
     Então por que digo eu das cousas: são belas?

    

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
     Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
     Perante as cousas,
     Perante as cousas que simplesmente existem.

    

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

 

 

 

XXVII

 

Só a natureza é divina, e ela não é divina...

    

Se falo dela como de um ente
     É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens
     Que dá personalidade às cousas,
     E impõe nome às cousas.

    

Mas as cousas não têm nome nem personalidade: 
     Existem, e o céu é grande a terra larga,
     E o nosso coração do tamanho de um punho fechado...

     Bendito seja eu por tudo quanto sei.
     Gozo tudo isso como quem sabe que há o sol.

 

 

 

 

 

 

 

XXVIII

 

Li hoje quase duas páginas
     Do livro dum poeta místico,
     E ri como quem tem chorado muito.

    

Os poetas místicos são filósofos doentes, 
     E os filósofos são homens doidos.

    

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem 
     E dizem que as pedras têm alma
     E que os rios têm êxtases ao luar.

    

Mas flores, se sentissem, não eram flores, 
     Eram gente;
     E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
     E se os rios tivessem êxtases ao luar,
     Os rios seriam homens doentes.

    

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios 
     Para falar dos sentimentos deles.
     Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
     É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.  
     Graças a Deus que as pedras são pedras, 
     E que os rios não são senão rios,
     E que as flores são apenas flores.

    

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos 
     E fico contente,
     Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
     E não a compreendo por dentro
     Porque a Natureza não tem dentro;
     Senão não era a Natureza.

 

 

 

XXIX

 

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
     Mudo, mas não mudo muito.
     A cor das flores não é a mesma ao sol
     De que quando uma nuvem passa
     Ou quando entra a noite
     E as flores são cor da sombra.

    

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
     Por isso quando pareço não concordar comigo,

    

Reparem bem para mim:
     Se estava virado para a direita,
     Voltei-me agora para a esquerda,
     Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
     O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
     E aos meus olhos e ouvidos atentos
     E à minha clara simplicidade de alma ...

 

 

 

XXX

 

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.

Sou místico, mas só com o corpo.

A minha alma é simples e não pensa.

 

O meu misticismo é não querer saber.

É viver e não pensar nisso.

 

Não sei o que é a Natureza: canto-a

Vivo no cimo dum outeiro

Numa casa caiada e sozinha

E essa é a minha definição.

 

 

 

XXXI

 

Se às vezes digo que as flores sorriem
     E se eu disser que os rios cantam,
     Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
     E cantos no correr dos rios...
     É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
     A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

    

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes 
     À sua estupidez de sentidos...
     Não concordo comigo mas absolvo-me,
     Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
     Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
     Por ela não ser linguagem nenhuma.

 

 

 

XXXII

 

Ontem à tarde um homem das cidades 
     Falava à porta da estalagem.
     Falava comigo também.
     Falava da justiça e da luta para haver justiça
     E dos operários que sofrem,
     E do trabalho constante, e dos que têm fome,
     E dos ricos, que só têm costas para isso.

    

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
     E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
     O ódio que ele sentia, e a compaixão
     Que ele dizia que sentia.

    

 (Mas eu mal o estava ouvindo.
     Que me importam a mim os homens
     E o que sofrem ou supõem que sofrem?  
     Sejam como eu — não sofrerão.
     Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros, 
     Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
     A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.  
     Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

    

Eu no que estava pensando
     Quando o amigo de gente falava
     (E isso me comoveu até às lágrimas),
     Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos 
     A esse entardecer
     Não parecia os sinos duma capela pequenina
     A que fossem à missa as flores e os regatos
     E as almas simples como a minha.

    

(Louvado seja Deus que não sou bom, 
     E tenho o egoísmo natural das flores 
     E dos rios que seguem o seu caminho 
     Preocupados sem o saber
     Só com florir e ir correndo.
     É essa a única missão no Mundo, 
     Essa - existir claramente,
     E saber faze-lo sem pensar nisso.

    

 E o homem calara-se, olhando o poente.
     Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

 

 

 

XXXIII

 

Pobres das flores dos canteiros dos jardins regulares.  
     Parecem ter medo da polícia...
     Mas tão boas que florescem do mesmo modo 
     E têm o mesmo sorriso antigo
     Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
     Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
     Para ver se elas falavam...

 

XXXIV

 

Acho tão natural que não se pense
     Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
     Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
     Que tem que ver com haver gente que pensa ...

    

Que pensará o meu muro da minha sombra?  
     Pergunto-me às vezes isto até dar por mim 
     A perguntar-me cousas. . .
     E então desagrado-me, e incomodo-me
     Como se desse por mim com um pé dormente. . .

    

Que pensará isto de aquilo?
     Nada pensa nada.
     Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
     Se ela a tiver, que a tenha...
     Que me importa isso a mim?
     Se eu pensasse nessas cousas,
     Deixaria de ver as árvores e as plantas
     E deixava de ver a Terra,
     Para ver só os meus pensamentos ...
     Entristecia e ficava às escuras.
     E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

 

 

 

XXXV

 

O luar através dos altos ramos,
     Dizem os poetas todos que ele é mais
     Que o luar através dos altos ramos.

    

Mas para mim, que não sei o que penso,
     O que o luar através dos altos ramos
     É, além de ser
     O luar através dos altos ramos,
     É não ser mais
     Que o luar através dos altos ramos

 

 

 

XXXVI

 

E há poetas que são artistas

E trabalham nos seus versos

Como um carpinteiro nas tábuas!...

 

Que triste não saber florir!

ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro

E ver se está bem, e tirar se não está!...

Quando a única casa artística é a Terra toda

Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

 

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira.

E olho para as flores e sorrio...

Não sei se elas compreendem

Nem sei se eu as compreendo a elas,

Mas sei que a verdade está nelas e em mim

E na nossa comum divindade

De nos deixarmos ir e viver pela Terra

E levar ao colo pelas Estações contentes

E deixar que o vento cante para adormecermos

E não termos sonhos no nosso sono.

 

 

 

XXXVII

 

Como um grande borrão de fogo sujo 
     O sol posto demora-se nas nuvens que ficam. 
     Vem um silvo vago de longe na tarde muito calma.   
     Deve ser dum comboio longínquo. 

    

Neste momento vem-me uma vaga saudade  
     E um vago desejo plácido 
     Que aparece e desaparece. 

    

Também às vezes, à flor dos ribeiros,  
     Formam-se bolhas na água 
     Que nascem e se desmancham 
     E não têm sentido nenhum 
     Salvo serem bolhas de água 
     Que nascem e se desmancham.

 

 

 

XXXVIII

 

Bendito seja o mesmo sol de outras terras
     Que faz meus irmãos todos os homens
     Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu, 
     E, nesse puro momento
     Todo limpo e sensível
     Regressam lacrimosamente
     E com um suspiro que mal sentem
     Ao homem verdadeiro e primitivo
     Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
     Porque isso é natural — mais natural
     Que adorar o ouro e Deus
     E a arte e a moral ...

 

 

 

XXXIX

 

O mistério das cousas, onde está ele?
   Onde está ele que não aparece
   Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
   Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
   E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
   Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
   Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

  

Porque o único sentido oculto das cousas 
   É elas não terem sentido oculto nenhum, 
   É mais estranho do que todas as estranhezas 
   E do que os sonhos de todos os poetas
   E os pensamentos de todos os filósofos,
   Que as cousas sejam realmente o que parecem ser 
   E não haja nada que compreender.

  

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
   As cousas não têm significação: têm existência.
   As cousas são o único sentido oculto das cousas.

 

 

 

XL

 

Passa uma borboleta por diante de mim
     E pela primeira vez no Universo eu reparo
     Que as borboletas não têm cor nem movimento,
     Assim como as flores não têm perfume nem cor.
     A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
     No movimento da borboleta o movimento é que se move,
     O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
     A borboleta é apenas borboleta
     E a flor é apenas flor.

 

 

 

XLI

 

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
     Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
     Que passa, um momento, uma leve brisa...
     Mas as árvores permanecem imóveis
     Em todas as folhas das suas folhas
     E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
     Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

    

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
     Fôssemos nós como devíamos ser
     E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
     Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
     E nem repararmos para que há sentidos ...

    

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
     Porque a imperfeição é uma cousa,
     E haver gente que erra é original,
     E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
     Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
     E deve haver muita cousa
     Para termos muito que ver e ouvir. . .

 

 

 

XLII

 

Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
     E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
     Assim é a ação humana pelo mundo fora.
     Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
     E o sol é sempre pontual todos os dias.

 

 

 

XLIII

 

Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
     Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
     A ave passa e esquece, e assim deve ser.
     O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
     Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
     A recordação é uma traição à Natureza,
     Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
     O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

    

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

 

 

 

XLIV

 

Acordo de noite subitamente,
    E o meu relógio ocupa a noite toda.
    Não sinto a Natureza lá fora.
    O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
    Lá fora há um sossego como se nada existisse.
    Só o relógio prossegue o seu ruído.
    E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa
    Abafa toda a existência da terra e do céu...
    Quase que me perco a pensar o que isto significa,
    Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
    Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
    Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
    É a curiosa sensação de encher a noite enorme
    Com a sua pequenez...

 

 

 

XLV

 

Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
    Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
    Renque e o plural árvores não são cousas, são nomes.

    Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
    Que traçam linhas de cousa a cousa,
    Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
    E desenham paralelos de latitude e longitude
    Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!

 

 

 

XLVI

 

Deste modo ou daquele modo.
     Conforme calha ou não calha.
     Podendo às vezes dizer o que penso,
     E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
     Vou escrevendo os meus versos sem querer,
     Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
     Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
     Como dar-me o sol de fora.

    

Procuro dizer o que sinto
     Sem pensar em que o sinto.
     Procuro encostar as palavras à ideia
     E não precisar dum corredor
     Do pensamento para as palavras

    

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
     O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
     Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

    

Procuro despir-me do que aprendi,
     Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
     E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
     Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
     Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
     Mas um animal humano que a Natureza produziu.

    

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
     Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
     E assim escrevo, ora bem ora mal,
     Ora acertando com o que quero dizer ora errando,
     Caindo aqui, levantando-me acolá,
     Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

    

Ainda assim, sou alguém.
     Sou o Descobridor da Natureza.
     Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
     Trago ao Universo um novo Universo
     Porque trago ao Universo ele-próprio.

    

Isto sinto e isto escrevo
     Perfeitamente sabedor e sem que não veja
     Que são cinco horas do amanhecer
     E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
     Por cima do muro do horizonte,
     Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
     Agarrando o cimo do muro
     Do horizonte cheio de montes baixos.

 

 

 

XLVII

 

Num dia excessivamente nítido,
     Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
     Para nele não trabalhar nada,
     Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
     O que talvez seja o Grande Segredo,
     Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.

    

 Vi que não há Natureza,
     Que Natureza não existe,
     Que há montes, vales, planícies,
     Que há árvores, flores, ervas,
     Que há rios e pedras,
     Mas que não há um todo a que isso pertença,
     Que um conjunto real e verdadeiro
     É uma doença das nossas ideias.

    

A Natureza é partes sem um todo.
     Isto é talvez o tal mistério de que falam.

    

Foi isto o que sem pensar nem parar, 
     Acertei que devia ser a verdade
     Que todos andam a achar e que não acham,
     E que só eu, porque a não fui achar, achei.

 

 

 

XLVIII

 

Num dia excessivamente nítido,
     Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
     Para nele não trabalhar nada,
     Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
     O que talvez seja o Grande Segredo,
     Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.

    

 Vi que não há Natureza,
     Que Natureza não existe,
     Que há montes, vales, planícies,
     Que há árvores, flores, ervas,
     Que há rios e pedras,
     Mas que não há um todo a que isso pertença,
     Que um conjunto real e verdadeiro
     É uma doença das nossas ideias.

    

A Natureza é partes sem um todo.
     Isto é talvez o tal mistério de que falam.

    

Foi isto o que sem pensar nem parar, 
     Acertei que devia ser a verdade
     Que todos andam a achar e que não acham,
     E que só eu, porque a não fui achar, achei.

 

 

 

XLIX

 

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
     Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
     E a minha voz contente dá as boas noites.
     Oxalá a minha vida seja sempre isto:
     O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
     Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,

    

A tarde suave e os ranchos que passam
     Fitados com interesse da janela,
     O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
     E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
     Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
     Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
     E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

 

Poemas de Ricardo Reis

Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)

(Fonte:http://www.secrel.com.br/jpoesia/reis.html)

Poemas:

A Abelha que voando

A Cada Qual

A cima da Verdade

A Flor que És

A guardo

A qui, dizeis, na cova a que me abeiro

A qui, Neera, longe

A qui, neste misérrimo desterro

A o Longe

A os Deuses

A ntes de Nós

A njos ou Deuses

A Palidez do Dia

A trás Não Torna

A Nada Imploram

A s Rosas

A zuis os Montes

B ocas Roxas

B reve o Dia

C ada Coisa

C ada dia sem gozo não foi teu

C ada Um

C omo

C oroai-me

C uidas, Índio

D a Lâmpada

D a Nossa Semelhança

D e Apolo

D e Novo Traz

D eixemos, Lídia

D ia Após Dia

D o que Quero

D omina ou Cala

E stás só. Ninguém o sabe.

E ste Seu Escasso Campo

É tão Suave

F eliz Aquele

F elizes

F lores

F rutos

G ozo Sonhado

I nglória

J á Sobre a Fronte

L enta, Descansa

L ídia

M elhor Destino

M estre

M eu Gesto

N ada Fica

N ão a Ti, Cristo, odeio ou te não quero

N ão a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo

N ão Canto

N ão Consentem

N ão Queiras

N ão quero as oferendas

N ão quero, Cloe, teu amor, que oprime

N ão quero recordar nem conhecer-me

N ão Só Vinho

N ão só quem nos odeia ou nos inveja

N ão sei de quem recordo meu passado

N ão sei se é amor que tens, ou amor que finges

N ão Tenhas

N em da Erva

N egue-me tudo a sorte, menos vê-la

N inguém a outro ama, senão que ama

N inguém, na vasta selva virgem

N o Breve Número

N o Ciclo Eterno

N o Magno Dia

N o mundo, Só comigo, me deixaram

N os Altos Ramos

N unca

O uvi contar que outrora

O lho

O que Sentimos

O s Deuses e os Messias

O Deus Pã

O s Deuses

O Ritmo Antigo

O Mar Jaz

O Sono é Bom

O Rastro Breve

P ara os Deuses

P ara ser grande, sê inteiro: nada

P esa o Decreto

P onho na Altiva

P ois que nada que dure, ou que, durando

P razer

P refiro Rosas

Q uão breve tempo é a mais longa vida

Q uanta Tristeza

Q uando, Lídia

Q uanto faças, supremamente faze

Q uem diz ao dia, dura! e à treva, acaba!

Q uer Pouco

Q uero dos Deuses

Q uero Ignorado

R asteja mole pelos campos ermos

S ábio

S audoso

S egue o teu destino

S e Recordo

S evero Narro

S ereno Aguarda

S eguro Assento

S im

S ó o Ter

S ó Esta Liberdade

S ofro, Lídia

S olene Passa

S e a Cada Coisa

S ob a Leve Tutela

S úbdito Inútil

T ão cedo passa tudo quanto passa!

T ão Cedo

T ênue

T emo, Lídia

T irem-me os Deuses

T udo, desde ermos astros afastados

T udo que Cessa

T uas, Não Minhas

U ma Após Uma

U ns

V em sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio

V em sentar-te comigo Lídia...

V ivem em nós inúmeros

V ive sem Horas

V ós que, Crentes

V ossa Formosa

A Abelha

A abelha que, voando, freme sobre

A colorida flor, e pousa, quase

Sem diferença dela

À vista que não olha,

Não mudou desde Cecrops. Só quem vive

Uma vida com ser que se conhece

Envelhece, distinto

Da espécie de que vive.

Ela é a mesma que outra que não ela.

Só nós — ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte! —

Mortalmente compramos

Ter mai vida que a vida.

A Cada Qual

A cada qual, como a 'statura, é dada

A justiça: uns faz altos

O fado, outros felizes.

Nada é prêmio: sucede o que acontece.

Nada, Lídia, devemos

Ao fado, senão tê-lo.

Acima da Verdade

Acima da verdade estão os deuses.

A nossa ciência é uma falhada cópia

Da certeza com que eles

Sabem que há o Universo.

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,

Não pertence à ciência conhecê-los,

Mas adorar devemos

Seus vultos como às flores,

Porque visíveis à nossa alta vista,

São tão reais como reais as flores

E no seu calmo Olimpo

São outra Natureza.

A Flor que És

A flor que és, não a que dás, eu quero.

Porque me negas o que te não peço.

Tempo há para negares

Depois de teres dado.

Flor, sê-me flor! Se te colher avaro

A mão da infausta esfinge, tu perere

Sombra errarás absurda,

Buscando o que não deste.

Aguardo

Aguardo, equânime, o que não conheço —

Meu futuro e o de tudo.

No fim tudo será silêncio, salvo

Onde o mar banhar nada.

Aqui, Dizeis

Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro,

Não 'stá quem eu amei. Olhar nem riso

Se escondem nesta leira.

Ah, mas olhos e boca aqui se escondem!

Mãos apertei, não alma, e aqui jazem.

Homem, um corpo choro!

Aqui

Aqui, Neera, longe

De homens e de cidades,

Por ninguém nos tolher

O passo, nem vedarem

A nossa vista as casas,

Podemos crer-nos livres.

Bem sei, é flava, que inda

Nos tolhe a vida o corpo,

E não temos a mão

Onde temos a alma;

Bem sei que mesmo aqui

Se nos gasta esta carne

Que os deuses concederam

Ao estado antes de Averno.

Mas aqui não nos prendem

Mais coisas do que a vida,

Mãos alheias não tomam

Do nosso braço, ou passos

Humanos se atravessam

Pelo nosso caminho.

Não nos sentimos presos

Senão com pensarmos nisso,

Por isso não pensemos

E deixemo-nos crer

Na inteira liberdade

Que é a ilusão que agora

Nos torna iguais dos deuses.

Aqui

Aqui, neste misérrimo desterro

Onde nem desterrado estou, habito,

Fiel, sem que queira, àquele antigo erro

Pelo qual sou proscrito.

O erro de querer ser igual a alguém

Feliz em suma — quanto a sorte deu

A cada coração o único bem

De ele poder ser seu.

Ao Longe

Ao longe os montes têm neve ao sol,

Mas é suave já o frio calmo

Que alisa e agudece

Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,

Nada nos falta, porque nada somos.

Não esperamos nada

E ternos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,

Solenes na alegria levemente,

E aguardando a morte

Como quem a conhece.

Aos Deuses

Aos deuses peço só que me concedam

O nada lhes pedir. A dita é um jugo

E o ser feliz oprime

Porque é um certo estado.

Não quieto nem inquieto meu ser calmo

Quero erguer alto acima de onde os homens

Têm prazer ou dores.

Antes de Nós

Antes de nós nos mesmos arvoredos

Passou o vento, quando havia vento,

E as folhas não falavam

De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.

Não fazemos mais ruído no que existe

Do que as folhas das árvores

Ou os passos do vento.

Anjos ou Deuses

Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,

A visão perturbada de que acima

De nos e compelindo-nos

Agem outras presenças.

Como acima dos gados que há nos campos

O nosso esforço, que eles não compreendem,

Os coage e obriga

E eles não nos percebem,

A Palidez do Dia

A palidez do dia é levemente dourada.

O sol de inverno faz luzir como orvalho as curvas

Dos troncos de ramos Secos.

O frio leve treme.

Desterrado da pátria antiqüíssima da minha

Crença, consolado só por pensar nos deuses,

Aqueço-me trêmulo

A outro sol do que este.

O sol que havia sobre o Parténon e a Acrópole

O que alumiava os passos lentos e graves

De Aristóteles falando.

Mas Epicuro melhor

Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre

Tendo para os deuses uma atitude também de deus,

Sereno e vendo a vida

À distância a que está.

Atrás Não Torna

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve

Sua face, Saturno.

Sua severa fronte reconhece

Só o lugar do futuro.

Não temos mais decerto que o instante

Em que o pensamos certo.

Não o pensemos, pois, mas o façamos

Certo sem pensamento.

A Nada Imploram

A nada imploram tuas mãos já coisas,

Nem convencem teus lábios já parados,

No abafo subterrâneo

Da úmida imposta terra.

Só talvez o sorriso com que amavas

Te embalsama remota, e nas memórias

Te ergue qual eras, hoje

Cortiço apodrecido.

E o nome inútil que teu corpo morto

Usou, vivo, na terra, como uma alma,

Não lembra. A ode grava,

Anônimo, um sorriso.

As Rosas

As Rosas amo dos jardins de Adônis,

Essas volucres amo, Lídia, rosas,

Que em o dia em que nascem,

Em esse dia morrem.

A luz para elas é eterna, porque

Nascem nascido já o sol, e acabam

Antes que Apolo deixe

O seu curso visível.

Assim façamos nossa vida um dia,

Inscientes, Lídia, voluntariamente

Que há noite antes e após

O pouco que duramos.

Azuis os Montes

Azuis os montes que estão longe param.

De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,

Ou verde ou amarelo ou variegado,

Ondula incertamente.

Débil como uma haste de papoila

Me suporta o momento. Nada quero.

Que pesa o escrúpulo do pensamento

Na balança da vida?

Como os campos, e vário, e como eles,

Exterior a mim, me entrego, filho

Ignorado do Caos e da Noite

Às férias em que existo.

Bocas Roxas

Bocas roxas de vinho,

Testas brancas sob rosas,

Nus, brancos antebraços

Deixados sobre a mesa;

Tal seja, Lídia, o quadro

Em que fiquemos, mudos,

Eternamente inscritos

Na consciência dos deuses.

Antes isto que a vida

Como os homens a vivem

Cheia da negra poeira

Que erguem das estradas.

Só os deuses socorrem

Com seu exemplo aqueles

Que nada mais pretendem

Que ir no rio das coisas.

Breve o Dia

Breve o dia, breve o ano, breve tudo.

Não tarda nada sermos.

Isto, pensado, me de a mente absorve

Todos mais pensamentos.

O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,

Que, inda que mágoa, é vida.

Cada Coisa

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.

Não florescem no inverno os arvoredos,

Nem pela primavera

Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,

O mesmo ardor que o dia nos pedia.

Com mais sossego amemos

A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra

Mas porque a hora é a hora dos cansaços,

Não puxemos a voz

Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam

Nossas palavras de reminiscência

(Não para mais nos serve

A negra ida do Sol)

Pouco a pouco o passado recordemos

E as histórias contadas no passado

Agora duas vezes

Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida

Com outra consciência nós colhíamos

E sob uma outra espécie

De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,

Deuses lares, ali na eternidade,

Como quem compõe roupas

O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso

Nos traz às vidas quando só pensamos

Naquilo que já fomos,

E há só noite lá fora.

Cada dia sem gozo não foi teu

Cada dia sem gozo não foi teu

Foi só durares nele. Quanto vivas

Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:

Basta o reflexo do sol ido na água

De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas

Seu prazer posto, nenhum dia nega

A natural ventura!

Cada Um

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,

E deseja o destino que deseja;

Nem cumpre o que deseja,

Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros

O Fado nos dispõe, e ali ficamos;

Que a Sorte nos fez postos

Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento

Do que nos coube que de que nos coube.

Cumpramos o que somos.

Nada mais nos é dado.

Como

Como se cada beijo

Fora de despedida,

Minha Cloe, beijemo-nos, amando.

Talvez que já nos toque

No ombro a mão, que chama

À barca que não vem senão vazia;

E que no mesmo feixe

Ata o que mútuos fomos

E a alheia soma universal da vida.

Coroai-me

Coroai-me de rosas,

Coroai-me em verdade,

De rosas —

Rosas que se apagam

Em fronte a apagar-se

Tão cedo!

Coroai-me de rosas

E de folhas breves.

E basta.

Cuidas, Índio

Cuidas, ínvio, que cumpres, apertando

Teus infecundos, trabalhosos dias

Em feixes de hirta lenha,

Sem ilusão a vida.

A tua lenha é só peso que levas

Para onde não tens fogo que te aqueça,

Nem sofrem peso aos ombros

As sombras que seremos.

Para folgar não folgas; e, se leoas,

Antes legues o exemplo, que riquezas,

De como a vida basta

Curta, nem também dura.

Pouco usamos do pouco que mal temos.

A obra cansa, o ouro não é nosso.

De nós a mesma fama

Ri-se, que a não veremos

Quando, acabados pelas Parcas, formos,

Vultos solenes, de repente antigos,

E cada vez mais sombras,

Ao encontro fatal —

O barco escuro no soturno rio,

E os novos abraços da frieza stígia

E o regaço insaciável

Da pátria de Plutão.

Da Lâmpada

Da lâmpada noturna

A chama estremece

E o quarto alto ondeia.

Os deuses concedem

Aos seus calmos crentes

Que nunca lhes trema

A chama da vida

Perturbando o aspecto

Do que está em roda,

Mas firme e esguiada

Como preciosa

E antiga pedra,

Guarde a sua calma

Beleza contínua.

Da Nossa Semelhança

Da nossa semelhança com os deuses

Por nosso bem tiremos

Julgarmo-nos deidades exiladas

E possuindo a Vida

Por uma autoridade primitiva

E coeva de Jove.

Altivamente donos de nós-mesmos,

Usemos a existência

Como a vila que os deuses nos concedem

Para, esquecer o estio.

Não de outra forma mais apoquentada

Nos vale o esforço usarmos

A existência indecisa e afluente

Fatal do rio escuro.

Como acima dos deuses o Destino

É calmo e inexorável,

Acima de nós-mesmos construamos

Um fado voluntário

Que quando nos oprima nós sejamos

Esse que nos oprime,

E quando entremos pela noite dentro

Por nosso pé entremos.

De Apolo

De Apolo o carro rodou pra fora

Da vista. A poeira que levantara

Ficou enchendo de leve névoa

o horizonte;

A flauta calma de Pã, descendo

Seu tom agudo no ar pausado,

Deu mais tristezas ao moribundo

Dia suave.

Cálida e loura, núbil e triste,

Tu, mondadeira dos prados quentes,

Ficas ouvindo, com os teus passos

Mais arrastados,

A flauta antiga do deus durando

Com o ar que cresce pra vento leve,

E sei que pensas na deusa clara

Nada dos mares,

E que vão ondas lá muito adentro

Do que o teu seio sente cansado

Enquanto a flauta sorrindo chora

Palidamente.

De Novo Traz

De novo traz as aparentes novas

Flores o verão novo, e novamente

Verdesce a cor antiga

Das folhas redivivas.

Não mais, não mais dele o infecundo abismo,

Que mudo sorve o que mal somos, torna

À clara luz superna

A presença vivida.

Não mais; e a prole a que, pensando, dera

A vida da razão, em vão o chama,

Que as nove chaves fecham,

Da Estige irreversível.

O que foi como um deus entre os que cantam,

O que do Olimpo as vozes, que chamavam,

'Scutando ouviu, e, ouvindo,

Entendeu, hoje é nada.

Tecei embora as, que teceis, Grinaldas.

Quem coroais, não coroando a ele?

Votivas as deponde,

Fúnebres sem ter culto.

Fique, porém, livre da leiva e do Orco,

A fama; e tu, que Ulisses erigira,

Tu, em teus sete montes,

Orgulha-te materna,

Igual, desde ele às sete que contendem

Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,

Ou heptápila Tebas

Ogígia mãe de Píndaro.

Deixemos, Lídia

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

Mais flores do que Flora pelos campos,

Nem dá de Apolo ao carro

Outro curso que Apolo.

Contemplação estéril e longínqua

Das coisas próximas, deixemos que ela

Olhe até não ver nada

Com seus cansados olhos.

Vê como Ceres é a mesma sempre

E como os louros campos intumesce

E os cala prás avenas

Dos agrados de Pã.

Vê como com seu jeito sempre antigo

Aprendido no orige azul dos deuses,

As ninfas não sossegam

Na sua dança eterna.

E como as heniadríades constantes

Murmuram pelos rumos das florestas

E atrasam o deus Pã.

Na atenção à sua flauta.

Não de outro modo mais divino ou menos

Deve aprazer-nos conduzir a vida,

Quer sob o ouro de Apolo

Ou a prata de Diana.

Quer troe Júpiter nos céus toldados.

Quer apedreje com as suas ondas

Netuno as planas praias

E os erguidos rochedos.

Do mesmo modo a vida é sempre a mesma.

Nós não vemos as Parcas acabarem-nos.

Por isso as esqueçamos

Como se não houvessem.

Colhendo flores ou ouvindo as fontes

A vida passa como se temêssemos.

Não nos vale pensarmos

No futuro sabido

Que aos nossos olhos tirará Apolo

E nos porá longe de Ceres e onde

Nenhum Pã cace à flauta

Nenhuma branca ninfa.

Só as horas serenas reservando

Por nossas, companheiros na malícia

De ir imitando os deuses

Até sentir-lhe a calma.

Venha depois com as suas cãs caídas

A velhice, que os deuses concederam

Que esta hora por ser sua

Não sofra de Saturno

Mas seja o templo onde sejamos deuses

Inda que apenas, Lídia, pra nós próprios

Nem precisam de crentes

Os que de si o foram.

Dia Após Dia

Dia após dia a mesma vida é a mesma.

O que decorre, Lídia,

No que nós somos como em que não somos

Igualmente decorre.

Colhido, o fruto deperece; e cai

Nunca sendo colhido.

Igual é o fado, quer o procuremos,

Quer o 'speremos. Sorte

Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa

Forma alheio e invencível.

Do que Quero

Do que quero renego, se o querê-lo

Me pesa na vontade. Nada que haja

Vale que lhe concedamos

Uma atenção que doa.

Meu balde exponho à chuva, por ter água.

Minha vontade, assim, ao mundo exponho,

Recebo o que me é dado,

E o que falta não quero.

O que me é dado quero

Depois de dado, grato.

Nem quero mais que o dado

Ou que o tido desejo.

Domina ou Cala

Domina ou cala. Não te percas, dando

Aquilo que não tens.

Que vale o César que serias? Goza

Bastar-te o pouco que és.

Melhor te acolhe a vil choupana dada

Que o palácio devido.

Estás só. Ninguém o sabe.

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.

Mas finge sem fingimento.

Nada 'speres que em ti já não exista,

Cada um consigo é triste.

Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,

Sorte se a sorte é dada.

Este Seu Escasso Campo

Este, seu ‘scasso campo ora lavrando,

Ora solene, olhando-o com a vista

De quem a um filho olha, goza incerto

A não-pensada vida.

Das fingidas fronteiras a mudança

O arado lhe não tolhe, nem o empece

Per que concílios se o destino rege

Dos povos pacientes.

Pouco mais no presente do futuro

Que as ervas que arrancou, seguro vive

A antiga vida que não torna, e fica,

Filhos, diversa e sua.

É tão Suave

É tão suave a fuga deste dia,

Lídia, que não parece, que vivemos.

Sem dúvida que os deuses

Nos são gratos esta hora,

Em paga nobre desta fé que temos

Na exilada verdade dos seus corpos

Nos dão o alto prêmio

De nos deixarem ser

Convivas lúcidos da sua calma,

Herdeiros um momento do seu jeito

De viver toda a vida

Dentro dum só momento,

Dum só momento, Lídia, em que afastados

Das terrenas angústias recebemos

Olímpicas delícias

Dentro das nossas almas.

E um só momento nos sentimos deuses

Imortais pela calma que vestimos

E a altiva indiferença

Às coisas passageiras

Como quem guarda a c'roa da vitória

Estes fanados louros de um só dia

Guardemos para termos,

No futuro enrugado,

Perene à nossa vista a certa prova

De que um momento os deuses nos amaram

E nos deram uma hora

Não nossa, mas do Olimpo.

Feliz Aquele

Feliz aquele a quem a vida grata

Concedeu que dos deuses se lembrasse

E visse como eles

Estas terrenas coisas onde mora

Um reflexo mortal da imortal vida.

Feliz, que quando a hora tributária

Transpor seu átrio por que a Parca corte

O fio fiado até ao fim,

Gozar poderá o alto prêmio

De errar no Averno grato abrigo

Da convivência.

Mas aquele que quer Cristo antepor

Aos mais antigos Deuses que no Olimpo

Seguiram a Saturno —

O seu blasfemo ser abandonado

Na fria expiação — até que os Deuses

De quem se esqueceu deles se recordem —

Erra, sombra inquieta, incertamente,

Nem a viúva lhe põe na boca

O óbolo a Caronte grato,

E sobre o seu corpo insepulto

Não deita terra o viandante.

Felizes

Felizes, cujos corpos sob as árvores

Jazem na úmida terra,

Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem

Das doenças da lua.

Verta Eolo a caverna inteira sobre

O orbe esfarrapado,

Lance Netuno, em cheias mãos, ao alto

As ondas estoirando.

Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro

Que passa, finda a tarde,

Sob a árvore onde jaz quem foi a sombra

Imperfeita de um deus,

Não sabe que os seus passos vão cobrindo

O que podia ser,

Se a vida fosse sempre vida, a glória

De uma beleza eterna.

Flores

Flores que colho, ou deixo,

Vosso destino é o mesmo.

Via que sigo, chegas

Não sei aonde eu chego.

Nada somos que valha,

Somo-lo mais que em vão.

Frutos

Frutos, dão-os as árvores que vivem,

Não a iludida mente, que só se orna

Das flores lívidas

Do íntimo abismo.

Quantos reinos nos seres e nas cousas

Te não talhaste imaginário! Quantos,

Com a charrua,

Sonhos, cidades!

Ah, não consegues contra o adverso muito

Criar mais que propósitos frustrados!

Abdica e sê

Rei de ti mesmo.

Gozo Sonhado

Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.

Nós o que nos supomos nos fazemos,

Se com atenta mente

Resistirmos em crê-lo.

Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,

Nos seres e no fado me consumo.

Para mim crio tanto

Quanto para mim crio.

Fora de mim, alheio ao em que penso,

O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro

Segundo o âmbito breve

Do que de meu me é dado.

Inglória

Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.

Quantos, se pensam, não se reconhecem

Os que se conheceram!

A cada hora se muda não só a hora

Mas o que se crê nela, e a vida passa

Entre viver e ser.

Já Sobre a Fronte

Já sobre a fronte vã se me acinzenta

O cabelo do jovem que perdi.

Meus olhos brilham menos.

Já não tem jus a beijos minha boca.

Se me ainda amas, por amor não ames:

Traíras-me comigo.

Lenta, Descansa

Lenta, descansa a onda que a maré deixa.

Pesada cede. Tudo é sossegado.

Só o que é de homem se ouve.

Cresce a vinda da lua.

Nesta hora, Lídia ou Neera Ou Cloe,

Qualquer de vós me é estranha, que me inclino

Para o segredo dito

Pelo silêncio incerto.

Tomo nas mãos, como caveira, ou chave

De supérfluo sepulcro, o meu destino,

E ignaro o aborreço

Sem coração que o sinta.

Lídia

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros

Onde que quer que estejamos.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros

Onde quer que moremos, Tudo é alheio

Nem fala língua nossa.

Façamos de nós mesmos o retiro

Onde esconder-nos, tímidos do insulto

Do tumulto do mundo.

Que quer o amor mais que não ser dos outros?

Como um segredo dito nos mistérios,

Seja sacro por nosso.

Melhor Destino

Melhor destino que o de conhecer-se

Não frui quem mente frui. Antes, sabendo,

Ser nada, que ignorando:

Nada dentro de nada.

Se não houver em mim poder que vença

As Parcas três e as moles do futuro,

Já me dêem os deuses o poder de sabê-lo;

E a beleza, incriável por meu sestro,

Eu goze externa e dada, repetida

Em meus passivos olhos,

Lagos que a morte seca.

Mestre

Mestre, são plácidas

Todas as horas

Que nós perdemos,

Se no perdê-las,

Qual numa jarra,

Nós pomos flores.

Não há tristezas

Nem alegrias

Na nossa vida.

Assim saibamos,

Sábios incautos,

Não a viver,

Mas decorrê-la,

Tranqüilos, plácidos,

Lendo as crianças

Por nossas mestras,

E os olhos cheios

De Natureza ...

À beira-rio,

À beira-estrada,

Conforme calha,

Sempre no mesmo

Leve descanso

De estar vivendo.

O tempo passa,

Não nos diz nada.

Envelhecemos.

Saibamos, quase

Maliciosos,

Sentir-nos ir.

Não vale a pena

Fazer um gesto.

Não se resiste

Ao deus atroz

Que os próprios filhos

Devora sempre.

Colhamos flores.

Molhemos leves

As nossas mãos

Nos rios calmos,

Para aprendermos

Calma também.

Girassóis sempre

Fitando o sol,

Da vida iremos

Tranqüilos,tendo

Nem o remorso

De ter vivido.

Meu Gesto

Meu gesto que destrói

A mole das formigas,

Tomá-lo-ão elas por de um ser divino;

Mas eu não sou divino para mim.

Assim talvez os deuses

Para si o não sejam,

E só de serem do que nós maiores

Tirem o serem deuses para nós.

Seja qual for o certo,

Mesmo para com esses

Que cremos serem deuses, não sejamos

Inteiros numa fé talvez sem causa.

Nada Fica

Nada fica de nada. Nada somos.

Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos

Da irrespirável treva que nos pese

Da humilde terra imposta,

Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —

Tudo tem cova sua. Se nós, carnes

A que um íntimo sol dá sangue, temos

Poente, por que não elas?

Somos contos contando contos, nada.

Não a Ti

Não a Ti, Cristo, odeio ou te não quero.

Em ti como nos outros creio deuses mais velhos.

Só te tenho por não mais nem menos

Do que eles, mas mais novo apenas.

Odeio-os sim, e a esses com calma aborreço,

Que te querem acima dos outros teus iguais deuses.

Quero-te onde tu stás, nem mais alto

Nem mais baixo que eles, tu apenas.

Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia

Como tu, um a mais no Panteão e no culto,

Nada mais, nem mais alto nem mais puro

Porque para tudo havia deuses, menos tu.

Cura tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a vida

É múltipla e todos os dias são diferentes dos outros,

E só sendo múltiplos como eles

'Staremos com a verdade e sós.

Não a Ti, Cristo

Não a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo

Que aos outros deuses que te precederam

Na memória dos homens.

Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Panteão faltavas. Pois que vieste

No Panteão o teu lugar ocupa,

Mas cuida não procures

Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre

A 'steril dor da humanidade antiga

Sim, nova pulcritude

Trouxe ao antigo Panteão incerto.

Mas que os teus crentes te não ergam sobre

outros, antigos deuses que dataram

Por filhos de Saturno

De mais perto da origem igual das coisas.

E melhores memórias recolheram

Do primitivo caos e da Noite

Onde os deuses não são

Mais que as estrelas súbditas do Fado.

Tu não és mais que um deus a mais no eterno

Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.

Panteão que preside

À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,

Tua sombria forma dolorida

Trouxe algo que faltava

Ao número dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,

Ou pela triste terra se quiseres

Vai enxugar o pranto

Dos humanos que sofrem.

Não venham, porém, 'stultos teus cultores

Em teu nome vedar o eterno culto

Das presenças maiores

Ou parceiras da tua.

A esses, sim, do âmago eu odeio

Do crente peito, e a esses eu não sigo,

Supersticiosos leigos

Na ciência dos deuses.

Ah, aumentai, não combatendo nunca.

Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando

Cada vez maior força

P'lo número maior.

Basta os males que o Fado as Parcas fez

Por seu intuito natural fazerem.

Nós homens nos façamos

Unidos pelos deuses.

Não Canto

Não canto a noite porque no meu canto

O sol que canto acabara em noite.

Não ignoro o que esqueço.

Canto por esquecê-lo.

Pudesse eu suspender, inda que em sonho,

O Apolíneo curso, e conhecer-me,

Inda que louco, gêmeo

De uma hora imperecível!

Não Consentem

Não consentem os deuses mais que a vida.

Tudo pois refusemos, que nos alce

A irrespiráveis píncaros,

Perenes sem ter flores.

Só de aceitar tenhamos a ciência,

E, enquanto bate o sangue em nossas fontes,

Nem se engelha conosco

O mesmo amor, duremos,

Como vidros, às luzes transparentes

E deixando escorrer a chuva triste,

Só mornos ao sol quente,

E refletindo um pouco.

Não Queiras

Não queiras, Lídia, edificar no spaço

Que figuras futuro, ou prometer-te

Amanhã. Cumpre-te hoje, não 'sperando.

Tu mesma és tua vida.

Não te destines, que não és futura.

Quem sabe se, entre a taça que esvazias,

E ela de novo enchida, não te a sorte

Interpõe o abismo?

Não Quero

Não quero as oferendas

Com que fingis, sinceros

Dar-me os dons que me dais.

Dais-me o que perderei,

Chorando-o, duas vezes,

Por vosso e meu, perdido.

Antes mo prometais

Sem mo dardes, que a perda

Será mais na 'sperança

Que na recordação.

Não terei mais desgosto

Que o contínuo da vida,

Vendo que com os dias

Tarda o que 'spera, e é nada.

Não Quero

Não quero, Cloe, teu amor, que oprime

Porque me exige amor. Quero ser livre.

A 'sperança é um dever do sentimento.

Não Quero

Não quero recordar nem conhecer-me.

Somos demais se olhamos em quem somos.

Ignorar que vivemos

Cumpre bastante a vida.

Tanto quanto vivemos, vive a hora

Em que vivemos, igualmente morta

Quando passa conosco,

Que passamos com ela.

Se sabê-lo não serve de sabê-lo

(Pois sem poder que vale conhecermos?)

Melhor vida é a vida

Que dura sem medir-se.

Não Só Vinho

Não só vinho, mas nele o olvido, deito

Na taça: serei ledo, porque a dita

É ignara. Quem, lembrando

Ou prevendo, sorrira?

Dos brutos, não a vida, senão a alma,

Consigamos, pensando; recolhidos

No impalpável destino

Que não 'spera nem lembra.

Com mão mortal elevo à mortal boca

Em frágil taça o passageiro vinho,

Baços os olhos feitos

Para deixar de ver.

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Nos limita e oprime; quem nos ama

Não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido

De afetos, tenha a fria liberdade

Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada

É livre; quem não tem, e não deseja,

Homem, é igual aos deuses.

Não Sei

Não sei de quem recordo meu passado

Que outrem fui quando o fui, nem me conheço

Como sentindo com minha alma aquela

Alma que a sentir lembro.

De dia a outro nos desamparamos.

Nada de verdadeiro a nós nos une

Somos quem somos, e quem fomos foi

Coisa vista por dentro.

Não Sei se é Amor que Tens

Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,

O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.

Já que o não sou por tempo,

Seja eu jovem por erro.

Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.

Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva

É verdadeira. Aceito,

Cerro olhos: é bastante.

Que mais quero?

Não Tenhas

Não tenhas nada nas mãos

Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem

Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos

Nada te cairá.

Que trono te querem dar

Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem

Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem

Da estatura da sombra

Que serás quando fores

Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,

Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica

E rei de ti próprio.

Nem da Erva

Nem da serva humilde se o Destino esquece.

Saiba a lei o que vive.

De sua natureza murcham rosas

E prazeres se acabam.

Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?

Nem nós os conhecemos.

Negue-me

Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,

Que eu, 'stóico sem dureza,

Na sentença gravada do Destino

Quero gozar as letras.

Ninguém a Outro Ama

Ninguém a outro ama, senão que ama

O que de si há nele, ou é suposto.

Nada te pese que não te amem. Sentem-te

Quem és, e és estrangeiro.

Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.

Firme contigo, sofrerás avaro

De penas.

Ninguém

Ninguém, na vasta selva virgem

Do mundo inumerável, finalmente

Vê o Deus que conhece.

Só o que a brisa traz se ouve na brisa

O que pensamos, seja amor ou deuses,

Passa, porque passamos.

No Breve Número

No breve número de doze meses

O ano passa, e breves são os anos,

Poucos a vida dura.

Que são doze ou sessenta na floresta

Dos números, e quanto pouco falta

Para o fim do futuro!

Dois terços já, tão rápido, do curso

Que me é imposto correr descendo, passo.

Apresso, e breve acabo.

Dado em declive deixo, e invito apresso

O moribundo passo.

No Ciclo Eterno

No ciclo eterno das mudáveis coisas

Novo inverno após novo outono volve

À diferente terra

Com a mesma maneira.

Porém a mim nem me acha diferente

Nem diferente deixa-me, fechado

Na clausura maligna

Da índole indecisa.

Presa da pálida fatalidade

De não mudar-me, me infiel renovo

Aos propósitos mudos

Morituros e infindos.

No Magno Dia

No magno dia até os sons são claros.

Pelo repouso do amplo campo tardam.

Múrmura, a brisa cala.

Quisera, como os sons, viver das coisas

Mas não ser delas, conseqüência alada

Em que o real vai longe.

No Mundo

No mundo, Só comigo, me deixaram

Os deuses que dispõem.

Não posso contra eles: o que deram

Aceito sem mais nada.

Assim, o trigo baixa ao vento, e, quando

O vento cessa, ergue-se.

Nos Altos Ramos

Nos altos ramos de árvores frondosas

O vento faz um rumor frio e alto,

Nesta floresta, em este som me perco

E sozinho medito.

Assim no mundo, acima do que sinto,

Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma,

E nada tem sentido — nem a alma

Com que penso sozinho.

Nunca

Nunca a alheia vontade, inda que grata,

Cumpras por própria.

Manda no que fazes,

Nem de ti mesmo servo.

Ninguém te dá quem és.

Nada te mude.

Teu íntimo destino involuntário

Cumpre alto.

teu filho.

Ouvi contar que outrora

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia