Memórias Póstumas de Brás Cubas

 

 

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS:

ANÁLISE DE UMA REALIDADE DINÂMICA·

Publicado na REVISTA CES 2004

Darlan de Oliveira Lula··

Maria Elizabeth Sacchetto···

Marcos Rogério Cordeiro Fernandes····

 

RESUMO:

Apresentação da feição realista dos escritos machadianos levando-se em conta a peculiaridade da sua narrativa; análise dialógica e social de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

PALAVRAS-CHAVE: literatura brasileira, linguagem anti-realista, realismo dinâmico

 

ABSTRACT: Presentation of the realistic face of Machado de Assis' texts by considering the peculiarity of his narrative; dialogical and social analysis of the novel Memórias Póstumas de Brás Cubas.

KEY WORDS: Brazilian literature, anti-realistic language, dynamic realism.

 

 

 

 

 

 

 

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS:

ANÁLISE DE UMA REALIDADE DINÂMICA

 


Ao se propor uma análise em torno da obra de Machado de Assis, devemos levar em conta todo um aparato analítico que já se encontra a nossa disposição a respeito desse escritor e que vem crescendo a cada geração de críticos literários. O que pretendemos demonstrar, a partir de sua obra, é a feição caracteristicamente realista de seus escritos, um realismo peculiar a partir do qual uma construção formal elaborada volta-se para uma análise da sociedade brasileira.

Temos a noção que Machado não se limitou às linhas dominantes, à moda literária vigente em sua época. O que fez o escritor se diferenciar dos outros de seu tempo? Estudos indicam a influência dos romancistas britânicos do século XVIII sobre o brasileiro, mas o nome que mais nos chamou a atenção foi o de Laurence Sterne[*], pela conduta característica de sua narrativa em A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy que influenciou na solução formal de Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro que será analisado neste capítulo[†].

No texto introdutório “Ao leitor”, já avistamos uma referência explícita a Sterne:

 

Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo.

 

A influência de Sterne na obra do autor das MPBC não é baseada somente nessa afirmação, mas, principalmente, na semelhança de certos recursos narrativos presentes nos dois livros, pois ambos saltam de um assunto para o outro, do particular para o geral, do abstrato para o concreto e vice-versa, do real para o imaginário e deste para o onírico etc. Tudo isso depende da desenvoltura com que o narrador trata os assuntos. Nas duas narrativas, “a forma livre” é adotada, tendo como fundamento os desvios constantes. A natureza digressiva do que está sendo narrado é a matéria mesma de Tristram Shandy:

               Pois nesta longa digressão a que fui acidentalmente levado, como em todas as minhas digressões (com exceção de uma só), há um toque de mestre na proficiência digressiva. (...)

               Graças a esse dispositivo, a maquinaria de minha obra é de uma espécie única, dois movimentos contrários são nelas introduzidos e reconciliados, movimentos que antes se julgava estarem em discrepância mútua. Numa só palavra, minha obra é digressiva, mas progressiva também, - isso ao mesmo tempo. (...)

               As digressões são incontestavelmente a luz do sol; são a vida, a alma da leitura; - retirai-as deste livro, por exemplo, - e será melhor se tirardes o livro juntamente com ela. (Tristram Shandy, pp.105-106)

 

            As digressões, que são uma conseqüência da forma livre, é a “alma da leitura” deste livro. Existem até capítulos em que o autor nos diz como se operam esses movimentos digressivos através de “uma linha razoavelmente reta”, mas que, na verdade, possui curvas assinaladas, curvas denteadas, curvas em forma de balão, enfim, cabriolas digressivas que confirmam o seu passeio ao ar livre diante do método narrativo[‡]:

Ao fazer isso, Sterne, deliberadamente, expunha sob os olhos do público leitor os bastidores da sua oficina, adensando ainda mais esse fato com a utilização de artifícios tipográficos a que ele recorre com o propósito de desmistificar a ilusão ficcional pela ênfase na própria materialidade do livro, como o caso de intensificar a morte de Yorick através de uma folha toda em preto[§], ou construindo capítulos com as páginas em branco[**]. Tudo isso vem pontuado por uma conversa permanente com o leitor e pelo respeito por suas considerações:

O respeito mais verdadeiro que podeis mostrar pelo entendimento do leitor será dividir amigavelmente a tarefa com ele, deixando-o imaginar, por sua vez, tanto quanto imaginais vós mesmos. (Tristram Shandy, p.136)

 

            Os leitores são trazidos para dentro do próprio texto e nele ouvem a si próprios:

               

- Como pôde a senhora mostrar-se tão desatenta ao ler o último capítulo? Nele eu vos disse que minha mãe não era uma papista. - Papista! O senhor absolutamente não me disse isso. Senhora, peço-vos licença para repetir outra vez que vos disse tal coisa tão claramente quanto as palavras, por inferência direta, o poderiam dizer. - Então, senhor, devo ter pulado a página. - Não, senhora - não perdestes uma só palavra. - Então devo ter pegado no sono, senhor. - Meu orgulho, senhora, não vos permite semelhante refúgio. - Então declaro que nada sei do assunto. - Essa, senhora, é exatamente a falta de que vos acuso; e, à guisa de punição por ela, insisto em que volteis imediatamente atrás, isto é, tão logo chegueis ao próximo ponto final, leiais o capítulo todo novamente. (Tristram Shandy, p.94)

 

 

            Às vezes, isso não se dá de modo tão visível. Para se ter uma idéia melhor sobre esse assunto, devemos entender alguns pormenores a respeito do leitor. Existem vários tipos de leitores, mas o que nos interessa agora é o conceito de leitor implícito, porque ele não tem existência real (como é o caso do exemplo da senhora - leitora - citado aqui). Esse tipo de leitor materializa o conjunto das preorientações que um texto ficcional oferece, como condições de recepção, a seus leitores possíveis. A concepção do leitor implícito designa uma construção textual que antecipa a presença do receptor, descrevendo “um processo de transferência pelo qual as estruturas do texto se traduzem nas experiências do leitor através dos atos de imaginação;”[††] por isso, o recurso narrativo de se utilizar o leitor implícito torna-se importante, porque ele dará pistas ao leitor real e tentará conduzi-lo para uma compreensão e interpretação adequadas da obra.

            A figura desse leitor é a confirmação de mais uma das muitas vozes contidas no romance. Isso cria uma polifonia sugerida pela técnica narrativa do autor de se intercalar estilos[‡‡].

            Esse leitor, nas MPBC, fica totalmente à mercê do narrador que utiliza uma técnica de sacudir o ponto principal diante do seu nariz, mantendo-o também tão entretido e perplexo com outras coisas que, provavelmente, não enxergará o ponto sugerido e sugestivo:

               A minha idéia, depois de tantas cabriolas, constituíra-se idéia fixa. Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. (...)

               Era fixa a minha idéia, fixa como... Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a Lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a finada dieta germânica. Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. (MPBC, cap. IV, os grifos são meus)

 

            Atente-se para o fato de o narrador desviar o foco narrativo e, ainda por cima, oferece dicas falsas ao leitor, uma vez que a lua não é fixa, pois se move; as pirâmides do Egito não são fixas, pois desgastam-se com o tempo e nem mesmo a dieta germânica é fixa, sendo “finada”. Utilizando-se constantemente das digressões, assim como em Tristram Shandy, o narrador, após pedir ao leitor para escolher a melhor comparação que, como vimos, é uma pista falsa, ainda o leva para outro caminho que o distancia daquele da “idéia fixa” tida por ele: o caminho da composição da narrativa.

            Vejamos outro exemplo da utilização de torneios digressivos à maneira de Sterne:

 

...este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem... (MPBC, cap.LXXI)

 

            Percebemos que há aí uma teoria esboçada do método utilizado pelo narrador para contar as suas memórias, equiparando-se àquele capítulo do Tristram Shandy em que se operam movimentos digressivos através de “uma linha razoavelmente reta.” Temos, então, um narrador que subverte o tempo, antecipa acontecimentos, comprime lapsos enormes em uma página, narra minutos em capítulos inteiros, cita outros autores (às vezes sem fidelidade total), dá titulos metanarrativos a capítulos, cria suspense, engana o leitor ao afirmar o contrário do que realiza e confessa dizendo “que isto de método, sendo, como é, uma cousa indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta.”[§§]

            Essas são demonstrações não apenas de recursos para desviar a atenção do leitor do assunto principal, mas também se constituem um artifício literário, uma técnica narrativa, diferente das que se usavam àquela época. Machado acabava fugindo das normas estéticas vigentes, até mesmo criticando e satirizando o modo de construção textual do seu tempo:

 

Vim... Mas não; não alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo papel, com grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e nós não somos um público in-folio, mas in-12, pouco texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente vinhetas... Não, não alonguemos o capítulo (MPBC, cap.XXII).

 

            Isso fica ainda mais marcado por intermédio de um conto seu, “Miss Dollar”[***], no qual constrói uma tipologia do leitor (leitor implícito) segundo o gosto estético da época, dirigindo-se a ele dizendo que, se é rapaz e dado ao gênio melancólico, “deve deliciar-se com a leitura dos sonetos de Camões ou os Cantos de Gonçalves Dias.” Notemos o gosto literário de tal leitor, que fica caracterizado como aquele dado à leitura dos românticos.

            Se não é suscetível a estes devaneios e melancolias, o leitor imaginará uma Miss Dollar totalmente diferente da outra, sendo “amiga da boa mesa e do bom copo,” preferindo “um quarto de carneiro a uma página de Longfellow, cousa naturalíssima quando o estômago reclama, e nunca chegará a compreender a poesia do pôr-do-sol.” Este leitor já prefere uma Miss Dollar mais afeita aos temperamentos biológicos e fisiológicos, caracterizando-se como o que prefere os naturalistas.

            Mas, se já tiver passado a segunda mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso, o leitor já não terá esses mesmos sentimentos, pois, para ele, a Miss Dollar seria uma inglesa de cinqüenta anos, “dotada com algumas mil libras esterlinas, e que, aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever um romance, realizasse um romance verdadeiro, casando com o leitor aludido.” Essa situação sugere uma temática de casamento por interesse, típica do enredo realista.

            Machado, ao final, diz que essas não são leituras exatas para o seu conto, pois “a Miss Dollar do romance não é a menina romântica, nem a mulher robusta, nem a velha literata,” mas uma cadelinha galga. Assim, ele faz menção ao Romantismo, ao Naturalismo e ao Realismo, descartando leitor por leitor e demonstrando o desgaste de cada uma dessas escolas. Esse exemplo já sugere que o escritor se coloca fora das estéticas dominantes da época, longe dos padrões das escolas mencionadas, promulgando um estilo que percorre todos os outros e os supera.

            Nas MPBC, a idéia sugerida em “Miss Dollar” é mostrada de uma maneira mais latente. A figura do narrador vai demonstrando esse aspecto: ele critica os recursos textuais utilizados e que estavam em voga, mostrando também o que pode ser feito para isso mudar. Através da violação de uma norma do gênero (o de sempre ocultar aos olhos do público o modo de construção da narrativa), o narrador o expõe, demonstrando, dessa forma, como o romance é produzido (neste trecho, podemos observar, assim como em Tristram Shandy, a técnica narrativa utilizada pelo autor, ao se intercalar estilos, confirmando o caráter polifônico do romance):

 

Meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemonium, alma sensível, uma barafunda de cousas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição.  (MPBC, cap.XXXIV)

 

            É assim que chama a atenção do leitor para o fato de ele estar lendo um livro, um artefato literário, alertando-o para a confusão que se opera entre realidade e ficção, uma vez que a obra se recusa a parecer verossímil, destruindo no espírito do leitor a ilusão de a vida romanesca por ele vivida durante o tempo da leitura ter um estatuto de realidade idêntico ao da vida cotidiana. Exemplo maior são os capítulos que, como em Tristram Shandy, enfatizam a materialidade do livro: o capítulo “O velho diálogo de Adão e Eva”, que dá a idéia de o próprio leitor poder preencher as lacunas vazias ao seu gosto e ao seu feitio; ou, até mesmo, o capítulo “De como não fui ministro d’Estado,” que mostra o vazio de discurso por meio de uma página sem nenhum escrito, pois, não sendo nomeado ministro, não se diz nada. Esses e mais alguns exemplos espalhados pelo livro destacam os artifícios tipográficos usados para adensar a ficcionalidade do romance.

            Outro aspecto, reafirmando a nossa proposta de que Machado se coloca fora das estéticas dominantes da época, é a própria idéia de o narrador já dizer no primeiro capítulo que não é “propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”, isto é, só depois de morto é que lhe surgiu a idéia de ser um escritor. Esse recurso de se matar o narrador, deixando entrever a falta de verossimilhança da narrativa, é uma das mais marcantes originalidades de Machado de Assis. A época pedia uma reflexão sobre a função da ficção diante do vazio social nas obras literárias e ele possuía a consciência de que a retórica então predominante fugia à reflexão. Percebeu que, para refletir sobre a ficção (e como conseqüência sobre as decorrências sociais daquele tempo), era preciso “matar” o escritor adequado ao horizonte de expectativas do público da época.[†††] Matando Brás Cubas, ele o coloca fora das estéticas circulantes para inseri-lo em um mundo onde se privilegia a ordenação de raciocínios imaginativos, reflexivos e dinâmicos.

            Cabe-nos, aqui, uma ressalva: se a obra machadiana impede o leitor de confundir realidade e ficção, como o realismo se mostra na obra de Machado? Em primeiro lugar, ele possui um realismo peculiar, e, em segundo lugar, devemos entender que a realidade em Machado é, antes de tudo, uma realidade que se mascara, sendo necessário desdobrá-la em sua obra.

            Olhando por outro lado, a questão de Brás Cubas ser um defunto autor não desmancha a verossimilhança realista, embora a desrespeite. Para termos a veracidade dessa confirmação, faremos o seguinte: a partir da visão do memorialista Brás Cubas, traçaremos o perfil de duas figuras de MPBC, D. Plácida, uma agregada velha, que não tem onde cair morta, encontrando em Brás o protetor, e Cotrim, o cunhado negocista, ex-traficante de escravos.

            Comecemos com D. Plácida, uma mulher pobre que costura, faz doces por ofício, ensina crianças do bairro, tudo indiferentemente e sem descanso, “para comer e não cair,” com o vocábulo “cair” dando a idéia de pedir esmolas, cair em degradações. Segundo Brás Cubas, custou muito a ela aceitar a casa em que ele e Virgília iriam se encontrar furtivamente, pois, sendo devota sincera do casamento e da moralidade familiar, demorou para se conformar a prestar serviços de alcoviteira. Quando, porém, Brás lhe fez “um pecúlio de cinco contos”, dizendo ainda que ela nunca mais deixou de rezar por ele, “todas as noites, diante de uma imagem da Virgem, que tinha no quarto,” acabou-lhe o nojo. O narrador afirma que, depois desse acontecimento, D. Plácida confidenciou-lhe a sua história de vida, falando de seus pretendentes que nunca eram aceitos e que lhe renderam recriminações de sua mãe:

               - Queres ser melhor do que eu? Não sei donde te vêm essas fidúcias de pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja à toa; não se come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Policarpo da venda, coitado... Esperas algum fidalgo, não é? (MPBC, cap.LXXIV).

 

            Já começamos a perceber como Brás Cubas vê a figura de D. Plácida, a figura social que ela representa: uma pessoa que, após ser comprada por algum dinheiro, faz de tudo para agradar quem a beneficiou, até mesmo passar por cima de questões morais e religiosas. E as recriminações da mãe? Não seriam os ecos do pensamento do próprio Brás Cubas, avisando-lhe para ficar onde realmente é o seu lugar, ou seja, casando com uma pessoa de seu próprio meio social, um “coitado” que trabalha em uma “venda” e deixando de “fidúcias de pessoa rica”? Vamos acompanhar agora o próprio dito de Brás Cubas, com ele mesmo, logo depois que D. Plácida lhe confidencia a sua história:

Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de D. Plácida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou D. Plácida. É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: - Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam. - Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia (MPBC, cap.LXXIV).

 

            Podemos perceber a indiferença de Brás diante da situação da pobre senhora, transmitida por essas linhas que se operam de modo complexo, dando-nos a idéia de que as inaceitáveis realidades da pobreza correspondem a um propósito: reproduzir a ordem social que é a desgraça de D. Plácida. Isso resulta em uma espécie de choro seco, a que se acrescenta o gozo que tanta inferioridade proporciona à superioridade do narrador. Razões de ser que seguem as conveniências da camada dominante brasileira, cujo teor indefensável este arranjo literário universaliza ao extremo, pois as relações sociais são figuradas em nível do interesse e quem sempre tem o privilégio é a classe abastada.[‡‡‡] Assim, o homem rico admite sem dificuldade a dimensão funcional da miséria, cuja finalidade na terra, se existe, é de lhe proporcionar vantagens: “o vício é muitas vezes o estrume da virtude.”[§§§]

            Notemos que o método dessa abordagem é de inigualável valor e vai longe: a forma de pobreza em questão sai do âmbito acanhado e intelectualmente segregado e é trazida ao rol da atualidade plena, transformando o procedimento em uma verdadeira traição de classe por parte de Brás Cubas, pois ele mesmo nos conta os seus achaques. Dessa forma, há aí um realismo intensificado, que não possui uma noção mais cotidiana ou doutrinária da verossimilhança, mas que consubstancia uma mediação recíproca das posições sociais, dando à humilde figura de D. Plácida a extraordinária plenitude de referências.[****]

            Partamos agora para a figura do Cotrim, o cunhado negocista. Das qualificações dadas a ele, estão a de comerciante estabelecido, contrabandista de escravos, pai de família extremoso, membro de várias irmandades (associações religiosas e auxiliadoras). Em um capítulo intitulado “O verdadeiro Cotrim”, Brás o define da seguinte forma:

Como era muito seco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com freqüência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando lhe morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação de avareza; verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a óleo (MPBC, cap.CXXIII, os grifos são meus).

 

            O que podemos notar é a elaboração da narrativa a partir de suas contradições e, em vez de aprofundá-las, Brás procura normalizá-las. Daí a sucessão de elogios (ou punhaladas, segundo a perspectiva), que transforma em modelo de virtudes um compêndio dos males do tempo. Em escala de pura retórica, o procedimento afirma a experiência efetiva da classe dominante brasileira, com Brás trabalhando com elogios que incriminam e justificações condenáveis que se encobrem.

A perfídia do retrato explora os vexames próprios ao caso brasileiro. Há uma consistência em sublinhar a estrita normalidade e adequação social da figura, permitindo reconhecer virtudes onde parecia haver fraquezas. Assim, por que não seria econômico um negociante? Como não seria duro um contrabandista de africanos? Escravos perversos e fujões não merecem castigo? Não pode ser que faltem sentimentos pios a um pai que sofre tanto quando lhe morre a filha, sendo ainda mais impossível que o membro de várias confrarias beneficentes seja avaro. O bom senso destes raciocínios acata certa realidade, seguindo o princípio de que as classes dominantes são exemplares por natureza, mas, vista sob outro ângulo, a defesa anterior só condena: o escravismo configura uma infração acintosa aos Direitos do Homem, o castigo físico uma indignidade, o contrabando um ato ilícito, ao passo que as formas de religiosidade só existem como propaganda dessa pessoa diante da sociedade.

Nota-se que o foco não está especificamente em Cotrim, mas no esforço do cunhado Brás para descaracterizar o conjunto e desculpá-lo, merecendo destaque este uso perverso da idéia de condicionamento sociológico: “não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais,” empregada em favor do escravista e não contra o instituto da escravidão. Logo se vê que o mecanismo satírico da passagem está nas desculpas que inculpam, nas atenuantes que agravam, ou, mais genericamente, na função acusatória da defesa que, na verdade, é uma denúncia do acusado e também do defensor. Essa denúncia acaba-se confirmando, mas não dá resultados, pois a dinâmica do episódio liga-se ao ridículo dos comparsas (Brás e Cotrim) tanto quanto à força e à realidade das suas posições que não deixam espaço útil à exigência moral, fazendo com que a mesma mescla de traços que lhes definem o atraso os tornam membros respeitáveis da classe dominante nacional.

            Digamos, portanto, que Brás concede e até detalha as brutalidades do cunhado, mas o faz no afã de explicá-las como parte da ordem, que é esta mesma, e ponto final.

            Dessa forma, o romance não tenta fixar a contradição e, muito menos, a transformação, mas implica uma relação, fazendo com que surja um Brás Cubas inconstante e abocanhador de vantagens da iniqüidade social cujo limite não se patenteia.

            Machado, embora tenha recorrido a uma linguagem que sugere uma feição anti-realista, soube enfocar os aspectos sociais em sua obra como ninguém em sua época, dando uma fundamentação realista a seus escritos.

            A julgar pelos caminhos que percorremos neste ensaio, percebemos que a técnica narrativa empregada na obra de Machado de Assis não era muito conhecida no Brasil, pois se lia muito o realismo francês que influenciou os nossos romantismo e realismo.[††††] Como conseqüência, tínhamos um grande número de escritores que não apresentavam as características do realismo machadiano que se aliava a discursos estilísticos anti-realistas (assim como em seu influenciador Laurence Sterne). Esse procedimento narrativo em primeiro plano e a conseqüente mediação do modo de vida de Brás Cubas dão um resultado surpreendente, assegurando ao romance a coesão e a verossimilhança, caracterizadas em muita observação de realidade e verdadeiros perfis sintéticos do estilo cultural do país. Em outras palavras, fica clara a intenção de sintetizar um tipo representativo da classe dominante brasileira através das relações que lhe são peculiares, dando vida ao protagonista diante do recurso de se trazer à cena um elenco de personagens que em certo plano resumisse a sociedade nacional.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ASSIS, Machado de. Obra completa. 10. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.

 

ISER, Wolfgang. O ato da leitura. São Paulo: Ed. 34, 1996. Vol.1.

 

LULA, Darlan de Oliveira et al. O paradoxo do realismo em Machado de Assis. In: CES REVISTA. Juiz de Fora: Esdeva, 2001. Vol.15.

 

MELLO, Maria Elizabeth Chaves de. Machado de Assis, leitor de Lawrence Sterne. In: JOBIM, José Luis (Org.). A biblioteca de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Topbooks, 2001.

 

NOGUEIRA, Nícea Helena et al. O romance monológico de Laurence Sterne e o romance polifônico de Machado de Assis. In: VERBO DE MINAS. Juiz de Fora: Esdeva, 2001. Vol.3, n.5.

 

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Ed. 34, 2000 (A).

 

______. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Ed. 34, 2000 (B).

 

STERNE, Laurence. A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s.d.

 

 

 

 

 

 

 

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS

Machado de Assis

AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA

LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS

Ao leitor

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e

consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem

leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez.. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na

verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um

Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado.

Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse

conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a

gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor

dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O

melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito

contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria

curioso, mas nimiamente extenso, aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar,

fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Brás Cubas

CAPÍTULO 1

Óbito do Autor

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em

primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento,

duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente

um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito

ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito,

mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi.

Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao

cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava

— uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar

esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: — “Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis

dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a

humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo

isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre

finado.”

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei

à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as

ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo.

Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, minha irmã Sabina,

casada com o Cotrim, — a filha, um lírio-do-vale, — e... Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi

quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu

mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse

rolar pelo chão, convulsa. Nem o meu óbito era coisa altamente dramática... Um solteirão que expira

aos sessenta e quatro anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia. E dado que

sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos

estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção.

— Morto! morto! dizia consigo.

É a imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vôo desde o Ilisso

às ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, — a imaginação dessa senhora também voou

por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil... Deixá-la ir; lá iremos mais tarde;

lá iremos quando eu me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranqüilamente, metodicamente,

ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão

da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um

correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo

ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga

marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me

planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa

e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe

sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.

CAPÍTULO 2

O emplasto

Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no

cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer.

Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X:

decifra-me ou devoro-te.

Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto antihipocondríaco,

destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então

redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei

aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e

tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me

influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e

enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha

a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio,

porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis.

Assim, a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado,

filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.

Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só

devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória

era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.

Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto.

CAPÍTULO 3

Genealogia

Mas, já que falei nos meus dois tios, deixa-me fazer aqui um curto esboço genealógico.

O fundador de minha família foi um certo Damião Cubas, que floresceu na primeira metade do

século XVIII. Era tanoeiro de ofício, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penúria e na

obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o

seu produto por boas e honradas patacas, até que morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado

Luís Cubas. Neste rapaz é que verdadeiramente começa a série de meus avós — dos avós que a minha

família sempre confessou —, porque o Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau

tanoeiro, ao passo que o Luís Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos

particulares do vice-rei conde da Cunha.

Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai, bisneto do

Damião, que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, herói nas jornadas da Africa, em prêmio da

façanha que praticou arrebatando trezentas cubas aos mouros. Meu pai era homem de imaginação;

escapou à tanoaria nas asas de um calembour. Era um bom caráter, meu pai, varão digno e leal como

poucos. Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo?

Releva notar que ele não recorreu à inventiva senão depois de experimentar a falsificação; primeiramente,

entroncou-se na família daquele meu famoso homônimo, o capitão-mor Brás Cubas, que fundou a vila

de São Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de Brás. Opôs-se-lhe,

porém, a família do capitão-mor, e foi então que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas.

Vivem ainda alguns membros da minha família, minha sobrinha Venância, por exemplo, o lírio-dovale,

que é a flor das damas do seu tempo; vive o pai, o Cotrim, um sujeito que...Mas não antecipemos

os sucessos; acabemos de uma vez como nosso emplasto.

CAPÍTULO 4

A idéia fixa

A minha idéia, depois de tantas cabriolas, constituíra-se idéia fixa. Deus te livre, leitor, de uma idéia

fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. Vê o Cavour; foi a idéia fixa da unidade italiana que

o matou. Verdade é que Bismarck não morreu; mas cumpre advertir que a natureza é uma grande

caprichosa e a história uma eterna loureira.

Por exemplo, Suetônio deu-nos um Cláudio, que era um simplório, — ou “uma abóbora” como lhe

chamou Sêneca, e um Tito, que mereceu ser as delícias de Roma. Veio modernamente um professor e

achou meio de demonstrar que dos dois césares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi o “abóbora”

de Sêneca. E tu, madama Lucrécia, flor dos Bórgias, se um poeta te pintou como a Messalina católica,

apareceu um Gregorovius incrédulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a lírio, também

não ficaste pântano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o sábio.

Viva pois a história, a volúvel história que dá para tudo; e, tomando à idéia fixa, direi que é ela a que faz os varões fortes

e os doidos; a idéia móbil, vaga ou furta-cor é a que faz os Cláudios, — fórmula Suetônio.

Era fixa a minha idéia, fixa como... Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a

lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a finada dieta germânica. Veja o leitor a comparação que

melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte

narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores,

seus confrades, e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que este livro é escrito

com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente

filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói,

não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.

Vamos lá; retifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a história com os seus caprichos

de dama elegante. Nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão de

Augsburgo; pela minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéia de que Sua Alteza,

com a mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto aos ingleses o emplasto Brás Cubas. Não

se riam dessa vitória comum da farmácia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira

grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares, que se

hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não poucas vezes lhe sobrevivem? Mal comparando, é como a

arraia-miúda, que se acolhia à sombra do castelo-feudal; caiu este e a arraia ficou. Verdade é que se fez

graúda e castelã... Não, a comparação não presta.

CAPÍTULO 5

Em que aparece a orelha de uma Senhora

Senão quando, estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção, recebi em cheio um

golpe de ar; adoeci logo, e não me tratei. Tinha o emplasto no cérebro; trazia comigo a idéia fixa dos

doidos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e remontar ao céu, como uma águia

imortal, e não é diante de tão excelso espetáculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No

outro dia estava pior; tratei-me enfim, mas incompletamente, sem método, nem cuidado, nem persistência;

tal foi a origem do mal que me trouxe à eternidade. Sabem já que morri numa sexta-feira, dia aziago, e

creio haver provado que foi a minha invenção que me matou. Há demonstrações menos lúcidas e não

menos triunfantes.

Não era impossível, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um século, e a figurar nas folhas

públicas, entre macróbios. Tinha saúde e robustez. Suponha-se que, em vez de estar lançando os alicerces

de uma invenção farmacêutica, tratava de coligir os elementos de uma instituição política, ou de uma

reforma religiosa. Vinha a corrente de ar, que vence em eficácia o cálculo humano, e lá se ia tudo.

Assim corre a sorte dos homens.

Com esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas com certeza mais formosa

entre as contemporâneas suas, a anônima do primeiro capítulo, a tal, cuja imaginação à semelhança das

cegonhas do Ilisso... Tinha então 54 anos, era uma ruína, uma imponente ruína. Imagine o leitor que nos

amamos, ela e eu, muitos anos antes e que um dia, já enfermo, vejo-a assomar à porta da alcova...

CAPÍTULO 6

Chimène, qui l’ eût dit? Rodrigue,qui l’eût cru?

Vejo-a assomar à porta da alcova, pálida, comovida, trajada de preto, e ali ficar durante um minuto,

sem ânimo de entrar ou detida pela presença de um homem que estava comigo. Da cama, onde jazia,

contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto. Havia já dois

anos que nos não víamos, e eu via-a agora não qual era, mas qual fora, quais fôramos ambos, porque um

Ezequias misterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou o sol, sacudi todas as misérias, e este

punhado de pó, que a morte ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que o tempo, que é o

ministro da morte. Nenhuma água de Juventa igualaria ali a simples saudade.

Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da

baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras,

porque entre uma e outra dessas duas ilusões, melhor é a que se gosta sem doer.

Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente expeliu o passado. Talvez eu

exponha ao leitor, em algum canto deste livro, a minha teoria das edições humanas.O que por agora

importa saber é que Virgília — chamava-se Virgília — entrou na alcova, firme, com a gravidade que

lhe davam as roupas e os anos, e veio até o meu leito. O estranho levantou-se e saiu. Era um sujeito, que

me visitava todos os dias para falar do câmbio, da colonização e da necessidade de desenvolver a

viação férrea; nada mais interessante para um moribundo. Saiu; Virgília deixou-se estar de pé; durante

algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dois grandes

namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dois corações

murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados.Virgília

tinha agora a beleza da velhice, um ar austero e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela

última vez, numa festa de São João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora começavam

os cabelos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.

— Anda visitando os defuntos? Disse-lhe eu. — Ora, defuntos! respondeu Virgília com um muxoxo.

E depois de me apertar as mãos: — Ando a ver se ponho os vadios para a rua.

Não tinha a carícia lacrimosa de outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu estava só,

em casa, com um simples enfermeiro; podíamos falar um ao outro, sem perigo.Virgília deu-me longas

notícias de fora, narrando-as com graça, com um certo travo de má língua, que era o sal da palestra; eu,

prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satânico em mofar dele, em persuadir-me que não deixava

nada.

— Que idéias essas! Interrompeu-me Virgília um tanto zangada. — Olhe que eu não volto mais.

Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos.

E vendo o relógio:

— Jesus! são três horas. Vou

me embora

— Já?

— Já; virei amanhã ou depois.

— Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não tem senhoras...

— Sua mana?

— Há de vir cá passar uns dias, mas não pode ser antes de sábado.

Virgília refletiu um instante, levantou os ombros e disse com gravidade:

— Estou velha! Ninguém mais repara em mim. Mas, para cortar dúvidas, virei com o Nhonhô.

Nhonhô era um bacharel, único filho de seu casamento, que, na idade de cinco anos, fora cúmplice

inconsciente de nossos amores. Vieram juntos, dois dias depois, e confesso que, ao vê-los ali, na minha

alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu corresponder logo às palavras afáveis do

rapaz. Virgília adivinhou-me e disse ao filho:

— Nhonhô, não repares nesse grande manhoso que aí está; não quer falar para fazer crer que está à

morte.

Sorriu o filho, eu creio que também sorri, e tudo acabou em pura galhofa, Virgília estava serena e

risonha, tinha o aspecto das vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse

denunciar nada; uma igualdade de palavra e de espírito, uma dominação sobre si mesma, que pareciam

e talvez fossem raras. Como tocássemos, casualmente, nuns amores ilegítimos, meio secretos, meio

divulgados, via-a falar com desdém e um pouco de indignação da mulher de que se tratava, aliás sua

amiga. O filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquela palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo

o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...

Era o meu delírio que começava.

CAPÍTULO 7

O delírio

Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se

o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direito à

narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na

minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim,

que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.

Logo depois, senti-me transformado na Suma Teologica de São Tomás, impressa num volume, e

encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéia esta que me deu ao corpo a mais

completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzandoas

eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de

um defunto.

Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me

ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou

vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem

destino.

— Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos.

Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu, se

é que não fingiu uma dessas coisas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era descendente do

cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dois quadrúpedes:

abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora não se me dá de

confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos

séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos

do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados,

não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma

ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o meu

animal galopava numa planície branca de neve, com uma ou outra montanha de neve, vegetação de

neve, e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei falar,

mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa:

— Onde estamos?

— Já passamos o Éden.

— Bem; paremos na tenda de Abraão.

— Mas se nós caminhamos para trás! redargüiu motejando a minha cavalgadura.

Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta,

e o resultado impalpável. E depois — cogitações de enfermo — dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível

que os séculos, irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas que deviam ser tão seculares como

eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos nossos pés, até que o animal

estacou, e pude olhar mais tranqüilamente em torno de mim. Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura da neve, que

desta vez invadira o próprio céu, até ali azul. Talvez, a espaços, me aparecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando

ao vento as suas largas folhas. O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara

estúpida diante do homem.

Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me

apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das

formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se

no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei

sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se

chamava: curiosidade de delírio.

—Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada,

que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou

a mudez das coisas externas.

Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro flagelo.

— Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar

me da existência.

— Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por

algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a

tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.

Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora

uma pluma. Só então, pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma

contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da

impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas

no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de

força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.

— Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de mútua contemplação.

— Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade que

enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger nem

palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse

rosto indiferente, como o sepulcro E por que Pandora?

— Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?

— Sim; o teu olhar fascina-me.

— Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver

me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-me que era o último som que chegava a

meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita do mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais

alguns anos.

— Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres

devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei

menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos

da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

— Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, se não tu? e,

se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?

— Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O

minuto que vem é forte, jocundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro,

mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A

onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto

melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e

contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu,

leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto

dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o

espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade

que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação

mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la

seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos

do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, — flagelos e delícias, — desde essa

coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e

via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que

baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o

amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas

várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas

vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença,

que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e

rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos,

um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com

a agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, — ou lhe fugia

perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como

um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar

nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, — de um riso descompassado e idiota.

— Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a pena, — talvez monótona — mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava

o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e

digere

me; a coisa é divertida, mas digere-me.

A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a

passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os

Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura.

Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: — “Bem, os séculos vão

passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade.” E

fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranqüilo e

resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de

apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões;

em cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais

tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização,

e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e

Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico,

filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim

na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar,

enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil,

destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os

primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei

de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, — o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal,

que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram

os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro

cobriu tudo, — menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a

diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato

Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...

CAPÍTULO 8

Razão contra Sandice

Já o leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa, e convidava a Sandice a sair, clamando,

e com melhor jus, as palavras de Tartufo:

La maison est à moi, c’est à vous d’en sortir.

Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma,

dificilmente lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se

advertirmos no imenso número de casas que ocupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas,

concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve quase um

distúrbio à porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria entregar a casa, e a dona não cedia da

intenção de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sótão.

— Não, senhora, replicou a Razão, estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada, o

que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar, daí à de visitas e ao resto.

— Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério...

— Que mistério?

— De dois, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.

A Razão pôs-se a rir.

— Hás de ser sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa.

E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas

súplicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a língua de fora, em ar de surriada, e foi andando...

CAPÍTULO 9

Transição

E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em

presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento;

e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente,

nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem

a rigidez do método. Na verdade, era tempo. Que isto de método, sendo, como é, uma coisa indispensável, todavia é melhor

tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do

inspetor de quarteirão. E como a eloqüência, que há uma genuína e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa,

engomada e chocha.Vamos ao dia 20 de outubro.

CAPÍTULO 10

Naquele dia

Naquele dia, a árvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci; recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira

minhota, que se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de fidalgos. Não é impossível que meu pai lhe

ouvisse tal declaração; creio, todavia, que o sentimento paterno é que o induziu a gratificá-la com duas meias dobras.

Lavado e enfaixado, fui desde logo o herói da nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe quadrava

ao sabor. Meu tio João, o antigo oficial de infantaria, achava-me um certo olhar de Bonaparte, coisa que meu pai não pôde

ouvir sem náuseas; meu tio Ildefonso, então simples padre, farejava-me cônego.

— Cônego é o que ele há de ser, e não digo mais por não parecer orgulho; mas não me admiraria nada se Deus o

destinasse a um bispado... É verdade, um bispado; não é coisa impossível. Que diz você, mano Bento?

Meu pai respondia a todos que eu seria o que Deus quisesse; e alçava-me ao ar, como se intentasse mostrar-me à cidade

e ao mundo; perguntava a todos se eu me parecia com ele, se era inteligente, bonito...

Digo essas coisas por alto, segundo as ouvi narrar anos depois; ignoro a mor parte dos pormenores daquele famoso dia.

Sei que a vizinhança veio ou mandou cumprimentar o recém-nascido, e que durante as primeiras semanas muitas foram as

visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha que não trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calção. Se não conto os

mimos, os beijos, as admirações, as bênçãos, é porque, se os contasse, não acabaria mais o capítulo, e é preciso acabá-lo.

Item, não posso dizer nada do meu batizado, porque nada me referiram a tal respeito, a não ser que foi uma das mais

galhardas festas do ano seguinte, 1806; batizei-me na Igreja de São Domingos, uma terça-feira de março, dia claro, luminoso

e puro, sendo padrinhos o coronel Rodrigues de Matos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas famílias do norte e

honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias, outrora derramado na guerra contra Holanda. Cuido que os nomes de

ambos foram das primeiras coisas que aprendi; e certamente os dizia com muita graça, ou revelava algum talento precoce,

porque não havia pessoa estranha diante de quem me não obrigassem a recitá-los.

— Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho.

— Meu padrinho? é o Excelentíssimo Senhor coronel Paulo Vaz Lobo César de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos;

minha madrinha é a Excelentíssima Senhora Dona Maria Luisa de Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos.

— É muito esperto o seu menino, exclamavam os ouvintes.

— Muito esperto, concordava meu pai; e os olhos babavam-lhe de orgulho, e ele espalmava a mão

sobre a minha cabeça, fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si.

Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a natureza,

obrigavam-me cedo a agarrar às cadeiras, pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de pau.

— Só só, nhonhô, só só, dizia-me a mucama. E eu, atraído pelo chocalho de lata, que minha mãe

agitava diante de mim, lá ia para a frente, cai aqui, cai acolá; e andava, provavelmente mal, mas andava,

e fiquei andando.

CAPÍTULO 11

O menino é pai do homem

Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos

são menos matreiros, e, com certeza, as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância. Um poeta dizia que

o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.

Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais

malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava,

porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de

cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu

tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia

um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um

e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo, — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai,

nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!” — Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a

pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste

jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai

tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia

o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.

Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem

a esconder-lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens, isso fui; se não

passei o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras.

Outrossim, afeiçoei-me à contemplação da injustiça humana, inclinei-me a atenuá-la, a explicá-la,

a classificá-la por partes, a entendê-la, não segundo um padrão rígido, mas ao sabor das circunstâncias

e lugares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns preceitos e orações; mas eu

sentia que, mais do que as orações, me governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o espírito,

que a faz viver, para se tomar uma vã fórmula. De manhã, antes do mingau, e de noite, antes da cama,

pedia a Deus que me perdoasse, assim como eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a

noite fazia uma grande maldade, e meu pai, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na cara, e

exclamava a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro!

Sim, meu pai adorava-me. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito coração,

assaz crédula, sinceramente piedosa, — caseira, apesar de bonita, e modesta, apesar de abastada; temente

às trovoadas e ao marido. O marido era na terra o seu deus. Da colaboração dessas duas criaturas

nasceu a minha educação, que, se tinha alguma coisa boa, era no geral viciosa, incompleta, e, em

partes, negativa. Meu tio cônego fazia às vezes alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que ele me dava mais

liberdade do que ensino e mais afeição do que emenda; mas meu pai respondia que aplicava na minha

educação um sistema inteiramente superior ao sistema usado; e por este modo, sem confundir o irmão,

iludia-se a si próprio.

De envolta com a transmissão e a educação, houve ainda o exemplo estranho, o meio doméstico. Vimos os pais;

vejamos os tios. Um deles, o João, era um homem de língua solta, vida galante, conversa picaresca. Desde os onze anos

entrou a admitir-me às anedotas reais ou não, eivadas todas de obscenidade ou imundície. Não me respeitava a adolescência,

como não respeitava a batina do irmão; com a diferença que este fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso. Eu

não; deixava-me estar, sem entender nada, a princípio, depois entendendo e enfim achando-lhe graça. No fim de certo

tempo, quem o procurava era eu; e ele gostava muito de mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em casa, quando lá ia

passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu achá-lo, no fundo da chácara, no lavadouro, a palestrar com as escravas

que batiam roupa; aí é que era um desfiar de anedotas, de ditos, de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguém podia

ouvir, porque o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos

vestidos, umas dentro do tanque, outras fora, inclinadas sobre as peças de roupa, a batê-las, a ensaboá-las, a torcê-las, iam

ouvindo e redargüindo às pilhérias do tio João, e a comentá-las de quando em quando com esta palavra:

— Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo!

Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo, não realçavam um espírito

superior, apenas compensavam um espírito medíocre. Não era homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado

externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna

no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos. Agora, a tantos anos de distância, não estou certo se ele

poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a história do símbolo de Nicéia; mas ninguém,

nas festas cantadas, sabia melhor o número e caso das cortesias que se deviam ao oficiante. Cônego foi a única ambição de

sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na

observância das regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuía algumas virtudes, em que era exemplar, mas carecia

absolutamente da força de as incutir, de as impor aos outros.

Não digo nada de minha tia materna, Dona Emerenciana, e aliás era a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa

diferençava-se grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia, uns dois anos. Outros parentes e

alguns íntimos não merecem a pena de ser citados; não tivemos uma vida comum, mas intermitente, com grandes claros de

separação. O que importa é a expressão geral do meio doméstico, e essa aí fica indicada, — vulgaridade de caracteres, amor

das aparências rutilantes, do arruído, frouxidão da vontade, domínio do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que

nasceu esta flor.

CAPÍTULO 12

Um episódio de 1814

Mas eu não quero passar adiante, sem contar sumariamente um galante episódio de 1814; tinha

nove anos.

Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o esplendor da glória e do poder; era imperador e

granjeara inteiramente a admiração dos homens. Meu pai, que à força de persuadir os outros da nossa

nobreza acabara persuadindo-se a si próprio, nutria contra ele um ódio puramente mental. Era isso

motivo de renhidas contendas em nossa casa, porque meu tio João, não sei se por espírito de classe e

simpatia de oficio, perdoava no déspota o que admirava no general, meu tio padre era inflexível contra

o corso, os outros parentes dividiam-se; daí as controvérsias e as rusgas.

Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão, houve naturalmente grande abalo em nossa casa,

mas nenhum chasco ou remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo público, julgaram mais decoroso o silêncio; alguns

foram além e bateram palmas. A população, cordialmente alegre, não regateou demonstrações de afeto à real família; houve

iluminações, salvas, Te Deum, cortejo e aclamações. Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera

no dia de Santo Antônio; e, francamente, interessava-me mais o espadim do que a queda de Bonaparte. Nunca me esqueceu

esse fenômeno. Nunca mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão. E

notem que eu ouvi muito discurso, quando era vivo, li muita página rumorosa de grandes idéias e maiores palavras, mas não

sei por que, no fundo dos aplausos que me arrancavam da boca, lá ecoava alguma vez este conceito de experimentado:

— Vai-te embora, tu só cuidas do espadim.

Não se contentou a minha família em ter um quinhão anônimo no regozijo público; entendeu

oportuno e indispensável celebrar a destituição do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruído das

aclamações chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou quando menos, de seus ministros. Dito e feito.Veio

abaixo toda a velha prataria, herdada do meu avô Luís Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes

jarras da Índia; matou-se um capado; encomendaram-se às madres da Ajuda as compotas e marmeladas;

lavaram

se, arearam-se, poliram-se as salas, escadas, castiçais, arandelas, as vastas mangas de vidro, todos os

aparelhos do luxo clássico.

Dada a hora, achou-se reunida uma sociedade seleta, o juiz de fora, três ou quatro oficiais militares,

alguns comerciantes e letrados, vários funcionários da administração, uns com suas mulheres e filhas,

outros sem elas, mas todos comungando no desejo de atolar a memória de Bonaparte no papo de um

peru. Não era um jantar, mas um Te Deum, foi o que pouco mais ou menos disse um dos letrados

presentes, o Doutor Vilaça, glosador insigne, que acrescentou aos pratos de casa o acepipe das musas.

Lembra-me, como se fosse ontem, lembra-me de o ver erguer-se, com a sua longa cabeleira de rabicho,

casaca de seda, uma esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote, e, repetido o

mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois tossir, alçar a mão direita, toda fechada, menos o

dedo índice, que apontava para o teto; e, assim posto e composto, devolver o mote glosado. Não fez

uma glosa, mas três; depois jurou aos seus deuses não acabar mais. Pedia um mote, davam-lho, ele

glosava-o prontamente, e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras presentes não

pôde calar a sua grande admiração.

— A senhora diz isso, retorquia modestamente o Vilaça, porque nunca ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do

século, em Lisboa. Aquilo sim! que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no botequim do Nicola, a

glosarmos, no meio de palmas e bravos. Imenso talento o do Bocage! Era o que me dizia, há dias, a Senhora duquesa de

Cadaval...

E estas três palavras últimas, expressas com muita ênfase, produziram em toda a assembléia um

frêmito de admiração e pasmo. Pois esse homem tão dado, tão simples, além de pleitear com poetas,

discreteava com duquesas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contato de tal homem, as damas sentiam-se

superfinas; os varões olhavam-no com respeito, alguns com inveja, não raros com incredulidade. Ele,

entretanto, ia caminho, a acumular adjetivo sobre adjetivo, advérbio sobre advérbio, a desfiar todas as

rimas de tirano e de usurpador. Era à sobremesa; ninguém já pensava em comer. No intervalo das

glosas, corria um burburinho alegre, um palavrear de estômagos satisfeitos; os olhos moles e úmidos,

ou vivos e cálidos, espreguiçavam-se ou saltitavam de uma ponta à outra da mesa, atulhada de doces e

frutas, aqui o ananás em fatias, ali o melão em talhadas, as compoteiras de cristal deixando ver o doce

de coco, finamente ralado, amarelo como uma gema, — ou então o melado escuro e grosso, não longe

do queijo e do cará. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado, um riso de família,

vinha quebrar a gravidade política do banquete. No meio do interesse grande e comum, agitavam-se

também os pequenos e particulares. As moças falavam das modinhas que haviam de cantar ao cravo, e

do minuete e do solo inglês; nem faltava matrona que prometesse bailar um oitavado de compasso, só

para mostrar como folgara nos seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim, dava a outro

notícia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo cartas que recebera de Luanda, uma carta

em que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra carta em que...Trazia-as

justamente na algibeira, mas não as podia ler naquela ocasião. O que afiançava é que podíamos contar,

só nessa viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos.

— Trás... trás... trás... fazia o Vilaça batendo com as mãos uma na outra. O rumor cessava de súbito, como um estacado

de orquestra, e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava longe aconcheava a mão atrás da orelha para não

perder palavra; a mor parte, antes mesmo da glosa, tinha já um meio riso de aplauso, trivial e cândido.

Quanto a mim, lá estava, solitário e deslembrado, a namorar uma certa compota da minha paixão. No fim de cada glosa

ficava muito contente, esperando que fosse a última, mas não era, e a sobremesa continuava intacta. Ninguém se lembrava

de dar a primeira voz. Meu pai, à cabeceira, saboreava a goles extensos a alegria dos convivas, mirava-se todo nos carões

alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se com a familiaridade travada entre os mais distantes espíritos, influxo de um bom

jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota para ele e dele para a compota, como a pedir-lhe que ma servisse;

mas fazia-o em vão. Ele não via nada; via-se a si mesmo. E as glosas sucediam-se, como bátegas d’água, obrigando-me a

recolher o desejo e o pedido. Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz baixa o doce; enfim, bradei, berrei, bati

com os pés. Meu pai, que seria capaz de me dar o sol, se eu lho exigisse, chamou um escravo para me servir o doce; mas era

tarde. A tia Emerenciana arrancara-me da cadeira e entregara-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repelões.

Não foi outro o delito do glosador: retardara a compota e dera causa à minha exclusão. Tanto bastou para que eu

cogitasse uma vingança, qualquer que fosse, mas grande e exemplar, coisa que de alguma maneira o tornasse ridículo. Que

ele era um homem grave o Doutor Vilaça, medido e lento, quarenta e sete anos, casado e pai. Não me contentava o rabo de

papel nem o rabicho da cabeleira; havia de ser coisa pior. Entrei a espreitá-lo, durante o resto da tarde, a segui-lo, na chácara

aonde todos desceram a passear. Vio-o conversando com Dona Eusébia, irmã do sargento-mor Domingues, uma robusta

donzelona, que se não era bonita, também não era feia.

— Estou muito zangada com o senhor, dizia ela.

— Por quê?

— Porque... não sei por quê... porque é a minha sina...creio às vezes que é melhor morrer...

Tinham penetrado numa pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O Vilaça levava nos olhos umas chispas de vinho

e de volúpia.

— Deixe-me, disse ela.

— Ninguém nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéias são essas! Você sabe que eu morrerei também...

que digo?... morro todos os dias, de paixão, de saudades...

Dona Eusébia levou o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memória algum pedaço literário

e achou este, que mais tarde verifiquei ser de uma das óperas do Judeu:

— Não chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.

Disse isto; puxou-a para si; ela resistiu um pouco, mas deixou-se ir; uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve,

um beijo, o mais medroso dos beijos.

— O Doutor Vilaça deu um beijo em Dona Eusébia! bradei eu correndo pela chácara.

Foi um estouro esta minha palavra; a estupefação imobilizou a todos; os olhos espraiavam-se a uma e outra banda;

trocavam-se sorrisos, segredos, à socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando o sereno. Meu pai puxou-me as orelhas,

disfarçadamente, irritado deveras com a indiscrição; mas, no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso, sacudiu-me o nariz,

a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro!

CAPÍTULO 13

Um salto

Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar

cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos.

Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas, e pouco mais,

mui pouco e mui leve. Só era pesada a palmatória, e ainda assim... Ó palmatória, terror dos meus dias

pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro

o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos,

quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu

espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho

mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a

vida, que é a mestra das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste

zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote, lenço na mão,

calva à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos

depois à lição. E fizeste isto durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha

da Rua do Piolho, sem enfadar o mundo com atua mediocridade, até que um dia deste o grande mergulho

nas trevas, e ninguém te chorou, salvo um preto velho, — ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos

da escrita.

Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta página: Ludgero Barata, —

um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse

então era cruel com o pobre homem. Duas, três vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das

calças, — umas largas calças de enfiar —, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta.

Se ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os

últimos nomes: éramos sevandijas, capadócios, malcriados, moleques. — Uns tremiam, outros rosnavam;

o Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.

Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha infância, nunca em toda a minha vida, achei um menino mais gracioso,

inventivo e travesso. Era a flor, e não já da escola, senão de toda a cidade. A mãe, viúva, com alguma coisa de seu, adorava

o filho e trazia-o amimado, asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atrás, um pajem que nos deixava gazear a escola, ir

caçar ninhos de pássaros, ou perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, à toa,

como dois peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do

Espírito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele escolhia sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia,

qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa magnificência nas atitudes, nos meneios. Quem diria que...

Suspendamos a pena; não adiantemos os sucessos. Vamos de um salto a 1822, data da nossa independência política, e do

meu primeiro cativeiro pessoal.

CAPÍTULO 14

Primeiro beijo

Tinha dezessete anos; pungia-me um buçozinho que eu forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram

a minha feição verdadeiramente máscula. Como ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era uma criança com

fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de

botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas

baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo medieval, para dar com eles nas ruas do nosso século. O pior é que o

estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por

compaixão, o transportou para os seus livros.

Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama

inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a

que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na

intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama

espanhola. Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os

rapazes. Era filha de um hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a

opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri, vítima da invasão francesa, ferido, encarcerado,

espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos. Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o

pai, letrado ou hortelão, a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica, e mal chegava a

entender a moral do código. Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade

do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente,

amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, ela morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado

e tísico, — uma pérola.

Via-a, pela primeira vez, no Rossio Grande, na noite das luminárias, logo que constou a declaração da independência,

uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos

os arrebatamentos da juventude. Via-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre,

alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras. —Segue-me, disse ela ao pajem. E eu seguia-a, tão pajem como o outro,

como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaramlhe

“linda Marcela”, lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.

Três dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moças, nos Cajueiros.

Fomos; era em casa de Marcela. O Xavier, com todos os seus tubérculos, presidia ao banquete noturno,

em que eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa. Que gentil que estava a

espanhola! Havia mais uma meia dúzia de mulheres, — todas de partido —, e bonitas, cheias de graça,

mas a espanhola... O entusiasmo, alguns goles de vinho, o gênio imperioso, estouvado, tudo isso me

levou a fazer uma coisa única; à saída, à porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei

a subir as escadas.

— Esqueceu alguma coisa? perguntou Marcela de pé no patamar.

— O lenço.

Ela ia abrir-me caminho para tornar à sala; eu segurei-lhe nas mãos, puxei-a para mim, e dei-lhe um

beijo. Não sei se ela disse alguma coisa, se gritou, se chamou alguém; não sei nada; sei que desci outra

vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ébrio.

CAPÍTULO 15

Marcela

Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno

da paciência, a um tempo manhoso e teimoso. Que, em verdade, há dois meios de granjear a vontade das mulheres: o

violento, como o touro de Europa, e o insinuativo, como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Dânae, três inventos do padre

Zeus, que, por estarem fora da moda, aí ficam trocados no cavalo e no asno. Não direi as traças que urdi, nem as peitas, nem

as alternativas de confiança e temor, nem as esperas baldadas, nem nenhuma outra dessas coisas preliminares. Afirmo-lhes

que o asno foi digno do corcel, — um asno de Sancho, deveras filósofo, que me levou à casa dela, no fim do citado período;

apeei-me, bati-lhe na anca e mandei-o pastar.

Primeira comoção da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia ser, na criação bíblica, o efeito do primeiro sol.

Imagina tu esse efeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor. Pois foi a mesma coisa, leitor amigo,

e se alguma vez contaste dezoito anos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.

Teve duas fases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome, que eu de nomes não curo; teve

a fase consular e a fase imperial. Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que ele jamais

acreditasse dividir comigo o governo de Roma; mas, quando a credulidade não pôde resistir à evidência,

o Xavier depôs as insígnias, e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a fase cesariana. Era

meu universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me preciso coligir dinheiro, multiplicá-lo, inventálo.

Primeiro explorei as larguezas de meu pai; ele dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem repreensão,

sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz e que ele o fora também. Mas a tal extremo

chegou o abuso, que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então recorri a

minha mãe, e induzi-a a desviar alguma coisa, que me dava às escondidas. Era pouco; lancei mão de

um recurso último; entrei a sacar sobre a herança de meu pai, a assinar obrigações, que devia resgatar

um dia com usura.

Em verdade, dizia-me Marcela, quando eu lhe levava alguma seda, alguma jóia; em verdade, você

quer brigar comigo... Pois isto é coisa que se faça... um presente tão caro...

E, se era jóia, dizia isto a contemplá-la entre os dedos, a procurar melhor luz, a ensaiá

la em si, e a rir, e a beijar-me com uma reincidência impetuosa e sincera; mas, protestando, derramavalhe

a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vê-la assim. Gostava muito das nossas antigas

dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia obter; Marcela juntava-as todas dentro de uma caixinha

de ferro, cuja chave ninguém nunca jamais soube onde ficava; escondia-a por medo dos escravos. A

casa em que morava, nos Cajueiros, era própria. Eram sólidos e bons os móveis, de jacarandá lavrado,

e todas as demais alfaias, espelhos, jarras, baixela, — uma linda baixela da Índia, que lhe doara um

desembargador. Baixela do diabo, deste-me grandes repelões aos nervos. Disse-o muita vez à própria

dona; não lhe dissimulava o tédio que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de antanho.

Ela ouvia-me e ria, com — expressão cândida, — cândida e outra coisa, que eu nesse tempo não

entendia bem, mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso misto, como devia ter a criatura

que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare com um serafim de Klopstock. Não sei se me

explico. E porque tinha notícia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular mais. Assim foi

que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo colar, que ela vira num joalheiro, retorquiu-me que era

um simples gracejo, que o nosso amor não precisava de tão vulgar estímulo.

— Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste idéia, concluiu ameaçando-me com o dedo.

E logo, súbita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me com elas o rosto, puxou-me a si e

fez um trejeito gracioso, um momo de criança. Depois, reclinada na marquesa, continuou a falar daquilo,

com simplicidade e franqueza. Jamais consentiria que lhe comprassem os afetos. Vendera muita vez as

aparências, mas a realidade, guardava-a para poucos. Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ela

amara deveras, dois anos antes, só a custo conseguia dar-lhe alguma coisa de valor, como me acontecia

a mim; ela só lhe aceitava sem relutância os mimos de escasso preço, como a cruz de ouro, que lhe deu,

uma vez, de festas.

— Esta cruz...

Dizia isto, metendo a mão no seio e tirando uma cruz fina, de ouro, presa a uma fita azul e pendurada

ao colo.

— Mas essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pai que...

Marcela abanou a cabeça com um ar de lástima:

— Não percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te não molestar? Vem cá, chiquito, não

sejas assim desconfiado comigo... Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos

separarmos...

— Não digas isso! bradei eu.

— Tudo cessa! Um dia...

Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as mãos, tomou das minhas, conchegoume

ao seio, e sussurrou-me baixo ao ouvido:

— Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lho com os olhos úmidos. No dia seguinte levei-lhe o

colar que havia recusado.

— Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.

Marcela teve primeiro um silêncio indignado, depois fez um gesto magnífico: tentou atirar o colar à rua. Eu retive-lhe o

braço; pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a jóia. Sorriu e ficou.

Entretanto, pagava-me à farta os sacrifícios; espreitava os meus mais recônditos pensamentos; não

havia desejo a que não acudisse com alma, sem esforço, por uma espécie de lei da consciência e

necessidade do coração. Nunca o desejo era razoável, mas um capricho puro, uma criancice, vê-la trajar

de certo modo, com tais e tais enfeites, este vestido e não aquele, ir a passeio ou outra coisa assim, e ela

cedia a tudo, risonha e palreira.

— Você é das Arábias, dizia-me.

E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediência de encantar.

CAPÍTULO 16

Uma Reflexão Imoral

Ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo uma correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo 14, que

Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia.Viver não é a mesma coisa que morrer; assim o afirmam todos os

joalheiros desse mundo, gente muito vista na gramática. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes

e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer, a qual

é ainda mais obscura do que imoral, porque não se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bela

testa do mundo não fica menos bela, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bela, nem menos amada. Marcela,

por exemplo, que era bem bonita, Marcela amou-me...

CAPÍTULO 17

Do trapézio e outras coisas

...Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que

teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho

juvenil

Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem

sério e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto: — Gatuno, sim, senhor; não é outra coisa um

filho que me faz isto...

Sacou da algibeira os meus títulos de dívida, já resgatados por ele, e sacudiu-mos na cara. — Vês,

peralta? é assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhamos o

dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juízo, ou ficas sem coisa

nenhuma.

Estava furioso, mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada opus à ordem da viagem,

como de outras vezes fizera; ruminava a idéia de levar Marcela comigo. Fui ter com ela; expus-lhe a

crise e fiz-lhe a proposta. Marcela ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo; como insistisse,

disse-me que ficava, que não podia ir para a Europa.

— Por que não?

— Não posso, disse ela com ar dolente; não posso ir respirar aqueles ares, enquanto me lembrar de

meu pobre pai, morto por Napoleão...

— Qual deles: o hortelão ou o advogado?

Marcela franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor, e

mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lho a mucama, numa salva de prata, que fazia parte dos meus

onze contos. Marcela ofereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar com a mão no copo

e na salva; entornou-lhe o líquido no regaço, a preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora.

Ficando a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ela era um monstro, que jamais

me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe

muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcela deixara-se estar sentada, a estalar

as unhas nos dentes, fria como um pedaço de mármore. Tive ímpetos de a estrangular; de a humilhar ao

menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazê-lo; mas a ação trocou-se noutra; fui eu que me atirei aos

pés dela, contrito e súplice; beijei-lhos, recordei aqueles meses da nossa felicidade solitária, repeti-lhe

os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos dela, apertando-lhe

muito as mãos; ofegante desvairado, pedi-lhe com lágrimas que me não desamparasse... Marcela esteve

alguns instantes a olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um ar

enfastiado:

— Não me aborreça, disse.

Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a alcova. - Não! bradei eu; não hás

de entrar...não quero... Ia a lançar-lhe as mãos: era tarde; ela entrara e fechara-se.

Saí desatinado; gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais excêntricos e desertos,

onde fosse difícil dar comigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma espécie de gula mórbida;

evocava os dias, as horas, os instantes de delírio, e ora me comprazia em crer que eles eram eternos, que

tudo aquilo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo, tentava rejeitá-los de mim, como um

fardo inútil. Então resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e

deleitava-me com a idéia de que Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos.

Que ela amara-me a tonta, devia de sentir alguma coisa, uma lembrança qualquer, como do alferes

Duarte... Nisto, o dente do ciúme enterrava-me no coração; e toda a natureza me bradava que era

preciso levar Marcela comigo.

— Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.

Enfim, tive uma idéia salvadora... Ah! trapézio dos meus pecados, trapézio das concepções abstrusas!

A idéia salvadora trabalhou nele, como a do emplasto (capítulo 2). Era nada menos que fasciná-la,

fasciná-la muito, deslumbrá-la, arrastá-la; lembrou-me pedir-lhe por um meio mais concreto do que a

súplica. Não medi as conseqüências: recorri a um derradeiro empréstimo; fui à Rua dos Ourives, comprei

a melhor jóia da cidade, três diamantes grandes, encastoados num pente de marfim; corri à casa de

Marcela.

Marcela estava reclinada numa rede, o gesto mole e cansado, uma das pernas pendentes, a ver-lhe o

pezinho calçado de meia de seda, os cabelos soltos, derramados, o olhar quieto e sonolento.

— Vem comigo, disse eu, arranjei recursos... temos muito dinheiro, terás tudo o que quiseres...

Olha, toma.

E mostrei-lhe o pente com os diamantes. Marcela teve um leve sobressalto, ergueu metade do corpo,

e, apoiada num cotovelo, olhou para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos;

tinha-se dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabelos, coligi-os, enlacei-os à pressa, improvisei

um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me,

corrigi-lhes as madeixas, abaixei-as de um lado, busquei alguma simetria naquela desordem, tudo com

uma minuciosidade e um carinho de mãe.

— Pronto, disse eu.

— Doido! foi a sua primeira resposta.

A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrifício com um beijo, o mais ardente de todos.

Depois tirou o pente, admirou muito a matéria e o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a

cabeça, com um ar de repreensão:

— Ora você! dizia.

Vens comigo?

Marcela refletiu um instante. Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a

parede, e da parede para a jóia; mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ela me respondeu

resolutamente:

— Vou. Quando embarcas?

— Daqui a dois ou três dias.

— Vou.

Agradeci-lho de joelhos. Tinha achado a minha Marcela dos primeiros dias, e disse-lho; ela sorriu, e

foi guardar a jóia, enquanto eu descia a escada.

CAPÍTULO 18

Visão do corredor

No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as idéias

dispersas, reaver-me enfim no meio de tantas sensações profundas e contrárias. Achava-me feliz. Certo é que os diamantes

corrompiam-me um pouco a felicidade; mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os

seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcela; podia ter defeitos, mas amava-me...

— Um anjo! murmurei eu olhando para o teto do corredor.

E aí, como um escárnio, vi o olhar de Marcela, aquele olhar que pouco antes me dera uma sombra de

desconfiança, o qual chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o

meu. Pobre namorado das Mil e uma noites! Vi-te ali mesmo correr atrás da mulher do vizir, ao longo

da galeria, ela a acenar-te com a posse, e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde

saíste à rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então pareceu-me que o corredor de

Marcela era a alameda, e que a rua era a de Bagdá. Com efeito, olhando para a porta, vi na calçada três

dos correeiros, um de batina, outro de libré, outro à paisana, os quais todos três entraram no corredor,

tomaram-me pelos braços, meteram-me numa sege, meu pai à direita, meu tio cônego à esquerda, o da

libré na boléia, e lá me levaram à casa do intendente de polícia, donde fui transportado a uma galera que

devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas toda a resistência era inútil.

Três dias depois segui barra fora, abatido e mudo. Não chorava sequer, tinha uma idéia fixa... Malditas

idéias fixas! A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcela.

CAPÍTULO 19

A bordo

Éramos onze passageiros, um homem doido, acompanhado pela mulher, dois rapazes que iam a passeio, quatro comerciantes

e dois criados. Meu pai recomendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que aliás tinha muito que cuidar de si,

porque, além do mais, levava a mulher tísica em último grau.

Não sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu fúnebre projeto, ou se meu pai o pôs de sobreaviso;

sei que não me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar comigo,

levava-me para a mulher. A mulher ia quase sempre numa camilha rasa, a tossir muito, e a afiançar que

me havia de mostrar os arredores de Lisboa. Não estava magra, estava transparente; era impossível que

não morresse de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte próxima, talvez por enganarse

a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que me importava a mim o destino de uma mulher

tísica, no meio do oceano? O mundo para mim era Marcela.

Uma noite, logo no fim de uma semana, achei ensejo propício para morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que,

junto à amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.

— Algum temporal? disse eu.

— Não, respondeu ele estremecendo; não; admiro o esplendor da noite. Veja; está celestial!

O estilo desmentia da pessoa, assaz rude e aparentemente alheia a locuções rebuscadas. Fitei-o; ele

pareceu saborear o meu espanto. No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua,

perguntando-me por que não fazia uma ode à noite; respondi-lhe que não era poeta. O capitão rosnou

alguma coisa, deu dois passos, meteu a mão no bolso, sacou um pedaço de papel, muito amarrotado;

depois, à luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida marítima. Eram versos

dele.

— Que tal?

Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que ele me apertou a mão com muita força e muitos

agradecimentos; logo depois recitou-me dois sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da

parte da mulher: — Lá vou, disse ele; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa, com amor.

Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espírito os pensamentos maus; preferi dormir, que é

modo interino de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que meteu medo a toda

a gente, menos ao doido; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava buscar, numa berlinda;

a morte de uma filha fora a causa da loucura. Não, nunca me há de esquecer a figura hedionda do pobre

homem, no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a bailar, com os olhos a

saltarem-lhe da cara, pálido, cabelo arrepiado e longo. Às vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas,

fazia umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito, desesperadamente.

A mulher não podia já cuidar dele; entregue ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos

do céu. Enfim, a tempestade amainou. Confesso que foi uma diversão excelente à tempestade do meu

coração. Eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo.

O capitão perguntou-me se tivera medo, se estivera em risco, se não achara sublime o espetáculo: tudo isso com um

interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar; o capitão perguntou-me se não gostava de idílios

piscatórios; eu respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era.

— Vai ver, respondeu.

E recitou-me um poemazinho, depois outro, — uma égloga, — e enfim cinco sonetos, com os quais

rematou nesse dia a confidência literária. No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o

capitão que só por motivos graves abraçara a profissão marítima, porque a avó queria que ele fosse

padre, e com efeito possuía algumas letras latinas; não chegou a ser padre, mas não deixou de ser poeta,

que era a sua vocação natural. Para prová-lo, recitou-me logo, de corpo presente, uma centena de

versos. Notei um fenômeno: os ademanes que ele usava eram tais, que uma vez me fizeram rir; mas o

capitão, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo, que não viu nem ouviu nada. Os

dias passavam, e as águas, e os versos, e com eles ia também passando a vida da mulher. Estava por

pouco. Um dia, logo depois do almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da

semana.

— Já! exclamei.

— Passou muito mal a noite.

Fui vê-la; achei-a, na verdade, quase moribunda, mas falando ainda de descansar em Lisboa alguns dias, antes de ir

comigo a Coimbra, porque era seu propósito levar-me à universidade. Deixei-a consternado; fui achar o marido a olhar para

as vagas, que vinham morrer no costado do navio, e tratei de o consolar; ele agradeceu-me, relatou-me a história dos seus

amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-mos. Neste ponto vieram

buscá-lo da parte dela; corremos ambos; era uma crise. Esse e o dia seguinte foram cruéis; o terceiro foi o da morte; eu fugi

ao espetáculo, tinha-lhe repugnância. Meia hora depois encontrei o capitão, sentado num molho de cabos, com a cabeça nas

mãos; disse-lhe alguma coisa de conforto.

— Morreu como uma santa, respondeu ele; e, para que estas palavras não pudessem ser levadas à

conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.

— Vamos, continuou, entreguemo-la à cova que nunca mais se abre.

Efetivamente, poucas horas depois, era o cadáver lançado ao mar, com as cerimônias do costume. A

tristeza murchara todos os rostos; o do viúvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo

raio. Grande silêncio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, fechou-se, — uma leve ruga, — e a

galera foi andando. Eu deixei-me estar alguns minutos, à popa, com os olhos naquele ponto incerto do

mar em que ficava um de nós... Fui dali ter com o capitão, para distraí-lo.

— Obrigado, disse-me ele compreendendo a intenção; creia que nunca me esquecerei dos seus bons

serviços. Deus é que lhos há de pagar. Pobre Leocádia! tu te lembrarás de nós no céu.

Enxugou com a manga uma lágrima importuna; eu busquei um derivativo na poesia, que era a

paixão dele. Falei-lhe dos versos, que me lera, e ofereci-me para imprimi-los. Os olhos do capitão

animaram-se um pouco. — Talvez aceite, disse ele; mas não sei... são bem frouxos versos. Jurei-lhe

que não; pedi que os reunisse e mos desse antes do desembarque.

— Pobre Leocádia! murmurou ele sem responder ao pedido. Um cadáver... o mar... o céu... o navio...

No dia seguinte veio ler-me um epicédio composto de fresco, em que estavam memoradas as

circunstâncias da morte e da sepultura da mulher; leu-mo com a voz comovida deveras, e a mão trêmula;

no fim perguntou-me se os versos eram dignos do tesouro que perdera.

— São, disse eu.

— Não haverá estro, ponderou ele, no fim de um instante, mas ninguém me negará sentimento, se

não é que o próprio sentimento prejudicou a perfeição...

— Não me parece; acho os versos perfeitos.

— Sim, eu creio que... Versos de marujo.

— De marujo poeta.

Ele levantou os ombros, olhou para o papel, e tornou a recitar a composição, mas já então sem

tremuras, acentuando as intenções literárias, dando relevo às imagens e melodia aos versos. No fim,

confessou-me que era a sua obra mais acabada; eu disse-lhe que sim; ele apertou-me muito a mão e

predisse-me um grande futuro.

CAPÍTULO 20

Bacharelo-me

Um grande futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos, ao longe, no

horizonte misterioso e vago. Uma idéia expelia outra, a ambição desmontava Marcela. Um grande

futuro? Talvez naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro, político ou até bispo, — bispo que fosse, —

uma vez que fosse um cargo, uma preeminência, uma grande reputação, uma posição superior. A ambição,

dado que fosse águia, quebrou nessa ocasião o ovo, e desvendou a pupila fulva e penetrante. Adeus,

amores! adeus, Marcela! dias de delírio, jóias sem preço, vida sem regime, adeus. Cá me vou às fadigas

e à glória; deixo-vos com as calcinhas da primeira idade.

E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A universidade esperava-me com as

suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; derammo

com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de

saudades, — principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de

folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo

romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas.

No dia em que a universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer

arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explicome:

o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardeio,

deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas sentindo já uns ímpetos,

uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, — de prolongar a

universidade pela vida adiante...

CAPÍTULO 21

O almocreve

Vai então, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, ele deu dois corcovos, depois mais três, enfim mais

um, que me sacudiu fora da sela, e com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no estribo; tento agarrar-me ao ventre

do animal, mas já então, espantado, disparou pela estrada afora. Digo mal: tentou disparar, e efetivamente deu dois saltos,

mas um almocreve, que ali estava, acudiu a tempo de lhe pegar na rédea e detê-lo, não sem esforço nem perigo. Dominado

o bruto, desvencilhei-me do estribo e pus-me de pé.

— Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.

E era verdade; se o juramento corre por ali fora, contundia-me deveras, e não sei se a morte não

estaria no fim do desastre; cabeça partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro, e lá se me ia

a ciência em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo; eu sentia-o no sangue que me

agitava o coração. Bom almocreve! Enquanto eu tornava à consciência de mim mesmo, ele cuidava de

consertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi dar-lhe três moedas de ouro das cinco

que trazia comigo; não porque tal fosse o preço da minha vida, — essa era inestimável; mas porque era

uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou. Está dito, dou-lhe as três moedas.

— Pronto, disse ele, apresentando-me a rédea da cavalgadura.

— Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim...

— Ora qual!

— Pois não é certo que ia morrendo?

— Se o jumento corre por aí fora, é possível; mas, com a ajuda do Senhor, viu vosmecê que não

aconteceu nada.

Fui aos alforjes, tirei um colete velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro, e durante

esse tempo cogitei se não era excessiva a gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com

efeito, uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe a roupa; era um

pobre-diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, via-a reluzir à

luz do sol; não a viu o almocreve, porque eu tinha lhe voltado as costas; mas suspeitou-o talvez, entrou

a falar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que tomasse juízo, que o

“senhor doutor” podia castigá-lo; um monólogo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar um beijo: era

o almocreve que lhe beijava a testa.

— Olé! exclamei.

— Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a gente com tanta graça...

Ri-me, hesitei, meti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado,

melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha. Mas a algumas braças de distância, olhei para trás, o almocreve faziame

grandes cortesias, com evidentes mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu pagara-lhe bem,

pagara-lhe talvez demais. Meti os dedos no bolso do colete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os

vinténs que eu devera ter dado ao almocreve, em lugar do cruzado em prata. Porque, enfim, ele não levou em mira nenhuma

recompensa ou virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos hábitos do ofício; acresce que a circunstância de

estar, não mais adiante nem mais atrás, mas justamente no ponto do desastre, parecia constituí-lo simples instrumento de

Providência; e de um ou de outro modo, o mérito do ato era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta reflexão,

chamei-me pródigo, lancei o cruzado à conta das minhas dissipações antigas; tive (por que não direi tudo?), tive remorsos.

CAPÍTULO 22

Volta ao Rio

Jumento de uma figa, cortaste-me o fio às reflexões. Já agora não digo o que pensei dali até Lisboa, nem o que fiz em

Lisboa, na península e em outros lugares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia remoçar. Não, não direi que

assisti às alvoradas do romantismo, que também eu fui fazer poesia efetiva no regaço da Itália; não direi coisa nenhuma.Teria

de escrever um diário de viagem e não umas memórias, como estas são, nas quais só entra a substância da vida.

Ao cabo de alguns anos de peregrinação, atendi às súplicas de meu pai: — “Vem, dizia ele na última

carta; se não vieres depressa acharás tua mãe morta!” Esta última palavra foi para mim um golpe. Eu

amava minha mãe; tinha ainda diante dos olhos as circunstâncias da última bênção que ela me dera, a

bordo do navio. “Meu triste filho, nunca mais te verei”, soluçava a pobre senhora apertando-me ao

peito. E essas palavras ressoavam-me agora, como uma profecia realizada.

Note-se que eu estava em Veneza, ainda recendente aos versos de lord Byron; lá estava, mergulhado

em pleno sonho, revivendo o pretérito, crendo-me na Sereníssima República. É verdade; uma vez

aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.

— Que doge, signor mio? Caí em mim, mas não confessei a ilusão; disse-lhe que a minha pergunta

era um gênero de charada americana; ele mostrou compreender, e acrescentou que gostava muito das

charadas americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a Ponte dos

Suspiros, a gôndola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei tudo e disparei como uma bala na

direção do Rio de Janeiro.

Vim... Mas não; não alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo

papel, com grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões;

e nós não somos um público in-folio, mas in-12, pouco texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado

e vinhetas... principalmente vinhetas... Não, não alonguemos o capítulo.

CAPÍTULO 23

Triste, mas curto

Vim. Não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensação nova. Não era efeito da minha pátria política, era-o do

lugar da infância, a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha, o preto do ganho, as coisas e cenas da meninice,

buriladas na memória. Nada menos que uma renascença. O espírito, como um pássaro, não se lhe deu da corrente dos anos,

arrepiou o vôo na direção da fonte original, e foi beber da água fresca e pura, ainda não mesclada do enxurro da vida.

Reparando bem, há aí um lugar-comum. Outro lugar-comum, tristemente comum, foi a consternação

da família. Meu pai abraçou-me com lágrimas. — Tua mãe não pode viver, disse-me ele. Com efeito,

não era já o reumatismo que a matava, era um cancro no estômago. A infeliz padecia de um modo cru,

porque o cancro é indiferente às virtudes do sujeito; quando rói, rói; roer é o seu ofício. Minha irmã

Sabina, já então casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moça! dormia três horas por noite,

nada mais. O próprio tio João estava abatido e triste. Dona Eusébia e algumas outras senhoras lá estavam

também, não menos tristes e não menos dedicadas.

— Meu filho!

A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma, sobre o qual a

morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara, como um dia

brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca. Mal poderia conhecê-la; havia oito ou nove

anos que nos não víamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos dela entre as minhas, fiquei mudo e

quieto, sem ousar falar, porque cada palavra seria um soluço, e nós temíamos avisá-la do fim. Vão

temor! Ela sabia que estava prestes a acabar; disse-mo; verificamo-lo na seguinte manhã.

Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria, repisada, que me encheu de dor

e estupefação. Era a primeira vez que eu via morrer alguém. Conhecia a morte de oitiva; quando muito

tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadáver, que acompanhei ao cemitério, ou trazia-lhe a

idéia embrulhada nas amplificações de retórica dos professores de coisas antigas, — a morte aleivosa

de César, a austera de Sócrates, a orgulhosa de Catão. Mas esse duelo do ser e do não-ser, a morte em

ação, dolorida, contraída, convulsa, sem aparelho político ou filosófico, a morte de uma pessoa amada,

essa foi a primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me que não chorei durante o espetáculo:

tinha os olhos estúpidos, a garganta presa, a consciência boquiaberta. Quê? uma criatura tão dócil, tão

meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa

imaculada, era força que morresse assim, trateada,mordida pelo dente tenaz de uma doença sem

misericórdia? Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano...

Triste capítulo; passemos a outro mais alegre.

CAPÍTULO 24

Curto, mas alegre

Fiquei prostrado. E contudo era eu, nesse tempo, um fiel compêndio de trivialidade e presunção.

Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o

abismo do Inexplicável; faltava-me o essencial, que é o estímulo, a vertigem...

Para lhes dizer a verdade toda, eu refletia as opiniões de um cabeleireiro, que achei em Modena, e

que se distinguia por não as ter absolutamente. Era a flor dos cabeleireiros; por mais demorada que

fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; ele intercalava as penteadelas com muitos motes e

pulhas, cheios de um pico, de um sabor... Não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo que a universidade

me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Trateia

como tratei o latim: embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais

e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi

de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação.

Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta

que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos

interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os

remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é

quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se

o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que

diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as

lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de

ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos;

não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o

território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que

não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o

desdém dos finados.

CAPÍTULO 25

Na Tijuca

Ui! lá me ia a pena a escorregar para o enfático. Sejamos simples, como era simples a vida que levei

na Tijuca, durante as primeiras semanas depois da morte de minha mãe.

No sétimo dia, acabada a missa fúnebre, travei de uma espingarda, alguns livros, roupa, charutos,

um moleque, — o Prudêncio do capítulo 11, — e fui meter-me numa velha casa de nossa propriedade.

Meu pai forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem queria obedecer-lhe. Sabina

desejava que eu fosse morar com ela algum tempo -duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a

ponto de me levar à fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passara de estróina a circunspecto.

Agora comerciava em gêneros de estiva, labutava de manhã até a noite, com ardor, com perseverança.

De noite, sentado à janela, a encaracolar as suíças, não pensava em outra coisa. Amava a mulher e um

filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns anos depois. Diziam que era avaro.

Renunciei tudo; tinha o espírito atônito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa

flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro inebriante e sutil. — “Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!”

— Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a atenção, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso.

Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espírito ainda mais

cabisbaixo do que a figura, — ou jururu, como dizemos das galinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com

uma sensação única, uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. Volúpia do aborrecimento: decora esta

expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das sensações mais

sutis desse mundo e daquele tempo.

Às vezes caçava, outras dormia, outras lia, — lia muito, — outras enfim não fazia nada; deixava-me atoar de idéia em

idéia, de imaginação em imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta. As horas iam pingando uma a uma, o sol caía,

as sombras da noite velavam a montanha e a cidade. Ninguém me visitava; recomendei expressamente que me deixassem só.

Um dia, dois dias, três dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca

fora e restituir-me ao bulício. Com efeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor aplacara; o espírito já se não

contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu.

Reagia a mocidade, era preciso viver. Meti no baú o problema da vida e da morte, os hipocondríacos

do poeta, as camisas, as meditações, as gravatas, e ia fechá-lo, quando o moleque Prudêncio me disse

que uma pessoa do meu conhecimento se mudara na véspera para uma casa roxa, situada a duzentos

passos da nossa.

— Quem?

— Nhonhô talvez não se lembre mais de Dona Eusébia...

— Lembra-me... É ela?

Ela e a filha. Vieram ontem de manhã.

Ocorreu-me logo o episódio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que os acontecimentos tinham-me dado razão. Na

verdade, fora impossível evitar as relações íntimas do Vilaça com a irmã do sargento-mor; antes mesmo do meu embarque,

já se boquejava misteriosamente no nascimento de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Vilaça, ao

morrer, deixara um bom legado a Dona Eusébia, coisa que deu muito que falar em todo o bairro. O próprio tio João, guloso

de escândalos, não tratou de outro assunto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me dado razão os acontecimentos. Ainda

porém que ma não dessem, 1814 lá ia longe, e, com ele, a travessura, e o Vilaça, e o beijo da moita; finalmente, nenhumas

relações estreitas existiam entre mim e ela. Fiz comigo essa reflexão e acabei de fechar o baú.

— Nhonhô não vai visitar sinhá Dona Eusébia? Perguntou-me o Prudêncio. Foi ela quem vestiu

o corpo da minha defunta senhora.

Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por ocasião da morte e do enterro; ignorava porém que

ela houvesse prestado a minha mãe esse derradeiro obséquio. A ponderação do moleque era razoável;

eu devia-lhe uma visita; determinei fazê-la imediatamente, e descer.

CAPÍTULO 26

O autor hesita

Súbito ouço uma voz: — Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pai, que chegava com duas propostas na algibeira.

Sentei-me no baú e recebi-o sem alvoroço. Ele esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim; depois estendeu-me a mão

com um gesto comovido:

— Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.

— Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.

Não tinha almoçado; almoçamos juntos. Nenhum de nós aludiu ao triste motivo da minha reclusão.

Uma só vez falamos nisso, de passagem, quando meu pai fez recair a conversa na Regência: foi então

que aludiu à carta de pêsames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a carta consigo, já bastante

amarrotada, talvez por havê-la lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes.

Leu-ma duas vezes.

— Já lhe fui agradecer este sinal de consideração, concluiumeu pai, e acho que deves ir também...

— Eu?

— Tu; é um homem notável, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago comigo uma idéia, um

projeto, ou... sim, digo-te tudo; trago dois projetos, um lugar de deputado e um casamento.

Meu pai disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando às palavras um jeito e disposição,

cujo fim era cavá-las mais profundamente no meu espírito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas

sensações últimas, que eu cheguei a não entendê-la bem. Meu pai não fraqueou e repetiu-a; encareceu

o lugar e a noiva.

— Aceitas?

— Não entendo de política, disse eu depois de um instante; quanto à noiva... deixe-me viver como

um urso, que sou.

— Mas os ursos casam-se, replicou ele.

— Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa Maior...

Riu-se meu pai, e depois de rir, tornou a falar sério. Era-me necessária a carreira política, dizia ele,

por vinte e tantas razões, que deduziu com singular volubilidade, ilustrando-as com exemplos de pessoas

do nosso conhecimento.Quanto à noiva, bastava que eu a visse; se a visse, iria logo pedi-la ao pai, logo,

sem demora de um dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a intimação; eu

não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão, a sorrir ou a refletir; e,

para tudo dizer, nem dócil nem rebelde à proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim mesmo dizia

que sim, que uma esposa formosa e uma posição política eram bens dignos de apreço; outra dizia que

não; e a morte de minha mãe me parecia como um exemplo da fragilidade das coisas, dasafeições, da

família...

— Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pai. De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as

sílabas com o dedo.

Bebeu o último gole de café; repotreou-se, e entrou a falar de tudo, do Senado, da Câmara, da

Regência, da restauração, do Evaristo, de um coche que pretendia comprar, da nossa casa de

Matacavalos... Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente num pedaço de

papel, com uma ponta de lápis; traçava uma palavra, uma frase, um verso, um nariz, um triângulo, e

repetia-os muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:

Arma virumque Cano

A

Arma virumque cano

arma virumque cano

arma virumque

arma virumque cano

virumque

Maquinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa lógica, certa dedução; por exemplo, foi o

virumque que me fez chegar ao nome do próprio poeta, por causa da primeira sílaba; ia a escrever

virumque, — e sai-me Virgílio, então continuei:

Vir Virgílio

Virgílio Virgílio

Virgílio

Virgílio

Meu pai, um pouco despeitado com aquela indiferença, ergueu-se, veio a mim, lançou os olhos ao

papel...

— Virgílio! exclamou. Es tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgília.

CAPÍTULO 27

Virgília?

Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois...? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869

devia assistir aos meus últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais íntimas sensações. Naquele

tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; e era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a

mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é

romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe

maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço,

precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos dacriação. Era isto Virgília, e era clara, muito

clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, — devoção, ou talvez

medo; creio que medo.

Aí tem o leitor, em poucas linhas, o retrato físico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na

minha vida; era aquilo com dezesseis anos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas páginas

vierem à luz, — tu que me lês, Virgília amada, não reparas na diferença entre a linguagem de hoje e a

que primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a morte não me tornou

rabugento, nem injusto.

— Mas, dirás tu, como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?

Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de

restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos.

Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada

estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva,

que o editor dá de graça aos vermes.

CAPÍTULO 28

Contanto que...

Virgília? interrompi eu.

— Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem asas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva

como um azougue, e uns olhos... filha do Dutra...

— Que Dutra?

— O Conselheiro Dutra, não conheces; uma influência política. Vamos lá, aceitas?

Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que estava disposto

a examinar as duas coisas, a candidatura e o casamento, contanto que...

— Contanto quê?

— Contanto que não fique obrigado aceitar as duas; creio que posso ser separadamente homem

casado ou homem público...

— Todo o homem público deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pai. Mas seja como

queres; estou por tudo; fico certo de que a vista fará fé! Demais, a noiva e o parlamento são a mesma

coisa... isto é, não... saberás depois...Vá; aceito a dilação, contanto que...

Contanto quê?... interrompi eu, imitando-lhe a voz.

— Ah! brejeiro! Contanto que não te deixes ficar aí inútil, obscuro, e triste; não gastei dinheiro,

cuidados, empenhos, para te não ver brilhar, como deves, e te convém, e a todos nós; é preciso continuar

o nosso nome, continuá-lo e ilustrá-lo ainda mais. Olha, estou com sessenta anos, mas se fosse necessário

começar vida nova, começava, sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Brás; foge do que é

ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela

opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios...

E foi por diante o mágico, a agitar diante de mim um chocalho, como me faziam, em pequeno, para

eu andar depressa, e a flor da hipocondria recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarela,

e nada mórbida, — o amor da nomeada,o emplasto Brás Cubas.

CAPÍTULO 29

A visita

Vencera meu pai; dispus-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgília e a Câmara dos Deputados.

— As duas Virgílias, disse ele num assomo de ternura política. Aceitei-os; meu pai deu-me dois fortes

abraços. Era o seu próprio sangue que ele, enfim, reconhecia.

— Desces comigo?

— Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a Dona Eusébia...

Meu pai torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar Dona

Eusébia. Achei-a a repreender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir falar-me, com um alvoroço, um prazer tão

sincero, que me desacanhou logo. Creio que chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez

me sentar ao pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento:

— Ora, o Brasinho! Um homem! Quem diria, há anos...Um homenzarrão! E bonito! Qual! Você não se

lembra bem de mim...

Disse-lhe que sim, que não era possível esquecer uma amiga tão familiar de nossa casa. Dona Eusébia

começou a falar de minha mãe, com muitas saudades, com tantas saudades, que me cativou logo, posto

me entristecesse. Ela percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea à conversação; pediu-me que lhe

contasse a viagem, os estudos, os namoros... Sim, os namoros também; confessou-me que era uma

velha patusca. Nisto recordei-me do episódio de 1814, ela, o Vilaça, a moi-ta, o beijo, o meu grito; e

estando a recordá-lo, ouço um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:

— Mamãe... mamãe...

CAPÍTULO 30

A flor da moita

A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve à porta, alguns instantes, ao ver

gente estranha. Silêncio curto e constrangido. Dona Eusébia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza:

— Vem cá, Eugênia, disse ela, cumprimenta o Doutor Brás Cubas, filho do Senhor Cubas; veio da

Europa.

E voltando-se para mim:

— Minha filha Eugênia.

Eugênia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz; olhou-me admirada e

acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabelo,

cuja ponta se desmanchara. — Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto é... E beijou-a com

tão expansiva ternura que me comoveu um pouco; lembrou-me minha mãe, e — direi tudo, — tive

umas cócegas de ser pai.

— Travessa? disse eu. Pois já não está em idade própria, ao que parece.

— Quantos lhe dá?

— Dezessete.

— Menos um.

— Dezesseis. Pois então! é uma moça.

Não pôde Eugênia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se logo, e

ficou como dantes, ereta, fria e muda. Em verdade, ela parecia ainda mais mulher do que era; seria

criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassível, tinha a compostura da mulher casada.

Talvez essa circunstância lhe diminuía um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarizamos; a

mãe fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra, e ela sorria, com os olhos fúlgidos, como

se lá dentro do cérebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de diamante...

Digo lá dentro, porque cá fora o que esvoaçou foi uma borboleta preta, que subitamente penetrou na

varanda, e começou a bater as asas em derredor de Dona Eusébia. Dona Eusébia deu um grito, levantouse,

praguejou umas palavras soltas:

— T’esconjuro!... sai, diabo!... Virgem Nossa Senhora!...

— Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expeli a borboleta. Dona Eusébia sentou-se outra

vez, ofegante, um pouco envergonhada; a filha, pode ser que pálida de medo, dissimulava a impressão

com muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e sai, a rir comigo da superstição das duas mulheres,

um rir filosófico, desinteressado, superior. De tarde, vi passar a cavalo a filha de Dona Eusébia, seguida

de um pajem; fez-me um cumprimento com a ponta do chicote; e confesso que me lisonjeei com a idéia

de que, alguns passos adiante, ela voltaria a cabeça para trás; mas não voltou.

CAPÍTULO 31

A borboleta preta

No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta,

tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo

a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera e na dignidade que, apesar dele, soube conservar.

A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar

na vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu

pai. Era negra como a noite.O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha

um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá,

minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma

toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma

da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei

um pouco aborrecido, incomodado.

— Também por que diabo não era ela azul? disse eu comigo.

E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito desde a invenção das borboletas, — me

consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com

alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio

por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que

é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria

visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu

corpo, e viu que me movia, que tinha olhos,braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então

disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o

medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo

na testa, e beijou

me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é

impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e

voou a pedir-lhe misericórdia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das

flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam

como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê

lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a

atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação;

uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já

as próvidas formigas... Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.

CAPÍTULO 32

Coxa de nascença

Fui dali acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro mais. Desço imediatamente;

desço, ainda que algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o capítulo passado é apenas

uma sensaboria ou se chega a empulhação... Ai, não contava com Dona Eusébia. Estava pronto, quando

me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a

recusar; mas instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais, era-lhe devida aquela

compensação; fui.

Eugênia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por minha causa, — se é que não

andava muita vez assim. Nem as bichas de ouro, que trazia na véspera, lhe pendiam agora das orelhas,

duas orelhas finamente recortadas numa cabeça de ninfa. Um simples vestido branco, de cassa,sem

enfeites, tendo ao colo, em vez de broche, um botão de madrepérola, e outro botão nos punhos, fechando

as mangas, e nem sombra de pulseira.

Era isso no corpo; não era outra coisa no espírito. Idéias claras, maneiras chãs, certa graça natural,

um ar de senhora, e não sei se alguma outra coisa; sim, a boca, exatamente a boca da mãe, a qual me

lembrava o episódio de 1814, e então dava-me ímpetos de glosar o mesmo mote à filha...

— Agora vou mostrar-lhe a chácara, disse a mãe, logo que esgotamos o último gole de café.

Saímos à varanda, dali à chácara, e foi então que notei uma circunstância. Eugênia coxeava um

pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu

sem titubear:

— Não, senhor, sou coxa de nascença.

Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com efeito, a simples possibilidade de ser coxa era

bastante para lhe não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi — na véspera — a moça chegara-se

lentamente à cadeira da mãe, e que naquele dia, já a achei à mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas porque

razão o confessava agora? Olhei para ela e reparei que ia triste.

Tratei de apagar os vestígios de meu desazo; — não me foi difícil, porque a mãe era, segundo

confessara, uma velha patusca, e prontamente travou de conversa comigo. Vimos toda a chácara, árvores,

flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de coisas, que ela me ia mostrando, e comentando,

ao passo que eu, de soslaio, perscrutava os olhos de Eugênia...

Palavra que o olhar de Eugênia não era coxo, mas direito, perfeitamente são; vinha de uns olhos

pretos e tranqüilos. Creio que duas ou três vezes baixaram, um pouco turvados; mas duas ou três vezes

somente; em geral, fitavam

me com franqueza, sem temeridade, nem biocos.

CAPÍTULO 33

Bem-aventurados os que não descem

O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste

faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a

pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor

que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei

essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do

espírito, deixou novamente entrar o bichinho, e ai fiquei eu a noite toda a cavar o mistério, sem explicá-lo.

Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã era límpida e azul, e apesar

disso deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas,

frescas, convidativas; lá embaixo a família a chamar-me, e a noiva, e o arlamento, e eu sem acudir a

coisa nenhuma, enlevado ao pé da minha Vênus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estilo;

não havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfação física e moral.Queria-lhe, é verdade; ao pé dessa

criatura tão singela, filha espúria e coxa, feita de amor e desprezo, ao pé dela sentia-me bem, e ela creio

que ainda se sentia melhor, ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples égloga. Dona Eusébia vigiavanos,

mas pouco; temperava a necessidade com a conveniência. A filha, nessa primeira explosão da

natureza, entregava-me a alma em flor.

— O senhor desce amanhã? Disse-me ela no sábado.

— Pretendo.

— Não desça.

Não desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho: — Bem-aventurados os que não descem, porque deles é o primeiro

beijo das moças. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia, — o primeiro que nenhum outro varão jamais

lhe tomara, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma dívida. Pobre

Eugênia! Se tu soubesses que idéias me vagavam pela mente fora naquela ocasião! Tu, trêmula de comoção, com os braços

nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça, e a

suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem...

D. Eusébia entrou inesperadamente, mas não tão súbita, que nos apanhasse ao pé um do outro. Eu

fui até a janela. Eugênia sentou-se a consertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte

infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural, vivo, não estudado, natural como o

apetite, natural como o sono. Tanto melhor! Dona Eusébia não suspeitou nada.

CAPÍTULO 34

A uma alma sensível

Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me lêem, há aí uma alma sensível, que está decerto um tanto

agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez..., sim, talvez, lá no

fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! Esta injúria

merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma sensível, eu

não sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero, o

drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um

pandemônio, alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa

de Smirna até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em

que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. Não havia ali

a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo. Retira, pois, a

expressão, alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos, — que isso às vezes é dos óculos, — e

acabemos de uma vez com esta flor da moita.

CAPÍTULO 35

O caminho de damasco

Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz

misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (Act., IX, 7): “Levanta-te, e entra na cidade.”

Essa voz saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da

pequena, e o terror de vir a amar deveras, e desposá-la. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da

minha descida, não há duvidar que ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma segundafeira,

ao anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. — Adeus, suspirou ela estendendo-me a

mão com simplicidade; faz bem. — E como eu nada dissesse, continuou:

— Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo. Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se lentamente,

engolindo as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do céu que eu era

obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hipérboles frias, que ela escutou

sem dizer nada.

— Acredita-me? perguntei eu no fim.

— Não, e digo-lhe que faz bem.

Quis retê-la, mas o olhar que me lançou não foi já de súplica, senão de império. Desci da Tijuca, na

manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito.Vinha dizendo a mim mesmo que era

justo obedecer a meu pai, que era conveniente abraçar a carreira política... que a constituição... que a

minha noiva... que o meu cavalo...

.CAPÍTULO 36

A propósito de botas

Meu pai, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento. — Agora é deveras?

disse ele. Posso enfim...?

Deixei-o nessa reticência, e fui descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez aliviado, respirei

à larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os pés, e todo eu atrás deles, entrávamos numa relativa

bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra,

porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortificaos

depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Enquanto esta idéia me

trabalhava no faoso trapézio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte

do pretérito, e sentia que o meu coração não tardaria também a descalçar as suas botas. E descalçou-as

o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rápido, inefável e incoercível momento de gozo,

que sucede a uma dor pungente, a uma preocupação, a um incômodo... Daqui inferi eu que a vida é o

mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a ocasião de comer, e

não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que

toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.

Tu, minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da

perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que vieste também para

esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe?

Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana.

CAPÍTULO 37

Enfim!

Enfim! eis aqui Virgília. Antes de ir à casa do Conselheiro Dutra, perguntei a meu pai se havia algum ajuste prévio de

casamento.

— Nenhum ajuste. Há tempos, conversando com ele a teu respeito, confessei-lhe o desejo que tinha

de te ver deputado; e de tal modo falei, que ele prometeu fazer alguma coisa, e creio que o fará. Quanto

à noiva, é o nome que dou a uma criaturinha, que é uma jóia, uma flor, uma estrela, uma coisa rara... é

a filha dele; imaginei que, se casasses com ela, mais depressa serias deputado.

— Só isto?

— Só isto.

Fomos dali à casa do Dutra. Era uma pérola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado

com os males públicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era

legítima; convinha, porém, esperar alguns meses. E logo me apresentou à mulher, — uma estimável

senhora, — e à filha, que não desmentiu em nada o panegírico de meu pai. Juro-vos que em nada.

Relede o capítulo 27. Eu, que levava idéias a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ela, que não sei

se as tinha, não me fitou de modo diferente; e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal.

No fim de um mês estávamos íntimos.

CAPÍTULO 38

A quarta edição

— Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.

Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no Largo de São Francisco de

Paula, e fui dar várias voltas. Lembra-vos ainda a minha teoria das edições humanas? Pois sabei que,

naquele tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada de descuidos e

barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma compensação no tipo, que era elegante, e na encadernação,

que era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela Rua dos Ourives, consulto o relógio e cai-me o vidro na

calçada. Entro na primeira loja que tinha à mão; era um cubículo, — pouco mais, — empoeirado e

escuro.

Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo à

primeira vista; mas logo que se destacava era um espetáculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrário, via-se que fora

bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce destruíram-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido

terríveis; os sinais, grandes e muitos, faziam saliências e encarnas, declives e aclives, e davam uma sensação de lixa grossa,

enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que

mudou, entretanto, logo que eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava ruço e quase tão poento como os portais da loja.

Num dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crê-eis, pósteros? essa mulher era Marcela.

Não a conheci logo; era difícil; ela porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam

e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para

esconder-se ou fugir; era o instinto da vaidade, que não durou mais de um instante. Marcela acomodouse

e sorriu.

— Quer comprar alguma coisa? disse ela estendendo-me a mão.

Não respondi nada. Marcela compreendeu a causa do meu silêncio (não era difícil), e só hesitou,

creio eu, em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a memória do passado. Deume

uma cadeira, e, com o balcão permeio, falou-me longamente de si, da vida que levara, das lágrimas

que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, enfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e

do tempo, que ajudou a moléstia, adiantando-lhe a decadência. Verdade é que tinha a alma decrépita.

Vendera tudo, quase tudo; um homem, que a amara outrora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquela

loja de ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco buscada a loja — talvez

pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei

pouco tempo em dizer-lha; não era longa, nem interessante.

— Casou? disse Marcela no fim de minha narração.

— Ainda não, respondi secamente.

Marcela lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflete ou relembra; eu deixei-me ir então

ao passado, e, no meio das recordações e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto

desatino. Não era esta certamente a Marcela de 1822; mas a beleza de outro tempo valia uma terça parte

dos meus sacrifícios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcela. O rosto dizia-me

que não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já outrora, como hoje, ardia neles a flama da

cobiça. Os meus é que não souberam ver-lha; eram olhos da primeira edição.

— Mas por que entrou aqui? Viu-me da rua? Perguntou ela, saindo daquela espécie de torpor.

— Não, supunha entrar numa casa de relojoeiro; queria comprar um vidro para este relógio; vou a

outra parte; desculpe-me; tenho pressa.

Marcela suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido, ao mesmo

tempo, e ansiava por me ver fora daquela casa. Marcela, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o

relógio, e, apesar da minha oposição, mandou-o, a uma loja na vizinhança, comprar o vidro. Não havia

remédio; sentei-me outra vez. Disse ela que desejava ter a proteção dos conhecidos de outro tempo;

ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me daria finas jóias

por preços baratos. Não disse preços baratos, mas usou uma metáfora delicada e trans-parente. Entrei

a desconfiar que não padecera nenhum desastre (salvo a moléstia), que tinha o dinheiro a bom recado,

e que negociava com o único fim de acudir à paixão do lucro,que era o verme roedor daquela existência;

foi isso mesmo que me disseram depois.

CAPÍTULO 39

O vizinho

Enquanto eu fazia comigo mesmo aquela reflexão, entrou na loja um sujeito baixo, sem chapéu,

trazendo pela mão uma menina de quatro anos.

— Como passou de hoje de manhã? disse ele a Marcela.

— Assim, assim. Vem cá, Maricota.

O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do balcão.

— Anda, disse ele; pergunta a Dona Marcela como passou a noite. Estava ansiosa por vir cá, mas a

mãe não tinha podido vesti-la... Então, Maricota? Toma a bênção... Olha a vara de marmelo! Assim...

Não imagina o que ela é lá em casa; fala na senhora a todos os instantes, e aqui parece uma pamonha.

Ainda ontem... Digo, Maricota?

— Não diga, não, papai.

— Então foi alguma coisa feia? perguntou Marcela batendo na cara da menina.

— Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria, oferecidos

a Nossa Senhora; mas a pequena ontem veio pedir-me com voz muito humilde... imagine o quê?... que

queria oferecê-los a Santa Marcela.

— Coitadinha! disse Marcela beijando-a.

— É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina... A mãe diz que é feitiço...

Contou mais algumas coisas o sujeito, todas mui agradáveis, até que saiu levando a menina, não sem

deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcela quem era ele.

— É um relojoeiro de vizinhança, um bom homem; a mulher também; e a filha é galante, não?

Parecem gostar muito de mim... é boa gente.

Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcela; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda

de ventura...

CAPÍTULO 40

Na sege

Nisto entrou o moleque trazendo o relógio com o vidro novo. Era tempo; já me custava estar ali; dei uma moedinha de

prata ao moleque; disse a Marcela que voltaria noutra ocasião, e saí a passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o

coração me batia um pouco; mas era uma espécie de dobre de finados. O espírito ia travado de impressões opostas. Notem

que aquele dia amanhecera alegre para mim. Meu pai, ao almoço, repetiu-me, por antecipação, o primeiro discurso que eu

tinha de proferir na Câmara dos Deputados; rimo-nos muito, e o sol também, que estava brilhante, como nos mais belos dias

do mundo; do mesmo modo que Virgília devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. Vai senão quando,

cai-me o vidro do relógio; entro na primeira loja que me fica à mão; e eis me surge o passado, ei-lo que me lacera e beija; eilo

que me interroga, com um rosto cortado de saudades e bexigas...

Lá o deixei; meti-me às pressas na sege, que me esperava no Largo de São Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que

rodasse pelas ruas fora. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam

rapidamente a lama que deixara a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não há, às vezes, um certo vento morno

, não forte nem áspero, mas abafadiço, que nos não leva o chapéu da cabeça, nem rodomoinha nas saias das mulheres, e

todavia é ou parece ser pior do que se fizesse uma e outra coisa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os espíritos?

Pois eu tinha esse vento comigo; e, certo de que ele me soprava por achar-me naquela espécie de garganta entre o passado

e o presente, almejava por sair à planície do futuro. O pior é que a sege não andava.

— João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?

— Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.

CAPÍTULO 41

A alucinação

E era verdade. Entrei apressado; achei Virgília ansiosa, mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala

com ela. No fim dos cumprimentos disse-me a moça com sequidão:

— Esperávamos que viesse mais cedo.

Defendi-me do melhor modo; falei do cavalo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De

repente morre-me a voz nos lábios, fico tolhido de assombro. Virgília... seria Virgília aquela moça?

Fitei-a muito, e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista. Tomei a olhá-la. As

bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pele, ainda na véspera tão fina, rosada e pura, aparecia-me agora

amarela, estigmada pelo mesmo flagelo que devastara o rosto da espanhola. Os olhos, que eram travessos,

fizeram-se murchos; tinha o lábio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chameia

brandamente a mim.Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.

Virgília afastou-se, e foi sentar-se no sofá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus próprios pés.

Devia sair ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para

Virgília, que lá estava sentada e calada. Céus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgília. Em

vão procurei no rosto dela algum vestígio da doença; nenhum havia; era a pele fina e branca do costume.

— Nunca me viu? perguntou Virgília, vendo que a encarava com insistência.

— Tão bonita, nunca.

Sentei-me, enquanto Virgília, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram

se alguns segundos de pausa. Falei-lhe de coisas estranhas ao incidente; ela porém não me respondia

nada, nem olhava para mim. Menos o estalido, era a estátua do Silêncio. Uma só vez me deitou os

olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do lábio, contraindo as sobrancelhas, ao

ponto de as unir; e todo esse conjunto de coisas dava-lhe ao rosto uma expressão média entre cômica e

trágica.

Havia alguma afetação naquele desdém; era um arrebique do gesto. Lá dentro, ela padecia, e não pouco, — ou fosse

mágoa pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula dói mais, é mui provável que Virgília padecesse em dobro do

que realmente devia padecer. Creio que isto é metafísica.

CAPÍTULO 42

Que escapou a Aristóteles

Outra coisa que também me parece metafísica é isto: — Dá-se movimento a uma bola, por exemplo;

rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira

rolou. Suponhamos que a primeira bolan se chama... Marcela, — é uma simples suposição; a segunda,

Brás Cubas; — a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até

tocar em Brás Cubas, — o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em

Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força,

se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma coisa que poderemos chamar — solidariedade do

aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?

CAPÍTULO 43

Marquesa, porque eu serei marquês

Positivamente, era um diabrete Virgília, um diabrete angélico, se querem, mas era-o, e então...

Então apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem

mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura, dentro de

poucas semanas, com um ímpeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu nenhum despeito; não

houve a menor violência de família. Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque

a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi; tal foi o começo da minha

derrota. Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro.

— Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um ano.

Virgília replicou:

— Promete que algum dia me fará baronesa?

— Marquesa, porque eu serei marquês.

Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão

com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que

fossem não queria dizer coisa nenhuma. O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila, que

esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.

CAPÍTULO 44

Um Cubas!

Meu pai ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra coisa. Eram

tantos os castelos que engenhara, tantos e tantíssimos os sonhos, que não podia vê-los assim esboroados,

sem padecer um forte abalo no organismo. A princípio não quis crê-lo. Um Cubas! um galho da árvore

ilustre dos Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci

um instante a volúvel dama, para só contemplar aquele fenômeno, não raro, mas curioso: uma imaginação

graduada em consciência.

— Um Cubas! Repetia-me ele na seguinte manhã, ao almoço.

Não foi alegre o almoço; eu próprio estava a cair de sono.Tinha velado uma parte da noite. De amor?

Era impossível; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquela, tempos depois,

não lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo, além de uma fantasia passageira, alguma obediência

e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigília; era despeito, um despeitozinho agudo como ponta de

alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranqüila

das auroras.

Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar facilmente a pancada. Pensando

bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as últimas dores, é positivo.

Morreu daí a quatro meses, — acabrunhado, triste, com uma preocupação intensa e contínua, à semelhança de remorso,um

desencanto mortal que lhe substituiu os reumatismos e tosses. Teve ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos

ministros o visitou. Vi-lhe, — lembra-me bem, — vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de

luz, que era, por assim dizer, o último lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tomou logo, a tristeza de morrer sem me ver

posto em algum lugar alto, como aliás me cabia.

— Um Cubas!

Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio

Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que

foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu.

— Um Cubas!

CAPÍTULO 45

Notas

Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a

medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam. Lentamente, a passo surdo, e apertavam a

mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a

prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos,

soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias, o

rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para

um capítulo triste e vulgar que não escrevo.

CAPÍTULO 46

A herança

Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pai, — minha irmã sentada num sofá, —

pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,

— eu a passear de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pesado. Profundo silêncio.

— Mas afinal, disse Cotrim; esta casa pouco mais pode valer de trinta contos; demos que valha

trinta e cinco...

— Vale cinqüenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cinqüenta e oito...

— Podia custar até sessenta, tornou Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os

valha hoje. Você sabe que as casas, aqui há anos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cinqüenta

contos, quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?

— Não fale nisso! Uma casa velha.

— Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao teto.

— Parece-lhe nova, aposto?

— Ora, mano, deixe-se dessas coisas, disse Sabina, erguendo-se do sofá; podemos arranjar tudo em

boa amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papai e o

Paulo...

— O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar outro.

— Bem, fico com o Paulo e o Prudêncio.

— O Prudêncio está livre.

— Livre?

— Há dois anos.

— Livre? Como seu pai arranjava estas coisas cá por casa, sem dar parte a ninguém! Está direito.

Quanto à prata... creio que não libertou a prata?

Tínhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de Dom José I, a porção mais grave da herança,

já pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade; dizia meu pai que o Conde da Cunha,

quando vice-rei do Brasil, a dera de presente a meu bisavô Luís Cubas.

— Quanto à prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse o desejo que sua

irmã tem de ficar com ela; e acho-lhe razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentável.

Você é solteiro, não recebe, não...

— Mas posso casar.

— Para quê? interrompeu Sabina.

Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina,

bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa sombra,que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiescência, e

agradeceu-mo.

— Que é lá? redargüi; não cedi coisa nenhuma, nem cedo.

— Nem cede?

Abanei a cabeça.

— Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do

corpo, é só o que falta.

— Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais

sumário citar-nos a juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu

cunhado, e que Deus não é Deus. Faça isto, enão perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo,

outro oficio!

Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi oferecer um meio de conciliação: dividir a prata.

Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o açucareiro; e depois desta pergunta, declarou

que teríamos tempo de liquidar a pretensão, quando menos em juízo. Entretanto, Sabina fora até a

janela que dava para a chácara, — e depois de um instante, voltou, e propôs ceder o Paulo e outro preto,

com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e disse

a mesma coisa.

— Isso nunca! não faço esmolas! disse ele.

Jantamos tristes. Meu tio cônego apareceu à sobremesa, e ainda presenciou uma pequena altercação.

— Meus filhos, disse ele, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido

por todos.

Mas Cotrim:

— Creio, creio. A questão, porém, não é de pão, é de manteiga. Pão seco é que eu não engulo.

Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estávamos brigados. E digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar

com Sabina. Éramos tão amigos! Jogos pueris, fúrias de crianças, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez esse

pão da alegria e da miséria, irmamente, como bons irmãos que éramos. Mas estávamos brigados. Tal qual a beleza de

Marcela, que se esvaiu com as bexigas.

CAPÍTULO 47

O recluso

Marcela, Sabina, Virgília... aí estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses nomes e pessoas

não fossem mais do que modos de ser da minha afeição interior. Pena de maus costumes, ata uma

gravata ao estilo, veste-lhe um colete menos sórdido; e depois sim, depois vem comigo, entra nessa

casa, estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte dos anos que decorreram desde o inventário

de meu pai até 1842.Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não cuides que o mandei derramar

para meu regalo; é um vestígio da N. ou da Z. ou da U. — que todas essas letras maiúsculas embalaram

aí a sua elegante abjeção. Mas, se além do aroma, quiseres outra coisa, fica-te com o desejo, porque eu

não guardei retratos, nem cartas, nem memórias; a mesma comoção esvaiu-se e só me ficaram as letras

iniciais.

Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas a maior parte do

tempo passei-a comigo mesmo. Vivia; deixava-me ir ao curso e recurso dos sucessos e dos dias, ora

buliçoso, ora apático, entre a ambição e o desânimo. Escrevia política e fazia literatura. Mandava

artigos e versos para as folhas públicas e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta.

Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgília, futura marquesa, perguntava a

mim mesmo por que não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves, — eu, que

valia mais, muito mais do que ele, — e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...

CAPÍTULO 48

Um primo de Virgília

— Sabe quem chegou ontem de São Paulo? Perguntou-me uma noite Luis Dutra.

Luís Dutra era um primo de Virgília, que também privava com as musas. Os versos dele agradavam

e valiam mais do que os meus; mas ele tinha necessidade da sanção de alguns, que lhe confirmasse o

aplauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguém; mas deleitava-se com ouvir

alguma palavra de apreço; então criava novas forças e arremetia juvenilmente ao trabalho.

Pobre Luís Dutra! Apenas publicava alguma coisa, corria à minha casa, e entrava a girar em volta de

mim, à espreita de um juízo, de uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a recente produção, e eu

falava-lhe de mil coisas diferentes, — do último baile do Catete, da discussão das câmaras, de berlindas

e cavalos, — de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Ele respondia-me, a princípio com animação,

depois mais frouxo, torcia a rédea da conversa para o assunto dele, abria um livro, perguntava-me se

tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a rédea para o outro lado, e lá

ia ele atrás de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha intenção era fazê-lo duvidar de si

mesmo, desanimá-lo, eliminá-lo. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz...

CAPÍTULO 49

A ponta do nariz

Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado

leitor? A explicação do Doutor Pangloss é que o nariz foi criado para uso dos óculos, — e tal explicação confesso que até

certo tempo me pareceu definitiva; mas veio um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia,atinei

com a única, verdadeira e definitiva explicação.

Com efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a

olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos na ponta do

nariz, perde o sentimento das coisas externas, embeleza-se no invisível, apreende o impalpável,

desvincula-se da terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno

mais excelso do espírito, e a faculdade de a obter não pertence ao faquir somente: é universal. Cada

homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal

contemplação, cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o equilíbrio das

sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gênero humano não

chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.

Ouço daqui uma objeção do leitor: — Como pode ser assim, diz ele, se nunca jamais ninguém não

viu estarem os homens a contemplar o seu próprio nariz?

Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cérebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por

uma loja de chapéus; é a loja de um rival, que a abriu há dois anos; tinha então duas portas, hoje tem

quatro; promete ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapéus do rival; pelas portas entram os

fregueses do rival; o chapeleiro compara aquela loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas,

e aqueles chapéus com os seus, menos buscados, ainda que de igual preço.

Mortifica-se naturalmente; mas vai andando, concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas

da prosperidade do outro e do seu próprio atraso, quando ele chapeleiro é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro...

Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do nariz.

A conclusão, portanto, é que há duas forças capitais: o amor, que multiplica a espécie, e o nariz, que

a subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio.

CAPÍTULO 50

Virgília casada

— Quem chegou de São Paulo foi minha prima Virgília, casada com o Lobo Neves, continuou Luis

Dutra.

— Ah!

— E só hoje é que eu soube uma coisa, seu maganão...

— Que foi?

— Que você quis casar com ela.

— Idéias de meu pai. Quem lhe disse isso?

— Ela mesma. Falei-lhe muito em você, e ela então contou-me tudo.

No dia seguinte, estando na Rua do Ouvidor, à porta da tipografia do Plancher, vi assomar, a distância,

uma mulher esplêndida. Era ela; só a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza

e a arte lhe haviam dado o último apuro. Cortejamo-nos; ela seguiu; entrou com o marido na carruagem,

que os esperava um pouco acima; fiquei atônito.

Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegamos a trocar duas ou três palavras. Mas noutro baile, dado daí a

um mês, em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a

aproximação foi maior e mais longa, porque conversamos e valsamos. A valsa é uma deliciosa coisa. Valsamos; e não nego

que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico,tive uma singular sensação, uma sensação de homem

roubado.

— Está muito calor, disse ela, logo que acabamos. Vamos ao terraço?

— Não; pode constipar-se. Vamos à outra sala.

Na outra sala estava Lobo Neves, que me fez muitos cumprimentos, acerca dos meus escritos políticos,

acrescentando que nada dizia dos literários, por não entender deles; mas os políticos eram excelentes,

bem pensados e bem escritos. Respondi-lhe com iguais esmeros de cortesia, e separamo-nos contentes

um do o outro.

Cerca de três semanas depois recebi um convite dele para uma reunião íntima. Fui; Virgília recebeume

com esta graciosa palavra: - O senhor hoje há de valsar comigo.

— Em verdade, eu tinha fama e era valsista emérito; não admira que ela me preferisse. Valsamos uma vez, e mais outra

vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e

ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçá-la e todos com os olhos em nós, e nos outros que também se abraçavam e

giravam...Um delírio.

CAPÍTULO 51

É minha!

É minha! disse eu comigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-me a idéia

entranhando no espírito, não à força de martelo, mas de verruma, que é mais insinuativa.

— É minha! dizia eu ao chegar à porta de casa.

Mas aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos

meus arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela. Abaixei-me; era uma

moeda de ouro, uma meia dobra.

— É minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.

Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repelões

da consciência, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara

nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, daquele que a

perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operário que não teria com que dar de comer à

mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda e o

melhor meio, o único meio, era fazê-lo por intermédio de um anúncio ou da polícia. Enviei um carta ao

chefe de polícia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolvêlo

às mãos do verdadeiro dono.

Mandei a carta e almocei tranqüilo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciência valsara tanto na

véspera, que chegou a ficar sufocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janela

que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou à larga.

Ventilai as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras circunstâncias,

o meu ato era bonito, porque exprimia um justo escrúpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que

me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ela me dizia,

reclinada ao peitoril da janela aberta.

— Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsâmico, é uma transpiração

dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?

E a boa dama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da

véspera, redonda, brilhante, nítida, multiplicando-se por si mesma, — ser dez — depois trinta — depois

quinhentas, — exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição.

E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquele ato, revia-me nele, achava-me bom, talvez

grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um pouquinho mais. Assim, eu, Brás

Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar

uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Talvez

não entendas o que aí fica; talvez queiras uma coisa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um

embrulho misterioso. Pois toma lá o embrulho misterioso.

CAPÍTULO 52

O embrulho misterioso

Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo, tropecei num embrulho, que estava na praia. Não digo bem;

houve menos tropeção que pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e corretamente feito, atado com um

barbante rijo, uma coisa que parecia alguma coisa, lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiência, e bati, e o

embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam, — um

pescador curava as redes ainda mais longe, — ninguém que pudesse ver a minha ação; inclinei-me, apanhei o embrulho e

segui.

Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéia de devolver o achado à praia, mas apalpei-o e

rejeitei a idéia. Um pouco adiante, desandei o caminho e guiei para casa.

— Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.

E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. E certo que

não havia ali nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia

de assobiar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me visse abrir o embrulho e

achar dentro um dúzia de lenços velhos ou duas dúzias de goiabas podres. Era tarde; a curiosidade

estavaa guçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... achei... contei... recontei nada

menos de cinco contos de réis. Nada menos. Talvez uns dez mil réis mais. Cinco contos em boas notas

e dobras, tudo asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me

que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente,

e concluí que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus

cuidados maternais a respeito de cinco contos,— eu, que era abastado.

Para não pensar mais naquilo fui de noite à casa do Lobo Neves, que instara muito comigo não

deixasse de freqüentar as recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de polícia; fui-lhe apresentado; ele

lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remetera alguns dias antes. Aventou o caso;

Virgília pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anedota

análoga, que eu ouvi com impaciências de mulher histérica.

De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até

confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária. Gostava de falar de todas as coisas,

menos de dinheiro, e principalmentede dinheiro achado; todavia não era crime achar dinheiro, era uma

felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Providência. Não podia ser outra coisa. Não se

perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos,

apalpam-se a miúdo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se

perderem assim totalmente, numa praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem

crime, nem desonra, nem nada que embaciasse o caráter de um homem. Era um achado, um acerto

feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto e até direi

que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia mau, nem indigno dos benefícios da

Providência.

— Estes cinco contos, dizia eu comigo, três semanas depois, hei de empregá-los em alguma ação boa, talvez um dote a

alguma menina pobre, ou outra coisa assim... hei de ver...

Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao

caso da meia dobra, cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi

enfadado que a coisa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modéstia, — e

porque eu me encolerizasse, replicaram-me que era simplesmente grande.

CAPÍTULO 53

. . . . . . . . .

Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no

meu pensamento; — era o que dizia, e era verdade.

Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era

daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante

criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me,

sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela

me deu, trêmula, — coitadinha, — trêmula de medo, porque era ao portão da chácara. Uniu-nos esse

beijo único, — breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de

terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria,

— uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, — vida de agitações, de

cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e

engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o

fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo.

CAPÍTULO 54

A pêndula

Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas

da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso

e seco, parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre

dois sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:

— Outra de menos...

— Outra de menos...

— Outra de menos...

— Outra de menos...

O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater

nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que se transformam ou

acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo; o derradeiro homem, ao

despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.

Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias

tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança de devotas que se abalroam para

ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados; de certo

tempo em diante não ouvi coisa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela

janela fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela o pensamento

de Virgília, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados

de repouso, e os dois vadios ali postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva.

CAPÍTULO 55

O velho diálogo de Adão e Eva

Brás Cubas...?

Virgília......

BrásCubas.............................

. . . . . . . . .

Virgília..................!

BrásCubas...............

Virg í l i a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

.................................................................. ? ...................................................................

...................................................................................................................................

BrásCubas.....................

Virgília.......

BrásCubas

............................................................................................................................... ...............

.........................................................................................!...........................!..........................................................!

Virgília.......................................?

Brás Cubas.....................!

Virgília.....................!

CAPÍTULO 56

O momento oportuno

Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta diferença?

Um dia vimo-nos, tratamos o casamento, desfizemo-o e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão

nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais.Correm anos, torno a vê-la, damos três ou quatro giros de valsa, e

eis-nos a amar um ao outro com delírio. A beleza de Virgília chegara, é certo, a um alto grau de apuro, mas nós éramos

substancialmente os mesmos, e eu, à minha parte, não me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão

dessa diferença?

A razão não podia ser outra senão o momento oportuno. Não era oportuno o primeiro momento,

porque, se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estávamos para o nosso amor; distinção

fundamental. Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo,

dois anos depois do beijo, um dia queVirgília se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente

a galanteava.

— Que importuno! dizia ela fazendo uma careta de raiva.

Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então ocorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela

mesma careta, e compreendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de importuno a oportuno.

CAPÍTULO 57

Destino

Sim senhor, amávamos. Agora, que todas as leis sociais no-lo impediam, agora é que nos amávamos deveras. Achávamonos

jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatório:

Di pari, come buoi, che vanno a giogo; e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós éramos outra

espécie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem saber até onde, nem por

que estradas escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei

ao destino. Pobre Destino!Onde andarás agora, grande procurador dos negócios humanos? Talvez estejas

a criar pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossível que... Já me não lembra

onde estava... Ah! nas estradas escusas. Disse eu comigo que já agora seria o que Deus quisesse. Era a

nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como explicaríamos a valsa e o resto? Virgília pensava a

mesma coisa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse

que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgília cingiu-me com os seus magníficos braços,

murmurando:

— Amo-te, é a vontade do céu.

E esta palavra não vinha à toa; Virgília era um pouco religiosa. Não ouvia missa aos domingos, é

verdade, e creio até que só ia às igrejas em dia de festa, e quando havia lugar vago em alguma tribuna.

Mas rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com sono. Tinha medo às trovoadas; nessas

ocasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava todas as orações do catecismo. Na alcova dela havia um

oratoriozinho de jacarandá, obra de talha, de três palmos de altura, com três imagens dentro; mas não

falava dele às amigas; ao contrário, tachava de beatas as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei

que havia nela certo vexame de crer, e que a sua religião era uma espécie de camisa de flanela preservativa

e clandestina; mas evidentemente era engano meu.

CAPÍTULO 58

Confidência

Lobo Neves, a princípio, metia-me grandes sustos. Pura ilusão! Como adorasse a mulher, não se

vexava de mo dizer muitas vezes; achava que Virgília era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades

sólidas e finas, amorável, elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava aí. De fresta que era,

chegou à porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existência; faltavalhe

a glória pública. Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu com aquela unção religiosa

de um desejo que não quer acabar de morrer; então compreendi que a ambição dele andava cansada de

bater as asas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus tédios e desfalecimentos, as

amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido de invejas,

despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente havia aí uma crise de melancolia;

tratei de combatê-la.

— Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não pode imaginar o que tenho passado. Entrei na política por gosto, por

família, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida

pública; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o teatro pelo lado da platéia; e, palavra, que era bonito! Soberbo

cenário, vida, movimento e graça na representação. Escriturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar

com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho passado horas e dias... Não há constância de sentimentos,

não há gratidão, não há nada... nada... nada...

Calou-se profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não ouvir coisa nenhuma, a não ser o eco de seus

próprios pensamentos. Após alguns instantes, ergueu

se eestendeu-me a mão: — O senhor há de rir-se de mim, disse ele; mas desculpe aquele desabafo; tinha

um negócio, que me mordia o espírito. E ria, de um jeito sombrio e triste; depois pediu-me que não

referisse a ninguém o que se passara entrenós; ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram

dois deputados e um chefe político da paróquia. Lobo Neves recebeu-os com alegria, a princípio um

tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguém diria que ele não era o mais

afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.

CAPÍTULO 59

Um encontro

Deve ser um vinho bem enérgico a política, dizia eu comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando,

até que na Rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de colégio. Corteja-nos

afetuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando... andando... andando...

— Por que não serei eu ministro?

Esta idéia, rútila e grande, — trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes, — esta idéia começou

uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nela, a achar-lhe graça. Não pensei mais

na tristeza de Lobo Neves; senti a atração do abismo. Recordei aquele companheiro de colégio, as

correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, e perguntei a mim

mesmo por que não seria eu como ele. Entrava então no Passeio Público, e tudo me parecia dizer a

mesma coisa.

— Por que não serás ministro, Cubas? — Cubas, por que não serás ministro de Estado? Ao ouvi-lo,

uma deliciosa sensação me refrescava todo o organismo. Entrei, fui sentar-me num banco, a remoer

aquela idéia. E Virgília que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma

cara, que me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse.

— Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As roupas, salvo o

feitio, pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilônia; o chapéu era contemporâneo do de Gessler.

Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes, — ou, literalmente, os ossos da

pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho; o pêlo desaparecia aos poucos; dos oito

primitivos botões restavam três. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, enquanto as

bainhas eram roídas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem graxa. Ao pescoço flutuavam as

pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um colarinho de oito dias. Creio

que trazia também colete, um colete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado.

— Aposto que me não conhece, Senhor Doutor Cubas? disse ele.

— Não me lembra...

— Sou o Borba, o Quincas Borba.

Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para contar

tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de

colégio, tão inteligente e abastado. O Quincas Borba! Não; impossível; não pode ser. Não podia acabar

de crer que essa figura esquálida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda

essa ruína fosse o Quincas Borba. Mas era. Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo, e o

sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, ele suportava com firmeza o

meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura repelia, a comparação acabrunhava.

— Não é preciso contar-lhe nada, disse ele enfim; o senhor adivinha tudo. Uma vida de misérias, de

atribulações e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão!

Acabo mendigo...

E alçando a mão direita e os ombros, com um ar de indiferença, parecia resignado aos golpes da

fortuna, e não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassível. Não havia nele a resignação

cristã, nem a conformidade filosófica.Parece que a miséria lhe calejara a alma, a ponto de lhe tirar a

sensação de lama. Arrastava os andrajos, como outrora a púrpura: com certa graça indolente.

— Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma coisa.

Um sorriso magnífico lhe abriu os lábios. — Não é o primeiro que me promete alguma coisa, replicou,

e não sei se será o último que não me fará nada. E para quê? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro

sim, porque é necessário comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras. Uma coisa de nada,

uns dois vinténs de angu, nem isso fiam as malditas quitandeiras... Um inferno, meu... ia dizer meu

amigo... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.

— Não?

— Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degrau das escadas de São Francisco,

à esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo,

e ainda não comi...

Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis, — a menos limpa, — e dei-lha. Ele recebeu-ma com os olhos

cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado.

In hoc signo vinces! bradou.

E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um

sentimento misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério, grotescamente sério,

e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma

nota de cinco mil réis.

— Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.

— Sim? acudiu ele, dando um bote para mim.

— Trabalhando, conclui eu.

Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria

trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão triste, e preparei-me para sair.

— Não vá sem eu lhe ensinar a minha filosofia da miséria, disse ele, escarranchando-se diante de

mim.

CAPÍTULO 60

O abraço

Cuidei que o pobre-diabo estivesse doido, e ia afastar-me, quando ele me pegou no pulso, e olhou

alguns instantes para o brilhante que eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça,

uns pruridos de posse.

— Magnífico! disse ele.

Depois começou a andar à roda de mim e a examinar-me muito.

— O senhor trata-se, disse ele. jóias, roupa fina, elegante e... Compare esses sapatos aos meus; que diferença! Pudera,

não! Digo-lhe que se trata. E moças? Como vão elas? Está casado?

— Não.

— Nem eu.

— Moro na rua...

— Não quero saber onde mora, atalhou Quincas Borba. Se alguma vez nos virmos, dê-me outra nota

de cinco mil réis; mas permita-me que não a vá buscar à sua casa. É uma espécie de orgulho... Agora,

adeus; vejo que está impaciente.

— Adeus!

— E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?

E dizendo isto abraçou-me com tal ímpeto que não pude evitá-lo. Separamo-nos finalmente, eu a

passo largo, com a camisa amarrotada do abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte

simpática da sensação, mas a outra. Quisera ver-lhe a miséria digna. Contudo, não pude deixar de

comparar outra vez o homem de agora com o de outrora, entristecer-me e encarar o abismo que separa

as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo...

— Ora adeus! Vamos jantar, disse comigo.

Meto a mão no colete e não acho o relógio. Última desilusão! o Borba furtara-mo no abraço.

CAPÍTULO 61

Um projeto

Jantei triste. Não era a falta do relógio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as

reminiscências de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a abrir em

mim a flor amarela e mórbida do capítulo 25, e então jantei depressa, para correr à casa de Virgília.

Virgília era o presente; eu queria refugiar-me nele, para escapar às opressões do passado, porque o

encontro do Quincas Borba tornara

me aos olhos o passado, não qual fora deveras, mas um passado roto, abjeto, mendigo e gatuno.

Saí de casa, mas era cedo; iria achá-los à mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba, e tive então um

desejo de tornar ao Passeio Público, a ver se o achava; a idéia de o regenerar surgiu-me como uma forte

necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que efetivamente “esse sujeito” ia

por ali às vezes.

— A que horas?

— Não tem hora certa.

Não era impossível encontrá-lo noutra ocasião; prometi a mim mesmo lá voltar. A necessidade de o

regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchia-me o coração; eu começava a sentir

um bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim próprio... Nisto caia a noite; fui ter com Virgília.

CAPÍTULO 62

O travesseiro

Fui ter com Virgília; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgília era o travesseiro do meu

espírito, um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali que ele

costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bem

pesadas as coisas, não era outra a razão da existência de Virgília; não podia ser. Cinco minutos bastaram

para olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação mútua, com as mãos

presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrófula

da vida, andrajo do passado, que me importa que exista, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho

dois palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?

CAPÍTULO 63

Fujamos!

Ai! nem sempre dormir. Três semanas depois, indo à casa de Virgilia, — eram quatro horas da tarde, — achei-a triste e

abatida. Não me quis dizer o que era; mas, como eu instasse muito:

— Creio que o Damião desconfia alguma coisa. Noto agora umas esquisitices nele... Não sei...

Trata-me bem, não há dúvida; mas o olhar parece que não é o mesmo. Durmo mal; ainda esta noite

acordei, aterrada; estava sonhando que ele me ia matar. Talvez seja ilusão, mas eu penso que ele

desconfia...

Tranqüilizei-a como pude; disse que podiam ser cuidados políticos. Virgília concordou que seriam,

mas ficou ainda muito excitada e nervosa. Estávamos na sala de visitas, que dava justamente para a

chácara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janela aberta deixava entrar o vento, que sacudia

frouxamente as cortinas, e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhara o binóculo da

imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso, em que não havia

Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da

vontade. Esta idéia embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, bastava penetrar

naquela habitação dos anjos.

— Virgília, disse, eu proponho-te uma coisa.

— Que é?

— Amas-me?

Oh! suspirou ela, cingindo-me os braços ao pescoço.

— Virgília amava-me com fúria; aquela resposta era a verdade patente. Com os braços ao meu

pescoço, calada, respirando muito, deixou-se ficar a olhar para mim, com os seus grandes e belos olhos,

que davam uma sensação singular de luz úmida; eu deixei-me estar a vê-los, a namorar-lhe a boca,

fresca como a madrugada, e insaciável como a morte. A beleza de Virgília tinha agora um tom grandioso,

que não possuíra antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentélico, de um lavor nobre, rasgado e

puro, tranqüilamente bela, como as estátuas, mas não apática nem fria. Ao contrário, tinha o aspecto

das naturezas cálidas, e podia-se dizer que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo

naquela ocasião, em que exprimia mudamente tudo quanto pode dizer a pupila humana. Mas o tempo

urgia; deslacei-lhe as mãos, peguei-lhe nos pulsos, e, fito nela, perguntei-lhe se tinha coragem.

— De quê?

— De fugir. Iremos para onde nos for mais cômodo, uma casa grande ou pequena, à tua vontade, na

roça ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ninguém nos aborreça, e não haja perigos para

ti, onde vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, ele pode descobrir alguma coisa, e

estarás perdida... ouves? perdida... morta... e ele também, porque eu o matarei, juro-te.

Interrompi-me; Virgília empalidecera muito, deixou cair os braços e sentou-se no canapé. Esteve

assim alguns instantes, sem me dizer palavra, não sei se vacilante na escolha, se aterrada com a idéia da

descoberta e da morte. Fui-me a ela, insisti na proposta, disse-lhe todas as vantagens de uma vida a sós,

sem zelos, nem terrores, nem aflições. Virgília ouvia-me calada; depois disse:

— Não escaparíamos talvez; ele iria ter comigo e matava-me do mesmo modo. Mostrei-lhe que não.

O mundo era assaz vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; ele

não chegaria até lá; só as grandes paixões são capazes de grandes ações, e ele não a amava tanto que

pudesse ir buscá-la, se ela estivesse longe. Virgília fez um gesto de espanto e quase indignação; murmurou

que o marido gostava muito dela.

— Pode ser, respondi eu; pode ser que sim...

Fui até a janela, e comecei a rufar com os dedos no peitoril. Virgília chamou-me; deixei-me estar,

a remoer os meus zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse ali à mão... Justamente, nesse

instante, apareceu na chácara o Lobo Neves. Não tremas assim, leitora pálida; descansa, que não hei de

rubricar esta lauda com um pingo de sangue. Logo que apareceu na chácara, fiz-lhe um gesto amigo,

acompanhado de uma palavra graciosa; Virgília retirou-se apressadamente da sala, onde ele entrou daí

a três minutos.

— Está cá há muito tempo? Disse-me ele.