
MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS:
ANÁLISE DE UMA REALIDADE DINÂMICA·
Publicado na
REVISTA CES 2004
Darlan de Oliveira Lula··
Maria Elizabeth Sacchetto···
Marcos Rogério Cordeiro Fernandes····
RESUMO:
Apresentação
da feição realista dos escritos machadianos levando-se em conta a peculiaridade
da sua narrativa; análise dialógica e social de Memórias Póstumas de Brás
Cubas.
PALAVRAS-CHAVE: literatura brasileira, linguagem anti-realista, realismo dinâmico
ABSTRACT: Presentation
of the realistic face of Machado de Assis' texts by considering the peculiarity
of his narrative; dialogical and social analysis of the novel Memórias Póstumas de Brás
KEY WORDS: Brazilian
literature, anti-realistic language, dynamic realism.
MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS:
ANÁLISE DE UMA REALIDADE DINÂMICA
Ao se propor uma análise em torno da obra de Machado de Assis, devemos levar em conta todo um aparato analítico que já se encontra a nossa disposição a respeito desse escritor e que vem crescendo a cada geração de críticos literários. O que pretendemos demonstrar, a partir de sua obra, é a feição caracteristicamente realista de seus escritos, um realismo peculiar a partir do qual uma construção formal elaborada volta-se para uma análise da sociedade brasileira.
Temos a noção que Machado não se limitou às linhas dominantes, à moda literária vigente em sua época. O que fez o escritor se diferenciar dos outros de seu tempo? Estudos indicam a influência dos romancistas britânicos do século XVIII sobre o brasileiro, mas o nome que mais nos chamou a atenção foi o de Laurence Sterne[*], pela conduta característica de sua narrativa em A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy que influenciou na solução formal de Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro que será analisado neste capítulo[†].
No texto introdutório “Ao leitor”, já avistamos uma referência explícita a Sterne:
Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo.
A influência de Sterne na obra do autor das MPBC não é baseada somente nessa afirmação, mas, principalmente, na semelhança de certos recursos narrativos presentes nos dois livros, pois ambos saltam de um assunto para o outro, do particular para o geral, do abstrato para o concreto e vice-versa, do real para o imaginário e deste para o onírico etc. Tudo isso depende da desenvoltura com que o narrador trata os assuntos. Nas duas narrativas, “a forma livre” é adotada, tendo como fundamento os desvios constantes. A natureza digressiva do que está sendo narrado é a matéria mesma de Tristram Shandy:
Pois nesta longa digressão a que fui acidentalmente levado, como em todas as minhas digressões (com exceção de uma só), há um toque de mestre na proficiência digressiva. (...)
Graças a esse dispositivo, a maquinaria de minha obra é de uma espécie única, dois movimentos contrários são nelas introduzidos e reconciliados, movimentos que antes se julgava estarem em discrepância mútua. Numa só palavra, minha obra é digressiva, mas progressiva também, - isso ao mesmo tempo. (...)
As
digressões são incontestavelmente a luz do sol; são a vida, a alma da leitura;
- retirai-as deste livro, por exemplo, - e será melhor se tirardes o livro
juntamente com ela. (Tristram Shandy,
pp.105-106)
As digressões, que são uma conseqüência da forma livre, é a “alma da leitura” deste livro. Existem até capítulos em que o autor nos diz como se operam esses movimentos digressivos através de “uma linha razoavelmente reta”, mas que, na verdade, possui curvas assinaladas, curvas denteadas, curvas em forma de balão, enfim, cabriolas digressivas que confirmam o seu passeio ao ar livre diante do método narrativo[‡]:

Ao fazer isso, Sterne, deliberadamente, expunha sob os olhos do público leitor os bastidores da sua oficina, adensando ainda mais esse fato com a utilização de artifícios tipográficos a que ele recorre com o propósito de desmistificar a ilusão ficcional pela ênfase na própria materialidade do livro, como o caso de intensificar a morte de Yorick através de uma folha toda em preto[§], ou construindo capítulos com as páginas em branco[**]. Tudo isso vem pontuado por uma conversa permanente com o leitor e pelo respeito por suas considerações:
O respeito mais verdadeiro que podeis mostrar pelo
entendimento do leitor será dividir amigavelmente a tarefa com ele, deixando-o
imaginar, por sua vez, tanto quanto imaginais vós mesmos. (Tristram Shandy, p.136)
Os leitores são trazidos para dentro do próprio texto e nele ouvem a si próprios:
- Como pôde a senhora mostrar-se tão desatenta ao ler
o último capítulo? Nele eu vos disse que
minha mãe não era uma papista. - Papista! O senhor absolutamente não me
disse isso. Senhora, peço-vos licença para repetir outra vez que vos disse tal
coisa tão claramente quanto as palavras, por inferência direta, o poderiam
dizer. - Então, senhor, devo ter pulado a página. - Não, senhora - não
perdestes uma só palavra. - Então devo ter pegado no sono, senhor. - Meu
orgulho, senhora, não vos permite semelhante refúgio. - Então declaro que nada
sei do assunto. - Essa, senhora, é exatamente a falta de que vos acuso; e, à
guisa de punição por ela, insisto em que volteis imediatamente atrás, isto é,
tão logo chegueis ao próximo ponto final, leiais o capítulo todo novamente. (Tristram Shandy, p.94)
Às vezes, isso não se dá de modo tão visível. Para se ter uma idéia melhor sobre esse assunto, devemos entender alguns pormenores a respeito do leitor. Existem vários tipos de leitores, mas o que nos interessa agora é o conceito de leitor implícito, porque ele não tem existência real (como é o caso do exemplo da senhora - leitora - citado aqui). Esse tipo de leitor materializa o conjunto das preorientações que um texto ficcional oferece, como condições de recepção, a seus leitores possíveis. A concepção do leitor implícito designa uma construção textual que antecipa a presença do receptor, descrevendo “um processo de transferência pelo qual as estruturas do texto se traduzem nas experiências do leitor através dos atos de imaginação;”[††] por isso, o recurso narrativo de se utilizar o leitor implícito torna-se importante, porque ele dará pistas ao leitor real e tentará conduzi-lo para uma compreensão e interpretação adequadas da obra.
A figura desse leitor é a confirmação de mais uma das muitas vozes contidas no romance. Isso cria uma polifonia sugerida pela técnica narrativa do autor de se intercalar estilos[‡‡].
Esse leitor, nas MPBC, fica totalmente à mercê do narrador que utiliza uma técnica de sacudir o ponto principal diante do seu nariz, mantendo-o também tão entretido e perplexo com outras coisas que, provavelmente, não enxergará o ponto sugerido e sugestivo:
A minha idéia, depois de tantas cabriolas, constituíra-se idéia fixa. Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. (...)
Era
fixa a minha idéia, fixa como... Não me
ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a Lua, talvez as pirâmides
do Egito, talvez a finada dieta germânica. Veja o leitor a comparação que
melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque
ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. (MPBC, cap. IV, os grifos são meus)
Atente-se para o fato de o narrador
desviar o foco narrativo e, ainda por cima, oferece dicas falsas ao leitor, uma
vez que a lua não é fixa, pois se move; as pirâmides do Egito não são fixas,
pois desgastam-se com o tempo e nem mesmo a dieta germânica é fixa, sendo
“finada”. Utilizando-se constantemente das digressões, assim como
Vejamos outro exemplo da utilização de torneios digressivos à maneira de Sterne:
...este livro e o meu estilo
são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam,
urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem... (MPBC, cap.LXXI)
Percebemos que há aí uma teoria esboçada do método utilizado pelo narrador para contar as suas memórias, equiparando-se àquele capítulo do Tristram Shandy em que se operam movimentos digressivos através de “uma linha razoavelmente reta.” Temos, então, um narrador que subverte o tempo, antecipa acontecimentos, comprime lapsos enormes em uma página, narra minutos em capítulos inteiros, cita outros autores (às vezes sem fidelidade total), dá titulos metanarrativos a capítulos, cria suspense, engana o leitor ao afirmar o contrário do que realiza e confessa dizendo “que isto de método, sendo, como é, uma cousa indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta.”[§§]
Essas são demonstrações não apenas de recursos para desviar a atenção do leitor do assunto principal, mas também se constituem um artifício literário, uma técnica narrativa, diferente das que se usavam àquela época. Machado acabava fugindo das normas estéticas vigentes, até mesmo criticando e satirizando o modo de construção textual do seu tempo:
Vim... Mas não; não
alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo
papel, com grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram
melhor a leitores pesadões; e nós não somos um público in-folio, mas in-12,
pouco texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas...
principalmente vinhetas... Não, não alonguemos o capítulo (MPBC, cap.XXII).
Isso fica ainda mais marcado por intermédio de um conto seu, “Miss Dollar”[***], no qual constrói uma tipologia do leitor (leitor implícito) segundo o gosto estético da época, dirigindo-se a ele dizendo que, se é rapaz e dado ao gênio melancólico, “deve deliciar-se com a leitura dos sonetos de Camões ou os Cantos de Gonçalves Dias.” Notemos o gosto literário de tal leitor, que fica caracterizado como aquele dado à leitura dos românticos.
Se não é suscetível a estes devaneios e melancolias, o leitor imaginará uma Miss Dollar totalmente diferente da outra, sendo “amiga da boa mesa e do bom copo,” preferindo “um quarto de carneiro a uma página de Longfellow, cousa naturalíssima quando o estômago reclama, e nunca chegará a compreender a poesia do pôr-do-sol.” Este leitor já prefere uma Miss Dollar mais afeita aos temperamentos biológicos e fisiológicos, caracterizando-se como o que prefere os naturalistas.
Mas, se já tiver passado a segunda mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso, o leitor já não terá esses mesmos sentimentos, pois, para ele, a Miss Dollar seria uma inglesa de cinqüenta anos, “dotada com algumas mil libras esterlinas, e que, aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever um romance, realizasse um romance verdadeiro, casando com o leitor aludido.” Essa situação sugere uma temática de casamento por interesse, típica do enredo realista.
Machado, ao final, diz que essas não são leituras exatas para o seu conto, pois “a Miss Dollar do romance não é a menina romântica, nem a mulher robusta, nem a velha literata,” mas uma cadelinha galga. Assim, ele faz menção ao Romantismo, ao Naturalismo e ao Realismo, descartando leitor por leitor e demonstrando o desgaste de cada uma dessas escolas. Esse exemplo já sugere que o escritor se coloca fora das estéticas dominantes da época, longe dos padrões das escolas mencionadas, promulgando um estilo que percorre todos os outros e os supera.
Nas MPBC, a idéia sugerida em “Miss Dollar” é mostrada de uma maneira
mais latente. A figura do narrador vai demonstrando esse aspecto: ele critica
os recursos textuais utilizados e que estavam em voga, mostrando também o que
pode ser feito para isso mudar. Através da violação de uma norma do gênero (o
de sempre ocultar aos olhos do público o modo de construção da narrativa), o
narrador o expõe, demonstrando, dessa forma, como o romance é produzido (neste
trecho, podemos observar, assim como
Meu cérebro foi um tablado
em que se deram peças de todo gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a
comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemonium, alma sensível, uma
barafunda de cousas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna
até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto
da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de
vária casta e feição. (MPBC, cap.XXXIV)
É assim que chama a atenção do
leitor para o fato de ele estar lendo um livro, um artefato literário,
alertando-o para a confusão que se opera entre realidade e ficção, uma vez que
a obra se recusa a parecer verossímil, destruindo no espírito do leitor a
ilusão de a vida romanesca por ele vivida durante o tempo da leitura ter um
estatuto de realidade idêntico ao da vida cotidiana. Exemplo maior são os
capítulos que, como
Outro aspecto, reafirmando a nossa proposta de que Machado se coloca fora das estéticas dominantes da época, é a própria idéia de o narrador já dizer no primeiro capítulo que não é “propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”, isto é, só depois de morto é que lhe surgiu a idéia de ser um escritor. Esse recurso de se matar o narrador, deixando entrever a falta de verossimilhança da narrativa, é uma das mais marcantes originalidades de Machado de Assis. A época pedia uma reflexão sobre a função da ficção diante do vazio social nas obras literárias e ele possuía a consciência de que a retórica então predominante fugia à reflexão. Percebeu que, para refletir sobre a ficção (e como conseqüência sobre as decorrências sociais daquele tempo), era preciso “matar” o escritor adequado ao horizonte de expectativas do público da época.[†††] Matando Brás Cubas, ele o coloca fora das estéticas circulantes para inseri-lo em um mundo onde se privilegia a ordenação de raciocínios imaginativos, reflexivos e dinâmicos.
Cabe-nos, aqui, uma ressalva: se a obra machadiana impede o leitor de confundir realidade e ficção, como o realismo se mostra na obra de Machado? Em primeiro lugar, ele possui um realismo peculiar, e, em segundo lugar, devemos entender que a realidade em Machado é, antes de tudo, uma realidade que se mascara, sendo necessário desdobrá-la em sua obra.
Olhando por outro lado, a questão de Brás Cubas ser um defunto autor não desmancha a verossimilhança realista, embora a desrespeite. Para termos a veracidade dessa confirmação, faremos o seguinte: a partir da visão do memorialista Brás Cubas, traçaremos o perfil de duas figuras de MPBC, D. Plácida, uma agregada velha, que não tem onde cair morta, encontrando em Brás o protetor, e Cotrim, o cunhado negocista, ex-traficante de escravos.
Comecemos com D. Plácida, uma mulher
pobre que costura, faz doces por ofício, ensina crianças do bairro, tudo
indiferentemente e sem descanso, “para comer e não cair,” com o vocábulo “cair”
dando a idéia de pedir esmolas, cair
- Queres ser melhor do que eu? Não sei donde te vêm
essas fidúcias de pessoa rica. Minha camarada, a vida não se arranja à toa; não
se come vento. Ora esta! Moços tão bons como o Policarpo da venda, coitado...
Esperas algum fidalgo, não é? (MPBC,
cap.LXXIV).
Já começamos a perceber como Brás Cubas vê a figura de D. Plácida, a figura social que ela representa: uma pessoa que, após ser comprada por algum dinheiro, faz de tudo para agradar quem a beneficiou, até mesmo passar por cima de questões morais e religiosas. E as recriminações da mãe? Não seriam os ecos do pensamento do próprio Brás Cubas, avisando-lhe para ficar onde realmente é o seu lugar, ou seja, casando com uma pessoa de seu próprio meio social, um “coitado” que trabalha em uma “venda” e deixando de “fidúcias de pessoa rica”? Vamos acompanhar agora o próprio dito de Brás Cubas, com ele mesmo, logo depois que D. Plácida lhe confidencia a sua história:
Assim, pois, o sacristão da
Sé, um dia, ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora
na vida de D. Plácida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou,
disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de
festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias
vadias brotou D. Plácida. É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando
nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: - Aqui estou. Para
que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam. -
Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal,
ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o
fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada,
amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até
acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num
momento de simpatia (MPBC,
cap.LXXIV).
Podemos perceber a indiferença de Brás diante da situação da pobre senhora, transmitida por essas linhas que se operam de modo complexo, dando-nos a idéia de que as inaceitáveis realidades da pobreza correspondem a um propósito: reproduzir a ordem social que é a desgraça de D. Plácida. Isso resulta em uma espécie de choro seco, a que se acrescenta o gozo que tanta inferioridade proporciona à superioridade do narrador. Razões de ser que seguem as conveniências da camada dominante brasileira, cujo teor indefensável este arranjo literário universaliza ao extremo, pois as relações sociais são figuradas em nível do interesse e quem sempre tem o privilégio é a classe abastada.[‡‡‡] Assim, o homem rico admite sem dificuldade a dimensão funcional da miséria, cuja finalidade na terra, se existe, é de lhe proporcionar vantagens: “o vício é muitas vezes o estrume da virtude.”[§§§]
Notemos que o método dessa abordagem é de inigualável valor e vai longe: a forma de pobreza em questão sai do âmbito acanhado e intelectualmente segregado e é trazida ao rol da atualidade plena, transformando o procedimento em uma verdadeira traição de classe por parte de Brás Cubas, pois ele mesmo nos conta os seus achaques. Dessa forma, há aí um realismo intensificado, que não possui uma noção mais cotidiana ou doutrinária da verossimilhança, mas que consubstancia uma mediação recíproca das posições sociais, dando à humilde figura de D. Plácida a extraordinária plenitude de referências.[****]
Partamos agora para a figura do Cotrim, o cunhado negocista. Das qualificações dadas a ele, estão a de comerciante estabelecido, contrabandista de escravos, pai de família extremoso, membro de várias irmandades (associações religiosas e auxiliadoras). Em um capítulo intitulado “O verdadeiro Cotrim”, Brás o define da seguinte forma:
Como era muito seco de
maneiras tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato
alegado neste particular era o de mandar com freqüência escravos ao calabouço,
donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os
perversos e fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos,
habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de
negócio requeria, e não se pode
honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de
relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios
encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando lhe morreu
Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era
tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido
de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação de avareza; verdade é
que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz)
mandara-lhe tirar o retrato a óleo (MPBC,
cap.CXXIII, os grifos são meus).
O que podemos notar é a elaboração da narrativa a partir de suas contradições e, em vez de aprofundá-las, Brás procura normalizá-las. Daí a sucessão de elogios (ou punhaladas, segundo a perspectiva), que transforma em modelo de virtudes um compêndio dos males do tempo. Em escala de pura retórica, o procedimento afirma a experiência efetiva da classe dominante brasileira, com Brás trabalhando com elogios que incriminam e justificações condenáveis que se encobrem.
A perfídia do retrato explora os vexames próprios ao caso brasileiro. Há uma consistência em sublinhar a estrita normalidade e adequação social da figura, permitindo reconhecer virtudes onde parecia haver fraquezas. Assim, por que não seria econômico um negociante? Como não seria duro um contrabandista de africanos? Escravos perversos e fujões não merecem castigo? Não pode ser que faltem sentimentos pios a um pai que sofre tanto quando lhe morre a filha, sendo ainda mais impossível que o membro de várias confrarias beneficentes seja avaro. O bom senso destes raciocínios acata certa realidade, seguindo o princípio de que as classes dominantes são exemplares por natureza, mas, vista sob outro ângulo, a defesa anterior só condena: o escravismo configura uma infração acintosa aos Direitos do Homem, o castigo físico uma indignidade, o contrabando um ato ilícito, ao passo que as formas de religiosidade só existem como propaganda dessa pessoa diante da sociedade.
Nota-se que o foco não está especificamente em Cotrim, mas no esforço do cunhado Brás para descaracterizar o conjunto e desculpá-lo, merecendo destaque este uso perverso da idéia de condicionamento sociológico: “não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais,” empregada em favor do escravista e não contra o instituto da escravidão. Logo se vê que o mecanismo satírico da passagem está nas desculpas que inculpam, nas atenuantes que agravam, ou, mais genericamente, na função acusatória da defesa que, na verdade, é uma denúncia do acusado e também do defensor. Essa denúncia acaba-se confirmando, mas não dá resultados, pois a dinâmica do episódio liga-se ao ridículo dos comparsas (Brás e Cotrim) tanto quanto à força e à realidade das suas posições que não deixam espaço útil à exigência moral, fazendo com que a mesma mescla de traços que lhes definem o atraso os tornam membros respeitáveis da classe dominante nacional.
Digamos, portanto, que Brás concede e até detalha as brutalidades do cunhado, mas o faz no afã de explicá-las como parte da ordem, que é esta mesma, e ponto final.
Dessa forma, o romance não tenta fixar a contradição e, muito menos, a transformação, mas implica uma relação, fazendo com que surja um Brás Cubas inconstante e abocanhador de vantagens da iniqüidade social cujo limite não se patenteia.
Machado, embora tenha recorrido a uma linguagem que sugere uma feição anti-realista, soube enfocar os aspectos sociais em sua obra como ninguém em sua época, dando uma fundamentação realista a seus escritos.
A julgar pelos caminhos que percorremos neste ensaio, percebemos que a técnica narrativa empregada na obra de Machado de Assis não era muito conhecida no Brasil, pois se lia muito o realismo francês que influenciou os nossos romantismo e realismo.[††††] Como conseqüência, tínhamos um grande número de escritores que não apresentavam as características do realismo machadiano que se aliava a discursos estilísticos anti-realistas (assim como em seu influenciador Laurence Sterne). Esse procedimento narrativo em primeiro plano e a conseqüente mediação do modo de vida de Brás Cubas dão um resultado surpreendente, assegurando ao romance a coesão e a verossimilhança, caracterizadas em muita observação de realidade e verdadeiros perfis sintéticos do estilo cultural do país. Em outras palavras, fica clara a intenção de sintetizar um tipo representativo da classe dominante brasileira através das relações que lhe são peculiares, dando vida ao protagonista diante do recurso de se trazer à cena um elenco de personagens que em certo plano resumisse a sociedade nacional.
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ISER, Wolfgang. O ato da leitura. São Paulo: Ed. 34, 1996. Vol.1.
LULA, Darlan de Oliveira et al. O
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SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Ed. 34, 2000 (A).
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STERNE, Laurence. A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s.d.
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
Machado de Assis
AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU
CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA
LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS
Ao leitor
Que
Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é
que admira e
consterna.
O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não
tiver os cem
leitores
de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez.. Dez? Talvez cinco.
Trata-se, na
verdade,
de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um
Sterne, ou de um
Xavier
de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra
de finado.
Escrevia-a
com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que
poderá sair desse
conúbio.
Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao
passo que a
gente
frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima
dos graves e do amor
dos
frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.
Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião,
e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O
melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que
as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito
contar o processo extraordinário que empreguei na
composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria
curioso, mas nimiamente extenso, aliás desnecessário
ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar,
fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar,
pago-te com um piparote, e adeus.
Brás
Cubas
CAPÍTULO
1
Óbito
do Autor
Algum
tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é,
se poria em
primeiro
lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo
nascimento,
duas
considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou
propriamente
um
autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a
segunda é que o escrito
ficaria
assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a
pôs no intróito,
mas
no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma
sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi.
Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos,
era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao
cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que
não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava
— uma chuvinha miúda, triste e constante, tão
constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar
esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira
de minha cova: — “Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis
dizer comigo que a natureza parece estar chorando a
perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a
humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu,
aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo
isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais
íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre
finado.”
Bom e
fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi
assim que cheguei
à
cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered
country de Hamlet, sem as
ânsias
nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira
tarde do espetáculo.
Tarde
e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras,
minha irmã Sabina,
casada
com o Cotrim, — a filha, um lírio-do-vale, — e... Tenham paciência! daqui a
pouco lhes direi
quem
era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não
parenta, padeceu
mais
do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo
que se deixasse
rolar
pelo chão, convulsa. Nem o meu óbito era coisa altamente dramática... Um
solteirão que expira
aos
sessenta e quatro anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma
tragédia. E dado que
sim,
o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da
cama, com os olhos
estúpidos,
a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção.
—
Morto! morto! dizia consigo.
É a
imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vôo
desde o Ilisso
às
ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, — a imaginação dessa
senhora também voou
por
sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil... Deixá-la ir;
lá iremos mais tarde;
lá
iremos quando eu me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer
tranqüilamente, metodicamente,
ouvindo
os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas
folhas de tinhorão
da
chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora,
à porta de um
correeiro.
Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia
parecer. De certo
ponto
em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns
ímpetos de vaga
marinha,
esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo
fazia-se-me
planta,
e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.
Morri
de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia
grandiosa
e
útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é
verdade. Vou expor-lhe
sumariamente
o caso. Julgue-o por si mesmo.
CAPÍTULO
2
O
emplasto
Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na
chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no
cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a
pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer.
Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um
grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X:
decifra-me ou devoro-te.
Essa
idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto
antihipocondríaco,
destinado
a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então
redigi,
chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão.
Todavia, não neguei
aos
amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um
produto de tamanhos e
tão
profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso
confessar tudo: o que me
influiu
principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos,
esquinas, e
enfim
nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para
que negá-lo? Eu tinha
a
paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me
arguam esse defeito; fio,
porém,
que esse talento me hão de reconhecer os hábeis.
Assim, a minha idéia trazia duas faces, como as
medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado,
filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada.
Digamos: — amor da glória.
Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava
dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só
devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro
tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória
era a coisa mais verdadeiramente humana que há no
homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.
Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto
ao emplasto.
CAPÍTULO
3
Genealogia
Mas,
já que falei nos meus dois tios, deixa-me fazer aqui um curto esboço
genealógico.
O
fundador de minha família foi um certo Damião Cubas, que floresceu na primeira
metade do
século
XVIII. Era tanoeiro de ofício, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na
penúria e na
obscuridade,
se somente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu,
permutou o
seu
produto por boas e honradas patacas, até que morreu, deixando grosso cabedal a
um filho, o licenciado
Luís
Cubas. Neste rapaz é que verdadeiramente começa a série de meus avós — dos avós
que a minha
família
sempre confessou —, porque o Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro, e
talvez mau
tanoeiro,
ao passo que o Luís Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos
amigos
particulares
do vice-rei conde da Cunha.
Como
este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai,
bisneto do
Damião,
que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, herói nas jornadas da Africa, em
prêmio da
façanha
que praticou arrebatando trezentas cubas aos mouros. Meu pai era homem de
imaginação;
escapou
à tanoaria nas asas de um calembour. Era um bom caráter, meu pai, varão
digno e leal como
poucos.
Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse
mundo?
Releva
notar que ele não recorreu à inventiva senão depois de experimentar a
falsificação; primeiramente,
entroncou-se
na família daquele meu famoso homônimo, o capitão-mor Brás Cubas, que fundou a
vila
de
São Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de
Brás. Opôs-se-lhe,
porém,
a família do capitão-mor, e foi então que ele imaginou as trezentas cubas
mouriscas.
Vivem
ainda alguns membros da minha família, minha sobrinha Venância, por exemplo, o
lírio-dovale,
que é
a flor das damas do seu tempo; vive o pai, o Cotrim, um sujeito que...Mas não
antecipemos
os
sucessos; acabemos de uma vez como nosso emplasto.
CAPÍTULO
4
A
idéia fixa
A
minha idéia, depois de tantas cabriolas, constituíra-se idéia fixa. Deus te
livre, leitor, de uma idéia
fixa;
antes um argueiro, antes uma trave no olho. Vê o Cavour; foi a idéia fixa da
unidade italiana que
o
matou. Verdade é que Bismarck não morreu; mas cumpre advertir que a natureza é
uma grande
caprichosa
e a história uma eterna loureira.
Por
exemplo, Suetônio deu-nos um Cláudio, que era um simplório, — ou “uma abóbora”
como lhe
chamou
Sêneca, e um Tito, que mereceu ser as delícias de Roma. Veio modernamente um professor
e
achou
meio de demonstrar que dos dois césares, o delicioso, o verdadeiramente
delicioso, foi o “abóbora”
de
Sêneca. E tu, madama Lucrécia, flor dos Bórgias, se um poeta te pintou como a
Messalina católica,
apareceu
um Gregorovius incrédulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a
lírio, também
não
ficaste pântano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o sábio.
Viva pois a história, a volúvel história que dá para
tudo; e, tomando à idéia fixa, direi que é ela a que faz os varões fortes
e os doidos; a idéia móbil, vaga ou furta-cor é a que
faz os Cláudios, — fórmula Suetônio.
Era
fixa a minha idéia, fixa como... Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse
mundo: talvez a
lua,
talvez as pirâmides do Egito, talvez a finada dieta germânica. Veja o leitor a
comparação que
melhor
lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não
chegamos à parte
narrativa
destas memórias. Lá iremos. Creio que prefere a anedota à reflexão, como os
outros leitores,
seus
confrades, e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que
este livro é escrito
com
pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século,
obra supinamente
filosófica,
de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não
edifica nem destrói,
não
inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que
apostolado.
Vamos
lá; retifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a história com os
seus caprichos
de
dama elegante. Nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina, nenhum escreveu a
confissão de
Augsburgo;
pela minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéia de que
Sua Alteza,
com a
mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto aos ingleses o emplasto Brás
Cubas. Não
se
riam dessa vitória comum da farmácia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé
de cada bandeira
grande,
pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente
particulares, que se
hasteiam
e flutuam à sombra daquela, e não poucas vezes lhe sobrevivem? Mal comparando,
é como a
arraia-miúda,
que se acolhia à sombra do castelo-feudal; caiu este e a arraia ficou. Verdade
é que se fez
graúda
e castelã... Não, a comparação não presta.
CAPÍTULO
5
Em
que aparece a orelha de uma Senhora
Senão
quando, estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção, recebi em
cheio um
golpe
de ar; adoeci logo, e não me tratei. Tinha o emplasto no cérebro; trazia comigo
a idéia fixa dos
doidos
e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e remontar ao céu,
como uma águia
imortal,
e não é diante de tão excelso espetáculo que um homem pode sentir a dor que o
punge. No
outro
dia estava pior; tratei-me enfim, mas incompletamente, sem método, nem cuidado,
nem persistência;
tal
foi a origem do mal que me trouxe à eternidade. Sabem já que morri numa
sexta-feira, dia aziago, e
creio
haver provado que foi a minha invenção que me matou. Há demonstrações menos
lúcidas e não
menos
triunfantes.
Não
era impossível, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um século, e a
figurar nas folhas
públicas,
entre macróbios. Tinha saúde e robustez. Suponha-se que, em vez de estar
lançando os alicerces
de uma
invenção farmacêutica, tratava de coligir os elementos de uma instituição
política, ou de uma
reforma
religiosa. Vinha a corrente de ar, que vence em eficácia o cálculo humano, e lá
se ia tudo.
Assim
corre a sorte dos homens.
Com
esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas com certeza
mais formosa
entre
as contemporâneas suas, a anônima do primeiro capítulo, a tal, cuja imaginação
à semelhança das
cegonhas
do Ilisso... Tinha então 54 anos, era uma ruína, uma imponente ruína. Imagine o
leitor que nos
amamos,
ela e eu, muitos anos antes e que um dia, já enfermo, vejo-a assomar à porta da
alcova...
CAPÍTULO
6
Chimène,
qui l’ eût dit? Rodrigue,qui l’eût cru?
Vejo-a
assomar à porta da alcova, pálida, comovida, trajada de preto, e ali ficar
durante um minuto,
sem
ânimo de entrar ou detida pela presença de um homem que estava comigo. Da cama,
onde jazia,
contemplei-a
durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto. Havia
já dois
anos
que nos não víamos, e eu via-a agora não qual era, mas qual fora, quais fôramos
ambos, porque um
Ezequias
misterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou o sol, sacudi todas
as misérias, e este
punhado
de pó, que a morte ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que o tempo,
que é o
ministro
da morte. Nenhuma água de Juventa igualaria ali a simples saudade.
Creiam-me,
o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota
da
baba
de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode
gozar deveras,
porque
entre uma e outra dessas duas ilusões, melhor é a que se gosta sem doer.
Não
durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente expeliu o passado.
Talvez eu
exponha
ao leitor, em algum canto deste livro, a minha teoria das edições humanas.O que
por agora
importa
saber é que Virgília — chamava-se Virgília — entrou na alcova, firme, com a
gravidade que
lhe
davam as roupas e os anos, e veio até o meu leito. O estranho levantou-se e
saiu. Era um sujeito, que
me
visitava todos os dias para falar do câmbio, da colonização e da necessidade de
desenvolver a
viação
férrea; nada mais interessante para um moribundo. Saiu; Virgília deixou-se
estar de pé; durante
algum
tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De
dois grandes
namorados,
de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas
dois corações
murchos,
devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim
saciados.Virgília
tinha
agora a beleza da velhice, um ar austero e maternal; estava menos magra do que
quando a vi, pela
última
vez, numa festa de São João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só
agora começavam
os
cabelos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.
—
Anda visitando os defuntos? Disse-lhe eu. — Ora, defuntos! respondeu Virgília
com um muxoxo.
E
depois de me apertar as mãos: — Ando a ver se ponho os vadios para a rua.
Não
tinha a carícia lacrimosa de outro tempo; mas a voz era amiga e doce.
Sentou-se. Eu estava só,
em
casa, com um simples enfermeiro; podíamos falar um ao outro, sem
perigo.Virgília deu-me longas
notícias
de fora, narrando-as com graça, com um certo travo de má língua, que era o sal
da palestra; eu,
prestes
a deixar o mundo, sentia um prazer satânico em mofar dele, em persuadir-me que
não deixava
nada.
— Que
idéias essas! Interrompeu-me Virgília um tanto zangada. — Olhe que eu não volto
mais.
Morrer!
Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos.
E
vendo o relógio:
—
Jesus! são três horas. Vou
me
embora
— Já?
— Já;
virei amanhã ou depois.
— Não
sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não tem senhoras...
— Sua
mana?
— Há
de vir cá passar uns dias, mas não pode ser antes de sábado.
Virgília
refletiu um instante, levantou os ombros e disse com gravidade:
—
Estou velha! Ninguém mais repara
Nhonhô
era um bacharel, único filho de seu casamento, que, na idade de cinco anos,
fora cúmplice
inconsciente
de nossos amores. Vieram juntos, dois dias depois, e confesso que, ao vê-los
ali, na minha
alcova,
fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu corresponder logo às palavras
afáveis do
rapaz.
Virgília adivinhou-me e disse ao filho:
—
Nhonhô, não repares nesse grande manhoso que aí está; não quer falar para fazer
crer que está à
morte.
Sorriu
o filho, eu creio que também sorri, e tudo acabou em pura galhofa, Virgília
estava serena e
risonha,
tinha o aspecto das vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que
pudesse
denunciar
nada; uma igualdade de palavra e de espírito, uma dominação sobre si mesma, que
pareciam
e
talvez fossem raras. Como tocássemos, casualmente, nuns amores ilegítimos, meio
secretos, meio
divulgados,
via-a falar com desdém e um pouco de indignação da mulher de que se tratava,
aliás sua
amiga.
O filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquela palavra digna e forte, e eu
perguntava a mim mesmo
o que
diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...
Era o
meu delírio que começava.
CAPÍTULO
7
O delírio
Que
me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência
mo agradecerá. Se
o
leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o
capítulo; vá direito à
narração.
Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que
se passou na
minha
cabeça durante uns vinte a trinta minutos.
Primeiramente,
tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim,
que
me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.
Logo
depois, senti-me transformado na Suma Teologica de São Tomás, impressa
num volume, e
encadernada
em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéia esta que me deu ao corpo a
mais
completa
imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do
livro, e cruzandoas
eu
sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe
dava a imagem de
um
defunto.
Ultimamente,
restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me
ir,
calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de
tal modo se tornou
vertiginosa,
que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me
parecia sem
destino.
— Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos
séculos.
Insinuei
que deveria ser muitíssimo longe; mas o hipopótamo não me entendeu ou não me
ouviu, se
é que
não fingiu uma dessas coisas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era
descendente do
cavalo
de Aquiles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a estes
dois quadrúpedes:
abanou
as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora
não se me dá de
confessar
que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a
origem dos
séculos,
se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa
mais ou menos
do
que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. Como ia de
olhos fechados,
não
via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio aumentava com a jornada, e
que chegou uma
ocasião
em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos
e vi que o meu
animal
galopava numa planície branca de neve, com uma ou outra montanha de neve,
vegetação de
neve,
e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de
neve. Tentei falar,
mas
apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa:
—
Onde estamos?
— Já
passamos o Éden.
—
Bem; paremos na tenda de Abraão.
— Mas
se nós caminhamos para trás! redargüiu motejando a minha cavalgadura.
Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a
parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta,
e o resultado impalpável. E depois — cogitações de
enfermo — dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível
que os séculos, irritados com lhes devassarem a
origem, me esmagassem entre as unhas que deviam ser tão seculares como
eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho,
e a planície voava debaixo dos nossos pés, até que o animal
estacou, e pude olhar mais tranqüilamente em torno de
mim. Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura da neve, que
desta vez invadira o próprio céu, até ali azul.
Talvez, a espaços, me aparecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando
ao vento as suas largas folhas. O silêncio daquela
região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara
estúpida diante do homem.
Caiu
do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de
mulher me
apareceu
então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a
vastidão das
formas
selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos
perdiam-se
no
ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse
nada, não cheguei
sequer
a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem
era e como se
chamava:
curiosidade de delírio.
—Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua
inimiga.
Ao
ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou
uma gargalhada,
que
produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um
longo gemido quebrou
a
mudez das coisas externas.
Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata;
é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro flagelo.
—
Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar
me da
existência.
—
Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho;
provarás ainda, por
algumas
horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste,
vives; e se a
tua
consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.
Dizendo
isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar,
como se fora
uma
pluma. Só então, pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais
quieto; nenhuma
contorção
violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral,
completa, era a da
impassibilidade
egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam
encerradas
no
coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de
juventude, mescla de
força
e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.
— Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de
mútua contemplação.
— Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda,
tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade que
enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado,
isto é, uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger nem
palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu conheço é só
mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse
rosto indiferente, como o sepulcro E por que Pandora?
— Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o
maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?
— Sim; o teu olhar fascina-me.
—
Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a
devolver
me o
que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.
Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele
imenso vale, afigurou-me que era o último som que chegava a
meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita
do mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais
alguns anos.
—
Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para
devorar e seres
devorado
depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que
eu te deparei
menos
torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da
noite, os aspectos
da
terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu,
sublime idiota?
—
Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida,
se não tu? e,
se eu
amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?
—
Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o
minuto que vem. O
minuto
que vem é forte, jocundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e
perece como o outro,
mas o
tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo,
conservação. A
onça
mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho
é tenro tanto
melhor:
eis o estatuto universal. Sobe e olha.
Isto
dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das
vertentes, e
contemplei,
durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única.
Imagina tu,
leitor,
uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as
paixões, o tumulto
dos
impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e
das coisas. Tal era o
espetáculo,
acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma
intensidade
que
lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais
lenta e a imaginação
mais
vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos.
Para descrevê-la
seria
preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não
obstante, porque os olhos
do
delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, — flagelos e
delícias, — desde essa
coisa
que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor
multiplicando a miséria, e
via a
miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que
inflama, a inveja que
baba,
e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a
melancolia, a riqueza, o
amor,
e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo.
Eram as formas
várias
de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava
eternamente as suas
vestes
de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à
indiferença,
que
era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem,
flagelado e
rebelde,
corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva,
feita de retalhos,
um
retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a
ponto precário, com
a
agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, —
ou lhe fugia
perpetuamente,
ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela
ria, como
um
escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.
Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um
grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar
nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral,
fui eu que me pus a rir, — de um riso descompassado e idiota.
— Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a
pena, — talvez monótona — mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava
o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas
de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e
digere
me; a
coisa é divertida, mas digere-me.
A
resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que
continuavam a
passar,
velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas
tristes, como os
Hebreus
do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e todas elas pontuais
na sepultura.
Quis
fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: — “Bem,
os séculos vão
passando,
chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da
eternidade.” E
fixei
os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então
tranqüilo e
resoluto,
não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra
e de luz, de
apatia
e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias
novas, de novas ilusões;
em
cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois,
para remoçar mais
tarde.
Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a
história e a civilização,
e o
homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio,
a rude aldeia e
Tebas
de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se
orador, mecânico,
filósofo,
corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia à esfera das nuvens,
colaborando assim
na
obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do
desamparo. Meu olhar,
enfarado
e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás dele os futuros.
Aquele vinha ágil,
destro,
vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão
miserável como os
primeiros,
e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia.
Redobrei
de
atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, — o último!; mas então já a
rapidez da marcha era tal,
que
escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez
por isso entraram
os
objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no
ambiente; um nevoeiro
cobriu
tudo, — menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir,
a diminuir, a
diminuir,
até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o
meu gato
Sultão,
que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...
CAPÍTULO
8
Razão
contra Sandice
Já o
leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa, e convidava a Sandice a
sair, clamando,
e com
melhor jus, as palavras de Tartufo:
La
maison est à moi, c’est à vous d’en sortir.
Mas é
sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas
senhora de uma,
dificilmente
lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha.
Agora, se
advertirmos
no imenso número de casas que ocupa, umas de vez, outras durante as suas
estações calmosas,
concluiremos
que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve
quase um
distúrbio
à porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria entregar a casa, e a
dona não cedia da
intenção
de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no
sótão.
—
Não, senhora, replicou a Razão, estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e
experimentada, o
que
você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar, daí à de visitas e ao
resto.
—
Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério...
— Que
mistério?
— De dois, emendou a Sandice; o da vida e o da morte;
peço-lhe só uns dez minutos.
A
Razão pôs-se a rir.
— Hás
de ser sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa.
E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a
para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas
súplicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se
depressa, deitou a língua de fora, em ar de surriada, e foi andando...
CAPÍTULO
9
Transição
E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a
maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em
presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado
da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento;
e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20
de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente,
nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada. De
modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem
a rigidez do método. Na verdade, era tempo. Que isto
de método, sendo, como é, uma coisa indispensável, todavia é melhor
tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à
fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do
inspetor de quarteirão. E como a eloqüência, que há
uma genuína e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa,
engomada e chocha.Vamos ao dia 20 de outubro.
CAPÍTULO
10
Naquele
dia
Naquele dia, a árvore dos Cubas brotou uma graciosa
flor. Nasci; recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira
minhota, que se gabava de ter aberto a porta do mundo
a uma geração inteira de fidalgos. Não é impossível que meu pai lhe
ouvisse tal declaração; creio, todavia, que o
sentimento paterno é que o induziu a gratificá-la com duas meias dobras.
Lavado e enfaixado, fui desde logo o herói da nossa
casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe quadrava
ao sabor. Meu tio João, o antigo oficial de
infantaria, achava-me um certo olhar de Bonaparte, coisa que meu pai não pôde
ouvir sem náuseas; meu tio Ildefonso, então simples
padre, farejava-me cônego.
— Cônego é o que ele há de ser, e não digo mais por
não parecer orgulho; mas não me admiraria nada se Deus o
destinasse a um bispado... É verdade, um bispado; não
é coisa impossível. Que diz você, mano Bento?
Meu pai respondia a todos que eu seria o que Deus
quisesse; e alçava-me ao ar, como se intentasse mostrar-me à cidade
e ao mundo; perguntava a todos se eu me parecia com
ele, se era inteligente, bonito...
Digo essas coisas por alto, segundo as ouvi narrar
anos depois; ignoro a mor parte dos pormenores daquele famoso dia.
Sei que a vizinhança veio ou mandou cumprimentar o
recém-nascido, e que durante as primeiras semanas muitas foram as
visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha que não
trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calção. Se não conto os
mimos, os beijos, as admirações, as bênçãos, é porque,
se os contasse, não acabaria mais o capítulo, e é preciso acabá-lo.
Item, não posso dizer nada do meu batizado, porque
nada me referiram a tal respeito, a não ser que foi uma das mais
galhardas festas do ano seguinte, 1806; batizei-me na
Igreja de São Domingos, uma terça-feira de março, dia claro, luminoso
e puro, sendo padrinhos o coronel Rodrigues de Matos e
sua senhora. Um e outro descendiam de velhas famílias do norte e
honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias,
outrora derramado na guerra contra Holanda. Cuido que os nomes de
ambos foram das primeiras coisas que aprendi; e
certamente os dizia com muita graça, ou revelava algum talento precoce,
porque não havia pessoa estranha diante de quem me não
obrigassem a recitá-los.
—
Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho.
— Meu padrinho? é o Excelentíssimo Senhor coronel
Paulo Vaz Lobo César de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos;
minha madrinha é a Excelentíssima Senhora Dona Maria
Luisa de Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos.
— É
muito esperto o seu menino, exclamavam os ouvintes.
—
Muito esperto, concordava meu pai; e os olhos babavam-lhe de orgulho, e ele
espalmava a mão
sobre
a minha cabeça, fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si.
Item,
comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a
natureza,
obrigavam-me
cedo a agarrar às cadeiras, pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de pau.
— Só
só, nhonhô, só só, dizia-me a mucama. E eu, atraído pelo chocalho de lata, que
minha mãe
agitava
diante de mim, lá ia para a frente, cai aqui, cai acolá; e andava,
provavelmente mal, mas andava,
e
fiquei andando.
CAPÍTULO
11
O
menino é pai do homem
Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci
naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos
são menos matreiros, e, com certeza, as magnólias são
menos inquietas do que eu era na minha infância. Um poeta dizia que
o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos
alguns lineamentos do menino.
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino
diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais
malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e
voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava,
porque me negara uma colher do doce de coco que estava
fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de
cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui
dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu
tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa,
era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia
um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu
trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um
e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo,
— mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai,
nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!”
— Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a
pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar
beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste
jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer
que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai
tinha-me em grande admiração; e se às vezes me
repreendia, à vista de gente, fazia
o por
simples formalidade: em particular dava-me beijos.
Não
se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça
dos outros nem
a
esconder-lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens,
isso fui; se não
passei
o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das
cabeleiras.
Outrossim,
afeiçoei-me à contemplação da injustiça humana, inclinei-me a atenuá-la, a
explicá-la,
a
classificá-la por partes, a entendê-la, não segundo um padrão rígido, mas ao
sabor das circunstâncias
e
lugares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns preceitos
e orações; mas eu
sentia
que, mais do que as orações, me governavam os nervos e o sangue, e a boa regra
perdia o espírito,
que a
faz viver, para se tomar uma vã fórmula. De manhã, antes do mingau, e de noite,
antes da cama,
pedia
a Deus que me perdoasse, assim como eu perdoava aos meus devedores; mas entre a
manhã e a
noite
fazia uma grande maldade, e meu pai, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na
cara, e
exclamava
a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro!
Sim,
meu pai adorava-me. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito
coração,
assaz
crédula, sinceramente piedosa, — caseira, apesar de bonita, e modesta, apesar
de abastada; temente
às
trovoadas e ao marido. O marido era na terra o seu deus. Da colaboração dessas
duas criaturas
nasceu
a minha educação, que, se tinha alguma coisa boa, era no geral viciosa,
incompleta, e, em
partes,
negativa. Meu tio cônego fazia às vezes alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que
ele me dava mais
liberdade
do que ensino e mais afeição do que emenda; mas meu pai respondia que aplicava
na minha
educação
um sistema inteiramente superior ao sistema usado; e por este modo, sem
confundir o irmão,
iludia-se
a si próprio.
De envolta com a transmissão e a educação, houve ainda
o exemplo estranho, o meio doméstico. Vimos os pais;
vejamos os tios. Um deles, o João, era um homem de
língua solta, vida galante, conversa picaresca. Desde os onze anos
entrou a admitir-me às anedotas reais ou não, eivadas
todas de obscenidade ou imundície. Não me respeitava a adolescência,
como não respeitava a batina do irmão; com a diferença
que este fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso. Eu
não; deixava-me estar, sem entender nada, a princípio,
depois entendendo e enfim achando-lhe graça. No fim de certo
tempo, quem o procurava era eu; e ele gostava muito de
mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em casa, quando lá ia
passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu
achá-lo, no fundo da chácara, no lavadouro, a palestrar com as escravas
que batiam roupa; aí é que era um desfiar de anedotas,
de ditos, de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguém podia
ouvir, porque o lavadouro ficava muito longe de casa.
As pretas, com uma tanga no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos
vestidos, umas dentro do tanque, outras fora,
inclinadas sobre as peças de roupa, a batê-las, a ensaboá-las, a torcê-las, iam
ouvindo e redargüindo às pilhérias do tio João, e a
comentá-las de quando em quando com esta palavra:
— Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo!
Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita
austeridade e pureza; tais dotes, contudo, não realçavam um espírito
superior, apenas compensavam um espírito medíocre. Não
era homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado
externo, a hierarquia, as preeminências, as
sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma
lacuna
no ritual excitava-o mais do que uma infração dos
mandamentos. Agora, a tantos anos de distância, não estou certo se ele
poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano,
ou expor, sem titubear, a história do símbolo de Nicéia; mas ninguém,
nas festas cantadas, sabia melhor o número e caso das
cortesias que se deviam ao oficiante. Cônego foi a única ambição de
sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade
a que podia aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na
observância das regras, frouxo, acanhado, subalterno,
possuía algumas virtudes, em que era exemplar, mas carecia
absolutamente da força de as incutir, de as impor aos
outros.
Não digo nada de minha tia materna, Dona Emerenciana,
e aliás era a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa
diferençava-se grandemente dos outros; mas viveu pouco
tempo em nossa companhia, uns dois anos. Outros parentes e
alguns íntimos não merecem a pena de ser citados; não
tivemos uma vida comum, mas intermitente, com grandes claros de
separação. O que importa é a expressão geral do meio
doméstico, e essa aí fica indicada, — vulgaridade de caracteres, amor
das aparências rutilantes, do arruído, frouxidão da
vontade, domínio do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que
nasceu esta flor.
CAPÍTULO
12
Um episódio
de 1814
Mas
eu não quero passar adiante, sem contar sumariamente um galante episódio de
1814; tinha
nove
anos.
Napoleão,
quando eu nasci, estava já em todo o esplendor da glória e do poder; era
imperador e
granjeara
inteiramente a admiração dos homens. Meu pai, que à força de persuadir os
outros da nossa
nobreza
acabara persuadindo-se a si próprio, nutria contra ele um ódio puramente
mental. Era isso
motivo
de renhidas contendas em nossa casa, porque meu tio João, não sei se por
espírito de classe e
simpatia
de oficio, perdoava no déspota o que admirava no general, meu tio padre era
inflexível contra
o
corso, os outros parentes dividiam-se; daí as controvérsias e as rusgas.
Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda
de Napoleão, houve naturalmente grande abalo em nossa casa,
mas nenhum chasco ou remoque. Os vencidos, testemunhas
do regozijo público, julgaram mais decoroso o silêncio; alguns
foram além e bateram palmas. A população, cordialmente
alegre, não regateou demonstrações de afeto à real família; houve
iluminações, salvas, Te Deum, cortejo e
aclamações. Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera
no dia de Santo Antônio; e, francamente,
interessava-me mais o espadim do que a queda de Bonaparte. Nunca me esqueceu
esse fenômeno. Nunca mais deixei de pensar comigo que
o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão. E
notem que eu ouvi muito discurso, quando era vivo, li
muita página rumorosa de grandes idéias e maiores palavras, mas não
sei por que, no fundo dos aplausos que me arrancavam
da boca, lá ecoava alguma vez este conceito de experimentado:
— Vai-te embora, tu só cuidas do espadim.
Não
se contentou a minha família em ter um quinhão anônimo no regozijo público;
entendeu
oportuno
e indispensável celebrar a destituição do imperador com um jantar, e tal jantar
que o ruído das
aclamações
chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou quando menos, de seus ministros. Dito e
feito.Veio
abaixo
toda a velha prataria, herdada do meu avô Luís Cubas; vieram as toalhas de
Flandres, as grandes
jarras
da Índia; matou-se um capado; encomendaram-se às madres da Ajuda as compotas e
marmeladas;
lavaram
se,
arearam-se, poliram-se as salas, escadas, castiçais, arandelas, as vastas
mangas de vidro, todos os
aparelhos
do luxo clássico.
Dada
a hora, achou-se reunida uma sociedade seleta, o juiz de fora, três ou quatro
oficiais militares,
alguns
comerciantes e letrados, vários funcionários da administração, uns com suas
mulheres e filhas,
outros
sem elas, mas todos comungando no desejo de atolar a memória de Bonaparte no
papo de um
peru.
Não era um jantar, mas um Te Deum, foi o que pouco mais ou menos disse
um dos letrados
presentes,
o Doutor Vilaça, glosador insigne, que acrescentou aos pratos de casa o acepipe
das musas.
Lembra-me,
como se fosse ontem, lembra-me de o ver erguer-se, com a sua longa cabeleira de
rabicho,
casaca
de seda, uma esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote,
e, repetido o
mote,
cravar os olhos na testa de uma senhora, depois tossir, alçar a mão direita,
toda fechada, menos o
dedo
índice, que apontava para o teto; e, assim posto e composto, devolver o mote
glosado. Não fez
uma
glosa, mas três; depois jurou aos seus deuses não acabar mais. Pedia um mote,
davam-lho, ele
glosava-o
prontamente, e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras
presentes não
pôde
calar a sua grande admiração.
— A senhora diz isso, retorquia modestamente o Vilaça,
porque nunca ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do
século,
glosarmos, no meio de palmas e bravos. Imenso talento
o do Bocage! Era o que me dizia, há dias, a Senhora duquesa de
Cadaval...
E
estas três palavras últimas, expressas com muita ênfase, produziram em toda a
assembléia um
frêmito
de admiração e pasmo. Pois esse homem tão dado, tão simples, além de pleitear
com poetas,
discreteava
com duquesas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contato de tal homem, as damas
sentiam-se
superfinas;
os varões olhavam-no com respeito, alguns com inveja, não raros com
incredulidade. Ele,
entretanto,
ia caminho, a acumular adjetivo sobre adjetivo, advérbio sobre advérbio, a
desfiar todas as
rimas
de tirano e de usurpador. Era à sobremesa; ninguém já pensava
glosas,
corria um burburinho alegre, um palavrear de estômagos satisfeitos; os olhos
moles e úmidos,
ou
vivos e cálidos, espreguiçavam-se ou saltitavam de uma ponta à outra da mesa,
atulhada de doces e
frutas,
aqui o ananás em fatias, ali o melão em talhadas, as compoteiras de cristal
deixando ver o doce
de
coco, finamente ralado, amarelo como uma gema, — ou então o melado escuro e
grosso, não longe
do
queijo e do cará. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado, um
riso de família,
vinha
quebrar a gravidade política do banquete. No meio do interesse grande e comum,
agitavam-se
também
os pequenos e particulares. As moças falavam das modinhas que haviam de cantar
ao cravo, e
do
minuete e do solo inglês; nem faltava matrona que prometesse bailar um oitavado
de compasso, só
para
mostrar como folgara nos seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim,
dava a outro
notícia
recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo cartas que recebera de
Luanda, uma carta
em
que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra
carta em que...Trazia-as
justamente
na algibeira, mas não as podia ler naquela ocasião. O que afiançava é que
podíamos contar,
só
nessa viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos.
— Trás... trás... trás... fazia o Vilaça batendo com
as mãos uma na outra. O rumor cessava de súbito, como um estacado
de orquestra, e todos os olhos se voltavam para o
glosador. Quem ficava longe aconcheava a mão atrás da orelha para não
perder palavra; a mor parte, antes mesmo da glosa,
tinha já um meio riso de aplauso, trivial e cândido.
Quanto a mim, lá estava, solitário e deslembrado, a namorar
uma certa compota da minha paixão. No fim de cada glosa
ficava muito contente, esperando que fosse a última,
mas não era, e a sobremesa continuava intacta. Ninguém se lembrava
de dar a primeira voz. Meu pai, à cabeceira, saboreava
a goles extensos a alegria dos convivas, mirava-se todo nos carões
alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se com a
familiaridade travada entre os mais distantes espíritos, influxo de um bom
jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da
compota para ele e dele para a compota, como a pedir-lhe que ma servisse;
mas fazia-o
recolher o desejo e o pedido. Pacientei quanto pude; e
não pude muito. Pedi em voz baixa o doce; enfim, bradei, berrei, bati
com os pés. Meu pai, que seria capaz de me dar o sol,
se eu lho exigisse, chamou um escravo para me servir o doce; mas era
tarde. A tia Emerenciana arrancara-me da cadeira e
entregara-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repelões.
Não foi outro o delito do glosador: retardara a
compota e dera causa à minha exclusão. Tanto bastou para que eu
cogitasse uma vingança, qualquer que fosse, mas grande
e exemplar, coisa que de alguma maneira o tornasse ridículo. Que
ele era um homem grave o Doutor Vilaça, medido e
lento, quarenta e sete anos, casado e pai. Não me contentava o rabo de
papel nem o rabicho da cabeleira; havia de ser coisa
pior. Entrei a espreitá-lo, durante o resto da tarde, a segui-lo, na chácara
aonde todos desceram a passear. Vio-o conversando com
Dona Eusébia, irmã do sargento-mor Domingues, uma robusta
donzelona, que se não era bonita, também não era feia.
— Estou muito zangada com o senhor, dizia ela.
— Por quê?
— Porque... não sei por quê... porque é a minha
sina...creio às vezes que é melhor morrer...
Tinham penetrado numa pequena moita; era lusco-fusco;
eu segui-os. O Vilaça levava nos olhos umas chispas de vinho
e de volúpia.
— Deixe-me, disse ela.
—
Ninguém nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéias são essas! Você sabe que eu
morrerei também...
que
digo?... morro todos os dias, de paixão, de saudades...
Dona
Eusébia levou o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memória algum pedaço
literário
e
achou este, que mais tarde verifiquei ser de uma das óperas do Judeu:
— Não
chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.
Disse isto; puxou-a para si; ela resistiu um pouco,
mas deixou-se ir; uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve,
um beijo, o mais medroso dos beijos.
— O
Doutor Vilaça deu um beijo
Foi um estouro esta minha palavra; a estupefação
imobilizou a todos; os olhos espraiavam-se a uma e outra banda;
trocavam-se sorrisos, segredos, à socapa, as mães
arrastavam as filhas, pretextando o sereno. Meu pai puxou-me as orelhas,
disfarçadamente, irritado deveras com a indiscrição;
mas, no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso, sacudiu-me o nariz,
a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro!
CAPÍTULO
13
Um
salto
Unamos agora os pés e demos um salto por cima da
escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar
cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos
morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos.
Tinha
amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas,
e pouco mais,
mui
pouco e mui leve. Só era pesada a palmatória, e ainda assim... Ó palmatória,
terror dos meus dias
pueris,
tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo,
me incutiu no cérebro
o
alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão
praguejada dos modernos,
quem
me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas
ignorâncias, e o meu
espadim,
aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias tu,
afinal, meu velho
mestre
de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos
do que quer a
vida,
que é a mestra das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo,
nunca me meteste
zanga.
Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco,
capote, lenço na mão,
calva
à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada
inicial, e chamar-nos
depois
à lição. E fizeste isto durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual,
metido numa casinha
da
Rua do Piolho, sem enfadar o mundo com atua mediocridade, até que um dia deste
o grande mergulho
nas trevas,
e ninguém te chorou, salvo um preto velho, — ninguém, nem eu, que te devo os
rudimentos
da
escrita.
Chamava-se
Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta página: Ludgero Barata, —
um
nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de nós, o
Quincas Borba, esse
então
era cruel com o pobre homem. Duas, três vezes por semana, havia de lhe deixar
na algibeira das
calças,
— umas largas calças de enfiar —, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro,
uma barata morta.
Se
ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos
chamejantes, dizia-nos os
últimos
nomes: éramos sevandijas, capadócios, malcriados, moleques. — Uns tremiam,
outros rosnavam;
o
Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.
Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha infância,
nunca em toda a minha vida, achei um menino mais gracioso,
inventivo e travesso. Era a flor, e não já da escola,
senão de toda a cidade. A mãe, viúva, com alguma coisa de seu, adorava
o filho e trazia-o amimado, asseado, enfeitado, com um
vistoso pajem atrás, um pajem que nos deixava gazear a escola, ir
caçar ninhos de pássaros, ou perseguir lagartixas nos
morros do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, à toa,
como dois peraltas sem emprego. E de imperador! Era um
gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do
Espírito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele
escolhia sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia,
qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e
gravidade, certa magnificência nas atitudes, nos meneios. Quem diria que...
Suspendamos a pena; não adiantemos os sucessos. Vamos
de um salto a 1822, data da nossa independência política, e do
meu primeiro cativeiro pessoal.
CAPÍTULO
14
Primeiro
beijo
Tinha dezessete anos; pungia-me um buçozinho que eu
forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram
a minha feição verdadeiramente máscula. Como
ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era uma criança com
fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao
cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de
botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias,
cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas
baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo
medieval, para dar com eles nas ruas do nosso século. O pior é que o
estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à
margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por
compaixão, o transportou para os seus livros.
Sim,
eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais
de uma dama
inclinou
diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De
todas porém a
que
me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos
na intenção; na
intenção
é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi
uma dama
espanhola.
Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham
razão os
rapazes.
Era filha de um hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de
sinceridade, porque a
opinião
aceita é que nascera de um letrado de Madri, vítima da invasão francesa,
ferido, encarcerado,
espingardeado,
quando ela tinha apenas doze anos. Cosas de España. Quem quer que fosse,
porém, o
pai,
letrado ou hortelão, a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica, e
mal chegava a
entender
a moral do código. Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela
austeridade
do
tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e
berlindas; luxuosa, impaciente,
amiga
de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, ela morria de amores por um certo
Xavier, sujeito abastado
e
tísico, — uma pérola.
Via-a, pela primeira vez, no Rossio Grande, na noite
das luminárias, logo que constou a declaração da independência,
uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública.
Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos
os arrebatamentos da juventude. Via-a sair de uma
cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre,
alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras. —Segue-me,
disse ela ao pajem. E eu seguia-a, tão pajem como o outro,
como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado,
vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaramlhe
“linda Marcela”, lembrou-me que ouvira tal nome a meu
tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.
Três
dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moças,
nos Cajueiros.
Fomos;
era em casa de Marcela. O Xavier, com todos os seus tubérculos, presidia ao
banquete noturno,
em
que eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa. Que
gentil que estava a
espanhola!
Havia mais uma meia dúzia de mulheres, — todas de partido —, e bonitas, cheias
de graça,
mas a
espanhola... O entusiasmo, alguns goles de vinho, o gênio imperioso, estouvado,
tudo isso me
levou
a fazer uma coisa única; à saída, à porta da rua, disse a meu tio que esperasse
um instante, e tornei
a
subir as escadas.
— Esqueceu alguma coisa? perguntou Marcela de pé no
patamar.
— O lenço.
Ela
ia abrir-me caminho para tornar à sala; eu segurei-lhe nas mãos, puxei-a para
mim, e dei-lhe um
beijo.
Não sei se ela disse alguma coisa, se gritou, se chamou alguém; não sei nada;
sei que desci outra
vez
as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ébrio.
CAPÍTULO
15
Marcela
Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração
de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno
da paciência, a um tempo manhoso e teimoso. Que, em
verdade, há dois meios de granjear a vontade das mulheres: o
violento, como o touro de Europa, e o insinuativo,
como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Dânae, três inventos do padre
Zeus, que, por estarem fora da moda, aí ficam trocados
no cavalo e no asno. Não direi as traças que urdi, nem as peitas, nem
as alternativas de confiança e temor, nem as esperas
baldadas, nem nenhuma outra dessas coisas preliminares. Afirmo-lhes
que o asno foi digno do corcel, — um asno de Sancho,
deveras filósofo, que me levou à casa dela, no fim do citado período;
apeei-me, bati-lhe na anca e mandei-o pastar.
Primeira comoção da minha juventude, que doce que me
foste! Tal devia ser, na criação bíblica, o efeito do primeiro sol.
Imagina tu esse efeito do primeiro sol, a bater de
chapa na face de um mundo
e se alguma vez contaste dezoito anos, deves
lembrar-te que foi assim mesmo.
Teve
duas fases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome, que eu de nomes
não curo; teve
a
fase consular e a fase imperial. Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e
eu, sem que ele jamais
acreditasse
dividir comigo o governo de Roma; mas, quando a credulidade não pôde resistir à
evidência,
o
Xavier depôs as insígnias, e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a
fase cesariana. Era
meu
universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me preciso coligir dinheiro,
multiplicá-lo, inventálo.
Primeiro
explorei as larguezas de meu pai; ele dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem
repreensão,
sem
demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz e que ele o fora também. Mas
a tal extremo
chegou
o abuso, que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais.
Então recorri a
minha
mãe, e induzi-a a desviar alguma coisa, que me dava às escondidas. Era pouco;
lancei mão de
um
recurso último; entrei a sacar sobre a herança de meu pai, a assinar
obrigações, que devia resgatar
um
dia com usura.
Em
verdade, dizia-me Marcela, quando eu lhe levava alguma seda, alguma jóia; em
verdade, você
quer
brigar comigo... Pois isto é coisa que se faça... um presente tão caro...
E, se
era jóia, dizia isto a contemplá-la entre os dedos, a procurar melhor luz, a
ensaiá
la em
si, e a rir, e a beijar-me com uma reincidência impetuosa e sincera; mas,
protestando, derramavalhe
a
felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vê-la assim. Gostava muito das
nossas antigas
dobras
de ouro, e eu levava-lhe quantas podia obter; Marcela juntava-as todas dentro
de uma caixinha
de
ferro, cuja chave ninguém nunca jamais soube onde ficava; escondia-a por medo
dos escravos. A
casa
em que morava, nos Cajueiros, era própria. Eram sólidos e bons os móveis, de
jacarandá lavrado,
e todas
as demais alfaias, espelhos, jarras, baixela, — uma linda baixela da Índia, que
lhe doara um
desembargador.
Baixela do diabo, deste-me grandes repelões aos nervos. Disse-o muita vez à
própria
dona;
não lhe dissimulava o tédio que me faziam esses e outros despojos dos seus
amores de antanho.
Ela
ouvia-me e ria, com — expressão cândida, — cândida e outra coisa, que eu nesse
tempo não
entendia
bem, mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso misto, como devia ter
a criatura
que
nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare com um serafim de Klopstock.
Não sei se me
explico.
E porque tinha notícia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular
mais. Assim foi
que
um dia, como eu lhe não pudesse dar certo colar, que ela vira num joalheiro,
retorquiu-me que era
um
simples gracejo, que o nosso amor não precisava de tão vulgar estímulo.
— Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste
idéia, concluiu ameaçando-me com o dedo.
E
logo, súbita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me com elas o rosto,
puxou-me a si e
fez
um trejeito gracioso, um momo de criança. Depois, reclinada na marquesa,
continuou a falar daquilo,
com
simplicidade e franqueza. Jamais consentiria que lhe comprassem os afetos.
Vendera muita vez as
aparências,
mas a realidade, guardava-a para poucos. Duarte, por exemplo, o alferes Duarte,
que ela
amara
deveras, dois anos antes, só a custo conseguia dar-lhe alguma coisa de valor,
como me acontecia
a
mim; ela só lhe aceitava sem relutância os mimos de escasso preço, como a cruz
de ouro, que lhe deu,
uma
vez, de festas.
— Esta cruz...
Dizia
isto, metendo a mão no seio e tirando uma cruz fina, de ouro, presa a uma fita
azul e pendurada
ao
colo.
— Mas
essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pai que...
Marcela
abanou a cabeça com um ar de lástima:
— Não
percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te não molestar? Vem cá, chiquito,
não
sejas
assim desconfiado comigo... Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia,
quando nos
separarmos...
— Não digas isso! bradei eu.
—
Tudo cessa! Um dia...
Não
pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as mãos, tomou das
minhas, conchegoume
ao
seio, e sussurrou-me baixo ao ouvido:
—
Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lho com os olhos úmidos. No dia seguinte
levei-lhe o
colar
que havia recusado.
—
Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.
Marcela teve primeiro um silêncio indignado, depois
fez um gesto magnífico: tentou atirar o colar à rua. Eu retive-lhe o
braço; pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita,
que ficasse com a jóia. Sorriu e ficou.
Entretanto,
pagava-me à farta os sacrifícios; espreitava os meus mais recônditos
pensamentos; não
havia
desejo a que não acudisse com alma, sem esforço, por uma espécie de lei da
consciência e
necessidade
do coração. Nunca o desejo era razoável, mas um capricho puro, uma criancice,
vê-la trajar
de
certo modo, com tais e tais enfeites, este vestido e não aquele, ir a passeio
ou outra coisa assim, e ela
cedia
a tudo, risonha e palreira.
— Você é das Arábias, dizia-me.
E ia
pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediência de encantar.
CAPÍTULO
16
Uma
Reflexão Imoral
Ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo
uma correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo 14, que
Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria,
vivia.Viver não é a mesma coisa que morrer; assim o afirmam todos os
joalheiros desse mundo, gente muito vista na
gramática. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes
e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio
dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer, a qual
é ainda mais obscura do que imoral, porque não se
entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bela
testa do mundo não fica menos bela, se a cingir um
diadema de pedras finas; nem menos bela, nem menos amada. Marcela,
por exemplo, que era bem bonita, Marcela amou-me...
CAPÍTULO
17
Do
trapézio e outras coisas
...Marcela
amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo
que
teve
aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as
raias de um capricho
juvenil
Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar
uma universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem
sério e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse
um gesto de espanto: — Gatuno, sim, senhor; não é outra coisa um
filho que me faz isto...
Sacou
da algibeira os meus títulos de dívida, já resgatados por ele, e sacudiu-mos na
cara. — Vês,
peralta?
é assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós
ganhamos o
dinheiro
em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juízo, ou
ficas sem coisa
nenhuma.
Estava
furioso, mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada opus à
ordem da viagem,
como
de outras vezes fizera; ruminava a idéia de levar Marcela comigo. Fui ter com
ela; expus-lhe a
crise
e fiz-lhe a proposta. Marcela ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo;
como insistisse,
disse-me
que ficava, que não podia ir para a Europa.
— Por que não?
— Não
posso, disse ela com ar dolente; não posso ir respirar aqueles ares, enquanto
me lembrar de
meu
pobre pai, morto por Napoleão...
—
Qual deles: o hortelão ou o advogado?
Marcela
franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do
calor, e
mandou
vir um copo de aluá. Trouxe-lho a mucama, numa salva de prata, que fazia parte
dos meus
onze
contos. Marcela ofereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar com
a mão no copo
e na
salva; entornou-lhe o líquido no regaço, a preta deu um grito, eu bradei-lhe
que se fosse embora.
Ficando
a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ela era um
monstro, que jamais
me
tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da
sinceridade; chamei-lhe
muitos
nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcela deixara-se estar
sentada, a estalar
as
unhas nos dentes, fria como um pedaço de mármore. Tive ímpetos de a
estrangular; de a humilhar ao
menos,
subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazê-lo; mas a ação trocou-se noutra; fui eu
que me atirei aos
pés
dela, contrito e súplice; beijei-lhos, recordei aqueles meses da nossa
felicidade solitária, repeti-lhe
os
nomes queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos
dela, apertando-lhe
muito
as mãos; ofegante desvairado, pedi-lhe com lágrimas que me não desamparasse...
Marcela esteve
alguns
instantes a olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e,
com um ar
enfastiado:
— Não me aborreça, disse.
Levantou-se,
sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a alcova. - Não! bradei eu;
não hás
de
entrar...não quero... Ia a lançar-lhe as mãos: era tarde; ela entrara e fechara-se.
Saí
desatinado; gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais excêntricos
e desertos,
onde
fosse difícil dar comigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma espécie de
gula mórbida;
evocava
os dias, as horas, os instantes de delírio, e ora me comprazia em crer que eles
eram eternos, que
tudo
aquilo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo, tentava rejeitá-los de
mim, como um
fardo
inútil. Então resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas
metades, e
deleitava-me
com a idéia de que Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e
remorsos.
Que
ela amara-me a tonta, devia de sentir alguma coisa, uma lembrança qualquer,
como do alferes
Duarte...
Nisto, o dente do ciúme enterrava-me no coração; e toda a natureza me bradava
que era
preciso
levar Marcela comigo.
— Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com
uma punhada.
Enfim,
tive uma idéia salvadora... Ah! trapézio dos meus pecados, trapézio das
concepções abstrusas!
A
idéia salvadora trabalhou nele, como a do emplasto (capítulo 2). Era nada menos
que fasciná-la,
fasciná-la
muito, deslumbrá-la, arrastá-la; lembrou-me pedir-lhe por um meio mais concreto
do que a
súplica.
Não medi as conseqüências: recorri a um derradeiro empréstimo; fui à Rua dos
Ourives, comprei
a
melhor jóia da cidade, três diamantes grandes, encastoados num pente de marfim;
corri à casa de
Marcela.
Marcela
estava reclinada numa rede, o gesto mole e cansado, uma das pernas pendentes, a
ver-lhe o
pezinho
calçado de meia de seda, os cabelos soltos, derramados, o olhar quieto e
sonolento.
— Vem
comigo, disse eu, arranjei recursos... temos muito dinheiro, terás tudo o que
quiseres...
Olha,
toma.
E
mostrei-lhe o pente com os diamantes. Marcela teve um leve sobressalto, ergueu
metade do corpo,
e,
apoiada num cotovelo, olhou para o pente durante alguns instantes curtos;
depois retirou os olhos;
tinha-se
dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabelos, coligi-os, enlacei-os à
pressa, improvisei
um
toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o pente de diamantes; recuei,
tornei a aproximar-me,
corrigi-lhes
as madeixas, abaixei-as de um lado, busquei alguma simetria naquela desordem,
tudo com
uma
minuciosidade e um carinho de mãe.
—
Pronto, disse eu.
— Doido!
foi a sua primeira resposta.
A
segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrifício com um beijo, o mais
ardente de todos.
Depois
tirou o pente, admirou muito a matéria e o lavor, olhando a espaços para mim, e
abanando a
cabeça,
com um ar de repreensão:
— Ora você! dizia.
Vens
comigo?
Marcela
refletiu um instante. Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim
para a
parede,
e da parede para a jóia; mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ela me
respondeu
resolutamente:
— Vou. Quando embarcas?
—
Daqui a dois ou três dias.
—
Vou.
Agradeci-lho
de joelhos. Tinha achado a minha Marcela dos primeiros dias, e disse-lho; ela
sorriu, e
foi
guardar a jóia, enquanto eu descia a escada.
CAPÍTULO
18
Visão
do corredor
No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei
alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as idéias
dispersas, reaver-me enfim no meio de tantas sensações
profundas e contrárias. Achava-me feliz. Certo é que os diamantes
corrompiam-me um pouco a felicidade; mas não é menos
certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os
seus presentes. E depois eu confiava na minha boa
Marcela; podia ter defeitos, mas amava-me...
— Um
anjo! murmurei eu olhando para o teto do corredor.
E aí,
como um escárnio, vi o olhar de Marcela, aquele olhar que pouco antes me dera
uma sombra de
desconfiança,
o qual chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah
e o
meu.
Pobre namorado das Mil e uma noites! Vi-te ali mesmo correr atrás da
mulher do vizir, ao longo
da
galeria, ela a acenar-te com a posse, e tu a correr, a correr, a correr, até a
alameda comprida, donde
saíste
à rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então pareceu-me que
o corredor de
Marcela
era a alameda, e que a rua era a de Bagdá. Com efeito, olhando para a porta, vi
na calçada três
dos
correeiros, um de batina, outro de libré, outro à paisana, os quais todos três
entraram no corredor,
tomaram-me
pelos braços, meteram-me numa sege, meu pai à direita, meu tio cônego à
esquerda, o da
libré
na boléia, e lá me levaram à casa do intendente de polícia, donde fui
transportado a uma galera que
devia
seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas toda a resistência era inútil.
Três
dias depois segui barra fora, abatido e mudo. Não chorava sequer, tinha uma
idéia fixa... Malditas
idéias
fixas! A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de
Marcela.
CAPÍTULO
19
A
bordo
Éramos onze passageiros, um homem doido, acompanhado
pela mulher, dois rapazes que iam a passeio, quatro comerciantes
e dois criados. Meu pai recomendou-me a todos,
começando pelo capitão do navio, que aliás tinha muito que cuidar de si,
porque, além do mais, levava a mulher tísica em último
grau.
Não
sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu fúnebre projeto, ou se meu pai o
pôs de sobreaviso;
sei
que não me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. Quando não
podia estar comigo,
levava-me
para a mulher. A mulher ia quase sempre numa camilha rasa, a tossir muito, e a
afiançar que
me
havia de mostrar os arredores de Lisboa. Não estava magra, estava transparente;
era impossível que
não
morresse de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte próxima,
talvez por enganarse
a si
mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que me importava a mim o destino de uma
mulher
tísica,
no meio do oceano? O mundo para mim era Marcela.
Uma noite, logo no fim de uma semana, achei ensejo
propício para morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que,
junto à amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.
—
Algum temporal? disse eu.
—
Não, respondeu ele estremecendo; não; admiro o esplendor da noite. Veja; está
celestial!
O
estilo desmentia da pessoa, assaz rude e aparentemente alheia a locuções
rebuscadas. Fitei-o; ele
pareceu
saborear o meu espanto. No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou
para a lua,
perguntando-me
por que não fazia uma ode à noite; respondi-lhe que não era poeta. O capitão
rosnou
alguma
coisa, deu dois passos, meteu a mão no bolso, sacou um pedaço de papel, muito
amarrotado;
depois,
à luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida
marítima. Eram versos
dele.
— Que tal?
Não
me lembra o que lhe disse; lembra-me que ele me apertou a mão com muita força e
muitos
agradecimentos;
logo depois recitou-me dois sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram
chamar da
parte
da mulher: — Lá vou, disse ele; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa, com
amor.
Fiquei
só; mas a musa do capitão varrera-me do espírito os pensamentos maus; preferi
dormir, que é
modo
interino de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que
meteu medo a toda
a
gente, menos ao doido; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava
buscar, numa berlinda;
a
morte de uma filha fora a causa da loucura. Não, nunca me há de esquecer a
figura hedionda do pobre
homem,
no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a bailar,
com os olhos a
saltarem-lhe
da cara, pálido, cabelo arrepiado e longo. Às vezes parava, erguia ao ar as
mãos ossudas,
fazia
umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito,
desesperadamente.
A
mulher não podia já cuidar dele; entregue ao terror da morte, rezava por si
mesma a todos os santos
do
céu. Enfim, a tempestade amainou. Confesso que foi uma diversão excelente à
tempestade do meu
coração.
Eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fitá-la quando ela veio ter
comigo.
O capitão perguntou-me se tivera medo, se estivera em
risco, se não achara sublime o espetáculo: tudo isso com um
interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou
sobre a vida do mar; o capitão perguntou-me se não gostava de idílios
piscatórios; eu respondi-lhe ingenuamente que não
sabia o que era.
— Vai ver, respondeu.
E
recitou-me um poemazinho, depois outro, — uma égloga, — e enfim cinco sonetos,
com os quais
rematou
nesse dia a confidência literária. No dia seguinte, antes de me recitar nada,
explicou-me o
capitão
que só por motivos graves abraçara a profissão marítima, porque a avó queria
que ele fosse
padre,
e com efeito possuía algumas letras latinas; não chegou a ser padre, mas não
deixou de ser poeta,
que
era a sua vocação natural. Para prová-lo, recitou-me logo, de corpo presente,
uma centena de
versos.
Notei um fenômeno: os ademanes que ele usava eram tais, que uma vez me fizeram
rir; mas o
capitão,
quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo, que não viu nem
ouviu nada. Os
dias
passavam, e as águas, e os versos, e com eles ia também passando a vida da
mulher. Estava por
pouco.
Um dia, logo depois do almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não
chegasse ao fim da
semana.
— Já!
exclamei.
—
Passou muito mal a noite.
Fui vê-la; achei-a, na verdade, quase moribunda, mas
falando ainda de descansar em Lisboa alguns dias, antes de ir
comigo a Coimbra, porque era seu propósito levar-me à
universidade. Deixei-a consternado; fui achar o marido a olhar para
as vagas, que vinham morrer no costado do navio, e
tratei de o consolar; ele agradeceu-me, relatou-me a história dos seus
amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da mulher,
relembrou os versos que lhe fez, e recitou-mos. Neste ponto vieram
buscá-lo da parte dela; corremos ambos; era uma crise.
Esse e o dia seguinte foram cruéis; o terceiro foi o da morte; eu fugi
ao espetáculo, tinha-lhe repugnância. Meia hora depois
encontrei o capitão, sentado num molho de cabos, com a cabeça nas
mãos; disse-lhe alguma coisa de conforto.
—
Morreu como uma santa, respondeu ele; e, para que estas palavras não pudessem
ser levadas à
conta
de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu a cabeça, e fitou o horizonte, com um
gesto longo e profundo.
—
Vamos, continuou, entreguemo-la à cova que nunca mais se abre.
Efetivamente,
poucas horas depois, era o cadáver lançado ao mar, com as cerimônias do
costume. A
tristeza
murchara todos os rostos; o do viúvo trazia a expressão de um cabeço rijamente
lascado pelo
raio.
Grande silêncio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, fechou-se, — uma
leve ruga, — e a
galera
foi andando. Eu deixei-me estar alguns minutos, à popa, com os olhos naquele
ponto incerto do
mar
em que ficava um de nós... Fui dali ter com o capitão, para distraí-lo.
—
Obrigado, disse-me ele compreendendo a intenção; creia que nunca me esquecerei
dos seus bons
serviços.
Deus é que lhos há de pagar. Pobre Leocádia! tu te lembrarás de nós no céu.
Enxugou
com a manga uma lágrima importuna; eu busquei um derivativo na poesia, que era
a
paixão
dele. Falei-lhe dos versos, que me lera, e ofereci-me para imprimi-los. Os
olhos do capitão
animaram-se
um pouco. — Talvez aceite, disse ele; mas não sei... são bem frouxos versos.
Jurei-lhe
que
não; pedi que os reunisse e mos desse antes do desembarque.
—
Pobre Leocádia! murmurou ele sem responder ao pedido. Um cadáver... o mar... o
céu... o navio...
No
dia seguinte veio ler-me um epicédio composto de fresco, em que estavam
memoradas as
circunstâncias
da morte e da sepultura da mulher; leu-mo com a voz comovida deveras, e a mão
trêmula;
no
fim perguntou-me se os versos eram dignos do tesouro que perdera.
— São, disse eu.
— Não
haverá estro, ponderou ele, no fim de um instante, mas ninguém me negará
sentimento, se
não é
que o próprio sentimento prejudicou a perfeição...
— Não
me parece; acho os versos perfeitos.
—
Sim, eu creio que... Versos de marujo.
— De
marujo poeta.
Ele
levantou os ombros, olhou para o papel, e tornou a recitar a composição, mas já
então sem
tremuras,
acentuando as intenções literárias, dando relevo às imagens e melodia aos
versos. No fim,
confessou-me
que era a sua obra mais acabada; eu disse-lhe que sim; ele apertou-me muito a
mão e
predisse-me
um grande futuro.
CAPÍTULO
20
Bacharelo-me
Um
grande futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos,
ao longe, no
horizonte
misterioso e vago. Uma idéia expelia outra, a ambição desmontava Marcela. Um
grande
futuro?
Talvez naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro, político ou até bispo, —
bispo que fosse, —
uma
vez que fosse um cargo, uma preeminência, uma grande reputação, uma posição
superior. A ambição,
dado
que fosse águia, quebrou nessa ocasião o ovo, e desvendou a pupila fulva e
penetrante. Adeus,
amores!
adeus, Marcela! dias de delírio, jóias sem preço, vida sem regime, adeus. Cá me
vou às fadigas
e à
glória; deixo-vos com as calcinhas da primeira idade.
E foi
assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A universidade
esperava-me com as
suas
matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de
bacharel; derammo
com a
solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu de
orgulho e de
saudades,
— principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande
nomeada de
folião;
era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e petulante, dado às
aventuras, fazendo
romantismo
prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das
constituições escritas.
No
dia em que a universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava
longe de trazer
arraigada
no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso.
Explicome:
o
diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a
responsabilidade. Guardeio,
deixei
as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas sentindo já
uns ímpetos,
uma
curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver,
— de prolongar a
universidade
pela vida adiante...
CAPÍTULO
21
O
almocreve
Vai então, empacou o jumento em que eu vinha montado;
fustiguei-o, ele deu dois corcovos, depois mais três, enfim mais
um, que me sacudiu fora da sela, e com tal desastre,
que o pé esquerdo me ficou preso no estribo; tento agarrar-me ao ventre
do animal, mas já então, espantado, disparou pela
estrada afora. Digo mal: tentou disparar, e efetivamente deu dois saltos,
mas um almocreve, que ali estava, acudiu a tempo de
lhe pegar na rédea e detê-lo, não sem esforço nem perigo. Dominado
o bruto, desvencilhei-me do estribo e pus-me de pé.
— Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.
E era
verdade; se o juramento corre por ali fora, contundia-me deveras, e não sei se
a morte não
estaria
no fim do desastre; cabeça partida, uma congestão, qualquer transtorno cá
dentro, e lá se me ia
a
ciência
agitava
o coração. Bom almocreve! Enquanto eu tornava à consciência de mim mesmo, ele
cuidava de
consertar
os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi dar-lhe três moedas de
ouro das cinco
que
trazia comigo; não porque tal fosse o preço da minha vida, — essa era
inestimável; mas porque era
uma
recompensa digna da dedicação com que ele me salvou. Está dito, dou-lhe as três
moedas.
—
Pronto, disse ele, apresentando-me a rédea da cavalgadura.
—
Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim...
— Ora
qual!
— Pois não é certo que ia morrendo?
— Se
o jumento corre por aí fora, é possível; mas, com a ajuda do Senhor, viu
vosmecê que não
aconteceu
nada.
Fui
aos alforjes, tirei um colete velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de
ouro, e durante
esse
tempo cogitei se não era excessiva a gratificação, se não bastavam duas moedas.
Talvez uma. Com
efeito,
uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria. Examinei-lhe a
roupa; era um
pobre-diabo,
que nunca jamais vira uma moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, via-a
reluzir à
luz
do sol; não a viu o almocreve, porque eu tinha lhe voltado as costas; mas
suspeitou-o talvez, entrou
a
falar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que
tomasse juízo, que o
“senhor
doutor” podia castigá-lo; um monólogo paternal. Valha-me Deus! até ouvi estalar
um beijo: era
o
almocreve que lhe beijava a testa.
—
Olé! exclamei.
—
Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a gente com
tanta graça...
Ri-me, hesitei, meti-lhe na mão um cruzado em prata,
cavalguei o jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado,
melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha.
Mas a algumas braças de distância, olhei para trás, o almocreve faziame
grandes cortesias, com evidentes mostras de
contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu pagara-lhe bem,
pagara-lhe talvez demais. Meti os dedos no bolso do
colete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os
vinténs que eu devera ter dado ao almocreve, em lugar
do cruzado
recompensa ou virtude, cedeu a um impulso natural, ao
temperamento, aos hábitos do ofício; acresce que a circunstância de
estar, não mais adiante nem mais atrás, mas justamente
no ponto do desastre, parecia constituí-lo simples instrumento de
Providência; e de um ou de outro modo, o mérito do ato
era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta reflexão,
chamei-me pródigo, lancei o cruzado à conta das minhas
dissipações antigas; tive (por que não direi tudo?), tive remorsos.
CAPÍTULO
22
Volta
ao Rio
Jumento de uma figa, cortaste-me o fio às reflexões.
Já agora não digo o que pensei dali até Lisboa, nem o que fiz em
Lisboa, na península e em outros lugares da Europa, da
velha Europa, que nesse tempo parecia remoçar. Não, não direi que
assisti às alvoradas do romantismo, que também eu fui
fazer poesia efetiva no regaço da Itália; não direi coisa nenhuma.Teria
de escrever um diário de viagem e não umas memórias,
como estas são, nas quais só entra a substância da vida.
Ao
cabo de alguns anos de peregrinação, atendi às súplicas de meu pai: — “Vem,
dizia ele na última
carta;
se não vieres depressa acharás tua mãe morta!” Esta última palavra foi para mim
um golpe. Eu
amava
minha mãe; tinha ainda diante dos olhos as circunstâncias da última bênção que
ela me dera, a
bordo
do navio. “Meu triste filho, nunca mais te verei”, soluçava a pobre senhora
apertando-me ao
peito.
E essas palavras ressoavam-me agora, como uma profecia realizada.
Note-se
que eu estava em Veneza, ainda recendente aos versos de lord Byron; lá
estava, mergulhado
em
pleno sonho, revivendo o pretérito, crendo-me na Sereníssima República. É
verdade; uma vez
aconteceu-me
perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia.
— Que
doge, signor mio? Caí em mim, mas não confessei a ilusão; disse-lhe que
a minha pergunta
era
um gênero de charada americana; ele mostrou compreender, e acrescentou que
gostava muito das
charadas
americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a
Ponte dos
Suspiros,
a gôndola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei tudo e disparei
como uma bala na
direção
do Rio de Janeiro.
Vim...
Mas não; não alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escrever, e a
pena vai comendo
papel,
com grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a
leitores pesadões;
e nós
não somos um público in-folio, mas in-12, pouco texto, larga
margem, tipo elegante, corte dourado
e
vinhetas... principalmente vinhetas... Não, não alonguemos o capítulo.
CAPÍTULO
23
Triste,
mas curto
Vim. Não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma
sensação nova. Não era efeito da minha pátria política, era-o do
lugar da infância, a rua, a torre, o chafariz da
esquina, a mulher de mantilha, o preto do ganho, as coisas e cenas da meninice,
buriladas na memória. Nada menos que uma renascença. O
espírito, como um pássaro, não se lhe deu da corrente dos anos,
arrepiou o vôo na direção da fonte original, e foi
beber da água fresca e pura, ainda não mesclada do enxurro da vida.
Reparando
bem, há aí um lugar-comum. Outro lugar-comum, tristemente comum, foi a
consternação
da
família. Meu pai abraçou-me com lágrimas. — Tua mãe não pode viver, disse-me
ele. Com efeito,
não
era já o reumatismo que a matava, era um cancro no estômago. A infeliz padecia
de um modo cru,
porque
o cancro é indiferente às virtudes do sujeito; quando rói, rói; roer é o seu
ofício. Minha irmã
Sabina,
já então casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre moça! dormia três
horas por noite,
nada
mais. O próprio tio João estava abatido e triste. Dona Eusébia e algumas outras
senhoras lá estavam
também,
não menos tristes e não menos dedicadas.
— Meu
filho!
A dor
suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma, sobre
o qual a
morte
batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara,
como um dia
brilhante;
restavam os ossos, que não emagrecem nunca. Mal poderia conhecê-la; havia oito
ou nove
anos
que nos não víamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos dela entre as minhas,
fiquei mudo e
quieto,
sem ousar falar, porque cada palavra seria um soluço, e nós temíamos avisá-la
do fim. Vão
temor!
Ela sabia que estava prestes a acabar; disse-mo; verificamo-lo na seguinte
manhã.
Longa
foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria, repisada, que me
encheu de dor
e
estupefação. Era a primeira vez que eu via morrer alguém. Conhecia a morte de
oitiva; quando muito
tinha-a
visto já petrificada no rosto de algum cadáver, que acompanhei ao cemitério, ou
trazia-lhe a
idéia
embrulhada nas amplificações de retórica dos professores de coisas antigas, — a
morte aleivosa
de
César, a austera de Sócrates, a orgulhosa de Catão. Mas esse duelo do ser e do
não-ser, a morte em
ação,
dolorida, contraída, convulsa, sem aparelho político ou filosófico, a morte de
uma pessoa amada,
essa
foi a primeira vez que a pude encarar. Não chorei; lembra-me que não chorei
durante o espetáculo:
tinha
os olhos estúpidos, a garganta presa, a consciência boquiaberta. Quê? uma
criatura tão dócil, tão
meiga,
tão santa, que nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe
carinhosa, esposa
imaculada,
era força que morresse assim, trateada,mordida pelo dente tenaz de uma doença
sem
misericórdia?
Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano...
Triste
capítulo; passemos a outro mais alegre.
CAPÍTULO
24
Curto,
mas alegre
Fiquei
prostrado. E contudo era eu, nesse tempo, um fiel compêndio de trivialidade e
presunção.
Jamais
o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro; nunca até esse dia me
debruçara sobre o
abismo
do Inexplicável; faltava-me o essencial, que é o estímulo, a vertigem...
Para
lhes dizer a verdade toda, eu refletia as opiniões de um cabeleireiro, que
achei em Modena, e
que
se distinguia por não as ter absolutamente. Era a flor dos cabeleireiros; por
mais demorada que
fosse
a operação do toucado, não enfadava nunca; ele intercalava as penteadelas com
muitos motes e
pulhas,
cheios de um pico, de um sabor... Não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo
que a universidade
me
não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário,
o esqueleto. Trateia
como
tratei o latim: embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de
locuções morais
e
políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e
a jurisprudência. Colhi
de
todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação.
Talvez
espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha
mediocridade; advirta
que a
franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o
contraste dos
interesses,
a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os
rasgões e os
remendos,
a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da
obrigação é
quando,
à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso
poupa-se
o
vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo.
Mas, na morte, que
diferença!
que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao
fosso as
lentejoulas,
despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o
que deixou de
ser!
Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos,
nem estranhos;
não
há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude,
logo que pisamos o
território
da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue;
mas a nós é que
não
se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão
incomensurável como o
desdém
dos finados.
CAPÍTULO
25
Na
Tijuca
Ui!
lá me ia a pena a escorregar para o enfático. Sejamos simples, como era simples
a vida que levei
na
Tijuca, durante as primeiras semanas depois da morte de minha mãe.
No
sétimo dia, acabada a missa fúnebre, travei de uma espingarda, alguns livros,
roupa, charutos,
um
moleque, — o Prudêncio do capítulo 11, — e fui meter-me numa velha casa de
nossa propriedade.
Meu
pai forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem queria
obedecer-lhe. Sabina
desejava
que eu fosse morar com ela algum tempo -duas semanas, ao menos; meu cunhado
esteve a
ponto
de me levar à fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passara de estróina a
circunspecto.
Agora
comerciava em gêneros de estiva, labutava de manhã até a noite, com ardor, com
perseverança.
De
noite, sentado à janela, a encaracolar as suíças, não pensava em outra coisa.
Amava a mulher e um
filho,
que então tinha, e que lhe morreu alguns anos depois. Diziam que era avaro.
Renunciei tudo; tinha o espírito atônito. Creio que
por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa
flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro
inebriante e sutil. — “Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!”
— Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a
atenção, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso.
Lembra-me que estava sentado, debaixo de um
tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espírito ainda mais
cabisbaixo do que a figura, — ou jururu, como dizemos
das galinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com
uma sensação única, uma coisa a que poderia chamar
volúpia do aborrecimento. Volúpia do aborrecimento: decora esta
expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não
chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das sensações mais
sutis desse mundo e daquele tempo.
Às vezes caçava, outras dormia, outras lia, — lia
muito, — outras enfim não fazia nada; deixava-me atoar de idéia em
idéia, de imaginação em imaginação, como uma borboleta
vadia ou faminta. As horas iam pingando uma a uma, o sol caía,
as sombras da noite velavam a montanha e a cidade.
Ninguém me visitava; recomendei expressamente que me deixassem só.
Um dia, dois dias, três dias, uma semana inteira
passada assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca
fora e restituir-me ao bulício. Com efeito, ao cabo de
sete dias, estava farto da solidão; a dor aplacara; o espírito já se não
contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem
com a vista do arvoredo e do céu.
Reagia
a mocidade, era preciso viver. Meti no baú o problema da vida e da morte, os
hipocondríacos
do
poeta, as camisas, as meditações, as gravatas, e ia fechá-lo, quando o moleque
Prudêncio me disse
que
uma pessoa do meu conhecimento se mudara na véspera para uma casa roxa, situada
a duzentos
passos
da nossa.
—
Quem?
—
Nhonhô talvez não se lembre mais de Dona Eusébia...
—
Lembra-me... É ela?
Ela e
a filha. Vieram ontem de manhã.
Ocorreu-me logo o episódio de 1814, e senti-me vexado;
mas adverti que os acontecimentos tinham-me dado razão. Na
verdade, fora impossível evitar as relações íntimas do
Vilaça com a irmã do sargento-mor; antes mesmo do meu embarque,
já se boquejava misteriosamente no nascimento de uma
menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Vilaça, ao
morrer, deixara um bom legado a Dona Eusébia, coisa
que deu muito que falar em todo o bairro. O próprio tio João, guloso
de escândalos, não tratou de outro assunto na carta,
aliás de muitas folhas. Tinham-me dado razão os acontecimentos. Ainda
porém que ma não dessem, 1814 lá ia longe, e, com ele,
a travessura, e o Vilaça, e o beijo da moita; finalmente, nenhumas
relações estreitas existiam entre mim e ela. Fiz
comigo essa reflexão e acabei de fechar o baú.
—
Nhonhô não vai visitar sinhá Dona Eusébia? Perguntou-me o Prudêncio. Foi ela
quem vestiu
o
corpo da minha defunta senhora.
Lembrei-me
que a vira, entre outras senhoras, por ocasião da morte e do enterro; ignorava
porém que
ela
houvesse prestado a minha mãe esse derradeiro obséquio. A ponderação do moleque
era razoável;
eu
devia-lhe uma visita; determinei fazê-la imediatamente, e descer.
CAPÍTULO
26
O
autor hesita
Súbito ouço uma voz: — Olá, meu rapaz, isto não é
vida! Era meu pai, que chegava com duas propostas na algibeira.
Sentei-me no baú e recebi-o sem alvoroço. Ele esteve
alguns instantes de pé, a olhar para mim; depois estendeu-me a mão
com um gesto comovido:
— Meu
filho, conforma-te com a vontade de Deus.
— Já
me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.
Não
tinha almoçado; almoçamos juntos. Nenhum de nós aludiu ao triste motivo da
minha reclusão.
Uma
só vez falamos nisso, de passagem, quando meu pai fez recair a conversa na
Regência: foi então
que
aludiu à carta de pêsames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a carta
consigo, já bastante
amarrotada,
talvez por havê-la lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que era de um
dos Regentes.
Leu-ma
duas vezes.
— Já
lhe fui agradecer este sinal de consideração, concluiumeu pai, e acho que deves
ir também...
— Eu?
— Tu;
é um homem notável, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago comigo uma
idéia, um
projeto,
ou... sim, digo-te tudo; trago dois projetos, um lugar de deputado e um
casamento.
Meu
pai disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando às palavras um jeito e
disposição,
cujo
fim era cavá-las mais profundamente no meu espírito. A proposta, porém,
desdizia tanto das minhas
sensações
últimas, que eu cheguei a não entendê-la bem. Meu pai não fraqueou e repetiu-a;
encareceu
o
lugar e a noiva.
—
Aceitas?
— Não
entendo de política, disse eu depois de um instante; quanto à noiva... deixe-me
viver como
um
urso, que sou.
— Mas
os ursos casam-se, replicou ele.
—
Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa Maior...
Riu-se
meu pai, e depois de rir, tornou a falar sério. Era-me necessária a carreira
política, dizia ele,
por
vinte e tantas razões, que deduziu com singular volubilidade, ilustrando-as com
exemplos de pessoas
do
nosso conhecimento.Quanto à noiva, bastava que eu a visse; se a visse, iria
logo pedi-la ao pai, logo,
sem
demora de um dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a
intimação; eu
não
dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão, a
sorrir ou a refletir; e,
para
tudo dizer, nem dócil nem rebelde à proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de
mim mesmo dizia
que
sim, que uma esposa formosa e uma posição política eram bens dignos de apreço;
outra dizia que
não;
e a morte de minha mãe me parecia como um exemplo da fragilidade das coisas,
dasafeições, da
família...
— Não
vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pai. De-fi-ni-ti-va! repetiu,
batendo as
sílabas
com o dedo.
Bebeu
o último gole de café; repotreou-se, e entrou a falar de tudo, do Senado, da
Câmara, da
Regência,
da restauração, do Evaristo, de um coche que pretendia comprar, da nossa casa
de
Matacavalos...
Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente num pedaço de
papel,
com uma ponta de lápis; traçava uma palavra, uma frase, um verso, um nariz, um
triângulo, e
repetia-os
muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:
Arma virumque Cano
A
Arma
virumque cano
arma
virumque cano
arma
virumque
arma
virumque cano
virumque
Maquinalmente
tudo isto; e, não obstante, havia certa lógica, certa dedução; por exemplo, foi
o
virumque
que me fez chegar ao nome do próprio poeta, por causa da primeira sílaba;
ia a escrever
virumque,
— e sai-me Virgílio, então continuei:
Vir
Virgílio
Virgílio Virgílio
Virgílio
Virgílio
Meu
pai, um pouco despeitado com aquela indiferença, ergueu-se, veio a mim, lançou
os olhos ao
papel...
—
Virgílio! exclamou. Es tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgília.
CAPÍTULO
27
Virgília?
Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns
anos depois...? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869
devia assistir aos meus últimos dias, e que antes,
muito antes, teve larga parte nas minhas mais íntimas sensações. Naquele
tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; e
era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a
mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a
primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é
romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha
os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe
maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era
bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço,
precário e eterno, que o indivíduo passa a outro
indivíduo, para os fins secretos dacriação. Era isto Virgília, e era clara,
muito
clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns
ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, — devoção, ou talvez
medo; creio que medo.
Aí
tem o leitor, em poucas linhas, o retrato físico e moral da pessoa que devia
influir mais tarde na
minha
vida; era aquilo com dezesseis anos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando
estas páginas
vierem
à luz, — tu que me lês, Virgília amada, não reparas na diferença entre a
linguagem de hoje e a
que
primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a
morte não me tornou
rabugento,
nem injusto.
— Mas, dirás tu, como é que podes assim discernir a
verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?
Ah!
indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é
esse poder de
restaurar
o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos
nossos afetos.
Deixa
lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante,
isso sim. Cada
estação
da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até
a edição definitiva,
que o
editor dá de graça aos vermes.
CAPÍTULO
28
Contanto
que...
Virgília?
interrompi eu.
— Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta,
um anjo sem asas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva
como um azougue, e uns olhos... filha do Dutra...
— Que
Dutra?
— O
Conselheiro Dutra, não conheces; uma influência política. Vamos lá, aceitas?
Não
respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que
estava disposto
a
examinar as duas coisas, a candidatura e o casamento, contanto que...
—
Contanto quê?
—
Contanto que não fique obrigado aceitar as duas; creio que posso ser
separadamente homem
casado
ou homem público...
—
Todo o homem público deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pai. Mas
seja como
queres;
estou por tudo; fico certo de que a vista fará fé! Demais, a noiva e o
parlamento são a mesma
coisa...
isto é, não... saberás depois...Vá; aceito a dilação, contanto que...
Contanto
quê?... interrompi eu, imitando-lhe a voz.
— Ah!
brejeiro! Contanto que não te deixes ficar aí inútil, obscuro, e triste; não
gastei dinheiro,
cuidados,
empenhos, para te não ver brilhar, como deves, e te convém, e a todos nós; é
preciso continuar
o
nosso nome, continuá-lo e ilustrá-lo ainda mais. Olha, estou com sessenta anos,
mas se fosse necessário
começar
vida nova, começava, sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Brás; foge
do que é
ínfimo.
Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer
pela
opinião
dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios...
E foi
por diante o mágico, a agitar diante de mim um chocalho, como me faziam, em
pequeno, para
eu
andar depressa, e a flor da hipocondria recolheu-se ao botão para deixar a
outra flor menos amarela,
e
nada mórbida, — o amor da nomeada,o emplasto Brás Cubas.
CAPÍTULO
29
A
visita
Vencera
meu pai; dispus-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgília e a Câmara dos
Deputados.
— As
duas Virgílias, disse ele num assomo de ternura política. Aceitei-os; meu pai
deu-me dois fortes
abraços.
Era o seu próprio sangue que ele, enfim, reconhecia.
—
Desces comigo?
—
Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a Dona Eusébia...
Meu pai torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se
e desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar Dona
Eusébia. Achei-a a repreender um preto jardineiro, mas
deixou tudo para vir falar-me, com um alvoroço, um prazer tão
sincero, que me desacanhou logo. Creio que chegou a
cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez
me
sentar ao pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento:
—
Ora, o Brasinho! Um homem! Quem diria, há anos...Um homenzarrão! E bonito!
Qual! Você não se
lembra
bem de mim...
Disse-lhe
que sim, que não era possível esquecer uma amiga tão familiar de nossa casa.
Dona Eusébia
começou
a falar de minha mãe, com muitas saudades, com tantas saudades, que me cativou
logo, posto
me
entristecesse. Ela percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea à conversação;
pediu-me que lhe
contasse
a viagem, os estudos, os namoros... Sim, os namoros também; confessou-me que
era uma
velha
patusca. Nisto recordei-me do episódio de 1814, ela, o Vilaça, a moi-ta, o
beijo, o meu grito; e
estando
a recordá-lo, ouço um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:
—
Mamãe... mamãe...
CAPÍTULO
30
A
flor da moita
A voz
e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve à porta, alguns
instantes, ao ver
gente
estranha. Silêncio curto e constrangido. Dona Eusébia quebrou-o, enfim, com
resolução e franqueza:
— Vem
cá, Eugênia, disse ela, cumprimenta o Doutor Brás Cubas, filho do Senhor Cubas;
veio da
Europa.
E voltando-se para mim:
—
Minha filha Eugênia.
Eugênia,
a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz; olhou-me
admirada e
acanhada,
e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças
do cabelo,
cuja
ponta se desmanchara. — Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto
é... E beijou-a com
tão expansiva
ternura que me comoveu um pouco; lembrou-me minha mãe, e — direi tudo, — tive
umas
cócegas de ser pai.
—
Travessa? disse eu. Pois já não está em idade própria, ao que parece.
—
Quantos lhe dá?
—
Dezessete.
—
Menos um.
—
Dezesseis. Pois então! é uma moça.
Não
pôde Eugênia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra, mas
emendou-se logo, e
ficou
como dantes, ereta, fria e muda. Em verdade, ela parecia ainda mais mulher do
que era; seria
criança
nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassível, tinha a compostura da
mulher casada.
Talvez
essa circunstância lhe diminuía um pouco da graça virginal. Depressa nos
familiarizamos; a
mãe
fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra, e ela sorria, com os
olhos fúlgidos, como
se lá
dentro do cérebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos
de diamante...
Digo
lá dentro, porque cá fora o que esvoaçou foi uma borboleta preta, que
subitamente penetrou na
varanda,
e começou a bater as asas em derredor de Dona Eusébia. Dona Eusébia deu um
grito, levantouse,
praguejou
umas palavras soltas:
— T’esconjuro!... sai, diabo!... Virgem Nossa
Senhora!...
— Não
tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expeli a borboleta. Dona Eusébia
sentou-se outra
vez,
ofegante, um pouco envergonhada; a filha, pode ser que pálida de medo,
dissimulava a impressão
com
muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e sai, a rir comigo da superstição
das duas mulheres,
um
rir filosófico, desinteressado, superior. De tarde, vi passar a cavalo a filha
de Dona Eusébia, seguida
de um
pajem; fez-me um cumprimento com a ponta do chicote; e confesso que me
lisonjeei com a idéia
de
que, alguns passos adiante, ela voltaria a cabeça para trás; mas não voltou.
CAPÍTULO
31
A
borboleta preta
No
dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto
uma borboleta,
tão
negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e
ri-me; entrei logo
a
pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera e na dignidade que, apesar
dele, soube conservar.
A
borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa.
Sacudi-a, ela foi pousar
na
vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um
velho retrato de meu
pai.
Era negra como a noite.O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover
as asas, tinha
um
certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas
tornando lá,
minutos
depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei
mão de uma
toalha,
bati-lhe e ela caiu.
Não
caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me;
tomei-a na palma
da
mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de
alguns segundos. Fiquei
um
pouco aborrecido, incomodado.
—
Também por que diabo não era ela azul? disse eu comigo.
E
esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito desde a invenção das
borboletas, — me
consolou
do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o
cadáver, com
alguma
simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã
era linda. Veio
por
ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta
cúpula de um céu azul, que
é
sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo.
Suponho que nunca teria
visto
um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em
torno do meu
corpo,
e viu que me movia, que tinha olhos,braços, pernas, um ar divino, uma estatura
colossal. Então
disse
consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A idéia subjugou-a,
aterrou-a; mas o
medo,
que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu
criador era beijá-lo
na
testa, e beijou
me na
testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de
meu pai, e não é
impossível
que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das
borboletas, e
voou
a pedir-lhe misericórdia.
Pois
um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a
alegria das
flores,
nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho
cru. Vejam
como
é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê
lo,
se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era
impossível que eu a
atravessasse
com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia
restituiu-me a consolação;
uni o
dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era
tempo; aí vinham já
as
próvidas formigas... Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor
ter nascido azul.
CAPÍTULO
32
Coxa
de nascença
Fui
dali acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro mais. Desço
imediatamente;
desço,
ainda que algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o capítulo
passado é apenas
uma
sensaboria ou se chega a empulhação... Ai, não contava com Dona Eusébia. Estava
pronto, quando
me
entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a descida, e ir lá jantar
nesse dia. Cheguei a
recusar;
mas instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais, era-lhe
devida aquela
compensação;
fui.
Eugênia
desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por minha causa, — se é
que não
andava
muita vez assim. Nem as bichas de ouro, que trazia na véspera, lhe pendiam
agora das orelhas,
duas
orelhas finamente recortadas numa cabeça de ninfa. Um simples vestido branco,
de cassa,sem
enfeites,
tendo ao colo, em vez de broche, um botão de madrepérola, e outro botão nos
punhos, fechando
as
mangas, e nem sombra de pulseira.
Era
isso no corpo; não era outra coisa no espírito. Idéias claras, maneiras chãs,
certa graça natural,
um ar
de senhora, e não sei se alguma outra coisa; sim, a boca, exatamente a boca da
mãe, a qual me
lembrava
o episódio de 1814, e então dava-me ímpetos de glosar o mesmo mote à filha...
—
Agora vou mostrar-lhe a chácara, disse a mãe, logo que esgotamos o último gole
de café.
Saímos
à varanda, dali à chácara, e foi então que notei uma circunstância. Eugênia
coxeava um
pouco,
tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a
filha respondeu
sem
titubear:
— Não,
senhor, sou coxa de nascença.
Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado,
grosseirão. Com efeito, a simples possibilidade de ser coxa era
bastante para lhe não perguntar nada. Então lembrou-me
que da primeira vez que a vi — na véspera — a moça chegara-se
lentamente à cadeira da mãe, e que naquele dia, já a
achei à mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas porque
razão o confessava agora? Olhei para ela e reparei que
ia triste.
Tratei
de apagar os vestígios de meu desazo; — não me foi difícil, porque a mãe era,
segundo
confessara,
uma velha patusca, e prontamente travou de conversa comigo. Vimos toda a
chácara, árvores,
flores,
tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de coisas, que ela me ia
mostrando, e comentando,
ao
passo que eu, de soslaio, perscrutava os olhos de Eugênia...
Palavra
que o olhar de Eugênia não era coxo, mas direito, perfeitamente são; vinha de
uns olhos
pretos
e tranqüilos. Creio que duas ou três vezes baixaram, um pouco turvados; mas
duas ou três vezes
somente;
em geral, fitavam
me
com franqueza, sem temeridade, nem biocos.
CAPÍTULO
33
Bem-aventurados
os que não descem
O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca
tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste
faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso
escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a
pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar
para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor
que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo
pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei
essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro.
Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do
espírito, deixou novamente entrar o bichinho, e ai
fiquei eu a noite toda a cavar o mistério, sem explicá-lo.
Amanheceu
chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã era límpida e azul, e
apesar
disso
deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da
semana. Manhãs bonitas,
frescas,
convidativas; lá embaixo a família a chamar-me, e a noiva, e o arlamento, e eu
sem acudir a
coisa
nenhuma, enlevado ao pé da minha Vênus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar
o estilo;
não
havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfação física e moral.Queria-lhe, é
verdade; ao pé dessa
criatura
tão singela, filha espúria e coxa, feita de amor e desprezo, ao pé dela
sentia-me bem, e ela creio
que
ainda se sentia melhor, ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples égloga. Dona
Eusébia vigiavanos,
mas
pouco; temperava a necessidade com a conveniência. A filha, nessa primeira
explosão da
natureza,
entregava-me a alma em flor.
— O
senhor desce amanhã? Disse-me ela no sábado.
—
Pretendo.
— Não
desça.
Não desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho: —
Bem-aventurados os que não descem, porque deles é o primeiro
beijo das moças. Com efeito, foi no domingo esse
primeiro beijo de Eugênia, — o primeiro que nenhum outro varão jamais
lhe tomara, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente
entregue, como um devedor honesto paga uma dívida. Pobre
Eugênia! Se tu soubesses que idéias me vagavam pela
mente fora naquela ocasião! Tu, trêmula de comoção, com os braços
nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo
esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça, e a
suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua
origem...
D.
Eusébia entrou inesperadamente, mas não tão súbita, que nos apanhasse ao pé um
do outro. Eu
fui
até a janela. Eugênia sentou-se a consertar uma das tranças. Que dissimulação
graciosa! que arte
infinita
e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural, vivo, não estudado,
natural como o
apetite,
natural como o sono. Tanto melhor! Dona Eusébia não suspeitou nada.
CAPÍTULO
34
A uma
alma sensível
Há aí,
entre as cinco ou dez pessoas que me lêem, há aí uma alma sensível, que está
decerto um tanto
agastada
com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez...,
sim, talvez, lá no
fundo
de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana!
Esta injúria
merecia
ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma
sensível, eu
não
sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de
todo gênero, o
drama
sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as
bufonerias, um
pandemônio,
alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em que podias ver tudo, desde
a rosa
de
Smirna até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o
recanto da praia em
que o
mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e
feição. Não havia ali
a
atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo.
Retira, pois, a
expressão,
alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos, — que isso às vezes é dos
óculos, — e
acabemos
de uma vez com esta flor da moita.
CAPÍTULO
35
O
caminho de damasco
Ora
aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi
uma voz
misteriosa,
que me sussurrou as palavras da Escritura (Act., IX, 7): “Levanta-te, e
entra na cidade.”
Essa
voz saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a
candura da
pequena,
e o terror de vir a amar deveras, e desposá-la. Uma mulher coxa! Quanto a este
motivo da
minha
descida, não há duvidar que ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de
uma segundafeira,
ao
anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. — Adeus, suspirou ela
estendendo-me a
mão
com simplicidade; faz bem. — E como eu nada dissesse, continuou:
— Faz
bem em fugir ao ridículo de casar comigo. Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se
lentamente,
engolindo
as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do céu
que eu era
obrigado
a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hipérboles frias, que
ela escutou
sem
dizer nada.
—
Acredita-me? perguntei eu no fim.
—
Não, e digo-lhe que faz bem.
Quis
retê-la, mas o olhar que me lançou não foi já de súplica, senão de império.
Desci da Tijuca, na
manhã
seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito.Vinha dizendo a mim mesmo
que era
justo
obedecer a meu pai, que era conveniente abraçar a carreira política... que a
constituição... que a
minha
noiva... que o meu cavalo...
.CAPÍTULO
36
A
propósito de botas
Meu
pai, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento. — Agora
é deveras?
disse
ele. Posso enfim...?
Deixei-o
nessa reticência, e fui descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez
aliviado, respirei
à
larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os pés, e todo eu atrás deles,
entrávamos numa relativa
bem-aventurança.
Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra,
porque,
fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés,
desgraçado, desmortificaos
depois,
e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Enquanto
esta idéia me
trabalhava
no faoso trapézio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha
perder-se no horizonte
do
pretérito, e sentia que o meu coração não tardaria também a descalçar as suas
botas. E descalçou-as
o
lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rápido, inefável e
incoercível momento de gozo,
que
sucede a uma dor pungente, a uma preocupação, a um incômodo... Daqui inferi eu
que a vida é o
mais
engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a ocasião
de comer, e
não inventou
os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos
digo que
toda
a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Tu,
minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida,
manquejando da
perna
e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até
que vieste também para
esta
outra margem... O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao
século. Quem sabe?
Talvez
um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana.
CAPÍTULO
37
Enfim!
Enfim! eis aqui Virgília. Antes de ir à casa do
Conselheiro Dutra, perguntei a meu pai se havia algum ajuste prévio de
casamento.
—
Nenhum ajuste. Há tempos, conversando com ele a teu respeito, confessei-lhe o
desejo que tinha
de te
ver deputado; e de tal modo falei, que ele prometeu fazer alguma coisa, e creio
que o fará. Quanto
à
noiva, é o nome que dou a uma criaturinha, que é uma jóia, uma flor, uma
estrela, uma coisa rara... é
a
filha dele; imaginei que, se casasses com ela, mais depressa serias deputado.
— Só
isto?
— Só
isto.
Fomos
dali à casa do Dutra. Era uma pérola esse homem, risonho, jovial, patriota, um
pouco irritado
com
os males públicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a minha
candidatura era
legítima;
convinha, porém, esperar alguns meses. E logo me apresentou à mulher, — uma
estimável
senhora,
— e à filha, que não desmentiu em nada o panegírico de meu pai. Juro-vos que em
nada.
Relede
o capítulo 27. Eu, que levava idéias a respeito da pequena, fitei-a de certo
modo; ela, que não sei
se as
tinha, não me fitou de modo diferente; e o nosso olhar primeiro foi pura e
simplesmente conjugal.
No
fim de um mês estávamos íntimos.
CAPÍTULO
38
A
quarta edição
—
Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.
Aceitei
o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no Largo de São
Francisco de
Paula,
e fui dar várias voltas. Lembra-vos ainda a minha teoria das edições humanas?
Pois sabei que,
naquele
tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada de
descuidos e
barbarismos;
defeito que, aliás, achava alguma compensação no tipo, que era elegante, e na
encadernação,
que
era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela Rua dos Ourives, consulto o
relógio e cai-me o vidro na
calçada.
Entro na primeira loja que tinha à mão; era um cubículo, — pouco mais, —
empoeirado e
escuro.
Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma
mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo à
primeira vista; mas logo que se destacava era um
espetáculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrário, via-se que fora
bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice
precoce destruíram-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido
terríveis; os sinais, grandes e muitos, faziam saliências
e encarnas, declives e aclives, e davam uma sensação de lixa grossa,
enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do
vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que
mudou, entretanto, logo que eu comecei a falar. Quanto
ao cabelo, estava ruço e quase tão poento como os portais da loja.
Num dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante.
Crê-eis, pósteros? essa mulher era Marcela.
Não a
conheci logo; era difícil; ela porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra.
Os olhos chisparam
e
trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um
movimento como para
esconder-se
ou fugir; era o instinto da vaidade, que não durou mais de um instante. Marcela
acomodouse
e
sorriu.
—
Quer comprar alguma coisa? disse ela estendendo-me a mão.
Não
respondi nada. Marcela compreendeu a causa do meu silêncio (não era difícil), e
só hesitou,
creio
eu, em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a memória do
passado. Deume
uma
cadeira, e, com o balcão permeio, falou-me longamente de si, da vida que
levara, das lágrimas
que
eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, enfim das bexigas, que lhe
escalavraram o rosto, e
do
tempo, que ajudou a moléstia, adiantando-lhe a decadência. Verdade é que tinha
a alma decrépita.
Vendera
tudo, quase tudo; um homem, que a amara outrora, e lhe morreu nos braços,
deixara-lhe aquela
loja
de ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco
buscada a loja — talvez
pela
singularidade de a dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lhe contasse a
minha vida. Gastei
pouco
tempo em dizer-lha; não era longa, nem interessante.
—
Casou? disse Marcela no fim de minha narração.
—
Ainda não, respondi secamente.
Marcela
lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflete ou relembra; eu
deixei-me ir então
ao
passado, e, no meio das recordações e saudades, perguntei a mim mesmo por que
motivo fizera tanto
desatino.
Não era esta certamente a Marcela de 1822; mas a beleza de outro tempo valia
uma terça parte
dos
meus sacrifícios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcela.
O rosto dizia-me
que
não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já outrora, como hoje, ardia
neles a flama da
cobiça.
Os meus é que não souberam ver-lha; eram olhos da primeira edição.
— Mas por que entrou aqui? Viu-me da rua? Perguntou
ela, saindo daquela espécie de torpor.
—
Não, supunha entrar numa casa de relojoeiro; queria comprar um vidro para este
relógio; vou a
outra
parte; desculpe-me; tenho pressa.
Marcela
suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido, ao
mesmo
tempo,
e ansiava por me ver fora daquela casa. Marcela, entretanto, chamou um moleque,
deu-lhe o
relógio,
e, apesar da minha oposição, mandou-o, a uma loja na vizinhança, comprar o
vidro. Não havia
remédio;
sentei-me outra vez. Disse ela que desejava ter a proteção dos conhecidos de
outro tempo;
ponderou
que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me daria
finas jóias
por preços
baratos. Não disse preços baratos, mas usou uma metáfora delicada e
trans-parente. Entrei
a
desconfiar que não padecera nenhum desastre (salvo a moléstia), que tinha o
dinheiro a bom recado,
e que
negociava com o único fim de acudir à paixão do lucro,que era o verme roedor
daquela existência;
foi
isso mesmo que me disseram depois.
CAPÍTULO
39
O
vizinho
Enquanto
eu fazia comigo mesmo aquela reflexão, entrou na loja um sujeito baixo, sem
chapéu,
trazendo
pela mão uma menina de quatro anos.
— Como passou de hoje de manhã? disse ele a Marcela.
—
Assim, assim. Vem cá, Maricota.
O
sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do balcão.
—
Anda, disse ele; pergunta a Dona Marcela como passou a noite. Estava ansiosa
por vir cá, mas a
mãe
não tinha podido vesti-la... Então, Maricota? Toma a bênção... Olha a vara de
marmelo! Assim...
Não
imagina o que ela é lá em casa; fala na senhora a todos os instantes, e aqui
parece uma pamonha.
Ainda
ontem... Digo, Maricota?
— Não
diga, não, papai.
—
Então foi alguma coisa feia? perguntou Marcela batendo na cara da menina.
— Eu
lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso e uma
ave-maria, oferecidos
a
Nossa Senhora; mas a pequena ontem veio pedir-me com voz muito humilde...
imagine o quê?... que
queria
oferecê-los a Santa Marcela.
—
Coitadinha! disse Marcela beijando-a.
— É
um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina... A mãe diz que é feitiço...
Contou
mais algumas coisas o sujeito, todas mui agradáveis, até que saiu levando a
menina, não sem
deitar-me
um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcela quem era ele.
— É
um relojoeiro de vizinhança, um bom homem; a mulher também; e a filha é
galante, não?
Parecem
gostar muito de mim... é boa gente.
Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria
na voz de Marcela; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda
de ventura...
CAPÍTULO
40
Na
sege
Nisto entrou o moleque trazendo o relógio com o vidro
novo. Era tempo; já me custava estar ali; dei uma moedinha de
prata ao moleque; disse a Marcela que voltaria noutra
ocasião, e saí a passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o
coração me batia um pouco; mas era uma espécie de
dobre de finados. O espírito ia travado de impressões opostas. Notem
que aquele dia amanhecera alegre para mim. Meu pai, ao
almoço, repetiu-me, por antecipação, o primeiro discurso que eu
tinha de proferir na Câmara dos Deputados; rimo-nos
muito, e o sol também, que estava brilhante, como nos mais belos dias
do mundo; do mesmo modo que Virgília devia rir, quando
eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. Vai senão quando,
cai-me o vidro do relógio; entro na primeira loja que
me fica à mão; e eis me surge o passado, ei-lo que me lacera e beija; eilo
que me interroga, com um rosto cortado de saudades e
bexigas...
Lá o deixei; meti-me às pressas na sege, que me
esperava no Largo de São Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que
rodasse pelas ruas fora. O boleeiro atiçou as bestas,
a sege entrou a sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam
rapidamente a lama que deixara a chuva recente, e tudo
isso me parecia estar parado. Não há, às vezes, um certo vento morno
, não forte nem áspero, mas abafadiço, que nos não
leva o chapéu da cabeça, nem rodomoinha nas saias das mulheres, e
todavia é ou parece ser pior do que se fizesse uma e
outra coisa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os espíritos?
Pois eu tinha esse vento comigo; e, certo de que ele
me soprava por achar-me naquela espécie de garganta entre o passado
e o presente, almejava por sair à planície do futuro.
O pior é que a sege não andava.
—
João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?
— Uê!
nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.
CAPÍTULO
41
A
alucinação
E era verdade. Entrei apressado; achei Virgília
ansiosa, mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala
com ela. No fim dos cumprimentos disse-me a moça com
sequidão:
—
Esperávamos que viesse mais cedo.
Defendi-me
do melhor modo; falei do cavalo que empacara, e de um amigo, que me detivera.
De
repente
morre-me a voz nos lábios, fico tolhido de assombro. Virgília... seria Virgília
aquela moça?
Fitei-a
muito, e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista.
Tomei a olhá-la. As
bexigas
tinham-lhe comido o rosto; a pele, ainda na véspera tão fina, rosada e pura,
aparecia-me agora
amarela,
estigmada pelo mesmo flagelo que devastara o rosto da espanhola. Os olhos, que
eram travessos,
fizeram-se
murchos; tinha o lábio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem; peguei-lhe na
mão, e chameia
brandamente
a mim.Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.
Virgília
afastou-se, e foi sentar-se no sofá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus
próprios pés.
Devia
sair ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e
encaminhei-me para
Virgília,
que lá estava sentada e calada. Céus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a
florida Virgília. Em
vão
procurei no rosto dela algum vestígio da doença; nenhum havia; era a pele fina
e branca do costume.
—
Nunca me viu? perguntou Virgília, vendo que a encarava com insistência.
— Tão
bonita, nunca.
Sentei-me, enquanto Virgília, calada, fazia estalar as
unhas. Seguiram
se
alguns segundos de pausa. Falei-lhe de coisas estranhas ao incidente; ela porém
não me respondia
nada,
nem olhava para mim. Menos o estalido, era a estátua do Silêncio. Uma só vez me
deitou os
olhos,
mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do lábio, contraindo as
sobrancelhas, ao
ponto
de as unir; e todo esse conjunto de coisas dava-lhe ao rosto uma expressão
média entre cômica e
trágica.
Havia alguma afetação naquele desdém; era um arrebique
do gesto. Lá dentro, ela padecia, e não pouco, — ou fosse
mágoa pura, ou só despeito; e porque a dor que se
dissimula dói mais, é mui provável que Virgília padecesse em dobro do
que realmente devia padecer. Creio que isto é
metafísica.
CAPÍTULO
42
Que
escapou a Aristóteles
Outra
coisa que também me parece metafísica é isto: — Dá-se movimento a uma bola, por
exemplo;
rola
esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda bola a
rolar como a primeira
rolou.
Suponhamos que a primeira bolan se chama... Marcela, — é uma simples suposição;
a segunda,
Brás
Cubas; — a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do
passado rolou até
tocar
Virgília,
que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão
de uma força,
se
tocam os extremos sociais, e se estabelece uma coisa que poderemos chamar —
solidariedade do
aborrecimento
humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?
CAPÍTULO
43
Marquesa,
porque eu serei marquês
Positivamente, era um diabrete Virgília, um diabrete
angélico, se querem, mas era-o, e então...
Então
apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais
elegante, nem
mais
lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a
candidatura, dentro de
poucas
semanas, com um ímpeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu nenhum despeito;
não
houve
a menor violência de família. Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra
aragem, porque
a
candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi; tal foi o
começo da minha
derrota.
Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele
ministro.
—
Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um ano.
Virgília
replicou:
— Promete que algum dia me fará baronesa?
—
Marquesa, porque eu serei marquês.
Desde
então fiquei perdido. Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia,
deixando o pavão
com o
seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco
beijos; mas dez que
fossem
não queria dizer coisa nenhuma. O lábio do homem não é como a pata do cavalo de
Átila, que
esterilizava
o solo em que batia; é justamente o contrário.
CAPÍTULO
44
Um
Cubas!
Meu
pai ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra
coisa. Eram
tantos
os castelos que engenhara, tantos e tantíssimos os sonhos, que não podia vê-los
assim esboroados,
sem
padecer um forte abalo no organismo. A princípio não quis crê-lo. Um Cubas! um
galho da árvore
ilustre
dos Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já então informado da nossa
tanoaria, esqueci
um
instante a volúvel dama, para só contemplar aquele fenômeno, não raro, mas
curioso: uma imaginação
graduada
em consciência.
— Um
Cubas! Repetia-me ele na seguinte manhã, ao almoço.
Não
foi alegre o almoço; eu próprio estava a cair de sono.Tinha velado uma parte da
noite. De amor?
Era
impossível; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar
aquela, tempos depois,
não
lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo, além de uma fantasia
passageira, alguma obediência
e
muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigília; era despeito, um
despeitozinho agudo como ponta de
alfinete,
o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a
aurora, a mais tranqüila
das
auroras.
Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai
é que não pôde suportar facilmente a pancada. Pensando
bem, pode ser que não morresse precisamente do
desastre; mas que o desastre lhe complicou as últimas dores, é positivo.
Morreu daí a quatro meses, — acabrunhado, triste, com
uma preocupação intensa e contínua, à semelhança de remorso,um
desencanto mortal que lhe substituiu os reumatismos e
tosses. Teve ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos
ministros o visitou. Vi-lhe, — lembra-me bem, — vi-lhe
o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de
luz, que era, por assim dizer, o último lampejo da
alma expirante. Mas a tristeza tomou logo, a tristeza de morrer sem me ver
posto em algum lugar alto, como aliás me cabia.
— Um
Cubas!
Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma
manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio
Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a
ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que
foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer,
morreu.
— Um
Cubas!
CAPÍTULO
45
Notas
Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos
portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a
medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites,
convidados que entravam. Lentamente, a passo surdo, e apertavam a
mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados,
padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a
prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o
levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos,
soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche
fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias, o
rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto
que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para
um capítulo triste e vulgar que não escrevo.
CAPÍTULO
46
A
herança
Veja-nos
agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pai, — minha irmã sentada num
sofá, —
pouco
adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a
morder o bigode,
— eu
a passear de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pesado. Profundo
silêncio.
— Mas
afinal, disse Cotrim; esta casa pouco mais pode valer de trinta contos; demos
que valha
trinta
e cinco...
—
Vale cinqüenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cinqüenta e oito...
—
Podia custar até sessenta, tornou Cotrim; mas não se segue que os valesse, e
menos ainda que os
valha
hoje. Você sabe que as casas, aqui há anos, baixaram muito. Olhe, se esta vale
os cinqüenta
contos,
quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?
— Não
fale nisso! Uma casa velha.
— Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao teto.
—
Parece-lhe nova, aposto?
—
Ora, mano, deixe-se dessas coisas, disse Sabina, erguendo-se do sofá; podemos
arranjar tudo em
boa
amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o
boleeiro de papai e o
Paulo...
— O
boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar outro.
—
Bem, fico com o Paulo e o Prudêncio.
— O
Prudêncio está livre.
—
Livre?
— Há
dois anos.
—
Livre? Como seu pai arranjava estas coisas cá por casa, sem dar parte a
ninguém! Está direito.
Quanto
à prata... creio que não libertou a prata?
Tínhamos
falado na prata, a velha prataria do tempo de Dom José I, a porção mais grave
da herança,
já
pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade; dizia meu pai que
o Conde da Cunha,
quando
vice-rei do Brasil, a dera de presente a meu bisavô Luís Cubas.
—
Quanto à prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse
o desejo que sua
irmã
tem de ficar com ela; e acho-lhe razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa
digna, apresentável.
Você
é solteiro, não recebe, não...
— Mas
posso casar.
—
Para quê? interrompeu Sabina.
Era tão sublime esta pergunta, que por alguns
instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina,
bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa
sombra,que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiescência, e
agradeceu-mo.
— Que
é lá? redargüi; não cedi coisa nenhuma, nem cedo.
— Nem cede?
Abanei
a cabeça.
—
Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se ele quer ficar também com a
nossa roupa do
corpo,
é só o que falta.
— Não
falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é
muito mais
sumário
citar-nos a juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu
não sou seu
cunhado,
e que Deus não é Deus. Faça isto, enão perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu
amigo,
outro
oficio!
Estava
tão agastado, e eu não menos, que entendi oferecer um meio de conciliação:
dividir a prata.
Riu-se
e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o açucareiro; e depois desta
pergunta, declarou
que
teríamos tempo de liquidar a pretensão, quando menos
janela
que dava para a chácara, — e depois de um instante, voltou, e propôs ceder o
Paulo e outro preto,
com a
condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim
adiantou-se e disse
a
mesma coisa.
—
Isso nunca! não faço esmolas! disse ele.
Jantamos
tristes. Meu tio cônego apareceu à sobremesa, e ainda presenciou uma pequena
altercação.
—
Meus filhos, disse ele, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para
ser repartido
por
todos.
Mas
Cotrim:
—
Creio, creio. A questão, porém, não é de pão, é de manteiga. Pão seco é que eu
não engulo.
Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estávamos
brigados. E digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar
com Sabina. Éramos tão amigos! Jogos pueris, fúrias de
crianças, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez esse
pão da alegria e da miséria, irmamente, como bons
irmãos que éramos. Mas estávamos brigados. Tal qual a beleza de
Marcela, que se esvaiu com as bexigas.
CAPÍTULO
47
O
recluso
Marcela,
Sabina, Virgília... aí estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses
nomes e pessoas
não
fossem mais do que modos de ser da minha afeição interior. Pena de maus
costumes, ata uma
gravata
ao estilo, veste-lhe um colete menos sórdido; e depois sim, depois vem comigo,
entra nessa
casa,
estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte dos anos que decorreram
desde o inventário
de
meu pai até 1842.Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não cuides que o
mandei derramar
para
meu regalo; é um vestígio da N. ou da Z. ou da U. — que todas essas letras
maiúsculas embalaram
aí a
sua elegante abjeção. Mas, se além do aroma, quiseres outra coisa, fica-te com
o desejo, porque eu
não
guardei retratos, nem cartas, nem memórias; a mesma comoção esvaiu-se e só me
ficaram as letras
iniciais.
Vivi
meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas
a maior parte do
tempo
passei-a comigo mesmo. Vivia; deixava-me ir ao curso e recurso dos sucessos e
dos dias, ora
buliçoso,
ora apático, entre a ambição e o desânimo. Escrevia política e fazia
literatura. Mandava
artigos
e versos para as folhas públicas e cheguei a alcançar certa reputação de
polemista e de poeta.
Quando
me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgília, futura marquesa,
perguntava a
mim
mesmo por que não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves, —
eu, que
valia
mais, muito mais do que ele, — e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...
CAPÍTULO
48
Um
primo de Virgília
— Sabe quem chegou ontem de São Paulo? Perguntou-me
uma noite Luis Dutra.
Luís
Dutra era um primo de Virgília, que também privava com as musas. Os versos dele
agradavam
e
valiam mais do que os meus; mas ele tinha necessidade da sanção de alguns, que
lhe confirmasse o
aplauso
dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguém; mas deleitava-se
com ouvir
alguma
palavra de apreço; então criava novas forças e arremetia juvenilmente ao
trabalho.
Pobre
Luís Dutra! Apenas publicava alguma coisa, corria à minha casa, e entrava a
girar em volta de
mim,
à espreita de um juízo, de uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a
recente produção, e eu
falava-lhe
de mil coisas diferentes, — do último baile do Catete, da discussão das
câmaras, de berlindas
e
cavalos, — de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Ele respondia-me, a
princípio com animação,
depois
mais frouxo, torcia a rédea da conversa para o assunto dele, abria um livro,
perguntava-me se
tinha
algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a rédea para
o outro lado, e lá
ia
ele atrás de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha intenção era
fazê-lo duvidar de si
mesmo,
desanimá-lo, eliminá-lo. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz...
CAPÍTULO
49
A
ponta do nariz
Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito
na vida... Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado
leitor? A explicação do Doutor Pangloss é que o nariz
foi criado para uso dos óculos, — e tal explicação confesso que até
certo tempo me pareceu definitiva; mas veio um dia, em
que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia,atinei
com a única, verdadeira e definitiva explicação.
Com
efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir
gasta longas horas a
olhar
para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste. Quando ele finca
os olhos na ponta do
nariz,
perde o sentimento das coisas externas, embeleza-se no invisível, apreende o
impalpável,
desvincula-se
da terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é
o fenômeno
mais
excelso do espírito, e a faculdade de a obter não pertence ao faquir somente: é
universal. Cada
homem
tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver a
luz celeste, e tal
contemplação,
cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o
equilíbrio das
sociedades.
Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gênero humano
não
chegaria
a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.
Ouço
daqui uma objeção do leitor: — Como pode ser assim, diz ele, se nunca jamais
ninguém não
viu estarem
os homens a contemplar o seu próprio nariz?
Leitor
obtuso, isso prova que nunca entraste no cérebro de um chapeleiro. Um
chapeleiro passa por
uma
loja de chapéus; é a loja de um rival, que a abriu há dois anos; tinha então
duas portas, hoje tem
quatro;
promete ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapéus do rival; pelas
portas entram os
fregueses
do rival; o chapeleiro compara aquela loja com a sua, que é mais antiga e tem
só duas portas,
e
aqueles chapéus com os seus, menos buscados, ainda que de igual preço.
Mortifica-se naturalmente; mas vai andando,
concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas
da prosperidade do outro e do seu próprio atraso,
quando ele chapeleiro é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro...
Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do
nariz.
A
conclusão, portanto, é que há duas forças capitais: o amor, que multiplica a
espécie, e o nariz, que
a
subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio.
CAPÍTULO
50
Virgília
casada
—
Quem chegou de São Paulo foi minha prima Virgília, casada com o Lobo Neves,
continuou Luis
Dutra.
— Ah!
— E
só hoje é que eu soube uma coisa, seu maganão...
— Que
foi?
— Que
você quis casar com ela.
—
Idéias de meu pai. Quem lhe disse isso?
— Ela mesma. Falei-lhe muito em você, e ela então
contou-me tudo.
No
dia seguinte, estando na Rua do Ouvidor, à porta da tipografia do Plancher, vi
assomar, a distância,
uma
mulher esplêndida. Era ela; só a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a
tal ponto a natureza
e a
arte lhe haviam dado o último apuro. Cortejamo-nos; ela seguiu; entrou com o
marido na carruagem,
que
os esperava um pouco acima; fiquei atônito.
Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que
chegamos a trocar duas ou três palavras. Mas noutro baile, dado daí a
um mês, em casa de uma senhora, que ornara os salões
do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a
aproximação foi maior e mais longa, porque conversamos
e valsamos. A valsa é uma deliciosa coisa. Valsamos; e não nego
que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e
magnífico,tive uma singular sensação, uma sensação de homem
roubado.
—
Está muito calor, disse ela, logo que acabamos. Vamos ao terraço?
—
Não; pode constipar-se. Vamos à outra sala.
Na
outra sala estava Lobo Neves, que me fez muitos cumprimentos, acerca dos meus
escritos políticos,
acrescentando
que nada dizia dos literários, por não entender deles; mas os políticos eram
excelentes,
bem
pensados e bem escritos. Respondi-lhe com iguais esmeros de cortesia, e
separamo-nos contentes
um do
o outro.
Cerca
de três semanas depois recebi um convite dele para uma reunião íntima. Fui;
Virgília recebeume
com
esta graciosa palavra: - O senhor hoje há de valsar comigo.
— Em verdade, eu tinha fama e era valsista emérito;
não admira que ela me preferisse. Valsamos uma vez, e mais outra
vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos
perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e
ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçá-la e
todos com os olhos em nós, e nos outros que também se abraçavam e
giravam...Um delírio.
CAPÍTULO
51
É
minha!
É minha! disse eu comigo, logo que a passei a outro
cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-me a idéia
entranhando no espírito, não à força de martelo, mas
de verruma, que é mais insinuativa.
— É
minha! dizia eu ao chegar à porta de casa.
Mas
aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar
algum pasto aos
meus
arroubos possessórios, luziu-me no chão uma coisa redonda e amarela.
Abaixei-me; era uma
moeda
de ouro, uma meia dobra.
— É
minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.
Nessa
noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti
uns repelões
da
consciência, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda
que eu não herdara
nem
ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro,
daquele que a
perdera,
rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operário que não teria com que dar
de comer à
mulher
e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir
a moeda e o
melhor
meio, o único meio, era fazê-lo por intermédio de um anúncio ou da polícia.
Enviei um carta ao
chefe
de polícia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu
alcance, fizesse devolvêlo
às
mãos do verdadeiro dono.
Mandei
a carta e almocei tranqüilo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciência
valsara tanto na
véspera,
que chegou a ficar sufocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra
foi uma janela
que
se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama
respirou à larga.
Ventilai
as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras
circunstâncias,
o meu
ato era bonito, porque exprimia um justo escrúpulo, um sentimento de alma
delicada. Era o que
me
dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que
ela me dizia,
reclinada
ao peitoril da janela aberta.
—
Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsâmico,
é uma transpiração
dos
eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?
E a
boa dama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a
meia dobra da
véspera,
redonda, brilhante, nítida, multiplicando-se por si mesma, — ser dez — depois
trinta — depois
quinhentas,
— exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da
restituição.
E eu
espraiava todo o meu ser na contemplação daquele ato, revia-me nele, achava-me
bom, talvez
grande.
Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um pouquinho mais. Assim, eu,
Brás
Cubas,
descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o
modo de compensar
uma
janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a
consciência. Talvez
não
entendas o que aí fica; talvez queiras uma coisa mais concreta, um embrulho,
por exemplo, um
embrulho
misterioso. Pois toma lá o embrulho misterioso.
CAPÍTULO
52
O
embrulho misterioso
Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a
Botafogo, tropecei num embrulho, que estava na praia. Não digo bem;
houve menos tropeção que pontapé. Vendo um embrulho,
não grande, mas limpo e corretamente feito, atado com um
barbante rijo, uma coisa que parecia alguma coisa,
lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiência, e bati, e o
embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim;
a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam, — um
pescador curava as redes ainda mais longe, — ninguém
que pudesse ver a minha ação; inclinei-me, apanhei o embrulho e
segui.
Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de
rapazes. Tive idéia de devolver o achado à praia, mas apalpei-o e
rejeitei a idéia. Um pouco adiante, desandei o caminho
e guiei para casa.
—
Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.
E
hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da
pulha. E certo que
não
havia ali nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um
garoto, que havia
de
assobiar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me
visse abrir o embrulho e
achar
dentro um dúzia de lenços velhos ou duas dúzias de goiabas podres. Era tarde; a
curiosidade
estavaa
guçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... achei...
contei... recontei nada
menos
de cinco contos de réis. Nada menos. Talvez uns dez mil réis mais. Cinco contos
em boas notas
e
dobras, tudo asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo.
Ao jantar pareceu-me
que
um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado?
Interroguei-os discretamente,
e
concluí que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o
dinheiro, e ri-me dos meus
cuidados
maternais a respeito de cinco contos,— eu, que era abastado.
Para
não pensar mais naquilo fui de noite à casa do Lobo Neves, que instara muito
comigo não
deixasse
de freqüentar as recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de polícia; fui-lhe
apresentado; ele
lembrou-se
logo da carta e da meia dobra que eu lhe remetera alguns dias antes. Aventou o
caso;
Virgília
pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar
uma anedota
análoga,
que eu ouvi com impaciências de mulher histérica.
De
noite, no dia seguinte, em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco
contos, e até
confesso
que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária. Gostava de falar de
todas as coisas,
menos
de dinheiro, e principalmentede dinheiro achado; todavia não era crime achar
dinheiro, era uma
felicidade,
um bom acaso, era talvez um lance da Providência. Não podia ser outra coisa.
Não se
perdem
cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com
trinta mil sentidos,
apalpam-se
a miúdo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e
para se
perderem
assim totalmente, numa praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o
achado; nem
crime,
nem desonra, nem nada que embaciasse o caráter de um homem. Era um achado, um
acerto
feliz,
como a sorte grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo
honesto e até direi
que a
minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia mau, nem indigno dos
benefícios da
Providência.
— Estes cinco contos, dizia eu comigo, três semanas
depois, hei de empregá-los em alguma ação boa, talvez um dote a
alguma menina pobre, ou outra coisa assim... hei de
ver...
Nesse
mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas
alusões ao
caso
da meia dobra, cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu
conhecimento; respondi
enfadado
que a coisa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modéstia,
— e
porque
eu me encolerizasse, replicaram-me que era simplesmente grande.
CAPÍTULO
53
. . .
. . . . . .
Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda
ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no
meu pensamento; — era o que dizia, e era verdade.
Há
umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso
amor era
daquelas;
brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta,
folhuda e exuberante
criatura
dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse
crescimento. Lembra-me,
sim,
que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem
chamar, um beijo que ela
me
deu, trêmula, — coitadinha, — trêmula de medo, porque era ao portão da chácara.
Uniu-nos esse
beijo
único, — breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de
delícias, de
terrores,
de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em
alegria,
— uma
hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, — vida
de agitações, de
cóleras,
de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra
hora vinha e
engolia
aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do
resto, que é o
fastio
e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo.
CAPÍTULO
54
A
pêndula
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir;
estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas
da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater
da pêndula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso
e seco, parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um
instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre
dois sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas
da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:
—
Outra de menos...
—
Outra de menos...
— Outra
de menos...
—
Outra de menos...
O
mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não
deixasse de bater
nunca,
e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que se
transformam ou
acabam;
as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo; o derradeiro
homem, ao
despedir-se
do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata
em que morre.
Naquela
noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As
fantasias
tumultuavam-me
cá dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança de devotas que se abalroam
para
ver o
anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos
ganhados; de certo
tempo
em diante não ouvi coisa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e
traquinas, saltou pela
janela
fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de
uma janela o pensamento
de
Virgília, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com
frio, necessitados
de
repouso, e os dois vadios ali postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e
Eva.
CAPÍTULO
55
O
velho diálogo de Adão e Eva
Brás
Cubas...?
Virgília......
BrásCubas.............................
. . .
. . . . . .
Virgília..................!
BrásCubas...............
Virg
í l i a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
..................................................................
? ...................................................................
...................................................................................................................................
BrásCubas.....................
Virgília.......
BrásCubas
...............................................................................................................................
...............
.........................................................................................!...........................!..........................................................!
Virgília.......................................?
Brás
Cubas.....................!
Virgília.....................!
CAPÍTULO
56
O
momento oportuno
Mas,
com a breca! quem me explicará a razão desta diferença?
Um dia vimo-nos, tratamos o casamento, desfizemo-o e
separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão
nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada
mais.Correm anos, torno a vê-la, damos três ou quatro giros de valsa, e
eis-nos a amar um ao outro com delírio. A beleza de
Virgília chegara, é certo, a um alto grau de apuro, mas nós éramos
substancialmente os mesmos, e eu, à minha parte, não
me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão
dessa diferença?
A
razão não podia ser outra senão o momento oportuno. Não era oportuno o primeiro
momento,
porque,
se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estávamos para o nosso amor;
distinção
fundamental.
Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a
eu mesmo,
dois
anos depois do beijo, um dia queVirgília se me queixava de um pintalegrete que
lá ia e tenazmente
a
galanteava.
— Que
importuno! dizia ela fazendo uma careta de raiva.
Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera;
então ocorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela
mesma careta, e compreendi logo toda a grandeza da
minha evolução. Tinha vindo de importuno a oportuno.
CAPÍTULO
57
Destino
Sim senhor, amávamos. Agora, que todas as leis sociais
no-lo impediam, agora é que nos amávamos deveras. Achávamonos
jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta
encontrou no Purgatório:
Di
pari, come buoi, che vanno a giogo; e digo mal, comparando-nos a bois,
porque nós éramos outra
espécie
de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem saber até
onde, nem por
que
estradas escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja
solução entreguei
ao
destino. Pobre Destino!Onde andarás agora, grande procurador dos negócios
humanos? Talvez estejas
a
criar pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossível
que... Já me não lembra
onde
estava... Ah! nas estradas escusas. Disse eu comigo que já agora seria o que
Deus quisesse. Era a
nossa
sorte amar-nos; se assim não fora, como explicaríamos a valsa e o resto?
Virgília pensava a
mesma
coisa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu
lhe dissesse
que,
se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgília cingiu-me com os seus
magníficos braços,
murmurando:
—
Amo-te, é a vontade do céu.
E
esta palavra não vinha à toa; Virgília era um pouco religiosa. Não ouvia missa
aos domingos, é
verdade,
e creio até que só ia às igrejas em dia de festa, e quando havia lugar vago em
alguma tribuna.
Mas
rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com sono. Tinha medo às
trovoadas; nessas
ocasiões,
tapava os ouvidos, e resmoneava todas as orações do catecismo. Na alcova dela
havia um
oratoriozinho
de jacarandá, obra de talha, de três palmos de altura, com três imagens dentro;
mas não
falava
dele às amigas; ao contrário, tachava de beatas as que eram só religiosas.
Algum tempo desconfiei
que
havia nela certo vexame de crer, e que a sua religião era uma espécie de camisa
de flanela preservativa
e
clandestina; mas evidentemente era engano meu.
CAPÍTULO
58
Confidência
Lobo
Neves, a princípio, metia-me grandes sustos. Pura ilusão! Como adorasse a
mulher, não se
vexava
de mo dizer muitas vezes; achava que Virgília era a perfeição mesma, um
conjunto de qualidades
sólidas
e finas, amorável, elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava aí.
De fresta que era,
chegou
à porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na
existência; faltavalhe
a
glória pública. Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu com
aquela unção religiosa
de um
desejo que não quer acabar de morrer; então compreendi que a ambição dele
andava cansada de
bater
as asas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus tédios e
desfalecimentos, as
amarguras
engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido de
invejas,
despeitos,
intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente havia aí uma crise de
melancolia;
tratei
de combatê-la.
— Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não
pode imaginar o que tenho passado. Entrei na política por gosto, por
família, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê
que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida
pública; faltou-me só o interesse de outra natureza.
Vira o teatro pelo lado da platéia; e, palavra, que era bonito! Soberbo
cenário, vida, movimento e graça na representação.
Escriturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar
com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações.
Creia que tenho passado horas e dias... Não há constância de sentimentos,
não há gratidão, não há nada... nada... nada...
Calou-se profundamente abatido, com os olhos no ar,
parecendo não ouvir coisa nenhuma, a não ser o eco de seus
próprios pensamentos. Após alguns instantes, ergueu
se
eestendeu-me a mão: — O senhor há de rir-se de mim, disse ele; mas desculpe
aquele desabafo; tinha
um
negócio, que me mordia o espírito. E ria, de um jeito sombrio e triste; depois
pediu-me que não
referisse
a ninguém o que se passara entrenós; ponderei-lhe que a rigor não se passara
nada. Entraram
dois
deputados e um chefe político da paróquia. Lobo Neves recebeu-os com alegria, a
princípio um
tanto
postiça, mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguém diria que ele
não era o mais
afortunado
dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.
CAPÍTULO
59
Um
encontro
Deve ser um vinho bem enérgico a política, dizia eu
comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando,
até que na Rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um
dos ministros, meu antigo companheiro de colégio. Corteja-nos
afetuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando...
andando... andando...
— Por
que não serei eu ministro?
Esta
idéia, rútila e grande, — trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes, —
esta idéia começou
uma
vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nela, a achar-lhe
graça. Não pensei mais
na
tristeza de Lobo Neves; senti a atração do abismo. Recordei aquele companheiro
de colégio, as
correrias
nos morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, e
perguntei a mim
mesmo
por que não seria eu como ele. Entrava então no Passeio Público, e tudo me
parecia dizer a
mesma
coisa.
— Por
que não serás ministro, Cubas? — Cubas, por que não serás ministro de Estado?
Ao ouvi-lo,
uma
deliciosa sensação me refrescava todo o organismo. Entrei, fui sentar-me num
banco, a remoer
aquela
idéia. E Virgília que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se
para mim uma
cara,
que me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse.
—
Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As
roupas, salvo o
feitio,
pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilônia; o chapéu era contemporâneo do
de Gessler.
Imaginem
agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes, — ou, literalmente,
os ossos da
pessoa;
a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho; o pêlo desaparecia aos
poucos; dos oito
primitivos
botões restavam três. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras,
enquanto as
bainhas
eram roídas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem graxa. Ao pescoço
flutuavam as
pontas
de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um colarinho de oito
dias. Creio
que
trazia também colete, um colete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado.
—
Aposto que me não conhece, Senhor Doutor Cubas? disse ele.
— Não
me lembra...
— Sou
o Borba, o Quincas Borba.
Recuei
espantado... Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para
contar
tamanha
desolação! Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro
de
colégio,
tão inteligente e abastado. O Quincas Borba! Não; impossível; não pode ser. Não
podia acabar
de
crer que essa figura esquálida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho
avelhentado, que toda
essa
ruína fosse o Quincas Borba. Mas era. Os olhos tinham um resto da expressão de
outro tempo, e o
sorriso
não perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, ele
suportava com firmeza o
meu
espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura repelia, a
comparação acabrunhava.
— Não
é preciso contar-lhe nada, disse ele enfim; o senhor adivinha tudo. Uma vida de
misérias, de
atribulações
e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que
trambolhão!
Acabo
mendigo...
E
alçando a mão direita e os ombros, com um ar de indiferença, parecia resignado
aos golpes da
fortuna,
e não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassível. Não havia
nele a resignação
cristã,
nem a conformidade filosófica.Parece que a miséria lhe calejara a alma, a ponto
de lhe tirar a
sensação
de lama. Arrastava os andrajos, como outrora a púrpura: com certa graça
indolente.
— Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma
coisa.
Um
sorriso magnífico lhe abriu os lábios. — Não é o primeiro que me promete alguma
coisa, replicou,
e não
sei se será o último que não me fará nada. E para quê? Eu nada peço, a não ser
dinheiro; dinheiro
sim,
porque é necessário comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras.
Uma coisa de nada,
uns
dois vinténs de angu, nem isso fiam as malditas quitandeiras... Um inferno,
meu... ia dizer meu
amigo...
Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.
— Não?
—
Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degrau das escadas de
São Francisco,
à
esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente
fresca. Pois saí cedo,
e
ainda não comi...
Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis, —
a menos limpa, — e dei-lha. Ele recebeu-ma com os olhos
cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e
agitou-a entusiasmado.
— In
hoc signo vinces! bradou.
E
depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me
produziu um
sentimento
misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério,
grotescamente sério,
e
pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via,
desde muitos anos, uma
nota
de cinco mil réis.
—
Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.
—
Sim? acudiu ele, dando um bote para mim.
—
Trabalhando, conclui eu.
Fez
um gesto de desdém; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente
que não queria
trabalhar.
Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão triste, e preparei-me para
sair.
— Não
vá sem eu lhe ensinar a minha filosofia da miséria, disse ele,
escarranchando-se diante de
mim.
CAPÍTULO
60
O
abraço
Cuidei
que o pobre-diabo estivesse doido, e ia afastar-me, quando ele me pegou no
pulso, e olhou
alguns
instantes para o brilhante que eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns
estremeções de cobiça,
uns
pruridos de posse.
—
Magnífico! disse ele.
Depois
começou a andar à roda de mim e a examinar-me muito.
— O senhor trata-se, disse ele. jóias, roupa fina,
elegante e... Compare esses sapatos aos meus; que diferença! Pudera,
não! Digo-lhe que se trata. E moças? Como vão elas?
Está casado?
—
Não.
— Nem
eu.
—
Moro na rua...
— Não
quero saber onde mora, atalhou Quincas Borba. Se alguma vez nos virmos, dê-me outra
nota
de
cinco mil réis; mas permita-me que não a vá buscar à sua casa. É uma espécie de
orgulho... Agora,
adeus;
vejo que está impaciente.
—
Adeus!
— E
obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?
E
dizendo isto abraçou-me com tal ímpeto que não pude evitá-lo. Separamo-nos
finalmente, eu a
passo
largo, com a camisa amarrotada do abraço, enfadado e triste. Já não dominava em
mim a parte
simpática
da sensação, mas a outra. Quisera ver-lhe a miséria digna. Contudo, não pude
deixar de
comparar
outra vez o homem de agora com o de outrora, entristecer-me e encarar o abismo
que separa
as
esperanças de um tempo da realidade de outro tempo...
— Ora
adeus! Vamos jantar, disse comigo.
Meto
a mão no colete e não acho o relógio. Última desilusão! o Borba furtara-mo no
abraço.
CAPÍTULO
61
Um
projeto
Jantei
triste. Não era a falta do relógio que me pungia, era a imagem do autor do
furto, e as
reminiscências
de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a
abrir em
mim a
flor amarela e mórbida do capítulo 25, e então jantei depressa, para correr à
casa de Virgília.
Virgília
era o presente; eu queria refugiar-me nele, para escapar às opressões do
passado, porque o
encontro
do Quincas Borba tornara
me
aos olhos o passado, não qual fora deveras, mas um passado roto, abjeto,
mendigo e gatuno.
Saí
de casa, mas era cedo; iria achá-los à mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba,
e tive então um
desejo
de tornar ao Passeio Público, a ver se o achava; a idéia de o regenerar
surgiu-me como uma forte
necessidade.
Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que efetivamente “esse
sujeito” ia
por
ali às vezes.
— A
que horas?
— Não tem hora certa.
Não
era impossível encontrá-lo noutra ocasião; prometi a mim mesmo lá voltar. A
necessidade de o
regenerar,
de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchia-me o coração; eu
começava a sentir
um
bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim próprio... Nisto caia a noite;
fui ter com Virgília.
CAPÍTULO
62
O
travesseiro
Fui
ter com Virgília; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgília era o
travesseiro do meu
espírito,
um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era
ali que ele
costumava
repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas.
E, bem
pesadas
as coisas, não era outra a razão da existência de Virgília; não podia ser.
Cinco minutos bastaram
para
olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação mútua,
com as mãos
presas
umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E lá se foi a lembrança do Quincas
Borba... Escrófula
da
vida, andrajo do passado, que me importa que exista, que molestes os olhos dos
outros, se eu tenho
dois
palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?
CAPÍTULO
63
Fujamos!
Ai! nem sempre dormir. Três semanas depois, indo à
casa de Virgilia, — eram quatro horas da tarde, — achei-a triste e
abatida. Não me quis dizer o que era; mas, como eu
instasse muito:
—
Creio que o Damião desconfia alguma coisa. Noto agora umas esquisitices nele...
Não sei...
Trata-me
bem, não há dúvida; mas o olhar parece que não é o mesmo. Durmo mal; ainda esta
noite
acordei,
aterrada; estava sonhando que ele me ia matar. Talvez seja ilusão, mas eu penso
que ele
desconfia...
Tranqüilizei-a
como pude; disse que podiam ser cuidados políticos. Virgília concordou que
seriam,
mas
ficou ainda muito excitada e nervosa. Estávamos na sala de visitas, que dava
justamente para a
chácara,
onde trocáramos o beijo inicial. Uma janela aberta deixava entrar o vento, que
sacudia
frouxamente
as cortinas, e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhara o
binóculo da
imaginação;
lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso, em que não
havia
Lobo
Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a
expansão da
vontade.
Esta idéia embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, bastava
penetrar
naquela
habitação dos anjos.
—
Virgília, disse, eu proponho-te uma coisa.
— Que
é?
—
Amas-me?
Oh!
suspirou ela, cingindo-me os braços ao pescoço.
—
Virgília amava-me com fúria; aquela resposta era a verdade patente. Com os
braços ao meu
pescoço,
calada, respirando muito, deixou-se ficar a olhar para mim, com os seus grandes
e belos olhos,
que
davam uma sensação singular de luz úmida; eu deixei-me estar a vê-los, a
namorar-lhe a boca,
fresca
como a madrugada, e insaciável como a morte. A beleza de Virgília tinha agora
um tom grandioso,
que
não possuíra antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentélico, de um
lavor nobre, rasgado e
puro,
tranqüilamente bela, como as estátuas, mas não apática nem fria. Ao contrário,
tinha o aspecto
das
naturezas cálidas, e podia-se dizer que, na realidade, resumia todo o amor.
Resumia-o sobretudo
naquela
ocasião, em que exprimia mudamente tudo quanto pode dizer a pupila humana. Mas
o tempo
urgia;
deslacei-lhe as mãos, peguei-lhe nos pulsos, e, fito nela, perguntei-lhe se
tinha coragem.
— De
quê?
— De
fugir. Iremos para onde nos for mais cômodo, uma casa grande ou pequena, à tua
vontade, na
roça
ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ninguém nos aborreça, e não
haja perigos para
ti,
onde vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, ele pode descobrir
alguma coisa, e
estarás
perdida... ouves? perdida... morta... e ele também, porque eu o matarei,
juro-te.
Interrompi-me;
Virgília empalidecera muito, deixou cair os braços e sentou-se no canapé.
Esteve
assim
alguns instantes, sem me dizer palavra, não sei se vacilante na escolha, se
aterrada com a idéia da
descoberta
e da morte. Fui-me a ela, insisti na proposta, disse-lhe todas as vantagens de
uma vida a sós,
sem
zelos, nem terrores, nem aflições. Virgília ouvia-me calada; depois disse:
— Não
escaparíamos talvez; ele iria ter comigo e matava-me do mesmo modo. Mostrei-lhe
que não.
O
mundo era assaz vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar
puro e muito sol; ele
não
chegaria até lá; só as grandes paixões são capazes de grandes ações, e ele não
a amava tanto que
pudesse
ir buscá-la, se ela estivesse longe. Virgília fez um gesto de espanto e quase
indignação; murmurou
que o
marido gostava muito dela.
—
Pode ser, respondi eu; pode ser que sim...
Fui
até a janela, e comecei a rufar com os dedos no peitoril. Virgília chamou-me;
deixei-me estar,
a
remoer os meus zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse ali à mão...
Justamente, nesse
instante,
apareceu na chácara o Lobo Neves. Não tremas assim, leitora pálida; descansa,
que não hei de
rubricar
esta lauda com um pingo de sangue. Logo que apareceu na chácara, fiz-lhe um
gesto amigo,
acompanhado
de uma palavra graciosa; Virgília retirou-se apressadamente da sala, onde ele
entrou daí
a
três minutos.
—
Está cá há muito tempo? Disse-me ele.