Comentários 
do
Marco Antunes

 

Nelson e a Literatice - Marco Antunes





O Brasil tem excelentes autores, mas poucos gênios, isto é, aqueles espíritos que atingiram altíssimo patamar de capacidade criadora, aqueles que chegaram a um nível de excelência em seus gêneros ou artes que lhes permite transcenderem o que venho chamar estado da técnica (ou da arte) pedindo a expressão de empréstimo ao Direito da Propriedade Industrial. Isto é, aqueles que formularam novas e importantes soluções de expressão e arte não conhecidas ou definidas antes de sua intervenção criadora.

Na Literatura, Machado de Assis, certamente era um desses gênios, também Guimarães Rosa e Rubem Braga, na crônica, mas não ouso me arriscar em muitos outros exemplos. Nelson Rodrigues, no teatro, praticamente completa esse fechadíssimo clube na minha seleção particular, em especial pela genialidade com que fez reverberar, na técnica, uma especialíssima sintaxe cultural brasileira e elevou nosso brasileiro íntimo à categoria de universal.

Interessado em aferir o grau de consciência de Nelson de sua revolução no estado da técnica, procurei ler seus poucos textos propriamente voltados para falar de sua obra ou mesmo de literatura. Frustrado em minha busca, encontrei entre suas frases lapidares, aquelas sacadas humorísticas, devastadoras e ferinas que lhe fizeram a fama, uma frase que motiva o presente texto. Quando indagado se teria algum conselho a oferecer aos autores novos, ele disparou:

“- Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: — não façam literatice. O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra.!”

Confesso que meu coração disparou no peito! Alguém o dizia! Durante anos, animando oficinas literárias, lidando, portanto, com jovens escritores, tendo que equilibrar crítica suficiente para orientá-los no caminho da consciência lapidar da criação, mas com incentivo suficiente para que não desanimassem no percurso, devo admitir que a maior dificuldade sempre foi quando meus padawans agitavam em suas páginas, animadamente o chocalho da palavra! Como dizer-lhes a verdade sem parecer grosseria ou desprezo?

Como dizer a quem, não raro, fora atraído à literatura pelas lantejoulas da rima, pelos estrasses dos trocadilhos, pelos paetês das aliterações e demais brilhos de fantasia que adornam o chocalho da palavra, que a verdadeira literatura está muito além dessa brincadeira carnavalesca de aproximar palavras deixando que o lúdico de seus sentidos brinquem entre si!

Porque, sim, esses são instrumentos possíveis da literatura, mas são veiculares: há que transportar idéias e serem por elas validados e, claro, um certo bom gosto se adquire com o manuseio dessas bijuterias, para que o poema não acabe, mal comparando, semelhante a uma daquelas fantasias da categoria luxo que Clóvis Bornay carregava, tentando parecer leve com um resplendor de dez quilos nas costas e uma roupa de guerreiro chinês de quase meia tonelada que, se usada de fato pelo homenageado, nunca lhe teria feito a fama de general ou, por outra, teria matado de rir ao exército inimigo!

Para seguir nessa alegoria, falando agora de ritmo, harmonia e melodia, inerentes ao fenômeno literário, é claro que a uma tal literatura faltará virilidade com a mesma intensidade com que também não se lhe notará feminilidade. Diferentemente, sugere uma coisa híbrida, andrógina e, não raro, extravagante.

Sim, talvez esse chocalho seja brinquedo típico da infância da literatura, mas é preciso crescer um dia. Não é possível nem desejável que todos adotem a mesma persona literária de Mário Quintana: a do homem que, mesmo já idoso, não perdeu seu menino, sua implicância (ou birra) lúdica com as palavras e seus significados e sons.

Costumo brincar que o tal poema do “Eles passarão; eu, passarinho!” - Essa adorável gracinha literária – é, por outro lado, um dos mais involuntários males que um poeta já fez aos principiantes, porque querem repeti-lo e, como regra, uma boa piada repetida, mesmo com nova roupagem, perde a graça!

Tenho, fora das oficinas, uma preguiça gigantesca quando me convidam, por exemplo, para um sarau e lá me vêm com Literatice!

Por que se plantam milhões de poetinhas para se colher apenas um por safra? Porque poucos, pouquíssimos, superam essa infância ou adolescência literária para mergulhar no verdadeiro propósito da Literatura.

Não se faz um poeta sem alma, não se faz um poeta sem crise e profunda especulação. A descida aos infernos é indispensável para salvar Eurídice da patetice da poesia como avelório, como mera constatação do amor, porque não se faz Literatura com “L” maiúsculo, sem descer às raízes profundas da experiência humana, até lá onde, valha-me Lorca, “esconde-se a obscura raiz do grito!”

 

 

Biografia do poeta:

Marco Antônio Cabaleiro Antunes nasceu em Petrópolis-RJ, em 6 de maio de 1964. Desde pequeno teve contato com o teatro, aos 10 anos mudou-se para Brasília. Viveu uma experiência como ator profissional em Curitiba, ao lado de Paulo Autran e Celso Nunes. Sempre envolvido com teatro, como ator, diretor, autor, mas nunca se descuidou de sua carreira literária principal: a poesia.

Apresenta o Programa “Prosa e verso” na Rádio Senado, 91.7 FM, exibido aos sábados às 9h e com reprise no domingo às 16h.

É Coordenador do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados, que oferece cursos do Núcleo de literatura. Também acontecem os Saraus da Câmara dos Deputados, como frutos do Ciclo de leituras ora no Teatro Nacional, ora no Teatro Garagem do SESC da 913 sul.

 

Para mais informações sobre os cursos e saraus:

Site:

http://literaturas.sites.uol.com.br

 

Fone: 3315-8093/3215-8080

 

E-mail do “Prosa e verso” para sugestão de programa: prosaeverso@senado.gov.br

Link Para o Programa (Pode ser ouvido em MP3)

http://www.senado.gov.br/sf/senado/ilb/asp/AV_ProgramasDeRadio_Prosa_e_Verso.asp

 

http://www.senado.gov.br/radio/pro_prosa.asp

 

 

 

Entrevista com Marco Antunes*

Entrevista com Marco Antunes*

 

 

por Alexandra Rodrigues

 


É uma hora da tarde de uma sexta-feira de novembro. Marco Antônio Antunes acaba de conduzir o ciclo de poesia, o último dos horários dessa manhã preenchidos com oficinas de conto, poesia e crônica. A despeito da longa manhã literária, mostra-se totalmente disponível e disposto para uma entrevista, na acolhedora sala do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados, em Brasília.

 

1. Com uma identidade inseparável da existência literária, quem é Marco Antunes, poeta e contista? De onde ele vem e qual o seu projeto literário?

 

Quem eu sou não sei te dizer. Eu não tenho essa consciência que a gente vê em Drummond, que consegue, na primeira página do livro, fazer um projeto literário que irá cumprir até o final da vida, a ponto de chegar em seu último livro, colocar o título de Farewell e ser realmente o último livro. Talvez por isso, ao contrário de Drummond, que conseguiu se resumir de pronto em sete grandes temas, eu tenha feito meu projeto em vinte e um grandes temas, que são as Cartas do meu Tarô Pessoal.


Não sei quem eu sou, mas posso te dar algumas dicas: sou uma cara de 45 anos, que nasceu em Petrópolis, no Rio de Janeiro, veio para Brasília muito cedo, e, desde o meu primeiro momento de vida consciente, estou ligado ao teatro e à literatura sempre.

 

2. O que o impulsiona a escrever? Você acredita em musas inspiradoras?


Não, eu não acredito. Essa é uma dificuldade muito grande que eu tenho quando estou fazendo as oficinas, porque insisto que trabalhar é uma prática; e escrever é uma prática. A escrita é uma coisa que você pode e deve planejar e organizar. O meu trabalho é muito racional, eu não tenho nenhuma espécie de superstição para escrever. Só há uma ocasião na vida em que eu me sinto motivado (uma motivação imediata) a escrever: quando escrevo texto políticos ou estou muito revoltado com alguma circunstância política. O resto faz parte de um projeto muito maior e pensado anteriormente. Eu não escrevo no calor da paixão.

 

3. Como é o seu processo de criação literária em termos físicos, materiais, psicológicos? Como se programa para a escrita ? E quando ela acontece?


Ela acontece todo o dia, em princípio em uma hora programada: escrevo normalmente entre 4:00 da tarde e 8:00 da noite; este é meu melhor horário para escrever. Não sei se é uma questão de biorritmo, se esse é meu ciclo biológico, mas nessa hora minha mente está clara, eu sinto que posso interferir melhor na minha articulação mental e que não sou sujeito a turbulências; não estou nem tão desperto, naquela profusão de idéias, naquela tempestade mental da manhã, nem tão cansado quanto à noite, que é o momento em que vem mais o sonho, a inspiração, a oração (eu oro quase todos os dias). Esse é um horário em que eu fico num meio termo que me agrada, mas sempre a pensar: hoje eu quero escrever um poema sobre esse tema. E então sento... sento é um modo de dizer, porque às vezes eu ando feito um louco de um lado para o outro, até a achar a forma que desejo para esse poema. Na hora em que eu acho o conceito desse poema, ele vem fácil.

 

4. Marco, que escritores brasileiros se sentam à mesa com você em seus banquetes literários?

 

Meu prato favorito é Carlos Drummond de Andrade. Sempre foi e vai continuar sendo por muitos anos. Quando eu penso que estou numa fase em que esgoto Drummond, redescubro por outro ângulo que eu ainda não tinha atinado, um sabor novo que ainda não tinha provado. Vinicius de Moraes foi importante em uma determinada época, em especial a poesia mais social, aquela época do Operário em Construção, Desespero da Piedade. Mas eterno, aquele sabor que é o arroz, aquele que não cansa nunca, é Cecília Meireles. Essa está sempre comigo.

 

O meu biscoito fino no café da tarde é Guimarães Rosa, que eu mais gosto de ler do que de me inspirar para escrever. Eu não diria que ele seria um pai da minha escrita, não tenho aquela verve de criação de palavras nem nada parecido. Agora, quando eu escrevo prosa, o meu sonho é ser Érico Veríssimo.

 

5. E com que escritores estrangeiros você toma café da manhã?

 

Vou-te citar dois que realmente resumem a minha paixão: um é Fernando Pessoa, especialmente Álvaro de Campos, mas também o ortônimo, Fernando Pessoa. E Walt Whitman. Aqui e ali eu vou tomar um refresco de Garcia Lorca, de Pablo Neruda. Teve uma época na minha vida que eu li tanto Pablo Neruda que o meu filho se chama Pablo em função dele. Mas uma figura fundamental na minha vida, no meu pensamento, é Brecht.

 

6. Na qualidade de Coordenador do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados você desenvolve oficinas de contos, poesia, crônicas, saraus e outras iniciativas. Como é que a literatura invadiu e passou a habitar uma casa política?

 

Vou-te dar a resposta mais honesta possível: porque eu quis. Eu trabalhava como chefe de assessoria de liderança de um partido político, um trabalho completamente burocrático. E via que a parte das artes plásticas e da música no espaço cultural se desenvolvia. A Casa respirava uma atmosfera de arte, graças a esses dois núcleos. Então um dia eu me apresentei ao André Amaro (diretor do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados), que é um diretor de teatro com quem já tinha trabalhado em oportunidades anteriores, e falei que gostaria de desenvolver um trabalho na área de literatura. Fiz um projeto e ele me trouxe para o Espaço Cultural. Comecei com uma oficina e um ciclo literário que culminava em um sarau literário na Embaixada de Portugal. Já estou no décimo sexto ciclo, dedicado, de dois anos para cá, aos Estados, por ser essa uma Casa que tem representação estadual muito forte. Agora os ciclos vão ser com um autor brasileiro, um compositor e um autor estrangeiro.

 

7. No programa Prosa e Verso, da Rádio Senado, o ator e professor de literatura transforma-se em produtor e radialista. Qual é a proposta e o conteúdo do programa?

 

Esse programa é talvez a parte da minha vida de que eu mais gosto neste momento, porque é uma oportunidade que tenho de falar com mais de setecentas cidades em todo o Brasil. Quando penso nesse programa, eu penso no Marco Antônio lá atrás, dando aula no segundo grau, tentando romper uma barreira que os alunos tinham com literatura, por um erro estratégico de, por exemplo, colocar para alunos de segundo grau — preocupados com o que vão vestir no sábado à noite, se vão conseguir dar um beijo na garota ou não — obras como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas; quando o pobre Machado tinha condições de seduzi-los para que mais tarde, em outra fase da vida, eles pudessem fazer uma abordagem consciente dessas obras, uma abordagem real, vivida. Então, eu lá atrás fui um lutador, mas eu lutava de sala em sala.

 

Aqui, no Prosa e Verso, eu consigo lutar em muitas salas Brasil afora. Eu acho que o programa é um auxiliar dos professores de literatura de segundo e também de primeiro grau, porque ele usa recursos da radiodramaturgia e a interpretação de dois atores, eu e a Tuka Villa-Lobos, para facilitar a compreensão de determinado texto. A gente tem recebido cartas do Brasil inteiro e o meu grande projeto é distribuir, em parceria com o Ministério da Educação e Cultura, para todas as salas de aula do Brasil, 100 programas que cabem em dois CDs. Já imaginou um professor de literatura lá no Amazonas que, quando vai falar, por exemplo, do quinhentismo na literatura, pode colocar por quinze minutos, ao começar a sua aula, uma interpretação com dois atores falando da carta de Pero Vaz de Caminha ou Pero de Magalhães Gândavo, os cronistas de 1500? E assim nós passamos por todos os estilos, temas, abordagens, o programa é muito variado.

 

8. Marco, como acontece o escritor, de que maneira você percebe o seu processo de formação desde o berço até à maturidade literária?

 

Eu não acredito mesmo na palavra talento, me parece meio transcendente, fora da vontade da pessoa. Eu acredito em vontade. Aquela pessoa que quer escrever, que tem esse desejo sincero e que é um bom leitor, em geral se transforma num razoável escritor. Se ele juntar a isso trabalho e a capacidade de livre pensar: isso inclui ter liberdade de pensamento político, não seguir os modismos, ser livre para receber todas as informações que o mundo dá (e o mundo dá muitas). Jamais reduzir literatura a uma coisa tipo gosto, não gosto. Eu provo tudo, não faço cara feia para nada, seja em música, seja em literatura. Tudo me ensina a escrever e também a ensinar. Detesto gente preconceituosa.

 

Um escritor sem um caldo cultural não é ninguém. Eu acho que uma pessoa que consegue essa liberdade de espírito e tem determinação, em princípio pode aprender a escrever. Aprender a escrever é fácil. Mas o escritor se faz por conta própria.

 

9. É verdade que o poeta é um fingidor? Como é que se engendra o fingimento poético?

 

É sempre um fingimento. No momento em que eu estou diante do papel ou do computador, eu estou falando supostamente com uma pessoa que não existe, que é o leitor/ouvinte ideal daquele poema, daquele conto, daquele romance. O que escrevo/falo não é ele que lê/ouve, afinal. Somos todos nós que moram em mim e todos eles que moram nele. E a mensagem será o resultado impossível dessa comunicação quase inviável. Essa é a magia de você poder representar Hamlet mil vezes e mil vezes ser diferente. Os temas são poucos, o resto é a sua capacidade de ver aquela história. Basta dizer que Shakespeare, por exemplo, só escreveu realmente um enredo, Sonhos de uma Noite de Verão. Todos os outros ele se apropriou de enredos pré-existentes. Porque conhecemos Shakespeare? Porque ele conseguiu entranhar melhor o espírito universal dessa personagem.

 

10. Digamos que ele fingiu mais completamente... Otávio Paz escreveu que as redes de pescar palavras são feitas de palavras. Como você acha que elas conseguem pescar em lugares do indizível?

 

Eu acho que acreditar na literatura é não acreditar em abstrações. Quando a gente põe em palavras, a gente está tocando, trazendo para o ser humano, dizendo assim: tome, esse é o meu corpo, provai e comei.

 

Eu acho que cada palavra é como um sabor. Por exemplo, quando era pequeno eu ria muito cada vez que alguém me falava a palavra criatura. Eu achava essa palavra de indescritível graça. Nessa época, na minha terra tinha um coquinho chamado coquinho de catarro. O nome é horrível, mas era um coquinho que você ia roendo e ele ia se transformando num sabor amanteigado muito gostoso. Se eu fechar os olhos aqui, nesse momento, é quase como se me transportasse para as colinas de Petrópolis, onde eu conseguia quebrar o coquinho e comer ainda com as mãos sujas de ter escalado a colina de terra. Aqueles sabores ainda me vêm. Eu acho que com palavras é a mesma coisa: uma palavra puxa outra. Uma sensação logo convida palavras para brincar.

 

11. Digamos que o poeta vive entre o fingimento, o indizível e a brincadeira...


Eu acho que é só brincadeira. Os verdadeiros escritores e poetas nunca perderam a criança. Quanto ao indizível, é outro conceito que eu tenho dificuldade de absorver. Depois de ter lido Fernando Pessoa e Drummond, eu tenho certeza que tudo pode ser dito, a dificuldade é ser bem dito. Eu preciso, como todo o poeta precisa, achar o sotaque onde eu possa bem dizer.

 

12. Considerando esse sotaque na literatura brasileira e latino-americana, que percepção você tem acerca dessa literatura no século XXI?

 

A literatura, especialmente o teatro latino-americano, tem uma força e um vigor monumental. Eu não sei explicar porque é que, em determinados momentos, um gênero floresce; porque é que o teatro americano, no século XX, foi um monumento com Eugene O’Neil, Tennessee Williams, com o monumental Arthur Miller; como em outros momentos foi a poesia na Argentina, a poesia no Brasil nos anos que se seguiram à revolução da Semana de Arte Moderna. Que força foi aquela que agrupou tantos talentos ao redor de uma idéia, como a música popular brasileira no final dos anos 60, início dos anos 70?

 

Eu acho que o Brasil, nesse momento, vive uma entressafra muito triste. Nada me convence que a poesia brasileira tenha o vigor que teve em meados do século XX. Eu encontro, aqui e ali, expressões monumentais. Encontro aqui e ali um Carpinejar, mas eu não encontro esse movimento em massa, essa desejo cultural que é capaz de mobilizar, de atrair, de ser uma força centrípeta e centrífuga, porque ela precisa reunir escritores e esses escritores projetarem uma nova visão de mundo. Será que é porque a gente está tão desesperançada com a sociedade que está construindo? Ou porque está perdendo a real identidade cultural desse país? Eu não sei, mas adoraria uma segunda semana de Arte Moderna, em que a gente pudesse achar uma rua Líbero Badaró como eles acharam lá em São Paulo e se reunir todas as semanas para pensar, para debater, com espíritos abertos, sem ninguém tentar impor estilo, e repensar o futuro dessa literatura.

 

13. Para encerrar, uma pergunta acerca de Marco Antunes habitante do mundo: que mundo é esse, que mora em você e você mora nele?

 

Esse mundo é um contra-senso. Eu vejo o mundo quase tão amargo quanto Brecht viu na sua poesia da década de 40 ou Drummond na Rosa do Povo. Mas, ao mesmo tempo, algo em mim fala de uma incrível esperança no homem. Eu acho que todas as nossas derrotas estão nos ensinando uma vitória muito maior. Quando a gente finalmente aprender que se pode morrer e renascer, que sem ideologias e religiões o mundo vai melhorar... não é sem fé, nem sem ideal, mas sem essa coisa cristalizada de ideologia e religião. Quando a gente conseguir um outro ser humano com menos mentira, com menos conceitos, com menos roupas — não as que ele usa, mas as que nós colocamos — a gente vai fazer estar construindo um mundo melhor. E curiosamente, eu acho que as novas gerações estão aptas a isso.

 

Eu acho, que, apesar de todos os tropeços, nós estamos construindo um mundo com gente com mais habilidade de dizer mais sim do que não, um mundo com profunda inclusão de todos, em que a gente possa profundamente abraçar sem roupas, sem cristais, sem idéias prontas. E eu percebo nas novas gerações essa vontade. Talvez elas não tenham uma palavra de ordem com a gente já teve um dia. Talvez não ter essa palavra de ordem, não precisar de uma liderança, seja a grande invenção. Eu não gosto de utopias, os seus criadores acabam sacrificando as pessoas reais (escrevi até um poema sobre isso) para que elas possam ir vivendo as suas utopias. O mal das utopias é que você não consegue homens utópicos para viver nelas, mas homens reais. Quando a gente puder aceitar o homem real como ele é, estará construindo um mundo melhor. Paradoxalmente eu acredito que, a passos lentos, a gente está caminhando para um mundo melhor. E vejo o início do século XXI, com toda a tecnologia e todos os problemas ambientais que a gente vai enfrentar, como uma grande oportunidade, porque da crise vai nascer essa sociedade futura. Tomara que a gente saiba aproveitar e que nós, os escritores, saibamos traduzir e convocar os operários da construção dessa realidade não utópica.

 

*Entrevista publicada na Revista Vagalume em junho de 2008.

 

(http://www.revistavagalume.com/)

 

Ratatouille, literatura infantil e o Delay Cultural

Ratatouille, literatura infantil e o Delay Cultural

Marco Antunes

Existe uma espécie de delay entre a revolução literária e a assimilação popular, fenômeno, aliás, de todo natural e perfeitamente explicável pela resistência das massas ao novo; mas acredito que, entre nós, brasileiros, o atraso seja ainda mais significativo em razão de uma especial má qualidade, como leitores, dos tradicionais formadores de opinião tais como professores da área, animadores culturais e até mesmo os intelectuais que, entre nós, são, em geral, de baixa extração.

Não é raro aqui o sentimento de um certo mal-estar quando se percebe, por meio dos fatos mais simples do cotidiano intelectual, que no Brasil ainda se apontam como inovação ou vanguarda conquistas que nossos avós já festejaram! Aqui também é comum, por exemplo, um crítico elogiar a audácia dos versos de um poeta que se encontram perfeitamente contemplados em técnicas que Joyce já usara em seu Ulysses, no já distante ano de 1922. Quem pensa cultura, no Brasil, há de estar acostumado a esse tipo de constatação constrangedora de nosso atraso e ignorância que chamo de Delay cultural pedindo, de propósito, o termo emprestado ao jargão televisivo.

Ora, se isso é verdade para a Literatura em geral, imaginem o que não se dá quando o tema é a chamada Literatura Infantil tão precariamente estudada e, hoje, tão abusivamente praticada por professoras do ensino primário sem talento e disposição para o aprofundamento no complexo universo em que alegremente se aventuram, produzindo, não raro, páginas de horripilante mau gosto e evidente descaso quanto às possíveis implicações culturais, sociológicas e, acima de tudo, psicológicas de seus escritos despretensiosos em jovens leitores.

Minha revolta maior e indisfarçável deboche são mesmo dirigidos aos sempre perigosos concursos literários que contemplam a literatura infantil, supostamente para estimular a sua produção. Aí, mais do que em qualquer outro lugar vamos achar a celebração inepta das revoluções mil vezes vitoriosas em detrimento da verdadeira criatividade.

Reparem o universo de sacis, boitatás, curumins, bois-bumbás e caipiras espertos a que parecem se resumir os temas e personagens desses produtores contemplados com prêmio Fulano de Tal ou Ciclano de Qual (em geral Monteiro Lobato)! Reparem na reiterada atmosfera saudosista, no ressurgir de um novo fulgere urben em que a vida no campo se reveste de uma aura romantizada e assumidamente basbaque de quem adotou por ideologia um clichê ecológico ouvido não se sabe bem em que documentário piegas de televisão.

O pobre coitado do Monteiro Lobato não tem nada a ver com isso, pois ele, em que pese a fama de reacionário que o infeliz artigo “Paranóia ou Mistificação?” lhe rendeu, fez, em seu tempo a revolução necessária e admirável de nacionalizar as histórias infantis, dando-lhes o sabor local, o delicioso prazer telúrico de ser desta nossa terra e assumir a herança mítica de seu folclore e natureza única.

Acontece que, quase um século depois das “Reinações de Narizinho”, continuamos festejando a mesma literatura supostamente nacionalista como se ainda fosse revolucionária e como se ainda respondesse às questões atuais da infância e da construção da pessoa humana, nesta fase a que se destina essa literatura, ainda uma pessoa em formação!

Poucos são os autores do gênero no Brasil que parece terem a coragem de responder às atuais questões da infância em um mundo contemporâneo. Poucos e quase nunca premiados ou reconhecidos pela grande massa formadora de opinião neste segmento. Vá um destes espíritos realmente criativos produzir um enredo sobre homossexualidade, fenômeno corriqueiro e cada vez mais visível e presente neste mundo em que a criança afinal terá que viver! Adoraria ver uma professora de primeiro grau incluindo o volume “O Leãozinho Jubinha é Diferente” na lista de compras do material escolar! No entanto, o cinema projetou alegoria em tudo semelhante para mães e filhinhos encantados no hilariante desenho  “O Espanta Tubarões”.

Quando essa nova floresta urbana, seus folclores e suas personagens terão abrigo no conceito das professoras do jardim de infância e nos concursos literários, não se sabe, talvez quando passar o delay cultural! Porém o cinema, mais universal e dinâmico do que a Literatura, não tem medido esforços para modernizar a linguagem nas produções destinadas a esse público.

Mas vale aqui um aviso: a conseqüência de nosso conservadorismo, talvez seja formar mais uma geração que enxergará a literatura como um fenômeno conservador e desatualizado, coisa para velhos em seus saraus.

Este inverno, me surpreendeu com um desenho animado de longa metragem que, em sua originalidade e eloqüência, já encontra lugar ao lado das mais originais e interessantes produções destinadas ao público infantil: Ratatouille!

Revolucionário desde a origem, esse desenho da Pixar, escrito e realizado por Brad Bird, conta a originalíssima estória de um ratinho chamado Remy que, nos dizeres do site de divulgação “sonha em se tornar um grande chef francês, mesmo contra os desejos de sua família e do óbvio problema de ser um rato em uma profissão totalmente inapropriada para roedores. Quando o destino o leva aos esgotos de Paris, Remy se vê na situação ideal, bem embaixo do famoso restaurante de seu herói culinário, Auguste Gusteau. Apesar dos aparentes perigos de ser um inadequado – e certamente indesejado – visitante na cozinha de um fino restaurante francês, a paixão de Remy pela arte culinária não demora a colocar em marcha acelerada uma engraçadíssima e eletrizante corrida de ratos que invade o mundo da culinária parisiense. Remy então se sente dividido entre sua vocação e a obrigação de voltar para sempre à sua prévia existência de rato. Ele aprende a verdade sobre amizade, família e entende que sua única opção é a de aceitar quem ele é realmente: um rato que deseja ser chef de cozinha.

Todos os que já se sentiram inadequados em um mundo de regras e cânones maiores que a razão e o bom senso vestem a fantasia desse ratinho, arquétipo também de todos os artistas verdadeiros que se apresentam no grande cenário de sua arte, aqui uma cozinha, humilhados, inadequados, pequenos, quase ocultos sob a certeza de que são indesejados e menores do que o peso da história de suas artes, arrotada pelos nobres senhores críticos que já esqueceram o sabor elementar dos pratos simples e autênticos como o ratatouille francês de paladar campestre e preparo tão banal quanto o nosso feijão com arroz.

Ratinhos que ousam respirar fora de sua classe e família o odor refinado dos mais puros ingredientes do espírito e que são lembrados, a toda hora, pela gravidade social, de que são aventureiros sem direito à glória e à felicidade no mundo dos eleitos, a mítica e intimidadora Paris, que só eles, os puros de coração em sua arte, parecem enxergar como um paraíso romântico e singelo!

Por fim, a promessa quase messiânica do cozinheiro Auguste Gusteau é de que todos podem cozinhar, mesmo que seja um rato! Apenas possível no mundo da imaginação essa alegoria fulminante é um tapa de luvas de pelica na cara da crítica pretensiosa que faz da culinária (ou da literatura) uma experiência quase mística para raros escolhidos que dominam uma linguagem epifânica, apenas acessível a iniciados, compartilhada em cerimônia e ritual entre os eleitos do gênio. Ou será por acaso que nosso crítico em Ratatouille escreve suas peças críticas em um cenário de autêntica sacrística?

Vi numa tarde de julho esse filme incrível, saí do cinema banhado em lágrimas, emocionado e intimamente feliz como quem encontra, em um baú, uma antiga e perdida fotografia de sua infância, depois, pelas ruas de Curitiba fui recebendo o frio da estação e compreendendo, num plano mais racional, o que me emocinava na obra recém fruída: e senti uma vontade imensa de compartilhar essas sensações como quem convida os amigos para um jantar de inverno em que se vai servir um daqueles pratos cheios de sabor e encanto com gosto de infância e reencontro.