

Nelson e a Literatice - Marco Antunes
O Brasil tem excelentes autores, mas poucos gênios, isto é, aqueles espíritos
que atingiram altíssimo patamar de capacidade criadora, aqueles que chegaram a
um nível de excelência em seus gêneros ou artes que lhes permite transcenderem
o que venho chamar estado da técnica (ou da arte) pedindo a expressão de
empréstimo ao Direito da Propriedade Industrial. Isto é, aqueles que formularam
novas e importantes soluções de expressão e arte não conhecidas ou definidas
antes de sua intervenção criadora.
Na Literatura, Machado de Assis, certamente era um desses
gênios, também Guimarães Rosa e Rubem Braga, na crônica, mas não ouso me
arriscar em muitos outros exemplos. Nelson Rodrigues, no teatro, praticamente
completa esse fechadíssimo clube na minha seleção particular, em especial pela
genialidade com que fez reverberar, na técnica, uma especialíssima sintaxe
cultural brasileira e elevou nosso brasileiro íntimo à categoria de universal.
Interessado em aferir o grau de consciência de Nelson de sua
revolução no estado da técnica, procurei ler seus poucos textos propriamente
voltados para falar de sua obra ou mesmo de literatura. Frustrado em minha
busca, encontrei entre suas frases lapidares, aquelas sacadas humorísticas,
devastadoras e ferinas que lhe fizeram a fama, uma frase que motiva o presente
texto. Quando indagado se teria algum conselho a oferecer aos autores novos,
ele disparou:
“- Se eu tivesse que
dar um conselho, diria aos mais jovens: — não façam literatice.
O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra.!”
Confesso que meu coração disparou no peito! Alguém o dizia!
Durante anos, animando oficinas literárias, lidando, portanto, com jovens
escritores, tendo que equilibrar crítica suficiente para orientá-los no caminho
da consciência lapidar da criação, mas com incentivo suficiente para que não
desanimassem no percurso, devo admitir que a maior dificuldade sempre foi
quando meus padawans agitavam em suas páginas,
animadamente o chocalho da palavra! Como dizer-lhes a verdade sem parecer
grosseria ou desprezo?
Como dizer a quem, não raro, fora atraído à literatura pelas
lantejoulas da rima, pelos estrasses dos trocadilhos,
pelos paetês das aliterações e demais brilhos de fantasia que adornam o
chocalho da palavra, que a verdadeira literatura está muito além dessa
brincadeira carnavalesca de aproximar palavras deixando que o
lúdico de seus sentidos brinquem entre si!
Porque, sim, esses são instrumentos possíveis da literatura, mas
são veiculares: há que transportar idéias e serem por elas validados e, claro, um certo bom gosto se adquire com o manuseio dessas
bijuterias, para que o poema não acabe, mal comparando, semelhante a uma
daquelas fantasias da categoria luxo que Clóvis Bornay
carregava, tentando parecer leve com um resplendor de dez quilos nas costas e uma
roupa de guerreiro chinês de quase meia tonelada que, se usada de fato pelo
homenageado, nunca lhe teria feito a fama de general ou, por outra, teria
matado de rir ao exército inimigo!
Para seguir nessa alegoria, falando agora de ritmo, harmonia e
melodia, inerentes ao fenômeno literário, é claro que a uma
tal literatura faltará virilidade com a mesma intensidade com que também
não se lhe notará feminilidade. Diferentemente, sugere uma coisa híbrida,
andrógina e, não raro, extravagante.
Sim, talvez esse chocalho seja brinquedo típico da infância da
literatura, mas é preciso crescer um dia. Não é possível nem desejável que
todos adotem a mesma persona literária de Mário Quintana: a do homem que, mesmo já idoso, não perdeu seu
menino, sua implicância (ou birra) lúdica com as palavras e seus significados e
sons.
Costumo brincar que o tal poema do “Eles
passarão; eu, passarinho!” - Essa adorável gracinha literária – é, por outro
lado, um dos mais involuntários males que um poeta já fez aos principiantes,
porque querem repeti-lo e, como regra, uma boa piada repetida, mesmo com nova
roupagem, perde a graça!
Tenho, fora das oficinas, uma preguiça gigantesca quando me
convidam, por exemplo, para um sarau e lá me vêm com Literatice!
Por que se plantam milhões de poetinhas para se colher apenas um por safra? Porque
poucos, pouquíssimos, superam essa infância ou adolescência literária para
mergulhar no verdadeiro propósito da Literatura.
Não se faz um poeta sem alma, não se faz um poeta sem crise e
profunda especulação. A descida aos infernos é indispensável para salvar
Eurídice da patetice da poesia como avelório, como
mera constatação do amor, porque não se faz Literatura com “L” maiúsculo, sem
descer às raízes profundas da experiência humana, até lá onde, valha-me Lorca,
“esconde-se a obscura raiz do grito!”
Biografia do poeta:
Marco Antônio Cabaleiro Antunes nasceu
em Petrópolis-RJ, em 6 de maio de 1964. Desde pequeno teve contato com o
teatro, aos 10 anos mudou-se para Brasília. Viveu uma experiência como ator
profissional em Curitiba, ao lado de Paulo Autran e
Celso Nunes. Sempre envolvido com teatro, como ator, diretor, autor, mas nunca
se descuidou de sua carreira literária principal: a poesia.
Apresenta o Programa “Prosa e verso” na Rádio Senado, 91.7 FM,
exibido aos sábados às 9h e com reprise no domingo às 16h.
É Coordenador do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados, que
oferece cursos do Núcleo de literatura. Também acontecem os Saraus da Câmara
dos Deputados, como frutos do Ciclo de leituras ora no Teatro Nacional, ora no
Teatro Garagem do SESC da 913 sul.
Para mais informações sobre os cursos e saraus:
Site:
http://literaturas.sites.uol.com.br
Fone: 3315-8093/3215-8080
E-mail do “Prosa e verso” para sugestão de programa: prosaeverso@senado.gov.br
Link Para o Programa (Pode ser ouvido em MP3)
http://www.senado.gov.br/sf/senado/ilb/asp/AV_ProgramasDeRadio_Prosa_e_Verso.asp
http://www.senado.gov.br/radio/pro_prosa.asp