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Elogio da vaidade

Elogio da vaidade

 


 

Texto Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,Vol. III

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

 

Publicado originalmente em O Cruzeiro, 28 de maio de 1878.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I

 

Logo que a Modéstia acabou de falar, com os olhos no chão, a Vaidade empertigou-se e disse:

 

Damas e cavalheiros, acabais de ouvir a mais chocha de todas as virtudes, a mais peca, a mais estéril de quantas podem reger o coração dos homens; e ides ouvir a mais sublime delas, a mais fecunda, a mais sensível, a que pode dar maior cópia de venturas sem contraste.

 

Que eu sou a Vaidade, classificada entre os vícios por alguns retóricos de profissão; mas na realidade, a primeira das virtudes. Não olheis para este gorro de guizos, nem para estes punhos carregados de braceletes, nem para estas cores variegadas com que me adorno. Não olheis, digo eu, se tendes o preconceito da Modéstia; mas se o não tendes, reparai bem que estes guizos e tudo mais, longe de ser uma casca ilusória e vã, são a mesma polpa do fruto da sabedoria; e reparai mais que vos chamo a todos, sem os biocos e meneios daquela senhora, minha mana e minha rival.

 

Digo a todos, porque a todos cobiço, ou sejais formosos como Páris, ou feios como Tersites, gordos como Pança, magros como Quixote, varões e mulheres, grandes e pequenos, verdes e maduros, todos os que compondes este mundo, e haveis de compor o outro; a todos falo, como a galinha fala aos seus pintinhos, quando os convoca à refeição, a saber, com interesse, com graça, com amor. Porque nenhum, ou raro, poderá afirmar que eu o não tenha alçado ou consolado.

 

 

 

II

 

Onde é que eu não entro? Onde é que eu não mando alguma coisa? Vou do salão do rico ao albergue do pobre, do palácio ao cortiço, da seda fina e roçagante ao algodão escasso e grosseiro. Faço exceções, é certo (infelizmente!); mas, em geral, tu que possuis, busca-me no encosto da tua otomana, entre as porcelanas da tua baixela, na portinhola da tua carruagem; que digo? busca-me em ti mesmo, nas tuas botas, na tua casaca, no teu bigode; busca-me no teu próprio coração. Tu, que não possuis nada, perscruta bem as dobras da tua estamenha, os recessos da tua velha arca; lá me acharás entre dois vermes famintos; ou ali, ou no fundo dos teus sapatos sem graxa, ou entre os fios da tua grenha sem óleo.

 

Valeria a pena ter, se eu não realçasse os teres? Foi para escondê-lo ou mostrá-lo, que mandaste vir de tão longe esse vaso opulento? Foi para escondê-lo ou mostrá-lo, que encomendaste à melhor fábrica o tecido que te veste, a safira que te arreia, a carruagem que te leva? Foi para escondê-lo ou mostrá-lo, que ordenaste esse festim babilônico, e pediste ao pomar os melhores vinhos? E tu, que nada tens, por que aplicas o salário de uma semana ao jantar de uma hora, senão porque eu te possuo e te digo que alguma coisa deves parecer melhor do que és na realidade? Por que levas ao teu casamento um coche, tão rico e tão caro, como o do teu opulento vizinho, quando podias ir à igreja com teus pés? Por que compras essa jóia e esse chapéu? Por que talhas o teu vestido pelo padrão mais rebuscado, e por que te remiras ao espelho com amor, senão porque eu te consolo da tua miséria e do teu nada, dando-te a troco de um sacrifício grande benefício ainda maior?

 

 

 

III

 

Quem é esse que aí vem, com os olhos no eterno azul? É um poeta; vem compondo alguma coisa; segue o vôo caprichoso da estrofe. — Deus te salve, Píndaro! Estremeceu; moveu a fronte, desabrochou em riso. Que é da inspiração? Fugiu-lhe; a estrofe perdeu-se entre as moitas; a rima esvaiu-se-lhe por entre os dedos da memória. Não importa; fiquei eu com ele, — eu, a musa décima, e, portanto, o conjunto de todas as musas, pela regra dos doutores de Sganarello. Que ar beatífico! Que satisfação sem mescla! Quem dirá a esse homem que uma guerra ameaça levar um milhão de outros homens? Quem dirá que a seca devora uma porção do país? Nesta ocasião ele nada sabe, nada ouve. Ouve-me, ouve-se; eis tudo.

 

Um homem caluniou-o há tempos; mas agora, ao voltar à esquina, dizem-lhe que o caluniador o elogiou.

 

— Não me fales nesse maroto.

 

— Elogiou-te; disse que és um poeta enorme.

 

— Outros o têm dito, mas são homens de bem, e sinceros. Será ele sincero?

 

— Confessa que não conhece poeta maior.

 

— Peralta! Naturalmente arrependeu-se da injustiça que me fez. Poeta enorme, disse ele?

 

— O maior de todos.

 

— Não creio. O maior?

 

— O maior.

 

— Não contestarei nunca os seus méritos; não sou como ele que me caluniou; isto é, não sei, disseram-mo. Diz-se tanta mentira! Tem gosto o maroto; é um pouco estouvado às vezes, mas tem gosto. Não contestarei nunca os seus méritos. Haverá pior coisa do que mesclar o ódio às opiniões? Que eu não lhe tenho ódio. Oh! nenhum ódio. É estouvado, mas imparcial.

 

Uma semana depois, vê-lo-eis de braço com o outro, à mesa do café, à mesa do jogo, alegres, íntimos, perdoados. E quem embotou esse ódio velho, senão eu? Quem verteu o bálsamo do esquecimento nesses dois corações irreconciliáveis? Eu, a caluniada amiga do gênero humano.

 

Dizem que o meu abraço dói. Calúnia, amados ouvintes! Não escureço a verdade; às vezes há no mel uma pontazinha de fel; mas como eu dissolvo tudo! Chamai aquele mesmo poeta, não Píndaro, mas Trissotin. Vê-lo-eis derrubar o carão, estremecer, rugir, morder-se, como os zoilos de Bocage. Desgosto, convenho, mas desgosto curto. Ele irá dali remirar-se nos próprios livros. A justiça que um atrevido lhe negou, não lha negarão as páginas dele. Oh! a mãe que gerou o filho, que o amamenta e acalenta, que põe nessa frágil criaturinha o mais puro de todos os amores, essa mãe é Medéia, se a compararmos àquele engenho, que se consola da injúria, relendo-se; porque se o amor de mãe é a mais elevada forma do altruísmo, o dele é a mais profunda forma de egoísmo, e só há uma coisa mais forte que o amor materno, é o amor de si próprio.

 

 

 

IV

 

Vede estoutro que palestra com um homem público. Palestra, disse eu? Não; é o outro que fala; ele nem fala, nem ouve. Os olhos entornam-se-lhe em roda, aos que passam, a espreitar se o vêem, se o admiram, se o invejam. Não corteja as palavras do outro; não lhes abre sequer as portas da atenção respeitosa. Ao contrário, parece ouvi-las com familiaridade, com indiferença, quase com enfado. Tu, que passas, dizes contigo:

 

— São íntimos; o homem público é familiar deste cidadão; talvez parente. Quem lhe faz obter esse teu juízo, senão eu? Como eu vivo da opinião e para a opinião, dou àquele meu aluno as vantagens que resultam de uma boa opinião, isto é, dou-lhe tudo.

 

Agora, contemplai aquele que tão apressadamente oferece o braço a uma senhora. Ela aceita-lho; quer seguir até a carruagem, e há muita gente na rua. Se a Modéstia animara o braço do cavalheiro, ele cumprira o seu dever de cortesania, com uma parcimônia de palavras, uma moderação de maneiras, assaz miseráveis. Mas quem lho anima sou eu, e é por isso que ele cuida menos de guiar à dama, do que de ser visto dos outros olhos. Por que não? Ela é bonita, graciosa, elegante; a firmeza com que assenta o pé é verdadeiramente senhoril. Vede como ele se inclina e bamboleia! Riu-se? Não vos iludais com aquele riso familiar, amplo, doméstico; ela disse apenas que o calor é grande. Mas é tão bom rir para os outros! é tão bom fazer supor uma intimidade elegante!

 

Não deveríeis crer que me é vedada a sacristia? Decerto; e contudo, acho meio de lá penetrar, uma ou outra vez, às escondidas, até às meias roxas daquela grave dignidade, a ponto de lhe fazer esquecer as glórias do céu, pelas vanglórias da terra. Verto-lhe o meu óleo no coração, e ela sente-se melhor, mais excelsa, mais sublime do que esse outro ministro subalterno do altar, que ali vai queimar o puro incenso da fé. Por que não há de ser assim, se agora mesmo penetrou no santuário esta garrida matrona, ataviada das melhores fitas, para vir falar ao seu Criador? Que farfalhar! que voltear de cabeças! A antífona continua, a música não cessa; mas a matrona suplantou Jesus, na atenção dos ouvintes. Ei-la que dobra as curvas, abre o livro, compõe as rendas, murmura a oração, acomoda o leque. Traz no coração duas flores, a fé e eu; a celeste, colheu-a no catecismo, que lhe deram aos dez anos; a terrestre colheu-a no espelho, que lhe deram aos oito; são os seus dois Testamentos; e eu sou o mais antigo.

 

 

 

V

 

Mas eu perderia o tempo, se me detivesse a mostrar um por um todos os meus súditos; perderia o tempo e o latim. Omnia vanitas. Para que citá-los, arrolá-los, se quase toda a terra me pertence? E digo quase, porque não há negar que há tristezas na terra e onde há tristezas aí governa a minha irmã bastarda, aquela que ali vedes com os olhos no chão. Mas a alegria sobrepuja o enfado e a alegria sou eu. Deus dá um anjo guardador a cada homem; a natureza dá-lhe outro, e esse outro é nem mais nem menos esta vossa criada, que recebe o homem no berço, para deixá-lo somente na cova. Que digo? Na eternidade; porque o arranco final da modéstia, que aí lês nesse testamento, essa recomendação de ser levado ao chão por quatro mendigos, essa cláusula sou eu que a inspiro e dito; última e genuína vitória do meu poder, que é imitar os meneios da outra.

 

Oh! a outra! Que tem ela feito no mundo que valha a pena de ser citado? Foram as suas mãos que carregaram as pedras das Pirâmides? Foi a sua arte que entreteceu os louros de Temístocles? Que vale a charrua do seu Cincinato, ao pé do capelo do meu cardeal de Retz? Virtudes de cenóbios, são virtudes? Engenhos de gabinete, são engenhos? Traga-me ela uma lista de seus feitos, de seus heróis, de suas obras duradouras; traga-ma, e eu a suplantarei, mostrando-lhe que a vida, que a história, que os séculos nada são sem mim.

 

Não vos deixeis cair na tentação da Modéstia: é a virtude dos pecos. Achareis decerto, algum filósofo, que vos louve, e pode ser que algum poeta, que vos cante. Mas, louvaminhas e cantarolas têm a existência e o efeito da flor que a Modéstia elegeu para emblema; cheiram bem, mas morrem depressa. Escasso é o prazer que dão, e ao cabo definhareis na soledade. Comigo é outra coisa: achareis, é verdade, algum filósofo que vos talhe na pele; algum frade que vos dirá que eu sou inimiga da boa consciência. Petas! Não sou inimiga da consciência, boa ou má; limito-me a substituí-la, quando a vejo em frangalhos; se é ainda nova, ponho-lhe diante de um espelho de cristal, vidro de aumento. Se vos parece preferível o narcótico da Modéstia, dizei-o; mas ficai certos de que excluireis do mundo o fervor, a alegria, a fraternidade.

 

Ora, pois, cuido haver mostrado o que sou e o que ela é; e nisso mesmo revelei a minha sinceridade, porque disse tudo, sem vexame, nem reserva; fiz o meu próprio elogio, que é vitupério, segundo um antigo rifão; mas eu não faço caso de rifões. Vistes que sou a mãe da vida e do contentamento, o vínculo da sociabilidade, o conforto, o vigor, a ventura dos homens; alço a uns, realço a outros, e a todos amo; e quem é isto é tudo, e não se deixa vencer de quem não é nada.

 

E reparai que nenhum grande vício se encobriu ainda comigo; ao contrário, quando Tartufo entra em casa de Orgon, dá um lenço a Dorina para que cubra os seios. A modéstia serve de conduta a seus intentos. E por que não seria assim, se ela ali está de olhos baixos, rosto caído, boca taciturna? Poderíeis afirmar que é Virgínia e não Locusta? Pode ser uma ou outra, porque ninguém lhe vê o coração. Mas comigo? Quem se pode enganar com este riso franco, irradiação do meu próprio ser; com esta face jovial, este rosto satisfeito, que um quase nada obumbra, que outro quase nada ilumina; estes olhos, que não se escondem, que se não esgueiram por entre as pálpebras, mas fitam serenamente o sol e as estrelas?

 

 

 

VI

 

O quê? Credes que não é assim? Querem ver que perdi toda a minha retórica, e que ao cabo da pregação, deixo um auditório de relapsos? Céus! Dar-se-á caso que a minha rival vos arrebatasse outra vez? Todos o dirão ao ver a cara com que me escuta este cavalheiro; ao ver o desdém do leque daquela matrona. Uma levanta os ombros; outro ri de escárnio. Vejo ali um rapaz a fazer-me figas: outro abana tristemente a cabeça; e todas, todas as pálpebras parecem baixar, movidas por um sentimento único. Percebo, percebo! Tendes a volúpia suprema da vaidade, que é a vaidade da modéstia.

 

 

 

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Elogio da Loucura

(Encomium Moriae)

Erasmo de Rotterdam

(1466 — 1536)

Tradução base

Paulo M. Oliveira

Versão para eBook

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Fonte Digital

Digitalização de edição em papel

Atena Editora, s.d.

Imagem interna:

clendening.kumc.edu

© 2002 — Desiderius Erasmo

ÍNDICE

Notícia Biográfica

ELOGIO DA LOUCURA

Erasmo a Tomás More

Declamação de Erasmo de Rotterdam

Notas

NOTÍCIA BIOGRÁFICA

FILHO de Geraldo Elia e de Margarida Zerembergen, nasceu Erasmo no dia 27 de

outubro de 1465, na cidade de Rotterdam. O seu primitivo nome de Geraldo, herdado do pai,

traduziu-o ele, mais tarde em latim e em grego, tornando-se célebre com o de Desidério

Erasmo. Seu pai, em virtude da perseguição da família de Margarida, por não ter o casal

recebido a bênção da Igreja, fora constrangido a refugiar-se em Roma. Em seguida

desesperado com a falsa notícia da morte de Margarida, entrou num convento e fez-se padre.

Ao saber, porém, que Margarida ainda vivia, voltou à Alemanha e recuperou a sua

felicidade, passando a viver em companhia da esposa e do filho.

Aos onze anos de idade, Erasmo já lia perfeitamente Horácio e Terêncio. Tendo perdido

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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os pais ainda muito jovem, o seu tutor internou-o no convento de Stein, onde Erasmo,

desgostoso, entregou-se apaixonadamente aos estudos.

Tinha apenas vinte anos quando escreveu sua primeira obra: O Desprezo do Mundo. Em

seguida publicou um discurso intitulado O Bem da Paz. Esses dois trabalhos logo se

tornaram muito conhecidos e celebrizaram o seu autor. O bispo de Cambrai mandou chamar

Erasmo e o teve em sua companhia. Seguiu ele, depois para Paris e entrou no colégio de

Montegu, mas aí se deu tão mal com a alimentação que a sua saúde ficou seriamente

prejudicada.

Regressando à Holanda, teve a proteção da marquesa de Nassau, Ana de Brosselen. A

fidalga castelhana forneceu-lhe recursos para as suas viagens. Erasmo foi, então, para a

Inglaterra onde esteve em companhia de Lord Montjoye, que mandara chamá-lo. Daí, partiu

ele para a Itália, onde se doutorou pela Universidade de Bolonha.

Na Itália, Erasmo travou relações com os homens mais famosos da época. Conheceu

cardeais e papas, entre estes Júlio II. Esteve em seguida, em Veneza, com Aldo Manuzio;

depois, em Pádua, onde foi preceptor do filho bastardo de James Stuart; mais tarde tornou à

inglaterra, onde teve em Thomas More um dos seus melhores amigos.

O Elogio da Loucura (Encomium Moriae), que ora editamos, foi publicado em Paris em

1509. É uma sátira extraordinariamente interessante, na qual os potentados da época e

sobretudo os homens da Igreja são impiedosamente escalpelados pela ironia incomparável

do grande escritor.

Sempre inquieto e insatisfeito, percorreu Erasmo vários países, até se instalar

definitivamente na Basiléia, onde morreu aos setentas anos de idade, no dia 11 de julho de

1536.

ELOGIO

DA LOUCURA

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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ERASMO

de ROTTERDAM

ERASMO A THOMAS MORE, SAÚDE.

ACHANDO-ME, dias atrás, de regresso da Itália à Inglaterra, a fim de não gastar todo o

tempo da viagem em insípidas fábulas, preferi recrear-me, ora volvendo o espírito aos

nossos comuns estudos, ora recordando os doutíssimos e ao mesmo tempo dulcíssimos

amigos que deixara ao partir. E foste tu, meu caro More, o primeiro a aparecer aos meus

olhos, pois que malgrado tanta distância, eu via e falava contigo com o mesmo prazer que

costumava ter em tua presença e que juro não ter experimentado maior em minha vida. Não

desejando, naquele intervalo, passar por indolente, e não me parecendo as circunstâncias

adequadas aos pensamentos sérios, julguei conveniente divertir-me com um elogio da

Loucura. Porque essa inspiração? (1) — perguntar-me-ás. Pelo seguinte: a princípio,

dominou-me essa fantasia por causa do teu gentil sobrenome, tão parecido com a Mória (2)

quanto realmente estás longe dela e, decerto, ainda mais longe do conceito que em geral dela

se faz. Em seguida, lisonjeou-me a idéia de que essa engenhosa pilhéria pudesse merecer a

tua aprovação, se é verdade que divertimentos tão artificiais, não me parecendo plebeus,

naturalmente, nem de todo insulsos, te possam deleitar (3), permitindo que, como um novo

Demócrito, observes e ridicularizes os acontecimentos da vida humana. Mas, assim como,

pela excelência do gênio e de talentos, estás acima da maioria dos homens, assim também,

pela rara suavidade do costume e pela singular afabilidade, sabes e gostas, sempre e em toda

parte, de habituar-te a todos e a todos parecer amável e grato.

Por conseguinte, gostarás agora, não só de aceitar de bom grado esta minha pequena

arenga, como um presente do teu bom amigo, mas também de colocá-la sob o teu patrocínio,

como coisa sagrada para ti e, na verdade, mais tua do que minha. Já prevejo que não faltarão

detratores para insurgir-se contra ela, acusando-a de frivolidade indigna de um teólogo, de

sátira indecente para a moderação cristã, em suma, clamando e cacarejando contra o fato de

eu ter ressuscitado a antiga comédia (4) e, qual novo Luciano (5), ter magoado a todos sem

piedade. Mas, os que se desgostarem com a ligeireza do argumento e com o seu ridículo

devem ficar avisados de que não sou eu o seu autor, pois que com o seu uso se

familiarizaram numerosos grandes homens. Com efeito, muitos séculos antes, Homero

escreveu a sua Batraquiomaquia, Virgílio cantou o mosquito e a amoreira, e Ovídio a

nogueira; Polícrates chegou a fazer o elogio de Busiris, mais tarde impugnado e corrigido

por Isócrates; Glauco enalteceu a injustiça, o filósofo Favorino louvou Tersites e a febre

quartã; Sinésio a calvície e Luciano a mosca parasita; finalmente, Sêneca ridicularizou a

apoteose de Cláudio, Plutarco escreveu o diálogo do grilo com Ulisses, Luciano e Apuleio

falaram do burro; e um tal Grunnio Corocotta fez o testamento do porco, citado por São

Jerônimo. Saibam, pois, esses censores que também, para divertir-me, já joguei xadrez e

montei em cavalo de pau (6), como um menino. Na verdade, haverá maior injustiça do que,

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sendo permitida uma brincadeira adequada a cada idade e condição, não poder pilheriar um

literato, principalmente quando a pilhéria tem um fundo de seriedade, sendo as facécias

manejadas apenas como disfarce, de forma que quem as lê, quando não seja um solene

bobalhão, mas possua algum faro, encontre nelas ainda mais proveito do que em profundos

e luminosos temas? Que dizer, então, de alguém que, com um longo discurso, depois de

muito estudar e fatigar as costas elogiasse a retórica ou a filosofia? ou de alguém que

escrevesse o elogio de um príncipe, outro uma exortação contra os turcos, outro fizesse

horóscopos e predições baseado nos planetas, outro questões de lana caprina (7) e

investigações futilíssimas? Portanto, assim como não há nada mais inepto do que abordar

graves argumentos puerilmente, assim também é bastante agradável e plausível tratar de

igual forma as pilhérias, não têm aqui outro objetivo senão o de pilheriar.

Quanto a mim, deixo que os outros julguem esta minha tagarelice; mas, se o meu

amor-próprio não deixar que eu o perceba, contentar-me-ei de ter elogiado a Loucura sem

estar inteiramente louco. Quanto à imputação de sarcasmo, não deixarei de dizer que há

muito tempo existe a liberdade de estilo com a qual se zomba da maneira por que vive e

conversa o homem, a não ser que se caia no cinismo e no veneno. Assim, pergunto se se

deve estimar o que magoa, ou antes o que ensina e instrui, censurando a vida e os costumes

humanos, sem pessoalmente ferir ninguém. Se assim não fosse, precisaria eu mesmo fazer

uma sátira a meu respeito, com todas as particularidades que atribuo aos outros. Além disso,

quem se insurge em geral contra todos os aspectos da vida não deve ser inimigo de ninguém,

mas unicamente do vício em toda a sua extensão e totalidade. Se houver, pois, alguém que

se sinta ofendido por isso, deverá procurar descobrir as suas próprias mazelas, porque, do

contrário, se tornará suspeito ao mostrar receio de ser objeto da minha censura. Muito mais

livre e acerbo nesse gênero literário foi São Jerônimo, que nem sequer perdoava os nomes

das pessoas! Nós, porém, além de calarmos absolutamente os nomes, temperámos o estilo,

de forma que o leitor honesto verá por si mesmo que o meu propósito foi mais divertir do

que magoar. Seguindo o exemplo de Juvenal, em nenhum ponto tocámos na oculta cloaca de

vícios da humanidade, nem relevámos as suas torpezas e infâmias, limitando-nos a mostrar o

que nos pareceu ridículo. Se, apesar de tudo, ainda houver ranzinzas e descontentes, que ao

menos observem como é bonito e vantajoso ser acusado de loucura. Com efeito, na boca da

que trouxemos à cena e fizemos falar, foi necessário pôr os juízos e as palavras que mais se

coadunam com o seu caráter. Mas, para que hei de te dizer todas essas coisas, se és emérito

advogado, capaz de defender egregiamente mesmo as causas menos favoráveis?

Sem mais, eloqüentíssimo More, estimo que estejas são e tomes animosamente a parte de

tua loucura.

Vila, 10 de junho de 1508.

DECLAMAÇÃO DE ERASMO DE ROTTERDAM

EMBORA os homens costumem ferir a minha reputação e eu saiba muito bem quanto o

meu nome soa mal aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura,

sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais. A

prova incontestável do que afirmo está em que não sei que súbita e desusada alegria brilhou

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no rosto de todos ao aparecer eu diante deste numerosíssimo auditório. De fato, erguestes

logo a fronte, satisfeitos, e com tão prazenteiro e amável sorriso me aplaudistes, que na

verdade todos os que distingo ao meu redor me parecem outros tantos deuses de Homero,

embriagados pelo néctar com nepente (8). No entanto, antes, estivestes sentados, tristes e

inquietos, como se há pouco tivésseis saído da caverna de Trofônio (9). Com efeito, como

no instante em que surge no céu a brilhante figura do sol, ou como quando, após um rígido

inverno, retorna a primavera com suas doces aragens e vemos todas as coisas tomarem logo

um novo aspecto, matizando-se de novas cores, contribuindo tudo para de certo modo

rejuvenecer a natureza, assim também, logo que me vistes, transformastes inteiramente as

vossas fisionomias. Bastou, pois, a minha simples presença para eu obter o que valentes

oradores mal teriam podido conseguir com um longo e longamente meditado discurso:

expulsar a tristeza de vossa alma.

Se, agora, fazeis questão de saber por que motivo me agrada aparecer diante de vós com

uma roupa tão extravagante, eu vo-lo direi em seguida, se tiverdes a gentileza de me prestar

atenção; não a atenção que costumais prestar aos oradores sacros, mas a que prestais aos

charlatães, aos intrujões e aos bobos das ruas, numa palavra, a que o nosso Midas (10)

prestava ao canto do deus Pã. E isso porque me agrada ser convosco um tanto sofista: não da

espécie dos que hoje não fazem senão imbuir as mentes juvenis de inúteis e difíceis

bagatelas, ensinando-os a discutir com uma pertinácia mais do que feminina. Ao contrário,

pretendo imitar os antigos, que, evitando o infame nome de filósofos, preferiram chamar-se

sofistas (11), cuja principal cogitação consistia em elogiar os deuses e os heróis. Ireis, pois,

ouvir o elogio, não de um Hércules ou de um Solon, mas de mim mesma, isto é, da Loucura.

Para dizer a verdade, não nutro nenhuma simpatia pelos sábios que consideram tolo e

impudente o auto-elogio. Poderão julgar que seja isso uma insensatez, mas deverão

concordar que uma coisa muito decorosa é zelar pelo próprio nome.

De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer

ecoar por toda parte os seus próprios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade

do que eu mesma? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesma não

reconheço? De resto, esta minha conduta me parece muito mais modesta do que a que

costuma ter a maior parte dos grandes e dos sábios do mundo. É que estes, calcando o pudor

aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou um poetastro tagarela, que, à custa do

ouro, recita os seus elogios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, enquanto o

modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista,

modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada,

apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele

muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por

alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante. Assim, pois,

sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo.

Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande desprezo, não sei se pela

ingratidão ou pelo fingimento dos mortais. É certo que nutrem por mim uma veneração

muito grande e apreciam bastante as minhas boas ações; mas, parece incrível, desde que o

mundo é mundo, nunca houve um só homem que, manifestando o reconhecimento, fizesse o

elogio da Loucura.

Não faltou, contudo, quem, com grande perda de azeite e de sono, exaltasse, com elogios

estudatíssimos, os Busiris (12) e os Falaris (13), a febre quartã e a mosca, a calvície e outras

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pestes semelhantes. Ireis, pois, ouvir de mim mesma o meu panegírico, o qual, não sendo

oportuno nem estudado, será, por isso mesmo, muito mais sincero. Não julgueis que assim

vos fale por ostentação de engenho, como costuma fazer a maior parte dos oradores. Estes,

como bem sabeis, depois de se esfalfarem bem uns trinta anos em cima de um discurso,

talvez surrupiado de outrem, são tão impudentes que procuram impingir que o fizeram, por

divertimento, em três dias, ou então que o ditaram. Eu, ao contrário, sempre gostei muito de

dizer tudo o que me vem à boca.

Não espereis que, de acordo com o costume dos retóricos vulgares, eu vos dê a minha

definição e mito menos a minha divisão. Com efeito, que é definir? É encerrar a idéia de

uma coisa nos seus justos limites. E que é dividir? É separar uma coisa em suas diversas

partes. Ora, nem uma nem outra me convém. Como poderia limitar-me, quando o meu poder

se estende a todo o gênero humano? E, como poderia dividir-me, quando tudo concorre, em

geral, para sustentar a minha divindade? Além disso, porque haveria de me pintar como

sombra e imagem numa definição quando estou diante dos vossos olhos e me vedes em

pessoa?

Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira dispenseira de bens, a que os

italianos chamam Pazzia e os gregos Mória. E que necessidade havia de vo-lo dizer? O meu

rosto já não o diz bastante? Se há alguém que desastradamente se tenha iludido,

tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, bastará olhar-me de frente, para logo me

conhecer a fundo, sem que eu me sirva das palavras que são a imagem sincera do

pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando-me eu por fora o que sou no

coração. Sou sempre igual a mim mesma, de tal forma que, se alguns dos meus sequazes

presumem não passar por tais, disfarçando-se sob a máscara e o nome de sábios, não serão

eles mais do que macacos vestidos de púrpura, do que burros vestidos com pele de leão.

Qualquer, pois, que seja o raciocínio feito para se mostrarem diferentes do que são, dois

compridos orelhões descobrirão sempre o seu Midas.

Para dizer a verdade, não estou nada satisfeita com essa gente ingrata, com esses

perversos velhacos, porque, embora pertençam mais do que os outros ao nosso império, não

só publicamente se envergonham de usar o meu nome, como muitas vezes chegam a

aplicá-lo aos outros como título oprobioso. Portanto, sendo eles loucos e arquiloucos,

embora assumam a atitude de sábios e de Tales (14), não teremos razão de chamá-los

loucamente de sábios?

A esse respeito, pareceu-me igualmente oportuno imitar os retóricos dos nossos dias, que

se reputam outras tantas divindades, uma vez que podem gabar-se de outras línguas como a

sanguessuga (15) e consideram coisa maravilhosa inserir nos seus discursos, de cambulhada,

mesmo fora de propósito, palavrinhas gregas, a fim de formarem belíssimos mosaicos. E,

quando acontece que um desses oradores não conhece as línguas estrangeiras, desentranha

ele de rançosos papéis quatro ou cinco vocábulos, com os quais lança poeira aos olhos do

leitor, de forma que os que o entendem se compadeçam do próprio saber e os que não o

comprendem o admirem na proporção da própria ignorância. Para nós, os tolos, um dos

maiores prazeres não consistirá em admirar, com a máxima surpresa, tudo o que nos vem

dos países ultramontanos? Finalmente, se houver alguns que, embora não entendendo nada

desses velhos idiomas, queiram dar mostras de que os compreendem, nesse caso devem

aparentar uma fisionomia satisfeita, aprovar abanando a cabeça, ou simplesmente as longas

orelhas de burro, e dizer com um ar de importância: Bravo! Bravo! Muito bem! Justamente!

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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Mas, retomemos o fio do nosso raciocínio. Portanto, sabeis agora o meu nome, homens...

Mas, que epíteto poderei aplicar-vos? Sem dúvida que o de estultíssimos! Que vos parece?

Poderia, acaso, a deusa Loucura dar epíteto mais digno aos seus adoradores, aos iniciados

nos seus mistérios? Como, porém, poucos dentre vós conhecem a minha genealogia, vou

procurar informar-vos a respeito com auxílio das musas (16).

Para dizer a verdade, não nasci nem do Caos (17), nem do Orco, nem de Saturno, nem de

Japeto (NE), nem de nenhum desses deuses rançosos e caducos. É Plutão, deus das riquezas,

o meu pai. Sim, Plutão (sem que o levem a mal Hesíodo, Homero e o próprio Júpiter), pai

dos deuses e dos homens; Plutão, que, no presente como no passado, a um simples gesto,

cria, destrói, governa todas as coisas sagradas e profanas; Plutão, por cujo talento a guerra, a

paz, os impérios, os conselhos, os juizes, os comícios, os matrimônios, os tratados, as

confederações, as leis, as artes, o ridículo, o sério (ai! não posso mais! falta-me a

respiração), concluamos, por cujo talento se regulam todos os negócios públicos e privados

dos mortais; Plutão, sem cujo braço toda a turba das divindades poéticas, falemos com mais

franqueza, os próprios deuses de primeira ordem (18) não existiriam, ou pelo menos

passariam muito mal; Plutão, finalmente, cujo desprezo é tão terrível que a própria Palas

(19) não seria capaz de proteger bastante os que o provocassem, mas cujo favor, ao

contrário, é tão poderoso que quem o obtém pode rir-se de Júpiter e de suas setas. Pois bem,

é justamente esse o meu pai, de quem tanto me orgulho, pois me gerou, não do cérebro,

como fez Júpiter com a torva e feroz Minerva, mas de Neotetes (20), a mais bonita e alegre

ninfa do mundo. Além disso, os meus progenitores não eram ligados pelo matrimônio, nem

nasci como o defeituoso Vulcano, filho da fastidiosíssima ligação de Júpiter com Juno. Sou

filha do prazer e o amor livre presidiu ao meu nascimento; para falar com nosso Homero, foi

Plutão dominado por um transporte de ternura amorosa. Assim, para não incorrerdes em

erro, declaro-vos que já não falo daquele decrépito Plutão que nos descreveu Aristófanes,

agora caduco e cego, mas de Plutão ainda robusto, cheio de calor na flor da juventude, e não

só moço, mas também exaltado como nunca pelo néctar, a ponto de, num jantar com os

deuses, por extravagância, o ter bebido puro e aos grandes goles.

Se, além disso, fazeis questão de saber ainda qual a minha pátria (uma vez que, em

nossos dias, é como uma prova de nobreza notificar ao público o lugar no qual demos os

nossos primeiros vagidos), ficai sabendo que não nasci nem na ilha Natante de Delos, como

Apolo; nem da espuma do agitado Oceano, como Vênus; nem das escuras cavernas. Nasci

nas ilhas Fortunadas, onde a natureza não tem necessidade alguma da arte. Não se sabe, ali,

o que sejam o trabalho, a velhice, as doenças; nunca se vêem, nos campos, nem asfódelo,

nem malva nem lilá, nem lúpulo, nem fava, nem outros semelhantes e desprezíveis vegetais.

Ali, ao contrário, a terra produz tudo quanto possa deleitar a vista e embriagar o olfato:

mólio (21), panacéia, nepente, mangerona, ambrosia, lotus, rosas, violetas, jacintos,

anêmonas. Nascida no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto, como quase

todos os homens: mal fui parida, comecei a rir gostosamente na cara de minha mãe. Não

invejo, pois, ao supremo Júpiter, o ter sido amamentado pela cabra Amaltéia, pois que duas

graciosíssimas ninfas me deram de mamar: Mete (22), filha de Baco, e Apedia (23), filha de

Pã. Ainda podeis vê-las, aqui, no consórcio das outras minhas sequazes e companheiras. Se,

por Júpiter, também quereis saber os seus nomes, eu vo-lo direi, mas somente em grego.

Estais vendo esta, de olhar altivo? É Filavtia, isto é, o amor-próprio. E esta, de olhos

risonhos, que aplaude batendo palmas? É Kolaxia, isto é, a adulação. E, a outra, de

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pálpebras cerradas parecendo dormir? É Lethes, isto é, o esquecimento. E aquela, que se

acha apoiada nos cotovelos, com as mãos cruzadas? É Misoponia, isto é, o horror à fadiga. E

esta, que tem a cabeça engrinaldada de rosas, exalando essências e perfumes? É Idonis, isto

é, a volúpia. E a outra, que está revirando os olhos lúbricos e incertos e parece dominada por

convulsões? É Ania, isto é, a irreflexão. Finalmente, aquela, de pele alabastrina, gorducha e

bem nutrida, é Trofís, isto é, a delícia. Entre essas ninfas, podeis distinguir ainda dois

deuses: um é Komo, isto é, o riso e o prazer da mesa; o outro é Nigreton hypnon, isto é, o

sono profundo.

Acompanhada, pois, e servida fielmente por esse séquito de criados, estendo o meu

domínio sobre todas as coisas, e até os monarcas mais absolutos estão submetidos ao meu

império. Já conheceis, portanto, o meu nascimento, a minha educação e a minha corte.

Agora, para que ninguém julgue não haver razão para eu usurpar o nome de deusa, quero

demonstrar-vos quanto sou útil aos deuses e aos homens e até onde chega o meu divino

poder, desde que me presteis ouvidos com bastante atenção.

Já escreveu sensatamente alguém que ser deus consiste em favorecer os mortais. Ora, se

com razão foram incluídos no rol dos deuses os que introduziram na sociedade o vinho, a

cerveja e outras tantas vantagens proporcionadas ao homem, porque não serei eu

proclamada e venerada como a primeira das divindades, eu, que a todos, prodigamente,

dispenso sozinha tantos bens?

Antes de tudo, dizei-me: haverá no mundo coisa mais doce e mais preciosa do que a

vida? E quem, mais do que eu, contribui para a concepção dos mortais? Nem a lança

poderosa de Palas, nem a égide (24) do fulminante Júpiter, nada valem para produzir e

propagar o gênero humano. O próprio pai dos deuses e rei dos homens, a um gesto do qual

treme todo o Olimpo, faria bem em depor o seu fulmíneo trissuleo, em deixar aquele ar

terrível e majestoso com o qual aterroriza toda aquela multidão de deuses, e em

apresentar-se, o pobrezinho, como bom cômico, sob uma forma inteiramente nova, quando

quiser desempenhar a função, por ele já tantas vezes desempenhada, de procriar pequenos

Júpiters.

Vejamos, agora, os bobalhões dos estóicos, que se reputam tão próximos e afins dos

deuses. Mostrai-me apenas um, dentre eles, que, mesmo sendo mil vezes estóico, nunca

tendo feito a barba, distintivo da sabedoria (se bem que tal distintivo seja também comum

aos bodes): precisará deixar o seu ar cheio de orgulho, assumir uns ares de fidalgo,

abandonar a sua moral austera e inflexível, fazer asneiras e loucuras. Em suma, será forçoso

que esse filósofo se dirija a mim e se recomende, se quiser tornar-se pai.

E porque, segundo o meu costume, não hei de vos falar mais livremente? Dizei-me, por

favor: serão, talvez, a cabeça, a cara, o peito, as mãos, as orelhas, como partes do corpo

reputadas honestas, que geram os deuses e os homens? Ora, meus senhores, eu acho que

não: o instrumento propagador do gênero humano é aquela parte, tão deselegante e ridícula

que não se lhe pode dizer o nome sem provocar o riso. Aquela, sim, é justamente aquela a

fonte sagrada de onde provêm os deuses e os mortais.

Pois bem, quem desejaria sacrificar-se ao laço matrimonial, se antes, como costumam

fazer em geral os filósofos, refletisse bem nos incômodos que acompanham essa condição?

Qual é a mulher que se submeteria ao dever conjugai, se todas conhecessem ou tivessem em

mente as perigosas dores do parto e as penas da educação? Se, portanto, deveis a vida ao

matrimônio e o matrimônio à Irreflexão, que é uma das minhas sequazes, avaliai quanto me

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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deveis. Além disso, uma mulher que já passou uma vez pelos espinhos do indissolúvel laço,

e que anseia por tornar a passar por eles, não o fará, talvez, em virtude da assistência da

ninfa Esquecimento, minha cara companheira? É preciso dizer, pois, a despeito do poeta

Lucrécio, e a própria Vênus não ousaria negá-lo, que sem a nossa pujança e a nossa

proteção, a sua força e a sua virtude langueceriam e se desvaneceriam completamente (25).

Foi, por conseguinte, dessa agradável brincadeira, por mim temperada com o riso, o

prazer e a amorosa embriaguez, que saíram os carrancudos filósofos, agora substituídos

pelos homens vulgarmente chamados frades, os purpúreos monarcas, os pios sacerdotes e os

pontífices três vezes santíssimos. Finalmente, dessa brincadeira é que também surgiu toda a

turba das divindades poéticas; turba tão imensa que o céu, embora muito espaçoso, mal pode

contê-la. Mas, pouco amiga seria eu da verdade, se, depois de vos provar que de mim

tivestes o gérmen e o desenvolvimento da vida, não vos demonstrasse ainda que provêm da

minha liberalidade todos os bens que a vida encerra.

Que seria esta vida, se é que de vida merece o nome, sem os prazeres da volúpia? Oh!

Oh! Vós me aplaudis? Já vejo que não há aqui nenhum insensato que não possua esse

sentimento. Sois todos nuito sábios, uma vez que, a meu ver, loucura é o mesmo que

sabedoria. Podeis, pois, estar certos de que também os estóicos não desprezam a volúpia,

embora astutamente se finjam alheios a ela e a ultrajem com mil injúrias diante do povo, a

fim de que, amendontrando os outros, possam gozá-la mais freqüentemente. Mas, admitindo

que esses hipócritas declamem de boa fé, dizei-me, por Júpiter, sim, dizei-me se há, acaso,

um só dia na vida que não seja triste, desagradável, fastidioso, enfadonho, aborrecido,

quando não é animado pela volúpia, isto é pelo condimento da loucura. Tomo Sóflocles por

testemunho irrefragável, Sóflocles (26) nunca bastante louvado. Oh! nunca se me fez tanta

justiça! Diz ele, para minha honra e minha glória: “Como é bom viver! mas, sem sabedoria,

porque esta é o veneno da vida”. Procuremos explicar essa proposição.

Todos sabem que a infância é a idade mais alegre e agradável. Mas, que é que torna os

meninos tão amados? Que é que nos leva a beijá-los, abraçá-los e amá-los com tanta

afeição? Ao ver esses pequenos inocentes, até um inimigo se enternece e os socorre. Qual é

a causa disso? É a natureza, que, procedendo com sabedoria, deu às crianças um certo ar de

loucura, pelo qual elas obtêm a redução dos castigos dos seus educadores e se tornam

merecedoras do afeto de quem as tem ao seu cudado. Ama-se a primeira juventude que se

sucede à infância, sente-se prazer em ser-lhe útil, iniciá-la, socorrê-la. Mas, de quem recebe

a meninice os seus atrativos? De quem, se não de mim, que lhe concedo a graça de ser

amalucada e, por conseguinte, de gozar e de brincar? Quero que me chamem de mentirosa,

se não for verdade que os jovens mudam inteiramente de caráter logo que principiam a ficar

homens e, orientados pelas lições e pela experiência do mundo, entram na infeliz carreira da

sabedoria. Vemos, então, desvanecer-se aos poucos a sua beleza, diminuir a sua vivacidade,

desaparecerem aquela simplicidade e aquela candura tão apreciadas. E acaba por

extinguir-se neles o natural vigor.

Por tudo isso, observai, senhores, que, quanto mais o homem se afasta de mim, tanto

menos goza dos bens da vida, avançando de tal maneira nesse sentido que logo chega à

fastidiosa e incômoda velhice, tão insuportável para si como para os outros. E, já que

falámos de velhice, não fiqueis aborrecidos se por um momento chamo para ela a vossa

atenção. Oh! como os homens seriam lastimáveis sem mim, no fim dos seus dias! Mas,

tenho pena deles e estendo-lhes a mão. Não raro, as divindades poéticas socorrem

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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piedosamente, com o divino segredo da metamorfose, os que estão prestes a morrer: Fetonte

transforma-se em cisne, Alcion em pássaro, etc. Também eu, até certo ponto, imito essas

benéficas divindades. Quando a trôpega velhice coloca os homens à beira da sepultura,

então, na medida do que sei e do que posso, eu os faço de novo meninos. De onde o

provérbio: Os velhos são duas vezes crianças.

Perguntar-me-eis, sem dúvida, como o consigo. Da seguinte forma: levo essas caducas

cabeças ao nosso Letes (porque, entre parênteses, sabeis que esse rio tem sua nascente nas

ilhas Fortunadas e que um seu pequeno afluente corre nas proximidades do Averno) e

faço-as beber a grandes goles a água do Esquecimento. E é assim que dissipam

insensívelmente as suas mágoas e recuperam a juventude. Alegar-se-á, contudo, que deliram

e enlouquecem: pois é isso mesmo, justamente nisso consiste o tornar a ser criança. O

delírio e a loucura não serão, talvez, próprios das crianças? Que é que, a vosso ver, mais

agrada nas crianças? A falta de juízo. Um menino que falasse e agisse como um adulto não

seria um pequeno monstro? Pelo menos, não poderíamos deixar de odiá-lo e de ter por ele

um certo horror. Há muitos séculos, é trivial o provérbio: Odeio o menino de saber precoce.

Quem, por outro lado, poderia fazer negócios ou ter relações com um velho, se este aliasse a

uma longa experiência todo o vigor do espírito e a força do discernimento?

Por conseguinte, por obra da minha bondade, o velho se torna criança, devendo-me a

libertação de todas as fastidiosas aflições que atormentam o sábio. Além disso, o meu

criançola não desagrada companhia, nem sente aversão pela vida dificilmente suportada na

idade robusta. Torna a soletrar, muitas vezes, as três letras daquele tolo velho a que alude

Flauto: A. M. O.. Ora, se ele fosse um pouquinho sábio, não é certo que seria o mais infeliz

dos mortais? Mas, por efeito da minha bondade, uma vez isento de todo aborrecimento e

inquietação, recreia os amigos e é agradável na conversação. E não vemos, em Homero, o

velho Nestor falar mais doce do que o mel, enquanto o feroz Aquiles prorrompe em

excessos de furor? O mesmo poeta não nos pinta alguns velhos sentados nos muros e

fazendo lépidos discursos?

Afirmo, pois, de acordo com esse raciocínio, que a felicidade da velhice supera a da

meninice. Não se pode negar que a infância é muito feliz; mas, nessa idade, não se tem o

prazer de tagarelar, de resmungar por trás de todos, como fazem os velhos, prazer que

constitui o principal condimento da vida. Outra prova do meu confronto é a recíproca

inclinação que se nota nos velhos e nos meninos, e o instinto que os leva a manterem entre si

boas relações. Assim é que se verifica que todo semelhante ama o seu semelhante.

De fato, essas duas idades têm uma grande relação entre si, e não vejo nelas outra

diferença senão as rugas da velhice e a porção de carnavais que os primeiros têm sobre a

corcunda. Quanto ao mais, a brancura dos cabelos, a falta dos dentes, o abandono do corpo,

o balbucio, a garrulice, as asneiras, a falta de memória, a irreflexão, numa palavra, tudo

coincide nas duas idades. Enfim, quanto mais entra na velhice, tanto mais se aproxima o

homem da infância, a tal ponto que sai deste mundo como as crianças, sem desejar a vida e

sem temer a morte.

Julgue-me, agora, quem quiser, e confronte o bom serviço que prestei aos homens com a

metamorfose dos deuses. Não preciso recordar, aqui, os horríveis efeitos do seu ódio; falarei

apenas dos seus benefícios. Que graças concedem eles aos que estão para morrer?

Transformam um em árvore, outro em pássaro, este em cigarra, aquele em serpente, etc.,

que são, na verdade, grandes esforços de beneficência! Chega a parecer que a passagem de

um ser para o outro é o mesmo que morrer. Quanto a mim, é o homem em pessoa que eu

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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reconduzo à idade mais bela e mais feliz. Se os mortais se abstivessem totalmente da

sabedoria e só quisessem viver submetidos às minhas leis, é certo que não conheceriam a

velhice e gozariam, felizes, de uma perpétua juventude.

Observai, por favor, aquelas fisionomias sombrias, aqueles rostos torturados e sem cor,

mergulhados na contemplação da natureza ou em outras sérias e difíceis ocupações:

parecem envelhecidos antes de terminada a juventude, e isso porque um trabalho mental

assíduo, penoso, violento, profundo, faz com que aos poucos se esgotem os espíritos e a

seiva da vida. Reparai, agora, um pouco, como os meus tolos são gordos, lúcidos e bem

nutridos, ao ponto de parecerem verdadeiros porcos acarnânios (27). Esses felizes mortais

não sentiriam nenhum incômodo na velhice, se nenhum contato tivessem com os sábios.

Infelizmente, porém, isso acontece. Que fazer? Vê-se claramente que o homem não nasceu

para gozar aqui na terra de uma felicidade perfeita.

Tenho ainda em meu favor o importante testemunho de um famoso provérbio que diz:

a loucura tem a virtude de prolongar a juventude, embora fugacíssima, e de retardar

bastante a malfadada velhice. Compreende-se, pois, o que em geral se diz dos belgas; ao

passo que em todos os outros homens a prudência cresce na proporção dos anos, neles, ao

contrário, a loucura está na proporção da velhice. Pode-se dizer, portanto, que não há no

mundo nenhuma nação mais jovial nem mais alegre do que essa no comércio da vida, nem

que sinta menos o aborrecimento dos anos. Citemos porém, além dos belgas, os povos que

vivem sob o mesmo clima e cujos costumes são quase os mesmos: quero referir-me aos

meus holandeses, que eu posso gabar-me de ter entre os meus mais fiéis adoradores. Nutrem

por mim tanto afeto e tanto zelo que foram julgados dignos de um epíteto derivado do meu

nome e, muito longe de se envergonharem, o consideram sua glória principal.

Invoquem tudo isso os estultíssimos mortais, invoquem Circe, Medéia, Vênus, a Aurora,

e procurem também aquela não sei que fortuna que tem a virtude de rejuvenescer, virtude

que somente eu, contudo, posso e costumo praticar. Só eu possuo o elixir admirável com o

qual a filha de Menão prolongou a juventude de Titão, seu avô. Fui eu quem rejuvenesceu

Vênus, assim como Faão, por quem Safo andou perdidamente apaixonada. São minhas

aquelas ervas, se é que existem, meus aqueles encantamentos, minha aquela fonte, que não

só restituem a passada juventude, mas, o que é mais desejável, a tornam perpétua. Se,

portanto, concordais que não há nada mais precioso do que a juventude e mais detestável do

que a velhice, posso concluir que reconheceis a dívida que tendes para comigo, sim, para

comigo, pois que, para vos tornar felizes, sei prolongar tamanho bem e retardar um mal tão

grande.

Mas, porque falar ainda mais dos mortais? Percorrei todo o céu, analisai todas as

divindades: ficarei satisfeita por me insultarem o belo nome que tenho a honra de trazer, se

for encontrada uma só divindade que não deva exclusivamente a mim todo o seu poder. Por

favor: por que Baco tem sempre, como um rapazinho, o rosto rubicundo e a longa cabeleira

loura? É porque passa a vida fora de si, embriagado nos banquetes, nos bailes, nas festas,

nos folguedos, recusando qualquer relação com Minerva. E tão alheio é à ambição de trazer

o nome de sábio que gosta de ser venerado com escárnios e zombarias. Nem mesmo se

ofende com o provérbio que lhe dá o sobrenome de Ridículo, sobrenome que mereceu

porque, sentado à porta do templo, e divertindo-se os camponeses em emporcalhá-lo de

mosto e de figos frescos, ele se ria de arrebentar os queixos. E quantos golpes satíricos não

desferiu contra esse deus a Comédia Antiga? (28) — O estólido, o insulso deus! —

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exclamava-se. — Indigno de nascer no meio da rua! — Mas, dizei-me sem simulação: quem

de vós, a ser esse deus, estólido e insulso, mas sempre alegre, sempre jovem, sempre feliz,

sempre motivo de prazer e alegria gerais, preferiria ser aquele Júpiter simulador, terror do

mundo inteiro, ou o velho Pã, que com o seu barulho espalha temores pânicos, ou o

defeituoso Vulcano, todo enfumarado e cansado do estafante trabalho, ou a própria Palas,

terrível pela lança e pela cabeça de Medusa, e que a todos encara com um olhar feroz?

Passemos a outras divindades. Sabeis porque Cupido se conserva sempre moço? É

porque só se ocupa com bagatelas, porque está sempre brincando e rindo, sem juízo e sem

reflexão alguma, correndo puerilmente de um lado para outro, sem saber ao menos o que se

faz ou o que se diz. Porque a áurea Vênus mantém sempre florida a sua beleza? Não o

sabeis? É porque é minha parente próxima, conservando sempre no rosto a áurea cor de meu

pai Plutão. Além disso, se devemos prestar fé aos poetas e aos seus rivais os escultores, essa

deusa aparece sempre com uma expressão risonha e satisfeita, sendo com razão chamada

por Homero de áurea Vênus. E Flora, mãe das delícias, não era, talvez um dos principais

objetos da religião dos romanos?

Das divindades dos prazeres já falámos bastante. Fazeis questão, agora, de conhecer a

vida dos deuses tétricos e melancólicos? Interrogai Homero e os outros poetas, e eles

poderão dizer-vos, a esse respeito, belíssimas coisas, fazendo-vos ver que os deuses são pelo

menos tão loucos quanto os mortais. Júpiter deixa os seus raios, abandona as rédeas do

universo, para entregar-se aos amores, o que para vós não constitui novidade. Esquece o seu

sexo a altiva e inacessível Diana, para consagrar-se inteiramente à caça, o que não impede

que se apaixone loucamente por seu ardoroso Endimião, a ponto de se dar, muitas vezes, ao

incômodo de descer do céu, em forma de Lua, para cumulá-lo com seus favores. Mas,

prefiro que as suas indecências sejam reprovadas por Momo (29), cujas censuras são eles os

únicos a ouvir. Foi, pois, bem feito que os deuses, enraivecidos, o precipitassem à terra

juntamente com Ates (30), porque, importuno com a sua sabedoria, ele perturbava sua

felicidade. E, longe de encontrar acolhimento nos paços monárquicos, não acha uma alma

que lhe preste hospitalidade em seu exílio, ao passo que a Adulação, minha companheira,

ocupa sempre o primeiro lugar, essa mesma Adulação que sempre esteve de acordo com

Momo como o lobo com o cordeiro.

E assim, livres da importuna censura de Momo, os deuses se entregaram com maior

liberdade e alegria a toda sorte de prazeres. Com efeito, quantas palavras chistosas não

pronuncia aquele Priapo de uma figa? Quanto não faz rir Mercúrio com suas ladroeiras e

seus feitiços? Que não faz Vulcano (31) nos banquetes dos deuses? Põe-se a correr para

chamar a atenção sobre o seu andar claudicante, brinca, diz asneiras, em suma, faz tudo para

tornar o banquete alegre. E que direi daquele velho imbecil que se apaixonou por Sinele e

gosta de dançar com Polifemo e com as ninfas? E daqueles sátiros semi-bodes que em suas

danças praticam cem atos imodestíssimos? Pã provoca o riso dos deuses com suas insípidas

cantilenas: eles o escutam com grande atenção e preferem cem vezes a sua música à das

musas, principalmente quando os vapores do néctar principiam a perturbar-lhes a cabeça.

Mas, porque não hei de recordar as extravagâncias que fazem as divindades depois dos

banquetes, sobretudo depois de terem bebido muito? Asseguro-vos, por Deus, que, embora

eu seja a Loucura e esteja, por conseguinte, habituada a toda espécie de extravagâncias,

muitas vezes não consigo conter o riso. Mas, é melhor que me cale, porque, se algum deus

desconfiado e prevenido me escutasse, também eu poderia ter a mesma sorte de Momo.

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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Mas, já é tempo de que, seguindo o exemplo de Homero, passemos, alternadamente, dos

habitantes do céu aos da terra, onde nada se descobre de feliz e de alegre que não seja obra

minha.

Primeiro, vós bem vedes com que providência a natureza, esta mãe produtora do gênero

humano, dispôs que em coisa alguma faltasse o condimento da loucura. Segundo a definição

dos estóicos o sábio é aquele que vive de acordo com as regras da razão prescrita, e o louco,

ao contrário, é o que se deixa arrastar ao sabor de suas paixões. Eis porque Júpiter, com

receio de que a vida do homem se tornasse triste e infeliz, achou conveniente aumentar

muito mais a dose das paixões que a da razão, de forma que a diferença entre ambas é pelo

menos de um para vinte e quatro. Além disso, relegou a razão para um estreito cantinho da

cabeça, deixando todo o resto do corpo presa das desordens e da confusão. Depois, ainda

não satisfeito com isso, uniu Júpiter à razão, que está sozinha, duas fortíssimas paixões, que

são como dois impetuosíssimos tiranos: uma é a Cólera, que domina o coração, centro das

vísceras e fonte da vida; a outra é a Concupiscência, que estende o seu império desde a mais

tenra juventude até à idade mais madura. Quanto ao que pode a razão contra esses dois

tiranos, demonstra-o bem a conduta normal dos homens. Prescreve os deveres da

honestidade, grita contra os vícios a ponto de ficar rouca, e é tudo o que pode fazer; mas os

vícios riem-se de sua rainha, gritam ainda mais forte e mais imperiosamente do que ela, até

que a pobre soberana, não tendo mais fôlego, é constrangida a ceder e a concordar com os

seus rivais.

De resto, tendo o homem nascido para o manejo e a administração dos negócios, era

justo aumentar um pouco, para esse fim, a sua pequeníssima dose de razão, mas, querendo

Júpiter prevenir melhor esse inconveniente, achou de me consultar a respeito, como, aliás,

costuma fazer quanto ao resto. Dei-lhe uma opinião verdadeiramente digna de mim: —

Senhor, — disse-lhe eu — dê uma mulher ao homem, porque, embora seja a mulher um

animal inepto e estúpido, não deixa, contudo, de ser mais alegre e suave, e, vivendo

familiarmente com o homem, saberá temperar com sua loucura o humor áspero e triste do

mesmo.

Quando Plutão pareceu hesitar se devia incluir a mulher no gênero dos animais racionais

ou no dos brutos, não quis com isso significar que a mulher fosse um verdadeiro bicho, mas

pretendeu, ao contrário, exprimir com essa dúvida a imensa dose de loucura do querido

animal. Se, porventura, alguma mulher meter na cabeça a idéia de passar por sábia, só fará

mostrar-se duplamente louca, procedendo mais ou menos como quem tentasse untar um boi,

malgrado seu, com o mesmo óleo com que costumam ungir-se os atletas. Acreditai-me, pois,

que todo aquele que, agindo contra a natureza, se cobre com o manto da virtude, ou afeta

uma falsa inclinação, ou não faz senão multiplicar os próprios defeitos. E isso porque,

segundo o provérbio dos gregos, o macaco é sempre macaco, mesmo vestido de púrpura.

Assim também, a mulher é sempre mulher, isto é, é sempre louca, seja qual for a máscara

sob a qual se apresente.

Não quero, todavia, acreditar jamais que o belo sexo seja tolo ao ponto de se aborrecer

comigo pelo que eu lhe disse, pois também sou mulher, e sou a Loucura. Ao contrário, tenho

a impressão de que nada pode honrar tanto as mulheres como o associá-las à minha glória,

de forma que, se julgarem direito as coisas, espero que saibam agradecer-me o fato de eu as

ter tornado mais felizes do que os homens.

Antes de tudo, têm elas o atrativo da beleza, que com razão preferem a todas as outras

coisas, pois é graças a esta que exercem uma absoluta tirania mesmo sobre os mais bárbaros

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tiranos. Sabereis de que provém aquele feio aspecto, aquela pele híspida, aquela barba

cerrada, que muitas vezes fazem parecer velho um homem que se ache ainda na flor dos

anos? Eu vo-lo direi: provém do maldito vício da prudência, do qual são privadas as

mulheres, que por isso conservam sempre a frescura da face, a sutileza da voz, a maciez da

carne, parecendo não acabar nunca, para elas, a flor da juventude. Além disso, que outra

preocupação têm as mulheres, a não ser a de proporcionar aos homens o maior prazer

possível? Não será essa a única razão dos enfeites, do carmim, dos banhos, dos penteados,

dos perfumes, das essências aromáticas, e tantos outros artifícios e modas sempre diferentes

de vestir-se e disfarçar os defeitos, realçando a graça do rosto, dos olhos, da cor? Quereis

prova mais evidente de que só a loucura constitui o ascendente das mulheres sobre os

homens? Os homens tudo concedem às mulheres por causa da volúpia, e, por conseguinte, é

só com a loucura que as mulheres agradam aos homens. Para confirmar ainda mais essa

conclusão, basta refletir nas tolices que se dizem, nas loucuras que se fazem com as

mulheres, quando se anseia por extinguir o fogo do amor.

Já vos revelei, portanto, a fonte do primeiro e supremo prazer da vida. Concordo que

alguns existam (sobretudo certos velhos mais bebedores que mulherengos) cujo supremo

prazer seja a devassidão. Deixo indecisa a questão de saber se é possível um bom banquete

sem mulheres. O que é certo é que mesa alguma nos pode agradar sem o condimento da

loucura. E tanto isso é verdade que, quando nenhum dos convidados se julga maluco ou,

pelo menos, não finge sê-lo, é pago um bobo, ou convidado um engraçado filante que, com

suas piadas, suas brincadeiras, suas bobagens, expulse da mesa o silêncio e a melancolia.

Com efeito, que nos adiantaria encher o estômago com tão suntuosas, esquisitas e apetitosas

iguarias, se os olhos, os ouvidos, o espírito e o coração não se nutrissem também de

diversões, risadas e agradáveis conceitos? Ora, sou eu a inventora exclusiva de tais delícias.

Teriam sido, porventura, os sete sábios da Grécia os descobridores de todos os prazeres de

um banquete, como sejam tirar a sorte para se saber quem deve ser o rei da mesa, jogar

dado, beberem todos no mesmo copo, cantar um de cada vez com o ramo de murta na mão

(32), dançar, pular, ficar em várias atitudes? Decerto que não: somente eu podia inventá-los,

para a felicidade do gênero humano. Todas as coisas são de tal natureza que, quanto mais

abundante é a dose de loucura que encerram, tanto maior é o bem que proporcionam aos

mortais. Sem alegria, a vida humana nem sequer merece o nome de vida. Mergulharíamos

na tristeza todos os nossos dias, se com essa espécie de prazeres não dissipássemos o tédio

que parece ter nascido conosco.

Talvez haja pessoas que, à falta de tais passatempos, limitem toda a sua felicidade às

relações com verdadeiros amigos, repetindo sem cessar que a doçura de uma terna e fiel

amizade ultrapassa todos os outros prazeres, sendo tão necessária à vida como o ar, a água, o

fogo. — Tão agradável é a amizade, — acrescentam, — que afastá-la do mundo eqüivaleria

a afastar o sol; em suma, é ela tão honesta (vocábulo sem significado para mim) que os

próprios filósofos não hesitam em incluí-la entre os principais bens da vida. — Mas, que se

dirá, quando eu provar que sou também a única fonte criadora de semelhante bem? Vou,

pois, demonstrá-lo, não com sofismas, nem com caprichosos argumentos tão ao gosto de

retóricos, mas à boa maneira e com toda a clareza.

Coragem, vamos! Dissimular, enganar, fingir, fechar os olhos aos defeitos dos amigos,

ao ponto de apreciar e admirar grandes vícios como grandes virtudes, não será, acaso,

avizinhar-se da loucura? Beijar, num transporte, uma mancha da amiga, ou sentir com

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prazer o fedor do seu nariz, e pretender um pai que o filho zarolho tenha dois olhos de

Vênus (33), não será isso uma verdadeira loucura? Bradem, pois, quando quiserem ser uma

grande loucura, e acrescentarei que essa loucura é a única que cria e conserva a amizade.

Falo aqui unicamente dos homens, dos quais não há um só que tenha nascido sem defeitos, e

admitindo que, para nós, o homem melhor seja o que tem menores vícios. É por isso que os

sábios, pretendendo divinizar-se com sua filosofia, ou não contraem nenhuma amizade ou

tornam a sua uma ligação áspera e desagradável. Além disso, só costumam gostar

sinceramente de raríssimas pessoas, de forma que nenhum escrúpulo me impede de

asseverar que não gostam absolutamente de ninguém, pela razão que vou apresentar. Quase

todos os homens são loucos; mas, porque quase todos? Não há quem não faça suas loucuras

e, a esse respeito, por conseguinte, todos se assemelham; ora, a semelhança é justamente o

principal fundamento de toda estreita amizade.

Quando, porventura, nasce entre esses austeros filósofos uma recíproca benevolência,

decerto que não é sincera nem durável. Todos eles são de humor volúvel e intratável, além

de serem penetrantes demais: têm olhos de lince para descobrir os defeitos dos amigos, e de

toupeira para ver os próprios. Portanto, como os homens estão sujeitos a muitas

imperfeições (e podeis acrescentar a estas a diferença de idade e de inclinações, os

numerosos erros, passos em falso e vicissitudes da vida humana), como poderia por um só

instante subsistir entre esses Argos o laço da amizade, se a evithia, como a chamam os

gregos, que em latim eqüivale a estupidez ou conivência, não o reforçasse? Servi-vos do

amor para julgar da amizade, que é mais ou menos a mesma coisa. Não traz Cupido, esse

autor, esse pai de toda ternura, uma venda nos olhos, que lhe faz confundir o belo com o

feio? Não é ele, porventura, que faz cada um achar belo o que é seu, de forma que o velho é

tão apaixonado por sua velha quanto o jovem por sua donzela? Essas coisas se verificam em

toda parte, mas em toda parte são motivo de riso. Pois são justamente essas coisas ridículas

que formam o principal laço da sociedade e que, mais do que tudo, contribuem para a

alegria da vida.

O que dissemos da amizade também pensamos e com mais razão dizemos do

matrimônio. Trata-se (como deveis estar fartos de saber) de um laço que só pode ser

dissolvido pela morte. Deuses eternos! Quantos divórcios não se verificariam, ou coisas

ainda piores do que o divórcio, se a união do homem com a mulher não se apoiasse, não

fosse alimentada pela adulacão, pelas carícias, pela complacência, pela volúpia, pela

simulação, em suma, por todas as minhas sequazes e auxiliares? Ah! como seriam poucos os

matrimônios, se o noivo prudentemente investigasse a vida e os segredos de sua futura cara

metade, que lhe parece o retrato da discrição, da pudicícia e da simplicidade! Ainda menos

numerosos seriam os matrimônios duráveis, se os maridos, por interesse, por complacência

ou por burrice, não ignorassem a vida secreta de suas esposas. Costuma-se achar isso uma

loucura, e com razão; mas é justamente essa loucura que torna o esposo querido da mulher,

e a mulher do esposo, mantendo a paz doméstica e a unidade da família. Corneia-se um

marido? Toda a gente ri e o chama de corno, enquanto o bom homem, todo atencioso, fica a

consolar a cara-metade, e a enxugar com seus ternos beijos as lágrimas fingidas da mulher

adúltera. Pois não é melhor ser enganado dessa forma do que roer-se de bílis, fazer barulho,

pôr tudo de pernas para o ar, ficar furioso, abandonando-se a um ciúme funesto e inútil?

Afinal de contas, nenhuma sociedade, nenhuma união grata e durável poderia existir na

vida, sem a minha intervenção: o povo não suportaria por muito tempo o príncipe, nem o

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patrão o servo, nem a patroa a criada, nem o professor o aluno, nem o amigo o amigo, nem o

marido a mulher, nem o hospedeiro o hóspede, nem o senhorio o inquilino, etc., se não se

enganassem reciprocamente, não se adulassem, não fossem prudentemente cúmplices,

temperando tudo com um grãozinho de loucura. Não duvido que tudo o que até agora vos

disse vos tenha parecido da máxima importância. E de que duvida a Loucura? Mas, muitas

outras coisas deveis ainda escutar de mim. Redrobrai, pois, vossa gentil atenção.

Dizei-me por obséquio: um homem que odeia a si mesmo poderá, acaso, amar alguém?

Um homem que discorda de si mesmo poderá, acaso, concordar com outro? Será capaz de

inspirar alegria aos outros quem tem em si mesmo a aflição e o tédio? Só um louco, mais

louco ainda do que a própria Loucura, admitireis que possa sustentar a afirmativa de tal

opinião. Ora, se me excluirdes da sociedade, não só o homem se tornará intolerável ao

homem, como também, toda vez que olhar para dentro de si, não poderá deixar de

experimentar o desgosto de ser o que é, de se achar aos próprios olhos imundo e disforme, e,

por conseguinte, de odiar a si mesmo. A natureza, que em muitas coisas é mais madrasta do

que mãe, imprimiu nos homens, sobretudo nos mais sensatos, uma fatal inclinação no

sentido de cada qual não se contentar com o que tem, admirando e almejando o que não

possui: daí o fato de todos os bens, todos os prazeres, todas as belezas da vida se

corromperem e reduzirem a nada. Que adianta um rosto bonito, que é o melhor presente que

podem fazer os deuses imortais, quando contaminado pelo mau cheiro? De que serve a

juventude, quando corrompida pelo veneno de uma hipocondria senil? Como, finalmente,

podereis agir em todos os deveres da vida, quer no que diz respeito aos outros, quer a vós

mesmos, como, — repito — podereis agir com decoro (pois que agir com decoro constitui o

artifício e a base principal de toda ação), se não fordes auxiliados por esse amor próprio que

vedes à minha direita e que merecidamente me faz as vezes de irmã, não hesitando em tomar

sempre o meu partido em qualquer desavença? Vivendo sob a sua proteção, ficais

encantados pela excelência do vosso mérito e vos apaixonais por vossas exímias qualidades,

o que vos proporciona a vantagem de alcançardes o supremo grau de loucura. Mais uma vez

repito: se vos desgostais de vós mesmos, persuadi-vos de que nada podereis fazer de belo,

de gracioso, de decente. Roubada à vida essa alma, languesce o orador em sua declamação,

inspira piedade o músico com suas notas e seu compasso, ver-se-á o cômico vaiado em seu

papel, provocarão o riso o poeta e as suas musas, o melhor pintor não conquistará senão

críticas e desprezo, morrerá de fome o médico com todas as suas receitas, em suma Nereu

(34) aparecerá como Tersites, Faão como Nestor, Minerva como uma porca, o eloqüente

como um menino, o civilizado como um bronco. Portanto, é necessário que cada qual

lisonjeie e adule a si mesmo, fazendo a si mesmo uma boa coleção de elogios, em lugar de

ambicionar os de outrem. Finalmente, a felicidade consiste, sobretudo, em se querer ser o

que se é. Ora, só o divino amor próprio pode conceder tamanho bem. Em virtude do amor

próprio, cada qual está contente com seu aspecto, com seu talento, com sua família, com seu

emprego, com sua profissão, com seu país, de forma que nem os irlandeses desejariam ser

italianos, nem os trácios atenienses, nem os citas habitantes das ilhas Fortunadas. Oh

surpreendente providência da natureza! Em meio a uma infinita variedade de coisas, ela

soube pôr tudo no mesmo nível. E, se não se mostrou avara na concessão de dons aos seus

filhos, mais pródiga se revelou ainda ao conceder-lhes o amor próprio. Que direi dos seus

dons? É uma pergunta tola. Com efeito, não será o amor próprio o maior de todos os bens?

Mas, para vos mostrar que tudo quanto entre os homens existe de célebre, estupendo, de

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glorioso, é tudo obra minha, quero começar pela guerra. Não se pode negar que essa grande

arte seja a fonte e o fruto das mais estrepitosas ações. No entanto, que coisa se poderia

imaginar de mais estúpido que a guerra? Dois exércitos se batem (sabe Deus por que

motivo) e da sua animosidade obtêm muito mais prejuízo do que vantagem. Os que morrem

inutilmente na guerra são incontáveis como os megareses (35). Além disso, dizei-me: que

serviço poderiam prestar os sábios, quando os exércitos se estendem em ordem de combate e

reboam no espaço o rouco som das cometas e o rufar dos tambores, ao passo que eles,

definhados pelo estudo e pela meditação, arrastam com dificuldade uma vida que se tornou

enferma pelo pouco sangue, frio e sutil, que lhes circula nas veias? (36) São necessários

homens troncudos e grosseiros, robustos e audazes, mas de muito pouco talento, sim, são

necessárias justamente semelhantes máquinas para o mister das armas. Quem poderá conter

o riso ao ver Demóstenes fardado, para que, seguindo o sábio conselho de Arquíloco (37),

mal aviste inimigo, jogue fora o escudo e se ponha a correr sem parar, pouco lhe importando

que se revele, assim, um soldado tão covarde quanto excelente orador?

Podereis dizer-me que a guerra exige grande prudência. Concordo convosco, mas

somente quanto aos generais e feita a ressalva de que se trata apenas de uma prudência toda

especial, relativa ao mister das armas e que nenhuma relação tem com a sabedoria filosófica.

É por isso que os parasitas, os proxenetas, os ladrões, os sicários, os boçais, os estúpidos, os

falidos e, em geral, toda a escória social pode aspirar muito mais à imortalidade da guerra do

que os homens que vivem dia e noite absorvidos na contemplação. Quereis um grande

exemplo da inutilidade desses filósofos? Tomai o incomparável Sócrates, declarado pelo

oráculo de Apolo como o primeiro e único sábio. Estúpida declaração! Mas, não importa:

não sabendo eu o que tenha esse filósofo empreendido em beneficio público, deveis deixá-la

abandonada ao escárnio universal. É que esse homem não era de todo louco, tendo

constantemente recusado o título de sábio e respondido que semelhante título só era

conveniente à divindade. Era também de opinião que qualquer que desejasse passar por

sábio devia abster-se totalmente do regime da república. Se, porém, tivesse acrescentado que

quem deseja ser tido em conta de homem deve abster-se de tudo o que se chama sabedoria,

então eu teria concebido a seu respeito alguma opinião. Mas, afinal de contas, porque é que

esse grande homem foi acusado perante os magistrados? Porque foi ele condenado a beber

cicuta? Não teria sido, talvez, a sua sabedoria a causa de todos os seus males e, finalmente,

de sua morte? Tendo passado toda a vida a raciocinar em torno das nuvens e das idéias,

ocupando-se em medir o pé de uma pulga e se perdendo em admirar o zumbido do

pernilongo, descuidou-se esse filósofo do estudo e do conhecimento dos homens, bem como

da arte sumamente necessária de se adaptar a eles. Aí tendes, nesse retrato, o que também

diz respeito a muitos dos nossos. Platão, que foi discípulo de Sócrates, ao ver o mestre

ameaçado do último suplício, empenhou-se em tratar a sua causa como valente defensor,

abriu a boca para realizar o seu digno papel, mas, perturbado pelo barulho da assembléia,

perdeu-se na metade do primeiro período. Que direi de Teofrasto, discípulo de Aristóteles,

que mereceu tal nome por sua eloqüência? Ao pretender falar ao povo, perdeu a voz, de tal

forma que se diria “ter visto o lobo”. Pergunto, agora, se esses homens seriam capazes de

encorajar os soldados. Isócrates, que sabia compor tão belas orações, desejou, acaso, falar

em público? O próprio Cícero, pai da eloqüência romana, costumava tremer e gaguejar

como um menino no início de suas orações. É verdade que Fábio interpreta essa timidez

como o traço distintivo do orador penetrante e que conhece o perigo a que se acha exposto;

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mas, esse simples fato não será a confissão de que a filosofia é absolutamente incompatível

com os negócios públicos? Como, pois, poderiam esses sábios sustentar o ferro e o fogo da

guerra, se morrem de medo toda a vez que não se trata de combater apenas com a língua?

E, depois de tudo quanto dissemos, será possível decantar a célebre máxima de Platão,

segundo a qual “as repúblicas seriam felizes se governadas pelos filósofos ou se os príncipes

filosofassem”? Tenho a honra de vos dizer que a coisa é justamente o oposto. Se

consultardes os historiadores, verificareis, sem dúvida, que os príncipes mais nocivos à

república foram os que amaram as letras e a filosofia. Parece-me que os dois Catões (38)

bastam como prova do que afirmo: um perturbou a tranqüilidade de Roma com numerosas

delegações estúpidas, e o outro, por ter querido defender com excessiva sabedoria os

interesses da república, destruindo pela base a liberdade do povo romano. Acrescentai a

estes os Brutos (39), os Cássios, os Gracos, e o próprio Cícero, que não causou menor dano

à república de Roma do que Demóstenes à de Atenas (40). Quero lembrar que Antonino foi

um bom príncipe, embora haja fortes indícios em contrário e justamente porque, tendo sido

excessivamente filósofo, acabou se tornando importuno e odioso aos cidadãos; mas, ao

lembrar que foi bom, devo recordar, sem me contradizer, que foi ainda mais nocivo ao

império, por ter deixado como sucessor o seu filho Cômodo, do que o favoreceu com sua

administração. Os homens que se consagram ao estudo da ciência são, em geral,

infelicíssimos em tudo, sobretudo com os filhos. Suponho que isso provenha de uma

precaução da natureza, que dessa forma procura impedir que a peste da sabedoria se difunda

em excesso entre os mortais. O filho de Cícero degenerou, e, quanto aos dois filhos do sábio

Sócrates, mais se pareciam com a mãe do que com o pai, isto é, como foi acertadamente

interpretado por alguém, eram ambos idiotas.

Isso não seria nada se esses filósofos só fossem incapazes de exercer os cargos e

empregos públicos; o pior, porém, é que estão longe de ser melhores para as funções e os

deveres da vida. Convidai um sábio para um banquete, e vereis que ou conservará um

profundo silêncio ou interromperá os demais convidados com frívolas e importunas

perguntas. Convidai-o para um baile, e dançará com a agilidade de um camelo. Levai-o a

um espetáculo, e bastará o seu aspecto para impedr que o povo se divirta. Por se ter recusado

obstinadamente a abandonar sua imponente gravidade, é que o sábio Catão (41) foi

constrangido a retirar-se. Entra o sábio em alguma palestra alegre? Logo todos se calam,

como se tivessem visto o lobo. Trata-se, porém, de comprar, de vender, de concluir um

contrato, em suma, de fazer uma dessas coisas que diariamente sucedem a cada um?

Tomareis o sábio mais por uma estátua do que por um homem, a tal ponto se mostra ele

embaraçado em cada negócio. Assim, o filósofo não é bom, nem para si, nem para o seu

país, nem para os seus. Mostrando-se sempre novo no mundo, em oposição às opiniões e aos

costumes da universalidade dos cidadãos, atrai o ódio de todos com sua diferença de

sentimentos e de maneiras.

Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos. Por

conseguinte, se houver uma única cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da

multidão, só lhe posso dar um conselho: que, a exemplo de Timão (42), se retire para um

deserto, a fim de aí gozar à vontade dos frutos de sua sabedoria.

Mas, voltando ao assunto: que virtude, que poder já reuniu, no recinto de uma cidade,

homens naturalmente rudes, indômitos e selvagens? Quem já pôde humanizar esses ferozes

animais? A adulação. Nesse sentido é que se devem entender a fábula de Anfião (43) e a

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citara de Orfeu. Quem reanimou e reuniu a plebe romana, quando ameaçava dissolver-se?

Foi, acaso, uma oração filosófica? Decerto que não: foi um ridículo, um pueril apólogo

sobre a revolta dos membros contra o estômago (44). Temístocles (45) produziu o mesmo

efeito com o seu apólogo da raposa e o ouriço. Empregue, pois, o sábio os mais tolos

conceitos da filosofia, e jamais triunfará como um Sertório (46) com sua imaginária corça

ou o engraçado ardil da cauda dos dois cavalos. Não alcançará nunca o seu objetivo como o

alcançaram os dois cães do célebre legislador de Esparta (47). Já não falo de Minos nem de

Numa (48), que por meio de fabulosas invenções souberam tirar proveito da ignorância

popular. É sempre com semelhante puerilidades que se faz mover a grande e estúpida besta

que se chama povo.

Dizei-me se houve uma única cidade que tenha adotado as leis de Platão e de Aristóteles,

ou as máximas de Sócrates (49). Respondei-me: que motivo levou os Décios, pai e filho, a

se consagrarem aos deuses infernais? Que ganhou Cúrcio precipitando-se na voragem (50)?

Tudo foi obra da glória, dessa dulcíssima sereia que, por isso, foi muito condenada por

nossos sábios. É por isso que eles exclamam: — Pode haver maior loucura que a de um

candidato que adula suplicentemente o povo para conquistar honras e que compra o seu

favor à custa de liberalismo? que a daquele que recebe servil e humildemente os aplausos

dos mentecaptos? daquele que fica lisonjeado com as aclamações populares? daquele que se

deixa carregar em triunfo, como uma estátua, para ser visto pelo povo, ou que é efigiado em

bronze no foro? A todas essas loucuras, acrescentai a da adoção dos nomes e sobrenomes;

acrescentai as honras divinas prestadas a um homem sem mérito algum; acrescentai,

finalmente, as cerimônias públicas levadas a efeito para colocar no número dos deuses os

mais celerados tiranos (51). Quem será capaz de negar que não há coisa mais tola? Não

bastaria um Demócrito para rir bastante disso. Mas, não será também verdade que a Loucura

foi a autora de todas as famosas proezas dos valorosos heróis que tantos literatos eloqüentes

elevaram às estrelas? É a Loucura que forma as cidades; graças a ela é que subsistem os

governos, a religião, os conselhos, os tribunais; e é mesmo lícito asseverar que a vida

humana não passa, afinal, de uma espécie de divertimento da Loucura.

Mas, passemos, agora, a falar das artes. Quem anima os homens a descobrir, a transmitir

aos seus pósteros tantas produções, ao parecer excelentes, se não a sede de glória? Acharam

esses homens, na verdade bastante tolos, que não deviam poupar nem velas, nem suor, nem

esforços de fadiga para conquistar não sei que imortalidade, a qual não passa, em última

análise, de uma belíssima quimera. Deveis, pois, à Loucura todos os bens que já se

introduziram no mundo, todos esses bens que estais gozando e que tanto contribuem para a

felicidade da vida.

Pois bem, que direis, senhores, se, depois de vos ter provado que a mim se devem todos

os louvores atribuídos à força e ao engenho humanos, eu vos provar que a mim também

pertencem os que recebe a prudência? — Essa é boa! — dirá, talvez, alguém. — Pretendeis

misturar o fogo com a água, pois a Loucura e a Prudência não são menos opostas que esses

dois elementos contrários. — Não obstante sentir-me-ei lisonjeada por vos convencer disso,

desde que continueis a prestar-me vossa gentil atenção.

Se a prudência consiste no uso comedido das coisas, eu desejaria saber qual dos dois

merece mais ser honrado com o título de prudente: o sábio que, parte por modéstia, parte por

medo, nada realiza, ou o louco, que nem o pudor (pois não o conhece) nem o perigo (porque

não o vê) podem demover de qualquer empreendimento. O sábio absorve-se no estudo dos

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autores antigos; mas, que proveito tira ele dessa constante leitura? Raros conceitos

espirituosos, alguns pensamentos requintados, algumas simples puerilidades — eis todo o

fruto de sua fadiga. O louco, ao contrário, tomando a iniciativa de tudo, arrostando todos os

perigos, parece-me alcançar a verdadeira prudência. Homero, embora cego, enxergava

muito bem essas verdades: “O tolo — disse ele — aprende à própria custa e só abre os olhos

depois do fato”. Duas coisas, sobretudo, impedem que o homem saiba ao certo o que deve

fazer: uma é a vergonha, que cega a inteligência e arrefece a coragem; a outra é o medo,

que, indicando o perigo, obriga a preferir a inércia à ação. Ora, é próprio da Loucura dirimir

todas essas dificuldades. Raros são os que sabem que, para fazer fortuna, é preciso não ter

vergonha de nada e arriscar tudo. Quero observar-vos, além disso, que os que preferem a

prudência fundada no julgamento das coisas estão muito longe de possuírem a verdadeira

prudência.

Todas as coisas humanas têm dois aspectos, à maneira dos Silenos de Alcibíades (52),

que tinham duas caras completamente opostas. Por isso é que, muitas vezes, o que à

primeira vista parece ser a morte, na realidade, observado com atenção, é a vida. E assim,

muitas vezes, o que parece ser a vida é a morte; o que parece belo é disforme; o que parece

rico é pobre; o que parece infame é glorioso; o que parece douto é ignorante; o que parece

robusto é fraco; o que parece nobre é ignóbil; o que parece alegre é triste; o que parece

favorável é contrário; o que parece amigo é inimigo; o que parece salutar é nocivo; em

suma, virado o Sileno, logo muda a cena. Estarei falando muito filosoficamente? Pois vou

explicar-me com maior clareza.

Todos vós estais convencidos, por exemplo, de que um rei, além de muito rico, é o

senhor dos seus súditos. Mas, se ele tiver no peito um coração brutal, se for insaciável na

sua cobiça, se nunca se mostrar satisfeito com o que possui, não concordareis comigo que é

miserabilíssimo? Se ele se deixar transportar por seus vícios e por suas paixões, não se

tornará um dos escravos mais vis? O mesmo se poderia dizer de tudo mais. Basta, porém,

esse exemplo. — E com que fim — podeis perguntar-me — nos dizeis tudo isso? — Um

pouco de paciência, e vereis aonde quero chegar. Se alguém se aproximasse de um cômico

mascarado, no instante em que estivesse desempenhando o seu papel, e tentasse arrancar-lhe

a máscara para que os espectadores lhe vissem o rosto, não perturbaria assim toda a cena?

Não mereceria ser expulso a pedradas, como um estúpido e petulante? No entanto, os

cômicos mascarados tornariam a aparecer; ver-se-ia que a mulher era um homem, a criança

um velho, o rei um infeliz e Deus um sujeito à-toa. Querer, porém, acabar com essa ilusão

importaria em perturbar inteiramente a cena, pois os olhos dos espectadores se divertiam

justamente com a troca das roupas e das fisionomias. Vamos à aplicação: que é, afinal, a

vida humana? Uma comédia. Cada qual aparece diferente de si mesmo; cada qual representa

o seu papel sempre mascarado, pelo menos enquanto o chefe dos comediantes não o faz

descer do palco. O mesmo ator aparece sob várias figuras, e o que estava sentado no trono,

soberbamente vestido, surge, em seguida, disfarçado em escravo, coberto por miseráveis

andrajos. Para dizer a verdade, tudo neste mundo não passa de uma sombra e de uma

aparência, mas o fato é que esta grande e longa comédia não pode ser representada de outra

forma.

Prossigamos. Se algum sábio caído do céu surgisse entre nós e se pusesse a gritar: “Não!

Aquele que venerais vosso Deus e Senhor (53) não é sequer um homem, não passando de

um animal dominado pelo impulso do instinto, de um escravo dos mais abjetos, pois serve a

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tantos vis tiranos quantas são as suas paixões”, — se esse sábio, dirigindo-se a alguém que

chorasse a morte do pai, o exortasse a rir, dizendo-lhe que esta vida não passa, na realidade,

de uma contínua morte e que, por conseguinte, seu pai só fez cessar de morrer; se,

enfurecendo-se com algum vaidoso soberbo de sua genealogia, o tratasse de ignóbil e de

bastardo por estar totalmente afastado da virtude, que é a única e exclusiva fonte da

verdadeira nobreza; e, se dessa maneira o nosso filósofo fosse falando de todas as outras

coisas humanas, pergunto eu que resultado obteria ele de suas declamações. Passaria,

decerto, para todos, por louco furioso. Portanto, ficai certos de que, assim como não há

maior estupidez do que querer passar por sábio fora do tempo, assim também não há nada

mais ridículo e imprudente do que uma prudência mal compreendida e inoportuna. Na

verdade, nós nos enganamos redondamente quando queremos distinguir-nos no gênero

humano, recusando-nos a nos adaptar aos tempos. Nunca se deveria esquecer esta lei que os

gregos estabeleceram para os seus banquetes: Bebei e ide-vos embora (54). O contrário seria

pretender que a comédia deixasse de ser comédia. Além disso, se a natureza vos fez homens,

a verdadeira prudência exige que não vos eleveis acima da condição humana. Em poucas

palavras, de duas uma: ou dissimular intencionalmente com os seus semelhantes, ou correr

ingenuamente o risco de se enganar com eles. E não será esta — indagam os sábios — outra

espécie de loucura? — Quem o nega? Que me concedam, porém, que é essa a única maneira

de cada qual fazer a sua pessoa aparecer na comédia do mundo.

Quanto ao resto... Deuses imortais! Devo falar? Devo calar-me? E porque devo calar-me,

se tudo o que quero dizer é mais verdadeiro do que a própria verdade? Ajudai-me, porém,

em assunto de tão relevante importância, a me dirigir às Musas e pedir-lhes que me

auxiliem, dispondo-se a vir do seu Helicão até a mim, tanto mais quanto os poetas tantas

vezes cometem a indiscrição de fazê-las descer por meras frioleiras. Vinde, pois, por um

instante, oh filhas de Júpiter, pois quero provar que essa sabedoria tão gabada e que

enfaticamente se chama o baluarte da felicidade, só é acessível aos que são orientados pela

Loucura.

Antes de mais nada, sustento que, em geral, as paixões são reguladas pela Loucura. Com

efeito, que é que distingue o sábio do louco? Não será, talvez, o fato do louco se guiar em

tudo pelas paixões, e o sábio pelo raciocínio? É por isso que os estóicos afastam do sábio

toda e qualquer perturbação de ânimo, considerando-a um verdadeiro mal. Aliás, se é que

nos merecem fé os peripatéticos, as paixões fazem as vezes de pedagogos aos que se

encaminham para o porto da sabedoria: são como estímulos e incentivos para a satisfação

dos deveres da vida e para uma conduta virtuosa. É verdade que Sêneca, duas vezes estóico,

isenta o seu sábio de toda sorte de paixões. Oh! bela obra-prima! Decerto, esse sábio não é

mais homem, mas uma espécie de deus que nunca existiu. Falemos mais claramente: o que

ele fez foi uma fria estátua de mármore, privada de todo senso humano.

Que os senhores estóicos apreciem e amem à vontade o seu sábio e vão passar a vida na

cidade de Platão (55), ou, se acharem melhor, na região das idéias, ou nos jardins de Tântalo

(56). Que espécie de homem é um estóico? Quem poderá deixar de evitá-lo como a um

monstro, de temê-lo como um fantasma? Eis o retrato fiel de um estóico: surdo à voz dos

sentidos, não sente paixão alguma; o amor e a piedade não impressionam absolutamente o

seu coração duro como o diamante; nada lhe escapa, nunca se perde, pois tem uma vista de

lince; tudo pesa com a máxima exatidão, nada perdoa; encontra em si mesmo toda a

felicidade e se julga o único rico da terra, o único sábio, o único livre, numa palavra, pensa

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que só ele é tudo, e o mais interessante é que é o único a se julgar assim. Amigos. É a sua

ultima preocupação, pois não possui nenhum. Sem nenhum escrúpulo, chega a insultar os

deuses e a condenar como verdadeira loucura tudo o que se faz no mundo, ridicularizando

todas as coisas.

Vede o belo quadro desse animal que nos apresentam como o modelo acabado da

sabedoria. Dizei-me, por favor: se a questão pudesse ser posta a votos, que cidade desejaria

semelhante magistrado? Que exército reclamaria um tal general? Quem o convidaria à sua

mesa? Estou igualmente convencida de que não acharia, sequer, uma mulher ou servo que

quisessem e pudessem suportá-lo. E quem, ao contrário, não preferiria um homem qualquer,

tirado da massa dos homens estúpidos; que, embora estúpido, soubesse mandar ou obedecer

aos estúpidos, fazendo-se amar por todos; que, sobretudo, fosse complacente para com a

mulher, bom para os amigos, alegre na mesa, sociável com todos os que convivesse; que,

finalmente, não se achasse estranho a tudo o que é próprio da humanidade? Mas, para falar a

verdade, chego a ter nojo de falar dessa espécie de sábios. Passo, por isso, a tratar dos outros

bens da vida.

***

Quando se reflete atentamtente sobre o gênero humano, e quando se observam como de

uma alta torre (justamente a maneira pela qual Júpiter costuma proceder, segundo dizem os

poetas), todas as calamidades a que está sujeita a vida dos mortais, não se pode deixar de

ficar vivamente comovido. Santo Deus! Que é, afinal, a vida humana? Como é miserável,

como é sórdido o nascimento! Como é penosa a educação! A quantos males está exposta a

infância! Como sua a juventude! Como é grave a velhice! Como é dura a necessidade da

morte! Percorramos, ainda uma vez, esse deplorável caminho. Que horrível e variada

multiplicidade de males! Quantos desastres, quantos incômodos se encontram na vida!

Enfim não há prazer que não tenha o amargor de muito fel. Quem poderia descrever a

infinita série de males que o homem causa ao homem, como sejam a pobreza, a prisão, a

infâmia, a desonra, os tormentos, a inveja, as traições, as injúrias, os conflitos, as fraudes,

etc.? Eu não saberia dizer-vos que delito teria o homem cometido para merecer tão grande

quantidade de males, nem que deus furioso o teria constrangido a nascer em tão horrível

vale de misérias. Assim, pois, quem quer que examine a fundo a miserabilíssima condição

do gênero humano, não poderá, decerto, deixar de aprovar o exemplo das virgens de Mileto

(57), embora seja um exemplo digno de toda a compaixão.

Quais foram os mais célebres desgostosos da vida que procuraram espontaneamente a

morte? Não foram, porventura, os amigos mais próximos da sabedoria? Para não falar de

Diógenes, Xenócrates, Catão, Cássio, Bruto, lembro apenas o famoso Quirão (58), que

preferiu a morte à imortalidade. Já sei que logo compreendereis quanto o mundo duraria

pouco, se a sabedoria fosse comum entre os mortais. Sou mesmo de opinião que, em breve,

haveria necessidade de uma nova argila e de um novo Prometeu (59). Mas, também nesse

caso, sou eu quem providencia, mantendo os homens na ignorância, na irreflexão, no

esquecimento dos males passados e na esperança de um futuro melhor. Misturando as

minhas doçuras com as da volúpia, eu amenizo o rigor do seu destino. Amam a vida não só

quase todos os homens, como até aqueles cujo fio da existência está prestes a ser cortado

pela morte, aqueles que devem deixar a vida depois de um bom número de anos. Eles não

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mostram nenhuma pressa de passar para o número dos mortos. Quanto mais motivos têm os

homens para viver contra a própria vontade, tanto menos se enojam da vida, evidenciando

que não acham excessivamente longos os seus dias. São um efeito da minha bondade esses

velhos que vedes alcançar a nestória decrepitude e que de humano só possuem a figura. Por

isso é que são gagos, delirantes, desdentados, encanecidos, calvos, ou, para descrevê-los

melhor, com as palavras de Aristófanes, enrugados, corcundas, sem nenhum resto de

virilidade. E, não obstante, amam com transporte a vida. Não se limitam esses velhotes

insensatos aos prazeres da existência, mas se esforçam ainda por imitar, o quanto podem, a

juventude: um enegrece os cabelos brancos; outro esconde com uma cabeleira a cabeça

calva; outro põe dentes tomados de empréstimo de algum porco; outro se apaixona

loucamente por uma moça e faz por ela loucuras que envergonhariam um rapazinho.

Estamos tão habituados a ver um homem todo curvado ao peso dos anos e que já não

enxerga a terra em que está para descer, a vê-lo, repito, casar-se com uma mocinha sem

dote, e casar-se, certamente, mais para o de outrem do que para o próprio uso, que isso se

torna quase um motivo de louvor.

Eis, porém, um quadro ainda mais divertido: aquelas velhas apaixonadas, aqueles

cadáveres semivivos que parecem ter saído do Érebo e já estão fedendo à carniça, ainda

sentem arder o coração. Lascivas como cadelas no cio, só respiram uma porca sensualidade

e dizem descaradamente que sem volúpia a vida não vale nada. Essas velhas cabras ainda

fazem o amor e, quando encontram algum Faão (60), costumam remunerar generosamente a

repugnância que causam. Então, mais do que nunca, se esmeram na pintura do rosto, passam

a vida diante do espelho, arrancam fios brancos de barba, ostentam dois seios flácidos e

enrugados, cantam com voz rouquenha e hesitante para despertar a lânguida concupiscência,

bebem à grande, intrometem-se nas danças das moças, escrevem cartas amorosas, — eis os

meios que essas velhas raposas empregam para dar coragem aos seus custosos campeões.

Enquanto isso, a sociedade exclama: — Que velhas malucas! Que velhas malucas! — Mas,

se a sociedade tem razão, elas se riem e, imersas nos prazeres, aproveitam a felicidade que

lhes proporciono. Eu desejaria que esses censores indiscretos soubessem dizer-me o que será

mais estúpido: viver alegre e satisfeito, ou eternamente desesperado até se enforcar com

uma corda. Poderão dizer-me que é uma verdadeira infâmia a vida desses velhos e dessas

velhas. Não o nego; mas, que importa isso aos meus loucos? Ou são inteiramente insensíveis

à desonra, ou então, quando a sentem, sufocam facilmente o remorso. Os meus bons e fiéis

súditos têm uma filosofia especial, que lhes faz distinguir muito bem os males imaginários

dos males reais. Cai-vos uma pedra na cabeça? Oh! isso, sim, é na realidade um mal! Mas, a

desonra, a infâmia, as censuras, as maldições só nos fazem mal quando queremos sentir:

desde que não pensemos nisso, deixam de ser um mal. Que mal pode fazer o que murmura a

sociedade, quando é certo que intimamente vos aplaudis? Ora, somente eu tenho a virtude

de sublimar os homens a esse alto grau de perfeição, e é esse um dos meus maiores

predicados. Parece-me, contudo, ouvir alguns filósofos dizerem que uma das maiores

desgraças para um homem consiste em ficar louco, em viver no erro, na ilusão e na

ignorância. Oh! como estão redondamente enganados! Respondo-lhes, ao contrário, que é

justamente nisso que consiste ser homem. Confesso-vos que não sei explicar como podem

tratar de infelizes os meus loucos, sendo a loucura, como é, patrimônio universal da

humanidade, e quando todos os mortais nascem, educam-se e se conformam com ela.

Parece-me bastante ridículo lastimar um ser que se acha no seu estado normal.

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Considerareis deplorável o fato do homem não ter asas para voar como os pássaros, ou

quatro pés como os quadrúpedes, ou a fronte armada de chifres como o touro? Lamentareis

a sorte de um belo cavalo, pelo fato de não ter aprendido gramática ou de não comer bem?

Deplorareis um touro, pelo fato de não ser adestrado na palestra? Portanto, assim como o

cavalo não é infeliz por ignorar a gramática, assim também não o é o louco, pois a loucura é

natural no homem. Mas, os sutis disputadores meus antagonistas continuam a perseguir-me

com novos sofismas. Dentre todos os animais — dizem eles — só o homem goza do

privilégio de aprender as artes e as ciências, a fim de suprir com os seus conhecimentos às

lacunas da natureza. Como se houvesse sombra de verdade em que a natureza, tão

previdente e vigilante quanto ao pernilongo e até quanto às ervas ou às florzinhas do campo,

fosse esquecer-se unicamente do homem, deixando de lhe fornecer tudo aquilo de que

precisa! Oh! que absurdo! Não! As ciências e as artes que tanto decantais não são obra da

natureza: foi um certo gênio chamado Teuto (61), grande inimigo do gênero humano, que,

por cúmulo da desventura dos homens, as inventou. Eis porque, muito longe de

contribuírem para essa felicidade que se pretende apresentar como razão de sua descoberta,

as ciências são, ao contrário, extremamente nocivas. Tinha decerto bom faro aquele sábio e

prudente rei (62) que, com tanta finura, segundo Platão, reprovou a invenção do alfabeto.

Digamos, pois, francamente, que a ciência e a indústria se introduziram no mundo com

todas as outras pestes da vida humana, tendo sido inventadas pelos mesmos espíritos que

deram origem a todos os males, isto é, pelos demônios, que por final tiraram da ciência o

seu nome (63). Nada disso se conhecia no século de ouro, em que, sem método, sem regra,

sem instrução, os homens viviam felizes, guiados pela natureza e pelo próprio instinto. Com

efeito, que utilidade teria, naquele tempo, a gramática? Havia apenas a linguagem, e, ainda

assim, só era falada para exprimir o pensamento. Não havia necessidade de lógica, porque,

tendo todos os mesmos raciocínios, as divergências de opinião não provocavam discussão

alguma. Não se conhecia a retórica naquela idade pacífica, em que não havia nem processos,

nem conflitos, nem discursos. Nessa época, os legisladores eram inúteis, porque, reinando os

bons costumes, não havia necessidade de leis (64). Além disso, aqueles mortais eram

religiosíssimos, motivo por que não ansiavam por investigar com ímpia curiosidade os

segredos da natureza. Convencidos de que a um pequeno inseto como o homem não é lícito

ultrapassar os estreitos limites de sua capacidade, não quebravam a cabeça com a pesquisa

das dimensões, dos movimentos, dos efeitos, das origens ocultas dos astros. Também não

lhes passava pela imaginação a impertinente idéia de querer saber o que se acha além dos

céus.

Mas, aos poucos, foi desaparecendo a inocência do século de ouro, de forma que os maus

gênios, como já disse, logo descobriram as artes, mas ainda em pequeno número e muito

pouco exercitadas. Em seguida, a superstição dos caldeus (65) e a ociosa leviandade dos

gregos criaram mil outras, todas muito oportunas e excelentes para atormentar o espírito. Só

a gramática é mais do que suficiente para nos aborrecer durante toda a vida. De todas essas

artes, são tidas em maior apreço as que mais se aproximam do bom senso, isto é, da loucura.

Mas, que vantagem proporcionam aos que delas fazem profissão? Morrem de fome os

teólogos, definham os físicos, caem no ridículo os astrólogos, são desprezados os dialéticos.

E só o médico faz fortuna.

A principal vantagem da medicina está em que, quanto mais ignorante, ousado e

temerário é quem a exerce, tanto mais estimado é pelos senhores laureados. Além disso, essa

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profissão, da maneira por que muitos a exercem hoje em dia, se reduz a uma espécie de

adulação, quase como a eloqüência.

Depois dos médicos, vêm, imediatamente, os rábulas ou jurisconsultos. Eu não saberia

dizer-vos ao certo se esses supostos filhos de Têmis precederam os sequazes de Esculápio:

disputam a precedência entre si. O que é fora de dúvida é que os filósofos, quase que por

consenso unânime, ridicularizam os advogados e, com muita propriedade, qualificam essa

profissão de ciência de burro. Mas, burros ou não, serão sempre eles os intérpretes das leis e

os reguladores de todos os negócios. Ao passo que esses senhores estendem os seus

latifúndios, o pobre teólogo, depois de ter revistado todas as arcas da divindade, é obrigado

a comer favas e a viver numa eterna guerra com os insetos nojentos.

De tudo quanto dissemos acerca das disciplinas, pode-se concluir que as artes mais

vantajosas são as que mais se relacionam com a loucura. Por conseguinte, são perfeitamente

felizes os homens que, sem ter qualquer relação com as ciências especulativas e práticas,

têm como único guia a natureza, a qual não possui nenhum defeito e nunca deixa que se

percam os que seguem fiel e exatamente os seus passos, sem a pretensão de sair dos limites

da condição humana. A natureza é inimiga de todo artifício, e, de fato, vemos crescer mais

felizes as coisas não contaminadas por nenhuma arte.

Permiti que me detenha um pouco sobre o mesmo argumento. Não será verdade que,

entre tantas espécies de animais, os que vivem mais felizes são os que não têm nenhuma

disciplina e que só a natureza reconhecem como mestra? Quem será mais feliz e admirável

do que as abelhas? No entanto, nem sequer possuem todos os sentidos do corpo. Apesar

disso, quando é que a arquitetura encontrará alguém que as iguale na construção dos

edifícios? Qual foi o filósofo que já instituiu uma república semelhante? Já o cavalo, por

estar mais próximo dos sentimentos do homem e sendo por este dominado, participa

consideravelmente das calamidades humanas. Acontece, muitas vezes, que esse animal

doméstico, em lugar de fugir da batalha, se atira ao perigo, e, na ambição da vitória, um

golpe mortal estende-o por terra, obrigando-o a comer poeira junto com o cavaleiro. Já não

falo das cruéis mordeduras, das esporadas agudas, da prisão que é a estrebaria, das rédeas,

do pesado cavaleiro, em suma, de toda a trágica escravidão a que ele, a exemplo do homem,

se sujeitou espontaneamente, na ânsia excessiva de se vingar do veado seu inimigo. Bem

mais desejável é a vida das moscas e dos pássaros, por nascerem livres e tomar a natureza o

encargo de nutrí-los. Seriam mesmo perfeitamente felizes e tranqüilos se não devessem

temer as insídias dos homens. Não imaginais quanto perdem os pássaros da sua primitiva

beleza, quando aprendem, nas gaiolas, os nossos cantos. E tanto isso é verdade, sob todos os

aspectos, que as produções da natureza ultrapassam de muito as da arte.

Por tudo isso, nunca terei louvado bastante a Pitágoras por se ter transformado em galo.

Esse filósofo, em virtude da metempsicose, passou por todos os estados: filósofo, homem,

mulher, rei, confidente, peixe, cavalo, rã e creio até que esponja. E, depois de todas essas

transmigrações, declarou que o homem era o mais infeliz de todos os animais, pois todos os

outros estão satisfeitos de ficar nos limites prefixados pela natureza, enquanto só o homem

se esforça por ultrapassá-los. Aiém disso, Pitágoras costumava antepor os tolos aos sábios e

aos grandes. Tal era, também, a opinião de Grilo, um dos companheiros do sensato Ulisses,

o qual, tendo sido transformado em porco pela bruxa Circe, preferia grunhir tranqüilo e à

vontade num chiqueiro a andar na pista de novos perigos e novas aventuras com o seu

general. Parece-me, também, que o próprio Homero, o célebre pai da mitologia, não diverge

dessa opinião, pois que, em geral, considera miseráveis todos os mortais e diz que a morte

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os cerca por toda a parte. Nem mesmo Ulisses, o seu famoso herói e modelo de sabedoria,

constitui para ele uma exceção, pois chega a lhe aplicar, várias vezes, o epíteto de infeliz.

No entanto, não diz o mesmo de Paris, de Ajax e de Aquiles, que eram loucos. Pelo

contrário: como Ulisses fosse engenhoso e astuto e seguisse os conselhos de Minerva,

preferindo-os a tudo mais, Homero deplorou a infelicidade desse rei de Ítaca.

Voltando, pois, ao meu assunto, afirmo que os que se aplicam ao estudo das ciências

estão muito longe da felicidade e são duplamente loucos, porque, esquecendo-se de sua

condição natural e querendo viver como outros tantos deuses, fazem à natureza, com as

máquinas de arte, uma guerra de gigantes. De tudo isso, infiro que os verdadeiros felizardos

são os que mais se aproximam da índole e da estupidez dos brutos, sem empreenderem nada

que esteja acima das forças humanas.

Pois bem! Tratemos de defender esse argumento, não com as antinomias dos estóicos,

mas com um exemplo palmar. Deuses imortais, julgai-o! Quem no mundo viverá mais feliz

do que os vulgarmente chamados bobos, tolos insensatos e imbecís? Ah! como acho bonitos

esses nomes! Quero dizer-vos uma coisa que, à primeira vista, talvez tomeis por

extravagante e absurda. Mas, que importa? Apesar disso, não quero deixar de vo-la dizer,

tanto mais quanto é superior a qualquer outra verdade.

Respondei-me: é ou não exato que os homens que se julgam privados de sentimento

nenhum medo têm da morte? E esse medo — por Baco! — não é um mal indiferente! Além

disso, estão isentos dos terríveis remorsos da consciência; não temendo nem fantasmas nem

trevas, não são atormentados pela perpétua perspectiva dos males; não são enganados pela

vã esperança de futuros bens. Em suma os seus dias não são envenenados pela infinita série

de cuidados a que está sujeita a vida. A desonra, o temor, a ambição, a inveja, o amor, a

amizade, são coisas inteiramente estranhas para eles, pois gozam da incomparável vantagem

de só na forma diferirem dos animais. Mas, isso não basta, pois que, segundo a opinião dos

teólogos, chegam a ser impecáveis. Isso posto, tornai a consultar ainda uma vez o vosso

íntimo, oh insensatos partidários da sabedoria! Ponderai, examinai atentamente quantas

aflições do espírito vos atormentam dia e noite; reuni em bloco, sob os vossos olhos, todos

os diversos males da vida; e julgai finalmente, por vós mesmos, quanto é grande a felicidade

que proporciono aos meus insensatos. Não gozam eles apenas de um contínuo prazer, rindo,

jogando e cantando, mas me parece, além disso, que a alegria, o prazer, a chacota, o riso,

seguem-lhes os passos por toda parte. Dir-se-ia que os deuses tiveram a bondade de

misturá-los com os homens para edulcorar a tristeza da vida humana. Eu desejaria que

notásseis ainda um privilégio que honra muitíssimo os meus súditos. Diversa é a disposição

do coração humano de indivíduo para indivíduo; mas, quanto aos meus loucos, todos os

homens sentem prazer em possuí-los, como se soubessem que eles são da sua natureza.

Desejam-nos com transporte, abraçam-nos, lisonjeiam-nos, alimentam-nos, socorrem-nos

em suas necessidades, em suma, permitem-lhes dizer e fazer todo mal que lhe aprouver. Não

só não se encontra ninguém que se atreva a contrariá-los, como parece que até as próprias

feras, por um natural sentimento da sua inocência, contêm diante deles a sua inata

ferocidade. São sagrados para os deuses, para mim sobretudo, motivo porque é muito justo

que todos usem para com eles do mesmo respeito.

Que diremos, em seguida, de tantas outras prerrogativas de que gozam os meus

sequazes? Os maiores monarcas de tal forma concentraram neles as suas delícias, que

muitos não podem nem jantar, nem passear, nem ficar longe deles por uma hora sequer. Que

diferença não acharão, pois, entre os seus bobos e os sábios melancólicos, dos quais talvez

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mantenham um para lhes fazer as honras? E uma tal diferença nada tem de misterioso nem

de surpreendente, porque os sábios, em geral, só sabem dizer coisas melancólicas e, às

vezes, confiando no próprio saber, permitem-se ofender os delicados ouvidos com

pungentes verdades. Os meus loucos, ao contrário, têm uma vida totalmente oposta e

observam, para com os príncipes, todas as maneiras que mais costumam agradar, divertindo

os outros com mil chacotas e bobagens, com ditos satíricos, com caretas e disparates de

fazer qualquer pessoa rebentar de riso. Notai, de passagem, o privilégio que têm os bobos de

poder falar com toda a sinceridade e franqueza. Haverá coisa mais louvável do que a

verdade? Se bem que, com Platão, o provérbio de Alcebíades diga que a verdade se

encontra no vinho e nas crianças, contudo é a mim, particularmente, que convém esse

elogio, porque, segundo o testemunho de Eurípedes, tudo o que o tolo encerra no coração

ele o traz também impresso na cabeça e o manifesta nas palavras. Mas, os sábios, segundo o

mesmo Eurípedes, têm duas línguas, uma para dizer o que pensam e a outra para falar

conforme às circunstâncias: quando o querem, têm talento para fazer o preto aparecer como

branco e o branco como preto, soprando com a mesma boca o calor e o frio (66) e

exprimindo com palavras exatamente o contrário do que sentem no peito.

Não posso deixar, aqui, de lastimar a sorte dos príncipes. Oh! como são infelizes!

Inacessíveis à verdades, só contam com a amizade dos aduladores. Mas, ponderará alguém

que eles não devem queixar-se senão de si mesmos. Porque será que os príncipes não

gostam de prestar ouvidos à verdade? E porque detestam a companhia dos filósofos? Ah!

bem vejo que isso se deve ao medo que têm os príncipes de encontrar, entre os filósofos,

algum petulante que se atreva a dizer o que é verdadeiro e não o que é agradável! Concedo,

de bom agrado, que a verdade seja odiada por todos e muito mais pelos monarcas. Mas, é

justamente essa razão o que mais honra os meus loucos. Nem mesmo dissimulam os vícios e

os defeitos dos reis. Que digo eu? Chegam, muitas vezes, a insultá-los, a injuriá-los, sem

que esses senhores do mundo se ofendam por isso ou se aborreçam. Sabemos que os

príncipes, em lugar de ficarem indignados, riem-se de todo coração quando um tolo lhes diz

coisas que seriam mais do que suficientes para enforcar um filósofo. Só se costuma defender

a verdade quando não se é atingido por ela; ora, só aos loucos os deuses concederam o

privilégio de censurar e moralizar sem ofender a ninguém. Quase pela mesma razão é que as

mulheres gostam dos loucos e dos bobos, e é por isso que esse sexo é tão inclinado ao riso e

às frivolidades. Além disso, qualquer coisa que façam as senhorinhas com essa espécie de

pessoas (e às vezes com toda espécie), parece-lhes uma brincadeira ou uma chacota, tão

engenhoso e ladino é o belo sexo em colorir e mascarar os seus ardis.

Voltando, pois, à felicidade dos loucos, devo dizer que eles levam uma vida muito

divertida e depois, sem temer nem sentir a morte, voam direitinho para os Campos Elísios,

onde as suas piedosas e fadigadas almazinhas continuam a divertir-se ainda melhor do que

antes. Confrontai, agora, a condição de qualquer sábio com a de um tolo. Imaginai, figurai,

um homem venerável, verdadeiro modelo de sabedoria, e observai como faz a sua passagem

pela terra. Constrangido desde a infância a consagrar-se ao estudo, passa a flor dos anos nas

vigílias, nas aflições, na mais assídua fadiga; e, mal sai dessa dura escravidão, acha-se ainda

mais infeliz do que nunca. Por isso é que, devendo viver com economia, com moderação,

com tristeza, com severidade, ele se torna cruel e pesado a si mesmo, incômodo e

insuportável aos outros. Pálido, magro, enfermiço, ramelento, fraco, encanecido, velho antes

do tempo, termina uma vida infeliz com a morte prematura. Mas, que importa ao sábio

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morrer moço ou velho, quando se pode afirmar, com toda a razão, que nunca viveu? Com

efeito, não se pode falar em viver quando não se gozam todos os prazeres da vida. Que vos

parece, agora, esse belo retrato do sábio? Agrada-vos?

Mas, já estou esperando que as importunas rãs que são os estóicos (67) venham

atacar-me com novos argumentos. E — dirão elas — uma insigne loucura não estará perto

do furor, ou melhor, não poderá chamar-se um verdadeiro furor? Mas, que quer dizer ser

furioso? Não significará, talvez, ter a mente perturbada? Como me inspiram piedade esses

filósofos! O mais das vezes, não sabem o que dizem. Pois bem, se mo permitirem as musas,

quero derrubar, quero destruir também esse paládio. Não posso negar que os estóicos sejam

argumentadores sutis mas, por pouco que queiram ter reputação de bom senso, devem

distinguir duas espécies de loucura, da mesma maneira por que Sócrates, segundo Platão,

distinguia duas Vênus (68) e dois Cupidos. Afirmo que nem todas as loucuras tornam

igualmente infeliz o homem. Se assim não fosse, Horácio decerto não teria aplicado o

epíteto de amável ao furor que invade os poetas e que revela o futuro. O citado Platão não

teria incluído, entre os principais bens da vida, o furor dos vates, dos adivinhos e dos

amantes, e a Sibila Cumana não teria empregado esse vocábulo para exprimir as penas e os

trabalhos de Enéias.

Há, portanto, duas espécies de furor. Um vem do fundo do inferno, e são as fúrias que o

mandam para a terra. Essas atrozes e vingativas divindades tiraram da cabeça uma porção de

serpentes e atiram suas escamas sobre os homens quando querem divertir-se em

atormentá-los. Têm nisso as suas origens o furor da guerra, a hidrópica e devoradora sede do

ouro, o infame e abominável amor, o parricídio, o incesto, o sacrilégio, o peso de

consciência e todos os outros flagelos semelhantes de que se servem as fúrias para dar aos

mortais uma amostra dos suplícios eternos.

Existe, porém, outro furor inteiramente oposto ao precedente, e sou eu quem o

proporciona aos homens, que deveriam desejá-lo sempre como o maior de todos os bens.

Em que pensais que consista esse furor ou loucura? Consiste numa certa alienação de

espírito que afasta do nosso ânimo qualquer preocupação incômoda, infundindo-lhe os mais

suaves deleites. É justamente essa divagação que, como um insigne dom dos supremos

deuses, deseja Cícero para si, quando diz a Ático que não pode mais suportar o peso de

tantos males (69). Um grego, de cujo nome não me recordo, era do mesmo parecer, e a sua

história é tão engraçada que eu até quero contá-la. Esse homem era louco de todas as

formas: desde manhã muito cedo até tarde da noite, ficava sentado sozinho no teatro e,

imaginando que assistia a uma magnífica representação, embora na realidade nada se

representasse, ria, aplaudia e divertia-se à grande. Fora dessa loucura, ele era, em tudo o

mais, uma ótima pessoa: complacente e fiel com os amigos; terno, cortês, condescendente

com a mulher; indulgente com os escravos, não se enfurecendo quando via quebrar-se uma

garrafa. Seus parentes deram-se ao incômodo de curá-lo com heléboro; mal, porém, ele

voltou ao estado que impropriamente se chama de bom senso, dirigiu-lhe esta bela e sensata

apóstrofe: “Meus caros amigos, que fizeram vocês? Pretendem ter-me curado e, no entanto,

mataram-me; para mim, acabaram-se os prazeres: vocês me tiraram uma ilusão que

constituía toda a minha felicidade”. Tinha sobras de razão esse convalescente, e os que, por

meio da arte médica, julgaram curá-lo, como de um mal, de tão feliz e agradável loucura,

mostraram precisar mais do que ele de uma boa dose de heléboro.

Ainda não decidi se se deva ou não chamar indistintamente de loucura todo erro de

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espírito e do senso. É que, em geral, dizemos ser louco todo aquele que, sendo curto de

vistas, toma um burro por jumento, ou que, por ter pouco discernimento, considera excelente

um mau poema. Ao mesmo tempo, quando um homem comete um estranho erro, não só de

senso, mas também de inteligência, nele persistindo longamente, — por exemplo, quando,

ao escutar o zurro de um burro, julga ouvir uma sinfonia ou, então, quando, embora pobre e

de origem humilde, imagina ser o rei Creso, da Lídia (70) — nesse caso, se diz que o

pobrezinho perdeu o miolo. Mas, essa loucura, quando dirigida a um objeto de prazer, como

costuma acontecer quase sempre, bastante agradável se torna tanto para os que a têm como

para os que são meros espectadores. Assim, essa espécie de loucura é bem mais espalhada

do que em geral se pensa. Às vezes, é um louco que se ri de outro louco, divertindo-se

ambos mutuamente. Também não é raro ver-se um mais louco rir-se muito de outro menos

do que ele. Mas, na minha opinião, o homem é tanto mais feliz quanto mais numerosas são

as suas modalidades de loucura, contanto que não saia da espécie que nos é peculiar e que é

tão espalhada que eu não saberia dizer se haverá, em todo o gênero humano, um só

indivíduo que seja sempre sábio e não tenha também a sua modalidade. Se alguém, ao ver

uma abóbora, a tomasse por uma mulher, dir-se-ia ser o pobrezinho um louco. A razão disso

é que semelhante perturbação raras vezes costuma aparecer entre nós. Mas, quando um

marido imbecil adora a mulher, julgando-a mais fiel do que Penélope, mesmo que ela lhe

faça crescer na cabeça um bosque de chifres, e intimamente se felicita, bendizendo

enormemente o seu destino e dando graças a Deus por o ter unido a semelhante Lucrécia, —

ninguém acha que se trate de loucura, porque isso, hoje em dia, é a coisa mais natural deste

mundo. Nessa categoria, é preciso incluir também os que desprezam tudo a não ser a caça,

não concebendo maior prazer que o de ouvir o rouco som da trompa e os latidos dos cães.

Creio mesmo que, ao sentirem o cheiro dos excrementos caninos, imaginam estar cheirando

sinomônio. Trata-se de despedaçar uma presa? Oh! incomparável delícia! Degolar, esfolar,

cortar um boi ou um carneiro? Ah! é um mister vil, digno somente da ralé! Mas, um bicho

do mato? Oh! a honra de cortar um bicho do mato é reservada unicamente às pessoas de alta

linhagem! O monteiro-mor, com a cabeça descoberta e de joelhos, pega o facão sagrado

para esse sacrifício (pois Diana se ofenderia se se servisse de outro) e, empunhando o ferro

com a mão direita, corta religiosamente determinados membros do animal, fazendo tudo

com certa ordem e com cerimônias especiais. E, durante a pomposa operação, todo o bando

de caçadores acerca-se do sacerdote de Diana, observando profundo silêncio e mostrando,

ao assistir ao espetáculo mil vezes visto, a mesma surpresa que teria se fosse a primeira vez.

Em seguida, aquele a quem cabe a sorte de provar um pedaço da caça julga ter conquistado

ainda mais nobreza. Por fim, os caçadores, depois de levarem a vida perseguindo e comendo

caça, não obtêm outro resultado do seu assíduo e fatigante exercício senão o de se terem

trasformado também em outros tantos animais selvagens. E, não obstante, intimamente,

pensam ter uma vida real.

Outra espécie de homens semelhantes à que há pouco descrevi é constituída por aqueles

que se sentem devorados pela mania de construir. Uma vez invadidos por essa irriquieta

paixão, nunca se dão por satisfeitos, sendo a sua preocupação contínua a de fazer, edificar,

destruir, até que, como Horácio, nessa tarefa de mudar o quadrado em redondo e o redondo

em quadrado, acabam por ficar sem casa e sem pão. E com que ficam? Ficam com a doce

lembrança de terem passado com prazer um grande número de anos.

Vejamos, agora, os alquimistas, que podem ser considerados os loucos por excelência.

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Têm a cabeça sempre repleta de novos e misteriosos segredos. O seu único fim é confundir,

misturar, modificar a natureza, procurando por terra e por mar não sei que quintessência,

que na realidade só se encontra em uma quimérica imaginação. Não julgueis, por isso, que

se desgostem diante dos insucessos: ao contrário, cheios de louca e lisonjeira esperança,

nunca se arrependem das despesas nem da fadiga, pois são engenhosíssimos em iludir-se a si

mesmos e em tornar-se vítimas da própria obstinação. Mas, qual é, em geral, o seu objetivo?

Pensando enriquecer-se, gastam tudo, não lhes restando nem mesmo com que construir um

pequeno lar. É verdade que esses sonhadores não deixam de ter belíssimos sonhos, tentando

tudo quanto é meio imaginável para incitar os outros a correr atrás dessa felicidade.

Finalmente, constragidos pela miséria a dar um adeus às suas quiméricas esperanças, acham

ainda uma grande compensação em se poderem gabar de ao menos terem formado tão

glorioso e nobre projeto. Mas, ao mesmo tempo, censuram a natureza pelo fato de ter dado

aos homens uma vida demasiado breve para levar a termo empresa de tamanha importância.

Sinto certo escrúpulo em introduzir em nossa sociedade os jogadores de profissão. Mas,

decerto que é uma loucura, oferecendo um espetáculo ridículo os que, de tão apaixonados

pelo jogo, sentem bater e saltar o coração dentro do peito, sempre que vêm cartas na mesa

ou ouvem o barulho dos dados. Então, quando a enganosa esperança de recuperar o que

perderam faz com que percam o resto dos seus bens e quando a sua nau se quebra contra o

escolho do jogo, escolho não menos fatal que o de Maléia (71), ainda se julgam muitos

felizes por se terem salvo nuzinhos em pêlo desse naufrágio. E o mais bonito é que essa

espécie de gente prefere roubar a quem quer que seja, exceto ao que a despojou, pelo receio

de passar à conta de pouco honesta. Que deveria eu dizer desses velhos que, quase cegos de

tanta idade, chegam a pôr os óculos para jogar e, tendo as mãos atacadas pela gota, pagam a

alguém para que jogue os dados por eles? São tão loucos pelo jogo, e nele experimentam tão

extremo prazer que sou levada a considerá-los como de minha atribuição. Mas, muitas

vezes, o jogo se transforma em raiva e furor, e, então, me inclino a atribuí-lo mais às fúrias

do que a mim.

Mas, eis que se adiantam algumas pessoas, que sem dúvida vivem sob as minhas leis: são

os que se divertem ouvindo ou contando milagres e romanescas invencionices. Não

acreditais? Pois esse bom gosto proporciona tal prazer que os sábios são indignos de

experimentá-lo. É preciso, sim, é preciso ter nascido sob um particular auspício dos deuses

para poder saborear tão doces quimeras. E o melhor é que nunca se fartam de ouvir

semelhantes patranhas. Os milagres, os espectros, os duendes, os fantasmas, o inferno, e mil

outras visões dessa natureza, são o assunto mais comum das conversas do vulgo ignorante,

sendo que, quanto mais extraordinárias são essas coisas, com tanto maior prazer são elas

ouvidas e facilmente acreditadas. E não penseis que tais histórias se contem apenas para

iludir as horas de aborrecimento: tornaram-se, na boca dos monarcas e dos pregadores, um

meio de tirar proveito da crendice popular.

A essa espécie podem agregar-se, a justo título, os ridículos e originais supersticiosos, os

quais, toda vez que têm a sorte de ver alguma estátua de madeira ou alguma imagem do seu

polifêmico São Cristóvão (72), ficam convencidos de que nesse dia não poderão morrer.

Soldados há que, depois de uma pequena prece diante da imagem de Santa Bárbara, ficam

certos de que sairão ilesos da batalha. Alguns acreditam que, invocando Santo Erasmo em

certos dias, com certas orações e à luz de certas lamparinas, seja possível fazer uma grande

fortuna em pouco tempo (73). E que direi do hercúleo São Jorge, que para esses

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supersticiosos faz as vezes de um novo Hipólito (74)? Na verdade, não se pode deixar de rir

diante de sua devoção, que consiste em ornar pomposamente o cavalo do santo e quase que

em prostar-se, diante do animal assim enfeitado, para adorá-lo. Fazem questão absoluta de

conservar o favor e a proteção do cavaleiro por meio de alguma oferta, sendo inviolável para

eles o juramento que fazem pelo seu penacho. Mas, porque não falar dos que julgam que,

em virtude dos perdões e das indulgências, não têm nenhuma dívida para com a divindade?

Com a exatidão de uma clepsidra e da mesma maneira por que, matematicamente, sem

recear erro de cálculo, medem os espaços, os séculos, os anos, os meses, os dias, — assim

também, com essa espécie de falazes remissões medem eles as horas do purgatório. Outra

espécie de extravagantes é constituída pelos que, confiando em certos pequenos sinais

exteriores de devoção, em certos palanfrórios, em certas rezas que algum piedoso impostor

inventou para se divertir ou por interesse, estão convencidos de que irão gozar uma

inalterável felicidade, conquistar riquezas, obter honras, satisfazer determinados prazeres,

nutrir-se bem, conservar-se sãos, viver longamente e levar uma velhice robusta. E, como se

isso não bastasse, ainda esperam poder ocupar no paraíso um posto elevado, sob a condição,

porém, de só passarem ao número dos beatos tão tarde quanto possível. Pensam, então,

chegado o tempo de voar por entre as inefáveis e eternas delícias do céu, uma vez

abandonados pelos bens da terra, a que se aferram de todo o coração.

Persuadidos dos perdões e das indulgências, ao negociante, ao militar, ao juiz, basta

atirarem a uma bandeja uma pequena moeda, para ficarem tão limpos e tão puros dos seus

numerosos roubos como quando saíram da pia batismal. Tantos falsos juramentos, tantas

impurezas, tantas bebedeiras, tantas brigas, tantos assassínios, tantas imposturas, tantas

perfídias, tantas traições, numa palavra, todos os delitos se redimem com um pouco de

dinheiro, e de tal maneira se redimem que se julga poder voltar a cometer de novo toda sorte

de más ações. Quem já terá visto homens mais tolos, ou melhor, mais felizes do que os

devotos, os quais julgam que entrarão infalivelmente no reino dos céus, recitando todos os

dias sete versículos, que eu não sei quais sejam, dos salmos sagrados? No entanto, foi um

demônio quem fez tão bela descoberta; mas, um demônio tolo, que tinha mais vaidade do

que talento, tanto assim que cometeu a imprudência de exaltar o seu mágico segredo com

São Bernardo (75), que era muito mais esperto do que ele. E todas essas coisas não serão,

talvez, excelentes loucuras? Ah! como isso é verdadeiro! Até eu, que sou a Loucura, não

posso deixar de sentir vergonha. No entanto, não é o público o único a aprovar tão

completas extravagâncias. Sustentam a sua prática, dando o exemplo, os próprios

professores de teologia. E, já que viajo por esses mares, convém continuar a navegar.

Digamos, assim, algumas palavras sobre a invocação dos santos. É curioso verificar que

cada país se gaba de ter no céu um protetor, um anjo tutelar, de forma que, num mesmo

povo, entre esses grandes e poderosos senhores da corte celeste, se encontrem as diversas

incubências do protetorado. Um cura dor de dentes, outro assiste ao parto das mulheres;

aquele faz achar os objetos perdidos, este vela pela segurança e prosperidade do gado; um

salva os náufragos, outro confere a vitória nos combates. Suprimo o resto, porque será um

nunca mais acabar.

Além desses, existem outros santos que gozam de um crédito e um poder universais,

encontrando-se entre estes, em primeiro lugar, a mãe de Deus, a quem o vulgo atribui poder

maior que o do seu próprio filho. Ora, as graças que os homens pedem aos santos não serão,

talvez, insinuadas também pela Loucura? Dizei-me se, entre tantos votos religiosos de

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reconhecimento que vedes cobrindo por completo as paredes e as abóbadas das igrejas, já

vistes penduradas um único de reconhecimento por cura milagrosa de loucura. Decerto que

não: os homens não costumam importunar os santos para obter uma graça dessa natureza.

Daí resulta que, por maior que seja a sua devoção, nunca se tornam nem um pouquinho mais

sábios. Eis porque, enquanto se vêem, suspensos dos altares, ex-votos relativos a toda sorte

de graças recebidas, nenhum se encontra, todavia, que se refira a um caso curado de loucura.

Aquele pendurou um ex-voto por se ter salvo a nado quando julgava naufragar; este, porque

não morreu de um grave ferimento recebido numa briga; um outro, porque, enquanto os

outros caíam prisioneiros do inimigo, conseguiu subtrair-se ao perigo, graças a uma feliz e

valorosa fuga; aquele outro, porque, tendo sido condenado à forca como prêmio às suas boas

ações, caiu do laço, graças a algum santo dos larápios, a fim de que, pior do antes e em

virtude da caridade do próximo, voltasse a roubar os que tivessem a bolsa muito cheia de

dinheiro; um outro, por ter recuperado a liberdade rompendo as grades da prisão; outro por

se ter restabelecido facilmente de uma febre muito grave, com grande mágoa do médico,

que esperava fazer uma cura mais longa e mais lucrativa; este, porque, em lugar da morte,

encontrou remédio no veneno que lhe fora dado, enquanto sua mulher, que já suspirava pelo

momento da libertação, ficou na maior amargura por ter falhado o golpe; outro, porque,

tendo caído com seu carro, não teve receio algum e pôde reconduzir à casa, sãos e salvos, os

cavalos; aquele, porque, tendo ficado soterrado num desabamento, conseguiu salvar-se sem

nada sofrer; outro, finalmente, porque, tendo sido pilhado em flagrante pelo marido de sua

bela, saiu da enrascada com a maior desenvoltura.

Ora, bem vedes que ninguém deu graças a Deus, ou à Virgem, ou a qualquer santo, por

ter recuperado o juízo. A loucura tem tantos atrativos para os homens, que, de todos os

males, é ela o único que se estima como um bem. Mas, porque engolfar-me nesse oceano de

superstições?

Se eu tivesse cem línguas e cem bocas,

E férrea voz, em vão de tantos tolos

As espécies contar eu poderia,

E de tanta tolice os vários nomes.

(Virgílio, Eneida, livro VI e Homero, III, livro VI.)

De tal maneira está a vida de cada cristão repleta de semelhantes desejos! Bem sei que os

sacerdotes não são tão cegos que não compreendam deformidades tão vergonhosas; mas é

que, em lugar de purgar o campo do Senhor, eles se empenham em semeá-lo e cultivá-lo de

ervas daninhas, com toda a diligência, certos como estão de que estas costumam

aumentar-hes as ganhuças. Suponha-se que, em meio a todos esses prejuízos, surgisse um

odioso moralista que, em tom apostólico, fizesse esta patética, mas verdadeira exortação:

“Não basta ter devoção por São Cristóvão: é preciso, também, viver segundo a lei divina,

para não chegar a um mau fim. Não basta oferecer uma pequena moeda para obter perdões e

indulgências: é preciso, ainda, odiar o mal, chorar, velar, rezar, jejuar, numa palavra, mudar

de vida, praticando constantemente o Evangelho. Confiais em algum santo? Pois segui os

seus exemplos, vivei como ele viveu, e assim merecereis a graça do vosso santo protetor”.

Aqui entre nós: esse moralista não andaria mal falando dessa forma, mas, ao mesmo tempo

tiraria os homens de um estado de felicidade, para lançá-los na miséria e na dor.

Uma palavrinha acerca de uma espécie de doidos, porque seria um grande mal não os pôr

igualmente em cena, quando honram tanto o meu império. Quero referir-me aos ricos que,

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vendo chegar o fim dos seus dias, providenciam grandiosos preparativos para uma passagem

magnífica ao túmulo. É com grande prazer que se observa como esses moribundos se

aplicam seriamente às suas pompas fúnebres. Estabelecem, artigo por artigo, quantos círios

e quantas velas devem arder nos seus funerais, quantas pessoas vestidas de luto, quantos

músicos, quantos carpidores devem acompanhar o féretro, como se, depois de mortos, ainda

pudessem conservar alguma consciência para gozar o espetáculo, ou soubessem ao certo que

os mortos costumam ficar envergonhados quando os seus cadáveres não são sepultados com

a magnificência exigida por seu próprio estado. Finalmente, parece que esses ricos

consideram a morte como um cargo de edil, que os obrigue a ordenar festas populares e

banquetes.

Embora seja fecundíssimo o meu assunto, sendo eu forçada a tratá-lo superficialmente,

não poderei, contudo, silenciar sobre esses grandes panegiristas, esses vaidosos apreciadores

da própria nobreza. Não é raro encontrar, entre estes, os que, com ânimo abjeto e vilíssimas

e plebéias inclinações, vos pasmem à força de repetir: “Sou um fidalgo”. Convém provar a

antigüidade de suas estirpes? Um descende do piedoso Enéias; outro remonta ao primeiro

cônsul de Roma; este procede, em linha reta, do rei Artur. Além disso, mostram as estátuas e

os retratos dos antepassados: enumeram os bisavós e os tataravós; recordam os antigos

sobrenomes e os feitos dos seus maiores. Enquanto isso, pouco diferem eles de uma estátua

muda, e eu os diria mesmo quase inferiores às próprias figuras que vão mostrando. Esses

idiotas fazem um alto conceito de si mesmos e estão sempre cheios da estéril idéia de sua

ascendência. O que é fato, porém, é que imbuídos dessa quimera, levam uma vida contente e

feliz. Ora, o que contribui, em grande parte, para que em tão boa conta se tenha esse belo

fantasma de nobreza, é justamente o respeito que o vugo insano demonstra por eles,

parecendo até enxergar nesse gênero de bestas, nesses nobres sem mérito, outras tantas

divindades.

Mas, ao tratar do amor próprio, porque hei de me restringir a uma ou duas espécies

apenas de loucura? Quantos meios surpreendentes não possuirá o meu caro amor próprio,

que vedes aqui presente, para impedir que o homem fique desgostoso de si mesmo? Olhai

aquele rosto: não há macaco mais feio, nem mais disforme; no entanto, julga-se um lindo

rapaz. E, perto dele, o outro que traça duas ou três linhas com exatidão, à força de

compasso! Intimamente, já se aplaude, julgando-se um Euclides. E aquele que está

cantando, ainda pior que um galo? Não importa: pensa ter uma voz paradisíaca. Todavia,

também essa espécie de loucura é verdadeiramente agradável. Alguns possuem um

numeroso bando de criados, cada qual com uma boa qualidade, e julgam que essas boas

qualidades lhes sejam peculiares. Tal era, segundo Sêneca, aquele rico duplamente feliz que,

ao pretender contar alguma história, tinha sempre ao redor os escravos, que lhe auxiliavam a

memória, sugerindo-lhe os vocábulos adequados, mesmo os mais comuns. Esse senhor, era,

além disso, tão fraco que bastava um pequeno sopro de vento para levá-lo ao chão: isso,

contudo, não impedia que estivesse sempre disposto a bater-se a socos, fiando-se na força

dos escravos, como se esta fosse sua.

É inútil passar aqui em revista os que professam as artes, porque com razão podem ser

considerados os prediletos, os favoritos do meu amor próprio. Em geral, essas pessoas estão

de tal forma fanatizadas por seu pequeno mérito que prefeririam ceder uma parte do seu

patrimônio a confessar-se ineptas. Os cômicos, os músicos, os oradores, os poetas — eis aí,

eis os melhores amigos do amor próprio! Quanto mais ignorantes, tanto mais perfeitos se

julgam em sua arte, e, assim prevenidos em benefício próprio, aproveitam todas as ocasiões

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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para celebrar os próprios louvores. Mas, não penseis que não encontrem quem os aplauda,

pois toda tolice, por mais grosseira que seja, sempre encontra sequazes. Mas, ainda é pouco:

quanto mais contrária ao bom senso é uma coisa, tanto maior é o número dos seus

admiradores, e constantemente se vê que tudo o que mais se opõe à razão é justamente o que

se adota com maior avidez. Perguntar-me-eis por que? Pois já não vos disse mil vezes? É

porque quase todos os homens são malucos. A ignorância tem, pois, dois grandes

privilégios: um, que consiste em estar de perfeito acordo com o amor próprio, e outro, que

consiste em trazer em si a maior parte do gênero humano. Por conseguinte, seríeis duas

vezes ingênuos se quisésseis elevar-vos acima do nível comum, com toda a vossa ciência

filosófica. Que pensais que obteríeis com isso? Podeis estar certos de que, além de vos

custar muito caro semelhante propósito, chegaríeis ao ponto de não saberdes tolerar mais

ninguém e de não poderdes por mais ninguém ser tolerados. Resultaria, enfim, que ninguém

seria capaz de apreciar o vosso gênio e de penetrar os vossos sentimentos.

Parece-me de novo oportuno fazer outra reflexão sobre o amor próprio. Façamo-la

juntos. Todo homem, ao nascer, recebe o seu amor próprio como um dom da natureza. Mas,

essa mãe comum não se limitou apenas ao homem, pois fez o mesmo presente à sociedade,

de maneira que não se acha uma única nação, uma única cidade que não tenha o seu gosto

particular. Os ingleses, por exemplo, amam com transporte a beleza, a música e os

banquetes lautos; os escoceses dão grande valor à nobreza e, sobretudo, à que deriva do

sangue do seu rei, gabando-se, além disso, de serem raciocinadores sutis; os franceses

atribuem-se a polidez e a civilidade, sendo que sobretudo os parisienses gabam a sua

teologia; os italianos decantam a sua literatura e sua eloqüência. Em suma, cada nação se

compraz em ser a única verdadeiramiente civilizada e sem sombra de barbarismo. Pode

dizer-se que os romanos são os mais enfatuados desse gênero de felicidade: Roma moderna

sonha ainda participar da grandeza de Roma antiga. Os venezianos são felizes pela alta

opinião que têm da própria nobreza. Vangloriam-se os gregos de terem sido os inventores

das artes e das ciências, além de serem os descendentes dos famosos heróis que em seu

tempo tanto estrépito fizeram no mundo. Os turcos e todos os outros povos semelhantes, que

não passam, afinal, de um ajuntamento de bárbaros, se jactam de serem os únicos que vivem

no seio da verdadeira religião, ridicularizando as superstições e a idolatria dos cristãos. E

que direi dos judeus? Estes vivem satisfeitíssimos, à espera do seu Messias, e, muito longe

de impacientar-se pela enorme demora, obstinam-se cada vez mais em esperá-lo, achando

que não podem em absoluto estar enganados, apoiados como se encontram nas promessas

do seu Moisés. Os espanhóis reservam para si toda a glória da guerra. Finalmente, os

alemães se pavoneiam por sua natureza gigantesca e por sua habilidade na ciência da magia.

Mas, vamos! Liquidemos logo o assunto, que seria interminável. Estais vendo, agora, se

não me engano, como o amor próprio difunde por toda parte grandes alegrias, quer nos

indivíduos, quer nas nações. Ao lado do amor próprio, acha-se sempre a sua boa irmã — a

adulacão. Isto posto, respondei-me: em que consiste o amor próprio? Não consistirá,

porventura, em agradar, em satisfazer, em adular a si mesmo? Pois bem: quando procedeis

dessa forma em relação aos outros, isso se chama adulação. Hoje em dia, tem, essa pobre

adulação a desgraça de estar muito desacreditada: mas, por quem? Por todas as pessoas que

se ofendem mais com as palavras do que com os fatos. Acredita-se que a adulação não

possa coadunar-se com a boa fé. Idéia falsa! Pois os próprios animais não nos mostram o

contrário? Em vão se procuraria animal mais cortesão e adulador do que o cão, e, não

obstante, quem pode vangloriar-se de ser mais fiel do que ele? O esquilo domesticado

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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procura sempre brincar: será ele por isso, menos amigo do homem? Se a adulação excluísse

a boa fé, seria preciso concluir, então, que os ferozes leões, os tigres cruéis e os irriquietos

leopardos devem ser afeiçoados à espécie humana. Não ignoro que há péssima adulação, da

qual costumam servir-se as maliciosos e os caçoadores para arrumar e ridicularizar míseros

tolos e vaidosos. Não é essa porém a minha adulação predileta, e praza a Deus que não a

conheça nunca! Provêm a minha da doçura, da bondade, da inteireza de coração, e tanto se

avizinha da virtude como se distancia de um caráter rude, insociável e importuno, que,

como, diz Horácio desgosta e afasta. A minha adulação reanima os espíritos abatidos, alegra

os melancólicos, estimula os poltrões, desperta os estúpidos, restabelece os enfermos,

acalma os furibundos, forma e mantém os amores. A minha adulacão incita as crianças ao

trabaho e ao estudo, e consola os velhos. Sob o manto do louvor, censura e instrui os

monarcas, sem ultrajá-los. Enfim, minha adulacão faz com que os homens, como outros

tantos Narcisos (76), se apaixonem por si mesmos, dando origem à principal felicidade da

vida.

Quem já viu ação mais delicada e mais grata que a praticada por dois bons e honestos

burros que se coçam mutuamente? É a esse mútuo auxílio que se dirige em grande parte a

eloqüência, muito a medicina e ainda mais a poesia. Devo acrescentar que essa adulacão é o

mel, o condimento de toda a sociedade humana. Dizem os sábios que é um grande mal estar

enganado; eu, ao contrário, sustento que não estar é o maior de todos os males. É uma

grande extravagância querer fazer consistir a felicidade do homem na realidade das coisas,

quando essa realidade depende exclusivamente da opinião que dela se tem. Tudo na vida é

tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos certificar-nos de nenhuma verdade.

Tal era justamente o princípio dos meus acadêmicos, que se mostravam nisso menos

orgulhosos que todos os outros filósofos. Porque, se há verdades que, tendo sido bem

demonstradas, não deixam lugar às dúvidas, quantas não serão — pergunto — as que

perturbam o tranqüilidade e os prazeres da vida? Os homens, enfim, querem ser enganados e

estão sempre prontos a deixar o verdadeiro para correr atrás do falso. Quereis disso uma

prova sensível e incontrastável? Ide assistir a um sermão, e vereis que, quando o cacarejador

(oh! que injúria! enganei-me, desculpai-me), queria dizer, quando o pregador aborda o

assunto com seriedade e apoiado em argumentos, o auditório dorme, boceja, tosse, assoa o

nariz, relaxa o corpo, inteiramente enjoado. Se, porém, o orador, como quase sempre é o

caso, conta uma velha fábula ou um milagre da lenda, então o auditório logo se agita, os

dorminhocos despertam, todos os ouvintes levantam a cabeça, arregalam os olhos, prestam

atenção. Nunca observastes que, ao celebrar-se numa igreja a festa de um santo poético ou

romântico — por exemplo, de um São Jorge, de um São Cristóvão, de uma Santa Bárbara —

em geral se costuma consagrar-lhe uma pompa e uma devoção bem maiores que a que se

consagra a São Pedro e São Paulo, e ao próprio Nosso Senhor? Mas, não é este o lugar

apropriado para tal questão.

Voltemos ao nosso assunto. Quanto não custa conquistar a felicidade de opinião! Que os

que pretendem repor a felicidade no gozo das coisas tenham a bondade de observar quais e

quantos são os sofrimentos que costumam causar mesmo os objetos menos importantes.

Para fazermos um juízo a respeito, basta-nos lembrar as dificuldades que oferece o estudo da

gramática. A opinião, ao contrário, é concebida sem esforço, insinua-se por si mesma no

coração e contribui também, talvez mais do que a evidência e a realidade das coisas, para a

felicidade da vida. Se um esfomeado come carne podre, cujo fedor obrigaria um outro a

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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tapar o nariz, se ele a come com tanto gosto como se se tratasse do alimento mais fino, eu

vos pergunto se por isso deve ser considerado menos feliz. Ao contrário, se um enfastiado

comesse excelentes iguarias e, em lugar do seu gosto, sentisse náuseas, onde estaria, nesse

caso, a sua felicidade? Para um homem que tem uma mulher feíssima, mas na qual vê

perfeitamente a sua bela, não é o mesmo que se tivesse desposado uma Vênus? O tolo que

possui um mau e miserabilíssimo quadro, mas acredita possuir uma pintura de Zeuxis ou de

Apeles, não se cansando de comtemplá-lo e admirá-lo, não será incomparavelmente mais

feliz que o que, tendo comprado por elevado preço um quadro desses excelentes pintores,

não experimente igual prazer ao contemplar as suas obras?

De um homem que tem a honra de trazer o meu nome, eu sei que, pouco depois das

núpcias, deu de presente à sua mulher brihantes falsos. Sendo ele um engraçado tratante,

convenceu a mulher de que as pedras eram preciosas, tendo lhe custado uma grande soma.

Ora, nada faltava ao prazer da esposa. Ela gostava de se enfeitar com aqueles pedaços de

vidro e não se cansava de admirá-los, satisfeitíssima de possuir o imaginário tesouro, como

se este fosse real. Ao mesmo tempo, o marido poupara uma despesa apreciável e estava

contente com o engano da mulher, que lhe agradecia da mesma forma por que o teria feito

se ele lhe tivesse dado um magnífico presente.

Merecem ser incluídos nessa categoria os habitantes da caverna de Platão (77). Ao

verem, os tolos, as sombras e as aparências de diversas coisas, admiram-nas e nada mais

procuram, dando-se por satisfeitos. Já os filósofos, por estarem fora da caverna, não só

observam os mesmos objetos como lhes investigam os mistérios. Não terão uns e outros o

mesmo prazer? Se o remendão Micilo (78), de que fala Luciano, tivesse podido passar o

resto dos seus dias no belíssimo sonho em que se embalava quando o despertaram, poderia

ele desejar felicidade maior?

Não haveria, pois, diferença alguma entre os sábios e os loucos, se não fossem mais

felizes estes últimos. Sim, porque estes o são por dois motivos: o primeiro é que a felicidade

dos loucos não custa nada, bastando um pouquinho de persuasão para formá-la; o segundo é

que os meus loucos são felizes mesmo quando estão juntos com muitos outros. Ora, é

impossível gozar um bem quando se está sozinho.

Os sábios são em número tão escasso que nem vale a pena falar deles, e eu desejaria

saber mesmo se é possível descobrir algum. No curso de tantos séculos, a Grécia se

vangloria de ter produzido apenas sete sábios. É na verdade maravilhoso! O gênero humano

deve mesmo muito a essa felicidade da Grécia! Foram mesmo sete? Pois pedi a Deus que

não vos venha o desejo de anatomizá-los cuidadosamente, porque, de contrário (juro-vos por

Hércules, arrebento-vos a cabeça), não encontraríeis, decerto, nem a metade de um filósofo

e talvez nem mesmo um terço.

Quero louvar-me ainda num outro fato. Entre os numerosos méritos que os poetas

costumam atribuir a Baco, o que se mantém e é realmente o primeiro é o que consiste em

tirar e dissipar do ânimo dos mortais as aflições, as inquietações e a tristeza, perversas filhas

da razão: mas, por pouco tempo, porque, depois de algumas horas de sono, voltam a

atormentar-nos imediatamente e, como se costuma dizer, a todo o galope. Não será isso

inteiramente o oposto do bem que proporciono aos mortais? Eu os embriago, mas também

lhes tiro a razão. Minha embriaguez é muito diferente da de Baco: enche a alma de alegria,

de tripúdio e de delícias, dura até ao fim da vida e não custa dinheiro nem dá remorsos.

Os homens me devem ser particularmente gratos, pois não permito que haja entre eles

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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algum que não sinta mais ou menos os efeitos da minha beneficência. Nenhuma das outras

divindades reparte igualmente, entre os mortais, os seus favores. Não cresce por toda parte

aquele vinho generoso e saboroso que afasta as aflições importunas e enche até o ânimo

mais melancólico de alegria, de coragem e de esperanças. Vênus raramente concede o dom

da beleza; Mercúrio dá a poucos a eloqüência e Hércules é parco dispensador das riquezas; o

homérico Júpiter na cabeça de muito poucos põe a coroa; Marte freqüentemente recusa aos

dois exércitos o seu auxílio; Apolo costuma dar respostas desagradáveis aos que consultam

o seu oráculo; o filho de Saturno constantemente lança suas setas; Febo às vezes manda a

peste e Netuno mata mais pessoas do que salva. Quanto às horríveis divindades chamadas

Vejoves, como seriam Plutão, a Discórdia, o Castigo, a Febre, e outras tantas que deveriam

antes chamar-se carniceiras que divindades, não merecem em absoluto que eu me dê ao

trabalho de lhes fazer alusão.

Portanto, a verdade é que os outros deuses não são bons e benéficos para todos os

mortais, sendo a Loucura a única deusa que cumula de favores todo o gênero humano. E o

admirável é que a minha generosidade não é manchada por nenhum interesse. Sou a única

que não exige nem votos nem ofertas. Minha divindade não se ofende nem ordena vitimas

de expiação, quando omitida alguma cerimônia do meu culto. Não ponho em desordem o

céu e a terra para vingar-me de alguém que tendo convidado todos os outros deuses, só a

mim tenha esquecido em casa, deixando-me à margem do odor e da fumaça das vítimas

sacrificadas. Para confusão e vergonha dos outros deuses, deverei eu mesma dizer que se

mostram tão incontestáveis e caprichosos que seria um mal absolutamente menor deixá-los

em abandono do que adorá-los. Com eles se deveria fazer o que se costuma praticar com as

pessoas intratáveis e inclinadas ao mal, isto é, cortar com eles toda correspondência, uma

vez que tão caro é o preço de sua amizade.

E quem acreditaria, agora, que essa minha conduta devesse provocar desprezo? Até

agora, é voz geral, ninguém pensou em prestar à Loucura honras divinas; ninguém lhe

consagrou um templo; ninguém a nutriu com vapores das vitimas. Para falar-vos com

franqueza, e creio que já o disse, tamanha ingratidão me causa grande surpresa; mas, pouco

me importa isso e, de acordo com a minha natural facilidade, não levo a coisa a mal. Eu

cheiraria à sabedoria e seria indigna de ser Loucura se reclamasse essas honras divinas. Que

é que se me ofereceria sobre os altares? Um pouco de incenso, um pouco de farinha, um

bode, um porco. Poderia eu permitir que se degolassem esses inocentes animais para

deleitar-me o olfato? Oh! que ridículas bagatelas! Tenho um culto, sim, um culto que

abrange o mundo inteiro e que todos os mortais me prestam, e os próprios teólogos o

consolidam pelo exemplo. Não tenho a bárbara e cruel ambição de Diana, que vê com prazer

as vítimas humanas, mas creio, ao contrário, ser religiosamente servida e venerada quando

me vejo esculpida em cada coração e representada pelos costumes e pela conduta.

A propósito de culto, o que os cristãos prestam aos santos consiste quase todo em

amá-los e imitá-los. Oh! como são numerosos os que, em pleno meio-dia, acendem velas aos

pés da Virgem Mãe de Deus! Mas, não se acha quase nenhum que siga os seus exemplos de

castidade, de modéstia, de zelo pela causa da salvação. No entanto, a imitação das suas

virtudes seria o único culto capaz de assegurar o céu aos devotos.

De resto, porque hei de exigir um templo, se possuo um tão vasto e tão belo, que é a terra

inteira? Não me faltam ministros, nem sacerdotes, salvo nos lugares onde não existe nenhum

homem. Eu não desejaria que me julgásseis tão idiota ao ponto de me preocupar com

estátuas e imagens: tais figuras seriam de resultados bem funestos para o nosso culto, pois

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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que muitas vezes sucede que os devotos estúpidos e materiais tomam a imagem pelo santo,

e, nesse caso, a nossa sorte seria a mesma dos que são suplantados por seus vigários. Todos

os mortais são estátuas a mim erigidas, imagens vivas da minha pessoa, mesmo contra a

própria vontade. Consinto, pois, de bom grado, que os outros deuses tenham templos, um

num canto da terra, outro em outro, e sejam festejados apenas em certos dias do ano.

Adore-se Febo em Rodes, Vênus em Cipre, Juno em Argos, Minerva em Atenas, Júpiter no

Monte Olimpo, Netuno em Taranto, Príapo em Lâmpasco. Quanto à minha condição divina,

será sempre mais gloriosa que a deles, enquanto a terra for o meu templo e todos os mortais

as minhas vítimas.

Poderá, talvez, parecer a alguém que eu esteja pregando impudentes mentiras. Quero,

porém mostrar-vos que tudo isso é a pura verdade. Reflitamos um pouco sobre a vida

humana, e se eu não vos demonstrar que sou a deusa à qual todos os homens são mais gratos

e que eles mais estimam, desde o cetro ao bastão do pastor, acima de todas as coisas, estou

disposta a deixar de ser a Loucura. Não quero, contudo, dar-me ao trabaho de percorrer

todas as condições, pois demasiado longa seria a carreira. Limitar-me-ei, assim, a indicar as

principais, das quais facilmente se poderá inferir o resto.

***

A começar pelo vulgo, ou seja a gentinha, não há dúvida de que todo ele me pertence

pois tão fecundo é em toda sorte de loucuras, tal é o numero das que descobre diariamente,

que mil Demócritos seriam poucos para rir-se bastante, sendo que esses mil Demócritos

ainda precisariam de outro Demócrito para rir-se deles. É incrível dizer-se quanto esses

grosseiros homenzinhos servem diariamente de divertimento, de riso e de chacota aos

deuses. Para vos convencerdes disso, convém dizer-vos uma coisa. Os deuses são sóbrios

até à hora do almoço, empregando essas horas matinais em contenciosas deliberações e em

escutar as preces dos mortais. Terminada a refeição, ao sentirem subir à cabeça os vapores

do néctar sorvido a largos goles, não sabem mais aplicar-se a assuntos de alguma

importância. Que pensais que eles fazem, então, para restaurar o cérebro? Reúnem-se todos

na parte mais elevada do céu e, sentados lá em cima, olham para baixo, divertindo-se à

grande com o espetáculo das várias ações humanas. Deuses imortais! Que bela e ridícula

comédia não resultará de todos os movimentos dos loucos? Bem posso dizê-lo, pois que às

vezes participo desse divertimento das divindades poéticas.

Um se apaixona perdidamente por uma mulherzinha, e, quanto menos correspondido,

tanto mais acesa se torna sua paixão amorosa; outro casa-se com o dote e não com a moça;

outro prostitui a própria mulher vendendo-a ao primeiro que encontra; outro, finalmente,

agitado pelo demônio do ciúme, espia como um Argos a conduta da esposa. E que coisas

estranhas não se dizem e fazem quando morre um parente próximo? Chega-se ao ponto de

pagar a pessoas que finjam chorar e gesticulem como cômicos. Quanto maior é a alegria

experimentada pelo coração, tanto maior é a tristeza que o rosto aparenta, o que deu origem

ao provérbio grego: Chorar na sepultura da madrasta. Este tira o quanto pode, seja de onde

for, e dá tudo de presente à própria barriga, com o risco de morrer de fome depois de

satisfeita a gulodice; aquele põe toda a sua felicidade no ócio e no sono; há alguns que,

preocupados sempre com os negócios alheios, descuram inteiramente dos próprios

interesses; vêem-se os que contraem dívidas para pagar as dos outros e, quando se julgam

ricos, verificam que estão falidos; há os que, vivendo pobremente, não conhecem outra

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felicidade senão a de enriquecer os seus herdeiros; outros, ávidos de riquezas, percorrem os

mares em busca de um ganho incerto, confiando às ondas e aos ventos uma vida que

nenhum ouro do mundo poderia resgatar; outros, sedentos de sangue, preferem tentar a sorte

no meio dos perigos e dos horrores da guerra a passar seus dias, cômoda e tranqüilamente,

no seio da família; enfim, gabam-se de uma gorda herança, quando conseguem apoderar-se

do ânimo de algum velho que está para morrer sem herdeiros, ou quando têm a fortuna de

cativar a graça e o favor de uma rica velhota. Mas, depois, como se riem os deuses, ao

verem esses pescadores de dinheiro nas próprias redes!

Os negociantes, sobretudo, são os mais sórdidos e estúpidos atores da vida humana: não

há coisa mais vil do que a sua profissão, e, como coroamento da obra, exercem-na da

maneira mais porca. São, em geral, perjuros, mentirosos, ladrões, trapaceiros, impostores.

No entanto, devido à sua riqueza, são tidos em grande consideração e chegam a encontrar

frades aduladores, particularmente entre os mendicantes, que lhes fazem humildemente a

corte e publicamente lhes dão o nome de veneráveis, a fim de lhes abiscoitar uma parte dos

mal adquiridos tesouros. Vêem-se, também, alguns sequazes de Pitágoras, que adotando a

opinião desse filósofo, segundo a qual todos os bens são comuns, usurpam concientemente

tudo o que podem, como se conseguissem uma herança legítima. Outros, imaginando-se

ricos, arquitetam belíssimas quimeras de fortuna e vivem felizes nas suas esperanças.

Alguns querem passar por ricos, embora às vezes chegue a lhes faltar o necessário. Um

apressa-se a esbanjar todos os seus bens, enquanto outro está sempre preocupado em

acumular, por meios lícitos, tudo o que pode. Há os que anseiam por obter um cargo, e os

que, acima de tudo, preferem viver ociosamente sentados a um canto do lar. Enfurecem-se

as partes com a demora do processo, parecendo apostar qual das duas tem mais a

possibilidade de enriquecer um juiz venal e um advogado prevaricador, cujo intuito não é

senão prolongar a demanda, que só para eles traz vantagens. Os homens agitados e

sediciosos andam sempre atrás de novidades, enquanto os inquietos meditam grandes

empresas. Alguns empreendem uma romaria a Jerusalém, a Roma, a São Tiago, onde não

têm nada que fazer, enquanto deixam abandonados em casa a mulher e os filhos, que tanto

necessitam de sua presença.

Se, finalmente, pudésseis observar, do mundo da lua, como o fez Menipo, as inúmeras

agitações dos mortais, decerto acreditaríeis estar vendo uma densa nuvem de moscas ou de

pernilongos brigando, insidiando-se, guerreando-se, invejando-se, espoliando-se,

enganando-se, fornicando-se, nascendo, envelhecendo, morrendo. Não podeis sequer

imaginar os horrores e as revoluções com que enche a terra esse animalzinho, tão pequeno e

de tão pouca duração, que vulgarmente se chama homem.

Quantas vezes um rápido turbilhão guerreiro ou pestífero basta para subtrair e dizimar

num momento muitos milhares de homens! Mas, eu própria seria profundamente estúpida e

mereceria que Demócrito se risse de mim a valer, se pretendesse descrever todas as

extravagâncias e loucuras do vulgo. Passemos, pois, a falar dos que conservam, entre os

homens, uma aparência de sabedoria e possuem, como dizem eles esse ramo de ouro de

Virgílio.

Entre esses, ocupam o primeiro posto os gramáticos, ou sejam os pedantes. Essa espécie

de homens seria decerto a mais miserável, a mais aflita, a mais malquista pelos deuses, se eu

não tivesse o cuidado de mitigar os incômodos de tal profissão com gêneros especiais de

loucura. Não estão eles sujeitos apenas às cinco pragas e flagelos do epigrama grego, mas

ainda a seiscentos outros. Sempre famélicos e sujos nas suas escolas, ou melhor, nas suas

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cadeias ou lugares de suplícios e de tormentos, no meio de um rebanho de meninos,

envelhecem de fadiga, tornam-se surdos com o barulho, ficam tísicos com o fedor e a

imundície. No entanto, quem o diria? Graças a mim, os pedantes se julgam os primeiros

homens do mundo. Não podeis imaginar o prazer que experimentam fazendo tremer os seus

tímidos súditos com um ar ameaçador e uma voz altissonante. Armados de chicote, de vara,

de correia, não fazem senão decidir o castigo, sendo ao mesmo tempo partes, juizes e

carrascos. Parecem-se mesmo com o burro da fábula, o qual, por ter às costas uma pele de

leão, julgava-se tão valoroso como este. A sua imundície afigura-se-lhes asseio; o fedor

serve-lhes de perfume; e, acreditando-se reis em meio à sua miserabilíssima escravidão, não

desejariam trocar as próprias tiranias pelas de Falaris ou de Dionísio (79). O que, sobretudo,

contribui para torná-los felizes é a idéia que fazem da própria erudição. Embora não façam

senão meter palavras insignificantes e insulsas frivolidades na cabeça das crianças confiadas

aos seus cuidados — santo Deus! — consideram um nada diante deles os Palêmones e os

Donatos (80). Nem mesmo sei com que meios conseguem lisonjear as estúpidas mães e os

idiotas pais dos alunos, ao ponto de serem realmente considerados como os ilustres homens

que eles próprios se inculcam. Acrescentemos a isso outro gênero de prazer por eles

experimentado toda vez que conseguem descobrir, num velho papelucho todo sujo e comido

de traças, o nome da mãe de Anquises ou alguma palavra geralmente desconhecida, —

bubsequam, por exemplo, bovinatorem, manticulatorem — ou quando têm a sorte de

encontrar um pedaço de lápide antiga, na qual se encontrem caracteres truncados. Ah! por

Júpiter imortal! que tripúdio, que triunfo, que aplausos! Não foi certamente maior a alegria

de Cipião ao subjugar a África, nem a de Dario ao conquistar a Babilônia. É indizível a

alegria experimentada por esses pedantes, quando, ao lerem de porta em porta os seus versos

gelados e insulsos, encontram por acaso algum admirador. Logo se julgam novos Virgílios e

não sei se se gabam de que a alma de Marão lhe tenha passado pelo cérebro. Oh! como é

bonito vê-los trocar, entre si, elogio por elogio, admiração por admiração, lisonja por

lisonja! Se acontece que um homem da arte erra em alguma sintaxe e outro mais penetrante

do que ele o percebe — santo Deus! — que cenas, discussões, que injúrias, que invectivas!

A propósito de gramática, quero contar-vos uma bonita história: a história é verídica e, se

eu estiver mentindo, quero ter todos os gramáticos contra mim (vede só que terrível

declaração!). Conheço um homem de sessenta anos que conhece perfeitamente o grego, o

latim, as matemáticas, a filosofia, a medicina. Pois seríeis capazes de advinhar com que se

preocupa esse sábio universal, há uns vinte anos? Tendo abandonado todos os estudos,

dedica-se exclusivamente à gramática, pondo o cérebro num tormento contínuo. Só ama a

vida para ter tempo de dirimir algumas dificuldades dessa importante arte, e morreria

satisfeito se descobrisse um método seguro de distinguir bem as oito partes do discurso,

coisa que, a seu ver, não conseguiram com perfeição nem os gregos nem os latinos. Bem

vedes que é uma questão de suma importância para o gênero humano. Com efeito, não é

mesmo uma miséria estar sempre correndo o risco de tomar uma conjunção por advérbio?

Um tal equívoco mereceria uma guerra cruenta.

Quero, agora, observar-vos que há mais gramáticas do que gramáticos: só Aldo, um dos

meus favoritos nesse gênero, publicou cinco. Pois bem: o meu cabeçudo estuda-as todas,

mesmo quando escritas num estilo bárbaro e insuportável; analisa-as todas, da primeira até à

última, causando profunda inveja aos que escrevem tão mal sobre o assunto e torturado

sempre pela dúvida de que possam roubar-lhe a glória e o fruto de suas longas fadigas. Que

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vos parece esse ridículo sábio? Devemos chamá-lo de louco ou delirante? Chamai-o do que

quiserdes, desde que concordeis que é graças a mim que esse animal sobrecarregado de

misérias anda sempre tão satisfeito, tão orgulhoso de si mesmo e da sua sorte, a qual ele não

trocaria pela dos mais ricos e poderosos reis da terra.

Já os poetas não me devem tanto, não porque não sejam igualmente loucos, mas porque

têm o direito de ser membros ex professo do meu partido. Há muito tempo que se diz que

“os poetas e os pintores formam uma nação livre”. Os poetas fazem consistir toda a sua arte

em impingir lorotas e fábulas ridículas para deleitar os ouvidos dos tolos. Isso não impede

que, apoiados nessas ridicularias, se gabem de obter uma divina imortalidade e ainda a

prometam aos outros. O amor próprio e a adulação são os seus conselheiros indivisíveis, e

eu não tenho adoradores mais fiéis nem mais constantes do que eles.

Os oradores também pertencem à minha seita. Devo, porém confessar-vos que não são os

meus súditos mais fiéis, pois se assemelham, até certo ponto, aos filósofos. Apesar disso,

além de serem igualmente cheios de amor próprio e de vaidade, não deixam de ser fecundos

em frivolidades, sendo que os mais célebres chegaram a escrever a sério extensos tratados

sobre a maneira de pilheriar. O autor, pouco importa o nome, que dedicou a Herênio a arte

de dizer, inclui a loucura entre várias espécies de facécias. O próprio Quintiliano, esse

príncipe dos retóricos, compôs sobre o riso um capítulo mais volumoso do que a Ilíada, de

Homero. Segundo esse escritores, a loucura tem uma força maior do que a razão, porque,

muitas vezes, aquilo que não se pode conseguir com nenhum argumento se obtém com uma

chacota. Finalmente, eu não desejaria ser a Loucura, se a arte de provocar o riso com

gostosas piadas não fosse exclusivamente minha.

Outra espécie de pessoas mais ou menos da mesma laia é constituída pelos que

ambicionam uma fama imortal publicando livros. Todos esses escritores têm parentesco

comigo, sobretudo os que só publicam coisas insípidas. Quanto aos autores que só escrevem

para poucos, isto é, para pessoas de fino gosto e perspicazes, que não recusam o juízo de

Pérsio e de Lélio, confesso-vos ingenuamente que merecem mais compaixão do que inveja.

Imersos numa contínua meditação, pensam, tornam a pensar, acrescentam, emendam,

cortam, tornam a pôr, burilam, refundem, fazem, riscam, consultam, e, nesse trabalho, levam

às vezes nove e dez anos, de acordo com o preceito de Horácio, antes do manuscrito ser

impresso. Oh! como me causam piedade tais escritores! Nunca estando satisfeitos com o seu

trabalho, que recompensa podem esperar? Ai de mim! um pouco de incenso, um reduzido

número de leitores, um louvor incerto. Mas, respondei-me francamente: compensarão essas

tênues bagatelas o sacrifício do sono, mais doce do que tudo, da tranqüilidade, dos prazeres,

numa palavra, de todas as doçuras da vida? É preciso acrescentar ainda que esses

sonhadores que andam em busca de imortalidade arruinam a saúde, tornam-se pálidos,

magros, ramelentos e, às vezes, até cegos. São sempre miseráveis, invejados, não têm prazer

algum e, como resultado, só conseguem apressar a velhice e a própria morte. Malgrado tudo

isso, o nosso sábio considera suficiente, como remédio a tantos males, a aprovação de um ou

dois ramelentos da sua espécie.

Mas, falemos, agora, de um autor que escreva sob os meus auspícios e do qual seja eu a

Minerva. Não conhecendo a meditação, nem a tortura do cérebro, nem as vigílias, escreve

tudo o que sonha, tudo o que lhe vem à cabeça. Tudo lhe parece surpreendente e divino. A

pena mal pode acompanhar a velocidade da imaginação, e dos pensamentos. Não

dispendendo mais do que um pouco de papel, escreve um mundo de disparates e de

impertinências, convencido de que, publicando bobagens, grangeará mais facilmente os

Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam

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aplausos da maioria, isto é, de todos os tolos e de todos os ignorantes. E quem poderá negar

que esse homem seja verdadeiramente feliz? Responder-me-eis que, assim parecendo, é

preciso renunciar completamente à esperança de ser aplaudido pelos verdadeiros doutos!

Bolas! que grande sacrifício! Raramente sucede que esses críticos sábios e requintados dêem

importância ao meu autor. Mas, mesmo admitindo que todos eles o lessem, seria igualmente

dispensável o seu sufrágio para secundar o dos tolos e ignorantes, que representam a opinião

de quase todo o gênero humano. Poreis em dúvida essa verdade?

Compreendem-na ainda melhor os plagiários (81) que com suas facilidades se apropriam

das obras alheias, gozando da glória que aqueles dos quais eles a roubaram conseguiram

com imensa dificuldade. Não ignoram esses impudentes que, mais dia menos dia, será

descoberto o furto, mas, em compensação, esperam aproveitar-se dele por algum tempo. É

um prazer doido ver como se pavoneiam quando elogiados; quando, ao passar por um lugar,

são apontados e ouvem dizer: — Olhe, aquele ali é um homem verdadeiramente admirável;

quando vêem seus livros bem juntinhos e bem expostos na loja de algum livreiro. Seus

nomes são lidos no alto de cada página, e são no mínimo três todos estrangeiros, parecendo

caracteres mágicos. Esses nomes — por Júpiter imortal! — não têm significação alguma,

mas não deixam, em substância, de ser verdadeiros nomes! Considerando-se, além disso

toda a vastidão da terra, pode dizer-se que pouquíssimos são que os louvam, não sendo

muito diverso do dos ignorantes o gosto dos sábios. Costuma também acontecer,

freqüentemente, que esse nomes são inventados e tomados de empréstímo aos antigos. Há,

por exemplo, os que gostam de se chamar Telêmaco, outros Esteleno, outro Laerte, outros

Polícrates, outro Trasímaco, etc. Os nossos plagiários sentem-se orgulhosos de fazer reviver

esses nomes mortos e adotá-los, mas fariam bem, igualmente, se se chamassem camaleões,

abóboras, etc., e, segundo o uso de alguns filósofos, dessem aos seus livros os títulos de A

ou B. É engraçadíssimo ver essas azêmolas incensarem-se entre si nas letras, nas poesias e

nos elogios. — Venceste Alceu (82) — diz um. — E vós, Calímaco (83) — responde o

outro. — Eclipsastes o orador romano. — E vós superastes o divino Platão. — Às vezes,

esses generosos campeões injuriam-se reciprocamente, a fim de aumentarem pela emulação

a própria fama. Enquanto isso, o público fica suspenso, sem saber que partido tomar durante

a polêmica. Mas, em geral, acontece que os bravos antagonistas fazem prodígios, merecendo

ambos os louros da vitória e as honras do triunfo. No entanto, vós, sábios, vos rides dessas

belas coisinhas e as considerais como verdadeiras loucuras. E quem poderá dizer que não

tendes razão? Não podeis mesmo negar que somente eu faço a felicidade dos maus

escritores e dos plagiários, que decerto não trocariam os seus triunfos pelos dos Alexandres

ou dos Cipiões. Mas, acreditarão esses doutos, que eu vejo rir tão gostosamente, zombando

da loucura alheia, que não me devem também alguma obrigação? Se assim é, fiquem certos

de que ou são cegos ou miseravelmente ingratos. Passemos, pois, em revista as profissões

dos doutos.

Pretendem os advogados levar a palma sobre todos os eruditos e fazem um grande

conceito da sua arte. Ora, para vos ser franca, a sua profissão é, em última análise, um

verdadeiro trabalho de Sísifo (84). Com efeito, eles fazem uma porção de leis que não

chegam a conclusão alguma. Que são o digesto, as pandectas, o código? Um amontoado de

comentários, de glosas, de citações. Com toda essa mixórdia, fazem crer ao vulgo que, de

todas as ciências, a sua é a que requer o mais sublime o laborioso engenho. E, como sempre

se acha mais belo o que é mais difícil, resulta que os tolos têm em alto conceito essa ciência.

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Podemos unir a esses, com toda a honra, os dialéticos e os sofistas, que fazem mais

barulho do que todo o bronze dodôneo (85), sendo que cada um deles poderia superar em

tagarelice mais de vinte mulheres, mesmo dentre as que costumam distinguir-se pelo

falatório. Não obstante, ainda seria de desejar que não tivessem outro defeito a não ser o de

falar demais; mas, por desgraça nossa, são sempre discussões de lana-caprina, e, à força de

discutir para sustentar a verdade (como pretendem eles), perdem de vista, o mais das vezes,

a própria verdade. Esses eternos discutidores estão sempre contentes consigo mesmos e,

armados de três ou quatro silogismos, sempre dispostos a desafiar para a controvérsia quem

quer que seja e sobre qualquer argumento. A obstinação serve-lhes de espada, invencível,

pois não cedem nunca, ainda mesmo que tivessem de medir-se com um Estentor (86).

Seguem-se-lhes, imediatamente, os veneráveis filósofos, respeitáveis pela barba e pela

túnica. Gabam-se de ser os únicos sábios e acreditam que todos os outros homens não

passem de sombras móveis. Rasguemos esse véu de orgulho e de presunção, e vejamos o

que são os filósofos. Não passam, também, de ridículos loucos: quem poderá conter o riso

ao ouvi-los sustentar seriamente a infinidade dos mundos? O sol, a lua, as estrelas, todos

esses globos são por eles conhecidos tão bem como se os tivessem medido palmo a palmo

ou com um fio. Sem duvidar de nada, eles vos dizem a causa do trovão, dos ventos, dos

eclipses e de todos os outros mistérios físicos. Na verdade, ao ouvi-los falar com tanta

convicção, qualquer os julgaria membros do grande conselho dos deuses ou testemunhas

oculares da natureza quando tudo saiu do nada. Mas, a despeito disso, a natureza, essa hábil

produtora do universo, parece zombar das suas conjecturas. Basta, com efeito, refletir-se

sobre a estranha diversidade dos seus sistemas, para se dever confessar que eles não têm

nenhuma idéia segura, pois que, enquanto se gabam de saber tudo, não estão de acordo em

nada. Os filósofos nem ao menos se conhecem, porquanto, ao tentarem elevar-se às mais

sublimes especulações, caem num buraco com que não contavam e quebram a cabeça contra

uma pedra. Estragando a vista na contemplação meticulosa da natureza e com o espírito

sempre distante, vangloriam-se de distinguir as idéias, os universais, as formas separadas, as

matérias primas, os quid, os ecce, em suma, todos os objetos que, de tão pequenos, só

poderiam distinguir-se, se não me engano, com olhos de lince.

Em nenhuma outra ciência se despreza tanto o vulgo profano como nas matemáticas, que

consistem em triângulos, quadrados, círculos e outras figuras geométricas semelhantes, que

se sobrepõem uma às outras, confundindo tudo como um labirinto. Por fim, atordoam os

idiotas com diversas letras dispostas como um exército em ordem de batalha e subdivididas

em várias companhias.

Mas, não esqueçamos os astrólogos, aos quais o céu serve de biblioteca e os astros

servem de livros. Graças a esse estudo, compreendem tudo muito bem e revelam o futuro,

predizendo maiores prodígios do que os magos. E o mais bonito é que ainda têm a fortuna

de encontrar crédulos.

Talvez fosse melhor não falar dos teólogos, tão delicada é essa matéria e tão grande é o

perigo de tocar em semelhante corda. Esses intérpretes das coisas divinas estão sempre

prontos a acender-se como a pólvora, têm um olhar terrivelmente severo e, numa palavra,

são inimigos muito perigosos. Se acaso incorreis na sua indignação, lançam-se contra vós

como ursos furibundos, mordem-vos e não vos largam senão depois de vos terem obrigado a

fazer a vossa palinódia com uma série infinita de conclusões; mas, se recusais retratar-vos,

condenam-vos logo como hereges. E, mostrando essa cólera, chamando de herege, de ateu,

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conseguem fazer tremer os que não concordam com eles. Embora não haja ninguém que,

tanto como eles, dissimule os meus favores, não é menos verdadeiro que me devem muito.

Eis porque impus ao meu amor próprio favorecê-los mais do que a todos os outros mortais, e

de fato são eles os meus maiores prediletos. É por isso que, do alto da sua elevação e à

maneira de tantos anjos que habitam o terceiro céu, consideram o resto dos homens como

outros tantos animais bajuladores e têm piedade deles. Cercados de uma série de magistrais

definições, conclusões, corolários, proposições explícitas, em suma, de tudo o que compõe a

malícia da escola sacra, usam de tantos subterfúgios que o próprio Vulcano não conseguiria

embrulhá-los, mesmo empregando a rede de que se serve para mostrar aos deuses os seus

cornos nascentes. Não há nó que esses senhores não saibam desfazer de um golpe com a

mais que tenédia bipene do distinguo: bipene formada de todos os novos vocábulos sonoros

e empolados que nasceram no seio da sutileza escolástica.

Observemos os nossos oráculos em meio às suas mais sublimes funções; observemo-los,

repito, a interpretar a seu talante os ocultos mistérios da salvação e por que motivo foi criado

e ordenado o mundo. Trata-se de saber por que canais passou à posteridade a mancha do

pecado original? Trata-se da Encarnação e da Eucaristia? Ah! tais mistérios são muito

batidos e dignos apenas de teólogos noviços! Eis as questões dignas dos grandes mestres,

dos mestres iluminados, como dizem eles, os quais, ao tratar desses argumentos, se agitam e

tomam fôlego: — Houve algum instante na geração divina? — Jesus Cristo tem muitas

filiações? — É possível esta proposição: — Deus padre odeia o seu filho? — Ter-se-ia Deus

unido pessoalmente a uma mulher, ao diabo, a um burro, a uma abóbora, a uma pedra? —

No caso de Deus se ter unido à natureza de uma abóbora, como fez com a natureza humana,

de que maneira essa beata e divina abóbora teria pregado, feito milagres e sido crucificada?

— Como teria ela consagrado São Pedro, se este tivesse dito missa quando o corpo de Jesus

Cristo estava pregado na cruz? — Poder-se-ia dizer, então, que o Salvador era um

verdadeiro homem? — Será permitido comer e beber depois da ressurreição? (Essa dúvida

existe no íntimo dos nossos reverendos, que muito satisfeitos ficariam com uma resposta a

essa pergunta).

Mas, não consiste somente nisso o armazém teológico; há ainda inúmeras outras

argúcias, não menos frívolas e sutis do que as supracitadas. Tais são, por exemplo, o instante

da geração divina, as noções, as relações, as formalidades, os quid, os ecce, e tantas outras

quimeras de natureza semelhante. Duvido que alguém seja capaz de descobri-las, a não ser

que tenha uma vista tão penetrante que lhe permita distinguir, através de densas nuvens,

objetos inexistentes.

Acrescentemos a tudo isso a sua moral estranha e contraditória, diante da qual são um

nada os paradoxos estóicos. Sustentam, por exemplo, que concertar o sapato de um pobre

em dia de domingo é um pecado maior do que estrangular mil pessoas; que seria preferível

deixar cair o mundo no nada de onde veio a proferir a menor mentira, etc. Além disso,

contribuem para sutilizar ainda mais essas sutilíssimas sutilezas todos os diversos

subterfúgios dos escolásticos; e assim é que seria menos difícil sair de um labirinto do que

desembaraçar-se do embrulho dos realistas, dos noministas, dos tomistas, dos albertistas,

dos occanistas, dos scotistas, — ai de mim! já me falta a respiração, e, contudo, só citei as

principais seitas da escola, não falando de muitíssimas outras. Em todas essas facções, são

tantas as erudições e tantas as dificuldades, que, se os próprios apóstolos descessem à terra e

fossem obrigados a discutir com os teólogos modernos sobre essas sublimes matérias, sou

de opinião que teriam necessidade de um novo espírito totalmente diverso daquele que, em

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seu tempo, lhes dava a possibilidade de falar. São Paulo tinha fé, mas não deu uma definição

da fé bastante magistral quando disse: A fé é a substância da coisa esperada e o argumento

da que não aparece. No mesmo apóstolo ardia o fogo da caridade, mas ele não se mostrou

bom lógico ao omitir a definição e a divisão dessa virtude no capítulo XIII da sua primeira

epístola aos coríntios. Os apóstolos consagravam com devoção e com piedade o sacramento

da Eucaristia: se tivessem, porém, de explicar como Deus pode passar de um lugar para

outro por meio da consagração; como se dá a transubstanciação; como um mesmo corpo

pode encontrar-se ao mesmo tempo em vários lugares; que diferença existe entre o corpo de

Jesus Cristo no céu, na cruz e na Eucaristia; em que momento se verifica a

transubstanciacão, de vez que a fórmula sacramental, como dizem eles, sendo composta de

sílabas e de palavras, só pode ser pronunciada sucessivamente, — creio eu que, se esses

primeiros teólogos do cristianismo tivessem de dirimir tais dificuldades, teriam necessidade

da agudeza dos scotistas, que são verdadeiros Mercúrios na arte de argumentar e definir.

Tiveram os apóstolos, é verdade, a sorte de conviver com a mãe de Jesus, mas nenhum deles

a conheceu tão bem como os nossos teólogos, que provaram geometricamente ter sido a

Virgem fecunda preservada da