Textos de Apoio Terceira Provocação

 

 

Rob Gonsalves (Toronto, 1959) é um artista canadense, mestre da arte fantástica, suas obras criam ilusões e interagem entre o mundo real e o imaginário fazendo com que o espectador reflita sobre o que está vendo e tente desvendar os mistérios destas obras. A arte de Rob Gonsalves. Desenhos incrivelmente detalhados de Rob Gonsalves, cada peça guarda inúmeras surpresas.

Para entender e vizualizar os mistérios de suas obras é preciso observar, entrar em seu mundo encantado e magnífico. Parar, observar e se questionar sobre o que realmente está vendo. E isto não é nada difícil, e é até muito prazeroso!

Suas obras são comparadas com as de Maurits Cornelis Escher

Suas ilusões fazem ligações entre mundos distintos, unem o real e o fantástico. Rob Gonsalves não nos responde qual é de fato a realidade, isto é função de quem se dispõe a explorar as suas telas.

A mensagem principal de suas obras é que não podemos, e nem devemos acreditar do que enxergamos logo no primeiro momento. Analisar e se deixar surpreender. É o tipo de pintura onde você consegue captar realidades paralelas distintas em um mesmo quadro.

Vale a pena parar um instante e observar as suas obras, com cuidado e atenção e livre de conceitos previamente estabelecidos, com olhar de uma criança.

Assim é o mundo da arte, sem fronteiras, sem barreiras, onde tudo é possível e tudo está em constante transormação.

Rob Gonsalves ainda produz diversas telas, está estabelecido no mercado internacional, e pode ser comparado também a Rene Magritte e suas viagens fantásticas!

Links

 

 

 

Manifesto do Surrealismo

 

(André Breton - 1924)

 

  Se preferir, faça o download do manifesto do surrealismo para o seu computador através deste link

 

            Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão ( o que ele chama decisão! ) . Bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu; sua riqueza ou sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recém-nascido, e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito que lhe é indiferente. SE conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se de sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha sido com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido lhe dá a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo; ele se agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade momentânea, extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai dormir.

 

            Mas é verdade que não se pode ir tão longe, não é uma questão de distância apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte da posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só se lhe permite atuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de assumir por muito tempo esse papel inferior, e quando chega ao vigésimo ano prefere, em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.

 

            Procure ele mais tarde, daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a pouco lhe faltam razões para viver,  incapaz como ficou de enfrentar uma situação excepcional, como seja o amor, ele muito dificilmente o conseguirá. É que ele doravante pertence, de corpo e alma, a uma necessidade prática imperativa, que não permite ser desconsiderada. Faltará amplidão a seus gostos, envergadura a suas idéias. De tudo que lhe acontece e pode lhe acontecer, ele só vai reter o que for ligação deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não toma parte, eventos perdidos. Que digo, ele fará sua avaliação em relação a um desses acontecimentos, menos aflitivo que os outros, em suas conseqüências. Ele não descobrirá aí, sob pretexto algum, sua salvação.

 

            Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares.

 

            Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar ( como se fosse possível enganar-se mais ainda ). Onde começa ela a ficar nociva, e onde se detém a confiança do espírito? Para o espírito, a possibilidade de errar não é, antes, a contingência do bem?

 

            Fica a loucura. “a loucura que é encarcerada”, como já se disse bem. Essa ou a outra.. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis, e que, não houvesse estes atos, sua liberdade ( o que se vê de sua liberdade ) não poderia ser ameaçada. Que eles sejam, numa certa medida, vítimas de sua imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de certas regras, fora das quais o gênero se sente visado, o que cada um é pago para saber. Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhe fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto em sua imaginação e apreciam seu delírio o bastante para  suportar que só para eles seja válido. E, de fato, alucinações, ilusões, etc. são fonte de gozo nada desprezível. A mais bem ordenada sensualidade encontra aí sua parte, e eu sei que passaria muitas noites a amansar essa mão bonita nas últimas páginas do livro. A Inteligência de Taine, se dedica a singulares malefícios. As confidências dos loucos, passaria minha vida a provoca-las. São pessoas de escrupulosa honestidade, cuja inocência só tem a minha como igual. Foi preciso Colombo partir com loucos para descobrir a América. E vejam como essa loucura cresceu, e durou.

 

          

 

            Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.

 

            O processo da atitude realista deve ser instruído, após o processo da atitude materialista. Esta, aliás, mais poética que a precedente, implica da parte do homem um orgulho sem dúvida monstruoso, mas não uma nova e mais completa deposição. Convém nela ver, antes de tudo, uma feliz reação contra algumas tendências derrisórias do espiritualismo. Enfim, ela não é incompatível com uma certa elevação de pensamento.

 

            Ao contrário, a atitude realista, inspirada no positivismo, de São Tomás a Anatole France, parece-me hostil a todo impulso de liberação intelectual e moral. Tenho-lhe horror, por ser feita de mediocridade, ódio e insípida presunção. É ela a geradora hoje em dia desses livros ridículos, dessas peças insultuosas. Fortifica-se incessantemente nos jornais , e põe em xeque a ciência, a arte, ao aplicar-se em bajular a opinião nos seus critérios mais baixos; a clareza vizinha da tolice, a vida dos cães. Ressente-se com isso a atividade dos melhores espíritos; a lei do menor esforço afinal se impõe a eles como aos outros. Conseqüência divertida deste estado de coisas, em literatura, é a abundância dos romances. Cada um contribui com sua pequena “observação”. Por necessidade de depuração o sr. Paul Valéry propunha recentemente fazer antologia do maior número possível de começos de romances cuja insensatez ele muito esperava. Os mais famosos autores seriam chamados a participar. Tal idéia dignificava também Paul Valéry, que, não há muito, a propósito dos romances, me garantia que, ele, sempre se recusaria a escrever: “A marquesa saiu às cinco horas.” Mas cumpriu ele a sua palavra?

 

            Se o escrito de informação pura e simples de que a frase precipitada é exemplo, tem emprego corrente nos romances certamente é por não ir longe a ambição dos autores. O caráter circunstancial, inutilmente particular, de cada notação sua, me faz pensar que estão se divertindo, eles, à minha custa. Não me poupam nenhuma hesitação do personagem: será louro, como se chama, vamos sair juntos no verão? Outras tantas perguntas resolvidas decisivamente, ao acaso; só me restou o poder discricionário de fechar o livro, o que não deixo de fazer, ainda perto da primeira página. E as descrições! Nada se compara ao seu vazio; são superposições de imagens de catálogo, o autor as toma cada vez mais sem cerimônia, aproveita para me empurrar seus cartões postais, procura fazer-me concordar com os lugares-comuns:

 

 

 

 

 

 

 

            A salinha onde foi introduzido o moço era forrada de papel amarelo: havia gerânios e cortinas de musselina nas janelas; o sol poente jogava sobre tudo isso uma luz clara... O quarto não continha nada de particular. Os móveis, de madeira amarela, eram todos velhos. Um sofá com grande encosto inclinado, uma mesa oval diante do sofá, um toucador, com espelho, entre as janelas, cadeiras encostadas às paredes, duas ou três gravuras sem valor, representando moças alemãs com pássaros nas mãos – eis a que se reduzia a mobília. ( Dostoievski, Crime e Castigo )

 

 

 

            Que o espírito se proponha, mesmo por pouco tempo, tais motivos, não tenho disposição para admiti-lo. Podem sustentar que este desenho clássico está no lugar certo e que neste passo do livro o autor tem seus motivos para me esmagar. Perde seu tempo, pois não entro no seu quarto. A preguiça, a fadiga dos outros não me prendem. Tenho da continuidade da vida uma noção instável demais para igualar aos melhores os meus momentos de depressão, de fraqueza. Quero que se calem, quando param de ressentir. E entendam bem que não incrimino a falta de originalidade pela falta de originalidade. Digo apenas que não faço caso dos momentos nulos de minha vida, que da parte de qualquer homem pode ser indigno de cristalizar aqueles que lhe parecem tais. Esta descrição de quarto, e muitas outras, permitam-me, digo: passo.

 

            Ora, cheguei à psicologia, e com este assunto nem penso em brincar.

 

            O autor pega-se com um personagem, e escolhido este, faz seu herói peregrinar pelo mundo. Haja o que houver, este herói, cujas ações são admiravelmente previstas, tem a incumbência de não desmanchar, parecendo porém sempre desmanchar, os cálculos de que é objeto. As vagas da vida podem parecer arrebata-lo, roda-lo, afunda-lo, ele sempre dependerá deste tipo humano  formado. Simples partida de xadrez, da qual me desinteresso mesmo, sendo o homem, qualquer um, um medíocre adversário para mim. Não posso é suportar estas reles discussões de tal ou qual lance, desde que não se trata nem de ganhar nem de perder. E se o jogo não vale um caracol, se a razão objetiva prejudica terrivelmente, como é o caso, quem nela confia, não convirá fazer abstração destas categorias? “É tão ampla a diversidade, que todos os tons de voz, todos os passos, tosses assôos, espirros...” Se um cacho de uvas não tem duas sementes iguais, como querem que lhes descreva este bago pelo outro, por todos os outros, que dele faça um bago bom para comer? Esta intratável mania de reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável, embala os cérebros. O desejo de análise prevalece sobre os sentimentos. Disso resultam dilatadas exposições cuja força persuasiva reside na sua própria singularidade, e que iludem o leitor pelo recurso a um vocabulário abstrato, bastante mal definido, aliás. Se as idéias gerais que a filosofia se propõe até aqui debater, marcassem por aí sua incursão definitiva num domínio mais extenso, seria eu o primeiro a me alegrar. Mas por enquanto é só afetação; até aqui os ditos espirituosos e outras boas maneiras nos encobrem à porfia o verdadeiro pensamento que se busca ele próprio, em vez de se ocupar em obter sucessos. Parece-me que todo ato traz em si mesmo sua justificação, ao menos para quem foi capaz de comete-lo, que ele é dotado de um poder radiante que a mínima glosa, por natureza, enfraquece. Devido a esta última ele deixa mesmo, de certo modo, de se produzir. Não ganha nada com esta distinção. Os heróis de Stendhal caem aos golpes deste autor, apreciações mais ou menos felizes, que nada acrescentam à sua glória. Onde os encontraremos de fato, é onde Stendhal os perdeu.

 

 

 

            Ainda vivemos sob o império da lógica, eis aí, bem entendido, onde eu queria chegar. Mas os procedimentos lógicos, em nossos dias, só se aplicam à resolução de problemas secundários. O racionalismo absoluto que continua em moda não permite considerar senão fatos dependendo estreitamente de nossa experiência. Os fins lógicos, ao contrário, nos escapam. Inútil acrescentar que à própria experiência foram impostos limites. Ela circula num gradeado de onde é cada vez mais difícil faze-la sair. Ela se apóia, também ela, na utilidade imediata, e é guardada pelo bom senso. A pretexto de civilização e de progresso conseguiu-se banir do espírito tudo que se pode tachar, com ou sem razão, de superstição, de quimera; a proscrever todo modo de busca da verdade, não conforme ao uso comum. Ao que parece, foi um puro acaso que recentemente trouxe à luz uma parte do mundo intelectual, a meu ver, a mais importante, e da qual se afetava não querer saber. Agradeça-se a isso às descobertas de Freud. Com a fé nestas descobertas desenha-se afinal uma corrente de opinião, graças à qual o explorador humano poderá levar mais longe suas investigações, pois que autorizado a não ter só em conta as realidades sumárias. Talvez esteja a imaginação a ponto de retomar seus direitos. Se as profundezas de nosso espírito escondem estranhas forças capazes de aumentar as da superfície, ou contra elas lutar vitoriosamente, há todo interesse em captá-las, capta-las primeiro, para submete-las depois, se for o caso, ao controle de nossa razão. Os próprios analistas só têm a ganhar com isso. Mas é importante observar que nenhum meio está a priori designado para conduzir este empreendimento, que até segunda ordem pode ser também considerado como sendo da alçada dos poetas, tanto como dos sábios, e o seu sucesso não depende das vias mais ou menos caprichosas a serem seguidas.

 

 

 

            Com justa razão Freud dirigiu sua crítica para o sonho. É inadmissível, com efeito, que esta parte considerável da atividade psíquica ( pois que, ao menos do nascimento à morte do homem, o pensamento não tem solução de continuidade, a soma dos momentos de sonho, do ponto de vista do tempo a considerar só o sonho puro, o do sono, não é inferior à soma dos momentos de realidade, digamos apenas: dos momentos de vigília ) não tenha recebido a atenção devida. A extrema diferença de atenção, de gravidade, que o observador comum confere aos acontecimentos da vigília e aos do sono, é caso que sempre me espantou. É que o homem, quando cessa de dormir, é logo o joguete de sua memória, a qual, no estado normal, deleita-se em lhe retraçar fracamente as circunstâncias do sonho, em privar este de toda conseqüência atual,  e em despedir o único  determinante do ponto onde ele julga tê-lo deixado, poucas horas antes: esta esperança firme, este desassossego. Ele tem a ilusão de continuar algo que vale a pena. O sonho fica assim reduzido a um parêntese, como a noite. E como a noite, geralmente também não traz bom conselho. Este singular estado de coisas parece-me conduzir a algumas reflexões:

 

            1.º nos limites onde exerce sua ação ( supõe-se que a exerce ) o sonho, ao que tudo indica, é contínuo, e possui traços de organização. A memória arroga-se o direito de nele fazer cortes, de não levar em conta as transições, e de nos apresentar antes uma série de sonhos do o sonho. Assim também, a cada instante só temos das realidades uma figuração distinta, cuja coordenação é questão de vontade. Importa notar que nada nos permite induzir a uma maior dissipação dos elementos constitutivos do sonho. Lamento falar disso segundo uma fórmula que exclui o sonho, em princípio. Quando virão os lógicos, os filósofos adormecidos? Eu gostaria de dormir, para poder me entregar aos dormidores, como me entrego aos que lêem, olhos bem abertos; para cessar de fazer prevalecer nesta matéria o ritmo consciente de meu pensamento. Meu sonho desta última noite talvez prossiga o da noite precedente, e seja prosseguido na próxima noite, com louvável rigor. É bem possível, como se diz. E como não está de modo nenhum provado que, fazendo isso, a “realidade” que me ocupa subsista no estado de sonho, que Lea não afunde no imemorial, porque não haveria eu de conceder ao sonho o que recuso por vezes à realidade, seja este valor de certeza em si mesma, que, em seu tempo, não está exposta a meu desmentido? Por que não haveria eu de esperar do indício do sonho mais do que espero de um grau de consciência cada dia mais elevado? Não se poderia aplicar o sonho, ele também, resolução de questões fundamentais da vida? Serão estas perguntas as mesmas num caso como no outro, e no sonho elas já estão? O sonho terá menos peso de sanções que o resto? Envelheço, e mais que esta realidade à qual penso me adstringir, é talvez o sonho, a indiferença que lhe dedico, que me faz envelhecer;

 

 

 

2.º. retomo o estado de vigília. Sou obrigado a considera-lo um fenômeno de interferência. Não apenas o espírito manifesta, nestas condições, uma estranha tendência à desorientação (é a história dos lapsos e enganos de toda espécie cujo segredo começa a nos ser entregue) mas ainda não parece que, em seu funcionamento normal, ele obedeça a outra coisa senão a sugestões que lhe vêm desta noite profunda das quais eu recomendo. Por mais bem condicionado que ele esteja, seu equilíbrio é relativo. Mal ousa expressar-se, e se o faz, é para limitar à constatação de que tal idéia, tal mulher, lhe faz impressão. Que impressão, seria incapaz de dize-lo, dando assim a medida de seu subjetivismo, e nada mais. Esta idéia, esta mulher, o perturba, predispõe-no a menos severidade. Ela tem a ação de isola-lo um segundo de seu solvente e de deposita-lo no céu, como belo precipitado que ele pode ser, que ele é. Em desespero de causa, invoca ele o acaso, divindade mais obscura que as outras, à qual atribui todos os seus desvarios. Que me diz que o ângulo sob o qual se apresenta esta idéia que o afeta, o que ele ama no olho desta mulher não é precisamente o que o liga a seu sonho, o prende a dados que ele perdeu por sua culpa? E se isso fosse de outro modo, do que não seria ele capaz, talvez? Eu gostaria de dar-lhe a chave deste corredor;

 

 

 

3.º. o espírito do homem que sonha se satisfaz plenamente com o que lhe acontece. A angustiante questão da possibilidade não mais está presente. Mata, vi mais depressa, ama tanto quanto quiseres. E se morres, não tens certeza de despertares entre os mortos? Deixa-te levar, os acontecimentos não permitem que os retardes. Não tens nome. É inapreciável a facilidade de tudo.

 

            Que razão, eu te pergunto, razão tão maior que outra, confere ao sonho este comportamento natural, me  faz acolher sem reserva uma porção de episódios cuja singularidade, quando escrevo, me fulminaria? E no entanto, posso crer nos meus olhos, nos meus ouvidos: chegou o belo dia, esse bicho falou.

 

            Se o despertar do homem é mais duro, se ele quebra muito bem o encanto, é que o levaram a ter uma raça idéia da expiação;

 

 

 

4.º. do momento em que seja submetido a um exame metódico, quando, por meios a serem determinados, se chegar a nos dar conta do sonho em sua integridade (isto supõe um disciplina da memória que atinge gerações; mesmo assim comecemos a registrar os fatos salientes), quando sua curva se desenvolve com regularidade e amplidão sem iguais, então se pode esperar que os seus mistérios, não mais o sendo, dêem lugar ao grande Mistério. Acredito na resolução futura destes dois estados, tão contraditórios na aparência, o sonho e a realidade, numa espécie de realidade absoluta, de surrealidade, se assim se pode dizer.

 

            Parto à sua conquista, certo de não consegui-la, mas bem despreocupado com minha morte, vou suputar um pouco os prazeres de tal posse.

 

            Conta-se que todo o dia, à hora de dormir, Saint-Roux mandava colocar à porta de seu solar em Camaret um cartaz onde se lia: O POETA TRABALHA. Muito haveria ainda a dizer, mas de passagem, só quis aflorar um assunto que, por si só, necessitaria um alongado discurso e um maior rigor; voltarei a esse ponto. Desta vez, minha intenção era dizer a verdade sobre o ódio ao maravilhoso que grassa em certos homens, deste ridículo no qual o querem fazer cair. Falando claro: o maravilhoso é sempre belo, qualquer maravilhoso é belo, só mesmo o maravilhoso é belo.

 

 

 

            No domínio literário, só o maravilhoso é capaz de fecundar obras dependentes de um gênero inferior, como o romance, e de modo geral, de tudo que participa da anedota. Uma prova admirável é O Monge, de Lewis. O sopro do maravilhoso o anima por inteiro. Bem antes de o autor ter libertado seus principais personagens de qualquer coerção temporal, já se percebe que estão prontos para agir com altivez sem precedente. Esta paixão da eternidade, que os exalta sem cessar, confere inesquecíveis acentos a seu tormento e ao meu. Entendo que este livro só exalta, do começo ao fim, e da forma mais pura do mundo, aquilo que do espírito aspira a deixar o chão, e que, despojado de uma parte insignificante de sua afabulação romanesca, à moda do tempo, constitui um modelo de justeza, de inocente grandiosidade. parece-me que não se fez melhor, e a personagem de Matilde, em particular, é a criação mais comovente que se possa pôr ao ativo deste modo figurado em literatura. É menos um personagem que uma contínua tentação. E se um personagem não é uma tentação, o que é? Tentação extrema aquela. O “nada é impossível a quem sabe ousar” dá em  O Monge toda a sua convincente medida. As aparições aí têm um papel lógico, pois que o espírito crítico não se apodera delas para contesta-las. Também o castigo de Ambrósio é tratado de maneira legítima, pois é finalmente aceito pelo espírito crítico como desenlace natural.

 

            Pode parecer arbitrário que eu proponha este modelo, quando se trata do maravilhoso, do qual as literaturas no Norte e as literaturas orientais tiraram subsídios e mais subsídios, sem falar das literaturas propriamente religiosas de toda a parte. É que a maior parte dos exemplos que estas literaturas poderiam me fornecer estão eivadas de puerilidade, pela boa razão de serem dirigidas às crianças. Cedo elas são cortadas do maravilhoso, e mais tarde, não guardaram suficiente virgindade de espírito para sentirem extremo prazer com Pele de Asno. Por mais encantadores que sejam, o homem julgaria decair ao se nutrir de contos de fadas, e concordo que estes não são todos de sua idade. O tecido de adoráveis inverossimilhanças requer mais finura, à medida que se avança, e ainda se está à espera destas espécies de aranhas... Mas as faculdades não mudam radicalmente. O medo, a atração do insólito, as chances, o gosto do luxo são molas às quais não se apela em vão. Há contos a escrever para adultos, contos de fadas, quase.

 

            O maravilhoso não é o mesmo em todas as épocas; participa obscuramente de uma classe de revelação geral, de que só nos chega o detalhe: são as ruínas românticas, o manequim moderno ou qualquer outro símbolo próprio a comover a sensibilidade humana por algum tempo. Nestes quadros que nos fazem sorrir, no entanto sempre se pinta a inquietação humana, e é por isso que os levo a sério, que os julgo inseparáveis de algumas produções geniais, as quais, mais que as outras, estão dolorosamente impregnadas dessa inquietação. São os patíbulos de Villon, as gregas de Racine, os divãs de Baudelaire. Coincidem com um eclipse do gosto que sou feito para suportar, eu que tenho do gosto a idéia de um grande defeito. No mau gosto de minha época, procuro ir mais longe que os outros. Para mim, se eu tivesse vivido em 1820, para mim “a freira sangrenta”, a mim, não poupar este sorrateiro e banal dissimulons de que fala o periódico Cuisin, a mim, a mim, percorrer em metáforas, como ele diz, todas as fases do “disco prateado”. Por hoje, penso num castelo, cuja metade não está obrigatoriamente em ruína; este cabelo me pertence, eu o vejo num sítio agreste, não longe de Paris. Suas dependências não acabam mais e, quanto ao interior, foi terrivelmente restaurado, de modo a nada deixar a desejar, em matéria de conforto. Junto à porta, encoberta pela sombra das árvores, estão os automóveis, estacionados. Alguns de meus amigos aí estão, em permanência: eis o Louis Aragon que parte – ele só tem tempo para cumprimentar-nos; Philippe Soupault se levanta com as estrelas Paul Eluard, nosso grande Eluard, ainda não voltou. Eis Robert Desnos e Roger Vitrac, que decifram no parque um velho edital sobre o duelo; Georges Auric, Jean Paulhan, Max Morise, que rema tão bem, Benjamin Péret, em suas equações de pássaros; e Joseph Delteil; e Jean Carrive; e Georges Limbour (há uma fileira de Georges Limbour); e Marcel Noll; eis T. Traenkel que nos acena de seu balão cativo, Georges Malkine, Antonin Artaud, Francis Gerard, Pierre Naville, J. A . Boiffard, depois Jacques Baron e seu irmão, belos e cordiais, tantos outros ainda, e mulheres deslumbrantes, palavra. Estes jovens não podem se recusar nada, seus desejos são, para a riqueza, ordens. Francis Picabia vem nos visitar e, na semana passada, recebeu-se na galeria dos espelhos um tal Marcel Duchamp que ainda não se conhecia. Picasso caça aí por perto. O espírito de desmoralização ergueu domicílio no castelo, e é com ele que tratamos sempre que há problema de relação com nossos semelhantes, mas as portas estão sempre abertas, e sabeis, não se  começa “agradecendo” às pessoas. De mais a mais, a solidão é vasta, não nos encontramos muito. Pois o essencial não é sermos senhores de nós mesmos, das mulheres, do amor também?

 

            Vão atribuir-me uma mentira poética; cada um vai dizer que moro na Rua Fontaine, e que não vai beber desta água. Na verdade! mas este castelo cujas honras lhe faço, tem ele certeza que seja uma viagem? E se, não obstante, o palácio existisse? Meus hóspedes estão aí para responderem por isso; seu capricho é a estrada luminosa que aí conduz. Vivemos de fato à nossa fantasia, quando estamos lá. E como o que um faz poderia incomodar o outro, ali, ao abrigo da procura sentimental e dos encontros ocasionais?

 

 

 

                        O homem põe e dispõe. Depende dele só pertencer-se por inteiro, isto é, manter em estado anárquico o bando cada vez mais medonho de seus desejos. A poesia ensina-lhe isso. Traz nela a perfeita compensação das misérias que padecemos. Ela pode ser também uma ordenadora, bastando que ao golpe de uma decepção menos íntima se tenha a idéia de tomá-la ao trágico. Venha o tempo quando ela decrete o fim do dinheiro e parta,  única, o pão do céu para a terra! Haverá ainda assembléias nas praças públicas, e movimentos dos quais não pensaste participar. Adeus seleções absurdas, sonhos de abismo, rivalidades, longas paciências, a evasão das estações, a ordem artificial das idéias, a rampa do perigo, tempo para tudo! Basta se Ter o trabalho de praticar a poesia. Não é a nós que compete, que já vivemos dela, o esforço de fazer prevalecer o que guardamos para nossa mais ampla inquietação?

 

            Não importa se há desproporção entre esta defesa e a ilustração que vai segui-la. Tratava-se de remontar às fontes de imaginação poética, e mais ainda, ficar aí. Não tenho a pretensão de ter feito isso. É preciso muito domínio sobre si, para querer se estabelecer nestas recuadas regiões onde tudo parece andar tão mal, e com maior razão, para querer aí conduzir alguém. E nunca se tem certeza de aí estar em absoluto. Como não se vai gostar, fica-se disposto a se deter em outra parte. A verdade é que agora uma flecha indica a direção destes lugares e que alcançar a meta verdadeira só depende de resistência do viajante.

 

 

 

            Conhece-se, pouco mais ou menos, o caminho percorrido. Tive o cuidado de contar, no decurso de um estudo sobre o caso de Robert Desnos, intitulado: ENTRADA DOS MÉDIUNS, que eu tinha sido levado a “fixar minhas atenções sobre frases mais ou menos parciais, que em plena solidão, quase pegando no sono, ficam perceptíveis para o espírito, sem ser possível descobrir-lhes uma determinação prévia”. Eu mal acabara de tentar uma aventura poética, com o mínimo de chances, isto é, minhas aspirações eram as mesmas de hoje, mas eu tinha fé na lentidão de elaboração para fugir a contatos inúteis, contatos que eu reprovava intensamente. Era o pudor do pensamento, de que me sobra ainda alguma coisa. No fim de minha vida, com dificuldade chegarei a falar como falam todos, culpa de minha voz e de meus gestos escassos. A virtude da palavra (da escrita: bem maior) me parecia ligada à faculdade de encurtar de modo marcante a exposição (pois era uma exposição) de alguns poucos fatos, poéticos ou outros, substanciais para mim. Em minha idéia, não era outro o processo usado por Rimbaud. Eu compunha, e o meu empenho de variedade merecia melhor sorte, os últimos poemas do Mont de Pieté, isto é, conseguia tirar das linhas em branco desse livro um partido incrível. Essas linhas eram o olho fechado sobre operações de pensamento, que, julgava eu, deviam ser ocultadas do leitor. Não era trapaça, mas sim, gosto de precipitar as coisas. Eu obtinha a ilusão de uma cumplicidade possível, cada vez menos dispensável para mim. Eu pegara o vezo de afagar imoderadamente as palavras pelo espaço admitido em torno delas, por suas tangências com outras inumeráveis palavras não pronunciadas por mim. O poema FLORESTA-NEGRA marca exatamente este estado de espírito. Passei seis meses a escrevê-lo e, podem acreditar, não descansei um só dia. Mas tratava-se da estima que eu então me dedicava, não é bastante, compreendam. Adoro estas confissões estúpidas. Naquele tempo, a pseudopoesia cubista procurava se implantar, mas saíra desarmada do cérebro de Picasso, e quanto a mim, eu era tido como tão enfadonho quanto a chuva (ainda sou). Eu desconfiava, aliás, que do ponto de vista poético, eu estava no caminho errado, mas eu me safava como podia, desafiando o lirismo, a golpes de definição e de receitas (os fenômenos Dada não tardariam a se manifestar), e fingindo encontrar uma aplicação da poesia na publicidade (eu sustentava que o mundo acabaria, não por um belo livro, mas por uma bela propaganda do inferno e do céu).

 

            Na mesma época, um homem, tão ou mais enfadonho que eu, Pierre Reverdy, escrevia:

 

 

 

A imagem é uma criação pura do espírito.

 

Ela não pode nascer da comparação, mas da aproximação de duas realidade mais ou menos remotas.

 

Quanto mais longínquas e justas forem as afinidades de duas realidades próximas, tanto mais forte será a imagem – mais poder emotivo e realidade poética ela possuirá... etc.

 

 

 

            Estas palavras, se bem que sibilinas para os profanos eram indicadores muito fortes, e sobre elas meditei longamente. Mas a imagem era fugidia. A estética de Reverdy, estética toda a posteriori, fazia-me tomar os efeitos pelas causas. Entrementes, fui obrigado a renunciar definitivamente a meu ponto de vista.

 

 

 

            Certa noite então, antes de adormecer, percebi, nitidamente articulada a ponto de ser impossível mudar-lhe uma palavra, mas bem separada do ruído de qualquer voz, uma frase bem bizarra que me alcançava sem trazer indício dos acontecimentos aos quais, segundo o testemunho de minha consciência, eu estava preso, nessa ocasião, frase que me pareceu insistente, frase, se posso ousar, que batia na vidraça. Rapidamente tive a sua noção, e já me dispunha a passar adiante quando o seu caráter orgânico me reteve. Na verdade, esta frase me espantava; infelizmente não a guardei até hoje, era algo como: “Há um homem cortado em dois pela janela”, mas não poderia haver ambigüidade, acompanhada como estava pela fraca representação visual de um homem andando, e seccionado a meia altura por uma janela perpendicular ao eixo de seu corpo. Fora de dúvida era a simples aprumação no espaço de um homem debruçado à janela. Mas esta janela tendo seguido o deslocamento do homem vi que se tratava de uma imagem de tipo bastante raro e logo pensei em incorporá-la a meu material de construção poética. Assim que lhe concedi este crédito ela deu lugar a uma sucessão quase ininterrupta de frases que não me surpreenderam menos e me deixaram sob a impressão de uma tal gratuidade que me pareceu ilusório o império que até então eu mantinha sobre mim mesmo, e só pensei então em liquidar a interminável disputa travada em mim (Knut Hamsun põe na dependência da fome este tipo de revelação que me assaltou, e talvez não esteja ele errado (o fato é que nessa época eu não comia todos os dias). Com toda certeza são de fato as mesmas manifestações que ele relata nestes termos:

 

 

 

“No dia seguinte acordei cedo. Estava ainda escuro. Meus olhos estavam abertos fazia tempo, quando ouvi o relógio do apartamento inferior bater cinco horas. Quis novamente dormir mas não consegui, eu estava completamente desperto e mil coisas baralhavam na minha cabeça. De repente me vieram uns bons trechos, próprios para utilização num esboço, num folhetim; subitamente, por acaso, achei frases muito bonitas, frases como jamais escreverei. Eu as repetia lentamente, palavra por palavra, eram excelentes. E vinham mais outras. Levantei-me, peguei lápis e papel na mesa atrás de minha cama. É como se eu tivesse rompido uma veia, uma palavra seguia outra, colocava-se em seu lugar, surgiam as réplicas, em meu cérebro, eu gozava profundamente. Os pensamentos me vinham tão rapidamente e fluíam tão abundantemente que eu perdia uma porção de detalhes delicados, porque meu lápis não podia andar tão depressa, e entretanto eu me apressava, a mão sempre em movimento, eu não perdia um minuto. As frases continuavam a brotar em mim, eu estava prenhe de meu assunto”.

 

  

 

            Apollinaire afirmava que os primeiros quadros de Chirico haviam sido pintados sob a influência de distúrbios cenestésicos (enxaquecas, cólicas).

 

 

 

            Tão ocupado estava eu com Freud nessa época, e familiarizado com os seus métodos de exame que eu tivera alguma ocasião de praticar em doentes durante a guerra, que decidi obter de mim o que se procura obter deles, a saber, um monólogo de fluência tão rápida quanto possível sobre o qual o espírito crítico do sujeito não emita nenhum julgamento, que não seja, portanto, embaraçado com nenhuma reticência, e que seja tão exatamente quanto possível o pensamento falado. Parecia-me, ainda me parece – a maneira como me chegara a frase do homem seccionado o comprovava – que a velocidade do pensamento não é superior à da palavra e que ele não desafia forçadamente a língua, nem mesmo a caneta que corre. Foi com estas disposições que Philippe Soupault, a quem eu comunicara estas primeiras conclusões, e eu começamos a escrevinhar, pouco nos importando com o que pudesse suceder literariamente. A facilidade de realização fez o resto.

 

            No fim do primeiro dia podíamos ler umas cinqüenta páginas obtidas por este meio, e começar a comparação de nossos resultados. No conjunto, os de Soupault e os meus mostravam notável analogia: mesmo vício de construção, falhas similares, mas também, de cada lado, a ilusão de um estro maravilhoso, muita emoção, escolha considerável de imagens de uma tal qualidade que não teríamos sido capazes de preparar uma só delas, mesmo com muito empenho, um pitoresco muito especial, e de um lado e de outro, alguma proposição de pungente burlesco. As únicas diferenças entre nossos dois textos me pareceram corresponder essencialmente a nossos temperamentos recíprocos, o de Soupault menos estático que o meu, e se ele me permite esta leve crítica, ao fato de Ter ele cometido o erro de distribuir, ao alto de certas páginas, e sem dúvida por espírito de mistificação, algumas palavras à guisa de títulos. Em compensação, devo-lhe a justiça de dizer que ele se opôs sempre, com toda energia, a qualquer retoque, à mínima correção ao curso de toda passagem desse gênero que me parecia até descabida. Tinha ele toda razão nisso. É com efeito muito difícil apreciar em seu justo valor os diversos elementos presentes, diga-se mesmo, é impossível apreciá-los numa primeira leitura. A vós que escreveis, estes elementos, na aparência, vos são tão estranhos quanto a outro qualquer, e naturalmente desconfiais. Falando poeticamente, eles se reconhecem sobretudo por um alto grau de absurdidade imediata, sendo o próprio desta absurdidade, num exame mais aprofundado, dar lugar a tudo que há de admissível, de legítimo no mundo: a divulgação de certo número de propriedades e de fatos não menos objetivos, em suma, que os outros.

 

            Em homenagem a Guillaume Apollinaire, que morrera há pouco, e que por diversas vezes nos parecia ter obedecido a um arrebatamento desse gênero, sem entretanto ter aí sacrificado medíocres meios literários, Soupault e eu designamos com o nome de SURREALISMO o novo modo de expressão pura, agora à nossa disposição, e com o qual estávamos impacientes para beneficiar nossos amigos. Creio não ser mais necessário, hoje, repisar esta palavra, e que a acepção em que a tomamos acabou por prevalecer sobre a acepção apollinairiana. Ainda com maior razão poderíamos ter-nos apossado da palavra SUPERNATURALISMO, empregada por Gerard de Nerval na dedicatória de Filles de Feu. Com efeito, parece que Nerval possuiu às mil maravilhas o espírito ao qual recorremos, enquanto Apollinaire não possuía senão a letra, ainda imperfeita, do surrealismo, tendo sido incapaz de lhe traçar um esboço teórico que valha a pena. Eis duas frases de Nerval que acerca disso me parecem bem significativas:

 

 

 

            Vou explicar-lhe, meu caro Dumas, o fenômeno que você citou acima. Como você sabe, há certos contistas que não podem inventar sem se identificarem aos personagens de sua imaginação. Você sabe com que convicção nosso velho amigo Nodier narrava como ele tivera a desgraça de ser guilhotinado na época da Revolução; ficava-se de tal modo persuadido que se ficava querendo saber como ele conseguira recolocar sua cabeça.

 

            ... E já que você teve a imprudência de citar um soneto composto neste estado de devaneio onírico SUPERNATURALISTA, como diriam os alemães, vai ouvi-los todos. Não são nada mais obscuros do que a metafísica de Hegel ou as MEMORÁVEIS de Swedenborg, e perderiam encanto se fossem explicados, se a coisa fosse possível, conceda-me ao menos o mérito da expressão...

 

 

 

            Só com muita fé poderiam nos contestar o direito de empregar a palavra SURREALISMO no sentido muito particular em que o entendemos, pois está claro que antes de nós esta palavra não obteve êxito. Defino-a pois uma vez por todas.

 

            SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral.

 

            ENCICL. Filos. O Surrealismo repousa sobre a crença na realidade superior de certas formas de associações desprezadas antes dele, na onipotência do sonho, no desempenho desinteressado do pensamento. Tende a demolir definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos, e a se substituir a eles na resolução dos principais problemas da vida. Deram testemunho de SURREALISMO ABSOLUTO os srs. Aragon, Baron, Boiffard, Breton, Carrive, Crevel, Delteil, Desnos, Eluard, Gerard, Limbour, Malkine, Morise, Naville, Noll, Péret, Picon, Soupault, Vitrac.

 

            Parece que são, até agora, os únicos, e não haveria engano, não fosse o caso apaixonante de Isidore Ducasse, sobre o qual me faltam elementos. E certamente, não considerando senão superficialmente seus resultados, bom número de poetas poderiam passar por surrealistas, a começar por Dante, e, em seus melhores dias, Shakespeare. No curso das diferentes tentativas de redução, em que empenhei, do que se chama, por abuso de confiança, o gênio, nada encontrei que se possa finalmente atribuir a outro processo que não seja este.

 

            As NOITES de Young são surrealistas do começo ao fim; infelizmente é um padre que fala, mau padre, sem dúvida, mas padre.

 

Swift é surrealista na maldade.

 

Sade é surrealista no sadismo.

 

Chateaubriand é surrealista no exotismo.

 

Constant é surrealista em política.

 

Hugo é surrealista quando não é tolo.

 

Desbordes-Valmore é surrealista em amor.

 

Bertrand é surrealista no passado.

 

Rabbe é surrealista na morte.

 

Poe é surrealista na aventura.

 

Baudelaire é surrealista na moral.

 

Rimbaud é surrealista na prática da vida e alhures.

 

Mallarmé é surrealista na confidência.

 

Jarry é surrealista no absinto.

 

Nouveau é surrealista no beijo.

 

Saint-Pol-Roux é surrealista no símbolo.

 

Fargue é surrealista na atmosfera.

 

Vaché é surrealista em mim.

 

Reverdy é surrealista em sua casa.

 

Saint-John Perse é surrealista a distância.

 

Roussel é surrealista na anedota.

 

Etc.

 

 

 

            Insisto, eles nem sempre são surrealistas, neste sentido que descubro neles um certo número de idéias preconcebidas, às quais, bem ingenuamente, eles se apegavam. Apegavam porque ainda não tinham ouvido a voz surrealista, a que continua a pregar à véspera da morte e acima das tempestades, porque não queriam servir somente para orquestrar a maravilhosa partitura. Eram instrumentos soberbos demais, e por isso nem sempre produziram som harmonioso.

 

            Nós, porém, que não nos dedicamos a nenhum trabalho de filtração, que nos fizemos em nossas obras os surdos receptáculos de tantos ecos, modestos aparelhos registradores que não se hipnotizam com o desenho traçado, talvez sirvamos uma causa mais nobre. Assim devolvemos com probidade o “talento” que nos atribuem. Falem-me do talento deste metro de platina, deste espelho, desta porta, e do céu, se quiserem.

 

            Não temos talento, perguntem a Philippe Soupault:

 

 

 

            “As manufaturas anatômicas e as habitações baratas destruindo as mais importantes cidades”.

 

 

 

            A Roger Vitrac:

 

          

 

            “Recém-invocara eu o mármore-almirante  (A Mesa de Mármore era um Tribunal instalado no Palácio de Justiça em Paris, realizando suas sessões numa imensa mesa de mármore, que lhe deu o nome; era de sua alçada o julgamento de militares, e sua jurisdição tinha três divisões: o almirantado, as florestas e águas, e a área do condestável) quando este virou nos calcanhares como um cavalo que se empina diante da estrela polar e me indicou no plano de seu chapéu bicorne uma região onde eu devia passar a minha vida”.

 

 

 

            A Paul Eluard:

 

 

 

            “Conto uma história bem conhecida, releio um poema célebre: estou apoiado a um muro, orelhas verdejantes, lábios calcinados”.

 

 

 

            A Max Morise:

 

           

 

            “O urso das cavernas e sua companhia que mia, o volante e seu valete no vento, o grão-chanceler com sua mulher, o espantalho e seu amigo alho, a fagulha com agulha, o carniceiro e seu irmão carnaval, o varredor com o seu tapa-olho, o Mississipi e seu sapo, o coral e o colar, o Milagre e seu santo por favor desapareçam da superfície do mar”.

 

 

 

            A Joseph Delteil:

 

 

 

            “Ai de mim! Creio na virtude das aves. E basta uma pena para me matar de rir!”.

 

 

 

            A Louis Aragon:

 

 

 

            “Durante uma interrupção da partida, quando os jogadores, reunidos, rodeavam a poncheira escaldante, perguntei à árvore se ainda tinha sua fita vermelha”.

 

 

 

            A mim mesmo, que não pude me impedir de escrever as linhas serpentinas, alucinantes, deste prefácio.

 

 

 

            Perguntem a Robert Desnos que, dentre nós, foi talvez quem mais se aproximou da verdade surrealista, aquele que, em obras ainda inéditas e ao longo de múltiplas experiências às quais prestou, justificou plenamente a esperança que eu depositava no surrealismo e me intima a esperar muito dele ainda. Hoje em dia Desnos fala surrealista à discrição. A prodigiosa agilidade de que ele dispõe para seguir oralmente seu pensamento nos vale, quanto nos apraz, discursos esplêndidos, e que se perdem, Desnos tendo mais que fazer do que fixa-los. Ele lê em si como em livro aberto, e nada faz para reter as folhas que se desvanecem no vento de sua vida.

 

 

 

******************************************************************************

 

 

 

SEGREDOS DA ARTE MÁGICA SURREALISTA

 

 

 

Composição surrealista escrita, ou primeiro e último jato

 

 

 

            Mande trazer com que escrever, quando já estiver colocado no lugar mais confortável possível para concentração do seu espírito sobre si mesmo. Ponha-se no estado mais passivo ou receptivo, dos talentos de todos os outros. Pense que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa, sem assunto preconcebido, bastante depressa para não reprimir, e para fugir à tentação de se reler. A primeira frase vem por si, tanto é verdade que a cada segundo há uma frase estranha ao nosso pensamento consciente pedindo para ser exteriorizada. É bastante difícil decidir sobre a frase seguinte: ela participa, sem dúvida, a um só tempo, de nossa atividade consciente e da outra, admitindo-se que o fato de haver escrito a primeira supõe um mínimo de percepção. Isto não lhe importa, aliás; é aí que reside, em maior parte, o interesse do jogo surrealista. A verdade é que a pontuação se opõe, sem dúvida, à continuidade absoluta do vazamento que nos interessa, se bem que ela pareça tão necessária quanto a distribuição dos nós numa corda vibrante. Continue enquanto lhe apraz. Confie no caráter inesgotável do murmúrio. Se o silêncio ameaça cair, por uma falta da inatenção, digamos, que o leve a cometer um pequeno erro, não hesite em cortar uma linha muito clara. Após uma palavra cuja origem lhe pareça suspeita, ponha uma letra qualquer, a letra “l”, por exemplo, sempre a letra “l”, restabeleça o arbitrário, impondo esta letra como inicial à palavra que vem a seguir.

 

 

 

Para não mais se aborrecer acompanhado

 

 

 

            É difícil. Não receba ninguém, e às vezes, quando ninguém, e às vezes, quando ninguém tiver forçado sua porta para interrompe-lo em plena atividade surrealista e cruzar seus braços, pense: “É igual, certamente há coisa melhor para fazer, ou para não fazer. O interesse da vida não se mantém. Simplicidade, o que se passa em mim ainda me aborrece!” ou qualquer banalidade revoltante.

 

 

 

Para fazer discursos

 

 

 

            Fazer-se inscrever, na véspera da eleição, na lista de candidatos do primeiro lugar que ache bom proceder a esse gênero de consulta. Cada um tem em si o material de orador: tangas multicores, vidrilhos das palavras. Pelo surrealismo ele vai surpreender o desespero em sua pobreza. Uma tarde, numa estrada, ele sozinho cortará em pedaços o céu eterno, esta Pele do Urso. Vai prometer tanto, que se cumprir mesmo uma insignificância será uma consternação. Dará às reivindicações do povo todo uma entonação parcial e derrisória. Obterá a comunhão dos mais irredutíveis adversários num desejo secreto que acabará com as pátrias. E conseguirá isso com apenas se deixando exaltar com a palavra imensa que derrete em piedade e rola em ódio. Incapaz de um desalento, brincará sobre o veludo de todo sos desalentos. Será mesmo eleito, e as mais suaves mulheres o amarão com violência.

 

 

 

Para escrever falsos romances

 

 

 

            Você, seja quem for, se é de seu agrado, faça queimar algumas folhas de louro, e sem atiçar este fogo fraco, e comece a escrever um romance. Você tem a permissão do surrealismo: basta você mudar a agulha de “Tempo bom e estável” para “Ação” e a mágica está feita. Eis aqui personagens com atitudes disparatadas: os nomes deles em sua escritura são uma questão de maiúsculas e estarão tão a vontade com os verbos ativos como na conjugação impessoal, os pronomes estão subentendidos, em expressões tais como: chove, há, é preciso, etc. Eles vão comanda-los, por assim dizer, e quando a observação, a reflexão, e as faculdades de generalização não lhe tenham ajudado nada, esteja certo de que eles vão lhe retribuir mil intenções que você não teve. Assim dotados de poucas características físicas e morais, estes seres, que em verdade lhe devem tão pouco, não se desviarão de uma certa linha de conduta, com a qual você não precisa se incomodar. Daí resultará uma intriga mais ou menos hábil na aparência, justificando ponto por ponto esse desfecho comovente ou tranqüilo, ao qual você não dá nenhuma atenção. O seu falso romance imitará admiravelmente um romance verdadeiro; você ficará rico, e todos concordam em dizer que você tem “algo na barriga”, pois é aí mesmo que este algo está.

 

            Bem entendido, por um processo análogo, e à condição de ignorar o que você vai comentar, você poderá se aplicar com sucesso à falsa crítica.

 

 

 

Para se exibir a uma mulher que passa na rua

 

 

 

.................................................................................................................................

 

.................................................................................................................................

 

.................................................................................................................................

 

.................................................................................................................................

 

.................................................................................................................................

 

 

 

Contra a morte

 

 

 

            O surrealismo vai introduzir você na morte que é uma sociedade secreta. Ele vai enluvar sua mão, sepultando aí o “M” profundo por onde começa a palavra Memória. Não deixe de tomar felizes disposições testamentárias; por minha parte, peço que eu seja conduzido ao cemitério num carro de mudança. Que meus amigos destruam até o último exemplar, a edição do Discurso sobre o Pouco da Realidade.

 

 

 

 

 

 

            A linguagem foi concedida ao homem para fazer dela um uso surrealista. Na medida em que lhe é insdispensável fazer-se compreender, ele consegue, bem ou mal, exprimir-se e assim assegurar o desempenho de algumas funções, das mais banais. Falar, escrever carta não lhe oferecem nenhuma dificuldade real, desde que, fazendo-o, ele não se proponha um objetivo acima da média, isto é, desde que se limite a entreter-se (pelo prazer de entreter-se) com alguém. Ele não fica aflito com as palavras que virão, nem com a frase que virá, terminada a sua.  Ele será capaz de responder à queima-roupa a uma pergunta bem simples. À falta de tiques contraídos no convívio com os outros, ele pode opinar espontaneamente sobre alguns poucos assuntos: para isso não lhe é preciso antes “contar até dez” nem ter fórmulas preparadas. Quem poderá tê-lo convencido de que esta faculdade de “falar logo à primeira” só serve para desserví-lo, quando ele se propõe estabelecer ligações mais delicadas? Ele não deve se recusar a falar ou escrever de improviso sobre nada. Ouvir-se, ler-se, não tem outro efeito senão o de suspender o oculto, o admirável auxílio. Não conto para me compreender (chega! sempre me compreenderei). Se esta ou aquela de minhas frases me traz na hora uma leve decepção, confio na frase seguinte para redimi-la, cuido para não recomeçá-la ou aperfeiçoa-la. A mínima perda de ímpeto ser-me-ia fatal. As palavras, os grupos de palavras que se sucedem exercem entre si a maior solidariedade. Não me compete favorecer estas em detrimento daquelas. Quem deve intervir é uma miraculosa compensação: e ela intervém.

 

            Não só esta linguagem sem reservas que procuro tornar sempre válida, que me parece adaptar-se a todas as circunstâncias da vida, não só esta linguagem não me desfalca nenhum de meus recursos, mas ainda me confere uma extraordinária lucidez justo no domínio onde eu menos esperava dela. Posso até sustentar que ela me instrui, e com efeito já me aconteceu utilizar surrealmente palavras cujo sentido eu esquecera. Pude verificar depois que o uso feito por mim correspondia exatamente a sua definição. Isto poderia fazer crer que não se “aprende”, que sempre se “reaprende”. Há expressões felizes com as quais assim me familiarizei. E não me referi à consciência poética dos objetos que só pude adquirir pelo seu contato espiritual mil vezes repetido.

 

            É ainda ao diálogo que as formas da linguagem se adaptam melhor. Aí, dois pensamentos se confrontam; enquanto um ser revela, o outro se ocupa com ele, mas como? Supor que o incorpore a si seria admitir que certo tempo lhe é possível viver inteiramente deste outro pensamento, coisa muito improvável. De fato, a atenção que lhe é dada é toda exterior; só tem ensejo de aprovar ou de desaprovar, geralmente desaprovar, com toda a deferência de que o homem é capaz. Este modo de linguagem não permite, aliás, chegar ao fundo de um assunto. Minha atenção, vítima de uma solicitação que não pode decentemente repelir, trata o pensamento alheio como inimigo; na conversação usual ela o “censura” quase sempre pelas palavras, pelas figuras de que se serve; ela me põe em condições de tirar partido delas, desnaturando-as. Isto é tão verdade que em certos estados mentais patológicos, onde os distúrbios sensoriais afetam toda a atenção do doente, limita-se este, que continua a responder às perguntas, a pegar a última palavra pronunciada junto dele, ou o último membro de frase surrealista que deixou vestígio em seu espírito:

 

 

 

            “Que idade você tem? “ – Tem (Ecolalia)

 

            “Como você se chama?” – Quarenta e cinco casas (Sintoma de Ganser, ou das respostas absurdas)

 

 

 

            Não há conversa onde não entre algo dessa desordem.. O esforço de sociabilidade aí reinante e a nossa grande prática é que nos disfarçam esse fato, por pouco tempo. Também é a grande fraqueza do livro entrar sempre em conflito com seus melhores leitores, quero dizer, com os mais exigentes. No pequeníssimo diálogo que acima improvisei, entre o médico e o alienado, é este, aliás, quem leva vantagem: pois suas respostas o impõem à atenção do médico examinador – e não é o mais forte? Talvez. Ele tem liberdade de não se importar com seu nome nem com sua idade.

 

            O surrealismo poético, ao qual consagro este estado, dedicou-se até agora a restabelecer o diálogo em sua verdade absoluta, isentando os dois interlocutores das obrigações de cortesia. Cada um deles simplesmente prossegue em seu solilóquio, sem procurar tirar daí um prazer dialético particular nem se impor a seu vizinho, de forma alguma. Os conceitos emitidos na conversa não visam, como geralmente, o desenvolvimento de uma tese, tão insignificante quanto se queira, eles são tão desafetados quanto possível. Quanto à resposta que reclamam, ela é, em princípio, totalmente indiferente ao amor-próprio de quem falou. As palavras, as imagens não se oferecem senão como trampolim ao espírito de quem escuta. É dessa maneira que devem se apresentar em Les Champs Magnétiques, primeira obra puramente surrealista, as páginas reunidas sob o título de  Barrières nas quais Soupault e eu nos mostramos como estes interlocutores imparciais.

 

 

 

            O Surrealismo não permite àqueles que se entregam a ele que o abandonem a seu bel-prazer. Tudo leva a crer que ele atue no espírito como os estupefacientes: como eles, cria um certo estado de dependência e pode impelir o homem a revoltas terríveis.Também é, se quiserem, um paraíso artificial, e o prazer que nele se tem depende da crítica de Baudelaire ao mesmo título que os outros. Assim também a  análise dos misteriosos efeitos e dos gozos particulares que ele pode produzir – em muitos aspectos o surrealismo aparece como um vício novo, que não deve ser apanágio de alguns homens apenas; como o haxixe, ele pode satisfazer todos os delicados – e uma tal análise não pode faltar neste estudo.

 

 

 

            1.º Passa-se com as imagens surrealistas como as imagens do ópio, não mais evocadas pelo homem, mas que “se lhe oferecem, espontaneamente, despoticamente. Não pode manda-las embora, porque a vontade não tem mais força e não mais governas faculdades” (Ch.B.) Resta saber se alguma vez se “evocou” as imagens. Se a pessoa se apóia, como eu faço, na definição de Reverdy, não parece possível aproximar voluntariamente o que ele chama “duas realidades distintas”. A aproximação se faz ou não se faz, eis tudo. Nego, por minha parte, de maneira mais formal, que em Reverdy imagens tais como:

 

 

 

No regato corre uma canção

 

 

 

ou

 

 

 

O dia se desdobrou como uma toalha branca

 

 

 

ou

 

 

 

O mundo esconde-se num saco

 

 

 

ofereçam o mínimo grau de premeditação. Considero falso pretender que “o espírito discerniu as relações” das duas realidades em presença. Para começar, nada é discernido conscientemente. É da aproximação, por assim dizer, fortuita dos dois termos que fulgiu uma luz especial,  a luz da imagem, à qual somos infinitamente sensíveis. O valor da imagem depende da beleza da centelha obtida; é, por conseguinte, função da diferença de potencial entre os dois condutores. Se esta diferença mal existe, como na comparação, a centelha não se produz. Ora, não está, a meu ver em poder do homem combinar a aproximação de duas realidades tão distantes. O princípio da associação de idéias, tal como o concebemos, opõe-se a isso. Ou então seria preciso voltar a uma arte elíptica, condenada por Reverdy, como também por mim. É forçoso, portanto, admitir que os dois termos da imagem não são deduzidos um do outro pelo espírito em vista da centelha a produzir, que eles são os produtos simultâneos da atividade que denomino surrealista, limitando-se a razão a constatar e a apreciar o fenômeno luminoso.

 

            E assim como a centelha aumenta quando produzida através de gazes rarefeitos, a atmosfera surrealista criada pela escrita mecânica, que fiz questão de colocar ao alcance de todos, presta-se especialmente à produção das mais belas imagens. Pode-se dizer até que as imagens aparecem nesta corrida vertiginosa como os guiões únicos do espírito. Aos poucos o espírito se convence da suprema realidade das imagens. Limitando-se no começo a lhes prestar sugestão, logo ele percebe que lisonjeiam sua razão, aumentam, outrossim, seu conhecimento. Ele toma conhecimento dos espaços ilimitados onde se manifestam seus desejos, onde se reduzem sem cessar o pró e o contra, onde sua obscuridade não o atraiçoa. Ele vai, conduzido por estas imagens que o seduzem, que apenas lhe dão tempo para soprar os dedos queimados. É a mais bela das noites,  a noite dos fulgores; perto dela, o dia é a noite.

 

            Os tipos inumeráveis de imagens surrealistas reclamariam uma classificação, que por hora não me disponho a tentar. Agrupá-los conforme suas afinidades particulares me levaria longe; pretendo levar em consideração, e essencialmente, sua virtude comum. Não escondo que, para mim, a mais forte é a que tem o mais elevado grau de arbitrário;  a que exige mais tempo para ser traduzida em linguagem prática, seja por conter uma enorme dose de contradição aparente, seja por ficar um de seus termos curiosamente disfarçado, seja por se apresentar como sensacional e pareça se desenlaçar pouco (fechando bruscamente o ângulo de seu compasso), seja porque retira dela mesma uma justificação formal derrisória, seja por ser de ordem alucinatória, seja por ser de ordem alucinatória, seja por atribuir com naturalidade ao abstrato a máscara do concreto, ou inversamente, seja por implicar a negação de alguma propriedade física elementar, seja por provocar o riso. Eis, por ordem, alguns exemplos:

 

 

 

O rubi do champanhe . Lautréamont

 

 

 

Belo como a lei da parada do desenvolvimento do peito nos adultos cuja propensão ao crescimento do peito nos adultos cuja propensão ao crescimento não tem relação com a quantidade de moléculas assimiladas pelo seu organismo. Lautréamont

 

 

 

 Uma igreja erguia-se, estrepitosa como um sino. Philippe Soupault

 

 

 

No sono de Rose Sélavy um anão surgido de um poço com ar soturno vem comer seu pão com um moço no horário noturno. Robert Desnos

 

 

 

Sobre a ponte o orvalho com cara de gata se embalava.  André Breton

 

 

 

Um pouco à esquerda, em meu firmamento imaginado, vislumbro – será apenas uma névoa de sangue e morte – o brilhante fosco das perturbações da liberdade. Louis Aragon

 

 

 

Na floresta abrasada. Roger Vitrac

 

 

 

A cor das meias de uma mulher não está obrigatoriamente à imagem de seus olhos, o que fez um filósofo (inútil nomeá-lo) dizer: “Os cefalópodes têm mais razão que os quadrúpedes para odiar o progresso:. Max Morise

 

 

 

            1.º Que se queira ou não, há aqui matéria para satisfazer a várias exigências do espírito. Todas estas imagens parecem comprovar que o espírito está maduro para outra coisa, diferente das benignas alegrias que ele geralmente se concede. É a única maneira que ele tem de fazer virar a seu favor a quantidade ideal de acontecimentos de que está carregado. Estas imagens lhe dão a medida de sua dissipação ordinária e dos movimentos resultantes. Não é mau que elas o desconcertar o espírito é coloca-lo no seu erro. As frases que citei providenciam bastante para isso. Saboreando-as, o espírito tira dessas frases a certeza de estar no  caminho certo; para ele próprio, ele não poderia condenar-se por argúcia; nada tem a temer, pois, além de tudo, ele se sente capaz de alcançar tudo.

 

            2.º O espírito que mergulha no surrealismo revive com exaltação a melhor parte de sua infância. Para ele é um pouco como a certeza de quem, a ponto de morrer afogado, repassa em menos de um minuto todo o insuperável de sua vida. Dirão que é muito animador. Mas não faço questão de animar quem me diz isso. Das recordações de infância e de algumas outras, vem um sentimento de não abarcado, e pois, de desencaminhado, que considero o mais fecundo que existe. Talvez seja a infância que mais se aproxima da “vida verdadeira”; a infância além da qual o homem só dispõe, além de seu salvo-conduto, de alguns bilhetes de favor; a infância onde tudo concorria entretanto para a posse eficaz, e sem acasos, de se si mesmo. Graças o surrealismo, parece que estas chances voltam. É como se a pessoa ainda corresse para sua salvação, ou sua perda. Revive-se, na sombra, um terror precioso, Graças a Deus, por enquanto é só o purgatório. Atravessa-se em sobressalto, o que os ocultistas chamam de paisagens perigosas. Meus passos suscitam monstros que espreitam; eles não estão ainda muito mal-intencionados a meu respeito, e não estou perdido, pois os temo. Eis “os elefantes com cabeça de mulher e os leões voadores” que Soupault e eu ainda há pouco tremíamos de medo de encontrar, eis o “peixe solúvel” que ainda me assusta um pouco. PEIXE SOLÚVEL, não serei eu o peixe solúvel, nasci sob o signo de Peixes e o homem é solúvel em seu pensamento! A fauna e a flora do surrealismo são inconfessáveis.

 

            3.º Não creio que esteja próximo de se estabelecer um decalque surrealista. Os caracteres comuns a todos os textos do gênero entre os quais aqueles que acabo de assinalar e muitos outros que só poderíamos entender com análise gramatical e análise lógica cerradas, não se opõem a uma certa evolução da prosa surrealista no tempo. Vindo depois de  inúmeros ensaios aos quais nesse sentido me dedico há cinco anos, e de que tenho a fraqueza de julgar extremamente desordenados pela maior parte, as historietas que formam a seqüência deste volume trazem-me uma prova-flagrante disso. Nem por isso as considero mais dignas de figurar aos olhos do leitor os benefícios que o subsídio surrealista é susceptível de fazer sua consciência realizar.

 

            Os meios surrealistas reclamariam, aliás, uma ampliação. Tudo é bom para obter de certas associações a desejável subitaneidade. Os papéis colados de Picasse e de Braque têm o mesmo valor que a introdução de um lugar-comum num desenvolvimento literário do estilo mais castiço. É até mesmo permitido intitular POEMA o que se obtém pela agregação tão gratuita quanto possível (observemos, faz favor, a sintaxe) de títulos  e fragmentos de títulos recortados dos jornais:

 

 

Do Surrealismo

 Ricardo de Mattos

 

Vários os movimentos artísticos que brotaram durante a primeira metade do século XX, posicionandose merecidamente o Surrealismo entre os de maior consistência teórica e dos mais impressionantes pelos princípios estéticos desenvolvidos. Foi um dos mais duradouros, encaixando-se um pouco além do período entre guerras, pois os Prolegômenos De Um Terceiro Manifesto do Surrealismo Ou Não (sic) datam de 1.942. Além de Surrealismo, é costume referir-se ao movimento artístico como Supra Realismo e Super Realismo, havendo em Portugal quem defenda a expressão Sobre Realismo. A semente do Surrealismo encontra-se no Dadaismo, mas costumam ser apontados como precursores remotos os poetas Rimbaud e Lautéamont, este autor dos Cantos de Maldoror. Também no movimento romântico os surrealistas foram buscar exemplos e fundamentos para suas teorias. O que fortaleceu o Surrealismo foi o acompanhamento e estudo pelos seus expoentes - encabeçados por André Breton - das então recentes descobertas de Sigmund Freud. Nem fortaleceu, o movimento calcou-se principalmente nestas descobertas, mas não sem uma interpretação pessoal e ainda insipiente, dada a novidade da matéria. Daí o carácter inaugural do Surrealismo, nem contestador, nem renovador. Rejeitava-se a "Arte Pela Arte" e a "Revolução Pela Revolução". Uma das preocupações dos surrealistas era libertar o homem de uma vida predominantemente utilitária. Outra, emparelhar sua realidade profunda e a superficial. Os avanços da psicanálise indicaram-lhes veredas que passaram a explorar com avidez. O homem não deveria fugir da realidade, mas enfrentá-la. E a realidade a ser desvendada não é aquela superficial e corriqueira, porém a recalcada, sufocada em cada indivíduo. A Arte além de ser o melhor meio de expressão dos estados psíquicos, seria o melhor instrumento para alavancar o homem de seu interior profundo. Mesmo que se acredite no ser humano como composto de corpo físico e corpo espiritual, ao se tratar do Surrealismo fica-se mais à vontade limitando-se a falar apenas em "mente", e nisso percebemos sua face materialista e sua imanência. Descobrindo-se que o ser humano não é só aquilo em hodierno mostrado, são afastadas - ou mesmo abandonadas - as questões espirituais. Vamos ver primeiro o que o homem escondeu por todos estes séculos em seu âmago, para depois estudar se isto tem vida além da morte, se vai para o Céu, para o Inferno, ou se ficará perambulando pelo Nada. A leitura do capítulo catorze do livro O Desconcerto do Mundo - do Renascimento ao Surrealismo, de Carlos Felipe Moisés, dá a impressão do movimento ter tido em Portugal uma conotação mais política antisalazarista - que artística. Mais de contestação e de privilégio do choque que de investigação e chamamento à interiorização. No entanto, o Surrealismo original era declaradamente apolítico, apenas aliando-se surrealistas e comunistas por ocasião da guerra do Marrocos, mas sem intuito de confusão das doutrinas. Defendiam aqueles o máximo desvinculamento e liberdade, principalmente em relação à sociedade, devido à precisão de se livrar o homem da couraça por ele vestida perante ela. Nada externo deveria permanecer.

 


O Surrealismo considera a realidade aparente como insuficiente para o descobrimento da Verdade das coisas e para o conhecimento total do indivíduo. Como valer-se dos dados mesquinhos oferecidos no cotidiano, se o interessante ao conhecimento é soterrado pela convenção e pelo disfarce? A realidade apresentada em nada auxilia, está comprometida, ou mesmo invalidada, pois algo muito mais consistente foi abafado. A tarefa surreal era revelar uma Supra Realidade (o inconsciente, o inibido) e aproximá-la da Realidade, harmonizando-as, e n'esta equiparação entre o ser e o poder-ser, projectar um homem integral a horizontes mais amplos. É esta intenção em encarar o desconhecido no homem que impede em se ver o Surrealismo como uma apologia à fuga. E também não se trata de um mero apelo ao irreal ou fantasioso. Filosoficamente pode-se explicar o Surrealismo como esta síntese que (I) não aceita o real como posto e (II) nem admite a saída fácil para a fantasia. O ideal é uma nova ordem abrangente do racional e do irracional, considerando-se a mente receptiva o suficiente ao estranho, sendo este um conceito antecipado àquelas coisas que ainda não foram estudadas. Nesta introspecção, o surrealista valia-se do Humor, da Imaginação e da Loucura. O Humor era procurado por seu carácter demolidor. Ridicularizava-se a realidade com o intuito de desacreditá-la, mesmo que fosse necessário chocar. Mostrando o ridículo, facilitava-se o desligamento com o superficial. A exploração da Imaginação foi o que mais rendeu aos surrealistas. A capacidade de formar imagens ou combinar as percebidas era um prato cheio, pois o domínio da imaginação pode ter uma realidade tão grande quanto vislumbrada na vigília. E é o sonho o domínio da imaginação, pois neste "campo" ela encontra um curso livre principalmente do senso crítico. Algum filósofo da Antiguidade andou questionando a realidade que deveria ser considerada, se a de quando estamos acordados, se a de quando dormimos. Tão séria foi considerada esta descoberta, que o sonho passou a ter a mesma importância do pensamento na aquisição de conhecimento. Segundo Freud, o homem chegaria a uma consciência integral de si mesmo ao decifrar este mundo, com seus símbolos, desejos e inclinações reprimidas. Uma das consequências desta Supra Realidade oferecida pela imaginação é a eliminação do questionamento da possibilidade. Hoje parece fútil, mas vá ver o reboliço destas afirmações na época. O ser humano foi pego em posição constrangedora.

 


A consequência artística para esta observação dos sonhos, foi o estudo e acompanhamento da escrita automática, e neste campo entramos pela diferenciação entre concepção e execução. Todos já devem ter percebido que ao nos deitarmos, há um estado limite entre o sono e a vigília, no qual alguns ouvem vozes, outros murmuram, outros têm sobressaltos - eu tenho a impressão de queda neste momento. Pois bem, o poeta surrealista vê estes murmúrios e audições como elementos poéticos de primeira grandeza, pois o inconsciente impera e nenhuma regra constrange a pessoa neste instante. Até a hipnose é combatida, para que se chegue a este resultado naturalmente, sem a mínima provocação. Estas manifestações são avidamente anotadas e o resultado, seja qual for, é tido como poesia. Diante disso, podemos afirmar que o Surrealismo lida apenas com o expontâneo. Não lhe interessa o arrumado. Uma imagem surrealista não pode ser tida por metáfora nem, ao menos a priori, por fantasia. Um poeta qualquer compara o Tempo a um cavalo branco passando a pleno galope. O poeta surrealista menciona um cavalo branco a pleno galope e do contexto, da combinação com outras imagens que ele nos dá, tentamos inferir tratar-se do Tempo. Deve-se a esta suprema introspecção a critica recebida pelo movimento, pois tal subjectivismo impedia a compreensão alheia. Além do humor e da imaginação, a Loucura mereceu cuidadosa análise. O facto de uma pessoal normal sonhar coisas absurdas levou a atentar às imagens dos alienados e à análise dos raciocínios feitos por eles. Os loucos não se adaptam à existência cotidiana, mas em seu mundo há tanta estabilidade quanto no nosso. Talvez até mais. Os alienados e suas imagens: eis o que trouxe a arte aos manicómios como forma de terapia. Neste ponto são vários os aspectos a serem considerados. O surrealista busca este estado de anormalidade mesmo precisando alienar-se temporariamente, aqui sim recorrendo a meios artificiais e repetindo os actos de alguns românticos - conta-se do recurso ao ópio, por Colleridge. O surrealista faz esta expedição ao inconsciente, mas de forma a poder voltar e contar suas visões. Ele almeja reconstruir certos delírios. Outro ponto: descobrir mais sobre o raciocínio do homem normal valendo-se do raciocínio do alienado, considerando-o portador de uma lógica a nos escapar. O paranóico, por exemplo, além de refugiar-se n'um mundo particular, amolda a realidade circundante aos seus delírios. Aí o que intrigava os artistas da época, pois admitindo-se o ponto de partida do paranóico, e olhando a realidade a partir de sua perspectiva, tudo se deduzia com muita lógica e seguro encadeamento. Na síntese do real com o imaginário, aliado a este desconcertante encadeamento, considerava-se o pensamento alienado como uma amplificação do pensamento normal, com elos a nós despercebidos, e portanto digno de escrupuloso estudo. O Agressor, de Rosário Fusco, é um exemplo perfeito na literatura nacional desta investigação e reconstrução, e não se pode dizer que falta lógica a David em usas cogitações. Ao contrário, sua ideia segue um curso linear exemplar. Proposital ou não, no livro A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst, embora publicado em 1.982, encontramos vários destes elementos. A começar pela pontuação do texto. Todo o livro parece ser um apanhado das reflexões, memórias e monólogos interiores da personagem Hillé. Costumamos pontuar as orações em nossa mente, iniciá-las com letras maiúsculas, tal como se as transcrevêssemos no papel? Não, ou nem todos. Pois bem, em todo o texto vemos esta fuga às regras gramaticais, bem ao gosto dos surrealistas. É buscar na execução, a grafia do pensamento o mais próximo possível de como concebido. Se na obra de Hilda Hilst esta fuga às regras é uma constante, neste livro especialmente acabou por reforçar-lhe o carácter surreal.

 


A personagem é uma moderna Diógenes, encolhida n'um desvão de escada, procurando o sentido da vida e das coisas: "sessenta anos à procura do sentido das coisas". Pesquisa O "Eu" tão profundamente que no ponto onde chega estabelece algo como uma dízima periódica do raciocínio: "Los rios, las cadenas, la cárcel, o cárcere de si mesma, sessenta anos, adeus, Hillé, desconheces quase toda sua totalidade, que contornos havia aos quinze anos aos vinte, lá dentro do ventre, que águas, plasma e sangue, que rio te contornava? que geografia se desenhava no teu rosto, e o rosto daquela que te carregava na barriga, como era? como te carregava essa que habitavas? como eras, Hillé, antes que o amor surgisse entre aquelas duas almas, pai-mãe, quando ele era jovem e se perguntava que mulher se deitaria sob seu grande corpo..." Mas também sua origem e sua posição na ordem geral do Universo: "a vida foi, Hillé, como se eu tocasse sozinho um instrumento, qualquer um, baixo flautim, pistão, oboé, como se eu tocasse sozinho apenas um momento da partitura, mas o concerto todo onde está?" Esta devassa íntima evidentemente origina o desencaixe da personagem do meio no qual vive, perseguições, deboche, etc. E o Humor tem lugar quando, importunada por vizinhos empenhados em fazê-la "mudar de vida", Hillé levanta suas saias e expõe-se, chocando a todos. Este o ponto no qual lembrei do cínico grego. A Loucura está presente no livro a ponto de imaginá-lo autobiográfico. O pai da autora, assim como o da personagem, morreu em um hospício. Outros dois pontos: amor pelos cães - H.H. tem mais de setenta - e o refúgio em uma "Casa do Sol". Todavia, a personagem lamenta a morte de seu amante, e este facto não consta da biografia da escritora. Hillé não enlouquece, mas beira a insanidade em sua busca do conhecimento, encontrando com a morte ao menos parte das respostas as suas indagações. Não basta um livro ter algumas imagens fantasiosas para ser filiado ao Surrealismo, ou para afirmar-se a presença de "acentuados traços surrealistas". Tenho em mãos o excelente Retrato do Artista Quando Jovem Cão, de Dylan Thomas, escritor e poeta galês nascido em 1.914 e morto em 1.953. Estes "acentuados traços" são mencionados na orelha do livro e de todo o exposto até agora não se pode aceitar esta conclusão. Veja-se esta cena: "- Ela deve ter comido outro - eu disse, e peguei uma vara de coçar para cutucar a porca resmungona, esfregando-lhe em sentido contrário as incrustadas cerdas. - Ou então uma raposa pulou o muro. Não foi a porca nem a raposa - disse Gwilym. - Foi pai. Eu via o tio, alto, furtivo e vermelho, agarrando o porco que se debatia em suas mãos peludas, e afundando os dentes no quarto traseiro, mastigando-lhe ruidosamente os pés; sim, eu via o tio inclinar-se por cima do muro do chiqueiro, com as pernas do porco a saírem pela boca." Fantasioso, mas insuficiente para falar-se em Surrealismo. Não devemos aplicar os "ismos" aleatoriamente. As preocupações poéticas, formais e linguísticas de Dylan Thomas foram outras. Além de surrealista, já vi quem o classificasse como experimentalista e néo-romântico. Esta preocupação não deve atrapalhar a leitura fluente e agradável merecida pelo volume. É a primeira vez que leio "contos autobiográficos". Dez estórias narrando episódios da infância, adolescência e limiar da vida adulta, todas de forma bem humorada, algumas um pouco nostálgicas. Predominam as cenas de infância (só nos livros as crianças são toleráveis). Conforme ele cresce aumenta-lhe um sentido de inevitável solidão, bem perceptível no último conto, Um Sábado Quente. Os personagens reais ganham novo viço na narrativa, mostrando terem sido alvo de uma aguda observação, e os dados colectados revigorados mais tarde. A obra de Dylan Thomas foi muito popular em meados do século XX ainda mais pela visita feita aos Estados Unidos, apresentando-a. Tornou-se ídolo da hoje sacralizada Geração Beat - nada em seu desfavor, o que irrita é a idolatria - e seu nome foi usado na construção do nome artístico do músico Bob Dylan.

 

 

“E um dia as metáforas cansaram de seu papel secundário e tomaram a frente da arte, eram elas mesmas as personagens, o cenário,o figurino, a vida, a verdade.  Os símbolos começaram a falar com a própria voz e a arte nunca mais foi a mesma!”

Marco Antunes


 

 

 

 

Textos que podem ajudar aos participantes do 4º Desafio

 

2ª Provocação

VERDADE E POLÍTICA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcos Mendo de Mendonça

Acadêmico em Direito / FACET

 

 

 

 

 

 

Resumo- É uma análise da mentira organizada, a chamada mentira de Estado, ou da mentira de que se utiliza o governante para conseguir os seus objetivos. Contrapondo-se a ela está a verdade, tendo como maior auxiliar a ciência, posto que, desta forma, não há como se confirmar à mentira , organizada ou não, pois esta carece deste fundamento básico, porquanto ela não pode ser repetida, demonstrada, ou tornar-se verdade, que é o seu oposto axiológico, por argumentação da negativa, tais como os teoremas matemáticos. A liberdade e a consciência ética são ressaltadas, passando pela virtude, pela razão, e pela sabedoria, e a conclusão passa pela análise da ciência como forma de contrapor a mentira organizada.

 

Palavras chave – Estado, mentira, liberdade, verdade, ética.

 

 

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

Ao longo da história, temos visto exemplos marcantes de como os governantes, os políticos, e em seguida o próprio Estado, engendram mentiras, a chamada mentira organizada, ou mentira de Estado, sob o pretexto de salvaguardar interesses maiores ou o bem comum. Exemplos tais como a inquisição na Europa na idade média, que locupletou a igreja católica, e os cofres da monarquia, utilizando-se do radicalismo religioso para espoliar e praticar um genocídio, levando à expulsão ou a morte na fogueira os povos judeus e mouros que habitavam a península ibérica. Ou da colonização do continente africano pelos europeus sob o pretexto de humanizar aqueles povos. Tem-se também a história de Hitler com os conceitos de raça superior e com isto criar uma nação diferenciada que estivesse acima de qualquer outra levando o mundo a uma guerra onde milhões perderam a vida. Outro grande exemplo é a derrocada da União Soviética, que abraçou o comunismo sob a promessa de uma sociedade igualitária, censurou as comunicações e fez o povo acreditar que ali estava o melhor do mundo moderno, mas que não resistiu, e quando viu o Estado ameaçado em sua própria sobrevivência, procurou rapidamente a democracia, abriu sua economia, seus portos, devolveu a parte oriental da Alemanha, e caiu em uma realidade que era mais dura que a ideal comunista, já que esta não tinha um suporte sólido. Mais recentemente, o governo americano, através do presidente Bush, que fundamentado em informações do serviço secreto que dizia ter o Iraque armas de destruição em massa, invadiu aquele país, para mais tarde confirmar ao mundo que não existiam tais armas, mas apossou-se do petróleo, grande riqueza do subsolo iraquiano e combustível vital a economia americana.

 

Pode a verdade se contrapor à mentira organizada, que é aquela mentira que o político costuma usar para sob os mais diversos pretextos, como salvaguardar direitos, proteger o Estado, ou outras formas para enganar aos cidadãos? Desde os tempos em que o homem resolveu se juntar em grupos, formando aglomerações que depois passaram a se denominar de cidades, até os dias atuais, vê-se políticos e governantes, que sob o pretexto do bem comum, fazem com que a verdade seja uma mera formalidade, sobrepondo a esta, a mentira organizada, ou chamada de mentira de Estado, pois segundo aquele critério, e sob o pretexto de proteção ou a manutenção do Estado, esta seria autorizada, deixando-se de lado a ética a moral e a verdade como fonte. Para se opor à mentira, mentira organizada ou mentira de Estado, onde existe um princípio de que, em benefício do Estado e de um governo, é possível a derrogada de normas, tanto as de ética, quanto àquelas inseridas no positivismo que formam o ordenamento legal do país, chega-se ao entendimento de que é a análise dos fatos e a valoração dos mesmos, que irá, ajudados pela ciência, formar um convencimento  pleno da contraposição à mentira.

 

CONCEITO DE CIÊNCIA – MÉTODO CIENTÍFICO

 

O termo ciência dá a medida da verdade e do que é correto para a análise dos fatos, pois significa o conhecimento, e nos remete de certo modo ao termo sofos em grego, significado de conhecimento, que por sua vez vem a compor a palavra filosofia, palavra de origem grega que tem o significado de amor à sabedoria, e do estudo que se caracteriza pela intenção de ampliar incessantemente a compreensão da realidade. E o filósofo é aquele que tem paixão, que procede sempre com sabedoria e reflexão, buscando o conhecimento pela ciência. E a ciência exige experimentação para chegar-se à conclusão que os seus resultados são verdadeiros, e podem assim ser repetidos. A ciência organizada é o conhecimento que se adquire pela leitura e meditação, ou sabedoria. São conhecimentos organizados, que têm características próprias. Devem advir da observação de fatos e servir a determinado fim. O mais importante no método para a ciência, é a possibilidade da repetição dos fatos estudados. Assim a organização da ciência assume caráter científico.

 

A mentira, organizada ou não, carece deste fundamento básico porquanto ela não pode ser repetida, demonstrada, ou tornar-se verdade, que é o seu oposto axiológico, por argumentação da negativa, tais como os teoremas matemáticos. Não pode, pois, crescer posto que não existe, a não ser em exemplos da própria vida real, mas que, a cabo de algum tempo, se esvaem na própria articulação que criam. Isto para não falar das ciências normativas, que são aquelas que, com a lógica e a moral, traçam normas ao pensamento e à conduta humana. Desta forma, a ciência só pode crescer na verdade, pois assim terá a possibilidade de comprovação e da repetição, fundamentos básicos desta assertiva da ciência.

 

A luta contra a mentira tem que ser contínua, e não pode esmorecer com o tempo. Neste caso o papel do historiador é essencial. O papel do historiador é de permanentemente lembrar coisas e fatos que muitos fazem questão de esquecer, notadamente os políticos e governantes do momento. Ao historiador compete o importantíssimo papel de revelar o passado, e daí se tirar às conclusões que possam influenciar e controlar o presente. É vital ao historiador lutar contra a mentira, trazendo sempre os fatos junto com a verdade. Isto, embora na maioria das vezes quando chegamos a compreender as lições da história já é tarde, e a culpa é somente nossa, pois ela, a história, nos ensina continua e constantemente de forma clara  e inconfundível a memória de nossos valores.

 

O COMPORTAMENTO POLÍTICO, O GOVERNANTE

 

A existência da verdade é questionada a todo o momento pelos cidadãos que elegeram os governantes. Os exemplos de mentiras perpetradas por governantes ao longo da história, que só depois de algum tempo vem ao conhecimento público, tais como o comportamento dos reis católicos na Espanha na idade média, juntamente com a igreja católica na inquisição, os argumentos de Hitler para transformar a Alemanha em potência mundial, as mentiras do presidente Bush para justificar a invasão do Iraque, mostram o quanto os grandes políticos utilizam-se da mentira organizada, ou mentira de Estado, para justificar as suas finalidades, e que muita vezes redundam em catástrofes e genocídios. O comportamento político vem ao longo dos tempos se distanciando da verdade quando conveniente ao político. A mentira do Estado, aquela considerada necessária, nada mais é que um problema de natureza ética. A liberdade do indivíduo e de uma nação não pode ser afrontada por este tipo de comportamento. As leis e as constituições formam uma base que é a fonte do cidadão para guerrear o político que falseia a verdade. Para este político nada resta, a não ser a descoberta que em um determinado dia, que por certo virá, seja ele colocado no seu devido lugar na história, que na maioria das vezes é o esquecimento, ou a lembrança como algo a ser evitado.

 

O filósofo Platão, bem retratou na Alegoria da Caverna, capítulo VII de A República, como a verdade e por conseguinte o bem, pode ser diferente aos olhos daqueles que não a conhecem de fato, e nos mostra isto com todo o brilho, numa narrativa permeada de metáforas e plasmada com símbolos, e com a força poética insuperável. Para Platão a educação (Paidéia) seria o ponto de partida e principal instrumento de seleção e avaliação das aptidões de cada um. Sendo a alma humana (psikê) um composto de três partes: o apetite, a coragem, e a razão, todos nascem com essa combinação, só que uma delas predomina sobre as demais. Se alguém deixa envolver-se apenas pelas impressões geradas pelas sensações motivadas pelo apetite, termina pertencendo às classes inferiores. Por outro lado, se manifesta um espírito corajoso e resoluto, seguramente irá fazer parte da classe dos guardiões, dos soldados, responsáveis pela segurança da coletividade e pelas guerras. Finalmente , se o indivíduo deixa-se guiar pela sabedoria e pela razão é obvio que apresenta as melhores condições para se integrar nos setores diferentes desta almejada sociedade.

 

Desta forma, com cada indivíduo ocupando o espaço que lhe é devido, a justiça está feita. A justiça (dikê) é entendida não como uma distribuição equânime da igualdade, como modernamente se entende, mas como a necessidade de que cada um reconheça o seu lugar na sociedade segundo a natureza das coisas e não tente um espírito eminentemente conservador ao pretender que cada classe social se conforme com a situação que ocupa na sociedade (polis) e não  tente alterá-la ou subvertê-la. Os trabalhadores jamais poderiam reivindicar o poder político pois esse deve pertencer exclusivamente aos mais instruídos e mais sábios. Como se vê em sua alegoria, o filósofo Platão não pretende abolir as classes sociais, como muitos dos seus intérpretes afirmavam. Na alegoria, a narrativa de Platão adquire uma forma romântica, e incontestável de visão da vida.

 

Os homens agrilhoados no fundo de uma caverna acostumaram-se a ver o mundo somente através de sombras que eram projetadas no fundo da caverna, iluminadas por uma fogueira. Um dos homens decide desvencilhar-se dos grilhões, de súbito, um dos escravos volve o pescoço, liberta-se das correntes e dirige-se a saída da caverna. Este homem inicia uma escalada rumo a saída da caverna e cada passo dado por ele é como uma etapa iniciática rumo ao desconhecido que lhe atrai para fora progressivamente. Agora, no mundo exterior precisa acostumar-se a ver de outro modo, por não ter vivido a experiência de ver as coisas em sua própria realidade multicolor e pluridiversa, precisa, pouco a pouco, acostumar-se a primeiro as coisas que estão na superfície até poder erguer os olhos para os céus e ver o Cosmo em sua grandiosidade infinita e magnífica. O seu ver é revestido de uma realidade jamais vista, as coisas vistas por ele estão revestidas de uma aparência que reflete as cores, os aromas e os sons exalados de si próprias. Seu olhar agora é de espanto e desencadeia um desejo de identificá-las em sua mente como algo que possui vida e nome próprio. Apieda-se dos que lá ficaram no fundo da caverna e decide retornar. Seu maravilhamento além de ser estonteante é acompanhado de um sentimento filantrópico. Sente-se arrebatado e retorna a suas origens, ou seja, ao lugar onde viveu somente vendo sombras para poder dizer aos que lá permaneceram, que há um outro mundo a ser visto, diferente daquele. O seu retorno heróico lhe traz a incompreensão dos que habituados a viver nas sombras, por mais que narrasse o que havia visto, não conseguia convencer nenhum dos seus companheiros que lá estavam presos, e voltados para o fundo da caverna, que existia num mundo pleno de realidade onde as coisas não eram apenas revestidas de sombras. Eles o consideravam um louco e afirmavam que não valeria a pena ir até esse mundo diferente porque as pessoas se tornariam desvairadas e não mais falariam de modo a ser compreendidas. A insistência do homem liberto incomoda a todos os habitantes da caverna e ele pode ser preso, torturado e morto.

 

A romântica narrativa de Platão nos leva a entender como uma mentira, colocada como uma instituição organizada, de Estado, pode mudar e transfigurar a capacidade dos homens de discernimento. Homens algemados de pernas e pescoço desde a infância, numa caverna, e voltados contra a abertura da mesma, por onde entra a luz de uma fogueira acesa no exterior, não conhecem da realidade senão as sombras das figuras que passam, projetadas na parede, e os ecos das suas vozes. Se um dia soltassem um desses prisioneiros e os obrigassem a voltar-se e olhar para a luz, esses movimentos ser-lhe-iam penosos, e não saberia reconhecer os objetos. Mas, se o fizessem vir para fora, subir a ladeira  e olhar para as coisas até vencer o deslumbramento, acabaria por conhecer tudo perfeitamente e por desprezar o saber que possuía na caverna. Se voltasse para junto dos antigos companheiros, seria por eles troçado, como um visionário; e quem tentasse tirá-los daquela escravidão arriscar-se–ia mesmo a que o matassem. A relação entre a realidade e a ilusão ocupa a principal lição que nos é passada nesta bela narrativa de Platão na Grécia antiga.

 

O procedimento do homem, segundo Aristóteles, deve ser regulado pela virtude e razão, pois estas são as maiores venturas que o homem pode ter. Não é possível ser feliz quando não se faz o bem, isto é válido tanto para o homem quanto para o Estado, sem a virtude e a razão. Para Aristóteles, “na sociedade civil, a audácia, a coragem, a justiça e a razão produzem sob a mesma forma, igual efeito que no indivíduo, do qual fazem um homem justo, sereno e cheio de prudência.”. Ainda segundo Aristóteles, em A Política, as qualidades, ou as condições de atingir-se o bem coletivo, são de que, exista um ideal e que a finalidade a que se propõe seja digna de louvor. E que se achem quais os atos que podem levar a esse louvor (A Política, cap. XII, p. 140). Os objetivos dos políticos, não podem ser obtidos com as mentiras organizadas, mentiras de Estado, ou qualquer outra forma de esconder a verdade do povo, pois esta não é a forma ética de buscar-se o ideal político. Ao farpear a ética com objetivos de assenhorear-se de um governo, é indubitável que o político estará antevendo o seu fim.

 

PARA OS GOVERNANTES, OS MEIOS COMO JUSTIFICATIVA PARA OS FINS

 

Para Platão, o exercício do governo tem duas regras práticas: uma ter em vista apenas o bem público, sem se preocupar com sua situação pessoal; a segunda, não negligenciar uma parte para atender a outra, devendo suas preocupações ser de igual monta a todo o Estado. Esta primeira regra prática não deve passar pela entrega total visando o poder e a riqueza, pois nada é mais prejudicial que a ambição. O povo livre , onde todos são iguais perante a lei, há de exigir do governante moderação, severidade, e independência com relação ao bem público. E ao agir dessa maneira o governante acaba por atender indistintamente a uma e a outra parte, distribuindo justiça.

 

Em outra análise, temos o exemplo de Ferdinando, rei de Aragão, mais tarde rei de Espanha, transformado por suas conquistas em o primeiro rei da Cristandade. Segundo Maquiavel, em sua magistral obra O Príncipe, é a forma perfeita de como um governante, ou um príncipe, deve agir para ser estimado, ou seja com grandes empreendimentos e altos exemplos. Vejamos:

 

Além disso, para poder realizar empreendimentos ainda maiores, e sempre com o pretexto da religião, agiu com crueldade disfarçada em piedade, expulsando os mouros do seu reino e despojando-os; será difícil encontrarmos outro exemplo mais        raro e torpe.  (MAQUIAVEL, O Príncipe, cap. XXI, p.137)

 

Ainda da obra de Maquiavel, podemos deduzir que o governante para ser amado tem que ser cruel, ou melhor, que não deve se incomodar com esta reputação se o seu propósito é manter o povo unido e leal. Napoleão Bonaparte em comentário à obra de Maquiavel ( O Príncipe, p. 102, cap. XVII.), em relação à crueldade com o povo, como forma de manter-se no poder, observou, perfeito e sublime, as considerações de que o excesso de confiança não torne o governante incauto, e a desconfiança excessiva não o faça intolerante. Deduz-se daí, que tanto Maquiavel quanto Napoleão,consideravam mais importante do que fazer o bem, ser cruel com cautela e equilíbrio. Como, se para fazer o mal se precisasse de tanta humanidade e equilíbrio. Os príncipes (governantes) podem assim, segundo autorização dos pensamentos de Nicolau Maquiavel e Napoleão Bonaparte, serem circunstanciais quanto a ética, posto que, o seu objetivo final não poderia ser sacrificado pelos meios, sendo aqueles mais importantes. O princípio de que ao Estado, e ao governante, é dado à licença para em determinados casos seja o fato falseado para determinados fins de governo robusteceu-se naquela época.

 

A liberdade e a consciência ética andam juntas. Ninguém é livre em uma ditadura. Ninguém é livre em uma tirania, pois esta nasce de uma alteração da democracia, onde a cobiça da riqueza, e a ambição, deturpam os ideais iniciais. A liberdade se vê cerceada, privando o homem do seu bem maior. Só podemos ser realmente livres se exercermos democracia plena, com  a capacidade plena de conhecimento dos fatos ao nosso redor, e que digam respeito a todos. Quem nasce livre só deve morar em um Estado onde as liberdades sejam cultuadas. Esta é a liberdade do cidadão e de um Estado livre e de direito. Ao político não é dado o consentimento de mentir, ou de trazer a moralidade como uma bolsa escondida que nunca é trazida à tona. A formação de um Estado, ou de um governo, deve ter norteamento ético que respeitem o próprio ser da formação, pois ao abrir mão dos seus direitos, em prol de uma comunidade, o cidadão espera que o alcance disto não vá além de determinados limites, limites esses imposto pela moral, seja ela de qualquer origem, mas que esteja intrinsecamente estatuída. A força de um Estado sadio e vigoroso reside no sentimento nacional de justiça, que se mostra em ações práticas dos princípios da moral, da ética e de justiça.

 

CONHECIMENTO JURÍDICO – UMA DAS FORMAS DE CONTRAPOR A MENTIRA

 

O conhecimento jurídico é uma das formas que o cidadão encontra para contrapor o governante que utiliza a mentira organizada ou mentira de Estado. O conhecimento jurídico científico é neutro, e não emite qualquer juízo de valor acerca da opção adotada pelo órgão competente. Não há também distanciamento entre a ordem jurídica positiva e a moral. A norma formada, posta, pressupõe que houve uma conduta moral que levou a formação da mesma. No entanto após a norma estar posta, não se coloca como verídica ou inverídica a mesma, mas somente da eficácia dela na extensão da interpretação. A norma válida estatui uma conduta. Toda norma é dotada de sanção, portanto é dela que se deduz o funcionamento harmônico e coeso da sociedade. Não decorre portanto de opiniões. Pode, no entanto, a opinião sobre a norma fazer valer uma interpretação, porém é de boa lembrança que esta opinião, e a interpretação daí decorrente, tem natureza divergente ou até diferente da interpretação do Judiciário. Uma norma pode ser justa ou injusta para um indivíduo, mas não pode ser válida ou inválida. Pode ser aplicável ou não aplicável, dependendo da situação , do caso concreto, e o ato de competência jurídica é uma forma de interpretação.

 

As normas se baseiam em fundamentos jurídicos, que decorrem de um primeiro embasamento, que pode ser uma constituição, ou um marco jurídico qualquer. A partir daí torna-se superior, e garantem uma segurança jurídica ao estado, e ao cidadão. A superioridade normativa da Constituição traz, em sua noção conceitual, a idéia de um estatuto fundamental, cujo incontrastável valor jurídico atua como pressuposto de validade de toda ordem positiva instituída pelo Estado. Segundo Kelsen, “a interpretação de uma lei não deve necessariamente conduzir a uma única solução como sendo a única correta, mas possivelmente a várias soluções que – na medida em que apenas sejam aferidas pela lei a aplicar - têm igual valor, se bem que apenas uma delas se torne Direito positivo no ato do órgão aplicador do Direito – no ato do tribunal especialmente.” Dessa forma a interpretação da norma é amparada pela doutrina e pela jurisprudência.

 

A lei política estatui uma certa ordem de sucessão. Presume-se que depende de princípios que o Estado estabelece, e não pode ser posta em dúvida. O destinatário final é o povo, e a supremacia da lei é inquestionável. Ao político não se admitem interferências para por em dúvida a lei, que por sua vez decorre de fatos sociais, da moral e da ética, pois a liberdade consiste principalmente em não se ver forçado a fazer aquilo que a lei não ordena. E disto decorre que vivemos sob leis, e portanto sob este ordenamento somos livres. E graças às leis podemos nos opor à violência, da qual a mentira faz parte.

 

Diferenciando-se da mentira, organizada ou não, vem a opinião, que é aquilo que se conceitua advindo da norma, mas parte de análise de cada um, análise esta decorrente da hermenêutica, ou seja a forma de interpretação da mesma. É a interpretação sobre a aplicação da norma. Os pareceres são a manifestação sobre um assunto, em relação ao fenômeno jurídico. Espelham o ponto de vista de algum jurista em relação a um fato concreto, e a aplicação da norma à situação. È uma opinião. E esta pode ser certa, ou pode ser errada. Vai depender do julgamento que se faz da mesma, e especialmente de quem vai julgá-las. Partem portanto do pressuposto de serem analisadas. Na Bíblia, em Deuteronômio (30-31), o caminho de uma sociedade justa, fraterna, e igualitária é projetada na justiça. “O povo não pode desculpar-se perguntando: “O que devo fazer?” O caminho já está a seu alcance. Basta meditar nele, mudar a consciência e organizar a prática.”

 

A NORMA, E A LIBERDADE, COMO GARANTIA DO CIDADÃO CONTRA A MENTIRA

 

As modificações que ocorrem na sociedade formam conhecimentos e entendimentos, que em ultima análise podem vir a formar novas leis, regulamentos, ou normas. Embora  isto seja afeito ao legislador, não como análise da norma, nem com sua interpretação em relação à aplicação da mesma. E o governante não tem o direito de falsear para chegar a resultados ou objetivos declarados ou não, seja em beneficio de quem for. Vemos que o conhecimento da norma é essencial, vital, para a aplicação da mesma, enquanto que a opinião é a interpretação, tanto pelos operadores do direito, quanto pelos julgadores,  e governantes, e que se modificam com o passar do tempo para cunhar novos conceitos, e talvez novas normas. Podem conviver pacificamente, sem conflitos. Aliás, para o direito positivo se confirmar como direito, é necessária a interpretação da aplicação da norma, que em última análise forma a doutrina e a jurisprudência. Porém mais importante que a competência e a severidade das normas é a diligência e a vigilância que o cidadão pode exercer para que as mesmas sejam cumpridas. É necessária a constante vigilância para que as normas sejam dissuasórias. Na teoria egológica do direito, de Carlos Cossio, a norma não é o objeto da ciência do direito, pois esta é apenas conceitual, a representar uma conduta, e é tão somente o instrumento de expressão do direito. As normas, nesta teoria, não extinguem ou criam o direito, apenas o instrumentam. Dessa forma a participação do cidadão é determinante na obtenção de resultados práticos como forma de garantia da liberdade, da verdade, e do direito ao pleno conhecimento das coisas e fatos.

 

Norberto Bobbio, em A Era dos Direitos, defende a posição da liberdade como forma do homem manter-se com  dignidade e com a plenitude dos seus direitos, não sendo usado pelos políticos, ou sendo alvo de nenhuma forma de governo, ou governante, que venha a tentar se assenhorear dos seus direitos:

 

1. O alfa e o ômega da teoria política é o problema do poder: como o poder é adquirido, como é conservado e perdido, como é exercido, como é defendido e como é possível defender-se contra ele. Mas o mesmo problema pode ser considerado de dois pontos de vista diferentes, ou mesmo opostos: ex parte principis ou ex parte populi. Maquiveal ou Rousseau, para indicar dois símbolos. A teoria do Estado-potência, de Ranke a Meinecke e ao primeiro Weber, ou a teoria da soberania popular. A teoria do inevitável domínio de uma restrita classe política, minoria organizada, ou a teoria da ditadura do proletariado, de Marx a Lênin. O primeiro ponto de vista é o de quem se posiciona como conselheiro do príncipe, presume ou finge ser o porta-voz dos interesses nacionais, fala em nome do Estado presente; o segundo ponto de vista é o de quem se erige em defensor do povo, ou da massa, seja ela concebida como uma nação oprimida ou como uma classe explorada, de quem fala em nome do anti-Estado ou do Estado que será. Toda a história do pensamento político pode ser distinguida conforme se tenha posto o acento, como os primeiros, no dever e obediência, ou, como os segundos, no direito a resistência (ou revolução).

 

É a segunda premissa a que colocamos como forma do cidadão insurgir-se contra a mentira organizada, a mentira de Estado. A legitimidade do governante passa pela distinção de conceitos que a sociedade forma através do exercício do poder, tais como sufrágio, e a utilização da constituição como forma de alicerce. E a verdadeira revolução passa pelas formas que o cidadão dispõe ao seu alcance de guerrear a mentira organizada, ou o mau governante, e que são os meios legais, éticos e morais, da formação do Estado.

 

O professor da Universidade Autônoma do México, Oscar Correas, em palestra proferida no II Congresso Internacional Direito, Exclusão Social e Justiça, realizado em Salvador, Bahia, no ano de 2003, afirmou muito propriamente, que “o estado de direito é quando os funcionários públicos trabalham corretamente como têm que fazer, não como teriam que fazer”. Esta é a visão clara do que o cidadão espera do seu governante, e do Estado. A organização do homem em sociedade é uma necessidade, daí decorrendo todas as análises que o homem pode fazer de si mesmo, seja individualmente, seja em grupo.

 

Sendo a Justiça uma “priori” universal, conceito absoluto e necessário, voltamos ao jusnaturalismo. O pensamento jusnaturalista é concebido como de origem divina, e sendo feito por Deus para os homens, e nele há de se buscar a justiça social. De outro lado, por força da criação de normas para aqueles que dispõem de prestígio, liderança, e poder, nos remete ao direito positivo, lembrando as colocações de Marx, que o Estado nada mais é que um comitê a serviço da burguesia. E sendo a burguesia a maior autora e prioritariamente a destinatária das normas, então a última  assertiva é mais presente, atual, e certamente a maior afirmação do que é a Justiça, embora a busca da igualdade social, e da justiça ampla e irrestrita não possa deixar que haja acomodação da sociedade nesse sentido.

 

Deveria a lei ter a função social antes de qualquer outro atributo. O direito conta com um elemento constitutivo ideal, que é a justiça ou valores espirituais. Parte portanto de uma base espiritual, com valores morais e éticos. De outro lado, as classes e grupos dominantes procuram de todos os meios se assenhorearem do direito, como o têm feito ao longo da historia. Assim o direito toma uma feição de uma superestrutura fundamentada nas condições econômicas. Segundo Marx, “o progresso geral do espírito humano”, não pode explicar as relações jurídicas e de Estado. Forma-se assim a convicção de que o Estado, e o direito, fazem parte entremeadamente do poder que permeia a classe econômica no domínio da situação. E esta classe não é impermeável ao direito. Na verdade não existe classe impermeável ao Direito, a Lei, ou a Justiça. O que existe é uma forma de equilíbrio social, cuja pedra angular é o equilíbrio dos poderes do Estado, e cujo Direito, faz parte de uma delas. As vontades do grupo social, fazem com que a jurisprudência, ou os costumes, tenda a beneficiar determinadas classes sociais em detrimento de outras. Mas isto se dá na condução do Estado, e na forma de domínio que determinadas classes sociais exercem sobre o poder constituído. Temos exemplos ao longo da história, desde a Revolução de 1917  na Rússia, até os dias de hoje no Brasil, que quando determinada classe toma o poder, rompendo com o ordenamento legal ou se enquadrando no status vigente, mudam-se os conceitos para que haja uma adaptação ao modelo momentaneamente em vigor. Dessa forma sempre existe uma classe que dificilmente a Justiça e o Direito, e por conseguinte a Lei, conseguem alcançar, não por estar ela fora deste escopo, mas por estar de tal forma inserida no contexto do Estado, que dificilmente são vistos como contra legem.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A concepção de sociedade, oposta ao individualismo, é possível para justificar a democracia como uma boa forma de governo. Os indivíduos não podem se sobrepor a uma coletividade, pois estes tendem a desaparecer, sumir, sendo somente a comunidade fixa e estável capaz de sobreviver às diversas formas de governo. A liberdade e a existência dos direitos individuais deve ser garantida por uma constituição, pois só depois de garantida a liberdade dos cidadãos, é que o poder do governo, constituído pelos cidadãos que o controlam, virá. Os governos se acabam, e são levados às desgraças públicas quando esquecem e desprezam os direitos dos homens, dos cidadãos. E o reconhecimento das liberdades políticas, é uma conquista decorrente da liberdade individual e pessoal. A união dos indivíduos faz a diferença contra a mentira organizada que o político possa impor, ou tentar impor à sociedade.

 

Remontando aos gregos, diferenciamos opinião (doxa) e o conhecimento (episteme), sem que se busque o mérito da discussão sobre os termos e sua utilização. Mas parece ser uma das formas para a aplicação prática de uma resposta às verdades, aceitas e sabidas. O conhecimento (episteme) gera a verdade, enquanto que a opinião (doxa) decorre de interpretações do homem e do seu conhecimento, podendo inclusive levar ao desenvolvimento das ciências, muito embora, na maioria das vezes é apenas fruto de erro e não leva a nenhum lugar, e o erro é o oposto da verdade. O filósofo Parmênides, nos fragmentos de seu Poema, afirmou que “o homem deve seguir o caminho da verdade (fr 2, 8), isto é, do pensamento, da razão, e afastar-se do caminho da opinião, formada por seus hábitos, percepções, impressões sensíveis, que são ilusórias, imprecisas, mutáveis”.

 

Certamente, não é com a mentira, organizada ou não, que se alcançará qualquer objetivo político, ainda mais que, na sociedade moderna os meios de comunicação de massa podem exercer ampla vigilância para os atos de quaisquer políticos. Não se trata de escolher ou opor o bom ao ruim, o honesto ao que é do interesse de outro, mas desonesto, mas sim do que, sendo honesto, a escolha recaia entre qual seja mais necessário ser feito, e este deve ser o dilema do governante, do homem público. A honestidade consiste em descobrir a verdade pela capacidade própria mantendo a nobreza da alma, a justiça, e os conceitos éticos e morais, para ter como finalidade uma convivência pacífica e harmônica, executando tudo isto com palavras e ações, e oferecendo a cada uma na sociedade o que é seu, observando e respeitando fielmente as convenções. Nas artes e nas ciências é necessário apontar magistralmente ao alvo e aos objetivos que levam a eles. E disto não podem prescindir os políticos e governantes.

 

O papel do cidadão é fundamental na busca de uma sociedade mais justa, com os políticos exercendo o verdadeiro papel para o qual foram incumbidos, de representar o povo no exercício de um governo. Na atualidade de um país como o Brasil,  as associações de bairro são o primeiro e mais forte elo desta corrente, que se formará para intimidar o mau governante, pois trazem o verdadeiro anseio da comunidade e conseguem traduzir em votos a satisfação ou insatisfação com o governante. Modernamente, o papel das ONG´s também é fundamental, pois as mesmas conseguem um alcance maior de exposição na mídia, levando a uma parcela maior da sociedade a sua mensagem. Enfim, a organização da sociedade civil é vital a proteção da mesma contra a mentira organizada, o mau governante, e a má utilização do bem público. Não esquecendo que para tanto a educação é a pedra angular para a obtenção de resultados, que seja uma sociedade harmônica, coesa, justa, permeada de conceitos éticos e morais, e com a preocupação de a cada dia diminuir as diferenças e injustiças sociais.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

 

AURÉLIO Buarque de Holanda Ferreira.  Novo dicionário Aurélio. São Paulo: Nova Fronteira, 1975.

ARISTÓTELES.  Política. Trad. Torrieri Guimarães. São Paulo: Martin Claret, 2003.

BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulinas, 1990

BOBBIO, Norberto.  A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho.Rio de Janeiro: Campus, 1992.

JAEGER, Werner Wilhelm. Paidéia: a formação do homem grego. Trad. Artur M. Parreira. 2. ed.. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

KELSEN, Hans.  Teoria pura do direito. Trad. João Baptista Machado. 4. ed. Coimbra : Armênio Amado, 1976.

MAQUIAVEL, Nicolau.  O príncipe. Trad. Piero Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2003.

MONTESQUIEU.  Do espírito das leis. Trad. Jean Melville. São Paulo: Martin Claret, 2003.

MARX, Karl.  Friederich ENGELS (Org.).  O capital: crítica da economia política. Trad. Reginaldo Santana. 19ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

PLATÃO.  A república. Trad. Piero Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2003.

 

 

VERDADE E POLITICA


"Nunca ninguém duvidou que a verdade e a política sempre estiveram em bastante más relações e, tanto quanto eu saiba, também nunca ninguém incluiu a boa fé na classe das virtudes políticas. As mentiras sempre foram consideradas necessárias e justificáveis, não apenas à profissão do político e do demagogo, como até do próprio estadista.

A história do conflito entre verdade e política é uma velha e complicada história e nada se ganharia com a mera simplificação ou predicação moral. No decurso da história, os investigadores e todos os que contam a verdade tiveram sempre consciência dos riscos que enfrentavam; enquanto não se imiscuíam nos negócios do mundo, podiam ser alvo de troça, mas aqueles que, dentre eles, forçasse os seus concidadãos a tomá-lo a sério, tentando libertá-los da falsidade e da ilusão, arriscava a sua própria vida.
"Se eles pudessem pôr as mãos num (tal) homem... matá-lo-iam", escreve Platão, na última frase da alegoria da caverna, referindo-se ao homem que descobrisse que a realidade da caverna era uma ilusão.
Hobbes, não Platão, encontrava consolação na existência de uma verdade neutra, em !assuntos" com os quais os "homens não se preocupavam" - isto é, com "a verdade da matemática", "a doutrina das linhas e das figuras" que "não se sobrepõe a nenhuma ambição, proveito ou apetite humano". Porque, escrevera Hobbes, não duvido que, se fosse contrário ao direito de um homem, à dominação, ou ao interesse dos homens que detêm o poder, que os três ângiulos de um triângulo sejam equivalentes a dois ângulos de um quadrado, essa doutrina, a não poder ser contestada, seria ainda assim suprimida pelo lançamento à fogueira de todos os livros de geometria, desde que aqueles que fossem por ela afectados tivessem força e meios para isso.

A época moderna, que acredita que a verdade nem é dada nem revelada, mas produzida pela mente humana, tem, desde Leibniz, englobado as verdades matemáticas, científicas e filosóficas, na espécie comum das verdades da razão, e distintas das verdades de facto. Utilizarei esta distinção por comodidade, sem entrar na discussão da sua legitimidade intrínseca. No interesse de descobrir que danos pode o poder político infligir à verdade, investigaremos esse assunto por razões mais políticas do que filosóficas, e, permitimo-nos, por isso, deixar de lado a questão de saber o que é a verdade, contentando-nos em tomar a palavra na acepção em que os homens comummente a entendem. E se pensarmos agora em verdades de facto - em verdades tão modestas, como o papel de um homem chamado Trostky, durante a revolução russa, que não aparece em nenhum dos livros de História Russa soviéticos -, imediatamente tomamos consciência de quanto essas verdades são bem mais vulneráveis do que todas as espécies de verdades racionais juntas. Quando combate a verdade racional, a dominação (para usar a linguagem de Hobbes) ultrapassa, por assim dizer, os seus limites, mas, quando falsifica ou nega os factos através da mentira, trava o combate no seu próprio terreno.

Ainda que as verdades politicamente mais relevantes sejam as verdades de facto, o conflito entre a verdade e a política foi descoberto e articulado pela primeira vez em relação às verdades racionais. O oposto de uma verdade racional é, ou o erro e ignorância nas ciências, ou ilusão ou opinião na filosofia. A falsidade deliberada, a pura mentira desempenha o seu papel apenas no domínio dos enunciados factuais; e parece significativo, ou melhor estranho que, no longo debate centrado sobre o antagonismo entre a verdade e a política, desde Platão até Hobbes, aparentemente, ninguém tenha acreditado que a mentira organizada, tal como a conhecemos hoje em dia, tenha podido ser uma arma eficaz contra a verdade.

Provavelmente nenhuma época passada foi mais tolerante do que a nossa quanto a opiniões tão diversas sobre questões religiosas ou filosóficas, mas quando se trata de verdades de facto que colidem com o lucro ou o prazer de um determinado grupo são encaradas, nos dias de hoje, com uma hostilidade nunca vista em alguma época passada.

Sem dúvida que sempre existiram os segredos de estado, que todo o governo precisa de classificar certas informações e de as ocultar do conhecimento público, e que os que revela segredos autênticos sempre foram considerados como traidores. Porém não è com isso que me preocupo aqui. Os factos que tenho em vista são do conhecimento público e, apesar disso, o público que os conhece pode com êxito e muitas vezes espontaneamente transformar em tabu a sua discussão pública, lidando com eles como se fossem aquilo que não são, isto é, segredos.

Mesmo na Alemanha de Hitler e na Rússia de Estaline era mais perigoso falar de campos de concentração e de extermínio cuja existência não era nenhum segredo, do que criticar o racismo, o anti-semitismo ou o comunismo.

Encarada do ponto de vista da política, a verdade tem um carácter despótico. Daí que seja odiada por tiranos que temem, com razão, a concorrência de uma força coerciva que não são capazes de monopolizar; e desfruta de um estatuto relativamente precário para a perspectiva dos governos que se baseiam no consentimento e dispensam a coerção.

A marca distintiva das verdades de facto é que o seu contrário não é nem o erro nem a ilusão nem a opinião que, em si mesmas, não põem em causa a veracidade dos seus defensores, mas a falsidade deliberada ou mentira.

Hannah Arendt (adaptação)

 

 

1ª Provocação

 

Sobre o humor

Sylvio Roque de Guimarães Horta*

 

A palavra impressa no papel - a palavra não lida - assemelha-se a um germe latente, à espera de sua hora. Escreve-se na esperança de que alguém se contagie pelo lido, pelo impresso.

É como se as palavras fossem poros por onde vidas diversas pudessem se comunicar. Vidas humanas, é óbvio, pois o que são as palavras para um rinoceronte? O que, um livro para um jacaré?

É na vida - vida de cada um - que a palavra ganha sentido. Abre-se o livro e surge a palavra escrita. Grita-se e ouve-se, surge a palavra falada.

A palavra é, assim, abstração de realidade muito mais complexa - não as frases, sentenças, parágrafos, contextos escritos ou falados, mas realidade que se confunde com as coisas, pensamentos, sentimentos, humores. A palavra faz parte de toda uma experiência, postura, sabor de vida. E grande dificuldade nossa é, justamente, analisar esse enorme emaranhado de sentidos em que ela habita.

Há palavras que não podem ser ditas em certas situações, ficam proibidas. Em outras, são toleradas. Essa carga emocional, à qual estão aderidas, é responsável por muito dos problemas "intelectuais", que têm a sua origem, ao contrário do que se acredita, muito mais na falta de discriminação afetiva do que intelectual.

A nossa capacidade de visão, ou melhor, de abertura para a realidade, fica, dessa maneira, dependendo do quantum de verdade que podemos suportar. Conforme Santo Agostinho: Non intratur in veritatem, nisi per caritatem ... O que fazer? (1)

Retomando o fio, dizíamos que a palavra é uma abstração de realidade muito mais complexa, confundida com as coisas, com o pensamento, com os sentimentos, com os humores. Realidade onde se aloja o sentido das palavras.

Há um poema de Carlos Drummond de Andrade que manifesta bem - com palavras! - esse algo mais profundo do que a língua, do que a fala. Algo que pré-existe a ela, ou a qualquer linguagem:

... Anoitece, e o luar, modulado de dolentes canções que preexistem aos intrumentos de música, espalha no côncavo, já pleno de serras abruptas e de ignoradas jazidas, melancólica moleza (2).

 

Sobre isso escreve Ortega y Gasset:

" ... se tomarmos apenas o vocábulo e como tal vocábulo - amor, triângulo - ele não tem propriamente significação, pois dela só tem um fragmento. E se ao invés de tomar a palavra por si, em sua pura e estrita verbalidade, a dizemos, então é quando se carrega de significação efetiva e completa. Mas de onde vem para a palavra, para a linguagem, isso que lhe falta para cumprir a função que lhe é costume ser atribuída, isto é, a de significar, de ter sentido? Certamente não lhe vem de outras palavras, não lhe vem de nada do que até agora se chamou linguagem e que é o que aparece dissecado no vocabulário e na gramática, mas de fora dela, dos seres humanos que a utilizam, que a dizem em uma determinada situação. Nesta situação, são os seres humanos que falam, com a precisa inflexão de voz com que pronunciam, com a cara que põem enquanto o fazem, com os gestos concomitantes, liberados ou retidos, quem propriamente 'dizem'. As chamadas palavras são só um componente desse complexo de realidade e só são, efetivamente, palavras contanto que funcionem nesse complexo, inseparáveis dele (3)".

"O fenômeno torna-se claro no exemplo, sempre lembrado por Ortega, do freqüentador de um bar que dirige ao servente a palavra 'negra', o suficiente para receber em seguida uma caneca espumante de cerveja escura (4)".

"A coisa em sua trivialidade mesma é enorme, pois mostra-nos como todos os outros ingredientes de uma circunstância que não são palavras, que não são sensu stricto 'linguagem', possuem uma potencialidade enunciativa, e que, portanto, a linguagem consiste não só em dizer o que por si diz, mas em atualizar essa potencialidade dizente, significativa do contorno (5)".

Desse modo, uma das funções da linguagem é dar voz à realidade, mostrar a realidade. Deixá-la indecentemente nua. Por isso, quando estamos interessados em conhecê-la, a realidade única que é a minha vida, a sua vida - a realidade que cada um de nós vive por si mesmo, embora em ineludível convivência - temos que usar de uma lógica expositiva, que pratica uma dramatização dos conceitos.

Esse logos narrativo, rico em metáforas, foi batizado por Ortega de razão vital. Os conceitos - meros esquemas abstratos - adquirem, dessa maneira, sentido. O leitor é levado a repetir em sua própria vida os "gestos vitais" que levaram originalmente o escritor a se instalar em determinada dimensão da realidade.

Trata-se do estilo, único recurso para que se possa efetuar o nosso transporte à têmpera adequada, a partir da qual veremos a realidade na qual se instala o texto. "Uma das razões mais graves da última esterilidade intelectual de boa parte da obra de muitas épocas, e concretamente da que estamos vivendo, - ou talvez acabamos de viver - é a ausência do estilo - vital e literário - adequado para que a realidade se descubra e se manifeste. Acaso pode-se pensar que a realidade - que gosta de se esconder - entregar-se-á a qualquer um, simplesmente por acumular fatos e dados? (6)".

Há outro poema, do poeta Manoel de Barros (7), em que se fala desse nível mais profundo da linguagem, essa pré-linguagem, que não se identifica com os conceitos abstratos, nem com o racionalismo:

No que o homem se torne coisal -, corrompem-se nele os
veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana, que
empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um
inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé.
Esses vareios do dizer.

 

"Coisa tão velha como andar a pé...". Justamente o andar a pé, a experiência no seu sentido etimológico, a estrutura pré-teorética, na qual estamos instalados, é que necessita do estilo para ser percorrida.

Essa experiência da vida, já chamada, há muito, de sabedoria, constitui a estrutura saborosa da vida. Há várias palavras para designar essa estrutura, cada uma realça um de seus aspectos: têmpera, disposição, atitude, humor, postura. Diz Ortega: "A vida é angústia e entusiasmo e delícia e amargura e inumeráveis outras coisas. Precisamente porque é - manifestamente e em sua raiz - tantas coisas, não sabemos o que é. Nas religiões sincretistas da Roma imperial falava-se de Ísis miriônima. Também é a Vida uma realidade de mil nomes e o é porque consistindo originariamente em um certo sabor ou têmpera - o que Dilthey chama 'Lebensgefühl' e Heidegger 'Befindlichkeit' - esse sabor não é único, mas precisamente miriádico. A todo homem, ao longo de sua vida, lhe vai sabendo o seu viver com os mais diversos e antagônicos sabores. De outro modo, o fenômeno radical Vida não seria o enigma que é (8)".

Estrutura saborosa, têmpera, disposição de ânimo, humor são todas palavras aptas a nos mostrar facetas da nossa realidade, que é um modo de estar - não um estar espacial, mas um estar vivendo. Só que esse estar vivendo não é algo insosso, tem sempre um sabor, mesmo que seja um dissabor.

Tradicionalmente, essa sabedoria foi-nos transmitida através dos livros sapienciais com sua linguagem rica de provérbios, metáforas e narrativas. "Provérbio, em hebraico mashal, é palavra de significado muito mais amplo e dimensão mais religiosa do que sugere sua tradução. Mashal designa uma sentença que tem o poder de produzir uma realidade nova, ou de fazer reconhecer uma experiência vital do povo ou dos sábios e de impô-la como realidade válida (9)".

O humor aparece nesses provérbios também em seu sentido restrito de "aquilo que é engraçado". Esse humor sensu stricto sempre está em tudo que é verdadeiramente humano, dos mais ilustres profetas e sábios, aos mais comuns dos humanos (10).

A palavra humor já nos leva a pensar em uma realidade fluída, flexível, não-rígida. Como costuma acontecer com todas as instituições, a razão acabou por seguir a tendência de se afastar do humor, da brincadeira, do jogo; acabando por tornar-se fria e sem cor. É conhecida a rigidez, a impessoalidade da racionalidade vigente nos dias de hoje. Ortega nos lembra que as pessoas que não possuem sensibilidade e nem dão atenção para a arte são "reconhecidas por uma peculiar esclerose de todas aquelas funções que não são o seu estreito ofício. Até os seus movimentos físicos costumam ser torpes, sem graça nem soltura. O mesmo percebemos na inclinação de sua alma (11)".

O riso, a risada, o senso de humor são, conjuntamente com a seriedade, com o senso de responsabilidade, com o sentido do sagrado, manifestações de uma vida íntegra, bem-temperada. A palavra têmpera indica a presença de um equilíbrio, de uma mistura que modera os polos em conflito.

Encontramos bons exemplos dessa mistura de seriedade e graça, de peso e leveza, nos livros sapienciais, como a exortação ao preguiçoso em Provérbios (6,6): "Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, observa seu proceder e torna-te sábio! Ela, que não tem chefe, nem fiscal nem soberano, no verão prepara seu alimento, ajunta no tempo da ceifa sua comida. Até quando dormirás, ó preguiçoso, quando te levantarás do sono? Um pouco dormir, outro pouco cochilar, e mais um pouco cruzar as mãos para descansar, e tua pobreza virá pressurosa... (12)".

Acontece, também, o oposto. Um excesso de humor sem seriedade nos leva direto para a "esculhambação". O Brasil, considerado um país bem-humorado, não rígido - o que é ótimo -, revela para nós, porém, que há o lado sombrio dessa história. Ficamos, contudo, na indecisão: ser ou não ser um país sério, glorificar ou não, o jeitinho brasileiro? (13)

Sem dúvida, perder essa capacidade para o humor, essa espontaneidade, não seria vantagem alguma. Significaria abdicar da possibilidade de se tornar a criança sem a qual ninguém entra no reino dos céus. Sem a qual a vida fica sem graça...

Há quem fale da vida como um jogo, como disposição esportiva - mistura de seriedade e de faz-de-conta - estar in-ludere, instalados numa têmpera ilusionada, como dizem os espanhóis.

Homem = animal que ri. Definição, nessa altura, já não tão risível.

 

(*) Mestre e doutorando em Filosofia da Educação da Faculdade de Educação da USP.

(1) É possível se aprender a amar? Qual a relação entre a nossa fragmentação, a nossa falta de integração, isto é, o fato de não sermos íntegros, e a nossa capacidade de compreensão do real? Qual a r elação entre os nossos muitos lados e os múltiplos sentidos de uma palavra e o caráter multi-facetado da realidade? São realidades problemáticas que não podemos deixar de lado, mesmo que não tenhamos garantia de resposta.

(2) Andrade, Carlos Drummond. Nova Reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro, Ed. J. Olympio, 1983, p. 244.

(3) Ortega y Gasset, J. O Homem e a Gente. Rio de Janeiro, Livro Ibero-Americano, 1960, p. 267-268.

(4) Kujawski, Gilberto de Mello, A Pátria Descoberta, S.Paulo, Papirus Editora, 1992,p.71.

(5) Ortega y Gasset, J. O Homem e a Gente. Rio de Janeiro, Livro Ibero-Americano, 1960, p. 267-268.

(6) Marías, Julián. Ortega - las trayectorias. Madrid, Alianza Editorial, 1983, p. 142.

(7) Barros, Manuel de. Gramática Expositiva do Chão (Poesia quase toda). Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1990, p. 298.

(8) Ortega y Gasset, J. La Idea de Principio en Leibniz. Buenos Aires, Emecé Editores, 1958, p. 366.

(9) Bíblia Sagrada, Petrópolis, ed. Vozes, 1982, p. 754.

(10) É bom ficarmos atentos ao perigo de qualquer movimento ou ideologia em que não caiba o senso de humor. Isso é sinal de intolerância e rigidez. Por isso, apesar de seu aspecto cômico não-intencional, o "politicamente correto" não me sabe muito bem.

(11) Ortega y Gasset, J. El Espectador. Madrid, Bolaños y Aguilar, 1950, p. 398. A arte, como diz Ortega, é geralmente mais ligada à estrutura saborosa da vida, mas não está livre de cair na institucionalização.

(12) Em nosso mundo pop, também não faltam exemplos; há uma canção dos Beatles _ Within you, Without you _ que fala em salvar o mundo com o nosso amor, se pudéssemos retirar a muralha de ilusões que não nos deixa ver etc. A canção termina com uma simpática gargalhada que equilibra o tom um tanto patético que poderia se instalar.

(13) "... pois como o crepitar dos gravetos debaixo da caldeira assim é a risada do insensato" (Ecle 7,6).

Humor                   

Predisposição do espírito para o cómico. Diz-se de todas as situações que, num texto literário, provocam o riso. Para o pensamento antigo, de acordo com a célebre “teoria dos humores”, atribuída a Hipócrates (séc.V a.C.), existiam no corpo humano quatro líquidos ou humores (sangue, bílis negra, bílis amarela e fleuma) relacionados não só com quatro órgãos secretórios (coração, baço, fígado e cérebro) mas também com quatro elementos cósmicos (ar, terra, fogo e água). Seria o predomínio de um desses humores que determinaria o temperamento de cada ser humano, distinguindo-se os seguintes: sanguíneo, melancólico, colérico e fleumático. No séc. XVII, o termo ainda se encontrava associado à teoria formulada por Hipócrates, na qual o dramaturgo Inglês Ben Jonson se baseou para escrever a comédia Every Man in His Humour (1598).

     No século seguinte, a palavra humor começou a ser utilizada em Inglaterra no sentido que, de uma forma geral, lhe é atribuído actualmente. Opondo-se a wit, que é deliberado, cerebral e não envolve emoções, o humor implica uma atitude do Homem perante a vida e si próprio enquanto ser humano, pressupondo a consciência do seu carácter ridículo mas também sublime. O que distingue o humor é, no fundo, a atitude de simpatia humana que faz parte da sua natureza. O humor adquiriu densidade literária em Inglaterra no decurso do século XVIII através de autores como Jonathan Swift, Henry Fielding, Laurence Sterne e James Boswell. No panorama literário do séc. XIX, ocupou lugar de destaque aquela que é considerada por vários críticos como a obra-prima do humorismo britânico: The Pickwick Papers, de Charles Dickens. Destacou-se ainda William Makepeace Thackeray, romancista que defendia que o humor se deveria revestir de um carácter educativo, didáctico. Thackeray foi um dos primeiros redactores da revista Punch. Tendo surgido em Inglaterra em 1841, na época da “moral vitoriana”, esta publicação caracterizou-se, desde o seu início, pelo seu carácter satírico associado à vertente humorística. Nos últimos anos da era vitoriana, a ironia e o paradoxo aliaram-se ao humor. No contexto literário irlandês, adquiriram relevo Oscar Wilde, George Bernard Shaw e Gilbert K. Chesterton. Já no séc. XX, as personagens de Pelham G. Wodehouse podem ser consideradas arquétipos do humorismo britânico.

     Como a própria referência à produção literária deixa evidenciar, qualquer tentativa de definição de humor se depara com a dificuldade de delimitar o seu domínio, uma vez que este se articula não raras vezes na literatura com a paródia, a sátira, a ironia, a caricatura, o paradoxo, etc. São vários os estudos consagrados ao humor em articulação com o Cómico, destacando-se o de Theodor Lipps e Richard M. Werner, intitulado Komik und Humor (Comicidade e Humor), que serviu de ponto de partida para a obra Der Witz und seine Beziehung zum Unbewussten (Os chistes e a sua relação com o inconsciente), da autoria de Sigmund Freud. Também essencial para a compreensão dos mecanismos do humor é Le Rire (O Riso), de Henri Bergson. Todas estas obras nos dão conta da complexidade do humor. Segundo Freud, este é uma das mais altas manifestações psíquicas e consiste num meio de obter prazer apesar dos afectos dolorosos que interagem com ele, já que se coloca no lugar desses mesmos afectos. Quem é vítima de ofensa, dor, etc, pode sentir um prazer humorístico; quem não é envolvido por esses afectos penosos ri, obtendo um prazer cómico. Conclui, assim, que o prazer no humor advém de uma “economia na despesa com o sentimento”. (op.cit., p. 265). Por outro lado, Bergson considera que o humor é o inverso da ironia, mas, tal como esta, uma forma da sátira: “Acentua-se o humor […] descendo cada vez mais ao interior do mal real, para notar as suas particularidades com uma mais fria indiferença.” (op. cit, p. 92). Refere ainda que “o humor se dá bem com os termos concretos, com os pormenores técnicos, com os factos precisos.” (p. 92), fazendo residir nessa espécie de postulado a essência daquele.

     Actualmente, no contexto literário, o humor é fundamentalmente a capacidade de exprimir as excentricidades de determinada acção ou situação que são susceptíveis de provocar o riso. Contudo, apesar de afirmar ou denunciar aquilo que é potencialmente risível, o humor não é forçosamente alegre, mas pode ser decerto uma arma literária «vigorosa». Na literatura portuguesa, o humor encontra-se presente sobretudo nas obras de autores como Aquilino Ribeiro, Almada Negreiros, Vitorino Nemésio, Alexandre Pinheiro Torres, Mário Cesariny, Alexandre O’Neill, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho. É possível também encontrar efeitos humorísticos na lírica galego-portuguesa, assim como em Gil Vicente e Camões, na poesia barroca, e em autores como Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco ou Eça de Queirós. A nível da imprensa, o humor marcou ainda presença nos jornais António Maria e Pontos nos ii, dirigidos por Rafael Bordalo Pinheiro.

CÓMICO; HUMOR NEGRO 

Bib.: Henri Bergson: O Riso (Lisboa, 1993); Mário Martins: O riso, o sorriso e a paródia na literatura portuguesa de quatrocentos (Lisboa, 1978); J. Cândido Martins: Teoria da Paródia Surrealista (Braga, 1995); Sigmund Freud: Os chistes e a sua relação com o inconsciente (Rio de Janeiro, 1977); Neil Schaeffer: The Art of Laughter (New York, 1981). 

Catarina de Castro

CÓMICO

Termo de origem grega (kômikós), que chegou até nós pelo latim comicu-. De ampla aplicação, traduz, textualmente, a conciliação de ideias ou de situações aparentemente irreconciliáveis. Essa conciliação é produzida através de um raciocínio engenhoso com a intenção de produzir o riso através do texto literário.

     A matéria cómica presta-se a uma dupla interpretação e, por essa razão, produz no espírito humano uma dupla impressão: de lógica e, simultaneamente, de absurdo. O riso é o resultado da nossa aceitação de duas ideias ou situações aparentemente irreconciliáveis. O cómico visa normalmente a solução de uma tensão através do riso.  David Fairley-Hills considera a incongruência como fonte do cómico já reconhecida pela tradição: “The comic […] arises from the incongruities between opposed ways of regarding the same ideas or images. That incongruity is a necessary ingredient of the comic has long been recognised. In Renaissance theories of the comic the role of incongruity was thought to be crucial. Hutcheson bases his understanding of the comic on the function of incongruities: ‘the cause of laughter is the bringing together of images which have contrary additional ideas, as well as some resemblance in the principal idea.’ ” (The Comic in Renaissance Comedy, Macmillan Press, London, 1981, p.20).    

     Apesar de ser tradicionalmente associado à comédia, o cómico manifesta-se também em textos poéticos e narrativos. Por outro lado, o cómico não tem apenas um carácter lúdico associado ao prazer. O riso aparece muito frequentemente no texto literário associado a uma função didáctica, cumprindo a célebre máxima latina: “Ridendo castigat mores” (É com o riso que se corrigem os costumes). Entre as noções de cómico e comédia, podemos estabelecer algumas relações. De uma forma geral, a comédia provoca o riso pondo em relevo excentricidades ou incongruências de carácter, da linguagem ou da acção. Na comédia, normalmente coexistem os vários tipos de cómico. O predomínio de um deles torna possível estabelecer as seguintes relações: o chamado cómico de situação, que resulta do próprio enredo, é característico da comédia de acontecimento ou de intriga; o cómico de carácter, resultante do temperamento das personagens, caracteriza a comédia de caracteres; o cómico de costumes, que explora as convenções e falsos valores da sociedade, é relacionável com a comédia de sociedade ou de costumes. Nesta última e na comédia de caracteres, a sátira assume-se como uma das mais fortes manifestações do cómico.

     Além da sátira, podem também ser manifestações do cómico a ironia, o humor, a caricatura, o pastiche, a paródia, etc. Jean Sareil (1984) considera que uma das fontes privilegiadas do cómico textual consiste no recurso aos clichés, que tanto podem surgir tomados à letra como alterados. 

     Na história da Psicologia, da Filosofia e da Teoria Literária, existem diversas tentativas de explicação do fenómeno do riso. Aristóteles, na sua Poética, considera que o cómico consiste no prazer de nos rirmos daquilo que é desagradável ou que tem defeitos. Segundo Kant, seria na contradição entre a expectativa e a realidade que residiria a essência do cómico. Já para Schopenhauer, este resultaria da incongruência existente entre uma ideia e o objecto real a que se pretende aplicar essa ideia. Por seu lado, Vischer sugere o absurdo e a incoerência como causas do cómico.

     O filósofo Francês Henri Bergson realizou um dos mais aprofundados estudos sobre o cómico. Na obra O Riso, encontram-se reunidos três artigos de fundamental importância para a compreensão dos mecanismos da comicidade. Bergson salienta que o cómico é um fenómeno exclusivamente humano, destacando ainda que este se dirige à inteligência. De acordo com esta teoria intelectualista, as emoções seriam um obstáculo à produção do riso. Seria assim necessária uma “anestesia momentânea do coração” (p. 19) para que o cómico produzisse o seu efeito. O vector essencial do pensamento deste filósofo consiste na ideia de que o riso tem uma função social (visa o aperfeiçoamento do Homem) e, por essa razão, o seu meio natural é a sociedade. Segundo este autor, “o riso deve preencher certas exigências da vida em comum, deve ter um significado social.” (O Riso, Guimarães Editores, Lisboa, 1993, p.21)

     Os vários tipos de cómico surgem categorizados na obra de Bergson de acordo com uma perspectiva que faz residir na fusão entre o “mecânico” e o “vivente” a essência da comicidade. Assim, o cómico das formas resultaria essencialmente da rigidez adquirida por uma fisionomia e o cómico dos movimentos teria origem nas atitudes, gestos ou movimentos mecânicos com carácter repetitivo. Bergson associa a este tipo de cómico os artifícios usuais da comédia, referindo como exemplos “a repetição periódica duma palavra ou duma cena, a interversão simétrica dos papéis, o desenvolvimento geométrico dos quiproquós” (p. 37). O cómico de situação resultaria da repetição insistente de determinada acontecimento ou da inversão dos papéis das personagens face a uma dada situação. Poderia ainda resultar daquilo que Bergson designa como “interferência das séries” (p.74), ou seja, uma situação seria cómica quando pertencesse em simultâneo a duas séries de acontecimentos independentes e ao mesmo tempo se pudesse interpretar em dois sentidos opostos. O cómico de palavras teria origem na aplicação à linguagem dos processos de “repetição”, “inversão” e “interferência”. Ligado a este último tipo de cómico, estaria ainda a “transposição”. A paródia seria resultado de uma transposição do solene para o familiar. Por outro lado, o exagero resultante do processo de transposição da grandeza ou do valor dos objectos também poderia ser cómico. Bergson enquadra ainda neste processo a ironia e o humor. Concebendo a linguagem como uma obra humana, considera ser essa a razão por que ela pode produzir efeitos risíveis. Por fim, o cómico de carácter derivaria essencialmente da falta de integração da personagem na sociedade e de algo semelhante a uma distracção da própria personagem.    

     Também de fundamental importância para uma tentativa de compreensão do fenómeno do riso é o estudo realizado por Sigmund Freud, intitulado Os chistes e a sua relação como o inconsciente. Nesta obra, que se centra numa expressão concreta do cómico – a anedota – Freud procede à abordagem dos mais importantes meios de criação da comicidade. Concebe o cómico como um meio de obtenção de prazer e de superação da dor. Considera que para a compreensão da natureza do cómico é essencial estudar os meios que servem para tornar as coisas cómicas. Faz referência sobretudo à caricatura, à paródia e ao desmascaramento, considerando-os fontes de prazer cómico que resultam da degradação. Freud refere-se ainda à “disposição eufórica” como sendo a condição mais favorável à produção do prazer cómico. Também favorável a esse prazer seria, segundo esta visão, a “expectativa” do cómico. Por outro lado, seriam condições desfavoráveis o trabalho intelectual e os afectos.   

     Na obra The Art of Laughter, Neil Schaeffer desenvolve uma perspectiva de abordagem do riso que valoriza o papel do indivíduo no processo de criação da comicidade. Esse papel é, no entanto, definido de uma forma muito particular. Qualquer acontecimento está sempre sujeito a diversas interpretações, as quais dependem das instruções que presumimos estarem contidas nesse acontecimento ou que nós próprios impomos sobre o mesmo. É esse conjunto de instruções que, segundo Schaeffer, permite que o cómico se manifeste na mente daquele que observa, independentemente de o acontecimento ser literário ou natural. Schaeffer critica as teorias do riso que interpretam o cómico como meramente resultante de um trabalho de deformação da realidade por parte do artista. Dirige também a sua crítica à teoria que considera o riso uma reacção humana a tudo o que apresenta algo de risível. Opondo-se a essa perspectiva em que a imaginação tem um papel passivo, o crítico coloca a tónica não na valorização do objecto cómico, mas antes no sujeito que ri: “There can be nothing in nature that can be termed purely ludicrous without reference to the human nature that so perceives and laughs at it…” (The Art of Laughter, Columbia University Press, New York, 1981, p. 5). Os conceitos de incongruência e contexto são fundamentais na teoria desenvolvida por este crítico. Schaeffer defende que na origem do riso está uma incongruência apresentada num contexto do qual estão ausentes a moralidade ou a razão: “What the ludicrous context does is to suggest that for the purpose of pleasure, and during the extent of the ludicrous event, we may allow ourselves to suspend the rules by which we normally live – the laws of nature, the restrictions of morality, the sequences of logical thought, the demands of rationality – in short, we are encouraged to suspend the internal law of gravity, our seriousness.” (op. cit, p. 19). Schaeffer considera que o riso é o resultado de uma incongruência apresentada num contexto assim definido. 

     As reflexões sobre o cómico contam já, de facto, com uma longa tradição, embora nem sempre abonatória. Na sua famosa obra A República, Platão condenava o uso do cómico nas suas diversas manifestações. Aristóteles, na Poética, dedicou a sua atenção não só à tragédia e à epopeia, mas também à comédia. Cícero - com os livros Brutus, Orator e, fundamentalmente, De Oratore – assumiu uma posição de relevo na teorização do cómico. Quintiliano forneceu-nos também um prestável contributo com a exposição que fez sobre o cómico no Livro VI, Cap. 3 - «De Risu» - da sua obra Institutio Oratoria.

     Intrinsecamente ligado à mente humana, o cómico tem surgido sempre associado ao Social. Como realça Wolfgang Keyser, “sem a uniformidade de disposição nos grupos não há cómico. É idiota […] aquele que, só para uso próprio descobre o cómico e ri sòzinho, sem que os outros, à sua volta, se apercebam do ridículo.” (Análise e interpretação da obra literária, Arménio Amado, Coimbra, 1970, p.302). E é só porque o cómico pode assumir uma dimensão social é que, aliado à sátira, pode cumprir uma função didáctica associada à correcção dos costumes. Aliás, essa tradição de pendor moral deixou fortes marcas na literatura portuguesa. Embora centrada em textos literários do século XV, a obra de Mário Martins intitulada O riso, o sorriso e a paródia na literatura portuguesa de quatrocentos é bastante elucidativa da função moralizadora do cómico, comprovando que o riso pode ser prazer e também aprendizagem.

 

  ANEDOTA; COMÉDIA; CÓMICO DE CARÁCTER; CÓMICO DE LINGUAGEM; CÓMICO DE SITUAÇÃO; HUMOR; HUMOR NEGRO; PARÓDIA

 

Bib.: David Farley-Hills: The Comic in Renaissance Comedy (London, 1981); Henri Bergson: O Riso (Lisboa, 1993); J. Cândido Martins: Teoria da Paródia Surrealista (Braga, 1995); Jean Sareil, L’Écriture Comique (Paris,1984); Mário Martins: O riso, o sorriso e a paródia na literatura portuguesa de quatrocentos (Lisboa, 1978); Sigmund Freud: Os chistes e a sua relação com o inconsciente (Rio de Janeiro, 1977); Neil Schaeffer: The Art of Laughter (New York, 1981; Wolfgang Keyser: Análise e interpretação da obra literária (Coimbra, 1970).

 

Catarina de Castro

 

 

HUMOR NEGRO

Manifestação de humor desconcertante e com carácter libertário em que elementos macabros, absurdos ou violentos se associam ao cómico.

O conceito de humor negro foi introduzido pelo surrealista André Breton na primeira edição da sua Anthologie de l’humour noir (1940), em que se encontram reunidos textos de autores que vão de Swift a Sade, Kafka, Hans Arp, Salvador Dali e Benjamin Péret. No prefácio, Breton – influenciado pelas concepções de humor formuladas por Hegel e Freud – perspectiva o humor negro como uma “revolta superior do espírito” e sintetiza-o da seguinte forma: “L’humour noir est borné par trop de choses, telles que la bêtise, l’ironie sceptique, la plaisanterie sans gravité […], mais il est par excellence l’ennemi mortel de la sentimentalité á l’air perpétuellement aux abois […] et d’une certaine fantasie à court terme, qui se donne trop souvent pour la poesie.” (Anthologie de l’humour noir, ed. por Jean-Jacques Pauvert, 1966, p. 16). Associado ao Surrealismo, este humor desconcertante é, assim, libertador e sinónimo de denúncia / revolta. Outro aspecto a ter em conta é o príncipio do prazer, resultante do efeito de surpreender e divertir através da palavra. Segundo Maria Manuela Pardal Krühler, “uma escrita que se pauta pelo prazer e que dele vive conduz-nos invariavelmente ao discurso sedutor, aos efeitos de sedução que brotam das palavras, sobretudo quando estas jogam com os interditos. É o caso do humor, e muito particularmente do humor negro.” («Humor Negro e Surrealismo na Obra de Mário Henrique Leiria», Tese mestr. Lit. Comparadas Port. e Francesa, Univ. Nova de Lisboa, 1994, p. 6).

Os romances Catch-22 (1961), de Joseph Heller, e  Slaughterhouse Five (1969), de Kurt Vonnegut, ilustram ambos situações literárias em que o humor surge associado aos perigos e tensões da Segunda Guerra Mundial. A técnica do humor negro foi também usada por Thomas Pynchon nas obras V (1963) e Gravity’s Rainbow (1973).

Na Antologia de Humor Negro editada por J. Vilhena, estão reunidos contos de autores como Jonathan Swift, Alphonse Allais, Eugène Chavette, Angel Palomino, Tristan Bernard, Sacha Guitry, Robert Sheckley, Ronald Dahl, Eugéne Mouton, Júlio Camba e André Frédérique. Tanto nos textos como nas ilustrações que os acompanham, o humor é desenvolvido sobretudo em torno da temática da morte e da violência gratuita, como é próprio do Surrealismo. A mutilação e o canibalismo são interditos a que os autores também recorrem. Bastante desconcertante é, por exemplo, o diálogo estabelecido no conto «O Ingrato», de Eugène Chavette, entre um escriturário e um condenado à morte que se recusa a ser executado: “Escriturário: Ah! Já sei! […] É o medo de fazer despesas que te não deixa vir! Mas, oh! Ignorante! Não sabes que todas as despesas de execução correm por conta dos Estado!? É o Estado que paga tudo: carrasco, ajudantes, óleo para lubrificar a guilhotina…tudo. És um homem cheio de sorte./ Condenado: Não preciso de esmolas.” (Antologia de Humor Negro, Oeiras, D. L. 1967, p. 31).

São vários os críticos que destacam a revolta contra a ordem social, o carácter anti-conformista e libertário do humor negro surrealista. É o caso de J. Cândido Martins, que o considera “um poderoso antídoto contra os excessos da sentimentalidade ou do conformismo, contra as arbitrariedades do Poder e dos saberes instituídos.” (Teoria da Paródia Surrealista, APPACDM, Braga, 1995, p. 222). Esta concepção é também aplicável aos surrealistas do nosso país. O humor negro desempenhou importante papel no Surrealismo português, encontrando-se presente na obra de autores de destaque como Mário Cesariny ou Alexandre O’Neill. Podem ser encontrados ainda vários exemplos de textos ilustrativos desta concepção na obra O Surrealismo em Portugal (1987), onde Fátima Marinho faz um estudo crítico desta corrente e apresenta em apêndice inéditos de alguns dos mais representativos autores surrealistas do nosso país, tais como António Pedro, Mário Henrique Leiria, Pedro Oom, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa, entre outros. Outra obra de referência é a Antologia do Humor Português (1969), organizada por Vergílio Martinho e Ernesto Sampaio.      

     O conceito de humor negro expande-se para além do domínio literário. Marca também forte presença no campo do desenho humorístico, como, por exemplo, na obra de Claude Serre intitulada Humour Noir & Hommes en Blanc (Humor Negro & Batas Brancas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985). A nível do cinema, destaca-se a película Dr. Strangelove (1963), realizada por Stanley Kubrick.

CÓMICO; HUMOR

Bib.: André Breton: Anthologie de l’humour noir (1966), ed. por Jean-Jacques Pauvert; Franco Fortini: O Movimento Surrealista (Lisboa: 1980); Gérard Durozoi & Bernard Lecherbonnier: O Surrealismo (Coimbra, 1976); J. Cândido Martins, “Humor negro surrealista ou o riso libertador”, in Teoria da Paródia Surrealista (Braga, 1995); J. Vilhena (ed.): Antologia de Humor Negro (Oeiras, D.L.1967); Jules-François Dupuis: História Desenvolta do Surrealismo (Lisboa, 1979); Maria de Fátima Marinho: O Surrealismo em Portugal (Lisboa, 1987); Yvonne Duplessis: O Surrealismo (Lisboa, 1983); Maria Manuela Pardal Krühler: «Humor Negro e Surrealismo na Obra de Mário Henrique Leiria» (1994)

Catarina de Castro

 

http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/H/humor.htm