
Rob Gonsalves (Toronto, 1959) é um artista canadense,
mestre da arte fantástica, suas obras criam ilusões e interagem entre o mundo
real e o imaginário fazendo com que o espectador reflita sobre o que está vendo
e tente desvendar os mistérios destas obras. A arte de Rob Gonsalves. Desenhos
incrivelmente detalhados de Rob Gonsalves, cada peça guarda inúmeras surpresas.
Para entender e vizualizar os
mistérios de suas obras é preciso observar, entrar em seu mundo encantado e
magnífico. Parar, observar e se questionar sobre o que realmente está vendo. E
isto não é nada difícil, e é até muito prazeroso!
Suas obras são comparadas com as
de Maurits Cornelis Escher
Suas ilusões fazem ligações entre
mundos distintos, unem o real e o fantástico. Rob Gonsalves não nos responde
qual é de fato a realidade, isto é função de quem se dispõe a explorar as suas
telas.
A mensagem principal de suas
obras é que não podemos, e nem devemos acreditar do que enxergamos logo no
primeiro momento. Analisar e se deixar surpreender. É o tipo de pintura onde
você consegue captar realidades paralelas distintas em um mesmo quadro.
Vale a pena parar um instante e
observar as suas obras, com cuidado e atenção e livre de conceitos previamente
estabelecidos, com olhar de uma criança.
Assim é o mundo da arte, sem
fronteiras, sem barreiras, onde tudo é possível e tudo está em constante
transormação.
Rob Gonsalves ainda produz
diversas telas, está estabelecido no mercado internacional, e pode ser
comparado também a Rene Magritte e suas viagens fantásticas!
Manifesto do
Surrealismo
(André Breton - 1924)
Se
preferir, faça o download do manifesto do surrealismo para o seu computador
através deste link
Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem
entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador
definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos
objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase
sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe
repugnou tomar sua decisão ( o que ele chama decisão! ) . Bem modesto é agora o
seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se
meteu; sua riqueza ou sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso,
continua recém-nascido, e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito
que lhe é indiferente. SE conservar alguma lucidez, não poderá senão
recordar-se de sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais
massacrada que tenha sido com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de
qualquer rigorismo conhecido lhe dá a perspectiva de levar diversas vidas ao
mesmo tempo; ele se agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade
momentânea, extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa
sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes.
Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai dormir.
Mas é verdade que não se pode ir tão longe, não é uma questão de
distância apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte da
posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só se lhe
permite atuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de
assumir por muito tempo esse papel inferior, e quando chega ao vigésimo ano
prefere, em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.
Procure ele mais tarde, daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a
pouco lhe faltam razões para viver,
incapaz como ficou de enfrentar uma situação excepcional, como seja o
amor, ele muito dificilmente o conseguirá. É que ele doravante pertence, de
corpo e alma, a uma necessidade prática imperativa, que não permite ser
desconsiderada. Faltará amplidão a seus gostos, envergadura a suas idéias. De
tudo que lhe acontece e pode lhe acontecer, ele só vai reter o que for ligação
deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não toma parte,
eventos perdidos. Que digo, ele fará sua avaliação em relação a um desses
acontecimentos, menos aflitivo que os outros, em suas conseqüências. Ele não
descobrirá aí, sob pretexto algum, sua salvação.
Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares.
Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero
apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem
dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós
herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida.
Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão,
fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é
rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá
contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a
interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem
receio de me enganar ( como se fosse possível enganar-se mais ainda ). Onde
começa ela a ficar nociva, e onde se detém a confiança do espírito? Para o
espírito, a possibilidade de errar não é, antes, a contingência do bem?
Fica a loucura. “a loucura que é encarcerada”, como já se disse bem.
Essa ou a outra.. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem sua
internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis, e que,
não houvesse estes atos, sua liberdade ( o que se vê de sua liberdade ) não
poderia ser ameaçada. Que eles sejam, numa certa medida, vítimas de sua
imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de
certas regras, fora das quais o gênero se sente visado, o que cada um é pago
para saber. Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas
que lhe fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite
supor que eles colhem grande reconforto em sua imaginação e apreciam seu
delírio o bastante para suportar que só
para eles seja válido. E, de fato, alucinações, ilusões, etc. são fonte de gozo
nada desprezível. A mais bem ordenada sensualidade encontra aí sua parte, e eu
sei que passaria muitas noites a amansar essa mão bonita nas últimas páginas do
livro. A Inteligência de Taine, se dedica a singulares malefícios. As
confidências dos loucos, passaria minha vida a provoca-las. São pessoas de
escrupulosa honestidade, cuja inocência só tem a minha como igual. Foi preciso
Colombo partir com loucos para descobrir a América. E vejam como essa loucura
cresceu, e durou.
Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a
bandeira da imaginação.
O processo da atitude realista deve ser instruído, após o processo da
atitude materialista. Esta, aliás, mais poética que a precedente, implica da
parte do homem um orgulho sem dúvida monstruoso, mas não uma nova e mais
completa deposição. Convém nela ver, antes de tudo, uma feliz reação contra
algumas tendências derrisórias do espiritualismo. Enfim, ela não é incompatível
com uma certa elevação de pensamento.
Ao contrário, a atitude realista, inspirada no positivismo, de São Tomás
a Anatole France, parece-me hostil a todo impulso de liberação intelectual e
moral. Tenho-lhe horror, por ser feita de mediocridade, ódio e insípida presunção.
É ela a geradora hoje em dia desses livros ridículos, dessas peças insultuosas.
Fortifica-se incessantemente nos jornais , e põe em xeque a ciência, a arte, ao
aplicar-se em bajular a opinião nos seus critérios mais baixos; a clareza
vizinha da tolice, a vida dos cães. Ressente-se com isso a atividade dos
melhores espíritos; a lei do menor esforço afinal se impõe a eles como aos
outros. Conseqüência divertida deste estado de coisas, em literatura, é a
abundância dos romances. Cada um contribui com sua pequena “observação”. Por
necessidade de depuração o sr. Paul Valéry propunha recentemente fazer
antologia do maior número possível de começos de romances cuja insensatez ele
muito esperava. Os mais famosos autores seriam chamados a participar. Tal idéia
dignificava também Paul Valéry, que, não há muito, a propósito dos romances, me
garantia que, ele, sempre se recusaria a escrever: “A marquesa saiu às cinco
horas.” Mas cumpriu ele a sua palavra?
Se o escrito de informação pura e simples de que a frase precipitada é
exemplo, tem emprego corrente nos romances certamente é por não ir longe a
ambição dos autores. O caráter circunstancial, inutilmente particular, de cada
notação sua, me faz pensar que estão se divertindo, eles, à minha custa. Não me
poupam nenhuma hesitação do personagem: será louro, como se chama, vamos sair
juntos no verão? Outras tantas perguntas resolvidas decisivamente, ao acaso; só
me restou o poder discricionário de fechar o livro, o que não deixo de fazer,
ainda perto da primeira página. E as descrições! Nada se compara ao seu vazio;
são superposições de imagens de catálogo, o autor as toma cada vez mais sem
cerimônia, aproveita para me empurrar seus cartões postais, procura fazer-me
concordar com os lugares-comuns:
A salinha onde foi introduzido o moço era forrada de papel amarelo:
havia gerânios e cortinas de musselina nas janelas; o sol poente jogava sobre
tudo isso uma luz clara... O quarto não continha nada de particular. Os móveis,
de madeira amarela, eram todos velhos. Um sofá com grande encosto inclinado,
uma mesa oval diante do sofá, um toucador, com espelho, entre as janelas,
cadeiras encostadas às paredes, duas ou três gravuras sem valor, representando
moças alemãs com pássaros nas mãos – eis a que se reduzia a mobília. (
Dostoievski, Crime e Castigo )
Que o espírito se proponha, mesmo por pouco tempo, tais motivos, não
tenho disposição para admiti-lo. Podem sustentar que este desenho clássico está
no lugar certo e que neste passo do livro o autor tem seus motivos para me
esmagar. Perde seu tempo, pois não entro no seu quarto. A preguiça, a fadiga
dos outros não me prendem. Tenho da continuidade da vida uma noção instável
demais para igualar aos melhores os meus momentos de depressão, de fraqueza.
Quero que se calem, quando param de ressentir. E entendam bem que não incrimino
a falta de originalidade pela falta de originalidade. Digo apenas que não faço
caso dos momentos nulos de minha vida, que da parte de qualquer homem pode ser
indigno de cristalizar aqueles que lhe parecem tais. Esta descrição de quarto,
e muitas outras, permitam-me, digo: passo.
Ora, cheguei à psicologia, e com este assunto nem penso em brincar.
O autor pega-se com um personagem, e escolhido este, faz seu herói
peregrinar pelo mundo. Haja o que houver, este herói, cujas ações são
admiravelmente previstas, tem a incumbência de não desmanchar, parecendo porém
sempre desmanchar, os cálculos de que é objeto. As vagas da vida podem parecer
arrebata-lo, roda-lo, afunda-lo, ele sempre dependerá deste tipo humano formado. Simples partida de xadrez, da qual
me desinteresso mesmo, sendo o homem, qualquer um, um medíocre adversário para
mim. Não posso é suportar estas reles discussões de tal ou qual lance, desde
que não se trata nem de ganhar nem de perder. E se o jogo não vale um caracol,
se a razão objetiva prejudica terrivelmente, como é o caso, quem nela confia,
não convirá fazer abstração destas categorias? “É tão ampla a diversidade, que todos
os tons de voz, todos os passos, tosses assôos, espirros...” Se um cacho de
uvas não tem duas sementes iguais, como querem que lhes descreva este bago pelo
outro, por todos os outros, que dele faça um bago bom para comer? Esta
intratável mania de reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável,
embala os cérebros. O desejo de análise prevalece sobre os sentimentos. Disso
resultam dilatadas exposições cuja força persuasiva reside na sua própria
singularidade, e que iludem o leitor pelo recurso a um vocabulário abstrato,
bastante mal definido, aliás. Se as idéias gerais que a filosofia se propõe até
aqui debater, marcassem por aí sua incursão definitiva num domínio mais
extenso, seria eu o primeiro a me alegrar. Mas por enquanto é só afetação; até aqui
os ditos espirituosos e outras boas maneiras nos encobrem à porfia o verdadeiro
pensamento que se busca ele próprio, em vez de se ocupar em obter sucessos.
Parece-me que todo ato traz em si mesmo sua justificação, ao menos para quem
foi capaz de comete-lo, que ele é dotado de um poder radiante que a mínima
glosa, por natureza, enfraquece. Devido a esta última ele deixa mesmo, de certo
modo, de se produzir. Não ganha nada com esta distinção. Os heróis de Stendhal
caem aos golpes deste autor, apreciações mais ou menos felizes, que nada
acrescentam à sua glória. Onde os encontraremos de fato, é onde Stendhal os
perdeu.
Ainda vivemos sob o império da lógica, eis aí, bem entendido, onde eu
queria chegar. Mas os procedimentos lógicos, em nossos dias, só se aplicam à
resolução de problemas secundários. O racionalismo absoluto que continua em
moda não permite considerar senão fatos dependendo estreitamente de nossa
experiência. Os fins lógicos, ao contrário, nos escapam. Inútil acrescentar que
à própria experiência foram impostos limites. Ela circula num gradeado de onde
é cada vez mais difícil faze-la sair. Ela se apóia, também ela, na utilidade
imediata, e é guardada pelo bom senso. A pretexto de civilização e de progresso
conseguiu-se banir do espírito tudo que se pode tachar, com ou sem razão, de
superstição, de quimera; a proscrever todo modo de busca da verdade, não
conforme ao uso comum. Ao que parece, foi um puro acaso que recentemente trouxe
à luz uma parte do mundo intelectual, a meu ver, a mais importante, e da qual
se afetava não querer saber. Agradeça-se a isso às descobertas de Freud. Com a
fé nestas descobertas desenha-se afinal uma corrente de opinião, graças à qual
o explorador humano poderá levar mais longe suas investigações, pois que
autorizado a não ter só em conta as realidades sumárias. Talvez esteja a
imaginação a ponto de retomar seus direitos. Se as profundezas de nosso
espírito escondem estranhas forças capazes de aumentar as da superfície, ou
contra elas lutar vitoriosamente, há todo interesse em captá-las, capta-las
primeiro, para submete-las depois, se for o caso, ao controle de nossa razão.
Os próprios analistas só têm a ganhar com isso. Mas é importante observar que
nenhum meio está a priori designado para conduzir este empreendimento, que até
segunda ordem pode ser também considerado como sendo da alçada dos poetas,
tanto como dos sábios, e o seu sucesso não depende das vias mais ou menos
caprichosas a serem seguidas.
Com justa razão Freud dirigiu sua crítica para o sonho. É inadmissível,
com efeito, que esta parte considerável da atividade psíquica ( pois que, ao
menos do nascimento à morte do homem, o pensamento não tem solução de
continuidade, a soma dos momentos de sonho, do ponto de vista do tempo a
considerar só o sonho puro, o do sono, não é inferior à soma dos momentos de
realidade, digamos apenas: dos momentos de vigília ) não tenha recebido a
atenção devida. A extrema diferença de atenção, de gravidade, que o observador
comum confere aos acontecimentos da vigília e aos do sono, é caso que sempre me
espantou. É que o homem, quando cessa de dormir, é logo o joguete de sua
memória, a qual, no estado normal, deleita-se em lhe retraçar fracamente as circunstâncias
do sonho, em privar este de toda conseqüência atual, e em despedir o único determinante do ponto onde ele julga tê-lo
deixado, poucas horas antes: esta esperança firme, este desassossego. Ele tem a
ilusão de continuar algo que vale a pena. O sonho fica assim reduzido a um
parêntese, como a noite. E como a noite, geralmente também não traz bom
conselho. Este singular estado de coisas parece-me conduzir a algumas
reflexões:
1.º nos limites onde exerce sua ação ( supõe-se que a exerce ) o sonho,
ao que tudo indica, é contínuo, e possui traços de organização. A memória
arroga-se o direito de nele fazer cortes, de não levar em conta as transições,
e de nos apresentar antes uma série de sonhos do o sonho. Assim também, a cada
instante só temos das realidades uma figuração distinta, cuja coordenação é
questão de vontade. Importa notar que nada nos permite induzir a uma maior
dissipação dos elementos constitutivos do sonho. Lamento falar disso segundo
uma fórmula que exclui o sonho,
2.º. retomo o estado de vigília. Sou
obrigado a considera-lo um fenômeno de interferência. Não apenas o espírito
manifesta, nestas condições, uma estranha tendência à desorientação (é a
história dos lapsos e enganos de toda espécie cujo segredo começa a nos ser
entregue) mas ainda não parece que, em seu funcionamento normal, ele obedeça a
outra coisa senão a sugestões que lhe vêm desta noite profunda das quais eu
recomendo. Por mais bem condicionado que ele esteja, seu equilíbrio é relativo.
Mal ousa expressar-se, e se o faz, é para limitar à constatação de que tal
idéia, tal mulher, lhe faz impressão. Que impressão, seria incapaz de dize-lo,
dando assim a medida de seu subjetivismo, e nada mais. Esta idéia, esta mulher,
o perturba, predispõe-no a menos severidade. Ela tem a ação de isola-lo um
segundo de seu solvente e de deposita-lo no céu, como belo precipitado que ele
pode ser, que ele é. Em desespero de causa, invoca ele o acaso, divindade mais
obscura que as outras, à qual atribui todos os seus desvarios. Que me diz que o
ângulo sob o qual se apresenta esta idéia que o afeta, o que ele ama no olho
desta mulher não é precisamente o que o liga a seu sonho, o prende a dados que
ele perdeu por sua culpa? E se isso fosse de outro modo, do que não seria ele
capaz, talvez? Eu gostaria de dar-lhe a chave deste corredor;
3.º. o espírito do homem que sonha se
satisfaz plenamente com o que lhe acontece. A angustiante questão da
possibilidade não mais está presente. Mata, vi mais depressa, ama tanto quanto
quiseres. E se morres, não tens certeza de despertares entre os mortos? Deixa-te
levar, os acontecimentos não permitem que os retardes. Não tens nome. É
inapreciável a facilidade de tudo.
Que razão, eu te pergunto, razão tão maior que outra, confere ao sonho
este comportamento natural, me faz
acolher sem reserva uma porção de episódios cuja singularidade, quando escrevo,
me fulminaria? E no entanto, posso crer nos meus olhos, nos meus ouvidos:
chegou o belo dia, esse bicho falou.
Se o despertar do homem é mais duro, se ele quebra muito bem o encanto,
é que o levaram a ter uma raça idéia da expiação;
4.º. do momento em que seja submetido a um
exame metódico, quando, por meios a serem determinados, se chegar a nos dar
conta do sonho em sua integridade (isto supõe um disciplina da memória que
atinge gerações; mesmo assim comecemos a registrar os fatos salientes), quando
sua curva se desenvolve com regularidade e amplidão sem iguais, então se pode
esperar que os seus mistérios, não mais o sendo, dêem lugar ao grande Mistério.
Acredito na resolução futura destes dois estados, tão contraditórios na
aparência, o sonho e a realidade, numa espécie de realidade absoluta, de
surrealidade, se assim se pode dizer.
Parto à sua conquista, certo de não consegui-la, mas bem despreocupado
com minha morte, vou suputar um pouco os prazeres de tal posse.
Conta-se que todo o dia, à hora de dormir, Saint-Roux mandava colocar à
porta de seu solar em Camaret um cartaz onde se lia: O POETA TRABALHA. Muito
haveria ainda a dizer, mas de passagem, só quis aflorar um assunto que, por si
só, necessitaria um alongado discurso e um maior rigor; voltarei a esse ponto.
Desta vez, minha intenção era dizer a verdade sobre o ódio ao maravilhoso que
grassa em certos homens, deste ridículo no qual o querem fazer cair. Falando
claro: o maravilhoso é sempre belo, qualquer maravilhoso é belo, só mesmo o
maravilhoso é belo.
No domínio literário, só o maravilhoso é capaz de fecundar obras
dependentes de um gênero inferior, como o romance, e de modo geral, de tudo que
participa da anedota. Uma prova admirável é O Monge, de Lewis. O sopro do
maravilhoso o anima por inteiro. Bem antes de o autor ter libertado seus
principais personagens de qualquer coerção temporal, já se percebe que estão
prontos para agir com altivez sem precedente. Esta paixão da eternidade, que os
exalta sem cessar, confere inesquecíveis acentos a seu tormento e ao meu.
Entendo que este livro só exalta, do começo ao fim, e da forma mais pura do
mundo, aquilo que do espírito aspira a deixar o chão, e que, despojado de uma
parte insignificante de sua afabulação romanesca, à moda do tempo, constitui um
modelo de justeza, de inocente grandiosidade. parece-me que não se fez melhor,
e a personagem de Matilde, em particular, é a criação mais comovente que se
possa pôr ao ativo deste modo figurado em literatura. É menos um personagem que
uma contínua tentação. E se um personagem não é uma tentação, o que é? Tentação
extrema aquela. O “nada é impossível a quem sabe ousar” dá
Pode parecer arbitrário que eu proponha este modelo, quando se trata do
maravilhoso, do qual as literaturas no Norte e as literaturas orientais tiraram
subsídios e mais subsídios, sem falar das literaturas propriamente religiosas
de toda a parte. É que a maior parte dos exemplos que estas literaturas
poderiam me fornecer estão eivadas de puerilidade, pela boa razão de serem
dirigidas às crianças. Cedo elas são cortadas do maravilhoso, e mais tarde, não
guardaram suficiente virgindade de espírito para sentirem extremo prazer com
Pele de Asno. Por mais encantadores que sejam, o homem julgaria decair ao se nutrir
de contos de fadas, e concordo que estes não são todos de sua idade. O tecido
de adoráveis inverossimilhanças requer mais finura, à medida que se avança, e
ainda se está à espera destas espécies de aranhas... Mas as faculdades não
mudam radicalmente. O medo, a atração do insólito, as chances, o gosto do luxo
são molas às quais não se apela
O maravilhoso não é o mesmo em todas as épocas; participa obscuramente
de uma classe de revelação geral, de que só nos chega o detalhe: são as ruínas
românticas, o manequim moderno ou qualquer outro símbolo próprio a comover a
sensibilidade humana por algum tempo. Nestes quadros que nos fazem sorrir, no
entanto sempre se pinta a inquietação humana, e é por isso que os levo a sério,
que os julgo inseparáveis de algumas produções geniais, as quais, mais que as
outras, estão dolorosamente impregnadas dessa inquietação. São os patíbulos de
Villon, as gregas de Racine, os divãs de Baudelaire. Coincidem com um eclipse
do gosto que sou feito para suportar, eu que tenho do gosto a idéia de um
grande defeito. No mau gosto de minha época, procuro ir mais longe que os
outros. Para mim, se eu tivesse vivido em 1820, para mim “a freira sangrenta”,
a mim, não poupar este sorrateiro e banal dissimulons de que fala o periódico
Cuisin, a mim, a mim, percorrer em metáforas, como ele diz, todas as fases do
“disco prateado”. Por hoje, penso num castelo, cuja metade não está
obrigatoriamente em ruína; este cabelo me pertence, eu o vejo num sítio
agreste, não longe de Paris. Suas dependências não acabam mais e, quanto ao
interior, foi terrivelmente restaurado, de modo a nada deixar a desejar, em
matéria de conforto. Junto à porta, encoberta pela sombra das árvores, estão os
automóveis, estacionados. Alguns de meus amigos aí estão, em permanência: eis o
Louis Aragon que parte – ele só tem tempo para cumprimentar-nos; Philippe
Soupault se levanta com as estrelas Paul Eluard, nosso grande Eluard, ainda não
voltou. Eis Robert Desnos e Roger Vitrac, que decifram no parque um velho
edital sobre o duelo; Georges Auric, Jean Paulhan, Max Morise, que rema tão
bem, Benjamin Péret, em suas equações de pássaros; e Joseph Delteil; e Jean
Carrive; e Georges Limbour (há uma fileira de Georges Limbour); e Marcel Noll;
eis T. Traenkel que nos acena de seu balão cativo, Georges Malkine, Antonin
Artaud, Francis Gerard, Pierre Naville, J. A . Boiffard, depois Jacques Baron e
seu irmão, belos e cordiais, tantos outros ainda, e mulheres deslumbrantes,
palavra. Estes jovens não podem se recusar nada, seus desejos são, para a
riqueza, ordens. Francis Picabia vem nos visitar e, na semana passada,
recebeu-se na galeria dos espelhos um tal Marcel Duchamp que ainda não se
conhecia. Picasso caça aí por perto. O espírito de desmoralização ergueu
domicílio no castelo, e é com ele que tratamos sempre que há problema de
relação com nossos semelhantes, mas as portas estão sempre abertas, e sabeis,
não se começa “agradecendo” às pessoas.
De mais a mais, a solidão é vasta, não nos encontramos muito. Pois o essencial
não é sermos senhores de nós mesmos, das mulheres, do amor também?
Vão atribuir-me uma mentira poética; cada um vai dizer que moro na Rua
Fontaine, e que não vai beber desta água. Na verdade! mas este castelo cujas
honras lhe faço, tem ele certeza que seja uma viagem? E se, não obstante, o
palácio existisse? Meus hóspedes estão aí para responderem por isso; seu
capricho é a estrada luminosa que aí conduz. Vivemos de fato à nossa fantasia,
quando estamos lá. E como o que um faz poderia incomodar o outro, ali, ao
abrigo da procura sentimental e dos encontros ocasionais?
O homem põe e dispõe.
Depende dele só pertencer-se por inteiro, isto é, manter em estado anárquico o
bando cada vez mais medonho de seus desejos. A poesia ensina-lhe isso. Traz
nela a perfeita compensação das misérias que padecemos. Ela pode ser também uma
ordenadora, bastando que ao golpe de uma decepção menos íntima se tenha a idéia
de tomá-la ao trágico. Venha o tempo quando ela decrete o fim do dinheiro e
parta, única, o pão do céu para a terra!
Haverá ainda assembléias nas praças públicas, e movimentos dos quais não
pensaste participar. Adeus seleções absurdas, sonhos de abismo, rivalidades,
longas paciências, a evasão das estações, a ordem artificial das idéias, a
rampa do perigo, tempo para tudo! Basta se Ter o trabalho de praticar a poesia.
Não é a nós que compete, que já vivemos dela, o esforço de fazer prevalecer o
que guardamos para nossa mais ampla inquietação?
Não importa se há desproporção entre esta defesa e a ilustração que vai
segui-la. Tratava-se de remontar às fontes de imaginação poética, e mais ainda,
ficar aí. Não tenho a pretensão de ter feito isso. É preciso muito domínio
sobre si, para querer se estabelecer nestas recuadas regiões onde tudo parece
andar tão mal, e com maior razão, para querer aí conduzir alguém. E nunca se
tem certeza de aí estar
Conhece-se, pouco mais ou menos, o caminho percorrido. Tive o cuidado de
contar, no decurso de um estudo sobre o caso de Robert Desnos, intitulado:
ENTRADA DOS MÉDIUNS, que eu tinha sido levado a “fixar minhas atenções sobre
frases mais ou menos parciais, que em plena solidão, quase pegando no sono,
ficam perceptíveis para o espírito, sem ser possível descobrir-lhes uma
determinação prévia”. Eu mal acabara de tentar uma aventura poética, com o
mínimo de chances, isto é, minhas aspirações eram as mesmas de hoje, mas eu
tinha fé na lentidão de elaboração para fugir a contatos inúteis, contatos que
eu reprovava intensamente. Era o pudor do pensamento, de que me sobra ainda
alguma coisa. No fim de minha vida, com dificuldade chegarei a falar como falam
todos, culpa de minha voz e de meus gestos escassos. A virtude da palavra (da
escrita: bem maior) me parecia ligada à faculdade de encurtar de modo marcante
a exposição (pois era uma exposição) de alguns poucos fatos, poéticos ou
outros, substanciais para mim. Em minha idéia, não era outro o processo usado
por Rimbaud. Eu compunha, e o meu empenho de variedade merecia melhor sorte, os
últimos poemas do Mont de Pieté, isto é, conseguia tirar das linhas em branco
desse livro um partido incrível. Essas linhas eram o olho fechado sobre
operações de pensamento, que, julgava eu, deviam ser ocultadas do leitor. Não
era trapaça, mas sim, gosto de precipitar as coisas. Eu obtinha a ilusão de uma
cumplicidade possível, cada vez menos dispensável para mim. Eu pegara o vezo de
afagar imoderadamente as palavras pelo espaço admitido em torno delas, por suas
tangências com outras inumeráveis palavras não pronunciadas por mim. O poema
FLORESTA-NEGRA marca exatamente este estado de espírito. Passei seis meses a
escrevê-lo e, podem acreditar, não descansei um só dia. Mas tratava-se da
estima que eu então me dedicava, não é bastante, compreendam. Adoro estas
confissões estúpidas. Naquele tempo, a pseudopoesia cubista procurava se
implantar, mas saíra desarmada do cérebro de Picasso, e quanto a mim, eu era
tido como tão enfadonho quanto a chuva (ainda sou). Eu desconfiava, aliás, que
do ponto de vista poético, eu estava no caminho errado, mas eu me safava como
podia, desafiando o lirismo, a golpes de definição e de receitas (os fenômenos
Dada não tardariam a se manifestar), e fingindo encontrar uma aplicação da
poesia na publicidade (eu sustentava que o mundo acabaria, não por um belo
livro, mas por uma bela propaganda do inferno e do céu).
Na mesma época, um homem, tão ou mais enfadonho que eu, Pierre Reverdy,
escrevia:
A imagem é uma criação pura do espírito.
Ela não pode nascer da comparação, mas da
aproximação de duas realidade mais ou menos remotas.
Quanto mais longínquas e justas forem as
afinidades de duas realidades próximas, tanto mais forte será a imagem – mais
poder emotivo e realidade poética ela possuirá... etc.
Estas palavras, se bem que sibilinas para os profanos eram indicadores
muito fortes, e sobre elas meditei longamente. Mas a imagem era fugidia. A
estética de Reverdy, estética toda a posteriori, fazia-me tomar os efeitos
pelas causas. Entrementes, fui obrigado a renunciar definitivamente a meu ponto
de vista.
Certa noite então, antes de adormecer, percebi, nitidamente articulada a
ponto de ser impossível mudar-lhe uma palavra, mas bem separada do ruído de
qualquer voz, uma frase bem bizarra que me alcançava sem trazer indício dos
acontecimentos aos quais, segundo o testemunho de minha consciência, eu estava
preso, nessa ocasião, frase que me pareceu insistente, frase, se posso ousar,
que batia na vidraça. Rapidamente tive a sua noção, e já me dispunha a passar
adiante quando o seu caráter orgânico me reteve. Na verdade, esta frase me
espantava; infelizmente não a guardei até hoje, era algo como: “Há um homem
cortado em dois pela janela”, mas não poderia haver ambigüidade, acompanhada
como estava pela fraca representação visual de um homem andando, e seccionado a
meia altura por uma janela perpendicular ao eixo de seu corpo. Fora de dúvida
era a simples aprumação no espaço de um homem debruçado à janela. Mas esta
janela tendo seguido o deslocamento do homem vi que se tratava de uma imagem de
tipo bastante raro e logo pensei em incorporá-la a meu material de construção
poética. Assim que lhe concedi este crédito ela deu lugar a uma sucessão quase
ininterrupta de frases que não me surpreenderam menos e me deixaram sob a
impressão de uma tal gratuidade que me pareceu ilusório o império que até então
eu mantinha sobre mim mesmo, e só pensei então em liquidar a interminável
disputa travada em mim (Knut Hamsun põe na dependência da fome este tipo de
revelação que me assaltou, e talvez não esteja ele errado (o fato é que nessa
época eu não comia todos os dias). Com toda certeza são de fato as mesmas
manifestações que ele relata nestes termos:
“No dia seguinte acordei cedo. Estava
ainda escuro. Meus olhos estavam abertos fazia tempo, quando ouvi o relógio do
apartamento inferior bater cinco horas. Quis novamente dormir mas não consegui,
eu estava completamente desperto e mil coisas baralhavam na minha cabeça. De
repente me vieram uns bons trechos, próprios para utilização num esboço, num
folhetim; subitamente, por acaso, achei frases muito bonitas, frases como
jamais escreverei. Eu as repetia lentamente, palavra por palavra, eram
excelentes. E vinham mais outras. Levantei-me, peguei lápis e papel na mesa
atrás de minha cama. É como se eu tivesse rompido uma veia, uma palavra seguia
outra, colocava-se em seu lugar, surgiam as réplicas, em meu cérebro, eu gozava
profundamente. Os pensamentos me vinham tão rapidamente e fluíam tão abundantemente
que eu perdia uma porção de detalhes delicados, porque meu lápis não podia
andar tão depressa, e entretanto eu me apressava, a mão sempre em movimento, eu
não perdia um minuto. As frases continuavam a brotar em mim, eu estava prenhe
de meu assunto”.
Apollinaire afirmava que os primeiros quadros de Chirico haviam sido
pintados sob a influência de distúrbios cenestésicos (enxaquecas, cólicas).
Tão ocupado estava eu com Freud nessa época, e familiarizado com os seus
métodos de exame que eu tivera alguma ocasião de praticar em doentes durante a
guerra, que decidi obter de mim o que se procura obter deles, a saber, um
monólogo de fluência tão rápida quanto possível sobre o qual o espírito crítico
do sujeito não emita nenhum julgamento, que não seja, portanto, embaraçado com
nenhuma reticência, e que seja tão exatamente quanto possível o pensamento
falado. Parecia-me, ainda me parece – a maneira como me chegara a frase do
homem seccionado o comprovava – que a velocidade do pensamento não é superior à
da palavra e que ele não desafia forçadamente a língua, nem mesmo a caneta que
corre. Foi com estas disposições que Philippe Soupault, a quem eu comunicara
estas primeiras conclusões, e eu começamos a escrevinhar, pouco nos importando
com o que pudesse suceder literariamente. A facilidade de realização fez o
resto.
No fim do primeiro dia podíamos ler umas cinqüenta páginas obtidas por
este meio, e começar a comparação de nossos resultados. No conjunto, os de
Soupault e os meus mostravam notável analogia: mesmo vício de construção,
falhas similares, mas também, de cada lado, a ilusão de um estro maravilhoso,
muita emoção, escolha considerável de imagens de uma tal qualidade que não
teríamos sido capazes de preparar uma só delas, mesmo com muito empenho, um
pitoresco muito especial, e de um lado e de outro, alguma proposição de
pungente burlesco. As únicas diferenças entre nossos dois textos me pareceram
corresponder essencialmente a nossos temperamentos recíprocos, o de Soupault
menos estático que o meu, e se ele me permite esta leve crítica, ao fato de Ter
ele cometido o erro de distribuir, ao alto de certas páginas, e sem dúvida por
espírito de mistificação, algumas palavras à guisa de títulos. Em compensação,
devo-lhe a justiça de dizer que ele se opôs sempre, com toda energia, a
qualquer retoque, à mínima correção ao curso de toda passagem desse gênero que
me parecia até descabida. Tinha ele toda razão nisso. É com efeito muito
difícil apreciar em seu justo valor os diversos elementos presentes, diga-se
mesmo, é impossível apreciá-los numa primeira leitura. A vós que escreveis,
estes elementos, na aparência, vos são tão estranhos quanto a outro qualquer, e
naturalmente desconfiais. Falando poeticamente, eles se reconhecem sobretudo
por um alto grau de absurdidade imediata, sendo o próprio desta absurdidade,
num exame mais aprofundado, dar lugar a tudo que há de admissível, de legítimo
no mundo: a divulgação de certo número de propriedades e de fatos não menos
objetivos, em suma, que os outros.
Em homenagem a Guillaume Apollinaire, que morrera há pouco, e que por
diversas vezes nos parecia ter obedecido a um arrebatamento desse gênero, sem
entretanto ter aí sacrificado medíocres meios literários, Soupault e eu designamos
com o nome de SURREALISMO o novo modo de expressão pura, agora à nossa
disposição, e com o qual estávamos impacientes para beneficiar nossos amigos.
Creio não ser mais necessário, hoje, repisar esta palavra, e que a acepção em
que a tomamos acabou por prevalecer sobre a acepção apollinairiana. Ainda com
maior razão poderíamos ter-nos apossado da palavra SUPERNATURALISMO, empregada
por Gerard de Nerval na dedicatória de Filles de Feu. Com efeito, parece que
Nerval possuiu às mil maravilhas o espírito ao qual recorremos, enquanto
Apollinaire não possuía senão a letra, ainda imperfeita, do surrealismo, tendo
sido incapaz de lhe traçar um esboço teórico que valha a pena. Eis duas frases
de Nerval que acerca disso me parecem bem significativas:
Vou explicar-lhe, meu caro Dumas, o
fenômeno que você citou acima. Como você sabe, há certos contistas que não
podem inventar sem se identificarem aos personagens de sua imaginação. Você
sabe com que convicção nosso velho amigo Nodier narrava como ele tivera a
desgraça de ser guilhotinado na época da Revolução; ficava-se de tal modo
persuadido que se ficava querendo saber como ele conseguira recolocar sua
cabeça.
... E já que você teve a imprudência de citar um soneto composto neste estado
de devaneio onírico SUPERNATURALISTA, como diriam os alemães, vai ouvi-los
todos. Não são nada mais obscuros do que a metafísica de Hegel ou as MEMORÁVEIS
de Swedenborg, e perderiam encanto se fossem explicados, se a coisa fosse
possível, conceda-me ao menos o mérito da expressão...
Só com muita fé poderiam nos contestar o direito de empregar a palavra
SURREALISMO no sentido muito particular em que o entendemos, pois está claro
que antes de nós esta palavra não obteve êxito. Defino-a pois uma vez por
todas.
SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se propõe
exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o
funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo
controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral.
ENCICL. Filos. O Surrealismo repousa sobre a crença na realidade
superior de certas formas de associações desprezadas antes dele, na onipotência
do sonho, no desempenho desinteressado do pensamento. Tende a demolir
definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos, e a se substituir a eles
na resolução dos principais problemas da vida. Deram testemunho de SURREALISMO
ABSOLUTO os srs. Aragon, Baron, Boiffard, Breton, Carrive, Crevel, Delteil,
Desnos, Eluard, Gerard, Limbour, Malkine, Morise, Naville, Noll, Péret, Picon,
Soupault, Vitrac.
Parece que são, até agora, os únicos, e não haveria engano, não fosse o
caso apaixonante de Isidore Ducasse, sobre o qual me faltam elementos. E
certamente, não considerando senão superficialmente seus resultados, bom número
de poetas poderiam passar por surrealistas, a começar por Dante, e, em seus
melhores dias, Shakespeare. No curso das diferentes tentativas de redução, em
que empenhei, do que se chama, por abuso de confiança, o gênio, nada encontrei
que se possa finalmente atribuir a outro processo que não seja este.
As NOITES de Young são surrealistas do começo ao fim; infelizmente é um
padre que fala, mau padre, sem dúvida, mas padre.
Swift é surrealista na maldade.
Sade é surrealista no sadismo.
Chateaubriand é surrealista no exotismo.
Constant é surrealista em política.
Hugo é surrealista quando não é tolo.
Desbordes-Valmore é surrealista em amor.
Bertrand é surrealista no passado.
Rabbe é surrealista na morte.
Poe é surrealista na aventura.
Baudelaire é surrealista na moral.
Rimbaud é surrealista na prática da vida e
alhures.
Mallarmé é surrealista na confidência.
Jarry é surrealista no absinto.
Nouveau é surrealista no beijo.
Saint-Pol-Roux é surrealista no símbolo.
Fargue é surrealista na atmosfera.
Vaché é surrealista em mim.
Reverdy é surrealista em sua casa.
Saint-John Perse é surrealista a
distância.
Roussel é surrealista na anedota.
Etc.
Insisto, eles nem sempre são surrealistas, neste sentido que descubro
neles um certo número de idéias preconcebidas, às quais, bem ingenuamente, eles
se apegavam. Apegavam porque ainda não tinham ouvido a voz surrealista, a que
continua a pregar à véspera da morte e acima das tempestades, porque não
queriam servir somente para orquestrar a maravilhosa partitura. Eram
instrumentos soberbos demais, e por isso nem sempre produziram som harmonioso.
Nós, porém, que não nos dedicamos a nenhum trabalho de filtração, que
nos fizemos em nossas obras os surdos receptáculos de tantos ecos, modestos
aparelhos registradores que não se hipnotizam com o desenho traçado, talvez
sirvamos uma causa mais nobre. Assim devolvemos com probidade o “talento” que
nos atribuem. Falem-me do talento deste metro de platina, deste espelho, desta
porta, e do céu, se quiserem.
Não temos talento, perguntem a Philippe Soupault:
“As manufaturas anatômicas e as habitações baratas destruindo as mais
importantes cidades”.
A Roger Vitrac:
“Recém-invocara eu o mármore-almirante
(A Mesa de Mármore era um Tribunal instalado no Palácio de Justiça em
Paris, realizando suas sessões numa imensa mesa de mármore, que lhe deu o nome;
era de sua alçada o julgamento de militares, e sua jurisdição tinha três
divisões: o almirantado, as florestas e águas, e a área do condestável) quando
este virou nos calcanhares como um cavalo que se empina diante da estrela polar
e me indicou no plano de seu chapéu bicorne uma região onde eu devia passar a
minha vida”.
A Paul Eluard:
“Conto uma história bem conhecida, releio um poema célebre: estou apoiado
a um muro, orelhas verdejantes, lábios calcinados”.
A Max Morise:
“O urso das cavernas e sua companhia que mia, o volante e seu valete no
vento, o grão-chanceler com sua mulher, o espantalho e seu amigo alho, a
fagulha com agulha, o carniceiro e seu irmão carnaval, o varredor com o seu
tapa-olho, o Mississipi e seu sapo, o coral e o colar, o Milagre e seu santo
por favor desapareçam da superfície do mar”.
A Joseph Delteil:
“Ai de mim! Creio na virtude das aves. E basta uma pena para me matar de
rir!”.
A Louis Aragon:
“Durante uma interrupção da partida, quando os jogadores, reunidos,
rodeavam a poncheira escaldante, perguntei à árvore se ainda tinha sua fita
vermelha”.
A mim mesmo, que não pude me impedir de escrever as linhas serpentinas,
alucinantes, deste prefácio.
Perguntem a Robert Desnos que, dentre nós, foi talvez quem mais se
aproximou da verdade surrealista, aquele que, em obras ainda inéditas e ao
longo de múltiplas experiências às quais prestou, justificou plenamente a
esperança que eu depositava no surrealismo e me intima a esperar muito dele
ainda. Hoje
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SEGREDOS DA ARTE MÁGICA SURREALISTA
Composição surrealista escrita, ou
primeiro e último jato
Mande trazer com que escrever, quando já estiver colocado no lugar mais
confortável possível para concentração do seu espírito sobre si mesmo. Ponha-se
no estado mais passivo ou receptivo, dos talentos de todos os outros. Pense que
a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa,
sem assunto preconcebido, bastante depressa para não reprimir, e para fugir à
tentação de se reler. A primeira frase vem por si, tanto é verdade que a cada
segundo há uma frase estranha ao nosso pensamento consciente pedindo para ser
exteriorizada. É bastante difícil decidir sobre a frase seguinte: ela
participa, sem dúvida, a um só tempo, de nossa atividade consciente e da outra,
admitindo-se que o fato de haver escrito a primeira supõe um mínimo de
percepção. Isto não lhe importa, aliás; é aí que reside, em maior parte, o
interesse do jogo surrealista. A verdade é que a pontuação se opõe, sem dúvida,
à continuidade absoluta do vazamento que nos interessa, se bem que ela pareça
tão necessária quanto a distribuição dos nós numa corda vibrante. Continue enquanto
lhe apraz. Confie no caráter inesgotável do murmúrio. Se o silêncio ameaça
cair, por uma falta da inatenção, digamos, que o leve a cometer um pequeno
erro, não hesite em cortar uma linha muito clara. Após uma palavra cuja origem
lhe pareça suspeita, ponha uma letra qualquer, a letra “l”, por exemplo, sempre
a letra “l”, restabeleça o arbitrário, impondo esta letra como inicial à
palavra que vem a seguir.
Para não mais se aborrecer acompanhado
É difícil. Não receba ninguém, e às vezes, quando ninguém, e às vezes,
quando ninguém tiver forçado sua porta para interrompe-lo em plena atividade
surrealista e cruzar seus braços, pense: “É igual, certamente há coisa melhor
para fazer, ou para não fazer. O interesse da vida não se mantém. Simplicidade,
o que se passa em mim ainda me aborrece!” ou qualquer banalidade revoltante.
Para fazer discursos
Fazer-se inscrever, na véspera da eleição, na lista de candidatos do
primeiro lugar que ache bom proceder a esse gênero de consulta. Cada um tem em
si o material de orador: tangas multicores, vidrilhos das palavras. Pelo
surrealismo ele vai surpreender o desespero em sua pobreza. Uma tarde, numa
estrada, ele sozinho cortará em pedaços o céu eterno, esta Pele do Urso. Vai prometer
tanto, que se cumprir mesmo uma insignificância será uma consternação. Dará às
reivindicações do povo todo uma entonação parcial e derrisória. Obterá a
comunhão dos mais irredutíveis adversários num desejo secreto que acabará com
as pátrias. E conseguirá isso com apenas se deixando exaltar com a palavra
imensa que derrete em piedade e rola em ódio. Incapaz de um desalento, brincará
sobre o veludo de todo sos desalentos. Será mesmo eleito, e as mais suaves
mulheres o amarão com violência.
Para escrever falsos romances
Você, seja quem for, se é de seu agrado, faça queimar algumas folhas de
louro, e sem atiçar este fogo fraco, e comece a escrever um romance. Você tem a
permissão do surrealismo: basta você mudar a agulha de “Tempo bom e estável”
para “Ação” e a mágica está feita. Eis aqui personagens com atitudes
disparatadas: os nomes deles em sua escritura são uma questão de maiúsculas e
estarão tão a vontade com os verbos ativos como na conjugação impessoal, os
pronomes estão subentendidos, em expressões tais como: chove, há, é preciso,
etc. Eles vão comanda-los, por assim dizer, e quando a observação, a reflexão,
e as faculdades de generalização não lhe tenham ajudado nada, esteja certo de
que eles vão lhe retribuir mil intenções que você não teve. Assim dotados de
poucas características físicas e morais, estes seres, que em verdade lhe devem
tão pouco, não se desviarão de uma certa linha de conduta, com a qual você não
precisa se incomodar. Daí resultará uma intriga mais ou menos hábil na
aparência, justificando ponto por ponto esse desfecho comovente ou tranqüilo,
ao qual você não dá nenhuma atenção. O seu falso romance imitará admiravelmente
um romance verdadeiro; você ficará rico, e todos concordam em dizer que você
tem “algo na barriga”, pois é aí mesmo que este algo está.
Bem entendido, por um processo análogo, e à condição de ignorar o que
você vai comentar, você poderá se aplicar com sucesso à falsa crítica.
Para se exibir a uma mulher que passa na
rua
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Contra a morte
O surrealismo vai introduzir você na morte que é uma sociedade secreta.
Ele vai enluvar sua mão, sepultando aí o “M” profundo por onde começa a palavra
Memória. Não deixe de tomar felizes disposições testamentárias; por minha
parte, peço que eu seja conduzido ao cemitério num carro de mudança. Que meus
amigos destruam até o último exemplar, a edição do Discurso sobre o Pouco da
Realidade.
A linguagem foi concedida ao homem para fazer dela um uso surrealista.
Na medida em que lhe é insdispensável fazer-se compreender, ele consegue, bem
ou mal, exprimir-se e assim assegurar o desempenho de algumas funções, das mais
banais. Falar, escrever carta não lhe oferecem nenhuma dificuldade real, desde
que, fazendo-o, ele não se proponha um objetivo acima da média, isto é, desde
que se limite a entreter-se (pelo prazer de entreter-se) com alguém. Ele não
fica aflito com as palavras que virão, nem com a frase que virá, terminada a
sua. Ele será capaz de responder à
queima-roupa a uma pergunta bem simples. À falta de tiques contraídos no
convívio com os outros, ele pode opinar espontaneamente sobre alguns poucos
assuntos: para isso não lhe é preciso antes “contar até dez” nem ter fórmulas
preparadas. Quem poderá tê-lo convencido de que esta faculdade de “falar logo à
primeira” só serve para desserví-lo, quando ele se propõe estabelecer ligações
mais delicadas? Ele não deve se recusar a falar ou escrever de improviso sobre
nada. Ouvir-se, ler-se, não tem outro efeito senão o de suspender o oculto, o
admirável auxílio. Não conto para me compreender (chega! sempre me
compreenderei). Se esta ou aquela de minhas frases me traz na hora uma leve
decepção, confio na frase seguinte para redimi-la, cuido para não recomeçá-la
ou aperfeiçoa-la. A mínima perda de ímpeto ser-me-ia fatal. As palavras, os
grupos de palavras que se sucedem exercem entre si a maior solidariedade. Não
me compete favorecer estas em detrimento daquelas. Quem deve intervir é uma
miraculosa compensação: e ela intervém.
Não só esta linguagem sem reservas que procuro tornar sempre válida, que
me parece adaptar-se a todas as circunstâncias da vida, não só esta linguagem
não me desfalca nenhum de meus recursos, mas ainda me confere uma
extraordinária lucidez justo no domínio onde eu menos esperava dela. Posso até
sustentar que ela me instrui, e com efeito já me aconteceu utilizar
surrealmente palavras cujo sentido eu esquecera. Pude verificar depois que o
uso feito por mim correspondia exatamente a sua definição. Isto poderia fazer
crer que não se “aprende”, que sempre se “reaprende”. Há expressões felizes com
as quais assim me familiarizei. E não me referi à consciência poética dos
objetos que só pude adquirir pelo seu contato espiritual mil vezes repetido.
É ainda ao diálogo que as formas da linguagem se adaptam melhor. Aí,
dois pensamentos se confrontam; enquanto um ser revela, o outro se ocupa com
ele, mas como? Supor que o incorpore a si seria admitir que certo tempo lhe é
possível viver inteiramente deste outro pensamento, coisa muito improvável. De
fato, a atenção que lhe é dada é toda exterior; só tem ensejo de aprovar ou de
desaprovar, geralmente desaprovar, com toda a deferência de que o homem é
capaz. Este modo de linguagem não permite, aliás, chegar ao fundo de um
assunto. Minha atenção, vítima de uma solicitação que não pode decentemente
repelir, trata o pensamento alheio como inimigo; na conversação usual ela o
“censura” quase sempre pelas palavras, pelas figuras de que se serve; ela me
põe em condições de tirar partido delas, desnaturando-as. Isto é tão verdade
que em certos estados mentais patológicos, onde os distúrbios sensoriais afetam
toda a atenção do doente, limita-se este, que continua a responder às
perguntas, a pegar a última palavra pronunciada junto dele, ou o último membro
de frase surrealista que deixou vestígio em seu espírito:
“Que idade você tem? “ – Tem (Ecolalia)
“Como você se chama?” – Quarenta e cinco casas (Sintoma de Ganser, ou
das respostas absurdas)
Não há conversa onde não entre algo dessa desordem.. O esforço de
sociabilidade aí reinante e a nossa grande prática é que nos disfarçam esse
fato, por pouco tempo. Também é a grande fraqueza do livro entrar sempre em
conflito com seus melhores leitores, quero dizer, com os mais exigentes. No
pequeníssimo diálogo que acima improvisei, entre o médico e o alienado, é este,
aliás, quem leva vantagem: pois suas respostas o impõem à atenção do médico
examinador – e não é o mais forte? Talvez. Ele tem liberdade de não se importar
com seu nome nem com sua idade.
O surrealismo poético, ao qual consagro este estado, dedicou-se até
agora a restabelecer o diálogo em sua verdade absoluta, isentando os dois
interlocutores das obrigações de cortesia. Cada um deles simplesmente prossegue
em seu solilóquio, sem procurar tirar daí um prazer dialético particular nem se
impor a seu vizinho, de forma alguma. Os conceitos emitidos na conversa não
visam, como geralmente, o desenvolvimento de uma tese, tão insignificante
quanto se queira, eles são tão desafetados quanto possível. Quanto à resposta
que reclamam, ela é, em princípio, totalmente indiferente ao amor-próprio de
quem falou. As palavras, as imagens não se oferecem senão como trampolim ao
espírito de quem escuta. É dessa maneira que devem se apresentar
O Surrealismo não permite àqueles que se entregam a ele que o abandonem
a seu bel-prazer. Tudo leva a crer que ele atue no espírito como os
estupefacientes: como eles, cria um certo estado de dependência e pode impelir
o homem a revoltas terríveis.Também é, se quiserem, um paraíso artificial, e o
prazer que nele se tem depende da crítica de Baudelaire ao mesmo título que os
outros. Assim também a análise dos
misteriosos efeitos e dos gozos particulares que ele pode produzir – em muitos
aspectos o surrealismo aparece como um vício novo, que não deve ser apanágio de
alguns homens apenas; como o haxixe, ele pode satisfazer todos os delicados – e
uma tal análise não pode faltar neste estudo.
1.º Passa-se com as imagens surrealistas como as imagens do ópio, não
mais evocadas pelo homem, mas que “se lhe oferecem, espontaneamente,
despoticamente. Não pode manda-las embora, porque a vontade não tem mais força
e não mais governas faculdades” (Ch.B.) Resta saber se alguma vez se “evocou” as
imagens. Se a pessoa se apóia, como eu faço, na definição de Reverdy, não
parece possível aproximar voluntariamente o que ele chama “duas realidades
distintas”. A aproximação se faz ou não se faz, eis tudo. Nego, por minha
parte, de maneira mais formal, que em Reverdy imagens tais como:
No regato corre uma canção
ou
O dia se desdobrou como uma toalha branca
ou
O mundo esconde-se num saco
ofereçam o mínimo grau de premeditação.
Considero falso pretender que “o espírito discerniu as relações” das duas
realidades
E assim como a centelha aumenta quando produzida através de gazes
rarefeitos, a atmosfera surrealista criada pela escrita mecânica, que fiz
questão de colocar ao alcance de todos, presta-se especialmente à produção das
mais belas imagens. Pode-se dizer até que as imagens aparecem nesta corrida
vertiginosa como os guiões únicos do espírito. Aos poucos o espírito se
convence da suprema realidade das imagens. Limitando-se no começo a lhes
prestar sugestão, logo ele percebe que lisonjeiam sua razão, aumentam,
outrossim, seu conhecimento. Ele toma conhecimento dos espaços ilimitados onde
se manifestam seus desejos, onde se reduzem sem cessar o pró e o contra, onde
sua obscuridade não o atraiçoa. Ele vai, conduzido por estas imagens que o
seduzem, que apenas lhe dão tempo para soprar os dedos queimados. É a mais bela
das noites, a noite dos fulgores; perto
dela, o dia é a noite.
Os tipos inumeráveis de imagens surrealistas reclamariam uma
classificação, que por hora não me disponho a tentar. Agrupá-los conforme suas
afinidades particulares me levaria longe; pretendo levar em consideração, e
essencialmente, sua virtude comum. Não escondo que, para mim, a mais forte é a
que tem o mais elevado grau de arbitrário;
a que exige mais tempo para ser traduzida em linguagem prática, seja por
conter uma enorme dose de contradição aparente, seja por ficar um de seus
termos curiosamente disfarçado, seja por se apresentar como sensacional e
pareça se desenlaçar pouco (fechando bruscamente o ângulo de seu compasso),
seja porque retira dela mesma uma justificação formal derrisória, seja por ser
de ordem alucinatória, seja por ser de ordem alucinatória, seja por atribuir
com naturalidade ao abstrato a máscara do concreto, ou inversamente, seja por
implicar a negação de alguma propriedade física elementar, seja por provocar o
riso. Eis, por ordem, alguns exemplos:
O rubi do champanhe . Lautréamont
Belo como a lei da parada do desenvolvimento
do peito nos adultos cuja propensão ao crescimento do peito nos adultos cuja
propensão ao crescimento não tem relação com a quantidade de moléculas
assimiladas pelo seu organismo. Lautréamont
Uma
igreja erguia-se, estrepitosa como um sino. Philippe Soupault
No sono de Rose Sélavy um anão surgido de
um poço com ar soturno vem comer seu pão com um moço no horário noturno. Robert
Desnos
Sobre a ponte o orvalho com cara de gata
se embalava. André Breton
Um pouco à esquerda, em meu firmamento
imaginado, vislumbro – será apenas uma névoa de sangue e morte – o brilhante
fosco das perturbações da liberdade. Louis Aragon
Na floresta abrasada. Roger Vitrac
A cor das meias de uma mulher não está
obrigatoriamente à imagem de seus olhos, o que fez um filósofo (inútil
nomeá-lo) dizer: “Os cefalópodes têm mais razão que os quadrúpedes para odiar o
progresso:. Max Morise
1.º Que se queira ou não, há aqui matéria para satisfazer a várias exigências
do espírito. Todas estas imagens parecem comprovar que o espírito está maduro
para outra coisa, diferente das benignas alegrias que ele geralmente se
concede. É a única maneira que ele tem de fazer virar a seu favor a quantidade
ideal de acontecimentos de que está carregado. Estas imagens lhe dão a medida
de sua dissipação ordinária e dos movimentos resultantes. Não é mau que elas o
desconcertar o espírito é coloca-lo no seu erro. As frases que citei
providenciam bastante para isso. Saboreando-as, o espírito tira dessas frases a
certeza de estar no caminho certo; para
ele próprio, ele não poderia condenar-se por argúcia; nada tem a temer, pois,
além de tudo, ele se sente capaz de alcançar tudo.
2.º O espírito que mergulha no surrealismo revive com exaltação a melhor
parte de sua infância. Para ele é um pouco como a certeza de quem, a ponto de
morrer afogado, repassa em menos de um minuto todo o insuperável de sua vida.
Dirão que é muito animador. Mas não faço questão de animar quem me diz isso.
Das recordações de infância e de algumas outras, vem um sentimento de não
abarcado, e pois, de desencaminhado, que considero o mais fecundo que existe.
Talvez seja a infância que mais se aproxima da “vida verdadeira”; a infância
além da qual o homem só dispõe, além de seu salvo-conduto, de alguns bilhetes
de favor; a infância onde tudo concorria entretanto para a posse eficaz, e sem
acasos, de se si mesmo. Graças o surrealismo, parece que estas chances voltam.
É como se a pessoa ainda corresse para sua salvação, ou sua perda. Revive-se,
na sombra, um terror precioso, Graças a Deus, por enquanto é só o purgatório.
Atravessa-se em sobressalto, o que os ocultistas chamam de paisagens perigosas.
Meus passos suscitam monstros que espreitam; eles não estão ainda muito
mal-intencionados a meu respeito, e não estou perdido, pois os temo. Eis “os
elefantes com cabeça de mulher e os leões voadores” que Soupault e eu ainda há
pouco tremíamos de medo de encontrar, eis o “peixe solúvel” que ainda me
assusta um pouco. PEIXE SOLÚVEL, não serei eu o peixe solúvel, nasci sob o
signo de Peixes e o homem é solúvel em seu pensamento! A fauna e a flora do
surrealismo são inconfessáveis.
3.º Não creio que esteja próximo de se estabelecer um decalque
surrealista. Os caracteres comuns a todos os textos do gênero entre os quais
aqueles que acabo de assinalar e muitos outros que só poderíamos entender com
análise gramatical e análise lógica cerradas, não se opõem a uma certa evolução
da prosa surrealista no tempo. Vindo depois de
inúmeros ensaios aos quais nesse sentido me dedico há cinco anos, e de
que tenho a fraqueza de julgar extremamente desordenados pela maior parte, as
historietas que formam a seqüência deste volume trazem-me uma prova-flagrante
disso. Nem por isso as considero mais dignas de figurar aos olhos do leitor os
benefícios que o subsídio surrealista é susceptível de fazer sua consciência
realizar.
Os meios surrealistas reclamariam, aliás, uma ampliação. Tudo é bom para
obter de certas associações a desejável subitaneidade. Os papéis colados de
Picasse e de Braque têm o mesmo valor que a introdução de um lugar-comum num
desenvolvimento literário do estilo mais castiço. É até mesmo permitido
intitular POEMA o que se obtém pela agregação tão gratuita quanto possível
(observemos, faz favor, a sintaxe) de títulos
e fragmentos de títulos recortados dos jornais:
Do Surrealismo
Ricardo de Mattos
Vários os movimentos artísticos que
brotaram durante a primeira metade do século XX, posicionandose merecidamente o
Surrealismo entre os de maior consistência teórica e dos mais impressionantes
pelos princípios estéticos desenvolvidos. Foi um dos mais duradouros,
encaixando-se um pouco além do período entre guerras, pois os Prolegômenos De
Um Terceiro Manifesto do Surrealismo Ou Não (sic) datam de 1.942. Além de
Surrealismo, é costume referir-se ao movimento artístico como Supra Realismo e
Super Realismo, havendo em Portugal quem defenda a expressão Sobre Realismo. A
semente do Surrealismo encontra-se no Dadaismo, mas costumam ser apontados como
precursores remotos os poetas Rimbaud e Lautéamont, este autor dos Cantos de Maldoror.
Também no movimento romântico os surrealistas foram buscar exemplos e
fundamentos para suas teorias. O que fortaleceu o Surrealismo foi o
acompanhamento e estudo pelos seus expoentes - encabeçados por André Breton -
das então recentes descobertas de Sigmund Freud. Nem fortaleceu, o movimento
calcou-se principalmente nestas descobertas, mas não sem uma interpretação
pessoal e ainda insipiente, dada a novidade da matéria. Daí o carácter
inaugural do Surrealismo, nem contestador, nem renovador. Rejeitava-se a
"Arte Pela Arte" e a "Revolução Pela Revolução". Uma das
preocupações dos surrealistas era libertar o homem de uma vida
predominantemente utilitária. Outra, emparelhar sua realidade profunda e a
superficial. Os avanços da psicanálise indicaram-lhes veredas que passaram a
explorar com avidez. O homem não deveria fugir da realidade, mas enfrentá-la. E
a realidade a ser desvendada não é aquela superficial e corriqueira, porém a
recalcada, sufocada em cada indivíduo. A Arte além de ser o melhor meio de
expressão dos estados psíquicos, seria o melhor instrumento para alavancar o
homem de seu interior profundo. Mesmo que se acredite no ser humano como
composto de corpo físico e corpo espiritual, ao se tratar do Surrealismo
fica-se mais à vontade limitando-se a falar apenas em "mente", e
nisso percebemos sua face materialista e sua imanência. Descobrindo-se que o
ser humano não é só aquilo em hodierno mostrado, são afastadas - ou mesmo
abandonadas - as questões espirituais. Vamos ver primeiro o que o homem
escondeu por todos estes séculos em seu âmago, para depois estudar se isto tem
vida além da morte, se vai para o Céu, para o Inferno, ou se ficará
perambulando pelo Nada. A leitura do capítulo catorze do livro O Desconcerto do
Mundo - do Renascimento ao Surrealismo, de Carlos Felipe Moisés, dá a impressão
do movimento ter tido em Portugal uma conotação mais política antisalazarista -
que artística. Mais de contestação e de privilégio do choque que de
investigação e chamamento à interiorização. No entanto, o Surrealismo original
era declaradamente apolítico, apenas aliando-se surrealistas e comunistas por
ocasião da guerra do Marrocos, mas sem intuito de confusão das doutrinas.
Defendiam aqueles o máximo desvinculamento e liberdade, principalmente em relação
à sociedade, devido à precisão de se livrar o homem da couraça por ele vestida
perante ela. Nada externo deveria permanecer.
O Surrealismo considera a realidade
aparente como insuficiente para o descobrimento da Verdade das coisas e para o
conhecimento total do indivíduo. Como valer-se dos dados mesquinhos oferecidos
no cotidiano, se o interessante ao conhecimento é soterrado pela convenção e
pelo disfarce? A realidade apresentada em nada auxilia, está comprometida, ou
mesmo invalidada, pois algo muito mais consistente foi abafado. A tarefa
surreal era revelar uma Supra Realidade (o inconsciente, o inibido) e
aproximá-la da Realidade, harmonizando-as, e n'esta equiparação entre o ser e o
poder-ser, projectar um homem integral a horizontes mais amplos. É esta
intenção em encarar o desconhecido no homem que impede em se ver o Surrealismo
como uma apologia à fuga. E também não se trata de um mero apelo ao irreal ou
fantasioso. Filosoficamente pode-se explicar o Surrealismo como esta síntese
que (I) não aceita o real como posto e (II) nem admite a saída fácil para a
fantasia. O ideal é uma nova ordem abrangente do racional e do irracional,
considerando-se a mente receptiva o suficiente ao estranho, sendo este um
conceito antecipado àquelas coisas que ainda não foram estudadas. Nesta
introspecção, o surrealista valia-se do Humor, da Imaginação e da Loucura. O
Humor era procurado por seu carácter demolidor. Ridicularizava-se a realidade
com o intuito de desacreditá-la, mesmo que fosse necessário chocar. Mostrando o
ridículo, facilitava-se o desligamento com o superficial. A exploração da
Imaginação foi o que mais rendeu aos surrealistas. A capacidade de formar
imagens ou combinar as percebidas era um prato cheio, pois o domínio da
imaginação pode ter uma realidade tão grande quanto vislumbrada na vigília. E é
o sonho o domínio da imaginação, pois neste "campo" ela encontra um
curso livre principalmente do senso crítico. Algum filósofo da Antiguidade
andou questionando a realidade que deveria ser considerada, se a de quando
estamos acordados, se a de quando dormimos. Tão séria foi considerada esta
descoberta, que o sonho passou a ter a mesma importância do pensamento na
aquisição de conhecimento. Segundo Freud, o homem chegaria a uma consciência
integral de si mesmo ao decifrar este mundo, com seus símbolos, desejos e
inclinações reprimidas. Uma das consequências desta Supra Realidade oferecida
pela imaginação é a eliminação do questionamento da possibilidade. Hoje parece
fútil, mas vá ver o reboliço destas afirmações na época. O ser humano foi pego
em posição constrangedora.
A consequência artística para esta
observação dos sonhos, foi o estudo e acompanhamento da escrita automática, e
neste campo entramos pela diferenciação entre concepção e execução. Todos já
devem ter percebido que ao nos deitarmos, há um estado limite entre o sono e a
vigília, no qual alguns ouvem vozes, outros murmuram, outros têm sobressaltos -
eu tenho a impressão de queda neste momento. Pois bem, o poeta surrealista vê
estes murmúrios e audições como elementos poéticos de primeira grandeza, pois o
inconsciente impera e nenhuma regra constrange a pessoa neste instante. Até a
hipnose é combatida, para que se chegue a este resultado naturalmente, sem a
mínima provocação. Estas manifestações são avidamente anotadas e o resultado,
seja qual for, é tido como poesia. Diante disso, podemos afirmar que o
Surrealismo lida apenas com o expontâneo. Não lhe interessa o arrumado. Uma
imagem surrealista não pode ser tida por metáfora nem, ao menos a priori, por
fantasia. Um poeta qualquer compara o Tempo a um cavalo branco passando a pleno
galope. O poeta surrealista menciona um cavalo branco a pleno galope e do
contexto, da combinação com outras imagens que ele nos dá, tentamos inferir
tratar-se do Tempo. Deve-se a esta suprema introspecção a critica recebida pelo
movimento, pois tal subjectivismo impedia a compreensão alheia. Além do humor e
da imaginação, a Loucura mereceu cuidadosa análise. O facto de uma pessoal
normal sonhar coisas absurdas levou a atentar às imagens dos alienados e à
análise dos raciocínios feitos por eles. Os loucos não se adaptam à existência
cotidiana, mas em seu mundo há tanta estabilidade quanto no nosso. Talvez até
mais. Os alienados e suas imagens: eis o que trouxe a arte aos manicómios como
forma de terapia. Neste ponto são vários os aspectos a serem considerados. O
surrealista busca este estado de anormalidade mesmo precisando alienar-se
temporariamente, aqui sim recorrendo a meios artificiais e repetindo os actos
de alguns românticos - conta-se do recurso ao ópio, por Colleridge. O
surrealista faz esta expedição ao inconsciente, mas de forma a poder voltar e
contar suas visões. Ele almeja reconstruir certos delírios. Outro ponto:
descobrir mais sobre o raciocínio do homem normal valendo-se do raciocínio do
alienado, considerando-o portador de uma lógica a nos escapar. O paranóico, por
exemplo, além de refugiar-se n'um mundo particular, amolda a realidade
circundante aos seus delírios. Aí o que intrigava os artistas da época, pois admitindo-se
o ponto de partida do paranóico, e olhando a realidade a partir de sua
perspectiva, tudo se deduzia com muita lógica e seguro encadeamento. Na síntese
do real com o imaginário, aliado a este desconcertante encadeamento,
considerava-se o pensamento alienado como uma amplificação do pensamento
normal, com elos a nós despercebidos, e portanto digno de escrupuloso estudo. O
Agressor, de Rosário Fusco, é um exemplo perfeito na literatura nacional desta
investigação e reconstrução, e não se pode dizer que falta lógica a David em
usas cogitações. Ao contrário, sua ideia segue um curso linear exemplar.
Proposital ou não, no livro A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst, embora
publicado em 1.982, encontramos vários destes elementos. A começar pela
pontuação do texto. Todo o livro parece ser um apanhado das reflexões, memórias
e monólogos interiores da personagem Hillé. Costumamos pontuar as orações em
nossa mente, iniciá-las com letras maiúsculas, tal como se as transcrevêssemos
no papel? Não, ou nem todos. Pois bem, em todo o texto vemos esta fuga às
regras gramaticais, bem ao gosto dos surrealistas. É buscar na execução, a
grafia do pensamento o mais próximo possível de como concebido. Se na obra de
Hilda Hilst esta fuga às regras é uma constante, neste livro especialmente
acabou por reforçar-lhe o carácter surreal.
A personagem é
uma moderna Diógenes, encolhida n'um desvão de escada, procurando o sentido da
vida e das coisas: "sessenta anos à procura do sentido das coisas".
Pesquisa O "Eu" tão profundamente que no ponto onde chega estabelece
algo como uma dízima periódica do raciocínio: "Los rios, las cadenas, la
cárcel, o cárcere de si mesma, sessenta anos, adeus, Hillé, desconheces quase
toda sua totalidade, que contornos havia aos quinze anos aos vinte, lá dentro
do ventre, que águas, plasma e sangue, que rio te contornava? que geografia se
desenhava no teu rosto, e o rosto daquela que te carregava na barriga, como
era? como te carregava essa que habitavas? como eras, Hillé, antes que o amor
surgisse entre aquelas duas almas, pai-mãe, quando ele era jovem e se
perguntava que mulher se deitaria sob seu grande corpo..." Mas também sua
origem e sua posição na ordem geral do Universo: "a vida foi, Hillé, como
se eu tocasse sozinho um instrumento, qualquer um, baixo flautim, pistão, oboé,
como se eu tocasse sozinho apenas um momento da partitura, mas o concerto todo
onde está?" Esta devassa íntima evidentemente origina o desencaixe da
personagem do meio no qual vive, perseguições, deboche, etc. E o Humor tem lugar
quando, importunada por vizinhos empenhados em fazê-la "mudar de
vida", Hillé levanta suas saias e expõe-se, chocando a todos. Este o ponto
no qual lembrei do cínico grego. A Loucura está presente no livro a ponto de
imaginá-lo autobiográfico. O pai da autora, assim como o da personagem, morreu
em um hospício. Outros dois pontos: amor pelos cães - H.H. tem mais de setenta
- e o refúgio em uma "Casa do Sol". Todavia, a personagem lamenta a
morte de seu amante, e este facto não consta da biografia da escritora. Hillé
não enlouquece, mas beira a insanidade em sua busca do conhecimento,
encontrando com a morte ao menos parte das respostas as suas indagações. Não
basta um livro ter algumas imagens fantasiosas para ser filiado ao Surrealismo,
ou para afirmar-se a presença de "acentuados traços surrealistas".
Tenho em mãos o excelente Retrato do Artista Quando Jovem Cão, de Dylan Thomas,
escritor e poeta galês nascido em 1.914 e morto em 1.953. Estes
"acentuados traços" são mencionados na orelha do livro e de todo o
exposto até agora não se pode aceitar esta conclusão. Veja-se esta cena:
"- Ela deve ter comido outro - eu disse, e peguei uma vara de coçar para
cutucar a porca resmungona, esfregando-lhe em sentido contrário as incrustadas
cerdas. - Ou então uma raposa pulou o muro. Não foi a porca nem a raposa -
disse Gwilym. - Foi pai. Eu via o tio, alto, furtivo e vermelho, agarrando o
porco que se debatia em suas mãos peludas, e afundando os dentes no quarto
traseiro, mastigando-lhe ruidosamente os pés; sim, eu via o tio inclinar-se por
cima do muro do chiqueiro, com as pernas do porco a saírem pela boca."
Fantasioso, mas insuficiente para falar-se
“E um dia as metáforas cansaram de seu
papel secundário e tomaram a frente da arte, eram elas mesmas as personagens, o
cenário,o figurino, a vida, a verdade. Os
símbolos começaram a falar com a própria voz e a arte nunca mais foi a mesma!”
Marco Antunes