Uma Situação Muito Constrangedora

                                

                                                                Tony Curtis e Jack Lemmon em

                                               “Quanto Mais Quente Melhor”( Some Like It Hot-1959)

                                                    Desafio 7

Conto 1

TÍTULO

Como foi o amanhecer na pracinha?

Cinthia Kriemler

Felipe pressente que a manhã já vai meio tarde por causa do calor infernal que escorre pelo seu corpo, espirrando gotas de suor para todo lado. Pescoço, costas, vãos dos dedos, tudo melado! A boca ressecada impede qualquer mínima tentativa de continuar dormindo: é de água que ele precisa agora, não de sono.

Para encerrar de vez o devaneio de acordar, abre os olhos de uma vez. O sol forte fabrica uma cegueira em círculos e ele pisca quatro ou cinco vezes para poder enxergar. Bem, é mais um apertar de olhos que um piscar, mas o resultado é definitivo.

 

- Mas que diab...

 

Interrompe-se para abanar a cabeça de um lado para outro, procurando entender o que não tem explicação. É como se sacudisse o espanto para voltar à realidade. Uma praça! Um pracinha de bairro, com o sol atravessando as árvores e cobrindo o chão. Há uma dúzia de olhares de meninas e meninos saudavelmente curiosos sobre ele. Pior que isso: uma mulher com cara de mãe está na sua frente tentando segurar o riso, enquanto uma outra, mais com jeito de babá, tampa a boca para gargalhar mais à vontade.

 

- Bom dia! Algum problema? Alguém perdeu alguma coisa aqui? – pergunta agressivo.

 

As crianças correm, assustadas. Já as mulheres dão uma pequena recuada, mas continuam olhando para ele com ar de zombaria mal disfarçada. Um pouco atrás, no meio fio, Felipe percebe um lavador de carros que acompanha a cena com jeito de reprovação. Logo, logo, um sorveteiro, alguns idosos e mais algumas crianças aparecem no seu campo de visão.  E todos olham para ele!

 

- Que é? – voltou a provocar os mais próximos – Nunca viram um homem de perto não, é?

- Homem?! – debocha um senhor em calças de tergal e camisa branca de algodão – Tem certeza, meu amigo?

 

Felipe se vira enraivecido para o sujeito que se esconde atrás da idade para ofendê-lo assim, em público.

 

- Vovô, o senhor não tem nada melhor pra fazer não, hein? – responde, vingativo.

- Melhor que ficar aqui na pracinha vendo o senhor vestido de mulher, às 9 horas da manhã deste sábado de sol?  Não tenho não, rapaz.  Não tenho mesmo!

           

Por um segundo, um segundo só antes de sacar do estômago uma resposta à altura, Felipe olha para baixo, em direção ao próprio corpo, e fica tonto. Dessa vez, ele tinha se superado!

Um tecido branco de malha estampado de flores cor de rosa é a primeira coisa que Felipe enxerga sobre as pernas que gosta de exibir com tanto orgulho na academia. Uma saia. E rodada. Rodada e cheia de flores! Sobe a vista devagar até encostar o queixo no peito peludo, à mostra num decote profundo. Coloca a mão titubeante na nuca, no lugar onde sente ardência e aperto, apenas para ter a certeza do que já sabia: ali estava...um laço!

Corre rua abaixo procurando um táxi. Ainda bem que não tem carro - sequer dirige -, porque seria estressante ter que procurar pelo próprio carro àquela altura do constrangimento.

Fiu, fiu! – provoca um motorista de ônibus. Ô gostosa! – grita um rapazinho de dentro de um carro. De cabeça quase baixa, Felipe já não agüenta mais as caçoadas, até que, finalmente, um táxi consegue resgatá-lo daquele pesadelo.

Exausto, chateado, ele tenta recuperar, no trajeto para casa, pedaços de memória que possam satisfazer os vácuos do presente...

 

Por volta das 6 da tarde, na véspera, Felipe e a turma do escritório se reuniram para combinar o chopinho da sexta-feira. Foi quando Fabiana, advogada da empresa, propôs uma coisa diferente.

 

- Teatro, gente! Pelo amor de Deus, vocês só pensam em beber, beber, ou comer! A gente pega um teatro primeiro, e depois vai para um restaurante, que tal?

 

Felipe tentava flertar com ela há três anos, mas eram amigos, mais nada. Talvez fosse a hora de agradar. A turma se dividiu e ele decidiu acompanhar Fabiana. Além do mais, no escuro do teatro, ele podia dormir sem ninguém notar. Perfeito!

Depois do espetáculo, parte do grupo exigia sushi, uma opção mais leve para tanto calor, enquanto alguns reclamavam comida mais substanciosa. A escolha foi um oriental recém-inaugurado, que se anunciava do sashimi ao porco agridoce.

Sentados, cada um fez seu próprio reconhecimento do local. A decoração era diferente. Em uma das paredes, por exemplo, um painel reproduzia um homem chinês vestido de mulher, rosto pintado de branco.

 

- Interessante, não? – Fabiana pergunta a Felipe.

- Como?? – ele não consegue imaginar do que ela está falando.

- O painel... – aponta.

- Ah!

- Ah, sim, ou ah, não? – insiste ela.

 

Advogadas! Que vício esse de perguntar e perguntar!

 

- Ah, depende. O painel é interessante como obra de arte. Mas esse homem aí vestido de mulher não faz meu gênero não – debocha.

- Que é isso, Felipe – ela fala em tom mais alto, o suficiente para chamar a atenção do resto do grupo –, mas que machista!

- Machista, eu? Que é isso!  Afinal, é ou não é um homem de vestido?  Muito esquisito!

- Que esquisito que nada! Essa é a reprodução de um artista do teatro chinês. Antigamente, na China, era proibido às mulheres serem atrizes. Os homens faziam todos os papéis. E ninguém era mais ou menos “macho” por isso! – exalta-se ela, fazendo Felipe se sentir meio idiota.

 

Todos riem.  Mas nada faz Felipe se calar.

 

- É, eu posso ser machista...mas vocês assistiram Miss Saigon, não assistiram? É só assistir e ver no que dá essa coisa de homem se vestir de mulher! E não fui que fiz o filme...

- Machista e preconceituoso!  - decreta Fabiana.

 

E assim, depois de comentário tão decisivo, ela parou de falar com Felipe até o fim da noite. Na hora de ir, no entanto, lhe ofereceu carona, como fazia sempre que saiam juntos.  Passava de 1 hora quando Felipe entrou no carro de Fabiana...

 

 

O incidente da noite passada e a carona são as últimas lembranças que Felipe tem no banco do táxi que continua rodando.  E ele cai num sono profundo.

 

- Moço, moço! Acorda! Chegamos.

 

O motorista sacode Felipe por mais de um minuto. Já pensando em desistir, abre a porta do carro para chamar alguém no prédio, quando ouve a voz do rapaz:

 

- Calma, moço, estou acordado.  Quanto deu a corrida? 

 

Depois de passar pelo olhar desconfiado do porteiro da manhã, subir correndo para pegar o dinheiro do táxi, descer tropeçando para pagar o motorista, superar a cara de bobo do menino do 1º andar, e receber um “pelo amor de Deus!” indignado da vizinha da frente, Felipe, finalmente, consegue se acalmar entre as paredes do seu apartamento.

Além do vestido, Felipe descobre, em frente ao meio corpo do espelho do banheiro, que os seus cabelos foram desenhados com gel.

Abalado pela insegurança das horas de uma madrugada sem pistas, ele joga o vestido no chão, com raiva. Vê, então, sobre a pia, um papel dobrado, endereçado a ele: “Quer saber o que você fez ontem à noite, Felipe?”.

Desesperado, quase rasga a folha. E, então, lê:

 

“Toda vez que você fica nervoso ou tenso tem uma crise de narcolepsia. Dorme em qualquer lugar, de repente, a qualquer hora. E a gente cuida de você, há anos, sem deboche, sem rejeição, sem reclamação.

Por isso, ontem à noite, ao invés de colocar você na cama, como das outras vezes, nós resolvemos fazer você sentir na pele que o preconceito impede as pessoas de enxergar a verdade. Até a própria verdade.

Como foi o seu amanhecer na pracinha?

 

Beijos

 

Fabiana”

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LIANA FERREIRA

Para punir o rapaz preconceituoso e doente os amigos lhe dão uma lição de...selvageria.. Pessoas mal-humoradas, transeuntes zombeteiros, brincadeira de mau gosto. Fiquei incomodada com a sucessão de informações negativas. Eis aqui o retrato da total falta de solidariedade. Que turma!

8,5

LUCI AFONSO

O texto é muito interessante até “ali estava... um laço!” A partir daí, vai perdendo força. O final é forçado.

8,5

CIDA SEPÚLVEDA

Excelente enredo – criativo, convincente. A linguagem precisa melhorar; algumas palavras destoam do conjunto.

8,5

CRISTIANE BRUM

A história é realmente inusitada e a situação bastante constrangedora. Contudo, fiquei intrigada com a não-reação do taxista ao cara vestido de mulher. Acho também que a explicação para o trote foi meio fraquinha. A doença da personagem, tudo bem, mas apenas um comentário num restaurante levaria a turma a fazer tamanha sacanagem com ele? Sei não.

7,5

MARCO ANTUNES

Humor é um gênero difícil! A menor sensação de inverossimilhança tira a graça. O conto está bem escrito, mas a explicação para o trote soa forçada. Um narcoléptico que desconhece a doença? Difícil de engolir! * A Autora me escreve informando que não teve intenção de fazer humor, mas me parece muito com o tipo humorístico;e, de fato, parece haver duas discretas informações de que o rapaz sabia do do mal que sofria, mas, naturalmente, minha “sensação térmica” do conto não mudou, infelizmente, pra mim, aquela impressão geral que o conto deve deixar, não é para nota maior, se a tentativa não tiver sido de humor, aliás, pior ainda!

8

TOTAL

41

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Conto 2

TÍTULO

As Damas das Camélias - Maria Raquel Melo

O telefone berra escandalosamente ao meu lado. Estiro o braço para pegar o maldito gancho sem abrir os olhos. Estou acostumado com isso. Aragão tem mania de achar que os problemas que o afligem às sete horas da madruga devem ser compartilhados com o melhor amigo. “Amigo é pr’essas coisas!” Este é o corolário da nossa amizade .

- Margot? – pergunta a voz suave e rouca ao mesmo tempo. Não reconheço o timbre de Aragão naquela voz sussurrada.

Margot? Que história é essa de ligarem pra minha casa a essa hora da matina atrás de uma tal de Margot? Abro os olhos e dou de cara com um enorme espelho no teto. Parece com aqueles de mo... Ôpa, isto significa que eu não estou em casa. Onde estou? Sento-me na cama, o telefone ainda está no ouvido. Meus neurônios mal se espreguiçaram.

- Margozinho... Oi, querido, ainda aí, meu bem?

Margozinho? Margot não é apelido de Margarete? Levanto os olhos para o espelho, receoso de encontrar mais alguém naquele quarto. Mas o que encontro é muito pior, é pavoroso... É horroroso... Meu Deus, é escandaloso! Sou eu? Sou eu, mas não sou eu. Como assim? Não me reconheço naquele vestido noir de veludo, mangas longas e plumas grenás no decote. Tem coisa errada aí, tem coisa errada..., me avisam os neurônios que já escovaram os dentes.

A voz no telefone sussurra ainda mais carinhosa, fazendo gracejos infantis no final da fala:

- Cadê aquela coisinha bonitinha que só o meu Margozinho tem? Cadê, hein?

Pulo da cama. Na falta de coisa melhor, calço o chinelinho de salto e “frufrus” cor-de-rosa., e me jogo na porta de saída. Desço correndo, apavorado, tropeçando nos degraus de uma escada irreconhecível. “Cadê aquela coisinha?”, a voz me persegue, provocando baixinho, “Cadê, hein?”

            Definitivamente, aquilo não é o quarto de um motel. Estou em um edifício residencial, e dos chiques. A portaria comprova: poltronas de oncinha, tapete felpudo. Isso tem cara de Av. Atlântica. O sol está a pino. Minha cara está melada, mas o suor desce colorido.  Só se for... Só pode ser: é a maquiagem. Condiz com meu figurino. Que diabos estou fazendo naquela roupa de mulher?

Aragão! Só consigo me lembrar do Aragão. Numa hora dessas, só o Aragão pode me socorrer. “Amigo é pr’essas coisas”, me lembro quase imobilizado pelo pânico. Mas cadê o celular? Cadê minha carteira? Cadê tudo o que eu usava ontem à noite? Aliás, o que eu usava mesmo ontem à noite? Não consigo me lembrar... Chacoalho a cabeça para dar um tranco nos neurônios retardatários, mas parece que o problema não é com eles. Minha memória sumiu!

Escondido atrás da cortina verde floresta da sala de poltronas de oncinha, esforço-me como um elefante para lembrar o que aconteceu depois que Aragão e eu entramos no teatro. Fomos assistir “A dama das camélias”, disso lembro-me bem. A oitava vez do Aragão e a primeira minha. Ele vive tentando encontrar a mulher no teatro. Ah! É, é isso mesmo, a mulher, ou melhor, a ex-mulher do Aragão estaria no teatro ontem... Minhas lembranças são subitamente interrompidas pelos cutucões de um cidadão vestido em um conjunto safári cafona, bem ao estilo do ambiente:

- Pois não, o senhor procura alguém no edifício?

Não tenho mais como me esconder. Saio das cortinas e resolvo assumir, com ar blasé, o ridículo da situação: - Aragão,  procuro o Sr. Aragão – certo de que a resposta não tem a menor chance de se encaixar na pergunta.

- Ah, sim! Acho que foi um seu Aragão que acabou de sair acompanhado da dona Helena...

Dona Helena... Hum, deve ser a Heleninha, é, a Heleninha do Aragão. Quantas vezes vi o Aragão se debulhar em lágrimas com saudades da Heleninha. Quantas vezes removi o Aragão da vigésima dose de wisky , na marra, depois de um porre, chorando a Heleninha.

O porteiro, orgulhoso pelos bons serviços prestados, custa a reparar nos meus trajes. Entretanto, antes que eu deixe a portaria do prédio, percebe meu drama e acrescenta com um risinho nos lábios: - Ouvi seu Aragão chamar a dona Helena para um choppinho na esquina. Quem sabe a senho... – e demora a completar a frase, só para me provocar – o senhor encontra os dois por aí?

Saio do hall do edifício, constrangido. Na esquina, avisto Aragão, meu amigo Aragão. De longe, parece que a tal da Heleninha está em prantos e o ex-marido a consola com carinhos no cabelo. Não sei o que se passa, mas Aragão precisa me tirar dessa. Vou me aproximando e quando Aragão me vê, ao invés de cair na gargalhada como fez o velho que acabou de cruzar comigo na esquina, abaixa os olhos e meneia a cabeça, num gesto de desaprovação. A mulher me olha, me encara e grita, me apontando com o dedo em riste:  - É ele, Aragão, é ele!

Não sei como a mulher me reconhece debaixo daquela fantasia. Afinal, nunca nos vimos antes. Mas aquela imponderável manifestação de reconhecimento, mesmo vindo de quem eu não conheço, conforta meu coração. Chego mais perto, cheio de esperança:

- Aragão, meu velho, não me pergunte nada. Eu não posso explicar o que significa esse vestido e nem essa maquiagem. Só preciso da sua ajuda... Me leva pra casa, amigo!

Heleninha é mesmo um pedaço de mulher. Tem razão o Aragão ter se desesperado quando a esposa saiu de casa com a cabeça virada por uma nova paixão. Se ele soubesse no que ia dar, nunca teria levado a mulher naquela peça. Ah! É isso! Começo a me lembrar: “A dama das camélias”! Foi por isso que o Aragão me levou na noite passada para assistir aquele dramalhão. Era pra me mostrar por quem a Heleninha tinha se apaixonado. Ele não se conforma... Mas as coisas parecem ter melhorado entre os dois. Aragão está com a mão da mulher entre as suas e o choro dela parece ser de puro arrependimento. Heleninha, de rosto banhado em lágrimas, sem me olhar, aponta para mim:

- É ele, Aragão, é ele mesmo o responsável por tudo isso! Você conhece esse sujeito?

Aragão titubeia na resposta: - É... Não, quer dizer...

Reajo. Será que o Aragão não está me vendo por trás do vestido?

- Peraí, Aragão, claro que me conhece. Quê que há, rapaz, sou eu, o Fragoso!

A mulher enxuga os olhos e, irritada, levanta-se da mesa. Seu corpo cresce em cima do de Aragão. Heleninha vira bicho:

- Eu sabia! Eu sabia! Isso só podia ser armação sua, ordinário! Ah, agora vai ter que explicar tudo direitinho! – e agarra o colarinho encardido do Aragão, sacolejando o homem inteiro.

 Começo a desconfiar que tenho alguma coisa a ver com o babado e também resolvo encostar o homem na parede:  - Ô Aragão, meu filho, agora eu também querendo entender essa história. Sua mulher nunca me viu e diz que sou eu o responsável por... Responsável pelo quê? Você, de uma hora pra outra, não sabe mais quem eu sou... Tem coisa errada aí, meu irmão, tem coisa errada.... Fala logo, Aragão, quê que esse vestido tem a ver com a Heleninha?

Com as mãos espalmadas, o homem pede calma.

- Vou explicar, calma! Mas antes de tudo, minha flor, quero dizer que fiz tudo por amor.

A ex não se comove. O choro de arrependimento cedeu lugar a uma fúria das mais incontroláveis. Aragão continua a se explicar, quase que implorando perdão:

- Eu não agüentava mais ficar longe de você, Heleninha. Não pude suportar a sua ausência, meu bem. sofrendo de saudade...

- Ô Aragão, dá pra ir direto ao ponto? – pergunto impaciente.

- Fragoso, me perdoa, meu caro. Mas você vai entender, sou um homem corroído pela dor de quem ama demais...

Heleninha, debochada, interrompe:

- Dor de quem ama demais? Na minha terra, essa dor tem outro nome!

- Eu estava enlouquecido, continua Aragão, - planejei tudo com antecedência. Já estava cansado de espiar você sair todas as noites do teatro com ela...

Sair do teatro com “ela”? Confesso que estou confuso. Intervenho para esclarecer:

- Peraí, Aragão, eu nunca saí do teatro com ninguém, a não ser com você mesmo, eu acho, ontem à noite... , mas não me lembro direito.

- Não é você não, Fragoso, é a Heleninha. Ela é que saia todas as noites do teatro com a Margot, a personagem principal da peça, lembra, Fragoso? A Heleninha me traia com a Margot!

Com um pouco mais de esforço, a memória começa a clarear: - Hum... me lembrando... Uma loira, alta, gatíssima, usava um vestido preto de mangas justas e longas com umas plumas cor de... Êita! Era um vestido igual ao meu... Era esse vestido aqui que ela usava!

Olho de novo pro meu corpo para conferir o figurino. Isso mesmo: eu vestido de Margot. 

- Calma, Fragoso, eu posso explicar. Não suportava mais assistir aquelas cenas de tórrida paixão entre a Heleninha e a Laura, a atriz que faz a Margot.

E se dirigindo à ex-mulher: - Nunca poderia imaginar que você, minha flor, se apaixonaria por outro, quer dizer, por outra... Foi demais pra minha cabeça.

A mulher, sem demonstrar um pingo de remorso, resolve falar também:

- Coração é terra que ninguém anda, Aragão. No dia que fomos à peça juntos pela primeira vez, senti meu peito explodir na cena da morte da Marguerite. Também, vamos combinar, nosso casamento já tava acabado há muito tempo! Foi pura identificação: me vi nela, uma mulher forte e frágil ao mesmo tempo. Sem me dar conta, fui alimentando essa admiração. Quando tive a oportunidade de estar com a Margot verdadeira, quero dizer, com a Laura, confirmei que a admiração tinha se transformado em paixão. Vivemos juntas os melhores dias da minha vida. Até que ontem à noite,  justo ontem, quando, pela primeira vez, eu não fui prestigiar a Laura na peça e acabei chegando em casa depois dela, dou de cara com aquela cena... Não gosto nem de lembrar...

Heleninha voltou a soluçar convulsivamente. Mas o que foi que aconteceu ontem à noite? Que cena foi essa que deixou Heleninha tão transtornada? Aragão, afogado em arrependimento, desembucha a confissão:

- Fui eu, meu amor, eu armei tudo. Só que as coisas não saíram exatamente como eu planejei. Tava tudo combinado com a Fafá, a atriz substituta da Laura, sabe quem é? Elas são tão amigas que a Fafá é a segunda Margot. Quando a Laura falha, a Fafá entra em cena. Ela sempre a postos, no camarim, prontinha com o vestido de Margot.  Pois é, conheci-a aqui mesmo, nesse boteco, depois de uma das matinês de domingo. Acabamos abrindo nossos corações. Por coincidência, ela também tava sofrendo daquela dor de... Pois é, daquela dor. A Fafá é apaixonada pela Margot. Ou melhor, pela Laura. Elas até já viveram juntas. Quando você apareceu, a Fafá sobrou, entendeu?

A Heleninha, eu não sei, mas até aí, eu entendi, entendi tudo, menos o que eu que eu fazendo nesse vestido: - E daí? Fala logo, Aragão, o quê que eu tenho a ver com tudo isso?

- Aí combinamos tudo. A idéia era provocar uma cena de ciúmes em você, florzinha. A Fafá, que ainda tem a chave do apartamento da Laura, ia sair do teatro um pouco antes do final da peça, ia ficar lá no quarto de vocês, esperando as duas chegarem. Quando vocês chegassem, o pau ia quebrar. Conheço o que o seu ciúme é capaz de fazer, Helena. Apostei que assim você desistiria dessa paixão maluca e voltaria correndo para chorar as mágoas no meu ombro. Seria nossa chance de reconciliação.

Heleninha, furiosa, queria enforcar o ex-marido pelo colarinho:

- Mas e esse cara, aí? O que quê essa figura tava fazendo na minha cama com a Laura ontem?

- Pois é, foi só isso que deu errado. A Fafá furou. Na última hora, deu pra trás, perdeu a coragem. Mas me disse que o vestido estava à disposição, era só encontrar outra candidata pra vestir.

- Hummm, entendendo...  E a outra sou eu, ? – concluo, brilhantemente.

- Me desculpa, Fragoso, mas depois daquele porre que tomamos no final da peça, eu não tinha cara pra abordar mulher nenhuma na rua pra pedir um favor desses. Você tava tão chapado que foi fácil vestir a roupa em você. E a maquiagem? Também foi sopa! Além do mais, Fraga, amigo é pressascoisas, não?

A essas alturas, eu já tinha entendido quase tudo. Só não compreendia ainda porque a Heleninha tava tão desconsolada. Se não pintou outra mulher na jogada, porque que as duas brigaram? Afinal, quem tava na cama vestido de Margot, de Margozinho, era eu... Quê que a Laura poderia querer comigo, o negócio dela não é mulher? Antes que os meus neurônios mais espertos pudessem decifrar o enigma, vejo Heleninha levantar-se e correr indócil rumo á loira alta que acaba de entrar no boteco. - Laura, Laurinha, meu amor, me dá uma chance...

Heleninha tenta se pendurar no pescoço da loiraça, mas ela se desvencilha com uma cotovelada pouco delicada para uma moça tão bonita. Vem direto ao meu encontro:

- Oi,  Margozinho! Cadê, gostoso? Cadê aquela coisinha bonitinha que só você tem?

Aragão, Heleninha e eu nos entreolhamos. Já entendemos. “Aquela coisinha bonitinha que só Margozinho tem” fez a Laura perder a cabeça por mim. A “dama das camélias” original também se apaixonou pela Margot, no caso, eu, Margozinho.

Heleninha faz cara de vencida. Sem “aquela coisinha bonitinha que só Margozinho tem” não dá pra continuar no páreo. Aragão faz cara de vitória. O plano que não deu certo, afinal, parece que deu certo. Laura vem toda delicadinha pro meu lado, com as mãozinhas prontas para pegar naquela “coisinha bonitinha que só”... Protejo-me como posso, aperto as pernas, coloco o guardanapo no colo. A loira segura meu queixo e balança meu rosto carinhosamente, como se estivesse falando com um bebê: - Ai, Margozinho, ninguém tem um furinho no queixo mais lindinho que esse!

Laura, a Margot titular, me lasca um beijo de tirar o fôlego. Não estou certo se é a primeira vez, mas a que loiraça beija bem, ah, isso eu não posso negar!

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LIANA FERREIRA

Bem criativa a solução encontrada pelo contista para o tema proposto. Mas esse Aragão...não sei não. Tão ligado no amigo, tão dependente dele, tão ... tão... apaixonado pelo Fragoso. Só o autor não quis ver. Ficaria mais interessante se terminassem juntos. A referência ao furinho no queixo enfraquece o enredo.

9

LUCI AFONSO

A estória demora a se desenrolar, o que tira a atenção do leitor. A idéia é extravagante, assim como o tema.

 

8,5

CIDA SEPÚLVEDA

Linguagem impecável. A trama é boa, embora levemente clichê.

8,5

CRISTIANE BRUM

A situação foi bem construída e o final é, no mínimo, engraçado. Mas não gostei do tom explicativo do texto. Ficou muito didático. Do meio pro fim, parece tudo muito surreal e, ao mesmo tempo, com uma intenção realista que não combinam.

8

MARCO ANTUNES

Muito explicativo, o texto termina por ser uma longa e penosa explicação do que tinha sido muito engraçado em seu início. A perda de força é sensível, humor e a boa piada precisam ser rápidos, sem tempo para meditação, pois a razão estraga o efeito surpresa que causa o distúrbio cômico.

7,5

TOTAL

41,5

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Conto 3

TÍTULO

Hard Night’s Day – Ari  Gurcz

O gosto era horrível, lembrava o cheiro de carniça... O que teria comido que lhe pudesse deixar esse gosto pútrido? Um suspiro e descobriu que seu hálito ratificava de forma cabal a primeira impressão. Os olhos pesados teimavam em permanecer fechados, meio grudados que estavam. Precisava lavar a boca, lavar o rosto. Era sábado e logo começariam a chegar. Tomou fôlego e sentou-se na cama em um movimento ligeiro. Um zumbido agudo e alto acompanhou a sensação de que a cabeça inflava dolorosamente, ao ponto de explosão iminente. O quarto girou e balançou como se enfrentasse uma borrasca em mar aberto. A pressão na cabeça aumentou e teve medo que os olhos fossem lançados de suas órbitas contra a parede. Preferiu mantê-los fechados. Caiu de volta à cama. Ter levantado rápido foi, decididamente, uma má idéia.

 

            Depois de alguns minutos em que lutava para manter o conteúdo do estômago em seu continente, decidiu que precisava chegar ao banheiro. Muito lentamente, virou-se de lado, apoiou o cotovelo na cama e foi erguendo o corpo. Conseguiu sentar-se e, a muito custo, pôr-se de pé. Equilibrar-se exigia grande esforço. Tentou abrir os olhos mas a luz os feria, fazendo subir em uma oitava a dor de cabeça. Decidiu mantê-los fechados. Mesmo assim, seguiu a cambalear para o banheiro. Afinal, conhecia a direção e precisava de uma ducha. A meio caminho, no entanto, deparou com frias barras verticais.

 

            Acordou, Bela Adormecida?” Uma voz rouca e desagradável assomou incômodo ao zumbido que o atormentava. Abriu forçadamente os olhos e viu uma figura grande e peluda dentro de um uniforme amassado. Exibia um sorriso sarcástico, mais desagradável que a voz. Entre ambos, a grade de ferro da cela.

 

“Começou cedo, heim!” e ria debochado. “Pode ir embora, o delegado mandou te soltar. Vê lá se se  comporta. , benzinho?”

 

            Soltar? Estava preso? Por que estaria preso? Quem o havia prendido ali? Por que não estava em casa? Que dor de cabeça era aquela? Por que lhe doía a barriga? Onde era o banheiro?  “Onde é o banheiro?”

 

            “Vá usar o banheiro da sua casa, rapá. Toma vergonha!” e foi disposto na calçada em frente ao posto policial, com a delicadeza característica dos plantonistas em pleno sábado de carnaval.

 

            De um lado e de outro da rua havia casas térreas e uns poucos sobrados, nada que reconhecesse. Não suspeitava onde pudesse estar. Havia poucos carros àquela hora. Passou a caminhar à procura de um taxi.

 

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No posto policial:

 

             “E, aí?”, perguntou o delegado. “E o traveco?”

            “Já despachei, doutor. Esse deu trabalho! O pessoal disse que tava doidaço. Diz que gritava pela rua e cantava uns hinos. Acordou o bairro inteiro e quase não deixa a gente dormir, também. Quase que eu encaçapo ele.”

            “Esse ano, começou cedo. Eu detesto carnaval.”

 

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            A cólica vinha e voltava com intensidade variável e ondas de arrepios e náusea a acompanhavam. Resolveu recorrer aos moradores. Bateu palmas em frente a um portão. A moradora abriu a porta e, antes que ele pudesse pedir ajuda, fechou-a bruscamente. Reações semelhantes repetiram-se. Uma fez cara feia, outro desferiu alguns impropérios, todos batiam-lhe a porta à cara. Não estava acostumado àquele tratamento. De onde vinha, as pessoas eram mais generosas, especialmente com ele e com os... a cólica apertou. Precisava de um banheiro, urgentemente. “Um bar!” Sempre há um bar aberto. Parou o gari que varria a calçada. “Um bar? A essa hora? Começou cedo, heim?” Havia um bar logo após a esquina. Dirigiu-se até lá o mais rápido que a vertigem permitia.

 

            “Moço, Graças a Deus o bar está aberto!”

            “Começou cedo, ó pá!” O balconista olhava-o de cima a baixo com desdém.

            “O banheiro. Preciso usar seu banheiro. Urgente.”

            “Só para clientes. Quer um café forte, uma água tônica, um sal de frutas, um caldo verde?”

            “Claro, vai servindo que eu tomo quando voltar. É realmente urgente.”

            “É a porta no final do corredor” e riu.

 

            O ambiente era sujo. Mais próximo o banheiro, mais desagradável o odor, maior o mal estar. Ao final do corredor, na única porta estava escrito Leides. Era tarde demais para pudores  ortográficos ou de gênero. Entrou, trancou a porta, levantou a batina e desapertou o cinto. A batina? Que batina era aquela? Certamente não usaria uma batina amarelo-ovo estampada com padrão floral vermelho e azul! “Meu Deus!” De quem seria aquele vestido? Onde estaria sua batina? E sua carteira, seus documentos, seu dinheiro?

 

            Enquanto a dor abdominal era mitigada, aumentava a da cabeça e a da consciência. O que teria feito? Não tinha idéia do que havia acontecido.  O guarda, o gari, os moradores, os risos, a grosseria... estava morto de vergonha.  Depois de muito esforço, alguns lampejos de memória. A última lembrança do dia anterior era de estar no hospital, fazendo uns exames.

 

------------------------

 

Na Santa Casa, na tarde anterior:

 

                         “Já acharam o padre?” O diretor estava aflito.

                        “Não, doutor. Ele sumiu. Só ficou a batina.”

                        “Meu Deus! Como é que vocês deixaram ele sair?”

                        “Doutor, a gente não teve culpa. Ele tava doidaço!” tentou o segurança.

                        “Como é que não?! O paciente vem pra uma endoscopia, tem uma reação daquelas ao sedativo e vocês não seguram o homem!”

                        “O pior é que ele tinha aproveitado e passado, primeiro, pela oftalmologia.” informou o auxiliar de enfermagem.

                        Que é que isso tem de pior?” perguntou irritado.

                        É que ele estava com as pupilas dilatadas, não devia enxergando nada.”

                        Ah, que ótimo! Perdemos um padre cego, drogado e nu. ferrado!”

                        A secretária interrompeu o médico: Doutor. Tem uma paciente reclamando que roubaram o vestido dela, lá do vestiário da endoscopia.”

 

------------------------

 

 

 

 

            Como chegaria à igreja daquele jeito, travestido, sem dinheiro, sem idéia de onde estava? Não podia pedir socorro, não podia ser visto pelos... “A missa! Minha Nossa Senhora, a missa!” Era a primeira missa que celebraria na nova paróquia. E o bispo estaria presente! Quis morrer. “Não. É pecado.” Precisava reagir. Saiu do toalete das senhoras, esperou o balconista distrair-se e saiu em disparada, seguido pelos xingamentos do português. Continuou correndo por um  quarteirão e meio, até que os anos de sedentarismo o obrigaram a parar. Exausto, sentou no chão de um beco entre duas casas.  Já não sentia náusea. Sentia angústia, sentia raiva, sentia vergonha. Como chegara àquela situação? Como sairia dela?  Era sua carreira que estava em jogo, sua honra. Não podia desistir. Não podia ser reconhecido: rasgou o largo babado do vestido estampado e o enrolou na cabeça à moda de Carmem Miranda.

 

Mais algumas ruas e deu com um ponto de taxi. Jogou-se dentro do primeiro da fila e ordenou: “Igreja da Sagrada Família”.

            “Começou cedo, heim?” gracejou o motorista.

O padre fez cara de pouquíssimos amigos. “Estou com pressa, meu filho.”

 

            A igreja já estava cheia e a missa, atrasada uns quinze minutos.

 “Pelos fundos, pelos fundos. Pare no pátio de trás.” O motorista deu a volta.

“Espere aí que já volto com seu dinheiro”.

Sorrateiramente, o mais rápido que pôde, Padre José entrou pela sacristia e foi até a casa paroquial. Foi tirando a roupa e entrando no chuveiro.

 

            O Bispo estava irritado. “Que desaforo! Que é que ele está fazendo que não vem celebrar essa missa!” e entrou no quarto do padre a tempo de ouvir, do chuveiro, Padre José soltar um gemido de alívio. Sobre a cama um vestido estampado, uma calça masculina no chão, sapatos jogados pelo caminho.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LIANA FERREIRA

O contista conseguiu produzir uma boa história usando o seu talento inventivo no desenvolvimento do tema proposto. Fiquei solidária com o padre e seu drama. Imaginem a saia justa, digo, a batina justa de um religioso que se deita para um exame e acorda na cadeia com desarranjo intestinal. A divisão de cenas me lembrou o teatro. É isso mesmo professor Marco Antunes?

9

LUCI AFONSO

O conto é engraçado, a começar pelo trocadilho do título. Gostei das surpresas que vão surgindo. A combinação entre exame oftalmológico e endoscópico ficou exagerada. O último parágrafo merece ser reestruturado.

9

CIDA SEPÚLVEDA

Muito bem escrito, linguagem clara e enxuta. Talvez a finalização pudesse impactar mais.

8,5

CRISTIANE BRUM

Que situação, hein? Para um padre, realmente uma aventura e tanto. Fiquei curiosa com a reação do bispo, nesse final aberto que me agradou. Só achei meio fraca a explicação para a reação de “doideira” da personagem (que sedativo era esse?).

 

8,5

MARCO ANTUNES

Realmente humorístico com excelente uso do timming da comédia. Brilhante redação e honestíssima resposta ao desafio.

10

TOTAL

45

QWERYUIOP´[ASDGFHJKLÇ~]ZXCBNM;/

Conto 4

TÍTULO

Dormiu homem, acordou mulher – Roberto Klotz

Almeida muito suado afastou o lençol e se ajeitou melhor no travesseiro. A cabeça estava doendo e havia alguma coisa incomodando a orelha. Sem abrir os olhos tentou tirar o que parecia um botão. O quarto estava escuro e silencioso. Almeida sempre dormiu nu e estranhou que, apesar de ter afastado o lençol, sentia-se vestido. E pior, a roupa apertava-lhe as partes.

A dor de cabeça era mais forte que a curiosidade. Assim, voltou a dormir.

Passadas três horas voltou a se revirar. Sentia-se desconfortável com aquela coisa na orelha e a roupa apertada. Abriu os olhos, enrugando a testa com medo da luz. Não havia luz. Virou-se então para a mesinha de cabeceira a fim de ver as horas. O despertador estava apagado. Almeida, com a cabeça pesada, imaginou que devia ter deixado o livro na frente daqueles números brilhantes na hora de apagar a luz.

Optou por acender o abajur e esticou o braço lerdo. Não encontrou nada. Tateou novamente. Não encontrou o interruptor nem o criado-mudo. Com a outra mão tateou para o lado da esposa e antes de perceber que estava só, estranhou um bolo de cabelos bem no meio da cama. – Que bicho seria aquele? – pensou.

Uma nesga de luz entrava por um cantinho da cortina. Almeida sentou-se e percebeu que aquele não era o seu quarto. O lugar lhe era estranho. Levou as mãos à nuca, como se o gesto pudesse amainar as dores. O paladar acusava gosto de alho, coentro e óleo diesel. Tudo ao mesmo tempo.

Mansamente colocou os pés para fora da cama posicionando-se em direção à janela. Um passo e meio foram suficientes para alcançá-la. Com medo de explodir a própria cabeça, tanta era a dor, empurrou vagarosamente a cortina para o lado. Encontrou vidros sujos de uma janela porca de um quarto imundo.

Virou-se lentamente para examinar o ambiente. Uma cama de casal com lençóis rasgados, uma cadeira de palhinha com um buraco no lugar do assento, uma mesinha com um copo e uma garrafa d’água, um espelho pequeno pendurado na parede próximo da porta e sapatos de salto alto jogados próximos à cadeira. Não havia banheiro. Usava roupas de mulher desqualificada.

Almeida sentiu nojo do lugar e de si. Arrancou o vestido do próprio corpo. Não reconheceu como sua a cueca que usava, olhou melhor e percebeu que estava de calcinha. Procurou suas roupas pelo quarto e não viu nenhuma. Estava sem relógio. Estava sem o seu Rolex de ouro. Olhou novamente para os lençóis e reconheceu no bolo de cabelos uma peruca loira. Constrangido, não sabia se tirava a calcinha ou se ficava com ela. Não sabia o que era pior: ficar de pé no carpete encardido ou sentar na cama do prostíbulo.

Apalpou-se e confirmou um par de brincos. Foi até o espelho para tirar os enfeites e levou mais um susto com a maquiagem borrada.

Almeida estava muito desconfortável. Não estava entendendo nada.

– Por que estou com essa calcinha ridícula? Onde estão minhas roupas? O que estou fazendo aqui? Onde estive ontem à noite? Por que estou me sentindo tão mal? O que houve? O que está havendo? Assalto? Extorsão? Seqüestro?

As pernas tremeram. Sentou-se na cama para reavivar a memória e somou mais um desconforto. Sentiu dores.

Teve ganas de sair da própria pele.

Levantou-se e arrancou a calcinha ensangüentada. Teve ânsias de vômito. Sentiu-se invadido, ultrajado, humilhado. Foi até a mesinha, afastou com asco o copo de geléia e abriu a garrafa de água mineral. Esvaziou no gargalo a água quente e gasosa que não melhorou em nada seu estado desolador.

Almeida sequer tentou abrir a porta. Suas opções eram terríveis: sair nu ou com roupa de mulher.

Voltou a se acomodar na cama. Deitou-se de lado, encolhido em posição fetal.

A cabeça girava, o ânus doía, estava psicologicamente arrasado e agora começou uma dor de barriga.

Procurou lembrar-se da véspera. Não se recordava de nada diferente. Levou as crianças para a escola e, como sempre, foi o primeiro a chegar ao escritório. Almoçou com um cliente e à tarde reuniu-se com os sócios. Rotineiramente, saiu do trabalho às oito horas e pegou o carro no estacionamento. Sentiu um vazio, um branco na memória. Pegou o carro ou não pegou o carro? Para onde foi? Ainda se recordou que precisava abastecer a caminho de casa. Fechou os olhos e começou a refazer seus os passos. Mentalmente desceu o elevador, cumprimentou o zelador, atravessou o pequeno jardim, caminhou à direita na calçada. Lembrou-se que a loja de calçados estava fechada, com a vitrine iluminada. Quando passou em frente da farmácia pensou em pesar-se, não entrou, deixaria para iniciar o regime no outro dia. Atravessou a rua na faixa de pedestres. Quando se aproximou do carro foi abordado por um estranho. – Aquele camarada deve ter me sedado. – Difícil saber o que dói mais. A cabeça, o sentador, a barriga ou a humilhação.

A nossa vítima apurou os ouvidos. Parecia ouvir um telefone. Era o toque abafado de um celular. Encontrou o aparelho dentro do sapato, sob a cadeira.

Antes de atender viu uma coleção de zeros indicando ligação não identificada. Almeida estava apavorado, construiu uma sólida, ética e vencedora carreira judicial, sempre foi pai dedicado e marido fiel. A sociedade reverenciava seu trabalho e desprendimento como fundador de um orfanato de crianças carentes. Era professor honoris causa em duas universidades. Não estava acostumado a tratar com gente de baixo nível.

– Alô. – atendeu seco e desconfiado.

– Eu vi que a Cinderela abriu a cortina. Já encontrou suas fotos embaixo da cama? Com qual deles teve mais prazer?

Num pulo, Almeida saltou para o lado da cama e encontrou quatro fotos impressas em papel de computador, bem diferentes daquelas das colunas sociais.

– O que você quer de mim, seu filho-da-mãe? – Disse com muita raiva, porém medindo as palavras, pois estava em clara desvantagem.

– Eu não quero nada de ratos. Enviei e-mails com as fotos para todos os seus amigos, eles vão adorar ver você sendo amado naquelas posições grotescas.

Almeida colérico, totalmente tomado de ódio, gritou:

– Por que eu?

Do outro lado a voz respondeu segura e acusativa:

– Você deveria ter perguntado isso para a pequena Gabriela. Aquela menina doce, do terceiro andar, que você leva para a escola junto com seu filho.

A vítima transformou-se em réu, o tom agressivo amansou e a ira virou pavor.

– E daí? 

– Daí que advogados iguais a você sempre conseguem liminares, habeas corpus e mil artifícios para fugir das penas.

– Aonde você quer chegar?

– Não quero chegar a lugar nenhum. – E cheio de ironia, completou: – Apenas retribuí todo amor que você deu à indefesa Gabriela.

– Quem é você?

– Sou tio dela, delegado de polícia e exterminador de ratos. Você gostou da água gasosa?

Antes de cair no chão o condenado contorceu-se de dor e arrependimento. Depois sentiu mais uma forte pontada no estômago causada por raticida.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LIANA FERREIRA

Dormiu homem, acordou... qualquer coisa, menos mulher. Roupa de mulher desqualificada???!!!Como seria essa roupa e como seria essa mulher? Essa combinação de pedofilia, estupro, justiça com as próprias mãos pode ser muito interessante do ponto de vista da literatura e tem rendido bons textos, mas é bom não esquecer que é muito tênue a linha entre a crueza da vida e o mau gosto.

8

LUCI AFONSO

O enredo é ousado. É preciso corrigir tempos verbais: ...construiu (construíra) uma sólida...” e “sempre foi (fora) pai dedicado...”. Para o final surtir maior efeito, a última frase poderia ser retirada.

9

CIDA SEPÚLVEDA

Bem escrito. A trama porém, muito quebrada, com um final “encaixado”

8,5

CRISTIANE BRUM

Cruzes, que história pesada! Fiquei lembrando dos contos do Rubem Fonseca pela morbidez da conclusão. Acho que o ritmo está bom e a explicação suficiente. Ainda que o exagero escatológico de algumas passagens tenha me incomodado um pouco.

9

MARCO ANTUNES

Achei bem inteligente ter fugido da hipótese mais plausível do humor por via de uma narrativa de vingança. Texto bem escrito com poucas deficiências de linguagem e estilo que uma revisão mais acurada pode resolver facilmente.

9,5

TOTAL

44

QWERYUIOP´[ASDGFHJKLÇ~]ZXCBNM;/

Conto 5

TÍTULO

O anjo chinês – Artur Adolfo Cotias e Silva

A campainha antiga, com som de cigarra estridente, soava insistente: Pééééééééééémmmmmm. Marcelo abriu os olhos e tudo o que viu foi um teto branco com algumas rachaduras de infiltração. Pelo lustre começou a reconhecer: estava na sala de casa. Dormira na sala. O sol já ia alto, o calor atravessava a cortina de tecido e transformava o pequeno cômodo em um verdadeiro forno. O rapaz se desmanchava em suor. Tentou virar-se de lado e sentiu o korino do sofá colado em suas costas. Esse pequeno movimento fez a cabeça doer insuportavelmente. Precisava levantar para ir até a porta, mas não conseguia. Doía tudo. A campainha insistia: Péééééééémmm. Ao baixar o olhar, levou um susto que o fez pular do sofá, indiferente a qualquer dor: estava vestido de mulher! E o pior, reparou em seguida: era um vestido de noiva! Branco, com rendas e tudo. Os sapatos brancos de salto estavam jogados na beira do sofá. Caraca!! Que que é isso?

De novo o toque insistente da campainha. Atordoado, aproximou-se da porta e olhou pelo olho mágico. Um homem pequeno, com traços orientais, estava à espera, de gravata e terno brancos. Mal a porta se abriu e ele se apresentou:

― Olá. Sou Chang Li Zhao. Pode chamar de Chang. Sou seu anjo da passagem. Vim fazer sua reentrada.

― Anjo da passagem? Reentrada?

― É. Não se lembra de nada, ? É assim mesmo que funciona. Quando há uma reentrada, a pessoa deve esquecer o que ficou para trás.

― Espere aí, Cheng...

― É Chang, Senhor Marcelo. Chang. Deveria ser Zhao, pois sou chinês, e na China os nomes das famílias....

, , . Chang. bom. Chang. Já entendi. Mas peraí, anjo chinês?

― E por que não? Só tem céu no Brasil, por acaso?

― Não é isso, é que eu nunca pensei em anjos chineses, sempre a gente vê aqueles cabelinhos encaracolados, loiros..... E além disso, os anjos chineses não deveriam se ocupar lá dos chineses?

― Não, não. Lá em cima não se obedece à mesma geografia não. Misturam-se todos.

― E por que é que você vai fazer essa tal de minha reentrada? E mais: porque é que eu vestido de noiva?

― Você não lembra, ? Chang vai lembrar, só um pouquinho. É contra o regulamento, mas vou relevar, afinal, eu te devendo, . Você tava pegando onda no mar, lembra? Surfando, na praia aqui perto.

― Lembro, mais ou menos...

― Daí você levou um caldo, a prancha bateu na sua cabeça, a onda te cobriu e pronto, Chang veio buscá-lo para reentrar.

― Mas eu sou ótimo de natação, Chang, e melhor ainda de mergulho. Já tomei vários caldos pegando onda e nunca me afoguei naquela praia.

― É que Chang cometeu um pequeno errinho, . Também, vocês surfistas são todos tão parecidos...

, Chang, errinho?!? Escuta, me diz uma coisa: há quanto tempo você nesse negócio de anjo?

― Ah, na passagem comecei ontem. Olha o crachá, novinho em folha. Antes eu era nubícogo.

¾ Nubícogo?

¾ É. São os caras encarregados de ajuntar as nuvens. Ajuntar, sabe? Fazer flocos de nuvens para se ver de baixo. 

― Era só o que me faltava, me arrumaram um anjo chinês, maluco, novato, que até ontem ficava juntando nuvens – disse Marcelo, entre os dentes, quase para si mesmo, enquanto balançava a cabeça descrente.

― Como disse, senhor Marcelo?

― Nada, Chang. Nada. Mas espera um pouco. Esse negócio de reentrar, não é daquele filme, como é mesmo o nome?

― “O céu pode esperar”.

― Esse mesmo! Não é de lá que veio essa idéia maluca? Ah, já sei. Isso é pegadinha, ? Tão imitando o filme , malandro? Cadê as câmeras?

― Não, não é pegadinha - disse o chinês em tom um pouco mais sério. Pode prestar bem atenção que você vai ver que aqui parece a sua casa, mas você já está no ponto de reentrada.

Só então Marcelo se atentou a alguns detalhes que lhe estavam escapando. Parecia em tudo com sua casa, mas havia algo diferente. A paisagem às costas do chinês, por exemplo, era só um céu azul, nada da rua de costume. O chão também tinha qualquer coisa de anormal. Apesar de ter os pés descalços apoiados no piso, não sentia o frio da cerâmica. Não sentia os pés. Subitamente pensou em outra parte do corpo, muito mais importante que os pés. Se já estava no ponto de reentrada, como disse o chinês, e vestido de noiva, será que já tinha virado mulher? Desejou com força sentir uma daquelas dores que sentia de vez em quando. Uma ardência, qualquer coisa. Mas nada, nenhuma dor. Teve receio de pôr a mão e se desesperar. Interrompeu o gesto na altura da barriga.

Depois de uma fração de segundos em que esteve perdido no labirinto desses pensamentos, o sotaque do chinês o trouxe de volta:

― E a idéia não veio do filme, o filme é que usou a idéia. Arte imitou vida, no caso, . Ninguém lá em cima sabe como vazou a informação, mas eles fizeram igualzinho. Chefe ficou bravo no começo, depois não falou mais.

― Mas, então, se dá para reentrar, por que raios eu tenho de voltar como noiva? Eu quero voltar no meu corpo.

― Seu corpo não dá mais. Por causa do errinho de Chang, já passou do prazo limite e seu corpo teve de ser sacrificado. Se você reentrar nele, vai morrer, de novo.

― Mas tinha que ser um corpo de mulher?

― Ah, isso idéia de Chang, - disse o anjo chinês, envaidecido da própria astúcia.

― Sua idéia??

― Você vivia dizendo para as garotas que tinha alma feminina, que gostava de poesia. Chang achou um corpo feminino para sua alma feminina. Perfeito, não?

Esteve a ponto de esganar o chinês, mas se conteve. Afinal, qual seria a pena por matar um anjo? Preferiu não pagar pra ver. “Poesia? Alma feminina? Filho da mãe!”. Olhava para o sorriso estampado na cara redonda de Chang e pensava: “Seu projeto de anjo! Aquilo era só agá para cima das meninas. Força de expressão, já ouviu falar?”.

― Agora temos de ir. Noivinha teve desmaio antes do casamento e você tem de reentrar logo, senão não dá mais.

― Mas, , Chang, de noiva?

― É. De noiva ou nada. É pegar ou largar.

Marcelo recebeu a frase do chinês como se ela pesasse uma tonelada. Desabou no sofá, a cabeça pendida para trás. Fechou os olhos. Não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo com ele. O anjo continuou a falar:

― Agora que você vai ser mulher, preciso lhe falar de algumas coisinhas das mulheres.

― Coisinhas das mulheres? - a expressão anuviou-lhe o rosto.

A cada palavra que Chang pronunciava, soava uma campainha na cabeça de Marcelo, com o mesmo som estridente da campainha de sua casa. Maquiagem. Péééééémmmm. Unhas. Péééééémmmm. Menstruação. Péééééémmmm. Depilação. Péééééémmmm. Gravidez. Péééééémmmm. Dupla jornada. Cozinhar. Lavar. O som estridente a se repetir.

Quando o chinês falou em dores do parto, a campainha soou tão alto que Marcelo abriu os olhos. Estava deitado. “Putz, velho, era um pesadelo. Graças a Deus!”. Olhou o lustre no teto e reconheceu a sala de sua casa. Dormira na sala, isso era verdade. Experimentou a mesma sensação com as costas suadas no revestimento do sofá. Isso também não era sonho! Aos poucos, foi se espantando com as coincidências. Teve medo de olhar para seu corpo. Depois de alguns segundos de suspense, se encheu de coragem e baixou os olhos até os pés. Tomou um susto e saltou do sofá de um pulo só. “Sonho o caramba!!” Estava vestido de noiva, com meias finas e tudo. Absolutamente branco. Tudo como no sonho. Até o barulho da campainha soava igual, e foi aí que ele se deu conta que o barulho continuava, mesmo depois do sonho. Era real, alguém estava mesmo à porta de sua casa, tocando a campainha.

Foi abrir apavorado, o coração aos pulos. “Caramba, o chinês veio me buscar”. Então talvez não tenha sido sonho. Pode ter sido uma visão, pensou. Abriu a porta de supetão, desta vez nem olhou pelo olho mágico. Deu de cara não com Chang, mas com Julinho Chaleira, seu amigo e parceiro, também vestido de noiva, dos pés à cabeça, que foi logo cobrando:

que enfim, , ô! Pensei que tinha morrido aí dentro.

Uma expressão de perplexidade cobria o rosto de Marcelo. “Que é havendo, meu Deus? Deu a louca no mundo, agora? Todo mundo vestido de noiva?”

Chaleira emendou, com voz de riso:

Tu dormiu com a fantasia , malandro? Que cachaça, hein? , velho, assim não dá, nego. Os caras lá vão te encher o saco. Tu vai sair assim, todo fodido?

O rosto de Marcelo se iluminou. Abriu um sorriso de orelha a orelha. Meteu a mão por baixo do vestido de noiva e deu a conferida que antes não tivera coragem. Depois fez o nome do pai e se agarrou no amigo, em um abraço esculachado de felicidade.

Pára, Marcelo, porra. Que é que te deu, cara? Pára com isso. Assim você vai amarrotar a minha fantasia também, velho. Aí vamos ser dois fodidos e o pessoal do bloco vai barrar a gente. Carnaval é coisa séria, parceiro.

A rua toda prestava atenção nos dois marmanjos barbados, vestidos de noiva, a se abraçar e pular feito dois malucos. Julinho Chaleira estava um tanto constrangido, apesar dos trajes, mas Marcelo não estava nem aí. Era só felicidade. Até quis abraçar o chinês da pastelaria em frente (a cara do Chang), que parou de varrer a calçada para olhar a cena. Mas Chaleira o conteve. Nessa alegria estabanada, desceram a rua os dois, abraçados, a cantarolar a marchinha que tocava na entrada do Bloco das Piranhas Noivas de Copacabana.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LIANA FERREIRA

Nubícogo???!!! Vamos terminar esse desafio com o vocabulário enriquecido. Que beleza de história! Quanta delicadeza no desenvolvimento do tema. Os diálogos tão bem trabalhados e criativos me levaram a vivenciar as cenas reproduzidas pelos personagens. Eu ri muito com esse anjo em estágio probatório, sem nenhuma experiência, e as situações por ele criadas para o atordoado Marcelo. A solução encontrada para o desfecho mantém o tom bem-humorado do texto. Parabéns! Fazer rir não é tão fácil quanto parece.

10

LUCI AFONSO

Muito divertido, principalmente enquanto dura o sonho com o anjo chinês. Talvez fosse mais interessante manter esse caminho, em vez de recorrer à explicação mais fácil do carnaval. Enriqueci meu vocabulário: nubicogo.

9,5

CIDA SEPÚLVEDA

Muito bom. Bem finalizado. Conseguiu costurar várias imagens sm pular pontos.

9,5

CRISTIANE BRUM

Legal a estratégia de repetir a cena, provocando uma certa confusão no leitor para logo explicar tudo de um jeito bem divertido. Achei interessante o tom leve do texto, ainda que a piada tenha feito sorrir, e não gargalhar.

10

MARCO ANTUNES

Pela primeira vez nesse concurso, tive um acesso de riso ao ler o texto. A cena é muito bem montada e o uso dos delicados recursos do Bom humor chegam à perfeição, lembrei-me em  vários momentos de Luís Fernando Veríssimo. A identidade lingüística das personagens está muito bem arquitetada, sem exageros ou maneirismo! Um conto de humor com toque de mestre!

10

TOTAL

49

QWERYUIOP´[ASDGFHJKLÇ~]ZXCBNM;/

Conto 6

TÍTULO

A  segunda-dama         - Washington Dourado

I

 

            Amanhecia. Sentindo uma aguda dor de cabeça, o presidente recobrou os sentidos. Doía-lhe o corpo inteiro, estava confuso, a visão turva. Olhou rapidamente ao redor, procurando pela primeira-dama. Não encontrou.

            O que viu o deixou estarrecido. Estava  em uma maca  sendo conduzido à ambulância. Havia uma multidão de ambos os lados do cordão de isolamento. Muita polícia, bombeiros, paramédicos e  brasileiros que, correndo, acompanhavam a maca. Uns choravam, outros pareciam dar gargalhadas.       

            Levantou os olhos para os frascos de soro que balançavam à sua frente. Uma fisgada intensa desceu-lhe do pescoço para o braço direito até então dormente. Desmaiou de novo.

            Acordou pouco depois, procurando um rosto conhecido. Devia estar sedado, não conseguia esboçar uma reação. Ouvia sirenes, gritos em inglês. Não entendia nada. Não podia olhar em redor. Sentia-se gelado, tudo girava. A cabeça latejando. Em meio aos gritos, uma ou outra risada.

            O que estava acontecendo? Tanta dor, tanta correria ao seu redor, de vez em quando um flash. Parecia que a imprensa tentava se aproximar.

            Enfermeiros tentavam acalmá-lo. Um médico aproximou-se, acendeu uma luzinha em frente aos seus olhos.  Deu uma ordem, trouxeram um médico brasileiro. Identificou-se, fez  perguntas simples para testar o nível de consciência. Quando teve certeza de que era entendido, deu-lhe a notícia de que a primeira-dama estava bem e que, milagrosamente, ninguém morrera no acidente.

            - Calma, presidente, já vamos retirá-lo desta situação constrangedora.

            Gritou para os auxiliares que trouxessem logo o lençol.

            - Constrangedora, por quê?

            - Bem... presidente, o senhor está vestido de mulher!

            -Eu? Como? O que... Ai!...

            Nova ordem em inglês, a veia ardeu um  pouco, tornou a dormir.

            Acordou  na enfermaria. Desta vez, o primeiro rosto que viu foi o da esposa. Tentou pegar sua mão mas o braço direito estava engessado. A cabeça doía, estava zonzo, mas a visão melhorara. Podia reconhecer o médico que o havia atendido ao lado do Dr. Araújo, da Presidência.

            Com alguma dificuldade, a língua ainda um pouco pesada, conseguiu perguntar:

            - Que afidente? O que foi que acontefeu?

            A mulher tomou-lhe a mão esquerda e narrou o acontecido.

 

 

                                                                       II

 

            O seqüestrador saiu da cabine banhado em sangue, trazendo dominado o comandante. Ao redor do pescoço, esticava o fio dental preparado com cerol. A arma, que já se mostrara letal ao degolar o co-piloto, fazia com que o comandante se curvasse aos pés do assassino enquanto tentava pedir calma aos passageiros.

            O pânico se generalizou quando todos perceberam que voavam no piloto automático e o que  aconteceria se o piloto morresse.

            Atendendo aos seus gestos dramáticos, os gritos foram diminuindo até que se pudesse ouvir as exigências do seqüestrador.

            A aeronave já estava em espaço aéreo americano.  Prenunciava-se uma catástrofe nacional.          O presidente e parte do primeiro escalão: ministros civis e militares, autoridades religiosas, parlamentares.  Todos à mercê de um extremista político suicida que anunciou:

            “Silêncio, bando de parasitas. Façam o que eu mando ou morre todo mundo!”.

            O murmúrio aumentou e ele vociferou:

            “Silêncio, vermes!”

            “Hoje é 22 de setembro, aniversário da morte de Antônio Conselheiro. É dia de vingança!”

            “Venham aqui na frente agora, em casais, e tirem a roupa. Quero os homens vestidos de mulher e as mulheres nuas. Começando pelo presidente. Ministro, aguarde a sua vez. Não me forcem a  derrubar este avião. Estou pronto prá morrer em Washington, mas quero assistir ao espetáculo.”

            “Quero mostrar ao mundo inteiro o que a república fez com o Brasil.”

            “Já que não posso restaurar o império, vou exibir ao mundo a zona que é a república de vocês”.

            “Eu, Antonio Vicente Maciel Conselheiro Quarto, em nome de nosso senhor Jesus Cristo e do Santo Padre Cícero, de Juazeiro – que Deus o tenha. Juro! Se precisar,  puxo este fio e vai ser como em Canudos. Não vai sobrar ninguém, por Deus que vamos todos pro inferno.”

            Enquanto ele falava, os membros da comitiva presidencial tratavam de obedecer, tremendo e suando às bicas.

            O presidente, vestido de primeira-dama; um arcebispo, de senadora; dois generais travestidos em aeromoças. Ministros, em saias-justas de deputadas; e, primeira-dama, senadoras, deputadas e aeromoças; de Eva, sem folha de parreira.

            Quando se deu por satisfeito com o bizarro espetáculo que produzira, Conselheiro Quarto arrastou o piloto de volta à cabine, mantendo a porta aberta para vigiar os passageiros-transformistas.

                                              

                                              

                                                                       III

 

 

            A aterrissagem foi complicada. As equipes de emergência, já avisadas, estavam de prontidão. A imprensa de plantão.

            O piloto, que já sangrava pelo corte no pescoço, emocionalmente abalado e sem co-piloto, tentava o possível. Mesmo assim, a aeronave estava muito alta e veloz ao se aproximar da pista.

            A frenagem ficou prejudicada, o avião derrapou e saiu de lado, bateu com a asa direita em um poste e tombou.

            O fogo foi prontamente controlado e ninguém morreu. Vários foram os feridos, inclusive o piloto. O seqüestrador, dominado pela SWAT e preso.

            O presidente sofreu um corte na cabeça e leve traumatismo craniano. Perdeu os sentidos e foi prontamente  removido para o Hospital.

            Quase ninguém entendeu por que, no dia seguinte, a manchete do Washington Post falava do presidente, enquanto as fotos mostravam o avião e uma mulher... barbuda.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LIANA FERREIRA

Isso é que é imaginação! Essa história é deliciosamente leve e mordaz ao mesmo tempo. Adorei a bem-humorada caracterização do Presidente. O terrorista é risível e suas falas são impagáveis. Agora, alguém me responda, o Presidente não sabia que estava vestido de mulher? Em todos os outros nove contos as personagens souberam por si mesmas. Só o Presidente precisou ser avisado. Que delícia!

9,8

LUCI AFONSO

Gostei do título. A idéia é original, mas achei a narrativa apressada, especialmente na parte III. Talvez por isso eu não tenha me divertido com o texto.

8,5

CIDA SEPÚLVEDA

Simples, envolvente e engraçado

 9,5

CRISTIANE BRUM

Bizarro, muito bizarro! Fiquei imaginando a cena final e, realmente, seria algo de se ver, não? Gostei do humor político e da gozação com o terrorista brasileiro, especialmente levando-se em conta os motivos para o seqüestro do avião.

9,5

MARCO ANTUNES

O (a) autor (a) trabalhou bem com os recursos do seu inusitado, mas eficiente, conto de suspense. Linguagem adequada e interessante seccionamento que, no entanto, tem o efeito de prejudicar o ritmo sem comprometer muito o resultado final.

9,5

TOTAL

46,8

QWERYUIOP´[ASDGFHJKLÇ~]ZXCBNM;/

Conto 7

 

TÍTULO

A brancura do vestido, do papel e da mente -

Antônio Cardoso Neto

Ainda estava escuro quando o homem acordou com uma leve dor de cabeça. Não se lembrava de nada que ocorrera na noite anterior. Acendeu o quebra-luz e viu que estava usando uma camisola feminina azul claro. Levou a mão ao meio das pernas e notou que estava sem cueca. “Pelo menos não estou de calcinha”, teria provavelmente pensado, se a estupefação não tivesse acabado com seu senso de humor. Levantou-se, abriu um armário embutido ao lado da cama e quase teve um infarto quando viu que só havia roupas femininas penduradas nos cabides. Correu ao banheiro e lavou o rosto. Olhou-se no espelho, e viu que ainda era ele mesmo; as mesmas olheiras, a mesma barba por fazer e a mesma calvície assimétrica que ele achava ridícula. Abriu o armarinho em cima da pia e se deparou com cremes para a pele, batom, esmalte para unhas e demais apetrechos próprios de mulheres. Correu para a sala, e depois para a cozinha. Voltou para a sala e viu, em cima da mesa, um bilhete onde estava manuscrito “se quiser, pode tirar a minha camisola e pendurá-la no cabide do banheiro, pois parou de chover e fui buscar sua roupa que deixei para secar na lavanderia”. Lembrou-se vagamente da morena que conhecera no bar na noite anterior, e se pôs a gargalhar, aliviado.

 

— “Não! Está uma trama muito mal contada”, disse o escritor, rasurando com a caneta a folha de papel na qual havia escrito.

Destacou a folha do caderno, rasgou-a e a jogou numa lixeira ao lado da mesa. Fechou a tampa da caneta, colocou-a no bolso e se levantou. Encostou-se na janela, acendeu um cigarro e ficou olhando a rua enevoada em frente. Apagou o cigarro, abriu uma canastra de madeira com dobras de couro, e retirou uma máquina de escrever lá de dentro. Depositou a máquina sobre a mesa e colocou um papel branco no cilindro. Sentou-se diante dela, e começou a datilografar.

 

O sujeito abriu os olhos, e sua cabeça latejava. Estava prostrado, de barriga para cima, sobre cascalhos, areia e pedregulhos. Ao lado do rosto viu um buquê de rosas espatifado, com pétalas e folhas soltas espalhadas pelo chão. Levantou a cabeça e enxergou um riacho onde jazia um carro de cabeça para baixo, com as rodas ainda girando. Passou a mão no rosto, e ela ficou toda manchada de vermelho. Lambeu a mão e, ao se certificar de que não era sangue, teria ficado menos aflito se não tivesse reconhecido os cheiros de batom e ruge. Levou a mão à cabeça e tirou uma grinalda de noiva, enroscada em um véu branco. Tentou se levantar e sentiu uma ferroada na perna direita. Apoiando os ombros nos cotovelos, olhou para baixo e percebeu que tinha o pé descalço e que a perna parecia estar quebrada na altura da tíbia. Olhou para o outro lado e viu que o outro pé estava calçado com um sapato de salto alto, do tipo agulha. Também notou que estava usando um vestido de tafetá branco com rendas rosadas. Virou a cabeça para cima e viu uma ponte, ao lado de um enorme barranco por onde desciam algumas pessoas. Sentiu-se zonzo, a vista se enturvou, e ouviu umas vozes: “procure ficar calmo”, “não mova a cabeça”, “a ambulância já vem vindo”. Ouviu alguém comentar “ainda bem que ele conseguiu pular do carro a tempo”. A seguir, percebeu que o colocavam numa maca e o içavam barranco acima. Esforçava-se para lembrar alguma coisa, mas não conseguia. No entanto, sabia, tinha certeza, estava seguríssimo, de que não era uma drag queen, nem um transformista, nem nada disso. Abriu os olhos e viu muitas pessoas em volta. Como explicar a elas que ele não era nenhum travesti, se nem para si mesmo conseguia encontrar alguma explicação plausível? E se continuasse sem saber, acabaria sendo obrigado a inventar que fora abduzido por alienígenas cor-de-rosa, ou alguma coisa similar.

Enquanto a ambulância não chegava, começou a perceber que o acidente devia ter sido algum acontecimento digno de ser noticiado pela televisão, pois viu diversos holofotes e uns três cinegrafistas empunhando suas câmeras. “Deve haver alguém importante envolvido neste desastre”, pensou. Estarrecia-lhe a idéia de que pudesse vir a aparecer na televisão, vestido de noiva. O número de pessoas ia aumentando, e todos continuavam a dizer para ele manter a calma, pois logo iriam removê-lo para um hospital. Alguma coisa o levava a crer que aquelas pessoas eram muito estranhas. Não sabia se eram as maneiras de andar, as roupas que usavam ou os modos de falar; só sabia que era uma gente meio extravagante, no mínimo um pouco excêntrica. A vista ficou novamente turva, ouviu uma sirene tocando cada vez mais alto, e quando recobrou os sentidos, estava no quarto de um hospital, com a perna engessada. Sentia-se muito melhor, pois já se lembrava de tudo. Ao lado da cama estavam sua mulher e seus dois filhos. Embora não visse qualquer necessidade de explicar-lhes o motivo de estar usando roupa de mulher durante o acidente, estava se sentindo desconfortável diante deles, pois tinha de convencê-los de que não queria mudar de profissão, depois de vinte e três anos de experiência como dublê.

 

— “Assim não é possível! A emenda ficou pior que o soneto. Está muito óbvio”, disse, evidentemente irritado, o escritor.

Puxou o papel com um tranco, picou-o em pedacinhos e atirou-os na lixeira. Pegou a máquina de escrever e colocou-a de volta na canastra. Abriu a cristaleira, pegou uma garrafa de uísque, e, sem fazer careta, deu umas oito goladas, pelo gargalo mesmo. Acendeu um cigarro, foi até o banheiro, abriu a torneira da pia, molhou o rosto e abriu a tampa do vaso sanitário. Deu uma última tragada, jogou a guimba na privada, puxou a descarga e foi para o escritório. Arrastou uma cadeira de rodinhas e sentou-se em frente ao computador.

  — “Datilografia é grego; em latim é digitação. Dessa vez tem de sair”, disse ele ao ligar a máquina. E começou a digitar.

 

O sol despontou atrás de uma cerca de madeira, a luz atravessou umas rachaduras nas ripas e inundou a cara de um sujeito, que acordou com a cabeça a ponto de explodir. Dormira na calçada, com a nuca na sarjeta e a cabeça encostada na rua, numa posição pra lá de desconfortável. Era uma daquelas ressacas que, por mais que o camarada beba, possuem probabilidade de ocorrência inferior a uma vez a cada dez mil anos. Sobreviventes costumam relatar que durante uma ressaca com período de recorrência decamilenar, a única coisa de que o condenado se lembra é qual a sua preferência sexual. E o sujeito tinha certeza de que ele era macho de pai e mãe. Sabia que estava amanhecendo, mas não tinha a menor noção da data ou do local. Nome e idade eram absolutamente incógnitos. Nacionalidade, profissão, estado civil e nome da mãe, então, um mistério total. Usava um lenço violeta estampado com bolinhas amarelas na cabeça, um par de brincos de argola, a boca lambuzada em formato de coração, um colar de bugigangas variadas, um sem-número de pulseiras de plástico multicolorido, um porta-seios escandalosamente grande, um desenho pornográfico ao redor do umbigo peludo, um saiote de colegial sustentado por suspensórios, e um tênis maltrapilho e emporcalhado.

 Devia ser muito cedo, pois a rua estava completamente deserta. O sujeito levantou-se, colocou a mão em forma de viseira entre os olhos e a testa, e olhou para um lado e depois para o outro. O movimento brusco fez com que uma gosma ácida como vinagre lhe subisse pela garganta e, com um sacolejo do pescoço, emitisse um retumbante arroto. É desconhecido o que o fez ter escolhido tomar o caminho da praia, mas recorrendo mais uma vez a relatos de sobreviventes, pode ter sido a declinação do campo magnético da Terra ou alguma emanação etérea ainda desconhecida pela ciência. Porém o que importa é que a caminho da praia havia uma loja cuja vitrine exibia um enorme espelho. Ao passar defronte ao espelho, ele cumprimentou a senhora refletida e seguiu adiante. Dobrou a esquina, parou em frente a um muro, levantou o saiote e urinou ali mesmo. Depois continuou andando até chegar à praia, onde desabou na areia, embaixo de um coqueiro. Só acordou quando estava anoitecendo, e os foliões arrastavam todo mundo atrás de uma banda barulhenta, na maior algazarra.

 

— “Quem é que vai acreditar em um lugar assim?”, murmurou o escritor, enquanto apagava o arquivo. “Um lugar machista onde os homens se divertem travestidos... desisto!”.

Desligou o computador, tomou um banho e trocou de roupa. Colocou uma meia soquete, um sapato marrom, uma camisa branca e um saiote de lã xadrez. Abriu a porta da frente e saiu para a rua, grunhindo em gaélico, decidido a ter uma conversa franca e definitiva com o editor do Edinburgh Evening News, a cinco quadras dali.

***

 

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

 

LIANA FERREIRA

Tentando nos convencer de que não é capaz de escrever a história pedida, o escritor utilizando-se de diferentes ferramentas, nos conta três. Gentilmente nos convida a entrar em sua oficina e divide conosco a sua inquietação gestacional.

10

 

LUCI AFONSO

Não uma, mas três estórias sobre um homem que acorda vestido de mulher, culminando num final simples e irônico para um texto perfeito. Adorei!

10

 

CIDA SEPÚLVEDA

Excelente texto. A combinação de dois dramas, o homem-vestido-de-mulher e a angústia do escritor, é um achado. Parabéns. Porém a finalização – o último parágrafo, tira força e beleza do texto – sugiro repensá-lo.

10

 

CRISTIANE BRUM

Na falta de UMA história, temos logo três neste texto. Acho, contudo, que a quantidade aqui não é o ponto forte, mas a boa solução pra cada uma delas. Apesar de ter achado interessante o recurso ao escritor, a história do dublê é, de longe, a mais bem narrada. Ela sozinha daria um bom conto.

9,5

 

MARCO ANTUNES

Excelente a tríplice resposta ao desafio. O toque irônico com relação ao Brasil foi um plus ao conto que usa todos os recursos de linguagem e estilo com habilidade e bom gosto. O escocês que surpreendentemente encerra amarrando os três enredos é o toque de mestre.

10

 

TOTAL

49,5

 

QWERYUIOP´[ASDGFHJKLÇ~]ZXCBNM;/

Conto 8

 

TÍTULO

A  Noite  É  Uma  Mulher – Osmar Perazzo

    Ele gostava de acordar aos poucos. Se estivesse sonhando, fazia um esforço para guardar o máximo possível de detalhes. Não que ele acreditasse em alguma mensagem oculta nos sonhos, mas, simplesmente, pelos enredos absurdos, pelas tramas impossíveis daquele teatro noturno. Em seguida, já transposto o umbral da realidade, tentava efetuar uma primeira organização da agenda do dia. Vitorioso analista do mercado financeiro, Anselmo cumpria uma rotina sempre intensiva em tempo e adrenalina. Atenção aos detalhes, capacidade de concentração e uma vocação nata para aquela profissão, uma mistura de ciência e intuição, lhe permitiram amealhar um patrimônio mais que respeitável já antes dos 30 anos. Independência financeira e sucesso pessoal juntavam-se à vitalidade hormonal característica dos recém-separados voluntariamente. Era, em suma, um homem feliz.

 

    Naquele dia, quando começou a despertar, não conseguiu se lembrar de nenhum sonho. Imediatamente, porém, estranhou o barulho do pijama contra a pele, um som rascante, sintético, incompatível com a textura do algodão. Estranhou, ainda com os olhos fechados, a barra do short do pijama na altura das canelas. Abriu-os, então, e não acreditou: ele trajava um vestido – sim, um vestido ! – azul, com adereços brilhantes. Olhou para os pés e constatou que calçava sapatos femininos, daqueles com bico de matar barata no canto da parede. Completamente desperto pelo senso de emergência, levantou-se de um pulo. Tão logo tocou o chão, os pés cederam à novidade dos saltos altos e ele caiu pesadamente.

 

    Levantou-se zonzo, arrancou os sapatos e correu para o banheiro. O espelho confirmou: não era um sonho. Ele estava, sim, com um dos vestidos da ex-mulher que ficaram na parte do armário que ela não tivera tempo – ou não quisera – esvaziar. Olhou-se demoradamente, como se o seu reflexo pudesse esclarecer o que estava acontecendo, mas debalde.

 

    Durante o dia, esquadrinhou cada possibilidade de explicação. Não, ele não bebera na véspera, viera direto do Banco para casa, dormira relativamente cedo. Ninguém entrara no apartamento. Como, quando e por que ele se vestira daquele modo ? Acabou concluindo provisoriamente, até que surgissem outras evidências em contrário, que sofrera um episódio de sonambulismo, embora isso nunca tivesse ocorrido em toda a sua vida.

 

    Com o tempo, acabou por esquecer aquele bizarro incidente e já retomara sua vida normalmente agitada quando, semanas depois, recebeu do porteiro o recado de que o síndico do prédio queria falar com ele. Colocou-se à disposição. Para surpresa dele, em poucos minutos o Dr. Eurípides batia à sua porta. Depois das amabilidades de praxe, o síndico tossiu, pigarreou e disse a que vinha. “- Dr. Anselmo, todos aqui gostamos muito do Senhor, que é um vizinho ótimo, educado e tal. Mas...” – e hesitou – “o Senhor sabe, viver em coletividade é difícil”. Ele permaneceu em silêncio. O síndico, então, prosseguiu: “- Claro, cada um tem a sua vida, não queremos invadir a privacidade de ninguém. Inclusive” – e, olhando furtivamente em volta, como para se certificar de que ninguém mais estaria escutando, cochichou: – “não temos nada com as preferências sexuais de cada um”.

 

    O bem sucedido analista financeiro sentiu aquele alarme que sempre era ativado na presença de algum evento inesperado: uma volatilidade excessiva do mercado acionário, uma variação cambial no sentido oposto ao previsto. Nessas horas, nada de titubeios: vender, comprar, fechar posições, arbitrar. As decisões têm que ser rápidas, diretas. As perguntas também: “- Dr. Eurípides, seja claro, o que o Senhor está querendo me dizer ?

 

    O síndico coçou a testa e fechou os olhos, num gesto típico de desconforto pela falta de ajuda do interlocutor. Teria que chamar as coisas pelo seu nome. “- Dr. Anselmo, nas últimas semanas tenho recebido muitas reclamações pelo seu comportamento neste prédio”. Ele arregalou os olhos, mas o vizinho continuou: “- Não está certo o Senhor ficar transitando pelo prédio durante a noite vestido de mulher. Há duas semanas, o Desembargador Moutinho estava dando uma festa e o Senhor subiu no elevador de biquini com dois convidados – um deles, Ministro ! Na terça-feira passada, o Senhor foi visto de saia e salto alto no playground. E ontem, o Senhor foi visto quando dançava de cinta-liga na garagem. Não sei o que o Senhor pretende, não me interessa o que o Senhor faz da sua vida particular, mas, o Senhor sabe, os vizinhos ficam constrangidos”.

 

 

    O aparvalhado economista deixou-se cair no sofá da sala. “- Vocês estão loucos. Loucos! Isso é um absurdo, um desrespeito ! Não admito que o Senhor fale assim de mim ! Que estória é essa ? pensando o quê ?”, o crescendo do tom de voz acompanhando o aumento de confusa indignação. Mas o síndico não se impressionou: “- Se o Senhor quiser conferir o seu desempenho, procure o porteiro e peça para ver as fitas das câmeras de segurança. E por favor, Dr. Anselmo, se o Senhor resolver assumir, faça isso entre quatro paredes, ou, então, na rua, está bem ? Ninguém tem nada a ver com as suas preferências”.

 

 

    Anselmo foi imediatamente à portaria. Viu as fitas. Sim, era verdade, mas pior ainda do que imaginava. As câmeras mostravam que quase todas as noites ele circulava pelo prédio em roupas de mulher – da sua ex-mulher: reconheceu o vestido azul, o microvestido lilás, a malha de ginástica laranja. Mas o pior é que a filmagem da entrada mostrava que, em várias noites, um travesti – um travesti, não: ele !!!! - saía do prédio e voltava horas depois. Era ele – e, no entanto, não se lembrava de nada. Era como se uma outra personalidade tomasse conta, assumisse o controle assim que ele dormia. Uma personalidade feminina, exibicionista, vulgar. A partir desse dia, as comportas se abriram. O porteiro lhe contou, a sua faxineira confirmou, que na semana passada ele armara um barraco num restaurante próximo dali. Chamaram até a polícia, mas ele conseguira ser liberado. Como é que ele não se lembrava de nada ? Todos no prédio passaram a evitá-lo, as fofocas ganharam as ruas, em pouco tempo o zum-zum-zum já chegara aos diretores do Banco de Investimentos em que ele tão brilhantemente se destacara. Foi demitido, teve que vender o apartamento.

 

 

    Procurou os melhores psiquiatras. Depois de meses de terapia, sessões de hipnose e medicação, concluiu-se que ele era portador de Transtorno Dissociativo de Identidade. Em seu interior, coabitavam infinitos estados de personalidade distintos. Ele era Anselmo durante o dia – homem, conquistador, vencedor, sério, realizado. Mas ele também era uma mulher diferente a cada noite – todas elas escandalosas, cafonas, agressivas. Elaboraram-se sofisticadas explicações psicológicas para o súbito aparecimento de um distúrbio tão grave em uma pessoa tida, até então, como absolutamente normal. Algo a ver com frustrações não resolvidas na infância, repressão de sentimentos, talvez, até, algum abuso sexual. Ele nunca chegou a compreender. Até onde se lembrava, fora uma criança completamente feliz, parte de uma família completamente saudável.

 

    Mudou-se para um bairro mais afastado. Como ele se desfizera de todas as peças de vestuário e de todos os calçados de sua ex-mulher, teve medo de que passasse a fazer suas rondas noturnas totalmente sem roupa. Então, combinou com a faxineira que ela o trancaria no apartamento quando saísse no final da tarde, ao ir para casa, e só abriria a porta no dia seguinte, para evitar que ele/ela saísse durante a noite. Mas o tratamento não funcionou. Os novos vizinhos começaram a se queixar dos escândalos que ele/ela promovia pelas madrugadas, esmurrando a porta de seu apartamento e xingando impropérios espantosos.

 

*   *   *

 

    As duas amigas estavam cansadas de tanto rir. Há tempos não se falavam e estava sendo ótimo colocar o papo em dia, mesmo por telefone. Depois de muitas risadas, uma delas perguntou: “- E por que você se separou ? Vocês pareciam se dar tão bem !”. A outra confirmou: “- É mesmo, eu adorava o meu marido. Apaixonada, tipo assim, de quatro, sabe com’é ? Eu, que pensava que nunca mais olharia para outro homem, depois que ele apareceu lá na Irlanda – eu estava morando na Irlanda naquela época, numa cidadezinha do interior, linda, no meio de um bosque – minha vida ficou de cabeça pra baixo. Larguei tudo, joguei tudo pro alto e me despenquei pro Brasil, só pra ficar com ele”.

 

    A primeira ainda não entendia: “- Mas o que aconteceu ?”. A ex-casada bebericou mais um pouco do vinho: “- Galinha. O cara é um galinha incorrigível. Você acredita que peguei ele com uma mulher no nosso apartamento ? Na minha cama ? Tudo bem, sei que os sentimentos mudam, que a paixão acaba. Mas por que ele não chegou pra mim e falou ? Aconteceu isso e aquilo, não está dando mais. Eu compreenderia. Eu ia sofrer horrores, mas acabaria superando. Mas, não. Ele foi canalha, desleal. E isso eu não perdôo. Não perdôo !!!”, repetiu, com um olhar gélido fixado em algum ponto de fuga insondável.

 

    Depois de alguns segundos de silêncio, a amiga tomou coragem e insistiu: “- Coitado dele, parece que deu tudo errado depois que vocês se separaram. O cara surtou, passou a se vestir de mulher, saía por aí criando confusão. Você soube, ?” A ex não moveu um músculo: “- Bem feito, teve o que merecia”. A amiga se assustou: “- Que é isso ? O cara foi seu marido ! Por que tanto ódio ?”. A que fora casada se recompôs: “- Não, amiga, tudo bem. Não tenho ódio, não. É que... olha só... sabe o que o Anselmo teve coragem de me dizer na hora em que peguei os dois ? Ele virou pra mim e na maior cara-de-pau me falou que ele não conseguia ficar casado, que ele tinha necessidade de ter uma mulher diferente a cada noite perto dele. Taí” – acrescentou com um sorriso malévolo: “- Agora, toda noite ele tem uma mulher diferente. E dentro dele – mais perto, impossível”. E soltou uma gargalhada que reverberou pelas paredes do apartamento.

 

    Olhou para o relógio, já era tarde, teria que sair voando para o trabalho. “- É isso aí, amiga. Os homens deveriam saber que raiva de ex-mulher é MUITO  perigoso !!!! Especialmente” – concluiu, meio-sorrindo, enquanto olhava para a vassoura, estacionada atrás da porta da sala – “quando ela é uma bruxa”.

 

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

 

LIANA FERREIRA

O autor presenteou os materialistas com um Transtorno Dissociativo de Identidade e os esotéricos com uma porção de bruxaria. Alguém aí não está satisfeito?

Do ponto de vista científico (segundo o DSM IV-R) ele seria um portador de TDI ou, anteriormente, Transtorno de Personalidade Múltipla, caracterizado pela presença de duas ou mais identidades ou estados de personalidades distintos, que assumem recorrentemente o controle do comportamento do indivíduo, acompanhados por uma incapacidade de recordar importantes informações pessoais e demasiadamente extensa para ser explicada pelo esquecimento normal.

Do ponto de vista esotérico (segundo o Manual das Bruxas) ele estaria enfeitiçado, uma vez que é o ex-marido da feiticeira e só ele não sabia disso, ha, ha, ha, ha.

10

 

LUCI AFONSO

Instigante, bem escrito, merece um final à altura. O último parágrafo destoa. Se o feitiço da ex-mulher vai ser a explicação, ela deve ser dada nas entrelinhas.

9

 

CIDA SEPÚLVEDA

Obra-prima

10

 

CRISTIANE BRUM

Hum, não acho que a explicação final combine com o tom realista do conto. O texto inteiro parece completamente verossímil. Contudo, parece que o (a) autor (a) não conseguiu uma explicação a contento e chutou o balde, enfiando uma bruxa sem mais nem menos na história.

7,5

 

MARCO ANTUNES

Interessante a súbita migração para o universo mágico da esposa, apresentando uma explicação inusitada e imaginativa para o texto. Talvez a linguagem do primeiro segmento pudesse ir apresentando pequenos ícones que fossem dando pistas discretas para facilitar a transição, talvez até reforçasse a surpresa!

9

 

TOTAL

45,5

 

QWERYUIOP´[ASDGFHJKLÇ~]ZXCBNM;/

Conto 9

 

TÍTULO

Uma serpente de saias – Soraia Maria Silva

Gisele estava no escritório conversando com uma amiga: “- Você sabe, esse meu chefe é terrível, ele sempre está jogando com as mulheres. Outro dia mesmo o vi fazendo aquele eterno jogo de sedução, galanteando uma, mas de olho mesmo é na outra. Ele não quer uma mulher, ele quer todas”. “- Sim (dizia a amiga), direito de homem solteiro, boba da mulher que cair”. Mas Gisele no seu íntimo não concordava. Nunca entendera essa submissão inata da mulher, essa eterna desproteção em relação ao sexo masculino. Seu chefe Artur era o maior decano da libertinagem de seu conhecimento, um canalha singular, e isso a irritava profundamente. Conhecia de perto as suas diabruras e sua coleção de bonecas. Literalmente Artur colecionava bonecas, pequenas, grandes, ruivas, morenas. A todos alardeava a sua coleção. Com Gisele ele tinha um respeito formal, contava as suas aventuras como fossem fatos banais e corriqueiros no tom mais frívolo e de demérito. Um dia lhe disse peremptoriamente: “Meu pai é que tinha razão quando contratava seus empregados. O caboclo chegava e ele perguntava – você tem facão? – Tenho não seu doutor! – Você tem rede? – Tenho não seu doutor! – Mais que diacho você tem homem? –Tenho uma mulher e dois filhos! (aí meu pai respondia) – Eita artigozinho vagabundo e barato!”. O chefe dizia essas coisas para Gisele entre gargalhadas e em seguida lhe pedia um “cafezinho”.

 

A moça já não agüentava mais, no meio das reuniões mais importantes com representantes das outras empresas, sempre sobrava uma piadinha de mau gosto e um demérito às fêmeas da espécie humana. Suas referências familiares também não eram lá muito esperançosas. Seu pai sempre fizera crer que sua mãe estaria destinada mesmo às tarefas mais braçais e menos estratégicas do lar. Alguma desconfiança lhe vinha sobre esse destino mal traçado das mulheres à sua volta. Um dia Raquel lhe disse enfática: “Essa história de que a serpente enganou a Eva no paraíso... Isso pra’ mim é lorota. Acho mesmo é que o homem se fez serpente e a enganou. Pois sim! Como ele, o homem, não estava presente quando a serpente veio oferecer-lhe a maçã sinuosamente? Toda vez que um homem quer conquistar uma mulher ele se torna serpente! E nós sempre caímos como tolas e idiotas!” Essa fala de Raquel soava-lhe como a mais recente verdade. Mas como poderia essa blasfêmia vibrar no seu coração? Deus sempre estivera primeira pousada ali e não seria agora que esse impulso de revolta contra o sexo oposto iria macular-lhe a consciência. Então fez sua oração noturna e fechou os olhos mergulhando em suas lembranças noturnas.

 

O escritório estava gelado e suas roupas não seriam suficientes para aquela jornada diária de exaustivos trabalhos. Acompanhou com os olhos a chegada anunciada de Artur, todo encapuzado, que passou rapidamente pela sala, ele parecia ter adivinhado a temperatura do dia. Nada de piadas e nem mesmo o pedido do cafezinho. Algo novo se anunciava nos ares. Artur passou o dia trancafiado em seu escritório, nem mesmo saiu para almoçar. A semana toda o comportamento do chefe permanecia o mesmo mistério. Na sexta-feira, no horário da saída Gisele anunciou fracamente a sua despedida à porta de Artur quando este a chamou. “Senhorita Gisele, por favor, você poderia me ajudar?” “Pois não chefe, o senhor manda” (disse em tom de brincadeira) “Não brinque Gisele estou realmente muito preocupado” (disse ele em tom suplicante) “Mas o que foi senhor Artur, o que está acontecendo com o senhor?” “Gisele, algo inesperado aconteceu comigo. Não conte a ninguém o que vai ver e ouvir aqui. Há exatamente uma semana que todos os dias eu acordo e estou me transformando em uma de minhas bonecas!” “Como assim chefe?” “Exatamente isso Gisele, estou me transformando em uma de minhas bonecas!”. Nesse momento Artur abriu o sobretudo e Gisele boquiaberta contemplou a espantosa transformação: sapatos rosa, meias rosa, saia rosa, até sutiã e brincos cor de rosa reluziam no visual do chefe. Mas que espantoso! Pensou Gisele contendo um daqueles desrespeitosos ataque de risos. “Por favor não ria da minha situação Gisele.” “Mas o que é isso Artur, você está realmente em suas faculdades normais?” “Gisele, sei que parece absurdo mas realmente a minha situação é absurda. Não consigo tirar essas roupas, elas estão totalmente coladas em meu corpo, como se dele fizessem parte. Tudo começou na segunda pela manhã, quando acordei lá estava ele o sutiã. E por nada do mundo ele sai do meu corpo. Depois vieram as meias, depois os brincos, a saia e a cada dia mais um item feminino aparece grudado em meu corpo. Gisele o que esta acontecendo comigo? Será obra de magia ou algum sonho terrível em que estou envolvido? Gisele me dá um tapa para ver se eu acordo desse pesadelo.” “Mas chefe eu não posso fazer isso.” “Bate Gisele, bate Gisele, bate Gisele, bate Gisele...” Dizia Artur em um violento ataque de desespero, assustada Gisele desferiu-lhe violentamente um golpe certeiro em sua face esquerda, mas Artur não acordara de seu pesadelo. Completamente transtornado o rapaz afundou na poltrona confortável de seu escritório e em prantos, ensandecido com a situação, revelava-se aos olhos de Gisele.

 

A moça repentinamente compadeceu-se daquele ser mutante, queria sair para pegar um copo de água, mas Artur não deixou, transtornado e chorando como uma criança exigia a sua presença consoladora. Então Gisele aproximou-se lentamente de Artur sentou-se ao seu lado e solfejou-lhe uma canção de caixinha de música apoiando suavemente as mãos em seus ombros descaídos. Ali sentado em sua sina de boneca transfigurada Artur lhe parecia de uma beleza singular, aproximou o seu rosto da testa do chefe e beijou-o carinhosamente. “Não se preocupe Artur estarei com você até esse sonho acabar”. E finalmente o moço acalmou os seus soluços buscando nos peitos da secretária o consolo almejado. Também foi com a alegria de criança com um brinquedo novo que Gisele saiu do escritório levando pelas mãos a sua bonequinha solitária.                                       

 

 

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

 

LIANA FERREIRA

Apesar da súbita passagem do realismo para o fantástico, que precisa necessariamente ser melhor trabalhada, a idéia da mutação em boneca é bem interessante.

8,5

 

LUCI AFONSO

A narrativa é confusa, oscilando entre o humor e o drama. Ficou parecido com um dos vídeos do programa On the lot. Gostei da última frase.

8

 

CIDA SEPÚLVEDA

Belo enredo. Linguagem enxuta.

9

 

CRISTIANE BRUM

Confesso que não entendi bem a intenção do conto. O clima fantástico não parece bem encaixado na narrativa, que começa totalmente realista. Acho que os elementos misturados aqui não combinaram muito bem.

 

7,5

 

MARCO ANTUNES

Há claramente uma esquizofrenia de gêneros mal resolvida aqui, pois o fantástico e o realismo se misturam sem permitir que se fixe uma impressão clara na mente do leitor. Como o conto tem sempre essa unidade de efeito, aqui a magia não se realizou.

8

 

TOTAL

41

 

QWERYUIOP´[ASDGFHJKLÇ~]ZXCBNM;/

Conto 10

TÍTULO

Vestígios – Mônica Thaty

- Jonas, você está de vestido!

 

            A voz de Cláudia chegou aos ouvidos de Jonas como se ela estivesse distante. Longe, longe. Talvez lá em Belo Horizonte, onde ela tinha ido passar o feriado com as crianças. Ele sentia ainda o torpor pelo corpo, de quem já está meio acordado, mas sem estar totalmente desperto. Sentia-se bem, sentia-se leve, sentia-se quase feliz...

 

            - Jonas!

 

            Ele abriu um olho. Ali estava Cláudia, parada à sua frente. Então já tinha voltado de viagem? Mas tão cedo assim? De repente percebeu que ela falava com ele. Abriu o outro olho, como se, dessa maneira, fosse capaz de escutá-la melhor.

 

            - ...e não podia me pegar no aeroporto porque ia estar trabalhando, e eu chego e te encontro com um vestido de mulher, bêbado, dormindo ao meio-dia de uma segunda-feira!

 

            Ele não compreendeu uma única palavra. Vestido de mulher? Bêbado? Segunda-feira? Levantou-se, meio apoiado em um braço. Vasculhou a memória como quem procura um clipe em uma gaveta de quinquilharias. Achou de tudo, menos o que queria. Continuou buscando, como se abrindo caminho em meio a idéias confusas, pensamentos sem nexo, imagens distorcidas. Tentou encontrar a última lembrança. A última...

 

Domingo à tarde. Sentado na frente da televisão. Controle remoto na mão. Nada de interessante, nem mesmo na TV a cabo. Acabou revendo um filme que já tinha visto. Nem era tão bom que valesse o replay. Pegou uma cerveja e... E aí acordou com a voz estridente de Cláudia, acusando-o de coisas que nem sabia do que se tratava. Encarou-a com um ar inocente. Verdadeiramente inocente. Mas teve a impressão de que não a havia convencido. Ela perguntou, séria:

 

- O que você está fazendo com esse vestido de mulher, Jonas?

 

Só então ele percebeu. Usava um vestido azul, de seda, desses que parecem camisola. Bonito, com grandes estampas de flores. Tão leve que mal o sentia sobre o corpo, mesmo que estivesse um pouco justo. Macio o toque da seda, pensou. As mulheres sempre levam vantagem sobre os homens. Em um dia quente como aquele, podiam colocar um vestido para ir trabalhar, enquanto ele tinha de vestir camisa, calça comprida, sapato...

 

- Jonasssss! – Cláudia sibilava. Sinal de perigo. Hora de arrumar uma boa desculpa.

 

- Foi uma brincadeira dos rapazes, meu bem. – para quem não estava acostumado a mentir, até que pensou rápido.

 

- Que rapazes?

 

- Os meus amigos. O Vítor, o Antônio, o Paulo...

 

- O Paulo? Isso explica porque você está com o vestido da Manuela?

 

Ao ouvir o nome de Manuela, o coração de Jonas disparou. Manu, a paixão de uma vida inteira. A esposa do Paulo, seu melhor amigo.

 

- Esse vestido é da Manuela?

 

- É sim. Tenho certeza. Foi o mesmo com que ela ficou se exibindo no aniversário da Patrícia. Disse que trouxe da Itália.

 

Jonas ignorou o despeito da mulher. Só queria descobrir como o vestido de Manuela havia ido parar em seu corpo. Olhou para os próprios braços, como que procurando digitais da amiga de infância, amante em seus sonhos. Qualquer vestígio de que ela pudesse ter estado ali. Feito com que ele vestisse, sabe-se lá porquê, o seu vestido novo. Será que ela estava com ele antes? Será que o havia tirado na frente dele? Será que ele havia perdido a oportunidade de vê-la nua? Mas não eram para aquelas perguntas que Cláudia queria resposta. Agora balançava um brinco de prata na sua frente, como se quisesse hipnotizá-lo.

 

- Muito bem, você vestiu uma roupa de mulher por brincadeira. E o brinco? Também ia furar a orelha por diversão? E esse perfume insuportável? Também era parte da festa?

 

O perfume... Suave, um pouco doce. O cheiro de Manuela. O perfume que ela usava tanto tempo que se confundia com a sua pele, com seu gosto. Gosto que Jonas nunca havia provado. Nem mesmo um beijo na boca. Tentou roubar um, uma vez, no cinema. Deviam ter uns quinze anos. Ela riu e fugiu. Sempre havia preferido o Paulo. Para ele restou a Cláudia. A linda Cláudia. A ciumenta e controladora Cláudia.

 

E agora o cheiro de Manu estava nele. Será que finalmente havia provado Manuela? Ficado tão perto dela a ponto de terem trocado os cheiros de um pelo outro? Droga de amnésia! Nem que tivesse bebido um barril de uísque ou chope ou vinho era possível que tivesse apagado uma lembrança assim. E não estava de ressaca. O que havia acontecido na noite anterior, Deus?

 

Cláudia prosseguia o interrogatório, implacável.

 

- Você falou dos rapazes. Só vi dois copos. E um tem manchas de batom. Você também se maquiou, Jonas?

 

O marido encolheu os ombros. Como poderia confessar uma traição que ele nem mesmo desconfiava se havia acontecido ou não? Nunca havia traído a esposa. Talvez um pouco mais por acomodação do que por convicções ético-moral-religiosas. Mas era fiel. Ou pelo menos achava que era. Com certeza o foi até as dezoito horas do dia anterior.

 

Não disse nada, apenas olhou a esposa com aquele ar de cachorro abandonado, esperando a sua reação. O seu perdão pelo pecado que talvez tivesse cometido. Por ter saído das suas regras, sempre ditadas com eficiência e clareza, e às quais ele havia se adaptado para garantir aquela suave rotina. Uma vida sem sobressaltos. Percebeu que aquele era um momento delicado. O mais difícil dos seis anos de casamento. Uma palavra em falso e poderia ser o fim. Pensou nos filhos, de um, três e cinco anos. Nos almoços de domingo. Nas reuniões de amigos. No que as pessoas iriam dizer. Na mãe, nos irmãos, nos vizinhos. Nas contas a pagar. Jonas vislumbrou um futuro em um quarto-e-sala escuro e mal arrumado, vendo as crianças apenas nos finais de semana. Pagando um preço alto por lembranças que nem teria como desfrutar na velhice. Encararam-se. Desviaram o olhar. Cláudia largou o brinco, recolheu os copos.

 

- É melhor você trocar de roupa. Os meninos foram no mercado com a minha mãe, já devem estar chegando.

 

Jonas tirou o vestido, enterrou-o no fundo de uma gaveta. Tomou um banho e vestiu sua pele novamente.

 

Manuela nunca perguntou a ele sobre o vestido. Ele também nunca comentou. Achou por bem afastar-se dos ex-melhores amigos. Virou abstêmio e passou a sempre viajar com a família. Mas às vezes perde o sono de madrugada, pega o vestido escondido e o cheira profundamente, na ânsia desesperada de lembrar da noite que pode ter sido a melhor de sua vida.

 

Às vezes Cláudia está acordada e percebe o movimento do marido. Sorri silenciosa. Sabe que ele nunca a trairá. Não depois do plano perfeito. Começou a formá-lo no dia em que encontrou com Manuela na lavanderia, no dia seguinte ao aniversário de Patrícia. Tinha ido lavar o vestido italiano. Quando a outra mulher foi embora, ela aproveitou um descuido da atendente e pegou o vestido. O resto, foi só esperar a oportunidade. Voltar antes da viagem, dopar o marido, vesti-lo com o trapo de seda, armar a cena. Mostrar a ele o que perderia se tentasse concretizar qualquer sonho com a tal da Manuela. Jonas era seu. Só seu.

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LIANA FERREIRA

O texto é envolvente, está bem escrito e o final é muito interessante. Muito ardilosa essa Cláudia, enganou direitinho o babaca.

9,5

LUCI AFONSO

Enredo curioso, texto bem construído. O plano da esposa parece exagerado, mas eficiente. É ótima a frase: “Mas às vezes perde o sono... lembrar da noite que pode ter sido a melhor de sua vida”.

9

CIDA SEPÚLVEDA

Que mulher malvada! O enredo está muito explicado, o que o torna pouco atrativo. A linguagem, bem clara e leve.

8,5

CRISTIANE BRUM

Caraca, eu gostaria de ver o que o Maquiavel diria se tivesse conhecido a Cláudia. Achei interessante o tom do texto, a dúvida causada em Jonas e o resultado da trama convincente.

9

MARCO ANTUNES

Bastante revelador da alma feminina. Originalíssima solução. Linguagem adequada, clima adequado e desfecho inteligente.

9

TOTAL

45

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                                Fora da Competição

Conto 11

TÍTULO

Ranário – Ray Cunha

 

Acordou com um tapa no rosto desferido pelo sol de primavera. Sentia-se moído, sobretudo na memória. Girou o olhar num raio de 360 graus e viu que se encontrava no cerrado, sob magnífico Ipê carregado de flores amarelas. Olhou para si; estava todo escalavrado, como se houvesse fugido do diabo. Só então notou que trajava um vestido, úmido. Não conseguiu recordar a situação que o levara àquele estado, por mais que se esforçasse. Sentiu enjôo, e o peso de uma brutal ressaca desabou sobre o homem de vestido. Olhou para o céu e calculou que a manhã já ia avançada. Ouviu som de carros não muito distante. Caminhou em direção ao som. Subiu um barranco e deu de cara com uma rodovia. Foi para a beira da estrada e começou a fazer sinal para os motoristas. Alguém deve ter avisado à polícia. Pegaram-no quarenta minutos depois. Estava esgotado. Informou, na polícia, que trabalhava na Câmara dos Deputados, deu seu endereço e disse que era primo de um investigador da Décima-Segunda Delegacia de Polícia de Brasília, Distrito Federal, na cidade-satélite de Taguatinga. Tudo ok, mas não se lembrava como diabo acordara no cerrado vestido de mulher. Seu primo foi buscá-lo em Luziânia, cidade do estado de Goiás, distante 60 quilômetros de Brasília, e o levou para casa. Tomou banho e deitou-se. Dormiu imediatamente.

 

Comia pastel com caldo de cana na Pastelaria Viçosa, na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, quando recebeu o telefonema de Mariano.

 

- A festa vai ser do arromba - disse-lhe Mariano. Quando Mariano dizia que uma festa seria do arromba é porque seria do arromba mesmo. - Cara, vou te dar o endereço, você não pode perder essa. Anota aí: Setor Sudoeste...

 

A festa era do arromba, mesmo. Edinaldo bebeu sozinho uma garrafa de whisky. Já estava meio cego quando surgiu a vamp, de parar o trânsito. Saiu da festa com ela.

 

Subia por uma escarpa enlameada e resvalava quando ia alcançar a borda. Uma nesga de sol começou a tirá-lo do torpor que tolhia seu esforço para alcançar a borda da escarpa. A nesga do sol da tarde invadia a parte da janela sem a proteção da cortina de alumínio, na outra extremidade do quarto, um quarto enorme. Edinaldo abriu os olhos, querendo se libertar do torpor, e viu o grande espelho na parede oposta. Ergueu-se um pouco, atraído pelo espelho. Viu alguma coisa grande e verde ao seu lado e sentiu algo frio se encostar no seu braço. Uma rã descomunal espreguiçava-se na cama. Saltou em direção à porta do quarto. No vôo, pegou, indistintamente, algo sobre uma cadeira antes de abrir a porta do quarto e sair num corredor comprido.

 

- Ele está escapando! Não deixem ele escapar! – ouviu, como um gemido alto, um canto lamentoso, um coaxar.

 

Estava quase alcançando a porta que supunha ser a principal da casa quando uma rã gigantesca como a da cama, preta e encarquilhada, saltou sobre a porta.

 

- Por mim ele não passa! - disse o monstro.

 

Edinaldo freou, olhou para trás e viu três rãs avançando sobre ele, correndo somente com as pernas traseiras. Foi então que percebeu a porta entreaberta de uma varanda. Voou para lá e viu-se numa chácara. Atravessou um bosque e um riacho e se embrenhou no cerrado. O sol se punha.

 

Acordou. Telefonou para seu primo policial e contou o sonho. No dia seguinte, foram procurar a chácara, e a encontraram. Já era o começo da noite. Bateram na porta do casarão e aguardaram. A porta foi aberta e no vão surgiu uma velhinha escura e encarquilhada.

 

- Que é que vocês querem? – perguntou.

 

- A senhora não se lembra de mim? – disse Edinaldo.

 

- Não!

 

Nesse momento, saíram três belas jovens.

 

- Este vestido não é de uma das suas filhas? – Edinaldo perguntou, estendendo o sujo e rasgado vestido com que acordara naquela manhã.

 

- Nunca vi esse vestido, moço. Afinal, quem são vocês? – a velhinha perguntou.

 

- Sou policial e estou investigando um crime que se passou aqui por perto – disse o investigador. – Desculpe-nos o incômodo. - Olhou para Edinaldo e balançou a cabeça negativamente, desgostoso, e se virou para ir embora. Edinaldo o seguiu. No caminho de volta ao carro, olhou para trás. A velhinha já havia fechado a porta. Ouviu, então, um longo coaxo.

 

JURADO

JULGAMENTO

CIDA SEPÚLVEDA

 

CRISTIANE BRUM

A saída fantástica foi bem interessante, mas achei o conto meio curto, um pouco apressado, sem apostar muito na criação do clima para a solução.

MARCO ANTUNES

O único problema deste conto intrigante bem trabalhado no gênero fantástico é sua pequena extensão que compromete um pouco a fruição plena.

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Conto 12

TÍTULO

Nada Mais Contigo – Monique Knox

Felipe abriu seus olhos lentamente. Olhou o quarto e de alguma forma achou-o familiar. Quando tentou se levantar, a cabeça foi tonteando e então deitou-se novamente. Notou então que usava um vestido de mulher...O que acontecera?Porque estava assim vestido?De quem era aquele quarto?Tentava coordenar seus pensamentos, mas a cabeça latejava...Cabeça, sim,ele era a cabeça pensante. A cabeça pensante de seu casamento com Paula. Sabia como ninguém gerenciar o restaurante que montaram de cozinha francesa em um ponto muito concorrido de Copacabana, no Rio de Janeiro . Administrava a cozinha, provando cada tempero e reclamava da qualidade de alimentos escolhidos por Paula, responsável pela compra diária para suprimento do restaurante.Ah! sim ele era o idealizador de tudo ali, ainda que Paula tivesse entrado como sócia majoritária na montagem do negócio, sendo por isso responsável pelo gerenciamento de contas.

E  Paula gostava de convidar Joana, sua colega de Faculdade, para freqüentar o restaurante. A morena de olhos verde, mexia com Felipe. Os cabelos lisos, o corpo bem delineado e o cheiro de perfume de sândalo que permanecia  no ar quando ela passava, faziam Felipe sentir muita atração por Joana. Não foi difícil a aproximação mais íntima. No affair” que iniciaram, Joana se afastou de Paula. Evitava freqüentar o restaurante e contou a Paula que estava estudando para um concurso do Tribunal de Contas, daí não ter tempo para se encontrarem.

Felipe alugou um flat para encontrar mais freqüentemente com Joana. Passado um ano de relacionamento, Joana começou a pressionar Felipe para que pudessem viver juntos, que se ele e Paula não viviam mais como casal, não havia mais razão para manterem a união. Felipe retrucava avisando que nunca prometera nada a ela, que ele e Paula além de casados eram sócios de um único trabalho e que isso dificultava uma possível separação.

 As pressões de Joana aumentavam deixando-lhe extremamente irritadiço, soltando toda essa raiva em Paula, que percebendo o comportamento alterado do marido, permanecia mais reservada e solitária.

Mas, nunca conseguia resistir aos chamados de Joana depois das brigas, quando ela lhe ligava com voz chorosa, pedindo desculpas e marcando mesmo encontro usual.

Um dia saíram para jantar para comemorar dois anos de relacionamento. Jantaram à luz de velas num restaurante no final do Recreio, onde tinham iniciado seu namoro. Joana vestia um bonito vestido branco que realçava ainda mais sua pele morena. No último brinde da noite, seus olhos brilhavam muito, quando falou:

- Ao nosso futuro, ela lhe disse levantando a taça de vinho.

- À nossa saúde, disse Felipe. Depois disso Felipe sentiu-se tonto. Não se lembrava do que tinha acontecido desde esse último drinque...

E agora, deitado naquela cama de um quarto desconhecido sentia um profundo mal estar.

De repente ouviu um barulho de sirene de polícia. Escutou vozes fora do quarto. A porta se abriu e quatro policias  armados adentraram no quarto, dizendo:

- Levante as mãos! Você está presa!disse um dos policiais.

- Eu? Espere! Não sou uma mulher! Sou Felipe Mendonça, dono de um restaurante famoso em Copacabana, disse-lhes Felipe.

- Isso a senhora explica na delegacia, respondeu-lhe o policial, encaminhando-se para colocar algemas nas mãos de Felipe.

- Mas, porque estão me prendendo?O que foi que fiz?

- A senhora está sendo acusada de roubo de jóias. A Sra. Joana Ribeiro nos ligou dizendo que havia alguém em sua casa, já que suas jóias tinham desaparecido do cofre.Dessa forma a senhora foi presa em flagrante, disse-lhe o policial.

- Não é possível que  Joana tenha feito isso comigo! Deixe eu falar com ela, gritou Felipe, sendo empurrado para fora da residência pelos guardas.

Quando o carro de polícia partiu levando Felipe, um rosto se aproximou da janela e um sorriso irreparável se formou nos lábios de Joana de Castro.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

 

CRISTIANE BRUM

Mas que mulherada vingativa! Essa foi cruel mesmo. Ainda que a história tenha uma explicação verossímil, achei um pouco sem graça o conto.

MARCO ANTUNES

O que falta a esse conto bem articulado e verossímil é mesmo um trabalho de linguagem e estilo.

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QWERYUIOP´[ASDGFHJKLÇ~]ZXCBN

 

Conto 13

TÍTULO

General Tiburcio – Lúcia Borges

General Tibúrcio e sua mulher, Nadir, estavam casados há trinta e quatro anos. Enquanto se arrumavam para uma festa de Bodas de Prata no Clube do Exército, tiveram a idéia de comemorar o próximo aniversário de casamento. Ela dava os últimos retoques na maquiagem quando percebeu que suas pálpebras precisavam de correção. Decidiram que faria uma cirurgia plástica, afinal, faltavam dez meses para as Bodas de Coral.

Marcaram a cirurgia. Na véspera, Nadir preparara sua maleta com roupas para todas as estações, fingindo não perceber o olhar crítico do marido.

Quando ela perguntou se a bagagem dele estava preparada, ele respondeu com outra pergunta:

__ Passaremos só uma noite?

 Foram para o Hospital Militar no horário marcado, e se instalaram. Ela foi levada para sala de cirurgia e ele aguardou no quarto. Enquanto esperava, utilizou o  notebook para despachar com seu assistente que estava no Centro Tecnológico. No princípio da tarde ela veio para o quarto com ataduras nos olhos. O dia transcorreu normalmente, a sargento enfermeira fez os procedimentos de rotina para o pernoite, deixando a paciente confortável. À noite o general tentou dormir com a mesma farda que passara o dia. Não conseguiu.  Lá pelas onze horas, tirou a calça de linho e cobriu-se com lençol. A enfermeira entrou para dar a medicação, diminuiu a iluminação do quarto e desejou boa noite. A paciente dormia profundamente, mas o general não conseguia. Sua camisa de tecido, com gola, era desconfortável. Então tirou-a. Quando a madrugada chegou, começara a sentir frio. Foi até o armário e pegou o que pode para se agasalhar, deitando-se novamente e aí sim, adormeceu.

Ao amanhecer, o cabo, auxiliar de enfermagem, entrou no quarto para medir os sinais vitais de Dona Nadir que, bem disposta, perguntava pelo marido. O cabo disse que ele ainda dormia. Logo entraram a sargento enfermeira para retirar o soro, as ataduras e o capitão-médico para dar alta.

O general, coberto até o pescoço, despertou bem disposto. Levantou-se de um salto, cumprimentando a todos e foi até a cama da esposa para beijá-la. Todos estranharam ao vê-lo trajando um robe de seda pura cor de rosa com bordado richelieu. Ele percebeu os olhares de seus subordinados e depois de alguns segundos lembrou-se do frio que passara e como resolveu seu problema. Recompôs-se e, com ar autoritário, pediu licença, pegou suas roupas no armário e foi para o banheiro, enquanto a mulher, ainda com a venda nos olhos, perguntava: __Tibúrcio, aonde você vai? O que está acontecendo?

 

JURADO

JULGAMENTO

CIDA SEPÚLVEDA

 

CRISTIANE BRUM

Um pouco apressado e curto. A solução também não me surpreendeu. Acho que faltou mais vida à situação, talvez com uma descrição mais aprofundada do General e da situação.

MARCO ANTUNES

Bem escrito e naturalmente convincente, o conto tem o condão de prender a atenção do leitor. O credenciamento da situação está perfeito.

 

 

Em uma Constrangedora Situação

 

O Reality Show On The Lot”, exibido no Brasil pela People and Arts, seleciona um diretor de cinema dentre vários concorrentes. A cada semana eles têm que produzir um filme de dois minutos de duração, que são, em tudo e por tudo, meros contos filmados!

Estão reconhecendo alguma semelhança?

Pois bem, uma certa semana, eles tiveram todos que produzir um filme a partir da seguinte provocação:

Um homem acorda certa manhã usando um vestido de mulher sem se lembrar o que aconteceu na noite anterior e porque está com aquela roupa.

A prova de vocês é a mesma!

Produzir um conto de até 3 páginas sobre a situação acima.

Para quem desejar ver antes o que fizeram os 4 concorrentes do “On The Lot”, acesse a página:

http://otl.peopleandartsbrasil.com/episodios.php

 

Chegando na página, clique em Episódio 14: há quatro deliciosas cenas!.

Agora, entrando na reta final, queremos ver a criatividade de cada um ao resolver o problema! Quanto mais original, é claro, melhor!

Mas pensem a respeito: será que a história de um travesti ou de um transformista mereceria nossa surpresa?

Pelo menos lá, ninguém foi por esse caminho.

Este 7º  Desafio é mesmo o da Criatividade: todos têm a mesma situação em mãos, mas quem será mais surpreendente?

 

Boa Sorte!!!

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