Uma Fantasia Também
Pode Ser Para Sempre

JULGAMENTO

Conto1

Monique Knox

TÍTULO:

Num Pais Tão Distante Desse Instante

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

7,5

O conto infantil requer redobrado cuidado com símbolos e ícones. A”velha”, assim definida, vem reforçar um preconceito com os idosos, por isso a lenda moderna evita esse tipo de caracterização. Lembrem-se de que o texto oferecido como meditação traz bem claramente a idéia do conto que se procurava.

Cida Sepúlveda

8

Em "pensou em sua MÃE DE OLHOS FECHADOS - Ele, ou a mãe, de olhos fechados?
Em "continuavam andando QUANDO avistaram.." verificar problema de coesão no uso do QUANDO.
Em "objetivo QUE se propuseram, ou A QUE?
Em "Parecia que nunca acabávamos de comer" Não seria no tempo presente?
O esqueleto narrativo baseado nos de contos populares está excelente, mas a linguagem que o veste deixa muito a desejar. Vestir o esqueleto com linguagem exaustivamente já explorada, sem acrescentar-lhe, ao menos, toques de originalidade, prejudica significativamente o texto.
O título não contempla o conteúdo do conto.

Liana Ferreira

8

O contista precisa fazer uma revisão na pontuação e na gramática. A não observância do espaçamento entre as palavras após a pontuação desvaloriza o texto. A utilização de “a velha” para simbolizar a síntese da maldade está ultrapassada, é deselegante e preconceituosa

Cristiane Brum

7,5

Alguns equívocos de pontuação, mas nada que comprometa a narrativa. Achei, no entanto, o texto muito tradicional, não só do ponto de vista do enredo, mas também do tipo de imagem que cria. Por exemplo, o perigo em forma de “velha bruxa” não me pareceu muito politicamente correto nestes tempos de “melhor idade”. A degradação da floresta é outro ponto que ficou sem encaixe e, portanto, sem muita serventia para o desenrolar da história.

Luci Afonso

7,5

Este conto parece uma mistura de várias estórias conhecidas. Há incorreções ortográficas e gramaticais. O ritmo é lento. O ponto positivo é a coragem demonstrada pelos dois irmãos.

38,5

 

Conto2

 

Roberto Klotz

TÍTULO:

A Bruxa Que Não Queria Ser Bruxa

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

9

Iconografia muito bem trabalhada, afinal a idéia da metamorfose é sempre muito positiva, temer-se-ia por um indesejável maniqueísmo do tipo bruxa=má versos fada=boa; mas é tão simpático o mundo das endiabradas bruxas na visão do autor que consegue amenizar esta idéia.

Cida Sepúlveda

9

Muito bem narrado, muito criativo. Por isso mesmo, é fundamental não se omitir o seguinte questionamento: bruxa e fada são faces de um mesmo ser, portanto é justo colocá-las em posições opostas, excludentes? Inclusive, Catuxa é uma bruxinha boa.
O deslize do conto está na incoerência ou quiçá, na pouco clara diferenciação dos significados de bruxa e fada, levando o texto a uma finalização acomodada à divisão rígida e redutora de sentidos. 

Liana Ferreira

9

Bruxas e fadas deveriam dar uma variada nos guarda-roupas. Se o problema é a indumentária, essa Catuxa vai já se cansar de ser fada. Este é um tema que está presente no imaginário infantil e pincelado de graciosidades como está, nesse conto interessante e fantasioso, agrada-me bastante. É necessário fazer uma revisão na pontuação. Também penso ser conveniente trocar “senão” por “pois” em “...senão o fio da eletricidade não seria...”, e determinar quem recebeu o beijo em: “A mãe do garoto agradeceu por ela ter acabado com as asinhas do seu anjinho e deu um beijo.”

Cristiane Brum

7,5

Interessante a idéia da bruxa que quer ser uma fada, mas achei fraca a justificativa da bruxinha para isso. Ok, ok, é uma história infantil, mas querer ser fada só porque a roupa é mais bonita que a de bruxa – e de salto alto! – ficou meio fútil. A questão da tradição familiar poderia ter sido melhor explorada no texto, pois esse seria um gancho bem mais interessante pra desenvolver a dramaticidade do conto. E, óbvio, o debate da bondade/maldade, que também poderia ter aparecido com mais ênfase.

Luci Afonso

9

Enredo criativo, recheado de detalhes interessantes, como o nome da bruxinha, a receita para virar fada, a “alegria ralada”. Ritmo excelente. Catuxa dá uma verdadeira lição de ética.

43,5

 

Conto3

 

Soraia Maria Silva

TÍTULO:

Eternas Lembranças

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

7,5

É um conto de um adulto visitando as lembranças infantis, em que pese a toda beleza poética, faltou muito da fantasia que o desafio explicitamente pedia. Não considero o desafio inteiramente cumprido.

Cida Sepúlveda

8

O texto, bem escrito, tem  estrutura formal  bem conhecida. O narrador parece se condoer com as emoções do protagonista, o que prejudica uma retratação mais ousada.

O texto privilegia quantidade de lembranças em detrimento de uma possível exploração mais eficaz do tombo”.

Liana Ferreira

8

O conto não está adequado ao tema proposto no desafio. Mas é interessante e bem escrito.

Cristiane Brum

6

Não me pareceu um texto feito para crianças, apesar de ser esse o exercício proposto e de o início do conto indicar isso. Tampouco as lembranças são de criança. Ainda que algumas imagens revelem um certo lirismo suave, que poderia remeter ao universo infantil, a conclusão não vai por esse caminho. Acho ainda que o texto perde em intensidade com o longo parágrafo de recordações sobrepostas e com o vai-e-vem do narrador, que ora está nos pensamentos da personagem, ora está observando a cena

Luci Afonso

7,5

Belo conto sobre a infância, mas não é para crianças. A citação de Machado de Assis já anuncia o tema adulto. A nota se deve exclusivamente ao não-cumprimento do desafio, pois o conto, repito, é belo.

37

 

Conto4

 

Mônica Thaty

TÍTULO:

Os Lápis de Cor Mágicos

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

10

Singelo e delicado! Belas imagens e uso da fantasia com elegância e modernidade.

Cida Sepúlveda

10

Excelente texto. A finalização é fundamental, pois tira qualquer dúvida a respeito de uma aparente simplificação dos problemas humanos e suas soluções, quando  surpreende o leitor, mostrando que a estória é uma alegoria para chegar à função da arte.

Sugiro revisão do parágrafo:  “....desenhava casas, até brinquedos”. “Até brinquedos” soa preconceituoso. Neste sentido, é bom rever o texto diversas vezes, catando “sobrinhas”, “excedências”, etc. 

Liana Ferreira

10

“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo. E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo”. O autor conseguiu transmitir, com criatividade e extrema sensibilidade, a beleza da alma humana em contraponto à realidade de um mundo tão cruel e desumano. O uso de “menino-filho” e “menino-pai” é de uma beleza ímpar.

Cristiane Brum

10

Lindo, realmente muito lindo. Singelo, porém de uma profundidade arrebatadora. Fiquei com uma vontade tremenda de conseguir uma caixa de lápis de cor pra sair enfeitando o mundo. E o final, muito bem trabalhado, consegue sintetizar a intenção do autor sem pieguice.

Luci Afonso

10

Estória encantadora, texto irretocável. Abordagem sensível da perda na infância de um ente querido.

50*

*PRIMEIRO CONTO DO DESAFIO A MERECER NOTA 10 DE TODOS OS JURADOS

Conto5

 

Osmar Lannes

TÍTULO:

A  Ameixa  De  Ouro

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

8

O problema aqui é o tradicionalismo da história quando o texto-base pedia uma criação mais moderna e corajosa. No entanto, está bem escrito e apesar de alguns inconvenientes como as objeções da avó à juventude onde se lê frases de difícil decodificação por crianças tais como “ciúme das cortesãs”, ainda é um bom texto.

Cida Sepúlveda

9

Excelente colagem de estória popular com final híbrido – tradição e inovação.

Beleza é simples e discreta.

Liana Ferreira

9,8

Todos os elementos que compõem a magia dos contos infanto-juvenis estão aqui contemplados. Nessa história, utilizando-se de modelo tradicional, o contista consegue nos manter atentos ao seu desenrolar, enquanto desperta em nós emoções variadas, tais como compaixão, medo e decepção. Há, porém, algumas expressões que não estão afinadas com o texto, entre elas, “o incômodo sangramento mensal” e “os ciúmes das cortesãs”. Hoje à noite vou contá-la às crianças lá de casa... mas vou suprimir a adjetivação da feiticeira.

Cristiane Brum

8

Apesar do início bastante tradicional da narrativa, achei interessante o final, com os pedidos mais “práticos” da avó. O tom, porém, não me pareceu adequado ao universo infantil. Não sei se a narração dos percalços da vida que a avó não quis reviver ao fazer os seus pedidos teria sentido para uma criança que lesse o texto (“ciúmes das cortesãs”, por exemplo).

Luci Afonso

8,5

O enredo é complexo e algumas expressões fogem à compreensão infantil, como “representação viva do abandono”. O antepenúltimo parágrafo destoa. É bonita a imagem da árvore preciosa.

43,3

 

Conto6

 

Ari Gurcz

TÍTULO:

O Menino e o Muro

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

8

A idéia é que a leitura permite olhar por cima do muro? Se é, ficou muito sutil, talvez em excesso para a fruição infantil! É um conto gostoso de se ler (embora tenha umas inconveniências de linguagem) mas é interessante e merece ser mais trabalhado para a edição.

Cida Sepúlveda

8

Muito bem escrito, mas cada parágrafo do texto daria um conto. Há muita descrição em detrimento do conflito que é a força motriz da ficção.

Liana Ferreira

8,5

Gostei muito de ver o livro que abre portas e janelas para todos os mundos possíveis, em oposição ao muro alto, que isola, embora possa proteger um mundo todo particular.

Cristiane Brum

8,5

: Achei a história bastante singela e interessante, com um desenlace a contento. Mas confesso que não entendi bem o papel do muro na narrativa. Especialmente porque está no título, o que sugere uma função central na história, mas vai desaparecendo ao longo do texto. Não consegui compreender se isso foi intencional – e com que intenção exata? – ou passou despercebido pelo (a) autor (a).

Luci Afonso

8

O gatinho, o muro, a escola, tudo fica meio perdido no texto. Mas os livros, pelo menos, desempenham papel importante na estória.

41

 

Conto7

 

Ray Cunha

TÍTULO:

Heliotrópio

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

7

É interessante, mas a impressão mais forte que fica é a de que o autor não quis sair de sua zona de conforto e fez um conto infantilizado, mas nunca infantil. Algumas imagens, honestamente, me pareceram de horror! As músicas citadas, por exemplo, não ajudaram em nada ao clima fantástico. Embora a intenção da “cura pelo abraço” fosse muito interessante, o texto deixou a desejar como literatura para criança.

Cida Sepúlveda

8,5

Excelente enredo. O rebuscamento da linguagem parece ser proposital, mas está um pouco excessivo.

Liana Ferreira

8,9

A história de vida carregada de dor dessa mocinha com nome engraçado de planta, em princípio me pareceu não recomendável para menores de 16 anos. Mas reconsiderei! Afinal, o câncer está tão perto de todos nós que é bom mesmo que apareça nas histórias para crianças. Isso pode diminuir o preconceito e ajudar na prevenção. Mas é preciso ter coragem!

Cristiane Brum

6

Este foi outro texto que me deixou em dúvida. Não parece ter sido escrito por uma criança, nem narrado por uma criança, nem destinado a uma criança. Aliás, o clima um pouco mórbido está longe de ser infantil e não se resolve com o final fantástico, apesar do lirismo. Ainda que o exercício permita a produção de um texto que “fale à criança que vive dentro de cada ser humano”, a minha não se sentiu contemplada.

Luci Afonso

7,5

Creio que uma criança não apreciaria a atmosfera asfixiante deste conto. Talvez um adolescente, pois a ambientação se assemelha à de muitos mangás. O texto é poético e misterioso, mas não cumpre o desafio. Por isso, a nota.

37,9

 

Conto8

 

Antônio Cardoso Neto

TÍTULO:

Pirata

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

10

Inteligente e sensível, este conto soube entrar no universo infantil sem perder de vista que era um adulto quem escrevia. A identificação da personagem com o cão e o inusitado final feliz de menino, desvencilhando-se da infância pela aceitação serena da morte do amigo é brilhante!

Cida Sepúlveda

8

O trágico de se perder um cachorrinho não está contemplado, embora haja toda uma preparação para tal.

Liana Ferreira

9,5

Um cachorro vira-latas, dorminhoco e de aparência desajeitada, tem como companheiro de brincadeiras e conversas um menino observador e delicado. O conto está cheio de simbologias do universo infantil: irmãos que brigam, mas se amam; comida na casa da avó; picolés de groselha; cachorros que passam ilesos embaixo de carros, e a dolorosa, mas necessária, primeira grande experiência com morte.

Cristiane Brum

9,5

Bastante realista e impressionante a narrativa deste conto. A situação, por demais corriqueira, foi tratada com habilidade e sensibilidade pelo (a) autor (a), causando um bonito efeito de proximidade entre leitor/personagem. Um pouco triste, é verdade. Exatamente como a vida, algumas vezes.

Luci Afonso

10

Um menino e seu cão. O amor inocente e confiante de que só a criança é capaz, narrado com tal beleza que parece a primeira vez que se conta tal estória. 

47

 

Conto9

 

Washington Dourado

TÍTULO:

Uma Vela No Dia Das Crianças    

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

9

Bonita e sensível narrativa. O Robinho é um tipo inesquecível, um amigo para sempre. O final triste fica deslocado e sem uma função exata.

Cida Sepúlveda

7

A narração é uma somatória de fatos. Não existe conflito.

Liana Ferreira

8

Consegui imaginar os olhinhos brilhantes desses meninos e, em dado momento, até o cheiro azedo de suas cabeças suadas. Mesmo assim, acho que faltou algo que o tornasse envolvente. O último parágrafo está em desacordo com todo o resto.

Cristiane Brum

9,5

A história do Robinho é ótima, não havia a menor necessidade da introdução e do final do texto. Acho, aliás, que a introdução tira a força da narrativa, sem acrescentar muito à história – mesmo sem saber se foi um truque estilístico do (a) autor (a) ou algo que realmente aconteceu.

Luci Afonso

8,5

O autor consegue falar como criança sobre temas difíceis. A linguagem é bem acessível. Final inesperado.

42

 

Conto10

 

Artur Adolfo Cotias e Silva

TÍTULO:

A Espada de Ashalow

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

8

A narrativa tem vivacidade e mostra talento do (a) autor (a) para o gênero de aventura. No entanto, mesmo com o final surpreendente, não despertou meu entusiasmo de leitor.

Cida Sepúlveda

9,5

Na frase; “...O mago então, volta o olhar em direção......e sorri, MAS....”

Verificar a adequação do uso do advérbio

O texto prende e o fechamento é criativo.

Simples, envolvente e despretensioso.

Liana Ferreira

9

Gostei da velocidade da narrativa e achei a história bem interessante. Acho que já vi um pé de quaderpiranga no Parque Olho d’Água bem pertinho de um pé de bloquéia.

Cristiane Brum

8,5

Boa narrativa, ainda que a história seja muito “de menino” pro meu gosto. O final é surpreendente e interessante, mas não propriamente infantil. Talvez, para uma leitura infantil, ele precisasse ser um pouco mais explicado.

Luci Afonso

9

É interessante ir percebendo que se trata de uma brincadeira, mas a menção à platéia, na metade do conto, tira um pouco da surpresa no final. Eu terminaria em “...machucar o vovô”. O restante é dispensável.

44

 

Conto11

 

Cinthia Nunan

TÍTULO:

A Assembléia das Chaves

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

10

O jogo com a polissemia foi genial! A história tem todos os elementos das boas histórias infantis. O humor é o toque principal!

Cida Sepúlveda

10

Muito engraçadinho. Engenhoso. Seria melhor se acompanhado de desenhos de todos os tipos de chaves descritos.

Liana Ferreira

9,7

Idéia muito criativa, principalmente porque usa a palavra chave em suas várias acepções. Ficaria muito interessante em uma revista em quadrinhos. É perfeita para agradar as crianças que permanecem dentro de nós, mas desconfio que não esteja adequada às crianças reais, embora algumas já tragam um adulto dentro delas.

Cristiane Brum

9

Muito interessante a idéia de uma assembléia de chaves, especialmente pelo divertido jogo de palavras deste conto. Daria um ótimo desenho animado, não? Creio, contudo, que talvez alguns trocadilhos sejam melhor apreciados somente pelos adultos, afinal a ironia é um tipo de humor que não combina com a literalidade do humor infantil (ainda que as crianças de hoje sejam muuuuiiiiiito mais espertas do que nós éramos).

Luci Afonso

10

Muito engenhoso e divertido. Acho que o uso do itálico polui o texto.

48,7

 

Conto12

 

Maria Raquel Melo

TÍTULO:

A menina e o vento

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

10

Belo, inteligente, infantil e honesto! Um grande conto! Só gostaria de registrar, como mera curiosidade, que, na cultura chinesa, de onde se originaram os papagaios e pipas, existe um livro clássico chamado I Ching, no qual a simbologia do vento e da planta é a mesma: o trigrama Sun (a suavidade)

Cida Sepúlveda

10

Belíssimo conto. Dá gancho para outras aventuras.

Liana Ferreira

10

A criatividade desse conto aguça a nossa imaginação e nos seduz. Danadinha essa Consuelo! Desejando liberdade, sonhando alto em ter as rédias do seu destino em suas mãos, sob seu controle. Não se conforma com o que lhe está reservado, pois percebe que tem um outro modo de viver mais atraente. Lança-se ao campo do adversário, usa as armas dele, vence-o, e ainda se faz admirar. É rainha com cetro e voz ativa. Prepara-se para enfrentar qualquer mudança e está aberta a novidades. Isso porque encontrou sua energia interior, sua força feminina, seu pé-de -vento. Parabéns!

Cristiane Brum

10

Muito bonito este conto. Temas densos, tratados com tanta sutileza, acrescentam força à narrativa inteligente e singela. Achei interessante a idéia da transformação do vento em árvore, e a promessa de que a chuva também se transformaria em mais uma amiga da personagem.

Luci Afonso

9,5

É inspiradora a amizade entre a menina solitária e a natureza. O ipê amarelo iluminou e a chuva de verão refrescou o texto.

49,5

 

Conto13

 

Lacy Mesquita

TÍTULO:

O menino azul

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

8,5

Interessante e lírico, a se lamentar, no entanto, o tamanho excessivamente curto do conto.

Cida Sepúlveda

7

Texto desprovido de conflito. Não há esboço ficcional, mas apenas descrições.

Liana Ferreira

8

Aceito o convite porque fiquei encantada com a possibilidade de uma viagem mágica. A idéia central desse conto é de extrema delicadeza, mas ficou desvalorizada pela utilização de parágrafos curtos e desarmônicos. Sugiro ao autor que o reescreva sem a pressa e a pressão do desafio. Atenção para a grafia correta de pôr-do-sol e super-homem.

Cristiane Brum

7

Apesar da linguagem lírica, que me agradou, achei o conto apressado, como se o (a) autor (a) estivesse apressado (a) em concluir a tarefa e faltassem idéias melhores. O final, com o chamamento ao leitor, também não funcionou, na minha opinião.

Luci Afonso

8

Traz belas imagens, como a do “menino sincero e sozinho”, mas precisa de aprofundamento.

38,5

 

 

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Uma Fantasia Também
Pode Ser Para Sempre

Conto 1

TÍTULO:

Num Pais Tão Distante Desse Instante

Era uma vez em um país muito distante, dois irmãos, João e José, que moravam com seus pais, em uma casa bem pobre.Essa casa ficava próxima de uma floresta, que todos diziam ser uma floresta encantada. Seu pai um dia, resolveu que iria ganhar muito dinheiro e foi embora para as terras do garimpo,onde encontraria muito ouro. Falou para a esposa, Maria, que voltaria rico e que ela o esperasse. Maria permaneceu na casa pobre com seus dois filhos, trabalhando muito para sustentar toda a família.Um dia, Maria desapareceu. Os dois irmãos gêmeos, João e José, se viram sós no mundo. Não sabiam mais do paradeiro do pai, e agora, nem de sua mãe. Resolveram então, iniciar sua busca. Mas, onde iriam procurar?Qual o caminho a tomar? Pensaram em sua mãe de olhos fechados e sentiram um vento forte que balançava as folhas das árvores direcionando o caminho para a floresta.Quando entraram na floresta, percebiam mudanças à medida que caminhavam. Passavam ora por locais que não havia vegetação no chão, ora por locais de árvores bem altas, noutros as árvores eram secas, retorcidas, e em outros não havia nada, só areia de deserto.

- Que estranho esse lugar, João!Aqui não era uma floresta? Onde estão os bichos? Onde estão os riachos?Eu estou com tanta sede!

- Vamos ver se encontramos água para beber, José!

Continuaram andando quando avistaram um pequeno riacho circundado por grama e flores coloridas em volta. Sedentos, se aproximaram estendendo suas mãos para beberem um pouco da água cristalina, quando viram o fundo do leito do rio coberto de lodo e sujeira, com uma cor enegrecida de dejetos humanos. Se espantaram e se perguntaram:

- Quem fez isso? Aonde vamos beber água, João?

- Não sei.Vamos seguir adiante, José.

À medida que adentravam na floresta a luz ia diminuindo formando uma bruma de cor cinzenta onde sombras das árvores se confundiam com fantasmas horripilantes. Estavam sedentos, cansados e amedrontados. Se encostaram em uma árvore e João começou a chorar, dizendo:

-Estamos perdidos, José. Quero minha mãe!

-Calma, João. Mamãe uma vez nos contou a história de uma fada que aparecia no caminho das crianças perdidas. Lembra-se?Vamos dar nossas mãos e pedirmos ajuda, ta bom?

E assim fizeram, mas nada aconteceu.Apenas adormeceram, um apoiado no outro...

João sonhou então que sua mãe lhes falava de um caminho muito longo, cheio de surpresas e que precisavam ter coragem para enfrentar os desafios.José sonhou que sua mãe lhe aconselhava a cuidar do irmão, que logo chegariam no objetivo que se propuseram.

Quando acordaram, procuraram comida. João avistou uma enorme laranjeira e convidou o irmão a desfrutar de sua descoberta. À medida que iam comendo, novas frutas formavam-se no lugar. Os meninos se espantaram e tiveram medo pois frutas vermelhas, verdes e amareladas surgiam como brotos de galhos vazios na laranjeira. Mas, passado o primeiro espanto, provaram uvas em com gosto de morango, carambolas com gosto de melancia, manga com gosto de tangerinas e assim saciaram a fome.

- Que lugar diferente, João! Que delícia de frutas!Parecia que nunca acabávamos de comer...

- Quando será que encontraremos mamãe, José?

Quando mal acabou de perguntar, de repente, apareceu uma velha, saindo de dentro de uma folhagem, com uma vestimenta preta comprida e uma cesta roxa cheia de ervas. João se assustou e se escondeu atrás de José:

- O que fazem aqui dois meninos sozinhos nesta floresta, perguntou a velha?

- Estamos procurando nossa mãe, que sumiu de nossa casa, respondeu José .

- Sumiu? Mas como? Criança é que some da mãe e não o contrário?! A noite se aproxima e ficará impossível para vocês caminharem...Porque não pousam em minha casa?

- Não, muito obrigado, disse João. Devemos seguir adiante!

- Olhe, escute aqui, meninos!Preciso de uma erva passarinheira que só cresce no alto daquela pedra. Somente vocês poderiam alcançar !Se fizerem isto, prometo levá-los até onde sua mãe pode ser encontrada.

- - Você sabe onde ela está? Por favor nos diga, exclamou João!

- Só com essa condição! É pegar ou largar!

José ficou calado enquanto João dizia que sim .Olharam para o alto do penhasco e João começou a subir apoiando-se nas fendas das rochas. Quando lá chegou pegou a erva e embrulhando-a num lenço, colocou no bolso.Quando preparava-se para descer, lá de cima viu uma roupa de uma figura familiar que estava deitada, parecendo imóvel.João gritou:

- Mãe, é você ? E a pergunta ecoou no vale, sem nenhuma resposta da figura imobilizada. A velha lá embaixo, gritava:

- Anda com isso, menino! Joga logo essa erva para mim!

José retrucava:

- João, não jogue, não! Desça, que procuraremos nossa mãe juntos!

João não sabia o que fazer...Suas pernas tremiam na descida forçada ante os gritos de seu irmão e de uma velha que parecia uma bruxa. Porque subira primeiro? Porque José que tudo sabia, não se arriscou?O que faria? Fechou os olhos e se remeteu a figura da mãe.Provou das folhas da erva passarinheira que tinha nas mãos e foi descendo devagarzinho até chegar ao chão onde o esperavam, José e a velha.

Entregou a erva embrulhada no lenço, na mão da bruxa e quando esta o abriu, uma pequena cobra coral deu-lhe um bote peçonhento na face, derrubando-a petrificada no chão.

João rapidamente pegou José e correram muito até o local que João avistara sua mãe. Lá chegando lhe acordaram com muitos beijos.

- Meus filhos, que bom lhes ver! Fui raptada por uma velha para que eu plantasse e cuidasse de suas ervas .

- Mãe, não precisa contar mais nada. Esta velha já não existe mais nesta floresta!

Então contaram a estória para a mãe Maria que agradeceu muito os filhos que tinha e viveram felizes por muitos e muitos anos num pais não tão distante de todos esses instantes.

 

JURADO

NOTA

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Conto 2

TÍTULO:

A Bruxa Que Não Queria Ser Bruxa

Era uma vez uma bruxinha que não queria ser bruxa. Ela era novinha e não gostava de usar aquela saia preta comprida, de tecido pesado, quase arrastando pelo chão. Achava aquela roupa feia, muito feia, fora de moda, era coisa de bruxa!

– Mas Catuxa, minha filha, você é uma bruxa!

– Então eu não quero ser bruxa!

– Como assim não quer ser bruxa? Eu sou bruxa, sua avó é bruxa, sua bisavó é bruxa, sua tataravó é bruxa, sua tatatataravó é bruxa.

– Então já tem bruxa demais e eu não quero ser bruxa de roupa preta e verruga no nariz. Eu quero ser fada. Está decidido, quero ser fada de roupa branca e nariz arrebitado.

Além da roupa preta, Catuxa também não gostava da vassoura de piaçava. Dizia que vassoura é coisa que não se usa mais. Nos escritórios e casas de ricos usam-se aspiradores de pó. Seria tão mais elegante voar num aspirador de pó vermelho e dar rasantes por cima da cabeça das crianças mal criadas. Vruuuuuum!

Catuxa se parecia com uma bruxa, vestia-se como uma bruxa e resmungava como uma bruxa. Porque era uma bruxa resmungona.

– Eu odeio ser bruxa! Não quero mais ser bruxa. Quero ser fada. Quero ser uma linda fada.

Além de resmungar, a bruxinha que já sabia ler e escrever começou a procurar nos livros alguma forma para virar fada.

Revirou os livros de feitiçaria da mãe, fuçou nos escritos de encantos da tia, procurou no grande livro de bruxarias da vovó e não encontrou nada. Ela descobriu como fazer chover cobras, aprendeu a transformar gatinhos em bolas de futebol, encontrou como congelar pensamentos e mais algumas diabruras. Só não achou meio de virar fada.

Todos os dias a infeliz Catuxa perguntava para as amiguinhas da escola, para a professora de magias e para quem estivesse por perto se alguém sabia o que deveria fazer para virar fada.

Um dia, bem cedinho, ela foi até a biblioteca da escola e procurou... e procurou... e procurou até a noite chegar e também não encontrou o modo de virar fada.

A nossa amiguinha além de resmungona ficou tristonha.

A mãe de Catuxa que estava preocupada com ela assou seu doce preferido.

– Filhinha, querida, olha só, fiz um doce especialmente para você: filhotes de tartaruga com marrom glacê e raízes de barbatimão.

Catuxa abriu um sorriso enorme, de orelha a orelha.

Mamãe bruxa ficou muito satisfeita com a volta da alegria. O que ela não sabia é que a alegria era porque a filha encontrou no livro a receita que ela tanto buscava.

 

Receita para bruxa virar fada

Pegar uma ovelha pequenininha e branquinha acrescentar as cores do arco-íris juntar com uma vela acesa de bolo de aniversário tirar as asas de um anjo e acrescentar um beijo de mãe.

Misturar com açúcar a gosto, derramar uma lata de leite condensado e temperar com duas pitadas de cílios de antílope e duas colheres de alegria ralada. Cozinhar tudo por três horas e tomar um copo antes de dormir.

A nossa aprendiz de feiticeira parou de resmungar e começou a cantar de felicidade. E ansiosa que era, decidiu começar na mesma hora.

Foi para a cozinha e procurou nos armários os ingredientes, mas só achou a lata de leite condensado, os cílios de antílope e alegria ralada. Procurou um pouco mais e encontrou atrás do calendário o açúcar agosto. Estava bem atrás do açúcar abril. A nossa bruxinha, que era esperta, logo percebeu que para virar fada era óbvio que só poderia ter coisas boas na receita. Como é que iria colocar uma ovelhinha branquinha no caldeirão?

Nós já sabemos que ela era esperta. Então ela olhou em volta, pegou sua vassoura, uma faca, um saco e levantou vôo bem alto. Subiu, subiu e subiu e voou entre as nuvens até achar uma que fosse igualzinha a uma ovelhinha. Recortou com a faca e colocou-a dentro do saco.

Feliz com sua rapidez colocou a ovelha no caldeirão e fechou com a tampa.

Catuxa releu a receita: tirar as asas de um anjo e acrescentar um beijo de mãe.

Nossa bruxinha que não queria cortar nenhuma asa de anjo pegou sua vassoura e saiu à procura de uma criança que estivesse almoçando. Olhou bem para o menino mal-educado que comia com a boca aberta e os braços esparramados . E disse:

– Menino, se você fechar os braços e comer de boca fechada dou-lhe um chocolate.

A mãe do garoto agradeceu por ela ter acabado com as asinhas do seu anjinho e deu um beijo. Ah, para as mamães até os pestinhas são anjinhos.

A bruxa Catuxa estava contente com os ingredientes que já conseguira quando percebeu que teria que colocar as cores do arco-íris dentro do caldeirão. Que maldade!

Catuxa olhou para o lado e montou novamente na sua vassoura. Ainda bem que não era um aspirador de pó senão o fio da eletricidade não seria comprido o suficiente para chegar até a caverna da montanha azul. Lá na caverna a feiticeirinha escolheu um enorme cristal brilhante e depois retornou até o caldeirão. Colocou o cristal entre o caldeirão e o sol de forma que as luzes multicoloridas pintassem a ovelhinha com as sete cores e rapidamente recolocou a tampa.

Agora só falta a vela de bolo de aniversário. Mas as instruções eram bem claras: a vela deveria ser retirada acesa do bolo de aniversário de uma criança na hora do parabéns. Catuxa sabe que não existe maldade maior no mundo e pensou que ninguém seria tão mau a ponto de provocar o choro de uma criança no exato momento mais importante da vida. Isso não se faz.

Mas Catuxa, que não era boba nem má, preparou um bolo de chocolate bem grande, bem grande mesmo. Colocou uma vela acesa em cima do bolo, pegou sua vassoura e procurou alguma festinha de aniversário.

– Será que a nossa bruxinha vai ser perversa a ponto de oferecer o bolo e depois roubá-lo na hora do parabéns?

– Não, Catuxa não é má, ela ofereceu o bolo com a vela acesa em troca do outro bolo menor deixando o menino contente e assim conseguiu o último ingrediente para sua desejada receita.

Agora, com todos os ingredientes, acendeu o fogo e deixou cozinhar por três horas.

Finalmente chegou a hora de dormir. Catuxa tomou o primeiro gole, o segundo gole e na hora do terceiro apareceu a fada madrinha.

– Muito bem Catuxa, você passou no teste, agora temos certeza que você não é má, você é boa, e como prêmio transformo-a em fada – encostou a varinha de condão na testa de Catuxa. – Plim.

Sob estrelas douradas surgiu uma fadinha linda de vestidinho rosa, saltos altos e asas douradas de borboleta. A vassoura encolheu... encolheu e transformou-se em varinha de condão.

O sorriso de Catuxa ficou maior ainda, agora podia mostrar para todas as amiguinhas como eram bonitos seus vestidos de fada.

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Conto 3

TÍTULO:

Eternas Lembranças

“Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim” (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

Seus joelhos ainda doíam na lembrança daquele tombo, ásperos e marcados pareciam nunca sarar daquelas feridas incuráveis. Antonio se aninhava na cadeira retirando cuidadosamente as casquinhas da ferida já endurecidas. Essa era a parte boa dos machucados, quando se tira as casquinhas das feridas. Mas nesse instante Antonio soltou um ai instintivo, a casquinha de tão dura feriu-lhe novamente a pele sensível, era preciso ter cuidado, no entanto isso dixou-lhe pensativo e chateado: “essa ferida nunca vai sarar”.

Lembrava-se ainda da competição. Fernando em sua bicicleta sem rodinhas estava por pouco perdendo de mim, foi quando eu me confundi com os pedais, ainda me lembro do tombo e de como segurei a bicicleta e por ela fui arrastado pelo asfalto quente do sol da tarde. Depois soltei a danada e ela ainda continuou solitária e firme nas suas quatro rodas e ainda por cima me arrastando. Eu tinha um pouco de vergonha daquelas rodinhas, mas eu já podia me equilibrar em um único par de boas rodas. Eu quase vencia, se não fosse o tombo eu vencia! Continuei levando tombos e quase vencendo pela vida a fora e sempre terminei lambendo e curando feridas. Pensei que ia morrer naquele dia, os joelhos sangrando como nunca tinha visto, desde então nunca vi o meu sangue jorrar com tanta abundância. Logo pensei na baita bronca que levaria de mamãe sempre tão nervosa, tantos cuidados com a casa e os quatro filhos... Mais essa agora! A dor mesmo só sentiria alguns anos mais tarde. Não queria morrer e muito menos levar aquela bronca. Corri para o tanque a lavar o sangue e a areia dos joelhos para ver se diminuía o estrago e a bronca da mãe. Lembro-me de ficar deitado no quarto olhando a goiabeira em sombra no quintal, as lágrimas nos olhos e um pensamento escorrendo por elas. “Os meus dias estarão contados? Vou sobreviver a esse acidente? Os meus joelhos doíam e eu chorava perder a minha jovem vida. Ali deitado entre a vida e a morte das ilusões lembrava das moedas que plantei na terra, ao lado da goiabeira, cresceriam em árvores as moedas? Eu não teria tempo de ver, quem sabe agora mesmo as primeiras notas estariam brotando tenras do solo? Senti curiosidade, mas não consegui caminhar até lá pra dar uma espiada. Essas e outras lembranças eram insistentes, como aquela sensação única e indizível do sabor do pudim de leite que nunca mais comi igual, tantos pudins ando provando, em vão, sem encontrá-lo; o perfume forte de mamãe (era francês e tudo, mas me dava enjôo); o olho de vidro do menino; o dedão do pé na minha boca (chupei o dedo polegar da minha mão esquerda, muitos anos, mas não era a mesma coisa). Tudo me vinha com tanta tristeza, não que eu fosse muito velho, 6 ou 7 anos de idade, mas se eu morresse, para quem eu falaria as minhas lembranças? Elas morreriam comigo. E isso era o motivo da minha tristeza. Eu precisava lembrar ainda outras idades, não que eu não as tivesse em mim. Já me sentia inteiro na vida e com um certo sofrimento, naquele momento estive bem pertinho da morte. Eu iria morrer? Mas meu irmãozinho ainda não sabia o alfabeto, vovó e mamãe estavam muito preocupadas. E eu já sabia como faze-lo aprender direitinho o abecedário. Escrevi todas as letrinhas em uma pequena tira de papel, dobrei-as sanfonadas e disse a palavrinha mágica. Tenho certeza que aquela palavra é mágica, e não pode ser pronunciada por qualquer um. Fiz com que ele repetisse comigo, e pedi a Deus que fosse muito inteligente e aprendesse a ler e a escrever direitinho. “Catacumba” era uma palavra muito sonora, mas seu verdadeiro significado me escapava. Bom, se fosse pela magia dessa palavra meu pobre irmão teria outro destino, mas Deus ouviu bem meu coração de criança e meu irmão cresceu forte, saudável e muito inteligente, não só se formou como tem uma grande capacidade de amar e gerenciar as pessoas. Naquele fluxo de memórias lembrei-me da frondosa árvore amiga a qual tinha devotada e chorada saudade. Um belo e formoso eucalipto solitário e obliquo na sua generosa verticalidade. Aos seus pés compartilhava palavras profundas de confidências infantis. A casa dos sonhos dos pés de bananeira; o som da gaita solitária; a esquecida piscina de cimento e sapos; o lago de pedras e águas cristalinas; essas e outras memórias vinham velozes banhadas de melancólica despedida. Meus preás devorados pelo cão; os patinhos coloridos de cristal de açúcar; a caixinha de balas que era um teatro de marionete; a boneca Perla de minha irmã e suas longas tranças; o passeio no parque com a vovó; a lua e as pipocas; as mangas maduras dadas na janela para as dóceis vacas leiteiras; o arroz queimado em latinhas e tijolos, o tombo do cavalo; o prego no pé; o concurso de desenho; o cheiro de suor da professora; os cadernos trocados; os banhos nos rios na vinda da escola; o cheiro da chuva na calçada; o sorriso do meu irmão mais novo sem dentes no colo de minha mãe; as revistas e os livros antigos lidos com prazer no sótão empoeirado da casa da vovó; os crisântemos da vovó; o chocolate bis, bis, bis, bis, bis, bis, bis, bis, bis, bis; as balas escondidas da bis-avó; o rapé do vovô; o relógio de ouro prometido; o jogo em que fui o último a ser queimado; o capitão Lee da viagem ao fundo do mar; a farta pescaria de peixes nas águas marrom; as sensuais brincadeiras com primas e primos; a tristeza e a alegria nas fotos registradas; o dia em que meu pai quase ganhou na loteria (todos da família ajudaram no jogo, menos eu, e tenho certeza que se eu tivesse ajudado também ele seria o ganhador); a festa de aniversário no parque assombrado pintado de cores novas; o carrinho de bate-bate com fumaça de gelo-seco; o fim do beijo no algodão doce ao som da música que anunciava acaboooououououooooo, acabou; a casa arrombada e roubada; a tartaruga feita de terra; as flores para minha mãe na volta da escola; o presente que ela não gostou (como seria o pão que o diabo amassou e que ela comeu? Devia ser muito feio mesmo); as conversas na cama com minha mãe (eu pedia a ela pra casar comigo e ela sorria); o cravo que brigou com a rosa; minha irmã corajosa e o corte no meu olho direito provocado por ela; se essa rua fosse minha; o gibi no hospital; a peneira de formigueiro; a espiral quadrada no muro que hipnotizava; ciranda cirandinha, o amor que tu me tinhas...

Todas essas coisas e outras a Antonio lembravam as humana-idades prontas para serem recordadas, coisas sem início, meio ou fim. A vida parecia-lhe um fio tênue e sonhado, vivia como em sonho. Sua irmã, anos mais tarde lhe dissera autista. Mas nos autos de suas lembranças aquele episódio tinha registro solene. Sobrevivera ao acidente da bicicleta e ali estava, todo o seu futuro agora seria lembrado, e ele poderia lembrar do seu planeta, de onde viera. Quase lembrava de tudo e sentia os olhos úmidos de saudades de seus verdadeiros pais, os quais o deixaram vir para essa estranha família. Não fosse o sangue a escorrer-lhe novamente do joelho, lembraria dessa outra existência. Tantas vezes não sentira o corpo, era preciso dançar, se movimentar para lembrá-lo sempre, rodar, rodar, rodar, rodar, rodar, até cair, cansado e tonto, ou esfregar a ponta dos dedos em superfícies ásperas. Também era preciso saltar alguns quadrados da calçada, e ir andando no meio fio sem desequilibrar (mais tarde seriam necessários outros desequilíbrios e outras verticalidades). Antonio levantou pensativo caminhando em direção ao quintal, chutando pedrinhas que se transformavam em pequenas borboletas amarelas, procurando alguma outra árvore amiga, pois queria compartilhar uns pensa-mentos tirados dos doces nos bolsos daquela eterna-idade, viu um passarinho caído morto e lembrou: “todas as pessoas são apenas lembranças de Deus, antes mesmo de serem criadas, os contos, as palavras, os velhos, as noites, os pássaros e as crianças. Em cada vida que finda do amor o mundo se esquece mais. Em cada vida epifania crescem lembranças e ais, do pássaro morto a esperança emb- alada, a memória em histórias contada, muito calada, para ir despertando devagar-ninho as outras ainda dormindo!”. Estranha memória pensou, mas existem tantas coisas estranhas e tão boas de serem pensadas, pegou o passarinho para enterrá-lo e encontrou a Antonia, sorriu para sua professora, baixinha e bem mais velha, ambos de blusa amarela. E mais uma vez pensou: se a esperança é verde a lembrança bem pode ser amarela como a camiseta da Antonia begônia, que sorridente do outro lado da rua dizia: “como você cresceu e está lindo, também com esse nome”, lembranças de um nome que se perdeu no tempo... Abaixou-se para enterrar o pássaro aos pés do tamarineiro e chamou-o Eulálio e sentiu nojo do Eulálio, o morto. “Antonio!”, gritou sua mãe, “você já tomou banho, escovou os dentes e penteou os cabelos para ir à escola?”, “Sim mama”, respondeu Antonio limpando as mãos e entrando em casa, era chagada a hora da escola.

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Conto 4

TÍTULO:

Os Lápis de Cor Mágicos

Uma caixa de lápis de cor. Foi esse o presente que o Mário deu ao menino no seu aniversário de seis anos. Além do laço de fita azul e o cartão, o presente veio ainda acompanhado de um aviso do avô, dito bem baixinho em seu ouvido, em tom de grande segredo.

- Os lápis são mágicos. Tudo o que você desenhar com eles vai virar realidade.

No início o menino não acreditou. Era criança, mas não era bobo. Mas o Mário nunca tinha mentido para ele. Contava histórias fantásticas, inventava brincadeiras incríveis, mas mentir? Nunca!

Resolveu testar os lápis logo depois da festa, escondido com uma lanterna debaixo do lençol. Pegou uma folha de caderno e desenhou um pirulito. Nem era um pirulito muito bem desenhado, mas mesmo assim os rabiscos foram levantando do papel, tomando forma, e viraram um pirulito de verdade, doce de verdade.

O menino ficou animado. Quis desenhar um monte de brinquedos. Quem sabe até o carrinho elétrico que tinha pedido de presente e o papai disse que era caro demais. Ou uma piscina para colocar no meio do quarto. Ou um cavalinho de verdade, para passear pela rua. Não sabia por onde começar, e resolveu falar com o Mário, que riu das idéias do menino.

- Como você vai explicar o carrinho para os seus pais? E uma piscina no meio do quarto? Onde você vai dormir?

O menino concordou com o avô. Eram idéias malucas mesmo. Mas não queria só desenhar pirulitos e sorvetes e balas. Resolveu deixar a caixa bem guardadinha até decidir o que fazer com ela.

Um dia, passeando com os pais, viu uma família dormindo no meio da rua. Perguntou para a mãe porque elas não dormiam em casa e ela respondeu:

- Eles não têm casa, filho.

E aí o menino achou que tinha descoberto uma grande função para os seus lápis:

- Vou desenhar casa para todo mundo que não tem!

Ele contou seu plano para o Mário, que logo aprovou a idéia. E todos os dias, depois da escola, o avô ia buscar o menino e os dois passavam por lugares pobres, desenhando casas bonitas, de paredes e janelas coloridas. Casas verdes, amarelas, vermelhas. Casas com tudo dentro: camas, fogões, geladeiras. E até brinquedos para as crianças.

O menino desenhava com vontade e sem parar, mas logo percebeu que os lápis iam acabando, e ficando pequeninos. Então teve outra idéia: desenhou uma caixa de lápis de cor mágicos, com todas as cores que tinha na sua. Funcionou direitinho, e o menino ficou satisfeito. Teria lápis para sempre.

E durante os seis anos seguintes, o menino desenhou todos os dias. Casas, comida, brinquedos. Até mesmo um hospital bem grande, com todos os equipamentos que conseguiu imaginar, e que funcionavam de verdade.

Você deve ficar se perguntando se as pessoas não achavam aquilo tudo muito estranho. Paredes que surgiam do nada. Objetos que apareciam em poucos minutos. Mas todo mundo tem a capacidade de se acostumar muito rápido com o que é bom, e logo achavam que era um milagre, ou que alguém de muito bom coração havia construído as casas e doado as coisas em segredo. E como ninguém sabia quem era o autor das maravilhas, logo apareceram políticos fazendo discursos e querendo ser os donos das construções. No início o menino ficou bem chateado, mas o Mário não deu atenção.

- O que importa é que você sabe o que fez, e que as pessoas estão aproveitando essas coisas boas.

E aí o menino também parou de ligar para aquilo. Ele e o Mário passaram a ir a todas as inaugurações que podiam. E os dois riam e aplaudiam os discursos, e trocavam olhares que só eles sabiam o que significavam.

Mas à medida que o menino crescia, ele queria desenhar mais e mais, e só coisas grandes. Coisas importantes, que, quem sabe, pudessem mudar o mundo.

Assim, um dia ele ficou sabendo que dois países vizinhos estavam brigando, e se preparando um para invadir as terras do outro. O menino não teve dúvidas. Pegou um mapa do mundo e desenhou um muro bem alto, bem ali sobre a fronteira. Quando acordaram pela manhã, e viram o muro, os governantes, os generais, os soldados e todo o povo ficaram impressionados. O que poderiam fazer? Resolveram enviar apenas os aviões, mas o menino foi mais rápido, e construiu também tetos sobre os países, e assim ninguém poderia mais sair nem entrar. Nem de avião, ou trem ou carro.

Na hora ele achou que tinha resolvido o problema, mas quando foi ver o resultado nos noticiários da TV, levou um susto! As pessoas dos países estavam tristes, sem saber o que fazer com aquele muro que tinha aparecido de repente. E com aquele teto que tinha escondido o sol e a lua, e impedido a chuva de cair. As plantas iriam morrer, havia desespero em toda parte. O menino correu e desenhou uma borracha para apagar o que havia desenhado. Sem o muro, os países logo logo voltaram a brigar, e um culpava o outro pelo que tinha acontecido.

O menino ficou muito chateado. Pensava em uma solução para esse problema quando a sua mãe chegou, os olhos vermelhos de chorar e falou que o Mário tinha partido.

- E quando ele volta?

Ela abraçou o menino, e aí ele entendeu que não iria mais ver o avô. Primeiro sentiu uma dor que parecia que ia explodir dentro do peito, mas aí teve outro plano...

À noite, quando todo mundo estava dormindo, pegou os lápis mágicos e tentou desenhar o avô. Fez tudo bem direitinho, até a camisa preferida dele o menino desenhou. Mas o Mário não saiu do papel. Ficou ali, parado como um boneco, sem rir, sem se mexer. E então o menino entendeu que não dava para desenhar as pessoas. Pensou em desenhar o abraço do avô, para fazer companhia para ele dormir, mas como se desenha um abraço? E um beijo? E a voz do avô para contar histórias? O menino começou a chorar, mas a borracha que tinha também não conseguia apagar as lágrimas. Nem a tristeza. Nem a falta que sentia do Mário.

Largou os lápis no fundo de uma gaveta e nunca mais mexeu neles.

O menino continuou a crescer, e um dia virou adulto. Um adulto bem legal, que ainda lembra como era bom ser criança. Depois ele teve um filho, um menino bem parecido com aquele que ele tinha sido. Os dois se davam muito bem, e não perdiam uma oportunidade de brincar. Um dia, o filho perguntou para o pai como eram os seus brinquedos quando ele era criança, e ele lembrou que tinha uma caixa grande, com um monte deles guardados, na casa de sua mãe.

Foi procurar seus brinquedos antigos e achou uma bola murcha, um pião que o avô tinha feito, umas caixas amassadas com jogos. E também encontrou os lápis mágicos. Lá estavam eles, velhos e empoeirados, mas ainda funcionavam. Levou para o seu filho, que no começo duvidou, como ele mesmo havia feito muitos anos antes. Mas logo logo ficou encantado ao ver que eles funcionavam. Os dois passaram a tarde desenhando. Sorvetes de chocalate, balas de morango, uma pipa colorida... Até uma chuva fininha para que eles pudessem brincar. E aí o menino-filho teve uma idéia. A mesma idéia que o menino-pai tinha tido um dia.

- Pai, e se a gente saísse por aí desenhando coisas boas para as pessoas?

- Eu já tentei, meu filho, mas não funcionou.

- Por que não?

- Porque não consegui acabar com as guerras nem com a fome no mundo. Nem com a mentira.

- Mas as pessoas que você ajudou não ficavam felizes com os desenhos?

- Mas era tão pouco...

- A mamãe sempre diz que pra quem não tem nada, pouco é muito.

O pai ficou pensativo. O filho tinha lembrado a ele uma coisa que o Mário tinha ensinado. Uma coisa que era boa, sim. Naquele mesmo dia desenharam uma outra caixa de lápis, novinha em folha, e saíram desenhando o que conseguiram. Cobertores marrons para dar a quem sentia frio. Canteiros de flores azuis e vermelhas em pleno asfalto. Comida para quem tinha fome.

E o pai lembrou que com os desenhos podia criar também coisas que não podemos pegar: esperança, surpresa, calor, amizade. E uma alegria que era ainda maior que a saudade que sentia do Mário.

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Conto 5

TÍTULO:

A Ameixa De Ouro

Era uma vez, há muitos e muitos anos, uma avó que vivia com sua neta. A mãe da menina, que tinha sido a única filha da avó, havia morrido no parto. Então, a avó criou a neta com todo o carinho e afeição. A bela moça tinha um coração bom e puro e amava muito sua avozinha.

 

 

As duas viviam felizes na sua casinha. Na verdade, QUASE felizes, porque alguns problemas as atormentavam. Eram muito pobres e nem sempre tinham o que comer. A saúde da avó não era boa: ela já não conseguia enxergar de perto, o que a privara de seus grandes prazeres na vida, a leitura e a costura; além disso, sentia horríveis dores nas juntas e tinha dificuldade para dormir.

 

 

Um dia, as duas mulheres foram à floresta que ficava atrás de seu casebre em busca de algo para comer. Após caminharem todo o dia, só haviam conseguido reunir algumas amoras silvestres. Estavam cansadas e sentaram-se em uma pedra à beira do rio, para o seu magro jantar. Quando começaram a comer, perceberam a presença de um velhinho, beeeeem velhinho mesmo, todo encurvado e enrugado e vestido com andrajos sujos e fétidos. Antes que elas pudessem pensar, o ancião falou-lhes: “- Por favor, gentis senhoras, ajudai este pobre velho, que não come há dois dias. Sede piedosas”. Os corações de ambas se condoeram daquela representação viva do abandono que lhes dirigia uma súplica tão humilde. Concordaram em ceder ao velhinho o quase nada de que dispunham. Assim, o ancião comeu as amoras e bebeu a água que elas levavam. Saciadas sua fome e sede, disse-lhes: “- Fostes generosas para comigo e demonstrastes sabedoria, ao vencerdes a repulsa pela minha aparência e ao obedecerdes os ditames de vossos bons corações. Por isso, vou recompensar-vos”. Um grande clarão se formou e uma luz tomou o lugar do velho, que se transformou em uma bela fada, de olhos violeta e trajando longas vestes translúcidas. Ela lhes falou, com uma voz melodiosa: “- Sou a fada protetora desta floresta. Tudo sei e tudo conheço. Ide ao castelo do duende, a algumas léguas daqui, próximo à nascente deste rio. Lá, encontrareis uma árvore preciosa, seus troncos são de madeira perfumada, suas folhas são de prata e dela pendem ameixas do mais puro ouro. Se colherdes uma destas ameixas e as levardes para o rei, desfareis a terrível maldição que, há vinte anos, a Feiticeira Negra lançou sobre o Príncipe Herdeiro, transformando-o em uma serpente. Se tiverdes êxito, conceder-vos-ei três desejos”.

 

 

A avó e a neta não sabiam o que fazer. Por um lado, queriam ir, porque sentiam que em pouco tempo já não teriam como sobreviver. Mas, por outro lado, sabiam que o castelo do duende ficava em terreno proibido, onde não se permitia a presença de seres humanos. Quando a desorientação era mais completa, a fada lhes falou: “- Sim, sei o que pensais e o que temeis. Muitos são os perigos: o duende é um ser cruel, que se alimenta de carne humana. E a árvore mágica é guardada por um dragão furioso. Então, tomai isto”, entregando-lhes um alforje. “- Aqui dentro, encontrareis uma veste mágica, que torna invisível quem por ela é coberta; uma pedra mágica, que emite uma luz tão poderosa que cega quem para ela olha; um espelho mágico, que só pode ser usado pelos puros de coração, pois ele reflete a verdadeira alma de quem se posta à sua frente; e um novelo de linha mágica, tão forte que não pode ser cortada. Mas, atenção !”, a fada advertiu, “cada um desses instrumentos só pode ser usado uma única vez”. E desapareceu tão subitamente quanto surgira.

 

 

Encorajadas pela ajuda da fada, avó e neta puseram-se em marcha. Depois de algumas horas de caminhada pela parte mais assustadora da floresta, chegaram a um enorme e lúgubre castelo. Apesar do grande medo que sentiam, entraram cautelosamente, atravessaram um longo e escuro corredor e abriram uma pesada porta, que rangeu uma melodia triste. De repente, o chão se abriu sob seus pés e elas caíram durante longos segundos até se estatelarem sobre uma pilha de feno. Ao olhar em torno, descobriram que estavam em uma cela, fechada por uma grade. Ainda não estavam refeitas do susto, quando um fiapo de voz surgiu da escuridão: “- Quem sois ?”. Do fundo da cela, apareceu um rapaz, o dono da voz, que se apresentou: “- Sou o Conde Roustabout, valoroso Cavaleiro do Rei. Vim à procura da ameixa de ouro, para salvar o nosso Príncipe, mas caí na armadilha do duende. Agora, ai de mim !, serei devorado assim que amanhecer”.

 

 

A avó contou o que lhes tinha sucedido. Elas sentiam-se muito aflitas, mas elaboraram um plano. Aos primeiros raios do sol, um som de passos e um cheiro nauseante encheram o corredor do lado de fora da cela, anunciando o duende, que vinha pegar a sua presa do dia. Rapidamente, avó e neta cobriram-se com a veste mágica e se tornaram invisíveis, para grande espanto do rapaz. A aparência do duende era a mais horrenda possível “- Vou te devorar !!!”, gritou o monstro, abrindo a grade e caminhando em direção ao Conde. Aproveitando que não podia ser vista, porém, no exato instante em que o duende passou pelas mulheres, a neta o empurrou com força, e ele caiu pesadamente ao chão. Foi o suficiente para que o Conde saltasse por cima do monstro, a avó pegasse o molho de chaves que o duende deixara escapar e os três corressem para fora da cela e trancassem a grade antes que o monstro pudesse reagir.

 

 

Livres, as duas mulheres e o rapaz correram para o jardim. O sol já alto permitiu-lhes divisar a árvore mágica a pouca distância, toda resplandecente com as folhas de prata e os frutos de ouro. Antes que pudessem aproximar-se dela, no entanto, um enorme dragão surgiu de trás do castelo e postou-se entre eles e a árvore, balançando uma enorme cauda e cuspindo fogo pela sua boca aberta. Rapidamente, a avó retirou a pedra mágica do alforje e apontou-a na direção do rosto da fera. Imediatamente, a luz mais forte que já se vira cegou o dragão, que, desorientado, acabou por cuspir fogo em si mesmo, sofrendo uma morte horrível.

 

 

Os três chegaram, enfim, à árvore mágica, mas nova dificuldade os aguardava: ela era muito alta, o tronco era muito liso e não havia como subir para alcançar os frutos. Mais uma vez, a avó lançou mão dos apetrechos do alforje. Amarrou uma pedra em uma das pontas do novelo mágico e mandou que a neta a lançasse com força por sobre um dos galhos. Isto feito, as mulheres seguraram as duas extremidades do fio e o Conde subiu pela corda mágica até alcançar uma das ameixas de ouro.

 

 

Tendo conseguido o fruto mágico, começaram a longa viagem em direção à capital do reino. Ao chegar a noite, ainda estavam na metade do caminho, e resolveram dormir até o dia seguinte em uma clareira da floresta. Quando amanheceu, avó e neta surpreenderam-se ao não ver mais o Conde, que fugira com a ameixa de ouro enquanto elas dormiam. Sentiram-se desconsoladas com aquela traição. Tinham salvado a vida do rapaz e era assim que ele lhes agradecia !

 

 

Seus corações encheram-se de tristeza. Seu cansaço era tão grande que não reuniam mais forças para perseguir o traidor. Foi neste momento que um clarão anunciou a presença da fada protetora: “- Se desistirdes agora”, avisou ela, o Mal triunfará e tereis servido à injustiça e à falsidade. Prossegui vossa viagem ! Não desanimeis, porque tendes a magia mais poderosa, que é a magia da virtude”, desaparecendo novamente. Assim, as duas mulheres retomaram seu caminho. Quando enfim chegaram, encontraram a cidade em festa. Todos haviam sido convocados ao palácio. Avó e neta acompanharam a multidão. Na sacada principal do castelo, o Rei tinha o Conde de um lado e uma serpente em uma jaula, de outro. A neta indignou-se: “- Então, aquele miserável chegou antes de nós”. Pedindo silêncio, o soberano dirigiu-se aos súditos: “- Este é um momento de grande alegria. Graças à coragem do Conde Roustabout”, e abraçou-o pelo ombro, “que venceu perigos inenarráveis com grande astúcia, tenho aqui este fruto, que quebrará a maldição que infelicita meu único filho, o Príncipe Herdeiro”.

 

No instante em que o Rei ia proferir as palavras mágicas que quebrariam o encanto, a avó se adiantou da multidão e gritou: “- Majestade, permiti uma intervenção desta vossa súdita !”. Tirando do alforje o espelho mágico, que ficara esquecido e ainda não tinha sido utilizado, e dirigindo-se ao nobre traidor, disse-lhe: “- O Senhor Conde traz as marcas de sua coragem em seu rosto. Que pelo menos penteie o seu cabelo, para que o Príncipe possa ter uma boa impressão de seu salvador no momento em que retomar sua forma humana”. O Conde inquietou-se pela presença da mulher, mas, julgando que seu plano fora bem sucedido, concordou com este oferecimento. Tomou o espelho e olhou-se. Foi então que uma horrível transformação teve lugar. Assim que se viu no espelho, a jovem e bela figura do cavaleiro real foi substituída pela imagem suja, disforme e monstruosa de sua alma maldosa e doentia. O Rei entendeu imediatamente o que se passara. Mandou prender o monstro impostor e reconheceu a avó e a neta como as verdadeiras salvadoras de seu filho. Para grande alegria da multidão, a horrenda serpente transformou-se em um belo e altivo rapaz, que abraçou seu pai com grande ternura e emoção. Logo em seguida, os olhos do Príncipe encontraram os da neta e eles se apaixonaram instantaneamente.

 

No meio de toda a balbúrdia, um grande clarão ofuscou a vista de todos e de dentro dele surgiu a imagem diáfana da fada da floresta. Dirigiu-se à avó e falou-lhe: “- Agistes com inteligência e coragem. Quebrastes a maldição do jovem Príncipe Herdeiro, desmascarastes o falso herói e trouxestes de novo a alegria para este Reino. Cumprirei, agora, a minha promessa. Satisfarei a três desejos vossos”.

 

A avó olhou em torno. Um belo Duque destacava-se na Guarda Real. Teria seus 20 e poucos anos, belo, viril, corajoso, nobre. Em suma, um ótimo partido, pensou ela. Bastaria pedir à fada que a fizesse ter novamente a idade daquele rapaz. Adeus velhice, adeus vista cansada, adeus reumatismo, adeus noites mal dormidas, adeus solidão. Sim, confirmou, seria esse o seu pedido.

 

Antes de proferi-lo, porém, um lampejo de razão a fulminou: com a juventude recuperada, viveria de novo os tormentos da paixão, as dores do parto, a criação dos filhos, o incômodo sangramento mensal, as disputas com a sogra, os ciúmes das cortesãs... Entendeu que só se pode ser jovem com a ingenuidade da inexperiência, que a juventude com sabedoria é um fardo por demais pesado.

 

Desviou o olhar do Duque, voltou-se para a fada e disparou seus três pedidos: “- Um: quero poder novamente ler e costurar. Dois: quero poções e comprimidos mágicos para curar as dores nas minhas juntas e as minhas insônias. E três: quero que minha neta seja a mulher mais feliz do mundo”. A fada sorriu um sorriso vitorioso: “- Eu sabia que éreis especial. Vossos pedidos estão satisfeitos”. E desapareceu em uma nuvem de luz, deixando em seu lugar os objetos que, séculos mais tarde, seriam chamados de óculos de perto, analgésicos, antiinflamatórios e maracujinas.

 

Sim, a neta e o Príncipe casaram-se e foram muito felizes. O Rei governou de forma justa e caridosa. Após sua morte, seu herdeiro continuou sua obra com sabedoria. E quanto à avó... ela viveu por muitos anos mais, leu todos os livros do reino e, não contente com isso, ainda se tornou exímia escritora.

 

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Conto 6

TÍTULO:

O Menino e o Muro

No dia em que foi fazer matrícula e conhecer a escola que começaria a freqüentar no ano seguinte, o menino encontrou a nova professora. Depois de se apresentarem, a tia continuou puxando conversa, tentando vencer a timidez do futuro aluno.

 

– Quantos anos você tem?

 

– Seis.

 

– E onde você mora?

 

– Lá na casa do vovô.

 

– E como é a casa do vovô?

 

– Tem um muro bem grande.

 

Não falou da sala, da cozinha ou dos quartos. Nem do pátio se lembrou. O que veio à cabeça, em primeiro lugar, foi o muro.

 

Havia mudado no final do ano, 1973, para aquela rua, para aquela casa. No apartamento em que morava, antes, as janelas davam para outras janelas de um prédio alto no centro da cidade. De lá via os carros passando na rua embaixo e via as pessoas da janela em frente. Via-as varrer o chão, sentar no tapete e brincar com as crianças, assistir televisão à noite. Ouvia os sons dos carros que passavam, dos ônibus na parada, as sirenes.

 

Porque a “vida anda muito cara”, como dizia seu pai, foram morar na casa do avô. A mãe era filha única e também queria fazer companhia ao pai viúvo. Ele morava em um bairro afastado. A casa era bem maior que o espaço a que se havia acostumado o menino: o quarto do avô, o quarto dos seus pais, o quarto da irmã menor e o seu.

 

Assim que foi apresentado ao seu quarto, “olha que bonito, meu filho, e que grande”, o menino ficou impressionado com a altura das paredes. Pareciam enormes e o teto, tão alto. Sua cama já estava lá, ao lado da porta. Na parede em frente havia uma janela quadrada de madeira com uma moldura branca e uma cortininha fininha dos lados. Quis abrir a janela pra ver as pessoas, os carros . . . Não havia pessoas do outro lado, não havia carros lá embaixo. Embaixo havia o chão do quintal e em frente um muro. Um muro bem grande, maior que as paredes enormes do seu quarto novo. O muro estava à volta toda do quintal. Ficou ali parado, incomodado. O muro era cinza, era grande, era quieto, era mudo. Parecia um prédio, mas não tinha entrada e não tinha janelas.

 

No fim de semana um tio trouxe um filhote de gato cinza de olhos amarelos. Foi a festa. Todos queriam pegar o bicho no colo, todos queriam fazer cafuné, pegar no pêlo macio. A euforia durou algum tempo e, como é costume, foi diminuindo a medida que os dias de novembro passavam. Nos de dezembro, fazia calor e o menino já se acostumava com a casa nova. Nem lembrava da escola e da professora que conhecera dias antes. Pouco lembrava do gato. Já brincava entre os quartos e o corredor. Só não brincava na sala do vovô, “que não é lugar de criança”.

 

O vovô era grande, maior que o pai. Usava uns óculos redondos numa cara vermelha e uma cabeça brilhante, só com uma bordinha de cabelos grisalhos. Tinha uma voz grave e não ria muito fácil, a não ser quando bagunçava o cabelo do menino sempre que o encontrava. Ele ficava muito tempo em sua sala. Se saía de casa, demorava pouco e logo que voltava, entrava na sala e só saía para almoço, jantar e cama.

 

Uma manhã, o pai e a mãe já haviam ido trabalhar, a irmãzinha ainda dormia e o menino olhava pela janela. Olhava o muro. “Quer ir lá fora?” Disse a voz grossa vinda da porta. Quis. Deu a mão ao avô - a mão enorme era mais macia que esperava – e saíram.

 

No quintal, o menino ressabiado olhava o muro. A medida que chegava perto, o muro parecia crescer. O avô desviou sua atenção: “Isso aqui é um pé de manga bem velho”. A mamãe adorava subir nele quando era criança. Quando era tempo, dava uma manga bem docinha. A outra árvore era de limão galego, tão azedo que travava a língua. Do outro lado era a janela do quarto do menino e aquela outra era a janela da mamãe, que era dela desde que havia nascido. E o menino se espantava a cada informação, a cada revelação dos cantos do quintal e das histórias da mamãe na casa. Ele podia vir ao quintal sempre que quisesse correr ou jogar bola, era só avisar. Logo chegou a mãe e foram almoçar. Depois da sobremesa o avô voltou para sua sala, a mãe deixou o menino na cama para a sesta e foi à cozinha para ajudar com a louça.

 

Lá pelas três horas o menino foi acordado por um miado que vinha do quintal. Pela janela viu o gatinho cinza que tentava subir pelos galhos da mangueira, ao pé do muro. Como não conseguia passar do mais baixo, miava e miava olhando para o alto do muro. Pro alto do muro também olhou o menino, e ficou ali por um bom tempo, curioso.

 

Chegou o natal e a família se reuniu inteira. Eram duas tias e um tio – irmãos do pai, um monte de primos a correr pelos corredores e pelo quintal. Havia sido armada uma árvore de natal. Seu tronco fino era de metal e nele encaixavam-se galhos de arame com umas tirinhas de papel alumínio imitando as folhas de um pinheiro esquisito. Bolas de vidro e lampadinhas coloridas que piscavam enfeitavam a árvore prateada no canto da sala de estar. Próxima ao pé redondo de cimento, vários pacotes de papel colorido deixados pelo Papai Noel para as crianças que se comportavam.

 

À meia-noite, todas as crianças dormiam pelos cantos da casa, mas seus pais foram acordá-las: era hora de abrir os presentes. Bolas e carrinhos para os garotos, bonecas e conjuntos de panelinhas para as meninas. Um embrulho diferente foi entregue ao menino. Era achatado demais para uma bola ou para um carrinho. Rasgou o papel vermelho e ficou olhando o presente, surpreso. A frente era de um papel brilhante com figuras coloridas. A cada página do livrinho aberto, os desenhos mais bonitos que tinha visto. Folheou e refolheou até que o sono venceu a curiosidade e excitação. O avô, sentado na poltrona alta de veludo vermelho sorriu satisfeito.

 

Na semana seguinte, entre uma brincadeira e outra, o menino pegava o livrinho. Já conhecia a história, que a mãe contara várias vezes. Na quinta-feira, o avô chegou com outro embrulho vermelho, dizendo “Seu presente de natal era muito grande. Papai Noel vai ter que mandar aos pouquinhos.” – “Você conta pra mim, vovô?” e passaram o restinho da tarde na poltrona de veludo vermelho a ler e reler os livrinhos.

 

Os meses foram passando, a escola era muito legal, a tia da escola também. Papai Noel continuava a mandar pelo avô as prestações quinzenais do presente de natal, que logo eram desfrutadas. A medida que ia reconhecendo as letras e as palavras e as frases nos livrinhos, passava a saboreá-los de maneira diferente. “Esse aqui é o rato, vovô” dizia orgulhoso.

 

Chegaram as férias de fim de ano. Era a primeira quinta-feira de dezembro. O menino acordou bem cedo na expectativa da chegada do novo livrinho. Queria mostrar o quanto era esperto, como já sabia ler – a professora o tinha elogiado no último dia de aula. Depois do café-da-manhã procurou sua coleção. Não estava no lugar! Perguntou à cozinheira, perguntou ao pai, à mãe, ninguém sabia onde estava.

 

O avô chegou da rua com o pacote vermelho. “Vovô, meus livrinhos! Eles sumiram!” “Calma, meu filho, pra tudo tem jeito.”Pegou sua mão e andaram pelo corredor até o final. Pararam em frente à porta da sala. Ele olhou o menino, sério. Abriu a porta lentamente. O coração do menino disparou, era a primeira vez que ia entrar na sala do vovô. Era uma sala maior que seu quarto. Tinha estantes até o teto. Em cada prateleira havia filas de livros de todos os tamanhos, uns finos, outros grossos, uns com capas de papel, outros com capas de couro, uns pretos, uns vermelhos, brancos . . . no centro da sala, uma mesa com uma luminária e uma poltrona de veludo vermelho já meio gasto, igual à da sala de estar. Ao lado da mesa havia uma mesinha, como as que conhecia da escola e uma poltroninha de veludo vermelho, metade da outra. “Era da mamãe na sua idade.”

 

O avô levou o menino até o canto e apontou para a prateleira mais baixa. Estava quase vazia. “Os meus livrinhos!” estavam todos ali. E recebeu o embrulho vermelho. “Pode colocar na sua prateleira.” “Agora essa é a sala do vovô e do netinho”, disse com sua voz grossa e com um sorriso largo, como o que fazia quando bagunçava os seus cabelos.

 

Lá fora, o gatinho cinza estava em cima do muro, olhando o longe.

 

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Conto 7

Orlando, Agudelo-Botero

TÍTULO:

Heliotrópio

Naquele verão, alguma coisa ia acontecer, pois as roseiras e as zínias compuseram um odoroso arco-íris no jardim da mansão, escorrendo como um rio de cores, e nas tórridas noites daquele julho amazônico, os jasmineiros espalhavam seu perfume embriagador por toda a propriedade. Além do jardim e da casa, um rio de verdade movia-se no silêncio morno. Beija-flores, borboletas, libélulas, abelhas, besouros, a brisa, vivificavam o pequeno planeta, que cochilava à sombra das árvores e da tarde. Uma jovem dormitava na cadeira de cipó-titica, atada a uma perna-manca da varanda que se debruçava para o rio. Sua pele lembrava cristal e via-se-lhe as veias, azuis, no dorso das mãos, nos braços e nas pernas. De algum ponto da casa fluía, quase em sussurros, o segundo movimento do Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart.

 

A jovem, que se chamava Heliotrópio, recostara sua cabeça, calva, sobre pequena almofada. Completara, às 7 horas daquele dia, 21 anos. Vivera sempre cercada no mais esplendoroso luxo, mas não sabia sequer rir. Sua mãe morreu ao lhe dar à luz e tinha três anos quando o avião em que seu pai viajava explodiu. Apesar do amor dos avós, sonhara todos aqueles anos com sua mãe abraçando-a e beijando-a, e guardava, no relicário do seu coração, o calor do abraço do seu pai ao se despedir naquele dia fatal. Agora, que ia morrer, pedira, com toda a sua fé, à Fada Azul, para sentir o abraço da sua mãe e do seu pai. O câncer que a consumia espalhava-se pelo seu corpo, enraizando-se, nutrindo-se, exaurindo-a. Sentia sua natureza de parasita crescendo, lançando tentáculos, calcando ventosas, sugando seu sangue.

 

O que a movia, o que a vivificava, era uma jóia que guardava num lugar que nenhum câncer poderia contaminar – depositara a jóia no éter. Seu pai lhe ensinara que o éter, que tudo preenche, é Deus. À noite, antes de dormir, seu pai lia, sempre, um conto, e, à medida que ia lendo, mostrava-lhe as ilustrações. Foi assim que conheceu a Fada Azul, que tudo podia, pois era feita de amor, do amor mais azul – como o anoitecer, como o mar profundo e sereno. Relera aqueles livros toda a vida; eram eles que alimentavam sua alma, davam-lhe forças para esperar. A Fada Azul, pois, se tornou sua companhia mais constante.

 

Ouvia a voz do pai, rica em tonalidades, como uma melodia que fizesse parte do seu próprio ouvido; quando estava para adormecer, sentia o beijo do pai e seu perfume, e sua mão acariciando-a levemente. Foram três anos mágicos. Agora, completara 21 anos, às 7 horas da manhã. Às 13 horas, estava tudo terminado, o testamento, tudo.

 

Legara ao Lar do Pequeno Príncipe, que ela mesma criou, uma fortuna. O Lar do Pequeno Príncipe era uma fundação para crianças órfãs, cancerosas, cegas, mudas, surdas, paraplégicas, tetraplégicas, aidéticas, esquizofrênicas, catatônicas, crianças que ninguém queria, que despertavam nojo, atiradas à sarjeta. “Deus arrumará a manhã para as crianças brincarem, e haverá de encher a manhã de rosas e de borboletas, e a manhã durará a eternidade da primavera” – pensou, ao inaugurar o Lar do Pequeno Príncipe, que já contava, então, com 49 crianças; a maioria delas só necessitava de pouco tempo na Terra, por isso eram as mais incompletas fisicamente.

 

- Fada Azul, sei que vou morrer, mas quero ver minha mãe e quero que ela me abrace, e quero sentir também meu pai me abraçando, é só o que peço, Fada Azul – a jovem murmurou.

 

- Ninguém morre – disse Fada Azul. – Seus pais a aguardam no jardim, junto à fonte.

 

Heliotrópio sorriu pela primeira vez, desde o último abraço do seu pai, e saiu correndo para a fonte. Tinha, de novo, três anos, o vestido branco esvoaçando, as tranças voando, o riso. Papai e mamãe estavam mesmo na fonte, esperando-a de braços abertos. Sentiu os braços vivificantes da mãe e os braços fortes do pai, e ouviu o próprio riso, como o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart.

 

Acordou. O concerto estava no terceiro movimento. O riso jorrou como erupção e inundou o éter. A jovem desceu num salto da cadeira e entrou correndo na casa.

 

No dia seguinte, o chefe da equipe médica, oncologista de renome mundial, passou o dia de queixo caído. A bateria de exames só teve um resultado: negativo. E mais, soube que a cura se dera por meio de um abraço.

 

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Conto 8

TÍTULO:

Pirata

Muito tempo atrás, numa cidade cujo nome não me vem à memória, vivia um menininho que morava com os seus pais, sua irmã e seu irmão numa casa com um jardim na frente e um quintal nos fundos. No quintal havia uma mangueira, embaixo da qual ficava um caixote de madeira com um telhadinho também de madeira, que fazia as vezes de abrigo para um cachorrinho miúdo, mas não tão esperto como o menino. Pertencia a uma raça indefinida. A cor, também indefinida, pendia para um castanho meio pardacento; tinha as pernas curtas e caminhava com a barriga quase se encostando no chão. Uma mancha preta em volta do olho esquerdo lhe valera o nome de Pirata. Ao olhar para alguém, com o focinho sempre úmido e as orelhas caídas ao lado dos olhos estrábicos, fazia com que a pessoa invariavelmente esboçasse um sorriso de simpatia ou até uma risada; quase nunca um riso de escárnio. Todos da casa tinham alguma afeição por Pirata, porém, mais do que todos, era o menino quem mais se afeiçoava a ele.

Pirata aparecera na casa no mesmo dia em que o menino nasceu, ocasião em que seu irmão surgiu com um filhote minúsculo e indefeso, e, aproveitando-se da alegria de todos com o nascimento do irmãozinho, acabou convencendo o pai, e, principalmente, a mãe, a ficarem com o cachorrinho. Foi assim que, simultaneamente, o cachorro e o menininho passaram a fazer parte da família.

Com o passar do tempo, o irmão mais velho arranjou outras brincadeiras, e o menininho é que terminou ficando com Pirata. O irmão vivia caçoando deles, dizendo que o menininho era irmão gêmeo do cachorro. Quando a mãe estava por perto, a irmã se comportava, chegando até a ralhar com o irmão zombeteiro. Mas era só a mãe dar as costas, para ela fazer coro com o irmão mais velho, indo mesmo além das pilhérias costumeiras. Dizia ao irmão mais novo que ele era pulguento e que ia acabar vesgo e arrastando a barriga no chão igual ao cachorro. No começo, o menino chorava, mas como estivesse já com sete anos, não ligava mais para o que os irmãos diziam. Brincava com Pirata o dia inteiro. Ficava horas e horas conversando com o cachorro sonolento ao lado da casinha. Algumas vezes subia na mangueira e pedia para a mãe lhe dar o cachorro; chegava a ficar uma tarde inteira encarapitado num galho, acariciando o animalzinho. Outras vezes rolavam os dois na areia e ficavam imundos, para desespero da mãe. Mesmo com toda essa agitação, Pirata passava a maior parte do tempo dormindo. De vez em quando o canto de um passarinho ou a buzina de um automóvel faziam-no erguer uma orelha ou abrir um olho, mas logo tornava a cochilar de novo.

Aos domingos, quando iam almoçar na casa do avô, era sempre a mesma ladainha; porém, no final, todos acabavam cedendo, pois era impossível convencer o menino a não levar o cachorro.

— Pra que é que serve um cachorro que só faz dormir? Dizia o pai.

— E que ainda vive sujando a roupa do menino! Completava a mãe.

Depois do almoço, o avô costumava dar um passeio pela vizinhança, e sempre convidava os netos para irem tomar um picolé. Ou Pirata ia com eles, ou o menininho também não ia. Não dava outra: o Pirata sempre ia junto. Atravessavam algumas ruas e avenidas, antes de chegarem ao parque, onde ficava a sorveteria. O menininho sabia muita coisa sobre a cidade, como, por exemplo, que as ruas eram pavimentadas com paralelepípedos, e as avenidas, com asfalto. Ao atravessarem as avenidas nos dias muito quentes, o menino carregava Pirata no colo, pois o asfalto se derretia, e, como todos os cachorros daquele tempo, ele não usava sapatos. Além do asfalto, outra coisa que só havia nas avenidas eram os ônibus. Uns eram antigos, fumacentos e barulhentos, com o motor na frente, e outros, modernos e menos ruidosos, tinham o motor atrás e a frente achatada. Quando atravessavam as avenidas, o menino sempre explicava pacientemente ao cachorro que os ônibus nasciam com cores brilhantes e com a cara chata, mas que depois iam envelhecendo e ficando amarelos e narigudos. Chegavam ao parque, tomavam picolé de groselha e voltavam para a casa do avô, onde a avó e os pais os esperavam com uma sopa quentinha. Depois da sopa, despediam-se dos avós, entravam no automóvel, e o menininho chegava em casa quase sempre dormindo. Pirata, sempre.

Durante o passeio num domingo, de repente, assim sem mais nem menos, o cachorro inventou de sair correndo atrás de um ônibus vermelho. Com o coração na mão, todos viram outro ônibus, dos narigudos, que vinha no sentido contrário, passar por cima de Pirata. Quando o ônibus dobrou a esquina, o danado já estava na calçada, no outro lado da rua, com a língua de fora e balançando o rabo, vivíssimo. Ele havia passado por entre as rodas do ônibus, sem se machucar nem um pouco. Nunca se soube o que é que deu nele; foi a única vez em que Pirata agiu dessa maneira. “Que susto!”, exclamou o avô. Quando voltaram para casa, o irmão mais velho disse que Pirata poderia ter morrido se o ônibus fosse daqueles novos, com cara de japonês. “Que sorte!”, exclamaram os avós e os pais. “Que nada!”, pensou o menininho, que sabia que nada de mal poderia acontecer com Pirata. Nem com ele, nem com seus irmãos, com seus pais ou com seus avós.

Pouco tempo depois, muita coisa começou a mudar na vida do menino. Primeiro foi o asfaltamento da rua em frente a sua casa. E mais estranho ainda foi o fato de ter continuado a se chamar rua. Outra coisa espantosa que aconteceu foi a avó ter servido arroz, feijão, ovo frito, salada de tomate e bife acebolado no lugar da sopa, na volta do parque. “Então se pode almoçar no horário do jantar”, concluiu o menininho. A sorveteria também passou a fazer sorvete de casquinha no lugar dos picolés de groselha. Ele também notou que via cada vez menos ônibus narigudos. “Será que os ônibus morrem quando ficam velhos, assim como as plantas?”, perguntou para si mesmo, sem coragem de perguntar para os outros.

Uma manhã, Pirata amanheceu com os olhos tristes, dos quais escorria um líquido amarelado. Passou o dia amuado, sem comer nem beber. Como sempre, dormiu bastante, mas era um sono agitado, mordia o ar e arfava de maneira desritmada. No passeio do domingo, o menino teve de carregá-lo no colo durante todo o trajeto. Chegando de volta ao quintal, não quis comer, arrastou-se lentamente até a casinha debaixo da mangueira e dormiu.

No dia seguinte, estava esquálido, com os olhos opacos e a língua pendente como as orelhas. O menino levou-lhe uma tigela com comida, mas ele continuava a recusar qualquer refeição. O menino acariciou-lhe a cabeça e colocou uma cuia com água em frente a sua boca. Pirata esticou o pescoço, deu umas três lambidas na água, e olhou para o menino com seus olhos estrábicos e amarelos, como se estivesse agradecendo. Depois recostou a cabeça no chão, olhou mais uma vez para o menino e fechou os olhos.

O pai enrolou Pirata em um saco de café, cavou um buraco no lugar onde ficava a casinha e o enterrou. Da janela da cozinha, o menino chorava baixinho, mas copiosamente. Naquela noite, ele revirava-se na cama e não conseguia parar de pensar em Pirata. Sentiu um caroço na garganta e um amargor na língua. Por que ele teria morrido? Sentia muita pena e muita saudade daquele cachorro que passara a maior parte da vida dormindo.

Passou a pensar nos irmãozinhos, na mamãe, no papai, na vovó e no vovô. Sentia um buraco no estômago e tudo parecia girar vertiginosamente. Sentia a língua enorme, quase não cabendo na boca, e começou a escorrer um suor frio pelo pescoço. Olhou para a cama do lado e viu seu irmão dormindo como uma pedra. Sentiu a garganta secar, esticou a mão e pegou a moringa com água sobre o criado-mudo; tomou um gole, levantou-se e saiu corredor afora. No outro quarto, sua irmã também dormia a sono solto. Pé ante pé, caminhou até a porta da sala, onde viu, sem ser visto, a mãe passando roupa e o pai lendo jornal. Ficou alguns momentos vendo os dois, e voltou para o quarto. Deitou-se na cama e cobriu-se, pois estava um pouco frio. Pensou novamente na família e em si mesmo. Disse baixinho “ainda falta muito tempo”, virou-se para o outro lado e dormiu um sono sem sonhos até o dia seguinte.

***

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Conto 9

TÍTULO:

Uma Vela No Dia Das Crianças

Por coincidência, esta semana, achei no fundo de uma gaveta, junto com uns papéis antigos, esta redação.

Não tive como não lembrar. Foi no dia das crianças, nem sei bem de que ano. Minhas três sobrinhas: Giulia, Luana e Luísa, foram passar o feriado lá em casa. Estava anoitecendo, começou a chover e -catástrofe- faltou luz.

Sem televisão nem videogame, acendi uma vela na sala e disse pro meu filho: “Mateus, conta uma historinha pras suas priminhas”

Qual foi nossa surpresa, quando elas gritaram: “Êbaa!”

Deitei-me no sofá, e ele disse:

- Vou ler uma redação que a professora mandou fazer, falando de um amigo:

Na minha turma, tinha um coleguinha chamado Robson. Ele era muito legal. Era meu melhor amigo. A gente jogava bola no recreio. Ele era bom de bola e eu sempre escolhia ele para o meu time. Eu não era bom, mas ele me escolhia assim mesmo. Não disse que ele era legal?

Ele era um negrinho muito engraçado. Quando chamavam ele de preto, dizia que a mãe também era e todo mundo na família dele e que gostava de parecer com a mãe. Não queria parecer era com a mãe de quem chamava..

Quando a gente soltava pipa, era o Robinho que pegava mais pipa voada. Quando jogava bolinha de gude, ele era o fino e quando um esquecia de fazer o dever de casa, o outro ajudava. A gente não brigava nunca.

Quando minha mãe botava iogurte natural no meu lanche, ele me dava um pedaço de sanduíche e a gente dava o iogurte pro Meleca que nunca trazia lanche. Acho que a mãe dele não tinha dinheiro pra comprar. O uniforme dele tava sempre sujo e rasgado, coitado do Meleca, era o mais pobre da sala, mas nem ligava.

A mãe do Robinho também não tinha muito dinheiro porque era separada. Diziam que o pai dele vivia bebendo cachaça e cerveja e não trabalhava, então ela mandou ele embora, agora tinha que pagar tudo sozinha.

O Robinho dizia que achava bom ele ter sumido, porque quando o pai ficava bêbado, queria bater nele e na mãe dele. Mas eu não acreditava muito quando ele dizia isto, porque acho que ele ficava um pouco triste.

A mãe dele, a tia Rosana, trabalhava muito. Ela era auxiliar de enfermagem. Eu não sabia o que era isso, ele me explicava que ela fazia curativo e dava injeção. No começo eu tinha medo dela, depois passou. Ela era boazinha, alegre e brincava comigo quando eu ia na casa dele. Fazia pipoca e deixava a gente ficar vendo desenho até quase de noite. Aí ela falava para eu ir pra minha casa que minha mãe devia estar preocupada.

A casa era pequena. Ela deixava tudo limpinho e arrumado, ele ajudava e não fazia bagunça. Não jogava nem um papelzinho de bala no chão. Uma vez eu joguei e ele não brigou. Só pegou e jogou no lixo, então eu aprendi e não joguei mais, só que às vezes eu esqueço, aí minha mãe dá bronca em mim e na minha irmã que joga muito mais. Minha mãe chama ela de porca e eu acho graça. Nunca vi porco jogar papel no chão do chiqueiro.

No natal, tia Rosana deu para ele uma bicicleta. Ela disse que foi o Papai Noel que mandou. Acho que esqueceu que a gente já tem sete anos e não acredita mais em Papai Noel, mas a gente não falou nada para ela não ficar chateada. Ele ouviu ela falando pra tia Bete que ia pagar 24 prestações. Meu pai falou que mesmo somando meus anos, com os da minha irmã e com os do Robinho, ainda não dá 24. O Robinho ficou com pena porque ela trabalha muito pra ganhar o dinheiro e prometeu não fazer malcriação, mas nem precisava, porque ele já não fazia mesmo.

Um dia, o tio dele que trabalhava na oficina, deu para ele umas rodinhas de ferro chamadas rolamento. Como ele era muito esperto, fez um skate maneiro, depois fez um desenho do homem aranha que ele sabia desenhar mas não tinha tinta pra pintar, mas ficou bonito assim mesmo. O cara era fera! Ele não deixava ninguém andar, só eu; mas eu não andava muito porque caía logo e ralava o cotovelo e rasgava o joelho da calça do uniforme.

Minha mãe ficava brava e dizia que não ia comprar outra, que eu ia ter que ficar de calça rasgada até o fim do ano, mas logo logo ela comprava outra. Acho que toda mãe é assim.

Só vi o Robinho um pouco triste uma vez. Foi logo depois que ele fez o skate e tava brincando na rua. Apareceu o Pedrinho com um skate novinho. O pai dele comprou no shopping e ele foi logo se exibir. Era todo metido porque o pai dele era gerente e comprava presentes caros para ele.

Então o Robinho foi pedir um igual para a mãe. Aí ela disse que o dele era muito melhor do que o do Pedrinho porque foi ele mesmo que fez e, se aquele quebrasse, ele sabia consertar e sabia até fazer outro maior ou menor e escolher o desenho que ele quisesse e que o Pedrinho tinha que gostar do skate do jeito que o pai dele escolheu e, se quebrasse, ele tinha que pedir outro porque não sabia fazer.

Eu achei a mãe dele muito sabida e o Robinho também. No sábado, ele saiu todo orgulhoso com o skate do homem aranha, mas não falou nada com o Pedrinho, para não humilhar o coitado.

Ele era um cara legal mesmo”.

Apesar do entusiasmo dele, as meninas cochilavam.

- Meu filho teve leucemia e morreu há quase dez anos. Não sei como isto foi parar na minha gaveta, mas acho que devo mostrar ao Robinho, que ainda mora aqui perto, é enfermeiro e continua sendo um cara legal.

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Conto 10

TÍTULO:

A Espada de Ashalow

Vista assim, de tão perto, a fortaleza de GrandsLand lhe parece ainda mais fascinante do que imaginava quando ouvia as lendas. Conhece de cor todas as histórias sobre aquele castelo. Preso a uma encosta do monte Vonóvio, possui grandes muralhas e já abrigou reis, princesas e nobres.

Das histórias que ouviu, uma das que mais gosta é a que fala do vale em torno da fortificação, um vale muito verde que acomoda um sem-número de espécies de plantas e arbustos, principalmente algumas centenas de pés de quaderpiranga, uma frutinha cor-de-abóbora, que tem forma quase de meia lua, mas que não é cilíndrica como seria o usual, e sim formada por quatro faces dispostas pela natureza em ângulo reto, cada uma com largura de cerca de 1,5 centímetro, resultando, quando cortada em fatias, não em rodelas, mas em divertidos cubinhos com as sementes à mostra, que fazem lembrar os pontinhos inscritos nas faces de um dado de marfim abóbora.

Diz a lenda que a quaderpiranga, de sabor muito doce, cresce somente nas encostas daquele reino de clima tropical e relevo quase tão montanhoso quanto o de Minas Gerais.

Naquele castelo, agora diante de seus olhos, em outros tempos gloriosos seus ancestrais enfrentaram grandes batalhas, tão grandes ou maiores do que aquela que ele está prestes a enfrentar.

Viajou léguas e léguas para chegar até aquele momento, em uma jornada que lhe pareceu interminável. A ansiedade é quase incontida. No peito, o coração palpita. Desde sempre se preparara para aquela ocasião, e sempre lhe fora dito: não se afobe, não se precipite, um dia chegará a hora de sua batalha.

Uma coisa, porém, é você estar longe, na tranqüilidade do seu reino, e ouvir contar histórias sobre o grande feiticeiro de longas barbas brancas. A outra é você estar ali, no portão do castelo, prestes a enfrentá-lo.

 Prepare-se para morrer, viajante invasor! – grita o mago feiticeiro, encarapitado na torre de vigia.

Da sela de seu cavalo branco, o cavaleiro olha para o alto da torre e empunha sua lança, em sinal de que não teme o inimigo. O castelo é só mais um obstáculo a ser vencido. Já enfrentou tempestades, raios, trovões, tudo, somente para chegar até ali, e nada, absolutamente nada vai impedi-lo de alcançar seu objetivo: apossar-se do tesouro que fora de seu pai, e que lhe pertence por direito.

Longe de assustá-lo, a provocação do inimigo parece revigorar da penosa viagem o bravo cavaleiro, que salta do cavalo e se prepara para invadir a fortaleza:

 Você é quem vai morrer, seu feiticeiro malvado!

Mal completa a ameaça e o portão se abre, mas quem vem ao seu encontro não é o mago, e sim um guerreiro lutador em quem o frágil feiticeiro se transformou. Surpreendido, o cavaleiro titubeia. O guerreiro aproveita-se desse momento de relutância e fraqueza do oponente, toma-lhe a lança e a atira no fosso. A luta agora é corporal, de mãos nuas. Tensão e suspense; olho no olho os dois adversários se estudam. Em movimento simultâneo, avançam um sobre o outro, atracam-se e rolam pelo gramado localizado na frente do pátio do castelo. Um combate mortal se anuncia. Só um dos contendores sairá dali vivo. Por ora, ninguém da assistência é capaz de dizer quem vencerá a grande batalha.

Ouve-se uma algazarra de vozes infantis. Sons metálicos. Também um burburinho mais ao longe. Cães ladram. Não há reinos verdadeiramente completos sem cães.

A luta prossegue, um tanto quanto desigual. Cansado da longa viagem, o cavaleiro sente que está quase sendo derrotado pelo guerreiro. Em vão procura por socorro. Não há ajuda em seu redor. Está só no campo de batalha. Se soubesse de quem era aquela frase famosa, também ele a diria: meu reino por um cavalo! Mas não a conhece. Nenhum rei será capaz de salvá-lo das mãos do guerreiro.

Sem que ele se dê conta, há dois importantes olhos atentos à disputa. Da janela da torre, a fada de cabelos brancos como a neve percebe a aflição no rosto do cavaleiro e joga-lhe a espada de Ashalow:

 Toma esta espada mágica, nobre cavaleiro, e acaba com esse feiticeiro embusteiro. Recebeste a mensagem em que te ensinei a acionar os raios cósmicos?

 

Lançada do alto, a espada prateada com o punho cravejado de ouro e pedras preciosas cruza o céu, descrevendo um arco sobre a cabeça do mago, indo parar firmemente segura nas mãos do cavaleiro.

O mago, então, volta o olhar em direção à fada e sorri, mas o cavaleiro interpreta esse sorriso como se nele houvesse ironia.

Alguns diriam que não é ironia, mas um riso de nervoso, pois sabe o mago que aquela ajuda é mortal para ele. Que decidirá a batalha. É claro que o cavaleiro conhece os segredos sobre como acionar os raios cósmicos! - pensa ele. Embora tenha conhecimento de que ele ainda não havia experimentado a espada de Ashalow, que será aquela a sua estréia, percebe o mago que, mesmo de longe, o viajante aprendera a manejá-la, graças à fada.

Lembra-se, como em um “flashback”, das mensagens trocadas entre os dois, e se recorda que não dera a devida importância na ocasião. Agora se arrepende. É o “siboleth” que revela sua inferioridade, palavra que, segundo a Bíblia, os soldados utilizavam para identificar e barrar seus inimigos, reconhecidos por não saberem pronunciá-la corretamente, “shiboleth”, pois diziam “siboleth”.

Pode-se ver em seu rosto que é chegada a hora de o cavaleiro vencer a batalha. O lendário feiticeiro sente o peso do trunfo do inimigo sobre sua cabeça.

O cavaleiro, ao contrário, espírito renovado pela ajuda da fada, soergue-se, peito inflado, aponta a espada para o guerreiro e aciona, então, os raios cósmicos. Um luzido avermelhado percorre o corpo do oponente. Ele se contorce e pressente a hora do crepúsculo. Cai no gramado, sobre os joelhos. A mão no peito a sentir os efeitos dos raios mortais. Tudo estará perdido? O tesouro, os segredos do pai? Entregará tudo ao cavaleiro?

O combate aproxima-se do fim, estando ambos exaustos; o guerreiro, deitado sobre a grama, e o cavaleiro em pé, já de posse da famosa capa negra do feiticeiro, prestes a derrotá-lo definitivamente. Eis que surge, então, no campo de batalha, a outra fada, vinda do reino do cavaleiro, e lança sobre eles, com voz doce e suave, a magia definitiva, que os aprisiona:

Papaai! Não faça isso! Você não tem mais idade para essas brincadeiras.........Filho, cuidado para não machucar o vovô.......Oi, mamãe!

 Oi, filha! Fizeram boa viagem? Que bom que vieram!.......Esta casa ganha vida nova quando vocês chegam. Feliz Dia das Crianças!!

JURADO

NOTA

COMENTÁRIO

Marco Antunes

 

 

Cida Sepúlveda

 

 

Liana Ferreira

 

 

Cristiane Brum

 

 

Luci Afonso

 

 

Total

 

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Conto 11

TÍTULO:

A Assembléia das Chaves

- Eu fecho, eu fecho, me deixa fechar, deixa!!!! – uma vozinha afinada e insistente chama a atenção da Assembléia das Chaves.

 

Interessados em descobrir a dona de tanto berreiro, as outras chaves se viram procurando de onde partiu tanta euforia.

 

- Eu...aqui...eu fecho!

 

Ah, lá está! No fundo, à esquerda de quem entra. Sentadinha ao lado da Chave de Parafuso. Uma chavinha comum dessas, douradinha, gritando como se fosse uma Allen!

 

- Cala a boca, pequena! Coloque-se no seu lugar!

- É isso mesmo, calada!

- Vamos fazer silêncio aí, criança! – esgoela uma Chave Inglesa esnobe.

 

O alvoroço é intenso. A Chave Mestra, que preside a Assembléia desde que a Chave do Paraíso se aposentou, decide intervir com urgência no desvario das insensatas.

 

- Ordem! Ordem! Eu vou mandar evacuar o recinto! Vou mandar chamar as Chaves de Armário e trancar todas vocês, suas tagarelas!

 

De supetão, o clamor se desfaz. Um ou outro “Oh!” se escuta no ambiente, mas logo o silêncio impõe-se absoluto. Nem um tilintar sequer! As Chaves de Armário são terríveis! Bloqueiam a passagem, recolhem e aprisionam tudo em lugares escuros...Ui!!! Quem não respeita uma Chave de Armário??

 

- Como é isso, frágil pequenina?!? Você acredita mesmo que com esse corpinho frágil pode fechar o Portão dos Acontecimentos?

 

Risadas disfarçadas, muxoxos, deboches em sussurro se esparramam entre as presentes.

 

- Posso. Eu posso sim!

- Não, pequenina, eu agradeço a sua boa intenção, mas como foi ontem à noite que as Sete Chaves esqueceram de trancar o Porta, eu não sei ainda que conseqüências isso provocou. Não posso mandar ninguém lá pra fechar, por enquanto, porque é perigoso; nem elas. Além do mais, como é que pode uma pobre chavinha querer cumprir uma tarefa tão grande? O Portão dos Acontecimentos é majestoso, imenso, misterioso...É lá que tudo começa para todo o mundo. Desista!

 

Nesse instante, desavisada do solene puxão de orelhas da Chave Mestra na desconhecida chavinha dourada, entra correndo pela nave central a Chave Tetra, representante da Liga Antifurtos. Contorcida e rechonchuda, tropeça no tapete e cai de boca ao pé de uma Chave de Luz idosa e endurecida.

 

- Desculpe, desculpe mesmo! – enfrenta a cara feia da outra – É que a situação está crítica... Senhora presidente, prepare-se para um grande problema!

 

Inquietação geral novamente! A linhagem das Tetras é confiável, elas são seguras de si, não fazem alarde à-toa. O que aconteceu?!? E a ansiedade se espalha da primeira até a última fila dos assentos-fechadura, provocando um ruído ensurdecedor de “racs-racs e “locks-locks.

 

- A Chave de Cadeia aproveitou que o Portão dormiu aberto e promoveu uma fuga em massa dos Maçaricos que estavam presos na Ilha dos Cofres!! Escaparam muitos deles, os piores elementos do fogo organizado! Ai que azar, senhora presidente!

- Azar? Uma tragédia, isso sim! Aquela bandida vulgar e espertalhona – diz a Chave Mestra.

- Deve ter ganhado muito com isso! Eu dou um aperto nela e ela fala... – desespera-se a Chave de Braço.

- Isso é mais que tragédia, é uma desdita, uma verdadeira catástrofe! Decerto que eles virão atrás de nós – lamenta-se uma Palavra-Chave pernóstica - Vamos ser derretidas, desmanchadas, consumidas pelas chamas...

- Cheeeeega! - enfeza-se a Chave Mestra Relate, Tetra, relate tudo!

- As Chaves de Armário estavam no seu turno regular e havia ainda um pelotão de Chaves de Perna fazendo a vigilância, mas ninguém sabia que o Portão estava aberto...

- Descuido!

- Não, não, senhora! A Chave de Cadeia raptou uma Chave de Dados e obrigou a coitadinha a decodificar os números da fechadura do presídio! Um horror...

 

Dessa vez, é difícil calar a platéia ensandecida pelo medo dos lança-chamas implacáveis. As chaves se levantam, sentam, rodam em seus assentos-fechadura, tremem, pensam em fugir. Espalha-se o medo.

 

Uma coisa dessas proporções é mesmo motivo para pânico. As conseqüências de um universo sem chaves, quais seriam? Portas sem abrir, diários lacrados para sempre, jogos sem solução, falta de eletricidade, carros com rodas frouxas, parafusos desajustados...Santos Segredos, seria o fim do universo livre!

 

-         Uma terra todinha queimada! – diz uma Yale da Liga Tradicionalista, como se pudesse resumir os pensamentos das demais.

- Vamos parar de lamúrias! Temos que deliberar! – convoca a presidente.

 

As chaves se reúnem circunspectas em suas respectivas ligas e discutem soluções que vão do ataque à defesa. Batem-se umas contra as outras, andam, agrupam-se, dissolvem os aglomerados, saem, entram, até que, finalmente, a Informação-Chave pede a palavra.

 

- Deliberamos e decidimos, senhora presidente.

- E...??

- Parceiros.

- Como?!?

- Temos que pedir ajuda aos parceiros, senhora.

- E quem são esses parceiros tão poderosos?

- A Comunidade das Portas e Portões, e o Sindicato das Chaves de Luz. O sindicato vai desligar toda a energia local, enquanto que a comunidade, com a ajuda de chaves diversas, vai instalar portas e portões intransponíveis ao redor da cidade. É essencial que cada instalação receba a visita das Sete Chaves, com urgência.

- Vou mandar uma Chave de Memória acompanhar as irmãs agora mesmo. Não dá pra confiar nessas esquecidas! – apressa-se a presidente.

- Tem mais; importantíssimo! Já que estamos online com todos os universos, a Liga das Chaves das Caixas de Correio Eletrônico vai enviar correspondência ao Universo dos Inflamáveis dentro de alguns minutos, informando sobre a rebelião dos Maçaricos e pedindo que seja interrompido de imediato o envio de óleos combustíveis para cá. Sem combustível, sem fogo. Embargo já!

 

- E estamos esperando o quê? Chaves à obra!

 

O alvoroço recomeça, mas, agora, cada chave está mais confiante. As gêmeas, Chave Bifásica e Chave Bipolar, não cabem em si de contentes, porque a solução dos conflitos dependerá da sua família elétrica. A Chave de Casa reza pelas portas e portões que fazem o cerco à cidade. E a Chave Mestra se pergunta se não é melhor ir dar uma ajudinha na periferia, na qualidade de Presidente da Assembléia das Chaves.

 

O plano mostra-se bem sucedido. As notícias estão chegando, comprovando que tudo está dando certo. Os desalmados Maçaricos não conseguem entrar na cidade e, um a um, estão sendo destruídos pela estratégia da falta de óleo prevista pela Organização dos Parceiros – fundada no último minuto para evitar vaidades e desavenças. A Chave de Cadeia foi capturada e emparedada pelo serviço secreto dos Molhos de Chaves de Armário e seu julgamento será marcado para depois que as coisas se acalmarem.

 

Em meio a tantas notícias picadas, chega a boa nova:

 

- Os Maçaricos foram aniquilados! Sem fôlego, sem óleo combustível, eles tombaram inertes na periferia da cidade!

- Urra! Urra! – grita a turba enlouquecida.

- Viva a Organização dos Parceiros!

- Viva!!!!

- Viva a Assembl.....

- Parem! Parem agora! – soa em tom menor o comando de uma Chave de Armário que entra apavorada.

- O que houve?!? – pergunta a presidente.

- Um Maçarico escapou do cerco e se aproxima da cidade!

Ohhhh! – exclamam vozes amedrontadas – Como foi que isso aconteceu???????

- Tomou por refém um cofre indestrutível e se trancou dentro dele. Está gritando lá de dentro que não adianta a Chave Mestra tentar abrir o cofre, porque não tem fechadura. E que só ele sabe o segredo!

-         Estamos perdidas! Não sabemos o segredo para entrar e não há nada que destrua esse cofre! Quando esse Maçarico abrir a porta, vai sair cuspindo fogo e liquidar todas nós!– diz, aos prantos, uma Chave de Carro.

- Estamos perdidas, perdidas !!! – ecoam todas.

 

Então, em meio ao caos do extermínio iminente, uma vozinha afinada se repete:

 

- Eu fecho, eu fecho, me deixa fechar, deixa!!! Eu fui feita para abrir e fechar melhor do ninguém!

- Maluca! Fechar o quê?!? Não fala coisa com coisa essa metida aí! A gente tem é que correr e tentar se salvar, porque nenhuma de nós resiste ao fogo de um Maçarico! – irrita-se uma Chave de Fenda nervosa e pessimista.

 

Porém, de forma surpreendente, pronuncia-se a favor da chavinha a presidente da Assembléia:

 

-         Deixem a douradinha falar! Vamos manter os direitos das chaves até o fim. O que é que tanto você quer fechar, pequenina?

 

Mas, nesse instante, ouve-se um som metálico espantosamente alto...E começa a rolar desajeitado, no tapete da nave central, um pesado cofre. É o Maçarico!!!

 

Gritos! Correria! Angústia! Choros!

 

Então, ligeira como um olho que pisca, a chavinha dourada se aproxima do cofre, agarra-o e fecha com a estrutura frágil do seu corpo miúdo a porta que a qualquer momento o Maçarico pode abrir. Luta por alguns momentos, se arranha, perde o ar, mas, por fim, depois de repetidos golpes, estraga o painel eletrônico do cofre! Pronto, o Maçarico foi detido! Ninguém entra; ele não sai. Fechado na prisão que arrumou para si mesmo, o lança-chamas não representa mais nenhum perigo.

 

Risos desenfreados de alívio, agradecimentos efusivos, dia de folga para todas as chaves! E lá se vai a chavinha dourada pela porta afora, buscando apenas um pouco de descanso. Que dia agitado!

 

- Antes de sair, por favor, preciso do seu nome para lavrar no Livro de Atas e Elogios da Assembléia... – lhe pede de longe a Chave Mestra.

- Meu nome, senhora presidente? Meu nome é Chave de Ouro.

 

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Conto 12

TheoraHamblett

TÍTULO:

A menina e o vento

Consuelo e Pé-de-Vento se conheceram no início da primavera, época em que as crianças voam alto com suas pipas e os ventos recém-nascidos sopram forte nos céus. Era justamente isso que Consuelo e Pé-de-Vento estavam tentando fazer naquela tarde, lá na fazenda onde a menina morava com seus cinco irmãos. E foi por isso que os dois, menina e vento, acabaram virando grandes amigos.

Era a primeira vez que Consuelo tinha a chance de se juntar aos irmãos para empinar pipa. Os meninos não gostavam da companhia da irmã caçula. Viviam dizendo que menina não sabe soltar papagaio, que brincadeira de menina é de casinha e que misturar garotas com garotos na raia do céu dava azar. Principalmente agora, estação dos bons ventos, o melhor momento para que um deles finalmente realizasse o sonho de conquistar o “desejo do céu”.

- Que desejo do céu é esse? – queria saber Consuelo.

- Você não entende nada de pipa mesmo, hein, menina? - respondia o irmão mais velho. O desejo do céu é o prêmio para quem conseguir encostar primeiro a pipa na nuvem mais alta do céu. Quem conseguir tem direito de pedir qualquer coisa pro Rei Tempão, o senhor das estações, da natureza, dos ventos, das chuvas, do sol, de tudo...

- E como é que a gente vai saber qual foi a pipa que chegou primeiro? Ninguém lá em cima pra ver...

- Ah, meninas! - reclamava o irmão sem paciência. A primeira pipa que encostar na nuvem mais alta do céu muda de cor, Consuelo. Quando a gente recolhe a linha, a gente vê, entendeu?

Aquela história de pipas, nuvens e desejos era puro sonho para a menina. Mas como participar desse mundo tão mágico, se soltar pipa era brincadeira só para meninos? Os irmãos sequer escutavam os pedidos de Consuelo para que fizessem uma pipa “café-com-leite”, só para ela experimentar a sensação de visitar o céu segurando a linha nas mãos.

Pois foi naquele dia que Carlos, o irmão mais velho, resolveu dar uma oportunidade para a garota. Trocou a pipa velha, amarela, rasgada e cheia de remendos, por uma novinha, um papagaio de asas grandes e prateadas, feito para chegar às nuvens tão rápido quanto um foguete. Depois de muita insistência, Consuelo conseguiu convencer o menino a entregar-lhe o papagaio velho e uns metros de linha gasta para que ela experimentasse um pouquinho daquele sonhado prazer de voar.

- bom! Leva logo essa pipa furada! Mas vai pra bem longe daqui, senão vai me dar azar.

Consuelo saiu correndo com o papagaio embaixo do braço. Fez uma rabiola com pedaços da tira que amarrava o cabelo, lascou as pontas de um gravetinho, enrolou nele a linha, prendeu-a com um nó na ponta da pipa e respirou fundo. Estava orgulhosa de si mesma, pois conseguira fazer tudo sozinha, exatamente como já estava cansada de ver os irmãos fazendo. Sabia que o maior desafio ainda estava por vir: colocar a pipa no céu e arranjar um jeito de, com aqueles puxõezinhos jeitosos, mantê-la voando lá em cima.

Antes que segurasse a pipa na posição de decolagem, Pé-de-vento apareceu e, num sopro ligeiro, roubou o papagaio das mãos de Consuelo. O vento ergueu a pipa de uma vez, levando para o alto os olhos da menina, que buscavam afoitos o destino de seu brinquedo. A pipa amarela de Consuelo já estava no céu... Sua cabeça nas nuvens... e seu coração na mão.

Foi assim que Pé-de-Vento se apresentou a Consuelo, sem nenhuma palavra, apenas um sopro rápido e um longo assobio. As palavras não fizeram a menor falta. A menina e o vento conversaram de muitas maneiras: quando Pé queria levar a pipa para mais longe, Consuelo deixava o carretel improvisado correr solto nas mãos. Quando Consuelo queria provocar Pé-de-Vento para ver a pipa dançar no céu, dava toquinhos leves na linha, avisando que a brincadeira poderia começar. Se a menina ria das acrobacias da pipa, Pé-de-Vento ficava ainda mais exibido, e fabricava rodopios impossíveis, desenhando com a linha imagens engraçadas no céu.

Passaram a tarde juntos, brincando com a pipa amarela no céu azul. Há muito tempo Consuelo não se sentia tão feliz quanto naquela tarde, na companhia de Pé-de-Vento. Estava sempre tão sozinha, que mal acreditava ter encontrado um amigo, alguém que gostava de estar com ela, e que não se importava de compartilhar com uma menina qualquer brincadeira que fosse divertida.

A partir deste dia e por quase todo o restante da primavera, Pé-de-Vento e Consuelo encontravam-se para brincar, passear, conversar e se divertir. Menina e vento viveram inúmeras aventuras naquele mês de setembro. Pé sabia brincar de muitas outras coisas além de soltar pipas. Inventaram juntos a brincadeira de “Rainha do Milharal”. Consuelo esticava o cetro imaginário sobre o campo amarelinho de espigas e ordenava: “Milhos, curvem-se diante de sua rainha!” Então, Pé-de-Vento varria a lavoura com uma brisa suave, fazendo com que os súditos empalhados de Consuelo se curvassem em sinal de respeito. E também adoravam a brincadeira dos domingos. A menina esperta se juntava ao danado do ventinho no final da missa para fazer voar batina, saias, chapéus, lenços, véus e tudo o que pudesse, com uma ventania inesperada, se soltar dos fiéis em meio a correrias e gritos de “Segura!”, “Olha o vento!”.