A História de uma Canção

LAMENTAMOS INFORMAR QUE, POR QUESTÃO DE SAÚDE, A JURADA LORENZA, MAIS UMA VEZ, SE AFASTA DO CONCURSO E CONTINUAREMOS NESTA E NA PRÓXIMA ETAPA COM APENAS 5 JURADOS, NAS ETAPAS FINAIS, O NÚMERO DE JURADOS DEVERÁ SER AUMENTADO, PORQUE É NOSSO PROPÓSITO AUMENTAR O FEEDBACK PARA OS PARTICIPANTES.

CONTO 1

INSPIRAÇÃO

PARA VER AS MENINAS

                                                                                                                                          O acúmulo de mágoas e várias paixões mal resolvidas levaram Tonico ao infarto. É certo que as feijoadas de sábado e os churrascos de domingo regados a caipirinhas e cervejas, abertos com torresminhos e lingüicinhas, também contribuíram. E talvez o maço de cigarros diário também pudesse ser colocado no banco dos réus. Mas o sambista tinha certeza que os maus amores eram os verdadeiros culpados. Infelizmente, Doutor Sampaio, o cardiologista, não compartilhava da sua teoria.

- Seu Tonico, sou seu fã. É uma honra ser seu médico. Mas eu entendo de medicina tanto quanto o senhor entende de música. Por favor, leve a sério minhas recomendações.

- Pois é, doutor, Deus é irônico. Me deixou vivo mas me tirou a vida.

O médico tinha certeza que Tonico não obedeceria as suas ordens. Estava enganado. O instinto de sobrevivência falou mais alto. No entanto, manter-se vivo significava para Tonico Vieira renunciar a mais do que a um estilo de vida. Era deixar de ser quem ele era, o que o definia. Um promotor aposentado, nascido Antônio César dos Santos Vieira. Nome escolhido a dedo por Dona Nair para o filho que seria doutor, com certeza. Mas que virou Tonico do Bonde ainda na adolescência, por causa de um sambinha composto para Aurora, a primeira namoradinha.

Na letra, ele contava que ia dependurado no bonde só para ver Aurora por uns minutos. Conseguiu até vender a música e ganhou uns trocados. No entanto, o amor não foi pra frente. A primeira de uma série de mulheres que ajudaram a trincar seu coração.

“Até que resistiu bem, o coitado”, pensava Tonico. Levou 60 anos para dar o primeiro sinal externo de seus machucados. Um menos forte já teria pifado há tempos. Tudo bem que já tinha uns anos que doía de um jeito meio estranho, mais do que o normal a cada desilusão. Tonico nunca deu atenção. Atribuía tudo a dores de amores. E seguia, conciliando as inusitadas carreiras de promotor de justiça e sambista.

E agora, era mudar de vida. Como não era capaz de resistir às tentações, afastou-se delas. O que também representou ir se afastando dos amigos, dos conhecidos, das pessoas que o conheciam. O vendedor de coco da praia virou seu melhor amigo. Não tinha mais nem o fórum para lhe distrair. E sem mulheres, comida farta e bebida boa, a inspiração de Tonico foi murchando como o coração dentro do seu peito.

Ainda assim os filhos comemoraram. Ela, nutricionista. Ele, geriatra. Achavam que, finalmente, o pai iria seguir os conselhos que os dois passaram anos pregando, em vão. Teria mais tempo para a família, para conviver com os netos. Por ironia, a única pessoa que o entendeu foi a ex-mulher. Encontrou-a em um dos almoços de domingo. Lasanha quatro queijos para a família, vegetais para ele.

-     Eu devo estar agora como você sempre quis, não é? Vivendo em casa, que nem cachorrinho de madame. Logo eu, um vira-lata de pedigree.

-     Não. Eu casei com você sabendo que era boêmio, mulherengo e irresponsável. Eu te amava assim.

-     Mas você se separou de mim!

-     Mas aí foi porque eu comecei a me amar também. Eu sabia que você morreria se mudasse.

Morrer... Quase. Um morto-vivo. Um zumbi zanzando pelas ruas, evitando até mesmo olhar os bares. Não conseguia nem mesmo compor mais nada. Não gravaria mais, avisou ao empresário. Não precisava. Dinheiro não era problema, tinha uma boa poupança, a aposentadoria. E samba não tinha mais graça. Não a seco. Não em solidão.

Um dia, na monótona caminhada habitual, encontrou um velho amigo. Dono de uma casa de shows, onde também havia dança e boa comida. Um lugar onde, obviamente, ele não colocava os pés desde o infarto. Explicou ao amigo as razões. Ele não entendeu.

-         Aparece lá. Para ver as meninas.

Tonico riu.

-         Engraçado... “Para ver as meninas”. É uma música do Paulinho da Viola.

-     É. É mesmo. Taí, você devia se mirar no exemplo do Paulinho. Sempre levou uma vida tranqüila, e mesmo assim é um músico da melhor qualidade.

Tonico sorriu apenas, sem se dar ao trabalho de responder ao amigo o que era óbvio: as pessoas são feitas de materiais diferentes.

O reencontro atiçou alguma coisa em Tonico, e sem saber bem o porquê, ele apareceu na casa de shows aquela noite. As meninas sambavam em cima do palco, em um show para gringo ver. Depois desciam para a pista, e não negavam a dança para quem tivesse fôlego para acompanhar, independente da nacionalidade. Tonico não dançava. Só observava, sorrindo triste, enquanto bebia sua água sem gás. É, aquele mundo não era mais para ele. Chamou o garçom, pediu a conta. Mas antes de sair, uma das meninas o segurou pelo braço.

- O senhor não é o Tonico Vieira?

Ele sorriu. Era uma moça bonita, nova. Chamava-se Suellen. Com a música alta, ele entendeu de início Sueli, e lembrou-se de uma loira mignon, que o largou para casar com outro. Provavelmente deveria ser uma avó, agora. Bem diferente daquela moça, tão alta como ele, mulata, de sorriso aberto e olhos negros. Gostava de falar, e logo ele estava novamente sentado à mesa, conversando e rindo como não fazia há mais de seis meses.

- Vamos dançar? – ela convidou.

Ele riu, disse que não. Não tinha mais idade pra isso.

- Ah, não! Você ainda é novo. Quantos anos você tem?

- Perto de você, sou do período pré-jurássico.

- Jussárico?

Tonico sorriu. Seu corpo todo sorria. Seu coração então, dava gargalhadas. Suellen era fã de verdade. Conhecia várias músicas suas. Às vezes tropeçava na letra e nas concordâncias, mas e daí? Era divertida e sincera. Convidou-o para ir à sua casa, logo ali, em Copacabana. Uma kitchenette pequenininha, mas bem arrumada. O lugar mais lindo do mundo para Tonico. O metro quadrado mais valioso da cidade, que conseguiu restaurar seu coração capenga.

Suellen não queria compromisso. Não pedia nem cobrava nada. Também não prometia, mas o presente era suficiente para ele. Encontravam-se à noite na casa de shows, dançavam e conversavam nos momentos de folga dela, e sempre terminavam as noites no pequeno paraíso em Copacabana.

Tonico tinha agora um bom motivo para as caminhadas matinais. Queria viver bem, aproveitar aquela suave rotina com Suellen até quando ela o quisesse. E finalmente entendia o que Vinícius quis dizer com “infinito enquanto dure”. Dessa vez não haveria mais remendos nem safenas em seu peito.

Mas... Faltava alguma coisa. A droga da inspiração não voltava. Então Tonico tomou uma decisão. Não comunicou nem pediu conselhos a ninguém. Era uma resolução sua, só sua.

Aquela noite, assim que chegou à casa de shows, chamou o garçom.

- Uma água, seu Tonico?

- Não. Uma cerveja. Estupidamente gelada. – falou lentamente, já sentindo o prazer só com as palavras roçando sua língua, escorregando suavemente pela garganta. Recostou-se na cadeira enquanto esperava Suellen terminar a dança com um holandês, desengoçado como ele só, e acendeu um cigarro. Começou a tamborilar os dedos na mesa, as primeiras notas de um samba em homenagem a Su.

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Muito bom. Chama a atenção a densidade do texto, embora a finalização frustre.

9,5

CRISTIANE BRUM

Boa história, bem fechada, aproveitou bem as citações da música pra criar uma situação verossímil. Mas acho que ficou faltando o “clima” da música. Talvez o esquema do concurso, de escrever na pressão, tenha atrapalhado um pouco a captação do sentimento da canção pelo (a) autor (a). Quem sabe na primeira pessoa ficasse mais “apaixonado”?

8,5

LIANA FERREIRA

Tonico Vieira até tentou viver como um safenado; mas logo percebeu que assim morreria mais depressa. Cercado dos que sabiam de tudo - coitado! – tratou de burlar as recomendações médicas e filiais e partiu para a esbórnia, ao encontro da vida. Lá encontrou Suelen seu “samba para o infinito”.

9

LUCI AFONSO

O texto captou de maneira delicada a desilusão e, ao mesmo tempo, a esperança que sobrevive na “pausa de mil compassos”. O final feliz é um alívio para o coração.

8,5

MARCO ANTUNES

Bastante interessante a narrativa, apenas lamento que o “espírito” da bela canção de Paulinho da Viola não tenha sido mais explorado. Veja: a idéia de “hoje eu vou fazer um samba sobre o infinito” é bela demais para nem ter sido contemplada!

9

TOTAL

44,5

CONTO 2

CAVALO  BAIO

CAVALO  BAIO

Estavam entrando na parte que ele considerava a pior da viagem: aqueles 400 quilômetros do cerrado mineiro nu. A estrada parecia replicar a uniformidade da vegetação, lançando-se em retas infinitas até um horizonte cada vez mais remoto. Olhou para o lado. Seu filho reclinara o assento e cochilava – ou fingia cochilar. Esse era só um dos problemas da viagem de carro: a convivência forçada ao longo de horas. Nas partes mais movimentadas do percurso ainda havia a possibilidade de comentários anódinos. Mas naqueles vazios até onde a vista se perdia, tudo era mais difícil.

 

    O menino já estava com dezessete anos. Veio-lhe à mente um cartum que ele tinha visto há muito tempo: um pai estilizado, sentado em uma poltrona e lendo um jornal na sala. Passa um homem por ele e se despede: “– Tchau, pai”. O pai responde mecanicamente, sem levantar os olhos: “–  Onde você vai, menino ? Volta cedo, amanhã tem aula”. O filho: “– Que é isso, pai? Eu me casei, estou indo embora”. O pai, ainda sem tirar os olhos do jornal: “– , já ?

 

    Pois é. Já ? O seu filho crescera tão rápido ! Olhava em retrospecto e via uma colagem de cenas, o bebê, a criança, o rapaz, imagens esparsas, sem um enredo a uni-las, sem diálogos. É isso: sem diálogos. Sua convivência tinha sido insuficiente, sempre havia muito trabalho a fazer, muitas metas a conquistar, muito do que fugir. Por isso, a conversa entre eles era tão... tão... – buscou o termo preciso – tão forçada. Poucas afinidades os prendiam um ao outro, poucas pontes por onde vencer aquele rio de estranhamentos. Uma delas era a música. O menino gostava de música, como ele.

 

    Lembrou-se, então, de escutar o CD que gravara antes da viagem, na esperança de diminuir as distâncias – tanto as físicas quanto as filiais. A seleção era eclética, mas, reconheceu, bem apropriada ao cenário. A viola de “Casinha Branca” não era o complemento perfeito para aquela paisagem ? E o asfalto a serpentear até o fim do mundo não sugeria um resignado conformismo quando matizado pelo lamento de “Pra dizer adeus” ?

 

    De súbito, um ritmo vibrante encheu aqueles poucos metros cúbicos sobre rodas, percussão imponente, melodia desafiadora: “Eu vou no passo do cavalo baio / entre bandeiras, sabres e farrapos”. Por instantes, não entendeu. Só quando, por artes daquela moldura sonora, a paisagem do cerrado já se transmudara em improváveis coxilhas é que se deu conta de que incluíra aquela canção no CD à última hora. Acompanhou silenciosamente a letra: “eu vou no passo do tambor que chama / no passo de quem não sabe se volta”.

 

    Foi despertado do seu transe por um caminhão no outro sentido. A voz ao lado completou a volta à estrada: “– Cavalo baio ? na fase rural, pai ?”. Havia ali mais ironia do que carinho, algo comum ultimamente. “– Que nada”, respondeu, antevendo o olhar interrogativo do filho. “– Essa música foi tema de uma série de televisão sobre a Guerra dos Farrapos”. Como se lhe ajudasse, a canção confirmou: “eu vou no passo de quem vai pra guerra / por liberdade, honra, e terra”.

 

    Mesmo sem olhar, sentiu que o filho se voltara para ele: “– Eu não sabia que você curtia a História gaúcha. Desde quando ?” e, agora, o interesse era reforçado pela volta do banco à posição normal. Uma ponte !, pensou. Quem diria ? “– Na verdade, filho” – adorava convocar o parentesco – “gosto especialmente da letra, sabe ?”, que continuou a ser declamada: “Eu vou no passo do cavalo baio / no passo de quem arrancou da alma / a flor do amor e deixou pra trás”. Aproveitou o breve interlúdio para acrescentar: “–  Tem um lance na letra, assim, de... de vida”.

 

    

    A voz do menino se sobrepôs à do carro que os ultrapassava, mantendo o fio da conversa. “– Estudei a Guerra dos Farrapos no colégio, mas não me lembro direito”. O pai solidarizou-se: “– Bom, eu também não sei muito, não”, procurando soar simpático: “Foi um movimento separatista. No começo, os farroupilhas só queriam a taxação do charque importado. Aí, as tensões foram crescendo e proclamaram a República Piratini. Foram dez anos de guerra contra o Brasil. No final, perderam”.

 

 

    “– É por isso que você gosta dessa letra ? Porque fala da luta... como é... pela terra, por liberdade?”. O pai surpreendeu-se com a curiosidade do filho. Pela primeira vez, sentiu que poderia avançar mais um pouco em algum assunto. “– Não é bem por isso, filho. É que... Bom, essa letra evoca um episódio histórico que tem, assim, significados que se aplicam a todas as épocas, a todos os lugares, entende ?”. O rapaz meneou a cabeça em sinal de “mais ou menos”. O pai prosseguiu: “– Aquelas pessoas que se dispuseram a lutar, a abandonar suas casas,  sua tranqüilidade, seu futuro, para atender a um chamado da sua consciência” – e frisou esta palavra – “elas deixam uma mensagem que serve pra mim, pra você. Claro, tinha os interesses econômicos, políticos, isso sempre tem” – alternando seu olhar entre a estrada e o garoto, que o fitava sério – “mas tem bem mais do que isso”.

 

 

    “– Por exemplo ?”, a pergunta era um pedido para que continuasse, e o pai entendeu: “– Coloca a música de novo e escuta a segunda parte”. Os versos eram agora cantados de forma mais cadenciada: “O que é um homem sem uma mulher? / um céu sem estrelas, cometas e raios / centauro de cascos quebrados / perdido num pampa sem fim / um rei em farrapos / sem pátria, querência e bandeira”. O rapaz fez que discordava, zombeteiramente: “– Fala sério, pai, os caras vão pra guerra e ainda reclamam que estão sem mulher ? Qual é? Querem tudo ?” e eles riram, como há muito não acontecia.

 

 

    “– É por isso que gosto da letra, filho. Porque descreve a vida. A gente não pode ter tudo. Nunca pode. Se você quiser muito uma coisa, vai ter que abrir mão de outra. A questão realmente importante, filho” – e olhou fixamente para o rapaz, por mais tempo do que sugeria a prudência ao volante – “é que as decisões na vida são sempre difíceis, a vida é uma sucessão de dilemas. Você nunca sabe se tomou o caminho certo. Toda escolha traz ganhos e perdas. Não existe sim sem não. E essa letra”, apontou para o CD “diz exatamente isso: aqueles rebeldes foram lutar pela sua terra, mas, para isso, tiveram que deixar para trás o seu mundo pessoal. Entendeu o dilema deles ?”.

 

 

    Ficaram em silêncio por quase um quilômetro. O pai não esperava que a conversa tomasse esse rumo. Sentiu que uma porteira se abrira, mas não sabia o que mais passaria por ali. Foi surpreendido pelo filho: “– E nesse caso... o cavalo baio...”. Olharam-se por alguns metros. O pai assentiu quase sorrindo: “– Exatamente, filho. O cavalo baio somos nós. Ou melhor, é o nosso livre-arbítrio. Podemos ir ou não à guerra, deixar ou não nossas mulheres para trás, amar ou...

 

 

    Sentiu que um turbilhão de angústia engolfava os pensamentos, mas tentou ordená-los, mais ansioso do que gostaria: “– Você já ouviu falar de Anita Garibaldi ?”, e prosseguiu, sem esperar resposta: “– Ela era casada e vivia em Santa Catarina com a família. Mas, aí, durante a Revolução Farroupilha ela se apaixonou por Giuseppe Garibaldi, um italiano que estava do lado dos rebeldes. Sabe o que ela fez ?” – de novo, não esperou resposta – “– Simplesmente, ficou com o italiano, deixou o marido !” O entusiasmo crescente refletia-se na voz. “– pensou ? Naquela época fazer isso ? Você avalia a coragem” – e reforçou a palavra – “a coragem dessa mulher ? E você entende, filho, que a coragem não está apenas em se sacrificar,  em abrir mão ? A coragem, muitas vezes, ou quase sempre”, corrigiu, com amargura, “está na capacidade de escutar o nosso coração, de obedecer à nossa consciência, contra tudo, contra o mundo, se for preciso”. Não conseguia mais resistir ao fluxo de emoções e palavras. “– A Ana teve a coragem de romper com o mundo dela para seguir com o homem que ela passou a amar. Por isso, o Garibaldi no nome dela é como se fosse uma condecoração por ato de bravura. Com a vantagem”, e permitiu-se um sorriso triste, “de que não precisou matar ninguém”.

 

    Sim, era isso. A Ana, a Garibaldi, seguira o caminho que ele mesmo não soubera trilhar. As lembranças voltaram. Na verdade, as lembranças nunca iam embora, elas voluteavam todo o tempo sobre sua razão, acusadoras, impiedosas. O espectro da decisão entre ele e os outros, entre o seu amor – o seu único grande amor, adulto e verdadeiro – e o amor dos outros, entre o que ele sabia ser a sua felicidade e o que, à época, se lhe afigurava como a felicidade dos outros, entre o respeito aos seus sentimentos e o respeito a valores alheios, abstratos, que acabaram por se esfumar em nada. Preterira a si, decidira-se pelos outros. À toa !, repetiu mentalmente. Houve um tempo em que se julgava heróico. Agora, ele sabia que não passava de um tolo. No final, nem ele nem os tais outros haviam sido felizes.

 

    Olhou para o filho, agora pensativo, e viu-se como o portador de uma maldição, a maldição da imaturidade, do desconhecimento. Será que alguns nascem para errar nos momentos cruciais da vida ? E, neste caso – torturou-se –, será que esse dom indesejável se transmite às gerações seguintes ? Ou será que ele poderia quebrar esta cadeia, impedir que o filho cometesse o mesmo erro ?

 

    A compreensão veio como um lampejo. Ele já perdera uma oportunidade, mas não perderia outra. Falou com a urgência dos momentos em que se define toda uma vida: “– Filho, olha pra mim !O rapaz foi despertado de suas reflexões, assustado com o semblante e o tom da voz do pai. “– Presta  MUITA  atenção: o que eu quero que você saiba, o que eu quero dizer pra você”, e sua mão direita segurou a mão esquerda do rapaz, que retribuiu o aperto, “é que um herói verdadeiro é aquele que se conhece, se aceita e se respeita a si próprio, que é capaz de dizer sim, apesar de todos os nãos que vierem junto”. Os olhares também se enlaçaram: “– Você está me entendendo, filho ? Na sua vida diga todos os nãos que quiser dizer, que você sentir que precisa dizer,  porque eu estarei sempre ao seu lado pra segurar o tranco junto com você. Sempre, bom ? Faz isso ? Promete ?

 

    O rapaz entendeu antes mesmo de concordar. Pai e filho quedaram-se mudos, olhando para a frente, vendo, porém, muito mais do que as retas sem fim que se descortinavam a cada ondulação do terreno. Do fundo daquele silêncio tão loquaz brotava a certeza da pergunta que teria de aflorar e que teria de ser respondida. Ambos relutavam, mas sabiam que a ponte tinha que ser cruzada.

 

    O filho, enfim, falou. “– Pai, me diz! Você foi? Você seguiu no passo do seu cavalo baio?

 

    O pai ficou em silêncio por algum tempo. A resposta veio marcada pela dor da cicatriz que nunca fecha. “– Fui, filho, mas...” Todo o arrependimento e a tristeza que o acompanhavam já há tantos anos eram, finalmente, trazidos para a luz do dia. “– Fui no passo do meu cavalo baio, sim, mas... eu não soube escolher. Segui na estrada errada.

 

    O filho apertou mais forte a mão do pai. E naquele instante não eram pai e filho, mas guerreiros insurgentes na República da Vida.

 

    “– Pai, põe de novo a música”, pediu o soldado mais jovem, depois de alguns minutos. O carro encheu-se do ritmo vibrante, da percussão imponente, da melodia desafiadora.

 

    E, pela primeira vez em muito tempo, pai e filho cantaram juntos.

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Maravilhoso.

 

10

CRISTIANE BRUM

Muito interessante a leitura que o (a) autor (a) fez da letra, conseguindo ultrapassar a questão cultural embutida nela e promover uma leitura universal da narrativa. Achei a situação bem apropriada e o clima do conto bastante envolvente. Creio, contudo, que o final poderia ser condensado de forma a não quebrar esse clima. Ficou um pouco forçada a explicação do pai quanto a ter seguido ou não seu caminho.

8,5

LIANA FERREIRA

Esse conto está muito bem escrito e a música está presente, de forma muito inteligente, porque foi usada estrategicamente para dar corpo à história. Entretanto, o final desemboca numa pieguice desnecessária.

9,5

LUCI AFONSO

Neste conto comovente, a música é a ponte que reúne pai e filho, razão e emoção, passado e presente. Belas imagens, desfecho encantador.

9,5

MARCO ANTUNES

Bem escrito, com algumas belas frases que demonstram a consciência que o autor tem da estética da linguagem, este conto peca por um excesso que se pode chamar de didatismo. A cena que poderia ser bela acaba por se revestir de um pragmatismo tão moral que perde em força dramática. Se fosse teatro, diria que a cena termina por denotar o peso da responsabilidade educativa, perdendo em sinceridade!

9

TOTAL

46,5

CONTO 3

DE LESTE A OESTE

AS APARÊNCIAS ENGANAM

As cigarras anunciavam seus primeiros cantos, a fresca da madrugada amenizava as lembranças daquela noite mal dormida. Poderia André novamente suportar aquela situação? Infinitas vezes suportara.... Caminhou cautelosamente pelo apartamento até a varanda, abriu a porta de vidro com cuidado para não acordar os vizinhos que àquela hora ainda dormitavam esperançosos. Nenhuma luz no céu suavizava-lhe a espera, o sono despedira-se apressado. A discreta brisa ardia-lhe sob a pele despertando a sua insistente imponderabilidade, era o destino e suas amarras, e mais uma vez ali, só, meditava em seus passados prenhes de acontecimentos e vazios de presente. Do apartamento vizinho chegava a voz rouca de Elis: As aparências enganam... A canção se repetia monotonamente esquecida. O amor lhe parecia um tema fácil. Embora tantos amores tenha vivido, tantos encontros furtivos, tantos casamentos e descasamentos; sabia os sentidos dialéticos do ódio e do amor, marcados em sua carne não mais tenra. Mas das paixões também não mais podia falar. Edilene havia saído há pouco, seu cheiro de baunilha ainda lhe impregnava os sentidos, de onde vinha aquele cheiro? Em uma de suas andanças por Boston comprara um creme de massagem, era de baunilha, mas o cheiro não era o de Edilene... Ainda soava em seus ouvidos a sentença recém anunciada em voz rouca e apaixonada: Casa comigo! A frase veio clara e curta como a mais verdadeira mentira. Tudo o que ela sempre quisera ouvir o que eu nunca dizia e ela insistia sem pudor e mecanicamente alucinada. Suas curvas suaves e perfeitas sob meus dedos tornaram-se espinhos em flor naquele momento. Todos os meus casamentos tinham sido uns fracassos. Agora me sentia perfeitamente bem e feliz. A minha terapeuta sempre me diz: você é o único realmente resolvido entre os meus clientes, só você pode sentar aqui e dizer que é feliz! Meus quatro filhos Marta, Viviane, Mariana e Felipe todos muito amados por mim, principalmente as minhas princesas, essas sim, são minhas verdadeiras mulheres, aquelas que realmente respeito e amo. Mas essa Edilene, uma amante insistente, bela amante. Algo espiritual atraiu-me a ela, essa necessidade urgente de mim, tudo isso me surpreendeu. De onde veio esse mistério que nos uniu? Seus poemas em gestos indecisos, suas incongruências e insistências me atraíram. “Eu só descanso em ti!”, “Seus dedos despertam misteriosas e lindas harmonias em meu corpo!” Essas coisas que ela diz penetram o meu espírito, eu nunca tive isso. Ela quer casar ter filhos e é monasticamente monogâmica. Imagine, eu que já vasectomizado em matéria de amor, obliterado em todas as relações bilaterais com o sexo oposto. Mas estranhamente em seu corpo gozo delícias de expressões conhecidas e desconhecidas, o seu corpo é o recipiente do meu completo gozo, seu corpo copo “é o meu vinho, é o meu pão, a recordação”... E sinto certa necessidade de sua presença física. “Amado André o amor é o dom supremo”, e o sofrimento divino também é muito mais intenso... Nesse caso as minhas distâncias são necessárias.

               Edilene mais uma vez cruzava o grande eixo de suas avenidas interiores. Nortes não haviam, embora ali tivesse pousada. O sul era-lhe desconhecido íntimo e com palavras construía mistérios e ministérios edificados em góticas enlevações poéticas. Assim sobrevivia à sua solidão. Sempre só, ultimamente caminhava com André em seus próprios gestos edificados de mais uma ilusão, como outras tantas Julietas, Romeus não meus, tão conhecidas falas. Boa-Noite André, Boa-Noite Juliano, Boa-Noite Valentino, Boa-Noite Valdir, Boa-Noite Gentil alma que partiste, todas justas, mas não justificadas. A todos tantas noites boas e más em que sempre cantava a cotovia. Na sua rádio mental insistiam os repetidos e monótonos versos perpetuados naquela voz única da Elis: As aparências enganam aos que gelam e aos que inflamam... Nesse instante Edilene respirou profundamente como a própria Elis, um fôlego necessário para se cumprir o final. André ardia-lhe o ventre. Nunca sentira tão selvagem união de carnes, algo novo e velho acontecera, além em todos os sentidos, dimensões e direções. Graças aos deuses! Ele dissera. E nos seus esquecimentos, enfraquecimentos de alma, nesse instante, com essa frase acordara do torpor embrutecido daquele conluio de corpos. Não poderia concordar com aquela frase... Estava exaurida, de todos os movimentos naquele dia realizados, anos se cumpriram em apenas um dia, e esse fim, essa sensação de algo que nunca começou. Assim, exposta em sua nudez, com sangue a escorrer-lhe na alma, sentiu o enjôo com o cheiro do cigarro e daquela figura sobre o criado, ambos mudos aos ouvidos de André. Como ele não percebia isso? Seu corpo sendo consumido, sua alma esvaídos nos espaços privados, no isolamento das escolhas, presentes e ilusões luxuriantes de “uma amiga muito respeitosa”, e as expressões de seu rosto magro me lembravam aquela série de Flávio de Carvalho quando pintou sua mãe agonizante nos braços da morte. Quadro a quadro, aos pés de André observava a morte rondando em seus ruídos. O som dos pratos quebrados e os gemidos inexatos permaneceriam nas desarmonias daquele moço. As lágrimas insistiam em não brotar dos seus olhos cansados, mas Edilene não mais sorria, pressentia as novas distâncias que viriam... Suportaria novamente aquela situação? Infinitas vezes suportara! Mas André lhe abrira novos espaços, rasgando-lhes os medos, sentia-lhe uma ternura indizível, uma necessidade amoral de vê-lo, presencia-lo, estar ao seu lado era algo irrealizável e profundamente desejável. Aquela obsessão começara na lavanderia, buscara-lhe o cheiro nas roupas recém lavadas, um gesto que surgiu indistinto e instintivo. Como as abelhas pressentem o mel, nas flores o seu caminho, nele ela achara caminho, os seus caminhos inexplicáveis e de intrincadas trilhas. Aquele cheiro em seus cabelos, de onde vinha aquele cheiro? Buscava-o em todos os lugares, em todos os xampus, cremes, comprara produtos em vão, onde estava aquele cheiro... Abriu a porta de sua casa, sobre o cinzeiro quebrado o girassol morto, ressequido. Enviou-lhe um email: “saiu o meu livro!”. No outro dia: “O meu girassol morreu!”. Duas semanas depois ela ligou, ele havia chegado da América do Norte e estava na asa norte, na casa de um amigo e ia para o sudoeste correndo, não tinha tempo para outras estadas. Ele ainda veio, beijou-lhe na escada e disse que nunca tinha tido a sorte de encontrar alguém que beijasse bem. “Você encontrou?”... Aos poucos suas entranhas saravam, suas feridas cicatrizavam. Abriu o email: “oi, linda e adorada ... perdão por minhas idas e vindas... mas capricorniano é terrível com trabalho e prioridades. ainda pensei em te ligar ontem à noite, mas já era bem tarde qdo cheguei em casa...hoje foi um dia corrido, tb e a noite promete muito trabalho... e ainda tenho q começar a produzir o texto e powerpoint da minha apresentação na Venezuela. bjs saudosos (vou correr...)”... Edilene lia quieta e pensativa, sentia ainda aquele insistente perfume, já desvanescente e incompleto. Os girassóis sempre morriam em sua vida fugaz.  No seu interior fechavam-se-lhe novamente as clareiras recém abertas e novas e robustas raízes ali se aprofundariam. Edilene amava André de tal maneira... “Não há mais nada para se fazer” e o sol em reticências no oeste... Ainda seria possível uma boa caminhada a luz do dia? Fechei a porta, as chaves guardei-as no peito esquerdo, e saí revendo os meus eixos metaestáveis purificando os pulmões de velhos hábitos sentindo em atmos de tempo o volátil e maravilhoso perfume...  

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Lindo. Talvez, em algumas passagens, excesso de adjetivação.

10

CRISTIANE BRUM

Algumas vírgulas faltantes e algumas frases compridas demais cortam o ritmo desse conto. Lá pelas tantas, se confundem a terceira e a primeira pessoa, o que também soa estranho. Apesar das referências ao amor/ódio e do clima paradoxal similar ao da música, acho que a narração de apenas uma das personagens poderia dar mais intensidade ao texto.

7,5

LIANA FERREIRA

As aparências enganam aos que escrevem e aos que lêem...Não basta  colocar a música a tocar na casa do vizinho para achar que ela está incluída no conto. Pena que a voz de Elis tenha sido adjetivada como rouca, afinal, é uma cantora reconhecida como uma das vozes mais cristalinas da MPB.

7

LUCI AFONSO

Da solidão da madrugada ao vazio do entardecer, as ilusões, desencontros  e estranhamentos de um casal na busca de um “volátil e maravilhoso perfume”. Texto poético como a canção que o inspirou. É preciso apenas corrigir as mudanças bruscas de narrador e adequar alguns tempos verbais.

9

MARCO ANTUNES

Consegui identificar no conto presente os acordes da canção tema, mas o texto, infelizmente, não teve o bom ritmo que algumas belas frases presentes nele mereceriam, porque alguns erros, algumas palavras definitivamente mais escritas que orais e uma certa desarmonia de imagens, associados a uma estrutura que poderia ser melhor pensada e algumas cenas sem o convincente peso dramático prejudicaram muito a fruição do texto. O (a) autor(a) tem méritos e deve cuidar melhor do planejamento estrutural do conto  antes de se lançar à escrita do texto, pois fica evidente o atropelo e a pressa.

8

TOTAL

41,5

CONTO 4

Quereres

O Quereres

- Atrasado de novo. Aliás, ultimamente você está ficando...

             - Ficando nada, só atrasei dez minutinhos e você já está reclamando.

- ...Mal-educado, desatencioso. Além de me deixar esperando, ainda me interrompe. Nem espera a gente acabar de falar e já vem com grosserias...  E esse tom de voz! Meu deus. Quem diria hein?

- Quem diria, o quê? Você é que está ficando tagarela e melindrosa. E eu não gosto de frescuras.

- Melindrosa, tagarela, frescura, Pedro Henrique? Que termos são esses? Não é mais minha gatinha, meu docinho, tchutchuquinha? Quanta diferença!

E enquanto balançava lentamente a cabeça com o olhar perdido, lembrava-se do primeiro encontro.

Foi na recepção de boas-vindas. Ele de jeans, camiseta e tênis brancos. O jeito meio acanhado que a cativou e o olhar que lançara em sua direção fizeram com que se aproximasse, puxasse conversa para deixá-lo mais à vontade. Daí veio o namoro.

- Eu não estou diferente, sempre fui assim. E você  não implicava com horários, achava graça em tudo que eu dizia,  ria das minha piadas, elogiava meu senso de humor...

O breve sorriso esvaía-se nos lábios trêmulos.

- Agora, é sempre a primeira a me criticar. Vê defeito em tudo. Você é que está diferente.

Lançou-lhe um olhar desolado. Parecia querer que lesse em seus olhos o que não tinha coragem de dizer... “Para onde foi aquela ternura, aquele carinho? Ficou rancorosa, ríspida, parece outra pessoa. Implicou até com a menina da recepção, só porque sorria pra mim”....

 Ela estava surpresa. Não esperava a crítica. No começo, era tudo perfeito. Era harmonia de pensamentos, de gestos, olhares e quereres. Algo acontecera ou vinha acontecendo há muito tempo sem que se desse conta. As dissonâncias ficaram evidentes.

“Se é assim, se não somos o que pensávamos que o outro era e se não estamos dispostos a mudar para agradar o outro nem para aceitá-lo,  acho que nosso caso não tem muito futuro”...

- Será, Lucinha,  que você não me quer mais?

- Querer eu quero, eu não quero é querer...

                         - Mas se a gente quiser e tentar, tudo pode ser como antes!   -Exasperava-se.

Como fazê-la entender, sem que ficasse magoada? Ela não via que não adianta só querer que o outro mude. Que vale à pena, também, tentar  mudar um pouco para que a gente possa gostar mais um do outro. Que isto é um processo, leva tempo, mas se a gente se quer mesmo, tem que continuar tentando, tentando...

- Lembra daquela música, Lucinha? “onde queres revólver sou coqueiro”. Então, é só quereres menos revólver que eu tento ser menos coqueiro; e,  “onde queres descanso sou desejo”, a gente descansa menos um pouco, e eu tento me conter. Você abre mão do eunuco e eu do garanhão, sacou?

                                        Ela, ruborizada, o olhar intrigado.

 

- É melhor a gente acabar de discutir isto outra hora.

Calam-se, olham  em volta procurando alguém. Não encontram.

-Você diz que eu reclamo de tudo, mas veja bem este lugar. Quando a gente vê os anúncios e o preço, é  um hotel de cinco estrelas. Nos primeiros dias, é uma maravilha. O serviço é impecável. O tratamento atencioso. Depois vão ficando relaxados, desatenciosos, como uma certa pessoa que eu conheço.

- Vai começar de novo, Maria lúcia?

                                     - Veja só: A noite está chegando, vem o frio. Já passou a hora do remédio, meu fraldão está empapado, seu coletor está cheio e esses enfermeiros não vêm nos buscar.

- É, e se a gente pega uma pneumonia, aí sim, é fim de caso.

- No meu quarto ou no seu?

E desafinado: Ah bruta flor do querer, Ah bruta flor,

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Talvez a finalização pudesse ser mais desenvolvida.

9

CRISTIANE BRUM

Bem inusitada a situação, mesmo. Mas o final me pareceu meio anti-climático... Ainda que a música tenha um clima irreverente, achei o humor meio pesado, mais irônico do que a situação pedia. O diálogo ficou bastante verossímil, pro meu gosto.

8

LIANA FERREIRA

Será que os problemas adquiridos com os comentários sobre Pedrinha Marvada e expostos em Despedida já foram superados? Posso preocupar-me apenas com Caetano Veloso? Acho que ele vai querer morrer também!

7

LUCI AFONSO

O autor escolheu uma abordagem leve da música em questão, em vez de se aprofundar na bela mensagem de Caetano. O final bem-humorado surpreende.

8,5

MARCO ANTUNES

A canção foi bem explorada e tem um final irônico e humorístico que vale por uma explicação do texto. A coragem de se lançar à cena aberta e enfrentar os riscos do diálogo são louváveis, mas há que se perceber que faltou nas falas o traço característicos das personagens. Um bom diálogo e uma narração elegante, em geral dão ao conto sua nobreza, mas é preciso ter cuidado, porque a hipótese contrária o vulgariza. Aqui não se deu um caso nem outro, ficou-se na média!

9

TOTAL

41,5

CONTO 5

EM BUSCA DO DESTINO

MY WAY

                        Finalmente o grande dia chegou. Reencontro da turma do ginásio, depois de trinta anos. A direção do colégio forneceu a lista com o nome de todos os oitenta e três alunos e, gentilmente, cedeu o ginásio de esportes. Célia, ex-colega dos bancos escolares e agora poderosa jornalista, publicou no jornal três reportagens buscando e convocando ex-alunos; Gustavo, investigador e pesquisador incansável, percorreu listas telefônicas e endereços eletrônicos localizando colegas em outras cidades; Eduardo, o Duda, agora dono de um restaurante popular, organizou e ofereceu a preço de custo, jantar para duzentas pessoas; Edson, que sempre foi festeiro, providenciou o sistema de som e música; a meiga e pequenina Mariazinha, transformou-se em leoa na arrecadação de fundos; A comissão, liderada por  Ricardo, trabalhou e realizou um trabalho fantástico.

                        A noite estava agradável, nem quente nem fria, com a lua cheia a iluminar a escola e a soprar uma leve brisa para as folhas das árvores valsarem. Logo na entrada, dez adolescentes, capitaneados por Ricardo, recebiam os convidados e entregavam crachás previamente impressos com os nomes e apelidos. Imagine se alguém ia saber o nome do Pipa: Frederico Amorim ou então quem iria identificar Joca no nome de Alfredo Chagas? Depois de tanto tempo houve algumas mudanças. Bigodes sumiram, óculos apareceram, rugas mostram vivência, alguns cabelos ficaram brancos ou grisalhos, outros loiros e lisos. Também há quem tenha ficado sem cabelo ou que, num toque de vaidade, tenha pintado de noite sem estrelas.

                       Desde aquelas épocas até os dias atuais, ninguém cresceu um único centímetro sequer, entretanto, constata-se de forma quase generalizada, maior volume das barrigas.

                       O encontro de duas pessoas portadoras de crachás é muito curioso. Primeiro um olhar no rosto busca a identificação, depois o olhar para o crachá confirma o passado longínquo, finaliza-se com um alegre abraço com direito a fortes tapas nas costas um do outro.

- Cara, é você, Alfredo? Meu Deus, há quanto tempo não nos vemos?

- Que saudades Caubói, por onde é que você anda?

- Estou em Porangatu, adoro a fazenda. Você não mudou nada!

- Fora os trinta anos e trinta quilos... A essas alturas você deve ser o rei da soja.

- Que nada Alfredo, depois que papai faleceu mudei tudo, segui minha intuição e agora tenho gado leiteiro.

Zé Lima se encontrou com Paulinho. Olharam-se no rosto. Leram seus respectivos nomes nos crachás. Estenderam-se as mãos num cumprimento desconfiadamente burocrático.

- Você é o Paulinho? Irmão da Telma?

- Sou. E você é o Zé, que sempre usava a camisa do Flamengo?

- Toca aqui, seu velho safado! Como está a sua irmã?

- Safado, eu? Seu careca sem vergonha. Dê-me um abraço. Cadê aquele cabelão enorme?

- Quem sabe você, com seu óculos, não encontra algum cabelo para mim?

- O óculos já fazem parte da minha vida. Passo o dia lendo e despachando processos, é minha forma de ganhar a vida.

A Mariazinha e o Ernesto toparam-se próximo ao bebedouro.

- Mariazinha, você está linda e maravilhosa. Parabéns pelo belo trabalho!

- Você, meu fofo, é o Ernesto galanteador de sempre. E sempre se esquivando de pagamentos. Você veio com a esposa e três filhos, por favor, passe no caixa agora.

- O que é isso Mariazinha? Gosto do seu sorriso, do seu jeitinho carinhoso. Alguma vez na vida deixei de comparecer? - e antes que Mariazinha respondesse, perguntou:

 - Quem sabe a gente se encontra para jantar qualquer dia desses?

- Será um prazer Ernesto, você vai adorar conversar com o João Alfredo. Você ainda se lembra dele? Abrimos uma firma de serviços de cobranças, assim fazemos o que melhor sabemos e estamos sempre juntos. É óbvio que este diálogo não se alongou por mais de dois minutos, que Ernesto não passou no caixa e que Mariazinha continuou a cuidar da arrecadação, cada um a seu modo.

A música festiva, recepcionando e reencontrando amigos dá lugar à música de

fundo, conversadeira, enquanto Ricardo foi, pela terceira vez, conversar com os recepcionistas para conferir as presenças.

                           Bete, sentada ao lado da Regina, falava sobre as aulas do atraente professor de história.

- Sabe , hoje depois tanto tempo, até acho que o Dante percebia que eu estava colando.

- Imagina Bete, não só o professor, mas todos os rapazes sabiam que você estava colando. Todos esperavam você levantar a saia para ler o que havia escrito nas pernas.

- Foi a minha forma mais prática de conseguir boas notas.

Geraldo, que trouxe de casa uma garrafa de uísque, contava para Murilo os

passos que dera para se transformar de quitandeiro em próspero dono de supermercado.

- Sabe Mura, quando as pessoas olham para mim não enxergam quantas noites passei em claro sem saber como pagar meus fornecedores, não vêem quantas vezes deixei de almoçar por falta de dinheiro. Durante muito tempo trabalhei quinze horas por dia arrastando caixas de verduras. Hoje, dou-me ao luxo de sorrir de vez em quando. - E enxugou o olho embaçado de emoção ao compartilhar o sofrimento e a vitória com alguém que nasceu rico.

Chica e Toinha sentadas de mãos dadas, alisavam-se mutuamente numa calorosa saudade. Foram vizinhas e sentiam-se novamente siamesas após trinta anos.

- Toinha, você se lembra quando a gente se apaixonou pelo Rodolfo?

- Aquilo foi muito engraçado. Nós duas disputando para ver quem conseguia dar o primeiro beijo.

- Você foi a vencedora, Chica.

- É verdade, mas eu estava com o seu vestido. Era como se o Rodolfo beijasse você.

E, à maneira delas, conquistaram os mais cobiçados meninos da turma. Ambas foram momentaneamente interrompidas por um rápido cumprimento de Ricardo. O pessoal do som, veteranos em grandes eventos, alterou novamente o ritmo musical de conversa para o nostálgico dançante.

- Sabe Zé, sempre adorei a Lucinha. Olha só, ela está sentada ali. Era uma paixão doentia. Ela jamais olhou para o meu lado. Só queria saber do idiota do Jones. Ou melhor, de passear no carro do Jones.  Mesmo quando ela engravidou e foi abandonada, tentei me aproximar, mas não obtive resultados, fui ignorado solenemente. Não sei se foi coincidência, mas sou casado com uma Lúcia que também tem olhos verdes. Acho que foi a minha forma de conquistar a Lucinha que, ainda agora a pouco, disse que não se lembrava de mim.

Helena levantou-se para buscar outro copo de refrigerante quando foi abordada por Ricardo.

- Puxa, Helena, como você está linda! Precisei ler seu crachá para reconhecê-la.

- Ricardo! Que surpresa! Finalmente você parou um pouquinho! Reparei você correndo para cá e para lá a noite toda. Há quanto tempo, hem?

- Deixe-me olhá-la direito! - e segurando a mão de Helena para ao alto, fez com que ela girasse em torno do próprio eixo. - Uau! Espero que seu marido não veja a minha saliva escorrendo da boca!

- Sempre engraçadinho, ! Marido? Estou viúva. Sabe que este óculos e cabelinhos grisalhos lhe ficaram bem?

- Viúva? Então estamos nós dois descompromissados! O que não é o destino? Você sumiu do mundo! Nunca mais a vi nem tive notícias. Você está morando em Brasília?

- Não querido, moro no Rio de Janeiro. Vim especialmente para a reunião. Você está de parabéns por juntar tantos amigos depois de tanto tempo. Você sempre foi muito tímido e agora se mostrou capaz de reunir centenas de pessoas. Como foi isso?

- Helena, sempre fui franco com você, confesso que esta festa foi um pretexto e uma isca. Eu não estava preocupado em reencontrar todo esse povo. Esse foi o meu caminho para encontrar você. Vamos dançar?

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Bem narrado, mas de trama um pouco ingênua.

 

9

CRISTIANE BRUM

Tantas personagens juntas, em tão poucas linhas, continuam desconhecidas do leitor. Não senti o clima da música no texto, apesar da referência ao tema em geral. Além disso, o diálogo final ficou muito forçado. O personagem aparece como o organizador da festa, numa passagem completamente impessoal e, de repente, o leitor topa com ele fazendo juras de amor para uma completa desconhecida (não dele, mas do leitor)? Não me convenceu, mesmo com o tom leve e despretensioso da narração.

7

LIANA FERREIRA

Não consegui sentir a música no conto. Os diálogos são superficiais e não chegam a me empolgar como leitora.

7

LUCI AFONSO

Ao abordar superficialmente a vida de várias pessoas, sem eleger nenhuma para análise mais detalhada, o conto perde conteúdo. Há incorreções gramaticais

8

MARCO ANTUNES

Difícil reconhecer aqui a canção, naturalmente o espírito pode, com esforço, ser reconhecido na situação de velhos amigos que se encontram. Claro que o(a) autor (a) trabalha bem com as cenas leves, mas, se repararmos, o humor das falas termina por ser repetitivo, precisaria de mais personalidade na linguagem para diferenciar personagem de personagem. O texto é bem escrito, tem bom ritmo, mas faltou “My Way

8

TOTAL

39

CONTO 6

RIO ENLUARADO

MOON RIVER

Alô... Seu Jorge? Boa tarde. Aqui é José da Silva Pereira quem está falando; o senhor está lembrado de mim?... eu sabia que o senhor se lembraria de mim, pois o senhor tem consideração por todo mundo, até por um modesto garçom, como eu. Pois é, Seu Jorge, quem me deu o telefone do senhor foi o Geraldo lá da recepção do hotel. Peço desculpas por estar incomodando, mas eu estou tomando o precioso tempo do senhor para pedir um enorme favor... como? Ah, sim... a vida é assim mesmo... o senhor pode até dizer que é marxista, pois ninguém vai se meter com o senhor. Já eu... quem sou eu? Um pobretão simplório, como já fui obrigado a ouvir de uma madame que estava hospedada aí no hotel, antes de eu ir para os Estados Unidos. A gente engole cada baita sapo na vida, não é mesmo? Tenho um amigo que costuma dizer que a gente engole sapo demais pra poder comer uma perereca... quer dizer, não o senhor, não é, Seu Jorge? Mas eu... fazer o quê, ? Mas não estou reclamando não, pois devo tudo ao senhor, Seu Jorge. Veja só. Nasci bem pra lá do Irajá e só freqüentei até o quarto ano primário. Mas aprendi o português suficiente para não ser enrolado por advogado, e a quantia certa de aritmética para não ser enganado por patrão... não! Não estou falando do senhor não, Seu Jorge. O senhor é o melhor patrão do mundo; tanto é que o senhor me aceitou como garçom nesse hotel fabuloso, essa maravilha de palácio que o senhor herdou aí em frente da praia mais famosa do mundo. E o senhor também é muito sensível aos problemas dos outros. Quando o senhor ficou sabendo que eu também gostava de jazz, embora não conhecesse tão bem como o senhor, e que eu estava juntando uma gaita para ir-me embora para os Istêites, fez questão de pagar a minha passagem para Nova Iorque. Não é qualquer garçom que pode viajar num Constellation da Panam, não é, Seu Jorge? Muito menos um sujeito chamado Zé da Silva Pereira. Sobrenome mesmo é Guinle! O senhor, com perdão da palavra, nasceu com a bunda virada pra lua, Seu Jorge. Esteve sempre na hora certa, no lugar certo e com as pessoas certas. Right time, right place and right people... viu só como o meu inglês está bom? Até isso foi graças ao senhor, que me ensinou o caminho das pedras. Se não fosse o senhor, eu teria ido parar em Miami, em vez de ter ido para Nova Iorque. Deus escreve certo por linhas tortas, não é assim que se diz? Eu sei que o senhor não acredita em Deus, mas foi ele quem fez o senhor ter tanta sorte na vida. Até aquela loira deslumbrante que morreu na semana passada o senhor papou. E ainda dizem que ela era apaixonada pelo senhor. Como era mesmo o nome dela? É... é isso mesmo: Marilyn. Mas também foi Deus quem me deu essa cara bonita, pois teria sido muito pior se, além de pobre eu ainda fosse feio, não é mesmo, Seu Jorge?

Como?... será que dá para o senhor falar mais alto, por favor?... ah, sim... vou contar para o senhor. Quando eu cheguei em Nova Iorque, fui diretamente para a casa do Seu Rusty Trawler, como o senhor tinha dito para eu fazer. Por falar nele, o senhor sabia que rusty é “enferrujado”, em inglês? Ah... então é apelido? Pois é, ele parece mesmo um porquinho cor de ferrugem... mas é um cara bacana, coitado. Aliás, muito obrigado por ter escrito aquela carta de recomendação para ele, Seu Jorge. Como eu ia dizendo, trabalhei uns dez meses como mordomo do Seu Rusty, que só podia mesmo ser amigo do senhor... camarada boa gente está ali. Só que ele é da pesada. Não sei se o senhor sabe, mas o negócio dele é whisky e a noiva boliviana... é... isso mesmo... poeira... neve andina.  Numa noite, o motorista teve de se ausentar, e acabou deixando o Seu Rusty na mão. Daí, eu me ofereci para dirigir o automóvel. Ah! Eu tinha me esquecido de contar que ele... sim, o Seu Rusty... ele andava comendo uma gostosona doida pra dedéu que vivia de pileque, chamada Mag Não-Sei-das-Quantas, e que era amiga de um artista japonês que tinha seis dedos em uma mão. O japonês parecia um daqueles marinheiros que não sabem que a guerra acabou e ficam dentro de um submarino ou numa ilha pelo resto da vida, manja?... isso! Assim mesmo! Um cara neurótico, completamente maluco. Então, como eu ia dizendo, a tal da Mag queria ir até o ateliê do japa ver umas fotografias que ele, o japonês, tinha tirado dela. Falei em ficar esperando no automóvel, mas o Seu Rusty fez questão de que eu subisse com eles até o apartamento do samurai. Daí eu fui. Acontece que no apartamento debaixo do ateliê estava tendo uma festa do balacobaco, e era onde morava uma amiga da Mag, uma magrinha da pá virada chamada Holy. Acabamos entrando na festa, que era um embalo daqueles. Tinha uma lelé da cuca gargalhando de cara para um espelho. De repente, ela começou a soluçar até o rosto virar uma meleca de lágrima e maquiagem; daí ela caiu na gargalhada de novo. A Mag tomou umas oito doses de bourbon e desabou no tapete, o Seu Rusty agarrou uma morena bonita, e eu fiquei conversando com um escritor supimpa que se apresentou como Paul, mas que um cara atarracado teimava em chamar de Fred. Bom, mas isso não vem ao caso. Acho que o Paul, ou Fred, não sei, era meio gamado pela Holy, a dona da festa. Percebi pelo jeitão dele, quando ela se aproximou e puxou papo comigo. Ela nunca tinha conhecido um brasileiro antes, e caiu na minha rede. Eu não queria magoar o Fred, ou Paul, mas, sabe como é que é, não é? Papo vai, papo vem, e a gente acabou na cama dela. Ela me disse que era divorciada. A propósito, quando é que vão instituir o divórcio aqui no Brasil? É muito atraso da gente em relação aos americanos, não é mesmo, Seu Jorge? Bom. Ela me disse que o ex-marido dela era um fazendeiro texano, um veterinário chamado Doc Golightly... sei. Eu sei que estou sendo chato, Seu Jorge, mas eu estou dizendo os nomes de todas as pessoas que eu for lembrando, para que o senhor possa conferir que eu não estou exagerando... é só por isso. E, como o senhor sabe, garçom tem de ter memória boa. Pois é... daí, pelo que eu pude entender, ela me perguntou se eu tinha algum terreno no Brasil. Então eu disse que tinha... qual? Acho que eu já falei para o senhor sobre a escritura de um lote que o meu pai passou para mim lá em Belford Roxo. Ela achou chiquérrimo o nome “Belford Roxo”, que repetia, fazendo um muxoxo à francesa, queria só que o senhor visse; um verdadeiro luxo aquela bonequinha. E, além de tudo, ex-mulher de um rancheiro texano. Finalmente eu ia tirar o pé da lama. Numa manhã, ela fez questão que a gente entrasse em uma joalheria grã-fina, que lembrava um pouco a Confeitaria Colombo. Quando eu percebi que ela estava vidrada em um colar de brilhantes, e que ia sobrar pra mim, eu disse pra ela que no Brasil a gente encontra diamante no meio da rua, em qualquer lugar. Uns três dias depois, a barra pesou. Ela recebeu um telegrama, informando que o irmão dela, que também se chamava Fred, tinha morrido num acidente de jeep. Ela ficou desesperada e começou a quebrar tudo. Depois se pôs a chorar convulsivamente. Foi muito triste ver aquele brotinho chorando, sem poder fazer nada. Mas, quando eu disse que queria me casar com ela, parece que ela esqueceu imediatamente a morte do irmão... não! Não era só por interesse, não. É claro que eu também queria tirar uma casquinha, mas eu até que estava começando a gostar dela... o que o senhor disse? Essa Companhia Telefônica está cada vez pior, não é, Seu Jorge?... Ah, sim... mas é lógico que o fato de ela ser ex-mulher de rancheiro texano influía bastante, pois já estava mais do que na hora de eu poder pendurar as chuteiras... não, é só o modo de dizer, a minha única participação em football foi como goal-keeper numas peladas de fim de semana em Olaria. Comprei para ela um long-playing gravado com um portuga falando um monte de asneiras, e ela começou a aprender português pela vitrola. O Seu Rusty tinha se casado, parece que pela quarta ou quinta vez, e vivia passeando pela Europa, de modos que a minha vida era do borogodó. Imagine, Seu Jorge, ser mordomo sem patrão é o mesmo que ser o dono do pedaço, não é mesmo? Uma noite, eu estava conversando com o Bruce, um sujeito meio índio que trabalhava como jardineiro do Seu Rusty, e a televisão estava ligada, aliás, todo mundo tem televisão lá, não é, Seu Jorge? Então. Passava um noticiário, mas eu não estava entendendo nada. De repente, eu vi a Holy e o Paul, ou Fred, sendo levados algemados pela polícia. Perguntei para o Bruce o que estava acontecendo, ele prestou atenção na notícia e me disse que o cara era um escritor chamado Var Jack, ou alguma coisa parecida, e que ela se chamava Lulamae. Não é possível, disse eu ao Bruce. Daí ele telefonou para um amigo dele que trabalhava como copeiro no Departamento de Polícia de Nova Iorque, perguntando se dava pra ele descobrir alguma coisa sobre o assunto. No outro dia de manhã, o Bruce veio me contar que eram realmente a Holy e o Paul, que, finalmente acabei sabendo que não se chamava Fred. Eles eram parte da quadrilha de um contrabandista e traficante de cocaína, um certo Sally Berinjela, se não me falha a memória. Daí, eu escrevi um bilhete para a Holy, e tirei o time. Sebo nas canelas, que eu não sou trouxa. Acho que Deus castigou a minha tentativa de dar um golpe do baú. O baú era, no final das contas, uma arca de problemas... como? Caixa de quem? Pandora? Não, não conheço, Seu Jorge.

Bom. Ainda fiquei até o final do ano lá em Nova Iorque, e voltei para o Rio. Mas já estamos na metade de agosto e continuo descolocado. Então, o favor que eu queria pedir é que o senhor me readmitisse como garçom aí do Copa. Agora eu já sei um pouco de inglês, e a Holy me ensinou um bocadinho de francês... muito obrigado, Seu Jorge. Com o Paulão, não é? Então passo aí amanhã sem falta, e falo com ele. Muito obrigado. Não se preocupe. É tudo uma questão de ter categoria, Seu Jorge. Um mendigo sem estilo é menos que um mendigo, não é verdade? Aprendi coisa à beça com o senhor. Um dia, ou melhor dizendo, uma noite, ainda hei de cruzar esse Rio enluarado, do Largo do Machado até o Leblon, com classe... com muita classe. Que Deus lhe pague, Seu Jorge.

***

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Idéia muito boa. Talvez o texto pudesse ser mais enxuto.

9

CRISTIANE BRUM

Conto bem interessante, com o inteligente artifício do telefone, que economiza um bocado de linhas. As citações do garçom são muito legais, ainda mais falando com o “Seu Jorge”. Fazem o leitor ficar imaginando o que o cara estaria dizendo em resposta... Mas e a música? Não senti o clima “enluarado” no conto, apesar da citação do Rio.

8

LIANA FERREIRA

Adorei a sensação de estar ouvindo uma conversa, em linha cruzada, entre o espirituoso garçon e seu Jorge. O autor conseguiu nos envolver num clima de curiosidade e interesse genuínos pelos eventos e personagens ali descritos. Pena que Moon River tenha tido apenas um pequeno fluxo de maré.

9

LUCI AFONSO

A idéia de desencavar o narrador José da Silva Pereira do elenco do filme “Bonequinha de Luxo” resulta num texto leve e bem-humorado, mas que não explora contradições que o enriqueceriam. Redação excelente.

9

MARCO ANTUNES

 Um interessante exercício com as adoráveis personagens de Breakfast at Tiffany's, romance de Truman Capote que se converteu no grande sucesso de Blake Edwards , mas embora divertido e bem escrito, com especial louvor para a personalidade lingüística bem definida do nosso muito bem relacionado garçom, o conto não me convenceu como possível trama para que Moon River incidisse como trilha sonora, nem mesmo a graciosa reinterpretação do Rio enluarado me convenceu  de que o (a) autor(a)  tenha tentado atender ao desafio, pois preferiu, sem precisar - porque é bom escritor, fugir da proposta.  Por assim dizer, há uma estreita área de intercessão entre o conto e a carreira cinematográfica da canção, mas não há com seu tema ou sentido! Tenho que confessar minha decepção em não poder ler um conto que se inspire na beleza que tem uma letra que diz: Há uma grande quantidade de mundo para se ver,
Nós procuramos a extremidade do mesmo arco-iris, seguindo através de suas curvas
Meu amigo Huckleberry, Rio da Lua e eu!”
Fico com a impressão de que o(a)  excelente contista não quis sair de sua zona de conforto e enfrentar um enredo mais lírico.

8

TOTAL

43

CONTO 7

CAPITU  CANTA TRISTESSE

TRISTESSE

É um depoimento na contra-mão:

 

O sentimento do trágico, do fúnebre contido na letra me traz Dom Casmurro  com toda a sua habilidade de autor da história, dono da verdade portanto, cheio da maior dor do mundo .

Todas as vezes que li o livro em diversas idades, pensei muito na possibilidade de ter junto com ele – e pelas informações  sempre dirigidas – enterrado viva a pobre Capitu.   Foi exilada sem defesa.  Aceitou seu destino estoicamente em nome de quê?

 

No momento em que ele decide morrer, com o veneno no bolso vai ao teatro! Lá vê a peça Otelo – não será uma dica do autor?

 

Confessar assim seus piores pecados – desde desejar a morte da própria mãe para se livrar do seminário e casar,  até envenenar o próprio filho?

 

Em todo o romance não há a palavra de Capitu senão por citações e ela é adorável, realmente.

Calculista, dissimulada, prestativa, amorosa, poupada, vaidosa?

Tudo isto e mais é a personagem polêmica.

 

Sobre o amor, o bem-querer cultivado não há dúvidas.

Sobre o transbordamento deste amor e a transformação dele em outro sentimento sem nome me parece o  tema lançado com o objetivo de levar o leitor ao mesmo trágico engano – cada um de nós vira o Dom Casmurro – achando justa a paga por uma traição sem provas,  conduzida pela cegueira de um ciúme doentio.

 

Capitu, lá na Suíça, teria suas cartas guardadas sem remessa vendo que as que ousou mandar  foram respondidas com frieza, quando o foram. A certeza da inutilidade  de qualquer defesa  a faz calar para sempre aceitando religiosamente – Deus quis assim – sua sina.

 

Dá vontade então de fazer a defesa de Capitu . Dá vontade de coletar todas as passagens em que é calculista e mostrar que colocava seu calculismo a serviço de seus sentimentos  e de seus objetivos – se queria ser bem quista pela futura sogra, se queria ser a Sra. Santiago, se queria ter um filho e ele não vinha...

Queria economizar? Dez libras, dinheiro convertido para valer de verdade, às escondidas pelo amigo Escobar.

Queria se exibir como Sra. Santiago? Em dia nublado ou dia de sol, de braço dado e chapéu, para que todos a visse e falassem.

 

Queria só ser prestativa sem pagas? Sancha doente ganha enfermeira e Gurgel admira de graça seus préstimos, chega a compará-la com a mãe de Sancha em virtude.

A beleza e a vaidade sempre juntas  a fazem parar mais demoradamente diante do espelho. A responsabilidade e amor filial a fazem substituir a mãe morta  com desvelo.

Ora fútil, ora zelosa.

 

E toda a felicidade demonstrada mantida mesmo depois da chegada do filho?

A altivez em um momento delicado:

“– Há coisas que não se dizem.

-  Que não se dizem só metade; mas já que disse metade, diga tudo.”

 

O orgulho também cala Capitu. Todo o comportamento tresloucado de Santiago adulto é suportado por ela e nós leitores, quando lhe damos a chance de defesa, lembramos do garoto se jogando na cama e se mortificando pela simples imagem da sua amada olhando para o cavalheiro que a olhou na janela e que, por certo passava ali todos os dias, etc e tal.

E os braços nus no baile?  Quanto ciúme!

O monstro de olhos verdes tomava o adulto advogado sem parcimônias.

 

No momento do pretenso suicídio, o autor nos dá pronto o julgamento:

Bentinho e Capitu olham ao mesmo tempo para o retrato de Escobar quando chega Ezequiel na sala gritando que está na hora da missa.

Mas ela olha pelo absurdo proposto momentos antes e ele olha por acreditar no absurdo proposto.

 

E em vez do desespero,  toma conta da nossa heroína uma tristeza sem fim.

Tristeza  por se ver sem remédio, sem saída.

Tristeza, ainda com uma pequena esperança incoerente de que sobre alguma memória, alguma  cor no preto-e-branco apresentado.

 

Lendo novamente Dom Casmurro não consigo deixar de ouvir a música trágica e fúnebre Talvez também a outra Tristesse (a de Chopin) servisse, lembrasse o final tão desprendido do Bentinho do Machado de Assis apesar de tudo.  É o final onde triunfa o engano e é louvada a vitória sobre o Amor – que quando é demais enlouquece, ensurdece, emudece , cega e faz com que o bem mais precioso seja estar livre dele a qualquer preço sendo o crime julgado e absolvido por ser em “auto-defesa”.

 

Toda a naturalidade e indiferença tentam disfarçar a falta da resposta para a indagação – “Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer  a primeira amada do meu coração?”

 

Bentinho, Dom Casmurro, à contragosto a ouve cantar baixinho (não tinha boa voz) enquanto  mantém seus olhos de ressaca  a expressão  conformada e afetuosa:

 

“...lembra, lembra, lembra ....”

 

Até o dia de seu último suspiro.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Delicado e  crítico.

9,5

CRISTIANE BRUM

Fiquei esperando pra ver onde entraria a história e as personagens, mas o texto só trouxe o relato com as impressões do autor sobre o livro de Machado. Um bom comentário, por sinal. Ainda que haja uma conexão entre música e texto – a associação da letra com a situação de Capitu –, não consegui ver a tarefa cumprida.

6,5

LIANA FERREIRA

Definitivamente não é um conto e nem contempla a música.Esta mais para uma resenha do livro de Machado, que inclui a opinião do contista. Será que posso deduzir que o autor, ao avaliar o romance, está querendo trocar de lado neste concurso?

6

LUCI AFONSO

O conto foge ao tema proposto. Parece falar de outra canção. Há incorreções ortográficas e gramaticais.

7,5

MARCO ANTUNES

É com muita tristeza, por concordar com o(a)  autor(a)  em quase tudo o que defendeu no texto, que preciso reconhecer aqui, como jurado, que não se trata de um conto! Sim, é um depoimento na contramão, mas não é um conto! Teria sido muito fácil produzir um diálogo, com alguma tensão dramática, em que se expusesse a bela comparação entre o sentido da letra e a obra de Machado, mas não foi o que aconteceu, levando-me a ter que atribuir a nota mínima para não fugir à convenção de notas que nós, os jurados, estabelecemos.

6

TOTAL

35,5

CONTO 8

ALÉM DA CANÇÃO

AL DI LA

- Sua nonna Edda morreu louca!

 

Foi com essa notícia que mamãe voltou do enterro realizado há poucos dias na pequena cidade no interior da Ligúria.  Minha , aquela mulher bonita, de olhos claros e pele muito branca, tão distante de mim quanto a própria Itália, tinha morrido. Fato pouco comovente em se tratando de uma figura de cor sépia que só fazia parte da minha vida graças a uma única foto antiga e ao sobrenome no meu passaporte italiano. Se até para minha mãe, a existência de Edda era uma mera lembrança, que diria para mim, o único neto da única filha que ainda jovem abandonara os pais na Itália  por um grande amor brasileiro.

 

- Morreu louca, mãe? Como assim?

- Louca, Enzo! Louca! Os vizinhos disseram que ela passava o dia inteiro ouvindo a mesma música numa radiola caquética que meu pai deu pra ela no século passado. Mamma já não fazia mais nada direito, passava o dia cuidando da  vitrola, indo e vindo com a agulha para repetir a mesma música até o entardecer. Aí se sentava na cadeira de balanço em frente à janela e dormia cantarolando. Coisa de gente doida, meu filho!

 

Quem parecia doida era ela. A forma como falava da mãe mostrava uma indiferença chocante. Mas eu já estava acostumado a esse tipo de reação. Minha mãe era assim: a típica mulher amarga, mal-amada, como dizem por aí. Largou uma vida de princesa na Europa por causa da paixão fulminante por um estudante brasileiro e, depois da fuga, tudo o que conseguiu foi uma gravidez fora de hora, um casamento solitário e infeliz, uma traição seguida de abandono e uma mágoa familiar do tamanho da tradição italiana. Nunca mais teve coragem de procurar os pais. Acho que o remorso pelo rompimento com a família e pela péssima escolha, somada à desilusão amorosa, estragaram minha mãe. Ela acreditava que os pais dela, a Itália, o amor brasileiro, e até eu, todos éramos devedores da felicidade que a vida lhe roubou. Minha mãe tornou-se uma credora eterna, uma pessoa frustrada, ressentida com a existência. Era como se pessoa alguma no mundo inteiro pudesse ter sofrido mais do que ela por amor. E nunca mais conseguiu amar ninguém. Até hoje vive sozinha. Desacreditou do amor.

 

- Vou deixar aí com você umas quinquilharias da sua nonna. Separei umas coisas antigas que podem te interessar. Você gosta dessas velharias, não é mesmo?

 

                                                                                                                                          Quanta insensibilidade! Ainda bem que herança de mágoa não é genética. Maldito sangue esse da minha mãe, contaminado de desgosto! Às vezes é quase impossível acreditar que ela é filha daquele anjo de simpatia que me olha por trás do vidro encardido do porta-retratos.  Desde que eu vim morar sozinho, tem sido assim. Tudo o que possa lembrar mamãe do passado, ela deixa aqui na minha casa. A desculpa é  sempre a mesma: “Você adora antiguidades, não é mesmo?” Assim, apareceu na minha sala a única foto de um ascendente, o retrato de minha , roubado por minha mãe quando veio para o Brasil para curar uma esperada saudade da qual nunca adoeceu.

Ela tem razão, eu gosto de antiguidades. Estranho esse meu vínculo com o passado... Espécie de compensação pelo desprezo que minha mãe tem por tudo o que cheira à história, principalmente, à história dela. Gosto de ver a imagem dessa mulher desconhecida, com sua beleza antiga, com sua aura de mistério e passado, trazendo recordações de um tempo em que não vivi, criando laços imaginários entre a minha vida e a dela.. A foto antiga dentro do porta-retratos de bom gosto acabou virando um adorno para a minha estante. Um adorno especial, charmoso por se tratar de uma imagem ligada a minha memória familiar.  Olhando o retrato, chego a duvidar do nosso parentesco, não consigo conceber, na prática, uma avó como aquela: jovem, bela, um olhar cheio de desejos, um sorriso que convida à vida.

O vidro separa nossas realidades distantes, paralisa o tempo e desfaz o possível elo de hereditariedade. Ela realmente existiu? Essa mulher viveu... amou... teve filhos...envelheceu... e morreu?

                                                                                                                                          Mamãe deixou o pacote mal embrulhado em cima da mesa e despediu-se com um tchauzinho chocho. “Volto mais tarde para almoçarmos juntos, pode ser?”

                                                                                                                                          Pode ser, pode ser... Pode ser uma oportunidade de saber algo mais sobre a bela Edda, essa minha ficção, sonegada por minha mãe das minhas fantasias infantis, da minha adolescência rebelde, da minha curiosidade de adulto. Abro o pacote transbordando expectativa. Um monte de revistas velhas, amarradas com um barbante de algodão roto. Dois maços de cartas cuidadosamente acomodados em um saco de papel de padaria e um disco. Um vinil daqueles pequenos, compactos. Na capa de papelão amarelada, quase desmanchada pelo tempo, o selo enorme da Odeon estampado bem no centro, onde posso ler Festival della Canzone Italiana di Sanremo1961. Sacudo a embalagem. A fenda, por onde deslizam o disco e mais um pequeno envelope azul, está cheia de marcas de dedos, assim como o plástico leitoso que revela somente uma faixa de música de cada lado. “Lato A: Al Di -  Luciano Tajoli e Betty Curtis – Primo luogo”, “Lato B: 24.000 Baci, com Adriano Celentano e Little Tony  Secondo luogo”.

                                                                                                                                          Minha mania de quinquilharias me garante matar o desejo de ouvir o disco. Tenho um tocador das antigas, agulha de diamante. O som que sai do disquinho é chiado, gasto, típico de vinil que já tocou demais e quase furou. A melodia é familiar e parece acordar em mim alguma experiência que não recordo, mas que, por alguma razão, conheço. Talvez toda música antiga tenha um inexplicável quê de déja vu, não sei.  Me esforço para entender o que canta a voz potente do cantor sobre o solo feminino de fundo. Meu sôfrego italiano mal precisa entrar em cena para que eu reconheça tratar-se de uma canção romântica, daquelas que falam de amores impossíveis. A harmonia da música, o timbre melancólico das vozes, as notas mais longas no final de cada estrofe...

Gosto da canção. Tenho vontade de entender o que diz a letra, mas não há referência na capa do disco. Vasculho lá dentro do papelão e me lembro do pequeno envelope, de um azul esmaecido, que não parece ser de uma carta, pois não há identificação de remetente e nem de destinatário. Do envelope, retiro um delicado papel de seda  dobrado em quatro. Desfaço a dobra e  encontro, escrito em caneta tinteiro, o que parece ser um bilhete. Um bilhete de amor para minha avó, pois inicia-se com “Edda mia”. Quem escreveu parece ter adivinhado, no mínimo,  a minha primeira curiosidade: o que diz  a música? A essas alturas, já tenho inúmeras outras.  O que encontro, grafado numa caligrafia firme e bonita, é exatamente a letra da canção que estou ouvindo, “Al di lá”. A coincidência me arrepia. “Além do bem mais precioso, existe você. Além do sonho mais ambicioso, existe você...” E assim vou lendo uma verdadeira e clássica declaração de amor musicada, até encontrar, sublinhados pelo autor do bilhete, os versos: “Além dos limites do mundo, existe você. Além da curva infinita, existe você. Além da vida, existe você”.

Tento sincronizar música e letra e vou cantarolando a canção enquanto leio o bilhete. A sensação de cantar em italiano tem um delicioso sabor de passado, uma lembrança sem juízo, sem nitidez, mas que me emociona de forma incompreensível.  Estou quase cantando o último verso, quando percebo que ele não tem correspondência com a música. “Neste além, não desisto de esperá-la”. A frase é de Victorio, o homem que assina o bilhete para minha avó com um carinhoso “Tuo Victorio”.

Termino a leitura completamente atordoado. Num gesto automático, antes de cogitar qualquer pensamento, recoloco a agulha no início da música e desejo, com toda força, que a melodia me ajude a embalar a razão rumo a algum entendimento. Al di lá toca minha mente para além da compreensão. Olho para Edda no retrato e descubro, com um atraso de décadas, que minha avó era uma mulher apaixonante, lindíssima, encantadora.

Victorio não é meu avô. Sei muito pouco sobre o marido de minha avó, mas carrego no meu nome um “Giuseppe” em sua homenagem. Sei também que morreu pouco antes dela e foi a própria quem cuidou de tudo pessoalmente: do velório à  herança. Minha mãe abocanhou um pedaço da última parte e não fez a menor questão de viajar para o enterro do pai.

           Enquanto a voz grave de Luciano Tajoli tumultua meu raciocínio, tento pescar nos parcos  fatos que minha mãe me contou sobre meus antepassados alguma dica de quem seria Victorio e que relacionamento teria tido com Edda. A tentação de pegar o telefone e ligar para minha mãe quase me atrapalha a investir numa opção melhor. Mamãe não sabe nada de minha avó. Se soube algum dia, fez questão de esquecer. Lembro-me das cartas que vieram no pacote junto com o disco. Quem sabe uma pista?

Al di lá já está entranhada na minha mente como um fundo musical, para além de qualquer controle. Enquanto desfaço os pacotes, me dou conta de quão desconhecida era minha avó também para a minha mãe. A mágoa dela roubou de mim a chance de conhecer a minha história, os meus antepassados. A amargura de minha mãe reduziu a convivência com meus avós a um pacote velho e empoeirado de coisas antigas, papéis sem importância, cartas...

Os dois maços separam as cartas endereçadas a Edda Maffeo e a Victorio Pelegrinni. No primeiro, nenhuma delas está aberta. A caligrafia do remetente é a mesma do bilhete, mas os envelopes amarelaram fechados, com as bordas marcadas pelo volume do papel dobrado dentro deles, pela cola envelhecida dos selos e pela tinta dos timbres.  São dezenas, intactas, à espera da leitura, agora impossível, de Edda. Não ouso abri-las.

No segundo maço, os envelopes estão bem conservados e abertos. Não fosse pelas manchas e amassados do tempo, diria que são novos. Apenas um nome no verso: Victorio Pelegrinni. As cartas de Edda jamais foram postadas e jamais chegaram às mãos de Victorio. Como estão abertas, não resisto ao ímpeto de ler, pelo menos, a primeira delas. Está datada de janeiro de 1962 e parece, pela cor, ser a mais antiga de todas. Com meu italiano tosco, entendo que Edda se diz comovida com o presente de Victorio. “Procuro ouvir todos os dias a nossa canção, mas não posso prometer-lhe nada, meu querido. Desde o nosso inesquecível encontro, no último dia do festival, penso em você a todo instante, mas nunca escondi a minha condição. Por mais inevitável que seja o meu desejo de estar ao seu lado, não posso deixar meu casamento. Victorio, meu amor por você está além de tudo isso...

Devoro todas as cartas escritas por minha avó. Agora entendo a história de Edda e Victorio. Agora entendo a história de Edda e Giuseppe. Aquela mulher do retrato, aquela avó distante e irreal, escolheu viver um casamento possível, conveniente talvez, enquanto alimentava, com a alma perdida no além da realidade, um amor impossível.  Passou a vida escrevendo cartas para o amado Victorio sem ter a coragem de ouvir , além de Al di lá, o que seu enamorado desejava dizer-lhe. Jamais ousou corresponder ao amor real, declarado nas cartas por Victorio. Transformou sua vida em uma eterna espera, repleta de fantasias e esperança. Minha avó envelheceu apaixonada.

O barulho da maçaneta interrompe Luciano Tajoli. Minha mãe grita da porta, sem a mínima consideração pelo maravilhoso som que enche a sala:

- É essa aí, Enzo! Então, é esse o disco... Foi isso mesmo que os vizinhos me disseram: Al di lá! É essa a música que mamãe ouvia sem parar antes de morrer... Tava louca mesmo, a coitada!

Escondo as cartas rapidamente. Enfio o pacote dentro do armário, antes que minha mãe possa repetir, com a mesma cara falsa de agrado, a tradicional ladainha: “Você adora antiguidades, não é, meu filho?”

                                                                                                                                          Tenho pena dela. Tenho pena, porque ela não sabe de nada. Tenho pena, porque perdeu a oportunidade de transformar o seu ressentimento em empatia, a sua mágoa em ternura. Tenho pena, porque sequer desconfia que a mãe dela também sofreu por uma paixão. Tenho pena, porque não foi capaz de perceber que Edda morreu louca, sim. Morreu louca de amor.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Muito bonito. Caberia algum retoque na linguagem.

9,5

CRISTIANE BRUM

Bonito demais, comovente. Lá pelas tantas, a tristeza da personagem – qual delas, afinal? – passa pro leitor. A descoberta das cartas e o fato do cara não abrir nenhuma das que estão fechadas é o toque final. Parece que a música realmente nos embala durante a leitura. Emocionante.

10

LIANA FERREIRA

Maravilhoso. Lindo. Emocionante!!!

 

10

LUCI AFONSO

O amor vence o tempo e a morte nesta estória fascinante, narrada com perfeição.

 

10

MARCO ANTUNES

É tão lindo e tão apaixonado e tão verdadeiro o conto que, mesmo um remoto incômodo por algumas partes que poderiam soar piegas, não me demove da emoção! Afinal, só é ridículo quem nunca escreveu cartas de amor, me sopra o poeta providencialmente! Terminei de ler o conto, dramático, bem realizado e pleno de vida honesta (mais que verossímil) e fui ouvir Al Di La, deu vontade de rever “Candelabro Italiano”! Que digo...? Pra que mentir? Deu vontade de viver um grande amor!

10

Com louvor!

TOTAL

49,5

CONTO 9

UNICÓRNIO AZUL NA MANHÃ DE SÁBADO NO CONJUNTO NACIONAL

UNICÓRNIO AZUL

                                                                                                                                          Acordei pensando na criatura. Tharcilla respirava cadenciadamente, mergulhada no vale dos sonhos. Levantei-me, como sempre, às cinco horas. Gosto de ver a madrugada se desfazendo nas brasas frias do amanhecer. Leio. Escrevo, às vezes, pequenos poemas, como o ourives lapida a jóia que dará à mulher amada. A lembrança retornou, tênue, como o perfume das mulheres mais bonitas do mundo, que só vemos nos grandes aeroportos internacionais, de madrugada, e sempre separadas de nós por paredes de vidro. Mas a recordação invadia-me paradoxalmente azul como o céu de Belém do Pará, no meio da tarde, em julho. Acaso um avião cortasse o céu, de tão azul, sangraria. “Certamente vou encontrá-la” – pensei, porém com a sensação, embora vaga, de pânico. “Terá sido um sonho? Não!” E fui à biblioteca, abri a gaveta da minha escrivaninha, a última, e lá estava, bem no fundo, o cartão, no qual se lia “Unicórnio Azul”.

Ontem, sentia-me perfeitamente impune no meio daquelas lindas e delicadas criaturas. Entrara ali com minha mulher e enquanto a aguardava fiquei a ouvir, deliciado, o palrar de tão encantadoras companhias. O fato de ter sido criado por minha mãe e por minha irmã mais velha, a quem chamava também de mãe, isso, além do convívio com dezenas de mulheres da família, sendo eu o único varão, determinou em mim a necessidade, vital, do elemento feminino. Onde quer que estivesse, procurava, avidamente, a presença feminina, para respirá-la, oxigenar-me, ligar-me ao éter, à vida. Só então sentia-me tranqüilo. Lembro-me que nos fins de semana recebíamos sempre muitas tias e primas. E lembro-me, particularmente, das gêmeas Zina e Zínia, uma loura e outra ruiva, que me iniciaram nos prazeres, não propriamente da carne, mas do contato de peles acetinadas, perfume de cabelos sedosos, toques de mãos delicadas, gosto de lábios sumarentos como rosas vermelhas esmigalhadas, a hipnose do olhar, em meio àquelas sensações que hoje me são tão caras.

                                                                                                                                          Encontrava-me numa espécie de ambiente híbrido, uma grande e antiga loja, no Conjunto Nacional, mistura de salão de beleza, butique e sala de estar, onde uma quantidade imensa de amigas de Tharcilla - principalmente as que freqüentavam sua galeria de arte naquele mesmo shopping - passava as manhãs de sábado em alegre bate-papo. Ali estava eu, aguardando Tharcilla no meio daquela multidão feminina, acomodado no canto de confortável sofá de couro marrom, fingindo ler Veja.

                                                                                                                                          Fiz que não vi quando no sofá à frente uma potranca subiu a saia para mostrar à uma princesa sua nova coxa, absolutamente livre de celulite. Engoli em seco. Bem ao meu lado, uma loura de pele deslumbrante pressionava o traseiro em mim ao mover-se para falar com sua interlocutora. Lembrei-me de um dia, em Belém. Pegara um ônibus em São Brás com destino à Estação das Docas. Nem bem me acomodei no banco e uma ninfeta pediu licença e se sentou ao meu lado, e logo começou a pressionar sua coxa na minha, fitando-me e sorrindo. Entabulou conversa. Nem me lembro mais sobre o quê. Quando dei pela coisa ela estava com a mão na minha coxa. Antes de chegarmos à Praça da República, deu-me inesquecível beijo na boca e desceu na Avenida Nazaré, deixando, atrás de si, um rastro de flores. Não fora essa a única vez que coisas desse tipo aconteceram. Exerço irresistível atração sobre ninfetas. Meço um metro e oitenta em bem pesados oitenta quilos. Tenho rosto oval, queixo quadrado com uma covinha no meio, lábios de Marlon Brando, nariz clássico e cabelos leoninos, contudo o que mais as atrai são meus olhos, que têm a transparência das tardes de julho na Amazônia, e um toque paternal que as deixa loucas. Meu único defeito físico é a mão esquerda. Estive na guerra, cobrindo, para Veja, a invasão do Kwait, e fui atingido por fragmentos de obus na mão. Logo depois me vi prisioneiro das tropas de Saddam Hussein. Iam me julgar como espião e seria enforcado, segundo me informaram. Mas fora tudo um jogo de cena, porém com tempo suficiente para que a mão infeccionasse. Quando me libertaram, o local em que se alojara um fragmento de ferro estava bastante feio. Fui examinado em um acampamento da Cruz Vermelha e um médico, um tipo afável, disse-me que havia minúsculos fragmentos de ferro no osso e que aquilo ainda me daria alguma dor de cabeça. Pois bem, o fato é que minha mão é marcada por profunda cicatriz e ainda não desinchou completamente. Tharcilla diz que aquela é sua mão predileta, porque “é a mão do herói ferido”. Tharcilla bem que merecia se casar com um general em campanha.

                                                                                                                                          Estava imerso nesses pensamentos, fingindo que lia Veja, quando percebi a presença de uma senhora e de uma menina, que devia ter uns quatorze anos, mas bastante desenvolvida para a idade. Possuo faro para ninfetas. Não tenho escrúpulos de confessar: já passaram pela minha cama algumas dezenas delas. Não tenho escrúpulos porque sei que as fiz felizes. Todas elas me procuraram, me caçaram, se impuseram, me deixaram sem ânimo de escapar. E as fiz felizes porque a todas iniciei com muito desvelo e carinho. Toquei-as nas cordas mais sensíveis, e só mergulhei em seus sonhos dourados quando suas entranhas passaram por uma metamorfose instantânea e elas se fizeram mulheres inteiras, com os sonhos loucos das mulheres apaixonadas. Por isso é que minha experiência com ninfetas me autoriza a saber-lhes a idade assim que as enxergo; sei também o peso e a altura.

                                                                                                                                          Aquela que acabara de ver tinha por certo quatorze anos. Estava no auge da maturidade das ninfetas de Wladimir Nabocov - entre nove e quatorze anos. Devia pesar quarenta e oito quilos, no seu metro e sessenta e cinco de altura. Tinha olhos verdes, aquele verde escuro, úmido, saturado de clorofila. Parecia um arbusto jovem, confiante, desafiante, rindo, de dentro de sua incauta juventude. Os cabelos eram um ninho de parasitas, com vida própria, enraizados sobre o crânio oval, encaracolando-se, avermelhados, sobre seus estreitos ombros e tapando, às vezes, com sua claridade ruiva, os olhos de clorofila, até que, como potra, ou unicórnio?, expulsava a crina meneando a cabeça. Acompanhando o caos dos cabelos até onde alcançavam as costas, desci por elas e estaquei o olhar cirúrgico na cintura, inacreditavelmente estreita, abaulando-se à medida que meus olhos, agora sem controle, acariciavam-lhe as nádegas, rijas, redondas, misteriosas. O delírio veio com um raio de sol que escapou de repente de uma clarabóia impossível, incidindo sobre os películos dourados na contextura de pétala da sua cútis. Acordei desse sonho momentâneo com o sorriso da ninfeta bem na minha frente, me encarando. Ficou séria, sempre me olhando. Seus lábios eram polpudos, entreabertos, deixando ver um filete de marfim. O transe hipnótico durou, talvez, sete segundos eternos. Então, ela começou a examinar um biquíni e agora me olhava de soslaio, depois entrou na cabine com o biquíni na mão.

                                                                                                                                          Sentada agora no braço da poltrona, perguntou se na revista havia suplemento infantil, como nos jornais, pois gostava dos contos e dos jogos. E teu nome? Por Deus, não te roças em mim. Sim, estou aguardando minha mulher. E tu? Ela sorria com o rosto bem próximo do meu, tão perto que sentia seu hálito de arbusto de eucalipto. Não sei por quanto tempo namoramos daquele jeito, loucos, indiferentes a tudo o que nos cercava. Será que ninguém percebeu o que estava acontecendo? Acho que tudo se passou apenas na minha mente. O que é que pões na minha mão? Por que escolhes logo a mão esquerda, a mão do herói ferido? É a mão de Tharcilla. Está bem, verei o que diz o cartão quando sair daqui. Guardá-lo-ei no bolso do paletó.

                                                                                                                                          Dei por mim no corredor. Minha mulher trançara seu braço ao meu, com aquele brilho de mulher feliz nos olhos, de mulher amada e que não teme desilusões. Bem que a amava com intensidade - em casa, nos motéis da cidade, na casa de praia em Salinas, nos motéis das estradas, na galeria, e até, uma vez, num quarto perdido na mansão de um amigo meu numa festa de casamento. Meu coração estava marcado por Tharcilla.

                                                                                                                                          Deixei-a na galeria e fui ao Snob para o primeiro trago daquele sábado primaveril. Sentia o sofrimento que as mulheres muito belas me causam, pois desejo engoli-las e ficar grávido delas, e assim sentir a intensidade da ligação umbilical. Pus a mão no bolso do paletó, tirei o cartão e o examinei discretamente. Era um cartão de visita da loja, no verso do qual se lia: “Unicórnio Azul”. Mantive-o na mão do herói ferido, enquanto degustava o primeiro Campare do dia.

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Excelente.

 

10

CRISTIANE BRUM

Achei meio fraca a conexão do texto com a música, apesar da citação do unicórnio e do desejo quase obsessivo do compositor em reavê-lo ter sido representado na sofreguidão do encontro casual do narrador com a ninfeta. Mas não me pareceu que o conto adotou o mesmo tom da música, acho que ficou um pouco acima em excitação. Aliás, a explicação para o unicórnio no conto – que o início do texto deixa em suspenso, misteriosamente – também me pareceu fraquinha, um pouco boba até. E a citação do “mergulho nos sonhos dourados durante a metamorfose instantânea das entranhas” das ninfetas, pro meu gosto, também saiu do tom.

7,5

LIANA FERREIRA

Na manhã de sábado, no Conjunto Nacional, não me foi possível encontrar o Unicórnio Azul. Lamento, porque o conto tem méritos. Sendo assim, no próximo domingo – o segundo de outubro – continuarei a procurá-lo entre o Largo da Sé e o Largo de Nazaré, pois estou enviando a avaliação direto de Belém, aonde vim para tocar a corda do Círio de Nazaré, mas segunda os encontro na justa homenagem durante o Sarau!

8

LUCI AFONSO

Na aparentemente rotineira manhã de sábado no Conjunto Nacional, mergulhamos num mundo azul de sensações e prazeres do qual emergiremos com relutância. A princípio não entendi a relação com a música, mas à medida que adentrei este provocativo, sensualíssimo texto, entendi que a cada um o seu unicórnio azul... A criatura mágica, neste caso, tem entre nove e quatorze anos, olhos de clorofila e só se deixará tocar pela mão esquerda do herói ferido.

10

MARCO ANTUNES

Sumarento?! Sumarento?!!!!!!!! Que palavra horrível! Eu li direito? Li, lá! Sumarento?!!!!!!!!!!!!!! O texto é bem escrito, tem uma dramaticidade na sensualidade que a ninfeta desperta no narrador que é muito convincente. Outro mérito é o cuidado com a camada poética do texto. Claro que não encontrei a beleza lírica da canção imortal de Silvio Rodrigues, cuja fidelidade pediria um texto mais sublime, e, usá-la como trilha sonora do presente conto, terá todos os requisitos para se chamar de sacrilégio! (risos) “Meu unicórnio e eu fizemos amizade, um pouco com amor, um pouco com verdade, com seu chifre de anil pescava uma canção e saber compartilhá-la era sua vocação”. É muito lirismo para a presente história que, embora bem escrita, parece não ter tido a coragem do lírico! Mesmo assim, merece um alto conceito...Mas Sumarento?!!!!! Sumarento????!!!!!!!!!!!!

9

TOTAL

44,5

CONTO 10

LÚCIA E SEU DESTINO

STRAWBERRY FIELDS FOREVER

Na escuridão do quarto do sanatório, o sol penetra timidamente por uma fresta mínima que se forma entre as duas metades da cortina de tecido forrada de “blackout”, transformando o ambiente em um quadro composto de dois lados escuros, separados por uma linha de luz, desequilíbrio de energias que revela prevalência do Yin, a escuridão, sobre o Yang, a claridade. Em contraste com a cadência ritmada do gotejar silencioso do soro, lembranças desordenadas espocam na mente solitária e inquieta presa ao leito.

Lembra de Liverpool, Lucinha? Não, não, peraí, a gente nunca foi a Liverpool. Ou foi? Ah, Lucinha, eu não sei, o que eu sei é que não me esqueço um minuto de você. Assim que te encontrar, vou te dizer isso. E vou repetir quantas vezes for preciso. Tomara que você esteja linda como antes. Daqui a pouquinho vou te ver. Escuta, está tocando a nossa música, lembra-se? Ouça a melodia, “Strawberry Fields Forever”. Dá até para imaginar o John Lennon cantando. Você consegue? Eu te ajudo, amor, me espere, estou chegando.

Um ônibus pára na esquina e dele descem duas crianças, um menino e uma menina, rumo ao Grupo Escolar XV de Novembro. Caminham divertidos, a um passinho miúdo, o do menino mais remanchado ainda, assim como se não quisesse chegar ao destino, mas, sim, aproveitar cada segundo do percurso. Deitado, imóvel, de olhos vendados, de seu quarto escuro o homem vê os meninos caminhando, a escola se aproximando, e repara, quase se convence: a escola parece ser igualzinha ao orfanato de Strawberry Field, aquele onde Lennon brincava na infância, em Liverpool, e que teria servido de inspiração para a canção. Parece coincidência, pensa. Mas dizem que coincidências não existem. Tudo é coisa do destino. É isso. Destino. “Strawberry Fields Forever” foi feita para nós, ela conta a história da nossa infância, Lúcia.

Quantos anos temos? Dez, doze? Lá estamos nós, brincando no pátio, longe das outras crianças. Só nós dois, lembra? Eu nunca tinha beijado ninguém antes. A primeira vez foi aquela, atrás do refeitório, depois da aula de Educação Física. Lembra que na hora do almoço uma radiola tocava música? Todo mundo dizia que era uma forma que a bruxa da diretora encontrava para agüentar aquele emprego. Pois naquele dia e naquela hora, Lúcia, tocava “Strawberry Fields Forever”. Eu não me esqueço. Estava suado do futebol, você colou seu corpo no meu e nossos lábios se grudaram. Senti um gosto salgado e não sabia o que fazer. Abri a boca e me assustei com o toque da sua língua na minha. Não sabia se lambia o gostinho salgado nos seus lábios ou se só deixava a sua língua lamber a minha. Primeiro beijo, que louco, Lúcia, e meus ouvidos se enchiam de “Let me take you down, cause I´m going to Strawberry Fields”. Muito louco.

De repente, um tiro! E mais outro. Gritos. Então acontece um outro oito de dezembro. Estou me vendo na rua e apesar de ser quase noite, o sol poente parece uma bola de fogo que vai me queimar inteiro. Os carros parecem estar voando quando passam a meu lado. Mudam de tamanho em questão de segundos. Alongam-se. Em seguida, encolhem. No semáforo, a luz vermelha pisca, alucinada, parece um feixe descontrolado de raios laser, a espalhar vermelhidão em todas as direções. Não, Lucinha, não ria de mim. Não é sonho, não. Eu sei quando é um sonho, “I know when it´s a dream”. Esse Lennon! Me conhecia mesmo. Veja só. Ele quis conversar comigo, e sua conversa era azul, mas tudo em volta está vermelho. Vermelho. O semáforo é vermelho. O sangue é vermelho! Minhas mãos têm sangue, Lúcia, eu não sei por quê! Talvez tenha me machucado com a árvore.

Lembra da árvore lá no pátio do colégio, onde a gente entalhou nossos nomes? Ninguém, Lucinha, ninguém estará em nossa árvore. Incrível o John Lennon ter criado uma música tão a nossa cara, Lúcia. Olha só, até da nossa árvore ele falou, naquele verso que fala assim “no one is in my tree”, ninguém está na minha árvore. Que viagem, não é? A música foi feita para nós. Eu lembro que a Yoko Ono disse uma vez que “Strawberry Fields Forever” é uma mensagem. Eu acho que é mais uma conversa, sabe Lúcia, uma conversa entre John e eu. Ele fala “sempre, não às vezes, penso que sou eu”, e depois “mas você sabe que eu sei quando é um sonho”. É ou não é uma conversa? Uma mensagem para nós? Ele só não falou “nossa” árvore porque ele não te conhecia ainda. Pois é, Lúcia, antes de vir te ver, eu arranquei a árvore. Acho que é por isso que tenho sangue em minhas mãos. Ninguém estará em nossa árvore, amor.

Corro para você, Lúcia. E parece que você também corre para mim. Mas você está de costas e a calçada é uma esteira rolante que te afasta de mim. Vejo pavor em seus olhos. Segure minha mão, Lúcia. Você tem medo de quê? De repente, outros três tiros. Mais sangue. Confusão. Correria na calçada do Edifício Dakota. Dakota! Hoje mesmo eu sonhei ― sonhei, não, eu vi, de olhos abertos ― que saltava de cima do Dakota e, planando até o chão, aparava aquela bala. Não fossem essas correias, eu saltava agora. Por que amarram tão forte, Lucinha? Eu não posso te tocar. Não posso te abraçar.

O sangue em minhas mãos está secando. Nas palmas ainda há umidade, mas nas costas já se percebe a coagulação. Pequenas bolinhas que brilham e mudam de lugar a cada bater de asas que dou. O Dakota parece entortar-se em direção à calçada. Parece que vai se deitar no parque. Aquele é mesmo o Dakota, amor? Parece tanto com o seu prédio....Não sei. Minha cabeça dói. Parece que nada é real, como diz a canção, “nothing is real”. Meus olhos estão abertos, é por isso que não vejo direito. Fecho meus olhos, e fecho também os seus, amor. Seu rosto agora também está vermelho. Não abra os olhos para não ver o sangue. Mantenha os olhos fechados, “living is easy with eyes closed”.

Ah, como eu queria agora saltar de cima do Dakota e aparar a bala que acertou Lennon. Mas como, se fui eu que atirei em Lennon!? Vê, ali, na calçada do Dakota? Sou eu quem acabou de atirar no John Lennon, não o Mark Chapman. Eu também li o livro do J.D. Salinger, “O apanhador no campo de centeio”, e também vi escritas lá, Lucinha, as razões para matar, de novo, o John Lennon. Vê? Ali sou eu, com o livro na mão, não ele. Vê? Eu também não fugi. Eu sou ele, e ele está no meu lugar.

Inimputável. Insanidade mental decorrente de substâncias psicotrópicas. Essas palavras ricocheteiam em minha cabeça, Lúcia, desde que cheguei a este quarto. Nada faz sentido para mim. Nada do que dizem é verdade. O Lennon me disse que o Ácido não me transforma. Ele apenas permite que eu olhe para mim mesmo. É quase um espelho. Eu não vejo o que tenho de fazer. Eu apenas sinto impulso de fazê-lo. Quem faz, no fundo, sou eu mesmo! Eu não quero pensar, Lúcia. Só o que quero é mergulhar de cima do Dakota e aparar aquela bala. Seu pai, o porteiro do prédio, o guarda da metropolitana. A patrulhinha com a sirene ligada. Todo mundo espera que eu mergulhe, amor. A bala não era para você, Lucinha. Era para Lennon. Não era você quem tinha de morrer. Eu queria matar era o John Lennon, porque ele fez a nossa música, a música que você usou para se casar com aquele maldito. Deixe eu te levar, Lúcia, “Let me take you down to Strawberry Field”. A bruxa da diretora vem voltando. Ouço os passos dela no corredor. Sei que é ela pela batida dos saltos. Ela sempre vem. Já ouço mexerem no trinco da porta. Alguém empurra a porta. Entre, Lucinha. Vista o uniforme do colégio. Em poucos segundos a bruxa vai segurar meu braço e ele vai formigar, doer, minha vista vai escurecer, daqui a pouco estaremos juntos, amor, no nosso Strawberry Field. Para sempre.

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Parece-me  que o devaneio está muito explícito. 

 

9,5

CRISTIANE BRUM

O clima psicodélico da música ficou bem no delírio da personagem. Mas creio que a palavra sanatório logo de cara, na primeira linha, desmancha o prazer da leitura, avisando o leitor sobre o que virá em seguida. As citações da própria música, pro meu gosto, também são desnecessárias. O ritmo intenso dos últimos parágrafos deixou o final do texto melhor que o início. Que tal trocar?

9,5

LIANA FERREIRA

A confusão da loucura, acontecimentos embaralhados, idéias delirantes, percepções irreais, a fragmentação da estrutura básica do processo do pensamento, características da esquizofrenia estão contemplados nesse conto formidável em que um primeiro parágrafo primoroso nos remete à essência da história. A canção proposta foi muito bem explorada pelo contista. Em Strawberry fields Forever  parece que o arranjador quis mostrar musicalmente a confusão mental, introduzindo os instrumentos em desarmonia num arranjo caótico, tão belo quanto esse conto.

10

LUCI AFONSO

Este conto nos envolve em delírios do princípio ao fim. Narrativa brilhante. O nome da canção ficaria melhor como título.

9,8

MARCO ANTUNES

Muito bem escrito e interessante o texto que contempla o espírito da canção em profundidade, mas é ligeiramente prejudicado por um excesso de informações que freia o ritmo da leitura.

9.5

TOTAL

48,3

CONTO 11

UMA HISTÓRIA COMUM

NE ME QUITTE PAS

Esse frio úmido está comendo os meus ossos! Preciso consertar logo o aquecedor para parar de usar tanto a lareira...Mas que bobagem estou dizendo?!?

Quando a memória alcança o presente, pensar bobagens nos distrai da inquietação. É como um mar em calmaria. E, no entanto, as calmarias antecipam sempre os temporais...

- O senhor quer que eu acenda a lareira agora? - me pergunta a mocinha de uniforme.

- Não, agora não! – respondo impaciente pela interrupção dos devaneios.

Às 5 horas tenho um encontro com Angélica. Vamos tentar uma partilha amigável de bens, mas, com certeza, haverá ferimentos de batalha. Na verdade, o que eu quero mesmo é vê-la. Sempre me encanta absorver a figura sensual de Angélica. É discreta, mas insinuante, cabelos sempre lisos, escovados, olhos sem máscaras. A boca rosada se deve mais ao hábito de morder os lábios do que a qualquer carmim.

Quando eu vi Angélica pela primeira vez, ela não reparou em mim, e minha virilidade acostumada ao reconhecimento ressentiu-se. O par de olhos risonhos estava entretido com outra coisa, outra pessoa: um transeunte, uma vitrine, não importa. Eu cruzava a rua quando me deparei com ela, parada na calçada oposta.

- Está perdida? Posso ajudar? - Que idiotice essa abordagem adolescente! Um ato impensado, sem propósito.

- Não, obrigada.

Desnecessário ser despachado assim!

- Mas eu gostaria de tomar um café e estou na dúvida sobre qual deles é o melhor. Você sugere algum em especial?

Relaxei o maxilar travado instantes atrás pelo embaraço e me virei para avaliar a fileira de mesas espalhadas aqui e ali nos vários cafés daquela rua. 

- O Café Suisse respondi sem pensar.

- É bom mesmo?

- Ótimo. O schümli deles é perfeito. Servem também os italianos, o irlandês, o escocês...

- Schümli?!? - a risada combinava com a boca, e aquela boca ria de mim! - Eles servem também o Affogato, o Chanoniz, o Imperial?

Então era isso, ela debochava de mim sem nenhuma reserva. Melhor partir antes que o desastre fosse completo!

Mas não aconteceu assim.

Acabamos nos sentado para um café e consumimos horas de boa conversa. Nos dias e meses que se seguiram, nossos caminhos foram se entrelaçando ao longo de jantares, vinhos, filmes, livros e carinhos.

Não sei depois de quanto tempo fomos morar juntos. As mulheres têm esse dom de guardar datas. Eu, por exemplo, conto apenas com uma boa agenda. Não foi difícil me acostumar com ela. Se, pela manhã, as roupas dela estavam espalhadas no banheiro ou no closet, à noite não restava vestígio de nada. Se o cheiro de chocolate do meu cachimbo impregnava o ambiente, era eu quem corria a abrir as janelas da saleta para renovar o ar. Hoje, um almoço de massas leves, regado a um bom Chianti. Amanhã, uma carne rubra incandescente, cortejada por um Bourgogne relaxante.

Angélica pecava apenas por manifestar os sintomas das mulheres que amam: estava sempre em busca de beijos românticos e seu corpo não se saciava somente com o puro prazer, mas exigia palavras, diálogos, humores adequados.

Os homens não se aproximam muito do amor; são atraídos quase sempre pelos atributos da carne. Depois, às vezes, se encantam um pouco mais além. E se a coisa vai mais adiante ainda – e este "se" e o "adiante" preferem manter-se em distância prudente! - só então se permitem gostar. Amor é descuido.

Eu não queria prescindir de Angélica. Ela fazia parte da minha vida, eu estava acostumado com ela, gostava dela. Então, para fugir à possibilidade de descuidar-me como ela, passei a concentrar meus dias em hábitos antigos.

- A que horas você chega hoje?

- Não me espere.  Hoje é dia do pôquer com o pessoal.

Tinha também os drinques com o pessoal do escritório.

- Vai chegar tarde?

- Não sei ainda, melhor você dormir – e tarde era sempre a opção da noitada.

Em casa, programas de televisão, música, livros.  As mesmas perguntas; as mesmas respostas.

Então aconteceu aquela noite de terça-feira em que o jogo da semana foi desmarcado. Que tédio! Ir para casa seria o mais lógico, mas quebrar rotinas seria um perigo impertinente. Uma vez aberta a exceção, Angélica poderia se achar no direito de me pedir para não ir em outras noites, ou quem sabe iniciar outras lamúrias que as mulheres exercitam com maestria.

Sentei-me num bar de calçada, meio perdido.

- Um Glenffidich, por favor, em copo longo. Pode trazer logo a garrafa e um balde de gelo. Uma água sem gás também.

Ambiente e bebida não combinavam nem um pouco, mas o garçom me pareceu feliz com o pedido.

Alguns casais caminhavam rua acima, ou rua abaixo, sem pressa. A agitação do local era pouca, mas havia harmonia naqueles rostos.

Reconheci Angélica pelos cabelos lisos. Ou teria sido pelas mordidas nos lábios que há tanto tempo eu não via? Não houve sobressalto em vê-la ali. Na verdade, eu nunca tinha me questionado onde estaria Angélica nas minhas noites de jogatina. Nem nunca perguntei a ela. Eu apenas me senti...desapontado, como se o controle das coisas me escapasse um tanto. Sequer me inquietou olhar para o homem que se sentava à sua frente, do outro lado da rua, naquele restaurante à meia luz. Só me senti curioso. E foi assim até que as mãos daquele homem se apossaram das dela; e as mãos de Angélica permaneceram nas dele, aconchegadas.

Depois de muito tempo me levantei daquela mesa. A névoa dos meus olhos fazia da embriaguez a única companheira da noite, e ela carregou para casa o que restava da minha lucidez. Havia agora dois homens dentro de mim, e ambos me corrompiam: um queria ferir; o outro, chorar.

Tudo me pareceu tão longe até em casa. E se Angélica ainda não estivesse lá? Há quanto tempo os dois estavam tendo um caso?

“Vagabunda”, pensei. Vou sacudir aquele corpo devasso e gritar nos seus ouvidos palavras infames!

A porta do quarto estava entreaberta e eu senti o perfume de Angélica no nosso banheiro. Ela estava lá, refletida no espelho, limpando o rosto como fazia todas as noites. Álcool, ciúme e estupidez se combinaram em violência e eu cravei as mãos nos seus ombros. 

- Quem era aquele homem??? Diga logo, vagabunda!!

Esperei que ela negasse. Desejei mesmo que negasse. Eu quis vê-la tremer, esperei que me pedisse perdão, que tivesse medo de mim, que chorasse em meus braços! Mas não aconteceu assim.

- Aquele homem me ama – respondeu insensível. 

"E eu por acaso não te amo?!?", quis gritar a minha boca perplexa. Mas minha voz se acabrunhou subitamente diante de mim mesmo. De que amor eu falaria a ela? Do amor descuidado que não me permitia saber como tê-la ao meu lado? Do desprezo que eu sentia pelas suas emoções? Dos dias de solidão que lhe imputei conscientemente?

Não houve gritos, choros, discussões, acusações. Apenas um desespero intenso que me envolveu em angústia, medo e solidão. E antes que eu pudesse recompor palavras, uma boca rosada me disse:

- Eu vou embora hoje mesmo. Não vou mais voltar. Depois a gente conversa sobre o que for preciso.

Enquanto eu ardia por dentro em sensações desencontradas, ela se foi assim, em três frases. Adormeci pensando em absurdos, consumido por imagens de uma fêmea que se contorcia em dar prazer a outro homem, e ria da minha dor.

Faltam 20 minutos para o nosso encontro. Tenho pouco tempo, portanto, para repassar o que quero lhe dizer. Quero provar a ela que faço qualquer coisa por ela. Quero convencê-la de que é possível cultivar o sentimento. Quero que não me deixe, que não me deixe nunca!

Então, a vejo entrar. E ao fitar aqueles olhos sem máscaras percebo que nada ali se trata do que eu quero. Nenhum passado a resgatar naqueles olhos vazios. Ela já partiu de mim faz muito tempo.

O frio e a umidade estão entranhados nos meus ossos.  Preciso voltar e acender a lareira.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Muito bem escrito e fundamentado, mas didático e lugar comum, tanto nas expressões como nos conteúdos.

9

CRISTIANE BRUM

Uma história pra lá de comum, quando bem escrita, sempre emociona. Exatamente por ser tão comum, não é mesmo? Gostei do tom “francês” do texto, da atitude “não to nem aí” da personagem. Bem fechada, sem muitos floreios, embalada pela música e pelo frio. O final é realmente bom.

10

LIANA FERREIRA

A autora dá um profundo mergulho no universo machista e à nossa frente desfilam a omissão e o desmazelo do amor.Então, continuo procurando o espírito de  Ne me quitte pas que é, sem sombra de dúvidas, a obra-prima da solidão e do desespero. É, por assim dizer, o hino do arrego. “Deixe-me existir à sombra do teu cão” é o poder de sujeição extremado.

8

LUCI AFONSO

Uma história comum, mas como está bem contada! O cronista afinal deu à luz o contista. Uma frase resume com maestria as contradições do personagem: “Havia agora dois homens dentro de mim, e ambos me corrompiam: um queria ferir; o outro, chorar”. Bravo!

9,5

MARCO ANTUNES

Amor é descuido” é uma frase arrepiante e reveladora da personagem! “Eu não queria prescindir de Angélica” é outro excelente achado estilístico! Um belo conto com expressivo trabalho de linguagem e perfeita assimilação do espírito da canção. Há alguns pequenos problemas de estrutura e cenas que poderiam ser menos destacadas como a dos cafés, mas o geral é muito bom!

9,5

TOTAL

46

CONTO 12

AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS

SOBRE TODAS AS COISAS

Neuilly, 12 de agosto de 1938

 

Meu querido Filho, Joel

 

Como estás? Não pude esperar seu retorno da escola, pois o trem sairia às 11:00 horas e o outro horário só ocorreria à noite, o que seria desaconselhável, devido ao mau tempo neste mês. O médico que me auscultou o pulmão na semana passada, recomendou uma mudança de ares para um local mais alto, com montanhas, chamado de Vale de Deus e, aqui estou. Da minha janela vejo os vales cobertos de névoa, repletos de pinheiros que parecem atingir o céu. O ar fresco das manhãs me faz bem e sempre descanso na espreguiçadeira do jardim de inverno, lendo algum romance. Devo permanecer temporariamente aqui, enquanto melhoro minha saúde. Tenho muitas saudades suas e penso no carrossel que lhe dei de presente de aniversário. Sonho que estou andando em um cavalo branco enquanto tu cavalgas bem rápido no cavalo negro que faz o seu par.

 E os estudos?Estás aprendendo bem o francês? Converse com seu pai que ele admira muito a língua francesa E as aulas de piano, como vão?Tem treinado muito em casa? Me escreva contando novas notícias!

Não  fiques triste, Joel. Logo, logo, eu estarei boa e voltarei para casa. Obedeça sua Tia Aureol e fique bem com seu pai.

                                                                                                                                               

Com afeto,

sua mãe  Mary

 

                                                                                                                                               

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

Londres, 13 de setembro de 1938

 

Querida mãe,

 

Porque tu não me esperaste?Eu queria me despedir de você, e  te levar até a estação.Fiz um bonito desenho de um navio que está indo para uma terra que é sempre quente, que o sol brilha todos os meses. A professora de geografia falou o nome  deste lugar mas eu esqueci.   Eu queria lhe abraçar  e talvez lhe pedir para que não fosse, que ficasse comigo... A  senhora me fala de tantas paisagens bonitas que consegue ver da sua janela e eu não consigo achá-las bonitas, só tristes...Será que fiz algum pecado, como o reverendo Arthur pregava nos sermãos de Domingo e que assim Deus  me castigou ? E o meu castigo foi você ficar tão longe de mim?O  que posso fazer para você voltar, mãe?Será que tu não gostas mais de mim?

Papai quase não vem aqui na casa da Tia Aureol. Disse que estava sem tempo, viajando a serviço para o novo jornal que está trabalhando.

Sinto tua falta, mãe.

Quando você voltar, me traz um presente bem grande??

                                                                                                                                            

Seu filho,

                                                                                                                                                        

Joel

 

 

                                                                                                                                                                    

Neuilly,  20 de outubro de 1938

 

Meu querido Joel

 

Não pense que eu te abandonei , meu filho. Eu te amo mais do que tudo nessa vida. Lembro-me como se fosse ontem quando tu nascestes: franzino, branquinho e com lindos olhos azuis. Seu pai me disse que tu te parecias comigo!Lembro do primeiro aniversário em que choraste quando o som do feliz aniversário ecoou alto na sala. E quando chorei quando fostes para a escola pela primeira vez. Tu agora tens 10 anos. Já és um rapaz, e  pelo que sei, é educado, disciplinado e sensível. Qualidades que pedi ao bom Deus que me enviasse através de um filho e que foram atendidas. Nem tudo pode ser como desejamos, filho. Mas se esses foram os desígnios de Deus, precisamos aceitá-lo com resignação.

Não estou sozinha aqui..Outras pessoas também  se encontram comigo. Elas também têm filhos, ou marido ou esposas. Todos estamos ansiosos para encontrarmos nossa família quando daqui sairmos.

Não fique zangado com seu pai. Ele trabalha muito para pagar sua escola e minha permanência neste lugar, chamado de sanatório. Provavelmente ele lhe visitará no ultimo domingo do mês. Quisera que você pudesse vir aqui, mas não é permitido visitas de crianças. Bom, de qualquer maneira, Joel, um grande beijo para voc,ê meu filho lindo.

                                                                                                                                            

Da sua mãe, Mary

 

                                                                                                                                                                    

Londres, 15 de dezembro de  1938

 

 

Querida mãe

 

O Natal  está chegando. As ruas estão coloridas  e nas lojas, todos  querem comprar presentes. Será que Papai Noel não poderia lhe trazer de trenó para passar o dia de Natal conosco?

Sonhei que você estava no alto de uma nuvem e eu corria para te abraçar e tu subias cada vez mais para se encontrar com Deus. Acordei todo suado e quando contei à Tia Aureol  ela começou a chorar, dizendo para que eu não me preocupasse! Dizem que no Natal, Deus faz milagres . Eu queria que ele te curasse e que você voltasse logo. Este vai ser o meu pedido de natal. Deus precisa me ouvir, mãe.

 Às vezes perco meu sono e fico contemplando as estrelas à noite, lembrando-me de quando me pegavas no colo e cantavas baixinho para eu dormir! Papai nunca mais me ligou, mãe. Será que o papai vem me ver no Natal?

                                                                                                                                                        

Seu filho, Joel

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

Neuilly, 20 de janeiro de 1939 Neuilly,

Querido filho

 

Bom ano de 1939 para você, Joel. Não ando passando muito bem, filho. Sinto dores fortes no peito e tenho sangrado muito quando estou tossindo. Talvez por isso Deus não tenha me concedido a possibilidade de passar o Natal contigo. Mas em pensamento e no meu coração eu estava com vocês. Quero que me prometas uma coisa, filho: se algo acontecer comigo, fique com tia Aureol. Ela é minha irmã e saberá cuidar de ti como eu mesma cuidaria. Estude, trabalhe e seja feliz com uma mulher que você ame e respeite.

Não fique com raiva de seu pai; ele é homem e formará outra família que poderá quem sabe, ser útil à você. Não fique com raiva de Deus, meu filho. Ele me concedeu você, filho único e amado, mas infelizmente não poderei te acompanhar eternamente. Quando olhares para as flores, os homens, os vales, pense que um dia estaremos juntos novamente. No entanto, sempre estarei contigo..Da sua mãe,  lhe amará eternamente,

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

Mary  Smith

 

  JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

Singelo. Criativo.

 

10

CRISTIANE BRUM

Ainda que a troca de cartas entre mãe e filho seja emocionante, não consegui perceber muito bem a conexão com a letra da música. Ficou parecendo que o texto diz o contrário da música, isto é, que Deus realmente não é tão legal assim. Pelo menos, o menino deve ter pensando isso, ainda que a mãe tenha lhe dito o contrário.

7,5

LIANA FERREIRA

Escrever um conto usando a estrutura de uma correspondência é ousado e interessante como na novela Griffin & Sabine – Uma Correspondência Extraordinária, de Nick Bantock. Mas não encontro nessa história a essência da bela canção proposta.  O tratamento dado à língua portuguesa  incomodou-me bastante.

7

LUCI AFONSO

Tive a impressão de que o enredo não coube no conto, talvez pelo recurso escolhido, a carta, que exige uma enorme capacidade de síntese. A bela estória não teve o tempo necessário para se desenvolver.

7,5

MARCO ANTUNES

Não sei se a duplicidade de pessoas (tu e você) foi intencional, mas, se foi, haveria outros recursos mais sadios para conseguir o mesmo efeito! O espírito da canção não se fez presente no conto que tem a bonita estrutura de cartas, mas que, infelizmente, não traduzem a idéia central de sua letra perfeita: a de que Deus que fez uma criação tão maravilhosa e grandiosa não pode ter a mesquinharia que a religião tradicional lhe atribui. Pena!

7

TOTAL

39

CONTO 13

O HOMEM VELHO

O HOMEM VELHO

O homem que o olha da janela lhe é familiar. Seus traços, os conhece bem, se bem que agora parecem descaídos. Cada linha do seu rosto já não se ergue, expansiva que foi, para os lados nem para o horizonte, é para baixo que apontam, como a querer esparramar-se pelo chão e aí descansar, depois de ter escorrido pela face e pelos ombros e pela pele solta do enchimento que o tempo lhe foi desconstruindo. O homem que o olha da janela traz nos olhos as cãs que, se ali houvesse cabelos suficientes, traria à cabeça.

 

O homem velho deixa a vida e morte para trás”,

diz Caetano, ao fundo, numa gravação antiga. ”A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol”.

 

O homem da janela é sereno. Já não anseia. As ansiedades, deixou-as há algum tempo no terreno baldio em que se foi descarregando dos sonhos que não se cumpriam, dos projetos que se desfaziam, dos acordes que pretendia garimpar d’algum instrumento que aprenderia a tocar, dos lugares que conheceria - por vezes sozinho, por vezes acompanhado (fosse da esposa, fosse duma dançarina flamenca que seria sua amante, se houvesse conhecido alguma) - talvez antes da faculdade, ou assim que se formasse, ou quando conseguisse melhor emprego, ou quando tivesse coragem de pedir demissão, ou quando crescessem os filhos, ou quando se aposentasse.

As linhas do destino nas mãos a mão apagou”.

 

Descarregado como está, sente-se leve o homem a quem olha a olhá-lo da janela. Está leve porque lhe falta o estofo de que são feitas as sustentações dos homens. Já não tem na alma qualquer “poesia, soul” ou “rock'n'roll.

A carne, a arte arde, a tarde cai”.

 

De dentro do quarto de hotel no vigésimo andar, de frente para o mar, olha o homem velho. Olha-o direto nos olhos. Fixa seu olhar nos olhos do homem que lhe retribui o olhar desde a janela, flutuando sobre o horizonte que entardece, mas o mar é cinza, como o céu, como a alma.

Ao seu olhar tudo que é cor muda de tom”.

 

Não sorriem por não terem do quê, nem de que chorar têm, já não têm coisa alguma. A serenidade da decisão tomada alivia qualquer dor.

Corre em sua direção como ele na sua e antecipam o momento em que se tocarão e fundirão suas imagens gêmeas, no exato instante em que se parta o vidro e voem ambos, leves que estarão, por uns tantos momentos, até que se interrompa o vôo de forma brusca e definitiva.

Susta-se, de súbito, a corrida, alguns centímetros antes da janela. Não se sabe qual dos dois a conteve.

Olham-se surpresos, depois raivosos, então frustrados.

Um volta à casa. Já não olhará do mesmo modo o homem que o olhava a olhá-lo no reflexo da janela.

Não tão leve, ao menos.

Já tem coragem de saber que é imortal”.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

CIDA SEPÚLVEDA

O texto trata de uma ótica da velhice, não de uma personagem, neste sentido, empobrece a narração.

9

CRISTIANE BRUM

Não consegui sentir no texto o clima da música, que me pareceu bem mais leve que o da narração. Acho que as citações da música mais atrapalham que ajudam, quebrando o ritmo do conto.

7,5

LIANA FERREIRA

O texto é bom, porém tem seu ritmo quebrado pelos recortes da canção que tornam  a leitura pouco atraente e cansativa.

7

LUCI AFONSO

O texto não conseguiu captar a beleza da velhice retratada na canção. Há trechos confusos, cacofonias, frases que precisam ser reestruturadas. Pouco conto para muito tema.

7,5

MARCO ANTUNES

O homem que o olha da janela traz nos olhos as cãs” é o exemplo de frases que fui incapaz de compreender! Talvez porque haja certa pressa no(a) autor(a) em concluir o trabalho, saborear mais o tema e conviver com ele pode ajudar! Há um saudável impulso poético a prometer um(a) grande autor(a), mas que precisa de mais investimento.

8

TOTAL

39

 

Fora da Competição:

CONTO 14

CONTABILIDADE

SEASONS OF LOVE

E o ano chegara ao fim anunciado em explosão de cores no Céu. Um ano em que tinha nascido para uma vida nova, revivido o coração nos acordes de um novo amor e morrido sem literaturas no dia de Natal.

                      À minha frente, um improvável anjo contador, munido de calculadora, planilhas e canetas em 3 cores, conferia:

                      - O senhor está certo de que foram 415 xícaras de café?

                      Incrédulo, procurei nos seus olhos negros uma nesga que fosse de humor ou chiste, mas ele não retrocedia um centímetro, intimativo, fazia questão de cada gota ingerida no curso do ano em que me falecera.

                      - O senhor compreenda que é importante! Segundo o memorando número 20.015 do Departamento Cármico, o balanço do último ano de vida passa a ser demonstrativo único para o Juízo Final.

                      - ... E café entrará, naturalmente, em crédito ou débito?

                      - Ah! Isso depende muito! Se o Senhor tomou viciosamente, é provável que eu seja instado a debitá-lo, mas, se o senhor o tomou por prazer, como saudação da vida, é aceitável colocá-lo nos créditos.

                      - Então, amigo, poupe o seu tempo, qualquer coisa feita 415 vezes no espaço de um ano em nenhuma hipótese pode representar prazer: se o prazer perdura, perdura o prazer?

                      Mas o olhar vazio de meu arcanjo dava a impressão exata de que minhas filosofias não encontravam escaninho em seu arquivo. Ele ainda hesitou incrédulo por alguns segundos, depois seguiu:

                       - Quantas vezes o senhor riu ao longo desse ano?

                       Essa era uma contabilidade impossível! Ao lado de Clarice, eu rira de tudo, de tudo um pouco, de mim um muito! Rira de quem perdia tempo em trabalhos enfadonhos, em preocupações insípidas, em alugar a vida e revidar ofensas... Do tempo que eu perdi ganhando a vida e perdendo os pores de sol, do modo como renascia a cada manhã em que acordava pra ela, ao seu lado e por dentro de mim, do modo como ela mordia o fio de telefone pra não vazar seu riso na ligação enquanto eu imitava um cachorrinho com a língua pra fora. Eu ri um ano inteiro!

                        - Coloque aí que eu ri um ano inteiro bobamente, feliz da vida, nem sei como deu tempo de morrer!

                         E ao dizer isso ri abertamente e cheguei confiante à janela e contemplei as nuvens festivas nesse reveillon em branco absoluto comemorado no Paraíso. Meu atônito recenseador procurava em suas planilhas um modo de traduzir as minhas contas inexatas. Pensei que, se Clarice estivesse ali, não perdoaria  sua condição de anjo e zombaria sem dó de sua tolice eterna.

                         - Amigo, não me leve a mal, mas se isto aqui é o Céu, como, diabos, é o inferno?!

                          E ri de novo porque ele beatamente se benzeu.

                          -Quer saber como se mede meu último ano? Meça apenas em amor! O mais...O que digo?! Não há mais! Houve só amor.

                           Ele tirou os óculos, pousou as 3 canetas e passou a me seguir maravilhado.

                               - Meu último ano, caro amigo, teve um número infinito de beijos, estelares porções de afeto, uma miríade em carinhos, 60 jantares à luz de velas, outros tantos à luz de um olhar que era só dela, teve 525.600 minutos de esplendor, 94.608.000 batimentos cardíacos, teve uma dança na chuva, teve tantos orgasmos que nem vou cometer a indecência de os contar. Quer pôr na sua planilha um número certo e inquestionável, à prova de toda auditoria? Meça meu ano de um modo apenas: meça em amor e coloque aí um número redondo, perfeito, auferível e sumário. Escreva o número 1 e coloque nos créditos a palavra amor. Tenho certeza que não errará e se Deus em pessoa quiser conferir, estou certo que aprovará as contas!

                                O pobre anjo, ou pobre diabo, olhou-me com arregalada incredulidade e boca aberta.

                                - Quer saber se tenho direito a entrar no Céu com números como esse? Então, deixe que lhe conte: eu não ligo, não importa, já na Terra eu estava no céu e se o daqui  puder ser apenas uma parte daquele que pra sempre trago em mim, vai querer sim, alguém como eu.

                                Ele sorriu como quem começava a compreender.

                                - Quando cheguei aqui e enquanto esperava, me perguntei se seria admitido ou não e, por alguns instantes, temi não ser aceito, não sabia dizer, por exemplo, o que aprendi na vida, mas agora, depois dessa contabilidade infame, acho que sei como se mede a vida de um homem ou mulher: em verdades que aprendeu, ou pelas vezes que chorou, nas etapas que superou, ou pelo modo como morreu. Mas quer uma conta perfeita? Meça em amor!

                                Ele me olhou satisfeito como quem encontra um valor preciso, guardou os óculos, pôs no bolso as três canetas, juntou seus papéis, abriu a porta, me disse “Bem-vindo” e confessou seu desejo de sair de férias e visitar o meu planeta, mas antes de me passar ao anjo recepcionista pediu que lhe dessa algumas dicas de viagem.

 

 

 

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5º Desafio:
A História de Uma Canção

 

Sorteamos na sexta, dia 28 de setembro, às 9h10 na Sala do Núcleo de Literatura as 14 canções abaixo entre todos os participantes:

CONTISTAS

QUINTO DESAFIO

CANÇÃO

1-Antonio Cardoso Neto

MOON RIVER

2-Ari  Gurcz

O HOMENM VELHO

3-Artur Cotias E Silva

STRAWBERRY FIELDS FOREVER

4-Cinthia Kriemler

NE ME QUITTE PAS

5-Humberto Azevedo

SEASONS OF LOVE

6-Lacy Mesquita

TRISTESSE

7-Maria Raquel Melo

AL DI LA

8-Monica Thaty da Silva

PARA VER AS MENINAS

9-Monique Britto Knox

SOBRE TODAS AS COISAS

10-Osmar P. Lannes Jr.

CAVALO BAIO

11-Ray Cunha

UNICÓRNIO AZUL

12-Roberto Klotz

MY WAY

13-Soraia Maria Silva

AS APARÊNCIAS ENGANAM

14-Washington Dourado

O QUERERES

 

 

Pois bem, essa canção deve ser a trilha sonora de uma História que vocês contarão!

 

1ª Canção: O Quereres

Caetano Veloso (Brazil)
 
 
Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão
 
Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês
Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói
Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és
 
REFRÃO
Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inceticídIo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim.
 
 
2ª Canção: As Aparências Enganam

Tunay e Sérgio Natureza

 

As aparências enganam,

aos que odeiam e aos que amam

Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões

Os corações pegam fogo

e depois não há nada que os apague

Se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são

O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação



As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam

Poque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões

Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele

Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser

Não há mais forma de se aquecer,

não mais tempo de se esquentar

Não há mais nada pra se fazer,

senão chorar sob o cobertor



As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam

Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões

Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno

Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali

Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera

No insistente perfume de alguma coisa chamada amor

 
 

3ª Canção: Moon River

music by Henry Mancini, lyrics by Johnny Mercer

Moon river
Wider than a mile
I'm crossing you in style
Some day...

Old dream maker
You heart breaker
Wherever you're going
I'm going your way...

Two drifters
Off to see the world
There's such a lot of world
To see...

We're after the same rainbow's end
Waiting around the bend
My Huckleberry friend
Moon River and me...

4ª Canção: Unicornio Azul
 

Unicornio Azul

Sílvio Rodrigues

 

Mi Unicornio azul ayer se me perdió,

pastando lo dejé y desapareció.

Cualquier información la voy bien a pagar,

las flores que dejó,

no me han querido hablar.

 

Mi Unicornio azul ayer se me perdió,

no sé si se me fue,

no sé si se extravió.

Y yo no tengo más que un Unicornio azul.

Si alguien sabe de él,

 le ruego información,

cien mil o un millón yo pagaré.

 

Mi Unicornio azul se me ha perdido ayer,se fue...

Mi Unicornio y yo hicimos amistad,

un poco con amor,

 un poco con verdad.

Con su cuerno de añil pescaba una canción,

saberla compartir era su vocación.

 

Mi Unicornio azul ayer se me perdió,

y puede parecer acaso una obsesión,

pero no tengo más que un Unicornio azul

y aunque tuviera dos,

yo solo quiero aquel.

Cualquier información la pagaré.

 

Mi Unicornio azul se me ha perdido ayer,se fue...

 

5ª Canção: My Way

 

My Way
Frank Sinatra
       

And now the end is near
And so I face the final curtain
My friend, I 'll say it clear,
I 'll state my case of which I 'm certain.

I've lived a life thats full,
I travelled each and every highway,
And more, much more than this,
I did it My Way.

Regrets, I 've had a few,
But then again too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exception
I planned each charted course
each careful step along the byway
And more, much more than this,
I did it My Way.

Yes there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
And did it My Way.

I 've loved,
I 've laughed and cried,
I 've had my fill, my share of losing
and now as tears subside
I find it all so amusing
to think I did all that
and may I say not in a shy way

Oh no, oh no not me
I did it My Way

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught.
To say the things he truly feels;
And not the words of one who kneels.
The record shows
I took the blows -
And did it my way!                               
         

 

6ª Canção: Ne Me Quitte Pas

Ne me quitte pas

(Jacques Brel)

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas


 
 
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
 il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
 l'amour sera roi
 l'amour sera loi
 tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas


 
 
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas


 
 
On a vu souvent
Rejaillir le feu
D'un ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas


 
 
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai 
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas.
 
 
7ª Canção: Strawberry Fields Forever
 

Lennon/McCartney

 


Let me take you down
cause I'm going to strawberry fields
Nothing is real
and nothing to get hung about
Strawberry fields forever

Living is easy with eyes closed
Misunderstanding all you see
It's getting hard to be someone
but it all works out
It doesn't matter much to me

Let me take you down
cause I'm going to strawberry fields
Nothing is real
and nothing to get hung about
Strawberry fields forever

No one I think is in my tree
I mean it must be high or low
That is you can't, you know, tune in
but it's all right
That is I think it's not too bad

Let me take you down
cause I'm going to strawberry fields
Nothing is real
and nothing to get hung about
Strawberry fields forever

Always know sometimes think it's me
But you know I know when it's a dream
I think I know I mean, ah yes
but it's all wrong
that is I think I disagree

Let me take you down
cause I'm going to strawberry fields
Nothing is real
and nothing to get hung about
Strawberry fields forever
Strawberry fields forever
strawberry fields forever

 

8ª Canção: Cavalo Baio

Marcus Viana

Eu vou no passo do cavalo baio.
Entre bandeiras, sabres e farrapos
Eu vou no passo do tambor que chama
No passo de quem não sabe se volta
Eu vou no passo de quem vai pra guerra
Por liberdade, honra e terra.

Eu vou no passo do cavalo baio
Espora de prata,estrela na testa
No passo paciente de quem espera
Lua nova no fio da espada
No passo de quem arrancou da alma
A flor do amor e deixou pra trás
A flor do amor ficou pra trás

O que é um homem sem uma mulher
Um céu sem estrelas, cometas e raios
Centauro de cascos quebrados
Perdido no pampa sem fim
Um rei em farrapos sem pátria,
Querência e bandeira.

 

 

 

 

9ª Canção: Seasons of Love

Do musical  RENT 


Five hundred twenty-five thousand
Six hundred minutes,
Five hundred twenty-five thousand
Moments so dear.
Five hundred twenty-five thousand
Six hundred minutes
How do you measure, measure a year?

In daylights, in sunsets, in midnights
In cups of coffee
In inches, in miles, in laughter, in strife.

In five hundred twenty-five thousand
Six hundred minutes
How do you measure
A year in the life?

How about love?
How about love?
How about love? Measure in love

Seasons of love.
Seasons of love


Five hundred twenty-five thousand
Six hundred minutes!
Five hundred twenty-five thousand
Journeys to plan.

Five hundred twenty-five thousand
Six hundred minutes
How do you measure the life
Of a woman or a man?


In truths that she learned,
Or in times that he cried.
In bridges he burned,
Or the way that she died.


It's time now to sing out,
Tho' the story never ends
Let's celebrate
Remember a year in the life of friends
Remember the love!
Remember the love!
Seasons of love!


Oh you got to got to Remember the love! remember the love,
You Measure in love know that love is a gift from up above Seasons of love.
Share love, give love spread love Measure measure you life in love.

 

10ª Canção: Para Ver as Meninas

Paulinho da Viola

 

"Silêncio por favor

Enquanto esqueço um pouco

a dor no peito

Não diga nada

sobre meus defeitos

Eu não me lembro mais

quem me deixou assim

Hoje eu quero apenas

Uma pausa de mil compassos

Para ver as meninas

E nada mais nos braços

Só este amor

assim descontraído

Quem sabe de tudo não fale

Quem não sabe nada se cale

Se for preciso eu repito

Porque hoje eu vou fazer

Ao meu jeito eu vou fazer

Um samba sobre o infinito"

 

11ª Canção: O Homem Velho

Caetano Veloso)

Int.:

O homem velho deixa a vida e morte para trás

 

Cabeça a prumo segue rumo e nunca, nunca mais

 

O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais

 

O homem velho é o rei dos animais

 

A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol

 

As linhas do destino nas mãos a mão apagou

 

Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock'n'roll

 

As coisas migram e ele serve de farol

 

A carne, a arte arde, a tarde cai

 

No abismo das esquinas

 

A brisa leve trás o olor fulgaz

 

Do sexo das meninas

 

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de neon

 

Belezas, dores e alegrias passam sem um som

 

Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron

 

E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom

 

Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval

 

Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal

 

Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual

 

Já tem coragem de saber que é imortal

 

 

 

12ª Canção: Sobre todas as Coisas

 

Chico Buarque e Edu Lobo

 

Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado: desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém abandonado
Pelo amor de Deus

Ao Nosso Senhor, pergunte se ele
construiu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado: o macho, a fêmea, o bicho, a flor
criado pra adorar o Criador
E se o Criador inventou a criatura por favor,
se do barro fez alguém com tanto amor
para amar Nosso Senhor

Não, Nosso Senhor, não há de ter lançado em movimento
Terra
e Céu, estrelas percorrendo o