4º Desafio

Humorismo

TERCEIRO DESAFIO
JULGAMENTO

DESTA VEZ, SÓ IDENTIFICAREMOS

OS AUTORES DEPOIS DO JULGAMENTO,

INCLUSIVE PARA O JURI

Conto

1

Autor

MARIA RAQUEL MESQUITA DE MELO

Título

A COLEÇÃO

Situação

Escolhida

(UM CASO MUITO ESCLARECEDOR)

      JURADO

               COMENTÁRIO

     NOTA

LUCI AFONSO

Competição muito divertida, estória com excelente ritmo. No terceiro parágrafo, “cumprimento” ou “comprimento”? Atenção ao uso da crase.

    9,5

CIDA SEPÚLVEDA

EXCELENTE NARRATIVA. É MORDAZ O DESNUDAMENTO DA FALSA AMIZADE. RESTA SABER SE É IRONIA OU HUMOR. SEJA LÁ COMO FOR, O QUE VALE É A OBRA, NÃO A INTENÇÃO

     10

LIANA FERREIRA

A leveza do início do conto é quebrada no final quando as duas personagens principais evoluem para uma situação de grave comprometimento emocional, de adoecimento psíquico, apresentando como subproduto da competição sentimentos inadequados como raiva extremada e cleptomania. Melhor seria se a disputa se perpetuasse, e não houvesse vencedor nem vencido. No desfecho o autor se vale de uma situação de humilhação extrema que beira à tragédia. A história está muito bem escrita e consegue envolver o leitor.

      9

CRISTIANE BRUM

Interessante a idéia da competição entre advogados e “amigos” como Monteiro e Tavares. Mas creio que a coleção de cinzeiros atrapalha um pouco o clima do texto. Talvez por ser algo tão esdrúxulo, aumente a sensação de distanciamento do leitor em relação ao texto. Fica parecendo “coisa de advogado”, não de pessoas reais. É como se leitor e autor (a) estivessem criticando somente os outros, jamais a si mesmos.

      7

LORENZA  CARDOSO

O início do conto, muito divertido, prometia um final menos exagerado ou forçado. Merecem aplauso o cuidado e o carinho com a linguagem, a escolha do registro e de cada palavra empregada.

    9,5

MARCO ANTUNES

O conto está bem escrito e consegue prender a atenção do leitor, mas tem um grande defeito como peça de humor: assenta-se em ambiência realista o que, fora da farsa, fábula e gêneros conexos, exige verossimilhança para produzir humor (esse é o defeito fundamental das comédias de Jim Carrey). A opção pelo ambiente realista só resulta em humor quando convence o leitor de que a situação poderia ter acontecido com ele mesmo ou com pessoa real, isto é, promove uma certa simpatia, do contrário não consegue aquele efeito surpreendente que a anedota precisa ter, pois não rompe com a expectativa, uma vez que, num cenário inverossímil, tudo parece possível.  Para resumir, não fui sensível ao humor do conto.

      8

TOTAL

53

 

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Conto

2

Autor

ARTUR ADOLFO COTIAS E SILVA

Título

UMA BARATA LITERATA

Situação

Escolhida

FÁBULA AMORAL

      JURADO

               COMENTÁRIO

     NOTA

LUCI AFONSO

Muito engraçado e inteligente. Breve e objetivo, como convém a uma fábula. Explora com perfeição o tema literatura. Redação impecável.

 

        10

CIDA SEPÚLVEDA

EXCELENTE FÁBULA, MUITO CRÍTICA E O FINAL, PERFEITO. NECESSÁRIO REVER A PASSAGEM “HOUVE UMA VEZ UMA BARATA”

        10

LIANA FERREIRA

A metáfora da intransigência humana está bem representada neste conto em que a barata aparece cheia de empáfia e prepotência, e a formiga representa a humildade e a parcimônia. O autor demonstra, através das formigas, a importância da socialização do conhecimento, enquanto que, na figura da barata, ele salienta que o conhecimento quando tratado com egoísmo, e não dividido, produz o isolamento social, perde sua finalidade e morre em si mesmo.

 

 

 

 

         10

CRISTIANE BRUM

Adorei a forma em que aparece a citação do Kafka. Quase morri de rir ao imaginar a barata falando aquilo. Gostei do tom leve, despretensioso do texto, a despeito da crítica que contém. Acho, apenas, que o aviso inicial é desnecessário. O (a) autor (a) não precisa pedir desculpas ao leitor por escrever o que lhe der na telha, só precisa entender se o leitor não gostar.

 

 

 

9,5

LORENZA  CARDOSO

Um conto divertido. Pode ficar mais limpo se forem eliminadas as aspas (“inferiores”, “devorar”), que funcionam como um recado do autor a dizer: “leitor, isto vai como ironia ou em sentido conotativo, mas essas aspas lembram você disso e assim se perde o efeito que eu queria dar”. Também atrapalha um pouco o excesso de interferência do narrador no início, quando ele dá a ficha completa da barata. O encontro dela com a formiga é eficiente para mostrar (diferente de contar) que se trata de uma falsa erudita presunçosa. Parte do excesso de informação dos primeiros parágrafos poderia ter sido entremeada no diálogo.

 

 

 

 

 

9

MARCO ANTUNES

Assim Caminha a humanidade! Perfeita comparação ao longo de toda a alegoria. Cumpre brilhantemente a função crítica! Excelente!

        10

TOTAL

58,5

 

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Conto

3

Autor

RAY CUNHA

Título

A AVENTURA DO LEÃO CÂNDIDO EM BRASÍLIA

Situação

Escolhida

PARÁBOLA.

      JURADO

               COMENTÁRIO

NOTA

LUCI AFONSO

Texto muito bem redigido. Acho que se aproxima mais do cômico que do humorístico. A situação escolhida é a fábula?

       8,5

CIDA SEPÚLVEDA

O ENREDO ESTÁ ATRATIVO, MAS A LINGUAGEM NECESSITA DE ENXUGAMENTO, OU POLIMENTO, OU LAPIDAÇÃO

         8

LIANA FERREIRA

Não está claro qual a mensagem que deve ser apreendida desta parábola. Fica difícil perceber a conexão entre o que tudo isso representa realmente. O Conto trata do amor entre Lili e Cândido Lili? Do amor entre pai e filho adotivos? Ou da amizade entre humanos e animais? Trata-se de uma tentativa de pensar as diferenças culturais entre a África e o Brasil? É uma apologia à cultura literária amazônica?

          7

CRISTIANE BRUM

Bem criativa a idéia de um leão tomando Coca-cola no Conjunto Nacional. O ritmo do texto está leve, bem adequado. Porém, como diria o brasileiro amigo da onça, e daí? Apesar de o exercício ser uma fábula amoral, o (a) autor (a) tem certas intenções ao escrevê-la. Até mesmo porque todo humor é crítico. Eu, sinceramente, não consegui entender quais foram as intenções do autor neste caso.

          7

LORENZA  CARDOSO

Depois que um moço brasiliense, sem mais nem porquê, virou guia de turismo e ajudante de polícia no coração da selva africana, fato que por si só já garantiria toda a piada necessária a um conto, esperei um crescendo de mirabolâncias (ao estilo “O Mestre e Margarita”), que não vieram. As singularidades do comportamento quase humano do leão são muito explicadas, justificadas, ao ponto de se tornarem previsíveis. Parece que no meio do caminho o autor sentiu medo da própria criatividade.

          8

MARCO ANTUNES

O conto é interessante e razoavelmente bem escrito, mas não se entende bem qual o sentido da parábola, isto é, parece mesmo uma história cômica de um leão-humano que não conduz a outro lugar menos denotativo. Como humor, foi incapaz de me fazer as tais cócegas no raciocínio.

8

TOTAL

46,5

 

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Conto

4

Autor

ARI GURCZ

Título

MÃE!

Situação

Escolhida

CONTE UM CASO EM QUE SE VERIFIQUE CRÍTICA VELADA OU ESCANCARADA AO COMPORTAMENTO HUMANO.

      JURADO

               COMENTÁRIO

NOTA

LUCI AFONSO

Diálogo saboroso, final surpreendente. Apenas uma troca de palavras: “encubadeira” no lugar de “incubadeira”.

         9

CIDA SEPÚLVEDA

O DIÁLOGO ESTÁ ENGRAÇADÍSSIMO, MAS A INTRODUÇÃO E A FINALIZAÇÃO, PRINCIPALMENTE A FINALIZAÇÃO, EMPOBRECEM MUITO O MIOLO DO CONTO.

        8,5

LIANA FERREIRA

Excelente! O autor nos presenteia com uma imagem familiar riquíssima através de um diálogo muito bem estruturado. A caricatura da mãe encontrada neste conto: dominadora, possessiva, auto-referente e transcendental, é hilária. Sua capacidade de antecipar fatos, antes dos relatos ou titubeios do filho, e até mesmo em suas pausas respiratórias, faz parte de uma prática muito comum no universo familiar. Outra característica importante desta mãe é a sua memória seletiva, uma vez que recorda-se apenas daquilo que é de seu interesse, evitando ou fugindo de qualquer verbalização do filho que lhe seja aversiva.

        10

CRISTIANE BRUM

Realmente, modo inusitado de conversar com a mãe... Ainda mais que a prática é semanal! Gostei do humor no tom da conversa, especialmente com as intervenções do filho. Ainda eu tenha achado alguns comentários da mãe um tanto exagerados... mesmo pra uma mãe tão preocupada.

           9

LORENZA  CARDOSO

Um conto engraçado, um final absolutamente imprevisível que, além do efeito surpresa, tem o mérito de alterar a perspectiva sobre aquilo que o precede: este não é apenas um diálogo típico entre mãe e filho, como parecia, mas o diálogo típico entre mãe e filho... Ainda não sei se foi bem um conto ou um truque de mágica. As aspas em “corrente” são dispensáveis.

          10

MARCO ANTUNES

O recurso inteligentemente usado aqui é o do paroxismo, que permite um certo distanciamento da verossimilhança. Aqui, a crítica ao comportamento materno é feita com rara graça e o final inesperado é a coroação de um texto inteiramente bem trabalhado. De fato, há aqui uma certa promiscuidade com a crônica, mas o humor suporta melhor que os outros temas essa ambivalência, Luís Fernando Veríssimo que diga! Se a personagem tivesse sofrido a influência química da cena e mudado de atitude ou estado, a inconveniência estaria resolvida. Entretanto, a eloqüência do humor aqui não me permite outra nota.

10

TOTAL

56,5

 

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Conto

5

Autor

MONIQUE BRITTO KNOX

Título

A  CIGARRA E A FORMIGA

Situação

Escolhida

FÁBULA  AMORAL

      JURADO

               COMENTÁRIO

NOTA

LUCI AFONSO

A idéia de pôr a formiga para cantar é muito boa, mas deveria ter sido usada logo no início do texto, para prender a atenção do leitor. Alguns reparos à acentuação, pontuação e conjugação verbal.

        7,5

CIDA SEPÚLVEDA

BEM ESCRITO, MAS COM POUCA VITALIDADE

        7,5

LIANA FERREIRA

Vencer preconceitos sem perder a identidade é o que nos ensina esta fábula, onde a versatilidade dos seres e sua capacidade de aprender são valorizadas. Em oposição a La Fontaine que supervaloriza a formiga em detrimento da cigarra, o nosso autor resgata conceitos que são muito importantes em termos de filosofia de vida. Na fábula de La Fontaine, carregada de preconceito na tentativa de valorizar o trabalho, a figura da cigarra é representativa do ócio, incapaz, inconseqüente, enquanto que o tempo certo é o da formiga. Aqui fica claro que cada um tem o seu tempo. O texto é informativo sem ser chato, mas se afasta do objetivo do desafio desta semana, não tem humor, infelizmente.

          8

CRISTIANE BRUM

Aprovei o tom, digamos, “anti-trabalho” dessa versão da fábula, mas creio que ela ficou a meio caminho de se realizar completamente. O final, apesar de não ser óbvio, não convence o leitor completamente. A conversa entre formiga e cigarra também me pareceu muito literal, pois faz menção à realidade dos animais como nós, humanos, a vemos.

8

LORENZA  CARDOSO

O conto foge à proposta de fazer humor. Por se tratar de uma história tão conhecida, o autor poderia tê-la resumido, para dar mais atenção às alterações que criou para o final.

          7

MARCO ANTUNES

Interessante, mas não achei o humor! Em alguns momentos a atmosfera lírica era mais evidente do que a menor hipótese de humor que porventura existisse.

        7,5

TOTAL

45,5

 

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Conto

6

Autor

WASHINGTON DOURADO

Título

Peqeno elogio à preguiça

Situação

Escolhida

DISCURSO DE UMA QUALIDADE HUMANA ANTROPOMORFIZADA

      JURADO

               COMENTÁRIO

     NOTA

LUCI AFONSO

Texto irreverente e divertido. A preguiça está muito bem caracterizada, inclusive pelo uso de recursos visuais — é especialmente criativo o aumento progressivo do espaçamento entre as palavras.

 

 

9,5

CIDA SEPÚLVEDA

TRATA-SE DE UM TEXTO ARGUMENTATIVO, SEM ARGUMENTAÇÃO

7

LIANA FERREIRA

O texto é muito criativo na medida em que a preguiça está representada visualmente. A forma de redução usada nas palavras é ilustrativa e consolida a teoria - é o que acontece no filme Fantasia, no qual Walt Disney nos brinda com a representação da música através do desenho animado de notas musicais. A defesa da preguiça, feita por ela própria, está bem formulada. O nível de argumentação é muito bom porque na realidade a preguiça e o ócio têm funções importantes na vida das pessoas, função de repouso, de descanso, de se ter uma atitude contemplativa diante da vida. Aqui a preguiça não é colocada como perniciosa, desagradável, como um defeito, mai é vista e dita como uma qualidade humana. O paralelo com a felicidade é perfeito.

 

 

 

 

 

 

10

CRISTIANE BRUM

Adorei este elogio – que economiza até mesmo na digitação! – a uma característica tão desprezada no mundo capitalista. Aliás, dando uma preguiça de escrever mais...

           10

LORENZA  CARDOSO

erfeita simbiose entre o que dizer e como dizê-lo. O conto tem o tamanho certo: nem é necessária muita atenção ao discurso da preguiça (que afinal não é novo) para rir do efeito que a evolução (ou involução, como queiram) da escrita produz na página. Professor, isto é um conto concretista?

 

 

10

MARCO ANTUNES

Excelente, bem escrito, bem pensado e o charme das abreviaturas é o toque final.

9,5

TOTAL

56

 

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Conto

7

Autor

ANTÔNIO CARDOSO NETO

Título

UMA FÁBULA SEM MORAL, SEM PÉ E SEM CABEÇA

Situação

Escolhida

UMA FÁBULA AMORAL

      JURADO

               COMENTÁRIO

NOTA

LUCI AFONSO

Esta fábula é uma obra-prima humorística. Divertiu-me muito, além de ampliar meu vocabulário mirmecológico.

        10

CIDA SEPÚLVEDA

UMA BOA IDÉIA, MAS UM TEXTO PROLIXO

 

         7

LIANA FERREIRA

O autor cria uma fábula interessante usando conceitos da teoria capitalista para brincar com a situação atual de forma bem-humorada e inteligente. Através das formigas e das cigarras desfilam diante de nós as dificuldades das relações humanas, e o desrespeito pelas diferenças individuais. A interação com o leitor soa espontânea e está na medida certa. A crítica contida no desfecho, apesar de preconceituosa, ou por isso mesmo, é um primor.

         10

CRISTIANE BRUM

Dei boas risadas com os trocadilhos deste texto e, especialmente, com os “intrometimentos” do (a) autor (a). “Sem-pé” e “sem-cabeça”, mas nem tanto, nobre autor (a), pois o desafio foi cumprido com determinação, já que o tema era o humor. As comparações marxistas também foram felizes. Já pensou na continuação, contando a saga das cigarras-sertanejas no Planalto Central? Creio que daríamos outras tantas boas risadas.

         10

LORENZA  CARDOSO

Ler esse conto é como seguir um sujeito um pouco desocupado, que num belo dia de primavera resolveu se permitir passear pelos caminhos que lhe dessem na telha (como diria se fosse gaúcho), sem medo do ridículo e com muita confiança em si. O resultado é uma delícia e, se fosse possível atribuir uma nota pela intensidade das câimbras (porque rir dá câimbras), minha nota seria 11.

        10

MARCO ANTUNES

O autor usa a situação da fábula para mostrar seu verdadeiro talento humorístico que se situa mais no plano do discurso e no do potencial lexical e fonético. Bem escrito e inteligente, há elementos cuja significação ou importância me escaparam como a mudança de jacarandá para jequitibá.

9

TOTAL

56

 

>>>o<<<

 

Conto

8

Autor

LACY  MESQUITA

Título

EFEITO VIOLETA

Situação

Escolhida

CASO

      JURADO

               COMENTÁRIO

NOTA

LUCI AFONSO

Não percebi humor neste texto, nem crítica ao comportamento humano. Infelizmente, não cumpriu o desafio.

          7

CIDA SEPÚLVEDA

TEM IDÉIA, MAS A ESTRUTURA DO TEXTO ESTÁ FRÁGIL

          7

LIANA FERREIRA

Um caso romântico onde uma amiga tenta ajudar a outra a desvendar o sentimento de um admirador e direciona uma conversa para, entre outros objetivos, esclarecer a opção sexual do mesmo. A figura do cupido sempre aparece na nossa cultura como uma figura engraçada, mas não é o caso de Violeta, tão desprovida de graça quanto de ética. Se o humor existe, permanece velado.

         7,5

CRISTIANE BRUM

Confesso que não consegui entender bem a intenção crítica do texto, em relação ao comportamento humano. Também tive dificuldades em perceber os traços de humor nele. Ao contrário, pareceu-me pender muito mais para o dramático.

         7,5

LORENZA  CARDOSO

Não me pareceu um conto de humor, nem mesmo um conto sobre humor, apesar das promessas dos dois primeiros parágrafos.

          7

MARCO ANTUNES

Há algum problema na narração, pois, no fim, a narrativa em primeira pessoa parece passar para terceira pessoa. O humor é discreto, mas é humor, a história flerta em demasia com a crônica, mas o resultado final é razoável.

          8

TOTAL

44

 

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Conto

9

Autor

OSMAR PERAZZO LANNES JR.

Título

PAPO  DE  TELEFONE

Situação

Escolhida

CAMINHO 5 – PERSONAGEM INADEQUADA

      JURADO

               COMENTÁRIO

NOTA

LUCI AFONSO

Engraçadíssimo! Dei boas risadas. Redação irretocável. Apenas o final me pareceu um pouco forçado.

        9,5

CIDA SEPÚLVEDA

BOA IDÉIA, MAS É CONVENIENTE RETRABALHAR O TEXTO, TORNAR MAIS CLARO, ENXUGAR, ETC..

        7,5

LIANA FERREIRA

A história está bem escrita e tem humor. Envolve-nos e quase faz- nos sentir a ansiedade da personagem e as suas conseqüentes alterações fisiológicas. Pena que o escritor tenha pesado a sua mão na brincadeira com a personagem, vestindo-lhe uma camisa de força que a um só tempo a imobiliza e engessa o humor.

         9

CRISTIANE BRUM

: Não consegui entrar na sintonia do humor usado pelo (a) autor (a) neste texto. Se a idéia era a crítica do comportamento masculino, o final mais atrapalha que ajuda. Apesar do exagero da situação, não me convenceu a solução da loucura. A crítica e o humor talvez pudessem ter sido melhor realizados com outro final, “mais normal”.

         7

LORENZA  CARDOSO

Engraçadíssimo, abusa com perfeição das letras maiúsculas e do jargão de escritório. O final, por ser um pouco exagerado, merecia uma ligeira preparação (para que soubéssemos desde logo a opinião dos colegas sobre a sanidade mental do pobre indivíduo, ou sobre outros surtos que eles poderiam ter presenciado).

         10

MARCO ANTUNES

Voltei e reli duas vezes o final tentando adivinhar o que pode ter levado os colegas a desconfiar da sanidade da personagem, mas não consegui. O texto tem muita graça em seu desenvolvimento, a cena é somatizável, o que é ótimo para realçar o humor, afinal todos já nos sentimos atônitos diante de alguma Juliana ou Julião, mas essa dificuldade no final tem o condão de cortar o barato do texto.

          9

TOTAL

52

 

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Conto

10

Autor

CINTHIA KRIEMLER

Título

O VELÓRIO

 

Situação

Escolhida

UMA PERSONAGEM INADEQUADA PARA O LUGAR OU SITUAÇÃO

      JURADO

               COMENTÁRIO

NOTA

LUCI AFONSO

Texto leve, descontraído. Final inesperado.

        8,5

CIDA SEPÚLVEDA

O TEMA “ESPOSA E AMANTE” É  MUITO RICA. MAS O AUTOR/A NÃO CONSEGUIU CRIAR UM CONFLITO, UM CLÍMAX

          7

LIANA FERREIRA

Marina está de férias, e de repente se flagra transformada em promoter de velório tendo que lidar com situações alheias ao seu cotidiano, inclusive com a dor do outro. O inusitado do desfecho, que nos obriga a rever valores e a quebrar a nossa rotina de olhar o mundo sempre de forma linear, é instigante.

         10

CRISTIANE BRUM

O final é interessante, ainda que o texto sugira um pouco antes o desafio ao clichê da mulher discreta/ amante loira. Contudo, pareceu-me que o clima de velório perpassa a atuação da protagonista e não permite que o humor aflore de forma adequada na escrita.

          8

LORENZA  CARDOSO

Há excesso de informação antes do desenlace, tirando destaque do engano final. Também chama a atenção a mistura de pilcha/ patrões/peões com italianos/vinhedos. São duas culturas muito distantes (inclusive geograficamente). Elas podem se encontrar num conto, mas não assim de passagem, como se o encontro fosse natural e corriqueiro.

          8

MARCO ANTUNES

O desfecho surpreendente é o grande lance desse conto de perfeita graça e desenvolvimento inteligente. A ambiência real com verossimilhança e a gafe do preconceito do narrador respondem pelo sucesso humorístico do conto presente.

         10

TOTAL

51,5

 

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Conto

11

Autor

ROBERTO KLOTZ

Título

O QUE EU ESTOU FAZENDO AQUI?

Situação

Escolhida

EQUÍVOCO ENGRAÇADO

      JURADO

               COMENTÁRIO

     NOTA

LUCI AFONSO

A situação descrita é realmente engraçada, principalmente o comportamento do “viúvo” ao longo do texto.

        8,5

CIDA SEPÚLVEDA

A TRAMA ENVOLVE. A LINGUAGEM OSCILA, ÀS VEZES, PROLIXA, ÀS VEZES, DENSA E BELA. A QUESTÃO DO HOMOSSEXUALISMO  É ABORDADA, PERMITINDO A LEITURA PRECONCEITUOSA.

        8,5

LIANA FERREIRA

O equívoco provocado pela troca de endereços e a coincidência de nomes vão envolvendo a personagem numa situação inusitada e surpreendente. Através desse engano o autor planta a curiosidade no leitor tornando impossível interromper a leitura antes do final.

         10

CRISTIANE BRUM

: Achei o título meio óbvio, mas a situação é interessante. Contudo, acho que a atitude do cara em querer aproveitar a casa da praia não fez muito sentido em relação à história. Talvez a situação ficasse bem mais engraçada se o cara não aceitasse o papel de viúvo.

        8,5

LORENZA  CARDOSO

O início está bastante truncado: “preparei-me” para quê? A repetição da palavra “casa” também soa mal. Alguns pequenos ajustes de tempo verbal são necessários. A parte central do conto, quando o personagem é assediado pelos parentes do morto, é muito longa e repetitiva, o que faz com que a história tenha perdido ritmo ao entrar na questão da herança e na reta final.

          8

MARCO ANTUNES

Alguns errinhos no caminho do leitor tiram um pouco da graça que a cena tem e que o autor com muito talento narrou. Excelente opção, grande verve cômica. Entretanto, o que é bom como humor impressiona mais que os pequenos defeitos

10

TOTAL

53,5

 

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Conto

12

Autor

MONICA THATY DA SILVA

Título

UNA

Situação

Escolhida

UM EQUÍVOCO

      JURADO

               COMENTÁRIO

     NOTA

LUCI AFONSO

Este diálogo com a Verdade é muito bem conduzido. Redação sem reparos. Só faltou uma pitada de humor.

         8,5

CIDA SEPÚLVEDA

UMA BELEZINHA DE CONTO. SIMPLES, ENVOLVENTE E FILOSÓFICO.

         10

LIANA FERREIRA

O cerne desse texto é a discussão dialética da verdade. Ele nos remete ao filósofo grego Heráclito, que dizia: “Um homem não se banha duas vezes no mesmo rio, porque no momento seguinte não é mais o mesmo homem, nem é mais o mesmo rio”.

         10

CRISTIANE BRUM

: Interessante a discussão sobre as várias verdades e a caracterização da personagem “Verdade”, mas achei o humor muito pálido no texto, assim como a moça etérea.

          8

LORENZA  CARDOSO

Ao invés de um conto humorístico, uma apologia do relativismo. E, de repente, surgem “verdades inabaláveis” que ninguém consegue derrubar. Filosoficamente falando, estranho.

          7

MARCO ANTUNES

Bem escrito, bem sacado, com humor na dose certa, não chega propriamente a ser cômico, mas tudo colabora para produzir aquela agradável sensação de prazer e descoberta que o humor produz. Final adequado e inteligente.

         10

TOTAL

53,5

 

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Conto

13

Autor

HUMBERTO AZEVEDO

Título

QUANDO A PREGUIÇA SE CANSOU DO “CANSEI!”

Situação

Escolhida

UM DISCURSO PERSONIFICADO

      JURADO

               COMENTÁRIO

     NOTA

LUCI AFONSO

A preguiça tem argumentos interessantes, mas sua fala é desarticulada. O texto precisa de revisão gramatical. É gritante o uso de “cesta” no lugar de “sesta”.

         7,5

CIDA SEPÚLVEDA

BOM CONTO. RETOCAR A LINGUAGEM PODE SER SIGNIFICATIVO

         8,5

LIANA FERREIRA

A preguiça se apresenta inferiorizada nesse conto. Fazendo a auto-defesa ela se desmerece, se subestima. Vale uma tentativa de reescrever o texto explorando melhor o tema selecionado.

         7,5

CRISTIANE BRUM

Achei confusa a organização das falas. Parece, por vezes, que há mais de uma personagem falando. E a presença da Ganância no texto complica a situação sem auxiliar na solução da história.

          7

LORENZA  CARDOSO

Há erros em excesso para corrigir e pelo menos um deles, de pontuação, torna a frase ininteligível.

          7

MARCO ANTUNES

Interessante a personificação, mas as alusões políticas meio sem razão e com carga panfletária azedam o humor.

         7,5

TOTAL

45

 

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Conto

14

Autor

SORAIA MARIA SILVA

Título

QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO...NO RINGUE COM MACHADO...

 

Situação

Escolhida

DISCURSO

      JURADO

               COMENTÁRIO

     NOTA

LUCI AFONSO

Belo discurso, à altura do proferido pela “amiga Vaidade”. O humor também é machadiano. A autora confirma o estilo sofisticado neste texto.

       9,5

CIDA SEPÚLVEDA

MUITO BONITO, PROFUNDO. TALVEZ ALGUM RETOQUE NO EXCESSO DE ADJETIVAÇÃO

        10

LIANA FERREIRA

Filha do desejo e da carência, prima do pecado e do vício, a fome discursa em seu nome e no de suas irmãs: a vaidade, a falsa modéstia e sua gêmea, a morte. O autor nos brinda com esse belíssimo conto em que nossas “mazelas existenciais” são discutidas, de forma leve, pela ótica das nossas virtudes. Parabéns! Esse texto cumpre o seu papel social: alimentar os famintos de boa literatura. Valeu a machadada.

        10

CRISTIANE BRUM

O discurso da fome é bastante interessante e joga bem com idéias paradoxais e com os diferentes tipos de fome. O humor é refinado como a linguagem, com citações até de musas! Mas achei o texto um pouco longo.

          8,5

LORENZA  CARDOSO

A nota não é máxima porque não encontrei traço de humorismo; também não é máxima porque o último parágrafo não condiz inteiramente com os demais, a começar pelo coloquialíssimo “Bom” com que se inicia. Afora isso, um conto inteligente, provocativo e inesquecível.

          9

MARCO ANTUNES

O texto está bem escrito, a personagem bem caracterizada, mas há um certo excesso verbal sem proveito humorístico. Ritmo é elemento fundamental do humor e parece que a linguagem pesada prejudicou um pouco esse importante fundamento.

        8,5

TOTAL

55,5

 

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4º Desafio

Humorismo

Humor - Definições do indefinível


· NADA MAIS HUMORÍSTICO DO QUE O PRÓPRIO HUMOR, QUANDO PRETENDE DEFINIR-SE (FRIEDRICH HEBBEL).

· DEFINIR O HUMOR É COMO PRETENDER PREGAR A ASA DE UMA BORBOLETA USANDO COMO ALFINETE UM POSTE DE TELÉGRAFO (ENRIQUE JARDIEL PONCELA).

· HUMOR É A MANEIRA IMPREVISÍVEL, CERTA E FILOSÓFICA DE VER AS COISAS (MONTEIRO LOBATO).

· O HUMORISMO É O INVERSO DA IRONIA (BERGSON).

· O HUMORISMO É O ÚNICO MOMENTO SÉRIO E SOBRETUDO SINCERO DA NOSSA QUOTIDIANA MENTIRA (G. D. LEONI).

· O HUMOR É O AÇUCAR DA VIDA. MAS QUANTA SACARINA NA PRAÇA! (TRILUSSA).

· O HUMOR É O ÚNICO MEIO DE NÃO SERMOS TOMADOS A SÉRIO, MESMO QUANDO DIZEMOS COISAS SÉRIAS: QUE É O IDEAL DO ESCRITOR (M. BONTEMPELLI).

· O HUMOR COMPREENDE TAMBÉM O MAU HUMOR. O MAU HUMOR É QUE NÃO COMPREENDE NADA (MILLÔR FERNANDES).

· O ESPÍRITO RI DAS COISAS. O HUMOR RI COM ELAS (CARLYLE).

· A FONTE SECRETA DO HUMOR NÃO É A ALEGRIA, MAS A MÁGOA, A AFLIÇÃO, O SOFRIMENTO. NÃO HÁ HUMOR NO CÉU (MARK TWAIN).

· O HUMOR É UMA CARICATURA DA TRISTEZA (PIERRE DANINOS).

· O HUMOR É A VITÓRIA DE QUEM NÃO QUER CONCORRER (MILLÔR FERNANDES).

· A PRÓPRIA ESSÊNCIA DO HUMOR É A COMPLETA, A ABSOLUTA AUSÊNCIA DO ESPÍRITO MORALIZADOR. INTERESSA-LHE POUCO A PREGAÇÃO DOUTRINAL E A EDIFICAÇÃO PEDAGÓGICA. O HUMOR NÃO CASTIGA, NÃO ENSINA, NÃO EDIFICA, NÃO DOUTRINA (SUD MENUCCI).

· O HUMORISMO É DOM DO CORAÇÃO E NÃO DO ESPÍRITO (L. BOERNE).

· O HUMORISMO É A ARTE DE VIRAR NO AVESSO, REPENTINAMENTE, O MANTO DA APARÊNCIA PARA POR À MOSTRA O FORRO DA VERDADE (L. FOLGORE).

· O HUMOR TEM NÃO SÓ ALGO DE LIBERADOR, ANÁLOGO NISSO AO ESPIRITUOSO E AO CÔMICO, MAS TAMBÉM ALGO DE SUBLIME E ELEVADO (FREUD).

· HUMORISMO É A ARTE DE FAZER CÓCEGAS NO RACIOCÍNIO DOS OUTROS. HÁ DUAS ESPÉCIES DE HUMORISMO: O TRÁGICO E O CÔMICO. O TRÁGICO É O QUE NÃO CONSEGUE FAZER RIR; O CÔMICO É O QUE É VERDADEIRAMENTE TRÁGICO PARA SE FAZER (LEON ELIACHAR).
(*)

· O HUMORISMO É A QUINTESSÊNCIA DA SERIEDADE (MILLÔR FERNANDES).

· O HUMORISTA É UM FORTE BOM, VENCIDO, MAS SOBRANCEIRO À DERROTA (ALCIDES MAIA).

· O HUMOR É A POLIDEZ DO DESESPERO (CHRIS MARKER).


(*) DEFINIÇÃO LAUREADA COM O PRIMEIRO PRÊMIO ("PALMA DE OURO") NA IX EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE HUMORISMO REALIZADA NA EUROPA — BORDIGHERA, ITÁLIA, 1956.

 TERCEIRO DESAFIO

DESTA VEZ, SÓ IDENTIFICAREMOS

OS AUTORES DEPOIS DO JULGAMENTO,

INCLUSIVE PARA O JURI

Conto

1

Autor

 

Título

A COLEÇÃO

Situação

Escolhida

(UM CASO MUITO ESCLARECEDOR)

Com duas pancadinhas na extremidade da cigarrilha francesa, desfez-se da cinza acumulada.. Quando a bagana caiu no cinzeiro, pulou da confortável cadeira giratória e gritou:

- Cinzeiros! Uma coleção de cinzeiros!

Enfim a resposta que procurava há meses. Tão simples! Tão requintado! Tão diferente, tão especial, tão... tão... exclusivo! Sim, era disso que precisava: a cartada final para por fim àquele antigo jogo.  Tavares jamais teria uma idéia melhor.

A história já vinha de anos. Conheceram-se na faculdade de direito e, por algum motivo acima de suas razões, suas vidas entrelaçaram-se definitivamente a partir de então. O que primeiro pensava Monteiro, em seguida pensava melhor Tavares, com requintes de genialidade. A nota que tirava Tavares, melhor tirava Monteiro, com louvores do professor. A pergunta complicada que formulava Monteiro, complicava-se ainda mais na boca de Tavares, com possibilidade nula de resposta. E assim chegaram à formatura, em cuja foto oficial foram flagrados comparando o cumprimento de suas becas.

Os jovens advogados iniciaram carreiras promissoras e paralelas. Paralelas enquanto ocuparam salas vizinhas na sobreloja de um comércio de periferia. Os bons ventos que sopraram para ambos levaram Tavares primeiro até o Metropolitan Tower, o edifício inteligente no centro da cidade. Ali alugou uma modesta sala de primeiro andar, em cuja porta pendurou uma espalhafatosa placa onde se lia “Tavares e Advogados Associados”  - apesar de não ter sócio algum.

Agora, do alto de sua sala, Monteiro recapitulava o quanto aquela amizade o fizera subir na vida. Depois que o amigo alugou o imóvel no primeiro andar do prédio de dez pavimentos, passou a  considerar com carinho a proposta de aluguel um pouco acima, no segundo andar. Obviamente, em pouco tempo, Tavares mudou-se para o terceiro e, assim, ao cabo de cinco anos, estavam os dois instalados no nono andar. Como a igualdade sempre fora insuportável para ambos, ele, Monteiro, resolveu comprar todas as salas do 10º andar para montar o seu escritório. É certo que a maior parte delas permanecia vazia, mas isso pouco importava, o que realmente contava é que dessa forma teria algo mais que o concorrente e eliminaria as chances de Tavares alcançá-lo. Assim, graças ao amigo, estava hoje no seu sofisticado escritório de advocacia no último andar do Metropolitan Tower, em cuja fachada podia se ver à distância o néon piscando com os dizeres: “Monteiro & Monteiro – o seu advogado”  - afinal, era tão bom profissional, que valia por dois.

Talvez porque tudo o que queriam, queriam demais, resolveram se casar com a mesma mulher. Linda apareceu ao mesmo tempo na vida dos advogados, durante uma audiência em que defendiam causas opostas. Apesar das sucessivas apelações, a juíza teve que conceder sentença favorável a um dos dois e, dessa vez, levou a melhor Monteiro. Mas, “azar no jogo, sorte no amor”, Linda apaixonou-se pelo advogado derrotado e no exato dia em que subiu ao altar com Tavares, Monteiro casava-se com Sebastiana, vulga “Mimosinha”, apelido estrategicamente concedido à esposa, pois envergonhava-se do nome da mulher. Venhamos e convenhamos, por mais bonita que Sebastiana fosse – e realmente era - , com um nome desses, jamais superaria  o élan causado por uma mulher chamada “Linda” – que a despeito do nome, era muito mais dotada de inteligência do que de beleza. O fato é que, como tudo o que faziam, faziam bem demais, Monteiro e Tavares amavam profundamente suas mulheres e, como forma de superar, em uma a inteligência e na outra a beleza, enquanto Monteiro bancava cursos de línguas para tornar Mimosinha uma verdadeira poliglota, Tavares investia em plásticas semestrais para transformar Linda em um  “avião”.

Viajavam todos os anos pela mesma agência de Turismo. Fácil sugerir roteiros para viajantes como Tavares e Monteiro. Se Tavares resolvia passar dez dias de férias em um hotel cinco estrelas em Natal, as férias de Monteiro seriam de 11 dias, em qualquer resort mais estrelado, um pouco mais longe, quiçá em Fortaleza. Assim, viajaram pelos cinco continentes e já não havia lugares turísticos famosos nos quais Monteiro, Tavares e suas respectivas não tivessem colocado os pés. O mundo tornara-se pequeno para a incessante e mútua disputa dos advogados pela dianteira.

Agora, porém,  Monteiro estava diante da idéia que o levaria ao xeque-mate daquela partida. Uma coleção de cinzeiros era algo completamente original, o diferencial que acabaria de vez com qualquer pretensão que Tavares porventura ainda alimentasse de superá-lo. A essa altura de suas vidas, sabia que estavam aptos a ter qualquer coisa que o dinheiro pudesse comprar. Por mais extravagantes que fossem seus desejos, jamais encontrariam algo que os dois não pudessem fazer ou ter.  O que então poderia torná-lo inatingível perante Tavares? Uma coleção. Uma coleção peculiar. Uma coleção de cinzeiros. Uma coleção de cinzeiros torna um homem especial, atribui a ele um quê de incomum, torna-o raro. Quem pode comparar-se a um colecionador de cinzeiros? Quem ousaria possuir algo tão extraordinário quanto uma coleção de cinzeiros? Com certeza, uma coleção de cinzeiros torna um homem inigualável em suas posses; definitivamente.

Traçou seu plano maquiavelicamente. Do escritório saiu com o firme propósito de adquirir tantos cinzeiros quantos fosse possível; de formas, tamanhos, cores, pesos e preços diferentes. Os que estavam à venda, comprava. Os que não estavam, encomendava. Mandou buscar cinzeiros pela internet, vasculhou antiquários, revirou baús, subornou fumantes, seduziu fabricantes. Em duas semanas, amealhou centenas de exemplares. Estava pronto, enfim, para mostrar sua coleção  ao dileto Tavares e degustar, prazerosamente,  o sabor da vitória.

O amigo ficou estupefato. Não cria no que via. Em anos de competitiva convivência, nunca poderia supor que Monteiro fosse ardiloso a ponto de engendrar uma estratégia genial como aquela. Por um momento, acreditou que jamais poderia superar Monteiro naquela excêntrica aquisição. A derrota escapou-lhe da fronte em gotas gordas de suor.  Para seu completo infortúnio, quando já se retirava cabisbaixo do escritório do vizinho, ouviu-o dizer em tom de provocação:

- Pois então, Tavares, embarco amanhã em um cruzeiro de 40 dias rumo à Indonésia. Sabe como é Mimosinha, está ansiosa para praticar o javanês que aprendeu. E eu, confesso, também estou louco para adquirir uns cinzeirinhos diferentes...

Antes que se desfizesse em uma poça sudorípara de fiasco, estendeu a mão para despedir-se de Monteiro, esforçando-se para agüentar a última humilhação, acompanhada de um tapinha nas costas:

- Tavares, meu amigo, você me parece um pouco abatido... Veja lá, meu caro, quem sabe não está precisando de férias. Cuide-se! E conte comigo, afinal, somos ou não somos grandes amigos?

O enjôo quase não atrapalhou o cruzeiro de Monteiro. De fato, não gostava muito de viagens de navio, sentia náuseas desde a infância. Mas o que importava, o que realmente contava era fazer algo tão exótico que tornasse impossível a Tavares imitá-lo.  Saber que podia deixar o amigo enlouquecido, mesmo à distância, lhe causava ondas de prazer.

Foi justamente a iminência desta sensação o que fez  Monteiro perder o juízo durante o jantar de gala oferecido aos viajantes pelo comandante. A comida lhe pareceu insossa depois de ver, depositada sobre a mesa da tripulação, aquela peça. Um cinzeiro. Um pequeno cinzeiro de cristal, sutilmente adornado com incrustações de madrepérola esculpida em formato de caravelas. Dos 457 cinzeiros que contava em sua coleção, mesmo dentre aqueles confeccionadas artesanalmente, jamais vira um tão delicado e perfeito. Era um sonho. E como para Monteiro, não existe sonho que não possa ser adquirido por um bocado de cédulas, abordou o comandante para fazer uma polpuda oferta pela peça. O homem foi taxativo e demonstrou irritação com a insistência do passageiro: - Meu senhor, esta peça não está à venda. É patrimônio histórico do navio, pertence à coleção da companhia. Por favor, não insista.

Não, não poderia perder a oportunidade de levar consigo o cinzeiro e esfregá-lo, com toda a elegância, na cara do Tavares. Um novo exemplar para a sua coleção, certamente raríssimo. Já podia imaginar a cena, o amigo se contorcendo, pingando de suor: “Tavares, meu caro, este cinzeiro foi resgatado de um naufrágio na costa de Bali. Ficou decênios no fundo do mar. Peça rara, impossível conseguir algo parecido...” 

Teria o cinzeiro a qualquer preço. Chamou Mimosinha e convenceu-a a distrair o comandante. Enquanto a mulher, deslumbrada, rodopiava com o comandante no salão, Monteiro surrupiou a pequena peça e a colocou discretamente dentro da bolsinha de festa da esposa. A satisfação da conquista transformou o ato em algo banal, apenas mais um de seus recursos para obter o que queria. O que importava, o que realmente contava, é que ter aquele cinzeiro tornaria sua coleção ainda mais rara, insuperável e isso dificultaria qualquer nova tentativa que Tavares empreendesse para ultrapassá-lo.

Dias depois, o navio aportava no Rio de Janeiro. Monteiro e Mimosinha desembarcaram na frente de todos os passageiros, à pedido do Comandante. Certamente, uma homenagem a hóspedes tão distintos. Foram encaminhados à sala VIP do porto, onde supunham encontrar um brinde especial à sua espera. Ao chegarem, foram surpreendidos pelo chefe da guarda marinha, que, com o cinzeiro de cristal nas mãos, decretou ordem de prisão ao casal:

- Sr. Monteiro, este cinzeiro de cristal foi encontrado em sua bagagem. Trata-se de uma peça da coleção particular do armador. Infelizmente, teremos que detê-lo para interrogatório e averiguações posteriores.

A situação parecia irreal. Aquilo não poderia estar acontecendo com ele, Monteiro, o titular da Monteiro & Monteiro, o mais rico advogado do país. Tentou pensar rapidamente em uma estratégia para livrar-se de tamanho constrangimento, mas sabia, como bom advogado que era, que fora pego em flagrante e não havia muito o que fazer. Porém, há sempre uma saída para as pessoas que, como ele, de uma forma ou de outra, conseguem tudo o que querem. Colocou a mão no bolso, ainda tinha muitos dólares na carteira. Antes que fizesse chegar ao policial o maço de notas verdes, foi detido pela mão forte do comandante: - O senhor está preso por tentativa de suborno. Sou obrigado a algemá-lo.

Mimosinha, estarrecida com o que presenciava, avistou ao longe, sentado no fundo da sala VIP, ao lado da mulher Linda, o advogado Tavares, grande amigo de seu marido. O casal aguardava a chegada do navio para partir no próximo cruzeiro, desta feita com destino ao arquipélago japonês de Hokkaido. Cochichou no ouvido de  Monteiro:

- Quem sabe o Tavares não pode ajudar? Ele é seu amigo... e também é advogado.

Monteiro, já algemado, pediu à autoridade policial que o conduzisse até o advogado. Quando estava no campo de visão do amigo, percebeu que ele disfarçava, olhando para o horizonte, fugindo propositadamente dos  seus olhos. Forçou o contato:

- Tavares, meu caro, como é bom revê-lo.. Estou sendo vítima de um grande engano. Por favor, amigo, esclareça ao comandante... Tavares... Tavares!

O amigo levantou-se rapidamente, a esposa assustada atrás. De costas, apressou o passo para não permitir que a voz de Monteiro o alcançasse. À uma certa distância, os gritos de Monteiro latejavam em sua cabeça e misturavam-se à mesma voz suave que, há dias atrás, proferira com um certo escárnio aquela última pergunta: - Somos ou não somos grandes amigos?

Monteiro, desesperado, além dos gritos, envidava todos os recursos para que Tavares lhe dispensasse um mínimo de atenção e o salvasse daquela condição vergonhosa.

 - Tavares, meu caro, me ajude! Posso ceder-lhe algumas salas no 10° andar...

O advogado, a passos firmes, seguia decidido, como se nada existisse atrás de si. O prisioneiro, quase que implorando, tentava articular uma oferta irrecusável.

- Tavares, Tavares...  Fica com a conta do Garcia, amigo. É meu melhor cliente!

Tavares puxava freneticamente a mulher pela mão, irredutível na caminhada rumo à rampa do navio. As ofertas do amigo não eram capazes de demovê-lo do firme propósito de desembaraçar-se daquele vexame.

- Tavares! – gritou Monteiro, desiludido e sem fôlego. O policial apertava seu braço, impaciente. Aquela seria, sem dúvida, a sua mais desesperada oferta, a última esperança de convencer o amigo a ajudá-lo a safar-se. Olhou para a esposa com olhos lânguidos, um olhar que a um só tempo era despedida e pedido de perdão. Em tom de súplica, jogou as últimas cartas na mesa.

 – Mimosinha, Tavares... Leve minha mulher, ela ficaria feliz em acompanhá-lo numa próxima viagem... Eu preciso de você, amigo.

Por alguns instantes, as passadas apressadas de Tavares pareceram titubear, mas o homem seguiu em frente. Já sem voz, sem esperança e sem convicção,  Monteiro atirou-se de joelhos ao chão. De seus olhos escorriam lágrimas de desolação. Mergulhado em tormento, esforçou-se para dizer o que jamais suporia ser capaz de dizer. Com voz quase inaudível, ofereceu ao amigo, numa fala entremeada de esperança e arrependimento:

- Minha coleção, Tavares. Fique com a minha coleção de cinzeiros!

A alguns bons metros de distância, Tavares parou. Virou-se para trás, enxugou o suor da testa e deixou aflorar no rosto um largo sorriso de satisfação. A passos leves, como que pisando sobre fartas nuvens de ambição, caminhou sem pressa ao encontro de seu grande amigo Monteiro.

 

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Conto

2

Autor

 

Título

UMA BARATA LITERATA

Situação

Escolhida

FÁBULA AMORAL

Estás entediado, leitor? Toma esta pequena fábula amoral e preenche tua tarde calorenta. Mas cuidado: não espera muito da pobrezinha, é apenas uma fabulinha.

Consta em um velho e empoeirado livro de antigas histórias que houve uma vez uma jovem barata muito presunçosa. Julgava-se melhor que todo mundo. Não conversava com lagartas, não dava a mão às aranhas, nem se confraternizava com aqueles que considerava “inferiores”. Formigas, via-as passando de cá para lá e de lá para cá, mas agia como se elas nem existissem. Nas poucas vezes em que se dignava a dirigir a palavra a alguém, era só para desfiar aquela ladainha chata sobre baratas serem criaturas superiores, que estavam na Terra desde o Carbonífero, há 320 milhões de anos, que sobreviveriam a uma guerra nuclear, e patati-patatá, essas e outras chatices e gabolices de mesmo gênero. Um porre.

Pois além desses horríveis defeitos de personalidade, comuns a todas as baratas, a figurinha de quem lhes falo era pior: era metida a intelectual! Dizia-se literata, a danada. Só andava com a cara enfiada nos livros antigos, dos autores clássicos, mas quem a conhecia sabia que não estava ali para lê-los de verdade, mas sim para procurar sábias citações para rechear seus discursos vazios. Nem sabia o que era realmente um bom livro, boa literatura. Diziam alguns, especialmente os mais venenosos, os escorpiões, que a pobre não reconheceria um autor de verdade nem que se deparasse com o próprio Machado de Assis. Guiava-se sempre pelas “antenas” alheias. Falsa erudita, isso sim, diziam todos. Pseudoliterata, a chata da barata.

Certa ocasião, na biblioteca, à noite, passava um grupo de formigas em movimento contínuo. Coitadinhas das formigas, batiam-se a trabalhar. Visitavam com freqüência os bons autores, iam aos dicionários, às gramáticas, faziam ciclos de leitura, freqüentavam clubes de contos. Um trabalho incessante, de formiguinhas, dir-se-ia.

Vendo a barata absorta, a fitar os livros, como a selecionar um para “devorar” naquela madrugada, uma das formigas, humilde, abandonou a fila e foi puxar conversa:

― Com licença, dona Barata.

― Sim? Quem ousa importunar minha contemplação literária? ― perguntou, derramando empáfia e antipatia por toda a estante.

― Vim convidar a senhora para vir conosco...

― E aonde vão as senhorinhas, pode-se saber? ― questionou, enquanto olhava de cima para baixo, com o nariz empinado, a fila de formigas a passar.

― Estamos indo participar de uma oficina de literatura, dona Barata. Chegou uma nova coletânea, novinha em folha, cheirando a celulose de primeira, e vamos fazer um ciclo de leitura e debates.

― Leitura e debates, hum, hum. Não, obrigada. Não há nada que uma barata culta e erudita como eu possa ganhar em um “ciclo de leitura e debates” com vocês, formigas.

― Ora, dona Barata, não seja maldosa. Há sempre o que aprender nesta vida.

― Aprender, eu? Sobre o quê? Literatura? Ora, tenha dó, dona Formiga. Quem poderá comigo ombrear em matéria de literatura?

― Por Deus, dona Barata, quanta arrogância. Nós, formigas, somos parte da literatura mundial, desde Esopo e La Fontaine, e já chegamos até ao cinema, a Hollywood, mas ainda assim continuamos a trabalhar nossa fortuna crítica. Depois, então, daquela releitura que Monteiro Lobato fez da fábula, advogando em favor da cigarra, nosso trabalho tem sido redobrado. Além disso, nossas conquistas não nos fazem parar, pelo contrário, só nos estimulam a continuar.

― Literatura mundial, é? Cinema, é? Historinhas de criança, digo eu. Se vamos falar de literatura mundial, aí sim, abram espaço para a mamãe aqui. Quem não se lembra daquele jovem Gregor e sua metamorfose...em quê? em quê? Em barata, é lógico. E o que dizer daquela outra, com sua G.H.? Quem era a protagonista, eu ou a outra?

― G.H.? Não foi aquela que te comeu...?

― Não me interrompa, sua insolente! Eu nem sei porque estou lhe dando confiança. Eu sou a própria literatura mundial em pessoa. Isso para não falar de atuações no cinema, como no filme daquele cara chamado William qualquer coisa.

Se não prosseguires com a leitura, não te tiro a razão, caro leitor, pois além de chata, veja só, era burra a pedante da barata! Achava que era ela quem brilhava, e não Kafka, Clarice ou Burroughs.

“Literatura mundial, sei”, pensou a formiga, lembrando-se da história da “Dona Baratinha”, certamente uma experiência literária menor, renegada pela erudita barata. A formiguinha, humilde até às antenas, engoliu as ofensas e ainda tentou mais uma vez:

― Por favor, dona Barata. Deixe-nos, então, aprender com a senhora...

― Não, dona Formiga ― interrompeu a outra, bruscamente. Oficinas de literatura são para vocês, formigas. Façam bom proveito. Criaturas como eu estão destinadas a glórias e honrarias. Deixe-me em paz com meus livros.

Dito isso, a barata dirigiu à pobrezinha da formiga uma cara feia de desprezo e desdém ― assim como a de quem nem comeu e já não gostou ―, deu as costas e saiu andando atrás de um Harold Bloom que lhe aplacasse a fome de literatura. De um raio, zás! Um golpe certeiro a esmagou contra a estante. Um jornal enrolado à Millôr encerrava ali a promissora e brilhante carreira literária, quiçá internacional.

Suprema e inglória ironia do destino: nem era o suplemento literário.

 

 

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Conto

3

Autor

 

Título

A AVENTURA DO LEÃO CÂNDIDO EM BRASÍLIA

Situação

Escolhida

PARÁBOLA.

Esta história é sobre a educação de um leão. Aqui, não está em julgamento se o leão foi educado com licenciosidade ou se seu tutor transgrediu as regras da natureza. Aproveita-se também para mostrar que Verossimilhança parece tratar-se da Verdade, essa velha dama fluida, de carregada maquiagem; Verossimilhança vira pó diante das possibilidades do inverossímil, esse poderoso aliado da ficção e imprescindível como oxigênio para a existência de Cândido. Há mais mistério entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia. Mas deixemos de lero-lero e partamos para a tal história.

Era uma vez, no Quênia, país da África Oriental, um guia chamado Lili, que ganhava a vida conduzindo expedições ao coração da selva. Um dia, Lili participava de uma expedição policial em perseguição a caçadores, mas não puderam impedir que os caçadores matassem uma leoa e fugissem. Ao se aproximar da leoa, Lili descobriu que havia um gatinho ao lado do animal. O gatinho estava chorando. Lili o pegou no colo e pediu ao chefe da expedição autorização para adotar o gatinho, no que foi atendido.

Cândido Lili, como foi batizado o leãozinho, era muito amoroso e logo fez amizade com todos os animais da fazenda de Lili. Nem as galinhas tinham medo dele, pois Cândido foi educado a não matar sequer uma mosca. Além disso, ele não comia carne crua. Cândido gostava de tudo na fazenda, sobretudo da companhia de Lili, tanto que o imitava muito bem, de tal modo que acabou aprendendo a se vestir e a falar português do jeitinho de Lili, que nascera em Brasília, mas era filho de paraenses. À noitinha, os dois se sentavam na varanda, bebiam gim tônica e o guia contava a Cândido como era a vida na capital brasileira.

- Eu gosto de ir ao Conjunto Nacional, um grande shopping, muito agradável, onde sempre compro livros na Livraria Sodeler, de um amigo meu, Valter Silva. E almoço lá mesmo também. No Brasil, temos um prato, a feijoada, que foi inventada pelos nossos antepassados africanos. Você sabia, Cândido, que os africanos são nossos antepassados, além dos portugueses e índios? Ainda há muitos índios na Amazônia!

Cândido ouvia embevecido seu pai adotivo.

- Pois é, Cândido, a feijoada é composta de feijão preto; charque; pés, rabo, toucinho e orelha de porco, com arroz e couve frita. Se a pessoa quiser, pode pôr também caldo de feijão com pimenta.

Cândido sentia água na boca.

E de tanto Lili contar para Cândido como era sua cidade natal, Cândido jurou a si mesmo que um dia visitaria aquela cidade tão encantadora, sobretudo para se empanturrar na praça de alimentação do Conjunto Nacional.

O desejo de Cândido era tão sincero que, como acontece a todos os desejos que nascem no coração, tornou-se realidade. Filho único, todos os anos Lili passava as festas natalinas com seus pais, em Brasília, e resolveu, naquele ano, levar Cândido consigo.

Algumas providências e cuidados tiveram de ser tomados para a viagem. Como Lili tivesse muito prestígio junto ao governo do Quênia, não foi difícil convencer as autoridades quenianas a fornecerem um passaporte a Cândido, pois eles mesmos estavam certos de que Cândido era um gigante parecido a um leão. E depois, a cada dia que passava, Cândido ficava mais parecido a um homem. Mesmo assim, Lili o levou a um dentista, para que lhe desgastasse as presas, e a uma manicure para aparar suas unhas, isto é, suas garras.

Durante a viagem, tudo correu bem. Cândido comportou-se como um cavalheiro, tanto que ninguém desconfiou dele. Voltavam-se para vê-lo devido ao seu tamanho, ao sobretudo, às luvas, aos óculos escuros e ao chapéu panamá, o que lhe dava um ar misterioso.

Os pais de Lili sofriam de alergia a gatos, qualquer espécie de gato. Além disso, poderiam morrer de susto ao verem Cândido à vontade, em casa. Assim, Lili e Cândido hospedaram-se no Hotel Nacional, o hotel mais famoso da cidade. Na noite de Natal, Lili foi cear com seus pais e Cândido ficou no hotel, vendo televisão, pois adorou os programas das TVs brasileiras. No Ano Novo, Lili o levou, à meia-noite, à Esplanada dos Ministérios, para ver de perto a queima de fogos. Foi tudo inesquecível para Cândido: a visita à Galeria de Arte da Caixa Econômica Federal, um concerto no Teatro Nacional Cláudio Santoro, um filme de Gláuber Rocha em um dos cinemas de arte da Academia de Tênis e algumas idas ao Conjunto Nacional, onde Cândido comia vinte feijoadas. Quando não estava passeando com Lili, Cândido permanecia o tempo todo no Hotel Nacional, para não dar na vista. Fazia trinta refeições diárias e lia muito, principalmente Gabriel García Márquez, Dalcídio Jurandir, Benedicto Monteiro, Márcio Souza, Ferreira de Castro, João de Jesus Paes Loureiro, Vicente Salles e Lúcio Flávio Pinto, pois queria saber tudo sobre a Amazônia, a região dos pais de Lili e da qual Lili mais gostava depois do Quênia e de Brasília; Lili planejava, inclusive, construir um hotel no rio Negro.

Numa quarta-feira, Lili foi visitar seus pais e na volta, debaixo de forte aguaceiro, ficou preso por duas horas em um gigantesco engarrafamento, atrasando-se para providenciar a comida de Cândido. No começo da tarde, cansado de ler, de ver televisão e faminto, Cândido resolveu almoçar no Conjunto Nacional.

- Morrerei de tédio, se não morrer, antes, de fome. Preciso ir ao Conjunto Nacional comer trinta deliciosas feijoadas. Acabei me viciando mesmo em feijoada - disse a seus botões.

Dito e feito. Pegou o sobretudo, as luvas, os óculos escuros e o panamá e pouco depois estava num táxi a caminho do Conjunto Nacional. A praça de alimentação do Conjunto Nacional é muito gostosa de se estar, embora, naquele momento, estivesse lotada. Mas nosso herói teve sorte de encontrar uma mesa ocupada somente por uma pessoa, um velhinho muito atencioso. Reservou uma cadeira e foi se servir. O velhinho assobiou quando viu o prato de Cândido, que sentou seu corpanzil e se pôs a comer. Em pouco tempo havia uma pilha de pratos na mesa e o velhinho olhando para Cândido de queixo caído.

Após vinte e nove feijoadas, o cinto de Cândido  começou a ficar apertado, as patas começaram a doer e o calor ficou insuportável. E como também Cândido tivesse posto muita pimenta na última feijoada, estava com a boca pegando fogo. Então, esquecido das recomendações de nunca tirar em público o sobretudo, os sapatos, as luvas, os óculos escuros e o chapéu, livrou-se de tudo isso praticamente num só golpe, além de dar um despropositado rugido de prazer.

Foi o caos. Em alguns segundos a praça de alimentação ficou vazia. Era gente voando para todos os lados. O velhinho que estava na mesa de Cândido nem pegou sua bengala e foi o primeiro a alcançar as escadas. Uma senhora gorducha e de sapatos muito altos chegou às escadas em segundo lugar, e sem deixar cair nada do enorme prato que levou consigo. A gritaria era muito grande, principalmente dos pais das crianças que teimavam em ver Cândido de perto.

Nesse meio tempo, Lili, preocupado, finalmente saiu do engarrafamento e voou para o hotel. Encontrou um bilhete sobre o criado-mudo da cama de Cândido: “Estou esperando o senhor na praça de alimentação do Conjunto Nacional. Cândido”.

Lili saiu novamente a jato e chegou ao Conjunto Nacional pouco antes dos bombeiros. Subiu até o piso da praça de alimentação. Não havia vivalma por ali. Então Lili viu as roupas de Cândido sobre a mesa, juntou-as e procurou Cândido. Acontecera o seguinte: logo depois que o pessoal começou a correr, Cândido foi até uma torneira de Coca-Cola e bebeu três litros de refrigerante, depois deitou-se no chão e adormeceu. Quando Lili o encontrou, Cândido estava roncando. Lili o sacudiu.

- Ah! Até que enfim o senhor veio para me fazer companhia - disse Cândido.

- Não há tempo. Os policiais e bombeiros estão vindo aí para prendê-lo, ou acertá-lo igual os caçadores fizeram com sua mãe. Vista-se rapidamente, não há tempo a perder. Temos de sumir daqui. Vamos!

Cândido era dócil e obediente, e pelo tom de voz de Lili, que não era de perder a serenidade, compreendeu que acontecera algo grave. De modo que quando os bombeiros e a polícia chegaram os dois já haviam deixado o Conjunto Nacional pelo piso dos fundos.

Lili e Cândido voltaram no dia seguinte para o Quênia.

Agora, Cândido demorava-se mais na selva do que em casa. Um dia, disse a Lili que ia apresentar-lhe Elza, uma bela gata, digo, leoa, com quem se acasalou e teve muitos gatinhos, e Lili não é mais guia. Casou-se com uma princesa africana chamada Loló e já tem sete candanguinhos da gema, pois os meninos nasceram todos no Hospital Regional da Asa Sul. Mas Lili está vivendo mesmo na Amazônia, no seu hotel no rio Negro, em Manaus e em Belém do Pará, e o hotel vai de vento em popa.

Todos os anos, Lili, Loló e os sete Lilicos vão ao Quênia visitar Cândido, que ficou vivendo na fazenda de Lili, muito bem administrada por Guran, um guerreiro Masai amigo de Lili desde que eram garotos. Cândido e Elza têm uma prole tão grande quanto a de Lili e Loló. Então, batem papo o tempo todo sobre os velhos tempos e morrem de rir da aventura em Brasília. E bebem tanto gim tônica que faria inveja até a Ernest Hemingway.

 

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Conto

4

Autor

 

Título

MÃE!

Situação

Escolhida

CONTE UM CASO EM QUE SE VERIFIQUE CRÍTICA VELADA OU ESCANCARADA AO COMPORTAMENTO HUMANO.

Como dizia Stanislaw Ponte Preta: mãe, só tem uma. Disso sabe qualquer menino de escola.   Como é, minha senhora? Hoje em dia tem gente que tem três mães, dois pais e uns tantos dublês, às vezes nessa ordem? É verdade, tem razão, a família anda meio mudada desde Noé, não é?   Mas nem tudo é tão esculachado, assim. Há, ainda, os sujeitos mais tradicionais, aqueles que têm na família um esteio, um apoio, uma âncora, um porto seguro, um farol em meio à tempestade... bom, distinta, a senhora já entendeu! Há aqueles que sempre precisarão dos conselhos imparciais e sensatos, além da aprovação das que os trouxeram à luz. É o caso que se segue.


 

Mãe! me ouvindo?

Ô, meu filho! Há quanto tempo a gente não se fala! Que saudade!

Não exagera, mãe. Faz uma semana.

Mas parece muito mais. A gente precisa se falar mais.

Quando der, mãe. Quando der.

Quais são as novidades?

É que . . . eu precisava te dizer uma coisa.

Diga, meu filho.

É uma coisa muito importante.

Que é que foi? Diz logo, menino, ficando nervosa.

Calma. Não é nada, assim ...

Anda, não me esconde nada! Ai meu Deus! Você sentindo alguma coisa? Eu sabia! Essa sua vida desregrada não podia dar em boa coisa! Que é que o médico disse? Você foi num médico que preste ou foi naquele porcaria lá do ...

Dá pra parar de falar um pouco! Não fui a médico nenhum!

Essa agora! Porquê você não foi logo ao médico? Essas coisas a gente precisa ver logo de início, senão depois complica e é muito mais difícil pra tratar, menino. Você é um desleixado, mesmo. Você querendo o quê? Vive na esbórnia e quando o corpo começa a ratear, nem pra procurar um médico! Você já não é criança, meu filho.

Calma, mãe!

Como é que eu fico calma, com você assim ...

Eu não sentindo nada. Eu não doente. O que eu quero te dizer é que...

Você quer é me deixar louca! Como é que me dá um susto desses? Primeiro está doente, quase à morte, agora já não está mais doente...

Eu vou me casar.

. . .

Mãe?

Você ESTÁ doente!

Mãe!

Que história é essa?

É que eu conheci uma moça.

Há! Moça? Sei.

Mãe! Ela é muito legal, apaixonado e vou me casar. Só comunicando.

É assim, mesmo. A mãe é a última a saber.

Não faz drama.

Mas muito cedo pra casar, meu filho. E seus estudos?

Mãe, eu já sou formado.

Hoje em dia ser formado não é nada. O que não falta é gente formada e procurando emprego.

Mãe, eu terminando o segundo doutorado.

Doutorado, hum. Esse sua mania de ficar só estudando. Acha que diploma enche barriga? Parece seu pai. Cheio de curso, professor, poeta, membro da Academia de Letras de Porangatu e a gente morando de aluguel. Só consegui comprar a casinha da vila com o pecúlio da prefeitura, que ainda demorou um ano pra sair, depois que ele morreu. As coisas estão difíceis, tudo muito caro.

Mãe, faz anos que eu ganho mais do que eu preciso.

Mas... e a estabilidade, menino? Numa hora ganhando uma fortuna, na outra no olho da rua, na rua da amargura, num mato sem cachorro, numa pindaíba . . .

Ninguém pode demitir um juiz de direito, mãe.

E não é só isso, filho. Tem certas coisas que só vêm com a idade. A responsabilidade de ter uma família não é pra qualquer um, não. E quando vierem os filhos...

Quarenta.

Quarenta filhos? demente?

Quarenta anos, mãe. Eu já tenho quarenta anos. O que é que ainda vem com a idade? Alzheimer?

Você me respeite, menino! Idade não é garantia de maturidade, não. Lembra do seu tio Neném. Vê se isso é jeito de chamar um velho daqueles. Sessenta anos nas costas e ainda andava de lambreta, como se fosse adolescente. Dizem que morreu do coração, mas morreu foi de farra, de falta de vergonha na cara.

Mãe, o casamento vai ser em dezembro.

Mas, já! Essa rapariga grávida, ?

Mãe, nós estamos em junho. se o padre for obstetra.

Você não está pronto pra ter filhos, filhinho.

Eu já tenho, mãe. A Letícia já tem 13 anos.

Meu Deus, como o tempo voa!

É. Às vezes me sinto meio velho. Ela adora conversar pelo computador, mas levo um tempão pra entender o que ela escreve: “blz brou” não é belzebu, é beleza brother, “tdolu” é te adoro e não um Teodoro japonês, como eu pensei. Mas nós nos damos muito bem. Ela linda.

Saiu a você.

É a cara da mãe, mãe.

Que nada. Aquela lá só serviu de encubadeira. A menina não tem nada dela. Tem os seus olhinhos meigos, as bochechinhas que você tinha na idade dela, a covinha. Pena que ela ficou com a mãe e não com você, meu filho, que é tão responsável, tão cuidadoso, tão dedicado.

Ela é uma boa mãe.

Boa mãe? Boa mãe sou eu, que sempre te apóio! E você nem me ouve, não liga pra mim, não nem aí pro que eu digo.

Eu sempre te ouço, mãe.

Que nada. Já vai casar e eu nem sabia.

Eu te contando com mais de seis meses de antecedência. E, além disso, você sabe que é difícil falar com você. Não dá pra falar todo dia, você sabe.


 

Um pouquinho de boa vontade bem ajudava. Promete que vem pra falar comigo na semana que vem? Promete que vai me contar tudo?


 

Claro, mãe. Agora a gente precisa se despedir. Ainda tem um monte de gente querendo falar com os parentes e o Pai José já cansado. Próxima sexta-feira eu volto.


 

E desfez-se a “corrente”.

 

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Conto

5

Autor

 

Título

A  CIGARRA E A FORMIGA

Situação

Escolhida

FÁBULA  AMORAL

Todos os dias, com chuva ou sol, lá estava ela.Trabalhando continuamente, procurando grãos armazenáveis, alimento duradouro por diversos meses, capaz de sustentar famílias de sua sociedade.Gostava do que fazia. Cansava-se muito quando o sol intenso lhe queimava a quitina de seu corpo ou quando passava sob superfícies reluzentes e quentes.

Enquanto trabalhava, responsável que era pela indicação de um local rico e farto de alimentos passíveis de serem transportados, escutava a cigarra a cantar. Espantava-se pelo longo tempo de cantorias iniciadas às primeiras horas do dia, lá no alto dos galhos de árvores, varando ás vezes, toda à noite adentro com aqueles sons estridulantes. Percebia seus vôos rasantes e sua múltipla distribuição em um mesmo galho de árvore. Foi assim então, que a formiga aproximou-se de uma cigarra, perguntando-lhe:

- Porque tanto cantas, cigarra?

- Porque eu preciso, respondeu-lhe a cigarra.

- Será que tua vida é tão dura que precisas cantar para espantar os males? Perguntou curiosa a formiga.

-Não, respondeu-lhe. Canto para atrair uma fêmea.Assim poderemos reproduzir e povoarmos mais as terras.

-Ah! Então é essa a razão de tanta cantoria...Não te vejo também buscando alimentos para fazer provisão nos períodos onde há baixa disponibilidade de comida.

- Meu alimento vem e está nas árvores, nos vegetais. Ainda que pareça que as arvores morram na época do inverno ou da seca intensa, internamente elas permanecem vivas.A seiva vegetal é o meu alimento de sustentação.

- Então, nunca falta alimento para ti! Por isso é que tu não precisas armazenar comida, não e´ mesmo?.Tu também moras nas árvores?Vejo tantas cigarras juntas e não identifico onde habitas...

-Ah! Moro mais tempo debaixo da terra do que fora dela. Ás vezes posso levar de 13 a 17 anos para poder estar pronto.

- Como assim?Dezessete anos sob a terra? O que é estar pronto?Porque tanto tempo para estar pronto? Indagou a formiga.

- Passo por várias modificações para me tornar adulto. É o tempo de desenvolvimento do meu grupo, e juntamente comigo, vários outros, saem do solo para podermos ocupar outros espaços na terra.Temos pouco tempo de vida fora do solo. E tu, formiga, porque trabalhas tanto?

- Bom, não tenho uma vida tão fácil como a tua. Preciso levar alimentos para a minha sociedade. Eles serão utilizados para as gerações futuras...

- E, já não buscas-te o bastante hoje? perguntou-lhe, displicentemente.

- Bem sabes, que para juntarmos alimentos, o mínimo ainda não é o suficiente. Mas acho que por hoje,é o bastante.

- Porque tu não vens cantar um pouco comigo, formiga? Verás como a vista aqui de cima é bonita!

E assim a formiga começou a cantar. O som de início saiu baixo, desafinado, arrítmico.Depois começou a tomar forma, os tons se sobrepondo, um mesmo timbre musical. Deslumbrou-se com o vento balançando as folhas, o sol formando cores e sombras, as figuras andando lá embaixo parecendo pequenas formigas se deslocando num eterno ir e vir, sem cessar. Cantaram juntas durante várias horas.

Já no fim do dia, a formiga, cansada, se despediu da cigarra e voltou para o formigueiro. Comunicou ao seu superior que já tinha trabalhado o bastante e que iria descansar o resto da noite, porque o amanhã seria muito árduo novamente.

 

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Conto

6

Autor

 

Título

Peqeno elogio à preguiça

Situação

Escolhida

DISCURSO DE UMA QUALIDADE HUMANA ANTROPOMORFIZADA

- Não se estranhe o tamanho do discurso. Nada mais apropriado. Muito a contragosto me  manifesto, porque fui desafiada. Vocês, fingidos, renegam a amante que levam à cama. Desfrutam sempre que podem, mas não têm coragem de defender abertamente -esse modismo do politicamente correto-  Não ia me dar ao trabalho, mas a chata da  inveja ficou atiçando...

            Uso esse incauto q mesmo sendo meu escravo, como quase todos vocês,  não conteve a  admiração ante aquele discurso antigo do tal de Joaquim Maria. Um desaforo! Antes, foi Erasmo  que elogiou a  loucura. Séculos mais tarde, esse J. Maria fez uma bela  defesa da vaidade. Coitado, deve ter-se esforçado muito p/ achar a forma  perfeita para o conteúdo errado.

            Nao me esforçarei neste sentido, já q a perfeiç~  nao existe. E, se o fizesse, negaria a mim    mesma.

            Nunca me apresso a responder nada,  detesto pressa. Prefiro  perdoar. Sou da paz, já evitei  muita guerra, acreditem, e incontáveis conflitos, brigas d casais, d vizinhos, etc. Mas agora,  mexeram comigo. Sábio é o gênio da  lâmpada, fica milênios em repouso até ser perturbado (por isto, o nome).

            Tolos ou fingidos,  nao veem  q  sou  eu  q  governa  o  mundo?  Está em  mim o destino do  universo.  Sou   o  fim  de   tudo.

            Inércia  é  um  dos  meus  apelidos   preferidos.  O  estado  permanente   das  coisas.   Todo  o  resto é  perturbaçao.   É  temporário.  Tudo  passa,  eu fico.  Cresço  com  o  tempo, a  entropia  universal    aumenta.  Tudo  q  o  maldito  do  trabalho   constrói,  um  dia  se  desfará.    questao  de  tempo e  serei   absoluta.

             Pobres   Sísifos,   nao  sabem  q  participo  da  essência  divina?     Esquecem   as   liçoes  de Aristóteles?     nao  dizia   ele  q  Deus  é  imóvel,   imutável,   completo?   Nada  deseja,  porque  nada  Lhe   falta?  Portanto,   quanto  mais evoluírem  as  criaturas,  mais próximas  de  Deus,   menos  necessidade  d  trabalho,  mais repouso.  Quanto   +  quietude  e   meditaçao  +  felicidade.   Sou  a  maior  amiga  do  homem.   É  a   mim  q  ele   busca   ao  final  d   tudo  o  q   faz.

            Trabalh   é  castigo,    repouso   é   prêmio.    Criminos  sao  condenados  a  trabalh  forçados.   Bons trabalhadores,   coitados,   quando   consumidos  pelo  trabalh  ganham  aposentadoria.    Se   trabalhar    fosse   bom,    seria    o    contrário.    Isto   é  tao  obvio,   detest  ser  obvia,  é   trabalh   desnecessario,  a  pior  coisa  q  existe.

            Qual  foi  a   maior  invençao  do   home?    A  roda,   o   controle   remoto?    Pq?    Pq   diminiu     muito   o    trab.     O    hom    primitivo     trabalhava   e    sofria    muito  +  q  o  hodierno.     Falo   de    esforço   fisico  e  de   dor,   nao   de   horas  agradav   em  frente  ao  comput   jogando   paciencia  ou  lendo  emails.     O   próprio   comput,   o   carro,   as   férias,   etc,  etc,   etc,    tudo    evolui   neste   sentido.    Não        retorno. 

            Outra   evidencia    gritante   da   superioride   do   ocio   sobre   o   trab   é   o   classic  exemplo   da  grecia   antiga.    Para   o   trabalh    braçal    havia    os    escravos,   o  cidadao  da  polis   se   dedicava    aos    prazeres    do   corpo   e  da    ment.       Nao    foi    por    acaso    q    ali  nasc    a    filosofia    e    q    aquel    civilizaç    influencia     o     mund    até    hoje.

            Vejam     tb     o     mund     animal.        O leao,     o    rei,     passa     a    mor     part    do   dia     dormindo      e     a     leoa        caça  o    suficiente    p/     comer.       Os ursos    hibernam.  A    natureza      tem     horror       ao     desperd     de     energia.

            Ond     ja     se     viram     leoes,   ursos,    tigres,   etc,   etc   se   exercitand       p/       ficar  musculosos?   So   o    hom    faz    essa    asneir.     Talvez    herança   dos    temp    d    escravid,  coitados.

            Não    q    eu    seja    contra    todo    tipo    d      trab.     É    aceitável    o   q    elimin    um   trab     mor.     Até    admito    q    o   hom    construa     ponts,     tún,    estrads,    ferrament,  etc  etc,    desd    q     use     essa    maravilh    q    é    a     tecnologia.

            A     tecnol     é     uma    d     minhas     filhas     favorit.     Todos     gostam   e    falam    bem   dela.       Fingem     não    ver   q   é    p/    mim    q     ela     trabah.     Somos   uma    dupl   adinâmica.

            Não    sejam     falsos     como     a     vaidade    q     tanto    os    ilud!    Ela    os    faz  trabalh    a    toa,    para     conseguirem    coisas    d    q    nao   precisam,    so    p/  ostentaçao.    Quem      d      vcs      nunca     caiu      nest      pecado?      Quantos      buscam     o      status      quando      deveriam      se       contentar     c/    o      status quo?       Olhem    ao     redor,   ou     no       espelh...

            Preferem       afagar     a     mao      calejada     ou     a       macia?          O     odor      do        suor,        ou      o        arom      de          rosas?

            Mas,           e        os       atletas?        poderao       me      pergunt      e       eu       respond         q       ess          estranh           fenom          ja           foi        muit       bem         explicad,         por       um         tal           de                 Freud. 

            Quanto           ao          sex,      é       muit       bom!       E       depois,              uma   preguiç...

            Chega,             ...cansei!  (nos).

 

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Conto

7

Autor

 

Título

UMA FÁBULA SEM MORAL, SEM PÉ E SEM CABEÇA

Situação

Escolhida

UMA FÁBULA AMORAL

Eis que ao lado de um extenso e agitado formigueiro, erguia-se frondoso jacarandá, cuja basta copa sustentava um galho que servia de palco a uma estridente cigarra. Deu-se que num determinado momento, enquanto o desentoado inseto cantava sua estrepitosa melodia, o chão sob a árvore cedeu e o vicejante jacarandá veio abaixo, com tremendo estardalhaço, arrastando consigo a ruidosa cigarra. Bastou-lhe ter recobrado os sentidos, para que o indignado inseto esbravejasse:

É nisso que dá confiar na firmeza do solo, com essa quantidade de formigas que assolam o país!

E completou:

Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil!

Por estar vedado o uso de notas de rodapé, o autor se compelido a interromper a narrativa para informar que, a partir deste ponto, compromete-se a pôr fim a essa mania, que sói ocorrer nas fábulas, de colocar os adjetivos sempre antepostos aos substantivos. Dito isso, voltemos à narração.

A partir de então, a cigarra passou a alardear pelos dezenove ventos (a aritmética das cigarras é deplorável) a necessidade premente de acabar com as saúvas. Péssimo menestrel, porém arauto competente, o cicadídeo acabou por convencer todas as outras cigarras a levarem a cabo a gigantesca e nobre tarefa.

Sabendo que as formigas, assim como os pobres, adoram açúcar, as cigarras passaram a exterminá-las por meio do envenenamento sistemático de colônias inteiras. E tanto se empenharam em tal faina, que acabaram promovendo um formicídio colossal, após o qual, quase não se viam mais saúvas em lugar algum.

Ocorre, porém, que, além de péssimas instrumentistas, as cigarras também são muito ignorantes em assuntos correlatos à entomologia. E tanto é assim, que o formigueiro a que a cigarra indignada se referia não era de saúvas, mas sim de formigas lava-pés (por que o plural de lava-pé não é lavam-pés?), as quais, talvez por ausência de solidariedade entre si ou por algum atraso tecnológico, nem haviam tomado conhecimento do extermínio de suas primas saúvas. A bem da verdade, algumas delas até que tinham alguma noção da história do extermínio, mas sabiam que esse negócio de serem primas das saúvas é invenção de biólogos e outros naturalistas, cujas opiniões, as formigas, ao menos as lava-pés, não costumam levar muito em consideração.

Pois bem. Estava o fórmico-proletariado agregando o valor de sua força produtiva às folhas, aos bolores e aos fungos por meio dos quais a formiga-rainha, detentora dos meios de produção, extraía mais-valia e explorava o diminuto povo lava-pé, quando uma operária começou a vociferar impropériospossível vociferar coisas que não sejam impropérios?) contra o modo de produção das formigas e a lançar imprecações e insultos contra a tirania da monarquia absolutista.

Em meio à correição, a formiga panfletária aproveitou para convocar as outras camaradas para uma assembléia deliberativa da mais alta importância no topo de um dos galhos secos do outrora frondoso jacarandá que caíra sobre o formigueiro. A multidão de obreiras espalhou-se pelas redondezas do vasto mirmecódomo descrito no primeiro parágrafo, e pôs-se a ouvir a eloqüência da formiga revolucionária.

Boa tarde a todos e a todas (puro vício, pois todos sabem que nãomachos no formigueiro). A classe operária talvez não tenha notado que não se vêem mais saúvas neste país. Pois saibam que elas foram exterminadas pelas cigarras, aquelas lumpenproletárias que não fazem nada na vida além de encher o saco de quem quer trabalhar neste país. Temos de tomar alguma providência neste país, antes que aconteça o mesmo com a gente (na verdade, ela disse “a formiga, mas devemos interpretar como “a gente, por uma questão de registro coloquial).

Uma lava-pé dedo-duro, fura-greve e puxa-sacobem conhecido pelos filólogos e tradutores o fato de o dialeto lava-pé fazer uso excessivo de hífens) saiu dali sorrateiramente, e, poucos minutos depois, os galhos do jequitibá (era jacarandá, mas, de agora em diante, passa a ser jequitibá, o que, na opinião do autor, não deverá alterar em absolutamente nada o desenrolar da trama) estavam tomados por milhares de formigas-soldado. A operária aquela (o autor se julga com amplo direito de, subitamente, começar a narrar como se fosse gaúcho, e abancar a falar desta maneira peculiar) agitou as patas e gritou:

 Sempre tem de ter um filho-da-puta dum traidor na História deste país.

Ah, pra quê? Por pior que possa ser a traição de uma formiga puxa-saco, nunca se deve chamá-la de filha-da-puta, pois, como se sabe, todas as formigas são filhas da rainha, e isso equivale a ofender seriamente a honra da nobre monarca. E foi assim que teve início um enorme tumulto entre as formigas, uma se atracando à outra, indistintamente de serem soldados ou operárias. Quem teve a infeliz oportunidade de presenciar uma guerra civil sabe que o canibalismo é inevitável, e que o decoro e os bons costumes dissipam-se rapidamente; sobretudo quando se trata de guerra entre formigas, na qual a bagunça acaba por tomar as proporções de um gigantesco e confuso bacanal, que os entomologistas costumam chamar de suruba mirmecológica, obviamente uma orgia lesbiana e, de certa forma, clandestina, pois não é segredo que entre as formigas, abelhas e cupins, somente à cúpula é permitido copular, como se diz por .

De repente, eis que surgiu a formiga-rainha, fazendo com que aquela formicação (juro que não será mais cometido nenhum trocadilho até o final da história) cessasse instantaneamente. Estabeleceu-se então grande excitação entre as operárias, que exclamavam extasiadas:

— A formiga-patroa! A formiga-patroa! A formiga-patroa!

Enrolando uma folha de fícus no formato de um cone, e usando-a como megafone, uma formiga-milico anunciou:

— Silêncio, plebe! A nossa graciosa rainha vai se dirigir a vocês!

Sua Majestade, com a circunstância que tais ocasiões exigem, demandou calma às súditas proletárias e ordem à soldadesca, declarando-se indignada com o infortúnio que se abatera sobre a antiga e quase extinta cultura e civilização saúvas. Depois de um discurso breve, porém bastante hifenizado, a soberana mostrou-se preocupada com o destino que as cigarras haviam imposto às saúvas, e informou que declarava guerra às cigarras e aos seus eventuais aliados.

Seguiu-se um longo conflito entre as duas espécies de insetos, ao término do qual centenas de milhares de cadáveres de cigarras jaziam sobre as relvas e os campos de todos os lugares. A vitória havia sido formigável (eu tinha prometido, mas não agüentei), e após a capitulação cicadídea e a assinatura do armistício, levas de cigarras migraram em direção ao centro do país, espalhando-se buliçosamente pelo cerrado. Passaram então a habitar a região do Planalto Central, onde, desprovidas da mais elementar noção de polifonia, harmonia e contraponto, cantam em um uníssono monotônico abominável, sem que isso cause qualquer espécie ou revolta entre os habitantes locais, acostumados que estão ao assédio das duplas sertanejas que assolam o país. Estas sim, muito mais que as saúvas.

***

 

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Conto

8

Autor

 

Título

EFEITO VIOLETA

Situação

Escolhida

CASO

Uma das coisas que mais admiro numa pessoa é o humor. E todos sabem que a admiração traz o amor.

Se me fizer rir eu presto a atenção - mas especialmente se me fizer rir sem querer. Não gosto de piadas dirigidas, ou alusões toscas, palavrões desnecessários. Não gosto de exibições de humor para mim.

 

Por tudo isto e por mais outras coisas veladas olhei para o homem de branco conversando com a colega no corredor  perto da piscina.  Contava um caso seu - uma paixão sem futuro - de uma forma insuspeita para sua bem cuidada imagem e seriedade por mim conhecidas.

 

Ele não sabia que eu estava ouvindo, pois tínhamos entre nós uma divisória.

A conversa já tinha começado:

 

..........quando ela entrou logo notei os quilos a mais, o cabelo mais curto e a sandália baixa.  Bem diferente do habitual.

Cumprimentei respeitosamente, como sempre.  Ela quase não fala, mas nossos olhos dizem muito mais - acho que temos muito em comum, mas você sabe que estou travado depois do bico que levei.  Não consigo mais me aproximar de nenhuma mulher.  Moro com um amigo que é gay, talvez até já estejam falando de mim.

- Não ponho minha mão no fogo ...

- Olha aí...

- Já ouvi mesmo comentários...

- Nem quero saber, ele é meu amigo e temos horários completamente disparatados, quase não nos vemos.

E quer saber, nesse momento me sinto quase feminino mesmo.

- Viu ? Todo boato tem seu fundo de verdade!

- Você já me viu quando estou com as crianças pequenas na piscina? Morro de saudade das minha meninas e me derreto todo. Sou super pai, me viro ao avesso quando elas vão passar dias comigo. Talvez esteja frágil demais.

-Feminino?

-Feminino!

-E ela?

- Atrai e dá segurança. É casada, parece que bem casada.  Traz os filhos para as aulas.  É cordial e é carinhosa com eles. Acho que nem me vê, talvez seja imaginação minha pensar que temos muito em comum. Ao mesmo tempo já encontrei seu olhar. Senti sua

 observação discreta. Bem diferente daquela louraça que me levou pra casa outro dia.

- Levou pra casa pra fazer o quê?

-Fui pra buscar umas apostilas dela ...

-E...

-Bem, as apostilas estavam no quarto da empregada e o marido estava em casa. Passei um aperto. Ela começou e terminou tudo sozinha, Violeta.

- Você não fez nada?

-Juro que não!!  Lembra que sou quase gay!

-Parece que um gay apaixonado pela mulher linda que nem liga pra ele.

 

Ouvindo me senti lisonjeada. Lembrei então do tropeção bem na minha frente.  Ele ficou muito sem graça.

Teve também o dia em que chamou meu nome ao invés do nome que precisava chamar - as outras mães me olharam com inveja. Um homem como ele me olhar, me chamar, dar um tropeção na minha frente ... nossa!!  Elas tinham mesmo que ter inveja.

 

E eu?

Eu estava encantada com aquele homem feminino. Aquele sorriso engraçado. Na situação em que me encontro - às vésperas de uma separação - não é nada bom me interessar por outra pessoa, mas ele é muito atraente pra mim.

Antes, quando só desconfiava dos olhares dissimulados, era só  um homem bonito, bronzeado, de óculos fumê. Agora, depois dessa conversa roubada ele é isso e mais muita coisa.

 

Meu brinco de argola sempre aberta pode me ajudar na aproximação. Não sei quando, mas sei que ele  pode até elogiar o brinco e que podemos até conversar como duas amigas sobre jóias.

O quê vem depois vou esperar.

Vou permitir que nossa atração nos guie. Confio no sorriso e no riso engraçado dele.

Talvez um esbarrão nos coloque juntos o bastante para um começo que pressinto ser muito bom.

 

 Violeta , com uma expressão pensativa por trás da divisória, comemorava a conversa que provocara sabendo da ouvinte que tinha ali, bem pertinho.

 

A sorte está lançada.

 

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Conto

9

Autor

 

Título

PAPO  DE  TELEFONE

Situação

Escolhida

CAMINHO 5 – PERSONAGEM INADEQUADA

    O telefone chama. Um toque, dois, três. O colega não deve estar na sala. E agora ? Não tenho o celular dele. Como avisá-lo de que a reunião foi transferida ? E se ele tiver saído ou, então, se ele...

 

    Alguém atende. Deve ser ele. Barulho do fone sendo levado do aparelho até a boca do interlocutor. Eu me preparo para dar o recado: a reunião para avaliar o resultado das vendas ia ser no Auditório, passou para a Gerência, mas a hora ainda não...

 

    “– Departamento de Logística”. Surpresa. Encanto. Luzes. Fogos de artifício. Taquicardia. Garganta seca. Ligeira desorientação psico-cognitiva. É... a Voz Dela !!!!

 

    “– Departamento de Logística, repete a Voz Linda Dela. Cada vez mais linda. Não há mais dúvidas. O meu pé direito começa a reproduzir a batida do tema de “Tubarão”. O que fazer ?? O que falar ?? Procuro arrumar as idéias jogadas pelo chão da minha mente desordenada. Olho em volta. Outros três colegas estão na minha sala. O primeiro está em conjunção carnal com o relatório das vendas em consignação no trimestre anterior. Vai demorar, ainda está nas preliminares. O segundo faz a necrópsia dos balanços dos exercícios findos. Também vai demorar, ainda nem chegou às exigibilidades de curto prazo, que dirá as de longo prazo. O terceiro analisa a possibilidade de que o diferimento da apuração dos juros sobre o capital próprio em regime de competência gere um resultado operacional tributável inferior ao que seria obtido no regime de caixa – ou exatamente o contrário. Também vai demorar. Ainda tenho tempo. Ainda dá pra planejar o que eu vou...

 

    “– Alô”, a Voz Maravilhosa Dela invade minhas trincheiras emocionais em movimento de pinça, cortando os suprimentos de presença de espírito. Que voz, meu Deus !!!!! Se a voz é assim, imagine, então...

 

    “– É... bom dia, tartamudeio feito um idiota que sou. “– Quem... quem fala ??”. Cara, essa foi terrível !!!!  CLARO  que eu sei quem fala !!! CLARO  que o planeta inteiro saberia quem fala: ninguém tem essa Voz Estonteante, essa mistura de majestade natural e misericórdia generosa para com os seus...

 

    “– É a Juliana”, ela responde.  E agora ?? Não posso revelar com quem falo. Não para os outros três. Aliás, não para ninguém. Já passei vexame demais na frente dela – e na frente deles. Mas como disfarçar a camisa empapada, o café esparramado sobre faturas e duplicatas, o fio de telefone enrolado em torno do meu pescoço ?? Eles vão notar que tem alguma coisa estranha. Tenho que improvisar. Fingir naturalidade. Isso !!! Naturalidade. Afinal de contas, qual é o problema de conversar com a mulher mais fantástica deste lado da galáxia ?? E maravilhosamente inteligente, e linda, e simpática, e poderosa, e elegante, e charmosa, e espirituosa, e loura de olhos azuis !!! Dizem que todo homem tem uma nórdica não resolvida em seu caminho – pois já achei a minha. Não, não vou conseguir, não vai funcionar !!! Abro a garrafa e coloco água no meu porta-lápis.

 

    “– Ah, sim !!! Olá, como vai ??” Não posso falar o nome dela, o nome acordaria os três dos seus respectivos transes hipnóticos, eles iriam despertar e iriam saber. E, mais uma vez, eu iria enfiar os pés pelas mãos. Já sei !!! Vou fingir que estou conversando com uma mulher humana, e não com uma deusa. Claro !!! Basta agir com calma. Tudo vai dar certo. Tento beber meu crachá, sem sucesso: a corrente atrapalha.

 

    “– É... sabe o que é ?? Eu sou a Contabilidade do Departamento do Joel”. Não acredito!!!!, confundi tudo. Tento de novo: “– Não, digo, sou o Departamento do Joel da Área.” Um dos colegas levanta o rosto e olha pra mim. Vou ser descoberto. Um esforço final. Atenção, concentração, ritmo, adrenalina: “– Sou o telefone da Contabilidade do Joel”. Ufa, consegui. “– Estou tentando falar com o Colega que Senta ao Seu Lado, ele por acaso está??” Claro que não, meu Deus !!! Senão, ela não teria atendido. Agora é tarde.

 

    “– O Colega do Meu Lado não está, Joziel. Posso te ajudar em alguma coisa ??” Meu Deus, que Voz !!! O quê ?? Me ajudar ??  ME  AJUDAR  ?? falando sério ?? Você pode me salvar, você pode me ressuscitar, você pode me... Qual é mesmo o nome que ela falou ?

 

    “– Ah, que pena ! Eu queria deixar um recado. Será que você pode dizer pra ele que o Auditório que teria resultado das vendas com a reunião foi transferido para o Chefe dos restos a pagar ?” Por que os três estão olhando pra mim de maneira estranha ? “– Então, por favor, diz pra ele que tem outro Joel amanhã, bem cedo, na Gerência  do telefone, ?

 

    A Voz fica um instante em silêncio. “– ... certo. Tchau”. , desligou. Já ??? Ela estava meio estranha... Bom, pelo menos passou. Acabou. Sobrevivi. Que Voz !!!!! Respiro fundo. Consigo me levantar do chão e me preparo para desligar o telefone, mas... mas... de repente, não mais que de repente... aquele diabinho da maldade, dos maus sentimentos, aquele mesmo, todo vermelho, com chifres, rabo e tridente, aparece numa nuvenzinha branca em cima do meu espaço aéreo. As oportunidades de vingança são, sempre, tão raras... Como num filme brasileiro dos anos 70, imagens desfocadas e de sonoplastia ininteligível passam velozes na minha mente dilacerada: cenas da descoordenação motora que me ataca quando a vejo – os tropeções, a gagueira, os micos, aquela vez em que derrubei estrogonofe em cima dela no almoço de confraternização... Sem contar que ela nunca acerta meu nome ! Já me chamou de Noel, de Nobel, de Babel... E ainda tenho que agüentar a felicidade alheia: o Colega dos Relatórios contando como a encontrou, maravilhosa, na praia e como conversou um tempão com ela sobre música; o Colega dos Estudos Técnicos contando como a encontrou, lindíssima, no barzinho e como conversou com ela um tempão sobre cinema; o Colega dos Balanços contando, com os olhos arregalados, como a encontrou, deslumbrante, na festa no sábado e conversou um tempão com ela sobre viagens. E eu, ali, sendo forçado a escutá-los, a vê-los saboreando cada palavra,  observando seus olhares rútilos, seus lábios trêmulos, aquelas expressões inconfundíveis, aquelas fisionomias embevecidas típicas de quem A vê. Mas, afinal, por que só eles podem triunfar ? Por que só eles falam com ela ? Por que só eu tenho que ouvir?

 

    Sim, é exatamente isso !!!! Como diria Saddam Hussein, quibe bom é o que se come frio!! – ou algo assim. A oportunidade chegou ! Escravos da Juliana, uni-vos !!

 

    O telefone ainda ressoa com o ruído de discar – ou de teclar. Não coloco o fone no gancho. Ao invés disso, pigarreio, engrosso a voz e mando bala: “– Claro, Juliana – e eu friso o “Juliana” – “eu também estou muito contente de falar com você.” A evocação do Nome Dela como que faz ressurgir a vida na sala. Os três colegas se voltam para mim. É por aí !!! E continuo: “– Não, Ju– e tento prolongar o som do “uuuuuuuu – “eu não tenho andado sumido, não, é que numa fase de muito trabalho, mas, assim que puder, aceito o seu convite e passo aí na sua sala pra gente tomar um cafezinho”. Uma eletricidade rasga o ambiente, vencendo a constante dielétrica da incredulidade. O Colega dos Estudos Técnicos fecha lentamente o vade-mécum. O Colega dos Balanços arregala ainda mais os olhos. O Colega dos Relatórios retira os pés da mesa.

 

    Não, Juliana da Logística– e reforço o “da Logística” –“ eu também gostaria muito, mas hoje à noite tenho prova na Faculdade”. Barulho de pés se arrastando no vulcapiso encardido. “– Eu acho que... sei lá, por volta das 10 da noite já devo estar liberado, mas vou estar muito cansado”. YES !!!, está funcionando !!!!! Os três colegas estão com aquela mesma fisionomia apatetada que eu acho que exibo quando eles me falam da... “– O quê ?? Não, Juliana– e friso o “Juliana” –“acho meio difícil. Neste fim-de-semana ?? Neste agora??”. Os três começam a cochichar entre si. Há, há !!!! O doce sabor da vingança !!!! É isso aí !! Vou aumentar a dose: “– Por favor, Juliana, não insista !!” – e tento parecer irritado –  “Agora não posso ir a Paris com você !!! cheio de trabalho por aqui !!!”. O Colega dos Balanços pega o outro ramal e tecla nervosamente. Começa a conversar em voz baixa com alguém do outro lado da linha, os outros dois se reúnem em torno dele com fisionomia preocupada. Com quem eles estão falando ?? Na certa, devem estar procurando algum terapeuta para se tratar da inveja e da depressão. Bem feito !!!!  Agora,  o nocaute: “– Então, , Juliana, minha colega do Departamento de Logística – e enfatizo o ”minha colega do Departamento de Logística” – “vou dar uma olhada na minha agenda e ver se arrumo uns dois dias pra você no mês que vem”.

 

    Muito tempo depois, ainda me lembrarei que eu estava tão empolgado com a minha esperteza e criatividade que nem percebi quando os dois caras vestidos de jaleco branco entraram de repente na sala. O primeiro arrancou o fone da minha mão, enquanto o outro espetou o meu braço com uma seringa. O susto foi grande, mas consegui ler algo como “Fenobarbital – 500 mg – uso veterinário” no rótulo. Eu devia estar muito cansado, porque, na mesma hora, tudo começou a girar. Ao ser carregado para fora da sala pelos dois armários, pensei ter visto uma enorme pasta de registros contábeis que voava pelo corredor, aterrissava do meu lado e, de dentro dela, saía a Juliana e me dizia: “– Joel, obrigada,  ADOREI  você ter derrubado bobó de camarão em cima de mim na festa de Natal, bem na frente de todo mundo !!!”.

 

    Mas dessa última parte aí não tenho certeza, não...

 

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Conto

10

Autor

 

Título

O VELÓRIO

 

Situação

Escolhida

UMA PERSONAGEM INADEQUADA PARA O LUGAR OU SITUAÇÃO

Eu não tinha nada que fazer ali. Meu roteiro de férias para Cozumel não tinha dado certo, em parte porque eu não queria viajar sozinha e em parte...pelo mesmo motivo.  Foi quando Pedro me convidou para ir com ele visitar os pais, no sul, com a promessa de que depois passaríamos três dias vadiando em algum lugar bonito.

 

Pedro é bom amigo. Desses que você pode chamar no meio da noite com a cara amassada e vestindo uma camisola anticlímax.  Ele chega lá e nem se importa se foi pesadelo, mal de amor ou dor de dentes.  Por isso mesmo não tinha como dizer não a ele.

 

Chegamos à tardinha na fazenda, e o sol de fim de dia ainda me permitiu vislumbrar a beleza dos vinhedos que nunca havia visto senão em fotografias e filmes. Eu ainda estava no meio do abraço quente de um banho quando ouvi a voz de Pedro à porta.

 

- Marina! Marina, posso entrar?

- Um minutinho – gritei, para só depois me lembrar que a casa toda devia ter escutado.

 

Arranquei meu corpo feliz das garras daquela água boa e escorreguei dentro do meu roupão de banho.

 

- Meu tio morreu, Marina.  Acabamos de receber a notícia.  É o irmão mais velho da minha mãe.

- Coitado! Morreu de quê?

- Coração. Ainda não sei exatamente como. Mas eu vim te avisar que o velório vai ser aqui; é tradição da família. E velório no interior é diferente. Se veste logo e vem comigo.

 

Eu não tinha nada que fazer ali. Não tinha roupa de velório. Não tinha parentes no velório. Não tinha cara de velório. Nem tinha vontade de velório. Mas tinha o Pedro, e a mãe do Pedro, irmã do morto. E tinha o morto, que afinal era quem menos queria estar lá!

 

Calça preta, blusa preta, bota preta. Pelo menos a jaqueta era felpuda e cor de tijolo.  Um batonzinho leve, cor de boca. E um lápis preto que ajuda a encarar a noite depois de uns anos e umas rugas. Brinco básico eu não tinha. Porque não tenho mesmo. Tudo meu é grande: argolas, penduricalhos, pastilhas. Escolhi o menor, por assim dizer.

 

Quando desci as escadas o corpo ainda não tinha chegado, mas Pedro me pediu ajuda para arrumar as coisas. E eu entrei na maior cozinha que já tinha visto.  Era uma sala com balcões, onde um enxame de mulheres preparava comida, arrumava copos, escolhia vinhos. Se não fosse a certeza do velório, eu diria que uma festa longa e boa ia começar.

 

As roupas das mulheres eram de todas as cores, fazendo com que só eu parecesse um viúva.  Somente duas senhoras mais velhas estavam de preto.

 

Não havia um só homem na casa.  Pedro me chamou num canto e perguntou se eu podia organizar as mesas na sala e na varanda, checar se as janelas estavam abertas, se as lâmpadas estavam funcionando. Duas mocinhas com cara de parentes, mas que eu soube em seguida que eram empregadas da fazenda, me foram apresentadas, e Pedro disse a elas que seguissem as minhas ordens.  Depois meu deu “tchau”.  Tchau? Alto lá? Que história é essa de me transformar em promotora de eventos fúnebres e depois sair porta à fora?  Tradição de família, disse ele. Só os homens buscam o corpo, enquanto as mulheres ficam na casa, preparam tudo e esperam os convidados. 

 

Eu não queria ficar lá com as mulheres. Nem queria mandar em ninguém ou organizar velório. Eu preferia ir com....não, eu não! Preferia deitar e sonhar que Cozumel teria sido bem melhor, mesmo sozinha! 

 

Eu não tinha nada que fazer ali.  Mas rapidamente apareceram coisas.  “Por favor, tu podes ver quantos copos tem no aparador?”. “Manda as gurias colocarem as cadeiras pertinho das janelas”.  “Os cacetes para o patê já chegaram?”. 

 

E em meio a essa profusão de vozes que me confundiam a semântica, o corpo chegou.

 

Homens pilchados cercavam o caixão em silêncio respeitoso. A peonada se misturava aos patrões com igual gala.  O homem devia ser grande, tendo em vista a quantidade de gente em volta.  E devia ser querido.

 

Pedro me segurou pelo braço e fez questão de ser um dos primeiros a ver o tio. E eu não tinha nada que fazer ali. Mas apreciei o rosto italiano calmo e bondoso que encontrei entre almofadas e flores. E me lembro de pensar que a vida dele tinha sido simples e forte como a daqueles outros homens que se ocupam da terra. Tio Paolo devia ter uns 65 anos. Podia ter vivido um tanto mais.

 

Pedro foi procurar a mãe e eu fui circular entre os desconhecidos presentes. Quanta gente. Quantos sussurros. “Ela veio...Muito atrevimento...Onde é que este mundo vai parar?”.

 

Na sala, num canto afastado do tio inerte, uma mulher ainda jovem, loira, com cerca de 40 anos, que apertava duas crianças graúdas contra o corpo. De quando em quando, ia ao caixão e chorava silenciosamente, voltando ao canto da sala para sentar-se com os piás.

 

Voltei à cozinha para fugir dos rumores. Foi quando me deparei com uma senhora que não tinha visto ainda. Seria impossível dizer com precisão a sua idade, mas passava dos 60. Vestida de preto, como eu, terço em riste. Eu tinha certeza de que ela ainda não havia ido à sala, e não dava sinais de que iria sair dali para ver o morto.  Mas chorava e repetia: “Meu Paolo, meu Paolo, meu querido”.

 

Com o aumento dos sussurros, que agora eram comentários ácidos e abertos, procurei respostas com Pedro. Uma esposa, uma amante. Buenas, Tio Paolo era um Casanova.  Tinha filhos com uma e com outra.  Tinha casa com uma e com outra.  Tinha sexo com uma e com outra.  E deixava herança para uma e outra.  E uma e outra estavam ali.

 

Voltei à sala e busquei os olhos da loira. E repassei o meu desprezo impiedoso àquela intrusa oportunista! Agora, era hora de compadecer-me da viúva, sujeita ao fundo da cozinha e aos soluços humilhados. Aproximei-me da senhora de preto, terço em riste, e disse: “Ele não gostaria de vê-la aqui. Vá para perto dele, vá”.

 

E a boca que instantes atrás tremia no choro, abriu-se para mim em compadecido sorriso: “Obrigada, mas eu não creio que a esposa dele queira a minha companhia lá na sala”.

 

Eu não tinha mais nada que fazer ali.

 

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Conto

11

Autor

 

Título

O QUE EU ESTOU FAZENDO AQUI?

Situação

Escolhida

EQUÍVOCO ENGRAÇADO

Maldito dia. Tudo deu errado. O maldito equívoco até poderia ser engraçado, preparei-me e fui parar num velório. Maldita casa. Deviam ser umas oito, oito e meia da noite quando toquei a campainha daquela maravilhosa casa.

Tive um dia estafante no trabalho, mas que seria compensado com um magnífico jantar na casa de uma amiga da adolescência, reencontrada depois de trinta anos. No e-mail, ela escreveu que talvez alguns colegas da escola estejam presentes. Por falta de tempo não abri minha caixa de correspondências para saber quem iria ou deixaria de ir.

Minha lembrança era os olhos verdes e brilhantes da Vivi. Os olhos sempre foram a sua marca. Fui loucamente apaixonado por aqueles olhos de esmeraldas. Ah, que saudades! Confesso que até fiquei um pouco excitado só de relembrar a cor e o brilho daquelas pedras preciosas. Será que ela está casada ou separada? Quem sabe agora chegará a minha vez?

Coloquei meu elegante paletó negro, ensaiei meu melhor sorriso e apertei a campainha. Fui recebido, gentilmente, por um garotão sarado, com brinco na orelha e camiseta justa sem mangas. Tive a impressão que o jovem estava com a maquiagem borrada.

– Obrigado por ter vindo. Por favor, entre e fique a vontade. Qual é seu nome?

Percebi que o cumprimento foi amável, mas não festivo. Quase funesto.

– Sérgio, respondi. – E aquele moço me acompanhou até a sala onde havia um velório.

Fiquei em choque. Parei a cinco passos do caixão quando fui abordado por um senhor que poderia ser o pai da Vivi. Ou avô. Ou tataravô. Estendi a mão.

– Meus pêsames, – desejei solene – tentando entender a cena. O velhinho abriu os braços pedindo conforto. Não neguei meu afeto e o abracei.

O caco de gente pendurou-se nos meus braços e começou a chorar.

Eu estava perto da urna, mas não conseguia enxergar direito por causa daquele chorão inconveniente que se desmanchava no meu paletó. Procurei por minha musa no sofá, onde estavam aqueles que pareciam ser mais próximos ao falecido. Ou será falecida? Pela idade da turma do sofá eu tive certeza que a Vivi não estava entre eles. O velhinho estava amassando o meu paletó antes mesmo que eu pudesse encontrar e abraçar a Vivi.

O matusalém chorão me largou um pouco e com os olhos vermelhos me perguntou o quanto eu amava o filho dele.

Fiquei aliviado por saber que não era a minha amiga que estava deitada no cetim lilás e esbocei um sorriso de alívio respondendo:

– Seu filho era muito amado. 

Parece que o pai do falecido entendeu que aquele sorriso significava um gesto de afeto e sentimento que eu não pretendi externar.

– Eu sabia que você viria, finalmente vou conhecê-lo – e me puxou pelo braço até o cadáver.

Eu tenho pavor de mortos. Nem fui ao enterro do meu próprio pai. E agora eu estava lá, a dois palmos daquela figura esbranquiçada. Além do nariz com algodão, reparei que ele usava uma dezena de anéis dourados com pedrinhas multicoloridas nos dedos das mãos cruzadas sobre o peito.

O pai do falecido se abaixou e gentilmente beijou a testa do filho.

O cheiro das velas, o aroma saturado das rosas, o calor e a visão do defunto provocaram-me náuseas e quase me fizeram vomitar.

A mãe do morto estava bem próxima e correu em meu socorro.

            – Não se desespere! Estamos todos muito sentidos.

Extremamente constrangido, tirei os olhos da figura algodoada e emendei hipócrita:

            – Agora ele está bem. Está lá em cima. Virou um anjo.

Imediatamente o casal de velhos agradecidos agarrou meu negro paletó. Cada um de um lado e me encharcavam de lágrimas e corrimentos nasais. Como me arrependi por ter dito aquelas palavras idiotas.

Eu estava quieto, parado, imóvel e os dois me agarrando. Tive vontade de levantar os dois braços como jogador de futebol na hora do empurra-empurra na cobrança do escanteio. Não estou fazendo nada. Juro! Sou inocente! Não tenho nada com o morto, nem conheço o moço dos chumaços de algodão.

Num esforço enorme arrastei os dois para longe da pequena área. Cadê o juiz? A casa estava cheia de papa-defuntos. Cadê a Vivi?

 

Situei-me a certa distância da parede onde empilharam as coroas de flores. Li os dizeres dourados. Sempre com meus fiéis escudeiros: o velhinho na direita e a velhinha na esquerda.

 

“Eu te amo muito. Jamais te esquecerei. João Carlos”

“Ao eterno companheiro, homenagem de Roberval”

“Onde você estiver sempre serei seu. Sérgio”

 

Era só o que me faltava! Confundiram-me com o Sérgio da coroa de flores. Só falta dizerem que sou o coroa do falecido. Podem parar! Sou espada!

Olhei nos olhos do morto. Estavam fechados. Como é que a gente tem uma conversa olho-no-olho com alguém que não abre os olhos? Ó do caixão, diga alguma coisa, sente-se aí e explique para a platéia que o seu Sérgio é outro. 

O finado continuava impassível, fazendo cara de nem-te-ligo. Bem que ele poderia dizer que esse Sérgio – apontando para mim – é mulherengo, gente fina e que, na verdade, nunca vi mais gordo! Que eu podia ir embora e que estava livre para procurar Vivi. Mas, não, enquanto infernizo a vida do defunto, glorificam-no. Apagam-se os pecados e desventuras, rezam antes de levá-lo à cova a meio caminho do céu. Fazem faxina geral, até restarem apenas predicados e elogios. O homem vira santo. Sempre foi santo!

 

A situação em vez de melhorar piorou quando uma pequena fila se formou e começaram os cumprimentos. Em vez dos pais do falecido, cumprimentavam a mim.

– Meus sentimentos!

– Meus pêsames!

– Agora ele está com Deus!

– Ele era tão querido.

– Minhas condolências!

Quanto mais eu confortava menos confortável eu ficava. Com trava-línguas e abraços, meu paletó estava acabado com as marcas de batom.

Os cumprimentos, ao menos, serviram para saber que o morto era querido e se chamava Paulinho.

            Não havia a menor chance de me livrar do casal pegajoso, digo choroso. Resolvi prestar atenção nas conversas próximas.

            Uns conversavam sobre a novela outros sobre futebol. Uma turma combinou um sushi para logo mais enquanto outros dois consideravam a cremação uma hipótese mais econômica que um funeral com toda aquela pompa. Fiquei antenado quando ouvi que eu, Sérgio, deveria herdar a casa da praia.

            Eu, que não sabia rezar, comecei a acompanhar e dizer a ladainha Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte, amém.

Contabilizei que uma casa na praia não era mau negócio. Angra dos Reis, lanchas, mulheres. Eu até poderia comprar outro paletó melhor que aquele que já estava surrado, sujo e morto. Os velhinhos até que eram bem simpáticos. Velhinhos não! Seu Antenor e dona Clara. Melhor, doutor Antenor e a simpática e querida dona Clara.

Estufei o peito, me engrandeci e aconcheguei melhor o casal triste. Beijei a face de Dona Clara, olhei-a carinhosamente e declarei em voz alta:

– O Paulinho era tudo para mim. Eu o amava. – E uma lágrima quase sincera percorreu o caminho do meu olho esquerdo até o lábio.

Levantei os olhos e reconheço meu companheiro de cerveja vindo na nossa direção. Encabulado, me questiono se ele ouviu minhas palavras.

– E aí Serjão, o que você está fazendo por aqui?

– Velório, . – Respondi constrangido.

Sem dar a menor atenção ao casal idoso, meu amigo continuou:

vindo da casa Vivi, é aqui do ladinho. Vi esse monte de gente e resolvi entrar para fazer uma boquinha. Dei-me mal. São os seus pais?

Eu disse – São os pais do Paulinho – apontando para o caixão.

– Ele era gay, não era?

Fiz um gesto de repreensão ao amigo. Desvencilhei-me do casal, pedi desculpas e encaminhei o amigo até a porta de saída.

Lembrando-me da casa na praia, olhei para trás, parei na soleira da porta por cinco segundos, encarei meu amigo e pisquei trepidando os cílios, depois abanei um adeus afetado e coloquei a mão no coração sugerindo que Paulinho estava comigo.

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Conto

12

Autor

 

Título

UNA

Situação

Escolhida

UM EQUÍVOCO

Assim que abriu os olhos, naquele estágio em que o sono se dissolve aos poucos e ainda não se está plenamente acordado, Silas viu a moça loira, de longos cabelos esvoaçantes, parecendo saída de uma pintura renascentista. Vestia uma túnica branca, como das deusas gregas, e sorria para ele. Sonho. Só podia ser. Mas ela sorriu e falou.

-         Bom dia, Silas!

-         Quem é você?

-         A Verdade. Ou melhor, a Sua Verdade.

-         A minha? Mas a verdade não é uma só?

-                     Claro que não. Olhe quantas religiões existem, quantos partidos políticos, quantos times de futebol. Como o homem pode ter a pretensão que exista uma única verdade, se não consegue nem mesmo decidir qual é a cor mais bonita, qual é a melhor comida, quem é a mulher mais atraente.

-                     Isso são opiniões, não a Verdade.

-                     Bem, se são opiniões, e cada homem tem a sua, qual deles irá decidir qual dessas opiniões é a verdadeira? Se nem mesmo os filósofos chegaram a uma conclusão...

-                     Mas a verdade não vem do homem. Vem de Deus.

-                     Ah, é? De qual Deus? O católico? O protestante? De Alá? Jeová? E os politeístas? Também não têm a sua verdade? E os ateus? Não é justo dizer que uma verdade é mais verdadeira que outra, nós somos muitas. Convivemos em paz, ao contrário dos homens que tentam nos defender com unhas e dentes. Aliás, nem nós mesmas somos imutáveis. Você mesmo já acreditou que Deus regia o Universo. Depois ficou descrente. E agora acha que existem as coisas de Deus e as dos homens, não é? A Verdade é tão inconstante como as marés, Silas.

-                     Agora não estou entendendo. Você não era a minha Verdade?

-                     Ah, sim. Mas lembra quando você tinha 15 anos e prometeu à Lurdinha que a amaria para sempre? Era mentira?

-                     Não, eu achava que era verdade...

-                     E era. Mas eu mudei. Quando, aos 18 anos, você conheceu a Esmeralda e achou que iria morrer de amor.

-                     A Esmeralda... Nossa, nem lembrava mais dela!

-                     E quando no altar você prometeu à sua ex-esposa que a amaria para sempre, e que ficariam juntos até que a morte os separasse...

-                     É. E quase foi verdade. Eu tive um enfarte por causa dela.

-                     Essas coisas não são mais verdade, mas nem por isso são mentiras, uma vez que já foram a mais pura e desinteressada verdade...

-         Puxa, nunca tinha pensado nisso...

-                     Pois é, às vezes somos até acusadas de sermos mentiras. Tudo bem, somos colegas. Até nos damos bem, mas somos diferentes. Uma verdade não vira mentira só porque mudou. A mentira é exatamente o contrário da verdade. O que nunca foi, mas alguém fingiu que era.  Uma história inventada, um sentimento falso.

-                     Caramba! – de repente Silas pareceu dar-se conta da situação absurda. Estava acordado, agora já tinha certeza. Mas a moça etérea continuava ali, sorrindo para ele. – Desculpa, mas o que você veio fazer aqui? Achei interessante toda essa conversa, mas não entendi a sua presença...

-                     É que você me deixou meio abandonada nos últimos tempos... Você não se veste como gostaria, nem nos finais de semana. Convive com gente de quem não gosta. Morre de saudades dos seus filhos, mas quase não liga para eles. Finge sorrisos o tempo todo. Lê o que acha mais adequado, e não o que prefere. As suas mentiras andam até zombando de mim, dizendo que era melhor eu me aposentar e ir embora.

-                     Desculpa. Não queria te magoar.

-                     Não magoou, não. Mas fiquei chateada. E preocupada com você. Você tem que me defender de alguma forma. Acreditar em alguma coisa, de verdade. Mesmo que mude na semana seguinte. Bom, na semana seguinte não. Depois de algum tempo, se alguém vier com bons argumentos, ou se os fatos forem te mostrando que você não estava exatamente certo. Eu não gosto de falar mal das colegas, não. Mas sou sempre honesta, e uma grande verdade é que mentira em excesso faz mal à saúde. Pode até matar. Já pensou? Morrer de overdose de mentira?

-                     É, isso eu aceito como verdade.

-                     E tem uma outra, maior ainda. Existem umas verdades que a gente chama de inabaláveis. São aquelas que os homens até tentam, mas não conseguem derrubar. E uma delas diz que cada vida só é vivida uma vez.

Silas ficou em silêncio. Por fim, suspirou e encarou a Verdade.

- Obrigado, viu?

- Não por isso. Eu preciso de você tanto quanto você precisa de mim. Agora eu tenho de ir.

- Obrigado de novo. E pode deixar, eu vou me cuidar. De verdade.

Os dois riram, e a moça sumiu em um piscar de olhos de Silas. Ele levantou-se, ainda pensativo. E, na hora de escolher a roupa para ir trabalhar, decidiu pela camisa roxa, que quase não usava por causa da implicância dos amigos e dos filhos, mas que ele acreditava, de verdade, que ficava bem nele.

 

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Conto

13

Autor

 

Título

QUANDO A PREGUIÇA SE CANSOU DO “CANSEI!”

Situação

Escolhida

UM DISCURSO PERSONIFICADO

Em dias quentes e secos como temos passado, somente ela, inibe o cansaço e a dor na consciência.

            Ela nunca foi boa em nada, a não ser nela mesma. Uma deitada, uma dormida, uma espreguiçada...

            Assim, ela foi rumo para o plenário. Daqueles plenários chatos em que todos falam, falam e falam.

            Com a palavra ela: a preguiça:

 

Primeiro Ato

 

                        - Demorei, mas aqui estou eu, disse ela, pronta para iniciar. Porém, antes, tirou o suor da capa e bocejou longamente.

                        - Acabamos de ouvir o senhor da cozinha, o paladar, e ainda a pouco a senhora petulância, e o que quereis de mim? - Questionou.

                        - Já não bastasse o tempo que perdi ali sentada a ouvir baboseiras, agora querem que eu – coitada de mim – esmiúce vírgula por vírgula as minhas virtudes, ora bolas, protestou de maneira ofegante.

                        - Não tenho nada a declarar. Não agüento falar. Não quero ser virtuosa e nem defeituosa. Isso dá um trabalho danado! Exclamou. Após alguns minutos continuou: - E trabalho é uma coisa de que eu fujo - sintetizou.

                        - Querem que eu nesse seminário venha expor minhas idéias e defenda as minhas virtudes. Eu não tenho virtudes e nem defeitos. Eu sou eu. Eu sou aquele momento do fim da tarde, da tirada dos sapatos, da cervejinha à minha espera – que espera! – do amanhecer enjoado que não se posterga, da rede gostosa ao sabor do vento. É isso o que eu sou. Mais nada diferente do que isso. Não me gabo. Não me canso. Eu já sou bastante cansada. Nada semelhante com a turma do “Cansei!”. Eu hein! Essa turma aí faz me lembrar de uma outra turma que dava um trabalho danado: mais dos que eu já tenho. Aquela procissão de senhoras ratazanas de igreja, dos senhores com seus ternos engomadinhos, que saiam às ruas para falar mal de mim. Ora bolas, exclamações e mais exclamações! De mim?- perguntou. Como assim? foi incisiva no questionamento. Falavam tantas besteiras, mas a maior era a que me imputavam a responsabilidade de que eu era a culpada pelos males da nação. Faz-me um favor, pelo amor de Deus!  – desculpa meu Deus por te botar nessa roubada – mas, me livra dessa!

                        - Não gosto nem de lembrar daquele tempo. Ô povo enjoado esse da TFP. E agora estão reeditando aquele festival de estupidez! Tomem tento, esbravejou!

                        - Mas voltando a minha explanação sobre a vida, fazer o quê, ? – perguntou – repito e direi quantas vezes for necessário: eu não pertenço a nenhuma trama sobre nada. Deixem-me em paz, pois, é justamente isso o que eu faço. A minha função é deixar todo mundo na paz, no maior relaxamento, na maior vagabundagem. Para que temos que sofrer com o amanhã se ele virá de qualquer jeito? - questionou.

            Nesse exato momento a senhora oradora deixa o recinto sem qualquer comunicação e deita na primeira cadeira que observa.

 


Segundo e último Ato

 

            Após tirar uma boa cesta voltou ela para a tribuna. Todos ali presentes já aguardavam com uma certa impaciência.

                        - Bem, fui informada por um dos organizadores do seminário que eu teria que concluir minha fala, então, vamos lá. Foi me sugerido expor os motivos de tanto cansaço, mas não vou por aí. Vou pontuar a seguinte questão: na verdade o que o mundo inteiro tem de desprezo para comigo é facilmente explicado pela essência de minha colega sentada bem aqui na minha frente, a senhora Ganância, por quem,disse com desprezo, resultou num tom irado de uma das seguintes oradoras do seminário.

                        - O que você está pensando minha filha, questionou a velha Ganância. Ao que respondeu a Dona Preguiça: - Eu não penso nada, pois, pensar me dá um cansaço danado, mas, já que a senhora não se agüentou, vou enfrentá-la e dizer que é a senhora, uma das organizadoras deste compêndio, a jararaca principal que me dá tanto trabalho e canseira. E desta forma digo: “Cansei!” da senhora e meto-lhe uma vaia.

            Ao que metade do auditório acompanhou. No entanto, a outra metade, já cansada da cansada resolveu tirar satisfações com a outra metade que apoiara a Preguiça e contra-atacou com xingamentos e impropérios de toda sorte.

            No final, devido a uma briga generalizada entre todos os participantes, o evento se encerrou antes do combinado, e a Dona Preguiça pode se espreguiçar à vontade saboreando uma bela de uma cerva.

 

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Conto

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Autor

 

Título

QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO...NO RINGUE COM MACHADO...

 

Situação

Escolhida

DISCURSO

 

VII-                       Belo discurso, minha amiga Vaidade, destronando assim a falsa Modéstia. Sou a Fome ao seu dispor, venho aqui apenas aliar-me ao discurso dos bons, fartar-me na sua bela língua, sibilante de harmoniosas melodias. Sabia-te plenamente realizada em tua íntima comunicação com os homens, ao menos a grande maioria. Mas apresento-me como tua irmã, do mesmo ninho nascida, do beijo fatal da serpente dourada. Mas não me dissimulo como a outra cabisbaixa de olhares indiretos. Sou mais puxada a ti, devassa nos meus sentimentos e os meus olhos, estatelados, contemplam através de todos os olhares, mesmos os não humanos. Até mesmo as folhas padecem de mim. O meu poder, vindo da natureza caída, atinge além da matéria e emoção dos que dela vivem. Sou forte opositora da Morte, nossa irmã mais velha que tu, mas não mais que eu, pois nascemos juntas, disputando, lado a lado, as primazias da Sorte, embora, muitas vezes, dela me alimente, devorando tudo em função da vida, não daquela perene e satisfeita, mas daquele devir contínuo e perecível que a todos põe a definhar. Somos frutos do abraço apaixonado do Desejo entrelaçado à Carência sob os olhares indiscretos da Morte, e, como diria o nosso grande naturalista Zola: “com a sensação ardente e dolorosa das feras que se dilaceram no cio” puxamos mais ao nosso pai, e reforçamos a sua herança atávica das primitivas forças do universo. Deveis saber minha irmã, não sou bem uma virtude considerada, mas um mal arraigado na natureza humana. E venho justamente elevar a minha fala na reivindicação e esclarecimento do lugar que me pertence nesse círculo seleto das boas qualidades.