Terceiro Desafio:
Julgamento e Notas

 

 

 

Índia

Conto

1

Autor

ANTÔNIO CARDOSO NETO

Título

A COR DO SANGUE E O ESPELHO DE NATARAJA

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Impressionante pesquisa histórica, recheada de detalhes e belíssimas imagens, em que sobressai a dança de Shiva. Ritmo envolvente. O final teria mais efeito se terminasse com a frase “a lua despontava como a unha de um tigre”.

9,8

Cris Brum

A situação está bem descrita e a personagem convence, mas não senti muita hesitação nela. Ao contrário, o protagonista parece bem certo do que deve e quer fazer, não? Creio que o excesso de citações a personagens e fatos históricos da Índia complica a leitura para o leitor comum, ainda que enriqueça o texto com citações.

7

Liana Ferreira 

Excelente a descrição das visões refletidas nas águas. Bons contadores de histórias podem convencer qualquer um de qualquer coisa.

10

Cida Sepúlveda

Lindo. Muito criativo.

10

Marco Antunes

A séria pesquisa feita pelo autor resultou em um texto excelente com grande cor local! A beleza das descrições e a elegância das imagens fazem o leitor saborear, no curto espaço do texto, o exotismo de uma visita à Índia. Considero a proposta do desafio cumprida com brilhantismo! 

10

TOTAL

46,8

 

França

Conto

2

Autor

ARY GURCZ

Título

A CONFISSÃO

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

O diálogo sobre a hipocrisia política é atualíssimo. Pesquisa histórica bem-feita. Falta apenas um travessão no início do texto.

9

Cris Brum

O diálogo está bastante bom, convincente e realista. Achei interessante a caracterização da personagem e sua recusa em confessar-se com o Abade condiz com a situação. O recurso ao padre que também estava preso para resolução da proposta foi bastante inteligente. Gostei bastante da frase sobre as lebres.

9,5

Liana Ferreira 

O uso do diálogo dá bom ritmo à história e envolve o leitor. Gostei bastante.

9

Cida Sepúlveda

Excelente

9

Marco Antunes

Grande texto! Diálogo eloqüente e bastante convincente! Não me foi difícil ver a rainha de França na personagem. Excelente pesquisa e riqueza de imagens e linguagem.

9,8

TOTAL

46,3

 

Brasil- Tiradentes

Conto

3

Autor

Cínthia Kriemler

Título

Quae Será Tamen

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Este conto é comovente desde o título. A condução na primeira pessoa, sem interrupções narrativas ou descritivas, dá força ao texto. Redação irretocável.

9,8

Cris Brum

Creio que a tarefa foi cumprida a contento, mas o texto me pareceu um pouco longo. Ainda que algumas imagens sugeridas sejam bastante fortes – a da fome de decência, por exemplo – não senti muita convicção no Tiradentes criado pela autora. Provavelmente, foi intencional o tom conformado de suas elucubrações, mas a personagem à beira da morte por um ideal – faço essa suposição pelo que diz o próprio texto, sem levar em conta outros relatos históricos – talvez fosse mais enfático em alguns pontos.

8

Liana Ferreira 

Excelente! Adorei esse conto. Bem escrito, envolvente. Não há um único parágrafo perdido. Não há uma única frase sobrando. É, ao mesmo tempo, a voz da Inconfidência Mineira e um painel das agruras do povo brasileiro ao longo de sua história. Ouso afirmar que trata-se de um testamento político de ficção da mais alta qualidade que não fica a dever nada a nenhum documento legado  à posteridade por qualquer homem público do mundo ocidental. É impagável e contemporâneo: “Haverá ... trapaceiros que confundirão e corromperão as massas...”

10

Cida Sepúlveda

Texto bem escrito, mas o personagem se resume a um discurso.

8

Marco Antunes

O texto peca um pouco como conto por lhe faltar a necessária alquimia da personagem que o gênero reclama, pois, no conto, a personagem precisa se mover no espaço moral ou psicológico, sofrer alguma transformação, enfim, ainda que sutil! É exatamente isso que lhe faz merecer a célula dramática inerente a esse gênero. No conto, precisa haver algum conflito, ainda que íntimo, e, após equacionamento, alguma resolução, mesmo que a seja a aceitação do impasse. Tenho dúvidas se esse Tiradentes realmente entrou em conflito, pois às vezes tive impressão que sim e às vezes pareceu-me exatamente o contrário. No entanto, o texto é tão densamente poético ao cumprir a proposta que merece um alto conceito!

9,5

TOTAL

45,3

 

Vaticano

Conto

4

Autor

MÔNICA THATY NUNES

Título

MAIS UMA NOITE COM ESTRELAS

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

O texto é bem construído, apesar de alguns detalhes sem importância e comparações dispensáveis. As reflexões do Papa são coerentes com a personagem. O final é cativante.

8,5

Cris Brum

Interessante a situação que a autora escolheu para localizar o Papa. A sua ida à Praça revela a extensão da sua proximidade com a humanidade naquele momento dramático e a cena descrita mostra muito bem isso. Entretanto, sendo ele o Papa, líder de uma religião tão poderosa quanto a Católica, será que ele não tinha mesmo nenhum argumento político para convencer os Presidentes da idiotice que seria o lançamento dos mísseis? Talvez não com os russos, comunistas, mas fico pensando o que poderia ser dito aos norte-americanos...

9

Liana Ferreira 

Quando parece que nada mais é possível fazer, que tudo já foi tentado e em vão, resta-nos a prece. É o que nos conta a autora nessa história sobre a burrice humana.

9

Cida Sepúlveda

O conto está bem articulado, mas falta vida

8

Marco Antunes

A bela e comovente cena do Papa que “foge” por alguns momentos da “prisão” de São Pedro, já vista em “As Sandálias do Pescador” é aqui graciosamente retomada. A conversa de dois Papas (o atual no contexto do e seu substituto) é piedosa, mas talvez ingênua diante da crise que se anunciava. O perigo era real e imediato! Tenho certeza que o hábil João XXIII que surpreendeu a verdadeira alcatéia por que foi eleito, teria palavras mais potentes para por sobre o tabuleiro do jogo internacional.

9,5

TOTAL

44

 

Japão

Conto

5

Autor

RAQUEL MELO

Título

PELA HONRA

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Este conto é delicado como uma pintura em palha de arroz, harmonioso como um arranjo de ikebana, nobre como a alma de um samurai. Transportou-me a um belo jardim japonês, onde palavra e natureza estão em perfeito equilíbrio. Enquanto a autora nos conduz com suavidade pelo coração samurai, flores de cerejeira caem silenciosamente em nosso colo.

10

Cris Brum

Incrível como o clima oriental flui pelo texto com suavidade. As frases repetidas sobre o coração do Samurai funcionam bem, criando a tensão que culmina com o suicídio, única saída pra ele manter a honra, já que não poderia atuar contra o próprio “daimyô”. Gostei também da adoção dos termos tradicionais em japonês, devidamente explicados no final, sem constranger o leitor com o seu desconhecimento.

10

Liana Ferreira 

A história do orgulho japonês desmedido e das tradições quase sempre seguidas às cegas está muito bem contada nesta história em que a autora prima pela linguagem elegante.

10

Cida Sepúlveda

Excelente

9

Marco Antunes

Excelente ! A beleza da linguagem e a seriedade da pesquisa deram a este conto a perfeição da narrativa e a levesa da poesia.

10

TOTAL

49

 

Bolívia

Conto

6

Autor

RAY CUNHA

Título

MORTE NA BOLÍVIA

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Os tempos verbais estão confusos, assim como as informações lançadas atropeladamente no decorrer do texto. A narrativa é feita em tom didático, sem nenhuma emoção.

7

Cris Brum

Creio que o texto poderia ter explorado melhor o clima de angústia que a situação cria na personagem. Uma crise de asma, por exemplo, poderia servir para uma descrição exata do cansaço e da “paranóia” de Che. Até porque, como o leitor já sabe, não se tratava de paranóia, mas da simples percepção dele de sua própria situação pouco antes da morte.

7

Liana Ferreira 

Fiquei com a sensação de que o último parágrafo deveria ser o primeiro. O conto consegue nos remeter ao esconderijo dos guerrilheiros e experimentar um pouco o seu clima.

8,5

Cida Sepúlveda

As imagens são lugares comuns que, não necessariamente, desqualificam o texto, mas neste caso sim, pois não há criatividade na utilização dos clichês.    

8

Marco Antunes

A pesquisa séria e competente que precedeu a tecitura do conto, fica um pouco prejudicada por alguns erros gramaticais e de expressão. Intui-se que o conflito, núcleo dramático, da personagem poderia ser melhor explorado, tirando assim a narrativa da linearidade e do tom ligeiramente  professoral e didático.

8

TOTAL

38,5

 

Alemanha

Conto

7

Autor

ROBERTO KLOTZ

Título

VALQUÍRIA

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

O conto está bem ambientado e demonstra cuidado na pesquisa histórica. É preciso revisão ortográfica e gramatical, principalmente na pontuação e nos tempos verbais. A mudança temporal na narrativa não está clara. O final é bom.

8

Cris Brum

A situação foi bem escolhida, mas, em certo momento, o texto provoca uma confusão entre o narrador e a personagem que confunde um pouco o leitor. Creio que a personagem principal ficou a meio caminho entre a frieza e a intensidade de sentimentos, o que prejudicou a força do texto.

8

Liana Ferreira 

O escritor tem o dom de saber contar histórias, mesmo as mais áridas e é muito competente na construção dos diálogos.

9,5

Cida Sepúlveda

Belo conto

10

Marco Antunes

Pesquisa séria e competente. Reflexão bem encaminhada. O conflito dramático da personagem merecia ser melhor explorado e os diálogos e fluxos de consciência poderiam ser menos formais e didáticos. Mas o texto cumpre o desafio e tem méritos para merecer um conceito superior.

9,5

TOTAL

45

 

Argentina

Conto

8

Autor

WASHINGTON DOURADO

Título

EVITA, O ALÍVIO

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

O tema é desenvolvido de forma superficial. A mistura de presente e passado precisa ser resolvida. No penúltimo parágrafo, não entendi o propósito de usar a frase “Estou feliz que tenha melhorado”, que faz parte de conto (de outro participante) do desafio anterior. Coincidência ou, de novo, recurso metalinguístico?

7,5

Cris Brum

Apesar do título ruim, o texto narra de forma interessante a situação. De forma um pouco melodramática, é verdade, mas adequada à personagem. Poderia, talvez, ter ampliado a participação da multidão nos momentos finais de Evita, o que poderia ratificar o caráter “popular” dela.

8

Liana Ferreira 

A narração é curta mais suficientemente interessante em sua tarefa de desvendar os últimos momentos de Eva Perón. O leito de morte está bem retratado e os diálogos recheados de sentimentalismos, muito bem se ajustam ao espírito argentino. O conto revela o despertar da consciência de Evita e, com isso, torna  sua figura mais humana, menos “divina”.

8,5

Cida Sepúlveda

  O texto se atém demais a uma imagem preconcebida da personagem, justificando-a. Seria interessante reconstruí-la, com  mais contradições, por exemplo. 

8,5

Marco Antunes

Mesmo no delírio, creio que faltou ao conto a mão mais crítica do autor: a personagem resulta santificada em detrimento de sua verdade dramática. O conto produz uma sensação de melodrama que o prejudica, tira-lhe a verdadeira força. Uma pena já que tem méritos quanto à linguagem.

8

TOTAL

40,5

 

África do Sul

Conto

9

Autor

HUMBERTO  SANTOS AZEVEDO

Título

QUANDO UM GESTO DE JESUS E GHANDI OCORREU NOVAMENTE

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Este texto foi claramente escrito às pressas. Há erros ortográficos, gramaticais, repetições desnecessárias, imagens desconexas. Além disso, não cumpriu o desafio.

6

Cris Brum

Creio que o título tenha ficado bem mais forte que o texto. Apesar da dificuldade da tarefa, reconhecida por jurados e participantes, o distanciamento do narrador transmitiu uma frieza ao texto que não condiz com o título, e muito menos com a força dos fatos narrados. Trata-se do fim do apartheid! Imagina como o Mandela ficou naquele dia! Acho que tu erraste a mão, Humberto.

 

6,5

Liana Ferreira 

Há aqui excesso de narração impedindo que o drama se desenvolva mais livremente. O perfil do homenageado precisa ser mais aprofundado para que o conto seduza o leitor. A relação entre vida e liberdade poderia ter sido melhor explorada. Ainda persistem aqui e ali uns probleminhas com a gramática.

7,5

Cida Sepúlveda

Simples. Bonito. O final poderia ser melhor trabalhado, menos lugar comum.

9

Marco Antunes

Acho que a tarefa não foi bem cumprida, pois se pedia aqui a meditação de Mandela e isso, definitivamente, não foi cumprido!

6,5

TOTAL

35,5

 

Jerusalém

Conto

10

Autor

SORAIA MARIA SILVA

Título

SANGUE E ÁGUA

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

A escrita torrencial deixa o leitor sem fôlego neste belo conto, que lembra uma prece. “Essência” — essa palavra parece traduzir a obra da autora.

9

Cris Brum

Difícil julgar um texto sobre uma história tantas vezes contada, de tantas formas diferentes. E, com certeza, mais difícil ainda escrevê-lo! Acho que a tarefa foi cumprida, mas a escrita não me emocionou. Ficou parecido demais com a imagem convencional que fazemos de Maria e da situação.

6,5

Liana Ferreira 

Gosto desta Maria de Nazaré,  que aqui se mostra sofrida, mas convencida de sua existência excelsa. A forma de composição que a contista escolheu produzindo o conto inteiro em um único parágrafo, neste caso, valoriza o texto. As pombas que, ora são pombas somente, ora estão nos olhos do discípulo, e por fim se transformam no Espírito Santo enchem de graça a narrativa. Ave!

9

Cida Sepúlveda

Bem escrito. Mas, a exemplo de outros contos deste desafio, senti a falta de personagens mais terrenos, ainda que “inspirados” em personagens histórico-culturais.

8,5

Marco Antunes

O impulso religioso dominou a autora e viu-se aqui mais a exaltação da fé que a real compreensão do drama pessoal de Maria. O Silêncio daquelas horas entre o sepultamento e a ressurreição deve de ter sido povoado de medos e presságios. O pânico, que devia estar sendo reprimido em cada coração, pelas conseqüências dos acontecimentos no Monte Calvário e a angústia havia de ser a tônica. Nada disso refletiu o conto, que me pareceu confuso e ao tentar abordar diversos assuntos e ser fiel às escrituras.

8

TOTAL

41

 

Itália

Conto

11

Autor

ARTUR ADOLFO COTIAS E SILVA

Título

FIAT SICUT TIBI PLACUERIT

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

O excesso de dados históricos lembra uma lição escolar. Há confusão nos tempos verbais. O conto não consegue transmitir a beleza dos fatos narrados.

7,5

Cris Brum

Bem interessante a situação narrada e mais interessantes ainda as personagens. Fiquei curiosa sobre o diálogo entre Pedro e Francisco, mas o texto está adequado à proposta de distância do narrador pedida.

8,5

Liana Ferreira 

As figuras de Francisco de Assis e Pedro Cattani estão bem descritas neste conto que envolve o leitor, principalmente pela desenvoltura do narrador, que parece conversar à sombra de uma frondosa árvore.

9

Cida Sepúlveda

Maravilhoso. Rara simplicidade. Um texto de arte interagindo com a história e a filosofia. Parabéns!

10

Marco Antunes

Excelente pesquisa de época e do mundo circundante à Revolução de Assis! A capacidade narrativa do autor e expressividade é enorme, mas é um pena que tenha esquecido que o conto precisa de drama, de conflito, de mutação, de percurso para uma nova síntese, pois, caso contrário, perde sua força.intrínseca.

9

TOTAL

44

 

Brasil - Zumbi

Conto

12

Autor

MONIQUE BRITTO KNOX

Título

PALMAS A ZUMBI DOS PALMARES

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Há erros ortográficos e gramaticais. O tom é didático. As informações históricas ficam deslocadas nos diálogos.

7

Cris Brum

Acho que o conto apressa as conclusões da personagem de forma um pouco desconexa. Não convence o leitor a forma como o governador se dá conta do que Zumbi representaria depois da morte. Ficam muito artificiais as conclusões que ele tira, da forma como foram narradas.

7

Liana Ferreira 

Este conto prende a atenção do leitor. Tem densidade histórica e intensa dramaticidade. A cena final, sem testemunhas, em que o Governador  se dá conta de que Zumbi será eterno, enquanto ele se tornará poeira da história, está carregada de símbolos. Tanto é que o nosso espaço Cultural não se chama Governador Mello e Castro. Contudo, a escritora parece ter esquecido de fazer a necessária revisão gramatical e ortográfica.

9

Cida Sepúlveda

Muito bom. Melo e Castro, a meu ver, ficou muito caricato.

9

Marco Antunes

O conto não tem um bom ritmo entre ação e interpretação dos fatos, deixando a impressão de que algumas meditações são tiradas da cartola do autor, como um deus ex machina . O grande problema é mesmo do que os americanos, no teatro, chamam de timing. Mesmo assim, o conto tem méritos e a autora não deve desanimar, falta-lhe apenas um pouco  de percepção do que funciona e do que não funciona na narrativa, para entender as peculiaridades do gênero e obter melhores textos.

8

TOTAL

40

 

Depois do Fim

Conto

13

Autor

LACY MESQUITA

Título

CÉU AMARELO

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Há incorreção grave: “perigos eminentes” e outras. Falta encadeamento ao texto.  O ritmo lento não prende a atenção do leitor.

7,5

Cris Brum

A imagem do céu amarelo é bastante impressionante e traduz a situação em que se encontra a sobrevivente. As reflexões da personagem sobre a humanidade são suficientemente fortes para sustentar o texto, que não necessita do toque dramático adicionado pela descrição da história pessoal da personagem. Pra mim, o parágrafo sobre o bebê é desnecessário.

8

Liana Ferreira 

É o caos retratado através de períodos curtos. Mas essa técnica ainda não está completamente dominada pela escritora, o que prejudica o resultado final.

7,5

Cida Sepúlveda

Imagino que um ser nas condições descritas, teria um discurso bem diferente....

7

Marco Antunes

É inevitável que o leitor considere apelativa a referência ao bebê, mas o que mais falta ao texto presente, é, sem dúvidas, ao menos uma tentativa mais fluente e lógica de explicar o ocorrido. Um momento dessa gravidade mereceria mais reflexão. Como conto, falta-lhe conflito, parece-me que a personagem não chega a fazer um mea-culpa  com relação a sua postura anterior ao grande desastre.

7

TOTAL

37

 

Grécia

Conto

14

Autor

OSMAR PERAZZO LANNES JR

Título

A   TAÇA

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Gestos, palavras, pausas — tudo em perfeita ordem neste conto primoroso, que narra com profundidade as reflexões do grande filósofo na véspera de sua morte. A elegância e a nobreza do texto são dignas do tema proposto.

10

Cris Brum

Impressionante! A reflexão trazida pelo texto sobre a obediência do indivíduo às leis coletivas e os limites que elas impõem à liberdade está muito bem aplicada e a linguagem usada está muito adequada. E olha que falar por Sócrates não deve ser nada fácil mesmo, pra ninguém! Ótimo texto, prende a atenção até o fim, mesmo que o leitor saiba qual é o final.

10

Liana Ferreira 

O último dia de Sócrates é um momento revelador na vida do filósofo. A Grécia e sua tragédia estão bem representadas no denso e coerente diálogo de Sócrates com Críton. Por meio de um bem arquitetado raciocínio, Sócrates conclui – acertadamente – que não apenas ele morrerá, mas sim as cidades tal como elas se definiam no seu tempo. O consolo de Sócrates, que por isso mesmo afirma que não cruzará o inferno sozinho, é bastante emblemático.

10

Cida Sepúlveda

Excelente

9

Marco Antunes

Excelente. Aqui se deu tudo que o conto pede, percebe-se que, com sutileza, até Sócrates sofre a alquimia da força que lhe tenta desviar o rumo da ação, não para seguir em direção oposta, mas na mesma por mais sólida razão. Bonito e bem escrito. Verdadeiro em sua revisão como só um autor do século XXI poderia fszer.

10

TOTAL

49

 

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3º Desafio:

As Conseqüências da História

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Índia

Conto

1

Autor

ANTÔNIO CARDOSO NETO

Título

A COR DO SANGUE E O ESPELHO DE NATARAJA

O sol acabara de se esconder por detrás das seteiras de uma das torres do Forte Vermelho. Um indiano de uns trinta e tantos anos, trajando uma túnica de algodão azul-turquesa e trazendo na cabeça um barrete negro, caminhava de um lado para o outro na longa calçada de pedra que circunda a antiga fortaleza. Gesticulava e parecia resmungar por entre os dentes.

— O pai da Índia é o próprio Brahma. O velhote é o pai do Paquistão, isto sim!

Continuou a andar e a gesticular em torno da grande cidadela com suas pedras ainda mais enrubescidas pelos últimos raios de sol daquela quinta-feira.

— A Grande Índia é mais que a pátria de todos os indianos, sejam eles hindus ou não. É divindade de adoração dos hindus!

Nitidamente transtornado, parecia mastigar as palavras, ditas em hindustâni, com um leve sotaque marata.

Profanaram nossa língua, filha dileta do sânscrito. Mancharam o devanagari com rabiscos árabes e transformaram o hindi sagrado em urdu.

Afastou-se da calçada de pedra e começou a caminhar sobre o gramado amarelo como palha de arroz. O ar seco e ligeiramente frio de janeiro obrigou-o a acelerar o passo. Continuava a gesticular.

— E não foi só aos muçulmanos que o velho traiçoeiro favoreceu. Os devotos do pérfido Sidarta Gautama também arrancaram a Birmânia e o Ceilão do seio da nossa venerada nação. E a sublime Caxemira? Até aqueles párias chineses levaram um pedaço da carne da grande e amada Índia. Tudo culpa da deslealdade daquele velho demagogo, que tem enganado a todos com seus discursos tão esfarrapados como seus andrajos. Os malditos cristãos ingleses pelo menos respeitaram a integridade da pátria querida. O velho merece ser castigado até mais que os ingleses.

De súbito, parou, olhou para a muralha encarnada e sorriu.

— Amanhã, por volta desta hora, a alma do traidor já terá reencarnado no filhote de uma cadela sarnenta, na casa de algum intocável... Grande Alma... pois sim!

Ao passar em frente à igreja anglicana que fica atrás do Forte, lembrou-se de um místico meio charlatão, tenente do exército imperial britânico, que conhecera muito tempo antes. Nunca se esquecera de quando ele lhe perguntou seu nome e apelido e, por algumas rúpias, juntou as letras de seu nome, Shri Nathuram Godse, com as de seu apelido, Nath, e formou o anagrama higher than Nostradamus, sugerindo que ele, Nath, era maior que um profeta “bastante conhecido no ocidente”, segundo as palavras daquele soldado trapaceiro. Embora se recusasse a acreditar em vaticínios alheios ao hinduísmo, Nath tentava, naquele momento, levar as palavras do impostor a sério para ver se podia antever o que se seguiria ao ato que consumaria no dia seguinte. Mas não conseguia, por mais que tentasse. Nada lhe vinha à mente, além da mira, da acuidade visual, do tato com o gatilho e da rapidez da ação. Atormentava-o a idéia de vir a falhar na missão que lhe coubera cumprir.

Assim que anoiteceu, caminhou até a orla, sentou-se em uma enorme laje de pedra sobre a qual os peregrinos costumavam colocar seus pertences, e ficou olhando a superfície pálida do remanso na margem direita do Yamuna.

Observava o reflexo das estrelas na água, quando os vórtices formados pelo movimento dos remos de um barco que passava por ali retorceram o espelho d’água, revolvendo os astros nele espelhados, fazendo com que, no meio do rodopio daquelas constelações espectrais, Nath vislumbrasse a dança de Shiva. Os guizos nos tornozelos do deus sussurraram aos seus ouvidos: “... depois da morte de Bapu...”.

Nath esfregou os olhos, balançou a cabeça, beliscou o braço e deu um leve tapa no rosto para se certificar de que não sonhava. Quando voltou a olhar para o rio, o redemoinho já havia passado, e a água voltara a refletir o luzeiro ancestral das estrelas a flutuar num líquido e balouçante véu negro. A oscilação do manto d’água foi se amortecendo até sobrar somente um ligeiro tremor, deixando as constelações nítidas de novo.

Nath olhava, absorto, aquelas fagulhas que cintilavam na água irem se incandescendo lentamente até se transformarem em archotes carregados por maometanos, que, aos gritos, ateavam fogo a choupanas de hindus miseráveis. Viu centenas de abutres devorando as vísceras de soldados indianos e paquistaneses mutilados em um vale ermo da Caxemira, e uma multidão de crianças escaveiradas com os olhos esbugalhados, boiando em um lamaçal de Bengala. Em um círculo vermelho com fundo verde, enxergou citações corânicas escritas em caracteres bengalis. Depois, avistou hordas de tâmeis escuros estraçalhando, com seus facões, multidões de cingaleses indefesos; malabarenses carregando um estandarte escarlate com uma foice e um martelo entrecruzados; uma elegante senhora grisalha em trajes hindus sendo metralhada por dois siques de turbante carmesim; o filho da senhora grisalha dilacerado por uma drávida de cabelo escorrido sobre os ombros; um senhor panjabi com o pescoço destroncado, pendurado em um cadafalso de madeira; a bela filha do senhor panjabi sendo deportada à força para a Inglaterra; um acidente aéreo com um tirano de bigode retorcido e olhos de sampacu; a bela filha do senhor panjabi, acenando para a multidão, defronte a uma mesquita gigantesca; mais uma deportação da bela filha do senhor panjabi; um ditador militar islamita com uma peruca ridícula; estrangeiros árabes, persas e turcomanos invadindo o Baluquistão; um foguete, com um crescente verde desenhado na couraça, sendo arremessado sobre uma cidade às margens do Ganges, despedaçando-a por inteiro; outro foguete, com o desenho de uma roda de fiar, sendo lançado sobre os vilarejos do vale de um afluente do Indo, reduzindo-os a estilhaços. O clarão estrondoso de um imenso cogumelo de fogo fez com que Nath se sobressaltasse e esbarrasse no espelho líquido, distorcendo mais uma vez aquele reflexo do firmamento, redemoinhando o espectro do universo. Shiva dançava novamente.

Nath levantou-se repentinamente, e ficou olhando aturdido para o movimento das águas, até elas tornarem a se amansar. Sacudiu a poeira da túnica e das calças, e saiu às pressas rumo ao Forte Vermelho, onde tomou um auto-riquixá em direção aos arrabaldes de Delhi.

Duas horas depois, já havia se esquecido do que parecera ter visto nas margens do Yamuni. Na varanda de um bangalô suburbano, sentado sobre um tapete desbotado estendido no chão, Nath colocava calmamente as balas no pente de uma pistola semi-automática italiana. Atrás de uma das pilastras da varanda, indiferente ao que acontecesse no dia seguinte, a lua despontava como a unha de um tigre, na direção onde, durante séculos, ficara a porção leste de Bengala, mas que agora se chamava Paquistão Oriental.

 

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

 

 

Cris Brum

 

 

Liana Ferreira 

 

 

Cida Sepúlveda

 

 

Marco Antunes

 

 

TOTAL

 

 

França

Conto

2

Autor

ARY GURCZ

Título

A CONFISSÃO

Não. Há muito poucas coisas sobre as quais posso decidir. Essa é uma delas.

A figura pálida sequer fazia suspeitar a exuberância de poucos anos antes. As cores haviam esmaecido, o luxo era passado, a expressão trazia mais marcas que os trinta e oito anos permitiam esperar. A altivez, entretanto, não sofrera qualquer atenuação.

Madame. A confissão liberta.

– A confissão a um padre, monsieur Girard. A um padre.

– Ser Abade é meu ofício por minha vocação e desejo. E dele me orgulho. Se cheguei a este posto, foi pela mercê Divina e por merecimento próprio.

– Com certa influência de sua abastada família, monsieur.

– Não posso ser condenado por minha ascendência, madame.

– Nos dias que correm as condenações são tão fartas quanto fáceis. Os juízes são sequiosos de ouvir suas faltas e sentenciar a pena, tanto melhor se capital. Sequer é exigido do réu que traga suas culpas ao banco. Faltam-lhe crimes? Os promotores são pródigos em consegui-los. Seus pecados são tímidos diante dos demais? Os traidores são generosos em fornecer versões e adornos. Carece-se de injúrias? O populacho é hábil em formulá-las. Já as absolvições, monsieur, essas são escassas.

– É o que me traz à sua presença, madame. Confesse seus pecados, arrependa-se e poderei absolver sua alma. A senhora terá lugar...

– O senhor ousa oferecer-me absolvição, Abade Girard? Que tamanho têm seus pecados? Quanto pesa sua traição? Sua nobilíssima família, o que pensa de sua nova posição: Sacerdote Constitucional? Se imagina ter, ainda, alguma absolvição a oferecer, ocupe-a com sua própria alma. Sabemos ambos que de muitas novenas carece, se ainda almeja a eternidade em clima mais ameno.

– Minha função é de interceder em favor de sua...

Lagarde e Ducoudray já intercederam o suficiente, não acha? Nem o meirinho conseguia ouvir seus questionamentos débeis. Sua intercessão, por certo, teria alcance ainda menor. Que fim terá minha alma a depender de tão ineptos advogados? E se eu tivesse a má sorte de suas orações em “meu favor” chegarem ao Paraíso, quão melhor, imagina, seria recebida? O senhor e sua casta negaram a Igreja, juraram lealdade à constituição revolucionária como a uma nova bíblia. A bíblia da bestialidade, que nega toda a tradição, nega os séculos de organização e civilização européia. A constituição que nega Deus, quando defende a balbúrdia, o caos infernal em que a França está mergulhada. A Place de Gréve está tinta de sangue.

Place de la Revolucion, madame.

– Praça do terror, Monsieur. Do Terror e da barbárie.

– O terror não é privilégio da Revolução. O terror da fome e do abandono era, antes, mais bem distribuído. Todo o povo padecia. Os excessos de sua corte eram indecentes, madame. Agora, apenas os traidores do povo e da França é que perdem a cabeça.

– Invejo-lhe a convicção, monsieur. Pensa, mesmo, que a lâmina de Monsieur Guillotin sacia-se com pescoços nobres? Imagina que está a salvo por ter jurado lealdade à constituição? Que suas terras e posses estão preservados da turba de “cidadãos”? Não me consta que as avalanches de neve poupem as lebres alpinas por serem brancas. Não me surpreenderia se Sanson fosse convocado a separar dos pescoços as cabeças dos cidadãos da Assembléia revolucionária, a de Tinville, a de Danton, as dos padres, abades e bispos constitucionais.

– A confissão, madame...

– Que quer que confesse? Que me deitava com a princesa de Lamballe? Que eu molestava o delfim, meu único filho vivo, o herdeiro do trono de França? Que meus filhos não eram do Rei? Que eu conspirava para entregar a França ao estrangeiro? Quais os crimes de que me acusam quer que confesse? Quais dos crimes inventados pela malícia de Tinville? Quais dos pecados fantasiados pelos cidadãos enfurecidos ou pelos cortesãos enciumados quer que eu admita? Sinta-se à vontade monsieur “abade”. Escolha quantos absurdos e ignomínias lhe aprouverem. Anote em suas memórias a ficção que lhe pareça melhor. Mas não espere de mim qualquer confissão. Adeus monsieur Abade Girard.

– A sua soberba, madame, será recompensada adequadamente no momento do Juízo.

– Receberemos, todos, a paga justa. Adeus.

 A dama olhou-o, altiva, deixar a cela escura. A raiva sustentou-a empertigada por alguns instantes. Aos poucos, no entanto, o peso de suas memórias foi-lhe encurvando a silhueta.

Estava só. Irremediavelmente só. Seus mortos eram inúmeros: seus pais, seu irmão José, seu titubeante marido, a vida em Versailles. Seus filhos, arrancados de seu convívio, jamais tornariam a encontrá-la no Trianon. Viena era um passado distante, assim como seus dias de alegria. A França havia-lhe negado o amor e o respeito que merece uma rainha.

Malditos os que arremedaram a esdrúxula doutrina do Novo Mundo. Os hipócritas ainda mantinham escravos e ousavam falar em liberdade ou em igualdade. Bárbaros. O mundo ainda acordaria arrependido sob sua influência.

– Minha Rainha.

A voz grave vinha da cela em frente. Não se podia ver mais que uma silhueta escura.

Madame não me conhece. Sou apenas um cura, não espero que me honre com sua confissão. Mas minha devoção estaria recompensada se pudesse trazer-lhe conforto.

– Se me faz companhia, monsieur, merece meu respeito. Conforto, porém, já não almejo. Peço-lhe que me dê sua bênção e, sabe Deus, poderei reencontrar os meus em melhor terreno que o de França.

Enquanto o sacerdote entoava suas orações preparatórias, a janela estreita da prisão das Tuilleries deixava entrar a luz avermelhada do início da manhã, a tingir as paredes de pedra, como a prenunciar o matiz do dia.

 

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

 

 

Cris Brum

 

 

Liana Ferreira 

 

 

Cida Sepúlveda

 

 

Marco Antunes

 

 

TOTAL

 

 

Brasil- Tiradentes

Conto

3

Autor

Cínthia Kriemler

Título

Quae Sera Tamen

Nada mais adianta! Sou a ovelha tosca neste altar que os curiosos observam com a piedosa crueldade da insensatez.

 

Nos tolos existe grandeza apenas quando a morte empresta. Antes ser o borra-botas da tropa que o valente entregue em sacrifício! Nenhum ideal resta agora, nem os que nasceram de todos os tipos de interesse, durante esses anos conspirados - e que se macularam como joio e trigo no ventre do nosso movimento! – nem os trazidos, e ouvidos, e sentidos de além-mar. Irônica liberdade pela qual se anseia e luta com as vísceras, com as palavras, com o destemor dos insanos! 

 

Não vejo mesmo rostos familiares. Por certo não esperava aqui os valentes conjurados que ontem mesmo escaparam de sentença tão vil e derradeira como a morte, porque sei que a eles restará para sempre a certeza de que a derradeira partida é ainda menos dolorosa do que o respirar em desgraça a cada nova manhã. Esperava algumas faces amigas, homens de convicção que me secundaram os dias e que ainda não caíram com a aniquilação do movimento. Nem eles. O medo é a única morte que não podemos vencer.

 

Somos agora eu, meu carrasco e a devastação das últimas esperanças. Não deveria ser assim! Nesse momento de maior solidão eu, tão calcinado pelos percalços, já deveria ter domado o burro chucro que nos governa a todos desde o ventre materno, essa comichão que o Divino nos entrega pelo nome de alma. 

 

Quem sou eu afinal? Um plantador de esperanças descabidas? Um sonhador que a História lembrará como fraco, incauto, inconseqüente, sacripanta?  Ao menos nesta hora preciso voltar-me às respostas fiéis que preciso outorgar à minha eternidade!

 

Enquanto tem início a degradação da morte pública, tenho tempo para mim; mas não quero esses instantes de perdão ou resgate!  Pressinto que meus olhos, minhas entranhas carecem da direção do futuro. É mais que hora de arrancar a venda, antes que a morte me colha em meio ao inacabado! Terminarei a trajetória em mim mesmo!

 

Espirais forasteiras acordaram em mim as idéias libertárias que ora me guiam os pés para a forca. Acalentei os sonhos de razão que nasceram no Velho Mundo. Fui testemunha incólume da independência obtida de uma guerra entre irmãos. Vi nascerem das mãos do homem as máquinas que arrancaram dele a dignidade do trabalho operário.

Eu vi nações que se fizeram grandes ao pelejar pelo povo, mas que agora destroem outros povos como lobos ensandecidos: guerreiam, conquistam, espoliam, crescem pelo tacão da bota que fincam no dorso dos enfraquecidos! E a despeito de tantas percepções desconcertantes, a hora desta terra Brasil era esta! 

 

 

Que fossem contemplados os meros defensores do próprio quintal! Que recebessem seu quinhão os homens de pouco valor e grande ambição! Que se fizesse a revolta pelos motivos certos, incertos, confusos, mas que a liberdade viesse como virtude para uns, prêmio para outros, desde que estivesse aqui, agora, comigo, em lugar deste patíbulo torpe!

 

Quem virá por este país?  Naus portuguesas, já tão cansadas da conquista? Soberanos bocejantes em busca do sexo de mucamas? Quem, afinal, irá nortear este povo à independência da colônia?  Como haverá legitimidade na voz portuguesa que irá bradar independência ou morte, se hoje a minha voz de joão-ninguém será calada, minha família execrada, minha casa de cidadão destruída? Quem conferiu a Portugal essa honraria que o futuro trará?  Que liberdade é essa que nasce vigiada pelo zelo do verdugo?!?

 

Vejo, mais do que sinto, as sensações que me tumultuam o espírito. Enxergo uma nação sem princípios, viciada no ato de ceder, corrompida pela fome de convicções. Um povo crente, punido pelo imediatismo do presente. Sangradouros desajustados que nunca mais viram nascentes. Esses rostos me esperam num porvir que não terei, e não posso mais retirá-los de lá!  Tenho certeza de que tentei utopia.

 

Os rostos que perscruto são inocentes.  Prefiro os olhares sarcásticos, os gestos torpes: eles pertencem aos que fazem da proteção de suas próprias vidas a prioridade nascida na torpeza do egoísmo. A eles, a salvação em meio ao caos. Mas esses rostos desprovidos de malícia falam de dias violentos, de submissão e flagelos. São gado. Que lástima!

 

Eu mesmo quis fazê-los rebanho. E confesso que, mesmo detentor das melhores causas, ainda assim fiz uso do vilão que hoje irá partir deste meu peito! Não sei de quantas pretensões o homem vem dotado, mas eu, por certo, fui conspurcado pelos sonhos de irmandade e liberdade. Por isso o dó que me consome ao ver que não há rumo!

 

A fome virá para esses rostos pálidos. Acima de tudo, a fome de decência.  E a fome do saber, e a fome de afeto, e a fome de verdade. E quedarão todos sem o alimento usurpado pelos velhacos. 

 

Haverá mazelas do corpo e da alma.  Feridas sem o consolo da cicatriz. Um povo doente de medo, de identidade.

 

Haverá uma ética sufocada, sobrevivendo da respiração de poucos. Haverá fatias sociais determinadas pela prata, pela cor da tez, pelas alcovas que escolherão. Escravidão do homem pelo homem. Ditaduras.

 

Haverá coturnos alienantes, trapaceiros que confundirão e corromperão a massa, para torná-la ignorante e cúmplice de desmandos. Tantos engenhos, tanta rapidez do homem em prolongar e melhorar a vida...e tão pouca plenitude!  Um fim de mundo sem fim...

 

 

No entanto, o ideal da liberdade permanece no meu corpo moribundo.  É uma chama perpétua que me aquece a morte! Posso me entregar então, confiante, aos tempos...Estarei torcendo do éter pelos visionários, pelos atrevidos, pelos de caráter.

 

O Lampadosa é uma amplitude singela. Meu carrasco consegue até presentear-me com a placidez que os inanimados emprestam aos sacrifícios mais cruentos. Ele já vem.  Tem pressa de lavar-se da culpa nas tabernas e nas carnes de boas moças. Arremato os acertos.

 

Mártir, não intento ser. Somos todos. Seria injusto com a turba que atravessará os séculos. Revejo, portanto, o que me iniciou a fieira de lamúrias e apreensões...Ainda há o que me reste então! A angústia clarividente do porvir é minha última amante. 

 

Não há mais tempo. A corda da libertação é o que menos preciso temer. Serei partido em membros, para aplacar pela sanha da carnificina o medo dos que se sentem aviltados pela minha crença.  E cada pedaço de mim alimentará uma inquietude. De homens e de bestas.

 

Mas por fim, altaneira, repousará minha cabeça no castigo mais doce: Vila Rica!

 

Então, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo serei a liberdade, ainda que tardia.

 

 

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

 

 

Cris Brum

 

 

Liana Ferreira 

 

 

Cida Sepúlveda

 

 

Marco Antunes

 

 

TOTAL

 

 

Vaticano

Conto

4

Autor

MÔNICA THATI

Título

MAIS UMA NOITE COM ESTRELAS

O homem que já havia visto duas grandes guerras bem de perto amanheceu temendo por uma terceira, ainda mais cruel, ainda mais grave. Ele, criado no campo, assombrava-se como a humanidade não conseguia acompanhar os indícios que mostravam, passo a passo, a tempestade que estava por se formar. Antes de plantar, os agricultores de seu paese observavam os ventos e a terra, analisavam o tempo, olhavam o céu. Sabiam, assim, reconhecer o que estava por vir, e antecipar a colheita ou adiar o plantio. Claro que sempre havia o inesperado, o imprevisto, em um mundo que não era governado apenas pelas leis dos homens. Mas eram as exceções. O corriqueiro podia ser antecipado. E aquela era uma situação que já havia anos se formava, passo a passo, como um furacão que se anuncia em alto mar.

            Sabia bem o script das guerras Angelo Roncalli, conhecido como João XXIII. E observava angustiado, há tempos, o aumento gradativo da tensão. Viu um mundo sofrido, mas ainda ingênuo, tornar-se cada vez mais frio. Uma Guerra Fria. Calculada milimetricamente, com paciência de burocratas que apostavam a vida de homens como se fosse um mero jogo de xadrez. Ou como uma briga de rua, como havia acontecido nos últimos dias. Meninos apontando seus estilingues um para o outro, brigando por espaço e aguardando a movimentação nos jogos eternos de foi-você-quem-começou e só-recuo-se-você-recuar-primeiro. A diferença era que esse estilingue causaria uma dor inigualável.

            Quando o cardeal Montini entrou em seus aposentos, o Papa levantou-se com um pouco dificuldade. À idade avançada somava-se a noite em claro, orando pela paz mundial e para que Deus conseguisse resgatar o bom senso dos homens. Mas Deus parecia não estar disposto a ouvir. Como se tivesse cruzado os braços, abismado, e apenas aguardasse para ver o que os seus filhos eram capazes de fazer. Era uma situação absurda aquela, em que duas grandes nações, para provar que uma era mais poderosa para outra, propunham-se a destruir o mundo inteiro. Quem iria reconhecer a vitória? Os que morressem por último? Ah, a sabedoria dos seres humanos!

João sorriu para o cardeal. Por que o havia chamado? Ah, tinham um compromisso importante. Inadiável! Giovanni Montini questionou se era relacionado ao Concílio, lançado há duas semanas. Apenas dois dias antes do anúncio daquela crise no Caribe. Mas o Papa balançou a cabeça, em negativa. Um compromisso mais importante.

-          Um compromisso com a Humanidade. – disse, com um sorriso enigmático enquanto dava as instruções do que pretendia ao cardeal.

E assim, diante de um confuso e incrédulo Montini, os dois, Angelo e Giovanni, seguiram em um carro anônimo, com roupas comuns, para o centro de Roma. Mais especificamente para a Fontana de Trevi.

-          La bella fontana, Giovanni! Há quanto tempo você não vai lá? Preciso de um lugar para pensar e orar. Um lugar onde Deus esteja com certeza.

Sentaram-se à mesa de um café, de onde podiam ver quase toda a praça. Preocupado com a saúde do homem mais velho, o cardeal sugeriu uma mesa dentro do estabelecimento. Fazia frio naquela manhã do fim de outubro. Mas João não aceitou. Queria ver o movimento, as pessoas, os pombos. E, principalmente, queria ver o céu. Como se esperasse e temesse ver, a qualquer momento, riscos e bolas de fogo cruzando o ar, como setas em chamas. Estrelas cadentes em plena manhã. O anúncio do final dos tempos. A ira divina descendo sobre a Terra. Ou melhor, a estupidez humana subindo aos céus, apoderando-se de um espaço que não deveria ser seu. Onde deveria governar apenas a placidez das nuvens e de onde qualquer pessoa, em qualquer ponto do planeta, pudesse retirar a paz e a esperança para viver mais um dia nessa torrente de acontecimentos quase sempre impressionantes.

O dono do bar veio atendê-los. Angelo pediu um capuccino. O mais jovem tentou protestar. Café não deveria fazer bem à sua saúde. Mas ele apenas sorriu.

-          Em Roma como os romanos, caro amigo.

Enquanto preparava o pedido, o garçom não tirava os olhos da mesa, observando os distintos cavalheiros. Aquele senhor mais velho não parecia o ...? Não, não podia ser. Convenceu-se que eram apenas dois senhores italianos, aproveitando a bela manhã azul de frio e sol. E, de onde estava, não podia ouvir a estranha conversa.

-          Liguei para os presidentes, meu amigo. Para os três. Todos foram cordiais. Com a mesma condescendência que dedicariam a um velho senil. Responderam aos meus argumentos alegando que não se pode misturar política e religião. Mas quem falou em religião? Estou falando em paz. Em amor ao próximo. Em preservar a espécie humana. Em valores universais, que deveriam nortear a visão dos governantes. Não liguei para eles como um soberano, mas para pedir em nome dos homens. Porque sou apenas um homem do meu tempo, e como qualquer um deles, choro pelas oportunidades desperdiçadas neste mundo e sofro pelo mal que o ser humano pode causar. Mas não me ouviram. Tudo em vão. Tudo em vão. – e murmurando, como se falasse para si mesmo. – Só me restam as orações...

-          Mesmo que venha a acontecer o pior, tenho certeza que Deus será misericordioso com os inocentes.

-          Sim, mas será que não seria ainda mais misericordioso com aqueles que, mesmo tendo o poder de destruir milhões, abrissem mão disso apenas por amor? Não há nada de vergonhoso em reconhecer os erros e voltar atrás. Dizem que é fraqueza política. Mas o que é a fortaleza? Ser impiedoso? Inconseqüente? Eu sei que minhas palavras não têm a força para convencê-los, e que minhas orações não são suficientes para evitar uma tragédia, mas eu acredito tanto nos homens, Giovanni. Tenho tanta confiança na paz na terra...

Com um suspiro, João XXIII deixou de olhar para o céu e voltou os olhos para a praça. Um grupo de rapazes, com suas jaquetas de couro e seus motorini, os cabelos cheios de brilhantina, conversavam em voz alta com duas meninas, as saias inacreditavelmente curtas para o outono romano. Eram tão jovens! Não deveriam estar na escola àquela hora? Mas as risadas deles eram tão puras, inocentes. Não havia rebeldia, revolta. Apenas a leveza de quem tem a vida inteira pela frente e não teme o futuro porque nem mesmo pensa sobre ele. Um grupo de turistas, também barulhentos, lançavam moedas à Fontana. Esperança de voltar um dia a Roma. Um dia, no futuro...

Uma mãe passou empurrando um carrinho de bebê, próximo a eles. Parou para ajeitar a coberta que o vento teimava em levantar. Sussurrou alguma coisa à menininha de quase um ano, que ria. As bochechas vermelhas e os olhos como pequenas contas azuis, que fitaram os olhos do Papa. Os dois sorriram.

Então Angelo olhou novamente para o céu. Não seria hoje. Ainda não. Deus era bom. Deo gratias.

-          Logo vai amanhecer em Cuba... Vamos voltar para nossos compromissos, meu amigo. Não será hoje que veremos o fim da Criação Divina.

-          É o fim do conflito?

Angelo sorriu novamente. Um sorriso triste, mas com a pequena chama da esperança. Que surge como uma flor de longas raízes nos solos áridos, ainda mais resistente do que ervas daninhas em um belo jardim.

-          Não é nem o começo, meu amigo. Nem desse nem de outros. Não enquanto os homens quiserem agir como deuses. Ainda veremos, você mais do que eu, muitas explosões, mortes tolas e tristezas. Podemos apenas continuar a fazer o que fomos instruídos a fazer: orar. E esperar que a sensatez possa prevalecer antes que seja tarde demais. – E enquanto o cardeal o ajudava a levantar e caminhavam para o carro, Angelo sorriu mais uma vez. - Venha me ver novamente esta noite, Montini. Ainda podemos admirar as estrelas.

 

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

 

 

Cris Brum

 

 

Liana Ferreira 

 

 

Cida Sepúlveda

 

 

Marco Antunes

 

 

TOTAL

 

 

Japão

Conto

5

Autor

RAQUEL MELO

Título

PELA HONRA

A sala ampla, porém simples, já estava preparada. No centro, sobre a pequena bandeja de bambu, a chaleira de cerâmica escura recendia o cheiro suave da infusão do melhor matcha (1) cultivado no Império, nas lavoura bem próximas de Kyoto. O ambiente modesto em nada lembrava a ostentação e riqueza dos demais cômodos do imenso Palácio das Flores.  

 A cerimônia do chá deve ser sóbria. Durante o chanoyu (2), nada deve desviar o espírito da reflexão. A introspecção precede a tomada de importantes decisões e, por isso, senhor e servo abandonam o tempo presente em busca do pensamento puro, do supremo saber. Não há nobreza e não há humildade maior do que a verdadeira entrega do ser ao imponderável domínio da verdade.

- Em torno da erva verde, sou um espírito em paz e harmonia, e meu pensamento é a estrada do cosmo, o vestígio sagrado do céu apontando meu caminho.

Sobre o tatame, o homem em posição de lótus refletia profundamente enquanto aguardava a chegada de seu daimyô (3), o grande general, o mais nobre senhor ao qual um samurai pode servir: o Shogun. Ele era um descendente da linhagem dos mais corajosos e leais guerreiros do império e herdara de sua família a honra de servir  o shogun Ashikaga Takuji, o corajoso líder capaz de recuperar as terras invadidas do Japão.

Acabara de chegar de Satsuma (4), para onde fora em missão oficial, a mando do próprio Shogun. O navio europeu trazido pelos violentos ventos do Pacífico, carregava, segundo emissários do imperador, novidades bélicas de grande poder. Deveria averiguar a carga para assegurar que os visitantes eram comerciantes inofensivos, casualmente à deriva nas praias japonesas.

 No contato com os estranhos, teve maus presságios. O desembarque dos portugueses derramara sobre as brancas areias da praia um pó negro e fétido que, conforme pressentia, haveria de sujar para sempre a imaculada tradição de seu povo. Um cinzento crepúsculo invadia o céu da pequena ilha e prometia escurecer definitivamente o horizonte da terra do sol nascente.

 

Os olhos do samurai perderam-se na delicada pintura sobre a esteira de palha de arroz à sua frente. Todo samurai é também um artista, um poeta que aprende a  amar a arte para treinar  mente e mãos no manuseio de suas armas . Além de poeta fora considerado sábio perante o Império e escolhido pelo Shogun. Por isso estava ali, à espera de seu Senhor, para respeitá-lo em sua infinita sabedoria e força e, quando solicitado, para aconselhá-lo com sincera humildade.

O desenho em nanquim  representava com perfeição o dashiô (5), o par de espadas do guerreiro japonês.  Instrumentos de bravura e retidão, virtudes que dão ao samurai o privilégio do poder. Ali estava sua vida, seu passado e, quisera Amaterasu (6), seu futuro: a katana (7) e o Vakiashí (8), os dois sabres cruzados em sinal de equilíbrio. Ali estava a razão da existência de milhares de homens, defensores das terras do oriente, servidores fiéis do novo império. No traço sutil que delineava as espadas, estava escrita a história de seu país.

            Fechou os olhos para encontrar a serenidade necessária ao breve aconselhamento que teria que proferir ao Shogun.  No silêncio escuro de sua mente, pôde ver katanas picando o ar. Guerreiros do Imperador exibiam perícia e habilidade no manejo das armas samurais, enfrentando corajosamente seu bushidô (9) – o caminho do guerreiro, sem jamais demonstrar medo ou covardia diante de qualquer situação. No bailado vigoroso da luta, via o resultado dos anos de preparação rigorosa, corpo e razão dedicados à disciplina do código de honra dos samurais. Homens orgulhosos do peso de suas vestes, carregavam nos ombros o  respeito à história lendária de seus antepassados e a consciência do dever indelegável.

Em sua viagem rumo à profunda verdade, seu pensamento voltava-se para os campos de batalha onde tantas vezes pisara pela unificação de seu país, pela extinção de feudos transformados em sinecuras por traidores da nação.  Podia  sentir novamente o calor da cabeça do inimigo derrotado erguida por suas mãos como um troféu, prova da vitória da justiça e da coragem. Experimentava mais uma vez o cheiro exalado do elmo do guerreiro morto, incensado por ele mesmo antes da guerra, para que o perfume agradasse o eventual vencedor. Morrer pelas mãos de outro samurai significava desfrutar, no último instante, da nobre sensação do desapego à vida.  No Japão pelo qual lutara, os samurais eram guerreiros irmãos em causas opostas, lutando em lados distintos da arena, equivalentes em força e sabedoria, armados com as mesmas virtudes, equilibrados na sua capacidade de matar e igualados na sua gratidão à possibilidade de morrer com honra.

            O coração de um samurai não teme a morte, mas aflige-se com o desânimo.

            Era isso o que sentia agora, aflição. Antevia um país transformado pela chegada de armas capazes de destruir em poucos instantes inúmeras vidas, numa demonstração cabal da insensatez humana.  O futuro de sua nação tornara-se uma ameaça aos valores construídos no passado. Imaginava nas mãos dos bravos samurais as armas estúpidas, mosquetes prontos a cuspir o fogo da imprudência, o fogo que destrói a bravura e reduz o guerreiro a um inábil  qualquer. Previa campos de batalha banhados pelo sangue da vergonha e contaminados pelo odor da injustiça. A quem serviria um Samurai desprovido do espírito marcial? Por que senhor empenharia a lealdade um samurai que já não vê a sua alma refletida na lâmina da katana? Que espécie de ignaros e covardes guerreiros levariam o Império à unificação? Dashiô algum poderia cortar do porvir de seu povo as impurezas que a feia fumaça das armas de fogo espalharia sobre o Japão.

            O coração de um samurai não teme a morte, mas perturba-se diante da dúvida.

            Assim vislumbrava a alma do samurai, perturbada pela incerteza, mergulhada no desconhecimento. O guerreiro que não conhece seu poder e nem o de seu inimigo, perderá todas as batalhas, é o que diz o bushidô. A sabedoria no manejo da katana  jamais poderia ser trocada pelo prodígio da pólvora. O homem que queima vidas com armas de fogo não controla o poder de sua ira e desconhece o poder de sua razão. Perde sua força vital, abandona sua devoção à espada na estrada da inconseqüência,  tornando-se ávido por vitórias fúteis e fáceis. Temia que a nova ordem privilegiasse o imediatismo sobre a ponderação, pervertendo os valores consagrados pela cultura samurai, como o equilíbrio e o autocontrole.  A substituição das armas do guerreiro pela brutalidade do fogo interromperia a história da casta mais tradicional do seu país. A linhagem dos samurais seria corrompida pela ambição desmedida pelo triunfo e, por fim, dizimada pela banalidade da morte em série.

O coração de um samurai não teme a morte, mas envergonha-se da destemperança.   

            Por isso abriu os olhos. Precisava evitar que a paixão de suas previsões o desviassem de sua missão. Contemplou mais uma vez a perfeição do desenho da katana, como se essa visão pudesse resgatá-lo do torpor sombrio que o abraçara durante sua reflexão.  Apesar dos pensamentos, mantivera-se equilibrado e plácido até a chegada do Shogun. Agora deveria relatar ao seu senhor, com verdade e pureza, o que vira e o que pensara.  Diante de si, o Shogun inclinava-se em reverência, concedendo assim a vez ao sábio conselheiro.

Em silêncio, mostrou  o exemplar do mosquete que jazia sobre a palha de arroz. Trouxera-o como presente do comandante português para o Shogun. O general tomou a chávena de cerâmica nas mãos e derramou o matcha quente no singelo ikebana (10), único adorno no austero salão de chá. O caule mais alto do arranjo despencou instantaneamente, esturricado pelo fervor do líquido. Antes que o fiel samurai pudesse pronunciar alguma palavra, o general apontou a planta descaída:

- Vês, sábio Hiroshi? Se essa arma pode fazer isso com as tropas dos generais inimigos, manda buscar quantas forem necessárias para o exército do Imperador. Com elas lutaremos pela unificação do nosso império!

O servo, perplexo, assentiu com todo o corpo, num gesto de humildade e respeito. O Shogun não carecia de conselhos, sua decisão estava tomada. Portanto, a partir daquele momento, não mais era necessário pronunciar-se perante seu senhor.

O vapor agradável do chá ainda perfumava o ambiente. A katana permanecia íntegra, quase vívida sobre a esteira pintada. Tudo parecia restar em harmonia ao término do chanoyu. Apenas a morte do broto mais alto do Ikebana, aquele que representa o futuro segundo a filosofia da arte floral, revelava que o pequeno universo japonês não estava em equilíbrio perfeito.

Esperou o general levantar-se para então ajoelhar-se à sua frente. Aquele era o seu daimyô, a quem devia toda a sua devoção e lealdade. Aquele era o seu senhor, a quem jamais poderia desobedecer. De seu cinturão, sacou o sabre menor.

O coração de um samurai não teme a morte, mas sofre com a tristeza. 

Com o gesto de desapego mais nobre do samurai, fincou sobre o lado esquerdo do abdômen, a pequena lâmina e depois puxou-a para cima, expondo as vísceras em sinal de bravura e honra. Seu bushidô estava concluído.

 

(1)       Matcha: espécie de chá verde em pó

(2)       Chanoyu: é a tradicional arte ou cerimônia do chá japonesa. Consiste em servir e beber o "matcha" espécie de chá verde e amargo, às vezes acompanhado de docinhos e leves refeições. Foi introduzida no Japão através dos monges Zen vindos da China, por volta do século XII. Nessa época o chá era utilizado como um suave estimulante que favorecia o estudo e a prática meditativa, além de possuir valor medicinal.

(3)       Daimyô: Donos dos feudos japoneses, tradicionais senhores dos Samurais.

(4)       Satsuma: Praia no sul do Japão, atual Kagoshima.

(5)       Dashiô: par de espadas carregados pelo Samurai na cintura, um verdadeiro símbolo samurai. Era composto por uma espada pequena (wakizashi), cuja lâmina tinha aproximadamente 40 cm, e uma grande (katana), com lâmina de 60 cm.

(6)       Amaterasu: Deusa da mitologia japonesa, fonte da vida, origem da família imperial.

(7)       Katana: espada mais longa, com lâmina de 80 cm, usada em lutas em locais amplos. A Katana é a arma mais nobre do samurai, é o símbolo do poder e das mais altas virtudes humanas: bravura, lealdade, retidão. Possuir a katana é um privilégio hereditário. A Katana era considerada a alma do guerreiro.

(8)       Wakizashi: espada mais curta do Dashiô

(9)       Bushidô: o caminho do guerreiro, espécie de código de honra não escrito. Segundo esse código, os samurais não poderiam demonstrar medo ou covardia diante de qualquer situação. "Seguir o bushido, é dar ênfase à lealdade, fidelidade, auto sacrifício, justiça, modos refinados, humildade, espírito marcial, honra e, acima de tudo, morrer com dignidade".

(10)     Ikebana: arte japonesa dos arranjos florais. O arranjo floral japonês cria uma harmonia de construção linear, ritmo e cor.

 

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

 

 

Cris Brum

 

 

Liana Ferreira 

 

 

Cida Sepúlveda

 

 

Marco Antunes

 

 

TOTAL

 

 

Bolívia

Conto

6

Autor

RAY CUNHA

Título

MORTE NA BOLÍVIA

Angústia foi o que começara a sentir depois da deserção do cholo Juan. Já vinha sentindo solidão há muito tempo. Os cholos e índios estranhavam aquele cubano - ou argentino - magro, em andrajos, de longos cabelos desgrenhados e barba de mendigo, a pele encardida, embora nada disso reduzira a aura de Ramón, ou Che Guevara, diante dos dezesseis homens. No olhar daquele Dom Quixote rugia um vulcão. O vulcão do delírio. À sombra, sobre uma pedra, Che se lembrava, não sabia por que, do começo de tudo. Simpatizara com o general-presidente guatemalteco Jacobo Arbens, que resolvera enfrentar a United Fruits Co., e a CIA o derrubou. Foi na cidade da Guatemala que começou a ler Marx e Lênin, e a entender que a Ibero-América é o quintal dos Estados Unidos.

            - Ramón, fico pensando sobre quando chegarmos ao poder – disse Pablo, um dos poucos bolivianos do grupo, ciscando com um garrancho e olhando para o comandante. – Conte-nos como foi em Cuba – pediu, pela enésima vez. Che não se furtava a repetir a mesma história; às vezes, em detalhes; outras vezes, ligeiramente.

            - Promovemos uma reforma agrária. Depois, começamos a importar petróleo da União Soviética e expropriamos as refinarias americanas. Então, a CIA invadiu Cuba, mas a derrotamos. A mesma coisa acontecerá aqui. Primeiramente, derrubaremos o governo, por meio de uma guerra de guerrilhas; depois, todos deverão trabalhar pela coletividade. É assim que surgirá a sociedade que derrotará os norte-americanos, não no campo de batalha, propriamente dito, mas porque será desprendida de interesse material. Para isso, a sociedade, em seu conjunto, deverá se converter numa grande escola – disse Che.

            Os homens que o estavam escutando pareciam se esforçar para entender o que Che dizia.

            - E na África? – perguntou um deles, Catito, que parecia sempre mais informado do que os outros.

            “A África” – pensou Che Guevara. A África fora um equívoco. Tentou lutar contra belgas e americanos no Congo, o coração das trevas. Acreditava que o socialismo pudesse ser instalado em qualquer recanto do globo, porém jamais entendeu os africanos. Como não entendia os bolivianos. Que importava! Só importava a revolução internacional. O delírio. O fato é que, em novembro de 1966, Che se instalara em um hotel em La Paz com o codinome Adolfo Mena Gonzáles, economista uruguaio. O chefe do Partido Comunista boliviano, Mário Monje, comprou uma propriedade ao sul, em Ñacahuazú, onde Che e seu grupo se instalaram e de onde Che planejava iniciar uma revolução socialista em toda a América do Sul. Mário Monje exigiu que o comando supremo da guerrilha ficasse com um boliviano. Che disse não. Queria ele mesmo liderar a revolução internacional.

A conversa estava boa, mas haveriam de partir, em direção ao povoado de La Higuera.

- Ramón, ouvi dizer que temos tanto gás quanto já tivemos prata – disse Catito, que não obtivera resposta sobre a África.

Dessa vez Che respondeu.

            - Sim, há gás, e será exportado pelo porto que o Chile tomou da Bolívia – disse. – A prata também era boliviana, e o salitre, o estanho – disse. – A cidade de Potosí já foi mais movimentada do que Nova York; tinha metade da prata do mundo...

            - Depois da tomada de La Paz e da recuperação da saída para o Pacífico, vamos também recuperar o Acre – disse o cubano Alamiro.

            - Sim – Che voltou a falar. - A Bolívia perdeu território para o Chile e para o Brasil – disse. – E o Chaco para o Paraguai – lembrou. – A Bolívia é onde mais há golpes militares e mais se mata índios; tornaram-na apenas uma cordilheira.

            - A prata matou muitos índios – observou Alamiro. – Agora, pelo que soube, a prata está na Europa. Como vamos recuperar a prata, comandante?

            - Primeiramente, temos que levantar o povo – disse Che.

            - Mas o povo, aonde quer que vamos, parece que tem medo de nós – disse Catito.

- Os europeus só deixaram buracos, como se fôssemos tatus. Cago-me no leite da puta mãe dos europeus – Alamiro resmungou.

            Che calara-se. Havana calara-se. Os trotskistas o abandonaram. Regis Debray fora pego. Sentia-se cansado e isolado, após onze meses embrenhado naqueles confins. “O homem é o homem e suas circunstâncias” – gostava de pensar. Precisavam alcançar o rio Grande, a caminho de La Riguera. “A América é uma só, bolivariana; depois que unirmos índios e negros numa revolução que varrerá o continente, da Argentina ao México, cobraremos a prata e o ouro que espanhóis e portugueses levaram do Eldorado. Enriquecemos a Europa, principalmente a Espanha e Portugal, à custa de todo tipo de riqueza extraída do subsolo e do sangue de índios e negros. É preciso resgatar definitivamente o solo ibero-americano dos europeus e dos norte-americanos, como Fidel Castro fez com Cuba” – pensou. “Acho que a Bolívia é o país que melhor resume a Ibero-América.”

O desfiladeiro na Quebrada de Yuro perdia-se entre dois mundos - a Amazônia e os Andes -, invisível ao sol que derretia as pedras, naquela manhã de 9 de outubro de 1967. Che Guevara se sentia cansado, frustrado e doente. A asma, que o atormentara a vida toda, voltara, ocupando o lugar do velho entusiasmo com que lutara ao lado de Fidel Castro. Apenas seu sexto sentido, desenvolvido em Sierra Maestra, se conservava, e atingira precisão irracional. Só não sabia o porquê daquela aflição que o sufocava, o miasma que recendia da população de cadáveres e das casas podres de Potosí, e entrava como injeção de veneno nas veias estouradas da Ibero-América.

 

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Alemanha

Conto

7

Autor

ROBERTO KLOTZ

Título

VALQUÍRIA

Era a noite do dia 19 de julho de 1944. Em Berlim no seu alojamento solitário, o coronel alemão Claus Schenk von Stauffenberg repassava informações e o plano para colocar uma bomba no bunker de Adolph Hitler no dia seguinte.

Von Stauffenberg caminhava nervosamente de um canto ao outro do quarto e revivia a angústia da reunião de dissidentes do alto comando ocorrida há vinte dias. Naquela tarde ficou claro para todos os oficiais que a partir da invasão da Normandia, o dia D, a guerra estava perdida. Seria apenas uma questão de tempo para que a Alemanha fosse arrasada e humilhada. Os aliados, entre si, acertaram, no tratado de Teerã, que só interessava a rendição incondicional da Alemanha nazista. Desta forma não havia nenhuma possibilidade de acordo de paz em separado. Mas, para evitar que a Alemanha fosse invadida e subjugada pelos bárbaros russos seria necessário um pacto com os americanos e ingleses. A solução seria a eliminação do Führer e a neutralização da poderosa  SS. O grupo resolveu se opor justamente ao lema da SS – Schutzstaffel  – “Minha honra é a lealdade”.

Von Staffenberg pega sua caderneta e relê as palavras do General Ludwig Beck "A obediência de um soldado encontra seus limites onde seu conhecimento, sua consciência e sua responsabilidade proíbe-o de obedecer ordens." O coronel alemão sabe que estas palavras, se lidas por alguém da SS significarão a própria morte. Dá um sorriso de leve e questiona qual seria a sua condenação após o atentado. Acha que não precisa se preocupar com anotações e concentra pensamentos na ação.

A decisão está tomada. Amanhã, bem cedo, pego o avião e pouso por volta das dez horas em Rastenburg. O motorista estará me esperando para percorrer os seis quilômetros de poeira até a Toca do Lobo . A reunião do alto comando está prevista para meio-dia.  Às onze e meia faço um lanche rápido junto com meu ajudante de ordens, tenente von Häften, confirmo a horário da reunião, peço licença para trocar a camisa empoeirada com a ajuda de von Häften. Todos sabem que preciso de ajuda desde que perdi meu braço direito e ainda dois dedos da mão esquerda. Von Häften  engatilhará as duas bombas quebrando a cápsula de ácido que dissolve o fio que retém a bomba. A bomba explodirá ente dez vinte minutos depois. Terei apenas cinco minutos para posicionar a valise sob a mesa e sair. Não há como desarmá-las. Estarei na sala de reuniões e von Häften me chamará para atender um telefonema urgente. Sairemos juntos, passaremos pelo alojamento e pegaremos o carro para ir até a pista de Wilhelmsdorf de onde voarei para Berlim para ir ao Ministério da Guerra participar do levante contra o governo. Estará realizada a operação Valquíria .

 

Já se passaram dois anos, quando eu estava com Rommel no norte da África ouvindo as últimas notícias vindo da Alemanha. Eu pouco conhecia o glorioso marechal-de-campo Erwin Rommel, a Raposa do Deserto,

“Hoje a polícia prendeu o judeu Davi Stern que convidou crianças a lamber chocolate numa chapa de ferro congelada. As crianças foram atraídas pelo doce e numa armadilha infernal ficaram grudadas pela língua molhada. Essas três inocentes crianças foram mutiladas gratuitamente por um ser desprezível que gargalhava de prazer ao ouvir os gritos do desespero infantil.”

– Schweinehund! – porco imundo – berrou Rommel desligando o rádio. – Maldito Heydrich! É insuportável esta maldita e mentirosa propaganda anti-semita. Este cachorro safado vive criando falsas histórias para colocar os alemães e o mundo contra os judeus.

Fiquei nervoso e balançei a cabeça negativamente, Rommel em vez de ficar chocado com a crueldade do judeu, xingou o número dois da SS. Rommel, um homem frio e calculista, externou sua opinião para mim, um quase desconhecido, e percebendo meus olhos arregalados resolveu argumentar para fundamentar sua opinião.

– Sabe Claus, eu acreditei e lutei pela nossa Alemanha durante todo este tempo até que descobri que Goebbels, nosso ilustre ministro da propaganda, que vive alardeando grandes vitórias e conquistas é um grande mentiroso. Minhas vitórias no deserto, de acordo com a língua de Goebbels, foram estrondosas, foram épicas! Passei a ser um herói imbatível e um orgulho para a raça ariana, quando na verdade eu dispunha apenas de equipamento melhor, e, modéstia à parte, um pouco de esperteza. Goebbels exaltava os alemães enquanto a verdadeira função de Heydrich, no serviço secreto, era criar boatos para desestabilizar os inimigos e fazer o mundo acreditar que os judeus eram o demônio na face da terra.

– Mas está provado cientificamente, meu comandante, que somos uma raça superior...

– Haha! Os cientistas foram contratados pelo Führer. Você ainda se lembra da Noite dos Cristais?

– Como alguém pode se esquecer daquele inverno de 38?

– Aposto que você ficou chocado quando aquele moleque judeu assassinou com requintes de crueldade nosso diplomata, não é mesmo?

– Eu e toda a Alemanha.

– O judeu nunca existiu. Foi a SS que eliminou um idiota incompetente, botou a culpa no judeu, depois colocou um monte de militares à paisana para empurrar a população incentivada pelo rádio. O resultado foi uma centena de judeus mortos, dúzias de sinagogas queimadas e a depredação do comércio judeu em toda Alemanha. – Rommel exibiu um sorriso irônico e continuou – O vidro quebrado das vitrines serviu apenas para criar um nome poético: Noite dos Cristais. – Das war der Anfang, mein Freund. – este foi o começo, meu amigo.

– Eu estou pasmo, meu marechal. Mas como o senhor me explica aquele discurso do Goebbels no ano passado, lá no Palácio dos Esportes? Goebbels perguntou para o povo se queriam a guerra total e catorze mil vozes animadas disseram sim e depois repetiram que sim.

            – Mentiras! O discurso foi uma encenação gravada para transmissão por rádio e para os cinemas. Depois da derrota em Stalingrado, a intenção era entusiasmar os ouvintes e principalmente recuperar o moral dos soldados nas frentes de batalha, por isso, Goebbels referiu-se ao apoio da platéia presente, com uma centena de vaquinhas amestradas infiltradas – ressaltou – como sendo uma amostra da sociedade em seu todo. Todos ficaram empolgados por conta de uma farsa, de uma mentira. Todos mentem, todos mentem. O discurso foi gravado durante a semana e no estádio só houve encenação, teatro. – Alle lügen –  Todos mentem.

            Naquele fim de tarde meus olhos foram arregaçados para alguma coisa que eu já  enxergava e não ousava crer. Em pouco tempo descobri que havia outros oficiais descontentes com a condução do governo da nossa Alemanha.

Jamais passou pela minha cabeça o assasssinato do Führer. Jamais passou pela minha cabeça que eu seria o assassino do Führer. No mundo ninguém tem noção do que está acontecendo, nem os alemães nem os nossos inimigos. A solução deve vir por aqueles que sabem. Pelos meus filhos e pelo futuro da Alemanha, estamos certos. Farei o que deve ser feito.

 

Já são quase dez horas da noite, toda a Alemanha canta junto com Marlene Dietrich a bela canção Lili Marlene antes do encerramento das transmissões radiofônicas.

Von Stauffenberg abre sua caderneta e com um lápis anota:

Fizemos o exame de consciência diante de Deus e a ação deve se realizar, pois este homem é a encarnação do mal. Queremos uma nova ordem, que faça todos os alemães portadores do Estado e que lhes garanta Direito e Justiça. Se tiver sucesso, serei considerado traidor de minha pátria; se falhar, me considerarei traidor de minha própria consciência.

 

As luzes do quartel são apagadas.

 

________________________________

  O desfecho do atentado

A reunião foi transferida na última hora do bunker para um barraco de madeira. O bunker por ser de concreto armado teria os efeitos da bomba multiplicados.

A reunião também foi antecipada em meia hora assim, o mutilado von Stauffenberg conseguiu ativar apenas um dos dois explosivos previstos.

A bomba colocada sob a mesa, a meio metro de Hitler, foi afastada por um general que ficou incomodado com a presença da maleta.

A explosão matou quatro e feriu outras onze pessoas, mas não foi o suficiente para matar o ditador.

Von Stauffenberg foi preso e executado no dia seguinte.

Hitler ordenou vingança implacável a Himmler, chefe da SS. Consequentemente foram mortos quase 5.000 pessoas.

O herói Rommel foi convidado a se suicidar.

O atentado foi previsto por Nostradamus.

 1- A Schutzstaffel – escudo de proteção –  ou  SS, foi uma organização paramilitar ligada ao partido nazista

 2- Toca do Lobo – Wolfschanze – o QG de Hitler em Rastenburg, na Prússia Oriental.

 3-A Valquíria, é o título da ópera de Richard Wagner - segunda parte da tetralogia “O Anel do Nibelungo”.

 

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Argentina

Conto

8

Autor

WASHINGTON DOURADO

Título

EVITA, O ALÍVIO

Ela está morrendo, todos sabem. O país, consternado, aguarda de luto a triste notícia. Tão jovem, tão brava... e morrendo.

            Não faz escândalos, nada de gritos. Apenas alguns gemidos quando cessa o efeito da morfina..

            Subitamente, por volta das oito da noite, o silêncio dos corredores é rompido por seus gritos. Não são os tênues ais a que os mais próximos se habituaram. A voz surpreendentemente forte chama pelo irmão “Juancito, Juancito! Preciso vê-lo, rápido, tragam Juancito...”

             Uma onda de agitação se espalha pelos corredores da Casa Rosada, partindo dos aposentos presidenciais. Enfermeira e médico tentam entrar, mas recuam a um gesto da primeira-dama.

            Juancito é localizado e se aproxima quase correndo. Atira-se de joelhos aos pés da cama da irmã. Da amada irmã, companheira de luta desde a mais absoluta pobreza e que fizera dele tudo o que é. É o único da família a acompanhá-la sempre, seu fiel confidente.

            O aposento irrepreensivelmente arrumado, de uma brancura celestial. Reina o silêncio  entrecortado apenas pelos estridores do peito cansado. Está muito fraca. Não lhe chegam aos ouvidos os clamores da multidão na praça de maio.

            Apesar da longa agonia, houve boatos nas últimas horas e milhares de “descamisados” deixaram suas casas para prestar solidariedade à mãe de todos eles.

            Os últimos movimentos não foram percebidos pela multidão lá fora,  por enquanto, só boatos.

            O presidente não está em palácio, mas não tardará a chegar.

            Alheia a tudo isto, mas consciente da comoção nacional que seu estado provoca, Evita ainda consegue esboçar um sorriso. Os lábios pálidos, na face murcha, sob as profundas olheiras. Em contraste, no fundo das órbitas brilham dois sóis que dissiparam as nuvens que havia meses os embaçavam.

            Ante o olhar incrédulo do irmão, ela antecipa a resposta. A voz sussurrada, entrecortada pelo arfar.

            “Já posso partir, está ouvindo? Sinto agora um grande alívio. Recebi a visita de um anjo”.

            O irmão chorava segurando suas mãos. Às vezes ela delirava, mas nunca lhe negaria sua total atenção. Cada palavra poderia ser a última, cada olhar, cada gesto... Não, não! jamais admitiria  este pensamento, que lutava para afastar, mas que voltava cada vez mais imperioso a cada dia, a cada visita.

            “Você não viu o anjo, Juancito? Acabou da sair pelo corredor. Estava em forma de enfermeira, mas eu sei que era um anjo. Sei sim! Assim que me olhou com seus grandes olhos luminosos, toda a verdade me foi revelada. Percebi que conhecia minhas mais íntimas inquietações e veio me assegurar de que minha vida não foi em vão. Nada foi em vão, Juancito. Estavam vendo tudo! Sabiam de tudo, de cada intenção, cada sentimento! Estou tão feliz! Tão aliviada..”

            A emoção deu a esta fala uma expressividade que o irmão julgava já impossível.

            “Minha luta, nossa luta pelos pobres não será esquecida tão cedo. Não será, não, agora eu sei, Juancito,  E é tão bom saber...A nação, eu vi, feliz e unida. O povo vai vencer. O povo sofre, mas vence.”

            Calado, trêmulo, inclinado, ele  acariciava-lhe os cabelos.

            “Minha existência fez diferença. Apesar do começo, agora posso confessar, ter sido uma mera barganha. Benefícios em troca de votos. O voto para as mulheres, a assistência para os trabalhadores... Sim, no início era o poder, o dinheiro, o luxo...Eu ainda não tinha entendido minha missão.  Não tive culpa...  era muito jovem, não era? Jovem e sonhadora, reconheço. Queria tudo, queria o mundo e consegui...meu general, ele me deu a vida... mas não o decepcionei... você viu, foi uma boa luta, uma grande causa. Não precisava ter trabalhado tanto, mas aquilo passou a fazer parte de mim, me dominou... a causa dos pobres,  dos nossos irmãos.

            Você sabe, há menos de sete anos éramos dois deles. Menos de sete! Isto não se esquece nunca...nunca, Juancito querido.

            Fez uma pausa, ofegando.

            “Calma, descanse...não se exalte, minha querida...descanse, estou aqui”.

            “Mas você não está entendendo! Como posso não me exaltar? Um anjo esteve aqui! Ela entrou neste quarto e ficou de pé aí mesmo onde você está agora, sorriu com tanta bondade que senti uma paz infinita  me invadir, me olhou bem nos olhos, pousou a mão em minha testa  e disse com uma voz tão doce que não poderia mesmo ser deste mundo: Estou feliz que tenha melhorado.”

            Juancito, pare de chorar, estou feliz. Chame o padre.”

 

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África do Sul

Conto

9

Autor

HUMBERTO  SANTOS AZEVEDO

Título

QUANDO UM GESTO DE JESUS E GHANDI OCORREU NOVAMENTE

 

            Uma madrugada calorenta agitava o centro da cidade. Pessoas e mais pessoas iam se aglomerando dos centros públicos. A maioria negra, até então muito reprimida, se vestiu de branco, vermelho e preto, para ir às ruas, com bandeiras e bandeirolas de Cuba, de Che, de Marx, e outros símbolos pátrios ou universais. Os brancos envolvidos com a causa da maioria já não tinham mais medo de dar os braços aos seus irmãos de cor. Todos unidos pelo fim àquilo que pior a humanidade realizou. O exército e as forças policiais do regime de exceção pós-escravocrata assistiam a aglomeração nas ruas sem saber o que fazer. Os donos do poder também já não sabiam o que fazer.

            De repente o que era tudo uma pasmaceira foi dando lugar à alegria, aos cantos de paz e a uma doçura na luta e na agitação. As pessoas foram saindo de suas casas já sem medo e com o único objetivo de transformar aquele país. Uma marcha silenciosa ia tomando conta do poder.

            O mundo dos sonhos assistia a tudo com uma ansiedade frenética. Por aqueles dias, os que entendiam que seres iguais não eram para serem tratados de maneira igual, iriam cair. Poderia não ser logo ali, mas, o renascimento das forças populares tenderia a decepar qualquer tentativa de sobrevida.

            Os barulhos vindo das ruas, a agitação, os foguetórios – tudo – era imediatamente compreendido por um dos maiores cidadãos daquele país, que já detido por quase trinta anos, entendia que ali e agora surgia a ressurreição. Um a um foi chamando os companheiros de idéias, que assim como ele, também se encontravam detidos por longas datas.

            Ordenou cada companheiro prisional a ir para o centro do pátio e de lá não arredar o pé fosse a qualquer custo. Aproveitavam o momento em que as celas estavam abertas e juntos abriram caminhos para a liberdade. As autoridades não acreditando naquela cena mandaram logo soldados fazerem uma barreira em torno dos detentos. Quando o pátio já estava cheio, veio ele, sozinho, passando pelos soldados, que mesmo se não quisessem, concediam um corredor para passagem.

            Um autocrata qualquer deu a ordem para removê-los dali. A ordem não era obedecida. Não que os soldados não queriam obedecer, mas não podiam. Uma força para mais de superior, sabe-se lá de onde, impedia-os.

 

            A algazarra de felicidade nas ruas parecia comandar aquela rebelião de lá de dentro. E de lá de dentro foi ouvida a voz do representante-mor daquele regime opressor: Libertem Mandela, libertem-no! Apesar de todo o clímax de pura adrenalina e agitação, ele, parecendo pisar em água, serenamente, era abraçado, aplaudido, cortejado, amado, arrastado, levado, comemorado, jubilado, pela vitória da cidadania.

            Os tristes capítulos daquela história se encerravam ali. Uma nova história começava. Àquele país, a África do Sul, ressurgia das cinzas, para dar ao povo, o seu bem maior, as conquistas que ainda virão.

 

 

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Jerusalém

Conto

10

Autor

SORAIA MARIA SILVA

Título

SANGUE E ÁGUA

“Todo escriba que se tornou discípulo do reino dos céus é semelhante a um dono de casa que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas” (Mateus 13:52)

 

 

Gruuuu, gruuuu, gruuuuu eram pombas farfalhando nas janelas do cenáculo, o frio da noite se espalhava pelo ambiente esfumaçado do poente ainda retido nas paredes quentes do elevado. Estávamos sentados, levantei-me em direção aos pombos, seus pequenos olhos me intrigavam. Minha mãe Ana ensinou-me desses pequeninos olhos, também os meus olhos seriam fixos e não se desviariam do Deus que se processara em meu corpo. Nada sentia, apenas caminhava em direção ao véu rasgado das janelas que flutuavam ao frescor da brisa, do oriente anunciada. Elas sempre estiveram à minha volta, cercando-me como crianças insistentes de carinho, de um grunhir: Segue-Me, Segue-Me, Segue-Me, Segue-Me, Segue-Me, Segue-Me, Segue-Me, Segue-Me. Elas sempre falaram por mim. Quem és? Que dizes a respeito de ti mesmo? Pareciam perguntar-me esses pequeninos seres a minha volta, insistentes nas migalhas do pão sobejadas de alguma frugal ceia. João o discípulo amado, agora meu filho, as alimentava e nesse serviço seus olhos  eram abertos e tudo também se lhe era revelado. Eis que a casa de João agora também era a minha. Meu filho amado mo dera como filho dois dias antes. Olhei no horizonte o sol poente em réstias de luzes coloridas, soluços de um dia agonizante na vastidão infinita da noite. Mais uma vez contemplo a perfeição celeste. Tudo agora me era claro, a translucidez dos meus pensamentos penetrava o sentido de todas as coisas e os meus olhos percebiam a verdade. Àquela hora os últimos acontecimentos vieram como o derradeiro enigma solucionado, à luz do que é perfeito mais uma vez turvou-se o meu ser. Estranhamente em mim falava o filho, que era o Pai, sua voz saía pelo meu ventre em sonoros raios de Sol nascente. A minha carne novamente sentiu a imensa onda de restauração entre a terra e o céu, ecoavam em mim as palavras de Simeão: “Eis que este menino é posto para a queda e para levantamento de muitos, e para sinal de contradição (também uma espada traspassará a tua própria alma), para que se revelem os pensamentos de muitos corações.” O meu coração estava em meu filho amado, na lembrança de todo o seu desígnio, seu pequenino corpo quente e frágil em meu colo, sua fome e sua sede saciados pelos meus seios. Tal completude imensa senti nesse exercício, no qual anéis de luzes coloridas preenchiam o meu ser em aliança perpétua com Deus. Em remissão a minha carne extasiava-se no doce encargo de ser a mãe do seu Filho amado, entre todas a escolhida para gerar o grande poema da pura graça divina, curada na plenitude dos desígnios elevados, serva de seus desejos e vontades. Tudo foi manifesto à Luz que do meu ventre ergueu-se nas trevas do mundo. Aquele crucificado por essas mesmas trevas ensinou-nos a temer não os que matam o corpo e depois disso nada mais podem fazer, e sim aquele que depois de matar tem autoridade para lançar na Greena. A Esse reclino o meu ser em completa submissão, rendida na imperfeição da minha presença e santificada como mãe, irmã e filha de sua carne transfigurada em meu ventre. Amadas asas as quais me preencheram da mais bendita glória reclinando para mim novamente a sua imensa misericórdia cobre o meu coração de consolo e Paz! Tudo era silêncio, esmaecidas todas as cores da antiga aliança marcada no céu, era noite. Esses mesmos olhos fixos das pombas me impediam de olhar João, estávamos todos sob a devastação dos últimos acontecimentos. O Nazareno varão Profeta, gerado em meu ventre pela vontade suprema do Todo, poderoso em obras e palavras diante do Supremo e do povo, foi entregue à sentença de morte pelos nossos principais sacerdotes e chefes. Já do meu ventre, outrora preenchido de glória vinham espasmos do silêncio divino pairado no ar entristecido da noite a sussurrar: Insensatos e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! E ardia o coração dentro de nós quando Ele nos falava, quando nos abria as Escrituras, a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos... Os outros 10 iam chegando um a um, os fiéis na esperança do verdadeiro Rei, atendendo ao chamado, vindos da alma imersa na tenebrosa dor, da separação física do nosso amado. Aquele lugar resgatava-nos o espírito e havia ali o prenúncio, a promessa do grande selo, o peixe estava sendo assado. Tudo era justo e correto, no meu espírito já não pairavam sentimentos e dúvidas. Em todo o meu destino transformada a morte em vida, o amor mais puro e infinito no meu ventre gerado de estranhas e ardentes entranhas, o Ser mais belo e perfeito tornado a grande ferida do universo da qual jorra em abundância o precioso líquido purificador, a essência da mais pura Vida. Apesar de tudo sentia a tristeza inundar os meus olhos ao contemplar os destinos dos homens aos quais deu-se a vida do Filho, as dores e o grande sofrimento por Ele sofrido, o sangue derramado e escrito como redenção e libertação dos aflitos. Também senti a imensa misericórdia do Pai para com as suas humanas criaturas, o qual da prisão da farsa liberdade, do arbítrio de ilusões perpétuas nos abriu um novo e vivo caminho, a espera da derradeira conversão dos corações para os mistérios revelados da natureza e destinos humanos. Ali, novamente gerando, preparando o ambiente daquele que vem o meu ser se dilatava na fé, na esperança e no Amor do meu Criador.  Não havia mais mistérios. A lentidão e a vastidão da noite profunda trouxeram-me a lembrança das bodas em Caná da Galiléia, quando já não havia mais vinho. Olhei João a derradeira vez, seus olhos de pomba ainda fitavam o sangue e a água que do lado de Jesus saiu quando lhe furou o soldado com uma lança, estando ele já morto, era pois esse o seu destino levar a todos os chamados a olharem Aquele a quem traspassaram. E todos os 11 estavam ali, graves e calados, como as talhas de pedra à espera do seu precioso e redentor conteúdo, tudo estava pronto, a mesa estava posta e o terceiro dia se anunciava. Então lhes disse: “Fazei o que Ele vos disser” e saí celebrando em meu espírito a alegria da pequenina pomba a quem eu acompanhava.                                        

 

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Itália

Conto

11

Autor

ARTUR ADOLFO COTIAS E SILVA

Título

FIAT SICUT TIBI PLACUERIT

Aconteceu no princípio do século XIII, nas encostas do Monte Subásio, e não fosse por minha presença casual, ninguém hoje lhes poderia narrar o importante relato histórico ali ocorrido. Meu nome? Não importa. Importa o do jovem que me acompanha. Seu nome de batismo é Pietro Cattani; para nós, Pedro. Estamos os dois no alto de uma colina recoberta de oliveiras e ciprestes, e o jovem a meu lado está a refletir acerca da missão que lhe fora confiada, e que, posso perceber pela atenção a que dedica o olhar, está relacionada a algo que se passa lá embaixo, onde algumas poucas pessoas se encontram em volta de uma velha construção de pedra.

Eu sou um forasteiro, mas Pedro conhece bem a região, marcada pela presença de muitos e imponentes castelos, que se espalham por verdes e pedregosas colinas que muito antes haviam sido denominadas “as montanhas do demônio”, em alusão a um tempo em que eram ali executados os condenados à pena de morte. O jovem Cattani nasceu entre aquelas montanhas, na Úmbria, porção central da Itália, na cidade de Assis, no final do século XII. Atualmente é cônego da Catedral de São Rufino, função que importa em inúmeras obrigações religiosas, mas não necessariamente a sacerdotal, isto é, aquela encarregada da celebração de missas. Eu mesmo nunca o vi celebrando uma.

Como todo mundo em Assis, Pedro ouviu as histórias sobre o jovem de posses que nascera Giovanni di Pietro di Bernardone, mas que tivera o nome alterado para Francesco pelo pai, o abastado comerciante de tecidos Pietro di Bernardone. O velho mercador costumava ir com freqüência à França, não só à região de Flandres, para trazer os finos e caros tecidos que os nobres dos castelos adquiriam com volúpia, mas também a Paris, naquela época uma rica cidade de belas igrejas, onde se respirava um ar muito puro, sob um céu vasto e sereno. Cortada por um rio sinuoso, fora de suas muralhas havia muitos prados e verdes colinas. Bernardone morava com sua família em Assis, mas a França era-lhe muito cara. Dava-lhe boa parte do sustento e da riqueza, dera-lhe a esposa, e daria nome a seu pequeno francês, o jovem Francesco, que na minha língua lusitana denominamos Francisco.

Noto pelo relato que o cônego Pedro conhecia todas as histórias de Francisco. Ambos eram quase da mesma idade. Acompanhara a vida boêmia do jovem rico, sua juventude de festas nas quais esbanjava dinheiro, era popular, divertia-se. Excessos naturais aos jovens ricos de então, revela-me sem constrangimento. Mais tarde, toda a Assis acompanharia a frustrada tentativa do jovem que quis se tornar cavaleiro e, em busca de glória e honras, aos vinte anos de idade foi para a guerra combater por Assis contra a vizinha Perúsia. Pequeno e frágil, no entanto, foi preso e mantido um ano naquela cidade, onde caiu doente. Toda a cidade soube desses acontecimentos.

A conversa flui e Pedro narra-me outros episódios da vida de Francisco: a visão do castelo, em Espoleto, na frustrada tentativa de ir novamente à guerra, desta feita na Apúlia; o caso do encontro com o leproso, quando Francisco beijara as mãos e o rosto do “irmão cristão”; e o caso do crucifixo, ocorrido logo após o encontro com o leproso, quando Francisco, em oração, escutou falar a si o crucifixo na igreja de São Damião, que lhe dissera para reformar a sua casa, pois estava em ruínas. Agora, no seu retorno a Assis, conta-me Pedro que Francisco estava ficando estranho, afastando-se dos amigos, orava e chorava solitário.

“Estará louco?” Penso em responder algo, mas me calo.

Diante de meu silêncio, prossegue Pedro Cattani com a narrativa e me revela a razão de estar ali naquela colina. Primeiro pôs-me a par dos detalhes acerca da renúncia de Francisco diante de Dom Guido, bispo de Assis, à herança paterna, quando se despojara das próprias vestes, tendo ficado completamente nu em plena praça pública, como símbolo do despojamento a toda a riqueza do pai. Conta que o episódio fora ponto de partida para sua experiência como eremita. Que a partir dali vestira um hábito simples, fora prestar serviços aos leprosos e agora estava a reconstruir a igreja de São Damião, com as próprias mãos, esmolando pedras aos habitantes de Assis. A acompanhá-lo, como vemos lá embaixo, apenas alguns pobres trabalhadores e pequenos artesãos. Mendigos e leprosos ajudavam também, no que lhes era possível. Por essas atitudes, era considerado realmente “o louco de Assis”. Toda a cidade zombava dele. Para todos, o filho de Bernardone havia perdido completamente o juízo.

“Um louco, sem dúvida”. Não percebo convicção na afirmativa.

Perdido em meus pensamentos, quase não lhes conto que Pedro Cattani estava ali a contemplar Francisco justamente porque fora designado por Dom Guido para acompanhar a loucura do jovem filho de Pietro di Bernardone. Fora escolhido porque, apesar da pouca idade e de ser relativamente noviço na hierarquia da diocese, era um jovem de cultura esmerada. Com seu preparo, seus estudos, dissera-lhe o bispo, certamente saberia acompanhar adequadamente a situação. E agora, depois de me haver narrado tudo, está pensativo porque reflete justamente sobre o que o bispo declarara ser “seu preparo, seus estudos”.

Para entender o que ia pela cabeça de Pedro Cattani, é preciso lembrar que aqueles eram tempos novos, tempos de mudança, em que o poder migrava lentamente das forças dos guerreiros para as fraquezas dos sábios letrados. O estudo do direito, da filosofia, da astronomia, e tantas outras ciências ia tomando corpo, adquirindo importância. Os filhos de famílias mais abastadas iam fazer seus studia em Bolonha ― cidade culta que possuía a mais antiga universidade da Europa, terceira do mundo, inaugurada em 1088 ― ou em Paris, que desde 1170 tinha também a sua universidade.

Pedro Cattani não era filho de gente abastada de Assis, mas estudara na Universidade de Bolonha. Naquele Studium, ensinava-se principalmente o direito, curso que freqüentou, e havia mais independência dos mestres em relação à potestade da Igreja, do Papa. Sobre a Universidade de Paris, onde os mestres ensinavam na escola catedral e dependiam do bispo, pesava ainda forte influência da Igreja. Ali estudavam-se os poetas, estudava-se retórica. 

Em Bolonha, Pedro conta-me que estudara o direito e as leis canônicas, mas estudara também a geografia e a história medievais, não só nos clássicos importantes, como Ptolomeu, mas também em obras dos cristãos, como Isidoro de Sevilha, além das obras ditas “leigas”, de Júlio de Solino (Collectanea rerum memorabilium) e de Plínio (História Natural). Para os padrões da época, vê-se que Pedro Cattani era um homem de rara cultura. Apesar disso, diante da simplicidade do quadro apresentado naquela manhã, perguntava-se (e também a mim!) como os doutores da Alma Mater Studiorum de Bolonha poderiam ajudá-lo naquela missão.

Pareceu-me que seu maior dilema assentava-se na dúvida que lançava sobre a própria Instituição a que servia. A quarta cruzada, com o seu brutal e despropositado saque à cidade de Constantinopla, no ano de 1204, pusera toda a Igreja Católica em xeque. O cisma, que selaria para sempre a inimizade fundamental entre Ocidente e Oriente, repercutia fortemente na Europa, especialmente entre os jovens e esclarecidos religiosos, como ele. Que religião é essa, que só visa domínio e poder, e que em nome dessas duas bandeiras saqueia e mata? “Quem é o louco, afinal, Francisco ou eles?”

Da própria estrutura monástica há tempos desconfiava o jovem estudioso, eis que os monges de então estavam mais preocupados em conservar os grandes feudos do que propriamente viver o Evangelho. Aos poucos, pude perceber que Pedro Cattani foi se dando conta do significado da reconstrução a que Francisco fora convocado, que transbordava dos limites daquela igreja de pedra, ou de todas as igrejas de Assis, e tinha em mira a reconstrução da própria Igreja Católica, quem sabe até de toda a decadente sociedade medieval. Parecia óbvia agora tal constatação, pois quando recebera a mensagem do crucifixo, todo o mundo medieval conhecido era só divisão e desigualdade. A ruína a ser reparada era o todo. São Damião era apenas o primeiro sinal visível da mudança que viria.

A compartilhar das reflexões do jovem Cattani, pude perceber que lhe ocorria naquele momento o que muitos anos mais tarde viria a ser expresso pelos escribas e artesãos da palavra, que desde o advento do cristianismo, aquele comportamento de Francisco ― que geraria um novo movimento denominado franciscanismo ― seria a obra mais popular de que se tinha notícia na história da Igreja. O franciscanismo nascia, então, com uma visão de modernidade, e modernizaria toda a Europa e a própria relação entre o divino e o terreno, o leigo e o sagrado.

Como um relâmpago em noite escura, pensei ter visto um lampejo cortar a mente do jovem Cattani, e ele pareceu acreditar que o próprio Dom Guido também assim enxergara a situação de Francisco, e enviara seu jovem cônego não para dissuadir o “louco”, ou para acompanhar sua loucura, mas para que Cattani o protegesse e o auxiliasse em sua missão (“com seu preparo, seus estudos”). Pela segunda vez, o bispo de Assis cobria com seu manto a nudez de Francisco.

Pedro Cattani despediu-se de mim com um aceno apressado e desceu a colina, seguindo por uma estreita estradinha que ia em direção a Francisco. De longe, Francisco interrompeu o trabalho e passou a observar a aproximação do visitante. Pela distância que ainda os separava, posso jurar que não enxergavam os rostos um do outro, mas a luminosidade que deles emanava revelava que seus corações haviam se encontrado.

A conversão completa de Francisco ainda duraria cerca de três anos, mesmo tempo despendido na reconstrução das três igrejas: São Damião, São Pedro della Spina e Santa Maria dos Anjos, também chamada de Porciúncula. A aceitação de Frei Pedro Cattani também ainda levaria algum tempo. Seria ele o segundo homem dos ditos “letrados” a abraçar a pobreza e se dedicar ao movimento franciscano (juntamente com Bernardo de Quintavalle, homem rico, de muitas posses, que doou tudo aos pobres de Assis), tendo chegado a ser conselheiro legal e ministro de Francisco.

Somente com a união desses três primeiros cavaleiros teria início efetivo a ordem franciscana, mas desde que desceu aquela colina, em direção a Francisco, naquele que parecia ser o seu caminho de Damasco, o jovem Pedro Cattani mudaria para sempre a história de Assis e do mundo, e já levava na mente uma frase, uma expressão que simbolizaria o ideal de ilimitada fidelidade franciscana que iria encarnar, e com a qual, por toda a vida se dirigiria ao mestre e santo: “Fiat sicut tibi placuerit”, ou “Faze como te agradar”.

 

 

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

 

 

Cris Brum

 

 

Liana Ferreira 

 

 

Cida Sepúlveda

 

 

Marco Antunes

 

 

TOTAL

 

 

Brasil - Zumbi

Conto

12

Autor

MONIQUE BRITTO KNOX

Título

PALMAS A ZUMBI DOS PALMARES

- Excelentíssimo, governador. Trago-lhe aqui, vitoriosos que somos, o marco de vitória, o troféu de conquista de nossa coroa portuguesa.

Com essa frase, capitão Rodrigo adentrou na sala principal do Palácio do Governador Mello e Castro em Recife, conduzindo em uma bandeja, a cabeça de Zumbi dos Palmares  e permanecendo parado  no meio da sala, aguardou algum pronunciamento do governador.

O governador levantou de sua cadeira e dando três passadas largas em direção ao capitão, deteve-se observando as feições daquele que se julgava o imortal dos negros, o negro guerreiro.Cabelo encaracolado, nariz de feições achatadas, olhos pretos. Sua boca carnuda entreaberta em torno de 2 dedos, mostrava seu pênis já enegrecido, carne á mostra, impotente e inoperante frente ás circunstâncias da morte.

-          Ah!aqui está o negro chamado Zumbi dos Palmares.Quer dizer, aqui estão os restos de um negro que era tido como o líder de todos os quilombolos...Quando e como o pegaram? indagou o Governador Mello e Castro .

-          Bom, o senhor bem sabe que nada é impossível para nossa astúcia de homem branco. Me disseram que a única pessoa que sabia aonde Zumbi estava escondido depois da  invasão e destruição dos Quilombos dos Palmares em 1695  era Antonio Soares, dito como seu amigo meio irmão. Por uma razoável quantia de dinheiro, ele me orientou como chegar ao reduto de Zumbi e assim o fizemos, armando uma invasão de madrugada em um local situado na Serra Dois Irmaõs . Devo lhe confessar , senhor governador que o cabra teve força de leão. Foi necessário mais de 10 guerreiros para dominá-lo, tamanha sua resistência e força!

-          Muito bem, capitão. Terás a recompensa prometida! Respondeu-lhe o governador

-          E agora, Excelentíssimo, o que faço com isso? Perguntou o capitão.

-          - Deixe-o ali na mesa. O capitão estranhou a ordenança.. Mas, senhor governador não é melhor eu levar para fora essa coisa?

-          - Não, já lhe disse! Pensarei no que fazer!pode sair!

 O governador Mello e Castro sentou em sua poltrona e falando consigo mesmo, murmurou:

-          Palmares , a terra da promissão...Ah! agora não passa de uma paliçada sem ocupação.. Como negros ditos em torno de 20.000 indivíduos teriam ocupado e fundado o Quilombo dos Palmares na Serra da Barriga, na capitania da Bahia em 1600? Como Zumbi, nascido em 1655, teria conseguido se instruir em Portugûes e latim só porque fora entregue à uma missionário português? Como teria se tornado um estrategista militar quando  chegou aos vinte anos de idade?Quando tantos com experiência similar permaneciam livres, convivendo  reservadamente no mundo dos brancos? Porque teria retornado ao seu local de origem depois de quinze anos?

Rememorando os fatos começou a sentir um cheiro de carne em putrefação, mas continuou em suas divagações...!

- Porque não se submetestes às minhas propostas, Zumbi? Perguntou em voz alta á figura bizarra em sua frente. Não, não poderia subestimar a vida daquele homem. Era negro, ainda que livre, pobre e devia ser submetido aos desígnios do poder da coroa portuguesa. E no entanto, no seu íntimo, Melo e Castro sabia que Zumbi não se submetera. Mesmo depois do oferecimento de liberdade em 1678, do oferecimento de liberdade aos escravos fugidos, quando Ganzá Zumba aquiesceu á proposta de paz, Zumbi rejeitou a proposta, que beneficiava alguns escravos, desafiando a própria liderança e tornando-se o novo líder do Quilombo dos Palmares.

-          Porque ordenara sua morte?Todos têm um preço...Lembrou-se do paulista bandeirante Jorge Velho, homem astucioso na luta de aliciar índios que foi chamado para dar fim  aos quilombos dos Palmares, tendo como recompensa maior a distribuição e a ocupação daquelas terras.

Quando assim pensava, uma rajada de vento adentrou pelas janelas altas do Palácio e um arrepio lhe invadiu a alma. Sentiu um profundo mal estar e aí percebeu tudo...

 E clareou sua percepção de que Zumbi será no passar dos séculos o sonho de liberdade, o término da subjugação, a voz que permitia a expressão dos oprimidos; o mito negro, um herói simples, pobre mas que se utilizava com bastante inteligência das estratégias do branco, europeus, portugueses, dominantes e detentores do poder. E mais: seu nome iria perdurar por séculos a fio, como a lenda da imortalidade da alma, onde Zumbi sempre estará vivo, em todas as gerações e raças, cultivado como a força da resistência aos povos dominantes. Ele mesmo, Governador Melo e Castro seria lembrado sim, como aquele que derrotou a força, a corrente dos negros, dilacerando todo e qualquer vestígio de resistência `a escravidão. Mas Zumbi dos Palmares, nunca mais seria olvidado. Nem pelos pobres,miseráveis, nem também  pelos ricos, poderosos e abastados.

Ante o desconforto de suas percepções e o sentimento de indignidade que o apossou, levantou-se e, chamando seu empregado ordenou que retirasse aquela peça de sua sala e que a mesma fosse exposta em praça pública, alçada em um poste bem alto,  para que os negros pudessem perceber que Zumbi sucumbira para sempre.

 

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

 

 

Cris Brum

 

 

Liana Ferreira 

 

 

Cida Sepúlveda

 

 

Marco Antunes

 

 

TOTAL

 

 

Depois do Fim

Conto

13

Autor

LACY MESQUITA

Título

CÉU AMARELO