OS CONTOS DO 2º DESAFIO

 

ESTÃO LIBERADOS PARA LEITURA, NESTA PÁGINA, TODOS OS CONTOS ENTREGUES DO SEGUNDO DESAFIO.

EM TODAS AS ETAPAS, A ENTREGA DOS CONTOS SERÁ ENCERRADA SEMPRE NA DATA PREVISTA NOS SEGUINTES HORÁRIOS:

1-CONTO ENTREGUE EM CD OU DISQUETE: ATÉ 18 HORAS DA DATA LIMITE

2-CONTO ENTREGUE POR E-MAIL: ATÉ 21 HORAS DA DATA LIMITE.

 

Comentário sobre o julgamento:

Os jurados foram convidados a apreciar e julgar os trabalhos e solicitados a não comentarem entre si os trabalhos recebidos a fim de que se refletissem na avaliação a diversidade de observação e a fruição pessoal da obra. A liberdade é ampla! Não havia nenhuma regra pré-estabelecida além dos limites (entre 6 e 10)  das notas a serem atribuídas, mas foi bastante generalizado o procedimento de pontuar menos (ou não pontuar) obras que não atendessem ao tema do desafio. O principal objetivo do presente desafio é oferecer aos participantes e aos que acompanham o certame um feedback dos trabalhos apresentados. Aos participantes, cabe procurar entender o que emocionou o jurado ou, simplesmente, que recursos funcionaram melhor para cada jurado e tentar, nesta 2ª etapa, manter as notas, quando esta foram positivas, ou melhorá-las quando ficaram abaixo do esperado. Apenas 18 passarão para o 3º desafio!

NESTE DESAFIO, EM RAZÃO DE UMA CIRURGIA A QUE LORENZA COSTA TERÁ QUE SE SUBMETER, INFORMAMOS QUE A ESCRITORA PAULISTA CIDA SEPÚLVEDA, EDITORA DA REVISTA VAGALUME E QUE VIRÁ LANÇAR SEU MAIS RECENTE LIVRO “CORAÇÃO MARGINAL” EM NOSSO PRÓXIMO SARAU, IRÁ REALIZAR O JULGAMENTO EM LUGAR DE NOSSA ESTIMADA AMIGA, PARA QUEM DESEJAMOS RÁPIDA RECUPERAÇÃO!

Marco Antunes

 

 

INÍCIO DO SEGUNDO DESAFIO!

 

Conto 1

Autor:

Vera Mota

Título

Ninguém vai reparar

As duas quarentonas se conheceram no cursinho preparatório para o concurso do Senado. Imagine um ano inteirinho fazendo provas. Aquele processo seletivo era um verdadeiro estágio... discentilizante (que torna a pessoa eternamente estudante). E os resultados?

A cada etapa, a cada edital, a amizade só aumentava.

            — Vamos entrar com recurso!

            — Pra quê?

            — A questão está mal formulada.

            — Nós vamos conseguir passar, estamos no....

— E você vai deixar por isso mesmo? A resposta está “meio errada”.

Amizade é uma relação preciosa. Em seu nome, somos capazes de muitas aventuras. 

 

Trabalharam juntas na mesma área da Consultoria durante anos, até que uma delas recebeu um apelo vindo de um outro Poder... Vale a pena deixar aquele salário? Que cargo era esse tão tentador?

Ela migrou para o Executivo, sim, senhorita, com toda a bagagem:

            — Precisamos pôr a conversa em dia! Tenho um encontro beneficente e você é minha convidada. Vamos passar a manhã na festa. Começa às 9h, com um café da manhã, às margens do Lago Paranoá; às 10h30 teremos um desfile de modas e às 12h, um almoço com letras. Ah! Venha de chapéu, será tudo ao ar livre e o pessoal é “meio sofisticado”.

            Amizade é uma relação preciosa. Em seu nome, somos capazes de muitas aventuras.

“A do Legislativo” desceu do carro e visualizou o ambiente festivo, ao ar livre... umas cem pessoas, dos mais variados estilos... Essa estória de “chapéu” é como festa à fantasia... A sorte é que pelo menos ‘‘a do Executivo’’ — a melhor amiga e única conhecida naquele evento — também estava a rigor para aquele dia ensolarado. Lembra das “irmãs cajazeiras”? A terceira chegou em seguida: além do laço, havia flores coroando a aba, transparente em organza. Aquele era importado, com toda certeza.

            Na beira do lago, água friíssima, em pleno outono... E se esse negócio sair voando? Tudo bem! Ninguém vai reparar, imagina... Basta fazer uma cara de surpresa e ir buscá-lo, se alguém não tomar a iniciativa... E se ele sumir, rodopiando no meio do lago...

— Eu ferrada! Meu Deus, este chapéu é alugado.

A mesa do café não tinha defeito. Pãezinhos recheados, tortas... Chocolate quente com licor é irresistível! O vento não passou! E as ameaças de decolagem se tornavam cada vez mais freqüentes. Dá pra fazer uma boa refeição com uma mão só, num ambiente “meio sofisticado”?

— Vou tirar esse chapéu. É melhor pra todo mundo. Não tenho nenhum problema com sol!

— Bom-dia! Me perdoe abordá-la dessa forma, mas a senhora está se destacando entre as mulheres... (O jovem “meio emo” estava radiante! E falava saltitando?! Emo? Quem pesquisa consegue entender.. Pode ser no Google...) Meu nome é Rick Moreno, eu sou de Floripa e não conheço quase ninguém aqui. Sou o estilista dessa coleção, e você é perfeita...

Quarentona, “meio enxuta”, maquiadérrima e de chapéu? Esse cara é doido!

— Eu tenho um vestido que é a sua cara! A senhora não pode recusar!

Rick Moreno, você é de uma simpatia cativante! Mas meu manequim é 46.   Dez quilos acima do meu peso. Seu vestido nem vai entrar em mim...

— Eu vou deixar a senhora tomar o seu café da manhã sossegadinha e venho buscá-la uns 10 minutos antes, para gente experimentar a roupa e acertar uns detalhes. Hum, eu tenho olho clínico!  Aquele vestido é o seu número. Eu nunca errei!

— Você quer que eu desfile???????

— Como minha convidada de honra!

  Com o seu vestido? E esse chapéu?! Meu cabelo está todo amassado...

— Não se preocupe. O pessoal da produção dá uma ajeitadinha.

Rick, quero lhe apresentar uma grande amiga, o manequim dela é 40...

— Já sei quem é! A que também veio de chapéu, não é? Vocês podem desfilar juntas: vai ser um charme!

Pra quem queria passar despercebida naquela ventania... estava tudo perfeito! 

A tal equipe de produção — de camisetas brancas com um RM em alto relevo lilás — rebocou “a do Legislativo” para o camarim, na verdade uma tenda improvisada na grama, atrás da passarela, montada em madeirite. Ela foi numa boa... É claro que o vestido não ia caber... Cabelo grudado, só lavando...

E pra trocar a roupa... na frente das modelos? Dez quilos acima do peso... Haveria algum esconderijo? A convidada conseguiu... atrás da arara (aquele suporte de pendurar roupas).

    Minha filha, eu nunca errei! Pode subir o zíper eeeeee fechar o colchete!

Rick Moreno era expert. Pois é... O vestido entrou, e ele tinha até uma sandália combinando... do número certinho.

Tudo bem! Não tem ninguém conhecido aqui! (Tem certeza!?!) As unhas dos pés não estão feitas... A festa é beneficente! Amizade é uma relação preciosa!

— Dá pra desfilar com uma mão só? É que com a outra eu tenho de ficar segurando... Se esse chapéu levantar vôo...

— Ah, maravilhosa! Vai ser lindo! Faça uma expressão de surpresa, tipo Lady Di, tente encontrar o chapéu com o olhar, por alguns segundos, e depois prossiga com um leve sorriso de “não há mais nada a fazer nesse momento”, com a brisa matinal na sua epiderme...

Colares de pérolas quebrando (um monte de bolinhas caríssimas fugindo do controle da dona) é como chapéu alugado voando... e submergindo nas ondinhas do Paranoá. Quanto vai custar esse prejuízo? Lady Di devia ter uma coleção de colares e chapéus: um a mais, um a menos.

A essa altura dos acontecimentos “a do Executivo” estava no banheiro, se perfumando... Quando ela finalmente entrou no camarim, Rick já estava turbinado:

— Obrigada por ter vindo, meu bem, mas agora nós já distribuímos todas as roupas. Vamos começar em meia horinha. Por favor, aguarde lá fora. Sua amiga vai entrar na última rodada, antes da noiva.

A velha amizade começou a estremecer! De duas seria bem mais fácil a aventura... E a terceira, a outra cajazeira? Tão elegante, por que ela não chega?  Será que esse cara está de gozação? Pode ser “meio ridículo” uma 46 entre as 38...

Um bando de gatões bem sucedidos lá fora, homens de verdade, inteligentes, cultos, educados, e “a do Legislativo” lá dentro... num calor danado, sem lugar para sentar, no meio de uma tribo de ninfetinhas peladas, cabides dançantes e um totalmente...

Não tem ninguém conhecido aqui!  Tudo bem! É beneficente...

foi ela para a passarela, numa simpatia só, cativante, deslizante, e na hora de fazer o pivô (a rodadinha de retorno), seu olhos... cruzaram... com os dele! Domingo de manhã, Brasília ensolarada e aqueles olhos pretinhos! Subiu um frio na coluna de congelar até a alma! Em carne e osso, sentadinho na reta final do madeirite... O grande poeta, decano, Senador: o chefe! O poderoso “boss, a quem ela estava assessorando nos últimos meses.

— Esse cidadão não tem mais o que fazer? Como ele veio parar aqui? De boiadeiro!?

Até o emprego — um dos melhores da Esplanada, tão suado de conseguir — parece que murchou naquele instante, perdendo a graça, a ginga, pro resto da vida. Precisava ser na frente do chefe?

Você conhece “almoço com letras”, não é? Para se servir, é preciso, antes, declamar; todo muuundooo e cada um dos presentes. Excesso de emoção faz parte do cardápio.

Foi logo em seguida.

Tudo bem, ninguém vai reparar...

 

Bem cedo, na segunda-feira, era “a do Executivo” ao telefone, cheia “dos orgulhos”:

­— Vou guardar sua foto para sempre.  Você foi muito corajosa.

  Foto? 

    A do jornal de hoje!

    No Correio? (o Brasiliense)

    Você, com o microfone, recitando aquela do Ivan Lins, “só não lavei as mãos e é por isso que eu me sinto cada vez mais ...

  Vitor Martins. Os olhos estão borrados? Está dando pra notar?

    Como diria nosso filósofo xineiz, “num xi xabi”. Mas aparece o Senador, atrás de você... lhe entregando o lencinho...

  Foi o chefe decano?!  Tentei me virar para agradecer, mas não deu pra ver quem...

    Hum, hum... Ele teve que sair correndo, coitado. 

    Por quê?

    Ficou todo mundo parado lhe ouvindo! Ninguém tomou a iniciativa. Tadinho! Saiu voando, decolando, rodopiando... justo o dele! E sabe onde foi parar? (O de boiadeiro... submerge rapidinho... geladíssima, prezados leitores!)

Sua Excelência, o primeiro suplente, teve que tomar posse!

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Avaliação: Este texto leve é crônica, não conto de suspense. Portanto, não está de acordo com o tema proposto.

6

CRISTIANE BRUM

O suspense, que era o mote deste desafio, aparece de relance neste texto. A situação começa interessante, mas vai ficando mais fraca à medida que o relato se desenrola. O fim não empolga muito.

6,5

LIANA FERREIRA

O conto não está adequado ao desafio proposto. Mas a autora conseguiu produzir um retrato fiel da superficialidade que grassa em determinados grupos sociais.

6

CIDA SEPÚLVEDA

Não percebo suspense no conto. A linguagem é leve e reflete bem um estrato social.

7

MARCO ANTUNES

Não acho que tenha cumprido o da proposta, mesmo supondo-se que possa haver um suspense de humor, não acho que seja o caso aqui! Aliás, o texto está mais dentro do Gênero Crônica que do Gênero Conto.

 

6

TOTAL DO DESAFIO 2

31,5

TOTAL DO DESAFIO 1

33,5

TOTAL FINAL

65

 

 

 

 

 

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Conto 2

Autor:

Davi R. Oliveira Jr.

Título

Marina, vem pra mamãe...

A gestação foi muito difícil. Horas solitárias em cima da cama seguindo orientações médicas como um esforço, mesmo inerte, de lutar por vida tão esperada. Sangramento, placenta prévia, hipertensão e diabetes gestacional compunham o quadro agravado pela idade madura, como diziam suas amigas mais discretas.

Aquela era a hora. A corrida até o hospital, no táxi do Sr. Pedro, o mesmo que comprava os remédios, transcorreu tranqüila. A madrugada esvazia mesmo todas as ruas. O silêncio no banco de trás incomodava o condutor insone.

- Tudo bem com a senhora? 

- Sim.

Um sim meio espremido pela apreensão e pela dor. Parecia que a mulher pressentia algo ruim.  O taxista olhou pelo retrovisor e viu gotas de suor e lábios mordiscados. Ao chegar no hospital, ela abriu a carteira e tirou uma nota de cinqüenta. Muito dinheiro para o pequeno deslocamento.

- Na corrida da volta, o senhor abate a diferença. Guarde o troco agora. Obrigada.

Ela saiu carregando uma bolsa cheia de pequenas peças de roupas, todas cor-de-rosa, e um enorme peso. Bem maior do que apenas os líquidos e tecidos, seus e da menininha, que se somaram na longa provação.

Tudo muito rápido até a cirurgia, como só as fábricas de extração de bebês podem fazer. Sedada e sedenta, com o corpo distante de si e a mente lutando contra o torpor, a pretensa mãe sentia falta de alguém ao seu lado, mesmo sabendo que um marido ou sua própria mãe não teriam muito a fazer por ela ou pelo bebê. O sacolejar, o raspar, o comprimir, o empurrar não provocavam dor. Só a gastura de saber e não sentir.

- Quatro horas e cinco minutos. Menina.  Disse sem emoção o obstetra.

O pequeno ser vermelho e acinzentado foi entregue à neonatologista. Um silêncio pairava além do que o corpo da parturiente podia acompanhar. O cirurgião continuava a minudear as entranhas daquele corpo cuja mente desejava apenas ver o que acontecia mais adiante.

A paciente viu a médica acompanhada por uma enfermeira sair carregando a criança. As mulheres tinham rostos apreensivos e a criança, disso ela tinha certeza, não havia chorado. Se as pernas não estivessem mortas, a mulher sairia descomposta da maca para seguir sua cria.

- Doutor, soprou a voz tênue, está tudo bem?

- Aqui está tudo tranqüilo, Madalena. Vamos acabar logo. O médico respondeu secamente o que não havia sido perguntado.

- Cadê minha filha, doutor? A Marina está bem?

- Sua filha está na pediatria. Aqui cuidamos de você.

O barulho dos aparelhos de monitoramento não a ajudava com o tempo. Como está a criança? Repetia a mente da mulher a cada bip enquanto sua mente lutava contra Morfeu e seus convites para cavalgar nuvens. - Marina, vem pra mamãe... Marina, vem pra mamãe. O mantra, que girava na mente da mulher, apenas aumentava a angústia e, se tinha algum valor como prece, não parecia funcionar.

- Pronto, levem-na para a sala de recuperação. Disse o médico enquanto aplicava dose extra de sedativo.

Um sorriso explodiu no rosto da mulher.  Vão trazer minha filha, disse para si mesma. Antes de adormecer, conduzida pelo longo corredor, ela ainda ouviu alguém pedindo para a enfermeira que mascava o fundo de uma caneta Bic:

- Traga a guia para o registro de parto com ocorrência de natimorto.

Na enfermaria da maternidade, a paciente persistia inconsciente enquanto alguns conhecidos do trabalho ligavam para saber do acontecido e médico, assistente social e enfermeiras apareciam de vez em quando para checar seu quadro clínico.

Uma prima de Madalena, indicada como referência na ficha do cadastro de internação, parente de sangue, mas daqueles que se mantêm distantes por falta de esforço, foi contactada pelo hospital e acariciava a mão da convalescente quando esta se agitou.

- Calma Madalena. Está tudo bem. Já está tudo encaminhado, disse a prima.

- Marina, vem pra mamãe... 

Olhando para a prima, depois de percorrer com os olhos todo aquele ambiente, como quem procura descobrir a maneira pelo qual foi parar em um lugar desconhecido, perguntou com voz de fio:

- Cadê a menina?

O silêncio da prima gritava alto.

- Cadê minha filha? Inquiriu aflita.

A porta basculante da enfermaria se abriu e todos só tinham olhos para aquela cena. O pequeno bercinho empurrado para dentro da unidade se movia lentamente. O nheque-nheque dos rodízios enferrujados tinha um poder magnético. A enfermeira rotunda, como uma fada caprichosa e orgulhosa, conduzia a carruagem de sonhos.

O pequeno trajeto ganhou proporções gigantescas ou foi mesmo o tempo que congelou. Cada passo da enfermeira era precedido pelo rufar dos tambores que se abrigavam no peito de Madalena. Se o pensamento tivesse a força que alguns lhe atribuem o embrulho arfante certamente teria levitado até o busto lactante.

Os sonhos que passaram lentamente pelo leito de número dois trouxeram uma alegria constrangida à mulher que gemera na baia cirúrgica ao lado da de Madalena.

- E o meu bebê, moça? Perguntou Madalena.

A enfermeira respondeu:

- O médico já vem falar com você...

Madalena, segurando um pequeno pedaço de pano cor-de-rosa, apenas implorava:

- Marina, vem pra mamãe.... Marina, vem pra mamãe....

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

A narrativa é bem conduzida, mas o suspense é quebrado na metade do texto, quando uma frase denuncia o final.

7,5

CRISTIANE BRUM

Apesar da força dramática da situação escolhida, o final é previsível. O suspense poderia ter sido melhor trabalhado ao longo do conto, com mais mistério para criar o clima do final.

7

LIANA FERREIRA

A história segue uma seqüência de previsibilidade que não gera o suspense, objetivo do desafio. O contista deveria ter, pelo menos, adiado um pouco mais a informação que é a chave do arranjo final ... registro de parto com ocorrência de natimorto.” Mas já que optou por entregar o ouro na metade da história, restava-lhe nos surpreender com outro final, que causasse algum impacto no leitor. Do jeito que ficou desse jeito, não provoca nem sobressalto. Mas é uma boa história.

8

CIDA SEPÚLVEDA

Bom conto de suspense e terror. Merece retoque na linguagem.

8,5

MARCO ANTUNES

O conto (aliás a grande maioria dos gêneros literários, mas todos os ficcionais e certamente a Poesia) não permite leitura apenas escrita, reclama oralidade e fluência expressiva. Este conto, que falha em obter do leitor a principal reação diante do suspense, que é a atenção angustiada e interessada, tem muitos defeitos de expressão: frases mal trabalhadas, períodos excessivamente longos que, às vezes, prejudicam a oralidade, sentenças de gosto duvidoso como “fábricas de extração de bebês” e ritmo emperrado.

6,5

TOTAL DO DESAFIO 2

37,5

TOTAL DO DESAFIO 1

41

TOTAL FINAL

78,5

 

 

 

 

 

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Conto 3

Autor:

Lúcia Borges

Título

Foi na década de 60...

Foi na década de 60...

Leninha, suburbana, namorava César, um belo rapaz da zona sul do Rio de Janeiro. As garotas do bairro se encantavam quando ele chegava em seu Cadilac Conversível, parava e, sem abrir a porta, com um pequeno salto já estava de pé na calçada. Ele era o máximo: topete do Elvis, olhos do Chico, coxas do Beline e o carisma do James Dean.

Ela, tipo mignon, usava saias de tergal plissado e conjuntinhos de banlon. Todas as moças do bairro queriam se aproximar dela para quem sabe, no caso de que brigassem, elas estarem mais próximas e terem chance de namorá-lo.

César deixava Leninha insegura quanto à fidelidade. Freqüentava boates, dançava rock, twist... Ela não o acompanhava, pois era tímida, obediente, tinha 16 anos e um pai muito severo.

Embora Leninha sentisse ciúmes, soubesse de suas noitadas, se conformava. Ele era carinhoso, tinham um namoro dentro das normas tradicionais, sentia esperança de um dia poder acompanhá-lo ou quem sabe de que ele mudasse e ficasse mais caseiro depois do casamento. Namoravam na varanda.

Ficaram noivos e dois anos depois, após sua formatura no científico, casaram-se. Após a cerimônia tradicional, na igreja do bairro, comemoraram com uma festa simples no salão paroquial, dada pelo pai da noiva.

Leninha se emocionou com a realização do sonho de se casar na igreja. Dormiram num hotel da zona sul e saíram bem cedo para Cabo Frio onde passariam 10 dias curtindo o presente dos padrinhos do noivo.

Chegando ao hotel, deixaram as malas, trocaram de roupa e foram à praia, almoçaram e voltaram para o hotel à noite, cansados e felizes. Não jantaram, comeram o bolo e os docinhos que seus pais reservaram para eles, tomaram um belo banho e deitaram-se.

Leninha não fora preparada para o casamento. Havia muita fantasia em sua cabeça, César teve muita calma e carinho nesta “primeira noite”, a anterior fora cheia de emoções - deitaram-se com a preocupação de acordar cedo, não haviam tomado consciência que estavam casados, naquele primeiro dia de lua-de-mel sim, sentiam-se casados e abençoados por Deus.

Leninha já estava dormindo quando começou a ouvir uma voz gutural, ininteligível, aos poucos foi despertando e com muito medo virou-se para se abraçar a César, com surpresa não o encontrou a seu lado. Sentou-se na cama, o quarto estava na penumbra, vislumbrou o vulto de César transtornado, andando pelo quarto, esbarrando nos móveis e emitindo os sons estranhos que a acordara.

Apavorada, acendeu a luz e percebeu que ele estava com seus grandes olhos verdes abertos, com uma nuvem apagando seu brilho... dormia... Leninha não sabia o que fazer (seu coração aos pulos) agarrou-se a ele tentando fazê-lo sentar-se e ele acordou. Chorando ela fazia-lhe um monte de perguntas e ele não sabia responder, não lembrava de nada que havia ocorrido. Nervosos dormiram um para cada lado.

Nos nove dias restantes, não tocaram no assunto, tentaram esquecer o incidente, aproveitar a praia, os restaurantes e faziam planos: ela para o cursinho pré-vestibular; ele ansioso para voltar, casado, às suas atividades no escritório de advocacia de seu pai. Durante a noite, ela dormia atemorizada.

Quando chegaram da lua-de-mel, foram almoçar com a família de César. Leninha conversando com a sogra, vendo os presentes que chegaram no dia do casamento, comentou sobre o que acontecera na primeira noite em Cabo Frio. A sogra, muito lacônica, dissera que o filho era sonâmbulo, não era doença, pediu que ela não se preocupasse.

Estavam morando na Tijuca num apartamento presenteado pelo pai de César. O casal estava criando uma rotina.

O sono de Leninha era sempre leve. Uma vez ou outra acordava para tomar conta do marido caminhando pela casa, indo para cozinha, pegando objetos cortantes, não o acordava, naquela época acreditava-se que não se deveria fazê-lo por que isso impediria a alma ou o corpo astral de voltar ao corpo físico.

Leninha sempre preocupada em agradar ao marido, vivia em função dele, sentia-se sobrecarregada, incompetente para cuidar da casa, da alimentação e ainda estudar, estava insatisfeita com sua vida, seu casamento, sua sogra...

César nos primeiros meses parecia ter mudado, porém logo voltou a freqüentar boates durante a semana, alegando trabalho extra no escritório.

Certo dia desabafou com um amigo, estranhava o comportamento da esposa: Ela trancava a porta da cozinha, da sala e escondia a chave antes de se deitar; não estava conseguindo freqüentar o cursinho com assiduidade, sentia dificuldades em conciliar a vida doméstica com a de estudante. O amigo tranqüilizou-o dizendo que ainda estavam se adaptando a vida de casados e que no primeiro ano era assim mesmo... Comentou sobre a idade de Leninha e a mudança brusca que sua vida tivera: pelo que conhecia dela, havia sido mimada, até pelo próprio César.

Ele chegara cansado da farra, Leninha, estudando, fechou os cadernos e foram jantar. Após assistirem ao último jornal, enquanto César se preparava para deitar, Leninha cumpria o ritual de fechar as portas temendo o sonambulismo do marido que por diversas vezes ameaçou abri-las durante a madrugada.

César adormecera profundamente e Leninha sobressaltada. De repente, sentindo-se sufocada, tentando gritar, escutando a voz gutural do marido, agitada, desvencilhou-se e viu César com o travesseiro na mão... tentando acalmá-la. Exausta, olhou o relógio, passava de meia-noite... Dormiram novamente...

Eram três horas da madrugada, Leninha ouviu passos indo até a janela e percebeu o vulto de César colocando as pernas para fora, num sobressalto abraçou o marido chamando-o pelo nome e impedindo-o de pular... César acordou assustado, correu até a janela, abraçou-a imobilizando-a, trazendo-a de volta para a cama... Leninha sentindo-se presa, esperneando virou o rosto e viu que era César que a segurava, espantada, não entendeu o que se passava, desesperou-se...

O dia amanhecera com uma névoa seca, soturno, na sala de espera da emergência psiquiátrica estavam César, seus pais e os de Leninha, absortos em seus pensamentos...

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

A estória não consegue prender a atenção do leitor até o final. Algumas frases precisam ser reestruturadas. Há erro de concordância.

7,5

CRISTIANE BRUM

O suspense criado durante o texto é quebrado no parágrafo em que a autora narra a conversa do marido com um amigo. O final é fraco, com uma cena um pouco banal no sanatório.

7

LIANA FERREIRA

A tentativa de criar suspense acaba por se traduzir em uma grande confusão. Não se percebe, afinal, se César e Leninha são sonâmbulos ou loucos. Há informações demais sobre as personagens, informações que estão soltas e não são utilizadas no desenvolvimento do conto. O que não deveria acontecer, principalmente numa história de suspense. É preciso cuidar melhor da pontuação.

7,5

CIDA SEPÚLVEDA

A idéia do suspense é boa, mas precisa ser melhor desenvolvida, pois se apresenta confusa e pouco convincente.

7

MARCO ANTUNES

Interessante a siituação, obteve, ao menos, o interesse catártico do leitor, mas o conto tem incorreções de linguagem e erros gramaticais (alguns, mais graves, corrigidos na edição acima).  Como os contistas já haviam sido advertidos pelos jurados na edição anterior, é chegada a hora de punir a incúria com nota menor.

6,7

TOTAL DO DESAFIO 2

35,7

TOTAL DO DESAFIO 1

36

TOTAL FINAL

71,7

 

 

 

 

 

 

 

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Conto 4

Autor:

Lacy Mesquita

Título

Saquarema

 Andar pela praia em dia em dia de ressaca trazia um prazer talvez mórbido, talvez ... como eu diria a alguém sobre um sentimento que me vem com um tortuoso segredo?

Os dias eram como estes, a ressaca era píor que esta e eu era mais velha do que sou agora.  Minhas plásticas me tornaram irreconhecível.  A família?  Não tenho mais família .Conhecidos? Não aqui...

 Talvez no resto do mundo, mas aqui não.

Acompanho tudo que acontece em outros lugares pelos jornais, pelas revistas internacionais.

Tenho o bastante para viver.

Tenho saúde, tenho um lugar que considero razoável, afinal bom mesmo é nossa  terra e gente falando a nossa língua, mas  as circunstâncias me trouxeram a este lugar quando tudo conspirava contra mim.

Se me descobrirem perco minha liberdade. Se me descobrirem serei  responsabilizada pelos meus feios delitos.

 Meu caráter, minha memória serão maculados com minha própria presença - viva.

Assim, engano a todos com enorme lucro e sem ônus pessoal.

O acidente planejado não deixou dúvidas. Fugimos dois quarteirões antes dando carona a um outro casal e sabendo que o motorista estava bêbado e drogado num carro "preparado".

Minha morte e a dele me sensibilizou.

Fomos examinados e reconhecidos por pessoas que eram sinceras - nossos caronas foram bem escolhidos.

Seguimos então ainda como nós mesmos até a Suiça e numa casa nas montanhas permanecemos por sete meses até nossa pequena Sofia nascer.

 Vieram os surtos de loucura dele. Tudo era motivo de medo. Nossa segurança era o lugar isolado e para ele já nada era seguro.  Meu rosto era perigoso e o dele também. Começamos a receber cartas anônimas dizendo saber o que tínhamos feito.  A pequena Sofia corria perigo, sabíamos.

Saimos então da casa nas montanhas. Viajamos para um vilarejo na França - infelizmente na França.

Estou hoje convencida que alguém nos acompanhava de muito perto e no vilarejo francês perdemos o resto da tranqüilidade que tínhamos. Mesmo cercados de gente bastante humilde o risco de sermos reconhecidos era enorme ali. Então ficamos só dois meses naquele paraíso .

Eu que,inglesa de fibra, já enfrentara situações muito difíceis, me submetia a rotinas - ginásticas, costuras, leituras, além dos cuidados com a neném, mas ele que jamais passara necessidade ou privação, reagia muito mal à nossa insegurança.

Ele me convencera a fugir daquela vida, tratara dos detalhes sórdidos que só depois eu soube.

Ele, um milionário apaixonado e eu, uma mulher triste, acostumada com a riqueza, infeliz e grávida.

Nós dois não nos podíamos considerar felizes. Tudo era medo. As cartas continuavam.

Sofia adoecia seguidamente. Estávamos paranóicos. Mais ele que eu.

Outra viagem - desta vez num pequeno avião para Portugal. Outro vilarejo. Este com mulheres vestidas de preto, pessoas hospitaleiras, comida muito farta e saborosa. Bom para Sofia o clima e o acolhimento. Passamos lá dois anos sem cartas.

Apenas nos perseguim nossos fantasmas nos jornais, nossos pesadelos diários.

Ele se arrependia e eu curiosamente não.

Aprendemos um pouco a língua, nos adaptamos aos costumes e num dia ensolarado o vilarejo recebeu turistas ingleses.

Com cabelos escuros, mais gorda, sem nenhuma maquiagem fui reconhecida:

- Ela parece tanto com ... como se parece !!!!

Os outros turistas me olharam e concordaram admirados, Muito admirados.

Não sorri. Meu sorriso me denunciaria.

Não falei nada. Estava gelada.

Como boa inglesa fui discreta e me embrenhei por entre os transeuntes puxando Sofia pela mão.

Não podia continuar com meu rosto.

Nem podia continuar mais naquele lugar acolhedor.

Desta vez atravessamos o Atlântico num navio de cruzeiro com destino a um país enorme chamado Brasil.

Deixamos o velho e amado continente numa viagem luxuosa em que ficávamos a maior parte do tempo no quarto.  Só ele, sempre muito nervoso, passeava com Sofia.  Andávamos pela noite às vezes para que eu pudesse me movimentar mais. Emagreci, abati, mas me agarrava novamente a rotinas para sobreviver aos constantes surtos paranóicos dele, às inseguranças e a descoberta de uma outra fuga – ele usava drogas com uma freqüência surpreendente.

Temi então pela saúde instável de Sofia. Será que essas drogas eram antigas e não percebi?

Será que Sofia ...

Em São Paulo numa consulta vi a verdade enfim - Sofia precisava de cuidados especiais, mas nada tão sério como eu temia.

Só alimentação bem cuidada, como a que tinha em Portugal e se possível morar perto do mar já lhe recomporiam a saúde.

No Rio de Janeiro mudei meu rosto e ele apenas consertou a calvice e o nariz.

Tínhamos então a liberdade de passear. De ir e vir.

Escolhemos Saquarema para morar.

Chegamos num dia de sol .

 Num dia de ressaca no mar  ele resolveu ir embora.

Resolveu voltar para sua terra, sua família.

Deixou a mim e a Sofia, que ele nunca amou.

Naquele dia de ressaca eu me senti absurdamente feliz por estar livre de tudo que me ligava àquele passado.

Deixei de ser um estorvo para o homem que um dia disse que eu iria morrer e prometeu me fazer feliz depois de morta!

Sinto o gosto dos pastéis portugueses, dos pães franceses, do chá inglês, do leite e dos chocolates suiços, mas não sinto saudades das noites de promessas ou dos olhares apaixonados de alguém frágil como ele.

Ele inventou meu destino e enlouqueceu. Não foi capaz de viver estando morto.

Eu sou forte e minha Sofia é como eu.

Nossos olhos azuis estão sempre atentos às mudanças de tempo.

Vivo cada dia agradecida àquele dia de ressaca, de mar furioso, em que foi proclamada minha liberdade.

Celebro  minha vida,  a de minha filha e a deste país que recebe tão bem os estrangeiros como eu.

Celebro também a minha morte.

Abençoada morte!

Agradeço a Deus por estar “morta” em Saquarema.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

O conto se inicia de forma intrigante e mantém o clima de mistério até o final. A última frase tira a força do texto pelo uso das aspas.

8,5

CRISTIANE BRUM

A história é mais confusa que intrigante, acaba dispersando o leitor. Não consegui entender direito algumas passagens e o fim é um anti-clímax.

6,5

LIANA FERREIRA

Falta um encadeamento mais harmônico das idéias expressas. O uso de orações curtas e soltas, neste caso, não resulta em um texto agradável e deixa a impressão de que um riquíssimo instrumento que está ao nosso dispor, a língua portuguesa, não está sendo bem utilizado. Devo confessar que a expressão “... e eu era mais velha do que sou agora”, logo no início da história criou em mim a expectativa de que poderíamos ter um belo conto. Mas isto não acontece.

7,5

CIDA SEPÚLVEDA

Um pouco confuso. Merece reestruturação.

7

MARCO ANTUNES

O conto tem alguns achados interessantes de expressão (embora ainda contenha alguns  erros). Aqui, estamos diante de um suspense, sem sombra de dúvidas, mas o excesso de narração prejudica o enredo. Suspense, mais do que qualquer outro gênero, exige a cena viva, o tempo atual da cena! Embora haja suspenses bem sucedidos fundados sobre a narração do passado, eles sempre parecem trair uma regra básica: no suspense é desonesto o autor saber mais do que o leitor, ao menos no momento em que está a narrativa. No bom suspense, personagem e leitor parecem descobrir juntos cada novo elemento do enredo.

7,2

TOTAL DO DESAFIO 2

36,7

TOTAL DO DESAFIO 1

38,8

TOTAL FINAL

75,5

 

 

 

 

 

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Conto 5

Autor:

Antônio Cardoso Neto

Título

A vida por um fio

Na fila para o check-in, as duas mulheres atrás de mim não paravam de falar. Eu estava nervoso, e elas falavam sem parar sobre desastres aéreos. A mais velha disse que não se incomodava em morrer, que morrer todo mundo ia, que era difícil sobreviver a um desastre aéreo, o que não deixava de ser reconfortante, pois pelo menos não deixava vítimas estropiadas sofrendo e dando trabalho aos outros pelo resto da vida. A outra concordava, meneando a cabeça, mas, subitamente pareceu refutar, dizendo que a única coisa que a incomodava era a idéia de cair de dez quilômetros de altura, com a certeza da morte iminente, durante alguns minutos, até se esborrachar no chão, e ainda completou: “ imaginou o frio na barriga, Dona Rita?”.

Deu-me vontade de dizer a ela que o frio na barriga é o começo do orgasmo que dura seiscentos anos, contados a partir do momento em que entramos no jardim do paraíso. Afinal de contas, eu também tinha motivos de sobra para estar nervoso, mas não ficava atormentando os outros. Aquela tagarelice estava me irritando cada vez mais, quando a funcionária da companhia aérea chamou o passageiro que estava imediatamente à minha frente. Ele se aproximou do balcão e colocou a mala sobre a balança. Ela lhe perguntou se portava algum objeto pontiagudo ou cortante. O passageiro respondeu que tinha um canivete pequeno e um aparador de unhas. Ela lhe disse então que os colocasse na mala a ser despachada. Ele argumentou que eram objetos minúsculos e inofensivos, mas ela permaneceu impassível, dizendo que nada poderia fazer, pois era proibido viajar portando objetos cortantes e pontiagudos. O passageiro disse que tanto o canivete como o cortador de unhas não eram cortantes e pontiagudos; que eram apenas cortantes. No final, o sujeito abriu a mala, enfiou aquelas duas armas letais no meio das roupas, fechou o zíper, trancou o cadeado e colocou a mala na esteira rolante, que a levou embora. Quando a moça ia lhe entregando o cartão de embarque, voltou-se para ela e resmungou:

¾ Estamos virando uns paranóicos...

¾ Desculpe-me, mas não posso fazer nada, senhor.

¾ É sempre assim. Vocês nunca podem fazer nada...

¾ Por favor, senhor.

¾ Tudo bem, moça. Tudo bem.

¾ O próximo, por favor!

E o próximo era, finalmente, eu. Como não carregava mala para ser despachada, a operação foi rápida. Quando ela me perguntou se levava algum objeto que pudesse ferir alguém, respondi-lhe que não. Quem me dera possuir o arsenal que o passageiro anterior acabara de colocar naquela mala!

 Pedi um assento no corredor e na frente. Ela deu-me o cartão de embarque, e resolvi tomar um café enquanto esperava que anunciassem o meu vôo. Estava apreensivo, ansioso, seria melhor pensar em algo bom. Entre um gole e outro, cada vez mais frio, fiquei pensando no paraíso que me esperava quando terminasse a viagem. Assim que o alto-falante anunciou o meu vôo, dirigi-me ao portão de embarque. Em frente ao detector de raios X, estava o mesmo passageiro que pouco tempo antes havia feito o check-in na minha frente. Sua bagagem de mão, uma valise, estava aberta sobre uma mesa. Um funcionário da Polícia Federal examinava a valise arreganhada, com umas roupas, qual vísceras amarrotadas, à mostra. Do meio daquelas entranhas de pano, havia retirado uma bolsinha de couro contendo agulhas, uma tesourinha, botões e carretéis. Pegou a tesourinha e olhou-a contra a luz, depois olhou as agulhas, uma por uma, e, por fim, disse-lhe que as agulhas e a tesourinha ficariam detidas.

Por que, durante o check-in, o cara não disse que portava uma arma branca? Eu estava com essa pergunta encafifada na cabeça, quando ouvi o policial desejar-lhe boa viagem e chamar o próximo, que, mais uma vez, era eu.

Não carregava qualquer bagagem de mão. Nos bolsos do paletó havia apenas minha carteira com alguns documentos e uma quantia irrisória de dinheiro, uma escova de dentes, uma caixinha de fio dental, um pente, uma caneta esferográfica descartável, uma revistinha de palavras cruzadas e o cartão de embarque. Passei pelo detector de metais, e o policial me liberou sem fazer a menor menção em apreender minha lancinante caneta esferográfica.

Nem bem entrei no avião, notei que os dois assentos ao meu lado estavam ocupados pelas duas loquacíssimas comadres... ou seriam vizinhas, colegas de trabalho, talvez. E o assunto continuava o mesmo. Assim que o avião decolou, a mais nova das duas, sem a menor cerimônia, perguntou-me se eu também não tinha medo por estarmos viajando em uma sexta-feira treze. Respondi que desde que o piloto não fosse supersticioso, não haveria o menor problema. Mas elas, em vez de se acalmarem, começaram a falar das imperfeições das máquinas e da imperícia dos que as conduziam. Tirei a caneta do bolso e comecei a fazer umas palavras cruzadas. Mas não conseguia me concentrar com aquela conversa incessante e interminável. Resolvi fechar os olhos e fingir estar dormindo.

Lembrei-me das tardes vagarosas da meninice; tão vagarosas que, mesmo depois de tantos anos, ainda pareciam não haver terminado por completo: ainda me sentia meio criança. Recordei-me das bolinhas de gude, das peladas no terreno baldio ao lado da casa do meu avô, e das pipas. Deu-me vontade de rir, ao pensar nas duas companheiras de viagem ali ao lado, falando de máquinas voadoras. Máquinas voadoras eram aquelas pipas distantes. Eram as melhores pipas do mundo. A pele de papel de seda era colada ao esqueleto de bambu com um grude feito de água e farinha de trigo. Havia também o cerol. Primeiro a gente quebrava uma garrafa velha e moía os cacos com duas pedras até que virassem . O melhor vidro era o das garrafas de leite, talvez por serem transparentes. Daí era misturar com goma arábica, passar na linha e esperar secar durante umas duas horas. Lembrei-me do dia em que um desavisado cruzou, de bicicleta, a linha de cerol que estava secando pendurada entre dois postes no meio da rua. O choque do ciclista com a linha fez com que o laço que a atava a um dos postes se desatasse, e o cerol deslizou livremente entre o lábio superior e o nariz dele. Fez um talho fundo sobre o lábio superior, chegando a atingir a gengiva, e teria lhe decepado o nariz se o freio da bicicleta não fosse tão bom.

Abri os olhos e tomei o rumo do banheiro, ao lado da porta da cabine de comando. Fechei a porta, lavei o rosto e olhei-me no espelho, com um nojo inconfessável de mim. Enfiei a mão no bolso, tirei a caneta e a caixinha de fio dental e os coloquei sobre a pia, ao lado da torneira. Joguei a tampinha da caneta no vaso sanitário e puxei a descarga. Fiquei olhando alternadamente para a caneta e para a caixinha, uma, duas, três vezes. Então, abri a tampa da caixinha, puxei o fio e amarrei uma ponta dele no polegar direito. O polegar sangrou um pouco. Com a outra mão, segurei firmemente a caixinha de plástico. Qualquer um, disse para mim mesmo. Qualquer um; é para provar que não estou blefando.

Saí do banheiro e caminhei cabisbaixo em direção à porta da cabine de comando. Abruptamente, joguei a revista de palavras cruzadas no rosto do comissário de bordo, que estava quase em frente à porta da cabine. Passei-lhe o fio esticado em volta do pescoço, e, com um golpe brusco, o cerol colado no fio serrou-lhe a garganta como se ela fosse feita de água.

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

O título é muito bom. A narração na primeira pessoa envolve e despista o leitor, que só perto do fim pressente a verdadeira intenção do protagonista. O final é perfeito, com o uso de uma imagem chocante

9

CRISTIANE BRUM

A situação é interessante e o clima vai sendo construído aos poucos, mas algumas pistas muito claras durante o desenvolvimento deixam o final meio óbvio. Uma reescrita seria interessante para que o mistério fosse ampliado, sem contar o final antes do fim.

8

LIANA FERREIRA

A escolha do título foi muito feliz. O conto está bem escrito e a língua portuguesa agradecida pelo respeito a ela dispensado. O enredo é interessante, atual e aguça a curiosidade do leitor. As doses de suspense foram ministradas magistralmente.

9

CIDA SEPÚLVEDA

Não percebo suspense, mas terror. O título é muito adequado. Bem escrito, mas muito explícito (o que talvez empobreça o conjunto)

7,5

MARCO ANTUNES

Perfeito. Sem dúvidas um dos 3 melhores desta fornada! O uso dos recursos do suspense foi magistral, nada faltou, nada sobrou. A principal característica do suspense é a tensão contínua e enervante, aqui, o leitor não tem descanso! A recordação nostálgica das brincadeiras de infância, em franca oposição ao novo uso que aquele aprendizado da linha terá é genial! O autor soube a hora exata de revelar cada item do suspense, abriu seu final para o trabalho de nossa imaginação, E a idéia do cerol...Que nenhum seqüestrador ou terrorista nos leia!

10

TOTAL DO DESAFIO 2

43,5

TOTAL DO DESAFIO 1

47

TOTAL FINAL

90,5

 

 

 

 

 

!!!!!!!!!!!!!>>O<<!!!!!!!!!!!!!!

 

 

Conto 6

Autor:

Olívia Maia.

Título

“...nem Sansão, nem Dalila apenas dúvidas feridas

 Sebastian estava tempo parado próximo a Lagoa Rodrigo de Freitas. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro manhosamente acordava com o barulho de fogos em homenagem ao seu Santo Padroeiro. Era 20 de Janeiro.

 

            - A porra desse Santo nunca me deu sossego. Resmungou. Santo feio e sofredor. Se ao menos fosse Jorge. Santo guerreiro que segurou a lança e matou o dragão. Mas Sebastião... Tenha Paciência!

 

Em passos seguros aproximou-se, ainda mais da lagoa. A mão arrumava os cabelos bem tratados, lavados e perfumados. A água turva da lagoa não refletira sua imagem. O barulho dos fogos insistia em acordar a cidade e suas memórias.

 

            - Tião é a puta que te pariu, ou a puta que me pariu. Seu semblante foi tomado por uma expressão de raiva profunda, ante a lembrança do pátio da escola. A algazarra das crianças gritando: Tião peidão, cara de Japão!  Que direito tinha minha mãe de fazer esse pacto?  Essa maldita promessa? Sebastião... Santo sofredor, feio e sem graça. Vai ver que quis imitar as passagens bíblicas “o anjo do Senhor apareceu aos pais para exortar sua mãe a que se consagrasse ao Senhor e que o filho fosse dedicado ao Senhor como nazireu pela vida inteira. O Espírito do Senhor entrou nele e agiu nele.”  Espírito de santo nenhum entrou em mim. Sou Sebastian...Apenas Sebastian.

 

A brisa que vinha da Lagoa sacudiu seu cabelos. Um rapaz de porte atlético, mulato bonito, bronzeado, com pernas bem torneadas, de mais ou menos uns 25 anos, correndo, afastou-o das lembranças.

 

            - Bonito assim deve ser muito bom de cama. Suspirou.

 

O rapaz sumiu na curva do caminho quando ele lembrou que antes das 10 horas teria que estar na escola para assinar a demissão.

 

            - Adeus de giz, adeus sirene estridente, adeus mães chatas... Aula de anatomia. Manipulando aquele pênis enorme de borracha. Sentiu-se excitado. O barulho dos fogos intensificou-se. Explosão...Orgasmo... Bum...bum... hum...huuuuummm.

 

           
Se até o “prometido do Senhor” rebelou-se, pensou com certa irritação, quanto mais eu, prometido de um santo... “foi a Gaza e viu ali uma prostituta e coabitou com ela. Depois disto, aconteceu que se afeiçoou a uma mulher do vale de Soreque”.

 

            - Fodam-se todos: os santos, os anjos e os arcanjos resmungou com uma voz firme e rouca.

 

Às 14 horas deveria estar na agência de turismo para desmarcar o Cruzeiro agendado para as Ilhas Gregas, em julho. Pensou: Ah! Doce ondas. Corpos quentes parecendo banquete de carne cheirosa...muitos...vários...diversos... saborosamente gostosos. Sexo com tempero de maresia...

 

            - Porra de nostalgia! Exclamou...Não. Não é... é um gosto de quero mais...ou de não quero mais.

 

Olhou para barriga. Comprimiu-a como num reflexo. Olhou para as mãos e percebeu pequenas sardas. Sujeira da idade. Aproximou-se da Lagoa como tentando ver seu rosto. Nada. Apenas leves movimentos dos cabelos.

 

            - Bicha velha...Jamais! Veado que não corre não tem graça. Quem olhará para esse amontoado de músculos caídos? carne velha...40 anos. Nostalgia... não. Não é. É um gosto de ... não quero mais.

           

Enfiou a mão no bolso à procura de um papel. Sentiu que o dia estava passando muito rápido. eram 8 horas. Teria que registrar um tanto de coisas a serem feitas antes da noite chegar. com o papel e a caneta na mão anotou – às 16 horas visita ao psiquiatra. Soltou uma risada debochada.

 

            - Falta uma caixa de Lexotan. Olhou para os lados conferindo se havia alguém.

 

Com a intensidade do passar das horas, seus pensamentos ficaram acelerados. Encostou-se em uma barra de ginástica aquecida pelo calor do sol, e prosseguiu:

 

- Aquele babaca não me tomará muito tempo... chegarei com a depressão aumentada. Não posso esquecer de fazer um pequeno treino antes de encontrar a figura... expressão... postura... tom de voz. Hoje não lhe darei tempo para falar de Freud. Falar do meu tipo (como diz ele) narcísico de ser: arrogante e com fantasias magníficas sobre mim mesmo. No último encontro veio com uma história de que meu problema visto de uma perspectiva psicológica, estaria ligado à etapa do desenvolvimento no qual, enquanto criança, fiz do próprio eu o objeto principal de meu amor. Palavras jogadas ao vento... Estufou o peito e balançando os cabelos esbravejou:

 

            - Foda-se Freud, foda-se psicologia. Fodam-se problemas.  Problemas dever ter a mãe dele. Velha mal comida, que não deve ter conhecido suruba, ou que não deu um beijo na boca de uma mulher. deve ter feitopapai e mamãepra parir um desse... Quero mais é ficar assentado em meu trono despreocupado de tudo mais na vida.

 

Uma voz mansa e sensual ecoou em seu ouvido.

 

            - Bom dia gostoso! Quanto tempo!? ... E ai? O que fazes? Digo o que farás? Disse num tom de insinuação.

 

Era Raffa, um freqüentador da academia de ginástica. O impacto da visão monumental daquele homem lhe tirou o fôlego. Não se ateve à voz, mas aquele corpo... Cheiro de demônio. Pensou em abrir um espaço na sua agenda. Não. Até a noite daria tempo? ... Quem sabe... Um pouco antes... Ou quem sabe durante. Baixou a cabeça, enquanto Raffa afastava-se com um sorriso malicioso. A lembrança do psiquiatra voltou-lhe a mente, e falando para as águas da lagoa, continuou:

 

            - Idiota. Será que não percebera que eu estava a fim de comê-lo e não de entender da minha vontade de matar meu pai para ficar com minha mãe. Dane-se Édipo.

 

-  Será que minha mãe me amaldiçoou por não aceitar o Santo? A despeito de todo o meu sucesso, minha beleza, a maldição dela se abatera sobre mim? Dane-se o outro.

 

Sentiu que a agenda estava praticamente cumprida. Ir para casa? Andar mais um pouco? Não. Nada estava fazendo sentido, a não ser esperar a noite chegar, esperar pelo momento... Quando pensou: quem sabe ir à Academia. Não. Isso lhe daria a sensação de quero mais. Relutou, mas quase que mecanicamente se viu em um aparelho de ginástica.

           

A academia estava mais cheia que o normal. Notou que estava usando uma blusa larga para encobrir a barriga. Ao olhar para o lado viu Raffa vestido em uma camiseta regata que mostrava seus músculos avantajados. Sorriu-lhe. Um riso convidativo que foi compreendido rapidamente por Raffa como aceitação do convite. Novamente o pensamento varreu-lhe a mente e de súbito disse: - Basta!... Eu não quero mais!

 

Raffa intrigado perguntou-lhe: -  Porque não pára?

 

Com um olhar duro e seco saiu. Somente na rua tomou consciência que malhara como se fosse a última... São Sebastião de certo dormira, que os fiéis resolveram silenciar o foguetório. Parou em uma confeitaria, comprou uma torta de morango. Comprou, ainda, uma vela grande e grossa.

 

Chegou em casa e ao abrir a porta sentiu como se fosse a última... Resolveu tomar um banho antes da chegada de Raffa. A banheira foi se enchendo vagarosamente como se fosse a última... A torta de morango colocada sobre a mesa, com a vela grande e grossa ao lado aguçava suas fantasias. Saiu do banho. Preparou-se pradormir”. Um sono longo e eterno, apenas de cuecas. A não chegada de Raffa lhe deixou um gosto de quero mais...Torta, morango, sexo, vela, sexo, morango, torta, vela, sexo... Ou de não quero mais.

 

tinha tomado a segunda caixa de Lexotan quando colocou uma música. O momento era propício... Tudo conspirava. Os sentidos... Primeiramente o tato. não sentia o seu corpo sobre a cama. Na terceira caixa a visão ficou turva. Viu uma mulher de nome Morte com uma enorme tesoura na mão. Com golpes rápidos cortou seus cabelos. Sua força foi sendo retirada... Mais e mais. A música de Cazuza tomou conta do quarto:

 

Nem Sansão, nem Dalila

Apenas dúvidas, feridas

Você me corta, trai e atrai

Mas é a vida, querida.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

A tensão sexual é bem explorada no texto dramático e angustiante. A explicitação precoce do suicídio, porém, dilui o mistério.

8

CRISTIANE BRUM

O clima de suspense é quase nulo com tantas passagens de pensamentos da personagem. As passagens bíblicas pareceram um pouco deslocadas a mim, em relação à personagem.

6,5

LIANA FERREIRA

O texto, bem escrito, trata de gostos e desgostos de um homossexual na meia idade. O tema escolhido é interessante e a escritora, utilizando uma linguagem deliciosa, faz uma boa abordagem do estado emocional da personagem, de suas reflexões acerca da vida e da sua sexualidade, erotismo e expectativas afetivas.

8,5

CIDA SEPÚLVEDA

Belo conto. Denso. Final ótimo. Apenas o "manhosamente" do 1o. parágrafo destoa bastante.

9

MARCO ANTUNES

Muito bom! Mesmo com alguns errinhos de ortografia e um excesso cansativo de palavrões, foi fiel aos parâmetros do conto de suspense. A personagem convence e o desfecho, mesmo pressentido, é inquietante!

9,6

TOTAL DO DESAFIO 2

41,6

TOTAL DO DESAFIO 1

33

TOTAL FINAL

74,6

 

 

 

 

 

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Conto 7

Autor:

Osmar Perazzo Lannes Jr.

Título

Dor

 O ruído de metal contra metal a despertou de seu langor involuntário. Engraçado, ela sempre nutrira uma certa antipatia por barulhos metálicos, aquela sinfonia burocrática que a remetia a forjas, a oficinas, a fábricas, a... isso mesmo !, observou, àqueles instrumentos de suplício da Idade Média. A lembrança foi imediata: calabouços, masmorras, bolas de chumbo cravejadas de pontas afiadas, a Dama de Ferro,...

    Outro som burocrático, este de origem humana, interrompeu aquela dolorosa associação de idéias:  - E aí, pronta pra brincadeira ?” O dono da voz entrou momentaneamente em seu campo de visão: “- Beleza ?

    - Desgraçado !”, ela pensou, sem conseguir transformar o sentimento em palavras. “- Pior ainda, FRIO !!!!”, bradou mentalmente. “Frio” ocupava um dos mais altos postos no seu panteão de ofensas. Ela detestava os que faziam pouco das dificuldades alheias, os que não se importavam com a dor do próximo. O que dizer, então, dos que infligiam dor aos seus semelhantes ? E, ainda por cima, com a cruel despreocupação dos indiferentes ?

 

    - Dor !”, ela respirou fundo. Por isso aquele homem. Por isso aquela situação em que se via: imobilizada, indefesa. À mercê dele, da sua vontade. À disposição dele, das suas decisões, dos seus gestos, das suas ações. Ela sabia que a dor era a causa e o objetivo de tudo ali. O argumento final e irrespondível, a ultima ratio regis – mas não apenas dos reis, assentiu tristemente de si para si.

    Estava deitada sobre uma superfície quase horizontal. Diretamente acima e bem próxima a ela, uma luminária emitia um foco de luz muito forte, forçando-a a manter seus olhos semicerrados. Breves episódios de escurecimento informavam-na que o rosto do homem tapava momentaneamente a luz e que, portanto, estava próximo ao seu próprio rosto. “- Parece um eclipse”, pensou ela. Numa dessas ocasiões, abriu totalmente os olhos e assustou-se ao encontrar os do homem a poucos centímetros dos seus. Só conseguiu notar os olhos dele: castanhos, sem nada de especial, a não ser aquela mesma indiferença da voz. Ele parecia examiná-la com alguma curiosidade, ou, talvez, com algo mais que isso: ela julgou ver naqueles olhos uma espécie de prazer, ou de entusiasmo antecipado. Ou seria só a antecipação de um trabalho a ser executado ? Um dos braços do homem tocou de raspão o lençol que cobria a sua roupa, na região do seu seio direito. O homem colocara este lençol, ou o que parecia ser um lençol, sobre ela, no momento em que a fizera deitar-se. “- Para não deixar manchas”, ele explicara, com um sorriso francamente irônico. “- Às vezes, sai sangue. Mas só às vezes”, acrescentara depois, encarando-a, como que para se certificar do efeito dessas palavras. Ela sentiu-se arrepiar.

    O homem escapara, novamente, da limitada porção de mundo que cabia a ela divisar. À falta de imagens, concentrou-se nos sons que vinham de um entorno ignoto. Os ruídos metálicos continuavam, em timbres variados, mas no mesmo encadeamento monótono. Não havia crescendos, rallentandos. Só staccatos ameaçadores, a sottovoce, uma sonoridade construída em ligas de metais desconhecidos. “- Metais em Brasa”, o nome de um antigo LP, talvez dos anos 50, assaltou-lhe a mente. Os metais que, muito em breve, invadiriam seu corpo. E, pela primeira vez, teve vontade de chorar.

    Deu-se conta, então, de que a espera era, em si mesma, parte de toda aquela pantomima. Talvez até, intuiu, a parte mais importante. Por que, afinal de contas, o homem demorava tanto para começar a fazer o que tinha de ser feito ? Por que ele continuava a reger os naipes de instrumentos cortantes, perfurantes, injetantes em algum canto escondido da realidade ? Por que ele se comprazia em brincar com o tempo? “- Que calor fazendo hoje !”, entoou a voz, interrompendo a litania de questões sem resposta. O comentário era absurdo, uma fala esquizofrênica, fora de lugar, fora de sentido.

    - Eu queria tanto que tudo acabasse bem rápido”, desejou ela. “- Ah, meu Deus, por favor !”, suplicou em silêncio, “fazei com que tudo acabe bem rápido”. O emprego da segunda pessoa do plural, só reservada a ocasiões especiais, dava a exata medida da sua angústia. Mas a brevidade – aquela brevidade por que tanto ansiava – dependia inteiramente do homem. Se ele quisesse começar logo, começaria logo. Se, ao contrário, ele quisesse prolongar a agonia... Tudo estava nas mãos dele. Ou na voz. Ele decidia. E só ele. Naquele momento e naquele local, ele era Deus, porque o tempo lhe pertencia.

    Um pensamento assim tão blasfemo, ela reconheceu, demonstrava que seus valores começavam a derreter. Então, era isso, ela compreendeu de chofre: a dor destrói as resistências físicas, mas, antes disso, a mera expectativa, a simples espera da dor inevitável destrói as resistências morais, as convicções, os princípios. Ondas de horrorizada compreensão espalharam-se por dentro dela, quebrando-se em espumas feitas de metáforas. A dor, ela comparou, é a carteira de identidade das nossas limitações animais, o passaporte que nos remete à viagem sem retorno para as fraquezas da condição humana. Construímos os templos da moralidade, das virtudes, dos ideais, na tola esperança de que eles franqueiem nossa entrada na imortalidade, mas a dor, ora – soluçou – , a dor nos rouba esta pretensão, a dor nos mostra que não passamos de uma essência inerme presa por um invólucro de carne, tendões e cartilagens. Sentiu-se afundar no pântano do seu desespero. A dor, reconheceu, nos reduz a combinações aleatórias de moléculas, nervos e enzimas, reunidos à força por algum acaso ou decisão, mas sempre prontos a se dispersar pelo universo das entropias incontroláveis, tão logo afrouxam-se os grilhões vitais que os mantêm juntos. A velocidade com que se sucediam os pensamentos parecia acompanhar a elevação da intensidade dos barulhos metálicos desfechados metodicamente pelo homem. Então, concluiu ela, ao mesmo tempo em que sentia contrações involuntárias em seus membros, então, era precisamente essa a gênese das verdades extorquidas pela tortura, as que vinham ao mundo banhadas em sangue, derrota e humilhação ! Nomes isolados aproveitaram a derrocada de suas muralhas emocionais para invadir sua consciência: Holocausto, Torquemada, Lublianka, Abu Ghraib...

    Uma palavra, entretanto, foi guindada ao topo do dossel que encimava o palco da sua agonia: tortura. É disso que se tratava. A tortura. O sofrimento de que apenas ouvira falar, e que parecia tão distante nos livros de História e nos filmes classe B. Algo que, assim como a doença e a morte, só acontece aos outros. Mas que, entendeu desamparada, estava acontecendo a ela, naquele exato instante.

    Sentiu-se estremecer. Ao ritmo das percussões metálicas, cada vez mais fortes e cada vez mais próximas, as emoções perdiam o fio condutor, como pedras de um rosário partido que fugiam em todas as direções. Fechou os olhos. Sua respiração se acelerava, como se o ar tivesse dificuldade em percorrer os caminhos do seu corpo. O sangue parecia fluir tão rapidamente que deixava  trilhas geladas em sua pele. Suor brotava em todo o seu corpo, prendendo-o às suas roupas como por obra de uma cola líquida. De súbito, um silvo agudo, inesperado, elevou-a a novos patamares de desorientação. Era como uma serra elétrica, ou um assobio metálico, bem perto do seu ouvido esquerdo. Em sua mente embotada pelo terror, via membros decepados, mocinhas amarradas a trilhos de trem.

     Seu coração disparou quando as primeiras peças de metal passaram velozes por seu olhar aturdido. As mãos do homem a tocaram, fazendo-a encolher-se sem sucesso. Sentiu a presença quase física do cheiro do corpo dele, uma combinação improvável de chá verde, ferro e sofrimento. A luz parecia diminuir. O homem estava, agora, quase sobre ela. A voz surgiu novamente, do subsolo do seu estupor: “- Vamos ver se você é corajosa mesmo !”, ameaçou. Então, ela resignou-se, chegara, enfim, a hora. Ia começar. “- Vamos ver onde dói mais !”, o homem anunciou. O mundo todo começou a girar. A angústia, a submissão, os sons, o desamparo, a luz, tudo, tudo era sugado por um grande vórtice, que levava o universo inteiro para os porões da tortura e da dor. Com o resto de consciência de que dispunha, sentiu-se carregada para um anti-orgasmo, o êxtase maldito, a lúgubre  petite mort que antecipava a outra, a verdadeira morte.

    Desejou gritar. Abriu a boca, mas não emitiu qualquer som.

    E quando o motor começou o trabalho de desgaste e perfuração, jurou a si mesma que aquela era a última vez em que ia ao dentista.

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Talvez por ser odontofóbica, já no terceiro parágrafo imaginei tratar-se de uma ida ao dentista. O final não faz jus à riquíssima ambientação do texto nem às elaboradas reflexões sobre a dor. Não fosse o último parágrafo, que empobrece, engessa o conto, este mereceria nota máxima.

9

CRISTIANE BRUM

Bom texto, engana o leitor sobre o final até boa parte da narração e cria o suspense sobre os acontecimentos. Gostei do tom mórbido e da boa descrição dos sentimentos da personagem conectados à idéia da tortura.

9

LIANA FERREIRA

Talvez não sejam mais que três minutos o tempo de abrangência da situação objeto deste conto. Nada escapou à perspicaz observação do contista que se esmera na narrativa e no bom uso da língua. As inserções do pensamento da personagem ao longo da história criam um laço afetivo com o leitor, uma empatia que nos leva a experimentar o seu sofrimento. O suspense está muito bem provocado e o desfecho, surpreendente, é de fazer rir. Gosto desta fórmula.

10

CIDA SEPÚLVEDA

Belíssimo. Filosófico. O fechamento poderia ser em "verdadeira morte". Realçaria o suspense em vez de explicá-lo.

9,5

MARCO ANTUNES

Perfeito! Uso delicioso dos recursos do suspense para o humor, um toque de elegância narrativa, referências políticas no campo semântico escolhido, permitindo ao leitor a catarse e o trazendo preso à narrativa por um elo de emoção e angústia!

10

TOTAL DO DESAFIO 2

47,5

TOTAL DO DESAFIO 1

47,9

TOTAL FINAL

95,4

 

 

 

 

 

 

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Conto 8

Autor:

Marcya Reis

Título

Ratos e ratos

Roc-roc-roc-roc-roc... A roedura não parava. Sons de patinhas correndo de um lado para o outro. De vez em quando, uns chiadinhos trocados, como se fossem indicações de tarefas a serem executadas. Muito engraçado! Roc-roc-roc-roc-roc... Pareciam até trabalhadores empenhados na concepção de um objetivo comum, operários incansáveis no fervor ininterrupto do dever. Não se mostravam, os tímidos, mas o barulhinho que faziam na labuta dedicada se ouvia na casa toda. Roc-roc-roc-roc-roc...

 

Por isso, há semanas que Ed não conseguia dormir. De manhã, via bostinhas, pêlos, pedacinhos mínimos de madeira roída por todo o lado – vestígios dos invisíveis. Devia engolir um monte desses dejetos nos momentos em que ressonava, babando exausto da insônia, de boca aberta. Mas ele se perturbava muito menos com a sujeira que com o saber dos bichos ali, como que conspirando, a noite inteira. Já estava ficando paranóico. Logo ele, que achava esse negócio de paranóia uma frescura.

 

Ednaldo era um cara que a gente pode chamar de repulsivo. Além de grosso, era porco, com uma vocação natural para a sujeira. Na construção onde trabalhava, era conhecido pela alcunha de “Fed”. Ninguém queria ficar muito perto dele – os colegas tinham medo de levar um coice ou pegar umas pulgas. Chegava em casa daquele jeito; banho, que é bom, nada. Pelo menos não tinha amigos, nem parentes próximos; morava só, num sobradinho desmontando, de um subúrbio pouco familiar da cidade. A casa inteira cheirava mal, fedor acre de descaso, podre, azedo, mofado, tudo junto.

 

Mas Ed vivia bem, dentro da sordidez comum a seu dia-a-dia. Ele não se importava com nada. Até que, uma noite, enquanto palitava as sobras do jantar nos dentes com a ponta de uma faca, ouviu um barulho esquisito. Vinha da embalagem de alumínio do prato feito de anteontem, que ainda estava no chão, perto da lixeira transbordando mais de duas semanas de porcariada.

 

Num súbito interesse, levantou o olhar. O recipiente se mexeu. Ednaldo aproximou-se, na espreita. A quentinha pressentiu o perigo e aquietou-se. De um pulo, Ed levantou a embalagem rapidamente e descobriu: era um rato enorme de gordo. O bicho saiu correndo apavorado – acho que ficou enojado da visão –, mas Ed não podia deixá-lo escapar. No impulso, atirou a faca e acertou em cheio o ventre do animal, que caiu estrebuchando num guincho sofrido e estridente.

 

Ed chegou mais perto para ver o resultado de sua obra. Puxou a faca. A criatura triste revirava-se na agonia, banhada em sangue quente. Com a maior satisfação, Ed viu saírem daquela barriga uns dez fetos. “A cretina da ratazana tava prenha! Ia encher a minha casa de gabiru, a desgraçada.” Alguns dos recém-nascidos pareciam estar vivos. Contorciam-se no meio de um muco repugnante, desesperados pela vida. Não adiantou. Um pisão os esmigalhou todinhos. Rindo-se, Ed olhou para a sola do pé. “Tão pensando que iam escapar, otários?”

 

Roc-roc-roc-roc-roc... Desse dia em diante, perdeu o sossego que tinha – uma vez que a companhia das moscas já não o incomodava há tempos. “Não agüento mais essa praga na minha cabeça!” Num vaivém incessante, os roedores continuavam seu labor. “O que será que tanto fazem, esses diabos?” Roc-roc-roc-roc-roc... Numa intrigante obstinação, os ratinhos tocavam a empreitada, sem recear nem um pouco as ameaças daquele sujeito asqueroso. Se duvidar, até se divertiam com isso. Agora, o forro do teto do sobrado era o palco principal do espetáculo. Curioso... Às vezes parecia até uma orquestra, tão ritmada e constante! Fosse Ed uma pessoa menos rude, teria notado a beleza da execução. Roc-roc-roc-roc-roc... “Acabem com essa zoeiraaa!”

 

Farto do ruído interminável, Ed resolveu contra-atacar. Arrumou umas dez ratoeiras e colocou-as em todos os cantos possíveis. Passados uns dias, viu que não adiantava, era como se nada houvesse: estranhamente, foram todas ignoradas. Aquele queijo fétido ficava ali, apodrecendo, de ração para as baratas engordarem. “Merda, vociferou Ed, em seu costumeiro palavreado. “Ainda fui gastar dinheiro com rato!”

 

Arrumou, então, um gato vagabundo, com a incumbência de exterminar os invasores. Mas o felino não agüentou, nem os maus tratos nem as refeições – restos do Ed. Certamente, algumas lixeiras do bairro tinham coisa melhor. O bichano foi namorar em cima do muro e fugiu de vez, não sem antes colaborar com a percussão dos incansáveis roedores cantando uma melodia tortuosa durante a noitada. “ mancomunado com os ratos, imbecil? Vai! Passa fora, porqueira”, praguejou Ed, atirando um sapato pestilento no bicho.

 

Roc-roc-roc-roc-roc... Me deixem em paz!” Começou a achar que estava ficando maluco. “É isso que vocês querem! Me enlouquecer!” Roc-roc-roc-roc-roc...

 

Já era dia claro quando Ed fechou os olhos.

 

Assim que o homem adormeceu, os ratos silenciaram, pela primeira vez. Logo começaram a sair de suas tocas e, em pouco tempo, um bando imenso correu para fora do casarão, em plena luz do sol. Dezenas deles: grandes, pequenos, rechonchudos, magrelos, saíram aos trambolhões, por cima uns dos outros, numa debandada em desvario. Pessoas na rua gritaram, mulheres fecharam portas e janelas. Parecia uma praga do Egito, que o mundo ia se acabar, disseram alguns. Mas os pequeninos queriam apenas se esconder de novo, desaparecer na escuridão fraternal de um bueiro, libertos, para sempre. Tinham terminado, enfim.

 

De repente, ouviu-se um grito lancinante de pavor. Um estrondo terrível sacudiu a rua toda. A poeira subiu alto. Chamaram os bombeiros, que demoraram muito a chegar. Os vizinhos nem lamentaram tanto. “Casa velha, era questão de tempo acontecer uma tragédia”, disse um. “O sujeito que morava ali não cuidava de nada, o lugar ficava um lixo, abandonado aos ratos” concluiu outro. “Que Deus o tenha. Ainda bem que alma não fede”, finalizaram, com mal disfarçados sorrisinhos. Os seres humanos sabem ser insensíveis à desgraça alheia. 

 

Mas os ratos, não. Unidos, conhecem a força que têm juntos, para perpetuar a espécie. Precavidos, se preservam. Só gostam de passear fora dos esgotos à luz do luar, quando conseguem relaxar, se esquivar da perpétua perseguição. É assim que eles dissipam suas dores de excluídos da convivência pacífica com os outros animais, condenados que são pelo estigma da imundície que carregam. Isso, até o dia em que se cansarem de assumir a escória da Terra. Inteligentes como são, seriam capazes de tudo.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Título e texto ótimos. A atmosfera repulsiva é tão bem construída que dá náuseas. Algumas frases explicativas estão sobrando, assim como o último parágrafo. O conto parece levar a um desfecho que não se concretiza e que talvez fosse mais eficiente: o “rato” sendo devorado pelos ratos.

9

CRISTIANE BRUM

A descrição do Ednaldo-rato-homem oferece uma boa comparação para o leitor. A cena com a ratazana dá a idéia exata de quem ele é, mais do que todos os adjetivos que pudessem ser incluídos no texto, o que é algo muito bom. Achei que o suspense ficou um pouco diluído no texto, mas o final é bastante criativo.

9

LIANA FERREIRA

Um bando alvoroçado de ratos sai pelo mundo em incontido júbilo, após ter roído as estruturas da casa de um sujeito desprezível e imundo. É uma história interessante, tem ritmo e está muito bem contada. O perfil do Fed está minuciosamente construído e a descrição da atividade dos protagonistas está bem circunstanciada, o que é bastante para prender a atenção do leitor. Só acho que algumas almas fedem, sim! Roc-roc-roc-roc-roc...

10

CIDA SEPÚLVEDA

Não percebo suspense, mas horror. Bem escrito, embora uma certa ingenuidade no que tange ao filosófico

7

MARCO ANTUNES

Em relação ao último conto da autora, houve uma queda assustadora! Embora estejam aqui os elementos do suspense, o enredo é frágil e dificilmente empolgará seus leitores. Destaco que o excesso de referências ao ambiente nojento me pareceu meio apelativo.

7,5

TOTAL DO DESAFIO 2

42,5

TOTAL DO DESAFIO 1

48,3

TOTAL FINAL

90,8

 

 

 

 

 

 

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Conto 9

Autor:

Ray Cunha

Título

Um caso de Apolo Brito

O frio, naquele ano, era mais intenso do que em anos anteriores. As pessoas passavam apressadas, nos seus agasalhos, pelo campo visual de Esmeralda. Na sala, pairava o silêncio e um cheiro bom de café recém coado. De repente, a mulher que esperava por Apolo Brito levantou-se e pôs-se a andar de um lado para outro. Lembrava uma potranca. Esmeralda acostumara-se a ver entrar, ali, todo tipo de beldade, mas não tão bonitas quanto aquela. Tinha os cabelos longos e abundantes, louros, e olhos verdes escuros.

            - A senhora quer um cigarro? - ofereceu-lhe. Ela interrompeu o vai-vem e apanhou o cigarro.

            - Obrigada! - disse, apanhando o Charm que Esmeralda lhe estendeu.

            - O sr. Apolo não passa das dez - tranqüilizou-a.

            Com efeito, o detetive chegou às dez em ponto. Cumprimentou as duas mulheres, cruzou a sala e entrou no seu gabinete. Esmeralda deixou passar um pouco e entrou também no gabinete, demorando-se lá uns três minutos. Ao sair, disse à senhora para entrar.

            Apolo Brito aguardava-a sentado quase de costas para a porta olhando através de uma fresta na persiana a rua no Setor Comercial Sul. Voltou-se e a convidou a sentar-se. Tinha as mãos grandes e peludas - elas tremiam ligeiramente.

            - Vamos tomar café? - disse Apolo. Sua voz era firme e seus olhos negros, ternos.

            - Vamos - disse a mulher, dominada por ele.

            Esmeralda entrou com uma bandeja de prata, um bule também de prata e um açucareiro e xícaras de porcelana, com as respectivas colherinhas de prata.

            Tomaram café em silêncio.

            - Fique à vontade e me conte tudo - disse Apolo Brito. - Nós somos como os psicanalistas. Temos de saber tudo. Às vezes, uma coisa que parece não ter importância é o que nos leva a descobrir o que nos interessa. - Fez uma pausa. - Não se preocupe quanto ao sigilo - disse.

            - O problema é com a minha filha.

            Frênia tinha quatorze anos, um metro e sessenta e cinco, cinqüenta quilos, os olhos verdes da mãe, e era ruiva. “É de fazer Vladimir Nabocov se babar” – pensou Apolo Brito.

            - De uns tempos para cá, ela anda tão estranha, calada, nervosa, quase histérica. Quis mandá-la para a França, Lyon, para passar uma temporada com a tia, mas o padrasto se opôs. Já tentei conversar com ela de todas as maneiras, inutilmente – disse a mulher, apresentando uma foto ao detetive.

            Frênia estava entre a mãe e o padrasto, um tipo muito elegante - seus cabelos começavam a ficar grisalhos nas têmporas, mas não lhe tiravam a impressão de atleta em plena forma. Tratava-se de um trio cinematográfico, mas Frênia, ainda assim, se destacava entre os três. Nela, a sensualidade se continha à beira da explosão. É claro que pessoas como aquela não podiam andar normalmente na rua. Frênia era levada de automóvel para a escola, uma escola de freiras, discreta, e trazida de volta no mesmo automóvel. Freqüentava um clube fechado. Ia, com freqüência, a São Paulo e Rio de Janeiro. Desde que começou a agir estranhamente, no entanto, só saía de casa para incursões misteriosas, sempre de táxi.

            No dia seguinte, Apolo estacionou próximo ao portão da casa de Frênia e esperou. Uma hora e meia depois, ela deixou a casa, de táxi, com destino ao ParkShopping. Andou à toa, parando aqui e ali, diante das vitrines, até sair do prédio e tomar outro táxi, desta vez rumando para o Núcleo Bandeirante. Entrou no Village. Apolo estacionou próximo ao motel e ficou imaginando com quem Frênia iria se encontrar. Cerca de meia hora depois viu-o chegar. “Diabo! É o padrasto da ninfeta!” - disse, e ficou esperando o que ia acontecer.

            Já anoitecia quando viu um táxi entrar e sair com a menina. Ligou o carro para segui-la, pensou um pouco e resolveu aguardar mais. Momentos depois, viu-o deixar o motel e seguiu-o até o Florentino, um restaurante freqüentado por políticos e funcionários graduados do governo. Não se demorou lá, voltando, a seguir, para casa, dirigindo o que Apolo Brito supôs ser seu próprio automóvel.

            - Sua filha não se encontra com ninguém - disse Apolo Brito à mãe da ninfeta. - Mas estou certo de que ela precisa fazer aquela viagem a Lyon, embora seu marido se oponha. Mesmo assim ela deve ir. Tire sua filha desta cidade; mande-a para bem longe daqui, de preferência para Lyon. Já estive lá. É uma boa cidade.

            - Não compreendo... - disse a mulher.

            Apolo Brito se levantou, foi até a janela. O Setor Comercial Sul morria na tarde de sábado. Ao voltar para sua poltrona, seus olhos estavam úmidos e bondosos.

            - Tire sua filha desta cidade - disse, em um tom de voz terno, mas também duro.

            - Por quê?

            - A cidade não lhe faz bem - disse, evasivamente.

            - O senhor descobriu alguma coisa muito grave e não quer me dizer. É seu dever me dizer o que é; estou pagando...

            Apolo Brito pensou um pouco.

            - Ainda não tenho certeza. Só acho que a senhora está perdendo tempo deixando-a aqui. - Fez uma pausa e disse, em tom de apelo: - Leve-a para Lyon, amanhã! Quanto ao dinheiro, não tem importância...

            Naquela noite, Apolo resolveu dar uma espiada na casa de Frênia, na Península dos Ministros, bairro chique de Brasília. Chegou a tempo de ver sair um táxi com a ninfeta, que, minutos depois, descia numa casa em um ponto pouco povoado do Lago Sul. O morador mais perto dali ficava a uns quinhentos metros de distância. Apolo Brito estacionou o carro próximo à entrada da casa e ficou aguardando. Passado algum tempo, chegou outro táxi, dessa vez com a mãe da ninfeta, que entrou apressada na casa. Pouco depois, Apolo Brito ouviu um estampido. Arrancou em direção à casa, freou e entrou voando portão adentro. Ventava como o diabo.

            A porta cedeu ao pisão. Entrou, olhou para cima e subiu as escadas de três em três degraus. No alto, viu um corredor e luz saindo da porta de um dos quartos. Correu para lá e parou na porta, com a Luger na mão. Lá dentro, sobre o tapete, jazia um homem. Seus cabelos grisalhos nas têmporas estavam manchados de sangue. Parecia que ele tinha ficado de lado de propósito para que a loura o acertasse do modo como acertou. A bala entrou pela têmpora direita e saiu pela têmpora esquerda. Na cama, abraçadas, mãe e filha choravam. A ninfeta estava nua, coberta apenas pelos cabelos de cobre, que lhe caíam nos ombros como uma cascata de metal fundido. Apolo pegou as roupas da menina e as estendeu a ela.

            - Vou levá-las para local seguro - disse-lhes. - Temos que ir logo!

            As luzes piscavam na imensidão do cerrado. As árvores curvavam-se ao vento. O Alfa Romeu cortava a noite velozmente. As duas mulheres continuavam abraçadas no banco de trás, misturando seus cabelos de ouro e cobre. Apolo Brito acionou o toca-fitas. Ouviram Debussy.

- É verão em Lyon - disse ele, com o pensamento longe.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Este enredo policial é previsível e não causa expectativa. A ambientação em Brasília é interessante.

7,5

CRISTIANE BRUM

O final é meio óbvio e o suspense poderia ter sido melhor desenvolvido durante o texto. A expressão “potranca” na boca ou nos pensamentos de uma mulher me pareceu muito inverossímil, ainda mais para alguém chamada Esmeralda. As citações do Vladimir Nabocov e de Lyon pelo detetive, ainda que colaborem com o clima e não sejam completamente impossíveis, ficam meio descabidas vindas do Apolo.

7

LIANA FERREIRA

Está bem escrito . A linguagem utilizada é clara, não rebusca. No entanto, há apenas um ensaio de suspense, pois o encadeamento de algumas idéias antes da metade da história, torna previsível o desfecho. Chama a atenção, também, o comportamento do detetive. Esse Apolo Brito, que no começo da história é descrito como bem sucedido, o que nos leva a imaginá-lo como um profissional competente, de repente confunde os papéis sociais e assume uma atitude paternal, imiscuindo-se nos problemas domésticos da cliente, comportamento estranho que não condiz com a sua posição no episódio. Se o perfil não está muito bem ajustado à profissão, o nome está: é perfeito.

7,5

CIDA SEPÚLVEDA

Simples, convincente, delicado

9

MARCO ANTUNES

O suspense, meio inverossímil, com ares de filme noir, tem seu charme. O clima se mantém até o final e o resultado é bem satisfatório.

8

TOTAL DO DESAFIO 2

39

TOTAL DO DESAFIO 1

37,2

TOTAL FINAL

76,2

 

 

 

 

 

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Conto 10

Autor:

Roberto Klotz

Título

Casa para alugar

Cecília retornou à cidade natal depois de ser escolhida entre uma centena de candidatos à vaga na indústria de laticínios. Cecília queria o emprego. Cecília precisava do emprego, mas acima de tudo Cecília queria resgatar o passado.

Aconteceu na última quarta-feira de agosto de 1947. Na semana anterior Cecília soprou quatro velinhas brancas e ganhou uma caixinha de música. Tudo foi muito rápido. Ela acordou no meio da noite com o barulho de vidro estilhaçando no chão. Em seguida gritos e mais gritos. Um estampido forte e mais outro estampido. Depois, o silêncio. Não teve coragem de abrir a porta. Deu corda na caixinha de música e esperou a mãe. Ou o pai. E deu mais uma vez corda na caixinha de música. E mais outra vez. E mais outra vez. E outra vez mais. Nem pai, nem mãe. Só de manhã, quando o sol espiou pela janela a tia entrou no quarto, abraçou Cecília e pegou-a no colo. Ainda de pijama entraram no carro e viajaram. Cecília não chorou, Cecília não perguntou. Cecília não ouviu. Apenas viajaram. Cecília nunca mais viu seus pais.

Agora, moça feita, estudiosa, bonita e seios fartos. Formou-se na primeira turma de engenharia de alimentos. Aos vinte e cinco anos tinha diploma e três anos de experiência na fabricação de queijos. Voltou para ser gerente de qualidade na maior indústria da região. Era uma vencedora. Hospedou-se em um pequeno hotel. Tinha quinze dias para encontrar moradia e se instalar. Seria muito fácil. Tinha apenas livros e poucas roupas.

Cecília não conhecia a cidade e procurou uma casa próxima à fabrica. Nada agradava. Não queria uma daquelas casas geminadas. Tampouco queria lugar com árvores pequenas. Não havia muitas opções na pequena cidade. A dona da imobiliária sugeriu uma casinha mobiliada de dois pisos próxima à praça do coreto. Era perto da igreja, próximo ao banco e também tinha comércio além da padaria. Seria o lugar ideal para morar.

Pegou a chave na corretora e foi a pé até o endereço com a placa de aluga-se.

Abriu o portão de madeira, deu cinco passos à frente e enfiou a chave, girou duas voltas e a porta se abriu. A sala era pequenininha. Duas poltronas, uma radiola e uma estante com uns vinte livros enquanto do outro lado havia uma mesa redonda e um balcão onde deveria estar a louça. Cecília foi até a janela e puxou a cortina empoeirada. Queria mais luz, queria ar. Precisava de ar.

Cecília olhou para a cozinha, mas dirigiu-se para a escada. Parou antes do primeiro degrau, pousou a mão no corrimão e olhou para cima. Fechou os olhos para concentrar a audição nos ruídos da casa. Pé ante pé começou a escalada. Pensou que já tinha olhado outras casas na cidade e que não havia motivo para ter receio de entrar em qualquer casa. – Mas esta tem ruídos – falou alto. Mais um passo e a madeira ressecada gemeu com o peso da visitante. Cecília parou e apurou a audição novamente. Não sabia se a música vinha de dentro ou de fora. Bem suave. Quase inaudível. Cecília chegou ao patamar do meio da escada, virou para a direita e continuou vagarosamente a ouvir os lamentos da madeira do piso em dueto com os passos. Mais dois choros e alcançou o segundo piso.

Era um corredor estreito e iluminado por janelinha suja de tempo. Havia três portas fechadas. Cecília intuiu que a primeira porta seria a do banheiro. Sem receios, segura, abriu e confirmou sua expectativa. A segurança foi trocada pela dúvida. Avançou mais dois passos e estancou na frente da segunda porta. Os joelhos fraquejaram.  Cecília respirou fundo e colocou a mão esquerda na maçaneta girando o trinco dourado. A porta que estava destrancada abriu-se lentamente. Não havia nenhuma luz naquele quarto. A música vinha dali, agora tinha certeza. Não era qualquer música. Vinha da caixinha de música. Não sabia se de dentro ou de fora da sua cabeça.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Os acontecimentos se precipitam sem que o leitor tenha tempo de assimilá-los. A narrativa não flui pelo excesso de frases curtas, sem encadeamento. É preciso corrigir os tempos verbais no segundo parágrafo e fazer revisão ortográfica.

7

CRISTIANE BRUM

Creio que o texto ganharia em intensidade se a morte dos pais da personagem fosse narrada no fim da história, e não no começo. A cena dela entrando na casa é bem interessante, mas o final ficou meio forçado, sem resolução, como se o autor não tivesse melhor idéia de como acabar a história e explicar a música. A última frase não deixa que o leitor conclua o óbvio, que é a sensação de nostalgia dela. Acho que ficaria melhor sem ela.

7,5

LIANA FERREIRA

O nome da protagonista está repetido em demasia, tornando a leitura cansativa. A história, embora não se enquadre perfeitamente no gênero suspense, está bem estruturada e ganha em qualidade quando o autor opta pela sutileza e leveza, em vez de enveredar pelo caminho do terror e da violência explícita.

8

CIDA SEPÚLVEDA

Belo enredo. Falta à personagem um certo campo psíquico. Ficou muito estilizada, esteriotipada e ingênua. A linguagem necessita de retoques.

7,5

MARCO ANTUNES

Embora um tanto previsível quanto ao desfecho, o conto atende com delicada competência ao solicitado. Trata-se de um suspense bem resolvido e elegante.

8,5

TOTAL DO DESAFIO 2

38,5

TOTAL DO DESAFIO 1

37

TOTAL FINAL

75,5

 

 

 

 

 

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Conto 11

Autor:

Márcio Arnaldo Borges

Título

O Testamento

“Um, dois, três...” Começou, prudentemente, como quem espera encontrar um degrau falso no caminho. No portal, perto de onde as nuvens lançam carícias sobre a torre da construção, era onde o musgo parecia terminar. Úmido e escorregadio, grudado como pele no granito, fez o homem tropeçar mais de uma vez antes mesmo de contar vinte passos.

– Inferno! Bastava ser tarde! Onde esteve com o juízo, Simão, para aceitar vir aqui?

Mesmo o Tobias havia desdenhado da tarefa. “O maldito e ganancioso Tobias”, repetia entre os dentes, o advogado. “A intuição é conselheira, camarada! Não traço caminhos perpendiculares no rumo do dinheiro fácil”. O crápula parecia estar certo, mais uma vez!

Arquejou contra a elevação, roçando as pedras com a ponta dos dedos à procura do equilíbrio, carregando a mala de couro sintético puído nos cantos, arfando.

Quando o vento soprou mais forte contra seu corpo, trazendo o frio cortante que vem com a chuva gelada e que parecia não demorar, deixou-se despencar sentado sobre o degrau: “cento e quinze”!

Olhou sobre os ombros entrevendo, abatido, a fachada que se erguia à distancia de mais da metade do caminho.

– Se me levantar agora, farei meu próprio testamento!

O homem havia ligado pela manhã, mas a história não chegou primeiro à sua mesa. Aliás, ninguém parecia lembrar-se da sala à esquerda, no final do corredor, a menos que nenhum dos outros doutores da “Mendes & Associados” demonstrasse interesse pelo assunto. No começo, o homem alto e gordo digeriu razoavelmente a situação: era um novato, condição que herdou do Tobias. O contrato firmado com o dono do escritório, o senhor Adolfo Mendes, não exigia de si nenhuma cota de desempenho, mas era preciso sujar as mãos, de vez em quando. Além disso, ressentia-se do pouco dinheiro que tinha para comer, vestir-se e pagar o aluguel do quarto minúsculo, dividido com um gato, uma prateleira de livros de direito e uma outra cheia das ficções de Perry Rodan – com que, aos trinta e poucos anos, ainda se divertia!

– Meu próprio testamento, é o que me espera!

Começava a temer que fosse representar um dos clichês de Hitchcock, num castelo cheio de portas rangentes e segredos perdidos dentro de cômodos trancados com a recomendação para que não fossem abertos. Talvez o trabalho que o esperava não tivesse relação com o testamento de um velho moribundo, ansioso para legar suas relíquias decadentes para um sobrinho distante ou um mordomo afetado. Não! Estava prestes a ser servido em retalhos temperados no molho do próprio sangue sobre a mesa de seres vampirescos, ávidos por sorvê-lo antes que perdesse o calor natural.

A ironia criada pela frustração da sua mente exausta, ligou em Simão alguns neurônios de autodefesa. Num súbito, entendeu que a escuridão começava a ser anunciada pelas últimas aparições do sol miúdo, através das nuvens agora carregadas e das copas das árvores que ladeiam a escadaria. “Uma verdadeira floresta”, admitiu o advogado. “Uma floresta povoada por pássaros de cantos risonhos e insetos saltitantes”.

Antes que pudesse reagir, as partes desprotegidas do enorme corpo de Simão foram tomadas por mosquitos, cujas picadas criaram protuberâncias instantâneas e doloridas. Quem sabe, eles estiveram ali desde o lapso em que desmoronou sobre os degraus e o fugaz delírio de há poucos momentos, mas, agora que os havia percebido, levantou-se a contragosto, espalmou contra os visitantes indesejados e ajeitou o paletó.

Olhou para baixo e depois para cima, duvidando que ambos os caminhos lhe reservassem as melhores opções. Não é que fosse um covarde. A dúvida era se conseguiria chegar ileso ao calor de uma lareira – se é que o anfitrião fosse dado a hábitos hospitaleiros – ou se a conveniência exigia atrasar o compromisso até o dia seguinte.

Pensou, então, na despensa vazia e nos comentários sarcásticos de que seria alvo no escritório e, como quem se conforma com o destino incômodo, aumentou o passo na direção do portal.

Seria capaz de trocar todas as brochuras de Perry Rodan pela capacidade de teletransportar-se uma única vez. Melhor: ele os trocaria, de boa vontade, por um guarda-chuva, eis que a garoa, que ainda resistia a completar o ambiente soturno da sua desventura, começou, finalmente, a cair.

Custaram-lhe vinte minutos para atingir a enorme entrada, onde duas gárgulas, encravadas no muro rochoso, o saudaram pouco amistosas.

A visão da propriedade não ajudou a confortá-lo. As trilhas que margeavam a grandiosa residência, atrás da qual despontava uma torre ainda mais alta, pareciam ter sido abertas por animais. Para ir do portão, previamente escancarado, até a porta gigantesca, fabricada em carvalho carcomido, atravessaria um matagal imenso. Não havia uma calçada para guiá-lo. No chão distinguiam-se, aqui e ali, os contornos baixos do que talvez tivessem, um dia, sido os limites de um jardim.

– Santo Deus! Seria impressionante encontrar um telefone lá dentro!

Pisando sobre as pedras que definiam os cercados das plantas, e assim, quase como a percorrer um labirinto sob a chuva, cada vez mais compacta, chegou, finalmente, à soleira, na entrada descomunal do castelo.

Postadas sobre duas colunas, uma em cada lado da porta, duas esfinges esculpidas em pedra observaram, com sua apatia estática, a chegada do intruso.

As portas, que não tinham fechaduras, estavam cerradas e ninguém acudiu às batidas de Simão. “Talvez por causa do barulho da chuva”, imaginou.

Empurrou-as timidamente e as fez ceder, sem dificuldade.

Gritou, mas não foi atendido.

Não havia luz no castelo, contudo, a réstia de sol permitiu divisar, em uma espécie de painel de bronze, uma tocha presa por armação em cuja base pendia um recipiente cheio de um óleo amarelado e espesso.

Tirando um isqueiro da pasta, cuidando para não encharcar os papéis, meteu fogo no óleo, que iluminou uma parte do grande salão. Acendeu a tocha.

Não gastou muito tempo para descobrir que sua presença, ali, era um fabuloso equívoco: os móveis, cobertos por panos que há muito deveriam ser brancos, não chegavam a contrastar com o piso, onde uma densa camada de poeira fornecia a tela para que os ratos nela gravassem os seus caminhos.

As paredes eram enfeitadas por dezenas de molduras de onde deveriam ter-lhes sido arrancadas as pinturas. Menos uma, na subida de uma escadaria.

Caminhou em direção da parede oposta, aproximando-se da obra de arte para mirar-lhe o conteúdo, curiosamente brilhante em relação às demais mobílias, de aparência ocre.

Foi andando e assimilando. Pouco a pouco. Repentinamente, ao compreender a cena estampada diante dos seus olhos, parou hirto.

Na tela, um distinto cavalheiro, empunhando uma tocha, estava a fitar um espelho. Atrás de si, refletidas, as imagens de duas gárgulas e duas esfinges, caminhando em sua direção.

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Foi uma delícia ler este conto. O enredo bem dosado nos conduz passo a passo ao final de arrepiar! Apenas uma frase poética no primeiro parágrafo destoa do clima sombrio. Há erro de concordância. É preciso ajustar alguns tempos verbais.

9,5

CRISTIANE BRUM

O fim é bastante fantástico, como cabe bem às histórias de suspense. Entretanto, não me pareceu muito adequado ao restante do tom do texto, objetivo demais. Além disso, não é uma idéia muito original, pois aproveita imagens clássicas de filmes de terror: floresta, chuva, casa/castelo abandonado.

7

LIANA FERREIRA

Um conto bem estruturado, dinâmico, no qual um advogado alto e gordo passa maus momentos para chegar, à noitinha, embaixo de chuva e de picadas de mosquitos, a uma velha e esquecida casa onde alguém, supostamente, necessita de seus serviços. Para chegar lá foi preciso atravessar “uma floresta povoada por pássaros de cantos risonhos e insetos saltitantes”. Quando Simão por fim chega a casa e entra, o leitor entra com ele. Mas não estão sozinhos...

10

CIDA SEPÚLVEDA

Clássico. Bem escrito. O fechamento (os dois últimos parágrafos) perdem qualidade em relação ao texto geral.

8

MARCO ANTUNES

Excelente domínio da técnica do suspense na modalidade aventura. Linguagem bem trabalhada, consegue despertar a angústia no leitor e o levar até o fim no ritmo da narrativa.

9,5

TOTAL DO DESAFIO 2

44

TOTAL DO DESAFIO 1

41,3

TOTAL FINAL

85,3

 

 

 

 

 

 

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Conto 12

Autor:

Artur Adolfo Cotias E Silva

Título

Com a frieza da cera

Diante da acanhada porta de vidro ainda hesitou o que lhe pareceu uma eternidade sobre se devia mesmo entrar. Não possuía antecedentes criminais. Aquela seria sua estréia, sua entrada em um mundo novo, um mundo que desde sempre o rodeara ¾ como uma jibóia que, silenciosa, cerca e envolve sua presa ¾, mas que ainda não conseguira abraçá-lo. Tivera uma infância pobre. Talvez pudesse mesmo ser considerado um miserável, um daqueles tipos que iriam servir de inspiração para Victor Hugo criar os personagens de seu clássico romance. Nem a Revolução fora capaz de lhe trazer vantagens. Mas ainda assim acreditava nos propósitos. Estivesse lá no 14 de julho e também ele teria tomado a Bastilha. Seus companheiros de infância sempre praticaram pequenos furtos para sobreviver: algumas frutas, depois um relógio, uma carteira. Mas não ele. Nunca se envolvera com essas condutas. Este, de hoje, iria ser o seu primeiro delito. Por isso mesmo suas mãos suavam e sua respiração estava ofegante. Agora podia entender essa sensação que algumas vezes vira descrita nas histórias policiais dos folhetins. A boca seca lhe pareceu presságio, mau agouro. Não dá mais para desistir. É hoje ou nunca, pensou. Sua mulher está doente. Seu filho não tem mais o que comer. Palavras duras ressoando na mente como gritos a ensurdecer a honestidade do jovem Franz. Tão carregadas de sentimento que faziam lembrar as de Montaigne, acerca das quais Emerson teria dito que se cortadas sangram, porque são dotadas de vascularidade, de vida. Vencido no duelo que lhe turvara a mente, convenceu-se: não é uma entrada no mundo do crime, é apenas uma passagem, e rápida. Primeira e última vez, nunca mais. Olhou para os lados e só o que viu foi o escuro de uma noite sem lua a vestir uma ruazinha transversa cujas lojas já se encontravam todas fechadas. Ninguém o veria entrar. A única porta de entrada, embora de vidro, não permitia antever quase nada. Era pouco translúcida e sobre ela estava gravado a tinta o nome do estabelecimento: Madame Tellier. Respirou fundo, quase como se quisesse suster um instante os batimentos acelerados do coração, e empurrou a porta. Uma pequena sineta de cobre tilintou levemente.

Do lado de dentro, a atmosfera lhe pareceu mais favorável. Ao fundo, atrás de um balcão de madeira entalhada podia avistar uma senhorinha magra, pequena, de olhos fundos escondidos sob grossos óculos de aro de massa escura. Aparentava oitenta anos ou mais. Tranqüilo, pensou. Deu dois passos em direção à velha ao mesmo tempo em que apalpava o bolso direito do casaco para se assegurar de que trouxera a faca. Vai ser fácil. E vai ser muito rentável, pensou, procurando convencer a si mesmo.

Há dias vinha vigiando a loja. Não era bem uma loja, de fora parecia mais uma modista, uma costureira, não soube ao certo. Depois que entrou é que percebeu melhor o que era. O estabelecimento ocupava uma construção muito estreita e comprida, talvez uns quinze passos de profundidade, de modo que até o balcão um longo corredor se formava, ladeado por figuras humanas em tamanho natural. Bonecos. Manequins. Armond, o homem com quem se habituara a beber em um bistrô na Saint-Honoré, lhe garantira que a velha tinha muito dinheiro guardado na loja. Já trabalhara para ela e com freqüência havia visto Madame Tellier guardando notas de dólares, de francos e de libras em pequenas caixas no escritório, nos fundos da loja. Seria um empréstimo, pensou. Um crime menor. E se tivesse de machucar a mulher? Ora, não havia como prever tantas coisas. Sua cabeça estava girando, estava confuso. Faria com que tudo corresse bem.

¾ Posso ajudá-lo, meu filho?

A voz suave de Madame Tellier quase fez esboroar o plano do delito. Desde que perdera a mãe, nunca mais alguém o tratara com tanto carinho. Seria uma indecência se roubasse aquela velhinha tão indefesa. Pensou seriamente em desistir, dar uma desculpa qualquer e voltar para a saída.

¾ Você está pálido, meu bem. Quer beber alguma coisa? Aceita um chá? Eu estava justamente preparando um para mim agora. Se quiser, sente-se e me faça companhia. Adoro a companhia dos jovens.

Estava desestruturado. Não sabia o que fazer. Aceitou o convite para o chá. Como eu vou tomar chá com você, vovó, e depois roubá-la? Não dificulte as coisas para mim, por favor, pensava enquanto olhava para o rosto sereno de Madame Tellier.

¾ Sente-se, querido. Eu volto já.

Não se sentou. Precisava andar. Andar para pensar. Caminhou pela loja em meio aos manequins, pensando em como agir. Procurou com os olhos a porta do escritório de que lhe falara Armond. Havia somente uma porta estreita nos fundos, tapada por uma cortina de tecido aveludado, por onde a velha havia mergulhado em busca do chá. Talvez fosse um escritório-cozinha-depósito, tudo junto, nos fundos do prédio. Antes que Madame Tellier voltasse, por um momento o rapaz fixou aleatoriamente os olhos em um dos manequins e quase sem querer pôs-se a reparar nos detalhes de sua confecção. Só agora é que pudera notar a perfeição das figuras. Não eram manequins comuns. Os cabelos, vivos, muito reais, pareciam de verdade. Não pareciam ser de animais ou de fios sintéticos. A pele do rosto, o nariz, os detalhes, as rugas, tudo parecia muito real. Eram figuras conhecidas, podia apostar, embora não soubesse quem representavam. Mudara-se há pouco para Paris, em busca de trabalho, e em sua cidade natal não conhecia nenhuma daquelas pessoas. Não importa. Não estava ali para apreciar ou para comprar ou encomendar nada. Seu propósito era outro. Preste atenção, Franz! Mesmo com os alertas de sua consciência pré-delituosa, não pôde deixar de reparar nos olhos das figuras. Eram extremamente vivos, brilhantes. As cores eram de um realismo que impressionava.

¾ Pronto, meu bem. Seu chá. Tome e você vai melhorar muito.

O retorno da velha fez com que se dissipassem de sua mente as imagens dos manequins. Concentrou-se no intento. Apalpou o casaco para mais uma vez se certificar da presença da faca. Não podia se precipitar para não ter de ser obrigado a cometer delito mais grave. Um chá antes, o dinheiro depois. Tudo bem. Sentou-se com cuidado à mesa e sorveu um gole do chá.

¾ Esses manequins..... são muito reais, madame.

¾ Ah, você se refere aos bonecos? É, eu gosto de caprichar nos detalhes. Eles fazem a diferença do meu trabalho em relação ao dos outros artistas.

¾ Então é uma arte?

¾ É, sim. Somos artistas da cera. Nós fazemos peças para museus de cera do mundo inteiro. Sob encomenda. As minhas são sempre as mais requisitadas.

Enquanto ouvia, Franz ia bebendo sofregamente o chá, até que chegou ao último gole, arrematado com um movimento que esvaziou completamente a chávena. Agora pronto, chega de educação, pensou.

¾ De qual deles você gostou mais, meu filho?

¾ Annh, daquele ali – disse (pego meio de surpresa pela pergunta), apontando em direção a um soldado com cara de cossaco. Os olhos são muito vivos. É fantástico. De que são feitos, vidro ou plástico?

¾ Olhe, filho, eu não costumo contar meus segredos para ninguém, não, mas gostei de você e vou abrir uma exceção. São olhos humanos.

Franz deu um salto para trás, quase caindo da cadeira.

¾ Não se assuste, querido. São de pessoas falecidas. Meu marido é legista e os obtém para mim. Depois do tratamento com formol e do verniz ficam ótimos. Transmitem ao modelo toda a realidade que o artista deseja. E os olhos são a janela da alma, não acha?

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Franz sentiu um ardor no estômago. Levou a mão direita à barriga e logo começou a sentir um formigamento no braço esquerdo.

Madame Tellier franziu o cenho, preocupada:

¾ Está sentindo alguma coisa, meu bem?

¾ Não sei, um mal-estar, estou tonto.

A fim de evitar que Franz desabasse sobre a mesa, Madame Tellier esticou as duas mãos e amparou os ombros largos do jovem. Aprisionada pelo movimento de sustentação, inclinou a cabeça levemente para trás, alteou o tom de voz e disse em direção à porta que dava para os fundos:

¾ Armond, querido, venha logo. Os olhos do caçador grego estão quase prontos.

E antes que Franz apagasse definitivamente, ainda pôde escutar a velha dizendo, com um sorriso nos lábios:

¾ O verde dos seus olhos é de um matiz único, querido. Insubstituível. Há semanas que Armond e eu o aguardávamos. Obrigada pela visita.     

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

O leitor tem o interesse prolongado por indícios habilmente fornecidos ao longo do texto. A ambientação da loja de manequins é assustadora, assim como a personagem aparentemente inofensiva de Madame Tellier.

9

CRISTIANE BRUM

O final é bem interessante, surpreende o leitor, mas creio que o clima da época e da cidade escolhida poderiam ter sido melhor explorados, para ampliar a sensação de mistério.

9

LIANA FERREIRA

Uma história de suspense com bons ingredientes desse gênero, inclusive a mudança brusca de foco que prolonga o suspense e adia o desfecho. Neste caso, o artifício usado é a saída da velha para fazer o chá. Juventude e velhice já renderam bons contos. Faltam vírgulas na primeira oração do texto.

9

CIDA SEPÚLVEDA

Excelente. Há um problema na construção da 1a. frase, no primeiro parágrafo.

9

MARCO ANTUNES

Embora a sensação de deja vu acompanhe o leitor depois de ler o conto, estão aqui todos os elementos canônicos do suspense: gradação de informações, equilíbrio entre ação e diálogo interno, pausas significativas, descrições breves e eficientes, tensão narrativa e oralidade dramática.

9

TOTAL DO DESAFIO 2

45

TOTAL DO DESAFIO 1

44,2

TOTAL FINAL

89,2

 

 

 

 

 

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Conto 13

Autor:

Cinthia Kriemler

Título

Saltos Altos

 São 11 da noite.  Eu não sei se pressinto ou se escuto ao longe, mas sei que os passos estão se aproximando novamente da minha porta.

 

Desde que me mudei para este prédio, escuto as pisadas de todos os moradores com nitidez. O chão de cerâmica dos corredores faz ressoar todos os sapatos aqui no meu andar, que é o último.

 

É certo que o edifício não é grande. São três andares com quatro apartamentos cada um, todos de um quarto só. Apartamentos para solteiros, embora eu tenha certeza de que em vários deles esteja morando mais de uma pessoa, principalmente crianças.

 

O mais estranho dos passos das pessoas é que a gente sempre imagina como é o corpo em cima das solas. Depois de um tempo, um esbarrão na entrada do prédio, um encontro na escada confirmam as nossas suspeitas, ou nos frustram. Mas quase sempre é batata! Existe uma intimidade até promíscua em reconhecer o outro pelos passos.

 

Com as crianças é mais fácil, porque menino não anda, corre. E grita. Vira tudo um escarcéu que mais parece briga, tropel. Mesmo assim, tem os que andam com o passinho mais miúdo e rápido, como a menina do primeiro andar. Ela sobe aqui de vez em quando para brincar com o menino gordinho que mora duas portas depois da minha.

 

Tem minha vizinha da direita, que chega sempre tarde e sobe as escadas de salto alto, fazendo um estrondo que acorda meio mundo. Eu não sei bem quantos anos ela deve ter, porque chegar de madrugada em casa não é privilégio de gente jovem. Nunca encontro com ela, mas escutei sua voz uma vez e me pareceu alguém entre os 25, 30 anos.

 

É divertido esse pretenso controle das idas e vindas a que me dedico todos os dias. Como meu horário de trabalho é variável, sei quais passos pertencem às manhãs e que pisadas ecoam à tarde. Percepção de mulher, é o que me digo.

 

As passadas da noite são quase sempre as mesmas: um estudante universitário que chega por volta de meia-noite; a moça dos saltos – de madrugada, sempre; o senhor do 403 que bebe, cambaleia e faz “psiu” para si mesmo, tentando não acordar os vizinhos.

 

Tem ainda uns visitantes ocasionais, parceiros de um sexo também ocasional. Andam sempre na ponta dos pés, como se soubessem que as suas passadas não pertencem ao ambiente. E, é claro, os visitantes habituais, já quase aceitos como moradores. São os namorados, noivos, amantes fixos.

 


Quando a gente conhece assim tão bem os passos, fica difícil não se preocupar com alguma coisa que ressoa diferente.

 

Faz poucos dias que escuto esses pés impacientes que param à minha porta. São saltos de mulher, sem dúvida, mas parecem frouxos, perdidos. Ficam um pouco, depois se afastam não sei para onde. Não reconheço a direção.

 

Confesso que não identifico os passos das 11 horas. E isso me intriga. Para ser bem honesta, estou me sentindo inquieta com os passos desconhecidos que vêm e vão com hora certa. 

 

Sondei se há moradoras novas no prédio. Não, ninguém se mudou, me afirmou o porteiro intrometido. Minha segunda sondagem foi junto às solteiras, como eu, com quem acabei travando um tipo corriqueiro de amizade ao longo dos dois anos em que moro aqui. Alguma amiga dormindo em casa? Parente? Não, nenhuma delas tem visitas. 

 

Perguntando aqui, ali, chego a uma única certeza: não tenho a menor pista sobre os passos. Além disso, reclamar com o síndico sobre quem tem ou não as chaves do prédio é bobagem. Em lugar de gente solteira, tudo é cumplicidade.

 

Ainda bem que hoje tomei banho mais cedo e já fiz um lanche leve. Ando tendo pesadelos quando como demais antes de dormir. Um filme talvez me dê sono mais rápido.

 

A luz acabou de apagar no prédio todo. O que será? Eu sempre detestei a distância que a escuridão provoca entre mim e os meus dedos, meus braços, meu rosto. Eu preciso me enxergar nem que seja em penumbra. E, para completar, os passos....ai que agonia! Com a falta de luz nem me lembrei de olhar as horas. Não que adiante alguma coisa saber que horas são, mas é sempre um alívio a gente poder se antecipar a um susto. Amanhã, bem cedo, preciso fazer alguma coisa a respeito dessa intrusa. Fazendo graça na minha porta!

 

A visitante da noite acabou de ir embora. Já posso relaxar e dormir. Ou, pelo menos, dormir. 

 

São 5 horas e o despertador do celular está gritando. Eu programei errado o horário e agora não vou conseguir dormir de novo até as 7 horas! Mas...não é o despertador, é a campainha da porta... Quem será?!?

 

O síndico pede desculpas pelo incômodo e me apresenta a um policial de bigode. Atrás deles, dois bombeiros acenam em silêncio. “Vamos fazer barulho no apartamento do lado. A moça que mora aí não aparece no trabalho há uns três ou quatro dias e a gente vai entrar...”.


Já não estou escutando mais nada. Só fico sabendo, mais tarde, que a moça dos saltos estrondosos foi achada lá dentro, sem vida. Ninguém sabe ainda se foi assalto ou namorado ciumento.

 

Quando a noite chega, ainda estou pensando nela. Nem percebo que já passa das 11 e os passos hoje não vieram me ver. E vou dormir pensando na proximidade distante das portas.

 

São 8 horas. Não tenho tempo nem para um café e é preciso correr para o dia que me aguarda cheio de coisas por fazer.

 

Abro a porta e tropeço. É um par de sandálias pretas, altas, elegantes. 

 

Os passos das 11 horas nunca mais voltaram.

 

Melhor não saber a que horas a moça dos saltos morreu.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

O começo é provocativo, mas o suspense vai diminuindo, em vez de aumentar. O ruído de passos humanos na escuridão é um recurso eficiente, pois desperta um medo inconsciente no leitor. As sandálias não se encaixam na trama.

8,5

CRISTIANE BRUM

A situação descrita é interessante, mas para aproveitar melhor o tom de suspense, a narração não deveria ter sido tão econômica. Mais narração e menos pensamentos, na minha opinião, dariam força ao texto.

8,5

LIANA FERREIRA

A narrativa em primeira pessoa incrementa a relação entre a protagonista e o leitor, e alimenta o suspense. A história é interessante e está bem contada, mas a última frase está sobrando.

8,5

CIDA SEPÚLVEDA

A idéia dos passos ficou excelente. A narração corresponde, com exceção do final que poderia ser mais rico.

9

MARCO ANTUNES

Os sentidos são o material essencial de trabalho do suspense, em especial a audição que, privada da visão, desperta medos inconfessáveis e irracionais, favorecendo, portanto, o efeito catártico.

8,5

TOTAL DO DESAFIO 2

43

TOTAL DO DESAFIO 1

46,2

TOTAL FINAL

89,2

 

 

 

 

 

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Conto 14

Autor:

Monique Britto Knox

Título

Bodas de  prata

 Vinte  e cinco anos convivendo com um homem. Só aquele homem! Conheceu-o através de amigas em comum. Funcionário público com salário baixo, encantava as mulheres com seu jeito macio de falar e cantar ao violão enluarado. Lorena, professora recém chegada à Brasília, para ocupar o cargo de professora da Secretaria de Educação encantou-se com aquele homem chamado de Alfredo. O namoro sobreveio, o noivado posterior em 7 anos e a data marcada de casamento, nunca era assumido completamente. Lorena queria fugir do relacionamento, mas Alfredo percebendo seu intento reassumia seu propósito, marcando datas fantasmas do casório e planejando o futuro juntos. Concretizado o casamento, a vinda dos filhos, o lar perfeito, o casal família. Alfredo cada vez mais distante, saía de casa às 8:00 horas retornando só de madrugada após reuniões de trabalho seguidos de cerveja com alguns amigos. Lorena pedia explicações, reclamando de sua ausência. Alfredo respondia:

- Você não entende, mulher! Está é a chance que tenho de ocupar o cargo de direção no Departamento. Este posto só poderá ser ocupado por quem demonstrar maior eficiência no trabalho.Preciso mostrar serviço. Ah! Você fica nessa vidinha pequena e não percebe o que faço por nós, pela nossa família! E Lorena engolia a seco suas lágrimas e palavras não ditas. E continuava levando sua vida de mãe, professora, do lar, mulher do tempo que passa rápido demais.

Um dia, quando voltava para casa após ter deixado o filho de 7 anos no colégio, viu o carro do marido estacionado perto de um restaurante. Estranhou o horário e o local e resolveu parar próximo. Viu seu marido entrar no carro e abrir a porta para outra pessoa. Era uma mulher loura que, ao entrar beijou-o demoradamente na boca. Não conseguia acreditar no que via. As imagens se perpetuavam em sua cabeça como trailers de filme de 2ª categoria, cheias de ação e violência. Seu marido, seu amado esposo, agora marido odiado e traidor!

A raiva espumava dentro de si!Não corriam lágrimas, só a boca seca lhe amargava a alma. O que fazer?Vontade de sair e bater naquela mulher. Vontade de xingá-lo, amaldiçoá-lo, bater em seu carro, esmurrá-lo! Mas, estática permaneceu. Pensou nos bens adquiridos. Quantos apartamento tinham?Três ou quatro? Os aluguéis, Alfredo administrava, investindo na bolsa de valores. Dizia que só ele sabia mexer com aquele tipo de investimento. E ela nem sabia o quanto que realmente dispunha de economias.

Naquela noite não conseguia dormir. Lá pelas 23:30 horas, quando o marido chegou em casa e vendo-a acordada, espantou-se com seu rosto abatido e cansado, dizendo:

- O que é que você tem?Eu já lhe disse que não precisa me esperar! E só deixar o prato no microondas que eu esquento e pronto!Vá dormir que você hoje está me parecendo doente!

Lorena fitou-o demoradamente e respondeu-lhe:

- Hoje eu fiz uma comida especial para você! Aquele prato que comíamos quando estávamos namorando!Espere que vou servi-lo!

E numa bandeja com toalhinhas brancas trouxe-lhe o prato recheado por arroz e reluzentes camarões com molho de creme branco e mostarda. Serviu-lhe uma taça de vinho tinto e vendo-o devorar rapidamente a comida, bebeu languidamente goles do mesmo Merlot que dispusera para Alfredo. Escutou o arrôto do marido, seu atirar-se na cama e passados uns 30 a 50 minutos, enquanto permanecia escorregando seus dedos na boca do copo de cristal, escutou os gemidos e convulsões do marido. E a cada grito que dava, mais um gole de vinho descia sofregadamente pela sua boca que, sorrateiramente, deixava transparecer um sorriso  profundo e trêmulo. 

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Este conto não consegue despertar o interesse do leitor. É preciso fazer revisão ortográfica e gramatical, bem como reestruturar a maioria das frases.

7

CRISTIANE BRUM

O texto não cria o tom de suspense necessário para a ação final e a reação da personagem parece forçada, pois há poucos elementos que convençam o leitor de que ela seria capaz daquilo.

7,5

LIANA FERREIRA

Essa história talvez ficasse mais interessante e menos óbvia, se começasse na cena do jantar e fosse alternando presente e passado, fornecendo aos poucos as informações capazes de prender a atenção do leitor.

7,5

CIDA SEPÚLVEDA

Há toques de suspense, mas não propriamente suspense. A narração é "lugar comum".

7

MARCO ANTUNES

O excesso verborrágico prejudica muito o ritmo deste conto e sua oralidade, o suspense não resiste a isso, o final soa um tanto previsível.

8

TOTAL DO DESAFIO 2

37

TOTAL DO DESAFIO 1

37,9

TOTAL FINAL

74,9

 

 

 

 

 

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Conto 15

Autor:

Mônica Thaty Soares da Silva

Título

Pingos

 Nove horas da noite. Dia típico de trabalho. Marina chegou em casa, pronta para ver TV e tentar dormir, mas algo a fez parar. Uma sujeira na frente de sua porta, maculando o piso branco de porcelanato do impecável edifício. Chegou mais perto para olhar. Sangue? Parecia sangue. E não era apenas um pingo, mas uma trilha, que a guiava até as escadas de incêndio e o andar de cima. Guiava era a palavra certa, pois Marina seguiu pingo a pingo, como se estivesse hipnotizada. Por quê? Talvez pelo inusitado da situação, de nenhum morador ter ligado furioso para a portaria para pedir que limpassem imediatamente aquela sujeira. Aliás, não era o que ela deveria ter feito? Mas não, os pingos a atraíram como as migalhas ao passarinho que comeu a trilha de João e Maria, até que... Até que cessaram exatamente na porta do apartamento que ficava acima do seu. Era o da top model internacional, a tal de Angelita Serra.

            Marina não pôde deixar de achar estranho, uma vez que aquela madrugada mesmo, durante uma de suas costumeiras crises de insônia, viu a modelo na TV, em uma festa badalada de Los Angeles. Cercada de atores hollywoodianos e celebridades internacionais. Lembrava-se, com certeza, de ter invejado aquela vida de glamour, de quem ganha dinheiro para ir a festas e não trabalhando doze horas diárias na frente da tela de um computador.

Impulso idêntico àquele que fez com que Marina seguisse os pingos levou-a a olhar distraidamente para os lados do corredor enquanto experimentava a maçaneta. Para sua surpresa - e quase alegria - a porta abriu. O bom senso ainda fez com que hesitasse dois segundos. A curiosidade a empurrou para dentro.

            O cenário que encontrou não lembrava em nada o que esperaria da casa de uma top model. Estava tudo fora do lugar. Panelas e travessas espalhadas, revistas de moda rasgadas e até um poster enorme, com a foto de Angelita, jogado em um canto da sala. No entanto, ao invés de fazê-la fugir, a bagunça atraiu Marina como um ímã para dentro do apartamento. Começou a olhar os detalhes da insólita decoração na cozinha americana, na sala, no quarto... Até que ouviu um baque surdo, vindo do banheiro. A percepção de que o responsável por tudo aquilo ainda pudesse estar ali percorreu a espinha de Marina como uma pedra de gelo e ela saiu correndo. Desceu pelas mesmas escadas que havia subido, dessa vez sem se importar em pisotear as manchas de sangue do chão, o que a fez escorregar uns dois degraus. O pequeno atraso fez com ouvisse barulhos na escada, vindo logo atrás dela. Marina continuou com sua correria e só respirou aliviada quando conseguiu entrar em casa e trancar a porta. O alívio não durou mais do que um minuto. Alguém forçava a maçaneta! Foi impressão? Sim! Ou... não. Talvez? Aproximou-se do olho mágico, cautelosa. Não havia viva alma no corredor. Hesitou por alguns segundos, mas acabou pegando a bolsa e as chaves do carro e saiu. Onde deveria ir? Delegacia. Pediria para falar com o delegado. Contaria tudo o que havia visto. Mas, o que havia visto? Antes mesmo de chegar à garagem, Marina já não tinha certeza se era uma boa idéia.

“Delegado, invadi o apartamento da minha vizinha e vi que...” Viu o quê? O que aconteceu no apartamento de Angelita? Um crime? Um roubo? Ou será que a modelo era apenas muito bagunceira? E distraída. Ela mesma, Marina, já havia esquecido de trancar a porta ao sair de casa. Ah, a tarefa de investigar era da polícia, não dela. Mas investigar o quê? Pingos de sangue no corredor? Se é que era sangue mesmo. E se fosse? Não poderia ser de alguma criança? Então Marina lembrou que não havia crianças no prédio moderno, de apartamentos caros e minúsculos, ocupados em sua maioria por empresários e jovens profissionais. Adultos sérios demais, sem tempo para brincadeiras. E o que pensariam dela se levasse a polícia até o edifício? Seria ignorada no elevador, banida das conversas antes das reuniões de condomínio, nunca mais convidada para nada. E os contatos profissionais? Poderiam ficar abalados. Os moradores eram muito bem relacionados. “Carta de recomendação para Marina Dias? Ela não é muito estável emocionalmente... Sabe o que aprontou outro dia lá no prédio?”

            Anos de esforço, primeira colocada no programa de trainees, Pós-Graduação na FGV, MBA em Londres, para acabar assim? Como motivo de riso, personagem de filme tipo B, a louca do prédio? Nem pensar. Quando a porta do elevador abriu, Marina apertou de novo o botão do nono andar. E, quase em seguida, o do décimo andar. Voltou ao apartamento de Angelita, a respiração suspensa, com medo de que alguém pudesse ouvir até um suspiro seu.

Dessa vez, a moça sentiu como se houvesse algo de opressivo no apartamento. Uma sensação diferente da primeira vez em que esteve ali. Começou a olhar com mais cuidado os objetos de Angelita. As roupas espalhadas por cima do sofá e das cadeiras não eram dela. Roupas de mulher, de boa qualidade, mas com certeza de alguém com pernas menos longas e pesando mais que os 50 quilos distribuídos pelo metro e oitenta da sua vizinha. Havia um porta-retrato caído no chão, o vidro quebrado. Uma moça abraçada a Angelita. Bonita. Olhos claros como a modelo. Pareciam-se até um pouco. Talvez fosse sua irmã.

Respirou fundo e seguiu para o banheiro. Na ponta dos pés. Armada com uma frigideira de inox. Preparada para correr se vislumbrasse qualquer tipo de movimento. Ou atacar. Mas não havia nada lá. Limpo, estranhamente limpo. Reluzente como se tivesse acabado de ser lavado. Mas em um azulejo, no cantinho ao lado do boxe, Marina viu uma gota de sangue. Ou talvez batom. Não sabia em que acreditar. Ou melhor, não sabia em que queria acreditar.

De volta à sala, os olhos de Marina vasculharam os cantos, a procura de mais alguma prova, qualquer uma, perdida no meio da bagunça. Mas o quê? Não sabia por onde começar. Parou por um momento, deixou o olhar passear pelo ambiente. Então ela viu. Um pedaço de foto no chão. Um meio rosto, um sorriso familiar. Marina foi pegar. Era o seu vizinho na foto. Pedro. Ele sorrindo para alguém. E logo ali, outra peça do estranho quebra-cabeça. A mesma moça da foto com Angelita, sorrindo na direção de Pedro.

Ele, o fotógrafo badalado, com fã-clube na internet e que participava de eventos beneficentes. O rapaz gentil do apartamento ao lado, que segurava o elevador para ela, que falava de cinema e emprestava livros. Marina quis esconder os pedaços da foto, desejou nunca tê-los visto. Quis voltar o tempo e jamais ter seguido os pingos de sangue no seu corredor. Ou melhor, no corredor de Pedro. Pingos que paravam não na frente de sua porta, mas na frente da de Pedro, colada à sua.

Pensou em falar com alguém. Pensou em voltar à polícia. E dizer o quê, de novo? “Acho que aconteceu um crime no meu prédio, e que meu vizinho charmoso foi o culpado.” Ah, Marina, quem acreditaria em você? Sabe bem o que diriam. Que era a vizinha entediada. A balzaquiana solitária em busca de aventura. A workaholic que pirou de tanto trabalhar. Enfiou os pedaços da foto no bolso e desceu novamente, pelo elevador. Não havia mais pingos de sangue no corredor. A prova, de qualquer coisa que pudesse ou não ter acontecido, se fora. E enquanto abria, distraidamente, a porta de casa, Pedro saiu do apartamento ao lado. Lindo e simpático como sempre. E nem de longe parecia um criminoso.

- Chegando tarde hoje, hem, Marina?

- Pois é. O trabalho parece que nunca acaba.

- Você devia se distrair mais.

Ele piscou o olho para ela e seguiu para o elevador. Então Marina viu. O pescoço do rapaz, com longas marcas de unha. Marcas vermelhas, recentes. Ele parou. Talvez sentindo o olhar fixo da vizinha às suas costas. Virou-se sério, forçou um sorriso.

- O que foi?

Marina sorriu também.

- Nada.

Não foi à polícia. Não falou com ninguém sobre o apartamento de Angelita. Nem mesmo quando, dias depois, viu a manchete na internet. “Irmã de top model desaparece sem pistas.”

Quem acreditaria em você, Marina? Quem acreditaria?

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

O título poderia ser mais sugestivo. O início é envolvente, mas o enredo se perde no vaivém da personagem, tornando-se longo e confuso.

7,5

CRISTIANE BRUM

O clima de suspense é bom e a situação interessante, mas creio que o texto acaba antes do último parágrafo. Até porque, nesse caso, a polícia acreditaria, uma vez que houve um assassinato.

8

LIANA FERREIRA

A história está bem estruturada e consegue envolver o leitor.

9

CIDA SEPÚLVEDA

Bem montado. Excelente narração. O fechamento daria muito mais impacto sem a última frase

8,5

MARCO ANTUNES

Outro aspecto psicológico a serviço do humor é a curiosidade da personagem, bem como a intromissão em assuntos alheios, no que despertam a empatia do leitor, produzem a catarse. Não se esqueça também da contribuição dramática de uma certa propensão para a fofoca! Aqui, esses e outros recursos do suspense estão usados elegantemente.

9

TOTAL DO DESAFIO 2

42

TOTAL DO DESAFIO 1

45,9

TOTAL FINAL

87,9

 

 

 

 

 

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Conto 16

Autor:

Maria Raquel Melo

Título