
CONTO 1
Linhas tortas
Havia um grande alvoroço no céu, entre os anjos. Liam, com ar de grande preocupação, os jornais da Terra. De uma forma ou de outra, as manchetes gritavam nas mais variadas línguas: “Cúpula de Religiosos diz que Deus não existe”. Quem iria dar uma notícia dessas ao Criador? Até que um anjinho novato disse o óbvio:
- Ué, se ele é Onisciente, então já deve saber, não é?
Sim, ele deveria saber. Mas, ainda assim, era função dos anjos levarem a notícia oficialmente a Deus. A missão coube, a contragosto, a Gabriel e Miguel. Era um caso delicado, a experiência dos dois era fundamental. Abriram a porta, receosos em encontrar a ira divina. Mas o que os recebeu foi apenas uma luz dourada e forte, que ofuscava tudo sem cegar, e um sentimento de paz do Deus de bondade os invadiu.
- Pai... – começou Gabriel, ainda ressabiado apesar da boa recepção.
- Diga, meu filho.
Ele não disse. Colocou um dos jornais à frente de Deus, esperando a sua reação. Que foi apenas um sorriso.
- O que posso fazer? Eu os criei, mas dei a eles também o livre arbítrio. Podem acreditar no que quiserem.
- Mas esse comentário não veio de qualquer um, Senhor. Foram grandes líderes religiosos. Católicos, protestantes, muçulmanos, judeus, sikhs. A opinião deles afeta milhões, bilhões de pessoas.
Miguel resolveu interferir na conversa.
- E o que pode ser ainda mais preocupante: qual a intenção deles com isso? Porque negar a existência de Deus é como negar a necessidade da existência das próprias religiões. A que propósito as suas organizações irão servir agora? Não é possível que todos eles tenham decidido isso assim, de uma hora para outra. Será que é obra do Diabo?
O criador de todas as coisas, o que não tem começo nem fim, não deu atenção à preocupação de seus mensageiros.
- A religião é apenas um caminho. Se essas deixarem de existir, logo surgirão outras. E elas não deixarão de me seguir. Só arrumarão, mais uma vez, um outro nome para mim. Até mesmo as politeístas, que me desdobram em tantas partes para formar um todo. Mas não vou me esforçar para que sejam organizadas novas igrejas. Talvez o tempo delas já tenha passado.
- O Senhor não parece preocupado.
- Por que deveria estar? Já são tantos os que não acreditam em mim. E são mais numerosos ainda os que dizem que acreditam, mas agem contrariamente à minha vontade.
A infinita paciência de Deus perturbava os dois arcanjos. Queriam ação. Esperavam uma resposta rápida e enérgica de Deus. Miguel sugeriu:
- Talvez o Senhor devesse dar provas de sua presença. Quem sabe enviar um outro dilúvio?
Gabriel olhou recriminadoramente para o companheiro, e apressou-se em dar uma sugestão que julgou mais sensata.
- Ou talvez enviar um novo Messias?
Alá, o Misericordioso, manteve-se sereno.
- Já enviei Bahá'u'lláh, Zoroastro, Jesus, Buda, Maomé, Krishna, Sidarta, Nanak... Foram tantos aqueles que mandei falar aos homens a mesma mensagem: que o destino é um só e que o caminho não é tão difícil como parece se você está atento aos sinais. Mas o que os homens fizeram por todos esses milênios? Esqueceram de onde deveriam chegar, e perderam-se com as miudezas do trajeto. Mesquinharias mesmo. Enfeitam os templos, mas deixam as almas secas como plantas que não vêem água há muito tempo. Nada de bom floresce neles. Preferiram a comodidade das flores de plástico ao frescor das de verdade.
- Talvez seja hora de renovar a mensagem, Adonai.
O Onipotente, Onisciente e Onipresente respondeu:
- Renovar? Como? E para quê? Tudo que precisei dizer já está na Terra. Foi passado pela tradição oral, ao longo dos séculos, ou escrito na Bíblia, no Corão, na Torá, no Bhagavad-Gita, e em outros livros que espalhei por cada canto deste planeta. Qualquer um pode encontrar a Verdade. Mas sempre preferiram interpretar as minhas palavras de acordo com as suas conveniências do momento. Dessa vez eu me calo, e deixo que os homens falem por si.
- Mas o Senhor não pode se retirar assim, amado Pai Celestial! Já imaginou o que isso pode provocar na Humanidade? A crise de descrença, de desespero, de destemperança!
- Quem deixar de acreditar, é porque já não acreditava muito. E os que sempre acreditaram não precisarão de que alguém lhes diga se eu existo ou não – sabem que me encontrarão em seus corações.
- E os que tiverem dúvidas?
Vishnu sorriu mais uma vez.
- Estarei sempre aqui, pronto para acolhê-los. Não me movo e não me transformo. Estou em cada canto do mundo, mas não preciso que fiquem repetindo isso. Apenas acho que é hora de sair de cena e deixar que os homens façam as suas escolhas por eles, e não por temor a mim. Admiro principalmente os que dizem que não crêem em Deus, e agem com o coração guiado apenas pela ética e pelo respeito ao próximo. Existe algo mais divino do que agir de uma forma apenas porque é a mais certa, e não porque teme uma punição ou espera uma recompensa? Só espero que eles não se decepcionem quando, finalmente, encontrarem-se comigo e descobrirem que era real o que julgavam uma peça de ficção. É de pessoas assim que a Humanidade precisa. Aquelas que compreendam que, mesmo que eu seja a fonte de tudo, o mundo só existe por eles e em função deles, e que é como é porque elas o fizeram assim. E que são apenas elas as causadoras das maiores alegrias ou piores desgraças. Estou cansado de ver guerras travadas em meu nome, de usarem-me para justificar insanidades. Deixo, então, que os homens assumam a responsabilidade do próprio destino, e parem de me culpar pelo que não foi feito por minha vontade.
E então Miguel e Gabriel entenderam, ao mesmo tempo. Era apenas um plano, mais um traçado reto através de caminhos tortos. Deus saía de cena para permitir que o Homem fosse o protagonista. Como um pai que, ao perceber que as suas lições ao filho rebelde jamais foram ouvidas, deixasse que ele tomasse as próprias decisões. Quer dizer, saía de cena em parte, porque naquele mesmo instante podiam ouvir milhares de vozes, vindas de tantos lugares diferentes, que clamavam por conforto e esperança, ou simplesmente que agradeciam. A todas Jeová ouvia, e respondia a cada uma de uma maneira diferente.
Os dois preparavam-se para sair quando o Único os deteve.
- Chamem Francisco para falar comigo. Essa história de aquecimento global talvez mereça uma ajuda um pouquinho maior do que eu pretendia. Talvez vocês tenham razão, e eu precise reformular alguns discursos. As idéias do Irmão sobre a natureza podem ser fonte de inspiração.
E Deus Tupã Odin Zeus Júpiter Jah, a energia transcendental, o que tinha tantos nomes e era um só, voltou a fazer seu trabalho.
CONTO 2
O FINAL DO JUÍZO
As legiões estão dispostas em retângulos com mil e trezentas almas de comprimento por novecentas de largura. E o produto de um mil e trezentos por novecentos é o número de almas de cada retângulo; e cada retângulo não tem mais que um mil e trezentas vezes novecentas almas. E se chamam quadrilaterus animae, esses retângulos. E são mais de noventa mil retângulos, perfazendo os quase cento e sete milhares de milhões de almas que passaram pela Terra. Não é inferior a noventa mil o número de retângulos; e não é superior a cento e sete milhões de milhares o número de almas. Igual é o número de anjos da guarda, cada um deles sustentando-se no ar sobre cada uma das almas.
A não ser por umas nódoas que algumas têm a mais, outras a menos, são as almas todas muito semelhantes, não havendo como distingui-las por sexo, idade com que teriam deixado o mundo, época ou local de sua vida mundana. Tampouco faz sentido tentar precisar o tempo em que se encontram ali, por situarmo-nos depois do fim dos tempos. Uma infinidade de querubins toca cítaras, harpas e outros instrumentos aparentados com as liras, enquanto as almas esperam, impassíveis. A escala pentatônica em que tocam, decorrente da evidente proibição do trítono (ou diabolus in musica), resulta em frases melódicas intermináveis, desprovidas de tensão e, conseqüentemente, sem qualquer necessidade de resolução.
Um arcanjo, saído de trás de uma nuvem em forma de cogumelo, enxota os querubins com gestos das mãos, bradando “xô, xô”, com um timbre parecido com o rufar de um tarol. À revoada de querubins, segue-se a entrada de uma quantidade inumerável de serafins que, portando trombetas de bronze, perfilam-se em dois grupos, um em cada lado de uma nuvem do tipo nimbo-cúmulo. As trombetas bramem e a nuvem se descortina, lançando um facho incandescente que inunda os mais de noventa mil retângulos d’almas. Assim que os olhos das almas vão se acostumando à luz ofuscante, começam elas a perceber que a fonte luminosa é um olho castanho, dentro de um triângulo eqüilátero. Algumas almas entram em pânico e começam a cochichar entre si: “é Ele, é Ele”. Então, uma voz retumba dentro da nuvem e faz com que tudo se cale e estremeça.
— “Sim, sou Ele, oh, vós que cochichais!”, diz Ele. E arremata: “Não vos esqueçais de jamais chamardes Meu nome em vão!”
Então, uma pomba branca, trazendo um galho de oliveira no bico, pousa no vértice superior do triângulo, e arrulha duas vezes. E são duas, nem mais nem menos que duas, as vezes que a pomba arrulha. Algumas almas cochicham: “a pomba-gira, a pomba-gira!”. Pela expressão do Olho, umas almas concluem que Ele dá de ombros aos comentários. E Sua voz estrondeia novamente.
— “Por terem sido desalmados, não estão aqui, nem em lugar nenhum, aqueles que negaram a Minha existência. Se eles não creram em Mim, também não creio neles, e pronto! Antes de iniciarmos o julgamento, informo àqueles que pensavam em ir para o Nirvana ou para o Valhala, que quebraram a cara! Eles que vão procurar o Nirvana ou o Valhala noutro lugar. E já! Mas, aos siques será dado um lugar onde poderão deixar os cabelos crescerem por toda a eternidade. Finalmente, reservo aos hindus bela pastagem, onde viverão e ruminarão como criaturas sagradas para sempre.”
— “Devo aqui fazer uma autocrítica com relação ao decreto que pôs fim ao Limbo”, continuou. “Como não estou disposto a julgar trogloditas, índios velhos, animistas, recém-nascidos, xamanistas, hippies, pagãos antediluvianos e inocentes úteis, fica reestabelecido o Limbo, para onde devem voltar os que lá estavam.”
E continua Deus.
— “Depois destes acertos inicias, serão julgados apenas os monoteístas. Advirto-vos de que serei particularmente rigoroso com os trocadilhistas, e implacável com os humoristas.”
— “E quanto a nós?”, lamentam-se os anjos da guarda que perderam as almas que estavam sob suas custódias. “O que será de nós?”
— “Depois daremos um jeito!”, troveja Ele.
De repente, um fedor sulfúreo invade a atmosfera, e surge, do nada, um burocrata com um crachá no qual está impresso o número novecentos e noventa e nove, acompanhado do diabo em pessoa. O diabo dá um tabefe na cabeça do burocrata e mostra a ele que seu crachá está de cabeça para baixo. O burocrata conserta rapidamente o crachá, deixando cair uns carimbos e um mata-borrão.
— “Como tendes passado, oh, Déspota Onisciente?”, diz o diabo, tirando o chapéu tricorne com a mão direita e, com o antebraço esquerdo encostado na barriga, curvando-se em uma mesura exagerada.
— “O que queres tu, criatura repugnante? Como ousas interferir no julgamento derradeiro?”, ribomba Ele.
— “Vim apenas pelo que me pertence”, retruca o diabo. “Não houve isonomia e liberdade de competição. Foi uma concorrência desleal e nos foi exaustivo competir com seus caixeiros viajantes. Enquanto aos seres bajuladores que Vos cercam concedestes elegantes asas de alvas plumagens, dotadas da mais perfeita aerodinâmica, o que destinastes a mim e aos meus, oh, Tirano Onipotente? Nada mais que sombrias membranas iguais às dos pterossauros que afogastes no dilúvio e dos quirópteros, com as quais foi-nos forçoso adejar continuamente para que pudéssemos flutuar sobre os potenciais pecadores, enquanto seus anjinhos pairavam sobre eles sem o menor esforço.”
— “Proíbo-te de Me acusares de Tirano. Dei-te toda a liberdade para que agisses como desejasses na captura das almas que mais te conviesses”, estrondeia Deus.
— “Ah, essa é boa! Como podeis falar em livre concorrência, com esse Vosso transtorno obsessivo-compulsivo de ser um voyeur onipresente? Fui espionado ininterruptamente do Gênese ao Apocalipse, Seu velho bisbilhoteiro”, diz o diabo.
— “Alerto-te, pela última vez, que não Me trates assim. Exijo tratamento respeitoso, elegante e diplomático”, grita o Altíssimo.
— “Então, que assim seja, oh, Criador do Céu e da Terra. Indago-Vos, Senhor, por que razão colocastes as almas em retângulos, se não há mais gravidade? Por que não amontoá-las em um hexaedro com, no máximo, umas cinco mil almas de aresta, e, destarte, economizardes espaço?”
— “Sei lá! Criei a música, mas foste tu, com o propósito de torná-la complicada, que inventaste a matemática. Se o problema é este, que seja feita a tua vontade e se faça o cubus animae, oh, espírito do mal”, trona Deus, enquanto as almas, cada qual com seu anjo da guarda, formam um cubo de quatro mil, setecentas e vinte e oito almas de aresta. E são exatamente quatro mil, setecentas e vinte e oito almas que formam a altura, a largura e o comprimento do cubo. E o número de almas é exatamente igual a quatro mil, setecentos e vinte e oito elevado ao cubo. E vê Deus que o cubo é bom, e o abençoa, pois ele é perfeito e contém todas as almas que estão para serem julgadas.
— “Comecemos então o julgamento”, esbraveja Deus. “Certamente não te oporás, oh, Príncipe das Trevas, se aos zoroastristas, embora monoteístas, for destinado o tempo que quiserem para adorarem o fogo nos quintos dos teus infernos. No que diz respeito aos muçulmanos, estes disporão de espaçosas mesquitas para ficarem eternamente aboiando e adorando caligrafia. Aos judeus darei a Terra Prometida, e aos cristãos, a Minha agradável companhia, que tal?”
— “Data venia, oh, Jeová”, argumenta o diabo. “Dentre os cristãos, há os que protestaram contra o impedimento da usura e do mercantilismo e se opuseram ao Vaticano, aos quais deveríeis, por princípio de tratamento isonômico, destinar tratamento similar ao que reservastes aos judeus. Quanto aos demais cristãos, tanto ortodoxos quanto católicos romanos, não podereis contradizer a sina que impusestes aos politeístas, uma vez que o panteão de santos e a enorme quantidade de templos a eles erguidos pelos católicos romanos e ortodoxos os qualifica como semi-deuses aos quais esses fiéis dedicam verdadeira adoração. Sede coerente, oh, Pai de Todos.”
— “Não Me cobres coerência! Não me venhas com tuas artimanhas! Incoerente és tu!”, vocifera o Criador de Todas as Coisas.
— “Incoerência é acusardes-me de incoerente e, ao mesmo tempo, proibirdes-me de cobrar-Vos coerência.”
— “Não Me cobres coerência, já disse!”
— “Que seja! Além do mais, já no princípio dos tempos havia Gabriel Vos aconselhado que contivésseis Vossa ira e colocásseis Vossos desafetos no Purgatório. Vossa maior incoerência é terdes condenado tantas e tantas almas ao fogo eterno... ouvi, oh, Javé, fogo ETERNO, dissestes... o que as torna impossibilitadas de serem novamente julgadas, mesmo no dia do Juízo Final, que hoje se nos apresenta”, completa o diabo.
Subitamente, o Olho dá três piscadelas e olha para cima. Do topo do triângulo, escorre um líquido cremoso de coloração cinzenta com manchas esbranquiçadas. A seguir, o Espírito Santo bate as asas e alça vôo.
— “Quá! O que esperáveis?”, exclama, cofiando a barbicha, o diabo. “As duas acepções da escatologia são a mesma coisa!”. Dito isso, escafede-se junto com o burocrata, arrastando atrás de si a maioria das almas, deixando o Olho piscando nervosamente, e as almas restantes, os anjos da guarda, os serafins, os arcanjos, os querubins e demais criaturas celestiais atônitos, imersos em um baita cheiro de ovo podre.
CONTO 3
O acordo
Estava exausto. Pela primeira vez na história da humanidade, admitia-se incapaz de atender a todos os bilhões de clamores que recebia simultaneamente a todo instante e ainda manter a ordem e a paz no universo. Sentia-se assoberbado, exaurido das faculdades divinas e eternas que sempre Lhe garantiram o controle de tudo. O mundo tornara-se tão absurdamente imprevisível, que o acúmulo de sabedoria e poder já não era o melhor recurso para governá-lo. Entendia que era momento de compartilhar sua onisciência, onipresença e onipotência para salvar o que ainda poderia ter salvação em meio a tanta iniqüidade, destruição, violência, infelicidade e desamor. Suas falhas estavam cada vez mais evidentes para os homens e, até para continuar Deus, era preciso reconhecer limites. Apesar de estar com a decisão tomada, como Pai, achou por bem convocar a Mãe daquela família tão numerosa para contar o seu projeto.
- O que Eu estava acostumado a fazer já não funciona mais. O poder humano de destruição superou minhas mais esforçadas tentativas de manter o frágil equilíbrio da Terra. Os cataclismos são freqüentes, os clamores se multiplicaram muito além da proporção de crescimento da população. Não consigo mais acudir os desabrigados, os esfomeados, os abandonados, os injustiçados... E minha melhor estratégia para organizar o cronograma de atendimento já não funciona mais. “Para tudo há um tempo!” Os homens não têm mais paciência, querem tudo a tempo e a hora. E não toleram atrasos, se bandeiam para o outro lado antes que eu possa mandar um refrigério. Estou prestes a ter que fazer escolhas: priorizar um socorro ali, deixar um na espera acolá, segurar as pontas de um desesperado do lado de lá... Decidir a salvação pelo critério de urgência, não! Isso é inaceitável. Não sou capaz de distribuir misericórdia na pressão. Não dá para ser justo sem analisar caso a caso. Ou Eu divido a administração do mundo com alguém ou será o fim para todos. Estou esgotado, Mãe, preciso de ajuda!
A Mãe, desacostumada ao desespero do Filho desde a crucificação, sentiu o drama que a Santíssima Trindade estava enfrentando. Sabia que antes de comunicar aquela decisão, Ele já tinha pensado em todas as alternativas. Podia imaginar o quanto Lhe custara, depois de tamanha dedicação, abrir mão de tão grandiosa missão. E logo para quem... Afinal, quem mais teria capacidade para tocar o mundo com a mesma competência que Ele? Convicções e métodos a parte, sabia que, no frigir dos ovos, anjo nenhum tinha demonstrado tanta habilidade para lidar com problemas mundanos quanto ele: o rebelde, o descaído, o chifrudo. Tinha que reconhecer: Naquele caso, só ele poderia ajudar. Resolveu poupar o Filho de pronunciar nome tão odioso e, antes que O visse desistir de sua derradeira investida para salvar a raça humana do completo extermínio, chamou Gabriel e pediu que agendasse urgentemente uma reunião entre Deus e o excomungado.
O tinhoso chegou antes do horário marcado. Estava ansioso para saber o que afinal lhe trazia ali, nas longas barbas brancas do seu desafeto. Um arrepio de inveja percorreu-lhe os pelos quando viu entrar na grande sala de comando celestial, Deus, com toda a sua luz a cada século mais resplandecente e perfeita.
- Vou ser objetivo, Lúcifer. Sua presença não me agrada, mas pelo amor dos homens fui obrigado a convocá-lo. Infelizmente, para salvar a humanidade, preciso contar com você.
- Sempre alerta, Mestre! Na verdade, nunca O abandonei, sequer um minuto. Estive sempre por aí, juntinho aos seus filhos lá embaixo.Vai dizer que não notou?
- E como, Satanás, e como! Basta um olhar de relance na humanidade para ver sua presença escandalosa consumindo o mundo. Não é por outro motivo que venho propor-lhe um acordo. Já não suporto mais ver a desgraça espalhada por todos os cantos da Terra. O volume de queixas e súplicas é inadministrável. As tragédias tomam proporções dantescas. O mundo está se transformando em um verdadeiro infer...
- Quentinho, não é, God? Por essa do aquecimento global você não esperava, fala a verdade!
- Eu só falo a verdade, maldito. Amo igualmente meus filhos e para o bem deles, faço-lhe esta proposta. Para que o trabalho seja bem feito, preciso dirigir minhas atenções para apenas uma parte do mundo. Suas danações, disseminadas e multiplicadas com a ajuda dos homens mundo afora, corromperam minhas percepções. Já não consigo distribuir equanimemente o bem pela Terra. Parte do mundo está prestes a sucumbir sem o meu socorro. As regiões mais miseráveis e infelizes do planeta estão, a cada dia, mais assoladas pela pobreza e pelas mazelas climáticas. Não posso conter todas as catástrofes mundiais ao mesmo tempo. Infelizmente, pouca esperança resta àqueles pobres mortais que sobrevivem no limite de suas forças em meio a tanto infortúnio... Como já não posso mais olhar por todos, qualquer olhar sobre eles, mesmo que seja o seu, pode ser uma chance de sobrevivência. Pior do que estão, não ficarão e Eu não posso negligenciá-los definitivamente. Por isso lhe proponho um racha: para que, ao menos parte da humanidade tenha ainda alguma chance de salvação, preciso dividir o mundo com você.
- Êpa, Magnânimo, isso muito me interessa! Prova de amizade é isso aí: a gente divide esse quinhão e não se fala mais nisso.
- Calma, Belzebu, calma que o trato tem regras rígidas a serem cumpridas. A divisão é rigorosa. E sou Eu quem define as fronteiras. A você não cabe questionar meus critérios. Na minha parte, você não põe os pés e na sua, Eu não ponho as mãos. É pegar ou largar.
- Peraí, Autoridade! Quer dizer que a batata esquentou na sua mão e você quer zunir o pedaço podre pra cima de moi? Não é assim não, Todo-Poderoso. A gente vai ter que negociar... Ou Você acha que eu não trabalhei direitinho pra cavar essa oportunidade?
Temendo uma desistência do Diabo e reconhecendo as vantagens óbvias do futuro parceiro sobre o caos mundial instalado, Deus entendeu ser mais prudente viabilizar o entendimento. Após algumas tratativas, definiram o acordo. Ao Demo, caberia a menor parte do planeta, porém a mais desenganada. Sob sua administração ficaram as nações mais pobres, aquelas contaminadas por pestes, ameaçadas por cataclismos físicos iminentes ou socialmente arrasadas pela fome e pelo desemprego. Ao Soberano, coube a parte mais extensa da Terra e, por isso, mais trabalhosa, porém com maior chance de recuperação. Os países do terceiro mundo em fase de desenvolvimento, os países desenvolvidos e aqueles em curva descendente de desenvolvimento, mas ainda dignos de uma aposta. Finalizaram o pacto com um ajuste de última hora.
- Tá quase fechado, Supremo. Tenho só mais uma reivindicação. Nada que possa ameaçar um bacana absoluto como Vossa Excelência. Tô sacando que eu fiquei com a pior parte do mundo. Até aí, tudo bem. Eu sempre tive mesmo preferência pela ruindade. Mas essa história de me proibir um passeio de vez em quando lá no seu pedaço bem-bom, não faz a minha cabeça, não. Vamos combinar o seguinte: cada um zela pelo seu território, mas se descuidar e esquecer uma brecha aberta, o outro pode entrar pra deixar o seu recado, falô?
Sem condições para resistir e sem tempo para negociar, a humanidade sucumbindo a olhos vistos, Deus cedeu à última restrição do Maligno e fecharam negócio. Agendaram uma reunião para daí a três mil anos, ocasião em que fariam um balanço dos progressos da humanidade e uma revisão no acordo de concessão administrativa.
Deus arregaçou as esvoaçantes mangas de sua túnica e pôs mãos à obra. Enfim, sem a interferência diuturna do Demônio, colocaria seus planos de bondade, misericórdia, generosidade e riqueza à disposição daquela porção bendita da humanidade. Dotou aquela parte do planeta de todo o bem moral e de toda a abundância material que reservara durante milênios para o mundo. Viu, satisfeito, em poucos séculos, as cidades amadurecerem, a tecnologia evoluir, os homens regozijarem-se com conquistas inimagináveis. As famílias cresciam saudáveis, a comida alimentava fartamente as comunidades, o mundo tornara-se um recanto seguro. Sua nova administração beirava a perfeição.
Por seu turno, Satanás reinou com toda a malevolência que acumulara durante uma existência inteira de perversidade sufocada. Tratou logo de empestear seus desditosos tutelados com novos e incontroláveis vírus fatais. Providenciou tsunamis gigantes, furacões bravios, terremotos arrasadores. Aproveitou a paralisia nas intervenções divinas e largou toda sorte de infortúnio sobre o povo das nações que dominava. Enquanto não viu a sua crueldade tomar conta dos corpos e corações alheios, não sossegou. Sua nova administração beirava a perfeição.
Mas como ambos foram muito competentes e agiram rapidamente, antes de completados os três mil anos, deram-se por satisfeitos com suas administrações e resolveram dar uma espiada no território do sócio em busca de brechas para ampliação de suas influências.
Na porção demoníaca, Deus não se surpreendeu com a miséria que viu. Conforme previra, pôde constatar que mesmo o Coisa-ruim não teve como piorar muito a situação daqueles que já viviam praticamente no limbo. Entretanto, percebeu que o excesso de sofrimento e a penúria extrema em que se encontravam fez nascer naquele povo uma compaixão mútua digna dos domínios celestiais. Reconheceu naquelas comunidades deploráveis amplas brechas para investir em sentimentos nobres como a solidariedade humana, a piedade, o amor ao próximo. E assim fez. Resgatou entre milhares de desventurados a esperança e a vontade de viver. E distraído nas posses de Satanás, deu-se por vitorioso na preservação do bem e da vida.
No bem-bom do Salvador, Belzebu também não bobeou. Admirou-se com a pujança instalada nos territórios divinos e chegou a sentir inveja do poder de transformação do seu parceiro. Ali encontrou homens tão gloriosamente sobrepujados pelas benfeitorias sagradas e indolentemente acomodados no conforto presenteado por Deus, que se viu tentado a despertar neles alguns desejos imponderados. Sem ter preocupação alguma a motivar alma e corpo para o trabalho, os justos de Deus cederam suas mentes para o ócio do mal. Essa foi a brecha do Demo. Arrastou para os laboratórios bélicos legiões de desocupados e pôs em suas mentes a ambição necessária para a fabricação de armas letais de longo alcance e altíssimo poder de destruição. Com elas, fez despertar nos corações humanos o desejo incontido pela guerra e provocou entre os homens estúpidas e divertidas discórdias que os levaram às vias de fato da destruição mútua.
A porção divinamente administrada do mundo explodiu sem deixar vestígios de civilização. Deus, a um tempo chocado e desesperado com a desgraça no seu território, correu ao inferno, sem agendar horário, para tomar satisfações com Satanás. Tomou um chá quente de cadeira até ser atendido por um Diabo irreconhecivelmente gentil e calmo.
- Tão cedo, Mestre! – e olhando para o relógio Prada: – Ainda temos mil trezentos e sessenta e oito anos para o nosso próximo encontro.
- O acordo está suspenso, Turrão. Você...
- Hã, hã, Misericordioso. Agi dentro das regras. Se quiser antecipar o balanço, eu topo. Vamos ver agora mesmo quem administrou melhor o seu pedaço. Dá uma olhadinha no meu povo! Tá todo mundo lá, comendo o pão que eu amasso, vivendo do jeito que eu gosto, mas meu mundo está de pé. Vaso ruim não quebra, meu Rei. Depois vem dizer que os ímpios são eles... Cadê suas criaturas, Deus? Onde está a terra abençoada para povo santo do Senhor? BUMMMM!!!! – debochou o Tinhoso entre labaredas incandescentes.
Deus respirou fundo. Percebeu o erro que cometera ao associar-se oficialmente ao Demônio. Até então, bem ou mal, bem e mal estavam em equilíbrio sobre o planeta. Sua extremada benevolência não fora suficiente para resgatar a humanidade do sofrimento. Pelo contrário, criara excelentes oportunidades para o capeta exercer o seu poder. Agora, tinha que reconhecer o triunfo do Maligno sobre a Terra. Mas alguma coisa ainda precisava ser feita para salvar o resto de almas que fatalmente pagaria pelo seu terrível engano.
- Eles não podem resistir por muito tempo. É preciso dar um pouco de alento àqueles últimos seres humanos que ainda restam no mundo, caso contrário, a humanidade deixará de existir. E a inexistência de vida sobre a Terra elimina as razões para a minha existência. Você não é capaz de aliviar o sofrimento daquele povo. Preciso assumir a administração do resto do mundo novamente.
Lúcifer se assustou. Jamais tinha refletido sobre essa possibilidade. Existir sem Deus seria assumir a mais profunda insignificância. Sem o bem, para quê o mal? O universo se tornaria irremediavelmente insosso e chato sem a presença do Todo-Poderoso. Por um momento, chegou a experimentar um nobre sentimento de saudade, mas logo ficou tentado a tirar uma onda de Deus antes de revelar a sua decisão. Afinal, pela primeira vez na história do homem, o veredicto sobre o futuro da humanidade estava em suas mãos. Pensou um pouco, mais para fazer charme do que para mudar de opinião.
- Então tá, Poderoso. Assume o cajado de novo. Mas vê lá o quê que vai aprontar com a minha galera, hein? O pessoal lá em cima já está amaciado, vê se não põe tudo a perder outra vez!
FORA DO DESAFIO
CONTO 1 (REFERENTE AO 11º DESAFIO-CÍNTHIA KRIEMLER)
ão João dos Perdões
O município de São João dos Perdões é uma pérola incrustada numa serra magnífica. Tudo no lugar tem qualidade, da água cristalina que jorra até mesmo das bicas no centro da cidade, ao frescor dos alimentos servidos diariamente na mesa farta dos pouco mais que 20 mil sãojoaneneses.
No verão, o calor e as chuvas tropicais equilibram o cheiro do ar, tornando agradável viver ou passear ali. E quando vem o frio, as baixas temperaturas encontram seus adeptos.
Localizado perto das quedas d'água que circundam o município, o Convento Santo Tomás de Aquino, mais conhecido como Convento da Serra, é um ponto turístico diferente em São João dos Perdões. Pertencente à ordem dos dominicanos, a construção contrasta com a audaciosa modernidade desses frades pensadores. Na visão paradisíaca da missão que escolheram para si, a opção pelos pobres é a única tradução de uma sociedade com justiça.
Nada de milagres no local, apenas fé e atitude. As pessoas acorrem ao convento, vindas de perto ou de longe, para buscar entre os frades um pouco do que o mundo lhes nega: sabedoria e paz. Na entrada principal, logo que o visitante sai do sol para a sombra do pátio interno, uma placa singela:
São Domingos
Durante o dia falava de Deus aos homens e à noite, em oração, falava dos homens a Deus.
Mas São João dos Perdões não foi sempre assim. Há uma década, o que mais se encontrava nas ruas da cidade eram vício e vergonha. E os desvalidos dessa miséria eram pais de família dormindo nos bares e adolescentes consumindo a fumaça da ilusão nos cantos das ruas.
A desgraça tinha nome e endereço: Haras Serra Bonita. O criadouro, pertencente a forasteiros sem rosto, instalou-se no município em 1994. Sua proximidade do convento era tamanha que os locais, depois de consumados os acontecimentos que culminaram em dias de sofrimento, costumavam dizer que aquela era “a serra de Deus e do diabo”.
No princípio houve euforia no município. A necessidade do pão de cada dia fez com que os desempregados corressem como lebres até as portas do empreendimento. Tratadores de animais, seguranças, cozinheiras...cada vaga era celebrada com lágrimas e olhos de gratidão.
Por essa época, Frei Antônio Vítolo, hoje com 84 anos, já era o frade mais conhecido do convento. Não era o prior, mas suas elucubrações quase visionárias, que deitava nas folhas de um caderno noite após noite, lhe granjearam respeito e admiração. Uma vez, repreendido pelo prior sobre as noites sem dormir, e alertado sobre os pecados da gula e do orgulho, Frei Antônio respondeu:
- “A minha sofreguidão em escrever só é igual ao prazer que eu sinto, a cada manhã, de saber que o tinhoso anda perdendo feio a briga pelos sãojoanenses. Enquanto ele dorme encharcado de preguiça, eu permaneço firme na disputa das almas”.
E foi assim que, numa dessas noites de insonolência, Frei Antônio viu suas mãos descontroladas cumprindo no papel o que a cabeça ditava: Às bestas, as regalias dos homens. Aos homens, a imundície das bestas.
Primeiro achou que era o demo lhe pregando peças. “Esse rabudo quer tomar conta de mim, mas eu não deixo”. E pôs-se a rezar. Mas aos poucos, aclarando as idéias, percebeu que não havia nenhuma presença do mal naquelas linhas. Então, o que era?
Procurou o prior e, juntos, deram tratos à bola sem muito sucesso. Os dias foram reduzindo o impacto das palavras, que ficaram esquecidas no caderno pessoal de Frei Antônio.
O primeiro sintoma de que cidade tinha mudado foi a redução de fiéis às duas missas dominicais do convento. Perguntados, os cidadãos fugiam da resposta, alegando estarem exaustos pelo trabalho excessivo.
Mas não era assim. Qualquer um que passasse bem tarde da noite pelas ruas do município podia notar que o movimento nos bares não tinha exaustão. São João dos Perdões deixou de ter uma boate só, aonde os jovens iam se divertir e namorar um pouco, e ganhou uma outra, mais escura, mais afastada do centro. O cheiro de maconha, antes ocasional, aparecia afrontoso em cada esquina. Aumentou o consumo de álcool entre rapazes e moças, enquanto que o índice de aprovação nas escolas despencou.
Frei Antônio e outros frades tentaram reverter os excessos, mas foram rechaçados pela comunidade.
É o progresso, frei – diziam todos – O progresso é assim. O senhor não pode impedir o progresso de chegar.
O frenesi durou dois anos, durante os quais o Convento da Serra passou a receber pouca gente do local. Tentando afastar as preocupações dos frades, Frei Antônio repetia, lúcido:
O progresso deu pernas novas aos homens e eles desistiram de usar Deus como muleta.
Ingratos – dizia o prior.
Não, não são ingratos. Só têm pressa em caminhar...são homens. Precisam de oração tanto quanto de sustento, diversão e liberdade. Uma hora, encontram o equilíbrio disso tudo. – contemporizava ele.
Uma tarde, imprevisível que era, Frei Antônio armou-se de fôlego e caminhou até o haras. Na porta, dois carros com o nome do criadouro estampado em letras imensas anunciavam que a segurança do local era perfeita.
Bom dia, frei! – gritou de dentro do carro o José Antunes, um menino que tinha visto nas fraldas.
Bom dia, Zé.
Passeando? - perguntou o rapaz
Querendo conhecer o haras...eu posso?
José Antunes olhou o outro motorista e pediu um instante ao frade. Em seguida, conversou pelo rádio com alguém que lhe deu a autorização pedida:
Entra aí, frei, eu vou levar o senhor até lá dentro.
Eu posso ir andando...
Desculpe, frei, mas o senhor sabe, eu estou cumprindo ordens.
Enquanto o carro seguia devagar pelo caminho interno, Frei Antônio se espantava com o asfalto que conduzia até a grande construção, onde baias e homens se misturavam indistintamente.
Bom dia, padre, fazendo uma visita? - um homem jovem lhe esticou a mão.
Frei, meu jovem, eu sou o frei Antônio – apertou a mão do rapaz.
Perdão, eu não entendo esses cargos de igreja! Eu sou Luís Monteiro, o veterinário chefe do haras.
Entraram no prédio principal, onde as éguas e os garanhões olhavam com empáfia o séquito de trabalhadores ao seu redor. Havia, ainda, maias surpresas: baias climatizadas, ração importada, água corrente passando numa canaleta em frente aos bichos. Mas a coisa mais impressionante foi uma vagina artificial de égua, pronta para colher o sêmen dos garanhões!
Isso aqui, frei, é um recipiente resfriador – mostra o veterinário - Dentro dele, o sêmen coletado do animal fica guardado a uma temperatura de 4º , até que segue de avião até onde está a égua que vai ser inseminada. E ali atrás, como o senhor pode ver desta janela, temos uma pequena clínica para cuidar de partos e da saúde dos animais.
Frei Antônio saiu de lá acabrunhado. Água tratada, comida fresca, casa de luxo, médico particular e segurança dia e noite. E tudo isso se destinava às bestas.
Essa foi a primeira vez, em meses, que Frei Antônio se lembrou das palavras que tinha escrito: Às bestas as regalias dos homens. Aos homens a imundície das bestas....
E frei Antônio retornou ao convento pensando em como se daria a outra parte da sua predição.
Então, dias depois, o primeiro sãojoanense ficou doente. Febre alta, prostração, diarréia. Comeu coisa estragada, disseram os agentes do posto de saúde. Dr. Natalino, o médico da cidade, estava viajando e ninguém sabia onde localizá-lo. Dia seguinte, mais dois casos, e dessa vez os pacientes reclamavam também do estômago e de uma “confusão na cabeça”. E foram mais três crianças, e mais dois adultos, até que não se podia mais chamar de andaço aquele caos. Porque uma criança morreu.
Dr. Natalino chegou um dia depois da morte da menina de dois anos, em tempo de acertar o diagnóstico: febre tifóide. A vigilância sanitária da capital, oficialmente comunicada, chegou a São João dos Perdões três dias depois, quando já havia muito mais gente no ambulatório da Santa Casa. Febre tifóide, com certeza. O prefeito decretou calamidade pública, as medidas sanitárias foram tomadas...mas restava uma incerteza: de onde tinha surgido a endemia?
Frei Antônio, que ajudava há dias as famílias mais carentes, foi o primeiro a levantar a lebre:
Dr. Natalino, o senhor percebeu que todos os doentes moram do mesmo lado da cidade?
Como assim, frei Antônio?
Não tem ninguém doente lá para os lados da Barroquinha, tem? Já para os lados do convento está todo o mundo baixando leito...
Não demorou muito tempo para que a saúde pública concluísse o laudo: dejetos de animais na água dos riachos, causando epidemia de febre tifóide. Fezes de animais....Às bestas, as regalias dos homens. Aos homens, a imundície das bestas.
O Serra Bonita é hoje só lembrança. Um santuário ecológico foi assentado em seu lugar. Os turistas buscam as belezas da serra, mas também encontram tempo para as belezas de Frei Antônio.
Homens e bestas aprenderam o seu lugar. São João dos Perdões é uma pérola incrustada numa serra magnífica.
CONTO 2 (REFERENTE AO 12º DESAFIO-CÍNTHIA KRIEMLER)
O Julgamento Final
- Miguel! Preciso refrescar a sua memória sobre a posição que ocupa nisso tudo?
- Não, Senhor Deus! Mas por que eu fiz jus a uma interpelação tão séria?
- Porque você me parece desorientado, sem saber com agir nesta hora tão solene!
- Está certo, Altíssimo! É que estou mesmo nervoso com tanta responsabilidade.
- Miguel, me diga, para que é que eu fiz de você o Anjo do Arrependimento e da Justiça, o Príncipe Defensor dos meus filhos, o Poderoso Escudo contra aquele Lúcifer pervertido se não é porque eu conheço as suas habilidades?
- Eu sei, Pai, e agradeço! Mas hoje é um dia único! Eu tenho que conduzir os interrogatórios, tenho que encaminhar aos defensores os dossiês de cada criatura e ainda preciso realizar a minha tarefa principal que é a de ser Seu assistente no veredicto final.
- Ansioso?
- Estou, Senhor. É muita gente, muito pedido de revisão de caso! Não dá para tratar os infelizes com desatenção! Isso, Senhor, sem falar dos advogados de defesa...
- Problemas?
- Só alguns já chegaram. É que os outros ainda não conseguiram se desincumbir de processos mais antigos, compreende?
- Mas isso é prioridade, entende, Miguel, prioridade! Convoque todos imediatamente!
- Certo, certo...Convoco os promotores também?
- Não, claro que não! A turma da acusação é por conta de Lúcifer. Nosso papel, Miguel, é a defesa, apenas a defesa.
- É para já, Senhor!
- E as salas de interrogatório, estão prontas?
- Todas.
- Então, arcanjo, mãos à obra!
As almas que se amontoam pelos corredores do limbo ainda estão meio atordoadas. A última lembrança de suas vidas terrenas é uma luz ofuscante e linda que veio do céu, seguida de uma dor tão intensa quanto rápida. Amontoados num pátio que se estende ad infinitum, sentem-se inseguros. Querem sair, mas não sabem para onde ir, e a indecisão faz deles um bando barulhento. Um querubim tenta, em vão, controlar a turba, sem lograr sucesso, até que uma voz forte, brava e imperiosa se faz ouvir como um trovão:
- Calem-se!
Puxa, que eficácia! O silêncio se faz em ondas e a atenção de todos se volta para o dono da voz no imperativo. Quem será? Espicham-se nas pontas dos pés e procuram pela vastidão, até que alguém grita:
- É São Paulo! Olhem, ali, ali naquele canto, no alto.
- Escutem todos: a eternidade tem pressa. Portanto, em formação! À minha direita, em formação de quatro, os políticos...em seguida, os empresários...isso...em linha de quatro, quatro, eu disse! Agora, os banqueiros...
Uma após a outra, as hordas se organizam: ditadores, militares, advogados, médicos, agiotas, meretrizes, servidores públicos, professores, alcoólatras, religiosos...todos em grupos de quatro, até que, finalmente, oito bilhões setecentos e dezoito milhões e onze mil almas perfilam-se em pelotões.
O montante contabilizado pelo Arcanjo Miguel é desesperador, porque ainda foram incluídas nele as almas mais antigas, espalhadas pelo purgatório, e outras, fugitivas, que andavam pelos mundos em busca de entes queridos. Miguel se anima um pouco com a lembrança da salvação sem escalas, por meio da qual muitas almas sobem diretamente ao céu. Colocando-se ao lado de São Paulo, fala aos recém-desencarnados:
- Meus irmãos, muitos de vocês não vão precisar passar pelo julgamento do Senhor. Os eleitos de quem eu falo vão direto para o Paraíso! Olhem para cima agora e vejam se há uma auréola de luz sobre as suas cabeças. Se houver, agarrem-se nela e... boa viagem para o convívio dos eleitos!
O tumulto é imenso, mas o resultado é parco e estarrecedor: um bilhão, cento e trinta e cinco milhões, duzentas e dezoito mil quinhentas e trinta e oito almas estão liberadas para o céu! Apenas uns fatídicos 13% que na certa vão desagradar ao Senhor pela pobreza da arrecadação.
Incrédulos, arrependidos ou histéricos, prostram-se diante do arcanjo e do santo os restantes sete bilhões quinhentos e noventa e sete milhões, duzentos e trinta e um mil seiscentos e setenta e nove espíritos. Inflexíveis ao resmungo coletivo, querubins começam a convocar os pelotões para dar início ao grande juízo.
- Senhoras meretrizes, por favor acompanhem a advogada Maria Madalena e seus os querubins-assistentes às salas de interrogatório do pavimento Prisioneiras do Corpo...Políticos de todos os partidos, repito, de todos os partidos, acompanhem Santa Rita dos Impossíveis ao pavimento Prisioneiros da Mentira...Animais, São Francisco de Assis está pronto para traduzir vossos balidos, mugidos, latidos, rugidos e trinados.
Horas e dias celestiais intermináveis se passam em grande agitação, deixando exaustos anjos, santos, beatos, querubins e serafins. Enfim, aproxima-se a última hora do juízo, na qual o Altíssimo revelará a Sua face misericordiosa aos eleitos, enquanto Satanás passará a foice da colheita nos pecadores.
E é aí que, inesperadamente, surge uma querela imprevisível no tribunal divino. São Benedito e um demônio de maior alçada discutem, sem acordo, a quem vai pertencer a alma em julgamento. Desgastados pelas polêmica, solicitam que novo juiz seja designado para o caso. Em face da gravidade da situação, o Arcanjo Miguel pede vênia ao Senhor pela ousadia e convoca a Virgem Maria para presidir a corte ensandecida. Mas nem ela consegue um bom desfecho.
- Este caso pede a interferência direta de Deus – afirma a Virgem.
- Senhora! – assusta-se o Arcanjo Gabriel - O Senhor Deus só sai de seu trono para proferir o veredicto final da humanidade!
- Pois, neste caso, a exceção é imperiosa! – retruca Maria.
E para dissipar maiores dúvidas, surge uma nova ameaça ao equilíbrio do momento: Satanás em essência entra na sala da disputa, subido do inferno para reivindicar a alma em questão. Que personagem é essa que merece como acusador o próprio príncipe das trevas?!?
Ao chegar à porta para ir buscar o Senhor, o Arcanjo Gabriel esbarra no Todo Poderoso.
- Eu ia chamá-Lo agora, Pai! Mas o Senhor já chegou...
- Onisciente e Onipresente, Gabriel...
- Perdão, Senhor, é verdade...! O impacto da presença do mestre das confusões me desnorteia os dogmas!
Deus caminha, então, até a alma-ré, e em atitude compassiva e atenciosa diz:
- Eu sei quem você é, filho. Só não entendo o porquê da discussão.Você pertence a ele – e Deus aponta o dedo para Satanás, sentado ao fundo da sala com expressão de enfado.
- Alto lá, Senhor! – interrompe o homem em afronta direta à autoridade suprema - Isso aqui é um tribunal ou não é? Se é, eu tenho amplo direito de defesa, certo?
- Claro, meu filho, mas por que é então que você recusou São Benedito como advogado? Nem a Virgem Maria lhe serviu de intercessora! – surpreende-se o Senhor.
- Ora bolas, Senhor, meu caso é único! Minha defesa tem que se dar perante o Juiz Supremo e de ninguém mais! Além do mais, que coisa politicamente correta é essa, Altíssimo? Só porque eu sou negro o Senhor me manda São Benedito como advogado?
O rebuliço é intenso. Horrorizados com tamanha falta de respeito, anjos e santos se perguntam que é aquela alma atrevida e condenada. E é São Benedito quem responde:
- Esse é o homem que digitou o código, entendem? Que apertou o botão e acabou com tudo...
Então, ele é o dedo da destruição! Quanta soberba pensar que o Pai irá aceitar sua defesa!
Altivo, vestindo ainda seu uniforme militar engalanado, o general recebe de Deus um aviso:
- Não tentarás o Senhor teu Deus!
- Longe de mim tentar o Senhor! Porque o Senhor fez isso melhor do que ninguém com a humanidade, não é mesmo?
Deus petrifica-se. Serafins e querubins ajoelham-se em oração.
- Deu a um punhado de criaturas mimadas e egoístas dinheiro e poder, mas entregou a um monte de homens bons a fome e a miséria. Molestadores de crianças receberam perdão eclesial, mas milhares de mendigos abarrotaram as cadeias por causa do roubo de um pão. Bom... pelo menos na questão das drogas o Senhor foi bem equilibrado, não foi Senhor? Consumo geral: pobres e ricos, mulheres e homens, adultos e jovens!...Quem foi que tentou quem, Pai?
O silêncio cai sepulcral. E o general continua:
- “Não matarás”...Essa frase então é uma das suas melhores piadas! Tenho certeza que o Senhor contou nas Escrituras o número de guerras que deixou passar desde o início dos tempos, hein?
- “O meu Reino não é deste mundo” – interrompe Deus – Você também se lembra disso, filho?
- Pois então, Senhor, não é exatamente isso o que eu estou dizendo?? Eu sou apenas o homem que apertou o botão, que digitou a seqüência fatal, que mandou a humanidade em direção ao reino certo! Eu sou um militar que cumpriu as ordens do comandante supremo da nação, Senhor! E se não fosse eu, seria outro...era só uma questão de tempo...
- Mas você podia ter tentado evitar, fazê-los refletir. Sua posição lhe permitia! – enfeza-se Deus.
- Como, Pai Eterno?!? Eu sou como Miguel e Gabriel: cumpro comandos. E me parece que por aqui também o livre arbítrio é insubordinação...estou certo?
- O Homem foi criado no meu amor divino. Eu o dotei de pensamentos, palavras e atos. E lhe dei o poder de manter-se livre em espírito – diz Deus, exausto.
- É..eu sei...Foi assim com Lúcifer, não foi Pai?
Transfigurado, Deus eleva os olhos ao infinito. E ninguém se atreve a romper sua meditação. Então, com a voz amena, o Altíssimo se dirige ao Anjo Caído:
- Nossos destinos se separam aqui, não é mesmo Lúcifer?
- É verdade, Deus. De hoje em diante, cada qual tem a sua eternidade.
- Então é hora de você saber que a minha decisão é que essa alma permaneça sob o domínio dos céus por toda a minha eternidade – diz o Todo Poderoso.
- O quê?!? Mas isso é trapaça, meu caro! Ele é meu, um pecador nato, um cínico! Só o que fez até agora foi criticar os seus atos, blasfemar contra os seus mandamentos e se desculpar usando o truque das palavras para confundir as suas idéias! Por muito menos o Senhor me expulsou do Paraíso!!!
- Por isso mesmo, Lúcifer, por isso mesmo...Eu não posso cometer o mesmo erro duas vezes!