Uma Metáfora para o Brasil

Conto 1

 

 

 

 

- Pescador, sim senhor. Pra bem dizer, esse é o meu ofício de satisfazer a perguntação de gente estudada como o senhor. Mas tem outras coisas menos desimportantes que eu faço desde que assustei que tava vivo por esses alagados daqui. E sou orgulhoso por demais da minha nascença. São 72 anos, moço! 72 anos renteando os rios, arrodeando os barrancos, pinchando a linhada pros peixes iscarem... Só que isso nos tempos que os bichos inda se ajuntavam nos fundão dos rios, na cheia, ou nos corixos (1), na estiagem. O escutamento dos peixes era outro, seu... Não era essa zoada de motor rasgando as aguadas, arruaçando os peixes pra longe. Os peixes viventes morreram zonzinhos e os de por nascer desistiram. Por primeiro, pra pescar num carecia de subir o rio, qualquer barra (2), qualquer boca(3) era apinhada. E qualquer isca era pitéu(4): milho, piquira, (5) minhoca. Ademais, as águas não se raleavam na seca, não, moço. E os rios tinham o rastro distorcido de Deus, aguaceando pelos caminhos que bem entendiam. Depois, foi tanto descaminho, é passa por aqui, é passa por ali, represa um corixo, despeja noutro acolá... Essa contorneira toda pra acudir a sede dos paratudos(6) dos fazendeiros. Era muito chapéu-na-sela(7), seu moço! E antes fosse só eles, que eram piabinha frente os grandes. Ah, esses sim, esses é que são os infensos acabados das águas! Vai ideando aí o paradeiro dessa hidrovia que encabresta os aguaceiros desse Pantanal! Pois eu vou adiantar, doutor. Eles fizeram a mudança dos rios pra onde os rios nunca tiveram querença de ir. O tanto de fundura que não se media nem com vara de piquiá(8), virou só aquela vergonhança: rasinho, rasinho... E eles derrubaram monturo(9) que atravancava caminho, arregaçaram as bolas de mato, esfolaram os barrancos e saíram desembarreirando as beiradas dos rios. Se a força das mãos não dava conta de acabar, eles explodiam com as bombas mais brutas que barbatão(10). A água ficou foi grossa de terra. E depois que já tinham aberto os leitos, inda foi pior. Vieram os barcos se amontoando nas águas numa vaivença desenfreada, levando minério, carvão, as toras de eucalipto... Aquela carga pesando nas carcaças arriadas dos monstrengos que escorregavam no Paraguaizão velho, pra apear sabe Deus onde... E era tanta bagagem pra escoar, tanta barcaça zanzando, que o pobre do rio só faltava dar no padre(11)... As chalanas eram uma nadeirinha perto delas. E as canoas? Não tenho lembrança de ver canoa de pau estirar um fio d’água no rio depois que a hidrovia se aprontou. Mas isso tudo inda era no tempo que o rio tinha serventia de navegança... Agora... Eu ficava embirrado de ver aquele desagero de barco em cima do rio, ferindo as margens, largando óleo e porcaria de poluição pra todo canto. Desmanchou tudo, moço! Afogou os pés-de-pau ribeirinhos, as tranças rasteiras de cipó, os camalotes(12), os sarãs(13), o que era de miudeza dos nadantes comerem foi se embora tudinho. Arre! Que bicho aninha onde não tem comida? Nada não.

É por esses apanhados que a pesca não se apresenta mais como meu ofício de labuta. Mas inda é ofício do coração! De a menos, quem vivia dos comes e dos bebes da natureza, como que eu, tinha de conhecer dos bens de comer que davam nos rios, no chão e no céu, pra num ralear a barriga. Não tem galhada verde nesse mundão de charco, não tem caroço nem polpa que eu não sei do cheiro e do azedo! Sendo que nos tempos da fartura eram mais pro doce, seu moço. Até hoje, as ninharias de pé-de-pau que vingam, por mais que já intentaram de acabar com tudo por aqui, inda propendem pra dar fruto meigo e adoçar a boca do pantaneiro.

 

- E o senhor mora sozinho?

 

- Pra minha desconformação, só ficou a menina comigo. A mulher se picou quando os cientistas do estrangeiro se erraram por aqui pra começar os pesquisamentos. Só bastou desmamar a cria e se apurou, fugidia de malfeito que aprontou. Dizendo os vizinhos que privou com um gaúcho(14) desses. Eu, como sou filho de Guató(15) e basta uma viola de coxo pra me alegrar, nem me afeiçoei a ausência dela. Tendo pra mim qualquer nadinha, peixe ou caribéu(16), desimporta. Eu arriei as tristezas foi por causa da menina. Cresceu sem o amansamento da mãe.

 

- Seu Adelino, o senhor...

 

- O senhor vai me perdoando, mas é Adilino. Não costumo ter ofensa com besteira nenhuma, mas tenho cisma do meu nome atravessado...

 

- Muito bem, Seu Adilino. E sem peixe pra pescar, o senhor vive de quê?

 

- E não é essa a pensação que atazana essa minha cabeça de paina(17) toda noite? Bem certeza eu não tenho, mas meu entender é que eu vou vivendo das sobras dos divinamentos que essa terra tem. Apurei uns palmos de terra num capão e finquei um cercado em derredor, aprumei um ranchinho que fica debaixo duns paus d’alho folhudos que me esconderijam e ninguém me acha, nem por cima nem pelos lados. De primeiro, tiraram o povo das currutelas. Depois foram adentrando a mata e caçando pantaneiro com sana de onça esfomeada. Mas daqui não arredo pé, não senhor. Custei, mas encontrei um lugar nenhum meiando o nada, desaparecido das vistas mal-treinadas, e é lá que eu vivo. Já não careço mais de morar margeando rio, o que sobrou do rio... Aqui as águas do céu não abençoam mais. Com o assoreamento e as secas... Arre, vai desculpando a lamentação, seu... A bem da verdade, só sendo muito carvoteiro(18) pra não ser vivente nessas terras. Nesse pedacinho de chão, enquanto a química desgraçada não matar meus pés-de-pau, eu sigo tirando o que de comer. A terra não é mais a mesma, doutor, mas inda se vê uns umbus carnudos, umas goiabas do mato, umas poucas guaviras(19)... Os frutos mais apegados com a terra é que já dão uma salivada amarga: abóbora, mandioca... O minério muda o gosto da terra. Mas faltar o que de comer, não falta não, pelo menos dentro de minhas posses. Tem também uns cachaços velhos que eu carneio quando em vez. É assim que eu vou vivendo... Mais a ajuda que os estrangeiros dão pra menina.

 

- Mas, Seu Adelino, o senhor foi visto pescando em área proibida.

 

- Adilino, doutor, Adilino. E quem é que viu, se não se avista mais um desinfeliz pelas beiradas dos rios?

 

- Um de nossos satélites rastreou o senhor.

 

- Mas, doutor, num tinha nem precisão disso tudo. Nem carecia de satélite pra me rastrear, não senhor. Era só ter perguntado, que eu tinha acudido com a resposta. Aquele corixinho não é proibido, não. Mas eu vou desexplicar, o senhor vai compreendendo. Eu inda pesco, sim senhor. Eu mais os cientistas acertamos um tratamento. Tem uma beirada do Sepotuba(20) que inda não padece da contaminação dos restos do minério e nem das experiências deles. Lá eu pesco e, sendo elas as derradeiras águas de onde se pode tirar, vez por outra, uma piaba de saúde, os homens prometeram não mexer. Peixe carnudo mesmo, pacu, pirarucu, piraputanga, tambaqui, e até mesmo os palmitos, ninguém divisa mais não. Tiro, quando em vez, um jaú, uma piranha... Os gringos sabem de tudo, duvidando eles têm um olheiro que nem o satélite do senhor. Pescou peixe bom, eles vêm certeiros... A satisfazança deles é na minha mesa, seu. Fosse de outra feitura, os homens nunca iam saber a bondade que é um peixe assado digestando na pança. Tem vez que eles se agradam tanto da minha comida, que carregam a matula pro labrô..., labrô... Lá pro canto onde eles trabalham. A minha menina proseia com eles em estrangeiro, o senhor sabia? Depois que os homens arredaram a currutela daqui, só restou as moradas dos cientistas por perto. Pois ela foi se amaciando pro lado deles, atrás de uns sabimentos, e acabou aprendendo aquele modo de dizer. Pro meu gosto, é tudo uns tartamudos(21). Não atino pra coisa nenhuma que eles proseiam. Mas a atrevida conversa mais que xexéu no ninhal e trás-leva meus entendimentos com eles. Por primeiro, eles prenunciaram que as experiências podiam ofender algumas espécies do rio, sendo mais os peixes que já andavam de sumiço. Defenderam da pesca umas partes do Sepotuba, lá pra mais adiante dos meus corixos preferidos de iscar. Teve vez que eu pus tento no trabalho deles, só pra assuntar de que feitio eram os pesquisamentos que eles tavam fazendo. Nos dias da piracema, lá na cabeceira do rio, eles distenderam um redão e, daquele desagero de piau enredado, separaram uns 50 desinfeliz e foram pregando uns ganchos amarelos nas escamas da barriga. A menina jura que não, mas tenho pra mim que aquele aperreio na pança dos pobres desanda a ova. Tem é anos que não se apresenta mais piau no Sepotuba, depois dessa experimentação dos gringos. E aforante as injeções de vitamina que eles inculcam nas árvores de fruta. Dizendo ela que apressa a madureza dos frutos. Sei não... Nunca me acostumei com esse desconcerto por aqui, seu doutor, mas estou conforme. Só me medra o acabamento da natureza... Os bichos de quatro que guerreram contra o fogo que acinzentou a mata, se afugentaram pra terra de sabe Deus onde. Não se vê sombra de onça, capivara, tamanduá... As belezuras avoantes que qualhavam os ninhais, não se criam mais. Tem vez que eu arremedo o feitio do canto dum currupião pra ver se aparece um, e nada. Tucano se finou, não tem mais Manduvi(25) onde aninhar e as frutas já tão tudo envenenadas. Se as garças e os socós acharem de pescoçar um peixe de corixo contaminado, é menos elas na natureza. Tem pra mais de 15 anos que a conversa era o protegimento do Pantanal, dos rios, das aves, dos bichos... Mas nem os cientistas do estrangeiro têm ciência pra dar cabo de ajeitar isso aqui...

 

- Seu Adelino, o senhor sabia que existe um Acordo Internacional desde 2009 que cedeu uma parte do Pantanal para um grupo da comunidade científica internacional realizar estudos sobre a transferência da biodiversidade pantaneira para outros biomas? As terras foram desapropriadas, a população foi transferida para as cidades próximas. Há mais de 12 anos está proibida a residência permanente de qualquer família na área. A região é inóspita. Somente os cientistas têm permissão para lá permanecerem enquanto realizam as pesquisas.

- Pois minha acordança com eles não é essa, não senhor. Eu sou manso, se não mexem comigo, eu não fico arreliado. Eu pesco o deles, boto o rango no jirau(22) pra eles se fartarem, a menina ajuda lá no labrô..., e eles não se interferem com meu rancho. E assim eu fui ficando esses anos tudo, com o conhecimento deles e a minha coragem de lutar pra viver nessas voçorocas que um dia eram o Pantanal.

 

- Muito bem, Seu Adelino. Então o senhor acredita que com o senhor não tem nada de errado, está tudo certo. Pois o senhor tem alguma idéia do motivo que nos obrigou a convocá-lo aqui na fiscalização?

- A bem dizer, doutor, eu já tava mesmo desconfiado. Tenho pra mim que só pode ser por motivo de pança.

 

- É o seguinte, Seu Adelino, eu estou tendo toda a paciência com o senhor. O procedimento para este tipo de infração é sumário, basta aplicar o Código. Chamei o senhor para uma conversa em consideração a sua idade. Sua situação está completamente irregular e o senhor ainda insiste em não entender que...

 

- Adilino, doutor. O senhor é homem letrado e não tem precisão de ficar errando meu nome. Quem não entendendo é o senhor. Motivo de pança sim, moço. Das duas panças, tenho pra mim que de a menos uma é a causação dessa nossa prosa desentendida. A primeira é a pança do pacu que eu assei antes de ontem e fez mal as outras panças, as dos gringos. Eu já prenunciava que o peixe tava adoecido. Tava desconfiado que a pança dele tava estufada era de veneno. Adianta mais não, nada não segura mais a lambança desses venenos dos gringos rio abaixo. A contaminação tomou conta até do pedaço do rio qu’inda era são. Agora, nem na beiradinha que os gringos separaram das experiências tem jeito pra pesca. Pois eu fisguei um pacu pançudo que era um pitéu e assei pra eles. Eu mesmo nem quis comer. Fiquei sabendo que a bóia desarranjou eles tudinho. Eles acharam de envenenar as panças alheias, agora tão provando do malefício. Inda ficam dizendo que pesquei peixe chambão(23)! Diz que tão é maludos(24) pro meu lado. De certo, foram eles que fizeram a entrega do velho aqui pro senhor.

 

- Nada disso, Seu Adelino. Não tem nada a ver com o peixe contaminado que o senhor serviu para a equipe do laboratório. O senhor burlou a lei, seu Adelino, o senhor devia...

 

- Então, a causa é a outra pança, doutor. A da menina. A prosa com os estrangeiros foi tanta, que acabou se perdendo com um desinfeliz daqueles. E o gaúcho não quer a cria, não senhor. Disse pra ela interromper. Pra eles não chega só acabar com os viventes desumanos, doutor. Nem em vida de gente esses gringos põem valor... Só que nessa, não! Já desconcertaram o que era de mais sagrado das benfeituras divinas desse charco abençoado. Na vida do meu neto pantaneiro ninguém rela! Só se for depois que eu entrevar.

Glossário:

1.     Corixo: Braço de rio, que muda conforme a cheia ou seca.

2.     Barra: Foz. Desembocadura de um rio.

3.     Boca: Saídas de lagos ou rios.

4.     Pitéu: Iguaria saborosa, petisco

5.     Piquira: utilizado amplamente no Pantanal, refere-se geralmente a peixes de pequeno porte , são utilizados pelos pescadores e ribeirinhos da região como isca ou para extração de óleo.

6.     Paratudo: Boi gordo.

7.     Chapéu-na-sela: Vaqueiro ruim.

8.     Monturo: Amontoado de terra; elevação.

9.     Piquiá: Árvore de boa madeira.

10. Barbatão: Rês criada no mato. Bravia.

11. Dar no padre: Não suportar, no sentido de agüentar, alguma coisa ou situação.

12. Camalote: Porção de planta aquática (aguapé) que flutua no rio.

13. Sarã: Vegetação emaranhada à beira do rio, cheia de espinhos.

14. Gaúcho: Homem bonito, elegante. Em algumas regiões do Pantanal, refere-se a pessoas claras, estrangeiros.

15. Guató: Nação indígena exímia no manejo da canoa.

16. Caribéu: Prato de mandioca e carne.

17. Cabeça de paina: Homem velho, de cabelos grisalhos.

18. Carvoteiro: Preguiçoso

19. Guavira: Fruto nativo da região de excelente sabor.

20. Sepotuba: Localizado ao norte de Cáceres, o rio Sepotuba apresenta vegetação e característica similares ao rio Paraguai. Por ser bastante piscoso, é atualmente muito procurado pelos praticantes do turismo de pesca.

21. Tartamudo: que ou aquele que possui imperfeições na fala, não articula bem as palavras.

22. Jirau: Mesa tosca de madeira alta

23. Chambão: De má qualidade.

24. Maludo: Valente.

25. Manduvi: Árvore de tronco macio, ideal para araras e tucanos fazerem ninhos.

 

 

 

Conto 2

 

Levas cobertas com trapos emborralhados chegavam de um nordeste remoto trazendo triângulos, livrinhos de versos, chapéus de couro, coentro e jabá. Com olhos amarelos e dentes pretos, cabelo rabiscado e fala cantada, desciam dos paus-de-arara e formavam filas de gente carregando mala, sanfona e zabumba na cabeça. Cruzes de gente e de mala, de carne e de fole, cruzes de couro, de papelão e de lata, se contorcendo nas filas que serpenteavam pelos caminhos de barro, como imensos urutus-cruzeiro a trocar as peles esfarrapadas da cor de tijolo.

Diziam que a seca não dava quietação e que assolava o mato branco, rachava o chão e o couro do povo. Foram certamente o flagelo do estio e a desolação da paisagem incinerada que calcinaram suas idéias, e os fizeram contar, delirantes, que, na era antiga da monarquia, ainda nos tempos do cativeiro, alguém tinha falado em rasgar um rego desde o Velho Chico até o Riacho dos Porcos e que, daí em diante, bastaria consertar o riacho até a sua confluência com o Ribeirão Salgado e que se este também fosse endireitado até a sua desembocadura no Rio Jaguaribe, a natureza se encarregaria de garantir que o tempo todo corresse água no leito do maior rio seco do mundo, regando a terra e mitigando a sede da vegetação estorricada, do gado macilento que dela se alimenta e da gente martirizada que vive dela e do gado. Eram obcecados por essa idéia, que alegavam ser menos extravagante que uma outra, que um eremita sertanejo lhes disse ser também vigente na época do Imperador Pedro II, que sugeria transferir a capital situada na enseada mais bela da Terra para os cafundós-do-judas, em meio à pedregosa e áspera savana retorcida, nos ermos da província de Goyáz.

 

Jussara chegara em meio àquelas chusmas, com Raimundo e Deusilene, seus dois filhos. Dizia ser de um lugar onde ficava a maior estátua do Padre Cícero do mundo inteiro. Chamava chuchu de maxixe, falava canjica no lugar de curau, e munguzá no lugar de canjica.

Usava alpercatas nos pés, e, sob o chapéu de palha de aba larga, um pano encardido amarrado embaixo do queixo. Vestia calças de homem com uma saia por cima como se fosse um brial cingido na cintura com uma fita de juta. Carregava o terçado igual a uma catana, enfiada na bainha pendurada a uma tira de couro na altura da ilharga, e era em tudo semelhante a um samurai entre cerejeiras sarapintadas com as frutinhas sangrentas do café maduro. No fim da tarde, quando a sirene (ou sereia, como diziam) tocava, livrava-se do terçado, tirava o chapéu, desatava o laço do queixo, sacava o pano da cabeça e o enrolava no pescoço como um lenço, ia para trás de um pé de café, tirava a calça de homem por baixo da saia, chacoalhava os cabelos e reaparecia como uma gueixa a se abanar com um leque de palha de aba larga.

Namoradeira, sempre se cuidava para ficar só nos dois filhos. Algumas vezes chegou a pensar em se casar de novo, mas as lembranças não eram boas e terminava desistindo. Sábado à noite saía com a face corada e a boca vermelha, para dançar nos forrós das fazendas vizinhas, e, aos domingos, passava quase toda a manhã na capela, cantando agradecida por ter se livrado da estiagem e da escassez sem fim.

Viveu com os dois filhos na colônia até beirar os trinta e dois anos de idade, quando o patrão resolveu vender a fazenda para a usina de um italiano gordo, dono dos tratores que arrancaram os pés de café e plantaram cana. Jussara, então, teve de ir morar no subúrbio de um lugarejo próximo, e só voltava para a fazenda durante a safra.

Mais velho que a irmã, Raimundo era um homúnculo. A única coisa grande que tinha era o sentimento de inferioridade. Perderia se brigasse consigo mesmo, e deve ter sido por isso que resolveu brigar com os outros. Acabou em uma poça de sangue, em frente a um botequim. Deusilene virou puta e passou a só aparecer de vez em quando.

Jussara ficou só. Na entressafra vivia de remendar as roupas dos bóias-frias e, uma vez ou outra, saía à noite para se encontrar com umas colegas da filha e ganhar uns trocados. Durante a safra, trabalhava no canavial. Dizia achar nobre a missão de ajudar a adoçar a boca do mundo com rapadura, melado e açúcar. Embora afirmasse nunca haver provado sequer um gole de cachaça, argumentava que seu trabalho ajudava a produzir a pouca alegria dos pobres.

Numa tarde, arquejava e lançava de si o ar pestilento do vinhoto e da palha sapecada, enquanto decepava as varas de cana com o facão. A doce cana degolada abandonava em Jussara toda a amargura que arrancava da terra. De vez em quando, as navalhadas das folhas da cana deixavam beiços rasgados nos braços e nas costas das mãos, como marcas de batom. Jussara abaixava o corpo, segurava um feixe com a mão esquerda e o cortava rente ao chão. A cada três ou quatro feixes ceifados, colocava-os nos ombros e os descarregava na carreta. Abaixou o corpo, segurou um feixe com a mão esquerda e amputou o feixe e o braço. Arregalou os olhos e soltou um grito. Não caiu e morreu. Morreu e só então caiu.

 

Conto 3

 

Júlia ligou o carro, querendo sentir-se confiante. Só ela, as malas, uma pilha de CDs e dois mil quilômetros de estrada pela frente. Mas não tinha volta. Era uma mudança de vida - para melhor, acreditava. O lugar era lindo e tranqüilo, mas civilizado. Tinha passado as férias lá há uns dois anos, e lembrava de cada detalhe: cada pôr-do-sol, coqueiro, duna e caminhada pela praia. E agora, em que fugia da vida agitada na cidade grande, descobrira a vaga de professor pertinho da praia que a encantara. Parecia feita sob medida para alguém que não suportava mais enfrentar o trânsito, o barulho e a agitação da vida na cidade, mas que era perto o suficiente para permitir uma fugidinha até Aracaju, ou quem sabe até Salvador, para evitar uma overdose de natureza.

A secretária de Educação do município pareceu muito feliz em vê-la. Na verdade, radiante. Disse que providenciaria imediatamente um carro para levá-la até a escola.

- Não precisa, eu vim de carro.

O sorriso desapareceu. A gagueira e as frases evasivas da secretária deixaram Júlia em estado de alerta. Estrada ruim, coberta de areia, só passava de jipe. Pouca sinalização, pegar a balsa... Não parecia o mesmo paraíso que ela tinha visitado há poucos anos. Um vilarejo encantador, com pousadas e várias casas de veraneio. Um lugar onde se poderia viver o ano inteiro como se fossem sempre férias.

·         Ah, é um lugar maravilhoso! – tentou convencê-la a secretária. -Fica na mesma localidade, só que é na colônia dos pescadores. Só é um pouco mais... isolado. Eu entendo se você não quiser ficar, mas foi uma promessa de campanha do prefeito, e há três anos que eles esperam um professor. Eles precisam de você.

“Precisam porcaria nenhuma.”, resmungou Júlia mentalmente. Entendeu todas as entrelinhas do discurso. Era ano de eleição. O prefeito deveria precisar dos votos da localidade, e ela era seu cabo eleitoral. Precisam de mim! Mas então pensou em crianças há três anos sem professor... Era uma isca barata, mas resolveu deixar-se fisgar.

Em pelo menos uma coisa a secretária não havia mentido. O lugar ERA maravilhoso. Um cenário de tirar o fôlego. Ainda mais bonito do que a Praia do Saco. Mas de resto... Umas vinte e poucas casas. Eletricidade, só de gerador. As ruas eram cobertas de areia, trazidas pelo vento forte que arrastava as dunas de um lado para o outro, mudando a paisagem quase diariamente. Não havia carros e a única forma de comunicação com o mundo civilizado que ela tanto prezava era através de um telefone público. E a escola...

A escola era uma sala de aula na Associação dos Pescadores. Uma sala até bem arrumada, que ostentava na porta uma placa com o pomposo nome de Escola Municipal Ruy Barbosa. E ela era a única professora para vinte crianças entre seis e doze anos de idade, que teoricamente estavam entre o primeiro e o quinto ano. Na prática, eram todos analfabetos, em maior ou menor grau.

Júlia poderia ter chorado uma semana, ou ter voltado correndo na primeira balsa de volta para o continente se não tivesse sido tão bem acolhida. Havia uma esperança e uma adoração tão grande nos olhos das crianças, e nos de muitos pais, que ela não teve coragem de simplesmente virar as costas. Começou a trabalhar imediatamente. Espantou-se em ver como as crianças eram espertas. Se não sabiam, não era por falta de interesse, mas de possibilidades. Quem aprende a ler em um local sem escola e com pais que mal sabem assinar o próprio nome? Mas não era hora de revolta ou discursos sociológicos. Havia um trabalho, muito duro, a ser feito.

Dedicou-se a ele como se aquele fosse o sentido de sua vida. E ao ensinar as crianças, aprendeu um pouco sobre um Brasil que ela não acreditava que ainda fosse capaz de existir. Pessoas que não tinham conhecimento do mundo além das fronteiras da cidade de Estância. Que nunca tinham utilizado um computador ou um celular. Que não reivindicavam direitos por não saber que tinham direitos. Que não sonhavam com nada além de amor e saúde, porque não conheciam as coisas com as quais poderiam sonhar. É claro que havia os turistas, e suas coisas bonitas e estranhas, mas eles eram diferentes, diziam. Diferentes em que ou porquê, Júlia não entendia.

E assim, entre indignada e fascinada, a professora foi deixando que o ritmo de vida do local a invadisse.

Começou pelas roupas. Depois que tentou lavar a primeira calça jeans com água tirada do poço, desistiu da empreitada. Aderiu aos vestidos leves, mais gostosos de usar e mais fáceis de lavar. Como não havia TV nem internet, juntou-se de bom grado às rodas de conversa na frente das casas ou no centro da praça. Conversas encerradas bem cedo, já que de madrugada todos já estavam de pé para cuidar da pesca do dia. Seu corpo foi entrando no balanço das ondas do mar, no desenho das dunas, nos ciclos da lua. Acordava sempre no mesmo horário, e sem despertador. Amava aquele lugar, e sentia como se fizesse parte dele. Como se tivesse voltado para casa.

Mas a suave rotina de Júlia foi interrompida bruscamente com a chegada de um turista fora de temporada. Mesmo que os pescadores abrissem os braços e as casas para os visitantes – o que lhes garantia uma boa renda extra – não viam com bons olhos aqueles de ar aventureiro, como o rapaz de São Paulo. Mas o coração de Júlia não era nativo, e encantou-se à primeira vista. No início pensou que eram saudades de conversar com alguém que morasse em um lugar com carros, poluição, shopping centers e bons restaurantes, mas logo percebeu que era algo mais. Tia Sinhá, a parteira e conselheira local, também identificou os olhares longos que Júlia dispensava ao rapaz.

·         Eu sabia que um dia você ia embora, minha filha, só não sabia que ia ser tão rápido.

·         Ir embora, Tia? Nem pensar.

·         Quando o coração chama, é melhor obedecer. Foi ele que te trouxe para cá, ele que vai te levar.

Júlia entendeu cada palavra de Tia Sinhá quando Otávio anunciou que iria continuar sua viagem pelo litoral. Queria conhecer o nordeste inteiro, e tinha programado ficar só um dia ali na colônia, e já havia passado mais de uma semana, por causa dela. Despediram-se com lágrimas e longos beijos, e Júlia viu-se fazendo uma contagem regressiva para as férias do final de ano, quando iria visitá-lo em São Paulo.

Mas outubro chegou antes, e o prefeito reelegeu-se em primeiro turno. Recebeu cem por cento dos votos da colônia. Júlia não entendia. Ele nunca havia feito nada pelo povo dali! Viviam sem luz, sem água encanada, sem posto de saúde. A melhor assistência médica que tinham eram as orações de Tia Sinhá, porque se alguém precisasse de médico de verdade, era uma maratona até chegar em Estância ou Aracaju. Crianças morriam de tosse – o que poderia ser desde uma crise de asma a um caso de tuberculose. Ninguém saberia, já que não havia atestados de óbito para quem não tinha sido registrado. Resignavam-se, dizendo que era a vontade de Deus.

Júlia havia aceitado tudo aquilo durante meses, mas reeleger o prefeito era demais! Até que a explicação veio simples e serena, da boca de Tia Sinhá.

·         Ele fez a escola e mandou a professora. Cumpriu o que prometeu.

Então em dezembro, Júlia foi embora. Não sem antes conseguir arrumar, pessoalmente, outra professora para a colônia, e deixar isso bem claro. Foi um ato dela, não do prefeito. Partiu com lágrimas nos olhos e no coração, mas esqueceu-as no momento em que chegou a São Paulo e aos braços de Otávio. Juntos, fizeram dezenas de outras viagens nos anos seguintes, empenhados em conhecer todo o Brasil. Do Pantanal à Amazônia. Das Missões no sul ao sertão mineiro. Os Lençóis Maranhenses e a Serra Capixaba. Visitaram mais de três centenas de cidades, além de todas as capitais.

As lembranças enchiam o belo apartamento nos Jardins, com as paredes cobertas de fotos de lugares pitorescos e modernos, desertos e urbanos. “Temos o Brasil no sangue”, Otávio gostava de dizer. “Sou brasileira por inteiro”, reafirmava Júlia.

Um dia, em um jantar com amigos, Marcos perguntou qual o destino da viagem daquele ano.

·         E aí? Em que buraco vocês vão se meter dessa vez?

·         Este ano vamos para a Europa. Cansei um pouco desse povinho. – respondeu Otávio.

A resposta surpreendeu os amigos. Queriam saber o que tinha acontecido, o porquê da mudança súbita. Otávio empolgou-se com a explicação.

·         O país é maravilhoso, tem tudo o que alguém poderia querer. Mas cheguei à conclusão que a culpa do nosso atraso é mesmo desse povinho. Ninguém quer trabalhar de verdade, ficam acomodados. Se não têm luz, ou água, ou esgoto, botam a culpa nos políticos. Mas quem elegeu os políticos? Eles mesmos. E não têm memória. O cara rouba, não investe em nada e é reeleito. É tudo acomodação.

·         É falta de educação de qualidade... – alguém tentou alegar.

·         Ah, isso é desculpa esfarrapada. – continuou Otávio. - Quando alguém quer alguma coisa de verdade, consegue o que quer. É essa preguiça que atrapalha tudo...

Júlia saiu da sala, discretamente. O discurso do marido a havia perturbado. Até concordava com ele, em parte, porém a generalização a incomodava. O Brasil era grande demais para ser simples assim, Otávio deveria saber. Só quando chegou ao escritório foi que se deu conta que buscava algo ali. Uma foto na parede. A colônia de pescadores. A foto para onde ela olhava, sentindo como se estivesse ali dentro mais do que em qualquer outra paisagem. Às vezes, mais até do que em sua própria vida. Todo ano prometia a si mesma que voltaria lá, mas sempre adiava a viagem. Talvez pelo remorso de não ter ajudado a modificar uma realidade, por não ter feito mais do que fez. Ou por não poder fazer o que gostaria. Mas por acaso era justo ter de optar entre o idealismo e a vida pessoal? Sentiu um gosto salgado na boca, e não conseguiu identificar se eram de lágrimas ou de maresia. Fosse o que fosse, estragou o gosto do bom vinho chileno que tomava.

 

 

Uma Metáfora para o Brasil

 

 

DESAFIO 11- Primeiro Desafio da Final:

Muitos são os Brasis. Há um Brasil como o do universo sulista de Érico Veríssimo em O tempo e o Vento ou Incidente em Antares,um Brasil urbano como o de Mário de Andrade em Amar Verbo Intransitivo, um Brasil rural como o de Graciliano Ramos em São Bernardo; um Brasil sertanejo como em Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas e outros tantos que seria exaustivo citar.

 

A tarefa é realmente hercúlea, digna de 3 vencedores que chegaram a esta final. Conte uma estória realista ou história real que seja, em seu sentido geral, uma convincente metáfora de um dos muitos Brasis ou do Brasil absoluto, se é que existe essa utopia.

 

Nota: No momento em que entregar por e-mail seu conto deste desafio, receberá o desafio 12, mas, uma vez entregue, o conto de Desafio 11 não poderá mais corrigir o texto.

 

 

 

 

 

                                      

Breve

Primeiro Desafio
da
FinalBreve

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