
ESTÃO LIBERADOS PARA LEITURA, NESTA PÁGINA, TODOS OS CONTOS ENTREGUES.
ESCLARECEMOS QUE AS PRÓXIMAS ETAPAS SERÃO ENCERRADAS SEMPRE NA DATA PREVISTA
NOS SEGUINTES HORÁRIOS:
1-CONTO ENTREGUE
2-CONTO ENTREGUE POR E-MAIL: ATÉ 21 HORAS DA DATA LIMITE.
Comentário sobre o julgamento:
Os jurados foram convidados a apreciar e
julgar os trabalhos e solicitados a não comentarem entre si os trabalhos
recebidos a fim de que se refletissem na avaliação a diversidade de observação
e a fruição pessoal da obra. A liberdade é ampla! Não havia nenhuma regra
pré-estabelecida além dos limites (entre 6 e 10) das notas a serem atribuídas, mas foi
bastante generalizado o procedimento de pontuar menos (ou não pontuar) obras
que não atendessem ao tema do desafio. O principal objetivo do presente desafio
é oferecer aos participantes e aos que acompanham o certame um feedback dos trabalhos apresentados. Aos
participantes, cabe procurar entender o que emocionou o jurado ou,
simplesmente, que recursos funcionaram melhor para cada jurado e tentar, nesta
2ª etapa, manter as notas, quando esta foram positivas, ou melhorá-las quando
ficaram abaixo do esperado. Apenas 18 passarão para o 3º desafio!
Marco Antunes

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Conto 1 |
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Autor: |
Vera Mota |
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Título |
“Gênero-econômico”, colorido
deslumbrante! |
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Desde menina Milena viaja de carro pelo Nordeste brasileiro, capitais e interior. Tinha que visitar a avó paterna, aquela matrona com brincos e pulseiras de ouro 18, pó de arroz nas faces branquinhas, agulha de crochê sempre a postos com linha Anne, de preferência vermelha, fogo. Depois que a avó morreu, a paixão pelas praias, pelas feirinhas, pelo artesanato, pelo sotaque acolhedor dos outros parentes têm sido suficientes para manter o enorme prazer da viagem. Faz calor, sim! Um sol quente, asfalto suando... Não tem ar-condicionado que resolva. Naquela época, na infância, o que mais chamava atenção eram os vendedores da beira da estrada: papagaios, micos, passarinhos coloridos e cantadores, tucanos, araras, cotias, tamanduás... Tudo o que hoje consta da listinha do IBAMA. É claro que, a cada roteiro, o “zoológico” da chácara dos pais de Milena, no Parkway, tinha um upgrade. Expiando os vendedores e as estratégias
de apresentação de seus produtos, de longe mesmo, dava pra saber quem ia se
dar bem na vida, ou pelo menos naquele dia. Com aquele sol quente, meu amigo, uma
venda assim, de porte, para uma família do “Sul”, poderia ser o paraíso!!!
Mas, na verdade, cá pra nós, “no mais das vez”, eles não tinham a menor
chance de fazer um carro parar. E para a doce e minúscula Milena — amante de
todos os animais proibidos pelo IBAMA e interlocutora dos corações e mentes
sensíveis — aquela seqüência de barraquinhas de palha e pequenos tamboretes,
onde se “estatuavam” (totalmente imóveis!) os representantes das três
gerações daquelas famílias... Aquela cena... (Acho que não se trata de
“cena”, porque não tinha ação, reação, vida... Será que é melhor dizer
“paisagem”, tipo natureza morta?) Vamos ver: aquela “paisagem” lembrava a
porta... é, é, é a porta... de um inferno. Ela não desejaria aquilo para ninguém:
era desumano! Ali estavam estampados o avô, o pai e o
filho. Isso dá mesmo o que pensar! E
“pensar não só com o cérebro, mas com as narinas dilatadas, os lábios
cerrados, músculos dos braços, das costas, das pernas... punho crispado,
dedos contraídos"... Tudo incomoda, parece que dói nessas horas: — Que
futuro seria o deles? Que presente? Milena menina, três dias dentro de uma
Vemagete, só queria mais um papagaio, para formar um casal... —
Alguém sabe dizer o sexo de papagaio novo?! Imagina, gente! Na beira da estrada,
com placa de Brasília... Eles podiam dizer que quaisquer “dois” era o casal e
vender logo juntos, fazendo um descontinho... Risco zero, sem chance de
devolução. Mas, não! Os sonolentos ficavam paradinhos, olhando pro próprio
pé, com as gaiolas cheiinhas!!!! Atualmente Milena, mãe de família, com
todo o respeito, — com uns brinquinhos de argola, básicos, de ouro... pra não
dar alergia, né?; aliancinha de brilhante básica, né?; só com um lapisinho de
olho e um gloss cor de lábios, bem natural... com blusa de tricô que
ela mesma fez no último recesso, branco — já nota muita diferença nas
barraquinhas de beira de estrada. O IBAMA tem trabalhado direitinho, nesse
aspecto. Hoje a pensadora não precisaria mais
ficar solitária, ressaltada, contorcida mirando de cima uma porta do inferno.
A propósito, Milena também já rodou muitas praças, muitas cidades, muitos
Estados e países, aprendendo, ensinando, fazendo cursos: o currículo lá no
Banco de Talentos da Câmara tem um bocado de páginas... Não dá pra resumir,
assim em duas linhas, pra pôr num site, ainda que seja literário... Na última viagem, agora pela Paraíba,
logo após a parada do almoço, Milena voltou no tempo — como só ela e os
artistas sabem fazer. Esse povo vive mesmo em outra dimensão! — e descreveu
minuciosamente para o escultor a nova “paisagem”: sertão nordestino, julho de
2007. Antes, é claro, ela explicou direitinho o contexto “gênero-econômico”: — Não é por causa da Paraíba, “mulher
macho, sim, senhor, não”. As mulheres estão em vários lugares públicos, nas
empresas, no comércio, nas ruas, beiras de estradas... é normal, hoje em
dia... talvez até na porta de um inferno, mirando ou entrando... Ou seja, não
precisa mais ser homem pra demonstrar que pensa, certo? Bem, a tal cena, se ainda parece
desumana para alguns, já não o é para Milena, que atualmente também faz
meditação (em qualquer posição). Finalmente temos um sinal de que valeu a
pena tirar a estátua que pensa da porta do inferno e fazê-la maior, bem
maior, em bronze, e deixar suas réplicas correrem o mundo. Sabe o que ela vê agora? Claro que o
escultor ficou feliz! Na primeira barraquinha, com um decote
até o umbigo e shortinho de lycra verde-limão, a vendedora mãe: cabelos
longos, cacheados, volumosos, com aquele batomzão, de preferência vermelho,
fogo. Na segunda barraquinha, alguns metros
adiante, a vendedora avó. Esta não mudou quase nada: um colorido
deslumbrante, sentadinha no seu tamborete, olhando para o próprio pé, embaixo
daquela loninha, cheiinha... Vocês
sabem de que, né? Na última barraquinha, encerrando as
gerações, a vendedora neta — da idade de Milena quando adquiriu seu primeiro
filhotinho de mico estrela, aquele que tem uma manchinha branca na testa,
lembrou? A
neta, embaixo da barraquinha, não usa maquiagem. Ô, gente, que maravilha! Bonitinha ela! Camiseta dos Rebeldes,
fone de ouvido, walkman na cintura... Também “parece” uma estátua! Mas
por uma boa causa. Compenetradíssima! Sem pestanejar! Não tira os olhos, de
jeito nenhum, deeeee uuuuuummm liiiiivvvvrooooo! Um livro! Gente, não importa o título, o
conteúdo... Olha a evolução, a esperança! Ela não pisca mesmo, nem quando o carro
estaciona e buzina... naquele asfalto de miragem... A pensadora começa a rir e avisa ao
escultor que agora ele já pode voltar — não precisa mais disfarçar para seus
amigos franceses — e esculpir sua verdadeira obra prima, que sempre foi
mulher e permanece ainda “menina”, especialmente depois da lipo! Ah! E
apaixonada pela listinha proibida do IBAMA... 4 mil reais uma arara vermelha!
Já pensou? |
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JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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LUCI AFONSO |
A autora
tem estilo ágil e cativante. Entretanto, o “colorido deslumbrante” da
personagem ofusca o artista em questão, Rodin, e a obra escolhida, “O
Pensador”. O texto não narra acontecimentos que teriam levado à criação da
escultura, conforme o tema proposto. Em vez disso, traz ambos, criador e
obra, para uma realidade de dimensão mais modesta. |
7 |
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CRISTIANE BRUM |
Creio
que o texto tenha ficado muito hermético, sem possibilidade de grande interação
com o leitor. Realmente não entendi qual é a obra criada e não achei que a
construção do texto permita ao leitor acompanhar as citações e as ironias da
autora. Além disso, achei o narrador bastante confuso em seu papel: por vezes
se distancia, outras vezes parece se confundir com a autora em suas opiniões. |
6 |
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LIANA FERREIRA |
O texto
tem ritmo, mas a linguagem nem sempre é muito clara e a abordagem da
escultura “O Pensador”, de Rodin, apenas superficial e obscura. Tem inserções
que destoam do objetivo e quebram um pouco o encantamento do leitor. Há um expiando,
em vez de espiando. |
7 |
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LORENZA COSTA |
O conto
começa bem, mas fica confuso por causa do excesso de informação. Não há necessidade
de citar o Banco de Talentos da Câmara e um site literário para pintar
a personagem. Parece uma tentativa não muito bem sucedida de piscar o olho
para o leitor. O escultor, por sua vez, entra de repente na viagem. Merecia
mais espaço. |
7,5 |
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MARCO ANTUNES |
Falta
ao presente “conto” a tensão dramática
de uma história propriamente dita, inclinando a percepção do Gênero do
trabalho mais para crônica que para o conto propriamente dito. Não fui capaz
também de entender que obra a história de Milena inspirou, mas somente uma
que ela inspiraria, desta forma, acho que o desafio não foi muito
adequadamente cumprido. |
6 |
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TOTAL |
33,5 |
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Conto 2 |
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Autor: |
Davi R. Oliveira Jr. |
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Título |
Um pincel para David |
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- Buonarroti, exclamava, sou um Buonarroti!!! O homem atribulado seguia rumo ao seu algoz. E que algoz! Nada menos que o próprio sucessor de Pedro. O pilar da Santa Igreja parecia mesmo uma pedra de tropeço, caprichosa e fixa em seus próprios desejos, uma penha que não se deixava lapidar ou transportar. Se o orgulhoso artista não temesse a própria consciência, facilmente correria o risco de acreditar que a serpente Bramante, o arquiteto do Vaticano, teria seduzido o próprio representante de Deus a exigir do atribulado artista novos dotes apenas para assistir à derrocada do prestígio que arduamente esculpira. A opulência da Catedral de Santa Sé não era sequer notada pelo artista. Seu coração inquieto só guardava más recordações daquele lugar. Não adiantava fugir. Como Jonas, ele já havia tentado se esquivar do que havia em seu próprio coração. Há alguns anos fugira de Roma, mas a graciosa providência lhe permitiu pedir e receber o perdão de Sua Santidade. Pena que a escultura forjada do bronze fundido, metal que teimava formar amálgama com a pele daquele que o fustigava pela primeira vez, virou em menos de quatro anos material para a confecção de um canhão. Na antecâmara do salão de audiências, não fez caso do clérigo que o recepcionara. Com suas vestes litúrgicas, entrecortadas com o vermelho vivo dos adereços eclesiásticos, transparecia uma serenidade incomum, especialmente para aquele ambiente em que o sacro cedia tanto espaço para a política e para a ostentação. Absorto em suas dúvidas, sentou-se e perdeu a noção do tempo. - Bom homem, que perturba seu coração? Sua voz era suave e convidava a confissão. Algo parecido como reencontrar alguém por quem se anelava e que, mesmo sem oferecer respostas, aquietava a alma. O padre parecia familiar e digno de confiança, ao mesmo tempo em que seu olhar penetrante parecia ver além do que Buonarroti desejava transparecer. O silêncio prolongado do artesão demonstrava mais que o constrangimento de ter sido flagrado em suas preocupações, revelava o embaraço de ser límpido o medo de não ser capaz de desempenhar a tarefa incumbida. - És tu o escultor? Respondeu o artista sem conseguir disfarçar a ironia: - Sim, mas agora fui, por designação de Sua Santidade, promovido a pintor. Prefiro ser chamado apenas pelo que sou, não pelo que faço. Sou Michelangelo Buonarroti, como já deves saber. - O que farás? - Vou pintar afrescos no teto da Capela. Eles devem refletir a beleza do templo de Salomão cuja descrição serviu de base para a construção. Não é um desafio extraordinário para um escultor promovido a pintor? - Meu Filho, Salomão em todo seu esplendor jamais se vestiu tão bem quanto um lírio. Pretendes fazer algo similar às roupas de Salomão ou aos lírios do campo? - Padre, não há como comparar as obras das mãos humanas com as obras da mão de Deus. O sacerdote mostrou um sorriso de aquiescência com a frase de efeito, mas logo seu rosto pareceu se encher de profunda compaixão pelo homem. - Qual o teu maior orgulho? Qual tua melhor obra?. A pergunta não era mera vazão de curiosidade sobre a vida de um homem aclamado como gênio. Era real interesse no filho de Ludovico di Lionardo Buonarroti Simoni. Algo que ameaçava profundamente o ego de Michelângelo. - Minha arte, meu reconhecimento. Minha melhor obra é David. - David? David é criação tua? Qual David? Aquele que apesar de tuas ordens permanece mudo? Você chama isso de criação? - Padre, balbuciou perplexo, é minha mais perfeita escultura... - Tu julgas que o David cristão é aquele Hércules pagão cujo espírito pode, pela força do homem, afugentar espanhóis e franceses dos limites da Toscana os ameaçando com pedriscos? Tua obra é o fruto de teu orgulho e dos que a encomendaram. Como um vento que principiou suave e se transforma em tormenta que arranca casas, o padre prosseguiu: - O verdadeiro David era tão franzino diante de Golias quanto é tua honra diante do julgamento dos homens. Tua funda é agora teu pincel, pois fostes destituído de teu formão, da tua talhadeira e de teus martelos. Em quem confiarás para tão grande provação? Em ti mesmo, Buonarroti, ou em teu criador? A consciência de sua condição de criatura provocou em Michelangelo a dor de ver ruir o que realmente era sua mais grandiosa escultura: a ilusão de ser criador. - Não subsisto sem ti, Senhor!!! Exclamou o artista esquecendo de seu interlocutor e fitando a imagem do Cristo. - Vem em meu socorro, pois desfaleço. Michelangelo sentiu o reconfortante abraço sarcedotal e ergueu os olhos. O Padre, que agora parecia brilhar, afirmou: - Fique em paz, perdoados foram seus pecados. Não te estribes no teu próprio entendimento. Segue como Pedro sobre as águas, sem olhar para a tempestade. Sem fé é impossível agradar a Deus. Com uma profunda sensação de alívio espiritual, Michelangelo se volta para o padre, sem perceber que aquela antecâmara estava ebria de uma glória indizível e nela se fazia ouvir o ruflado das asas de querubins. - Padre, perguntou: como te chamas? - Meu nome? Eu SOU... Michelangelo encontrado desfalecido é desperto e levado à presença do Sumo Pontífice. Na presença do Papa, aguarda permissão para falar. Júlio II estende sua mão para o artista e lhe pergunta: - Quanto tempo até a conclusão de tua obra, escultor? - O tempo necessário, Vossa Santidade, para que uma imagem do criador nela se reflita. - Precisas de algo? Bramante já montou os andaimes e contratou pintores auxiliares... - Santo Padre, permita-me trabalhar só. A obra não é para um exército, e sim para um homem ajudado por Deus. - Deus? |
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|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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LUCI AFONSO |
A beleza deste conto já se anuncia no título e se consolida
na profunda reflexão sobre a relação criador/criatura. Algumas expressões
destoam do conjunto, como “frase de efeito”
e “tormenta que arranca casas”;
o sujeito não está claro no parágrafo |
9 |
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|
CRISTIANE BRUM |
A escolha
da obra e do artista foi bem interessante, mas a solução do sonho me pareceu
um pouco comum e fácil demais. Ainda que intenção tenha sido destacar o lado
místico da produção religiosa, acho que a atmosfera onírica poderia ter sido
melhor construída e explorada ao longo do texto. Acho que isso também poderia
intensificar a crítica política embutida no conto. |
7,5 |
|
|
LIANA FERREIRA |
O conto
começa bem e prende a atenção, mas o final empolga pouco. A expressão
“tormenta que arranca casas” está dissonante. Há pequenos
problemas gramaticais facilmente corrigíveis, como fostes
destituído, em vez de foste destituído. O contexto está bem
definido. |
8 |
|
|
LORENZA COSTA |
O ponto
de vista sobre o significado de “ser artista” está bem desenvolvido: a obra escolhida
e a história criada em torno dela vêm bem a propósito. A escolha do
vocabulário e o estilo remetem de imediato para uma época passada.
Entretanto, prejudicam um pouco a leitura algumas repetições de verbos de
ligação, a mistura da segunda pessoa com a terceira e a alternância
desnecessária para o presente do indicativo a partir de “Michelangelo se
volta para o padre (...)”. |
9 |
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|
MARCO ANTUNES |
Algumas
frases tornam o estilo elegante, mas infelizmente essa impressão é logo
desmentida por outras frases menos impressivas, deixando o texto irregular.
Cena imaginativa, mas em franca colisão com o que se conhece do Michelangelo
histórico e do que se pode perceber do produto final da própria Capela
Cistina. |
7,5 |
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TOTAL |
41 |
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Conto 3 |
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Autor: |
Lúcia Borges |
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Título |
VIDA: SONS E CORES. |
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No casarão da fazenda OLHO D’ ÁGUA, em Angra dos Reis, município do Estado do Rio de Janeiro, Zulmira olhava-se ao espelho bisotado da parede da sala de jantar. Nascera ali e recordava-se das imagens de seus antepassados. Chegava a vê-los refletidos, tamanha imaginação, até que se achou parecida com sua mãe. Estava bonita e conservada para 75 anos, as dobraduras de seu rosto contavam a história de sua vida - os bons e maus momentos sempre deixam marcas. Orgulhava-se disto. Cabelos em ordem, uma boa imagem para receber os netos... chamou Mariana e João para conferir os últimos preparativos: a mesa já estava posta e os arreios revisados, prontos para montaria. Foi até à janela ansiosa, parecia estar ouvindo o som do automóvel chegando. Estava completando dois anos que não os via, no último verão morrera o administrador da fazenda, por esse motivo não pudera se ausentar e as crianças não puderam vir. Com a tecnologia ajudando a aproximar as pessoas pode vê-los e conversar com eles pela internet. Finalmente chegaram! Como estavam grandes e bonitos. Cinco de uma vez, adeus solidão, pelo menos dois meses de alegria durante o ano. No Natal chegariam seus três filhos e noras. Acomodaram-se em seus quartos, se prepararam e desceram para a sala de jantar onde Zulmira os aguardava. Após o lanche foram colocar os assuntos em dia como sempre faziam desde tenra idade, no grande salão de leitura. Já havia separado os livros, de acordo com as idades, para entregá-los às crianças. Sua proposta era que cada um lesse e no dia estipulado, com a família toda reunida, contariam o que leram a todos num grande sarau. Ela sempre ao piano. A noite já estava chegando, a lua cheia iluminava o jardim e ainda dava para ver o rio que margeava a fazenda pela janela panorâmica do confortável salão. Após a entrega dos livros, Zulmira começou a contar a história de Dona Noite Doidona de Sylvia Orthof que sempre fazia sucesso desde a neta de dezesseis até o caçulinha de quatro anos. Foi quando o menino de quatorze fez a intrigante pergunta: “Vovó é verdade que algumas pinturas de Monet parecem fora de foco porque ele não enxergava direito?” Surpreendida pela pergunta lembrara da exposição sobre o pintor que fora ao Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1997. Respondeu ao neto que realmente Monet teve problemas de visão, em 1923 com 83 anos ele quase ficou cego por conta de uma catarata. Foi operado e passou a usar óculos. Curiosamente o assunto mudou, todos se interessaram e a contação de histórias passou do mundo da fantasia para os grandes mestres da história das artes... A alegria de Zulmira foi tanta que se levantou de sua cadeira de balanço e pegou: os CDs de Vivaldi; o que recebera na compra do ingresso para a exposição de Monet; o grande livro da história da arte e o cenário mudou. Iniciaram uma grande viajem pelo mundo das Artes: colocou o CD de Vivaldi no CD player; sentou-se ao computador rodando as imagens dos quadros de Monet e contou a seguinte historia: “Monet casado pela segunda vez, empolgado com sua casa nova e o jardim, sua cabeça fervilhando de idéias, não conseguia dormir. Levantou-se e foi para o salão escutar os concertos de Vivaldi. Encantava-se com a obra “As Quatro Estações”, esta que vocês estão ouvindo agora e começou a inspirar-se. Era noite alta, com a tranqüilidade da música e o silêncio da casa, cochilou... seus cochilos eram flashes de cores e luzes. Despertou com o término da música, tirou o disco de 78 rotações do gramofone desligou-o e deitou-se. No dia seguinte, após o café da manhã, correu ao seu belo jardim que cultivava com muito carinho e começou a pintar suas mais famosas obras. Sentia que conseguia colocar nas telas os sons de Vivaldi, começou pelo “Primavera” e assim a cada concerto que ouvia conseguia quadros mais belos”. Olhos arregalados, os cinco netos maravilhados com as novidades do conto, lembraram que havia um gramofone enfeitando o salão perto da lareira e curiosos crivaram-na de perguntas. Os menores já pediam as canetinhas, guaches e papéis para começarem suas obras e dedicarem à vovó. Muito feliz com a temporada que passou com os netos, chamou uma amiga que trabalhara com ela para passar o carnaval na fazenda e contou para a nova hóspede como curtiu as férias dos netos e o apoteótico sarau com a família. Na tarde seguinte, tomando chá no jardim de agapantos e papoulas da fazenda, Zulmira comentou com a amiga: “Néia sabe que eu penso ser verdade...” Néia: “O que Zulmira, verdade o que?” Zulmira, depois de olhar para o belo jardim, respirou fundo e disse: “Monet se inspirava em Vivaldi!” |
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|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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|
LUCI AFONSO |
Os agapantos
e papoulas retratados por Monet compõem o jardim desta personagem fecunda,
igualmente inspirada nas estações de Vivaldi. Algumas sementes de ritmo, uma
poda na pontuação, um enxerto no título trarão a primavera ao texto. |
7,5 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
Apesar
da situação peculiar criada pela autora, o exercício proposto não foi
desenvolvido por inteiro, uma vez que o texto não explora o processo de
criação da obra pelo artista, apenas o cita com distanciamento temporal e
espacial. |
7 |
|
|
LIANA FERREIRA |
O texto
é todo bem comportado, a história está bem contada, mas falta alguma coisa,
talvez emoção. Senti falta de um final
com mais impacto, pois a conclusão a que Zulmira chega no desfecho, já está expressa no meio do conto. |
7,5 |
|
|
LORENZA COSTA |
Falta
um foco ao conto. É a relação entre a avó e os netos? É a opinião da avó
sobre a relação entre Monet/Vivaldi? A partir do sétimo parágrafo, as
passagens de tempo não estão claras (o “dia estipulado” do sarau é a noite
que chega no oitavo parágrafo, mas isso só se percebe lendo o conto todo e
voltando atrás. Na primeira leitura, a “noite já estava chegando” parece
referir-se à noite do dia em que os netos chegaram); a penúltima passagem é
abrupta demais (“Muito feliz com a temporada que passou com os netos...”). |
7 |
|
|
MARCO ANTUNES |
Linguagem
simples e eficiente, enredo verossímil; mas devo confessar que não me
entusiasmou a leitura do conto. |
7 |
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TOTAL |
36 |
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Conto 4 |
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|
Autor: |
Lacy Mesquita |
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|
Título |
O beijo |
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|
Dizer hoje, diante da consulta de juntar os
trabalhos dela aos meus que não há nada mais justo que isto, é admitir para
todos o quanto deixei de ser eu mesmo por todo o tempo que estivemos juntos. Eu
e ela nos misturamos tanto e ela ficou mais eu e eu fiquei mais ela. Tudo o que fizemos, toda a nossa obra se
espelhava de maneira desconcertante...
Disse um sim - podem sim juntar às minhas obras às obras de Camille e junto, minha memória de velho trouxe tudo de novo.
A incumbência de supervisionar o progresso das alunas de um amigo, o destaque de uma das alunas. A admiração antes do talento, da pessoa irrequieta e depois, só depois, a paixão incontida de um homem maduro pela juventude, pela beleza. O ciúme de todos que dela se aproximavam e a constatação de ser para ela um mestre, invisível como homem.
A cada visita, cada pergunta técnica, cada aproximação constatava minha invisibilidade e no entanto sua admiração não era dissimulada - minha arte certamente chegava à sua alma. Eu, Auguste chegava até ela vestido com minhas então condições de velho homem talentoso e importante. Era de vinte e poucos anos a nossa diferença de idade. Ela namorava homens jovens. Ela se mantinha ocupada com seus amigos jovens, seus desenhos, seus projetos.
Comecei então a colocar para trabalhar para mim um cinzel incansável num bloco de mármore perfeito. Meu cinzel conhecia os meus sonhos e neles eu era também um jovem. Um jovem tímido chegando enfim ao privilégio de estar com sua amada intimamente. À medida que as formas se apresentavam eram torneadas com um afinco obsessivo, cada detalhe e a luz que ele traria para si eram vistos em meus desenhos mentais. Minhas mãos ali eram pousadas delicadamente. Mãos de escultor curiosamente tímidas a ponto da esquerda não ousar o toque. Ela, sim, se entregava sem pudores, sem reservas. Passei então a me dividir em duas vidas - no ateliê das alunas era o velho mestre. E no meu, o jovem amante inseguro sendo beijado pela amada. O velho mestre tinha uma fiel companheira. O jovem amante vivia seu amor sem pensar em futuros. Ah! quanto tempo entre os
sonhos e o cinzel! Que tortura voluntária! Fazia talvez parte daquele grande
amor o sofrimento e ele acabou transbordando no dia Escandalosamente reconhecida
por todos. Só não sabiam que aquele beijo
jamais aconteceu. Aquele mármore retratava meu desejo contido, não o
dela. Naquela estátua fria não havia a
minha paixão. Havia a dela, que não
havia. Eu, como escultor tocava a alma de Camille, então através da alma consegui sua atenção e todos aqueles anos a mim dedicados como parceira de trabalho e amante. Meu cinzel trabalhou com fidelidade de servo, e meus objetivos com Camille foram alcançados. No entanto, nos perdemos um no
outro e num outro dia, este triste,
nos despedimos cheios de rancores, para sempre. Foram meus melhores anos, mas não os melhores anos de Camille. Ao ver juntos nossos trabalhos me
senti confortado, voltei a ser o jovem tímido que não ousou pousar no corpo
dela a mão esquerda - a do coração - e que teve toda a paixão, a entrega da sua jovem
amada. |
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|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
|
|
LUCI AFONSO |
O emocionado
testemunho em primeira pessoa, do próprio artista, sobre os sentimentos e
conflitos que experimentou ao esculpir “O Beijo” revela a sensibilidade da
autora. É preciso uma pequena revisão ortográfica e gramatical, atentando
para a clareza das frases. O parágrafo final deve ser lapidado para evitar
excessos. |
7 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
Interessante
o modo como o texto explora as emoções do artista com bastante singeleza. Muito
boa a forma como a criação da obra artística é explicada. Recomendo à autora,
contudo, mais cuidado com os deslizes ortográficos no próximo. |
8,5 |
|
|
LIANA FERREIRA |
O conto
está de acordo com o desafio proposto. Tem poesia e imagens formidáveis.Tenho
a impressão de que faltou uma revisão mais detalhada, tanto na ortografia
quanto na estrutura das frases. Feito isso, teremos uma bela escultura
literária. O principal mérito deste conto está em fazer um retrato de bom moço do Rodin.
Claro que o narrador em primeira pessoa facilita esse trabalho, já que
legisla em causa própria. Gostaria de ver essa história contada pela Camille
Claudel. Quem se habilita? |
8,0 |
|
|
LORENZA COSTA |
A
linguagem pode melhorar em alguns pontos em que está truncada ou não
imediatamente compreensível (“diante da consulta de juntar”, “comecei a
colocar para trabalhar para mim”, “a ponto da esquerda não ousar o toque”).
Apesar disto, a hipótese imaginada para justificar a criação da obra é
excelente e foi bem desenvolvida. Apenas no final o conto se precipita um
pouco, ao apresentar um “resumo” da vida do casal. |
8 |
|
|
MARCO ANTUNES |
È um
belo conto que revela o grande potencial da escritora, em especial se
redobrar seu cuidado com ortografia e pontuação, que são partes importantes
de seu instrumento de trabalho: a língua. O grande senão se encontra no
excesso de narração que sempre substitui a cena aberta, o dramático, enfim,
enquanto ocorre e está vivo. Não nos esqueçamos de que o conto guarda em si o
impulso para a dramaturgia! |
7,3 |
|
|
TOTAL |
38,8 |
||
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Conto 5 |
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|
Autor: |
Antônio Cardoso Neto |
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Título |
Uma impressão da aurora |
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|
— Camille, disse ele,
cutucando a companheira até então adormecida. Você consegue ver... E Olhou-se no espelho
pendurado na parede. A penugem boiava na frente de sua cara barbuda. Lavou o
rosto com a água de uma bacia de porcelana e esfregou os dentes com o dedo
indicador. Bochechou e cuspiu na privada turca. Fez um gargarejo e cuspiu de
novo. Abriu a portinhola do pequeno armário sobre o qual estava a bacia,
pegou um frasco de vidro, abriu a tampa e derramou umas gotas de lavanda na
palma da mão. Colocou o frasco ao lado da bacia, esfregou as mãos, e as
friccionou nas axilas. Banho? Nem pensar. — — — — Pierre-Auguste deu de
ombros. Claude virou-se e olhou em direção à porta, onde flutuavam não duas,
mas umas cinco penugens. — Estou ficando cego,
Auguste! — disse ele, tomado de pavor súbito. Claude — Pode — — É Claude e Camille
arrumaram as Montou o |
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JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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LUCI AFONSO |
Narrativa
perfeita, final, idem. Duas
pequenas tentativas de humor (“Banho?
Nem pensar.” “...seguro morreu de velho.”) ficam deslocadas. O texto é
enriquecido por belíssimas imagens. Só faltou à paleta do autor um leve tom
vermelho. |
9 |
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|
CRISTIANE BRUM |
Muito
boa a situação criada, com uma adequada dosagem de fatos e emoções sugeridas
por esses eventos. Também achei criativa a solução encontrada pelo autor ao
sugerir que a cegueira – problema grave para um pintor - tenha se
transformado em uma característica com resultado artístico tão bom. Gostei
também da linguagem simples, sem rebuscamento. |
9,5 |
|
|
LIANA FERREIRA |
Emocionante.
Bem escrito. Traduz fielmente o clima poético da obra em questão e aborda com
lirismo irretocável a perda de visão de Monet. |
10 |
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LORENZA COSTA |
O primeiro
parágrafo é um primor, cumpre muito bem sua função de “fisgar”. O conto
consegue trazer para a minúcia do cotidiano, com verossimilhança, uma
história cujas linhas gerais são conhecidas. A linguagem, sem ser preguiçosa,
é enxuta, objetiva: diz o que precisa ser dito, sem roubar do leitor a
oportunidade de experimentar sua própria reação ao drama que se descreve.
Deixa um pouco a desejar a ambientação na Paris de Monet: trocando alguns
nomes, o mesmo conto poderia se referir a um pintor carioca em pleno século
XXI. |
9,5 |
|
|
MARCO ANTUNES |
Excelente!
Há no conto todos os elementos constituintes das boas peças do gênero:
dramaticidade, tensão psicológica, linguagem honesta e estética conseqüente.
Não leva o 10, pois ainda não se atingiu aqui o êxtase estético capaz de
operar, no espírito que frui a obra, aquela inexplicável sensação de
descoberta e maravilhamento que a obra-prima causa em quem a observa. |
9 |
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TOTAL |
47 |
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Conto 6 |
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|
Autor: |
Olívia Maia. |
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Título |
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- - Há! Desci a A Ao - - Nessa Parou...Olhou
- Sentia |
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JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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LUCI AFONSO |
A emoção
incontida e a forte personalidade da autora nos arrastam à mesa de bar no
centro histórico de São Luiz, onde se batuca o tambor-de-crioula. Entre as
“pungadas”, porém, é preciso cuidar de vírgulas, acentos e frases, tarefa
fácil para a “moça fogosa” que “arrepia na dança”. As explicações em excesso
comprometem o ritmo do batuque. Depois da oração a São Benedito não cabem as
considerações sobre política cultural. |
8 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
Apesar
da situação peculiar e interessante descrita no texto, ele não cumpre a
tarefa proposta, pois não é possível identificar a obra e o artista
escolhidos. Seria o tambor? O batuque? Mas que situação levou à criação
deles? Também fiquei incomodada com algumas citações e comparações feitas
pela autora, especialmente a que trata do Mar Vermelho. Qual o sentido de tal
comparação para leitores brasileiros? A menos que sejam religiosos e vejam na
comparação um sentido místico, não há como compreenderem totalmente a comparação.
É claro que o autor tem toda a liberdade de direcionar seu texto para um tipo
específico de leitor. No caso deste concurso, contudo, que é uma situação
real de leitura, não acho que seja a melhor estratégia. A citação final, da
Surfistinha, está completamente fora do tom singelo do texto. Completamente! |
6 |
|
|
LIANA FERREIRA |
O conto
começa bem e empolga, mas depois fica muito jornalístico e didático e por fim
se transforma em plataforma política. Está bem escrito, mas não acho que
esteja adequado ao desafio. |
7 |
|
|
LORENZA COSTA |
O
material pesquisado sobre o “Tambor de Crioula” foi transposto para o texto
de forma muito literal; além disso, a mera introdução de personagens ou circunstâncias
fictícias não bastam para transformar esta crônica em um conto, nem foi
criada uma hipótese sobre a origem de uma obra de arte. |
6 |
|
|
MARCO ANTUNES |
Também
aqui, em que pese a ser bela homenagem à cultura popular, lamento reconhecer
que há um grave erro de gênero, não ficando a peça bem acomodada no conto,
mas perfeitamente cômoda em crônica, mormente na modalidade crônica de
viagem. Falta quase tudo para reconhecer aqui o conto: dramaticidade,
crescente de tensão psicológica, o clímax como conseqüência de um ato da
personagem que a transporte de um estado a outro, exigindo uma nova síntese.
Por fim, como leitor, ainda que julgasse uma crônica, me sentiria bastante
incomodado com o indisfarçável formalismo das intervenções da personagem - supostamente
folk - que se expressa sempre como
um universitário em defesa de tese. |
6 |
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TOTAL |
33 |
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![]()
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Conto 7 |
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|
Autor: |
Osmar Perazzo Lannes Jr. |
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Título |
As Duas |
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Os dois homens se encontraram, enfim. Um encontro anunciado, mas, até então, sempre evitado. Olharam-se sem convicção. Apertaram-se as mãos sem entusiasmo, que voltaram, rápidas, para os respectivos pares de bolsos das respectivas calças. Eram dois homens já maduros, dir-se-ia quase da mesma idade. O de aparência mais jovem, ou menos idosa, quebrou o incômodo silêncio: - “Prazer em conhecê-lo, Herr von Lichberg. Há tempos esperava por esta ocasião”. O outro permitiu que sua mão direita se dirigisse à barba grisalha, que começou a cofiar: - “Perdão, Senhor Nabokov, mas creio que seria mais exato manifestar sua satisfação em... rever-me”. Nabokov, que, de súbito, adquiriu feições reconhecidamente mais eslavas – certamente, influência da menção a seu sobrenome – pigarreou, com aparente surpresa: - “Perdão, mein Herr ? Não creio que já nos tenhamos visto antes”. O alemão sorriu um meio-sorriso, apenas com a metade direita da boca. Pareceu relaxar um pouco, como se essa resposta lhe concedesse alguma vantagem ou alguma confirmação: - “Ich bin sicher darüber, Herr Nabokov. Não tenho dúvidas quanto a isso, Senhor Nabokov”, repetiu, muito embora soubesse que a língua alemã não escondia segredos para seu interlocutor. Prosseguiu: - “Há, como direi ?, evidências indiretas e elementos mais que suficientes para que eu...”, pausou, como se escolhesse as palavras menos agressivas, ou, quem sabe?, ao contrário, as mais percucientes, - “... para que eu saiba” – e frisou este verbo, ao mesmo tempo em que fitava diretamente o outro, com o mesmo meio-sorriso – “... que. sim, nossos destinos já se cruzaram antes. Ou, pelo menos...”, completou, meio-sorrindo, “...que nossas obras tiveram essa oportunidade”. O russo não demonstrou qualquer sinal de desconforto: - “Apreciaria se me pusesse a par das suas certezas, Senhor, Senhor... Como devo chamá-lo ? Por Heinz von Lichberg ou por Heinz von Eschwege ?” Von Lichberg – ou von Eschwege – piscou, algo irrefletidamente. – “Tanto faz. Não devo escusas pelo emprego de heterônimos. Outros escritores já o fizeram”. Foi a vez de Nabokov devolver o meio-sorriso e a língua alemã: - “Entschuldigen Sie, bitte. Perdoe-me, por favor. Certamente, o Senhor se refere a escritores... conhecidos”. O alemão corou ligeiramente: - “A fama nem sempre anda de braços dados com o merecimento, Senhor”. Nabokov não hesitou em sua réplica: - “Devo ponderar, no entanto, Senhor, que as mãos estão sempre entrelaçadas”. Von Lichberg meneou a cabeça, em sinal de desaprovação, ou de desalento: - “Não esperava outra atitude de um seqüestrador”. O russo riu de genuína surpresa: - “Was heiβt es ? O que significa isso ? Permita-me assegurar-lhe, Senhor, que já fui vítima de variegadas e graves ofensas: chamaram-me já imoral, sujo, devasso. Mas nunca fui acusado de um crime!” O alemão de dois nomes manteve-se sério enquanto prendia os olhos de Nabokov nos seus: - “O Senhor sabe muito bem, mein Herr, que seqüestrou o meu grande e proibido amor. Pior ainda, que a desnudou para todo o mundo, que a expôs sem biombos, que permitiu que ela fosse execrada, examinada, consumida”. E sua expressão carregava novos matizes de indignação. – “Como pôde, Senhor ? Como pôde roubar a minha criação, o fruto da minha inspiração, e apoderar-se dele sem qualquer sombra de constrangimento ?” Nabokov livrou-se das amarras da calculada polidez que até aquele momento adornavam seu semblante: - “Impossível, Senhor, a minha Lolita nada tem a ver com a sua. Ou, por outra, sim, tem algumas semelhanças com a sua, mas semelhanças que surgem do interior dos nossos corações e não do exterior das nossas penas”. Von Lichberg elevou o tom de voz: - “Inacreditável ! E pensar que eu o tomava como um homem ainda portador de alguma dignidade !” Sua barba parecia eriçar-se com o ritmo de suas palavras: - “Como pode julgar-me tão idiota ? Não pensa o Senhor que a Lei dos Grandes Números foi flagrantemente violada com essa quantidade impossível de... de... “coincidências” ?”, emoldurando esta última palavra com aquele mesmo meio-sorriso, agora algo modificado por uma curva mais acentuada de seu lábio superior. – “O mesmo nome, o mesmo protagonista, as mesmas circunstâncias em que o homem maduro conhece a ninfeta, o mesmo desvario, a mesma paixão, a mesma obsessão?”, em um crescendo de volume e irritação. Tirou um lenço do bolso interno do paletó e limpou nervosamente o suor de sua testa: - “Não, Senhor Nabokov, sempre soube que os hunos eram capazes de QUASE tudo. Agora, sei que são capazes de TUDO”. Nabokov devolveu essa bofetada gentílica, cevada por séculos de guerras e sangue. Elevando também seu tom de voz, respondeu: - “Com que, a atávica arrogância dos teutos aflora quando menos se espera, Senhor ! Não bastasse o Reich dos mil anos, temos agora, também, o monopólio eterno dos sentimentos! Nossas Lolitas, nossas duas Lolitas”, enfatizando o numeral, acompanhado por sua representação digital do indicador e do médio da mão direita, “elas são, no fundo, a mesma pessoa, mas de pais diferentes”. O meio-sorriso voltou: - “Ah ! Apreciaria saber a origem deste paradoxo genético”. Nabokov fez que não percebeu a interrupção. – “Essas Lolitas são a borra das emoções masculinas, Senhor von Lichberg, perdão, Senhor von Eschwege. Elas são o fruto do casamento escuso dos mortais com seus demônios íntimos. Seres pavorosos, relegados à desdita eterna dos calabouços morais, confinadas sem clemência às catacumbas da dignidade humana”. As palavras saíam em torrente ininterrupta. – “Temos vergonha e medo desses nossos rebentos. Sabemos que são nossas, mas não as aceitamos. Tapamos nossos ouvidos para não escutarmos suas imprecações lamentosas, suas maldições acusatórias. Fechamos os nossos olhos para não enxergarmos suas essências disformes, o caldo pútrido que se desprende de seus andrajos. Mas, ainda assim, as escutamos, ainda assim as vemos. E elas nos atormentam para sempre, Senhor. Nós nos condenamos a percebê-las no momento mesmo em que a Moral dos homens e dos deuses as baniu do nosso convívio. Por isso as criamos. Ou melhor”, completou, “por isso sucumbimos a elas”. O russo parou de falar e o alemão, de ouvir no mesmo instante em que uma terceira presença fez-se anunciar por seus sextos sentidos e pela aceleração de seus batimentos. Ambos pressentiram igualmente. Ambos sabiam antes mesmo de adivinhar. Ambos reconheceram a mesma angústia, a mesma voragem, o mesmo negrume. Ao seu lado, surgia a mesma criança. Ela tinha os mesmos ombros frágeis cor de mel, as mesmas costas flexíveis, nuas e sedosas, os mesmos cabelos castanhos. Ela também tinha sombras sob seus olhos sulistas e cabelo de uma tonalidade incomum de ruivo dourado. Seu corpo era esbelto e flexível como o de um menino; sua voz, profunda e escura. E, uma vez mais, a maldição se cumpriu. Mas não pela última vez. |
|||
|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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|
LUCI AFONSO |
Este
conto surpreendente desenvolve com grande habilidade a original idéia de pôr
frente a frente os autores das duas Lolitas. O diálogo entre os supostos
plagiador e plagiado é saborosíssimo. O desfecho é perfeito. Texto divertido
e inteligente. |
9,8 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
Bom
texto, com uma escolha bem interessante das obras que foram comparadas. A
última citação do Nabokov, contudo, me pareceu completamente deslocada e
sentimentalista. Quase um pedido de desculpas pela audácia do texto – do
autor, veja bem, não da personagem –com algum tom moralista. Ou seja, do modo
como as intervenções dele são conduzidas no texto, não é verossímil esta
última declaração, pois ele me parecia mais cínico que arrependido. Não
entendi também o que são “olhos sulistas”. |
8,5 |
|
|
LIANA FERREIRA |
O Conto
está muito bem estruturado e bem resolvido, dispensando, inclusive, as
explicações complementares anexadas pelo autor. O texto prende a atenção do
início ao fim. |
10 |
|
|
LORENZA COSTA |
Em
matéria de inspiração para a criação de uma obra de arte (ou, neste caso,
duas), este é provavelmente o conto mais corajoso de todos. A explosão de
Nabokov no final é perfeita e estende as possibilidades do conto para além
dos dois romances a que se refere – isto é, faz dele um conto relevante não
apenas para quem se interesse por Nabokov ou Lichberg, mas para qualquer um
que se interesse pela natureza humana. |
10 |
|
|
MARCO ANTUNES |
Sensacional
a idéia do embate entre os dois pais de Lolita: o pioneiro, o do conto de
1916, e o suposto plagiador, o autor do romance de 1955, ambos com suas
linguagens próprias, com seu ranço de época, tudo muito bem contado na forma
de maior dramaticidade: o diálogo! O final é interessante e instigante. |
9,6 |
|
|
TOTAL |
47,9 |
||
|
|
|
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![]()
|
Conto 8 |
|||
|
Autor: |
Marcya Reis |
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|
Título |
O jardim |
||
|
Pontinhas de galhos ressequidos denunciavam os bulbos
que dormiam e, sem querer, saltavam da terra escura exposta ao chão cru. As
forquilhas que desejaram ser brotos foram deixadas ao acaso do tempo,
esquecidas nos canteiros desfeitos Casa de repouso era um
epíteto ameno para o sanatório de paredes forjadas sobre pedras frias. Apesar
de tudo, era um lugar limpo e arejado, como poucos naquele tempo. Lá se
sofria e se orava. As freiras passavam de um lado para o outro em suas vestes
monótonas, cumprimentavam-se, apressavam-se em cuidar de seus doentes.
Chamavam os quartos de “celas”. Era verão e eu gostava
de caminhar quando havia luz e calor. Sonhava em sair daquele prédio insípido
para ver de perto o verde dos ciprestes do outro lado dos muros, mas não me
deixavam. Queria afastar-me dos tons de cinza que venciam o cubículo de
ângulos tortos onde tentava dormir às noites. A minha vida inteira já havia
sido assim. Triste, pálida, sem cor. Tinha trinta e seis
anos. Não conheci quem quisesse comigo compartilhar uma família. Perdi a
chance de ser mãe. Os meus, todos se foram cedo e, sozinha, envelheci.
Escaparam-me a razão e a vontade de ser. E minha existência incolor começou a
pedir insistentemente o vermelho do sangue. Obedeci. Meus pulsos ainda ardiam
quando acordei, muito longe de casa. Os vizinhos se apavoraram. Pensaram que
eu estivesse louca. Mas eu não temia os mortos
– que me lembre, nunca temi. Ao contrário, identificava-me com eles, sentia
um carinho cúmplice, quente e fraterno. Eu queria essa proximidade. Eram eles
que me protegiam da escuridão noturna, quando os pesadelos visitavam os
dementes. Eram os gritos que me aterrorizavam. Os loucos embarcavam em seus
sonhos ruins com a intensidade da razão que nunca tiveram. Um deles - acho que por
esse motivo - não dormia. Varava a penumbra iluminado de velas equilibradas,
que traçavam em seu rosto o aspecto da alma atormentada. Eu sempre o via
sair. Sumia, arrastando suas correntes pelas trevas; só voltava quase ao
amanhecer. E assim, amante dos fantasmas como eu, passei a amá-lo também. Soube que tínhamos a
mesma idade. A princípio, lembro-me bem, pareceu-me apenas mais um espectro,
como todos os outros, vagando pelos corredores desbotados. Mas em pouco
reparei melhor: o homem trazia no corpo a marca dos pigmentos criadores.
Mãos, calças, casaco, chapéu. Às vezes até a barba exibia um respingo
insólito. Ele era um pintor! Cerúleo, Cádmio, Cobalto, Ocre, Nápoles, Carmim.
As tintas denunciavam o ofício e o faziam cheirar forte por isso; o fedor de
Saturno a gotejar veneno em suas idéias. Cheguei a ouvir
cochichos de que era perigoso. Vez ou outra, jorravam de seu olhar ácido uns
espasmos de violência incontida, explosões da galáxia distante que só ele
conhecia. Eu sei. Os tentáculos de luz das estrelas queriam agarrá-lo e
levá-lo para o outro mundo. Mas tinha medo de ir. Gritava e se contorcia em
dores, no desespero da dúvida. Dentro de minhas próprias dúvidas, observava
de longe o lamento das matizes vivas. O que mais me intrigava,
porém, é que o homem estranho se abandonava todos os dias diante de um ponto
fixo do jardim morto e ficava lá, por incontáveis horas de sol e vento,
sentado num banco duro de ferro, admirando o nada. Deleitava-se na expressão
do solo nu, levantava as mãos e pintava uma tela invisível, como se estivesse
enxergando contornos no vazio. E se mostrava assim, em êxtase, por tudo o que
os outros não podiam ver. Ele, tão estranho quanto eu, pensei. Até que, num dia de
manhã luminosa, levantei-me mais cedo que todos. Foi o sol que me despertou e
me tomou pela mão até o ar fresco lá fora. Respirei muito fundo e senti o
prazer das batidas de meu coração, mostrando-me que estava viva. Foi quando,
à distância, percebi algo diferente. Em frente ao banco de
ferro, as íris irrompiam cachos e botões. Não podia acreditar naquilo. Até
ontem, o que existia era o terreno puro, sem cuidado, desfalecido. Agora, mil
folhas polpudas espichavam seus bracinhos como que espreguiçando, acordadas
para o dia e para a luz. Tons de violeta e azul, com miolos amarelos, flores
cheias avançavam em pétalas para dentro de minhas pupilas incrédulas.
Sentei-me e fiquei assim, levada pelo fascínio de um jardim recém-nascido,
imaginando se, o tempo todo, ele não estivera ali, diante de mim. - Você está vendo aquela
flor branca? Nunca tinha ouvido uma
voz tão serena. Havia sim, uma única flor branca, solitária, entre todas aquelas
cores. Senti-me feliz. A lembrança dos urros insensatos daquele homem
dissiparam-se para sempre no entremeio das nuvens poucas do céu. - Sim. Uma revoada negra
atravessou o pátio do hospício. - Aquela flor branca sou
eu. Fiquei a admirar a solidão
de um entre tantos iguais. Pela primeira vez, o artista colocou em mim
aqueles olhos singularmente tristes: - Você acha que o jardim
de íris existe de verdade? E eu respondi, com as
íris brilhando: - Não, Vincent. Acho que não. |
|||
|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
|
|
LUCI AFONSO |
Duas
almas irmanadas na loucura e no desejo de morte vêem brotar, numa manhã de
“nuvens poucas no céu”, um jardim onde uma única flor branca desponta em meio
a tons de violeta e azul. A delicadeza e a poeticidade deste conto
excepcional fazem justiça à grandeza do artista retratado. |
9,8 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
O tom
lírico e singelo é o ponto alto deste texto. A situação descrita foi bastante
bem acabada, isto é, convence o leitor – do ponto de vista da coerência
interna da obra. A sugestão final para as motivações do artista também
pareceu adequada. |
9,5 |
|
|
LIANA FERREIRA |
Belíssimo
conto. Emocionante e bem escrito. Melodioso e harmônico. Encontro de dois
mundos solitários retratados com paixão e elegância. |
10 |
|
|
LORENZA COSTA |
Emocionante
a transformação da aridez em jardim, pelas mãos do artista: um jardim cuja
existência é precária, existe somente para os poucos que conseguem vê-lo e,
afinal, nada pode contra a dor de quem o criou. Além de ter uma bela idéia, a
autora soube mostrá-la com o ritmo e as palavras exatas. |
10 |
|
|
MARCO ANTUNES |
Belo e
delicado conto |
9 |
|
|
TOTAL |
48,3 |
||
|
|
|
|
|
![]()
|
Conto 9 |
|||
|
Autor: |
Ray Cunha |
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|
Título |
Esplanada |
||
|
O canto das cigarras lembrava uma grande orquestra de jazz, em longo solo de metal. A algazarra era tremenda sob o sol que crestava a relva do cerrado na imobilidade da tarde, que ia ao meio. Ouvia-se barulho de trator à distância. Estafados pelo calor, os dois homens arriaram os bornais com o lanche e sentaram-se sobre o tronco de uma árvore tombada, à sombra de outras árvores de maior porte. O guia, que se chamava Toninho das Veredas, abriu seu alforje e tirou dele uma lata com tutu, um lindo pedaço de queijo, doce de leite e uma garrafa d’água. Oscar Niemeyer, o arquiteto, tirou do bornal um sanduíche de salame e três laranjas já descascadas. - É verdade que Brasília vai ter o formato de uma cruz, doutor? – o guia perguntou. - É verdade – Oscar Niemeyer respondeu. “Crucifixo... está mais para curvas sinuosas como as mulheres” – imaginou como seria a cidade, simples apenas no cruzamento de duas avenidas, dois caminhos pontilhados de luzes cortando o breu noturno do cerrado. “O coração do Brasil pulsando no Planalto Central; uma cidade fraterna.” – Aqui, onde estamos, será construída uma esplanada – disse, e antes que o guia lhe perguntasse o que é uma esplanada, explicou: - Uma esplanada é um terreno plano, um enorme terreno plano, gramado, a perder-se de vista. – Fez uma pausa. – Tenho algumas idéias, já fiz alguns esboços, mas as coisas estão ainda se definindo. - O senhor vai mandar tirar toda esta mata, doutor? – Toninho perguntou, entre uma e outra mastigada. Oscar Niemeyer olhou para as árvores tortas que se enfileiravam na imensidão da savana. - O presidente da república despachará de dentro de uma obra de arte, assim como os políticos e os ministros da corte suprema, e o povo morará em edifícios coletivos sobre pilotis – disse Niemayer, num tom quase brincalhão. – O que sei é que Brasília será mais do que uma cidade; será o símbolo da união – disse, sem responder à pergunta do guia. Um tatu entrou no campo de visão dos dois homens, estacou e arrancou de novo. O guia levantou-se depressa, pegou a espingarda, mas o tatu entrara num buraco adiante. – Sente-se, homem, deixe o tatu em paz no seu buraco. A propósito, meu trabalho será construído em três níveis – prosseguiu o arquiteto. – No horizonte, debaixo do solo e no ar. No horizonte, haverá gramados, concreto e asfalto; haverá uma cidade subterrânea; e, no ar, torres – disse o arquiteto, quase de si para si. Os dois homens se encontravam onde hoje se ergue o Congresso Nacional, um labirinto sinistro, subterrâneo sob duas bacias - uma de boca para cima e outra emborcada – e as torres gêmeas. - O senhor não quer um pedaço de “quejim”? – o guia perguntou. Oscar Niemeyer fez que não. – Acho melhor a gente voltar – disse para o guia. – Há uma nuvem preta, ali. - Não “preocupe” – disse o guia, no seu modo de falar sem usar pronome pessoal oblíquo - não vai chover, não, doutor! Comia, com gosto, queijo e doce de leite. Lambeu um dedo e perguntou: - Mas se o senhor vai colocar, aqui, concreto e asfalto, como é que os bichos vão viver, doutor? - Bom, eles deverão ter o seu lugar, quem sabe um zoológico ou mesmo uma reserva só para eles – disse o arquiteto. - Todos terão o seu canto. Seremos um país realmente socialista – disse Oscar Niemeyer. – O presidente da república, por se tratar do presidente de uma democracia socialista, terá o palácio mais bonito - e pensou na Grécia Clássica. - Os congressistas, como são muitos, preciso projetar para eles um labirinto de gabinetes, auditórios, salas, salões, clínicas, restaurantes, corredores, passagens subterrâneas, para que eles possam se locomover à vontade no labirinto, se reunir, se sentir à vontade, como em casa, e permanecer no Congresso o maior tempo possível – disse. - Mas esse negócio de subterrâneo é bom pra tatu e pra bandoleiro se esconder, doutor! - disse o guia. O arquiteto riu. – Isso pode
ser resolvido com muita vidraça. Os subterrâneos serão para as pessoas caminharem.
Arquitetura não constitui uma simples questão de engenharia, mas uma
manifestação do espírito, da imaginação e da poesia. O Palácio do Congresso,
por exemplo, posso formular sua composição em função das conveniências da
arquitetura e do urbanismo, dos volumes, dos espaços livres, da oportunidade
visual e das perspectivas, e, especialmente, da intenção de lhe dar o caráter
de monumentalidade, com a simplificação de seus elementos e a adoção de
formas puras e geométricas. Estou pensando... as avenidas que o ladearão
deverão formar uma monumental esplanada, sobre a qual poderei fixar as
cúpulas que o caracterizarão. E também posso projetá-lo - O senhor acha que vai dar certo gente de toda parte se mudar pra cá? Vai caber todo mundo? – disse o guia. - Sim. Aqui, todos serão iguais – o arquiteto respondeu. – Todos serão tratados com igualdade – disse ainda, como a confirmar seu próprio pensamento. O sol já ia bem avançado no seu caminho, despejando labaredas na mancha imóvel do cerrado. Os dois homens caminhavam devagar entre as árvores, até o jipe, que ficara parado no fim da picada. - Você me deu umas boas idéias – disse para Toninho das Veredas. O guia sonhava com a caçada que faria, à noite; sonhava abater uma capivara no rio Paranoá. Oscar Niemeyer sentou-se, apanhou uma prancha e pôs-se a fazer esboços. |
|||
|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
|
|
LUCI AFONSO |
O texto traz imagens fortes e evocativas do cenário físico e
humano de Brasília. Outras ficam soltas, sem aproveitamento. É instigante a
exposição do contraste entre os sonhos do arquiteto e a realidade em que se
transformou sua obra. O título poderia ser mais chamativo. A frase final não
conclui nem contribui. |
8 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
A idéia
foi bastante original e a conversa do artista com o homem simples é um
recurso interessante. Entretanto, durante a conversa dos dois não parece que
as idéias que o arquiteto tem foram sugeridas pelo homem simples. Ao contrário,
o texto apresenta um quase monólogo, em que só o artista fala de suas
motivações, que parecem todas anteriores ao encontro. Não convence, portanto,
como situação que teria motivado a produção da obra. |
6,5 |
|
|
LIANA FERREIRA |
Interessante
abordagem sobre a construção de Brasília e a criação da Esplanada dos
Ministérios. Acho, apenas, que o autor não se decidiu entre dar ou não uma
fala caipira ao Toninho das Veredas. Há uns
adjetivos sobrando. |
8 |
|
|
LORENZA COSTA |
A arte
da descrição é tão difícil que merece aplauso a ambientação: desde a primeira
linha, estamos numa área isolada do cerrado, à tarde, na estação seca; a
seguir, quando descobrimos que aquele é o cerrado antes da construção de
Brasília, todas as informações se encaixam e fazem muito sentido. Prejudica o
conto, entretanto, a literalidade com que o pensamento de Niemeyer foi
extraído de outro contexto e introduzido no diálogo, como se exatamente
aquelas palavras – e não aquelas idéias, como seria verossímil -
pudessem ter brotado do diálogo com
Toninho das Veredas. |
7,5 |
|
|
MARCO ANTUNES |
Embora
um pouco confusa a exata inspiração que Niemeyer conseguiu de Toninho das
Veredas (cuja linguagem, aliás, oscila entre dois estratos) o conto tem atrativos
e é capaz de manter o interesse do leitor até o fim. |
7,2 |
|
|
TOTAL |
37,2 |
||
|
|
|
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![]()
|
Conto 10 |
|||
|
Autor: |
Roberto Klotz |
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|
Título |
Invadiram o quarto de Van Gogh |
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– Felipe, meu amigo, de acordo com o fuso horário, neste momento, você deve estar no bem-bom do sono. Hesitei e levantei o fone do gancho por três vezes. E por três vezes desliguei. Porém minha ansiedade está muito grande, preciso te contar a última bomba. – Então conte tudo, Arthur. Estou com insônia. Será ótimo, ouvi-lo. Quem foi que se separou? – Não, é nada disso. Você se lembra daquela história sobre uma carta falando sobre o quadro do quarto do van Gogh? – Lógico, impossível esquecer. Parece que ainda escuto as palavras do investigador. Você tem novidades? – Tenho sim. Agora já tenho a história toda. Vou começar pelo conteúdo da carta recebida pela Sotheby’s. – Opa! Então é verdade? Deixe-me fechar a porta do escritório para não acordar a Betty... Depois de alguns segundos. – Então é verdade, Pietro? – É. Um sujeito de nome Pablo Salinas y Vasquez enviou um ofício para a Sotheby’s onde solicitava avaliação de uma carta com história sobre o bendito quadro. – É mesmo? Estou acordadíssimo... – Junto da cópia da carta, o tal Salinas, ainda anexou uma tradução oficial e um laudo pericial assinado por dois suíços do Instituo Criminal de Bruxelas. Coisa quente! – Caramba, vou adorar possuir mais uma carta do van Gogh. – Não, não é do van Gogh, é do professor dele. O professor escreveu a carta depois de visitá-lo no hospital após os curativos na orelha. Disse que escreveu e que depois se arrependeu e não postou. Parece que o professor não valia o ar que respirava. – Será possível? – Bom, a carta é de dezembro de 1888, lá pelos dias em que o pintor permaneceu hospitalizado. Papel amarelado, letra miudinha, cheiro de baú... – Não fique enrolando, já estou curioso... – Yes, my dear. O professor começa num clima de arrependimento, de mil perdões e que jamais poderia imaginar ser causador de tamanha desgraça. Depois começou a se explicar tentando justificar porque pintou o quadro do quarto do van Gogh. – Tá brincando? O cara assumiu a falsificação? – Sim e não. Ele alega que tentou comprar o quadro e que van Gogh achava que não estava bom e que faria outro melhor. E fez. – Tô sabendo, há três quadros muito parecidos entre si. – Na hora em que o professor foi buscar o segundo quadro, van Gogh teria dito que ainda não estava bom e que faria outro ainda melhor. Só que nessa história já passou muito tempo e o professor, que na verdade estava intermediando uma compra, já estava com a grana no bolso e devia estar sendo pressionado. – Que coisa, devia ser uma grana preta... – Mil e duzentos francos. O triplo do valor que Gauguin recebia por tela. – Mas, van Gogh jamais vendeu um quadro em vida... – É, o professor teria mostrado a dinheirama toda e van Gogh fincou pé e insistiu em fazer outro quadro e despachou o professor. – Não acredito... o cara não tinha dinheiro para comer e ficou rejeitando... só maluco! – Aí, o van Gogh contou pro Gauguin, ou pediu opinião ou qualquer coisa assim e Gauguin, gozador que era, deve ter tripudiado com a cara dele. – Ha, até eu, que sou mais bobo, teria pego o ouro... – Aí, vem aquela história doida em que os dois brigaram e que o van Gogh detona com a própria orelha para incriminar o Gauguin. – Loucura, hem? Essa carta certamente vai ser bem disputada. Muito dinheiro vai rolar. – Agora é que vem o melhor, Felipe. – E tem mais? – O professor sem o quadro, com o pintor hospitalizado, com o dinheiro na mão e com a pressão resolve furtar o quadro. Aí, muda de idéia e pega uma tela e tintas do holandês e dentro do próprio quarto com o modelo à vista, e assume, pinta o terceiro quadro. – Bomba, bomba, bomba...my lord. – Aí, na carta, ele pede perdão mais uma vez, diz que não assinou o quadro e que apenas entregou sem dizer a autoria. Por fim, paga a conta do hospital numa mistura de penitência e pagamento e se manda para Haia, de onde nunca deveria ter saído. – Primeiro, ele é o traidor Judas Escariotes e depois lava as mãos como Pôncio Pilatos. Um grande filho da mãe... – Eu também não enviaria a carta... Que lance! Que lance de sorte achar uma carta dessas depois de tanto tempo... – É meu prezado Felipe, muitos euros, muitos euros em jogo. – Quanto será que vai alcançar essa carta no leilão? Pietro acende um cigarro. Dá um trago profundo e após soltar a fumaça pelas narinas, continua: – Um tremendo golpe! Muito bem articulado. Safadeza das grandes! – Pare com o suspense, Pietro. Conte logo! – O Financial Times, daqui de Londres, vai publicar amanhã que a Scotland Yard desbaratou uma quadrilha internacional de especuladores de obras de arte. Eles tinham como alvo a aquisição da tela, avaliada em cento e vinte milhões de dólares, e que através de um laranja, ofertaram à maior casa de leilões do planeta a tal da carta onde o cara assume a autoria do quadro. A carta é falsa. Com ela pretendiam arrematar a obra então desvalorizada pelo documento. – E eu aqui, bobão, pensando em comprar a carta... – É Filipão, agora você já pode voltar a dormir tranqüilo. Dê um beijo na Betty...tô saudades de vocês e do Brasil. – Obrigado pela informação, grande Pietro, não sei o que faria sem você. Qualquer hora dessas, eu apareço por aí para um scotch. Adeus, Pietro. – Adeus, Doutor Felipe, eu mando cópia de tudo. Abraços. |
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JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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LUCI AFONSO |
O autor
tem muita imaginação. O enredo daria um bom filme policial, mas o texto não
apresenta a característica fundamental de literariedade. |
7 |
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CRISTIANE BRUM |
Apesar
de o conto ser bastante interessante, com uma linguagem coloquial e um tom de
mistério que me agradaram, a resolução do conflito é bem fraca. As últimas
frases do diálogo também parecem deslocadas no texto, como se fossem
proferidas por personagens diferentes daquelas apresentadas no restante do
conto. |
7,5 |
|
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LIANA FERREIRA |
O conto
está bem estruturado, tem engenhosidade, mas não causa impacto. Tenho dúvidas se está de acordo
com o desafio proposto. |
8 |
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LORENZA COSTA |
A
brincadeira sobre a suposta origem do quadro funciona como veículo para o estilo
leve e fluente do autor. O professor de Van Gogh poderia ser um pouco mais
trabalhado e se transformar num personagem interessante, mas a opção pelo
desmascaramento da farsa reduz o conto a uma história policial um pouco
apressada (ou comprimida, dadas as limitações de espaço impostas pelo
concurso). |
7,5 |
|
|
MARCO ANTUNES |
O
diálogo é estimulante, mas a inspiração solicitada pelo desafio, se bem
percebi, não se mostrou clara ou ficou bem acanhada diante da primazia da
história da carta. Assim, lamentando essa aparente fuga da proposta, penso
que o bom diálogo representa o melhor do conto. |
7 |
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TOTAL |
37 |
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Conto 11 |
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Autor: |
Márcio
Arnaldo Borges |
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Título |
A Iniciação de Carlito |
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A Iniciação de Carlito O ano era Dona Zefinha, que o assistia no hospital, percebia tudo: os ais do corpo e os da alma, ainda que os pacientes nada falassem. Vestida num uniforme branco salpicado por tons multicores, provavelmente respingados das seringas, com seus conteúdos doloridos, a enfermeira aparentava um ar de alegria permanente. No apartamento 5 da Santa Casa, preparava com zelo os curativos e os medicamentos prescritos pelo doutor Severino. Nas trocas dos saquinhos de soro, que para Carlito poderiam ser menos freqüentes, disparava a tagarelar. – Vê as flores na cabeceira, querido? O dorminhoco não percebeu as visitas, não é? Pois estiveram aqui umas pessoas. O seu Raimundo e a dona Maria, sabe? Trouxeram boas novas! Um tal de doutor Antônio está a vir para cá. Chegará à noite, não sei... Não faz mal! O importante é que você vai ser entrevistado hoje mesmo! É sobre uma promoção, não é meu bem? Pronto, está bom! Anime-se! Eu volto! Como fizera o dia inteiro e desde que Carlito evoluíra do coma, Zefinha não esperou respostas. Cruzou cantarolante o recinto e o fechou batendo a porta atrás de si. A indiscrição da matrona sorridente provocou-lhe uma fisgada nervosa que percorreu a espinha, desde embaixo, até findar com espasmos no pescoço, agora bem retesado por causa da notícia. Ondas de choque agitaram seus pensamentos, ainda pouco restabelecidos depois da surpresa de acordar sobre a maca, desajeitadamente inclinada – para “facilitar a circulação”, repetia a Zefinha. Um mês atrás, havia sido procurado pelo Antônio Maria Bueno, em resposta à carta que lhe enviou, solicitando a avaliação do seu trabalho. Não se tratava de uma promoção, como intuiu a enfermeira, mas o encontro poderia acelerar os projetos do rapaz. Aos vinte anos, Carlito produzia escritos de estilo que despontava naqueles tempos e de que se tornou defensor. Ele mesmo admitia, porém, a audácia do seu conteúdo. Antônio Bueno, diretor-editor da “Globo e Letras”, era representante dos maiores literatos brasileiros e abrigava, sob a sua “Casa de Papéis”, as mais importantes obras de escritores contemporâneos, além de deter os direitos de publicação dos escritos de Fernando Pessoa, António Alves Martins e muitos outros. A resposta que enviou a Carlito chegou-lhe em papel lacrado com cera, em envelope de alta gramatura. Muito caro, decerto. As mãos trêmulas do jovem mal deram conta de abri-lo sem rasgar a própria carta: “Meu senhor, escrevo-te pela intercessão do genial Manuel Bandeira, que teve a oportunidade de passar os olhos em folhetins com escritos teus. Confesso-te a surpresa do pedido, mais por causa de quem o formulou do que o que pude extrair da tua pena. Se conheces, como suponho, o nosso trabalho, entenderás como nos sentimos honrados pela preferência de autores com a envergadura do teu amigo, em cuja verve prezam o uso clássico do discurso, do vernáculo e da construção frasal. Não terei, contudo, a ousadia de negar-te o pleito, porque não me apetece desagradar o ilustre cliente que está a recomendar-te. Rogo que aceites o convite para estares comigo no “Café Parnasiano”, às dezessete horas do dia quinze próximo, quando poderemos divagar sobre as tuas intenções para conosco. Sinceramente, Antônio Maria Bueno, ao teu dispor”. À lembrança sucederam os arrepios. Como, então, que Manuel Bandeira houvera dele conhecimento e, não fosse o bastante, tivera dado a si o desconforto de suplicar em favor de tão modesta causa? Não fora a sua própria pena que redigira a carta e sua determinação que a fizera chegar ao pedante e influente editor? Uma ponta de dor o fez levar a mão à cabeça coberta por faixas. Deu-se conta de que não havia repassado, ainda, os momentos que antecederam o estranho acidente. O sol andava no rumo de deitar-se no dia 15 de agosto de 1922 e o relógio, sacado da algibeira, sentenciou um atraso embaraçoso. Estava a quinze minutos de apresentar-se no “Parnasiano”, distante cinco quarteirões dali, e mal se recompusera, física e mentalmente, de uma tarde estafante. Meteu os papéis na pasta de couro com a sensação desconfortável de tê-los bagunçado. Para recuperar-se do apavoramento, obrigou-se a sentar por um minuto e refez, de maneira adequada, os preparativos para a reunião. Repetiu mentalmente a ordem de que não haveria de parecer tímido – por improvável quanto isso fosse – na presença do representante da Globo e Letras. Não permitiria, especialmente, ser alcançado por argumentos desabonadores à sua capacidade de dar vazão à escrita, oriundas dos turbilhões de sentimentos que invariavelmente o acudiam. Fechou os olhos por um segundo e deixou que as imagens saltassem da memória: a infância na roça; o auto-exílio da companhia humana; o respeito pela natureza; o gosto pelos livros; a doença que o abateu na adolescência. E o prazer do sofrimento. O divertido e producente hábito de sofrer, que ainda cultiva; força que dá vida à mão que segura a pena e que o impede, por paradoxo, de querer deixar de sofrer! De súbito levantou-se e, correndo, atravessou os cômodos que o
separavam da rua. Percorreu duas avenidas quase que sem perceber a rotina do
mundo à volta. Na rua seguinte, vislumbrou o coche Acordou na Santa Casa há dois dias com dores múltiplas, mas nenhuma tão acintosa quanto a que morava em sua cabeça, agora. Se tivesse mais confiança em Deus – e no passado Deus soube quanto houvera n’Ele confiado –, seria capaz de atribuir o incidente à Providência divina, pronta para livrá-lo de caminhos ruins. Então, seria, mais uma vez, o momento da Sua intervenção, já que o demônio o espreitava de novo, na máscara do vaidoso e limitado crítico da sua arte. A porta abriu ruidosa, nem tanto por causa dela mesma. Era Zefinha. – Trago-lhe uma surpresa, Carlito! Viu primeiro os sapatos brilhantes adentrando sem cerimônia. O paletó cortado sob medida teria custado mais que um ano inteiro da arrecadação de Carlito. O chapéu, fino e distinto, só vira iguais, até então, em películas importadas da Europa e que assistira uma ou duas vezes pela curiosidade que logo se fartou. O homenzinho de bigode bem tratado foi cordial. – Pregou-nos uma peça e tanto, senhor Drummond! Estava a imaginar o que diria ao Bandeira se não te visse de olhos abertos! – Peço-lhe que desculpe o meu infortúnio, por favor. Suplico-lhe, também, que não considere mais as minhas intenções. Sou-lhe grato pela distinção, mas provarei os meus próprios caminhos. A incredulidade estampada na face do Antônio por um segundo foi substituída imediatamente por um largo sorriso – traduzido por Carlos como um sinal de alívio. A partir desse momento, já não ouvia conscientemente as vozes da sala, porque o delírio produzido pelo remédio de Zefinha começara a fazer efeito. Recordara depois, vagamente, da pergunta do homem: “que mal houvera caído sobre ti, afinal?”, ao que Zefinha, percebendo o transe que abateu Carlito, respondeu com palavras que representavam a literalidade dos fatos mas que, para ele mesmo, significaram, profundamente, o que vivera naqueles últimos dias: – O doutor não soube? Foi tombo! No meio do caminho tinha uma pedra! |
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|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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LUCI AFONSO |
O primeiro parágrafo anuncia o último, num texto delicioso,
marcado pela irreverência e fino humor. O conto tem ritmo impecável. A
personagem Zefinha é uma divertidíssima coadjuvante do drama de “Carlito”. |
9,8 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
A situação
criada no conto é bastante interessante, mas a explicação para a criação da
obra pareceu um pouco fraca. Se o poeta nem teve conhecimento da pedra que o
derrubou, uma declaração da enfermeira seria suficiente para a criação do
poema? Creio que o motivo poderia ter sido melhor desenvolvido. |
7 |
|
|
LIANA FERREIRA |
Leitura
agradável e de fácil entendimento. A linguagem é clara, enxuta, e a história
está bem contada, de acordo com a proposta do desafio, mas não empolga. |
8,5 |
|
|
LORENZA COSTA |
Uma boa
hipótese, com algumas falhas de execução que tornam o conto menos eufônico do
que poderia ser – especialmente na carta do editor ao poeta e no uso do
mais-que-perfeito. A frase “Deu-se conta de que não havia repassado,
ainda, os momentos que antecederam o estranho acidente” fica pendurada no
ar, sem sentido (e por que ele haveria de repassar o que quer que fosse, por
que não pensar noutra coisa?): falta uma solução melhor para introduzir a
digressão que vem a seguir. No final, é desnecessário afirmar que as palavras
da enfermeira “significaram, profundamente, o que vivera naqueles últimos
dias” - é redundante e pressupõe um leitor incapaz de entender o que leu
até ali. |
8,5 |
|
|
MARCO ANTUNES |
Embora tenha
estranhado o “coche” no ano de 1922, achei interessante o inusitado
“acontecimento” da pedra que o famoso poema tornaria metafísica e fortemente
simbólica. |
7,5 |
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TOTAL |
41,3 |
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Conto 12 |
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Autor: |
Artur Adolfo Cotias E Silva |
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Título |
O Carteiro e o Pintor |
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Para Vincent e Theo Começo de tarde ¾ Você devia aproveitar a cor, Vincent, pois a cor é bela, e o belo é verdadeiro. Se usasse mais a cor, sua pintura alcançaria algo jamais visto. Vincent sabe que o amigo tem razão. Deseja ardentemente ouvir seus conselhos, mas a herança cinzenta que carrega consigo parece endurecer-lhe as tintas. Sua terra natal era cinza. Os lugares por onde andou lhe pareceram todos sombrios: Haia, Bruxelas, Londres, todos, a seu ver, cinzentos. Sua vida é cinza. “Preciso de sol, Joseph”. Joseph Roulin o recebera na pequena Arles, sul da França, e logo se estabeleceria grande afinidade entre ambos. Homem simples, simpático, Joseph é o carteiro da cidade e em razão do ofício vai estreitando o contato com Vincent, que se corresponde com freqüência com o irmão Theo. Aos poucos, carteiro e pintor vão se tornando os melhores amigos um do outro. ¾ Não veja tudo tão cinza, Vincent. Você é muito realista, ou pessimista (o que, pensando aqui com as minhas correspondências, talvez dê na mesma, como dizia meu pai). Deixe-se impressionar pela cor da vida!! ¾ Joseph, mon ami, muito em breve ainda vou pintar um retrato seu, e não será cinza, pode ter certeza. ¾ Oui, oui, escutem aí vocês, que vou cobrar a promessa ¾ Disse o carteiro quase em testamento aos dois filhos que os acompanhavam, alguns passos atrás, em silêncio: Armand e Camille. Joseph aproveita o passeio para entregar correspondências, e leva os filhos consigo. Camille vai à escola. Uniforme de escolar azul claro, com mangas compridas, apesar de já haver terminado o inverno (a pobreza não é boa modista), fechado no pescoço com um único botão e ornado com uma fileira de franjas horizontais na altura do peito. Na cabeça, um boné escuro tipo quepe militar. Armand é mais velho, usa bigodes finos e com cuidado filial auxilia o velho père Roulin. Chegando a uma planície, o grupo interrompe a caminhada. Joseph apóia sobre uma pedra a bolsa que trazia pendurada ao ombro. Retira dela uma jarra de cerâmica. Colhe uma dúzia de girassóis e os ajeita na jarra. Era uma cerâmica barata, abaulada, de duas cores. A parte inferior era de cor creme; a superior, amarela, como os girassóis. O calor do verão da Provença e a falta de jeito do corpulento carteiro não permitiram muita exuberância às flores. Algumas estavam um tanto desalinhadas, meio murchas, algumas fechadas em botão. “Não importa. Importam as cores, Vincent. Olhe as cores”. Armou o vaso sobre um tampo de madeira e encostou tudo a uma parede clara de um estábulo, de modo que a luz do sol da tarde de Arles banhasse completamente os girassóis. ¾ Pinte, Vincent. Pinte a cor. ¾ Eu não quero pintar quadros, Roulin. Eu quero pintar a vida. ¾ Mas o que é a vida, então? São essas figuras sombrias que tens em seu quarto? Aqueles comedores de batatas? Não, Vincent, vida é algo que não se vê nesses seus quadros. Eles são pesados, escuros. Isso é a vida, diz, elevando as mãos ao ar, em um movimento que parece querer abarcar toda a ensolarada Provença. Vincent ainda ensaia contestar, mas o carteiro emenda: ― Eu não sei de quase nada, caro amigo. Eu só sei o que eu sei. Só o que eu vejo. E o que eu vejo é este sol, estas cores, esta vida. Isso é a vida. Você não deve mais olhar as coisas com os olhos que trouxe de Paris ou da sua Holanda, mas sim com os seus novos olhos de Arles. Apesar da desilusão que toma conta de sua alma, Vincent sorri da comparação. Roulin continua: ― Ainda outro dia escrevia a um amigo meu em Portugal e dizia-lhe exatamente o que estou lhe dizendo hoje. Ele até fez troça comigo, dizendo que eu estava a filosofar, que aquelas minhas idéias ainda iam acabar aparecendo em versos de poetas. Filosofar, qual nada. Eu, meu caro Vincent, disse a ele na carta, e digo agora a você: eu não tenho filosofia, tenho sentidos. Eu não quero pensar no que vejo. Quero ver, apenas. Como este girassol, por exemplo. O meu olhar não vê outra coisa quando olho para ele. O meu olhar é nítido como um girassol. Como este girassol. Mas o seu olhar é diferente, meu caro Vincent. Você enxerga o que está além do girassol. Só você será capaz de dizer a gente como eu o que está dentro desses girassóis. É o que te peço que faça. Que pinte estes girassóis. Que nos revele a vida e a beleza que se esconde dentro dessas pétalas amarelas. Vincent compreendeu as razões de Roulin. Mas ainda faltava algo que o convencesse definitivamente. Ainda não o agrada completamente o que seus olhos vêem. Não há harmonia na composição. Não há equilíbrio. Falta, ou sobra, alguma coisa. ¾ Eu quero apenas uma cor, Joseph. Uma única cor para demonstrar o sentimento unívoco que me perturba a alma neste instante. O filho mais velho do carteiro, Armand Roulin, retira, então, o paletó amarelo que vestia e forra a tábua antes bruta. Tira o chapéu preto de sobre a cabeça, dá dois passos para trás e enxuga o suor da testa. Não diz uma palavra, mas os olhos castanhos parecem ansiar por aprovação. Vincent entusiasma-se com o conjunto amarelo. “Eu quero, Roulin, eu quero a luz que vem de dentro. Quero que as cores representem emoções”. E se lança à pintura quase com fúria, buscando a luz que vem de dentro dos girassóis. Ao fim do dia o quadro está concluído. Os dois amigos o contemplam com certa displicência, até. Armand e Camille se foram. A planície está em silêncio reverencioso. Joseph não ousa perguntar a Vincent se conseguira a tão desejada luz interior. Sente no ar a perturbação no amigo. Sente que libertara as cores. Alcançara com sua pintura um patamar nunca antes atingido. Transformara-se. Não fora este o primeiro dos estudos sobre girassóis, nem seria o último. Mas fora o definitivo. Com toda a certeza. Era um momento ímpar: Doze girassóis numa jarra. Depois daquele verão, no inverno seguinte Vincent partiria. O quadro, a princípio ficara na casa amarela de Arles. Depois, o carteiro Joseph o despacharia a Paris, para ser entregue ao irmão de Vincent, Theo Van Gogh, para se juntar aos outros, amontoados em uma galeria, à espera de compradores loucos para pinturas insanas. Aqueles
girassóis iriam murchar. O vaso se partiria, dois anos depois, atirado a um
campo de trigo. As cores, no entanto, nunca mais seriam as mesmas depois
daquele verão de
|
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|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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|
LUCI AFONSO |
As palavras
ditas pelo carteiro Roulin soam inverossímeis na boca de um homem simples,
com certeza, sábio (de que outra forma teria merecido a confiança de Van
Gogh?), mas que jamais se expressaria da maneira retratada. Isto dá um tom
artificial ao texto e desvia a atenção da bela — e verossímil — amizade entre
o carteiro e o pintor. |
7,8 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
A
singeleza do contato entre o artista e o homem do povo foi bastante bem
representada no conto. A situação é factível, e as emoções do artista são
descritas de modo bastante adequado ao tom melancólico que o texto pretende
passar. |
10 |
|
|
LIANA FERREIRA |
Este
conto está bem estruturado e bem escrito.
Apesar de ser muito explicativo em algumas passagens, em outras,
emociona o leitor. |
9,5 |
|
|
LORENZA COSTA |
A idéia
da influência de um homem simples sobre Van Gogh é interessante, mas ao longo
do conto esse homem – o carteiro – se mostra excessivamente consciente de sua
ignorância e simplicidade para que seja de fato ignorante ou simples. Por isso,
as quatro frases finais, apesar de encerrarem o conto com um belo conjunto,
estão em desacordo com o personagem construído até ali. É preciso também
alguma atenção para a desnecessária alternância passado/presente. |
8 |
|
|
MARCO ANTUNES |
O uso
do carteiro como personagem lembra demais o filme “O Carteiro e o Poeta”, de
certa forma roubando um pouco da originalidade deste excelente conto, que
ainda brinca com a hipótese das idéias desse insólito carteiro terem ido
parar nas páginas de Caeiro. Prefiro entender, aliás, o carteiro como um
exilado urbano aos moldes do heterônimo para justificar-lhe as falas tão
sábias e estranhas a alguém que “Era um homem do interior. A pequena Arles
era seu mundo. Entregar cartas era seu ofício.”, interessantíssimo e poético,
esse conto está bem próximo do ideal do gênero. |
8,9 |
|
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TOTAL |
44,2 |
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Conto 13 |
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|
Autor: |
Cinthia Kriemler |
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Título |
Oclusal |
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Impressiona-me sentar, num fim de tarde, em um
canto qualquer, apenas para olhar as pessoas que passam, as pessoas que
param. Sento-me em praças, cafés, livrarias e, ultimamente, Sou desses viajantes de bonde deslumbrados. Vindo até Santos em curtas férias daquele meu Rio de Janeiro, me delicia perceber a junção das mulas e do carro lustroso onde nos sentamos todos, desconhecidos da hora. Quem são eles? O que murmuram para não serem abertamente ouvidos? Beleza e feiúra, sorrisos e melancolia. Histórias pulsantes. E me pergunto se a disparidade dos extremos não oculta apenas uma única verdade, e muitas percepções. Atrás de mim...atrás de mim as vozes são um pouco mais vívidas. Eles falam mais alto, ou talvez seja eu que tenha sido atraído por alguma coisa nessas vozes imperiosas. Viro-me brevemente...bem, nem tanto. Tenho por hábito acreditar que sou discreto e que, por isso mesmo, estou apto ao disfarce. Um pigarro providencial, uma nova olhada de soslaio e um encontro descuidado com dois olhares magníficos! Um, repleto de sorriso. Outro, em chamas. Existe em mim uma tendência natural, milenarmente herdada, em crer que esses dois olhares se auto-alimentam da força das suas próprias emoções. E eu acredito, preciso acreditar que só a paixão, quiçá o amor profundo, pode provocar esse tempero de tons que vislumbrei naqueles olhos. A amizade seria ainda uma opção, embora última, que me faria entender tanto vigor. Mas então o que é isso que
escuto agora proferirem essas duas bocas?!? Não, melhor aprumar mais o ouvido,
nortear-me pela direção onde estão aqueles olhares, o sorridente e o Percebo então, e só então, que se trata de um homem e de uma mulher. Ele, uns 38, sequer 40, garboso, elegante, cuidado, confiável. Ela, frágil e pálida, mignon mesmo. Bonita seria dizer demais, mas graciosa. Mas nada disso importa. Só aqueles olhares fortes, completos, límpidos em suas intenções. E, rendido ao inevitável susto do que escuto, ponho-me a escutar ainda mais. Conversam os dois sobre como se conheceram, como se atraíram, como se casaram. E não escuto falar de amor, nem de paixão, nem mesmo de amizade. Bêbedo de estranheza e corrompido pela curiosidade, escuto, ouço, arrebato-lhes as palavras. - Por que me escolheste entre tantos que te cortejaram? - Não te escolhi, apenas excluí os demais! Te senti, te analisei, te avaliei...como aos outros dois. - Por certo és cínica o suficiente para me dizer tamanha ofensa! - Por certo não te vais fingir agora de ofendido, se foi essa minha franqueza que te conquistou a razão. - Mas por que eu? Vai, diz, eu quero ouvir tuas razões! - Que pensas tu que me deixaria em brasas, Senhor Luís Alves, meu marido? O plácido e devotado amor que me assediava noite e dia nos olhos de Estevão? Era como se precisasse de mim sem trégua para prosseguir vivendo, fraco, alimentado apenas por sentimentos, mas não por idéias! Ou pensaste que Jorge seria a minha escolha, tão desprovido de vontades, tão sem olhos para qualquer futuro, tão preocupado apenas em dar-se prazer e em satisfazer, por meu intermédio, sua rasa superfície! Tu me conheces mais que isso! - Sim, sei da tua ambição, da tua persistência, do teu jeito de negociar até com a vida. Sei onde queres estar em nossa sociedade e sei, principalmente, que queres caminhar comigo nisso tudo, minha querida! - É por isso que tanto te admiro, senhor meu marido! Falam de união, de razão, de planos sociais, mas não falam de amor! Mas aqueles olhos, então, por que brilham? Desespera-me um tanto não compreender inteiramente onde está o segredo. Logo eu que me orgulho sobremaneira em ser também um cínico! Como podem palpitar assim olhares sem desejo, sem a comichão da carne? O que os excita é o negócio, o jogo do poder, a ambição! Não os culparia por isso, porque eu mesmo recrimino o desvario dos choros femininos e a entrega masculina desregrada ao sentimento do amor. Mas não sentir nada, não correr sequer em paralelo com a paixão, não provar do amor como um petisco ocasional...isso é demais! O que percebo, o que confirmo
não me assusta, mas me compromete com uma nova verdade, que não a verdade dos
amantes. É o interesse mutuamente consentido, revelado e previamente aceito
que motiva aqueles dois olhares, um em sorrisos, o outro Sou ali apenas um apêndice, um pé de vento. E penso, subitamente, excitadamente, na fechadura que espreita a chave certa para abrir ou trancar seus mistérios. Penso nas engrenagens dentadas que movem os engenhos. Penso na oclusal perfeita: duas superfícies que se tocam e se fecham sem permitir atritos ou vácuos. E descubro que são os mecanismos que movem o mundo, não as emoções. Minha estação chegou, preciso abandoná-los ao destino que escolheram trilhar jubilantes. E como ainda não quero dar-lhes rótulos, gravo em mim apenas seus olhares, fortemente. E parto. É noite agora. E na penumbra aconchegante do meu quarto de pensão, que tem janela para o mar, agarro com sofreguidão a folha branca e ainda isenta de escrita. Preciso maculá-la, conspurcá-la! Preciso dividir com alguma coisa a sensação que me atormenta há horas. E para isso, melhor à noite. A noite que ofusca ou embriaga a sensatez. E desprezando outras comparações que antes me vieram à cabeça, expulso a indecisão dos dedos e gravo no papel o nome que finalmente quero dar à história daqueles dois olhares, o sorridente e o em chamas: A Mão e a Luva. O romance A Mão e a Luva, de Machado de Assis, foi publicado em 1874, inicialmente em folhetins no jornal O Globo. |
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JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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LUCI AFONSO |
Na
primeira metade deste ótimo conto, fazemos um gostoso passeio com Machado de
Assis, exercitando a observação da natureza humana. Na segunda metade, somos
levados à constatação de que “são os
mecanismos que movem o mundo”, conforme nos diz o grande autor, com
outras palavras, em “A Mão e a Luva”. |
9 |
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CRISTIANE BRUM |
Achei
bem legal a escolha da situação, da obra e a representação do Machado que o
conto faz. Mas me pareceu fraca a conversa mantida entre o casal para
explicar todas as reflexões que o tema suscita no autor. Será que só a
conversa explica o ceticismo dele em relação ao amor, ou são sentimentos que
ele já tem e que a conversa apenas catalisa? Acho que o texto poderia ter
explorado mais esse aspecto. |
9 |
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|
LIANA FERREIRA |
Um
conto muito bem elaborado e bem desenvolvido. Deliciosa receita de como podem
ser gestadas algumas histórias a partir de um olhar atento. |
9,5 |
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LORENZA COSTA |
A
autora se impôs um segundo desafio e até certo ponto conseguiu vencê-lo: o
narrador é Machado de Assis, na primeira pessoa! O conto é quase sempre
convincente; seria discutível a verossimilhança da surpresa do autor ao
detectar que existem casamentos por interesse e que os jogos de poder
provocam paixão – mas mesmo isto se justifica pela escolha de um romance da
juventude como tema. |
9 |
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MARCO ANTUNES |
Ótimo! Dramaticidade
com milimétrica precisão! Destaco a fidelidade à possível personagem que
Machado de Assis seria, chegando a peça a lembrar mesmo um conto do mestre. |
9,7 |
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TOTAL |
46,2 |
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Conto 14 |
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Autor: |
Monique Britto Knox |
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Título |
Trigo do Sol Amarelo |
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Nasceu em um dia frio e gélido do inverno, onde o sol já não mais existia. Sentia muito frio fora do ventre materno e permanecia na posição fetal muito depois de seu nascimento. Desde pequeno , Vincent foi uma criança estranha. Atirava-se no chão por qualquer razão, urrava quando não obtinha o que desejava, parecia muitas vezes perdido no tempo com os olhos parados e petrificados. Seu pai gritava, principalmente nas madrugadas de inverno quando voltava para casa embriagado, dizendo: -Este menino é doido! Segure ele, mulher, senão ele quebra tudo! Este seu filho é maluco! A mãe chorava e reclamava dos maus tratos do marido, do desvario de vida que levava. Seu único e querido filho com semblante de doido?Que tipo de doença era essa? Que comportamento difícil e estranho...Inconformada, pedia ajuda aos céus, aos santos. As pessoas lhe diziam: ele precisa ser batizado! Dê água de ouro para ele beber!Leve-o para o padre da Paróquia da outra cidade benzê-lo. Ele vai melhorar!E em vão...Crises de comportamento se repetiam e à medida que crescia, tomavam vultos de força e incompreensão. Vincent não conseguia olhar diretamente para os olhos de quem quer que fosse, e quando familiares adentravam a casa para as reuniões familiares corria como um beija-flor, com movimentos repetitivos num só local, ziguezagueando pela sala e fechando-se em seu quarto. A mãe mantinha a casa fechada com medo do comportamento estranho do filho e da reação dos vizinhos que a olhavam com medo e compaixão. Vincent gostava mesmo era de desenhar. Pegava o carvão da lareira e rabiscava em jornais velhos, figuras sem nexo, seres acelulares, árvores tortas. Corria com a mão o desenho, parecendo que seu corpo se deslocava com o movimento, traços delineados que percorriam exaustivamente todos os espaços vazios do papel preenchendo totalmente de figuras ao vento. Um dia sua mãe lhe trouxe pincéis, tinta e tela para que pudesse pintar como um artista.Vincent deixou o material parado na mesa por muito tempo. A porta entreaberta da sala da casa, numa manhã de domingo, quando todos tinham saído para a missa, deixou passar um raio de sol que penetrando na sala, clareou todos os ambientes. Colocou os pés fora da casa.Era uma claridade que o cegava. Pensou como poderia a luz provocar o infortúnio de impedir a visão, quando os cegos não conseguiam ver a luz.Timidamente respirou o ar em goles longos e pausados. E o calor do sol que sentia em seu rosto, cabelos e ombros permitiu que pudesse olhar à sua frente um campo de trigo, amarelo exuberante que se perdia com o horizonte. Retornou ao seu quarto e pegando o material antes tão estático, iniciou com rapidez a pincelar um campo de trigo onde não havia limites entre céu e terra, onde as nuvens azuladas pareciam se movimentar transformando-se em matrizes aureoladas. E os ciprestes que balançavam ao vento resplandeciam com a dança de suas mãos onde o vento balbuciava palavras, sons, gemidos. Todo o campo de trigo com ciprestes parecia ter vida própria e autônoma, onde o amarelo unia-se ao verde num contraste e numa constante de ação e vida. Passado o estado eufórico de criação extenuante, Vincent Van Goch, fitou languidamente sua obra e sorriu consigo mesmo, dizendo: - Agora eu posso sair ao sol. |
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|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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|
LUCI AFONSO |
Imagens desconexas, impropriedades e repetições comprometem
a evolução deste conto e nos impedem de acompanhar a caminhada de Van Gogh rumo
à luz do sol. A bela idéia merece ser resgatada mediante a reestruturação do
texto. |
7 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
A
situação é interessante, mas o texto é muito econômico na descrição das reações
das personagens. Uma situação dessas mereceria um relato muito mais próximo
dos envolvidos. O narrador me pareceu muito distante dos sentimentos do
poeta, o que tira a força do conto. |
8 |
|
|
LIANA FERREIRA |
A história é boa, mas mesmo sendo ficção, por estar baseada
na vida de uma figura conhecida, precisa, a meu ver, ser verossímil. Há duas passagens na história em desacordo
com a vida do retratado e que quebraram o encanto da minha leitura: o pai de
Vincent era evangélico, pastor da Igreja Reformista Holandesa, e ele,
Vincent, não era filho único. Tinha cinco irmãos. Onde - no 1º parágrafo, uso incorreto. Onde - no 11º, soa estranho,
embora seja admissível. Em
ambos os casos, denota uma pobreza na
construção. |
8 |
|
|
LORENZA COSTA |
O conto
apresenta dois problemas: o primeiro, menos grave, é a luta entre o
personagem real e o fictício. Van Gogh era filho de um pastor protestante,
portanto dificilmente sua família iria à missa ou seria aconselhada a consultar
um padre que o benzesse; nasceu na primavera, e não no inverno; pertencia ao
rol das “crianças estranhas”, mas muito mais por excesso de introspecção que
pelos comportamentos descritos. Todos estes detalhes diminuem o conto em
verossimilhança, mas é simples consertá-los. O elemento mais problemático é o
excesso de abrangência, a tentativa de pintar um panorama geral de um
personagem e sua família com generalizações. Um conto não funciona como a
sinopse de um romance. A história ganharia força se a autora pinçasse alguns
episódios significativos sobre o ambiente familiar e as reações do artista, e
os ligasse diretamente ao momento da pintura do primeiro quadro. |
7,5 |
|
|
MARCO ANTUNES |
Mesmo
com algumas inconsistências históricas em relação à biografia do grande
mestre, o conto tem méritos e, com as devidas correções, inclusive
ortográficas, pode ser considerado uma boa peça do gênero. |
7,4 |
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TOTAL |
37,9 |
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![]()
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Conto 15 |
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Autor: |
Mônica Thaty Soares da Silva |
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Título |
Poesia Concreta |
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Noite quente “Eta vida besta, meu Deus.”, pensou o homem que dizia não acreditar em Deus, mas que O invocava o tempo todo. Como se dissesse: “Prove que estou errado!”. Porém o Onipotente não respondia, não aparecia em meio a uma nuvem de fogo e fumaça e o fulminava. Talvez Deus também tivesse os seus próprios problemas, e compartilhasse dessa mesma tristeza com que contaminou os homens. Quem sabe não se questionasse e tentasse entender porque insistiu em inventar aquelas criaturas mal agradecidas, que duvidavam da Sua existência. O que faltava à sua vida, Carlos? Não saberia dizer. O dinheiro não era muito, mas não era escasso, assim como os amigos. A fama já existia. Em casa, a mulher Dolores, organizada e fiel, e a pequena Maria Julieta o aguardavam. Maria Julieta. Ao lembrar da filha, recém-nascida, o coração de Carlos se aqueceu por uns minutos. Aqueceu? Pegou fogo, incendiou, ficou mais quente do que aquele tempo infernal. Amava tanto aquela pequena criatura que tinha medo. Medo que ela durasse apenas um pouco mais do que o seu filho, que havia partido no ano passado, apenas meia hora após o nascimento. Mas não, sabia que não seria desse jeito. Maria Julieta era forte, trazia também o ferro de Itabira na alma. Não o deixaria, jamais. Estaria ali, naqueles dias e em outros, sempre que precisasse dela. Ainda assim voltou a sentir que faltava algo. A sensação que o acompanhava desde que se entendia por gente, e que o fazia sentir-se gauche na vida. E esse sentimento deixava um rombo em seu peito que ele não saberia como preencher. Um buraco tão escuro que nem toda poesia deste mundo mundo vasto mundo poderia iluminar. Um vasto coração. Talvez fosse esse o problema. Um coração grande demais, onde cabiam amores demais, idéias demais. Um coração mineiro, doce e arrogante, solitário e quieto. Ou inquieto. De ferro ressonante como um sino, vibrando ensurdecedor dentro do seu peito magro. Eram esses os pensamentos de Carlos enquanto dirigia o carro de Gustavo Capanema pelas ruas silenciosas de Belo Horizonte. Não era um motorista lá muito experiente, mesmo assim a prudência fez com que deixasse o amigo em casa, antes de seguir para a sua. Se a cachacinha que tinha tomado atrapalhava um pouco a sua visão, já havia turvado de vez a do companheiro de infância, que mal conseguia abrir um olho sem ser obrigado a fechar o outro. E dessa forma seguia Carlos, pelas ruas silenciosas, com o carro ruidoso e o coração e a cabeça em turbulência. Talvez fosse tudo apenas uma sombra da injustiça de anos atrás, quando foi acusado de insubordinação mental, e não teve como se defender. Sumariamente expulso da escola. Perdeu a fé. Perdeu tempo. “E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam”. Muito jovem tornou-se arredio, rebelde, atormentado. Não podia contar nem com Deus nem com os homens. Se não fossem os amigos, estaria só neste mundo. “O mundo não vale o mundo, meu bem.”, falou em voz alta, para si e como se alguém mais pudesse ouvi-lo. Já perto de casa, um ruído maior fez o carro parar e quase que o coração de Carlos também. Tentou olhar pelo retrovisor do Ford, mas não conseguiu enxergar nada na rua escura. Hesitou por alguns segundos. Descia ou não? Será que havia atropelado alguém? Talvez a moça fantasma que vagava pelas ruas da cidade. Bom, se havia sido um atropelamento não tinha sido de um espectro. Temia os vivos mais do que os mortos, mas acabou por descer do carro, ressabiado, e ali estava ela. A pedra. Não uma pedra qualquer, mas uma grande, improvável pedra, no meio de uma rua no centro de Belo Horizonte. Estreitou os olhos por trás dos óculos de aros grossos, espreitando a pedra como se ela fosse um ser vivo e pudesse se mover a qualquer instante. Circulou-a, observando cada não-movimento seu. E, sem resistir ao impulso, tentou afastá-la em direção à calçada com um chute. A dor foi imediata e quase insuportável. Caiu sentado no meio da rua, segurando o pé irremediavelmente machucado. Ainda nessa posição tentou empurrar a pedra com uma mão, depois com as duas. Não conseguiu movê-la um único milímetro. “Arre, como isso veio parar aqui?” E pensar que, do alto dos seus vinte e seis anos, com sua alma idosa e seus olhos cansados, achava que já tinha visto de tudo. Levantou-se, mal apoiando o pé ferido no chão, mas disposto a tirar o trambolho do meio da rua. “Se ela chegou até aqui, de algum jeito vai ter que sair.” E Carlos empurrou-a, de todas as maneiras que pôde e conseguiu inventar. Esfolou os dedos, sujou a camisa, esgarçou a calça. E nada. A pedra venceu. Mas ele não se deu por vencido. Apontou o dedo em riste para a sua rival, e gritou: “Pois fique aí.” Em seguida, fez uma careta, acompanhada de um barulho malcriado. Deu as costas e deixou a pedra lá, fazendo companhia ao carro quebrado. Passou as mãos para ajeitar os cabelos finos e que já começavam a rarear no topo da cabeça, pegou o paletó e a gravata, tentou se compor da melhor maneira possível e foi mancando para casa. Assim que chegou, viu que Dolores e Maria Julieta dormiam profundamente. O sono das mães exaustas e dos bebês saciados. Carlos sorriu para as duas, tirou a roupa suja e rasgada e finalmente conseguiu deitar-se. Exausto, mas tranqüilo. Dormiu logo, um sono sem sonhos e perturbações, ciente de que muitas vezes as dores físicas são preferíveis a alguns tormentos mentais, que não cessam com o descanso ou com o passar dos anos, e que não podem ser curados com simples comprimidos. (Anos depois perguntaram ao poeta o que significava a pedra no meio do caminho, e ele disse que era somente isso: uma pedra no meio do caminho. Ninguém acreditou. “A poesia é incomunicável”). |
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|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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LUCI AFONSO |
A
autora expõe com sensibilidade e em ritmo sereno as angústias do poeta. O
clímax do texto é a divertida luta de Drummond com a pedra no meio da noite,
luta da qual ele sai “mancando para casa”. O desfecho do conto é simples e
eficiente. |
9 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
O
início é meio confuso, com uma comparação que não faz muito sentido em
relação ao restante do texto – o tal coração de diamante. Aliás, as
descrições do coração do poeta são todas meio lugar-comum, com mais opiniões
da autora sobre ele do que emoções factíveis para o leitor. O relato da
situação, porém, melhora no decorrer do texto e a motivação parece bem
explicada, apesar da idéia não ser original. |
8 |
|
|
LIANA FERREIRA |
O conto
está bem escrito e tem bom ritmo.
Consegue manter a atenção do leitor do início ao fim. Atende perfeitamente ao
que foi pedido no desafio, e tem o poder de nos fazer penetrar no mundo de
Drummond . |
9 |
|
|
LORENZA COSTA |
Embora
tudo funcione neste conto, do título à última linha, a minha nota 10 vai especificamente
para a metáfora do coração de diamante, apresentada logo de início, e o
cuidado de fazer ressurgir este coração, aqui e ali, ao longo do texto.
Cuidado, sorte ou intuição? Tanto faz: um escritor precisa dos três. |
10 |
|
|
MARCO ANTUNES |
Eu vi e ouvi Drummond neste conto elegante e
comovente. Um arrepio perpassou minha alma: senti-me assistindo uma cena na
vida do poeta de Itabira. Estou docemente tocado e o círculo se fecha: a arte
cumpriu sua função! |
9,9 |
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|
TOTAL |
45,9 |
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Conto 16 |
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|
Autor: |
Maria Raquel Melo |
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Título |
Dança na lucidez |
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Querido Théo, Após o triste episódio na Casa Amarela envolvendo nosso amigo Gauguin, resolvi internar-me voluntariamente no sanatório de Saint-Rémy-de-Provence. Aqui já não temo a loucura. Faço com ela pigmentos originais, gotas que matizam a sanidade monocromática que ainda habita a memória. A consciência mora nas minhas recordações... Lembra-se, irmão? O zênite em Haia era um traçado imaginário que desenhávamos em giz sobre a negra abóbada acima de nossas cabeças. Dividíamos o céu como fazem os comedores de batatas: repartir para durar. Assim, podíamos navegar as bandas do breu sem nos perdermos no infinito; existiria sempre uma metade desconhecida a ser explorada. Você era tão jovem ainda e já me perguntava, como se eu fora um profundo conhecedor da galáxia, se o espaço celeste era mesmo como uma enorme casca, furada por seres monstruosos, espécies agigantadas dos bichos que teimavam em se enfiar nos nossos deliciosos pêssegos. As estrelas eram para você brechas de luz de mundos misteriosos e iluminados que invadiam as falhas carcomidas daquela enorme fruta em que vivíamos. As noites eram então apavorantes para o pequeno Théo. Para mim, ao contrário, elas eram mágicas. Como transformar em mágica para você também as migalhas de ciência que roubava do “Sidereus Nuncius”[1][1] de papai? Eu já o amava tanto, irmão, que precisava livrá-lo do medo da escuridão, dos seres ameaçadores que sua imaginação ingênua insistia cultivar. Astros, constelações, estrelas, corpos celestes... Sempre acreditei que tudo poderia ser pura ventura no dossel de trevas da velha Holanda. Então, inventei uma festa, um baile celestial. Transformei as noites lúgubres e aterrorizantes no palco do grande baile. Cantarolava valsas para conduzi-lo na fantasia. E lhe dizia, meu querido, que os convidados do evento chegariam tão logo o sol se pusesse e juntos aguardávamos o brilho da primeira estrela. Seu medo dissipava-se como a luz no ocaso. O céu noturno perfurado de cintilações revelava a presença das primeiras constelações. Cassiopéia e Andrômeda adentravam o salão celestial em longos e fluidos vestidos de cauda godê, feitos de camadas intermináveis de fino tecido adamascado, salpicado de reluzente pedraria. Cada gota de luz que as elegantes convidadas vestiam eram estrelas, irmãs aladas, unidas desde seu nascimento pelo fio cósmico do delicado bordado sobre as imensas saias. E antes que nossos devaneios pudessem criar figurinos ainda mais ousados em beleza e resplendor, o orvalho de brilhos respingava toda a noite e começava a mover-se. Assistíamos, você e eu, à dança das constelações, enfeitiçados por seus rodopios no fundo invisível do espaço sideral. Os astros revoluteavam descrevendo órbitas incandescentes, fazendo vibrar nossos corpos grudados ao chão. Iniciado o balé, nada mais poderia manter-se firme no firmamento. A intensa claridade atenuava a escuridão do horizonte, pincelando de amarelos o anil fechado da madrugada. A festa apagava o mundo aqui embaixo e as luzes da cidade transformavam-se em débeis vaga-lumes. Assim, perdíamos qualquer âncora que pudesse nos atar à razão e flutuávamos na quimera de mais uma de nossas noites estreladas. Meu amado irmão, desde a juventude em Haia, as noites têm sido obscuras e tristes, mas ao chegar à Saint-Rémy, reconheço no céu nossas ilustres visitantes e já não encontro mais motivos para lutar contra a insônia. Minhas vigílias são regadas de prazer e música, com a boa companhia de Cassiopéia e Andrômeda, que inspiram minhas cores e movimentos. Largo-me ao delírio de espirais luminosas infinitas e minhas mãos pintam traços e volteios. Assim sou capaz de revelar noites insanas e rebeldes. Théo querido, quisera eu estas palavras percorressem ligeiras como um cometa a imensa distância que nos separa e esta carta o alcançasse em Paris, antes da aurora, a tempo de sentir novamente seus olhos pousados sobre essa noite estrelada que acaba de surgir, a tempo de ouvir novamente sua voz suave de criança a me dizer: - Elas giram, Vincent, e brilham, como no nosso baile noturno de constelações... Se puder, venha me ver, Théo. Seu saudoso irmão, Vincent Nota da Autora abaixo do Quadro Noite Estrelada: Noite
estrelada – Van Gogh · Pintado em 1889, um ano antes da morte do pintor, durante sua internação no Sanatário Saint-Claude em Saint-Rémy-de-Provence, França. |
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|
JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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LUCI AFONSO |
Este
comovente poema em prosa deve ser lido à luz da primeira estrela, debaixo de
um pessegueiro em flor, como certamente o leriam Vincent e Théo. “Repartir
para durar”: é o que faz a autora ao compartilhar conosco sua escrita
luminosa, nesta carta que o próprio Van Gogh assinaria, tão bem ela expressa
o extraordinário amor que o unia ao irmão mais jovem. |
10 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
O
mergulho nas emoções do artista foi muito bem conduzido e condiz com a
situação de isolamento e abandono descrita por ele. A estratégia da carta foi
adequada para explicar narrativamente esse mergulho e creio que deu força à
narrativa, pois possibilitou a fusão do narrador com a personagem. |
9 |
|
|
LIANA FERREIRA |
É lindo
demais. Retrata docemente toda a amargura e a solidão dos últimos anos de Van
Gogh. Somos todos convidados a assistir a dança das constelações e a
participar da festa promovida por aquele coração generoso. Tem uma música que
desconcerta e emociona, talvez porque misture amor fraternal e solidão, tormento e paz,
insanidade e lucidez. Nesta carta-conto tudo se traduz em beleza. |
10 |
|
|
LORENZA COSTA |
Possivelmente,
de todos os contos, aquele mais dependente de uma nota explicativa (ou ilustração)
para conectá-lo ao tema proposto – nota e ilustração, aliás, providenciadas
pela autora. Mesmo sem elas, o conto tem em si sentido completo e o mérito de ligar, com
sensibilidade, o início e o fim da vida do artista com dois episódios
exemplares – um provavelmente imaginário, da infância, e outro real, evocado
como “o triste episódio na Casa Amarela”. |
9 |
|
|
MARCO ANTUNES |
O
narrador Van Gogh narra ao irmão Theo, como quem reedita memórias, dando-lhes
atualidade e redentora semântica, o duplo firmamento que cobriu o passado de
ambos, mas que, no tempo da carta, mesmo transformados, pela plástica da
vida, têm nessa reminiscência o consolo da antiga abóbada celeste. Porém,
ludicamente, sonha que uma nova síntese cubra os dois para reencontrarem o
sentido, ou ao menos algum sentido para a “noite” que cobre ambos e os
separa. Pode-se dizer melhor? |
9,8 |
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TOTAL |
47,8 |
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![]()
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Conto 17 |
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|
Autor: |
Soraia Maria Silva |
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Título |
O conto dos contos |
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Eis que ventava naquele lugar e uma voz dizia: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o verbo era Deus” eram as palavras de João 1:1, o apostolo amado de Cristo que ecoava em nossos ouvidos. Reunidos ali contemplávamos com prazer aquele som divino murmurando em nossos corações. Dante permanecia inquieto percorrendo a passos lentos seus círculos mentais e pensativo ante a instigante pergunta feita. Já ali, no fluxo da fala, encontrava suas respostas. Todos estávamos na mesma situação, mas o som das passadas ritmadas de Dante irritavam meus olhos, sem dúvida sua progressão era a perfeita medida de sua “catedral de palavras”, A Divina Comédia, que tanto o esgotara, seu máximo esforço humano na expressão do amor divino. Parecia tenso naquele exercício labiríntico. Lembrei-me de tê-lo retratado com a mesma atitude apreensiva e ainda sonâmbula no meu Juízo Final da Sistina, ao meu lado junto de Platão, Virgílio, Estevão e Lutero, todos como mortos ressurretos em direção ao nosso amado. Lembrei-me desse quadro e do que me motivara... Também esses monótonos passos haviam me guiado, quisera com a minha obra, com tintas e traços, seguir-lhe os passos e fazer renascer à profusão imagens da arquitetura celestial. Quando ali dei as primeiras pinceladas tinha o secreto desejo de fazer prosseguir a obra à qual “faltou inspiração”, onde o querer se tinha “qual roda obediente ao mando” posto conforme a vontade divina, “esse amor que move o Sol e as mais estrelas”. Seus olhos refletiam a Luz que prevalece sobre as trevas, quando tentava nos explicar a origem de seus traços na Sistina. Como era adorável ver a resplendente face de Miguel, espelhando a alegria juvenil de um garoto que fala de suas proezas, cheio da alegria celestial, sua mais completa companhia. Embora mais novo, me sentia exausto nessa situação. Minha dor não tem fim. Embora esse encontro não planejado tenha sido a tentativa de rever o que um dia teve um início, um meio e um fim. Essa alegria e frescor de Miguel relembram um pouco o êxtase dos meus passeios noturnos regados à mocidade dançante pelas ruas das pedras de Minas, o ouro da minha juventude, que se foi como um clarão. Sobre mim pesaram os mantos... Quem dera como Dante ter perseguido a Virgem... E Beatriz que o conduziu salvando-o na eternidade dos nove céus de seu paraíso. Quanto a mim escuto a voz das profecias gravadas na pedra sabão, e “depois que os Serafins celebraram ao Senhor”, sinto a dor, em meus lábios, da brasa que um deles me trouxe, “com uma tenaz”. Esse rapaz todo torto, pena me
dá vê-lo assim todo torto, Aleijadinho mesmo, e com essa dor estampada em
seus lábios. Não lhe conheço o drama, mas às suas formas intui-se a pérola
barroca que ali move a alma nesse corpo torturado, lembrando em seus
silêncios cênicas esculturas. Pena às minhas penas não tê-lo visto em obras,
pois sei que as têm, o mesmo motivo nos redimiu e reuniu aqui, neste insólito
lugar, eu que de minha Beatriz já não me apartava mais, sinto saudades de suas
doces e quentes mãos, o refrigério do meu espírito. Mas quanto a esse de
olhar insistente, sinto-me exaurido por esse olhar, o qual suga-me até os
pensamentos. Nele vejo a voracidade e a insaciabilidade da expressão que não
finda |
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JURADO |
JULGAMENTO |
NOTA |
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|
LUCI AFONSO |
Este
conto labiríntico é de difícil compreensão. Estrutura não tradicional,
linguagem e tema eruditos. Lembra a prosa hermética de Nélida Piñon. |
8 |
|
|
CRISTIANE BRUM |
O
principal problema do texto é que não cumpre com a tarefa estabelecida. Qual
é a obra escolhida? A Divina Comédia, a Capela Sistina ou as muitas
esculturas de Aleijadinho? Não consegui identificar qual delas mereceu mais
atenção. Creio que não ficou clara a narração de uma situação, mas apenas o
esboço de um encontro entre eles – no céu, no purgatório ou em uma cerimônia
religiosa? O texto traz muitas impressões sobre os artistas e o esboço de um
diálogo entre eles que não se concretiza. |
6 |
|
|
LIANA FERREIRA |
A idéia
desse conto é muito boa. Três criaturas geniais se contemplam, enquanto
aguardam numa sala de espera, o momento do juízo final, quando serão julgadas
por suas obras. No primeiro parágrafo Michelangelo faz reflexões sobre Dante;
no segundo é Aleijadinho sobre Dante e Michelangelo e, por último, Dante
reflete sobre Aleijadinho. Essa estrutura fragmentada talvez não facilite uma
primeira leitura. É preciso estar atento. Mas é formidável! A linguagem,
principalmente em Aleijadinho, precisaria estar mais diferenciada. O maior
problema que vejo é que parece existir uma quarta personagem, um narrador,
que não está bem delineado nem no início, nem no fim, talvez por isso a
confusão de pessoas verbais no desfecho do conto (nos
levantamos/retiraram-se). |
8,5 |
|
|
LORENZA COSTA |
É comum
encontrar contos que pecam por excesso de informação; neste caso, ocorre o
pecado contrário: a autora teve uma idéia engenhosa, e apresenta muito bem a
visão de cada artista sobre seu “colega”. Porém, falta qualquer coisa sobre o
que cada um deles terá a dizer sobre sua própria obra. |
7,5 |
|
|
MARCO ANTUNES |
A idéia
deste conto é genial: a sala de espera do Juízo Final em que grandes artistas
esperam ser julgados por suas “obras”! Lamento apenas que o curto espaço da proposta
talvez tenha obrigado o autor a um demasiado exercício de síntese, pois as
três grandes inspirações que esperam sua vez enquanto contemplam aos outros e
se “julgam” acabam em uma quase anacolutia narrativa. O conto merece ser
revisto e ampliado posteriormente, inclusive acentuando a necessária
diferença de linguagem entre as personagens. Hoje dedico a nota ao potencial
da inspiração de seu autor. |
9 |
|
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TOTAL |
39 |
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![]()
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Conto 18 |
|||
|
Autor: |
Ari Gurcz |
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|
Título |
Divinas Mãos |
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|
Levantou de súbito. Resfolegava curto, ansioso. Era o mesmo sonho que
recorria. Havia meses, o mesmo sonho. Premonição, por certo. Esperava que fosse.
E tomaria parte, seu lugar seria de destaque. Precisava voltar ao trabalho.
Estava quente. O calor da manhã antecipava o inferno do dia. Ainda tonto percebeu que precisava acalmar-se. Tomou
demorado fôlego e expirou longamente. Havia de trabalhar com afinco e sua obra ser perfeita o
suficiente para que fosse digna de simbolizar o novo tempo, a nova ordem. Afastou a coberta caída no chão ao lado do catre no canto
da sala de trabalho. Os pés enfiados nas sandálias abertas, colheu o cinzel e
o martelo e voltou à peça. Fitou o mármore já talhado com a forma de Afrodite. A
face serena, cabelos presos no alto da cabeça com a simetria prescrita pelos
escultores de outrora - por certo Fidias não
se envergonharia - seu
torso nu desde pouco abaixo da cintura formava com as coxas uma sinuosidade
espiralada, deixando insinuada a sensualidade da deusa. Como esta, no entanto, tantas outras havia. Policleto e Lisipo deixaram dezenas de representações
semelhantes em quantos templos, em quantas ilhas. Muito mais importante,
porém, que o corpo e a cabeça: as mãos. Essas haveriam de ser as mais belas,
as mais delicadas, as mais bem ornadas de toda a Grécia. Nenhuma outra figura
de Afrodite ou qualquer outra deusa teria as mãos mais perfeitas. Seriam
capazes de fazer curvarem-se soldados e governadores e, mesmo, o imperador
para beijá-las. Boa parte dos últimos anos consumiu a garimpar pela ilha as
mãos que lhe serviriam de modelo. Uma menina egípcia recém chegada à casa de
um próspero da cidade, fez cessar a busca e pôde tornar ao trabalho. Os
dedos lisos e roliços a apoiar uma milo, uma maçã de ouro à direita. A
esquerda o punho delgado, mas firme, a erguer uma tocha também dourada. Era
este, só poderia ser, o significado do sonho que lhe povoava as noites desde
que saíra de Antióquia. Uma
nova era surgia. Roma, agora império. E o imperador apreciava a Grécia, bebia
de sua cultura, valorizava sua arte. Era sua chance de estar nas graças do
imperador, além de agradar Afrodite - ou Vênus como preferiam os romanos - a
homenageá-la com a ornamentação de seu templo. A
ilha de Milo, no meio do Mar Egeu, equidistante de Esparta e Atenas, seria a
cidade central da nova era de prosperidade. A ilha que atrairia comerciantes
e artistas e patrocinadores de todo o mundo civilizado: a ilha da maçã, a megalo
milo, a grande maçã, o centro do mundo, era o que lhe dizia o presságio.
E seu símbolo, Agesandros esculpiria, a deusa a segurar uma tocha que
iluminaria os caminhos dos povos rumo à idade de ouro. Esse seria o futuro e
sua Venus seria reconhecida por toda a eternidade como a Afrodite das mãos
divinas. |
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JURADO |
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