OS CONTOS DO 1º DESAFIO

 

ESTÃO LIBERADOS PARA LEITURA, NESTA PÁGINA, TODOS OS CONTOS ENTREGUES. ESCLARECEMOS QUE AS PRÓXIMAS ETAPAS SERÃO ENCERRADAS SEMPRE NA DATA PREVISTA NOS SEGUINTES HORÁRIOS:

1-CONTO ENTREGUE EM CD OU DISQUETE: ATÉ 18 HORAS DA DATA LIMITE

2-CONTO ENTREGUE POR E-MAIL: ATÉ 21 HORAS DA DATA LIMITE.

 

Comentário sobre o julgamento:

Os jurados foram convidados a apreciar e julgar os trabalhos e solicitados a não comentarem entre si os trabalhos recebidos a fim de que se refletissem na avaliação a diversidade de observação e a fruição pessoal da obra. A liberdade é ampla! Não havia nenhuma regra pré-estabelecida além dos limites (entre 6 e 10)  das notas a serem atribuídas, mas foi bastante generalizado o procedimento de pontuar menos (ou não pontuar) obras que não atendessem ao tema do desafio. O principal objetivo do presente desafio é oferecer aos participantes e aos que acompanham o certame um feedback dos trabalhos apresentados. Aos participantes, cabe procurar entender o que emocionou o jurado ou, simplesmente, que recursos funcionaram melhor para cada jurado e tentar, nesta 2ª etapa, manter as notas, quando esta foram positivas, ou melhorá-las quando ficaram abaixo do esperado. Apenas 18 passarão para o 3º desafio!

Marco Antunes

 

INÍCIO DO 1º DESAFIO DOS CONTISTAS

 

Conto 1

Autor:

Vera Mota

Título

“Gênero-econômico”, colorido deslumbrante!

Desde menina Milena viaja de carro pelo Nordeste brasileiro, capitais e interior. Tinha que visitar a avó paterna, aquela matrona com brincos e pulseiras de ouro 18, pó de arroz nas faces branquinhas, agulha de crochê sempre a postos com linha Anne, de preferência vermelha, fogo.

Depois que a avó morreu, a paixão pelas praias, pelas feirinhas, pelo artesanato, pelo sotaque acolhedor dos outros parentes têm sido suficientes para manter o enorme prazer da viagem. Faz calor, sim! Um sol quente, asfalto suando... Não tem ar-condicionado que resolva.

Naquela época, na infância, o que mais chamava atenção eram os vendedores da beira da estrada: papagaios, micos, passarinhos coloridos e cantadores, tucanos, araras, cotias, tamanduás... Tudo o que hoje consta da listinha do IBAMA. É claro que, a cada roteiro, o “zoológico” da chácara dos pais de Milena, no Parkway, tinha um upgrade.

Expiando os vendedores e as estratégias de apresentação de seus produtos, de longe mesmo, dava pra saber quem ia se dar bem na vida, ou pelo menos naquele dia.

Com aquele sol quente, meu amigo, uma venda assim, de porte, para uma família do “Sul”, poderia ser o paraíso!!! Mas, na verdade, cá pra nós, “no mais das vez”, eles não tinham a menor chance de fazer um carro parar. E para a doce e minúscula Milena — amante de todos os animais proibidos pelo IBAMA e interlocutora dos corações e mentes sensíveis — aquela seqüência de barraquinhas de palha e pequenos tamboretes, onde se “estatuavam” (totalmente imóveis!) os representantes das três gerações daquelas famílias... Aquela cena... (Acho que não se trata de “cena”, porque não tinha ação, reação, vida... Será que é melhor dizer “paisagem”, tipo natureza morta?) Vamos ver: aquela “paisagem” lembrava a porta... é, é, é a porta... de um inferno.

Ela não desejaria aquilo para ninguém: era desumano!

Ali estavam estampados o avô, o pai e o filho.  Isso dá mesmo o que pensar! E “pensar não só com o cérebro, mas com as narinas dilatadas, os lábios cerrados, músculos dos braços, das costas, das pernas... punho crispado, dedos contraídos"... Tudo incomoda, parece que dói nessas horas: — Que futuro seria o deles? Que presente?

Milena menina, três dias dentro de uma Vemagete, só queria mais um papagaio, para formar um casal...

— Alguém sabe dizer o sexo de papagaio novo?!

Imagina, gente! Na beira da estrada, com placa de Brasília... Eles podiam dizer que quaisquer “dois” era o casal e vender logo juntos, fazendo um descontinho... Risco zero, sem chance de devolução. Mas, não! Os sonolentos ficavam paradinhos, olhando pro próprio pé, com as gaiolas cheiinhas!!!!

Atualmente Milena, mãe de família, com todo o respeito, — com uns brinquinhos de argola, básicos, de ouro... pra não dar alergia, né?; aliancinha de brilhante básica, né?; só com um lapisinho de olho e um gloss cor de lábios, bem natural... com blusa de tricô que ela mesma fez no último recesso, branco — já nota muita diferença nas barraquinhas de beira de estrada. O IBAMA tem trabalhado direitinho, nesse aspecto.

Hoje a pensadora não precisaria mais ficar solitária, ressaltada, contorcida mirando de cima uma porta do inferno. A propósito, Milena também já rodou muitas praças, muitas cidades, muitos Estados e países, aprendendo, ensinando, fazendo cursos: o currículo lá no Banco de Talentos da Câmara tem um bocado de páginas... Não dá pra resumir, assim em duas linhas, pra pôr num site, ainda que seja literário...

Na última viagem, agora pela Paraíba, logo após a parada do almoço, Milena voltou no tempo — como só ela e os artistas sabem fazer. Esse povo vive mesmo em outra dimensão! — e descreveu minuciosamente para o escultor a nova “paisagem”: sertão nordestino, julho de 2007. Antes, é claro, ela explicou direitinho o contexto “gênero-econômico”:

— Não é por causa da Paraíba, “mulher macho, sim, senhor, não”. As mulheres estão em vários lugares públicos, nas empresas, no comércio, nas ruas, beiras de estradas... é normal, hoje em dia... talvez até na porta de um inferno, mirando ou entrando... Ou seja, não precisa mais ser homem pra demonstrar que pensa, certo?

Bem, a tal cena, se ainda parece desumana para alguns, já não o é para Milena, que atualmente também faz meditação (em qualquer posição). Finalmente temos um sinal de que valeu a pena tirar a estátua que pensa da porta do inferno e fazê-la maior, bem maior, em bronze, e deixar suas réplicas correrem o mundo.

Sabe o que ela vê agora? Claro que o escultor ficou feliz!

Na primeira barraquinha, com um decote até o umbigo e shortinho de lycra verde-limão, a vendedora mãe: cabelos longos, cacheados, volumosos, com aquele batomzão, de preferência vermelho, fogo.

Na segunda barraquinha, alguns metros adiante, a vendedora avó. Esta não mudou quase nada: um colorido deslumbrante, sentadinha no seu tamborete, olhando para o próprio pé, embaixo daquela loninha, cheiinha...  Vocês sabem de que, né?

Na última barraquinha, encerrando as gerações, a vendedora neta — da idade de Milena quando adquiriu seu primeiro filhotinho de mico estrela, aquele que tem uma manchinha branca na testa, lembrou?

A neta, embaixo da barraquinha, não usa maquiagem.  Ô, gente, que maravilha!

Bonitinha ela! Camiseta dos Rebeldes, fone de ouvido, walkman na cintura... Também “parece” uma estátua! Mas por uma boa causa. Compenetradíssima! Sem pestanejar! Não tira os olhos, de jeito nenhum, deeeee uuuuuummm liiiiivvvvrooooo! Um livro!

Gente, não importa o título, o conteúdo... Olha a evolução, a esperança!

Ela não pisca mesmo, nem quando o carro estaciona e buzina... naquele asfalto de miragem...

A pensadora começa a rir e avisa ao escultor que agora ele já pode voltar — não precisa mais disfarçar para seus amigos franceses — e esculpir sua verdadeira obra prima, que sempre foi mulher e permanece ainda “menina”, especialmente depois da lipo! Ah! E apaixonada pela listinha proibida do IBAMA... 4 mil reais uma arara vermelha! Já pensou?

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

A autora tem estilo ágil e cativante. Entretanto, o “colorido deslumbrante” da personagem ofusca o artista em questão, Rodin, e a obra escolhida, “O Pensador”. O texto não narra acontecimentos que teriam levado à criação da escultura, conforme o tema proposto. Em vez disso, traz ambos, criador e obra, para uma realidade de dimensão mais modesta.

7

CRISTIANE BRUM

Creio que o texto tenha ficado muito hermético, sem possibilidade de grande interação com o leitor. Realmente não entendi qual é a obra criada e não achei que a construção do texto permita ao leitor acompanhar as citações e as ironias da autora. Além disso, achei o narrador bastante confuso em seu papel: por vezes se distancia, outras vezes parece se confundir com a autora em suas opiniões.

6

LIANA FERREIRA

O texto tem ritmo, mas a linguagem nem sempre é muito clara e a abordagem da escultura “O Pensador”, de Rodin, apenas superficial e obscura. Tem inserções que destoam do objetivo e quebram um pouco o encantamento do leitor. Há um expiando, em vez de espiando.

7

LORENZA COSTA

O conto começa bem, mas fica confuso por causa do excesso de informação. Não há necessidade de citar o Banco de Talentos da Câmara e um site literário para pintar a personagem. Parece uma tentativa não muito bem sucedida de piscar o olho para o leitor. O escultor, por sua vez, entra de repente na viagem. Merecia mais espaço.

7,5

MARCO ANTUNES

Falta ao presente  “conto” a tensão dramática de uma história propriamente dita, inclinando a percepção do Gênero do trabalho mais para crônica que para o conto propriamente dito. Não fui capaz também de entender que obra a história de Milena inspirou, mas somente uma que ela inspiraria, desta forma, acho que o desafio não foi muito adequadamente cumprido.

6

TOTAL

33,5

 

 

 

 

 

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Conto 2

Autor:

Davi R. Oliveira Jr.

Título

Um pincel para David

- Buonarroti, exclamava, sou um Buonarroti!!!

 

O homem atribulado seguia rumo ao seu algoz. E que algoz! Nada menos que o próprio sucessor de Pedro. O pilar da Santa Igreja parecia mesmo uma pedra de tropeço, caprichosa e fixa em seus próprios desejos, uma penha que não se deixava lapidar ou transportar.

Se o orgulhoso artista não temesse a própria consciência, facilmente correria o risco de acreditar que a serpente Bramante, o arquiteto do Vaticano, teria seduzido o próprio representante de Deus a exigir do atribulado artista novos dotes apenas para assistir à derrocada do prestígio que arduamente esculpira.

A opulência da Catedral de Santa Sé não era sequer notada pelo artista. Seu coração inquieto só guardava más recordações daquele lugar. Não adiantava fugir. Como Jonas, ele já havia tentado se esquivar do que havia em seu próprio coração. Há alguns anos fugira de Roma, mas a graciosa providência lhe permitiu pedir e receber o perdão de Sua Santidade. Pena que a escultura forjada do bronze fundido, metal que teimava formar amálgama com a pele daquele que o fustigava pela primeira vez, virou em menos de quatro anos material para a confecção de um canhão.

Na antecâmara do salão de audiências, não fez caso do clérigo que o recepcionara. Com suas vestes litúrgicas, entrecortadas com o vermelho vivo dos adereços eclesiásticos, transparecia uma serenidade incomum, especialmente para aquele ambiente em que o sacro cedia tanto espaço para a política e para a ostentação. Absorto em suas dúvidas, sentou-se e perdeu a noção do tempo.

 

- Bom homem, que perturba seu coração?

 

Sua voz era suave e convidava a confissão. Algo parecido como reencontrar alguém por quem se anelava e que, mesmo sem oferecer respostas, aquietava a alma. O padre parecia familiar e digno de confiança, ao mesmo tempo em que seu olhar penetrante parecia ver além do que Buonarroti desejava transparecer.

O silêncio prolongado do artesão demonstrava mais que o constrangimento de ter sido flagrado em suas preocupações, revelava o embaraço de ser límpido o medo de não ser capaz de desempenhar a tarefa incumbida.

 

- És tu o escultor?

 

Respondeu o artista sem conseguir disfarçar a ironia:

 

- Sim, mas agora fui, por designação de Sua Santidade, promovido a pintor. Prefiro ser chamado apenas pelo que sou, não pelo que faço. Sou Michelangelo Buonarroti, como já deves saber.

- O que farás?

- Vou pintar afrescos no teto da Capela. Eles devem refletir a beleza do templo de Salomão cuja descrição serviu de base para a construção. Não é um desafio extraordinário para um escultor promovido a pintor?

- Meu Filho, Salomão em todo seu esplendor jamais se vestiu tão bem quanto um lírio. Pretendes fazer algo similar às roupas de Salomão ou aos lírios do campo?

- Padre, não há como comparar as obras das mãos humanas com as obras da mão de Deus.

 

O sacerdote mostrou um sorriso de aquiescência com a frase de efeito, mas logo seu rosto pareceu se encher de profunda compaixão pelo homem.

 

-         Qual o teu maior orgulho? Qual tua melhor obra?.

 

A pergunta não era mera vazão de curiosidade sobre a vida de um homem aclamado como gênio. Era real interesse no filho de Ludovico di Lionardo Buonarroti Simoni. Algo que ameaçava profundamente o ego de Michelângelo.

 

-         Minha arte, meu reconhecimento. Minha melhor obra é David.

- David? David é criação tua? Qual David? Aquele que apesar de tuas ordens permanece mudo? Você chama isso de criação?

- Padre, balbuciou perplexo, é minha mais perfeita escultura...

- Tu julgas que o David cristão é aquele Hércules pagão cujo espírito pode, pela força do homem, afugentar espanhóis e franceses dos limites da Toscana os ameaçando com pedriscos? Tua obra é o fruto de teu orgulho e dos que a encomendaram.

 

            Como um vento que principiou suave e se transforma em tormenta que arranca casas, o padre prosseguiu:

 

- O verdadeiro David era tão franzino diante de Golias quanto é tua honra diante do julgamento dos homens. Tua funda é agora teu pincel, pois fostes destituído de teu formão, da tua talhadeira e de teus martelos. Em quem confiarás para tão grande provação? Em ti mesmo, Buonarroti, ou em teu criador?

 

A consciência de sua condição de criatura provocou em Michelangelo a dor de ver ruir o que realmente era sua mais grandiosa escultura: a ilusão de ser criador.

 

- Não subsisto sem ti, Senhor!!! Exclamou o artista esquecendo de seu interlocutor e fitando a imagem do Cristo.  - Vem em meu socorro, pois desfaleço.

 

Michelangelo sentiu o reconfortante abraço sarcedotal e ergueu os olhos. O Padre, que agora parecia brilhar, afirmou:

 

- Fique em paz, perdoados foram seus pecados. Não te estribes no teu próprio entendimento. Segue como Pedro sobre as águas, sem olhar para a tempestade. Sem fé é impossível agradar a Deus.

 

Com uma profunda sensação de alívio espiritual, Michelangelo se volta para o padre, sem perceber que aquela antecâmara estava ebria de uma glória indizível e nela se fazia ouvir o ruflado das asas de querubins.

-         Padre, perguntou: como te chamas?

-         Meu nome? Eu SOU...

 

 

Michelangelo encontrado desfalecido é desperto e levado à presença do Sumo Pontífice. Na presença do Papa, aguarda permissão para falar.

Júlio II estende sua mão para o artista e lhe pergunta:

 

- Quanto tempo até a conclusão de tua obra, escultor?

- O tempo necessário, Vossa Santidade, para que uma imagem do criador nela se reflita.

- Precisas de algo? Bramante já montou os andaimes e contratou pintores auxiliares...

- Santo Padre, permita-me trabalhar só. A obra não é para um exército, e sim para um homem ajudado por Deus.

- Deus?

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

A beleza deste conto já se anuncia no título e se consolida na profunda reflexão sobre a relação criador/criatura. Algumas expressões destoam do conjunto, como “frase de efeito” e “tormenta que arranca casas”; o sujeito não está claro no parágrafo em que Michelângelo encontra o “sacerdote”, mas são detalhes. A interrogação que fecha o texto é desnecessária.

 

9

CRISTIANE BRUM

A escolha da obra e do artista foi bem interessante, mas a solução do sonho me pareceu um pouco comum e fácil demais. Ainda que intenção tenha sido destacar o lado místico da produção religiosa, acho que a atmosfera onírica poderia ter sido melhor construída e explorada ao longo do texto. Acho que isso também poderia intensificar a crítica política embutida no conto.

 

7,5

LIANA FERREIRA

O conto começa bem e prende a atenção, mas o final empolga pouco. A expressão “tormenta que arranca casas” está dissonante. Há pequenos problemas gramaticais facilmente corrigíveis, como fostes destituído, em vez de foste destituído. O contexto está bem definido.

8

LORENZA COSTA

O ponto de vista sobre o significado de “ser artista” está bem desenvolvido: a obra escolhida e a história criada em torno dela vêm bem a propósito. A escolha do vocabulário e o estilo remetem de imediato para uma época passada. Entretanto, prejudicam um pouco a leitura algumas repetições de verbos de ligação, a mistura da segunda pessoa com a terceira e a alternância desnecessária para o presente do indicativo a partir de “Michelangelo se volta para o padre (...)”.

9

MARCO ANTUNES

Algumas frases tornam o estilo elegante, mas infelizmente essa impressão é logo desmentida por outras frases menos impressivas, deixando o texto irregular. Cena imaginativa, mas em franca colisão com o que se conhece do Michelangelo histórico e do que se pode perceber do produto final da própria Capela Cistina.

7,5

TOTAL

41

 

 

 

 

 

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Conto 3

Autor:

Lúcia Borges

Título

VIDA: SONS E CORES.

 No casarão da fazenda OLHO D’ ÁGUA, em Angra dos Reis, município do Estado do Rio de Janeiro, Zulmira olhava-se ao espelho bisotado da parede da sala de jantar. Nascera ali e recordava-se das imagens de seus antepassados. Chegava a vê-los refletidos, tamanha imaginação, até que se achou parecida com sua mãe. Estava bonita e conservada para 75 anos, as dobraduras de seu rosto contavam a história de sua vida - os bons e maus momentos sempre deixam marcas. Orgulhava-se disto.

Cabelos em ordem, uma boa imagem para receber os netos... chamou Mariana e João para conferir os últimos preparativos: a mesa já estava posta e os arreios revisados, prontos para montaria. 

Foi até à janela ansiosa, parecia estar ouvindo o som do automóvel chegando. Estava completando dois anos que não os via, no último verão morrera o administrador da fazenda, por esse motivo não pudera se ausentar e as crianças não puderam vir. Com a tecnologia ajudando a aproximar as pessoas pode vê-los e conversar com eles pela internet.

Finalmente chegaram! Como estavam grandes e bonitos. Cinco de uma vez, adeus solidão, pelo menos dois meses de alegria durante o ano. No Natal chegariam seus três filhos e noras.

Acomodaram-se em seus quartos, se prepararam e desceram para a sala de jantar onde Zulmira os aguardava.

Após o lanche foram colocar os assuntos em dia como sempre faziam desde tenra idade, no grande salão de leitura. Já havia separado os livros, de acordo com as idades, para entregá-los às crianças. Sua proposta era que cada um lesse e no dia estipulado, com a família toda reunida, contariam o que leram a todos num grande sarau. Ela sempre ao piano.

A noite já estava chegando, a lua cheia iluminava o jardim e ainda dava para ver o rio que margeava a fazenda pela janela panorâmica do confortável salão.

Após a entrega dos livros, Zulmira começou a contar a história de Dona Noite Doidona de Sylvia Orthof que sempre fazia sucesso desde a neta de dezesseis até o caçulinha de quatro anos. Foi quando o menino de quatorze fez a intrigante pergunta:

“Vovó é verdade que algumas pinturas de Monet parecem fora de foco porque ele não enxergava direito?”

Surpreendida pela pergunta lembrara da exposição sobre o pintor que fora ao Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1997.

Respondeu ao neto que realmente Monet teve problemas de visão, em 1923 com 83 anos ele quase ficou cego por conta de uma catarata. Foi operado e passou a usar óculos.

Curiosamente o assunto mudou, todos se interessaram e a contação de histórias passou do mundo da fantasia para os grandes mestres da história das artes...

A alegria de Zulmira foi tanta que se levantou de sua cadeira de balanço e pegou: os CDs de Vivaldi; o que recebera na compra do ingresso para a exposição de Monet; o grande livro da história da arte e o cenário mudou.

Iniciaram uma grande viajem pelo mundo das Artes: colocou o CD de Vivaldi no CD player; sentou-se ao computador rodando as imagens dos quadros de Monet e contou a seguinte historia:

“Monet casado pela segunda vez, empolgado com sua casa nova e o jardim, sua cabeça fervilhando de idéias, não conseguia dormir. Levantou-se e foi para o salão escutar os concertos de Vivaldi. Encantava-se com a obra “As Quatro Estações”, esta que vocês estão ouvindo agora e começou a inspirar-se. Era noite alta, com a tranqüilidade da música e o silêncio da casa, cochilou... seus cochilos eram flashes de cores e luzes. Despertou com o término da música, tirou o disco de 78 rotações do gramofone desligou-o e deitou-se.

No dia seguinte, após o café da manhã, correu ao seu belo jardim que cultivava com muito carinho e começou a pintar suas mais famosas obras. Sentia que conseguia colocar nas telas os sons de Vivaldi, começou pelo “Primavera” e assim a cada concerto que ouvia conseguia quadros mais belos”.

Olhos arregalados, os cinco netos maravilhados com as novidades do conto, lembraram que havia um gramofone enfeitando o salão perto da lareira e curiosos crivaram-na de perguntas. Os menores já pediam as canetinhas, guaches e papéis para começarem suas obras e dedicarem à vovó.

Muito feliz com a temporada que passou com os netos, chamou uma amiga que trabalhara com ela para passar o carnaval na fazenda e contou para a nova hóspede como curtiu as férias dos netos e o apoteótico sarau com a família.

Na tarde seguinte, tomando chá no jardim de agapantos e papoulas da fazenda, Zulmira comentou com a amiga:

“Néia sabe que eu penso ser verdade...”

Néia:

“O que Zulmira, verdade o que?”

Zulmira, depois de olhar para o belo jardim, respirou fundo e disse:

“Monet se inspirava em Vivaldi!”

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Os agapantos e papoulas retratados por Monet compõem o jardim desta personagem fecunda, igualmente inspirada nas estações de Vivaldi. Algumas sementes de ritmo, uma poda na pontuação, um enxerto no título trarão a primavera ao texto.

7,5

CRISTIANE BRUM

Apesar da situação peculiar criada pela autora, o exercício proposto não foi desenvolvido por inteiro, uma vez que o texto não explora o processo de criação da obra pelo artista, apenas o cita com distanciamento temporal e espacial.

7

LIANA FERREIRA

O texto é todo bem comportado, a história está bem contada, mas falta alguma coisa, talvez emoção. Senti  falta de um final com mais impacto, pois a conclusão a que Zulmira chega no desfecho,  já está expressa no meio do conto.

7,5

LORENZA COSTA

Falta um foco ao conto. É a relação entre a avó e os netos? É a opinião da avó sobre a relação entre Monet/Vivaldi? A partir do sétimo parágrafo, as passagens de tempo não estão claras (o “dia estipulado” do sarau é a noite que chega no oitavo parágrafo, mas isso só se percebe lendo o conto todo e voltando atrás. Na primeira leitura, a “noite já estava chegando” parece referir-se à noite do dia em que os netos chegaram); a penúltima passagem é abrupta demais (“Muito feliz com a temporada que passou com os netos...”).

7

MARCO ANTUNES

Linguagem simples e eficiente, enredo verossímil; mas devo confessar que não me entusiasmou a leitura do conto.

7

TOTAL

36

 

 

 

 

 

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Conto 4

Autor:

Lacy Mesquita

Título

O beijo

 Dizer hoje, diante da consulta de juntar os trabalhos dela aos meus que não há nada mais justo que isto, é admitir para todos o quanto deixei de ser eu mesmo por todo o tempo que estivemos juntos. Eu e ela nos misturamos tanto e ela ficou mais eu e eu fiquei mais ela.  Tudo o que fizemos, toda a nossa obra se espelhava de maneira desconcertante...

 

Disse um sim - podem sim juntar às minhas obras às obras de Camille e junto, minha memória de velho trouxe tudo de novo.

 

A incumbência de supervisionar o progresso das alunas de um amigo, o destaque de uma das alunas.

A admiração antes do talento, da pessoa irrequieta e depois, só depois, a paixão incontida de um homem maduro pela juventude, pela beleza. O ciúme de todos que dela se aproximavam e a constatação de ser para ela um mestre, invisível como homem.

 

A cada visita, cada pergunta técnica, cada aproximação constatava minha invisibilidade e no entanto sua admiração não era dissimulada - minha arte certamente chegava à sua alma. Eu, Auguste chegava até ela  vestido com minhas então condições de  velho homem talentoso e importante. Era de vinte e poucos anos a nossa diferença de idade.  Ela namorava homens jovens.

Ela se mantinha ocupada com seus amigos jovens, seus desenhos, seus projetos.

 

Comecei então a colocar para trabalhar para mim um cinzel incansável num bloco de mármore perfeito.  Meu cinzel conhecia os meus sonhos e neles eu era também um jovem. Um jovem tímido chegando enfim ao privilégio de estar com sua amada intimamente. À medida que as formas se apresentavam eram torneadas com um afinco obsessivo, cada detalhe e a luz que ele traria para si eram vistos em meus desenhos mentais. Minhas mãos ali eram pousadas delicadamente.  Mãos de escultor curiosamente tímidas a ponto da esquerda não ousar o toque. Ela, sim, se entregava sem pudores, sem reservas.

 

Passei então a me dividir em duas vidas - no ateliê das alunas era o velho mestre.  E no meu, o jovem amante inseguro sendo beijado pela amada. O velho mestre tinha uma fiel companheira. O jovem amante vivia seu amor sem pensar em futuros.

 

Ah! quanto tempo entre os sonhos e o cinzel! Que tortura voluntária! Fazia talvez parte daquele grande amor o sofrimento e ele acabou transbordando no dia em que Camille aceitou meu olhar de veludo cobrindo sua nudez de estátua reconhecida.

 

Escandalosamente reconhecida por todos.

 

Só não sabiam que aquele beijo jamais aconteceu. Aquele mármore retratava meu desejo contido, não o dela.  Naquela estátua fria não havia a minha paixão.  Havia a dela, que não havia.

Eu, como escultor tocava a alma de Camille, então através da alma  consegui sua atenção e todos aqueles anos a mim  dedicados como parceira de trabalho e amante.

Meu cinzel trabalhou com fidelidade de servo, e meus objetivos com Camille foram alcançados.

 

No entanto, nos perdemos um no outro e num outro dia,  este triste, nos despedimos cheios de rancores, para sempre.

Foram meus melhores anos, mas não os melhores anos de Camille.

 

 Ao ver juntos nossos trabalhos me senti confortado, voltei a ser o jovem tímido que não ousou pousar no corpo dela a mão esquerda - a do coração - e que teve  toda a paixão, a entrega da sua jovem amada.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

O emocionado testemunho em primeira pessoa, do próprio artista, sobre os sentimentos e conflitos que experimentou ao esculpir “O Beijo” revela a sensibilidade da autora. É preciso uma pequena revisão ortográfica e gramatical, atentando para a clareza das frases. O parágrafo final deve ser lapidado para evitar excessos.

7

CRISTIANE BRUM

Interessante o modo como o texto explora as emoções do artista com bastante singeleza. Muito boa a forma como a criação da obra artística é explicada. Recomendo à autora, contudo, mais cuidado com os deslizes ortográficos no próximo.

8,5

LIANA FERREIRA

O conto está de acordo com o desafio proposto. Tem poesia e imagens formidáveis.Tenho a impressão de que faltou uma revisão mais detalhada, tanto na ortografia quanto na estrutura das frases. Feito isso, teremos uma bela escultura literária.  O principal  mérito deste conto está em  fazer um retrato de bom moço do Rodin. Claro que o narrador em primeira pessoa facilita esse trabalho, já que legisla em causa própria. Gostaria de ver essa história contada pela Camille Claudel. Quem se habilita?

8,0

LORENZA COSTA

A linguagem pode melhorar em alguns pontos em que está truncada ou não imediatamente compreensível (“diante da consulta de juntar”, “comecei a colocar para trabalhar para mim”, “a ponto da esquerda não ousar o toque”). Apesar disto, a hipótese imaginada para justificar a criação da obra é excelente e foi bem desenvolvida. Apenas no final o conto se precipita um pouco, ao apresentar um “resumo” da vida do casal.

8

MARCO ANTUNES

È um belo conto que revela o grande potencial da escritora, em especial se redobrar seu cuidado com ortografia e pontuação, que são partes importantes de seu instrumento de trabalho: a língua. O grande senão se encontra no excesso de narração que sempre substitui a cena aberta, o dramático, enfim, enquanto ocorre e está vivo. Não nos esqueçamos de que o conto guarda em si o impulso para a dramaturgia!

7,3

TOTAL

38,8

 

 

 

 

 

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Conto 5

Autor:

Antônio Cardoso Neto

Título

Uma impressão da aurora

 Certa manhã, ao levantar-se da cama, Claude notou que uma penugem tremulava entre ele e o par de chinelos ao lado do criado-mudo. Abaixou-se e abanou com as mãos o ar sobre os chinelos, mas a penugem continuou ali flutuando.

— Camille, disse ele, cutucando a companheira até então adormecida. Você consegue ver...

E quase ia terminando a frase, quando notou que agora a penugem pairava em frente ao rosto de Camille. Esfregou os olhos. O direito, com a mão direita; o outro, com a outra mão. Ao retirar a mão do olho direito, notou que a penugem havia desaparecido. Quando ia dizer isso a Camille (que voltara a adormecer), retirou a outra mão do olho esquerdo, e a penugem reapareceu, tão trêmula e flutuante como antes. então percebeu que a penugem, pluma ou fosse o que fosse, estava dentro do seu olho esquerdo. Intrigado, colocou os chinelos e arrastou-se pensativo em direção ao banheiro.

Olhou-se no espelho pendurado na parede. A penugem boiava na frente de sua cara barbuda. Lavou o rosto com a água de uma bacia de porcelana e esfregou os dentes com o dedo indicador. Bochechou e cuspiu na privada turca. Fez um gargarejo e cuspiu de novo. Abriu a portinhola do pequeno armário sobre o qual estava a bacia, pegou um frasco de vidro, abriu a tampa e derramou umas gotas de lavanda na palma da mão. Colocou o frasco ao lado da bacia, esfregou as mãos, e as friccionou nas axilas. Banho? Nem pensar.

Um pouco mais tarde, molhava um pedaço de pão com manteiga na tigela de leite quente, quando começou a ver uma outra penugem dançando ao lado da primeira. Tapou um olho e depois o outro, concluindo que a nova penugem estava no olho direito. Naquele momento, havia uma penugem em cada olho. Camille começou a falar sobre o aluguel atrasado e a dívida na mercearia, e ele esqueceu-se do olho por algum tempo.

Passadas algumas semanas, tomava café com um amigo em um pequeno bistrô defronte ao arvoredo das Tulherias, enquanto argumentava que um quadro deve ser pintado com a maior rapidez possível, pois o sol em seu percurso diário sobre o mundo faz com que as cores e as sombras da natureza mudem incessantemente.

Bobagem. Se o problema é rapidez, para isso existe o daguerreótipo. — respondeu Pierre-Auguste.

Não é isso que estou afirmando. Aliás, é exatamente o contrário. Essa tal de fotografia, como alguns estão chamando essa palermice que virou moda, não substituirá a pintura, pois não capta as cores.

Mas capta as sombras, meu caro.

Nada disso! Insisto que, se observarmos atentamente, uma folha verde produz uma sombra vermelha, a sombra de uma tangerina é azul, e é violeta a sombra de uma flor amarela.

Pierre-Auguste deu de ombros. Claude virou-se e olhou em direção à porta, onde flutuavam não duas, mas umas cinco penugens.

— Estou ficando cego, Auguste! — disse ele, tomado de pavor súbito.

 Claude então relatou a Pierre-Auguste o que andava acontecendo com a sua vista, justificando o fato de ainda não ter ido ao médico por absoluta falta de dinheiro. O amigo emprestou-lhe algum, que Claude prometeu devolver assim que vendesse o primeiro quadro na exposição que ocorreria dentro de pouco mais de um mês, no salão tradicional de Paris.

Nem bem saiu do bistrô, sentiu que as penugens aumentavam, tanto em número como em tamanho. Então começaram a surgir, aqui e ali, uns pontos pretos que foram se aglomerando, formando grumos e cachos, aos quais acabaram se juntando as penugens, formando um mosaico que flutuava de um lado para o outro, como um caleidoscópio monocromático dançando na sua frente.

Quando chegou ao consultório do médico, via o mundo através de um aquário turvo e revolto, onde se agitavam novelos de vermes cinzentos e nadavam cardumes bizarros de negras enguias esfiapantes. A seguir, estava sentado em uma cadeira alta, em frente ao médico que examinava seu olho arregalado. As sobrancelhas molhadas aparavam o suor frio que lhe escorria pela testa.

— Pode ser que o problema tenha sido causado pelas tintas, Monsieur Monet. Sugiro que o senhor fique longe delas por algum tempo, disse o médico.

Mas como é que vou poder fazer isso? As tintas são o meu sustento.

— É apenas uma hipótese; não posso assegurar que tenham sido as tintas. Mas sabe como é que é, Monsieur: seguro morreu de velho. Em todo caso, o senhor deveria tirar uns dias de folga e passar uns tempos longe da agitação parisiense.

Claude e Camille arrumaram as malas e puseram-se a caminho da Normandia, onde uma tia dele tinha uma casinha no centro do Havre.

Certa madrugada, pelos meados do mês de maio, Claude acordou angustiado, com a sensação de que um paquiderme distraído havia pousado a pata em seu peito. Sentia uma espécie de câimbra engaiolada pelas costelas. Como poderia pagar Pierre-Auguste se não tinha pintado nada para colocar à venda na exposição que se aproximava cada vez mais? E como poderia voltar a pintar, depois que a textura do mundo se tornara leitosa? Como pintar, se entre ele e a natureza agora havia um olho? Desde que chegara ao Havre, tentava rabiscar garatujas com lápis, como havia sido seu hábito na juventude, mas se desacostumara de desenhar caricaturas, pois na técnica de óleo sobre tela, o nariz das feições surge como uma espécie de efeito colateral inexorável, ao passo que toda caricatura se inicia pelo nariz. Foi pensando nisso que Claude, munido de tela, cavalete, pincéis e bisnagas coloridas fechou a porta atrás de si e dirigiu-se ao molhe.

Montou o cavalete numa pequena colina em frente ao canal que refletia a laranja de fogo que se levantava por detrás da fumaça expelida pelas chaminés borradas. Fazia meses que não se sentia tão feliz. parou de assobiar para ouvir a cantoria dos homens manchados nos barcos embaçados misturados às brumas. Estava seguro de que mesmo se um dia inventassem um daguerreótipo que capturasse as cores, tal instrumento não conseguiria aprisionar a impressão daquele sol nascente.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Narrativa perfeita, final, idem. Duas pequenas tentativas de humor (“Banho? Nem pensar.” “...seguro morreu de velho.”) ficam deslocadas. O texto é enriquecido por belíssimas imagens. Só faltou à paleta do autor um leve tom vermelho.

9

CRISTIANE BRUM

Muito boa a situação criada, com uma adequada dosagem de fatos e emoções sugeridas por esses eventos. Também achei criativa a solução encontrada pelo autor ao sugerir que a cegueira – problema grave para um pintor - tenha se transformado em uma característica com resultado artístico tão bom. Gostei também da linguagem simples, sem rebuscamento.

9,5

LIANA FERREIRA

Emocionante. Bem escrito. Traduz fielmente o clima poético da obra em questão e aborda com lirismo irretocável a perda de visão de Monet.

10

LORENZA COSTA

O primeiro parágrafo é um primor, cumpre muito bem sua função de “fisgar”. O conto consegue trazer para a minúcia do cotidiano, com verossimilhança, uma história cujas linhas gerais são conhecidas. A linguagem, sem ser preguiçosa, é enxuta, objetiva: diz o que precisa ser dito, sem roubar do leitor a oportunidade de experimentar sua própria reação ao drama que se descreve. Deixa um pouco a desejar a ambientação na Paris de Monet: trocando alguns nomes, o mesmo conto poderia se referir a um pintor carioca em pleno século XXI.

9,5

MARCO ANTUNES

Excelente! Há no conto todos os elementos constituintes das boas peças do gênero: dramaticidade, tensão psicológica, linguagem honesta e estética conseqüente. Não leva o 10, pois ainda não se atingiu aqui o êxtase estético capaz de operar, no espírito que frui a obra, aquela inexplicável sensação de descoberta e maravilhamento que a obra-prima causa em quem a observa.

9

TOTAL

47

 

 

 

 

 

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Conto 6

Autor:

Olívia Maia.

Título

Tambor de Crioula

 Meus olhos seguiam atentamente aquele homem de macacão alaranjado andando de um lado pra outro, como se procurasse teias de aranha. Era o responsável pela vistoria das condições técnicas da aeronave. Veio a lembrança da tragédia ocorrida na semana anterior no Aeroporto de Congonhas.  A forma como ele fazia a inspeção me deu vontade de liberar meu medo infantil e gritar: abram a janela que eu quero sair. Contive-me. O avião seguiu seu destino - São Luiz (MA). no alto pensava nos percursos que havia programado: ver o Boi de Axixá, do Tamarineiro, da Pindoba, de Pindaré, da Maioba; dançar o Coco Pirinã; me requebrar com o Cucuriá de Dona Tetê.

 

Primeira constatação: Somos onde nos hospedamos, o que comemos, o que vestimos. Logo no primeiro dia ao descer no saguão do hotel fui obter informações sobre a cidade, como:museus, mercados, praias, restaurantes, lugares, bairros, cidades próximas, shows, Bois, Coco. Um moço com um olhar de paisagem me indagou: - A Senhora está sozinha? No que respondi. Sim

 

- Então é muito importante que ande de táxi e preferencialmente para Shopping – temos alguns excelentes, como... Antes que concluísse interrompi. Moço não tenho interesse em visitar shopping. Pensei: Puta que pariu vem alguém me dizer o que devo fazer.

 

- Há! Veio apenas conhecer nossas praias. Exclamou como que numa dedução lógica. Bem! Aqui perto tem uma que apesar de bonita é muito mal freqüentada, cheia de gente do Reggae, falou com um tom de desprezo, enquanto eu pensava: oba vou lavar a alma! Mas na frente tem outra, muito boa, porém freqüentada porfarofeiros”, sabe como é? Os pobres sujam muito as praia!(engoli seco pra não lhe dizer: pobre, feio, e sujo é o Senhor).  E continuou. Bem mais longe, a uns 30 minutos de táxi (saindo do nosso hotel) temos a melhor praia, a do Calhau, inclusive é que a família do Sarney tem casa. Nessa altura com todo o esforço possível ainda consegui segurar um grito de grande merda! Saí sem nem mesmo um bom dia. Não queria conhecer a cidade “desenhada” para turistas.

Desci a rua principal e consegui pegar um ônibus que me levou até o Centro Histórico. Comecei a me sentir em casa. Sentei num barzinho de uma ruela de casarões antigos e coloridos. Pedi uma cerveja para aplacar o calor que se tornara insuportável. De repente: pum, bum, pum, bum! Meu coração começou a entrar em um compasso diferente. Olhei a esquerda e em uma mesa debaixo de uma árvore frondosa, cinco homens iniciavam um batuque. A música se fez presente tocada em tambores de madeira. Tinha um de cano plástico PVC que confesso não ter gostado.

A minha sensação foi a de que o Mar Vermelho havia se aberto, bem ali a minha frente, e em suas margens as cidades de Assab, Suez, Agaba, Dahad, Jedda com Miriam e as mulheres de Israel dançando ao som de tamboris após as vitórias de Saul e David.  Louvando ao Senhor com harpa e adufe. Sorri - Então, dancemos todas sacudindo nossas saias até o céu alegrando ao senhor, anjos e arcanjos -, pensei por um momento.

Ao tempo que as batidas se intensificavam imaginei os mais diversos tipos de tambores: Taiko, Bongô, Bumbo, Caixa, Conga, Basler, Tom-Tom, Repenique, Tímpano, Tamborim,  Porém aqueles não me pareciam familiar. Devido à sua grande potência sonora, os tambores se comunicam diretamente com o meu coração. Deixando-o completamente descompassado, festivo e feliz. Mentalmente comecei a recitar uma poesia sobre a batida do tambor associada ao coração (que recebi de um amigo na minha primeira gravidez). Quando rememorei a última frase senti que grossas e pesadas lagrimas caiam do meu rosto. Quando ouço uma voz parecendo de um anjo.

- Moça, chorando num dia tão lindo? Uma mão forte e calejada havia pousado em meu ombro como as borboletas dos igarapés da minha terra. E passando as mãos ásperas em minhas lágrimas, convidou-me: Senta com a gente pra ouvir um Tambor de Crioula.  Timidamente pequei meu copo que estava sobre a mesa e disse: sou Olívia e o senhor? Sou Leôncio Baca, herdeiro de um tambor de crioula dos meus antepassados.

 

Enquanto os outros três homens (que agora eram vários e várias, pois muitas moças se faziam presentes), alternavam as batidas do tambor com uma dose de cachaça. Perguntei para Seu Leôncio: como que foi criado o tambor de Crioula, de onde veio esse som tão único, tão peculiar, tão choroso ao mesmo tempo tão alegre? Com seu ar de artista mestre, me respondeu:

 

- Para muitos senhores de escravos nossas festas não passavam de uns amontoados de homens brutos que se entregavam a instintos primitivos pensando que aquilo era diversão. O tambor possibilitou mantermos acesso nossa alegria, nossas lembranças: as línguas, os rituais, as danças, elementos vinculados ao rastro da presença de um passado transformado em resistência. Parou. Sorveu mais um gole de cachaça e continuou.  Ser do tambor significa assumir uma irmandade sustentada por laços que vão além do entendimento das aparências. Quanta profundidade! Pensei.

 

Nessa altura o tambor me atingia a alma. Possibilitava o reencontro com os espíritos de força. Um pergunta não quis calar. Seu Leôncio, como é que o senhor e os outros artistas/mestres mantém tudo isso até hoje?

 

Parou...Olhou pra mim...Depois olhou longamente para o nada e como percorrendo lembranças tão sofridas, disse: - Oh moça! Os tambores são utilizados desde as mais remotas eras da humanidade. Acredita-se que os primeiros tambores fossem troncos ocos de árvores tocados com as mãos ou galhos. Quando o homem aprendeu a caçar as peles de animais passaram a ser utilizada na fabricação dos tambores. Notou-se que ao esticar uma pele sobre o tronco, o som produzido era mais poderoso. Tipos diferentes de tambores existem em praticamente todas as civilizações conhecidas. E nós, negros, filhos de escravos, criamos nosso som... a partir dos nossos dons, pra aplacar nossas feridas, nosso sofrimento, liberar nossa alegra.

 

Não conseguindo soltar aquelas mãos que me acarinhavam com tanta ternura, continuei a conversa: E porque os tambores são tão diferentes, e cada um emite umcantomais lindo que o outro?

 

- Minha menina (foi assim que passou a me tratar), vou falar bem pouquinho, pra que escute, entenda e sintas com a tua alma. E continuo com uma voz de sábio/artista: O tambor maior é chamado de “tambor grade é o solista. Há dois outros tambores, o segundo chamado de” "meião" ou "sucador", que estabelece o ritmo básico de 6/8 e o terceiro "crivador" ou "pererengue" que realiza improvisos em 6/8. Cada instrumento no conjunto, possui medidas diferentes, permitindo diversas possibilidades de variação e de improviso para o tambor que lidera o grupo. Os tambores são similares aos utilizados no culto Mina-Jêje, originário do antigo Reino do Daomé. Fiquei envergonhada de pedir maiores explicações. Resolvi trocar a cerveja pela cachaça. Senti-me mais próxima, mais íntima.

 

pelas tantas Seu Leôncio tinha me chamado pra rodopiar, ensinado-me as tão famosas “barrigadas”. Rindo um riso frouxo dizia: tu vai sair daqui dando a melhor Pungada.(A principal característica da dança é a formação de um círculo com solistas dançando alternadamente no centro. Um de seus traços distintivos é a Punga ou Pungada, (a umbigada). Tanto o toque quanto a dança seguem o princípio da alternância. Tambor não se faz . Deve haver uma circulação entre os que dançam e os que tocam, e o reconhecimento daqueles que são apontados como os que “arrepiam” na dança ou sabem fazer o tambor falar com mais força).  Êta que tu vais sair daqui arrepiando, fazendo o tambor falar, moça fogosa! E ria, o riso dos anjos.

 

Tanto conhecimento num artista tão simples.Com tom calmo e doce, ainda mais calma pelo efeito da cachaça, falou pramoça” e não pra uma turista: O Tambor de Crioula tem uma voz íntima, única traz sinais transmitidos por gerações de negros que souberam ver nessa festa um sinônimo de liberdade. O tambor tem a sua fala diferenciada, o seu jeito de convidar para a dança, para o arrebatamento. E por isso, Moça, que tudo isso me encanta. Alegrar e encantar foram, é e será sempre o meu maior desejo.

 

Sentia apenas o sangue forte da senzala correr em minhas veias. E passei a brindar, cada fala, cada gesto. Ficando quieta possibilitei que a alma de Seu Leôncio se transformasse num canto de pássaro: - A voz do tambor se negou a ficar muda, calada. Permaneceu resguardada na fala dos corpos, dos gestos, dos passos que reconheciam nos batuques a essência de uma liberdade perdida nos limites da escravidão física. No tambor, o vôo para uma noite livre, onde o povo negro reencontrava o domínio de corpos castigados pelo excesso de trabalho pesado. Os pés ganhavam a leveza. As mãos viravam poderosos instrumentos de percussão, de sedução, de adoração.

 

Meu teor alcoólico estava deveras elevado. Mas ainda imaginava como o tambor não permitiu o aprisionamento da alma e garantiu a resistência espiritual necessária à transcendência das torturas materiais. E manteve na memória, tanto dos mais velhos como dos mais jovens, a gratidão e o respeito ao tambor que não deixou a alegria sumir dos espíritos daqueles negros.

 

Seu Leôncio me levou até o ponto de ônibus. Dei-lhe um delicioso abraço. Beijei-lhe as mãos em sinal de gratidão e disse; que São Benedito sempre o proteja. E fiz o caminho de volta, orando em voz alta: São Benedito, filho de escravos, que encontrastes a verdadeira liberdade servindo a Deus e aos irmãos, independente de raça e de cor, livrai-me de toda a escravidão, venha ela dos homens ou dos vícios, e ajudai-me a desalojar de meu coração toda a segregação e a reconhecer todos os homens por meus irmãos. São Benedito, amigo de Deus e dos homens, concedei-me a graça que vos peço do coração. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém”.Além do que deixai vir mestre e artista de todos o tambor. E que a Cartilha que rege o Ministério da Cultura que liberou quatro milhões para “Surfistinha”, não se aposse desse povo tão íntegro, tão especial.E que o reconhecimento do Tambor de Crioula como patrimônio imaterial do Brasil, não venha toldar de lama essas almas tão puras. Amém. 

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

A emoção incontida e a forte personalidade da autora nos arrastam à mesa de bar no centro histórico de São Luiz, onde se batuca o tambor-de-crioula. Entre as “pungadas”, porém, é preciso cuidar de vírgulas, acentos e frases, tarefa fácil para a “moça fogosa” que “arrepia na dança”. As explicações em excesso comprometem o ritmo do batuque. Depois da oração a São Benedito não cabem as considerações sobre política cultural.

8

CRISTIANE BRUM

Apesar da situação peculiar e interessante descrita no texto, ele não cumpre a tarefa proposta, pois não é possível identificar a obra e o artista escolhidos. Seria o tambor? O batuque? Mas que situação levou à criação deles? Também fiquei incomodada com algumas citações e comparações feitas pela autora, especialmente a que trata do Mar Vermelho. Qual o sentido de tal comparação para leitores brasileiros? A menos que sejam religiosos e vejam na comparação um sentido místico, não há como compreenderem totalmente a comparação. É claro que o autor tem toda a liberdade de direcionar seu texto para um tipo específico de leitor. No caso deste concurso, contudo, que é uma situação real de leitura, não acho que seja a melhor estratégia. A citação final, da Surfistinha, está completamente fora do tom singelo do texto. Completamente!

6

LIANA FERREIRA

O conto começa bem e empolga, mas depois fica muito jornalístico e didático e por fim se transforma em plataforma política. Está bem escrito, mas não acho que esteja adequado ao desafio.

7

LORENZA COSTA

O material pesquisado sobre o “Tambor de Crioula” foi transposto para o texto de forma muito literal; além disso, a mera introdução de personagens ou circunstâncias fictícias não bastam para transformar esta crônica em um conto, nem foi criada uma hipótese sobre a origem de uma obra de arte.

6

MARCO ANTUNES

Também aqui, em que pese a ser bela homenagem à cultura popular, lamento reconhecer que há um grave erro de gênero, não ficando a peça bem acomodada no conto, mas perfeitamente cômoda em crônica, mormente na modalidade crônica de viagem. Falta quase tudo para reconhecer aqui o conto: dramaticidade, crescente de tensão psicológica, o clímax como conseqüência de um ato da personagem que a transporte de um estado a outro, exigindo uma nova síntese. Por fim, como leitor, ainda que julgasse uma crônica, me sentiria bastante incomodado com o indisfarçável formalismo das intervenções da personagem - supostamente folk - que se expressa sempre como um universitário em defesa de tese.

6

TOTAL

33

 

 

 

 

 

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Conto 7

Autor:

Osmar Perazzo Lannes Jr.

Título

As Duas

 Os dois homens se encontraram, enfim. Um encontro anunciado, mas, até então, sempre evitado. Olharam-se sem convicção. Apertaram-se as mãos sem entusiasmo, que voltaram, rápidas, para os respectivos pares de bolsos das respectivas calças.

 

    Eram dois homens já maduros, dir-se-ia quase da mesma idade. O de aparência mais jovem, ou menos idosa, quebrou o incômodo silêncio:

 

-         “Prazer em conhecê-lo, Herr von Lichberg. Há tempos esperava por esta ocasião”.

 

    O outro permitiu que sua mão direita se dirigisse à barba grisalha, que começou a cofiar: - “Perdão, Senhor Nabokov, mas creio que seria mais exato manifestar sua satisfação em... rever-me”.

 

    Nabokov, que, de súbito, adquiriu feições reconhecidamente mais eslavas – certamente, influência da menção a seu sobrenome – pigarreou, com aparente surpresa: - “Perdão, mein Herr ? Não creio que já nos tenhamos visto antes”.

 

    O alemão sorriu um meio-sorriso, apenas com a metade direita da boca. Pareceu relaxar um pouco, como se essa resposta lhe concedesse alguma vantagem ou alguma confirmação: - “Ich bin sicher darüber, Herr Nabokov. Não tenho dúvidas quanto a isso, Senhor Nabokov”, repetiu, muito embora soubesse que a língua alemã não escondia segredos para seu interlocutor. Prosseguiu: - “Há, como direi ?, evidências indiretas e elementos mais que suficientes para que eu...”, pausou, como se escolhesse as palavras menos agressivas, ou, quem sabe?, ao contrário, as mais percucientes, - “... para que eu saiba” – e frisou este verbo, ao mesmo tempo em que fitava diretamente o outro, com o mesmo meio-sorriso – “... que. sim, nossos destinos já se cruzaram antes. Ou, pelo menos...”, completou, meio-sorrindo, “...que nossas obras tiveram essa oportunidade”.

 

    O russo não demonstrou qualquer sinal de desconforto: - “Apreciaria se me pusesse a par das suas certezas, Senhor, Senhor... Como devo chamá-lo ? Por Heinz von Lichberg ou por Heinz von Eschwege ?”

 

    Von Lichberg – ou von Eschwege – piscou, algo irrefletidamente. – “Tanto faz. Não devo escusas pelo emprego de heterônimos. Outros escritores já o fizeram”.

 

    Foi a vez de Nabokov devolver o meio-sorriso e a língua alemã: - “Entschuldigen Sie, bitte. Perdoe-me, por favor. Certamente, o Senhor se refere a escritores... conhecidos”.

 

    O alemão corou ligeiramente: - “A fama nem sempre anda de braços dados com o merecimento, Senhor”.

 

    Nabokov não hesitou em sua réplica: - “Devo ponderar, no entanto, Senhor, que as mãos estão sempre entrelaçadas”.

 

    Von Lichberg meneou a cabeça, em sinal de desaprovação, ou de desalento: - “Não esperava outra atitude de um seqüestrador”.

 

    O russo riu de genuína surpresa: - “Was heiβt es ? O que significa isso ? Permita-me assegurar-lhe, Senhor, que já fui vítima de variegadas e graves ofensas: chamaram-me já imoral, sujo, devasso. Mas nunca fui acusado de um crime!”

 

    O alemão de dois nomes manteve-se sério enquanto prendia os olhos de Nabokov nos seus: - “O Senhor sabe muito bem, mein Herr, que seqüestrou o meu grande e proibido amor. Pior ainda, que a desnudou para todo o mundo, que a expôs sem biombos, que permitiu que ela fosse execrada, examinada, consumida”. E sua expressão carregava novos matizes de indignação. – “Como pôde, Senhor ? Como pôde roubar a minha criação, o fruto da minha inspiração, e apoderar-se dele sem qualquer sombra de constrangimento ?”

 

    Nabokov livrou-se das amarras da calculada polidez que até aquele momento adornavam seu semblante: - “Impossível, Senhor, a minha Lolita nada tem a ver com a sua. Ou, por outra, sim, tem algumas semelhanças com a sua, mas semelhanças que surgem do interior dos nossos corações e não do exterior das nossas penas”.

 

    Von Lichberg elevou o tom de voz: - “Inacreditável ! E pensar que eu o tomava como um homem ainda portador de alguma dignidade !” Sua barba parecia eriçar-se com o ritmo de suas palavras: - “Como pode julgar-me tão idiota ? Não pensa o Senhor que a Lei dos Grandes Números foi flagrantemente violada com essa quantidade impossível de... de... “coincidências” ?”, emoldurando esta última palavra com aquele mesmo meio-sorriso, agora algo modificado por uma curva mais acentuada de seu lábio superior. – “O mesmo nome, o mesmo protagonista, as mesmas circunstâncias em que o homem maduro conhece a ninfeta, o mesmo desvario, a mesma paixão, a mesma obsessão?”, em um crescendo de volume e irritação. Tirou um lenço do bolso interno do paletó e limpou nervosamente o suor de sua testa: - “Não, Senhor Nabokov, sempre soube que os hunos eram capazes de QUASE tudo. Agora, sei que são capazes de TUDO”.

 

    Nabokov devolveu essa bofetada gentílica, cevada por séculos de guerras e sangue. Elevando também seu tom de voz, respondeu: - “Com que, a atávica arrogância dos teutos aflora quando menos se espera, Senhor ! Não bastasse o Reich dos mil anos, temos agora, também, o monopólio eterno dos sentimentos! Nossas Lolitas, nossas duas Lolitas”, enfatizando o numeral, acompanhado por sua representação digital do indicador e do médio da mão direita, “elas são, no fundo, a mesma pessoa, mas de pais diferentes”.

 

    O meio-sorriso voltou: - “Ah ! Apreciaria saber a origem deste paradoxo genético”.

 

    Nabokov fez que não percebeu a interrupção. – “Essas Lolitas são a borra das emoções masculinas, Senhor von Lichberg, perdão, Senhor von Eschwege. Elas são o fruto do casamento escuso dos mortais com seus demônios íntimos. Seres pavorosos, relegados à desdita eterna dos calabouços morais, confinadas sem clemência às catacumbas da dignidade humana”. As palavras saíam em torrente ininterrupta. – “Temos vergonha e medo desses nossos rebentos. Sabemos que são nossas, mas não as aceitamos. Tapamos nossos ouvidos para não escutarmos suas imprecações lamentosas, suas maldições acusatórias. Fechamos os nossos olhos para não enxergarmos suas essências disformes, o caldo pútrido que se desprende de seus andrajos. Mas, ainda assim, as escutamos, ainda assim as vemos. E elas nos atormentam para sempre, Senhor. Nós nos condenamos a percebê-las no momento mesmo em que a Moral dos homens e dos deuses as baniu do nosso convívio. Por isso as criamos. Ou melhor”, completou, “por isso sucumbimos a elas”.

 

    O russo parou de falar e o alemão, de ouvir no mesmo instante em que uma terceira presença fez-se anunciar por seus sextos sentidos e pela aceleração de seus batimentos. Ambos pressentiram igualmente. Ambos sabiam antes mesmo de adivinhar. Ambos reconheceram a mesma angústia, a mesma voragem, o mesmo negrume.

 

    Ao seu lado, surgia a mesma criança. Ela tinha os mesmos ombros frágeis cor de mel, as mesmas costas flexíveis, nuas e sedosas, os mesmos cabelos castanhos. Ela também tinha sombras sob seus olhos sulistas e cabelo de uma tonalidade incomum de ruivo dourado. Seu corpo era esbelto e flexível como o de um menino; sua voz, profunda e escura.

 

    E, uma vez mais, a maldição se cumpriu. Mas não pela última vez.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Este conto surpreendente desenvolve com grande habilidade a original idéia de pôr frente a frente os autores das duas Lolitas. O diálogo entre os supostos plagiador e plagiado é saborosíssimo. O desfecho é perfeito. Texto divertido e inteligente.

9,8

CRISTIANE BRUM

Bom texto, com uma escolha bem interessante das obras que foram comparadas. A última citação do Nabokov, contudo, me pareceu completamente deslocada e sentimentalista. Quase um pedido de desculpas pela audácia do texto – do autor, veja bem, não da personagem –com algum tom moralista. Ou seja, do modo como as intervenções dele são conduzidas no texto, não é verossímil esta última declaração, pois ele me parecia mais cínico que arrependido. Não entendi também o que são “olhos sulistas”.

8,5

LIANA FERREIRA

O Conto está muito bem estruturado e bem resolvido, dispensando, inclusive, as explicações complementares anexadas pelo autor. O texto prende a atenção do início ao fim.

10

LORENZA COSTA

Em matéria de inspiração para a criação de uma obra de arte (ou, neste caso, duas), este é provavelmente o conto mais corajoso de todos. A explosão de Nabokov no final é perfeita e estende as possibilidades do conto para além dos dois romances a que se refere – isto é, faz dele um conto relevante não apenas para quem se interesse por Nabokov ou Lichberg, mas para qualquer um que se interesse pela natureza humana.

10

MARCO ANTUNES

Sensacional a idéia do embate entre os dois pais de Lolita: o pioneiro, o do conto de 1916, e o suposto plagiador, o autor do romance de 1955, ambos com suas linguagens próprias, com seu ranço de época, tudo muito bem contado na forma de maior dramaticidade: o diálogo! O final é interessante e instigante.

9,6

TOTAL

47,9

 

 

 

 

 

 

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Conto 8

Autor:

Marcya Reis

Título

O jardim

 Pontinhas de galhos ressequidos denunciavam os bulbos que dormiam e, sem querer, saltavam da terra escura exposta ao chão cru. As forquilhas que desejaram ser brotos foram deixadas ao acaso do tempo, esquecidas nos canteiros desfeitos em abandono. Havia muitas outras coisas que se fazer ali, antes de se pensar em flores. O que um dia foi visto como jardim era agora um espelho perfeito para o recinto de tantos aflitos.

 

Casa de repouso era um epíteto ameno para o sanatório de paredes forjadas sobre pedras frias. Apesar de tudo, era um lugar limpo e arejado, como poucos naquele tempo. Lá se sofria e se orava. As freiras passavam de um lado para o outro em suas vestes monótonas, cumprimentavam-se, apressavam-se em cuidar de seus doentes. Chamavam os quartos de “celas”.

 

Era verão e eu gostava de caminhar quando havia luz e calor. Sonhava em sair daquele prédio insípido para ver de perto o verde dos ciprestes do outro lado dos muros, mas não me deixavam. Queria afastar-me dos tons de cinza que venciam o cubículo de ângulos tortos onde tentava dormir às noites. A minha vida inteira já havia sido assim. Triste, pálida, sem cor.

 

Tinha trinta e seis anos. Não conheci quem quisesse comigo compartilhar uma família. Perdi a chance de ser mãe. Os meus, todos se foram cedo e, sozinha, envelheci. Escaparam-me a razão e a vontade de ser. E minha existência incolor começou a pedir insistentemente o vermelho do sangue. Obedeci. Meus pulsos ainda ardiam quando acordei, muito longe de casa. Os vizinhos se apavoraram. Pensaram que eu estivesse louca.

 

Mas eu não temia os mortos – que me lembre, nunca temi. Ao contrário, identificava-me com eles, sentia um carinho cúmplice, quente e fraterno. Eu queria essa proximidade. Eram eles que me protegiam da escuridão noturna, quando os pesadelos visitavam os dementes. Eram os gritos que me aterrorizavam. Os loucos embarcavam em seus sonhos ruins com a intensidade da razão que nunca tiveram.

 

Um deles - acho que por esse motivo - não dormia. Varava a penumbra iluminado de velas equilibradas, que traçavam em seu rosto o aspecto da alma atormentada. Eu sempre o via sair. Sumia, arrastando suas correntes pelas trevas; só voltava quase ao amanhecer. E assim, amante dos fantasmas como eu, passei a amá-lo também.

 

Soube que tínhamos a mesma idade. A princípio, lembro-me bem, pareceu-me apenas mais um espectro, como todos os outros, vagando pelos corredores desbotados. Mas em pouco reparei melhor: o homem trazia no corpo a marca dos pigmentos criadores. Mãos, calças, casaco, chapéu. Às vezes até a barba exibia um respingo insólito. Ele era um pintor! Cerúleo, Cádmio, Cobalto, Ocre, Nápoles, Carmim. As tintas denunciavam o ofício e o faziam cheirar forte por isso; o fedor de Saturno a gotejar veneno em suas idéias.

 

Cheguei a ouvir cochichos de que era perigoso. Vez ou outra, jorravam de seu olhar ácido uns espasmos de violência incontida, explosões da galáxia distante que só ele conhecia. Eu sei. Os tentáculos de luz das estrelas queriam agarrá-lo e levá-lo para o outro mundo. Mas tinha medo de ir. Gritava e se contorcia em dores, no desespero da dúvida. Dentro de minhas próprias dúvidas, observava de longe o lamento das matizes vivas.

 

O que mais me intrigava, porém, é que o homem estranho se abandonava todos os dias diante de um ponto fixo do jardim morto e ficava lá, por incontáveis horas de sol e vento, sentado num banco duro de ferro, admirando o nada. Deleitava-se na expressão do solo nu, levantava as mãos e pintava uma tela invisível, como se estivesse enxergando contornos no vazio. E se mostrava assim, em êxtase, por tudo o que os outros não podiam ver. Ele, tão estranho quanto eu, pensei.

 

Até que, num dia de manhã luminosa, levantei-me mais cedo que todos. Foi o sol que me despertou e me tomou pela mão até o ar fresco lá fora. Respirei muito fundo e senti o prazer das batidas de meu coração, mostrando-me que estava viva. Foi quando, à distância, percebi algo diferente.

 

Em frente ao banco de ferro, as íris irrompiam cachos e botões. Não podia acreditar naquilo. Até ontem, o que existia era o terreno puro, sem cuidado, desfalecido. Agora, mil folhas polpudas espichavam seus bracinhos como que espreguiçando, acordadas para o dia e para a luz. Tons de violeta e azul, com miolos amarelos, flores cheias avançavam em pétalas para dentro de minhas pupilas incrédulas. Sentei-me e fiquei assim, levada pelo fascínio de um jardim recém-nascido, imaginando se, o tempo todo, ele não estivera ali, diante de mim.

 

- Você está vendo aquela flor branca?

 

Nunca tinha ouvido uma voz tão serena. Havia sim, uma única flor branca, solitária, entre todas aquelas cores. Senti-me feliz. A lembrança dos urros insensatos daquele homem dissiparam-se para sempre no entremeio das nuvens poucas do céu.

 

- Sim.

 

Uma revoada negra atravessou o pátio do hospício.

 

- Aquela flor branca sou eu.

 

Fiquei a admirar a solidão de um entre tantos iguais. Pela primeira vez, o artista colocou em mim aqueles olhos singularmente tristes:

 

- Você acha que o jardim de íris existe de verdade?

 

E eu respondi, com as íris brilhando:

 

- Não, Vincent. Acho que não.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Duas almas irmanadas na loucura e no desejo de morte vêem brotar, numa manhã de “nuvens poucas no céu”, um jardim onde uma única flor branca desponta em meio a tons de violeta e azul. A delicadeza e a poeticidade deste conto excepcional fazem justiça à grandeza do artista retratado.

9,8

CRISTIANE BRUM

O tom lírico e singelo é o ponto alto deste texto. A situação descrita foi bastante bem acabada, isto é, convence o leitor – do ponto de vista da coerência interna da obra. A sugestão final para as motivações do artista também pareceu adequada.

9,5

LIANA FERREIRA

Belíssimo conto. Emocionante e bem escrito. Melodioso e harmônico. Encontro de dois mundos solitários retratados com paixão e elegância.

10

LORENZA COSTA

Emocionante a transformação da aridez em jardim, pelas mãos do artista: um jardim cuja existência é precária, existe somente para os poucos que conseguem vê-lo e, afinal, nada pode contra a dor de quem o criou. Além de ter uma bela idéia, a autora soube mostrá-la com o ritmo e as palavras exatas. 

10

MARCO ANTUNES

Belo e delicado conto em que Irises, de 1889, um ano antes da morte de seu autor, Van Gogh,  encontra instigante explicação pelo próprio pintor. Senti falta, no entanto, de um trabalho mais aprimorado do estilo na linguagem, mas o conto me encantou como leitor.

9

TOTAL

48,3

 

 

 

 

 

 

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Conto 9

Autor:

Ray Cunha

Título

Esplanada

 O canto das cigarras lembrava uma grande orquestra de jazz, em longo solo de metal. A algazarra era tremenda sob o sol que crestava a relva do cerrado na imobilidade da tarde, que ia ao meio. Ouvia-se barulho de trator à distância. Estafados pelo calor, os dois homens arriaram os bornais com o lanche e sentaram-se sobre o tronco de uma árvore tombada, à sombra de outras árvores de maior porte. O guia, que se chamava Toninho das Veredas, abriu seu alforje e tirou dele uma lata com tutu, um lindo pedaço de queijo, doce de leite e uma garrafa d’água. Oscar Niemeyer, o arquiteto, tirou do bornal um sanduíche de salame e três laranjas já descascadas.

 

- É verdade que Brasília vai ter o formato de uma cruz, doutor? – o guia perguntou.

 

- É verdade – Oscar Niemeyer respondeu. “Crucifixo... está mais para curvas sinuosas como as mulheres” – imaginou como seria a cidade, simples apenas no cruzamento de duas avenidas, dois caminhos pontilhados de luzes cortando o breu noturno do cerrado. “O coração do Brasil pulsando no Planalto Central; uma cidade fraterna.” – Aqui, onde estamos, será construída uma esplanada – disse, e antes que o guia lhe perguntasse o que é uma esplanada, explicou: - Uma esplanada é um terreno plano, um enorme terreno plano, gramado, a perder-se de vista. – Fez uma pausa. – Tenho algumas idéias, já fiz alguns esboços, mas as coisas estão ainda se definindo.

 

- O senhor vai mandar tirar toda esta mata, doutor? – Toninho perguntou, entre uma e outra mastigada.

 

Oscar Niemeyer olhou para as árvores tortas que se enfileiravam na imensidão da savana.

 

- O presidente da república despachará de dentro de uma obra de arte, assim como os políticos e os ministros da corte suprema, e o povo morará em edifícios coletivos sobre pilotis – disse Niemayer, num tom quase brincalhão. – O que sei é que Brasília será mais do que uma cidade; será o símbolo da união – disse, sem responder à pergunta do guia.

 

Um tatu entrou no campo de visão dos dois homens, estacou e arrancou de novo. O guia levantou-se depressa, pegou a espingarda, mas o tatu entrara num buraco adiante.

 

– Sente-se, homem, deixe o tatu em paz no seu buraco. A propósito, meu trabalho será construído em três níveis – prosseguiu o arquiteto. – No horizonte, debaixo do solo e no ar. No horizonte, haverá gramados, concreto e asfalto; haverá uma cidade subterrânea; e, no ar, torres – disse o arquiteto, quase de si para si.

 

Os dois homens se encontravam onde hoje se ergue o Congresso Nacional, um labirinto sinistro, subterrâneo sob duas bacias - uma de boca para cima e outra emborcada – e as torres gêmeas.

 

- O senhor não quer um pedaço de “quejim”? – o guia perguntou.

 

Oscar Niemeyer fez que não. – Acho melhor a gente voltar – disse para o guia. – Há uma nuvem preta, ali.

 

- Não “preocupe” – disse o guia, no seu modo de falar sem usar pronome pessoal oblíquo - não vai chover, não, doutor! Comia, com gosto, queijo e doce de leite. Lambeu um dedo e perguntou: - Mas se o senhor vai colocar, aqui, concreto e asfalto, como é que os bichos vão viver, doutor?

 

- Bom, eles deverão ter o seu lugar, quem sabe um zoológico ou mesmo uma reserva só para eles – disse o arquiteto. - Todos terão o seu canto. Seremos um país realmente socialista – disse Oscar Niemeyer. – O presidente da república, por se tratar do presidente de uma democracia socialista, terá o palácio mais bonito - e pensou na Grécia Clássica. - Os congressistas, como são muitos, preciso projetar para eles um labirinto de gabinetes, auditórios, salas, salões, clínicas, restaurantes, corredores, passagens subterrâneas, para que eles possam se locomover à vontade no labirinto, se reunir, se sentir à vontade, como em casa, e permanecer no Congresso o maior tempo possível – disse.

 

- Mas esse negócio de subterrâneo é bom pra tatu e pra bandoleiro se esconder, doutor! - disse o guia.

 

O arquiteto riu. – Isso pode ser resolvido com muita vidraça. Os subterrâneos serão para as pessoas caminharem. Arquitetura não constitui uma simples questão de engenharia, mas uma manifestação do espírito, da imaginação e da poesia. O Palácio do Congresso, por exemplo, posso formular sua composição em função das conveniências da arquitetura e do urbanismo, dos volumes, dos espaços livres, da oportunidade visual e das perspectivas, e, especialmente, da intenção de lhe dar o caráter de monumentalidade, com a simplificação de seus elementos e a adoção de formas puras e geométricas. Estou pensando... as avenidas que o ladearão deverão formar uma monumental esplanada, sobre a qual poderei fixar as cúpulas que o caracterizarão. E também posso projetá-lo em profundidade. A forma arquitetônica, mesmo contrariando princípios estruturais, é funcional quando cria beleza e se faz diferente e inovadora. E na outra extremidade da esplanada poderemos construir uma pirâmide – disse o arquiteto, pensando em Keopes e como Picasso a desenharia.

 

- O senhor acha que vai dar certo gente de toda parte se mudar pra cá? Vai caber todo mundo? – disse o guia.

 

- Sim. Aqui, todos serão iguais – o arquiteto respondeu. – Todos serão tratados com igualdade – disse ainda, como a confirmar seu próprio pensamento.

 

O sol já ia bem avançado no seu caminho, despejando labaredas na mancha imóvel do cerrado. Os dois homens caminhavam devagar entre as árvores, até o jipe, que ficara parado no fim da picada.

 

- Você me deu umas boas idéias – disse para Toninho das Veredas. O guia sonhava com a caçada que faria, à noite; sonhava abater uma capivara no rio Paranoá. Oscar Niemeyer sentou-se, apanhou uma prancha e pôs-se a fazer esboços.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

O texto traz imagens fortes e evocativas do cenário físico e humano de Brasília. Outras ficam soltas, sem aproveitamento. É instigante a exposição do contraste entre os sonhos do arquiteto e a realidade em que se transformou sua obra. O título poderia ser mais chamativo. A frase final não conclui nem contribui.

 

8

CRISTIANE BRUM

A idéia foi bastante original e a conversa do artista com o homem simples é um recurso interessante. Entretanto, durante a conversa dos dois não parece que as idéias que o arquiteto tem foram sugeridas pelo homem simples. Ao contrário, o texto apresenta um quase monólogo, em que só o artista fala de suas motivações, que parecem todas anteriores ao encontro. Não convence, portanto, como situação que teria motivado a produção da obra.

6,5

LIANA FERREIRA

Interessante abordagem sobre a construção de Brasília e a criação da Esplanada dos Ministérios. Acho, apenas, que o autor não se decidiu entre dar ou não uma fala caipira ao Toninho das Veredas. Há uns  adjetivos sobrando.

8

LORENZA COSTA

A arte da descrição é tão difícil que merece aplauso a ambientação: desde a primeira linha, estamos numa área isolada do cerrado, à tarde, na estação seca; a seguir, quando descobrimos que aquele é o cerrado antes da construção de Brasília, todas as informações se encaixam e fazem muito sentido. Prejudica o conto, entretanto, a literalidade com que o pensamento de Niemeyer foi extraído de outro contexto e introduzido no diálogo, como se exatamente aquelas palavras – e não aquelas idéias, como seria verossímil - pudessem ter brotado  do diálogo com Toninho das Veredas.

7,5

MARCO ANTUNES

Embora um pouco confusa a exata inspiração que Niemeyer conseguiu de Toninho das Veredas (cuja linguagem, aliás, oscila entre dois estratos) o conto tem atrativos e é capaz de manter o interesse do leitor até o fim.

7,2

TOTAL

37,2

 

 

 

 

 

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Conto 10

Autor:

Roberto Klotz

Título

Invadiram o quarto de Van Gogh

 – Felipe, meu amigo, de acordo com o fuso horário, neste momento, você deve estar no bem-bom do sono. Hesitei e levantei o fone do gancho por três vezes. E por três vezes desliguei. Porém minha ansiedade está muito grande, preciso te contar a última bomba.

– Então conte tudo, Arthur. Estou com insônia. Será ótimo, ouvi-lo. Quem foi que se separou?

– Não, é nada disso. Você se lembra daquela história sobre uma carta falando sobre o quadro do quarto do van Gogh?

– Lógico, impossível esquecer. Parece que ainda escuto as palavras do investigador. Você tem novidades?

– Tenho sim. Agora já tenho a história toda. Vou começar pelo conteúdo da carta recebida pela Sotheby’s.

– Opa! Então é verdade? Deixe-me fechar a porta do escritório para não acordar a Betty...

Depois de alguns segundos.

– Então é verdade, Pietro?

– É. Um sujeito de nome Pablo Salinas y Vasquez enviou um ofício para a Sotheby’s onde solicitava avaliação de uma carta com história sobre o bendito quadro.

– É mesmo? Estou acordadíssimo...

– Junto da cópia da carta, o tal Salinas, ainda anexou uma tradução oficial e um laudo pericial assinado por dois suíços do Instituo Criminal de Bruxelas. Coisa quente!

– Caramba, vou adorar possuir mais uma carta do van Gogh.

– Não, não é do van Gogh, é do professor dele. O professor escreveu a carta depois de visitá-lo no hospital após os curativos na orelha. Disse que escreveu e que depois se arrependeu e não postou. Parece que o professor não valia o ar que respirava.

– Será possível?

– Bom, a carta é de dezembro de 1888, lá pelos dias em que o pintor permaneceu hospitalizado. Papel amarelado, letra miudinha, cheiro de baú...

– Não fique enrolando, já estou curioso...

– Yes, my dear. O professor começa num clima de arrependimento, de mil perdões e que jamais poderia imaginar ser causador de tamanha desgraça. Depois começou a se explicar tentando justificar porque pintou o quadro do quarto do van Gogh.

– Tá brincando? O cara assumiu a falsificação?

– Sim e não. Ele alega que tentou comprar o quadro e que van Gogh achava que não estava bom e que faria outro melhor. E fez.

– Tô sabendo, há três quadros muito parecidos entre si.

– Na hora em que o professor foi buscar o segundo quadro, van Gogh teria dito que ainda não estava bom e que faria outro ainda melhor. Só que nessa história já passou muito tempo e o professor, que na verdade estava intermediando uma compra, já estava com a grana no bolso e devia estar sendo pressionado.

– Que coisa, devia ser uma grana preta...

– Mil e duzentos francos. O triplo do valor que Gauguin recebia por tela.

– Mas, van Gogh jamais vendeu um quadro em vida...

– É, o professor teria mostrado a dinheirama toda e van Gogh fincou pé e insistiu em fazer outro quadro e despachou o professor.

– Não acredito... o cara não tinha dinheiro para comer e ficou rejeitando... só maluco!

– Aí, o van Gogh contou pro Gauguin, ou pediu opinião ou qualquer coisa assim e Gauguin, gozador que era, deve ter tripudiado com a cara dele.

– Ha, até eu, que sou mais bobo, teria pego o ouro...

– Aí, vem aquela história doida em que os dois brigaram e que o van Gogh detona com a própria orelha para incriminar o Gauguin.

– Loucura, hem? Essa carta certamente vai ser bem disputada. Muito dinheiro vai rolar.

– Agora é que vem o melhor, Felipe.

– E tem mais?

– O professor sem o quadro, com o pintor hospitalizado, com o dinheiro na mão e com a pressão resolve furtar o quadro. Aí, muda de idéia e pega uma tela e tintas do holandês e dentro do próprio quarto com o modelo à vista, e assume, pinta o terceiro quadro.

– Bomba, bomba, bomba...my lord.

– Aí, na carta, ele pede perdão mais uma vez, diz que não assinou o quadro e que apenas entregou sem dizer a autoria. Por fim, paga a conta do hospital numa mistura de penitência e pagamento e se manda para Haia, de onde nunca deveria ter saído.

– Primeiro, ele é o traidor Judas Escariotes e depois lava as mãos como Pôncio Pilatos. Um grande filho da mãe...

– Eu também não enviaria a carta... Que lance! Que lance de sorte achar uma carta dessas depois de tanto tempo...

– É meu prezado Felipe, muitos euros, muitos euros em jogo.

– Quanto será que vai alcançar essa carta no leilão?

Pietro acende um cigarro. Dá um trago profundo e após soltar a fumaça pelas narinas, continua:

– Um tremendo golpe!  Muito bem articulado. Safadeza das grandes!

– Pare com o suspense, Pietro. Conte logo!

– O Financial Times, daqui de Londres, vai publicar amanhã que a Scotland Yard desbaratou uma quadrilha internacional de especuladores de obras de arte. Eles tinham como alvo a aquisição da tela, avaliada em cento e vinte milhões de dólares, e que através de um laranja, ofertaram à maior casa de leilões do planeta a tal da carta onde o cara assume a autoria do quadro. A carta é falsa. Com ela pretendiam arrematar a obra então desvalorizada pelo documento.

            – E eu aqui, bobão, pensando em comprar a carta...

            – É Filipão, agora você já pode voltar a dormir tranqüilo. Dê um beijo na Betty...tô saudades de vocês e do Brasil.

            – Obrigado pela informação, grande Pietro, não sei o que faria sem você. Qualquer hora dessas, eu apareço por aí para um scotch.  Adeus, Pietro.

– Adeus, Doutor Felipe, eu mando cópia de tudo. Abraços.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

O autor tem muita imaginação. O enredo daria um bom filme policial, mas o texto não apresenta a característica fundamental de literariedade.

7

CRISTIANE BRUM

Apesar de o conto ser bastante interessante, com uma linguagem coloquial e um tom de mistério que me agradaram, a resolução do conflito é bem fraca. As últimas frases do diálogo também parecem deslocadas no texto, como se fossem proferidas por personagens diferentes daquelas apresentadas no restante do conto.

7,5

LIANA FERREIRA

O conto está bem estruturado, tem engenhosidade, mas não causa  impacto. Tenho dúvidas se está de acordo com o desafio proposto.

8

LORENZA COSTA

A brincadeira sobre a suposta origem do quadro funciona como veículo para o estilo leve e fluente do autor. O professor de Van Gogh poderia ser um pouco mais trabalhado e se transformar num personagem interessante, mas a opção pelo desmascaramento da farsa reduz o conto a uma história policial um pouco apressada (ou comprimida, dadas as limitações de espaço impostas pelo concurso).

7,5

MARCO ANTUNES

O diálogo é estimulante, mas a inspiração solicitada pelo desafio, se bem percebi, não se mostrou clara ou ficou bem acanhada diante da primazia da história da carta. Assim, lamentando essa aparente fuga da proposta, penso que o bom diálogo representa o melhor do conto.

7

TOTAL

37

 

 

 

 

 

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Conto 11

Autor:

Márcio Arnaldo Borges

Título

A Iniciação de Carlito

A Iniciação de Carlito

 

O ano era 1922. A cabeça de Carlito doía, pulsante, denunciando a rapidez descompassada dos batimentos cardíacos. Arfava muito, mas bem menos por causa da lesão, uma protuberância imensa que herdou de uma queda ainda mal compreendida. O sofrimento era de natureza íntima e começou antes mesmo de ser internado, inconsciente, com os cabelos empapados em sangue e terra.

Dona Zefinha, que o assistia no hospital, percebia tudo: os ais do corpo e os da alma, ainda que os pacientes nada falassem. Vestida num uniforme branco salpicado por tons multicores, provavelmente respingados das seringas, com seus conteúdos doloridos, a enfermeira aparentava um ar de alegria permanente. No apartamento 5 da Santa Casa, preparava com zelo os curativos e os medicamentos prescritos pelo doutor Severino. Nas trocas dos saquinhos de soro, que para Carlito poderiam ser menos freqüentes, disparava a tagarelar.

– Vê as flores na cabeceira, querido? O dorminhoco não percebeu as visitas, não é? Pois estiveram aqui umas pessoas. O seu Raimundo e a dona Maria, sabe?  Trouxeram boas novas! Um tal de doutor Antônio está a vir para cá. Chegará à noite, não sei... Não faz mal! O importante é que você vai ser entrevistado hoje mesmo! É sobre uma promoção, não é meu bem? Pronto, está bom! Anime-se! Eu volto!

Como fizera o dia inteiro e desde que Carlito evoluíra do coma, Zefinha não esperou respostas. Cruzou cantarolante o recinto e o fechou batendo a porta atrás de si.

A indiscrição da matrona sorridente provocou-lhe uma fisgada nervosa que percorreu a espinha, desde embaixo, até findar com espasmos no pescoço, agora bem retesado por causa da notícia. Ondas de choque agitaram seus pensamentos, ainda pouco restabelecidos depois da surpresa de acordar sobre a maca, desajeitadamente inclinada –  para “facilitar a circulação”, repetia a Zefinha.

Um mês atrás, havia sido procurado pelo Antônio Maria Bueno,  em resposta à carta que lhe enviou, solicitando a avaliação do seu trabalho. Não se tratava de uma promoção, como intuiu a enfermeira, mas o encontro poderia acelerar os projetos do rapaz. Aos vinte anos, Carlito produzia escritos de estilo que despontava naqueles tempos e de que se tornou defensor. Ele mesmo admitia,  porém, a audácia do seu conteúdo.

Antônio Bueno, diretor-editor da “Globo e Letras”, era representante dos maiores  literatos brasileiros e abrigava, sob a sua “Casa de Papéis”, as mais importantes obras de escritores contemporâneos, além de deter os direitos de publicação dos escritos de Fernando Pessoa, António Alves Martins e muitos outros.

A resposta que enviou a Carlito chegou-lhe em papel lacrado com cera, em envelope de alta gramatura. Muito caro, decerto. As mãos trêmulas do jovem mal deram conta de abri-lo sem rasgar a própria carta:

“Meu senhor, escrevo-te pela intercessão do genial Manuel Bandeira, que teve a oportunidade de passar os olhos em folhetins com escritos teus. Confesso-te a surpresa do pedido, mais por causa de quem o formulou do que o que pude extrair da tua pena. Se conheces, como suponho, o nosso trabalho, entenderás como nos sentimos honrados pela preferência de autores com a envergadura do teu amigo, em cuja verve prezam o uso clássico do discurso, do vernáculo e da construção frasal.

Não terei, contudo, a ousadia de negar-te o pleito, porque não me apetece desagradar o ilustre cliente que está a recomendar-te. Rogo que aceites o convite para estares comigo no “Café Parnasiano”, às dezessete horas do dia quinze próximo, quando poderemos divagar sobre as tuas intenções para conosco. Sinceramente, Antônio Maria Bueno, ao teu dispor”.

À lembrança sucederam os arrepios. Como, então, que Manuel Bandeira houvera dele conhecimento e, não fosse o bastante, tivera dado a si o desconforto de suplicar em favor de tão modesta causa? Não fora a sua própria pena que redigira a carta e sua determinação que a fizera chegar ao pedante e influente editor?

Uma ponta de dor o fez levar a mão à cabeça coberta por faixas. Deu-se conta de que não havia repassado, ainda, os momentos que antecederam o estranho acidente.

O sol andava no rumo de deitar-se no dia 15 de agosto de 1922 e o relógio, sacado da algibeira, sentenciou um atraso embaraçoso. Estava a quinze minutos de apresentar-se no “Parnasiano”, distante cinco quarteirões dali, e mal se recompusera, física e mentalmente, de uma tarde estafante.

Meteu os papéis na pasta de couro com a sensação desconfortável de tê-los bagunçado. Para recuperar-se do apavoramento, obrigou-se a sentar por um minuto e refez, de maneira adequada, os preparativos para a reunião. Repetiu mentalmente a ordem de que não haveria de parecer tímido – por improvável quanto isso fosse – na presença do representante da Globo e Letras. Não permitiria, especialmente, ser alcançado por argumentos desabonadores à sua capacidade de dar vazão à escrita, oriundas dos turbilhões de sentimentos que invariavelmente o acudiam.

Fechou os olhos por um segundo e deixou que as imagens saltassem da memória: a infância na roça; o auto-exílio da companhia humana; o respeito pela natureza; o gosto pelos livros; a doença que o abateu na adolescência. E o prazer do sofrimento. O divertido e producente hábito de sofrer, que ainda cultiva; força que dá vida à mão que segura a pena e que o impede, por paradoxo, de querer deixar de sofrer!

De súbito levantou-se e, correndo, atravessou os cômodos que o separavam da rua. Percorreu duas avenidas quase que sem perceber a rotina do mundo à volta. Na rua seguinte, vislumbrou o coche em aproximação. A contragosto, freiou o corpo para dar-lhe passagem, mas descobriu-se a lançar um vôo inesperado na direção da carruagem.

Acordou na Santa Casa há dois dias com dores múltiplas, mas nenhuma tão acintosa quanto a que morava em sua cabeça, agora.

Se tivesse mais confiança em Deus – e no passado Deus soube quanto houvera n’Ele confiado –, seria capaz de atribuir o incidente à Providência divina, pronta para livrá-lo de caminhos ruins. Então, seria, mais uma vez, o momento da Sua intervenção, já que o demônio o espreitava de novo, na máscara do vaidoso e limitado crítico da sua arte.

A porta abriu ruidosa, nem tanto por causa dela mesma. Era Zefinha.

– Trago-lhe uma surpresa, Carlito!

Viu primeiro os sapatos brilhantes adentrando sem cerimônia. O paletó cortado sob medida teria custado mais que um ano inteiro da arrecadação de Carlito. O chapéu, fino e distinto, só vira iguais, até então, em películas importadas da Europa e que assistira uma ou duas vezes pela curiosidade que logo se fartou.

O homenzinho de bigode bem tratado foi cordial.

– Pregou-nos uma peça e tanto, senhor Drummond! Estava a imaginar o que diria ao Bandeira se não te visse de olhos abertos!

– Peço-lhe que desculpe o meu infortúnio, por favor. Suplico-lhe, também, que não considere mais as minhas intenções. Sou-lhe grato pela distinção, mas provarei os meus próprios caminhos.

A incredulidade estampada na face do Antônio por um segundo foi substituída imediatamente por um largo sorriso – traduzido por Carlos como um sinal de alívio. A partir desse momento, já não ouvia conscientemente as vozes da sala, porque o delírio produzido pelo remédio de Zefinha começara a fazer efeito. Recordara depois, vagamente, da pergunta do homem: “que mal houvera caído sobre ti, afinal?”, ao que Zefinha, percebendo o transe que abateu Carlito, respondeu com palavras que representavam a literalidade dos fatos mas que, para ele mesmo, significaram, profundamente, o que vivera naqueles últimos dias:

– O doutor não soube? Foi tombo! No meio do caminho tinha uma pedra!

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

O primeiro parágrafo anuncia o último, num texto delicioso, marcado pela irreverência e fino humor. O conto tem ritmo impecável. A personagem Zefinha é uma divertidíssima coadjuvante do drama de “Carlito”.

 

9,8

CRISTIANE BRUM

A situação criada no conto é bastante interessante, mas a explicação para a criação da obra pareceu um pouco fraca. Se o poeta nem teve conhecimento da pedra que o derrubou, uma declaração da enfermeira seria suficiente para a criação do poema? Creio que o motivo poderia ter sido melhor desenvolvido.

7

LIANA FERREIRA

Leitura agradável e de fácil entendimento. A linguagem é clara, enxuta, e a história está bem contada, de acordo com a proposta do desafio,  mas não empolga.

8,5

LORENZA COSTA

Uma boa hipótese, com algumas falhas de execução que tornam o conto menos eufônico do que poderia ser – especialmente na carta do editor ao poeta e no uso do mais-que-perfeito. A frase “Deu-se conta de que não havia repassado, ainda, os momentos que antecederam o estranho acidente” fica pendurada no ar, sem sentido (e por que ele haveria de repassar o que quer que fosse, por que não pensar noutra coisa?): falta uma solução melhor para introduzir a digressão que vem a seguir. No final, é desnecessário afirmar que as palavras da enfermeira “significaram, profundamente, o que vivera naqueles últimos dias” - é redundante e pressupõe um leitor incapaz de entender o que leu até ali.

8,5

MARCO ANTUNES

Embora tenha estranhado o “coche” no ano de 1922, achei interessante o inusitado “acontecimento” da pedra que o famoso poema tornaria metafísica e fortemente simbólica.

7,5

TOTAL

41,3

 

 

 

 

 

 

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Conto 12

Autor:

Artur Adolfo Cotias E Silva

Título

O Carteiro e o Pintor

 Para Vincent e Theo

 

Começo de tarde em Arles. A Casa Amarela está vazia. Vincent não está. Foi ao encontro de Joseph. É verão de 1888 e os campos, antes recobertos de branco pela neve, como se fossem grandes telas à espera do pintor, agora são quadros multicoloridos, em tons mesclados de amarelos, vermelhos, azuis, verdes, de todos os matizes. Ao Norte, a agitação de Montmartre parece agora infinitamente distante, muito mais do que indica a pobreza de qualquer sistema métrico. Lá, vicejam Rodin, Maupassant, Proudhon, Zola, Gauguin. Aqui, a rotina mansa que roçaga entre campos de trigo dourado e o céu intensamente azul. Por uma estradinha florida, Vincent caminha lado a lado com Joseph.

¾ Você devia aproveitar a cor, Vincent, pois a cor é bela, e o belo é verdadeiro. Se usasse mais a cor, sua pintura alcançaria algo jamais visto.

Vincent sabe que o amigo tem razão. Deseja ardentemente ouvir seus conselhos, mas a herança cinzenta que carrega consigo parece endurecer-lhe as tintas. Sua terra natal era cinza. Os lugares por onde andou lhe pareceram todos sombrios: Haia, Bruxelas, Londres, todos, a seu ver, cinzentos. Sua vida é cinza. “Preciso de sol, Joseph”.

Joseph Roulin o recebera na pequena Arles, sul da França, e logo se estabeleceria grande afinidade entre ambos. Homem simples, simpático, Joseph é o carteiro da cidade e em razão do ofício vai estreitando o contato com Vincent, que se corresponde com freqüência com o irmão Theo. Aos poucos, carteiro e pintor vão se tornando os melhores amigos um do outro.

¾ Não veja tudo tão cinza, Vincent. Você é muito realista, ou pessimista (o que, pensando aqui com as minhas correspondências, talvez dê na mesma, como dizia meu pai). Deixe-se impressionar pela cor da vida!! 

¾ Joseph, mon ami, muito em breve ainda vou pintar um retrato seu, e não será cinza, pode ter certeza.

¾ Oui, oui, escutem aí vocês, que vou cobrar a promessa ¾ Disse o carteiro quase em testamento aos dois filhos que os acompanhavam, alguns passos atrás, em silêncio: Armand e Camille.

Joseph aproveita o passeio para entregar correspondências, e leva os filhos consigo. Camille vai à escola. Uniforme de escolar azul claro, com mangas compridas, apesar de já haver terminado o inverno (a pobreza não é boa modista), fechado no pescoço com um único botão e ornado com uma fileira de franjas horizontais na altura do peito. Na cabeça, um boné escuro tipo quepe militar. Armand é mais velho, usa bigodes finos e com cuidado filial auxilia o velho père Roulin.

Chegando a uma planície, o grupo interrompe a caminhada. Joseph apóia sobre uma pedra a bolsa que trazia pendurada ao ombro. Retira dela uma jarra de cerâmica. Colhe uma dúzia de girassóis e os ajeita na jarra. Era uma cerâmica barata, abaulada, de duas cores. A parte inferior era de cor creme; a superior, amarela, como os girassóis.

O calor do verão da Provença e a falta de jeito do corpulento carteiro não permitiram muita exuberância às flores. Algumas estavam um tanto desalinhadas, meio murchas, algumas fechadas em botão. “Não importa. Importam as cores, Vincent. Olhe as cores”.

Armou o vaso sobre um tampo de madeira e encostou tudo a uma parede clara de um estábulo, de modo que a luz do sol da tarde de Arles banhasse completamente os girassóis.

¾ Pinte, Vincent. Pinte a cor.

¾ Eu não quero pintar quadros, Roulin. Eu quero pintar a vida.

¾ Mas o que é a vida, então? São essas figuras sombrias que tens em seu quarto? Aqueles comedores de batatas? Não, Vincent, vida é algo que não se vê nesses seus quadros. Eles são pesados, escuros. Isso é a vida, diz, elevando as mãos ao ar, em um movimento que parece querer abarcar toda a ensolarada Provença.

Vincent ainda ensaia contestar, mas o carteiro emenda:

― Eu não sei de quase nada, caro amigo. Eu só sei o que eu sei. Só o que eu vejo. E o que eu vejo é este sol, estas cores, esta vida. Isso é a vida. Você não deve mais olhar as coisas com os olhos que trouxe de Paris ou da sua Holanda, mas sim com os seus novos olhos de Arles.

Apesar da desilusão que toma conta de sua alma, Vincent sorri da comparação. Roulin continua:

― Ainda outro dia escrevia a um amigo meu em Portugal e dizia-lhe exatamente o que estou lhe dizendo hoje. Ele até fez troça comigo, dizendo que eu estava a filosofar, que aquelas minhas idéias ainda iam acabar aparecendo em versos de poetas. Filosofar, qual nada. Eu, meu caro Vincent, disse a ele na carta, e digo agora a você: eu não tenho filosofia, tenho sentidos. Eu não quero pensar no que vejo. Quero ver, apenas. Como este girassol, por exemplo. O meu olhar não vê outra coisa quando olho para ele. O meu olhar é nítido como um girassol. Como este girassol. Mas o seu olhar é diferente, meu caro Vincent. Você enxerga o que está além do girassol. Só você será capaz de dizer a gente como eu o que está dentro desses girassóis. É o que te peço que faça. Que pinte estes girassóis. Que nos revele a vida e a beleza que se esconde dentro dessas pétalas amarelas. 

Vincent compreendeu as razões de Roulin. Mas ainda faltava algo que o convencesse definitivamente. Ainda não o agrada completamente o que seus olhos vêem. Não há harmonia na composição. Não há equilíbrio. Falta, ou sobra, alguma coisa.

¾ Eu quero apenas uma cor, Joseph. Uma única cor para demonstrar o sentimento unívoco que me perturba a alma neste instante.

O filho mais velho do carteiro, Armand Roulin, retira, então, o paletó amarelo que vestia e forra a tábua antes bruta. Tira o chapéu preto de sobre a cabeça, dá dois passos para trás e enxuga o suor da testa. Não diz uma palavra, mas os olhos castanhos parecem ansiar por aprovação.

Vincent entusiasma-se com o conjunto amarelo. “Eu quero, Roulin, eu quero a luz que vem de dentro. Quero que as cores representem emoções”. E se lança à pintura quase com fúria, buscando a luz que vem de dentro dos girassóis.

Ao fim do dia o quadro está concluído. Os dois amigos o contemplam com certa displicência, até. Armand e Camille se foram. A planície está em silêncio reverencioso. Joseph não ousa perguntar a Vincent se conseguira a tão desejada luz interior. Sente no ar a perturbação no amigo. Sente que libertara as cores. Alcançara com sua pintura um patamar nunca antes atingido. Transformara-se. Não fora este o primeiro dos estudos sobre girassóis, nem seria o último. Mas fora o definitivo. Com toda a certeza. Era um momento ímpar: Doze girassóis numa jarra.

Depois daquele verão, no inverno seguinte Vincent partiria. O quadro, a princípio ficara na casa amarela de Arles. Depois, o carteiro Joseph o despacharia a Paris, para ser entregue ao irmão de Vincent, Theo Van Gogh, para se juntar aos outros, amontoados em uma galeria, à espera de compradores loucos para pinturas insanas.

Aqueles girassóis iriam murchar. O vaso se partiria, dois anos depois, atirado a um campo de trigo. As cores, no entanto, nunca mais seriam as mesmas depois daquele verão de 1888. A amizade entre o carteiro e o pintor havia mudado para sempre a história da pintura. Joseph Roulin sequer suspeitara haver participado de tão grandiosa revolução. Era um homem do interior. A pequena Arles era seu mundo. Entregar cartas era seu ofício.             

  

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

As palavras ditas pelo carteiro Roulin soam inverossímeis na boca de um homem simples, com certeza, sábio (de que outra forma teria merecido a confiança de Van Gogh?), mas que jamais se expressaria da maneira retratada. Isto dá um tom artificial ao texto e desvia a atenção da bela — e verossímil — amizade entre o carteiro e o pintor.

7,8

CRISTIANE BRUM

A singeleza do contato entre o artista e o homem do povo foi bastante bem representada no conto. A situação é factível, e as emoções do artista são descritas de modo bastante adequado ao tom melancólico que o texto pretende passar.

10

LIANA FERREIRA

Este conto está bem estruturado e bem escrito.  Apesar de ser muito explicativo em algumas passagens, em outras, emociona o leitor.

9,5

LORENZA COSTA

A idéia da influência de um homem simples sobre Van Gogh é interessante, mas ao longo do conto esse homem – o carteiro – se mostra excessivamente consciente de sua ignorância e simplicidade para que seja de fato ignorante ou simples. Por isso, as quatro frases finais, apesar de encerrarem o conto com um belo conjunto, estão em desacordo com o personagem construído até ali. É preciso também alguma atenção para a desnecessária alternância passado/presente.

8

MARCO ANTUNES

O uso do carteiro como personagem lembra demais o filme “O Carteiro e o Poeta”, de certa forma roubando um pouco da originalidade deste excelente conto, que ainda brinca com a hipótese das idéias desse insólito carteiro terem ido parar nas páginas de Caeiro. Prefiro entender, aliás, o carteiro como um exilado urbano aos moldes do heterônimo para justificar-lhe as falas tão sábias e estranhas a alguém que  “Era um homem do interior. A pequena Arles era seu mundo. Entregar cartas era seu ofício.”, interessantíssimo e poético, esse conto está bem próximo do ideal do gênero.

8,9

TOTAL

44,2

 

 

 

 

 

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Conto 13

Autor:

Cinthia Kriemler

Título

Oclusal

 Impressiona-me sentar, num fim de tarde, em um canto qualquer, apenas para olhar as pessoas que passam, as pessoas que param. Sento-me em praças, cafés, livrarias e, ultimamente, em bondes. Melhor à tarde. A noite ofusca ou embriaga um pouco o brilho das feições, os esgares, os traços delicados. Percebo as pessoas à luz da tarde.  Nem muito cedo, para que não estejam protegidas pelo descanso da noite, nem atormentadas pela insônia despudorada.  A tarde é perfeita.

 

Sou desses viajantes de bonde deslumbrados. Vindo até Santos em curtas férias daquele meu Rio de Janeiro, me delicia perceber a junção das mulas e do carro lustroso onde nos sentamos todos, desconhecidos da hora.  Quem são eles? O que murmuram para não serem abertamente ouvidos?  Beleza e feiúra, sorrisos e melancolia.  Histórias pulsantes.

E me pergunto se a disparidade dos extremos não oculta apenas uma única verdade, e muitas percepções.

 

Atrás de mim...atrás de mim as vozes são um pouco mais vívidas.  Eles falam mais alto, ou talvez seja eu que tenha sido atraído por alguma coisa nessas vozes imperiosas.

 

Viro-me brevemente...bem, nem tanto. Tenho por hábito acreditar que sou discreto e que, por isso mesmo, estou apto ao disfarce. Um pigarro providencial, uma nova olhada de soslaio e um encontro descuidado com dois olhares magníficos! Um, repleto de sorriso.  Outro, em chamas.

 

Existe em mim uma tendência natural, milenarmente herdada, em crer que esses dois olhares se auto-alimentam da força das suas próprias emoções.  E eu acredito, preciso acreditar que só a paixão, quiçá o amor profundo, pode provocar esse tempero de tons que vislumbrei naqueles olhos. A amizade seria ainda uma opção, embora última, que me faria entender tanto vigor.

 

Mas então o que é isso que escuto agora proferirem essas duas bocas?!? Não, melhor aprumar mais o ouvido, nortear-me pela direção onde estão aqueles olhares, o sorridente e o em chamas.  Por certo, enganei-me!  Novamente faço esforço em compreender as palavras e, num derradeiro intento, volto-me mais uma vez em direção aos dois.  São eles, sim, que falam!

 

Percebo então, e só então, que se trata de um homem e de uma mulher.  Ele, uns 38, sequer 40, garboso, elegante, cuidado, confiável.  Ela, frágil e pálida, mignon mesmo. Bonita seria dizer demais, mas graciosa.  Mas nada disso importa.  Só aqueles olhares fortes, completos, límpidos em suas intenções. E, rendido ao inevitável susto do que escuto, ponho-me a escutar ainda mais.


 

Conversam os dois sobre como se conheceram, como se atraíram, como se casaram.  E não escuto falar de amor, nem de paixão, nem mesmo de amizade. Bêbedo de estranheza e corrompido pela curiosidade, escuto, ouço, arrebato-lhes as palavras.

 

- Por que me escolheste entre tantos que te cortejaram?

- Não te escolhi, apenas excluí os demais! Te senti, te analisei, te avaliei...como aos outros dois.

- Por certo és cínica o suficiente para me dizer tamanha ofensa!

- Por certo não te vais fingir agora de ofendido, se foi essa minha franqueza que te conquistou a razão.

- Mas por que eu?  Vai, diz, eu quero ouvir tuas razões!

- Que pensas tu que me deixaria em brasas, Senhor Luís Alves, meu marido? O plácido e devotado amor que me assediava noite e dia nos olhos de Estevão? Era como se precisasse de mim sem trégua para prosseguir vivendo, fraco, alimentado apenas por sentimentos, mas não por idéias! Ou pensaste que Jorge seria a minha escolha, tão desprovido de vontades, tão sem olhos para qualquer futuro, tão preocupado apenas em dar-se prazer e em satisfazer, por meu intermédio, sua rasa superfície! Tu me conheces mais que isso!

- Sim, sei da tua ambição, da tua persistência, do teu jeito de negociar até com a vida.  Sei onde queres estar em nossa sociedade e sei, principalmente, que queres caminhar comigo nisso tudo, minha querida!

- É por isso que tanto te admiro, senhor meu marido!

 

Falam de união, de razão, de planos sociais, mas não falam de amor! Mas aqueles olhos, então, por que brilham?  Desespera-me um tanto não compreender inteiramente onde está o segredo. Logo eu que me orgulho sobremaneira em ser também um cínico!  Como podem palpitar assim olhares sem desejo, sem a comichão da carne?  O que os excita é o negócio, o jogo do poder, a ambição! Não os culparia por isso, porque eu mesmo recrimino o desvario dos choros femininos e a entrega masculina desregrada ao sentimento do amor.  Mas não sentir nada, não correr sequer em paralelo com a paixão, não provar do amor como um petisco ocasional...isso é demais!

 

O que percebo, o que confirmo não me assusta, mas me compromete com uma nova verdade, que não a verdade dos amantes. É o interesse mutuamente consentido, revelado e previamente aceito que motiva aqueles dois olhares, um em sorrisos, o outro em chamas. São cúmplices, audaciosos, completam-se, e sentem-se felizes. Querem tudo, e não permitirão ao mundo ficar sequer com as migalhas. São parceiros, invasores.  Encaixam-se como engrenagens perfeitas e azeitadas

 


Sou ali apenas um apêndice, um pé de vento. E penso, subitamente, excitadamente, na fechadura que espreita a chave certa para abrir ou trancar seus mistérios. Penso nas engrenagens dentadas que movem os engenhos. Penso na oclusal perfeita: duas superfícies que se tocam e se fecham sem permitir atritos ou vácuos.  E descubro que são os mecanismos que movem o mundo, não as emoções.

 

Minha estação chegou, preciso abandoná-los ao destino que escolheram trilhar jubilantes.  E como ainda não quero dar-lhes rótulos, gravo em mim apenas seus olhares, fortemente. E parto.

 

É noite agora. E na penumbra aconchegante do meu quarto de pensão, que tem janela para o mar, agarro com sofreguidão a folha branca e ainda isenta de escrita.  Preciso maculá-la, conspurcá-la! Preciso dividir com alguma coisa a sensação que me atormenta há horas.  E para isso, melhor à noite. A noite que ofusca ou embriaga a sensatez.

 

E desprezando outras comparações que antes me vieram à cabeça, expulso a indecisão dos dedos e gravo no papel o nome que finalmente quero dar à história daqueles dois olhares, o sorridente e o em chamas: A Mão e a Luva.

 

 

O romance A Mão e a Luva, de Machado de Assis, foi publicado em 1874, inicialmente em folhetins no jornal O Globo. 

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Na primeira metade deste ótimo conto, fazemos um gostoso passeio com Machado de Assis, exercitando a observação da natureza humana. Na segunda metade, somos levados à constatação de que “são os mecanismos que movem o mundo”, conforme nos diz o grande autor, com outras palavras, em “A Mão e a Luva”.

9

CRISTIANE BRUM

Achei bem legal a escolha da situação, da obra e a representação do Machado que o conto faz. Mas me pareceu fraca a conversa mantida entre o casal para explicar todas as reflexões que o tema suscita no autor. Será que só a conversa explica o ceticismo dele em relação ao amor, ou são sentimentos que ele já tem e que a conversa apenas catalisa? Acho que o texto poderia ter explorado mais esse aspecto.

9

LIANA FERREIRA

Um conto muito bem elaborado e bem desenvolvido. Deliciosa receita de como podem ser gestadas algumas histórias a partir de um olhar atento.

9,5

LORENZA COSTA

A autora se impôs um segundo desafio e até certo ponto conseguiu vencê-lo: o narrador é Machado de Assis, na primeira pessoa! O conto é quase sempre convincente; seria discutível a verossimilhança da surpresa do autor ao detectar que existem casamentos por interesse e que os jogos de poder provocam paixão – mas mesmo isto se justifica pela escolha de um romance da juventude como tema.

9

MARCO ANTUNES

Ótimo! Dramaticidade com milimétrica precisão! Destaco a fidelidade à possível personagem que Machado de Assis seria, chegando a peça a lembrar mesmo um conto do mestre.

9,7

TOTAL

46,2

 

 

 

 

 

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Conto 14

Autor:

Monique Britto Knox

Título

Trigo do Sol Amarelo

 Nasceu em um dia frio e gélido do inverno, onde o sol já não mais existia. Sentia muito frio fora do ventre materno e permanecia na posição fetal muito depois de seu nascimento.

Desde pequeno , Vincent foi uma criança estranha. Atirava-se no chão por qualquer razão, urrava  quando não obtinha o que desejava, parecia muitas vezes perdido no tempo com os olhos parados e petrificados. Seu pai gritava, principalmente nas madrugadas de inverno quando voltava para casa embriagado, dizendo:

-Este menino é doido! Segure ele, mulher, senão ele quebra tudo! Este seu filho é maluco!

A mãe chorava e reclamava dos maus tratos do marido, do desvario de vida que levava.  Seu único e querido filho com semblante de doido?Que tipo de doença era essa? Que comportamento difícil e estranho...Inconformada, pedia ajuda aos céus, aos santos.

 As pessoas lhe diziam: ele precisa ser batizado! Dê água de ouro para ele beber!Leve-o para o padre da Paróquia da outra cidade benzê-lo. Ele vai melhorar!E em vão...Crises de comportamento se repetiam e à medida que crescia, tomavam vultos de força e incompreensão.

Vincent não conseguia olhar diretamente para os olhos de quem quer que fosse, e quando familiares adentravam a casa para as reuniões familiares corria como um beija-flor, com movimentos repetitivos num só local, ziguezagueando pela sala e fechando-se em seu quarto.

A mãe mantinha a casa fechada com medo do comportamento estranho do filho e da reação dos vizinhos que a olhavam com medo e compaixão.

Vincent gostava mesmo era de desenhar. Pegava o carvão da lareira e rabiscava em jornais velhos, figuras sem nexo, seres acelulares, árvores tortas. Corria com a mão o desenho, parecendo que seu corpo se deslocava com o movimento, traços delineados que percorriam exaustivamente todos os espaços vazios do papel preenchendo totalmente de figuras ao vento.

Um dia sua mãe lhe trouxe pincéis, tinta e tela para que pudesse pintar como um artista.Vincent deixou o material parado na mesa por muito tempo.

A  porta entreaberta da sala da casa, numa manhã de domingo, quando todos tinham saído para a missa, deixou passar um raio de sol que penetrando na sala, clareou todos os ambientes. Colocou os pés fora da casa.Era uma claridade que o cegava. Pensou como poderia a luz provocar o infortúnio de impedir a visão, quando os cegos não conseguiam ver a luz.Timidamente respirou o ar em goles longos e pausados. E o calor do sol que sentia em seu rosto, cabelos e ombros permitiu que pudesse olhar à sua frente um campo de trigo, amarelo exuberante que se perdia com o horizonte.

Retornou ao seu quarto e pegando o material antes tão estático, iniciou com rapidez a pincelar um campo de trigo onde não havia limites entre céu e terra, onde as nuvens azuladas pareciam se movimentar transformando-se em matrizes aureoladas. E os ciprestes que balançavam ao vento resplandeciam com a dança de suas mãos onde o vento balbuciava palavras, sons, gemidos. Todo o campo de trigo com ciprestes parecia ter vida própria e autônoma, onde o amarelo unia-se ao verde num contraste e numa constante de ação e vida.

Passado o estado eufórico de criação extenuante, Vincent  Van Goch, fitou languidamente sua obra e sorriu consigo mesmo, dizendo:

- Agora eu posso sair ao sol.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Imagens desconexas, impropriedades e repetições comprometem a evolução deste conto e nos impedem de acompanhar a caminhada de Van Gogh rumo à luz do sol. A bela idéia merece ser resgatada mediante a reestruturação do texto.

 

7

CRISTIANE BRUM

A situação é interessante, mas o texto é muito econômico na descrição das reações das personagens. Uma situação dessas mereceria um relato muito mais próximo dos envolvidos. O narrador me pareceu muito distante dos sentimentos do poeta, o que tira a força do conto.

8

LIANA FERREIRA

A história é boa, mas mesmo sendo ficção, por estar baseada na vida de uma figura conhecida, precisa, a meu ver, ser verossímil.  Há duas passagens na história em desacordo com a vida do retratado e que quebraram o encanto da minha leitura: o pai de Vincent era evangélico, pastor da Igreja Reformista Holandesa, e ele, Vincent, não era filho único. Tinha cinco irmãos.

Onde - no  1º parágrafo, uso incorreto.

Onde - no 11º, soa estranho, embora seja admissível.

Em ambos os casos,  denota uma pobreza na construção.

8

LORENZA COSTA

O conto apresenta dois problemas: o primeiro, menos grave, é a luta entre o personagem real e o fictício. Van Gogh era filho de um pastor protestante, portanto dificilmente sua família iria à missa ou seria aconselhada a consultar um padre que o benzesse; nasceu na primavera, e não no inverno; pertencia ao rol das “crianças estranhas”, mas muito mais por excesso de introspecção que pelos comportamentos descritos. Todos estes detalhes diminuem o conto em verossimilhança, mas é simples consertá-los. O elemento mais problemático é o excesso de abrangência, a tentativa de pintar um panorama geral de um personagem e sua família com generalizações. Um conto não funciona como a sinopse de um romance. A história ganharia força se a autora pinçasse alguns episódios significativos sobre o ambiente familiar e as reações do artista, e os ligasse diretamente ao momento da pintura do primeiro quadro. 

7,5

MARCO ANTUNES

Mesmo com algumas inconsistências históricas em relação à biografia do grande mestre, o conto tem méritos e, com as devidas correções, inclusive ortográficas, pode ser considerado uma boa peça do gênero.

7,4

TOTAL

37,9

 

 

 

 

 

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Conto 15

Autor:

Mônica Thaty Soares da Silva

Título

Poesia Concreta

 Noite quente em Belo Horizonte. Quase madrugada e o calor chega a colar a camisa de algodão ao corpo. Noite quente de fim de verão. Calor fora de hora, que não combinava com um coração tão frio e duro. Duro como um diamante. Diamante não. Uma pedra de gelo. Dura de partir, impossível de morder, que no entanto vai derretendo-se quando colocada na palma da mão. Era assim que Carlos se sentia. Uma pedra de gelo, derretendo aos poucos, desfazendo-se em suor, mas não sem antes queimar, com sua frieza implacável, a mão que tentava segurá-la.

“Eta vida besta, meu Deus.”, pensou o homem que dizia não acreditar em Deus, mas que O invocava o tempo todo. Como se dissesse: “Prove que estou errado!”. Porém o Onipotente não respondia, não aparecia em meio a uma nuvem de fogo e fumaça e o fulminava. Talvez Deus também tivesse os seus próprios problemas, e compartilhasse dessa mesma tristeza com que contaminou os homens. Quem sabe não se questionasse e tentasse entender porque insistiu em inventar aquelas criaturas mal agradecidas, que duvidavam da Sua existência.

            O que faltava à sua vida, Carlos? Não saberia dizer. O dinheiro não era muito, mas não era escasso, assim como os amigos. A fama já existia. Em casa, a mulher Dolores, organizada e fiel, e a pequena Maria Julieta o aguardavam. Maria Julieta. Ao lembrar da filha, recém-nascida, o coração de Carlos se aqueceu por uns minutos. Aqueceu? Pegou fogo, incendiou, ficou mais quente do que aquele tempo infernal. Amava tanto aquela pequena criatura que tinha medo. Medo que ela durasse apenas um pouco mais do que o seu filho, que havia partido no ano passado, apenas meia hora após o nascimento. Mas não, sabia que não seria desse jeito. Maria Julieta era forte, trazia também o ferro de Itabira na alma. Não o deixaria, jamais. Estaria ali, naqueles dias e em outros, sempre que precisasse dela.

            Ainda assim voltou a sentir que faltava algo. A sensação que o acompanhava desde que se entendia por gente, e que o fazia sentir-se gauche na vida. E esse sentimento deixava um rombo em seu peito que ele não saberia como preencher. Um buraco tão escuro que nem toda poesia deste mundo mundo vasto mundo poderia iluminar. Um vasto coração. Talvez fosse esse o problema. Um coração grande demais, onde cabiam amores demais, idéias demais. Um coração mineiro, doce e arrogante, solitário e quieto. Ou inquieto. De ferro ressonante como um sino, vibrando ensurdecedor dentro do seu peito magro.

            Eram esses os pensamentos de Carlos enquanto dirigia o carro de Gustavo Capanema pelas ruas silenciosas de Belo Horizonte. Não era um motorista lá muito experiente, mesmo assim a prudência fez com que deixasse o amigo em casa, antes de seguir para a sua. Se a cachacinha que tinha tomado atrapalhava um pouco a sua visão, já havia turvado de vez a do companheiro de infância, que mal conseguia abrir um olho sem ser obrigado a fechar o outro. E dessa forma seguia Carlos, pelas ruas silenciosas, com o carro ruidoso e o coração e a cabeça em turbulência.

            Talvez fosse tudo apenas uma sombra da injustiça de anos atrás, quando foi acusado

de insubordinação mental, e não teve como se defender. Sumariamente expulso da escola. Perdeu a fé. Perdeu tempo.

“E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam”.

Muito jovem tornou-se arredio, rebelde, atormentado. Não podia contar nem com Deus nem com os homens. Se não fossem os amigos, estaria só neste mundo.

            “O mundo não vale o mundo, meu bem.”, falou em voz alta, para si e como se alguém mais pudesse ouvi-lo.

            Já perto de casa, um ruído maior fez o carro parar e quase que o coração de Carlos também. Tentou olhar pelo retrovisor do Ford, mas não conseguiu enxergar nada na rua escura. Hesitou por alguns segundos. Descia ou não? Será que havia atropelado alguém? Talvez a moça fantasma que vagava pelas ruas da cidade. Bom, se havia sido um atropelamento não tinha sido de um espectro. Temia os vivos mais do que os mortos, mas acabou por descer do carro, ressabiado, e ali estava ela. A pedra. Não uma pedra qualquer, mas uma grande, improvável pedra, no meio de uma rua no centro de Belo Horizonte.

            Estreitou os olhos por trás dos óculos de aros grossos, espreitando a pedra como se ela fosse um ser vivo e pudesse se mover a qualquer instante. Circulou-a, observando cada não-movimento seu. E, sem resistir ao impulso, tentou afastá-la em direção à calçada com um chute. A dor foi imediata e quase insuportável. Caiu sentado no meio da rua, segurando o pé irremediavelmente machucado. Ainda nessa posição tentou empurrar a pedra com uma mão, depois com as duas. Não conseguiu movê-la um único milímetro.

            “Arre, como isso veio parar aqui?”

            E pensar que, do alto dos seus vinte e seis anos, com sua alma idosa e seus olhos cansados, achava que já tinha visto de tudo. Levantou-se, mal apoiando o pé ferido no chão, mas disposto a tirar o trambolho do meio da rua.

            “Se ela chegou até aqui, de algum jeito vai ter que sair.”

            E Carlos empurrou-a, de todas as maneiras que pôde e conseguiu inventar. Esfolou os dedos, sujou a camisa, esgarçou a calça. E nada. A pedra venceu. Mas ele não se deu por vencido. Apontou o dedo em riste para a sua rival, e gritou:

            “Pois fique aí.”

            Em seguida, fez uma careta, acompanhada de um barulho malcriado. Deu as costas e deixou a pedra lá, fazendo companhia ao carro quebrado. Passou as mãos para ajeitar os cabelos finos e que já começavam a rarear no topo da cabeça, pegou o paletó e a gravata, tentou se compor da melhor maneira possível e foi mancando para casa.

            Assim que chegou, viu que Dolores e Maria Julieta dormiam profundamente. O sono das mães exaustas e dos bebês saciados. Carlos sorriu para as duas, tirou a roupa suja e rasgada e finalmente conseguiu deitar-se. Exausto, mas tranqüilo. Dormiu logo, um sono sem sonhos e perturbações, ciente de que muitas vezes as dores físicas são preferíveis a alguns tormentos mentais, que não cessam com o descanso ou com o passar dos anos, e que não podem ser curados com simples comprimidos.

            (Anos depois perguntaram ao poeta o que significava a pedra no meio do caminho, e ele disse que era somente isso: uma pedra no meio do caminho. Ninguém acreditou. “A poesia é incomunicável”).

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

A autora expõe com sensibilidade e em ritmo sereno as angústias do poeta. O clímax do texto é a divertida luta de Drummond com a pedra no meio da noite, luta da qual ele sai “mancando para casa”. O desfecho do conto é simples e eficiente.

9

CRISTIANE BRUM

O início é meio confuso, com uma comparação que não faz muito sentido em relação ao restante do texto – o tal coração de diamante. Aliás, as descrições do coração do poeta são todas meio lugar-comum, com mais opiniões da autora sobre ele do que emoções factíveis para o leitor. O relato da situação, porém, melhora no decorrer do texto e a motivação parece bem explicada, apesar da idéia não ser original.

8

LIANA FERREIRA

O conto está bem escrito e  tem bom ritmo. Consegue manter a atenção do leitor do início ao fim. Atende perfeitamente ao que foi pedido no desafio, e tem o poder de nos fazer penetrar no mundo de Drummond .

9

LORENZA COSTA

Embora tudo funcione neste conto, do título à última linha, a minha nota 10 vai especificamente para a metáfora do coração de diamante, apresentada logo de início, e o cuidado de fazer ressurgir este coração, aqui e ali, ao longo do texto. Cuidado, sorte ou intuição? Tanto faz: um escritor precisa dos três.  

10

MARCO ANTUNES

Eu vi e ouvi Drummond neste conto elegante e comovente. Um arrepio perpassou minha alma: senti-me assistindo uma cena na vida do poeta de Itabira. Estou docemente tocado e o círculo se fecha: a arte cumpriu sua função!

9,9

TOTAL

45,9

 

 

 

 

 

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Conto 16

Autor:

Maria Raquel Melo

Título

Dança na lucidez

 Querido Théo,

 

            Após o triste episódio na Casa Amarela envolvendo nosso amigo Gauguin, resolvi internar-me voluntariamente no sanatório de Saint-Rémy-de-Provence. Aqui já não temo a loucura. Faço com ela pigmentos originais, gotas que matizam a sanidade monocromática que ainda habita a memória. A consciência mora nas minhas recordações...

Lembra-se, irmão? O zênite em Haia era um traçado imaginário que desenhávamos em giz sobre a negra abóbada acima de nossas cabeças. Dividíamos o céu como fazem os comedores de batatas: repartir para durar. Assim, podíamos navegar as bandas do breu sem nos perdermos no infinito; existiria sempre uma metade desconhecida a ser explorada.  Você era tão jovem ainda e já me perguntava, como se eu fora um profundo conhecedor da galáxia, se o espaço celeste era mesmo como uma enorme casca, furada por seres monstruosos, espécies agigantadas dos bichos que teimavam em se enfiar nos nossos deliciosos pêssegos. As estrelas eram para você brechas de luz de mundos misteriosos e iluminados que invadiam as falhas carcomidas daquela enorme fruta em que vivíamos. As noites eram então apavorantes para o  pequeno Théo.

            Para mim, ao contrário, elas eram mágicas. Como transformar em mágica para você também as migalhas de ciência que roubava do “Sidereus Nuncius”[1][1] de papai? Eu já o amava tanto, irmão, que precisava livrá-lo do medo da escuridão, dos seres ameaçadores que sua imaginação ingênua insistia cultivar. Astros, constelações, estrelas, corpos celestes... Sempre acreditei que tudo poderia ser pura ventura no dossel de trevas da velha Holanda.

            Então, inventei uma festa, um baile celestial. Transformei as noites lúgubres e aterrorizantes no palco do grande baile. Cantarolava valsas para conduzi-lo na fantasia.  E lhe dizia, meu querido, que os convidados do evento chegariam tão logo o sol se pusesse e juntos aguardávamos o brilho da primeira estrela. Seu medo dissipava-se como a luz no ocaso.

O céu noturno perfurado de cintilações revelava a presença das primeiras constelações. Cassiopéia e Andrômeda adentravam o salão celestial em longos e fluidos vestidos de cauda godê, feitos de camadas intermináveis de fino tecido adamascado, salpicado de reluzente pedraria. Cada gota de luz que as elegantes convidadas vestiam eram estrelas, irmãs aladas, unidas desde seu nascimento pelo fio cósmico do delicado bordado sobre as imensas saias. E antes que nossos devaneios pudessem criar figurinos ainda mais ousados em beleza e resplendor, o orvalho de brilhos respingava toda a noite e começava a mover-se.

Assistíamos, você e eu, à dança das constelações, enfeitiçados por seus rodopios no fundo invisível do espaço sideral. Os astros revoluteavam descrevendo órbitas incandescentes, fazendo vibrar nossos corpos grudados ao chão. Iniciado o balé, nada mais poderia manter-se  firme no firmamento. A intensa claridade atenuava a escuridão do horizonte, pincelando de amarelos o anil fechado da madrugada. A festa apagava o mundo aqui embaixo e as luzes da cidade transformavam-se em débeis vaga-lumes. Assim, perdíamos qualquer âncora que pudesse nos atar à razão e flutuávamos na quimera de mais uma de nossas noites estreladas.

 Meu amado irmão, desde a juventude em Haia, as noites têm sido obscuras e tristes, mas ao chegar à Saint-Rémy, reconheço no céu nossas ilustres visitantes e já não encontro mais motivos para lutar contra a insônia. Minhas vigílias são regadas de prazer e música, com a boa companhia de Cassiopéia e Andrômeda, que inspiram minhas cores e movimentos. Largo-me ao delírio de espirais luminosas infinitas e minhas mãos pintam traços e volteios. Assim sou capaz de revelar noites insanas e rebeldes.  

Théo querido, quisera eu estas palavras percorressem ligeiras como um cometa a imensa distância que nos separa e esta carta o alcançasse em Paris, antes da aurora, a tempo de sentir novamente seus olhos pousados sobre essa noite estrelada que acaba de surgir, a tempo de ouvir novamente sua voz suave de criança a me dizer:

- Elas giram, Vincent, e brilham, como no nosso baile noturno de constelações...

           

            Se puder, venha me ver, Théo.

 

            Seu saudoso irmão,

 

            Vincent

Nota da Autora abaixo do Quadro Noite Estrelada:

Noite estrelada – Van Gogh

·         Pintado em 1889, um ano antes da morte do pintor, durante sua internação no Sanatário Saint-Claude em Saint-Rémy-de-Provence, França.

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Este comovente poema em prosa deve ser lido à luz da primeira estrela, debaixo de um pessegueiro em flor, como certamente o leriam Vincent e Théo. “Repartir para durar”: é o que faz a autora ao compartilhar conosco sua escrita luminosa, nesta carta que o próprio Van Gogh assinaria, tão bem ela expressa o extraordinário amor que o unia ao irmão mais jovem.

10

CRISTIANE BRUM

O mergulho nas emoções do artista foi muito bem conduzido e condiz com a situação de isolamento e abandono descrita por ele. A estratégia da carta foi adequada para explicar narrativamente esse mergulho e creio que deu força à narrativa, pois possibilitou a fusão do narrador com a personagem.

9

LIANA FERREIRA

É lindo demais. Retrata docemente toda a amargura e a solidão dos últimos anos de Van Gogh. Somos todos convidados a assistir a dança das constelações e a participar da festa promovida por aquele coração generoso. Tem uma música que desconcerta e emociona, talvez porque misture amor  fraternal e solidão, tormento e paz, insanidade e lucidez. Nesta carta-conto tudo se traduz em beleza.

10

LORENZA COSTA

Possivelmente, de todos os contos, aquele mais dependente de uma nota explicativa (ou ilustração) para conectá-lo ao tema proposto – nota e ilustração, aliás, providenciadas pela autora. Mesmo sem elas, o conto tem em si  sentido completo e o mérito de ligar, com sensibilidade, o início e o fim da vida do artista com dois episódios exemplares – um provavelmente imaginário, da infância, e outro real, evocado como “o triste episódio na Casa Amarela”.

9

MARCO ANTUNES

O narrador Van Gogh narra ao irmão Theo, como quem reedita memórias, dando-lhes atualidade e redentora semântica, o duplo firmamento que cobriu o passado de ambos, mas que, no tempo da carta, mesmo transformados, pela plástica da vida, têm nessa reminiscência o consolo da antiga abóbada celeste. Porém, ludicamente, sonha que uma nova síntese cubra os dois para reencontrarem o sentido, ou ao menos algum sentido para a “noite” que cobre ambos e os separa. Pode-se dizer melhor?

9,8

TOTAL

47,8

 

 

 

 

 

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Conto 17

Autor:

Soraia Maria Silva

Título

O conto dos contos

 Eis que ventava naquele lugar e uma voz dizia: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o verbo era Deus” eram as palavras de João 1:1, o apostolo amado de Cristo que ecoava em nossos ouvidos. Reunidos ali contemplávamos com prazer aquele som divino murmurando em nossos corações. Dante permanecia inquieto percorrendo a passos lentos seus círculos mentais e pensativo ante a instigante pergunta feita. Já ali, no fluxo da fala, encontrava suas respostas. Todos estávamos na mesma situação, mas o som das passadas ritmadas de Dante irritavam meus olhos, sem dúvida sua progressão era a perfeita medida de sua “catedral de palavras”, A Divina Comédia, que tanto o esgotara, seu máximo esforço humano na expressão do amor divino. Parecia tenso naquele exercício labiríntico. Lembrei-me de tê-lo retratado com a mesma atitude apreensiva e ainda sonâmbula no meu Juízo Final da Sistina, ao meu lado junto de Platão, Virgílio, Estevão e Lutero, todos como mortos ressurretos em direção ao nosso amado. Lembrei-me desse quadro e do que me motivara... Também esses monótonos passos haviam me guiado, quisera com a minha obra, com tintas e traços, seguir-lhe os passos e fazer renascer à profusão imagens da arquitetura celestial. Quando ali dei as primeiras pinceladas tinha o secreto desejo de fazer prosseguir a obra à qual “faltou inspiração”, onde o querer se tinha “qual roda obediente ao mando” posto conforme a vontade divina, “esse amor que move o Sol e as mais estrelas”.

 

Seus olhos refletiam a Luz que prevalece sobre as trevas, quando tentava nos explicar a origem de seus traços na Sistina. Como era adorável ver a resplendente face de Miguel, espelhando a alegria juvenil de um garoto que fala de suas proezas, cheio da alegria celestial, sua mais completa companhia. Embora mais novo, me sentia exausto nessa situação. Minha dor não tem fim. Embora esse encontro não planejado tenha sido a tentativa de rever o que um dia teve um início, um meio e um fim. Essa alegria e frescor de Miguel relembram um pouco o êxtase dos meus passeios noturnos regados à mocidade dançante pelas ruas das pedras de Minas, o ouro da minha juventude, que se foi como um clarão. Sobre mim pesaram os mantos... Quem dera como Dante ter perseguido a Virgem... E Beatriz que o conduziu salvando-o na eternidade dos nove céus de seu paraíso. Quanto a mim escuto a voz das profecias gravadas na pedra sabão, e “depois que os Serafins celebraram ao Senhor”, sinto a dor, em meus lábios, da brasa que um deles me trouxe, “com uma tenaz”. 

 

Esse rapaz todo torto, pena me dá vê-lo assim todo torto, Aleijadinho mesmo, e com essa dor estampada em seus lábios. Não lhe conheço o drama, mas às suas formas intui-se a pérola barroca que ali move a alma nesse corpo torturado, lembrando em seus silêncios cênicas esculturas. Pena às minhas penas não tê-lo visto em obras, pois sei que as têm, o mesmo motivo nos redimiu e reuniu aqui, neste insólito lugar, eu que de minha Beatriz já não me apartava mais, sinto saudades de suas doces e quentes mãos, o refrigério do meu espírito. Mas quanto a esse de olhar insistente, sinto-me exaurido por esse olhar, o qual suga-me até os pensamentos. Nele vejo a voracidade e a insaciabilidade da expressão que não finda em regras. Esses rapazes devem mesmo ter suas razões de aqui estarem... E a voz do meu amado João continuava em 1:3 “os quais não foram gerados do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”... aquele é, que era e que há de vir...O Alfa e o Ômega... Ante a essa última frase todos nos levantamos e incertos dos termos do encontro retiraram-se para o seu destino de almas aguardantes que de quando em quando são chamadas e julgadas por suas próprias obras.

 

JURADO

JULGAMENTO

NOTA

LUCI AFONSO

Este conto labiríntico é de difícil compreensão. Estrutura não tradicional, linguagem e tema eruditos. Lembra a prosa hermética de Nélida Piñon.

8

CRISTIANE BRUM

O principal problema do texto é que não cumpre com a tarefa estabelecida. Qual é a obra escolhida? A Divina Comédia, a Capela Sistina ou as muitas esculturas de Aleijadinho? Não consegui identificar qual delas mereceu mais atenção. Creio que não ficou clara a narração de uma situação, mas apenas o esboço de um encontro entre eles – no céu, no purgatório ou em uma cerimônia religiosa? O texto traz muitas impressões sobre os artistas e o esboço de um diálogo entre eles que não se concretiza.

6

LIANA FERREIRA

A idéia desse conto é muito boa. Três criaturas geniais se contemplam, enquanto aguardam numa sala de espera, o momento do juízo final, quando serão julgadas por suas obras. No primeiro parágrafo Michelangelo faz reflexões sobre Dante; no segundo é Aleijadinho sobre Dante e Michelangelo e, por último, Dante reflete sobre Aleijadinho. Essa estrutura fragmentada talvez não facilite uma primeira leitura. É preciso estar atento. Mas é formidável! A linguagem, principalmente em Aleijadinho, precisaria estar mais diferenciada. O maior problema que vejo é que parece existir uma quarta personagem, um narrador, que não está bem delineado nem no início, nem no fim, talvez por isso a confusão de pessoas verbais no desfecho do conto (nos levantamos/retiraram-se).

8,5

LORENZA COSTA

É comum encontrar contos que pecam por excesso de informação; neste caso, ocorre o pecado contrário: a autora teve uma idéia engenhosa, e apresenta muito bem a visão de cada artista sobre seu “colega”. Porém, falta qualquer coisa sobre o que cada um deles terá a dizer sobre sua própria obra.

7,5

MARCO ANTUNES

A idéia deste conto é genial: a sala de espera do Juízo Final em que grandes artistas esperam ser julgados por suas “obras”! Lamento apenas que o curto espaço da proposta talvez tenha obrigado o autor a um demasiado exercício de síntese, pois as três grandes inspirações que esperam sua vez enquanto contemplam aos outros e se “julgam” acabam em uma quase anacolutia narrativa. O conto merece ser revisto e ampliado posteriormente, inclusive acentuando a necessária diferença de linguagem entre as personagens. Hoje dedico a nota ao potencial da inspiração de seu autor.

9

TOTAL

39

 

 

 

 

 

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Conto 18

Autor:

Ari  Gurcz

Título

Divinas Mãos

 Levantou de súbito. Resfolegava curto, ansioso. Era o mesmo sonho que recorria. Havia meses, o mesmo sonho. Premonição, por certo. Esperava que fosse. E tomaria parte, seu lugar seria de destaque. Precisava voltar ao trabalho. Estava quente. O calor da manhã antecipava o inferno do dia.

Ainda tonto percebeu que precisava acalmar-se. Tomou demorado fôlego e expirou longamente.

Havia de trabalhar com afinco e sua obra ser perfeita o suficiente para que fosse digna de simbolizar o novo tempo, a nova ordem.

Afastou a coberta caída no chão ao lado do catre no canto da sala de trabalho. Os pés enfiados nas sandálias abertas, colheu o cinzel e o martelo e voltou à peça.

Fitou o mármore já talhado com a forma de Afrodite. A face serena, cabelos presos no alto da cabeça com a simetria prescrita pelos escultores de outrora - por certo Fidias não se envergonharia - seu torso nu desde pouco abaixo da cintura formava com as coxas uma sinuosidade espiralada, deixando insinuada a sensualidade da deusa.

Como esta, no entanto, tantas outras havia. Policleto e Lisipo deixaram dezenas de representações semelhantes em quantos templos, em quantas ilhas. Muito mais importante, porém, que o corpo e a cabeça: as mãos. Essas haveriam de ser as mais belas, as mais delicadas, as mais bem ornadas de toda a Grécia. Nenhuma outra figura de Afrodite ou qualquer outra deusa teria as mãos mais perfeitas. Seriam capazes de fazer curvarem-se soldados e governadores e, mesmo, o imperador para beijá-las. Boa parte dos últimos anos consumiu a garimpar pela ilha as mãos que lhe serviriam de modelo. Uma menina egípcia recém chegada à casa de um próspero da cidade, fez cessar a busca e pôde tornar ao trabalho.

Os dedos lisos e roliços a apoiar uma milo, uma maçã de ouro à direita. A esquerda o punho delgado, mas firme, a erguer uma tocha também dourada. Era este, só poderia ser, o significado do sonho que lhe povoava as noites desde que saíra de Antióquia.

Uma nova era surgia. Roma, agora império. E o imperador apreciava a Grécia, bebia de sua cultura, valorizava sua arte. Era sua chance de estar nas graças do imperador, além de agradar Afrodite - ou Vênus como preferiam os romanos - a homenageá-la com a ornamentação de seu templo.

A ilha de Milo, no meio do Mar Egeu, equidistante de Esparta e Atenas, seria a cidade central da nova era de prosperidade. A ilha que atrairia comerciantes e artistas e patrocinadores de todo o mundo civilizado: a ilha da maçã, a megalo milo, a grande maçã, o centro do mundo, era o que lhe dizia o presságio. E seu símbolo, Agesandros esculpiria, a deusa a segurar uma tocha que iluminaria os caminhos dos povos rumo à idade de ouro. Esse seria o futuro e sua Venus seria reconhecida por toda a eternidade como a Afrodite das mãos divinas.

 

JURADO