

Prezado Cronista:
Por certo poderia solicitar o que vou pedir abaixo ao
nosso correspondente aí em Jerusalém, mas é provável que o resultado fosse
apenas uma reportagem fria e impessoal que não contemplaria o que agora precisamos
aqui na redação.
Ocorreu-me que a sensibilidade, ou o lirismo, ou o
humor, ou a ironia, ou a visão filosófica de um bom cronista (categoria em que
o incluo) seriam mais esclarecedores desse surpreendente fato.
Chegam-nos desencontradas notícias dos incidentes
dessa manhã aí na capital da Palestina. Dizem os poucos informantes
esclarecidos que um certo nazareno teria feito uma
notável entrada na cidade, aclamado pelo povo. Dizem que se trata de mais um
desses profetas que às margens dessas estradas hebraicas crescem como a
relva... Dizem, ainda, que um tal fato teria graves
repercussões junto ao Sinédrio e, principalmente,
entre os homens de Roma aí sediados.
Esses parecem fatos; outros, pelo exotismo e
bizarrice, mais parecem exageros e boatos de quem ouviu o galo cantar e não
sabe onde: dizem que ele teria entrado na cidade triunfalmente montado em um
elefante à moda dos Marajás. Dizem que a multidão gritava eufórica o nome de uma certa Rosana da qual não temos nenhuma informação.
Dizem, por fim, que as pessoas tiraram as próprias roupas para forrar-lhe o
caminho com esse inusitado tapete.
Bem, como notícia é de pouco interesse para o público,
mas como crônica pode render uma notável página para este periódico.
Mesmo considerando que, sob a pressão dos fatos e pela
urgência da expressão, cronistas são impiedosamente desmentidos pela História,
em se tratando de crônica, esse é o nome do jogo, e, mesmo assim, seu
testemunho todo pessoal termina por ser mais uma feição do fato; porque o
contraponto disso é que, quando acerta, trasveste-se
o cronista de profeta e de inventor da História.
Escolha o viés que melhor lhe aprouver e envie-nos até
dia 5 pelo e-mail que já conhece a crônica sobre os eventos que há de ter
presenciado aí nessa cidade que ora o abriga.
Aguardo ansioso
O Editor