Nona SemanaViver Em Nosso Tempo

 

 

 

 

 

 

CONCORRENTE

NOTA

7ª sem

NOTA

8ªsem

TOTAL

NOTA

9ªsem

TOTAL

FINAL

LOCAL

NÚMERO DE VEZES EM QUE ESTEVE NA PRIMEIRA COLOCAÇÃO

 

1

Afonso Cruz

59,2

57,9

117,1

49,2

166,3

PORTUGAL

4

F

I

N

A

L

I

S

T

A

S

2

Denis Reis

57,5

58,2

MAIOR NOTA DA  9ª RODADA

115,7

49,3

165

BRASIL MG

3

3

Marcelo  Larroyed

57,8

57,0

114,8

48,5

163,3

BRASIL DF

 

4

Maria de Fátima

56,9

57,6

114,5

48,3

162,8

PORTUGAL

 

5

Cinthia Kriemler

57,4

55,6

113,0

47,1

160,1

BRASIL DF

 

6

Ari Gurcz

57,6

53,8

111,4

48,7

160,1

BRASIL DF

 

7

Gerson Perrú

57,1

55,3

112,4

46,9

159,3

BRASIL DF

 

 

8

Roberto Klotz

54,9

56,1

111,0

47,2

158,2

BRASIL DF

 

 

9

Ana Marques

55,7

54,8

110,5

46,4

156,9

BRASIL RJ

 

 

10

Joaquim Bispo

56,2

53,4

109,6

46,9

156,5

PORTUGAL

 

 

 

PARABÉNS PELA PARTICIPAÇÃO BRILHANTE

Ivan Mizanzuk

54,9

51,9

106,8

BRASIL PR

 

João Guimarães

54,9

55,2

110,1

PORTUGAL

1

Rodrigo Fernandes

54,9

53,7

108,6

BRASIL DF

2

 

Crônica 1

A PENÚLTIMA CRÔNICA

Todo dia, o tempo inteiro, o mundo é um jogo de possibilidades versus escolhas. O papel do cronista é chegar à melhor equação, sempre em busca da crônica definitiva, aquela após a qual nada mais haverá a dizer e – a última crônica.

Nesta manhã plena e múltipla, mas com o desejo tacanho da última crônica pulsando, sou presa fácil para a seguinte notícia: o paleontólogo francês Michel Brunet, num sítio arqueológico na África, encontrou um crânio feminino, ancestral do ser humano, datando de inacreditáveis 7 milhões de anos, ou coisa que o valha, pois aquém ou além do período em que vivemos qualquer tempo é cem mil e um milhão de anos, ou tempo nenhum.

Pois vi nessa nossa avó, nessa mulher arcaica e ainda sequer batizada por seu descobridor, a quem chamarei de Eva e – pois vi nessa Eva saída do fundo da terra a oportunidade tão esperada de escrever a minha crônica suprema e última.

Fantasiei que no texto eu contaria à mais antiga parente conhecida a história e os segredos finais do mundo, sempre narrando a partir da posição privilegiada deste segundo milênio, eu, um Senhor dos Tempos em meu carro de fogo puxado pela parelha possante ciência-tecnologia.

Imaginei-me com Eva a passear por esses 7 milhões de anos, talvez dividindo-os em dois grupos de três milhões e meio, um à esquerda e outro à direita, para encurtar o caminho.

Mas um pensamento se infiltrou e se impôs nessa minha fantasia. Antes de sairmos, misteriosa, Eva colocaria em minha mão uma semente, e com o olhar e a pressão em meus dedos, nossa avozinha ancestral pediria que eu mantivesse a semente ali bem abrigada.

Aí sim, ao longo do passeio por essa aléia fantástica, eu lhe narraria todo o funcionamento do mundo e a participação do homem, vistos em perspectiva.

Do caos mineral, depois silvestre, um ser que sai da sopa primordial e se arrasta até os arbustos, para lá macaquear até a difícil tarefa sub e sobre-humana de descer das árvores para errar em busca de sobrevivência por um estranho mundo verde, roubando à natureza o alimento e aos deuses o domínio do fogo prometeico e as técnicas de produzir artefatos, até evoluir tão rápida e profundamente a ponto de conquistar o planeta.

Falaria a ela dos indivíduos que ajudaram a construir e destruir civilizações inteiras desde a antiguidade. A inércia dos povos frente aos déspotas de toda matriz étnica e de todo matiz ideológico. A superação dos afligidos, da carnificina à guerra justa, da revolução à luta das ideias.

Contaria de toda arte e de todo sentimento, pois que ambos são um só. As grandes glórias e grandes tragédias humanas, presentes do micro ao macro-universo, do coração de um homem à alma do mundo.

E da realidade atual lhe mostraria as grandes descobertas e curas, as máquinas extraordinárias que emulam o homem e a natureza, e outras concebidas para em futuro próximo imitar Deus. Enalteceria, também, o aparato tecnológico capaz de unir a todos no planeta num segundo, e no mesmo segundo destruí-lo uma centena de vezes.

Mas ao pensar nesse momento último, um pensamento assombroso, apesar de tão óbvio, me dominou: não há explicação final e definitiva para coisa alguma. Não há uma última crônica.

Mesmo quando a janela da máquina-mundo de Drummond se abre por um instante para que a decifremos, até esse insight não é generoso o bastante. Nem os ideogramas mais universais registrariam minimamente o primeiro vagido de um bebê ou o terror de uma vítima ante o golpe no último segundo de vida.

Pudesse eu explicar o mundo para todos os viventes... Pudesse explicar o mundo, em todos os seus pormenores e suas magnitudes, eu o explicaria primeiro a mim mesmo, e seria talvez o primeiro e único leitor dessa crônica universal.

Mas não há uma última crônica.

Pudesse deixar grafada ou gravada essa explicação final na multimídia milenar criada pelo homem: tijolinhos recobertos de cera, papiros, disquetes, CDs, DVDs, blu-rays e até na arcaica narrativa de um Homero, repetida por crianças e jovens impúberes sob os plátanos helenos, ou por Paulo Freire junto aos mandacarus do semi-árido pernambucano.

Não posso.

A história e a arquitetura subcutânea do mundo é quase nada em cotejo com a complexidade e a infinitude do mais simples dos seres humanos, de qualquer época. E a tarefa do homem é infinda: Sísifo é o paraninfo da humanidade.

Assim, voltou ao pó minha última crônica.

Porém, é ainda consolador imaginar Eva, a vovó da humanidade, após ter me ouvido atentamente. Ela me envolveria os ombros com um de seus longos braços primatas, a manopla rude e terna me abriria a palma, e contra toda a ênfase erudita e racional do meu discurso, mostraria ali, em minha própria mão, intacta e invencível, não as entranhas da máquina-mundo, mas a semente sempre inesperada e humana da penúltima crônica.

Marcelo Larroyed

 

 

Jurado

Nota

Oswaldo

9,0

Lorenza

9,5

Marco

10,0

Betty

10,0

Luci

10,0

Total

48,5

 

 

 

Crônica 2

AS CONCHINHAS DE OUED DJEBBANA

            Tomo o café bem quente. Em pleno inverno, amanheceu chovendo. Achei ótimo. Afinal, a chuva é o melhor álibi do melancólico. Eu posso, assim, graças a esta chuvinha fria, viajar por qualquer tempo. A graça de ser melancólico é ter saudade de todo lugar. E eu, que nasci chinês e, às vezes, me disfarço de fenício, hoje amanheci pré-histórico. Gosto da pré-história. A pré-história é o tempo esquecido, o solo abandonado, a terra nativa de onde, distraidamente, saímos para os tempos mais longínquos, que hoje habitamos. Falo isso aqui, nesta manhã de chuva e café, ao me lembrar das conchinhas de Oued Djebbana.

Faz alguns anos que li esta notícia. Em Oued Djebbana, na Argélia, arqueólogos dedicados acharam um colar de conchas, feitomais de cem mil anos. Durante muito tempo, pensei sobre este objeto arqueológico, e cheguei à conclusão de que foi feito por uma mulher. Não, nem por sombra se pense em machismo. A feminilidade do objeto está na sutileza e na aparente despretensão da sua força. Sim, meus amigos, uma menina catava conchinhas na praia. Naquele tempo, Oued Djebbana ficava à beira-marpois a geografia muda muito, conforme o movimento das águas e dos continentes.  Além do mais, sinto que a poesia me pede que seja assim. Era a pré-história, quando, seres de uma alegria sem euforia, sem recorrer a nenhuma justificativa, caminhávamos por uma África imensa e eterna. 

Até hoje tenho em mente a felicidade que esta notícia científica me deu. Fiquei feliz por sermos, desdecem mil anos, sempre os mesmo ferozes fazedores de analogias. Sou grato aos arqueólogos que trabalham em Oued Djebbana. Arrancaram do chão este colar, o mais antigo vestígio da nossa alegria.

Vejam bem, um colar é toda uma ordenação: A disposição das conchinhas, da menor para a maior, postas de acordo com as formas do seu estriamento; o colar pensado conforme a gradação de cores. É a única sabedoria: Descobrir no mundo uma organização para o que é diverso. É preciso estabelecer entre o grande e o pequeno onde está a exata proporção. Saber que as cores se manifestam apenas na relação e distanciamento que ciosamente guardam entre si. Que o mundo, enfim, é uma longa série analógica: Liga-se o mar a um amanhecer e a um colar. É preciso saber que a beleza que podemos desejar é semelhante às formas que o mundo pode nos dar. Porque do que se trata na nossa alegria humana é sempre da nossa responsabilidadepalavra feliz – de, por analogia, trazer as coisas à sua ordem.

Em algumas regiões da nossa língua portuguesa, não à toa, o computador é chamado de ordenador. Um poderoso organizador de analogias, esse meu laptop. Divirto-me, pensando nos risos que ele vai provocar nos arqueólogos dos milênios futuros, quando o encontrarem fossilizado, soterrado debaixo da nossa cidade em escombros. Descobrirãoeles serão arqueólogos tão espertos quanto os atuaisque eu escrevia nele de manhã, e me divertia, fazendo eu mesmo as minhas esdrúxulas analogias. Vejam que o meu laptop faz uma curiosa relação entre o nosso alfabeto e os  impulsos elétricos. Quem haveria de pensar!  A cada letra corresponde um curto feixe de elétrons.

Será a vez destes homens do futuro saberem: Nunca somos modernoscomo vi no título de um livro. Graças à menina de Oued Djebbana, que fez um colar, o homem é sempre tardio. Ele é o que chega mais tarde para recordar a ordem sobre a qual o mundo jaz.

Nós, os humanos, somos os que sempre chegam em umdepois”. Nosso mundo é sempre velho.  É preciso que se saiba que, quando Heráclito inventou a filosofia, atravessando um rio diferente em cada uma de suas travessias, a mitologia era bem antiga, tão velha que nem servia; que, quando Buda pediu o abandono da aflição e do sofrimento, até os deuses estavam cansados das festas, dos milagres e de sua própria euforia; que, quando Jesus pregou o reino dos céus que um dia viria, Iaweh muito não revelava sua face aos homens e, em verdade, deles até se esquecia. Iaweh estava sentado no alto do Sinai e, um tanto silencioso, devia se sentir bem exausto.

Falo assim porque acredito na menina argelina de Oued Djebbana. Enquanto as ondas do mar murmuravam o nome dela e um dia nascia, a menina africana caminhava pela praia, cabelos crespos em tranças, o pescoço frágil, onde as vértebras apareciam, olhos escuros e velozes de uma mãe de caçadores, fixos na areia molhada. Entre areia e seixos, ela recolhia fragmentos da profunda alma de Gaia.

 Eu mesmo me espanto por ter de me lembrar de tudo isso, apenas para ir ao centro da cidade, cumprir com minhas obrigações. Acontece com quem não sabe rezar. Dizem que a nossa cidade foi construída recentemente, que é uma cidade nova. É uma mentira. Todas as cidades são velhas. Nossa cidade, é uma constatação, se despedaça em asfaltos esburacados e calçadas falhas, enquanto os prédios se acinzentam lamentavelmente.

Neste dia chuvoso, nós – os mais tardios – teremos a feliz responsabilidade de mais uma vez ajuntar os dispersos pedaços do mundo. Logo mais, quando chegar ao centro da cidade, devo comunicar essa verdade matutina a algumas pessoas, que sempre topo por : Um mendigo preto queanos pede esmolas na porta do Othon Palace; a menina que assa pães de queijo na lanchonete; um vendedor de loterias, meu amigo; e a moça que apresenta o telejornal do meio-dia. Procurarei falar poeticamente, embora não seja nada fácil. É difícil ser lírico em uma cidade que se antecipa em ruínas. Temo que não me entendam. Acho que vou começar pelas conchinhas de Oued Djebbana.

Dênis Reis

 

 

 

Jurado

Nota

Oswaldo

9,5

Lorenza

10,0

Marco

10,0

Betty

9,9

Luci

9,9

Total

49,3

 

Crônica 3

 

O Oitavo Dia

 

E no Princípio era o Verbo...

Vamos convir que o Gênesis é solene e faz pensar. Imagine a Inexistência, o Nada e a rebeldia de Deus, cansado de tanta solidão e decidido a fazer surgir todas as coisas pelo poder da Palavra. Cria, então, céu e terra, luz e escuridão, água, planta, animal e homem. E Ele lá tem os seus motivos para criar o homem por último.

Depois de tanto esforço, descansa no tal Sétimo Dia, e é aí, creio eu, que meio cansado de tantas obras, dorme no ponto e permite o livre arbítrio. Tenho certeza de que foi assim o início da nossa gloriosa Evolução.

E aqui estamos eu, um ser evoluído, e esta incumbência de mostrar aos homens de todos os tempos como foi que todos os tempos aconteceram.

Parece fácil, a princípio, falar do Paleolítico ou da Idade Média; posso recorrer a umas pinturas rupestres ou à Santa Inquisição, porque tudo está em algum ponto no registro dos livros ou no boca a boca da História.

O que eu acho difícil é fugir da tentação de amontoar linhas do tempo no varal, como se fossem roupas separadas por cor, textura ou serventia. Prefiro me permitir misturar tudo junto, desordenadamente, e descobrir os efeitos de chacoalhar o tempo numa centrífuga gigante.

Imagino a expressão do homem peludo que dorme na caverna repleta de desenhos, ao lado de uma fêmea quase tão barbuda quanto ele, ao acordar numa praia ensolarada, agarrado às costelas de uma mocinha depilada e de biquíni.

Penso na sensação do cavaleiro que adormece no lombo do seu puro sangue inglês, exausto da batalha, e desperta ao volante de uma Ferrari estalando de nova. Fecho os olhos e vejo tribos inteiras se lançando ao chão em saudações aos supersônicos que cruzam as alturas: Ó deus Mirage que ordena ao vento e comanda os céus!

Ouça Judas Iscariotes discutir com o serviço secreto de Sua Majestade que o pagamento dos 30 mil euros tinha sido acertado em moedas. Vejo o sorriso feliz de Cristóvão Colombo ao acordar − depois do sumiço da Pinta e do afundamento da Santa Maria − e encontrar no cais, esperando por ele, Mole e St. Mary, que do alto de seus dois andares com cabines luxuosas oprimem a sobrevivente Niña.

Preciso ver Cleópatra salva pelo soro antiofídico do Butantã e consolando-se com próteses de silicone de 350 ml. Quero rir de Shakespeare que se deita para uma noite de amor nos braços de Lady Viola e desperta no sexo selvagem da heroína virtual Lara Croft.

Só não desejo estar lá quando o mundo for dormir sob o efeito de uma intensa luz que brilha e amanhecer como no Princípio: na Inexistência, no Nada.

Mas como no Princípio era o Verbo, Deus, num impulso, criará pelo Verbo o Oitavo Dia. E dirá:

Faça-se a Clonagem de todas as coisas e também do homem.

Segunda edição não sujeita à Evolução.

Cinthia Kriemler

 

 

Jurado

Nota

Oswaldo

9,3

Lorenza

9,4

Marco

9,9

Betty

9,9

Luci

8,6

Total

47,1

 

Crônica 4

Serenidade

No nosso mundo de correria e globalidade, que a tecnologia assoberbou de misteres e mistérios, se um meu Antepassado voltasse, se ele viesse passar uma tarde, uns dias, por estes lados, imagino e falo-lhe e imagino de novo o que seria; e dirijo-me a ele como se me dirigisse a qualquer um dos muitos antes de ter começado o século vinte. Que me guarde ele desta missão que seria ficar seu cicerone, mas ainda assim eu imagino-me dizendo:

- Não temais pela sanidade deste povo: somos simplesmente quem vos herdou. Nada mais que o vosso futuro.

E acresceria, para que fosse entendendo, ou porque, tanto quanto ele, eu estava temeroso do que veria através de seus olhos.

- Somos os netos e filhos dos seus filhos e netos de seus netos: do que ousou o sonho sentado nas galeras, preso nas grilhetas ou escrevendo com elegantes penas em praias ignotas: que o céu não tem preso em si estrelas como se fora bordado, mas é um vazio imenso onde as estrelas estão dependuradas a par de planetas e buracos negros e galáxias vivendo um ciclo para a morte tal e qual o homem. Um imenso campo de forças é onde nos somos uns e outros.

E penso que se ele viesse com a forma e o conhecimento com que um dia se foi, de doença, do coice de um cavalo, de um disparo ou de um mau parto; ou apenas pela degradação do tempo, ficaria pasmado e temeroso fosse de ver gentes falando sem interlocutor ou sons sendo emitidos sem que visse pessoa ou o dinheiro, em notas outras que não as do seu tempo, ainda assim reconhecível como o que compra quase tudo, e nos olhos dos homens que o buscam: esse dinheiro a sair em buracos na parede, que faria legítimo o seu alvoroço e o seu espanto, quer ele tivesse vindo dos primórdios da revolução do carvão e dos barcos movidos a vapor (e era já um espanto para os vossos avós esse fazer-se o ar quente motor que não precisasse de braços de criado ou escravo ou alimária) ou do fulgor das campanhas de Bonaparte. Oiço-me a dizer-lhe:

- Que vos espanteis do desconhecido, mas não digais de loucos os que vieram depois que vós vos fostes, que cada uma dessas incomensuráveis, inimagináveis coisas, que transtornam vosso sentir de homem de outros tempos, estava já inscrita em cada um dos vossos sonhos.

Mas estou em crer que não lhe evitaria um esgar, que não o poderia impedir de entender como loucura que andassem os homens vestidos deste e de um outro modo e até sem roupa alguma e, mais do que isso, lhe haveria de ser estranho o ruído e o movimento de uma a outra parte e os carros, tantos carros, e as luzes que o deixariam tonto. Como não evitaria que ele tivesse um asco puro ao ver chamar tomate e atum e porco ao que é enlatado. E dar-se-ia igual o seu  mal-estar de ver frutas de épocas diversas ao monte como se fora roupa em mercado, sem vento nem temperatura natural. Muito o desgostaria que fosse Verão em meses de ser o pico do Inverno, que se dessem por desapreciadas as estações do ano e desreguladas as colheitas.

Mas creio que ele, logo que lhe fosse dado esconjurar o medo, acometeria na rádio, na televisão e no telefone, seu humor de antanho como o faria na internet. E para isso, o levaria eu, de manso, passo a passo, a ver de cada coisa o encanto, mais que o susto que sempre se gera no homem face ao desconhecido.

Haveria, é um facto, de encontrar estranha toda a novidade. É evidente que ficaria desassossegado. Mas, sobretudo, lhe seria incongruente a pressa, a correria de vida, de cada ser humano. E sei que o veria a implorar aos céus que acalmasse o seu irmão descendente acometido do pecado de querer controlar o tempo.

Sabedor do silêncio e da serenidade dos espaços que viveu aqui na Terra, sei que haveria de pedir ao deus a quem tantas vezes pediu a graça de uma ajuda, quando aflito, que o salvasse desta grande provação de ver o homem, que lhe parece em tudo ainda um semelhante, alienado num correr atrás do tempo. Ele habituado à calma do raciocínio lento, estou em crer que haveria de alijar o espanto e o temor da novidade e evocar a dimensão do erro que grassa a sua pós-humanidade.

Cada peça, cada invenção da técnica, do telemóvel, com cada vez maiores capacidades, ao computador, ao GPS que nos guia e controla, da cidade grande, ao mais recôndito desta Terra tornada planetária, seria vista como insanidade ou sonho, pois que ele ficaria entre um e outro meditando enquanto os olhos, que se haviam habituado à incomensurabilidade do Universo, saltitariam curiosos nas páginas de livros ou pelas telas da internet, perguntando: que é isso? e aquilo veio de onde? como? porquê?

Como se fora criança o meu Antepassado.

Sentar-nos-íamos, e eu esclareceria no reduto paupérrimo do meu desconhecimento da causa de quase tudo. Haveria de falar-lhe da imensa ousadia de Copérnico e de Newton com as leis do Universo a mostrarem como se ligam de igual modos planetas e sóis e estrelas e a bola que cada um de nós jogara ao vidro da janela. Falar-lhe-ia de átomos e electrões e sei que o faria chorar quando dissesse que o homem que busca o como e onde do início dos mundos em vastos ciclotrões, é da mesma geração de sábios que arrasaram cidades com a cisão do átomo.

Sossegar-nos-íamos andando na margem de um rio e falando com os homens da poesia e do romance, ouvindo-lhes canções em em tudo semelhantes ao que um dia terá cantado cada Antepassado. Alijaríamos a pressa com os sonhadores do meu presente.

E, depois de percorrermos a cidade grande, depois de cada novidade lhe ser apresentada, ou nem todas, mas as suficientes para que sentisse o temor, e a grandeza, pois que tudo é relativo e necessita que descrevamos o referente. Depois que se apercebesse o que foi o futuro, com o cuidado que se lhe adviria de ter vivido, sereno, cada um dos minutos de cozer o pão ou esperar um filho, haveria de dizer-me do cuidado para que do sonho não resulte pesadelo. E eu haveria de escutá-lo. Calmamente.

Maria de Fátima Marques

 

 

 

Jurado

Nota

Oswaldo

9,5

Lorenza

9,5

Marco

9,8

Betty

9,8

Luci

9,7

Total

48,3

 

Crônica 5

EXPERIMENTE TELEFONAR A HERÓDOTO

 Desde que ouvi dizer que todos temos Buda dentro de nós que nunca mais me consegui livrar dele.

 – Não procures o teu inimigo fora de ti mesmo – advertiu-me Gautama com a sua voz vegetariana.

 – Caro amigo Buda, dantes os sábios acreditavam que o seu pior inimigo estava dentro dele. Tinham razão, toda a razão, mas agora temos antibióticos. E nos casos mais complicados, cirurgias.

 Perante o ar impassível com que ele me contemplou, investi:

 – E temos automóveis.

 – Não são tão imponentes quanto o Grande Veículo, o Mahayana – apressou-se a dizer. – Nem quanto o Pequeno Veículo, o Hinayana. Nem tão amigos do ambiente, por mais híbridos que os fabriquem.

 – Conseguimos falar com uma pessoa do outro lado do mundo – disse eu, exibindo, sem qualquer pudor, o meu portátil.

 Isso fez-me lembrar aquela história – que Jean Cocteau contava – onde um viajante encontra uma nativa a falar para uma árvore (os habitantes daquele lugar acreditavam ser possível comunicar uns com os outros através das árvores). Quando esse viajante pergunta à mulher por que motivo falava com as árvores, ela respondeu: porque não tenho telefone.

 – Não há grande mérito nisso de conseguir falar com uma pessoa do outro lado do mundo – assegurou-me Buda coçando o alto da sua iluminação. – Você consegue falar comigo que estou a séculos de distância sem utilizar nenhum milagre tecnológico. E eu não sou só um Buda de outros tempos, sou também do outro lado do mundo. Para ser franco, nem sequer sou deste mundo. A imaginação consegue fazer uma pessoa conversar até com Heidegger. E com esse, não era fácil ter uma conversa. Tente fazer isso através dum bocado de plástico e silicone. Não seja ridículo, senhor moderno: Experimente telefonar a Heródoto para ver se ele atende.

 Não me deixei perturbar por aquela voz decrépita e continuei:

 – E está para breve a possibilidade de clonar qualquer ser vivo. Poderemos fazer cópias de tudo o que tem um ADN, inclusivamente advogados. E até já temos culturas transgénicas, bombas nucleares, fornos microondas, máquinas de filmar, o existencialismo de Camus, internet por cabo e, por algum motivo facilmente incompreensível, comida congelada.

 – E a espiritualidade?

 – Compramos em qualquer supermercado.

 – Vocês não têm respeito pela alma humana. E o Homem Interior?

 – Fica horrível nas radiografias.

 Não quis magoá-lo e, coitado do iluminado, explicar-lhe que, “fotografado” por dentro, um homem é igualzinho à morte: é um esqueleto.

 – Preferia mudar de assunto – disse eu, benevolente. – Ouça esta máxima budista que acabei de inventar: Uma pessoa quando cai em si, magoa-se por dentro.

 Percebi, por um ligeiro tremor da posição de lótus, que aquela frase o fez rir interiormente que é o lugar onde os budistas se riem.

 – E a busca da iluminação? – perguntou-me ele, já recuperado, ajeitando os seus imensos lóbulos das orelhas para trás das costas.

 – Basta ligar o interruptor. Temos electricidade.

 – Não irão longe.

 – Se quisermos, podemos ir até à Lua.

 Como ele não reagiu, continuei:

 – Dantes, isso só era possível com a poesia. Agora temos motores de hidrogénio.

 – E isso rima?

 – Nem pensar. Aliás, na poesia moderna rima-se muito pouco, quanto mais na Ciência.

 De todos os argumentos, este revelou-se insidioso: Ele parecia não conseguir compreender poesia que não rima. Até o terceiro olho se entreabriu. Aproveitei o balanço para desequilibrá-lo ainda mais:

 – Temos aquecimentos eléctricos, temos aquecimentos solares e vamos na direcção do aquecimento democratizado, para todos, o aquecimento global.

 Mas ele, muito bem informado, ainda rebatia toda a minha modernidade como um Cioran oriental:

 – Nada disso vos fará felizes. A vida é sofrimento desde que eu o proferi há dois mil e quinhentos anos.

 Como resposta acendi a televisão e mostrei-lhe centenas de canais. Se Epicteto visse isto acabava-se-lhe a ataraxia. Não há estoicismo que sobreviva à televisão por satélite. Mas o meu Buda interior é uma ficção muito mais tenaz:

 – É o Nirvana, é o Nirvana! – exclamou, impassível, enquanto olhava para o écran. A frase era irónica, toda a gente que conhece o meu Buda interior sabe isso. Eu não desisti:

 – As pessoas deste mundo tão moderno têm aviões que podem deslocar-se a velocidades mais rápidas do que o som e, em muitos casos, próximas da velocidade do boato e da coscuvilhice.

 – Pelos quatro cantos da Terra?

 – Agora a Terra é redonda.

 – E as pessoas que vivem em baixo, não caem? – disse ele, rindo, como se a pergunta fosse moderna.

 – Não. Inventámos a gravidade.

Afonso Cruz

 

 

 

Jurado

Nota

Oswaldo

10,0

Lorenza

9,8

Marco

9,9

Betty

9,9

Luci

9,6

Total

49,2

 

 

Crônica 6

CARTA A DA VINCI

Caro Leonardo,

Há tempos venho pensando em escrever-lhe. Há muito o que dizer, apesar de duvidar que você entenda um décimo do que lerá. Não, mestre. Não duvido de sua genialidade e de sua extraordinária capacidade de enxergar bem além de seu tempo. Seu brilhantismo é reconhecido por todos até os dias de hoje. Nós, agora, é que somos um tanto confusos.

Um cidadão de nossos dias gasta uma pequena fortuna em um carro para que possa ir mais depressa e com maior conforto de um lado para outro; e gasta mais um bom dinheiro para usar uma engenhoca na qual passa ao menos meia hora andando sem ir a lugar nenhum. Os engenheiros quebraram a cabeça para criar um elevador, equipamento bastante interessante: o sujeito entra em uma caixa, aperta um botão, vê a porta se fechar à sua frente; sente um solavanco, espera a porta se abrir e sai, dezenas de metros acima de onde estava, sem subir um degrau sequer. Daí, entra em uma academia e paga para usar outra engenhoca, na qual finge subir escadas por quase uma hora, mais uma vez sem sair do lugar.

Mas nem tudo é tão sem sentido. Temos a geladeira, uma caixa fantástica que conserva os alimentos por dias. Com isso, boa parte da população mundial se livrou do flagelo da fome. E comemos tanto que muita gente precisa ir ao médico por isso. O doutor dá uma bronca, manda o sujeito usar uns comprimidos e comer menos. Pensando bem, isso também não faz muito sentido.

Falando em comprimidos: temos remédios para quase tudo. Para aumentar o apetite, para reduzir o apetite, para evitar gravidez, para ajudar a engravidar, para tirar a febre e por aí vai. Se alguém está muito agitado, vai ao médico e sai com a receita de um ansiolítico; começa a tomar o comprimidinho e fica um tanto deprimido; volta ao médico e recebe outra receita: um antidepressivo. Isso mesmo! Um remédio para ficar mais calmo e o outro porque ficou calmo demais. Os dois são tomados ao mesmo tempo. Como você pode imaginar, Leonardo, não demora e o paciente começa a pirar por causa desses milagres farmacêuticos. Se mostra irritadiço, brigando com Deus e o mundo. Volta ao doutor e... Adivinha! Pois é. Sai de lá com mais uma caixa de comprimidos. Esses, para controlar o humor, ou seja: para resolver o problema causado pelos outros remédios. Não é uma maravilha?

Nossos médicos parecem anjos: vestidos de branco, falando uma linguagem que ninguém mais entende e com uma resposta – ou seja, uma receita – para qualquer problema. Ou quase. Até agora, eles não descobriram o que fazer com o infeliz que entra em coma por ter tomado todos os remédios que eles mandaram.

Nosso tempo é uma maravilha, da Vinci. Você, que gosta tanto de máquinas, ficaria extasiado. Lembra aquela sua idéia do veículo que anda sob a água? Hoje, ele existe. Chama-se submarino. Também aquela máquina de voar que você idealizou é, em nossos dias, real. Tudo bem que, vez por outra, um submarino não volta à tona ou um avião despenca lá de cima. Mas é assim mesmo, não é? Quanto maior o progresso, mais riscos corremos.

Não se preocupe com essa questão dos riscos. Temos uma coisa maravilhosa, aqui, chamada seguro. É muito comum ser usado por quem tem automóvel. Funciona assim: se você tem um carro, paga uma quantia em dinheiro para uma empresa enquanto tudo está bem. Se algo der errado – por exemplo, se você bater o carro –, você paga mais um pouco e a empresa (se não houver outro jeito) paga os prejuízos. Interessante, não? Coisas da modernidade.

Hoje, é tudo mais rápido e mais eficiente. Não precisamos mais daqueles mensageiros a cavalo que levam dias para entregar uma carta. As correspondências, agora, chegam no mesmo instante em que são enviadas. Isso, claro, se quisermos escrever. Porque basta apanhar um telefone celular e falar com seu interlocutor, mesmo que ele esteja do outro lado do planeta, tomando banho. E, Leonardo, você não faz idéia de quantas vezes nossos banhos são interrompidos por telefonemas todos os dias!

Como fazemos tudo mais depressa, sobra tempo para fazermos coisas que permitirão que façamos as coisas mais depressa. Ficou confuso? Nós também.

Quanto àquele problema que você enfrentou, Leonardo, ninguém mais duvida: você estava certo. A Terra é redonda. Para muitos de nós, isso não faz grande diferença. Estamos habituados a ver tudo através da tela plana de um cinema, uma televisão ou um computador. Mas achei que você gostaria de saber que tinha razão.

Isso, a propósito, é uma coisa que não mudou muito desde os seus dias: ter razão continua sendo, para muitos, mais importante do que viver bem. Se você soubesse quanto tempo se perde, por aqui, tentando provar por todos os meios que os outros estão errados...

Teria muito mais a dizer, Leonardo. E, curioso como você é, estou certo de que adoraria ler. Mas preciso parar por aqui. Tenho que participar de uma teleconferência daqui a pouco. Há um amigo meu que está na China; outro na França e mais um no México. Nos reuniremos em cinco minutos.

Não entendeu? Tudo bem. Até hoje, com tanta tecnologia, nós também não entendemos direito o que está por trás daquele sorriso de sua Mona Lisa.

 

Gérson Perrú

 

 

Jurado

Nota

Oswaldo

9,8

Lorenza

8,8

Marco

9,5

Betty

9,8

Luci

9,0

Total

46,9

 

Crônica 7

Rotatória

 

A calçada larga e cimentada entre grama aparada é o meu trajeto. É o meu caminho rotineiro nas matinas orvalhadas. Apesar das colheres de açúcar no café, engulo o amargo das notícias da política no jornal e saio com o costumeiro tênis que, embora cego, já conhece as cores do caminho a percorrer. Primeiro um bom-dia ao porteiro, depois a rua, viro à esquerda. È apenas uma rota, não uma convicção.

É chocante o contraste entre o apartamento aconchegante e seguro com a realidade fria e trôpega. O tênis tateia as diferenças entre o tapete macio e o piso pedregoso.

Há anos, o mesmo caminho, no mesmo horário. Cumprimento o estudante uniformizado, confiro que o engravatado está certamente no horário errado. Incomodo-me com o latido do cachorro na coleira da doméstica no retorno da padaria. Todos os dias é a mesma coisa. Sei as árvores que estão florindo, conheço o buraco que a prefeitura não tapa. Sei onde está o ninho do joão-de-barro. Ouço a alegria das crianças na escola. Tudo sempre igual.

Quase.

Antes de sair, no caderno cultural, li um longo poema do Drummond, a Máquina do Mundo. No rodapé, informavam que ele fora escolhido por um grupo significativo de escritores e críticos como o melhor poema brasileiro de todos os tempos. Contei 32 estrofes distribuídas em 96 versos.   Impressionado, reli a poesia do mineiro para extrair toda a beleza e o conteúdo.

No trajeto diário, me senti o mais inculto e ignorante homem da face da Terra. Não entendi a mensagem e, por conseguinte, a beleza do poema. Frustrado, ruminei as dessemelhanças nos nossos caminhares.

Ele inicia o andar, no poente, quando as aves perdem a cor e um sino rouco mistura o som aos de seus sapatos. Nada mais funesto para o início de qualquer atividade.

Não tenho pressa de chegar ao meu destino.

À minha frente caminha um jovem solitário que esbraveja ao celular. A distância entre nós é grande. Não consigo entender uma única palavra. Apesar das costas, vejo os gestos largos e furiosos entrecortados por berros. Cinco minutos de discussão terminados, bruscamente, com o arremesso do aparelho ao chão.

Quando eu era pequeno, os homens ainda se falavam olhando nos olhos. No final da tarde, as cadeiras iam se amontoando na calçada. Vizinhos se familiarizavam. Trocavam biscoitos caseiros, licores e muita prosa. Do lado de dentro, a penumbra e o silêncio. Do lado de fora, a claridade e algazarra do poste energizado.

A televisão levou as reuniões para a sala. As intermináveis conversas passaram a ser rápidas para não atrapalhar as vozes dos atores das novelas. Nos intervalos, o volume da propaganda é tão alto que inibe qualquer iniciativa de diálogo.

Conheceram o telefone. Em vez das lúdicas latas separadas por um barbante, desandaram a falar, ligados por um fio, de uma casa para outra. De um escritório a outro. Negócios, interesses e afastamento por telefone. Pessoas se falam à distância. Frieza. O calor humano desapareceu. Hoje, nem sequer uma linha junta as pessoas. Tirando o celular do bolso, elas falam e atropelam bons costumes.

O mundo segue. Dizem que evoluiu. Meu caminhar segue. Acho que o mundo retroage. Continuo sem entender o poema. Maquiaram os pedregulhos da minha estrada. Tal qual Drummond, avaliei o que perdi, segui vagaroso de mãos pensas. Salvam-me o cantar dos passarinhos e a inocência das crianças.

O meu destino é o ponto de partida.

 

Roberto Klotz

 

 

 

 

Jurado

Nota

Oswaldo

9,8

Lorenza

9,3

Marco

9,7

Betty

9,6

Luci

8,8

Total

47,2

 

 

Crônica 8

 

És feliz?

 

Todos sabemos que os mortos não voltam; por uma razão muito simples – morreram. No entanto, uma inaptidão para lidar com a interrupção do devir leva-nos a imaginar os nossos mortos em forma carnal incorrupta, como quando os conhecemos. Aliás, a aventura humana, com as suas contínuas “entregas de testemunho cultural”, é muito eficaz a fazer-nos proceder como se houvesse um devir contínuo. E um contínuo progresso. Esta nossa capacidade de abstracção e de idealização permite-nos imaginar os cenários mais inverosímeis com a naturalidade das coisas quotidianas.

Um avô meu morreu em 1950, quando eu tinha dois anos. Uma lembrança que tenho dele é, provavelmente, falsa. A curiosidade de o conhecer é natural. Como seria se o encontrasse agora, ele parado nos cinquenta e oito anos da fotografia da parede, mais novo que eu três anos? Como nos relacionaríamos, se convivêssemos durante, digamos, um mês? Como camaradas? A sua ascendência prevaleceria, ou a minha maior idade fá-lo-ia reverente, vindo ele dum tempo em que o respeito pelos mais velhos era sagrado?

Se bem o vislumbrei, melhor o fantasiei. O meu avô esteve conosco um mês. Acompanhou a minha família em todos os momentos, desde os de lazer caseiro, aos de afobamento de afazeres citadinos. Indaguei-o sobre muitos aspectos do tempo dele e mostrei-lhe as maravilhas do meu.

Era um agricultor que tinha vivido sempre na aldeia – excepto a passagem por França, na I Guerra Mundial – e cuja informação se fazia nos mercados, nas conversas de vizinhos e num jornal semanal. O mundo dele era calmo, duro, equilibrado. Vivia ao ritmo das estações.

Levei-o velozmente pelos lisos tapetes das autoestradas do país, mostrei-lhe a ponte de dezassete quilómetros sobre o Tejo, mergulhámos de metro no ventre da cidade em hora de ponta, guiei-o pelas avenidas dos grandes centros comerciais e outros formigueiros. Ele mostrava-se um pouco confuso, mas muito adaptável. Gostou especialmente da televisão de oitenta canais. Devorava sobretudo os de notícias. Embora se admirasse com os telemóveis, o computador e a Internet, ficava especialmente desconfiado com o microondas e divertido com a máquina eléctrica de barbear. Achava piada às roupas deste tempo e às pessoas nos ginásios. Ver-me a pedalar em seco levava-o às lágrimas. Gostou de encontrar roupa pronta a vestir e de conhecer as várias utilizações dos plásticos. Apreciou o serviço de aconselhamento médico pelo telefone, a que tive de recorrer. Admirava os serviços de conservação do frigorífico e a frescura das bebidas e da fruta, embora achasse esta insípida, apesar das cores fortes e dos tamanhos surpreendentes.

Finalmente, chegou o dia em que o prazo combinado acabava. Chamou-me de lado e – cito de memória – disse-me:

«Joaquim, meu homónimo, meu velho neto, gostei muito de conhecer a tua família e o teu mundo. É um mundo admirável, mas difícil de compreender para um homem do meu tempo. Os homens foram à Lua, desvendaram o âmago da vida, criaram maravilhas tecnológicas, mas continuam a não ser solidários; nem sequer conseguem viver juntos. As guerras são permanentes.

Quem nos livrou do Hitler tomou o freio nos dentes, acha que pode ser ele agora a mandar em todos os cantos do mundo e não suporta regimes que não controle, ainda que tenham resultado de eleições. Segundo percebi, já atacou mais de duas dezenas de países, desde a II Guerra Mundial. A destruição do Iraque sob falsos argumentos e a consequente morte de um milhão de seres humanos é uma vergonha para todos os homens deste tempo, sobretudo pela evidência da cobardia das instâncias internacionais em levar a julgamento os responsáveis.

O governo da minoria religiosa judaica, cujo martírio constrangeu os homens do meu tempo, aprendeu com os seus algozes e usa métodos de extermínio semelhantes.

Em inúmeros pontos do planeta há milhares de pessoas a morrer de fome – que conceito abominável – enquanto nos países ricos se destroem milhares de toneladas de alimentos, para não deixar baixar os preços.

As cidades estão cheias de fumo e sobrepovoadas. As pessoas amontoam-se em pequenos espaços, trabalham toda a vida para pagar a casa, quase não vêem os filhos. Toda a gente tira cursos superiores mas poucos conseguem exercer uma profissão nessa área de estudos. Os jovens apenas conseguem trabalhos precários, às vezes, escravatura encapotada, com nomes pomposos como “estágio não-remunerado”.

E, no entanto, tens razoáveis condições para ter uma vida boa: já estás reformado, recebes o suficiente para viver, tens tempo e saúde, podes fazer o que quiseres. E o que fazes tu? Agora brincas aos cronistas, como tens brincado aos bloguistas e aos contistas. Passas demasiado tempo ao computador. Tens mais amigos na Internet que na “vida real”. As novidades tecnológicas vêm, envolvem-te e passam. Tens centenas de cassetes de vídeo que nunca vês, dezenas de CDs que nunca ouves, rádios, oitenta canais de televisão, dos quais vês meia dúzia. A oferta é avassaladora, dispersa-te. Era um mundo assim que idealizavas? Parece-me que estás esquecido dos sonhos da adolescência. Diz-me: és feliz?»

Antes que eu tivesse tempo de responder, deu-me um abraço e foi-se embora. Melodramático, este meu avô, mas gostei dele.

Joaquim Lopes

 

 

Jurado

Nota

Oswaldo

9,3

Lorenza

8,8

Marco

9,7

Betty

9,6

Luci

9,5

Total

46,9

 

 

Crônica 9

Bem-vindos

 

¾    Sejam bem-vindos.

¾    Esperamos que estejam todos bem instalados e confortáveis.

¾    Como sabem, recebemos ambos, a incumbência de explicar-lhes a todos como funciona nosso mundo.

¾    Muito simples.

¾    Muito simples.

¾    É certo que, a uma primeira passada d’olhos, seja um tanto difícil aos senhores, que chegam de fresco ao nosso mundo...

¾    Ou ao nosso tempo...

¾    Perceber a simplicidade que é a essência do funcionamento dessa máquina que chamamos civilização.

¾    Um tanto complicado, mesmo.

¾    Muito simples, no entanto.

¾    Esperamos que, tanto quanto curiosos, estejam os senhores receptivos às nossas explicações.

¾    Rogamos que tenham paciência aqueles a quem nossas explicações pareçam primárias. Lembramos que há alguns neófitos entre os senhores.

¾    Pedimos, mesmo, que deixem de lado os conceitos preconcebidos, frutos, entendemos, das experiências vividas ou aprendidas em suas vidas até aqui.

¾    Não serão úteis. Antes podem dificultar a assimilação do que temos a transmitir- lhes.

¾    Tentamos reduzir à essência o funcionamento do nosso tempo.

¾    Por favor, não se detenham nas aparências. A pletora de artefatos, a opulência dos supérfluos, as plêiades de que se têm notícia ou se podem observar entre os humanos são faíscas que servem, quando tanto, a obscurecer seu entendimento do como as coisas funcionam.

¾    Comecemos pelo mais amplo, depois cuidemos do particular.

¾    O mundo, mais precisamente o planeta em questão é... redondo. E isto já sabe toda a gente.

¾    Em sendo redondo, tende a rodar. Roda em torno de si, roda em torno do sol, que roda por sua vez...

¾    Por favor, senhor Urbano! Este é um episódio já superado.

¾    Neste planeta, a Terra, há água em abundância e alguma terra.

¾    Por conta de alguns contratempos, o tempo anda meio quente por aqui. Assim, é de se esperar que, em breve, tenhamos um tanto mais de água e mais escassa terra.

¾    Há, ainda, o ar, um conjunto de gases, que abunda.

¾    Este ar, assim como a água, embora abundante, é menos usável a cada geração.

¾    Na terra que resta na Terra vive a maior parte dos humanos.

¾    E é dos humanos, que nos interessam particularmente, que trataremos a partir daqui.

¾    Os homens, em nosso tempo, querem.

¾    E isto é essencial para o seu entendimento.

¾    Querem de tudo: querem amor, querem conforto, querem descanso, querem paz, querem querer.

¾    Querem com tal zelo, e sempre, e tanto que trabalham incansavelmente, contra tudo e contra todos os que lhes separarem de seus objetivos: obter o que quiseram.

¾    É uma profusão de quereres que divergem, que se desencontram, que se roçam, que conflitam.

¾    São quereres a mancheias.

¾    É dos seus encontros, desencontros e escaramuças e querenças que surgem todas as tenções humanas.

¾    E daí, suas ações.

¾    Cada uma e todas as obras que puderam perceber os que por aqui já estiveram, e as que verão todos os senhores, do mais simples bonsai à Ilha Palmeira, do ábaco aos supercomputadores, da lupa ao telescópio Hubble, do preservativo ao mercado financeiro, foram todos criados, não pela necessidade humana, mas por sua vontade.

¾    Pois que necessidades há tantas que não se saciam, embora saciáveis.

¾    Quanto aos homens, suas apetências divergem quanto ao objeto, quanto ao modo de obtê-las, mas também quanto ao destino que dão ao butim, uma vez conquistado. Assim, podem-se dividir os homens em Os Que Têm e Os Que Não Têm.

¾    Mais importante, no entanto, para o entendimento desse mundo à porta do qual estamos, talvez seja a classificação mais essencial dos homens: Os Que São e Os Que Não São.

¾    Entre os primeiros há os que são e que adoram sê-lo.

¾    Os que são e detestam sê-lo.

¾    Os que são e adoram dizer que detestam sê-lo.

¾    Os que são, mas não admitem que são.

¾    Entre os outros há os que não são, mas morrem de inveja dos que são.

¾    Há os que não são, mas deixam que pensem que são.

¾    E os que não são e que alardeiam sua condição.

¾    No reconhecimento dessas variações e na percepção dos quereres está a chave para entender nosso mundo e nosso tempo.

¾    Muito Simples.

¾    Muito Simples.

¾    Agradecemos a atenção dispensada.

¾    Esperamos que nosso encontro tenha sido proveitoso.

¾    Adeus.

¾    E bom parto a todos.

 

Ari Gurcz

 

 

Jurado

Nota

Oswaldo

9,8

Lorenza

9,7

Marco

9,6

Betty

9,8

Luci

9,8

Total

48,7

 

 

Crônica 10

Sermão em defesa a uma Época

Tenho direito também ao meu sermão.

Vivo nestes dias de frases rápidas, informações de três linhas, neons de notícias e anúncios. Vivo em dias de muita fala, de pouca audição, em que se entende menos ainda o que é falado e ouvido. Muitas vezes pouco é entendido do que é sentido.

Vivo no século da solidão.

Homens, mulheres, pessoas de todas as épocas: esse é o meu sermão e apesar da melancolia, venho defender a minha época.

Defendo os engenhos da ciência, esta mãe de possibilidades para viver-se mais e melhor. Talvez com mais tempo sobre a Terra, possamos encontrar o caminho para nos tornarmos inquilinos melhores. Num inesperado otimismo, pessoas melhores? Para alguns de vocês, que me leem, viver trinta anos era uma eternidade, ter quarenta os tornaria idosos. Comparados a muitos de vocês, hoje fazemos hora extra nesse planeta. Cultivamos – graças às pesquisas estéticas e genéticas – uma juventude perene e alimentamos a esperança de dissipar a existência de todas as doenças. O senão existe no culto do corpo, a alegria na decrepitude que se limita.

Milhões são gastos em busca da saúde perdida, da desejada excelência física, dos muitos minutos a mais. Pergunto-me, olhando esse meu tempo, se é um erro buscar a perfeição por estética? Seria um absurdo investir no que se vê no espelho, se o interior se enxerga através dos olhos que fitam o seu avesso? O equilíbrio é buscado nas prateleiras de livros de auto-ajuda e do faça-você-mesmo e muitas vezes – abandonando-se as soluções imediatas e simplistas – é encontrado no silêncio que tem olhos para dentro e na aceitação de que o tempo é um mestre e não um matador.

Somos uma época de belas notas dissonantes, concertos magníficos de instrumentos perdidos. Vemos-nos envoltos num egoísmo reforçado pela cadeia alimentar em que julgamos estar no topo. E, de repente, o altruísmo é reencontrado quando nos deparamos, mesmo que do outro lado do país, com o mundo abalado por uma grande tragédia.

Milhares de hectares são plantados, outros tantos são reservados aos animais e apesar desses esforços, muitos passam fome. Mas nesse século nada suplanta uma fome que existe e para a qual nenhuma comida chega. Nenhuma ação é concreta o bastante para libertar os estômagos e os corações de um eterno fiapo de vazio. Estou falando da solidão.

Inventamos o telefone, o celular e a Internet. Com todos esses apetrechos podemos nos comunicar quase instantaneamente uns com os outros. Sabemos no Brasil sobre os acontecimentos do Afeganistão. Conversamos e vemos pessoas que estão quilômetros de distância. Trocamos conhecimento e informações que viajam em segundos por entre continentes e piscares de olhos.

Construímos prédios cada vez mais altos. Grades cada vez mais grossas.

E nos escondemos no alto, atrás destas grades.

Os prédios são bonitos de se ver, neles – andar por andar – nos colocamos uns sobre os outros e desfrutamos da maravilhosa vista... de outros prédios igualmente altos e bonitos.

As grades nos protegem da altura onde fomos viver, dos intrusos que podem insistir em nos incomodar e de tudo que pode ser defenestrado. Também usamos grades para prender aqueles intrusos dentro de outros prédios, esses menos belos e mais cinzas.

Mas a cada momento, tocamos menos nas pessoas que amamos. Diminuímos a distância de quem está longe e aumentamos a distância de quem está perto.

Jogamos asfaltos por todos os lados criando estradas, ruas e alamedas nos lugares mais insuspeitos. Com a luz artificial – tão habilmente manejada – iluminamos parques, bosques, bairros e praias. Afastar a sombra é uma prioridade, e se internamente a Psicologia e a Psiquiatria ainda brigam pela primazia de conseguir fazê-lo, externamente fugimos dos cantos escuros, num eterno receio do que não conseguimos classificar num relance.

Porém, preciso defender o meu tempo.

Defender aqueles que lutam pela conscientização de que devemos preservar a natureza, as crianças, os idosos, os animais, o nosso mundo interior. E essa é uma conquista recente. Falar por todos que têm direitos trabalhistas e por aqueles que buscam os seus. Também é recente essa possibilidade.

Vim aqui hoje para fazer o sermão a favor da minha época. Falar das suas vitórias, suas alegrias e seus enganos. Erramos, como todos, tentando acertar. Nossos cientistas ainda lutam por libertar-se da religião que mesmo agora tenta reprimi-los. Nossos estudantes, que combateram pela liberdade de pensamento antes negada, hoje buscam às cegas uma razão existencial em conexões cibernéticas e inovações tecnológicas. Nossas invenções nos dão conforto e – quando não as temos – nos dão a inveja do que existe e não podemos alcançar. Vários avanços são feitos em busca de uma eficiência em tudo, a toda prova e em todos os momentos.

Aprendemos a correr contra um tempo com tantas tarefas, às vezes até conseguimos. Somos obrigados a conviver – mesmo que de longe – com seres estranhos a nossa cultura. Doenças e estrangeiros chegam mais rápidos.

Somos nós, ainda sozinhos, em meio ao caos e a rapidez de uma realidade cada vez mais intensa. Dentro de edifícios com altura para se perderem nos céus, rapidamente engolidos em túneis de metrôs, dissolvidos no ar envoltos pela estrutura do pássaro-avião... Somos nós, apenas.

Caçadores de nossos defeitos, feras à espreita das nossas imperfeições.

Ana Marques

 

 

 

Jurado

Nota

Oswaldo

9,0

Lorenza

9,0

Marco

9,5

Betty

9,7

Luci

9,2

Total

46,4