

|
|
CONCORRENTE |
NOTA 7ª
sem |
NOTA 8ªSEM |
TOTAL |
LOCAL |
NÚMERO
DE VEZES EM QUE ESTEVE NA PRIMEIRA COLOCAÇÃO |
|
1 |
Afonso Cruz |
59,2 |
57,9 |
117,1 |
PORTUGAL |
4 |
|
2 |
Denis Reis |
57,5 |
58,2 MAIOR NOTA DA RODADA |
115,7 |
BRASIL – MG |
2 |
|
3 |
Marcelo Larroyed |
57,8 |
57,0 |
114,8 |
BRASIL – DF |
|
|
4 |
Maria de Fátima |
56,9 |
57,6 |
114,5 |
PORTUGAL |
|
|
5 |
Cinthia
Kriemler |
57,4 |
55,6 |
113,0 |
BRASIL – DF |
|
|
6 |
Gerson Perrú |
57,1 |
55,3 |
112,4 |
BRASIL – DF |
|
|
7 |
Ari Gurcz |
57,6 |
53,8 |
111,4 |
BRASIL – DF |
|
|
8 |
Roberto
Klotz |
54,9 |
56,1 |
111,0 |
BRASIL – DF |
|
|
9 |
Ana Marques |
55,7 |
54,8 |
110,5 |
BRASIL – RJ |
|
|
10 |
Joaquim Bispo |
56,2 |
53,4 |
109,6 |
PORTUGAL |
|
|
PARABÉNS PELA
PARTICIPAÇÃO BRILHANTE |
Ivan Mizanzuk |
54,9 |
51,9 |
106,8 |
BRASIL – PR |
|
|
João
Guimarães |
54,9 |
55,2 |
110,1 |
PORTUGAL |
1 |
|
|
Rodrigo
Fernandes |
54,9 |
53,7 |
108,6 |
BRASIL – DF |
2 |
* Os 4 concorrentes da
última posição disputarão a única vaga para a 9ª etapa, apenas o de maior nota
dentre os 4 seguirá
Crônica 1
Esfrangalhada
Eu que ouso escrever sobre o fenómeno do inglês como língua universal, indago se ele não
terá na base o ter esta língua ficado refém de antigos
vícios. Uma língua que rumou do old english a um meadle english, e, deste, ao inglês que conhecemos, sempre adaptando-se nas bocas de um e outro, mal se dando em
idioma, tantos os dialectos em que se fazia.
Nos primórdios ela terá falado o
linguajar de Celtas. Envolveu-se em latins e cresceu. Ganhou foros de língua que
pensasse, que designasse o conceito e não só o objecto.
Do norte da Europa, os vikings
não lhe trouxeram mais novidade do que deixá-la semelhante, a falar-se com
declinações que irá perder por vários séculos a dar a primazia ao francês dos
normandos.
Já outras línguas eram maduras, com
escritores e poetas, e ela banalizada em linguarejares
multiplicados. Ela sem padrão que se apreciasse que não fosse o muito desfeito inglês antigo.
É pulverizada em muitas que a Imprensa a
encontra. A era da escrita a exigir-lhe e a dar-lhe condições para que se
fizesse entendida em papéis impressos, para que fosse ensinada, como leitura, a
mais gente. É o tempo para que se estruture como língua, que seja coerente,
una. Neste fulgor que é a palavra escrita, impõe-se-lhe
o falar de Londres.
E ela cria-se, reinventa-se.
Canta-a o poeta. Oferta-a com palavras
novas, baralha-lhe os termos e engrandece-os. O mestre de entre todos, a
torná-la madura. A cantar com ela os amores de Romeu e Julieta. A fazer que ela
fosse dita a língua de Shakespeare. Ela
nas falas das bruxas em Macbeth.
Uma língua moderna, com estrutura e alma a dar ao mundo um Hamlet., um Rei Lear.
Caminho aberto a futuros de amantes
preciosos: Charles Dickens, Jane Austen, Arthur Conan Doyle e destaco Whitman de
entre os muitos que fizeram dela poesia no outro lado do mundo.
E eis que a vemos mesclada no palavrear
de navios e minas e portos. Ela na saga da Revolução Industrial. Ela deturpada
por minas e bairros e barcos, falada em tantos portos. A língua inglesa soberana
nessa mudança radical que se deu no mundo.
A língua que ficara na América depois do
apartar do poder de Londres.
Ela sempre adaptando-se,
deixando escorregar para o seu seio termos diversos, tonalidades diferentes que
lhe dão os dialectos nativos. Nem sequer dialectos, pidgins e creoles: ela pelas colónias, baralhada em idiomas
de pretos e de índios e de cafres. Ela a ser falada
pelos boers
e, nos confins do mundo, aonde a coroa enviou os seus marginais.
Ela misturada, cacofónica.
Uma língua elástica, elegante e devassa, passível de sentar-se em qualquer
mesa, em qualquer ambiente, em toda a latitude. Uma língua ajustável.
Uma língua falada pelos homens
importantes, os homens do poder e do negócio um pouco por todo esse mundo, no
império de suas majestades onde o sol
nunca se põe.
Será a língua inglesa a entertecer-se no linguarejar dos
cientistas pesquisando em nome do conhecimento- ou seria da guerra, ou seria
dos homens, ou seria na busca de uma paz desejada. Os homens falando-a como
língua comum no segredo dos Los Álamos.
É ela que deflagra nos céus, a Oriente: Enola Gay , Little Boy , Fat Man. Ela
escrita nas carlingas de aviões e nos bojos de bombas.
A língua inglesa repetida em todo o
mundo: escrita em coisa de paz em embalagem seja ela de sopa rápida ou de uma
conserva, ou em bula de um remédio. Nas instruções de um electrodoméstico
ou de um brinquedo. Do Alasca ao Tibete
Subtil no modo como se introduz nas
línguas de outros povos: Softwares. Hardware. My god. A Hot dog. Please. Thank you. Rock
and roll.
Um verdadeiro boom
Palavras a soltaram-se
de boca em boca, a imiscuírem-se nas línguas de muitos.
Termos prostituindo-a ou endeusando-a?! –
Tenho dúvida na resposta. E no entanto é também nos termos avulsos que ela se
mostra como linguagem entendível pelo mundo.
Ela esfrangalhada, que mais parece, em
vez de uma língua, a súmula de novos dialectos. Seja este
seu predestinado, ou seja o castigo de ser língua de todos poderosos dos que se
consideram senhores do mundo.
Uma manta de retalhos falante, um idioma
desfeito em palavras saltitantes na boca de quem vive no sopé de um monte,
entre neves constantes ou ardendo, como se fosse de febres, por desertos.
O inglês falado por quase todo o mundo. O
inglês do football e da Internet.
O inglês que ficou na Lua e estará pelo
espaço aonde for o homem navegando.
|
Autor: Maria
de Fátima |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Oswaldo |
Crônica muito
boa |
9,7 |
|
Lorenza |
Excelente, apenas um pouco repetitiva no final. |
9,8 |
|
Cida |
Bonita, mas exalta demais, o que empobrece o texto |
9 |
|
Marco |
O começo foi meio irritante, parecia aula, mas, aos poucos, o autor
foi achando o rumo e crônica ganhando em linguagem e interesse. |
9,3 |
|
Betty |
Perfeita, apesar de uma frase que não pareceu fazer sentido. |
10,0 |
|
Luci |
Texto
elegante, em que a língua é devidamente humanizada. “...middle English...” |
9,8 |
|
Total |
57,6 |
|
Crônica 2
Nunca
li Nietzsche
Confesso: nunca li Nietzsche. Podem me xingar, eu mereço.
Para me redimir de tal falha, há alguns meses decidi pedir a indicação de algum livro para um colega filósofo. Ele era descendente de alemães, daqueles de colônia mesmo. Tinha sotaque e tudo. Formou-se em filosofia, carregando ainda o sotaque. Fizera seu mestrado em Nietzsche, lendo no original. Todos achavam que ele era estrangeiro. Era uma fonte perfeita para minhas intenções.
Claro, para pedir a indicação, tive que fingir que já o havia lido. Já tinha citado alguns conceitos nietzscheanos em algumas das nossas conversas de boteco. Aqueles básicos, que todo mundo tem alguma idéia – Vontade, Dionisíaco, Apolíneo, Anticristo, etc. Tais conceitos não são difíceis de se ter acesso. Mas o mínimo que se espera de alguém que cite um autor é que este tenha sido lido! Não era o meu caso.
Em certos círculos sociais, não ler Nietzsche é um pecado inaceitável. Matar o pai seria algo mais plausível. (paçavra inadequada) Aliás, um parricídio poderia ser interpretado como uma vingança kafkaniana. Seria um ato poético. Sou um pecador. Enfim.
Na conversa com o colega, este me recomendara que eu começasse com a primeira obra, O Nascimento da Tragédia. Uma dessas edições novas, traduzidas direto do alemão, muito bem recomendada. Aliás, a “procura pela melhor tradução” foi o motivo, a desculpa perfeita pela qual consegui pedir a dica do livro para meu amigo, sem passar pela vergonha do desmascaramento.
Talvez seja só bobagem minha. Aliás, tenho certeza que é bobagem minha. Não sei qual teria sido o desfecho caso eu confessasse a verdadeira situação. Nesse cenário que montei, consegui a informação que desejava. Me senti vitorioso.
O livro chegara pelo correio finalmente. Comprei por um desses sites de sebos online. A edição estava esgotada, mas a consegui por um bom preço. Receber o livro pelo correio, não pagando muito, foi minha segunda vitória.
Sentei na mesa da sala, como geralmente faço. Minha mulher no computador, resolvendo os assuntos dela. Acendi o cachimbo (ritual básico quando começo a ler) e me preparei para ler o livro inteiro.
Foi pelo passar de algumas páginas que percebi algo terrível: eu não estava lendo coisa alguma. Os termos em alemão, mantidos pelo tradutor (um cuidado para preservar o rigor da produção de conceitos na filosofia) me davam rasteiras atrás de rasteiras. Claro, havia as notas de explicação, muito minuciosas. Mas Nietzsche continuava me driblando.
Certa vez, vi um artigo chamado O Riso de Nietzsche. Pois bem, ele devia estar rindo demais de mim agora.
Não desisti. Não desisto fácil de livros. Sou persistente. Me sinto ignorante, ultrajado, mas não desisto. Fiquei me lembrando de debates que tive sobre ele, ou outros que presenciei. Lembrei daqueles doutores falando do alemão, usando os termos originais. Senti inveja. Essa foi minha motivação. “Vou terminar esse livro e fazer um doutorado nesse cara”, decidi. Quando lemos, sonhamos.
Com o passar das horas, as palavras em alemão passaram a fazer sentido. Minha mulher, que domina a língua, me dava dicas de pronúncia.
Lá pelas 5 da manhã, ela já estava no 19º sono. Eu terminava o livro. Fiquei estupefato. Um sentimento dionisíaco se apossou de mim. Decidi abrir uma garrafa de vinho, sentir o espírito trágico em sua total magnitude. O cachimbo me acompanhava.
Deixei os pensamentos e as palavras em alemão se assentarem em mim por um tempo. Conceitos poderosos, bonitos. Ichneit, Drang, Hintersinn, Erscheinungen, etc. O alemão tornara-se uma língua familiar. Passei a imaginar o que seria a experiência de vivenciar aquela linguagem, e quais os choques simbólicos que ela proporcionaria com o português.
Naquela noite, sonhei que tomava café com Kafka, Nietzsche e Goethe. Discutiam sobre a novela das oito. Eu não acreditava em meus ouvidos oníricos. Uma vendedora se aproximou em determinado momento, oferecendo um vidro de antidepressivos e uma cópia do livro O Segredo. Todos compraram o vidro de remédios e diziam ser grandes fãs do livro.
Acordei assustado. Minha mulher acordou junto, tentando me acalmar. O sol acabava de mostrar seus primeiros raios.
Ela me perguntou o que acontecera. Eu relatei o sonho. Em alemão, para minha surpresa. Ela ficou assustada. Entendeu tudo, mas só porque conhecia a língua. Eu nunca havia conseguido sequer pronunciar direito o nome dos jogadores da seleção de futebol germânica.
Fiquei assim por meses. Os médicos
me estudavam, não sabiam o que eu tinha. Eu, assustado, falava palavras
complicadas, verdadeiros palavrões. Helfen
Sie mir!
(“Me ajudem!”)
Fui ao Bar do Alemão, do lado de casa. Falava na língua nativa. Pedia comidas como a vienna wurst, o Knödel, e bebidas como o Glüwein e Likor. Me tornei parte da comunidade. Me sentia em casa.
Deixei um bigode crescer. Passei a usar suspensórios.
Certo dia, acordei falando Português novamente. Havia me esquecido de todo o alemão. Esqueci das palavras e dos conceitos. Não me lembrava mais do que Nietzsche falava em seu livro. No Bar do Alemão, já não era mais bem-vindo. Por fim, eu não sabia mais quem eu era.
Concluí que o Dionísio de Nietzsche me havia possuído. Me fez experimentar todas as nuances da língua terrível de seu mais notório discípulo. Toda a profundidade de seus conceitos, toda a complexa beleza da língua bárbara. Fez isso para divertir-se. Era o riso nietzscheano em uma manifestação insólita.
Burroughs dizia que algumas palavras funcionam como vírus. Se instalam na nossa mente e nos consomem. Nos deixam loucos. Claro, depende de como reagimos com tais vírus. Cada um tem uma experiência diferente com eles. Será que ele imaginou quais seriam os efeitos de palavras de outra língua?
Continuo sem ter lido Nietzsche. Foi
ele quem me leu.
|
Autor: Ivan Mizanzuk |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Oswaldo |
Crônica muito
boa. |
9,7 |
|
Lorenza |
Frases
começadas por "Me" dão impressão de desleixo, não de coloquialidade. |
9,2 |
|
Cida |
Gostei muito. Mas penso que seja conto |
6,0 |
|
Marco |
Tem humor, algumas
usrpresas e algumas frases que não se
percebe aonde querem chegar. |
9,0 |
|
Betty |
Muito bom. |
10,0 |
|
Luci |
A
transformação é engraçada. A crônica carece de profunda revisão gramatical. |
8,0 |
|
Total |
|
|
Crônica 3
Quem sabe é nois
Rapaz, que coisa. A cada dia que passa vou ficando mais e mais besta, bestão mesmo. Sei que para aqueles do meu convívio é difícil acreditar nisso. Mas é a pura realidade, sempre há espaço para a gente se aprimorar. Ando chegando a umas conclusões e ficando bobo. O mundo é um lugarzinho dos mais complicados e o Homem, não satisfeito com as complexidades está sempre a arrumar idéias que põem o pouco da ordem que existe a perder. Dizem que a necessidade é a mãe da invenção, mentira. O pessoal vive inventando coisas inúteis só para aperrear o juízo de seu semelhante, é a palhaçada pela palhaçada. A sorte é que há sempre alguém de prontidão e preparado para resolver os rocamboles. Sorte que há o Brasil.
Esse negócio da língua, por exemplo. Primeiro era o Verbo – tá na bíblia – negócio dos mais sérios, sagrado e coisa e
tal. Foi só os indivíduos humanos meterem a mão para
começar a cachorrada. Torre de Babel, Deus com ciúme e aquela coisa toda que a
gente já sabe. Bateção de boca da grossa, uma
balbúrdia generalizada. É óbvio que a coisa só piorou, pois trataram de
inventar o latim e dá-lhe missa
Tempos depois, veio a grande mania de afrancesar tudo e tudo ter fru-fru e fazer biquinho e ouvir ópera e dançar ballet. Dizem que Pelotas tem a fama que tem dessa época aí, o povo de lá era mesmo muito antenado nas modas, nos costumes e nas últimas novidades do vasto mundo, deu no que deu. Curiosamente, quando este cronista era apenas um infante estúpido (sendo a estupidez a graça maior dessas adoráveis criaturas) toda vez que ouvia falar em francofonia imediatamente pensava numa língua exclusiva dos frangos. Sabendo eu agora, mais esclarecido pelos anos, que na verdade a tal é a língua das frangas. Isto posto, percebe-se que troquei a ignorância pelo preconceito, enfim, seis por meia-dúzia.
Porém as misses mais belas passam suas faixas e Brasília que era um nada no meio do nada é hoje essa coisa estupenda que a gente sabe e conhece e todo mundo fala, inclusive no estrangeiro. Assim como todas as coisas a moda passou e a americanada chegou com tudo. James Dean, Hollywood, Rock `n `roll, pin-up`s, hot-dog, I love you, I love Lucy, milk shake e por aí vai. E pelo que dizem os sabichões das linguagens, os homens dominaram mesmo e estão em cima até hoje. Não largam o osso e qualquer linguazinha que queira se insinuar além-fronteira os gringos dão um jeito de acabar com o abuso e as graças dos abusados. Dizem até, à boca pequena para não ferir sensibilidades, que o prêmio Nobel que deram para o Saramago, foi mais um cala-boca que um merecimento, por que, no bem da verdade, nem português o português escreve. Onde já se viu português sem ponto parágrafo, sem travessão e cheio de palavras escritas do jeito que ninguém fala ou escreve? Isso lá é português? Português nada. Só se for pras negas dele. Está claro que nossa bobice nessa área, como em todas as outras, é mais de fachada. Aqui já tem muita gente com o ensino médio, antigo segundo grau, eu conheço vários, juro. Meu tio mesmo, esse sujeito excelente que não vale rigorosamente nada. Outro dia conseguiu ler, perfeitamente, as instruções altamente técnicas de um pacote de gelatina sem ficar nervoso nem perder as estribeiras e parar no bar para afogar as mágoas da jumentice, que é o normal dele. É a evolução. Acho que da próxima vez ele já consegue até entender o que leu.
De qualquer forma, não concordo com esse negócio de língua
universal (única língua universal era a da Carlinha, uma amiga minha da época
do ginásio, mas isso nem conto, que hoje ela deve de ser mãe de família). Isso
pode até funcionar aí pra fora. Aqui no Brasil não. Aqui a gente faz o que quer
e o que bem entende. Somos danados a ponto de pegar uma marca, transformar em
objeto e depois
Enquanto o resto do mundo se curva ao nobre idioma bretão, nós vamos revolucionando tudo, e antes que algum derrotista da pátria venha falar que a gente já se rendeu ao Orkut, ao e-mail e ao shopping, já aviso logo que nosso orcútchi é mais embaixo assim como nosso iméil e nosso xópin é nosso e de mais ninguém. Quem sabe é nois. A gente tem até a manha de escrever conforme as regras para provar que aqui ninguém é metido a diferente e melhor que os outros povos e tal, somos humildes pra caramba, dos mais humildes do mundo, senão os mais. Isso já saiu em pesquisa e tudo.
Mas falando é outro papo e não damos mole e falamos tudo aportuguesado
mesmo. E é de se espantar como a galera aqui tem consciência desses assuntos e
diferente do que podem achar por aí quanto mais mocosado
e mais suburbano a pessoa, mais domina isso de fazer gato e sapato da língua
alheia. E tome lã rause e tome selfi service e tome cofe breique. Ninguém tem esse
peito. Com o palavreado estrangeiro não tem conversa, a gente esculhamba,
humilha mesmo.
|
Autor: Rodrigo Fernandes |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Oswaldo |
Foi em
demasia no rumo da ficção. |
8,0 |
|
Lorenza |
O tom escolhido e até a piadinha vulgar
combinaram bem com o conteúdo da crônica. "Orkut"
é turco, não inglês. |
9,8 |
|
Cida |
Gostei, mas tem exageros na brincadeira, texto longo
desnecessariamente |
9,0 |
|
Marco |
Era para fazer humor? Não conseguiu, foi um texto confuso e sem foco,
pueril e pouco convincente como trabalho de linguagem da personagem. |
8,0 |
|
Betty |
Muito bom. |
10,0 |
|
Luci |
Divertido.
Faltou revisão. |
8,9 |
|
Total |
|
|
Crônica 4
Já percebeste, ou queres que te faça um desenho?
Uma das
piadas relativas ao uso da Língua mais recorrentes na minha infância terá sido,
decididamente, “a Língua Portuguesa é muito traiçoeira...”. Dizia-se isto
associado a outra frase, que continha a parte da piada, quase sempre de
conteúdo brejeiro e pernicioso. Coisas do género “quando chego a casa, a cabra
da vizinha está sempre no meu quintal” ou “ a vaca da tua tia tem ar de dar
leite à farta” eram garantias de boas e duráveis gargalhadas. Não inventávamos
nada de novo. Limitávamo-nos a repetir as graçolas que o único humorista
presente nos nossos dois canais de televisão lançava ao serão, reformulando e
recriando a parte ordinária para mostrar que sabíamos palavras novas e que
tínhamos conhecimentos além dos dos nossos amigos. O sucesso era garantido,
sobretudo, porque se tratava de palavras e termos proíbidos pelos bons costumes
que nos ensinavam na escola e na catequese. As palavras que nunca nos ensinam
são sempre aquelas que mais gozo nos dão aprender e são, quase sempre, as de
que fazemos mais alarde.
Dizem os
entendidos que um ser humano completamente desenvolvido, chegado à sua idade
adulta, há-de ter conhecimento de cerca de trinta mil palavras. Esse acervo, na
maioria dos casos, acaba por se revelar inútil, tendo em conta que aquilo que
aprendemos nas nossas carreiras académicas raramente se reflecte no uso diário
ao longo da vida. A parte profissional obriga, invariavelmente, à aprendizagem
de novos termos, específicos. A vida familiar, como situação particular que é,
terá, também ela, um conjunto de signos característicos e diferenciados dos que
usamos na nossa vida social. Nesta última, o conjunto de palavras a empregar
depende sempre do contexto cultural, da intenção do indivíduo, da sua formação
e de mil e uma outras variantes.
Com a
desculpa que as Línguas são organismos vivos e que, como tal, têm o direito de
crescer saudavelmente, aumentando a sua riqueza através da incorporação de
neologismos e estrangeirismos, vamos arcando sempre com mais e mais vocábulos
que, na sua maioria, jamais vocalizaremos.
Achamos
importante discutir a pertinência da inclusão no alfabeto de letras que nunca
usaremos a não ser que, um dia, tenhamos de encomendar por escrito a alguém que
nos compre um kispo. Mais, perde-se tempo a convencer os velhos do Restelo que
as palavras que a mocidade usa hoje em dia, além de serem bués da fixe, têm
todo o direito de figurar no dicionário oficial. Fazemos convenções para
normalizar o uso, mas parece que ninguém se consegue pôr de acordo.
Evoluímos a
cada dia e a cada dia complicamos mais.
No entanto
nem sempre foi assim, ou ainda hoje não é assim em todo o lado.
Os
hieróglifos do antigo Egipto, as várias línguas da cultura Maia, os ideogramas
da China ou do Japão são um bom exemplo de como uma Língua pode ser rica sem
ser, de certo modo, complicada.
A ideia que
uma imagem vale mais que mil palavras será um exagero neste caso, mas aquilo
que os ideogramas contêm poupa uma série delas. Partindo de um signo gráfico
que representa uma ideia ou um som, constrói-se aquilo que se quer transmitir.
Enquanto no Egipto as imagens falavam por si próprias, no Japão dos dias de
hoje estão em uso cerca de 70 ideogramas, que combinados com outros caracteres
dos seus três alfabetos ajudam os nipónicos a fazer passar a palavra. Se para
os Japoneses, que se estima conhecerem cerca de quarenta mil caracteres de kanji - o alfabeto adoptado da China - é
simples a execução de uma frase por este método, para nós, ocidentais modernos,
este processo soa, como se costuma dizer, “a Chinês”.
Sem
conhecimento de causa, sem sabermos usar a Língua dos outros, dificilmente
poderemos avaliar a sua melhor ou pior prestação, adequação ao dia-a-dia ou
facilidade de uso.
Mas também
isso poderá mudar brevemente no maravilhoso mundo das Línguas latinas.
Brevemente, se não já, seremos postos à prova.
Há coisa de
20 anos atrás, uma conhecida marca de bebidas gasosas lançava uma promoção com
a qual, contra a entrega de um número exorbitante de cápsulas das suas
garrafas, oferecia o último grito em tecnologia de comunicação interpessoal. O pager era assim banalizado. Passámos
todos a fazer exercícios mentais para conseguir, de modo económico, dizer
coisas uns aos outros. Era o princípio das mensagens curtas e o início de uma
revolução. Seguiu-se a massificação das comunicações por telefonia móvel e com
ela uma nova era: a das mensagens escritas curtas. Com apenas 160 caracteres
passámos a namorar, a trabalhar, a criar inimigos, a estudar, a fazer projectos
de vida.
Mas 160
caracteres é coisa pouca e o ser humano tem sempre muito que dizer. E a
utilização das normas correntes da Língua não permite um desempenho tão copioso
quanto o nível de ansiedade que a espera pela resposta impõe, sobretudo, aos
jovens de hoje em dia.
Contrariando
aquilo que deles se diz, que inclui coisas feias como ignorantes, desinformados
e até rascas, esta geração está a criar, sem saber, uma nova Língua.
Aquilo que
nos propõem é uma mistura entre o que lhes deixamos de herança, a nobre Língua
de Camões, e o conceito base dos ideogramas dessas culturas distantes, que
muitos nem conhecem.
Passam a
comunicar com palavras inventadas na hora, com letras que não fazem parte
daquela regra, mas que lidas soam à emoção que querem fazer passar. Utilizam as
tais letras, que dizemos não fazerem sentido no nosso abecedário, porque têm um
ar moderno e porque, na maioria dos casos, economizam uma série de outras
letras que no modo tradicional apenas servem para ocupar espaço. Adaptam o
palavreado à sua subcultura e fazem bandeira de terem uma linguagem própria,
como se de uma nova forma de comunicar se tratasse. Porque na maior parte dos
casos quase o é.
A aptação às
novas realidades é certo e sabido gera maiores dificuldades quanto maior for a
antiguidade daquele que entre nesse processo. No meu caso, a conta dos anos que
me separa desta geração não é assim tão grande e, no entanto, cada vez que
tento ler uma dessas mensagens encriptadas, sinto-me virtualmente ignorante. A
última vez que necessitei de comunicar com eles recorri ao filho de um amigo
que, do alto dos seus treze anos. se virou para mim depois da tradução com um
ar altivo de quem pensa “us kota s/ 1 seka” e disse: “Já percebeste, ou queres
que te faça um desenho?”
|
Autor: João Guimarães |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Oswaldo |
Indivíduos
humanos parece coisa
de político de sucesso. A ginga do autor é boa, só precisando de um pouco
mais de elaboração na linguagem. |
9,0 |
|
Lorenza |
Tudo
o que eu sempre quis saber sobre o português de Portugal e não tive coragem
de perguntar: como se pronuncia o "x" de "fixe", na
inigualável expressão "bué da
fixe"? A crônica passa de um assunto a outro sem fazer
conexão, e acaba misturando fenômenos tão distintos quanto o surgimento de
novas palavras e sua notação escrita. Nove entre dez
lingüistas concordarão que nossos pequenos alfabetos fonéticos são
imensamente superiores aos complicados ideogramas e demais sistemas
pictóricos dos quais evoluíram - isto é, prestam-se com muito mais
sucesso ao fim a que se destinam, e podem alcançar um número muito maior de
leitores. Com nosso alfabeto eu posso dizer "bué"
e "fi-e", já com um ideograma não saberia
por que lado da boca começar. |
9,0 |
|
Cida |
Excelente, embora um pouco longa |
9,5 |
|
Marco |
Muito bom, bem sacada, inteligente. |
9,5 |
|
Betty |
Se se tomasse o começo e o final, seria uma
crônica. Mas no meio é um tratadozinho... |
8,8 |
|
Luci |
Bem
escrito, apesar de às vezes ser didático. Não entendi algumas palavras e
expressões. |
9,4 |
|
Total |
55,2 |
|
Crônica 5
Desacordo ortográfico
Minha pátria é a língua portuguesa, disse Fernando Pessoa, aliás Bernardo Soares, com todos os acentos que aquela frase merecia. Essa pátria debate-se agora com o acordo ortográfico.
– O que é que vai ser? – perguntou o empregado do restaurante a um senhor de porte exagerado que pontuava na mesa ao lado da minha.
– Língua de vitela, mas bem passada – respondeu ele. E virando-se para mim:
– É uma ponte entre povos.
– Quem?
– A língua.
– Já reparou – disse-lhe eu – que a língua serve para comunicar, mas também para impedir de comunicar? Quando falamos línguas diferentes, ou em código, impede-se a comunicação. A língua é uma ponte entre culturas do mesmo modo que é um diferenciador. Ter um idioma próprio, ou apenas maneirismos, distingue-nos dos outros, dá-nos uma certa individualidade, um carácter, uma personalidade.
O empregado serviu, nessa altura, a dose de língua que havia sido pedida, acentuada com batatas cozidas e salada de alface. A sublinhar tudo aquilo, um tinto.
– Então está em desacordo com o acordo ortográfico.
– De modo algum. Pelo contrário, estou a favor.
– Está em desacordo.
– Ouviu o que eu disse?
– Não. O senhor fala com demasiadas consoantes mudas. Há que suprimi-las.
Acho que ele não era capaz de distinguir a ortografia da oralidade, não era capaz de ver nenhuma diferença entre a língua escrita e aquela que tinha no prato. De boca cheia, exclamou na minha direcção:
– O acordo unifica! ou o senhor acha, porventura, que a nossa língua deveria dividir-se como a das serpentes? Evolução ou morte! Ponha os olhos no latim. Não acabou nada bem, pois não? Era uma língua com grande declinação para o esquife. É servido?
– Obrigado, mas já almocei.
– Coma – insistiu. – Está magro como uma vírgula.
Recusei outra vez, alegando evitar a carne. Não era verdade, mas era capaz de funcionar.
– Também já fui meio vegetariano – informou-me ele –, mas a outra metade era aquela parte da cintura para cima. Carnívora que só visto. Uma pessoa faz ioga, mas continua com este porte de dicionário enciclopédico.
– Tem de parar de fazer ioga.
– É exactamente o que eu acho. E, como se não me bastasse tanta carne, envelheço. Não há nada pior do que um dia, ao espelho, olhar para mim – que já fui mais bonito do que sou hoje, creia-me – e ver um dicionário enciclopédico desactualizado.
– Repare, hiperbólico amigo, que a reforma ortográfica vai fazer isso mesmo: desactualizar os dicionários que temos em casa.
Ignorou-me e continuou a remexer no seu prato. Apontou-me o garfo e disse:
– Essencial é que a gente se entenda! Existe alguma coisa mais bonita do que duas línguas tão entrelaçadas que é impossível dizer quem é o dono de cada uma? Já me aconteceu. É para ver como sou um Cyrano de Bergerac.
Mostrou-me a língua às voltas pela boca.
Acredito, como o poeta, que a minha pátria é a minha língua, mas tremo perante a possibilidade de ser também a dele. Guimarães Rosa e Eugénio de Castro não mereciam esta afronta.
O homem limpou umas frases ao guardanapo, dos cantos da boca, antes de continuar:
– Sinto que nos devemos libertar dos preconceitos, de certas e determinadas maiúsculas, da consoante surda.
– Muda.
– Isso. É importante mudar, acompanhar os tempos. Quem é que precisa de tremas? Uma pessoa precisa é de comer. Estamos na era espacial, andamos pelos ares em aviões que caem sem motivo, abrimos o livro da vida, temos internet e, no entanto, continuamos a usar maiúscula na palavra “Janeiro”. Será que o tecto vai desabar se o passarmos a escrever teto?
– Quem sabe... olhe o caso de Babel. A torre caiu por algum motivo.
– Atentado. Aquela região não é segura e há muita predilecção – perdoe-me este “c” – por torres. É pena que esteja em desacordo.
– De modo algum. Já lhe disse que não é assim.
Não estou
– É impossível falar consigo – interrompeu ele. – Não nos entendemos. Precisamos mesmo de
uma reforma. É servido?
|
Autor: Afonso Cruz |
||
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Jurado |
Comentário |
Nota |
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Oswaldo |
O inesperado
das tiradas e da forma concreta que por vezes a língua assume, quando escorre
por dentre o oral e a escrita, até o prato, tornam o
texto tão bom quanto a imaginada língua de vitela, bem passada, por certo. |
10,0 |
|
Lorenza |
Estou
servidíssima. |
10,0 |
|
Cida |
Maravilhosa! |
10,0 |
|
Marco |
Interessante, bem escrita e divertida, apenas não foi - nem de longe -
capaz de entusiasmar. |
9,0 |
|
Betty |
Interessante. |
9,5 |
|
Luci |
O humor,
que funcionou tão bem antes, desta vez perdeu o timing, como se o autor estivesse com pressa. |
9,4 |
|
Total |
57,9 |
|
Crônica 6
TRADUZINDO
A capacidade humana de se comunicar é algo simplesmente maravilhoso. Já nascemos com esse dom. Do tatibitati dos bebês aos poemas de Drummond, dos gemidos dos amantes aos brados de guerra, dos discursos dos políticos às bulas de medicamento, tudo nos parece querer dizer alguma coisa.
Desculpe. Exagerei. Esses dois últimos exemplos foram um tanto infelizes.
Precisamos nos comunicar. Dependemos disso como de comida. Aliás, muitos de nós dependem disso para comprar comida.
Tudo bem que alguns passam dos limites do razoável. Há quem pareça respirar pelas cordas vocais: podem prender o fôlego por cinco minutos e sair vivos, mas parece que morrerão se calarem a boca por três. Esses, felizmente, são exceção (creio eu).
Digressões à parte, comunicar é tão essencial ao ser humano que somos capazes de enxergar uma mensagem – humana, divina ou demoníaca – ou um presságio em quase tudo: nas nuvens, nas borras de café, nos búzios, nas cartas, nas previsões dos economistas...
Temos o dom de transformar tudo em algum tipo de linguagem. Lâmpadas acendendo e apagando são capazes de transmitir um pedido de socorro. Pulsos elétricos passam por fios, transformam-se em sons longos ou curtos e, sequenciados, são transferidos para um pedaço de papel, na forma de letras que, concatenadas, formam uma mensagem inteligível. Ou quase. Que o diga Fernando Sabino, com seu Macacos me Mordam.
Pulsos elétricos emitidos contra um circuito extremamente complexo transformam zeros e uns em imagens, sons, vírus e falhas de sistema operacional nos computadores de milhões de empresas e lares diariamente. Esses mesmos pulsos, convertidos em ondas, cruzam os ares sobre as nossas cabeças, fornecendo novelas previsíveis para nossas tevês, programas para nossos rádios e interferências nos sistemas de comunicação dos aeroportos. É o milagre da tradução: essa capacidade humana de transpor o conteúdo semântico de uma linguagem para outra, permitindo que nos comuniquemos com máquinas, animais e, de vez em quando, com adolescentes. O que seria da humanidade sem ela?
Há quem diga que o domínio da linguagem é o que há de mais precioso entre as habilidades humanas. Não posso concordar. Para mim, a mais fantástica habilidade humana é a tradução.
Você pode argumentar que não existe tradução sem linguagem. Mas o contrário, convenhamos, é perfeitamente possível. Você pode fazer com que seu gato entenda onde deve fazer pipi sem, para isso, miar; pode fazer com que seu cachorro aprenda truques sem ter que latir para ele; pode entender a mente feminina sem... Esqueça. Você não pode entender a mente feminina.
A tradução permite que cientistas compreendam os fenômenos naturais; que médicos decifrem, em algarismos impressos em um pedaço de papel, os males que afligem seus pacientes; e que juízes de futebol possam ser xingados em vários idiomas simultaneamente. É responsável por acordos internacionais, projetos de pesquisa científica, multas de trânsito e pontos na carteira de motorista (tem noção de quantas operações de tradução são necessárias até que o Departamento de Trânsito embolse seu suado dinheirinho só porque você entendeu errado aquela luzinha vermelha acesa à sua frente, imaginando que era uma mera sugestão para que reduzisse a velocidade do carro?).
Não vivemos na era da informação. Vivemos na era da tradução. E, dia após dia, vamos aprimorando nossa habilidade em traduzir o que, intencionalmente ou não, nos é transmitido. Como aquele olhar mais prolongado do homem, no momento em que passa por uma mulher atraente; como a discreta arrumada no cabelo com que ela responde; como a cotovelada que ele recebe da namorada, que, ao seu lado, percebe o flerte.
E, quanto mais nos aprimoramos, maiores desafios nos são impostos. Novas linguagens surgem diariamente, novos significados para sinais que antes nos eram familiares, novos usos para palavras que ouvimos desde a infância. Empregada doméstica virou assistente do lar; aeromoça virou comissária de bordo; e delinquência infanto-juvenil virou ato infracional praticado por criança ou adolescente. Psicose maníaco-depressiva passou a se chamar transtorno afetivo bipolar; “oi, gostosa”, agora, é ofensa; e James Bond teve que largar o cigarro e o copo de uísque. Novos tempos, novas ideologias, novas linguagens.
Atualizar-se, hoje, é mais do que dominar novos conhecimentos; é aprender novas linguagens e aprimorar a habilidade de tradução. Precisamos interagir com os bichos, com as pessoas, com as máquinas, com os equipamentos eletrônicos e – cada vez mais – com os adolescentes.
Mas, no meio desse turbilhão de novas formas e meios de comunicação, algumas coisas continuam mais ou menos iguais. O sorriso permanece encantador; o “muito obrigado” é sempre bem vindo; demonstrações de cordialidade ainda são capazes de amenizar as tensões; ouvir, em muitos casos, vale mais do que falar; e entender o outro ainda é o maior dos desafios enfrentados pelo ser humano.
E os advogados permanecem imbatíveis em sua capacidade de
inventar neologismos.
|
Autor: Gérson Perrú |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Oswaldo |
Bordejou o
tema, meramente. |
8,5 |
|
Lorenza |
A idéia da tradução como a mais fantástica
habilidade humana é ótima, mas a crônica poderia prescindir da maior parte
dos parágrafos iniciais, muito óbvios. |
9,0 |
|
Cida |
Bom conteúdo, mas a forma deixa a desejar |
9,2 |
|
Marco |
As tentativas deliberadas de provocar humor soam falsas e não atingem
seu objetivo, humor é mágica, tem que parecer mesmo que o coelho saiu da
cartola. No mais, excelente. Que abordagem completa do tema! |
9,8 |
|
Betty |
Algumas idéias muito originais, no meio de outras muito conhecidas. |
9,5 |
|
Luci |
Texto
leve, de leitura agradável. |
9,3 |
|
Total |
55,3 |
|
Crônica 7
A Língua
Sem vergonha o não
digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque, quem não sabe arte, não na estima.
Luís Vaz de Camões
“Gosto de roçar
a minha língua na língua de Luís de Camões”, cantou Caetano lá pelos oitenta.
Um que sabe a arte do encantar com os sons das palavras produzidas por essa
língua. E nós, encantados, a segui-lo pelos labirintos dos versos bem urdidos
que dão tramas prazerosas nas estrofes de suas canções.
Assim é essa
língua. Apropriada ao canto, que é doce e sonora. E sua sonoridade é mansa como
convêm às cantigas dos que amam e se pretendem amados.
Ou dos que amam em vão, dos que tem saudades.
Já se disse que
a língua que se fala no Brasil é uma espécie de amainamento
do português. Se na origem mais consonantal, mais contraído, cá mais melodioso,
esparrama-se como uma onda morna por sobre os que ouvem, envolvendo-nos
relaxadamente.
Esse
abrandamento serve à jovialidade de Quintana, à
leveza de Vinícius, de Jobim, à métrica medieval de Ariano, ao balanço malemolente de Caymi, o pai.
Sabe, no
entanto, ser dura essa língua, se domada por João Cabral, ou adestrada por Rosa
que a levou a trilhar picadas agrestes, sertanejas.
Sabe-se, ainda,
profunda e cotidiana se conduzida por Drummond, cotidiana
e devassa, deflorada por Rodrigues ou por Hilda.
Traveste-se em concreta, esculpida pelos Campos ou
iconoclasta na voz de Mário ou de Oswald.
Cambaia na fala
da rua, escapa das normas acadêmicas e ganha vida própria. E nos becos e
esquinas reproduz-se, evolui desgarrada, a nossa língua, dos moldes que lhe
pretendemos impor.
Por vivas e
rebeldes, as línguas nos países em que adotamos o português são tão diversas.
Entendemo-nos, sim, mas quão rico é deitarmos os olhos nos escritos dos lusógrafos de outras paragens.
Os da minha rua, de Ondjaki, por exemplo, que relata com os
trejeitos verbais do menino que cresceu na guerra de Angola suas pequenas
vitórias e derrotas e travessuras e medos e afetos, é um passeio pela variação
africana.
É incitante navegar pelas
corredeiras frasais desenfreadas de Saramago, pelos devaneios metafóricos de
Lobo Antunes, pela voz intimista de Inês Pedrosa. É desafiador desbravar Camões.
Saber-me
herdeiro da língua dos Luizes, dos Carlos, dos Josés e Joões, dos Antônios e Antónios, me conforta
menos que me instiga. Instiga-me a provar um pouco de cada, a aceitar suas
influências e incorporar seus despojos.
Assim, com ou
sem decretos, com acordos ou dissensos, o Português seguirá vivo. Portugueses,
talvez.
|
Autor: Ari Gurcz |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Oswaldo |
Texto curto |
8,5 |
|
Lorenza |
Simpática, mas muito previsível. |
8,8 |
|
Cida |
Esbanja conhecimento, mas não está criativa |
9,0 |
|
Marco |
Excelente! |
10,0 |
|
Betty |
Faltou muito para ter o tamanho de uma crônica... |
9,5 |
|
Luci |
Crônica
apressada, em que também faltou revisão gramatical. |
8,0 |
|
Total |
53,8 |
|
Crônica 8
UMA
Na
Posso
A
Se os
Creio
– É
A
|
Autor: Denis Reis |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Oswaldo |
Boa cronica |
9,3 |
|
Lorenza |
Despretensiosa,
põe o dedo nas várias feridas do esperanto. Um conhecido alemão, residente no
Brasil, explicou-me assim por que optou por ensinar inglês ao filho pequeno,
ao invés do alemão - que seria muito mais difícil para o menino aprender mais
tarde: "passei parte da infância e toda a adolescência nos Estados
Unidos, foi nessa língua que vivi meus afetos". Bingo. |
10,0 |
|
Cida |
Linda, muito criativa |
10,0 |
|
Marco |
Divertida, humor real, só sugiro umas palavras em esperanto, por
exemplo, na briga de trânsito, pois teriam feito a
diferença em humor. |
10,0 |
|
Betty |
Muito bom. |
10,0 |
|
Luci |
Divertido,
mas irregular. Revisão gramatical. “...a mais bem-sucedida...” |
8,9 |
|
Total |
58,2 |
|
Crônica 9
Achttausendachthundertachtundachtzig
Você gosta de congestionamento? Alguém gosta? No pára e anda do trânsito, é difícil de fazer qualquer outra atividade além de falar escondido no celular. A minha preferência, numa sala de espera, é um livro. Não estava numa sala de espera. Estava dentro de um carro e dirigindo. Sem a menor chance de ler um livro. Só me restava ligar o meu Blaupunkt. Isso parece palavrão, mas é apenas a marca do rádio do meu Volkswagen.
Para meu alívio a música é brasileira. Caetano Veloso é brasileiro, mesmo
quando faz rock, rumba ou foxtrot.
Com seu jeito moleque também faz rap. Só mesmo Caetano para gostar de roçar a
língua na de
Está provado que só é possível filosofar em alemão?
Ah, meu amigo, você é um pensador polêmico por natureza. E, por isso mesmo, sou obrigado a discordar de você. Filosofar não está entre as minhas 50 preferências. Confesso que preferiria andar de bicicleta ou chupar uma laranja. Mesmo que uma coisa nada tenha a ver com outra.
Dizem que filosofar é questionar. No momento, a dúvida mais importante que me abala é saber se posso devorar a bomba de chocolate da geladeira daqui a 15 minutos ou se devo comê-la agora mesmo.
Observe que todos os meus pensamentos, por mais desconexos, foram
elaborados
Siemens,
Kombi, Johann Faber, Odebrecht, Blitz, Führer. Têm utilidade quando dizemos que o transporte do apontador da obra foi surpreendido numa barreira policial e será punido pelo chefe ditador.
Friedrich Nietszsche, Bunker,
É sensato pensar que tudo seria diferente se Nietzsche tomasse água de coco, na lagoa de Abaeté, ouvisse Ivete, Claudia Leite e axé, comesse vatapá, cururu e acarajé. Então faria letras e músicas sensuais para mulatas como a Juliana Paes e outros simples mortais.
O germânico gosta de grudar palavras, umas nas outras para escrever
palavrão. Nos números são mestres. Tente dizer 8888, achttausendachthundertachtundachtzig.
Remexendo um bocadinho e percebendo nas palavras todo o jeitinho, Caetano
não queria que eu filosofasse
Caetano está com a razão, filosofar, jamais em português, só em alemão.
|
Autor: Roberto Klotz |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Oswaldo |
“Gingar
capoeiras e rebolar malandragens” – gostei. O jogo com “roçar a língua” e
“provado” também é muito bom. |
10,0 |
|
Lorenza |
Divertida,
procurou um jeito diferente de dizer o que todo o mundo diz: que alemão
é duro e difícil. O final ficou meio apressado. |
9,2 |
|
Cida |
Muito bem escrita, mas não gostei do autor acabar concordando com
Caetano. |
9,0 |
|
Marco |
Divertida e competente. |
9,6 |
|
Betty |
Curta, mas completou o
pensamento. Faz rir. Isto é uma
enorme qualidade, numa crônica. |
9,5 |
|
Luci |
O texto
aborda o assunto de forma tangencial e apressada. |
8,8 |
|
Total |
56,1 |
|
Crônica 10
Língua? Que língua?
Língua? Que língua? De qual língua vocês esperam que eu fale? Da que me encanta os ouvidos quando bem falada, da que me empresta as palavras para eu jorrá-las em versos?
Essa língua não me encanta mais! Verdade! Criei desilusão dos fonemas escondidos, dos sujeitos sem predicados, dos acentos que partiram ao sabor dos sábios. Não, dessa língua eu abri mão mesmo! Não posso deixá-la a vocês em herança, porque não me pertence. Eu a recebi, também, doada.
Mas se vocês me permitirem eu os convido a conhecer outra língua. Essa outra, descobri por acaso, enquanto andava por aí à toa. Por acaso foi só o nosso encontro; a adoção foi por vontade mesmo.
Aconteceu assim. Eu me esbarrava nela em todo canto, de norte a sul, como se fosse assim da vontade da vida que a gente se conhecesse mais a fundo. Primeiro, foi um sincopado tônico, seguido de um cantarolar preguiçoso e de um anasalado ácido repleto de vogais salientes. Depois, me encontrei de namoro com Ochs, Uais, Viches e Bahs, caí de amores pelos encantos importados dos agudos que substituíam circunspectos circunflexos, e acabei na cama com um dialeto esquisito que repetia um mantra emocionado: “Eita, eita, eita, eita”. E o que mais resta depois da cama do que nos apresentarmos?
- Prazer, eu sou ...
- Psiu! Tu não vai me dizer teu nome, vai? Deixe de bestagem!
E foram tantos acentos novos, tantas corruptelas engraçadas, tantos verbos despejados de seus tempos e separados das pessoas às quais antes pertenciam que, ao final de um mês, eu decidi: me mudei de malas vazias para o mundo.
Foi mais difícil do que pensei, confesso. Demorei a entender que era eu o estranho, que era eu a minoria, que era eu o pária. Até que a verdade me deflorasse por inteiro, eu me diverti na ignorância de corrigir pessoas, de ensinar conjugações, de acreditar que eu estava ali para reformar pessoas, palavras e atos.
A língua, aquela que lhes doei ainda no primeiro ou no segundo parágrafo, passou a me perseguir dia e noite, implorando para voltar. Queria recomeçar comigo uma vida a dois, sem nada que atrapalhasse nossos planos de um futuro de cultura e esplendor. Aquele grude inesperado teve efeito contrário: abri a porta e lhe pedi que não voltasse mais.
- Você vai se arrepender! Quem é você para pensar que pode viver sem mi?
Eu lhe pergunto, então: de que serve uma casa vazia se não for para dar festas? Convidei, para aquela mesma noite, uns brasileiros bem engraçados para me fazer companhia. Sem flexões, sem pausas, sem pontuações. Não tiveram tempo de conhecer a língua, aquela que eu mandei embora esbravejando. Graças a Deus!
Mas quase me
esqueço que os convidei a andar comigo pela folha branca para lhes apresentar
outra língua. Uma que recebe abraços calientes dos hermanos que a rodeiam, assediando-lhe a beleza. Uma que se
faz cada vez mais nova e reformada
Pois que fiquem vocês aí com essa qualquer a quem só chamam “língua”. A minha, a que lhes apresento agora, tem nome e sobrenome, como cabe às senhoras de respeito.
Senhores, tenho a honra de lhes apresentar a Língua
Portuguesa.
|
Autor: Cinthia Kriemler |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Oswaldo |
Muito boa |
9,5 |
|
Lorenza |
Parece
que o Velho Mundo chegou atrasado para a festa e ficou num canto, meio sem
jeito, lá perto da saída. Ao longo da crônica tudo indicava que o leitor
seria apresentado à Língua Brasileira. |
9,3 |
|
Cida |
Bonita, mas superficial |
9,0 |
|
Marco |
Muito bom, desigual, começa muito bem, se perde no miolo, mas volta a
agradar no fim. |
9,4 |
|
Betty |
Também muito curta, e ainda assim muito interessante. |
9,5 |
|
Luci |
A melhor
parte é aquela em que o autor enaltece a língua falada. O final é confuso. |
8,9 |
|
Total |
55,6 |
|
Crônica 11
O que quer. O que pode esta língua?
- O português é uma língua dura.
Eu sou daquelas pessoas que se perde numa livraria, completamente deliciada entre tantos e diferentes livros. Poesia, talvez? Auto-ajuda, nem pensar! Filosofia, ficção científica, prosa, contos, romances... Estava tão entretida entre títulos e sinopses, que demorei para processar a informação que tinha-me sido dada.
Olhei para minha amiga, que tinha me acompanhado à livraria e que era autora da frase que me parecera tão disparatada.
- Como é que é? – perguntei fixando-a.
- Isso mesmo. – ela reafirmou – O português é uma língua dura, assim como todas as línguas latinas.
Minha amiga é
professora de inglês, e das boas, quando estamos juntas, volta
e meia percebo que ela recorre a alguma expressão estrangeira para se
fazer entender. No entanto, ouvir essa afirmativa me pegou desprevenida.
Sempre imaginei que esse recurso utilizado por ela fosse pelo fato de seu
pensamento funcionar
Olhei os volumes, cheia de dúvidas. Caetano, complacente com as minhas questões, cantava nas caixas de som da loja:
“O que quer
O que pode
Esta língua?”
Eu me fazia a mesma pergunta.
Da estante, Clarice
Lispector me sorriu. Meus dedos percorreram as brochuras e retiraram um de seus
livros. Seus belos olhos pintados conversaram comigo: “Esta é uma
declaração de amor: amo a língua portuguesa.”
- Declaração de amor, Clarice? Mas por que amaria essa língua tão presa, tão cheia de veneno e cortada? – retruquei.
Ela ria.
“Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi
profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter
sutileza e de reagir às vezes com um pontapé contra os que temerariamente ousam
transformá-la numa linguagem de sentimento de alerteza.
E de amor.”
Clarice traduzia meu coração. Exaltava a qualidade da língua naquilo que ela teria de mais fraca, complexa, compulsiva. Eu a ouvia, entre a exasperação e o enlevo.
- Mas você é escritora. Renomada, genial! Para você é fácil compreender a nossa língua-mãe.
Seus olhos continuavam carinhosos. Seu rosto era sereno.
“A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem
escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a
primeira capa do superficialismo.”
O tapa inesperado veio naquela
frase. Foram doces os seus termos, foi doído o meu sentimento de compreensão
que a superficialidade era minha e que era eu que precisava rever os meus
textos, as minhas construções, o meu domínio da língua que pensava falar.
Ela continuou seu discurso,
impassível.
“Às vezes assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto
de manejá-la – como gostava de estar montado num cavalo e guiá-lo pelas rédeas,
às vezes lentamente, às vezes a galope.”
Seria o idioma um cavalo bravio
a ser domesticado? Ou seria eu, a amazona destreinada,
que deveria ser adestrada? Seríamos nós, usuários ausentes das nuances de
nossas próprias palavras, que precisaríamos ir além do óbvio?
“Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um
Camões e outros iguais não bastaram para nos dar uma herança de língua já
feita. Todos nós que escrevemos, estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma
coisa que lhe dê vida.”
- Um jazigo para depositar
pensamentos. Um local onde o renascimento se dará pela decomposição do que foi
pensado. Estamos criando exatamente agora, Clarice, enquanto refletimos?
Enquanto eu reconstruo o que me contas?
“Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do
encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de
herança não me chega.”
Nesse momento compreendi.
Ela falava sobre fazer parte
da criação da língua. Se sentir UMA com as palavras tão ardorosamente
procuradas e encaixadas. Cinzelar a exaustão cada vírgula para que o sujeito
seja perfeitamente visível. Recrutar predicados para que os ouvintes ou os
leitores consigam tocar o personagem que se criou, esteja ele presente na
história contada para crianças, no fato passado, na tradição familiar, na
conversa banal no elevador.
“Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me
perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso
e belo.”
Ah sim! Eu havia entendido.
Estava com Clarice em meu coração, a paz circundando meus ágeis dedos de cronista, uma virtude tranqüila entre os atributos conquistados. Pelos seus olhos, eu tinha enxergado meu idioma. Pela sua tinta, eu tinha enxergado o mais básico sobre a minha inspiração. E foi com o meu sentimento na voz de Clarice que a defesa da língua criou raízes em sua frase final:
“Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se
absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever
Eu estava acompanhada por
poetas e literatos de todos os calibres, cercada por todos os lados pela
cultura que ajudava a manter e recriar. Suas rimas e metáforas me escoltavam
sem descanso. Não me sentia sozinha na minha paixão, na minha crença.
Uma língua que exige tanto
empenho e que, em troca, dá tanta riqueza pode calçar seu caminho para qualquer
destino. Pode recompor sua fortuna. Pode ser mãe de uma nova versão de si
mesma.
* os trechos em itálico
citados de Clarice Lispector fazem parte do texto “Declaração de Amor” e estão
no livro “A Descoberta do Mundo”.
|
Autor: Ana Marques |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Oswaldo |
Muita
Clarisse e pouca cronista. A solução de se apoiar na Escritora é inteligente,
mas poderia ter se utilizado menos de suas citações. Um diálogo imaginário
com Clarisse não tiraria o “quê” de crônica do texto. |
9,2 |
|
Lorenza |
O
cronista permitiu que a voz de Clarice abafasse a sua. Teria sido mais
interessante escolher um mote e seguir dali sozinho. |
8,5 |
|
Cida |
Bela crônica |
10,0 |
|
Marco |
Bom, mas não consegue ser original e termina por ser um pouco
cansativa a apenas citação de Clarice. Nunca imaginei que alguém conseguisse
me irritar com Clarice Lispector. |
9,1 |
|
Betty |
Valeu pela pesquisa... é difícil adaptar-se
ao pensamento de outra pessoa. |
9,5 |
|
Luci |
O início
da crônica está deslocado. As citações de Clarice ao longo do texto o tornam
cansativo. |
8,5 |
|
Total |
54,8 |
|
Crônica 12
Um problema de sedução
Uma língua tem um comportamento semelhante a um ser vivo, ou antes, a uma espécie viva: evolui a partir de uma antepassada, ganha massa crítica de falantes, autonomiza-se, cria rebentos semelhantes, pode ficar isolada, definhar e morrer. Hoje, existem cerca de seis mil línguas, fora os dialectos, mas todos os anos desaparecem cerca de dez. Com elas perdem-se os tesouros culturais que veiculavam. E, da mesma maneira que as espécies, uma língua, uma vez extinta, não reaparece mais. O limite da sobrevivência situa-se por volta dos cem mil falantes. Na História humana terão já desaparecido mais de vinte mil línguas. Algumas, pelo contrário, sobrevivem há mais de dois mil anos. O segredo do sucesso parece ser o grande número de falantes. Como o número de indivíduos nas espécies, o número de indivíduos que usa uma língua assegura-lhe a continuidade.
Nesse ponto, o Português, com os seus 250 milhões de falantes, tem boas condições de sobrevivência e até de expansão. Só o Brasil tem quase 200 milhões. Outros milhões são falados em grandes países africanos com excelente potencial de crescimento. É uma das nove línguas que, só elas, congregam metade da população mundial. É como uma espécie endémica; o seu êxito é inquestionável. Evoluiu do latim, a partir do regionalismo galaico-duriense, e conseguiu constituir-se como língua autónoma, apesar do convívio virulento com o castelhano. As virtualidades que lhe deram nascimento podem ser também as que a ameaçam. Como os tentilhões de Darwin cujas populações insulares evoluíram de maneira díspar devido ao isolamento forçado, as diversas populações de falantes do Português, separadas por oceanos e sujeitas à deriva linguística inevitável numa actividade eminentemente cultural, podem correr o risco de desenvolver línguas-filhas, afastadas da origem e entre si. Nesse aspecto, os acordos ortográficos são, para a unidade da língua, como as selecções de cruzamentos e de ninhadas são, para os criadores de animais domésticos: fortalecem, artificialmente, as características de resistência desejadas. Parece, no entanto, que, mais que acordos linguísticos, o que fortalece a unidade de uma língua é que os seus falantes, por mais dispersos e distantes que se encontrem, a usem, a oiçam, a leiam numa plataforma comum que, não sendo homogénea, seja entendida como familiar — como os diversos timbres e modas vocais entre os membros de uma família são entendidos como familiares e não língua estranha.
Outra estratégia de preservação e expansão é a disseminação. Enquanto as plantas desenvolveram estratégias de dispersão de esporos e sementes, faixas das populações que falam o Português, devido ao fado secular da pobreza, têm sido obrigadas a emigrar, levando consigo a semente linguística. Esta estratégia, embora tenha criado, ao longo dos séculos, bolsas de falantes da língua de Camões, parece ter como resultado não mais que um enquistamento das primeiras gerações, e que uma permanência linguística forçada pela tradição, entre gentes remotas. A imigração, pelo contrário, tem criado populações que se vêem contaminadas pela língua de acolhimento. Actualmente, Portugal terá umas centenas de milhares de imigrantes do leste europeu, atraídos por uma economia que, apesar de tudo, é mais pujante que a dos seus países. Um estado de bom desenvolvimento económico, que atraia imigrantes de países menos favorecidos, é vantajoso para o conhecimento e expansão da língua.
No económico reside uma grande parte do poder
de uma língua no confronto com outras línguas. O sucesso do Inglês reside muito
na racionalidade e na simplicidade gramatical dessa língua e na brevidade da
maior parte das suas palavras, mas deve-o sobretudo ao poder económico dos países que o usam. Esse poder impõe-o nos fóruns internacionais, nas agências de notícias
e no entretenimento. Há miúdos, pelo mundo fora, a entender o Inglês desde os
três ou quatro anos. O cinema introduz anglicismos na linguagem de todos. O
Inglês é um macho alfa
Na selecção natural não há só competição; as simbioses e outras formas de cooperação são modos de organização que podem desencadear os resultados desejados. Por exemplo, conseguir que outros países tratem o Português como segunda língua, e vice-versa, é uma estratégia de cooperação que pode produzir bons frutos.
A força do audiovisual é enorme. No fim dos anos 70 foram introduzidas as telenovelas brasileiras em Portugal, o que criou uma moda
temporária de vogais abertas. Essas contaminações internas ao Português são
desejáveis, porque permitem homogeneizar mais a língua. Seria desejável um
intercâmbio alargado de produções televisivas e cinematográficas entre os
espaços do Português, o que o económico ainda trava.
Lá chegaremos. De importância menor mas não despicienda,
está a palavra escrita. Uma literatura pujante em
Português seria a cereja em cima do bolo linguístico.
Tornar a palavra aliciante é a melhor estratégia de
sedução.
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Autor: Joaquim Lopes |
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Jurado |
Comentário |
Nota |
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Oswaldo |
Parece um
artigo de divulgação científica. |
8,5 |
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Lorenza |
A
metáfora, que é boa mas não é nova, teria permitido ao cronista enxugar
os trechos mais didáticos. |
9,0 |
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Cida |
Boa crônica, mas muito séria, ensaística. |
9,0 |
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Marco |
Bom, mas não consegue empolgar. |
9,2 |
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Betty |
É um pequeno ensaio, com uma conclusão edificante... |
9,0 |
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Luci |
Apesar
da excelente redação, o texto é muito didático e se aproxima do ensaio. |
8,7 |
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Total |
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Crônica 13
A LÍNGUA VAI AO LEGISTA
Para compreendermos por que nossos
alunos vão à escola como quem vai ao Instituto Médico Legal, é necessária uma
rápida digressão.
Somos todos bilíngües. Não, não
falo do inglês como a segunda língua, até porque, sabe-se,
os cursinhos para esse idioma são a mais dispendiosa maneira de aprendermos o
Esperanto, mesmo que os menos ambiciosos se satisfaçam com traduzir a letra de
uma canção da Hanna Montana.
Bilíngües, sim, pois são duas as
línguas correntes no Brasil: o Português Culto e o português falado.
O Português Culto, cujo habitat são nossas instituições educacionais, é o dândi da nossa cultura, sempre orgulhoso de sua supremacia
sobre o primo pobre, o português falado. Para exercer esse domínio ele procura
afastar-se do português popular, usando em seu auxílio um dialeto denominado gramatiquês,
do qual fazem parte o gênero-comum-de-dois, a proparoxítona, a mesóclise, a parênquise, o hiato, o zeugma e
outros bichos dessa fauna geneticamente modificada. É como se ao parente rico
não bastasse morar num bairro nobre e distante da periferia, mas tivesse sua
casa incrustada num condomínio de luxo, protegido por vigias armados, câmeras
de segurança e cerca elétrica. Impenetrável à plebe.
Assim, conseguimos o prodígio de
sermos analfabetos e poliglotas a um só tempo. Praticamos o português falado
para nos comunicar e praguejar contra os políticos, enquanto não conhecemos lhufas do Português Culto, cujo mantra
repetitivo e incompreensível é todos os dias entoado nas escolas.
Dado esse prólogo, agora sim
poderemos compreender a conexão entre a necropsia e a análise sintática. É
outra das estratégias do Português Culto.
Não sei ao certo se é de Voltaire
ou de Drummond a máxima de que “escrever é a arte de cortar palavras”. Entre
nós, desde os pais fundadores de nossa educação, os circunspectos
jesuítas, até o prófi
mais brother
da mais modernosa escola contemporânea, a didática favorita
é a de colocar a língua sobre uma mesa de cirurgia, amolar o bisturi e... corta-que-corta!
O ensino como cirurgia aproxima
professores e médicos – ambos são loucos por incisões! Os educadores então
arrancam as palavras de seu contexto, partem-nas, colam em cada pedaço um
rótulo bizarro e exigem dos alunos apenas o
engajamento mnemônico.
Ora, à cirurgia num organismo morto
chama-se dissecação, e à dissecação em corpo vivo denomina-se tortura – então é tortura o que têm feito com as pobres criaturinhas chamadas
palavras.
E é isso que vemos hoje. As belas construções
do português serem reduzidas a ratos de laboratório, torturadas
e mortas à vista dos alunos, sob a alegação de um alto valor comum. Nesse
aspecto, até por falta de perícia, os professores tem sido mais torturadores
que legistas.
Esse procedimento assemelha-se a
aprisionar um vagalume por ser tão belo e por
iluminar, amputar-lhe uma a uma as patinhas, arrancar-lhe a cabeça e num último
gesto esmagar-lhe o tronco, para enfim, à vista dos pedaços, bradar
um falso eureka:
– Como é belo e luminoso um vagalume!
Há um quê de macabro no estudo da
língua em nossas escolas.
A diferença entre o português
popular, falado nas ruas e discutido nos bares, e o português-de-casaca
do padrão culto pode ser elucidada a partir da seguinte pergunta: – Eu,
estudioso da língua, como vou me destacar no que faço se todos perceberem que
meu ofício é simples, que qualquer um é capaz de fazer o que faço?
Aí entra o “discurso da
autoridade”, engendrado para velar mais que desvelar. A linguagem hermética do
especialista afasta os curiosos. E lembremo-nos da
advertência do dramaturgo George Bernard Shaw sobre o
especialista: "é aquele sujeito que sabe cada vez mais sobre cada vez
menos, até que chegará a saber completamente tudo sobre absolutamente
nada".
Há poucos dias minha filha de nove
anos mostrou-me seu dever de casa, elaborado por algum Joseph Mengele da língua, pois exigia das crianças, dentro da
famigerada análise sintática, o reconhecimento, num período, de coisas tão
bizarras quanto uma certa oração subordinada substantiva
objetiva direta reduzida de infinitivo.
Por isso é que, entre ser professor
ou legista, opto por ser apenas falante.
Que me cortem a língua se estou
mentindo.
|
Autor: Marcelo Larroyed |
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Jurado |
Comentário |
Nota |
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Oswaldo |
Crônica
monótona. |
8,0 |
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Lorenza |
Com
minha conhecida ojeriza à análise sintática (sim, eu sei que dizem que serve
para alguma coisa!), fiquei meio constrangida de dar nota máxima.
Mas, comparando a naturalidade do cronista com o modo como meninos e
meninas ensinados por esse "método" andam escrevendo por aí, o
constrangimento passou. |
10,0 |
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Cida |
Gostei muito, mas
ressalvo que a gramática reflete a estrutura da língua e não
tem ‘fala” sem estrutura, portanto a crítica precisa ser mais objetiva, para não criar preconceitos. |
10,0 |
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Marco |
Bom e competente. |
10,0 |
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Betty |
Defesa interessante. |
9,0 |
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Luci |
Aqui
cabe o superlativo: saborosíssima. “Os professores
têm sido...” |
10,0 |
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Total |
57 |
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