Minha Pátria é Minha Língua

 

Minha Língua é Minha Pátria

 

 

 

 

CONCORRENTE

NOTA

7ª sem

NOTA

8ªSEM

TOTAL

LOCAL

NÚMERO DE VEZES EM QUE ESTEVE NA PRIMEIRA COLOCAÇÃO

1

Afonso Cruz

59,2

57,9

117,1

PORTUGAL

4

2

Denis Reis

57,5

58,2

MAIOR NOTA DA RODADA

115,7

BRASIL MG

2

3

Marcelo  Larroyed

57,8

57,0

114,8

BRASIL DF

 

4

Maria de Fátima

56,9

57,6

114,5

PORTUGAL

 

5

Cinthia Kriemler

57,4

55,6

113,0

BRASIL DF

 

6

Gerson Perrú

57,1

55,3

112,4

BRASIL DF

 

7

Ari Gurcz

57,6

53,8

111,4

BRASIL DF

 

8

Roberto Klotz

54,9

56,1

111,0

BRASIL DF

 

9

Ana Marques

55,7

54,8

110,5

BRASIL RJ

 

10

Joaquim Bispo

56,2

53,4

109,6

PORTUGAL

 

 

PARABÉNS PELA PARTICIPAÇÃO BRILHANTE

Ivan Mizanzuk

54,9

51,9

106,8

BRASIL PR

 

João Guimarães

54,9

55,2

110,1

PORTUGAL

1

Rodrigo Fernandes

54,9

53,7

108,6

BRASIL DF

2

 

* Os 4 concorrentes da última posição disputarão a única vaga para a 9ª etapa, apenas o de maior nota dentre os 4 seguirá

 

 

Crônica 1

Esfrangalhada

 

Eu que ouso escrever sobre o fenómeno do inglês como língua universal, indago se ele não terá na base o ter esta língua ficado refém de antigos vícios. Uma língua que rumou do old english a um meadle english, e, deste, ao inglês que conhecemos, sempre adaptando-se nas bocas de um e outro, mal se dando em idioma, tantos os dialectos em que se fazia.

Nos primórdios ela terá falado o linguajar de Celtas. Envolveu-se em latins e cresceu. Ganhou foros de língua que pensasse, que designasse o conceito e não só o objecto. Do norte da Europa, os vikings não lhe trouxeram mais novidade do que deixá-la semelhante, a falar-se com declinações que irá perder por vários séculos a dar a primazia ao francês dos normandos.

Já outras línguas eram maduras, com escritores e poetas, e ela banalizada em linguarejares multiplicados. Ela sem padrão que se apreciasse que não fosse o muito desfeito inglês antigo.

É pulverizada em muitas que a Imprensa a encontra. A era da escrita a exigir-lhe e a dar-lhe condições para que se fizesse entendida em papéis impressos, para que fosse ensinada, como leitura, a mais gente. É o tempo para que se estruture como língua, que seja coerente, una. Neste fulgor que é a palavra escrita, impõe-se-lhe o falar de Londres.

E ela cria-se, reinventa-se.

Canta-a o poeta. Oferta-a com palavras novas, baralha-lhe os termos e engrandece-os. O mestre de entre todos, a torná-la madura. A cantar com ela os amores de Romeu e Julieta. A fazer que ela fosse dita a língua de Shakespeare. Ela nas falas das bruxas em Macbeth. Uma língua moderna, com estrutura e alma a dar ao mundo um Hamlet., um Rei Lear.

Caminho aberto a futuros de amantes preciosos: Charles Dickens, Jane Austen, Arthur Conan Doyle e destaco Whitman de entre os muitos que fizeram dela poesia no outro lado do mundo.

E eis que a vemos mesclada no palavrear de navios e minas e portos. Ela na saga da Revolução Industrial. Ela deturpada por minas e bairros e barcos, falada em tantos portos. A língua inglesa soberana nessa mudança radical que se deu no mundo.

A língua que ficara na América depois do apartar do poder de Londres.

Ela sempre adaptando-se, deixando escorregar para o seu seio termos diversos, tonalidades diferentes que lhe dão os dialectos nativos. Nem sequer dialectos, pidgins e creoles: ela pelas colónias, baralhada em idiomas de pretos e de índios e de cafres. Ela a ser falada pelos boers e, nos confins do mundo, aonde a coroa enviou os seus marginais.

Ela misturada, cacofónica. Uma língua elástica, elegante e devassa, passível de sentar-se em qualquer mesa, em qualquer ambiente, em toda a latitude. Uma língua ajustável.

Uma língua falada pelos homens importantes, os homens do poder e do negócio um pouco por todo esse mundo, no império de suas majestades onde o sol nunca se põe.

Será a língua inglesa a entertecer-se no linguarejar dos cientistas pesquisando em nome do conhecimento- ou seria da guerra, ou seria dos homens, ou seria na busca de uma paz desejada. Os homens falando-a como língua comum no segredo dos Los Álamos.

É ela que deflagra nos céus, a Oriente: Enola Gay , Little Boy , Fat Man. Ela escrita nas carlingas de aviões e nos bojos de bombas.

A língua inglesa repetida em todo o mundo: escrita em coisa de paz em embalagem seja ela de sopa rápida ou de uma conserva, ou em bula de um remédio. Nas instruções de um electrodoméstico ou de um brinquedo. Do Alasca ao Tibete

Subtil no modo como se introduz nas línguas de outros povos: Softwares. Hardware. My god. A Hot dog. Please. Thank you. Rock and roll.

Um verdadeiro boom

Palavras a soltaram-se de boca em boca, a imiscuírem-se nas línguas de muitos.

Termos prostituindo-a ou endeusando-a?! – Tenho dúvida na resposta. E no entanto é também nos termos avulsos que ela se mostra como linguagem entendível pelo mundo.

Ela esfrangalhada, que mais parece, em vez de uma língua, a súmula de novos dialectos. Seja este seu predestinado, ou seja o castigo de ser língua de todos poderosos dos que se consideram senhores do mundo.

Uma manta de retalhos falante, um idioma desfeito em palavras saltitantes na boca de quem vive no sopé de um monte, entre neves constantes ou ardendo, como se fosse de febres, por desertos.

O inglês falado por quase todo o mundo. O inglês do football e da Internet.

O inglês que ficou na Lua e estará pelo espaço aonde for o homem navegando.

Autor:  Maria de Fátima

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Crônica muito boa

9,7

Lorenza

Excelente, apenas um pouco repetitiva no final.

 

9,8

Cida

Bonita, mas exalta demais, o que empobrece o texto

9

Marco

O começo foi meio irritante, parecia aula, mas, aos poucos, o autor foi achando o rumo e crônica ganhando em linguagem e interesse.

9,3

Betty

Perfeita, apesar de uma frase que não pareceu fazer sentido.

10,0

Luci

Texto elegante, em que a língua é devidamente humanizada.  “...middle English...”

 

9,8

Total

57,6

 

Crônica 2

Nunca li Nietzsche

 

            Confesso: nunca li Nietzsche. Podem me xingar, eu mereço.

            Para me redimir de tal falha, há alguns meses decidi pedir a indicação de algum livro para um colega filósofo. Ele era descendente de alemães, daqueles de colônia mesmo. Tinha sotaque e tudo. Formou-se em filosofia, carregando ainda o sotaque. Fizera seu mestrado em Nietzsche, lendo no original. Todos achavam que ele era estrangeiro. Era uma fonte perfeita para minhas intenções.

            Claro, para pedir a indicação, tive que fingir que já o havia lido. Já tinha citado alguns conceitos nietzscheanos em algumas das  nossas conversas de boteco. Aqueles básicos, que todo mundo tem alguma idéia – Vontade, Dionisíaco, Apolíneo, Anticristo, etc. Tais conceitos não são difíceis de se ter acesso. Mas o mínimo que se espera de alguém que cite um autor é que este tenha sido lido! Não era o meu caso.

            Em certos círculos sociais, não ler Nietzsche é um pecado inaceitável. Matar o pai seria algo mais plausível. (paçavra inadequada) Aliás, um parricídio poderia ser interpretado como uma vingança kafkaniana. Seria um ato poético. Sou um pecador. Enfim.

            Na conversa com o colega, este me recomendara que eu começasse com a primeira obra, O Nascimento da Tragédia. Uma dessas edições novas, traduzidas direto do alemão, muito bem recomendada. Aliás, a “procura pela melhor tradução” foi  o motivo, a desculpa perfeita pela qual consegui pedir a dica do livro para meu amigo, sem passar pela vergonha do desmascaramento.

            Talvez seja só bobagem minha. Aliás, tenho certeza que é bobagem minha. Não sei qual teria sido o desfecho caso eu confessasse a verdadeira situação. Nesse cenário que montei, consegui a informação que desejava. Me senti vitorioso.

            O livro chegara pelo correio finalmente. Comprei por um desses sites de sebos online. A edição estava esgotada, mas a consegui por um bom preço. Receber o livro pelo correio, não pagando muito, foi minha segunda vitória.

            Sentei na mesa da sala, como geralmente faço. Minha mulher no computador, resolvendo os assuntos dela. Acendi o cachimbo (ritual básico quando começo a ler) e me preparei para ler o livro inteiro.

            Foi pelo passar de algumas páginas que percebi algo terrível: eu não estava lendo coisa alguma. Os termos em alemão, mantidos pelo tradutor (um cuidado para preservar o rigor da produção de conceitos na filosofia) me davam rasteiras atrás de rasteiras. Claro, havia as notas de explicação, muito minuciosas. Mas Nietzsche continuava me driblando.

            Certa vez, vi um artigo chamado O Riso de Nietzsche. Pois bem, ele devia estar rindo demais de mim agora.

            Não desisti. Não desisto fácil de livros. Sou persistente. Me sinto ignorante, ultrajado, mas não desisto. Fiquei me lembrando de debates que tive sobre ele, ou outros que presenciei. Lembrei daqueles doutores falando do alemão, usando os termos originais. Senti inveja. Essa foi minha motivação. “Vou terminar esse livro e fazer um doutorado nesse cara”, decidi. Quando lemos, sonhamos.

            Com o passar das horas, as palavras em alemão passaram a fazer sentido. Minha mulher, que domina a língua, me dava dicas de pronúncia.

            Lá pelas 5 da manhã, ela já estava no 19º sono. Eu terminava o livro. Fiquei estupefato. Um sentimento dionisíaco se apossou de mim. Decidi abrir uma garrafa de vinho, sentir o espírito trágico em sua total magnitude. O cachimbo me acompanhava.

            Deixei os pensamentos e as palavras em alemão se assentarem em mim por um tempo. Conceitos poderosos, bonitos. Ichneit, Drang, Hintersinn, Erscheinungen, etc. O alemão tornara-se uma língua familiar. Passei a imaginar o que seria a experiência de vivenciar aquela linguagem, e quais os choques simbólicos que ela proporcionaria com o português.

            Naquela noite, sonhei que tomava café com Kafka, Nietzsche e Goethe. Discutiam sobre a novela das oito. Eu não acreditava em meus ouvidos oníricos. Uma vendedora se aproximou em determinado momento, oferecendo um vidro de antidepressivos e uma cópia do livro O Segredo. Todos compraram o vidro de remédios e diziam ser grandes fãs do livro.

            Acordei assustado. Minha mulher acordou junto, tentando me acalmar. O sol acabava de mostrar seus primeiros raios.

            Ela me perguntou o que acontecera. Eu relatei o sonho. Em alemão, para minha surpresa. Ela ficou assustada. Entendeu tudo, mas só porque conhecia a língua. Eu nunca havia conseguido sequer pronunciar direito o nome dos jogadores da seleção de futebol germânica.

            Fiquei assim por meses. Os médicos me estudavam, não sabiam o que eu tinha. Eu, assustado, falava palavras complicadas, verdadeiros palavrões. Helfen Sie mir! (“Me ajudem!”)

            Fui ao Bar do Alemão, do lado de casa. Falava na língua nativa. Pedia comidas como a vienna wurst, o Knödel, e bebidas como o Glüwein e Likor. Me tornei parte da comunidade. Me sentia em casa.

            Deixei um bigode crescer. Passei a usar suspensórios.

            Certo dia, acordei falando Português novamente. Havia me esquecido de todo o alemão. Esqueci das palavras e dos conceitos. Não me lembrava mais do que Nietzsche falava em seu livro. No Bar do Alemão, já não era mais bem-vindo. Por fim, eu não sabia mais quem eu era.

            Concluí que o Dionísio de Nietzsche me havia possuído. Me fez experimentar todas as nuances da língua terrível de seu mais notório discípulo. Toda a profundidade de seus conceitos, toda a complexa beleza da língua bárbara. Fez isso para divertir-se. Era o riso nietzscheano em uma manifestação insólita.

            Burroughs dizia que algumas palavras funcionam como vírus. Se instalam na nossa mente e nos consomem. Nos deixam loucos. Claro, depende de como reagimos com tais vírus. Cada um tem uma experiência diferente com eles. Será que ele imaginou quais seriam os efeitos de palavras de outra língua?

            Continuo sem ter lido Nietzsche. Foi ele quem me leu.

Autor: Ivan Mizanzuk

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Crônica muito boa.

9,7

Lorenza

Frases começadas por "Me" dão impressão de desleixo, não de coloquialidade.

 

 

9,2

Cida

Gostei muito. Mas penso que seja conto

6,0

Marco

Tem humor, algumas  usrpresas e algumas frases que não se percebe aonde querem chegar.

9,0

Betty

Muito bom.

10,0

Luci

A transformação é engraçada. A crônica carece de profunda revisão gramatical.

 

8,0

Total

 

Crônica 3

Quem sabe é nois

 

 

Rapaz, que coisa. A cada dia que passa vou ficando mais e mais besta, bestão mesmo. Sei que para aqueles do meu convívio é difícil acreditar nisso. Mas é a pura realidade, sempre há espaço para a gente se aprimorar. Ando chegando a umas conclusões e ficando bobo. O mundo é um lugarzinho dos mais complicados e o Homem, não satisfeito com as complexidades está sempre a arrumar idéias que põem o pouco da ordem que existe a perder. Dizem que a necessidade é a mãe da invenção, mentira. O pessoal vive inventando coisas inúteis só para aperrear o juízo de seu semelhante, é a palhaçada pela palhaçada.  A sorte é que há sempre alguém de prontidão e preparado para resolver os rocamboles. Sorte que há o Brasil.

Esse negócio da língua, por exemplo. Primeiro era o Verbo – na bíblia – negócio dos mais sérios, sagrado e coisa e tal. Foi só os indivíduos humanos meterem a mão para começar a cachorrada. Torre de Babel, Deus com ciúme e aquela coisa toda que a gente já sabe. Bateção de boca da grossa, uma balbúrdia generalizada. É óbvio que a coisa só piorou, pois trataram de inventar o latim e dá-lhe missa em latim. Ninguém entendia nada e o santo padre dizia que não era para entender mesmo e ficava por aí. E quem não concordasse que ficasse pianinho na sua, senão perigava virar lenha de fogueira. Amém.

Tempos depois, veio a grande mania de afrancesar tudo e tudo ter fru-fru e fazer biquinho e ouvir ópera e dançar ballet. Dizem que Pelotas tem a fama que tem dessa época aí, o povo de lá era mesmo muito antenado nas modas, nos costumes e nas últimas novidades do vasto mundo, deu no que deu. Curiosamente, quando este cronista era apenas um infante estúpido (sendo a estupidez a graça maior dessas adoráveis criaturas) toda vez que ouvia falar em francofonia imediatamente pensava numa língua exclusiva dos frangos. Sabendo eu agora, mais esclarecido pelos anos, que na verdade a tal é a língua das frangas. Isto posto, percebe-se que troquei a ignorância pelo preconceito, enfim, seis por meia-dúzia.

Porém as misses mais belas passam suas faixas e Brasília que era um nada no meio do nada é hoje essa coisa estupenda que a gente sabe e conhece e todo mundo fala, inclusive no estrangeiro. Assim como todas as coisas a moda passou e a americanada chegou com tudo. James Dean, Hollywood, Rock `n `roll, pin-up`s, hot-dog, I love you, I love Lucy, milk shake e por vai. E pelo que dizem os sabichões das linguagens, os homens dominaram mesmo e estão em cima até hoje. Não largam o osso e qualquer linguazinha que queira se insinuar além-fronteira os gringos dão um jeito de acabar com o abuso e as graças dos abusados. Dizem até, à boca pequena para não ferir sensibilidades, que o prêmio Nobel que deram para o Saramago, foi mais um cala-boca que um merecimento, por que, no bem da verdade, nem português o português escreve. Onde já se viu português sem ponto parágrafo, sem travessão e cheio de palavras escritas do jeito que ninguém fala ou escreve? Isso lá é português? Português nada.  Só se for pras negas dele. Está claro que nossa bobice nessa área, como em todas as outras, é mais de fachada. Aqui já tem muita gente com o ensino médio, antigo segundo grau, eu conheço vários, juro. Meu tio mesmo, esse sujeito excelente que não vale rigorosamente nada. Outro dia conseguiu ler, perfeitamente, as instruções altamente técnicas de um pacote de gelatina sem ficar nervoso nem perder as estribeiras e parar no bar para afogar as mágoas da jumentice, que é o normal dele. É a evolução. Acho que da próxima vez ele já consegue até entender o que leu.

 De qualquer forma, não concordo com esse negócio de língua universal (única língua universal era a da Carlinha, uma amiga minha da época do ginásio, mas isso nem conto, que hoje ela deve de ser mãe de família). Isso pode até funcionar aí pra fora. Aqui no Brasil não. Aqui a gente faz o que quer e o que bem entende. Somos danados a ponto de pegar uma marca, transformar em objeto e depois em verbo. Tudo com um pé nas costas e naturalidade. Fotocopiadora nada. O negócio é máquina de xerox e xerocar. Isso sem falar em nossa bombástica capacidade de invenção. Criamos verbos como quem descasca bananas. O chamar-chamar por exemplo. Até uma criança sabe quando o telefone está chamando-chamando e ninguém atende. Outro é o célebre coisando, usado sem reservas por toda a nação. Em caso de dúvida não há outro. Ontem mesmo expliquei para o técnico que o meu computador estava coisando toda hora. Ele entendeu perfeitamente, tanto que resolveu o problema. Os catedráticos se estuporam por dentro com tanto traquejo, tanta exuberância lingual.

 Enquanto o resto do mundo se curva ao nobre idioma bretão, nós vamos revolucionando tudo, e antes que algum derrotista da pátria venha falar que a gente já se rendeu ao Orkut, ao e-mail e ao shopping, já aviso logo que nosso orcútchi é mais embaixo assim como nosso iméil e nosso xópin é nosso e de mais ninguém. Quem sabe é nois. A gente tem até a manha de escrever conforme as regras para provar que aqui ninguém é metido a diferente e melhor que os outros povos e tal, somos humildes pra caramba, dos mais humildes do mundo, senão os mais. Isso já saiu em pesquisa e tudo.

Mas falando é outro papo e não damos mole e falamos tudo aportuguesado mesmo. E é de se espantar como a galera aqui tem consciência desses assuntos e diferente do que podem achar por aí quanto mais mocosado e mais suburbano a pessoa, mais domina isso de fazer gato e sapato da língua alheia.  E tome lã rause e tome selfi service e tome cofe breique. Ninguém tem esse peito. Com o palavreado estrangeiro não tem conversa, a gente esculhamba, humilha mesmo.

Autor: Rodrigo Fernandes

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Foi em demasia no rumo da ficção.

8,0

Lorenza

O tom escolhido e até a piadinha vulgar combinaram bem com o conteúdo da crônica. "Orkut" é turco, não inglês.

9,8

Cida

Gostei, mas tem exageros na brincadeira, texto longo desnecessariamente

9,0

Marco

Era para fazer humor? Não conseguiu, foi um texto confuso e sem foco, pueril e pouco convincente como trabalho de linguagem da personagem.

8,0

Betty

Muito bom.

10,0

Luci

Divertido. Faltou revisão.

 

8,9

Total

 

Crônica 4

Já percebeste, ou queres que te faça um desenho?

 

 

Uma das piadas relativas ao uso da Língua mais recorrentes na minha infância terá sido, decididamente, “a Língua Portuguesa é muito traiçoeira...”. Dizia-se isto associado a outra frase, que continha a parte da piada, quase sempre de conteúdo brejeiro e pernicioso. Coisas do género “quando chego a casa, a cabra da vizinha está sempre no meu quintal” ou “ a vaca da tua tia tem ar de dar leite à farta” eram garantias de boas e duráveis gargalhadas. Não inventávamos nada de novo. Limitávamo-nos a repetir as graçolas que o único humorista presente nos nossos dois canais de televisão lançava ao serão, reformulando e recriando a parte ordinária para mostrar que sabíamos palavras novas e que tínhamos conhecimentos além dos dos nossos amigos. O sucesso era garantido, sobretudo, porque se tratava de palavras e termos proíbidos pelos bons costumes que nos ensinavam na escola e na catequese. As palavras que nunca nos ensinam são sempre aquelas que mais gozo nos dão aprender e são, quase sempre, as de que fazemos mais alarde.

Dizem os entendidos que um ser humano completamente desenvolvido, chegado à sua idade adulta, há-de ter conhecimento de cerca de trinta mil palavras. Esse acervo, na maioria dos casos, acaba por se revelar inútil, tendo em conta que aquilo que aprendemos nas nossas carreiras académicas raramente se reflecte no uso diário ao longo da vida. A parte profissional obriga, invariavelmente, à aprendizagem de novos termos, específicos. A vida familiar, como situação particular que é, terá, também ela, um conjunto de signos característicos e diferenciados dos que usamos na nossa vida social. Nesta última, o conjunto de palavras a empregar depende sempre do contexto cultural, da intenção do indivíduo, da sua formação e de mil e uma outras variantes.

Com a desculpa que as Línguas são organismos vivos e que, como tal, têm o direito de crescer saudavelmente, aumentando a sua riqueza através da incorporação de neologismos e estrangeirismos, vamos arcando sempre com mais e mais vocábulos que, na sua maioria, jamais vocalizaremos.

Achamos importante discutir a pertinência da inclusão no alfabeto de letras que nunca usaremos a não ser que, um dia, tenhamos de encomendar por escrito a alguém que nos compre um kispo. Mais, perde-se tempo a convencer os velhos do Restelo que as palavras que a mocidade usa hoje em dia, além de serem bués da fixe, têm todo o direito de figurar no dicionário oficial. Fazemos convenções para normalizar o uso, mas parece que ninguém se consegue pôr de acordo.

Evoluímos a cada dia e a cada dia complicamos mais.

No entanto nem sempre foi assim, ou ainda hoje não é assim em todo o lado.

Os hieróglifos do antigo Egipto, as várias línguas da cultura Maia, os ideogramas da China ou do Japão são um bom exemplo de como uma Língua pode ser rica sem ser, de certo modo, complicada.

A ideia que uma imagem vale mais que mil palavras será um exagero neste caso, mas aquilo que os ideogramas contêm poupa uma série delas. Partindo de um signo gráfico que representa uma ideia ou um som, constrói-se aquilo que se quer transmitir. Enquanto no Egipto as imagens falavam por si próprias, no Japão dos dias de hoje estão em uso cerca de 70 ideogramas, que combinados com outros caracteres dos seus três alfabetos ajudam os nipónicos a fazer passar a palavra. Se para os Japoneses, que se estima conhecerem cerca de quarenta mil caracteres de kanji - o alfabeto adoptado da China - é simples a execução de uma frase por este método, para nós, ocidentais modernos, este processo soa, como se costuma dizer, “a Chinês”.

Sem conhecimento de causa, sem sabermos usar a Língua dos outros, dificilmente poderemos avaliar a sua melhor ou pior prestação, adequação ao dia-a-dia ou facilidade de uso.

Mas também isso poderá mudar brevemente no maravilhoso mundo das Línguas latinas. Brevemente, se não já, seremos postos à prova.

Há coisa de 20 anos atrás, uma conhecida marca de bebidas gasosas lançava uma promoção com a qual, contra a entrega de um número exorbitante de cápsulas das suas garrafas, oferecia o último grito em tecnologia de comunicação interpessoal. O pager era assim banalizado. Passámos todos a fazer exercícios mentais para conseguir, de modo económico, dizer coisas uns aos outros. Era o princípio das mensagens curtas e o início de uma revolução. Seguiu-se a massificação das comunicações por telefonia móvel e com ela uma nova era: a das mensagens escritas curtas. Com apenas 160 caracteres passámos a namorar, a trabalhar, a criar inimigos, a estudar, a fazer projectos de vida.

Mas 160 caracteres é coisa pouca e o ser humano tem sempre muito que dizer. E a utilização das normas correntes da Língua não permite um desempenho tão copioso quanto o nível de ansiedade que a espera pela resposta impõe, sobretudo, aos jovens de hoje em dia.

Contrariando aquilo que deles se diz, que inclui coisas feias como ignorantes, desinformados e até rascas, esta geração está a criar, sem saber, uma nova Língua.

Aquilo que nos propõem é uma mistura entre o que lhes deixamos de herança, a nobre Língua de Camões, e o conceito base dos ideogramas dessas culturas distantes, que muitos nem conhecem.

Passam a comunicar com palavras inventadas na hora, com letras que não fazem parte daquela regra, mas que lidas soam à emoção que querem fazer passar. Utilizam as tais letras, que dizemos não fazerem sentido no nosso abecedário, porque têm um ar moderno e porque, na maioria dos casos, economizam uma série de outras letras que no modo tradicional apenas servem para ocupar espaço. Adaptam o palavreado à sua subcultura e fazem bandeira de terem uma linguagem própria, como se de uma nova forma de comunicar se tratasse. Porque na maior parte dos casos quase o é.

A aptação às novas realidades é certo e sabido gera maiores dificuldades quanto maior for a antiguidade daquele que entre nesse processo. No meu caso, a conta dos anos que me separa desta geração não é assim tão grande e, no entanto, cada vez que tento ler uma dessas mensagens encriptadas, sinto-me virtualmente ignorante. A última vez que necessitei de comunicar com eles recorri ao filho de um amigo que, do alto dos seus treze anos. se virou para mim depois da tradução com um ar altivo de quem pensa “us kota s/ 1 seka” e disse: “Já percebeste, ou queres que te faça um desenho?”

Autor: João Guimarães

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Indivíduos humanos parece coisa de político de sucesso. A ginga do autor é boa, só precisando de um pouco mais de elaboração na linguagem.

9,0

Lorenza

Tudo o que eu sempre quis saber sobre o português de Portugal e não tive coragem de perguntar: como se pronuncia o "x" de "fixe", na inigualável expressão "bué da fixe"? A crônica passa de um assunto a outro sem fazer conexão, e acaba misturando fenômenos tão distintos quanto o surgimento de novas palavras e sua notação escrita. Nove entre dez lingüistas concordarão que nossos pequenos alfabetos fonéticos são imensamente superiores aos complicados ideogramas e demais sistemas pictóricos dos quais evoluíram - isto é, prestam-se com muito mais sucesso ao fim a que se destinam, e podem alcançar um número muito maior de leitores. Com nosso alfabeto eu posso dizer "bué" e "fi-e", já com um ideograma não saberia por que lado da boca começar.

 

9,0

Cida

Excelente, embora um pouco longa

9,5

Marco

Muito bom, bem sacada, inteligente.

9,5

Betty

Se se tomasse o começo e o final, seria uma crônica. Mas no meio é um tratadozinho...

8,8

Luci

Bem escrito, apesar de às vezes ser didático. Não entendi algumas palavras e expressões.

 

9,4

Total

55,2

Crônica 5

Desacordo ortográfico

 Minha pátria é a língua portuguesa, disse Fernando Pessoa, aliás Bernardo Soares, com todos os acentos que aquela frase merecia. Essa pátria debate-se agora com o acordo ortográfico.

 – O que é que vai ser? – perguntou o empregado do restaurante a um senhor de porte exagerado que pontuava na mesa ao lado da minha.

 – Língua de vitela, mas bem passada – respondeu ele. E virando-se para mim:

 – É uma ponte entre povos.

 – Quem?

 – A língua.

 – Já reparou  – disse-lhe eu – que a língua serve para comunicar, mas também para impedir de comunicar? Quando falamos línguas diferentes, ou em código, impede-se a comunicação. A língua é uma ponte entre culturas do mesmo modo que é um diferenciador. Ter um idioma próprio, ou apenas maneirismos, distingue-nos dos outros, dá-nos uma certa individualidade, um carácter, uma personalidade.

 O empregado serviu, nessa altura, a dose de língua que havia sido pedida, acentuada com batatas cozidas e salada de alface. A sublinhar tudo aquilo, um tinto.

 – Então está em desacordo com o acordo ortográfico.

 – De modo algum. Pelo contrário, estou a favor.

 – Está em desacordo.

  Ouviu o que eu disse?

 – Não. O senhor fala com demasiadas consoantes mudas. Há que suprimi-las.

 Acho que ele não era capaz de distinguir a ortografia da oralidade, não era capaz de ver nenhuma diferença entre a língua escrita e aquela que tinha no prato. De boca cheia, exclamou na minha direcção:

 – O acordo unifica! ou o senhor acha, porventura, que a nossa língua deveria dividir-se como a das serpentes? Evolução ou morte! Ponha os olhos no latim. Não acabou nada bem, pois não? Era uma língua com grande declinação para o esquife. É servido?

 – Obrigado, mas já almocei.

 – Coma – insistiu. – Está magro como uma vírgula.

 Recusei outra vez, alegando evitar a carne. Não era verdade, mas era capaz de funcionar.

 – Também já fui meio vegetariano – informou-me ele –, mas a outra metade era aquela parte da cintura para cima. Carnívora que só visto. Uma pessoa faz ioga, mas continua com este porte de dicionário enciclopédico.

 – Tem de parar de fazer ioga.

 – É exactamente o que eu acho. E, como se não me bastasse tanta carne, envelheço. Não há nada pior do que um dia, ao espelho, olhar para mim – que já fui mais bonito do que sou hoje, creia-me – e ver um dicionário enciclopédico desactualizado.

 – Repare, hiperbólico amigo, que a reforma ortográfica vai fazer isso mesmo: desactualizar os dicionários que temos em casa.

 Ignorou-me e continuou a remexer no seu prato. Apontou-me o garfo e disse:

 – Essencial é que a gente se entenda! Existe alguma coisa mais bonita do que duas línguas tão entrelaçadas que é impossível dizer quem é o dono de cada uma? Já me aconteceu. É para ver como sou um Cyrano de Bergerac.

 Mostrou-me a língua às voltas pela boca.

 Acredito, como o poeta, que a minha pátria é a minha língua, mas tremo perante a possibilidade de ser também a dele. Guimarães Rosa e Eugénio de Castro não mereciam esta afronta.

 O homem limpou umas frases ao guardanapo, dos cantos da boca, antes de continuar:

 – Sinto que nos devemos libertar dos preconceitos, de certas e determinadas maiúsculas, da consoante surda.

 – Muda.

 – Isso. É importante mudar, acompanhar os tempos. Quem é que precisa de tremas? Uma pessoa precisa é de comer. Estamos na era espacial, andamos pelos ares em aviões que caem sem motivo, abrimos o livro da vida, temos internet e, no entanto, continuamos a usar maiúscula na palavra “Janeiro”. Será que o tecto vai desabar se o passarmos a escrever teto?

 – Quem sabe... olhe o caso de Babel. A torre caiu por algum motivo.

 – Atentado. Aquela região não é segura e há muita predilecção – perdoe-me este “c” – por torres. É pena que esteja em desacordo.

 – De modo algum. Já lhe disse que não é assim. Não estou em desacordo. Acho muito importante que haja uma proximidade...

 – É impossível falar consigo – interrompeu ele. – Não nos entendemos. Precisamos mesmo de uma reforma. É servido?

Autor:  Afonso Cruz

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

O inesperado das tiradas e da forma concreta que por vezes a língua assume, quando escorre por dentre o oral e a escrita, até o prato, tornam o texto tão bom quanto a imaginada língua de vitela, bem passada, por certo.

10,0

Lorenza

Estou servidíssima.

 

10,0

Cida

Maravilhosa!

10,0

Marco

Interessante, bem escrita e divertida, apenas não foi - nem de longe - capaz de entusiasmar.

9,0

Betty

Interessante.

9,5

Luci

O humor, que funcionou tão bem antes, desta vez perdeu o timing, como se o autor estivesse com pressa.

 

9,4

Total

57,9

Crônica 6

TRADUZINDO

A capacidade humana de se comunicar é algo simplesmente maravilhoso. Já nascemos com esse dom. Do tatibitati dos bebês aos poemas de Drummond, dos gemidos dos amantes aos brados de guerra, dos discursos dos políticos às bulas de medicamento, tudo nos parece querer dizer alguma coisa.

Desculpe. Exagerei. Esses dois últimos exemplos foram um tanto infelizes.

Precisamos nos comunicar. Dependemos disso como de comida. Aliás, muitos de nós dependem disso para comprar comida.

Tudo bem que alguns passam dos limites do razoável. Há quem pareça respirar pelas cordas vocais: podem prender o fôlego por cinco minutos e sair vivos, mas parece que morrerão se calarem a boca por três. Esses, felizmente, são exceção (creio eu).

Digressões à parte, comunicar é tão essencial ao ser humano que somos capazes de enxergar uma mensagem – humana, divina ou demoníaca – ou um presságio em quase tudo: nas nuvens, nas borras de café, nos búzios, nas cartas, nas previsões dos economistas...

Temos o dom de transformar tudo em algum tipo de linguagem. Lâmpadas acendendo e apagando são capazes de transmitir um pedido de socorro. Pulsos elétricos passam por fios,  transformam-se em sons longos ou curtos e, sequenciados, são transferidos para um pedaço de papel, na forma de letras que, concatenadas, formam uma mensagem inteligível. Ou quase. Que o diga Fernando Sabino, com seu Macacos me Mordam.

Pulsos elétricos emitidos contra um circuito extremamente complexo transformam zeros e uns em imagens, sons, vírus e falhas de sistema operacional nos computadores de milhões de empresas e lares diariamente. Esses mesmos pulsos, convertidos em ondas, cruzam os ares sobre as nossas cabeças, fornecendo novelas previsíveis para nossas tevês, programas para nossos rádios e interferências nos sistemas de comunicação dos aeroportos. É o milagre da tradução: essa capacidade humana de transpor o conteúdo semântico de uma linguagem para outra, permitindo que nos comuniquemos com máquinas, animais e, de vez em quando, com adolescentes. O que seria da humanidade sem ela?

Há quem diga que o domínio da linguagem é o que há de mais precioso entre as habilidades humanas. Não posso concordar. Para mim, a mais fantástica habilidade humana é a tradução.

Você pode argumentar que não existe tradução sem linguagem. Mas o contrário, convenhamos, é perfeitamente possível. Você pode fazer com que seu gato entenda onde deve fazer pipi sem, para isso, miar; pode fazer com que seu cachorro aprenda truques sem ter que latir para ele; pode entender a mente feminina sem... Esqueça. Você não pode entender a mente feminina.

A tradução permite que cientistas compreendam os fenômenos naturais; que médicos decifrem, em algarismos impressos em um pedaço de papel, os males que afligem seus pacientes; e que juízes de futebol possam ser xingados em vários idiomas simultaneamente. É responsável por acordos internacionais, projetos de pesquisa científica, multas de trânsito e pontos na carteira de motorista (tem noção de quantas operações de tradução são necessárias até que o Departamento de Trânsito embolse seu suado dinheirinho só porque você entendeu errado aquela luzinha vermelha acesa à sua frente, imaginando que era uma mera sugestão para que reduzisse a velocidade do carro?).

Não vivemos na era da informação. Vivemos na era da tradução. E, dia após dia, vamos aprimorando nossa habilidade em traduzir o que, intencionalmente ou não, nos é transmitido. Como aquele olhar mais prolongado do homem, no momento em que passa por uma mulher atraente; como a discreta arrumada no cabelo com que ela responde; como a cotovelada que ele recebe da namorada, que, ao seu lado, percebe o flerte.

E, quanto mais nos aprimoramos, maiores desafios nos são impostos. Novas linguagens surgem diariamente, novos significados para sinais que antes nos eram familiares, novos usos para palavras que ouvimos desde a infância. Empregada doméstica virou assistente do lar; aeromoça virou comissária de bordo; e delinquência infanto-juvenil virou ato infracional praticado por criança ou adolescente. Psicose maníaco-depressiva passou a se chamar transtorno afetivo bipolar; “oi, gostosa”, agora, é ofensa; e James Bond teve que largar o cigarro e o copo de uísque. Novos tempos, novas ideologias, novas linguagens.

Atualizar-se, hoje, é mais do que dominar novos conhecimentos; é aprender novas linguagens e aprimorar a habilidade de tradução. Precisamos interagir com os bichos, com as pessoas, com as máquinas, com os equipamentos eletrônicos e – cada vez mais – com os adolescentes.

Mas, no meio desse turbilhão de novas formas e meios de comunicação, algumas coisas continuam mais ou menos iguais. O sorriso permanece encantador; o “muito obrigado” é sempre bem vindo; demonstrações de cordialidade ainda são capazes de amenizar as tensões; ouvir, em muitos casos, vale mais do que falar; e entender o outro ainda é o maior dos desafios enfrentados pelo ser humano.

E os advogados permanecem imbatíveis em sua capacidade de inventar neologismos.

Autor: Gérson Perrú

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Bordejou o tema, meramente.

8,5

Lorenza

A idéia da tradução como a mais fantástica habilidade humana é ótima, mas a crônica poderia prescindir da maior parte dos parágrafos iniciais, muito óbvios.

9,0

Cida

Bom conteúdo, mas a forma deixa a desejar

9,2

Marco

As tentativas deliberadas de provocar humor soam falsas e não atingem seu objetivo, humor é mágica, tem que parecer mesmo que o coelho saiu da cartola. No mais, excelente. Que abordagem completa do tema!

9,8

Betty

Algumas idéias muito originais, no meio de outras muito conhecidas.

9,5

Luci

Texto leve, de leitura agradável.

 

9,3

Total

55,3

Crônica 7

A Língua

 

Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque, quem não sabe arte, não na estima.

Luís Vaz de Camões

 

“Gosto de roçar a minha língua na língua de Luís de Camões”, cantou Caetano lá pelos oitenta. Um que sabe a arte do encantar com os sons das palavras produzidas por essa língua. E nós, encantados, a segui-lo pelos labirintos dos versos bem urdidos que dão tramas prazerosas nas estrofes de suas canções.

Assim é essa língua. Apropriada ao canto, que é doce e sonora. E sua sonoridade é mansa como convêm às cantigas dos que amam e se pretendem amados. Ou dos que amam em vão, dos que tem saudades.

Já se disse que a língua que se fala no Brasil é uma espécie de amainamento do português. Se na origem mais consonantal, mais contraído, cá mais melodioso, esparrama-se como uma onda morna por sobre os que ouvem, envolvendo-nos relaxadamente.

Esse abrandamento serve à jovialidade de Quintana, à leveza de Vinícius, de Jobim, à métrica medieval de Ariano, ao balanço malemolente de Caymi, o pai.

Sabe, no entanto, ser dura essa língua, se domada por João Cabral, ou adestrada por Rosa que a levou a trilhar picadas agrestes, sertanejas.

Sabe-se, ainda, profunda e cotidiana se conduzida por Drummond, cotidiana e devassa, deflorada por Rodrigues ou por Hilda.

Traveste-se em concreta, esculpida pelos Campos ou iconoclasta na voz de Mário ou de Oswald.

Cambaia na fala da rua, escapa das normas acadêmicas e ganha vida própria. E nos becos e esquinas reproduz-se, evolui desgarrada, a nossa língua, dos moldes que lhe pretendemos impor.

Por vivas e rebeldes, as línguas nos países em que adotamos o português são tão diversas. Entendemo-nos, sim, mas quão rico é deitarmos os olhos nos escritos dos lusógrafos de outras paragens.

Os da minha rua, de Ondjaki, por exemplo, que relata com os trejeitos verbais do menino que cresceu na guerra de Angola suas pequenas vitórias e derrotas e travessuras e medos e afetos, é um passeio pela variação africana.

É incitante navegar pelas corredeiras frasais desenfreadas de Saramago, pelos devaneios metafóricos de Lobo Antunes, pela voz intimista de Inês Pedrosa. É desafiador desbravar Camões.

Saber-me herdeiro da língua dos Luizes, dos Carlos, dos Josés e Joões, dos Antônios e Antónios, me conforta menos que me instiga. Instiga-me a provar um pouco de cada, a aceitar suas influências e incorporar seus despojos.

Assim, com ou sem decretos, com acordos ou dissensos, o Português seguirá vivo. Portugueses, talvez.

Autor: Ari Gurcz

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Texto curto em excesso. Não se aproveita da assertiva de Caetano, que brinca entre o concreto e o abstrato.

8,5

Lorenza

Simpática, mas muito previsível.

8,8

Cida

Esbanja conhecimento, mas não está criativa

9,0

Marco

Excelente!

10,0

Betty

Faltou muito para ter o tamanho de uma crônica...

9,5

Luci

Crônica apressada, em que também faltou revisão gramatical.

 

8,0

Total

53,8

Crônica 8

UMA ÚLTIMA CHANCE PARA O ESPERANTO

Na juventude tive um amigo esperantista. Muito gente boa, dedicado ao estudo tanto da língua como da filosofia humanitária que a acompanha. Seu proselitismo era morigerado mas consistente. Ele achava que, com muito esperanto, poderia salvar minha pobre alma.

Porém, enquanto movimento filosófico-moral, o esperanto me interessava pouco.  O mais curioso era todo aquele esforço para construir palavras, de acordo com regras muito severas, procurando morfemas adequados em várias línguas, quando tínhamos vocábulos muito bons, prontos, na nossa língua materna.

 Esse meu amigo tinha uma namorada muito bonita. Conheceram-se nos grupos de estudo de esperanto. Ponto para esperanto. Mas, francamente, arranjam-se namoradas até em aulas de português.

 Em pouco tempo, satisfeita minha curiosidade, vi que o esperanto é tão difícil quanto qualquer outra matéria. Tem que se quebrar a cabeça, de todo modo. Doutro lado, o humanitarismo do esperanto pareceu-me muito enjoativo e aguado. No fundo, não passa de uma forma rebuscada de coleguismo.

Veio desta época meu ceticismo quanto às línguas artificiais. Mesmo o esperanto, dentre elas a mais bem sucedida, deu resultados reconhecidamente pífios em todas as áreas em que foi aplicado. Aliás, o meu amigo esperantista, além da bela namorada, não conseguiu mais nada com seus esforçados e continuados estudos.

Posso estar sendo injusto, mas acho que as línguas artificiais perdem por serem incapazes de reproduzir os afetos em sua multiplicidade e plenitude. Inversamente, as línguasnaturais”, étnicas, giram velozmente o caleidoscópio da vida afetiva. Disso as línguas artificiais nem de longe foram capazes, embora imbuídas da bonita utopia de uma humanidade pré-babélica, linguisticamente unificada.

 A permanência do esperanto em pequenos nichos, quando as outras línguas artificiais estão esquecidas, deve-se, em boa parte, a sua relativa abertura à afetividade, mesmo que através do homaranismo um típico produto do sentimentalismo positivista do século XIX

Se os esperantistas, de fato, quiserem fazer do esperanto o idioma comum da humanidade, deverão torná-lo ainda mais permeável aos afetos, os quais devem ser aceitos em toda a sua beleza e incongruências. O esperanto terá que se haver até mesmo com o grotesco, como fizeram todas as línguas, de Babel aos nossos dias.

Providências, ações e atitudes deveriam ser firmemente tomadas neste sentido. Se eu pudesse, aconselharia aos esperantistas a criação de torcidas de futebol que usassem o esperanto como língua oficial. Compareceriam aos estádios cantando o hino de seus times em esperanto vejo multidões flamenguistas recriando os refrões que empolgam o Maracanã. Naturalmente xingariam o juiz e a torcida adversária em palavrões esperantistas. Os ativistas do esperanto seriam obrigados a usá-lo em sua vida cotidiana. Motoristas irritados reclamariam do trânsito, berrando em esperanto pelas janelas de seus carros. Buzinariam nessa língua.

Em breve teríamos pessoas cometendo “errosgramaticais em esperanto. Falando o esperanto “errado”. Pois cada língua humana, como bem sabem os preparadores de provas de concursos, tem as suas próprias tópicas do erro. As “pegadinhas” onde seus falantesjustamente eles – caem inexoravelmente. Algo assim como a crase no nosso português. O esperanto começará a se universalizar quando os esperantistas caírem no “erro de esperanto”.

Mas a verdadeira glória de uma língua é o gago. Nãofuturo algum para uma língua que não consiga produzir seus próprios gagos. São eles os magos que revelam o que nas línguas há de frágil e quebradiço, o “demasiado humanoque nelas existe como seu meio e seu fim. Não é à toa que os antigos gregos, os sabichões de sempre, diziam que Demóstenes, seu legendário orador, era em verdade um gago. Quando houver esperantistas gagos em Bangladesh ou em Oaxaca, talvez se esteja a caminho de uma autêntica e poderosa língua universal.

Creio que por esse caminho o esperanto teria boas chances de se impor globalmente.

Ainda não contei como se deu o fim da minha amizade com aquele esperantista. Foi depois de uma de suas improvisadas aulinhas de mesa de bar, na presença da namorada dele. Cansado daquela gramatologia engrolada – eu era muito jovem – comentei levianamente:

– É muito esforço para melhorar o polonês!

A moça riu muito com a minha tirada. Meu amigo franziu a testa, fuzilando-me em pensamento. Com o mesmo gesto, reprimiu o riso da namorada e camarada de apostolado. No entanto, sem dar chances ao esperanto, ele franziu a testa em bom português. Em seu pensamento, fui fuzilado nas regras da “última flor do Lácio”. Acho que ele não sabia como liquidar uma amizade em uma língua artificial.

Quanto a mim, com uma piadinha, perdi um amigo, o esperanto e a Polônia.

Autor: Denis Reis

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Boa cronica

9,3

Lorenza

Despretensiosa, põe o dedo nas várias feridas do esperanto. Um conhecido alemão, residente no Brasil, explicou-me assim por que optou por ensinar inglês ao filho pequeno, ao invés do alemão - que seria muito mais difícil para o menino aprender mais tarde: "passei parte da infância e toda a adolescência nos Estados Unidos, foi nessa língua que vivi meus afetos". Bingo.

 

10,0

Cida

Linda, muito criativa

10,0

Marco

Divertida, humor real, só sugiro umas palavras em esperanto, por exemplo, na briga de trânsito, pois teriam feito a diferença em humor.

10,0

Betty

Muito bom.

10,0

Luci

Divertido, mas irregular. Revisão gramatical. “...a mais bem-sucedida...”

 

8,9

Total

58,2

Crônica 9

Achttausendachthundertachtundachtzig

 

Você gosta de congestionamento? Alguém gosta? No pára e anda do trânsito, é difícil de fazer qualquer outra atividade além de falar escondido no celular. A minha preferência, numa sala de espera, é um livro. Não estava numa sala de espera. Estava dentro de um carro e dirigindo. Sem a menor chance de ler um livro. Só me restava ligar o meu Blaupunkt. Isso parece palavrão, mas é apenas a marca do rádio do meu Volkswagen.

Para meu alívio a música é brasileira. Caetano Veloso é brasileiro, mesmo quando faz rock, rumba ou foxtrot. Com seu jeito moleque também faz rap. Só mesmo Caetano para gostar de roçar a língua na de Luís de Camões e depois afirmar que está provado que só é possível filosofar em alemão. Será que eu ouvi direito?

Está provado que só é possível filosofar em alemão?

Ah, meu amigo, você é um pensador polêmico por natureza. E, por isso mesmo, sou obrigado a discordar de você. Filosofar não está entre as minhas 50 preferências. Confesso que preferiria andar de bicicleta ou chupar uma laranja. Mesmo que uma coisa nada tenha a ver com outra.

Dizem que filosofar é questionar. No momento, a dúvida mais importante que me abala é saber se posso devorar a bomba de chocolate da geladeira daqui a 15 minutos ou se devo comê-la agora mesmo.

Observe que todos os meus pensamentos, por mais desconexos, foram elaborados em português. O mesmo idioma de Camões, Pessoa, Bilac e Machado. Considero relativamente fácil encadear idéias e pensamentos em português. Impossível, da minha parte, raciocinar em alemão. No máximo, lembro e associo algumas poucas palavras.

Siemens, Lufthansa, Hamster, Malzbier. Servem para telefonar do avião informando que vi um camundongo tomando todas.

Kombi, Johann Faber, Odebrecht, Blitz, Führer. Têm utilidade quando dizemos que o transporte do apontador da obra foi surpreendido numa barreira policial e será punido pelo chefe ditador.

Friedrich Nietszsche, Bunker, Ludwig van Beethoven, Apfelstrudel, Liebfraumilch, Eisbein. Além de enrolarem a língua, servem para informar que Nietszsche filosofava em alemão porque estava bem protegido e se inspirava ouvindo música erudita comendo do bom e do melhor.

É sensato pensar que tudo seria diferente se Nietzsche tomasse água de coco, na lagoa de Abaeté, ouvisse Ivete, Claudia Leite e axé, comesse vatapá, cururu e acarajé. Então faria letras e músicas sensuais para mulatas como a Juliana Paes e outros simples mortais.

O germânico gosta de grudar palavras, umas nas outras para escrever palavrão. Nos números são mestres. Tente dizer 8888, achttausendachthundertachtundachtzig.

Remexendo um bocadinho e percebendo nas palavras todo o jeitinho, Caetano não queria que eu filosofasse em alemão. Isso é para Kant, Schoppenhauer, Marx e outros de plantão. Nossa língua não se presta para essas artes, serve para gingar capoeiras e rebolar malandragens. Ela tem a pimenta da gafieira, o drible tropical e o chamego brasileiro.

Caetano está com a razão, filosofar, jamais em português, só em alemão.

Autor: Roberto Klotz

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

“Gingar capoeiras e rebolar malandragens” – gostei. O jogo com “roçar a língua” e “provado” também é muito bom.

10,0

Lorenza

Divertida, procurou um jeito diferente de dizer o que todo o mundo diz: que alemão é duro e difícil. O final ficou meio apressado.

 

9,2

Cida

Muito bem escrita, mas não gostei do autor acabar concordando com Caetano.

9,0

Marco

Divertida e competente.

9,6

Betty

Curta, mas completou o pensamento.

Faz rir. Isto é uma enorme qualidade, numa crônica.

9,5

Luci

O texto aborda o assunto de forma tangencial e apressada.

 

8,8

Total

56,1

Crônica 10

Língua? Que língua?

 

Língua? Que língua? De qual língua vocês esperam que eu fale? Da que me encanta os ouvidos quando bem falada, da que me empresta as palavras para eu jorrá-las em versos?

Essa língua não me encanta mais! Verdade! Criei desilusão dos fonemas escondidos, dos sujeitos sem predicados, dos acentos que partiram ao sabor dos sábios. Não, dessa língua eu abri mão mesmo! Não posso deixá-la a vocês em herança, porque não me pertence. Eu a recebi, também, doada.

Mas se vocês me permitirem eu os convido a conhecer outra língua. Essa outra, descobri por acaso, enquanto andava por aí à toa. Por acaso foi só o nosso encontro; a adoção foi por vontade mesmo.

Aconteceu assim. Eu me esbarrava nela em todo canto, de norte a sul, como se fosse assim da vontade da vida que a gente se conhecesse mais a fundo. Primeiro, foi um sincopado tônico, seguido de um cantarolar preguiçoso e de um anasalado ácido repleto de vogais salientes. Depois, me encontrei de namoro com Ochs, Uais, Viches e Bahs, caí de amores pelos encantos importados dos agudos que substituíam circunspectos circunflexos, e acabei na cama com um dialeto esquisito que repetia um mantra emocionado: “Eita, eita, eita, eita”. E o que mais resta depois da cama do que nos apresentarmos?

- Prazer, eu sou ...

- Psiu! Tu não vai me dizer teu nome, vai? Deixe de bestagem!

E foram tantos acentos novos, tantas corruptelas engraçadas, tantos verbos despejados de seus tempos e separados das pessoas às quais antes pertenciam que, ao final de um mês, eu decidi: me mudei de malas vazias para o mundo. 

Foi mais difícil do que pensei, confesso. Demorei a entender que era eu o estranho, que era eu a minoria, que era eu o pária. Até que a verdade me deflorasse por inteiro, eu me diverti na ignorância de corrigir pessoas, de ensinar conjugações, de acreditar que eu estava ali para reformar pessoas, palavras e atos.

A língua, aquela que lhes doei ainda no primeiro ou no segundo parágrafo, passou a me perseguir dia e noite, implorando para voltar. Queria recomeçar comigo uma vida a dois, sem nada que atrapalhasse nossos planos de um futuro de cultura e esplendor. Aquele grude inesperado teve efeito contrário: abri a porta e lhe pedi que não voltasse mais.

- Você vai se arrepender! Quem é você para pensar que pode viver sem mi?

Eu lhe pergunto, então: de que serve uma casa vazia se não for para dar festas? Convidei, para aquela mesma noite, uns brasileiros bem engraçados para me fazer companhia. Sem flexões, sem pausas, sem pontuações. Não tiveram tempo de conhecer a língua, aquela que eu mandei embora esbravejando. Graças a Deus!

Mas quase me esqueço que os convidei a andar comigo pela folha branca para lhes apresentar outra língua. Uma que recebe abraços calientes dos hermanos que a rodeiam, assediando-lhe a beleza. Uma que se faz cada vez mais nova e reformada em meio ao Velho Mundo.

Pois que fiquem vocês aí com essa qualquer a quem só chamam “língua”. A minha, a que lhes apresento agora, tem nome e sobrenome, como cabe às senhoras de respeito.

Senhores, tenho a honra de lhes apresentar a Língua Portuguesa.

Autor: Cinthia Kriemler

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Muito boa

9,5

Lorenza

Parece que o Velho Mundo chegou atrasado para a festa e ficou num canto, meio sem jeito, lá perto da saída. Ao longo da crônica tudo indicava que o leitor seria apresentado à Língua Brasileira.

 

9,3

Cida

Bonita, mas superficial

9,0

Marco

Muito bom, desigual, começa muito bem, se perde no miolo, mas volta a agradar no fim.

9,4

Betty

Também muito curta, e ainda assim muito interessante.

9,5

Luci

A melhor parte é aquela em que o autor enaltece a língua falada. O final é confuso.

 

8,9

Total

55,6

Crônica 11

O que quer. O que pode esta língua?

- O português é uma língua dura.

Eu sou daquelas pessoas que se perde numa livraria, completamente deliciada entre tantos e diferentes livros. Poesia, talvez? Auto-ajuda, nem pensar! Filosofia, ficção científica, prosa, contos, romances... Estava tão entretida entre títulos e sinopses, que demorei para processar a informação que tinha-me sido dada.

Olhei para minha amiga, que tinha me acompanhado à livraria e que era autora da frase que me parecera tão disparatada.

- Como é que é? – perguntei fixando-a.

- Isso mesmo. – ela reafirmou – O português é uma língua dura, assim como todas as línguas latinas.

Minha amiga é professora de inglês, e das boas, quando estamos juntas, volta e meia percebo que ela recorre a alguma expressão estrangeira para se fazer entender. No entanto, ouvir essa afirmativa me pegou desprevenida. Sempre imaginei que esse recurso utilizado por ela fosse pelo fato de seu pensamento funcionar em inglês. Desejei contestá-la firmemente, mas faltaram-me argumentos naquela hora. Por isso, fingi que não tinha dado importância ao comentário e fui dar uma volta. Parei na estante de literatura nacional para me aconselhar.

Olhei os volumes, cheia de dúvidas. Caetano, complacente com as minhas questões, cantava nas caixas de som da loja:

O que quer 

O que pode

Esta língua?

Eu me fazia a mesma pergunta.

Da estante, Clarice Lispector me sorriu. Meus dedos percorreram as brochuras e retiraram um de seus livros. Seus belos olhos pintados conversaram comigo: Esta é uma declaração de amor: amo a língua portuguesa.”

- Declaração de amor, Clarice? Mas por que amaria essa língua tão presa, tão cheia de veneno e cortada? – retruquei.

Ela ria.

“Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutileza e de reagir às vezes com um pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento de alerteza. E de amor.”

Clarice traduzia meu coração. Exaltava a qualidade da língua naquilo que ela teria de mais fraca, complexa, compulsiva. Eu a ouvia, entre a exasperação e o enlevo.

- Mas você é escritora. Renomada, genial! Para você é fácil compreender a nossa língua-mãe.

Seus olhos continuavam carinhosos. Seu rosto era sereno.

A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa do superficialismo.”

O tapa inesperado veio naquela frase. Foram doces os seus termos, foi doído o meu sentimento de compreensão que a superficialidade era minha e que era eu que precisava rever os meus textos, as minhas construções, o meu domínio da língua que pensava falar.

Ela continuou seu discurso, impassível.

“Às vezes assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montado num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.”

Seria o idioma um cavalo bravio a ser domesticado? Ou seria eu, a amazona destreinada, que deveria ser adestrada? Seríamos nós, usuários ausentes das nuances de nossas próprias palavras, que precisaríamos ir além do óbvio?

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos, estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.”

- Um jazigo para depositar pensamentos. Um local onde o renascimento se dará pela decomposição do que foi pensado. Estamos criando exatamente agora, Clarice, enquanto refletimos? Enquanto eu reconstruo o que me contas?

“Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.”

Nesse momento compreendi.

Ela falava sobre fazer parte da criação da língua. Se sentir UMA com as palavras tão ardorosamente procuradas e encaixadas. Cinzelar a exaustão cada vírgula para que o sujeito seja perfeitamente visível. Recrutar predicados para que os ouvintes ou os leitores consigam tocar o personagem que se criou, esteja ele presente na história contada para crianças, no fato passado, na tradição familiar, na conversa banal no elevador.

“Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo.”

Ah sim! Eu havia entendido.

Estava com Clarice em meu coração, a paz circundando meus ágeis dedos de cronista, uma virtude tranqüila entre os atributos conquistados. Pelos seus olhos, eu tinha enxergado meu idioma. Pela sua tinta, eu tinha enxergado o mais básico sobre a minha inspiração. E foi com o meu sentimento na voz de Clarice que a defesa da língua criou raízes em sua frase final:

“Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.”

Eu estava acompanhada por poetas e literatos de todos os calibres, cercada por todos os lados pela cultura que ajudava a manter e recriar. Suas rimas e metáforas me escoltavam sem descanso. Não me sentia sozinha na minha paixão, na minha crença.

Uma língua que exige tanto empenho e que, em troca, dá tanta riqueza pode calçar seu caminho para qualquer destino. Pode recompor sua fortuna. Pode ser mãe de uma nova versão de si mesma.

 

* os trechos em itálico citados de Clarice Lispector fazem parte do texto “Declaração de Amor” e estão no livro “A Descoberta do Mundo”.

Autor: Ana Marques

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Muita Clarisse e pouca cronista. A solução de se apoiar na Escritora é inteligente, mas poderia ter se utilizado menos de suas citações. Um diálogo imaginário com Clarisse não tiraria o “quê” de crônica do texto.

9,2

Lorenza

O cronista permitiu que a voz de Clarice abafasse a sua. Teria sido mais interessante escolher um mote e seguir dali sozinho.

 

8,5

Cida

Bela crônica

10,0

Marco

Bom, mas não consegue ser original e termina por ser um pouco cansativa a apenas citação de Clarice. Nunca imaginei que alguém conseguisse me irritar com Clarice Lispector.

9,1

Betty

Valeu pela pesquisa... é difícil adaptar-se ao pensamento de outra pessoa.

9,5

Luci

O início da crônica está deslocado. As citações de Clarice ao longo do texto o tornam cansativo.

 

8,5

Total

54,8

Crônica 12

Um problema de sedução

 

Uma língua tem um comportamento semelhante a um ser vivo, ou antes, a uma espécie viva: evolui a partir de uma antepassada, ganha massa crítica de falantes, autonomiza-se, cria rebentos semelhantes, pode ficar isolada, definhar e morrer. Hoje, existem cerca de seis mil línguas, fora os dialectos, mas todos os anos desaparecem cerca de dez. Com elas perdem-se os tesouros culturais que veiculavam. E, da mesma maneira que as espécies, uma língua, uma vez extinta, não reaparece mais. O limite da sobrevivência situa-se por volta dos cem mil falantes. Na História humana terão já desaparecido mais de vinte mil línguas. Algumas, pelo contrário, sobrevivem há mais de dois mil anos. O segredo do sucesso parece ser o grande número de falantes. Como o número de indivíduos nas espécies, o número de indivíduos que usa uma língua assegura-lhe a continuidade.

Nesse ponto, o Português, com os seus 250 milhões de falantes, tem boas condições de sobrevivência e até de expansão. Só o Brasil tem quase 200 milhões. Outros milhões são falados em grandes países africanos com excelente potencial de crescimento. É uma das nove línguas que, só elas, congregam metade da população mundial. É como uma espécie endémica; o seu êxito é inquestionável. Evoluiu do latim, a partir do regionalismo galaico-duriense, e conseguiu constituir-se como língua autónoma, apesar do convívio virulento com o castelhano. As virtualidades que lhe deram nascimento podem ser também as que a ameaçam. Como os tentilhões de Darwin cujas populações insulares evoluíram de maneira díspar devido ao isolamento forçado, as diversas populações de falantes do Português, separadas por oceanos e sujeitas à deriva linguística inevitável numa actividade eminentemente cultural, podem correr o risco de desenvolver línguas-filhas, afastadas da origem e entre si. Nesse aspecto, os acordos ortográficos são, para a unidade da língua, como as selecções de cruzamentos e de ninhadas são, para os criadores de animais domésticos: fortalecem, artificialmente, as características de resistência desejadas. Parece, no entanto, que, mais que acordos linguísticos, o que fortalece a unidade de uma língua é que os seus falantes, por mais dispersos e distantes que se encontrem, a usem, a oiçam, a leiam numa plataforma comum que, não sendo homogénea, seja entendida como familiar — como os diversos timbres e modas vocais entre os membros de uma família são entendidos como familiares e não língua estranha.

Outra estratégia de preservação e expansão é a disseminação. Enquanto as plantas desenvolveram estratégias de dispersão de esporos e sementes, faixas das populações que falam o Português, devido ao fado secular da pobreza, têm sido obrigadas a emigrar, levando consigo a semente linguística. Esta estratégia, embora tenha criado, ao longo dos séculos, bolsas de falantes da língua de Camões, parece ter como resultado não mais que um enquistamento das primeiras gerações, e que uma permanência linguística forçada pela tradição, entre gentes remotas. A imigração, pelo contrário, tem criado populações que se vêem contaminadas pela língua de acolhimento. Actualmente, Portugal terá umas centenas de milhares de imigrantes do leste europeu, atraídos por uma economia que, apesar de tudo, é mais pujante que a dos seus países. Um estado de bom desenvolvimento económico, que atraia imigrantes de países menos favorecidos, é vantajoso para o conhecimento e expansão da língua.

No económico reside uma grande parte do poder de uma língua no confronto com outras línguas. O sucesso do Inglês reside muito na racionalidade e na simplicidade gramatical dessa língua e na brevidade da maior parte das suas palavras, mas deve-o sobretudo ao poder económico dos países que o usam. Esse poder impõe-o nos fóruns internacionais, nas agências de notícias e no entretenimento. Há miúdos, pelo mundo fora, a entender o Inglês desde os três ou quatro anos. O cinema introduz anglicismos na linguagem de todos. O Inglês é um macho alfa em exercício. O Chinês será outro, em breve. Podem-se usar muitas estratégias em presença de um macho dominante. Lutar é uma, mas costuma dar mau resultado; fugir é outra, mas não conduz à procriação. Usar as capacidades intelectuais para o superar, imediatamente ou a prazo, é o que consegue levar os genes a bom porto.

Na selecção natural não há só competição; as simbioses e outras formas de cooperação são modos de organização que podem desencadear os resultados desejados. Por exemplo, conseguir que outros países tratem o Português como segunda língua, e vice-versa, é uma estratégia de cooperação que pode produzir bons frutos.

A força do audiovisual é enorme. No fim dos anos 70 foram introduzidas as telenovelas brasileiras em Portugal, o que criou uma moda temporária de vogais abertas. Essas contaminações internas ao Português são desejáveis, porque permitem homogeneizar mais a língua. Seria desejável um intercâmbio alargado de produções televisivas e cinematográficas entre os espaços do Português, o que o económico ainda trava. Lá chegaremos. De importância menor mas não despicienda, está a palavra escrita. Uma literatura pujante em Português seria a cereja em cima do bolo linguístico. Tornar a palavra aliciante é a melhor estratégia de sedução.

Autor: Joaquim Lopes

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Parece um artigo de divulgação científica.

8,5

Lorenza

A metáfora, que é boa mas não é nova, teria permitido ao cronista enxugar os trechos mais didáticos.

 

9,0

Cida

Boa crônica, mas muito séria, ensaística. 

9,0

Marco

Bom, mas não consegue empolgar.

9,2

Betty

É um pequeno ensaio, com uma conclusão edificante...

9,0

Luci

Apesar da excelente redação, o texto é muito didático e se aproxima do ensaio.

 

8,7

Total

 

Crônica 13

A LÍNGUA VAI AO LEGISTA

Para compreendermos por que nossos alunos vão à escola como quem vai ao Instituto Médico Legal, é necessária uma rápida digressão.

Somos todos bilíngües. Não, não falo do inglês como a segunda língua, até porque, sabe-se, os cursinhos para esse idioma são a mais dispendiosa maneira de aprendermos o Esperanto, mesmo que os menos ambiciosos se satisfaçam com traduzir a letra de uma canção da Hanna Montana.

Bilíngües, sim, pois são duas as línguas correntes no Brasil: o Português Culto e o português falado.

O Português Culto, cujo habitat são nossas instituições educacionais, é o dândi da nossa cultura, sempre orgulhoso de sua supremacia sobre o primo pobre, o português falado. Para exercer esse domínio ele procura afastar-se do português popular, usando em seu auxílio um dialeto denominado gramatiquês, do qual fazem parte o gênero-comum-de-dois, a proparoxítona, a mesóclise, a parênquise, o hiato, o zeugma e outros bichos dessa fauna geneticamente modificada. É como se ao parente rico não bastasse morar num bairro nobre e distante da periferia, mas tivesse sua casa incrustada num condomínio de luxo, protegido por vigias armados, câmeras de segurança e cerca elétrica. Impenetrável à plebe.

Assim, conseguimos o prodígio de sermos analfabetos e poliglotas a um só tempo. Praticamos o português falado para nos comunicar e praguejar contra os políticos, enquanto não conhecemos lhufas do Português Culto, cujo mantra repetitivo e incompreensível é todos os dias entoado nas escolas.

Dado esse prólogo, agora sim poderemos compreender a conexão entre a necropsia e a análise sintática. É outra das estratégias do Português Culto.

Não sei ao certo se é de Voltaire ou de Drummond a máxima de que “escrever é a arte de cortar palavras”. Entre nós, desde os pais fundadores de nossa educação, os circunspectos jesuítas, até o prófi mais brother da mais modernosa escola contemporânea, a didática favorita é a de colocar a língua sobre uma mesa de cirurgia, amolar o bisturi e... corta-que-corta

O ensino como cirurgia aproxima professores e médicos – ambos são loucos por incisões! Os educadores então arrancam as palavras de seu contexto, partem-nas, colam em cada pedaço um rótulo bizarro e exigem dos alunos apenas o engajamento mnemônico.

Ora, à cirurgia num organismo morto chama-se dissecação, e à dissecação em corpo vivo denomina-se tortura – então é tortura o que têm feito com as pobres criaturinhas chamadas palavras.

E é isso que vemos hoje. As belas construções do português serem reduzidas a ratos de laboratório, torturadas e mortas à vista dos alunos, sob a alegação de um alto valor comum. Nesse aspecto, até por falta de perícia, os professores tem sido mais torturadores que legistas. 

Esse procedimento assemelha-se a aprisionar um vagalume por ser tão belo e por iluminar, amputar-lhe uma a uma as patinhas, arrancar-lhe a cabeça e num último gesto esmagar-lhe o tronco, para enfim, à vista dos pedaços, bradar um falso eureka: – Como é belo e luminoso um vagalume!

Há um quê de macabro no estudo da língua em nossas escolas.

A diferença entre o português popular, falado nas ruas e discutido nos bares, e o português-de-casaca do padrão culto pode ser elucidada a partir da seguinte pergunta: – Eu, estudioso da língua, como vou me destacar no que faço se todos perceberem que meu ofício é simples, que qualquer um é capaz de fazer o que faço?

Aí entra o “discurso da autoridade”, engendrado para velar mais que desvelar. A linguagem hermética do especialista afasta os curiosos. E lembremo-nos da advertência do dramaturgo George Bernard Shaw sobre o especialista: "é aquele sujeito que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, até que chegará a saber completamente tudo sobre absolutamente nada".

Há poucos dias minha filha de nove anos mostrou-me seu dever de casa, elaborado por algum Joseph Mengele da língua, pois exigia das crianças, dentro da famigerada análise sintática, o reconhecimento, num período, de coisas tão bizarras quanto uma certa oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo.

Por isso é que, entre ser professor ou legista, opto por ser apenas falante.

Que me cortem a língua se estou mentindo.

Autor: Marcelo Larroyed

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Crônica monótona.

8,0

Lorenza

Com minha conhecida ojeriza à análise sintática (sim, eu sei que dizem que serve para alguma coisa!), fiquei meio constrangida de dar nota máxima. Mas, comparando a naturalidade do cronista com o modo como meninos e meninas ensinados por esse "método" andam escrevendo por aí, o constrangimento passou.

 

 

10,0

Cida

Gostei muito, mas  ressalvo que a gramática reflete a estrutura da língua e não tem ‘fala” sem estrutura, portanto a crítica precisa ser mais objetiva, para

não  criar preconceitos.

10,0

Marco

Bom e competente.

10,0

Betty

Defesa interessante.

9,0

Luci

Aqui cabe o superlativo: saborosíssima. “Os professores têm sido...”

 

10,0

Total

57