Desafio 7

 

Em Tempo de Datas Especiais

 

 

colocação

CONCORRENTE

NOTA

local

NÚMERO DE VEZES EM QUE ESTEVE NA PRIMEIRA COLOCAÇÃO

1

Afonso Cruz

59,2

PORTUGAL

4

2

Marcelo Azevedo Larroyed

57,8

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

3

Ari Gurcz

57,6

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

4

Denis Reis

57,5

BRASIL – MINAS GERAIS

1

5

Cinthia Kriemler

57,4

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

6

Gerson Perrú

57,1

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

7

Maria de Fátima M.Correia

56,9

PORTUGAL

 

 

8

Joaquim Bispo

56,2

PORTUGAL

 

9

Ana Marques

55,7

BRASIL – RIO DE JANEIRO

 

OS 4 EMPATADOS NA ÚLTIMA POSIÇÃO PASSAM À PRÓXIMA ETAPA

MAS APENAS UM (O DE MELHOR NOTA NA OITAVA ETAPA) DEVE SEGUIR PARA  A NONA ETAPA

Ivan Mizanzuk

54,9

BRASIL – PARANÁ

 

Roberto Klotz

54,9

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

João Carlos B.Guimarães

54,9

PORTUGAL

 

1

Rodrigo Fernandes

54,9

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

2

 

Washington Dourado

54,4

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

Parabéns pela participação

 

Kalinka Tavares Iaquinto

52,5

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

FORA DA COMPETIÇÃO

 

 

 

 

Crônica 1

Uma família normal

 

Conta a lenda que há coisa de dois mil e nove anos nasceu uma criança. Nada de novo. Nascem e morrem pessoas a toda a hora. Ao que parece a crise está tal que morrem mais do que nascem. Por conta (por causa) da crise, da de valores, até já há lojas onde se podem matar criancinhas recém concebidas, para pasmo e escândalo das mentes conservadoras. Chega-se lá, diz-se “olhe lá, tou aqui com um percalço na barriga, não me dá aí um comprimido ou uma injecção para ver se isto se me alivía?”. É de lei, é um direito, quem manda no meu corpo sou eu.

Há dois mil e nove anos atrás (ou “há dois mil e nove anos”, ou “dois e nove anos atrás”) não seria assim. A Família era uma coisa importante, era o núcleo duro de uma sociedade em construção com base no poder dos homens, sendo este alicerçado no poder dos deuses que representavam, esses que nunca ninguém tinha visto, mas que do alto da sua infindável benevolência regiam as actividades dos reles humanos sob a égide da certeza que, contrariados, aplicariam castigos inenarráveis.

 

Maria, assim se chamava a mãe do nosso super puto, era solteira e descomprometida, andava de olho num carpinteiro bastante mais velho porque lhe davam ponta as barbas grandes e as mãos rugosas. Maria era saída da casca. Um dia apareceu em casa prenhe e, à falta de melhor desculpa, disse que era culpa do Espírito Santo. A sua família, temerosa aos deuses e aos homens, convenceu o tal carpinteiro a porfilhar-lhe a criança e a levar a mãe para casa “que é uma menina tão prendada, que cose e borda e pinta, que cozinha e lava e arruma, que é obediente e não te há-de dar problemas. E que mais queres tu na tua idade? Achas que ainda alguém te pega?”. José anuiu.

O puto terá nascido a 25 de Dezembro numa mangedoura, aquecido por uma vaca e um burro, enquanto a família se punha em fuga dos problemas sociais que arreliavam a comunidade na altura. Para dourar a história, e é aqui que começam os problemas, diz-se que vieram três reis de terras distantes ao tal sítio imundo oferecer riquezas à criança, guiados por uma estrela rabuda. A razão para estas oferendas seria, segundo informações altamente credíveis dos oráculos da época, que aquela criança era o filho do criador do universo, que aborrecido com a direcção que as suas criaturas levavam desde que Eva tinha obrigado Adão a trincar a maçã, resolvera intervir. A sua intervenção, dita divina, consistia no envio de um ser perfeito, feito à sua imagem e parecença, que havia de salvar a humanidade das tentações mundanas que faziam periclitar aquilo que era o seu plano inicial de harmonia e aborrecimento eterno.

 

A coisa era mais ou menos isto: se te portares bem na tua vida terrena vais para o céu, onde há nuvenzinhas, crianças nuas com asas a tocar harpa, fruta fresca e água corrente, quente e fria. Se te portares mal vais para ao inferno, que se encontra no fundo da terra, debaixo de todos nós, onde te espera o Galhordas com uma casa fétida a enchxofre e labaredas gigantescas de um calor de tal maneira intenso que te hão-de causar melanoma vezes e vezes sem fim. Mais, no inferno não há óculos de sol! Se te portares assim-assim, ou se a justiça divina estiver indecisa quanto ao saldo das tuas acções, no problem!, vais para o purgatório, uma espécie de câmara de vácuo sem gravidade, onde pairarás eternamente ou até que a eles lhes apeteça decidir sobre o resto da tua eternidade.

Da longa lista de infracções a eliminar ditadas pelo pai constavam coisas obscenas como beber vinho, querer enriquecer, fornicar, descobrir a luz eléctrica, o porquê do sol aparecer todos os dias, querer saber que são aqueles pontinhos de luz que aparecem no céu todas as noites, e se andarmos sempre para a frente sem nunca mudarmos de direcção chegamos ao fim da terra e caímos no abismo ou há mais gente do lado de lá?, para onde vamos quando morremos?, é possível curar doenças que não seja por milagre? ou ainda, Deus nos livre, acreditar num deus que pregue tão só e apenas o amor.

 

Cumpriu seu fado o jovem Jesus. Cresceu, pregou, curou, acarinhou, milagrou, foi preso e assassinado. Não consta que tenha namorado e muito menos fodido, morreu estúpido. Ressuscitou ao terceiro dia em que, segundo a mesma lenda, terá subido aos céus, qual superman voador, voltando para casa do pai onde, ainda hoje, estará sentado do seu lado direito, num trono todo feito de ouro e pedras preciosas (que isso de ser pobre e guardar uma vida humilde e modesta é só para os outros) a olhar por todos nós, mas sem fazer absolutamente nenhum. Estava criado o mito.

Passaram os anos, os séculos, as eras e os milénios. Mas a lenga lenga ficou. Construiu-se à sua volta uma aura de preciosismo, de regra única, de intocável. Os homens criaram uma instituição que gere os seguidores da história da criança prodígio e com ela aproveitam para controlar mentalidades e impulsos. Uma das suas celebrações maiores é o Natal. Derivado da Natividade, celebra o nascimento e posteriores feitos do menino Jesus. Serve para lembrar aos fiés que quem manda é o lá de cima, que apesar das coisas estarem muito negras, assim estão porque é o seu plano, que somos demasiado toscos para entender, que quando achar por bem mandará outro filho, quiçá de nome Anacleto, para pegar onde Jesus deixou e reimpor os bons ideiais de vida, para que fiquemos eternamente agradecidos, até que voltemos a sair mais uma vez do caminho certo e o ciclo recomece. É mais ou menos isto.

 

Não é bem isto. Celebra, ou devia celebrar, sobretudo, a família, a união entre os povos, a boa vontade entre os homens, a solidariedade, a entre-ajuda, o amor puro, a tolerânica e os sentimentos positivos.

Mas não.

Todos os anos, em Dezembro, montamos uma árvore de Natal à custa da vida de um pinheiro que antes vivia feliz num bosque qualquer, um presépio de plástico e espalhamos luzinhas coloridas compradas nos Chineses pela casa fora. Damos prendas uns aos outros e a maioria de nós nem sabe porquê. Só sabe que gosta de as receber mais do que de as dar. Passamos esta tradição aos nossos filhos, que passarão a maior parte da sua vida sem sequer entrar numa igreja, mas que por alturas do Natal, entrarão em todas as lojas de todos os centros comerciais.

 

 

Autor:  João Guimarães

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

O autor ou autora deveria estar mais atento para as idiossincrasias nacionais. No mais, texto de mau gosto.

8,5

Lorenza

"Davam-lhe ponta" é uma expressão para guardar na memória! Apenas as referências finais à transformação do Natal numa data comercial caiu um pouco no lugar-comum.

 

9,5

Cida

Texto com altos e baixos.

8,8

Marco

Um ponto de vista bem gasto, quase um clichê, o excesso de mau humor termina por incomodar e dificultar qualquer identificação possível.

9,0

Betty

Ficou um pouco longa.O ponto de vista até que foi original.”Superman voador” destoou do tom geral da crônica. (lembrando que pode ser ofensiva, para alguns)

9,4

Luci

Texto irônico, bem escrito. Rever as vírgulas no segundo parágrafo.

 

9,7

Total

54,9

Crônica 2

Páscoa no coração

 

As datas assinalam. Marcam o dia em que acontece[1]. O dia em que se deu morte ou se virou o rumo. Ou flamejou coisa que se diz milagre. Datas que assinalam o sol mais baixo no horizonte ou quando os dias ficam mais curtos ou mais longos. Acontecimentos inscritos no rolar de planetas e estrelas, que o homem organiza em calendário. Datas para que se suplique e louve.

- Suplico-Te que não haja pragas e não se dêem sóis abrasadores ou demasiadas chuvas.

- Obrigada, Senhor, obrigada.

Grito ou sussurro. Porque nasceu um filho ou foi farta a colheita ou porque caíram uns pingos esparsos depois de uma seca. Em dia de sábado ou domingo, ou outro dia que seja consagrado. Festas e dias santos, o homem faz deles cíclicos tempos de paragem. E baila e ora e oferece sacrifícios ou prendas. Festeja sempre vida e morte e venera a ordem dos céus nas pétalas em rotação de um girassol.

E nem que me pedissem outra data para fazer crónica, eu ficaria mais pejado de tensões, que nesta de escrever sobre a Páscoa.

A tentar decidir o tom a dar-lhe, penso se poderei escrever o texto em acordo com o que sugerem quadros célebres como uma Última Ceia de Da Vinci: sentá-los, lado a lado, os doze a partilharem vinho e pão; ou uma Pietá de Michelangelo ou El Greco: um Cristo mal descido da cruz nos braços carinhosos de sua mãe. Talvez uma reprodução fidedigna do Santo Sudário: o rosto de Cristo gravado no linho a caminho do Cálvário. Talvez o cenário apoteótico de Cristo que ressuscita e sobe ao céu, numa tela de Rafael.

Poderia escrever a partir deles, simplesmente, mas não diria da Páscoa que me acontece.

Talvez se me inspirasse em Botticelli: deusas seminuas a saudar a Primavera ou Vénus a nascer de uma concha.

É que a mim a Páscoa soa como um cântico. A Festa das festas entre todas. Associo-lhe a beleza e graça da maternidade fluindo numa mulher nua, verdejante da folhagem em viço, que lhe contorna o corpo. Que seja seu nome Oster ou seja outro, uma mulher com cabelos cor de fogo a ondular por águas frescas, de ribeiros ou fontes. É o sentir de Páscoa, que me invade por finais de Março ou no dia que venha em calendário.

Nem calvários, nem sepulcros libertados de um nazareno condenado na cruz.

Na Páscoa eu contemplo os olhos da mulher a venerar a lebre branca como um floco de água muito fresca. Fêmeas que trazem Vida nos seus ventres. Fertilidade e renascimento.

Ressurreição na Páscoa que festejei, criança, atapetando a minha rua com flores orvalhadas. Páscoa pela manhãzinha, a desfazer contratos de mindinhos cruzados:

- Ajoelha-te e paga-me.

Escondidos nos umbrais das portas, em gritos de vitória por um pacotinho de amêndoas recobertas de açúcar. Páscoa nessas madrugadas de Domingo: cheirava ao húmido da terra e a bibes engomados. A minha mãe tão semelhante às divindades: Eostre, Persefone, Demeter ou a romana Ceres. Percebi mais tarde. Ela a erguer-nos cedo e a mandar-nos:

- Ide. Ide desfazer o contrato.

Será de minha mãe, mais que das deusas, esta frescura que associo à Páscoa. Este eu acreditar que de aí em diante tudo será renovado.

A minha Páscoa é a dos ovos que as moçoilas enfeitam com vermelhos de seus sangues e doirados: os amarelos do barro, nas fontes onde lhes escorrem orvalhos pelos pés descalços.

À Páscoa eu associo pores-do-sol fulvos com se fossem úteros.

E a lua. A lua a desvendar banhos pelos rios. Cheia. Gorda. A primeira lua prenhe, depois do Equinócio. O dia a emparceirar com a noite. As trevas igualando as luzes e a lua, pasmosa, a desfazer-se em sombras, escorrendo pelos corpos nus, como a cera a deslizar no círio. Alfa e Ómega cruzados em monograma sobre fitas brancas e ela levando-nos ao altar dos sacrifícios. O sangue do galo para o almoço de Domingo derramado na mesa da cozinha, como se fosse a recordar o suplício. Jesus Cristo na cruz há-de ressuscitar ao terceiro dia. Correm por tabernas as taças de vinho e o pão repartido é prece para que seja um ano de fartura.

- Aleluia! – Dizemos. E tilintam os copos como se fossem sinos.

Nessa data, renasce em mim a Esperança que trazia apartada.

É pela Páscoa que se resolvem acontecidos há tanto suplicados: que o namoro se faça ou se dê em pele lisa aquele prurido que desfeia colo e rosto. Como por milagre. Como aconteceu, no ano em que a filha do Emídio se curou de um quebranto que lhe arfava no peito: o Aníbal pediu-a em casamento no adro da Igreja, após a cerimónia do Senhor Morto. Ela respirando sem já sentir sufoco e o povo a gritar:

- Milagre.

E eu a dizer para comigo:

- É por ser a Festa. É por ser Páscoa que se deu a Graça.

A Páscoa em que se dá em Vida o que estava como se fora morto. Rebentam do seu redondo as sementes e os campos florescem em matagais de cores. E apetece agradecer, louvar. Que seja Ele ou seja outro deus qualquer:

- Salvé ó Senhor!

E que nem eu creia em nenhum dos deuses e nem em divindades, mal chega a Páscoa, fico por aí orando uma reza fervorosa ao Universo, à Lua, ao Firmamento. Louvo a Vida a renovar-se e faço uma paragem, a recolher, de mãos estendidas, a bênção de um início. O começar de um novo ciclo. E canto o renascer da Vida, nem que não haja pão doce, ou amêndoas emboladas em açúcar. Nem que não haja sinos badalando e nem que esteja proibido, por uma qualquer lei terrena, a morte do bezerro. E nem que se não possa partir o bolo pascal num qualquer cerro e nem comer o pão ázimo ou desenhar a pomba. Haja o que haja, esteja eu mudo por proibição de homens descrentes ou crentes noutras dimensões. Esteja eu no centro da Europa ou em terras de África ou me encontre na Ásia. Esteja onde esteja, que seja nas Américas ou nos confins do Mundo, eu celebro Páscoa em qualquer latitude.

Eu celebro Páscoa no coração, que é onde nos ficam memórias e saberes do que nos é sentido. Sem baile e sem cortejo. E até com fome. Eu celebro em Festa e orando imploro, que o ciclo da Vida se refaça e a gente possa, para todo o sempre, renascer da morte.

Autor: Maria de Fátima Marques Correia

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Bela celebração da vida.

10,0

Lorenza

Páscoa no coração

10,0

Cida

Excesso de exaltação empobrece o texto.

8,5

Marco

Um arrepio!Lindíssima!

10,0

Betty

Bonito, poético, machista...

9,0

Luci

Bela crônica. O trecho “E nem que me pedissem... a nascer de uma concha” destoa.

 

9,4

Total

56,9

Crônica 3

Santos provocam estragos na minha alma

O ministério da agricultura deveria advertir que festas juninas podem ser danosas à saúde dos jardins.

Ontem fui a uma festa de São João promovida pela igreja de Santo Antônio. Era uma quermesse que visava a arrecadar fundos para um asilo de idosos.

Quando cheguei, a festa já rolava solta (“rolar solto/a”, em diversos tempos verbais: lugar-comum. Melhor sem o “solto/a”). As ruas próximas estavam congestionadas apesar do esforço dos guardas de trânsito. Foi impossível encontrar um lugar para estacionar. Os flanelinhas cobravam adiantado por uma vaga em cima do gramado da praça. Parei o carro quase em cima do banco, pertinho do coreto.

Toda a frente da igreja estava muito iluminada. Podia-se admirar a fachada, a escadaria e o bem cuidado canteiro de flores. O acesso para o público era em uma lateral, logo após as bilheterias. Os caixas vendiam a entrada e tíquetes para consumo nas barracas. Cada vale com um valor e uma cor diferente da outra.

Entrava-se por um extenso corredor até chegar ao campo de futebol dos seminaristas. E, conforme a tradição, as barracas foram montadas, uma do lado da outra, por dentro do alambrado, fechando as duas laterais do campo. Antigamente, a fogueira ocuparia o meio do campo. Agora, por motivos de segurança, queima o gramado atrás do gol e chamusca a minha alma.

No passado, todos iam caracterizados às festas juninas. Colocava-se uma calça de remendos coloridos, uma camisa xadrez e um chapéu de palha na cabeça. A irmã metia um vestido estampado de florzinhas, trançava o cabelo e sapecava umas sardas no rosto. Agora, só o pessoal das tendas se veste rigorosamente caipira (ou “se veste rigorosamente à moda caipira” ou “se veste de forma rigorosamente caipira”).

Ontem, no meio da multidão, achei graça em ver uma jovem madame desfilando lenço de seda, bolsa de grife, empáfia e um sapato de salto fino espetando o gramado e perfurando minha alma. (ou “ao ver”. Ou, sem preposição nem advérbio, “achei engraçado ver”.)

O cardápio foi variado: canjica, cachorro-quente, curau, pamonha, doce de batata-doce. Os pés-de-moleque eram especiais. Disputadíssimos! Graças à nova ortografia eram os últimos hifenizados. E a oferta culinária continuava com tapioca, milho cozido, churrasquinho, quentão, refrigerantes e cerveja. A noite era para os apaixonados, 12 de junho, dia dos namorados e por isso havia também a maçã-do-amor.

Enquanto eu comia uma canjica de amendoim, ri do comentário de um seminarista que disse que os bandeirinhas, com suas tradicionais roupas de luto, saíram das laterais e se vestiram nas cores do arco-íris. Transformaram-se em bandeirolas penduradas atravessando o campo.

A música já estava incluída, a gente nem precisava pagar. Já era possível ouvi-la desde o outro bairro. Era uma dupla sertaneja, acompanhada de um acordeonista, um zabumbeiro, um pandeirista e um sujeitinho mirrado que ritmava uma haste de ferro em um triângulo metálico. Como é que se chama um tocador de triângulo? Trianguleiro? Triangulista? Ou mestre hipotenusa? Deixemos a dúvida para outro dia.

Festa de São João, das boas, tem casamento e muita dança.

Eu reparei que, no começo da festança, havia grama em todo o campo. Conforme o povo se divertia, circulando pelas barracas, a grama foi rareando escapelando a minha alma. Na hora da quadrilha, a poeira subiu. Não se enxergava nada. Apesar do amor, da música e da poesia, João, Teresa, Raimundo, Maria, Joaquim, Lili e J. Pinto Fernandes não conseguiram se acertar. Não formaram par.

Nessa noite, eu poderia ter ficado impressionado com muitas coisas. Com o tamanho da barriga da noiva. Com a brabeza do noivo. Com a picardia do sermão do padre. Até com os garotos que chutavam sabugos na marca do pênalti. Mas não. O que me causou profundo impacto, (sem vírgula) foi tomar conhecimento do desespero das encalhadas.

Mais do que as mães zelosas, elas adorariam soltar fogos de artifício para comemorar pretendente fisgado.

Sempre no dia 12, dia dos namorados, véspera do dia de Santo Antônio, as solteiras ansiosas iniciam as simpatias para tentar entrar no time das casadas.

 

Cada uma à sua moda. Começam por rezar o pai-nosso e o salve-rainha, depois escondem a imagem do Santo Antônio atrás da porta da cozinha. Retiram o menino Jesus do colo do santo e ameaçam só devolvê-lo após um casamento consumado. Outras solteiras preferem amarrar a imagem sob a cama com a cabeça virada para baixo ou simplesmente colocá-lo, também de cabeça para baixo, dentro de um copo cheio de água. Algumas malucas jogam o milagreiro dentro de um poço.

Faltavam cinco minutinhos para a meia-noite quando algumas moças impetuosas, quase titias, optaram por enterrar imagens do Santo Antonio de cabeça para baixo, na frente da igreja. Exatamente no meio do canteiro das margaridas, sepultando a minha alma.

É por essas e outras, (sem vírgula) que as festas juninas podem ser prejudiciais à saúde dos gramados e jardins.

Autor:  Roberto Klotz

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Pobre alminha, chamuscada, perfurada e escalpelada... Agora, o que é que isto tem a ver com o resto, não tenho a menor idéia! A parte do Santo Antônio está ótima.

9,5

Lorenza

Organização um pouco dispersiva do texto; são muitas voltas até justificar a primeira frase.

9,0

Cida

Muito bonita.

9,8

Marco

Divertida, crônica no melhor sentido.

9,8

Betty

Excessivamente descritiva.

O trecho final, sobre as solteironas,devia ter vindo mais cedo, se causou “profundo impacto” no autor... E podia olhar as solteironas com alguma compaixão.

Interessante a identificação com o gramado.

A melhor coisa foram os hífens dos pés-de-moleque.

8,8

Luci

Narrativa sem novidades, não traz o ponto de vista original pedido no Desafio.

 

8,0

Total

54,9

Crônica 4

                                                                                                                                                         O CARNAVAL É UMA PALHAÇADA                                                                                  Quando eu era criança, não existia carnaval. Não tínhamos esse luxo. É bem verdade que, de vez em quando, os moleques lá da rua apareciam com umas brincadeiras diferentes: seringas de água, apitos, rolos de serpentina, bolinhos de confetes e outros com que se travavam pequenas batalhas campais.

            Também surgiam, de repente, umas musiquinhas divertidas, que tocavam repetidamente, quase em uníssono pelos radinhos da vizinhança: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?”... Ficava nisso. No máximo um ou outro marmanjo vestido de mulher, exibindo as finas canelas cabeludas, seguidos (“seguido”) pela meninada em algazarra. Nada de bailes. Nada de desfiles. Não sabíamos que aquilo era o carnaval.

            Talvez pela descendência do interior do Nordeste, da roça mesmo, sem costume de festança e gastança, festa era só São João, e olhe lá.

            Na adolescência é que viria a conhecer o tal do carnaval. Não este carnavalzão global de hoje. Na verdade, limitavam-se aos bailes no clube da minha cidadezinha lá na Bahia. Primeiro, as matinês, depois os bailes noturnos.

            Minha primeira impressão, e que ficou, foi de estranheza. Desconforto, até. Aquilo para mim era um despropósito total. Um conchavo mal-costurado. Um grande complô, de uma falsidade evidente e, no caso, gritante mesmo.

            Doía-me a cabeça, doíam-me os ouvidos, os olhos, os pés; todo o meu frágil corpo e minha lógica incipiente feitos em frangalhos por uma jardineira, um pierrô, uma colombina e sei lá quantas cabrochas.

            Aquilo tudo se misturando à minha frente, tantas pernas desconhecidas, tantas cores e formas se fundindo em chuva, suor e cerveja; agitando-se em mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar... e, finalmente, a ebulição com as vassourinhas! E ai, minhas pobres e magras costelas. E ai, meus pobres e magros pensamentos: “O que é que eu estou fazendo aqui?”

            Só tinha ido porque iam todas as primas; mas, fora este, aquilo não fazia nenhum sentido. Eu ficava pasmo no meu canto, a olhar aquela gente tresloucada, procurava o motivo daquela alegria desmesurada que, de repente, tinha levado tanta gente aparentemente normal (lugar-comum) ao delírio coletivo. Procurava, me exasperava e nada.

            Era tudo tão estranho  (lugar-comum)! O pessoal da minha família, os vizinhos e amigos, todos no maior perrengue, com seus empreguinhos ordinários, remoendo toda noite a falta de dinheiro, de conforto, de água encanada, o preço da carne, as goteiras no telhado, o poeirão do inverno e a lama do verão e, então, sem mais nem menos: Surdo, tamborim, cuíca, trombone e Napoleão se agarra a uma fada, uma odalisca beija um dragão, enquanto um anjo puxa pelo braço o pirata que se exibia para uma bruxa e um grupo de índios faz um cordão numa coreografia de filme de faroeste...todos aos gritos de “alalaô, ôôô, ôôô, mas que calor, ôôô...”

            Mas, o que aconteceu? O que mudou? Cadê as maravilhas? De onde veio tanta alegria? Em fevereiro não tem copa do mundo. Teriam todos combinado de ficar felizes no mesmo dia, na mesma hora e só não avisaram a mim?

            E eu, no meu canto, sentado, perplexo, de olho nas primas e marcando o ritmo com o pé: “Tanto riso, oh! Quanta alegria! Mais de mil palhaços no salãão”...

 

Autor: Washington Dourado

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

A percepção da estranheza de uma alegria coletiva e instantânea dá o tom desta crônica.

9,5

Lorenza

Convincente, mas precisa de alguma revisão.

9,0

Cida

Bom texto.

9,2

Marco

Frágil, pouco interessante, linguagem sem atrativos. Nota

8,5

Betty

Curtíssima! E as idéias não parecem conectar-se umas às outras. O “frágil corpo” “feito em frangalhos por uma jardineira”, as “frágeis costelas”, não têm relação com nada na crônica...

8,6

Luci

Simples, gostoso de ler.

 

9,6

Total

54,4

Crônica 5

Aconteceu em maio

 

 É uma estranha contemplação. Contemplação e um sentimento de não sei o quê. É difícil. Um truque barato. Estava ali, não está mais. Deus, que despautério. Assobio sem sentir os lábios, sorrio sem razão para uma moça que passa inocente. Fico parado, inútil, tentando entender o óbvio. Cortaram a corrente, arrebentaram o cadeado, levaram a bicicleta. É tão simples que parece absurdo, minha mente não alcança esse um mais um. Do alto do céu muito cinza começam a cair pingos gelados, eu não me importo. É dia das mães e só consigo pensar que esse tempo nublado, aziago, não combina com a data.

 Era uma bicicleta boa e sólida. Pesadíssima e de trato difícil, alguém do interior a trataria de chucra e talvez lhe desse um nome bravo. Minha, logo mandei instalar umas marchas para ganhar as distâncias, vencer as ladeiras. Nunca fui atleta e o esforço não me interessa, quem puder que goste, eu não posso e não gosto, halteres não são comigo. Fico mesmo com esse ócio trabalhoso que é pensar. E é de bicicleta, sozinho, levantado do chão que abstraio melhor. Mais confortável que andar a pé, mais saudável que guiar um automóvel, meio termo do bem. As pedaladas, mântricas, sempre ajudaram a parafusar as idéias, achar caminhos insuspeitos e, na pior das hipóteses, a entender que nem tudo tem solução, que assim as coisas são e, afinal, ora bolas, tudo solucionado está.

 Não inventei o método. Um dos grandes poetas-pensadores do século XVIII, o britânico William Wordsworth, só conseguia criar em movimento, era adepto de longas caminhadas. Certa feita um viajante pediu ao criado do escritor para mostrar-lhe seus estudos. “Aqui está sua biblioteca”, explicou o serviçal. “Mas seus estudos ele os faz na rua”. Assino embaixo. Malandro velho esse gringo.

 A bicicleta foi uma compensação. Fui morar num bairro afastado e ela veio para diminuir a lonjura de tudo. Camelo caro, comprado em dez amargas prestações. Acho que foi isso que me doeu mais que tudo. Não roubaram apenas a bicicleta, roubaram também dez meses de sacrifício, de trabalho, de alguma coisa que meus pais renunciaram (ou “alguma coisa a que meus pais renunciaram”, ou algum outro verbo, para poder ficar sem o “a”). Levaram embora todos os conselhos da minha mãe, todas as suas preocupações com o bárbaro trânsito do subúrbio. Inconscientes, carregaram todos os lugares onde estive com ela, as paisagens, os ares, os chãos. Pode parecer exagero do cronista, mas certas coisas possuem uma sombra a mais. Objetos não, sacramentos, pedacinhos da vida.

 Curiosamente minha mãe se torna maior que seu pretenso dia. O presente, comprado às pressas, perde sua importância. Ela nunca ligou para essas datas, para data alguma. Sem posses e honrada, resignou-se a não prometer nem cobrar presentes ou lembranças. Religiosa, sempre olhou com desconfiança para os feriados vendidos em comerciais de televisão. Estar com a família em volta da mesa, quase sempre escassa (o que é escasso não é a mesa...), em qualquer época do ano, sempre foi sua celebração favorita. Acredita em Cristo e no Programa Haroldo de Andrade, o resto nunca teve vez. Discreta, minha mãe nunca barateou a vida. Mulher de tutano. O interior, invisível e consistente, é o que importa.

 

Prevejo o futuro e já a escuto:

 

− Que chato, meu filho, sua bicicleta... Mas por que foi comprar presente? Você sabe que eu não ligo para esses dias...

 

Ela me diz, sem dizer, que um beijo sincero bastaria, que uma palavra bonita teria o efeito do mais potente Renew e que eu fora um tolo por duvidar disso. É uma palmada de leve.

 

Agora volto para casa a pé. Pensando em quem roubaria uma bicicleta velha. Imagino alguém que nunca teve uma, que não sentiu o prazer do vento barbeando o rosto de mentirinha, de sentir o coração socando o peito a cada pedalada. Penso em alguém que vai dar de presente para sua mãe, que mesmo sem saber andar de bicicleta vai ter os olhos cheios de lágrimas, para depois perguntar indignada onde o filho arrumou aquilo. Penso em algum menino que vai passear na garupa pela primeira vez levado pelo irmão mais velho. Em um pai que não vai precisar andar até o trabalho na terrível madrugada. Penso nessas coisas e tenho quase vergonha por sentir compaixão por alguém que me roubou. Mas tenho que pensar assim, de outra forma. Ajuda a diminuir a dor das coisas.

Ando a esmo, dou meia-volta, ainda com a esperança de ter me enganado. Não é o criminoso e sim a vítima que sempre volta ao local do crime, talvez sejamos todos masoquistas. Um vendedor ambulante de flores me oferece um buquê de rosas. Não entendo o que ele diz. A chuva piora um bocado, preciso apertar o passo. Minha mãe me espera. É o seu dia, como sempre.

 

Autor: Rodrigo Fernandes

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Rica, excelente.

10,0

Lorenza

O primeiro parágrafo é uma pérola. O final se equilibra a um passo e meio da pieguice.

 

9,5

Cida

Muita exaltação.

8,0

Marco

É bom, apenas parece uma estória pré-existente adaptada para o tema.

9,0

Betty

Texto poético e lindo.

10,0

Luci

O texto correto reservou pouco espaço para o tema.

 

8,4

Total

54,9

Crônica 6

Uma data como poucas

 

O Dia das Crianças é uma data implacável. Eu quase diria cruel, mas reservo esse adjetivo, em algumas de suas acepções, para as próprias crianças, aqueles seres que te chutam quando a mãe não vê, que limpam os dedos na sua parede recém-pintada, que debocham ou intimidam você com frases curtas e certeiras.

É implacável porque custa caro. É implacável porque é uma data, e as datas precisam acontecer nas datas. É implacável porque não há criatividade que aguente. E não pense que eu sou intolerante ou mal-humorada. Não mesmo! Sou realista. Comprar presentes para o Dia das Crianças é uma tarefa insana!

Imagine um sujeito com três filhos. Em seguida, lembre-se de que, de acordo como o Art. 2º da Lei Nº. 8.069, de 13 de julho de 1990, o chamado Estatuto da Criança e do Adolescente, “considera-se criança... a pessoa até doze anos de idade incompletos... Agora, multiplique os tais três filhos por 12 (porque não existe isso de ‘incompletos’). Resultado, 36. Portanto, logo de cara, o sujeito sabe que está fadado a comprar três dúzias de presentes até que os filhos atinjam a adolescência, onde quando não existe mais o Dia das Crianças, mas existem roupas, tênis, festinhas. Mas isso, por ora, é outra história.

Eu mesma só tive uma filha. Mas errou quem pensa que fiquei no lucro. Quando eu era pequena, minha mãe me habituou a ganhar três presentes a cada data: aniversário, Natal, Dia das Crianças; um total de nove por ano. Um dos presentes era sempre mais caro, melhor; os outros dois, bobagenzinhas como um jogo de pega-varetas ou um diadema. Mas eram três. Caí na besteira de repetir a ideia com a minha filha, esquecida de que vivemos tempos de marcas e tecnologias pró-crianças e anti-pais. Resultado: celulares, joguinhos eletrônicos de mão, jogos para computadores, aparelhos de MP3.

O quê... Você é dos que pensam que não se deve dar esse tipo de presente às crianças? Tudo bem. Respeito a sua posição. Eu tentei ser igual a você, juro que tentei. Foi quando descobri que as crianças são cruéis, muito cruéis:

− Mãããe! Não era esta boneca! Eu queria uma daquelas que falam e fazem xixi! Esta aqui só sabe dar beijo e risada!

Puxa! Que filha mal-educada a minha, não? Se eu fosse dessas mães que se magoam fácil, teria chorado durante uma semana. Preferi guardar a boneca uma semana, até minha pequena descobrir que beijo e risada são bem melhores do que nada. Funcionou por uns tempos, até eu cometer o erro fatal de comprar um tênis que acendia a luzinha na sola, igualzinho ao anterior que tinha acabado de velho, uns meses atrás.

− Ah, não! Ah, não, mãâãnhê! Eu não sou mais bebê! Isso aí é coisa de criancinha!

Fosse só ela, eu tinha aguentado. Afinal, muitas vezes eu também acertei em cheio nos presentes. Mas... e os afilhados? Os quatro afilhados que a vida me deu?

Tem gente que nasce com vocação pra mãe. Eu nasci com um “Madrinha” pregado na testa, mais grudado que zap em jogo de truco. Batizei o primeiro afilhado quando eu tinha 15 anos. A segunda, com 17. O terceiro, com 21. Aí, dei uma descansada de anos, e lá veio o quarto, aos 40 anos. E a vida foi uma sucessão de frases, que coleciono.

− Madrinha, eu a-do-rei o macaquinho! Eu queria mesmo era um jogo, né? Mas, tudo bem!

− Dinda, você sabe que tudo o que você me dá eu gosto, mas da próxima vez pode ser brinquedo em vez de roupa?

− Ah, Dindinha, que pena, este brinquedo eu já tenho! Mamãe me deu no mês passado!

Vamos pular a parte em que eu via naqueles rostinhos sensíveis (eu continuo preferindo ‘cruéis’) uma mistura de raiva e descontentamento, ou aquela outra em que as mães obrigavam as criaturas a me agradecer sem a menor vontade.

Minha filha e os afilhados mais velhos já passaram do tempo de Dia das Crianças. O quarto e último, no entanto, ainda é criança e me obriga à data. Ano passado, resolvi lhe dar um celular. Achei que ia causar uma impressão e tanto aos 10 anos dele. Dois dias antes do 12 de outubro, minha filha entrou em casa e avisou: “Nem pense em comprar celular. A mãe e o pai acabaram de me dizer que são contra, porque ele é muito novo”.

Nocaute no primeiro round. Nintendo, PlayStation? Já tem e já tem. PlaySstation II? Muito caro. Bicicleta? Tem, de não sei quantas marchas. Relógio à prova d’água para mergulho? Ganhou da avó no aniversário. Socorro! Que gente cheia de imaginação! A minha continuava levando jabs de esquerda e de direita.

Foi quando eu descobri que tinha uns jogos para computador − desses que custam mais de três dígitos embutidos numa caixinha inocente − que ele ainda não tinha. Corri e comprei dois lançamentos, ou, como disse a mocinha da loja: “São lançamentos novos, senhora”.

Quarenta e oito horas depois, entreguei, confiante, as duas caixas na mão do meu afilhado.

− Dinda! Como é que você adivinhou? Você comprou certinho o que eu tinha pedido de Dia das Crianças! Você e o papai.

Sobre o sofá, abertas antes das minhas, duas caixas idênticas, com nomes idênticos arreganhavam os dentes e riam de mim.

Desapontada, me consolei pensando que essas coisas acontecem. Até o Natal, dois meses depois, em que os pais pegaram triunfantes, no pé da árvore, uma embalagem quadrada e familiar, e a entregaram a ele. Dentro, um celular de último tipo.

Autor:  Cinthia Kriemler

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Muito boa crônica.

9,8

Lorenza

Ágil e gostosa de ler, mesmo com o enfoque batido.

 

9,5

Cida

Bem escrita, leve e crítica.

9,3

Marco

Inteligente e realista!

9,8

Betty

Ótima crônica.

10,0

Luci

Leve, divertido.

9,0

Total

57,4

Crônica 7

“Coragem, só vos faltam as qualidades”

 A comemoração oficial do dia de Portugal, que é também dia de Camões e das Comunidades, tem sido feita em Lisboa – mais propriamente em Belém – lugar de onde saíram as caravelas que levaram os portugueses, os bons, para outros lugares e deixaram cá estes. Até se diz, por chiste, que não somos descendentes dos descobridores, mas dos que por cá ficaram. Mas se uma pessoa deambular por Lisboa, nesse dia, verá comerem-se sardinhas (bastante gordas, por sinal): As comemorações da Pátria são na mesma altura das festas da cidade, altura de grande folia. (este segundo “mas” parece despropositado. Em que o comer sardinhas opõe-se a não descender dos descobridores?)

 O dia de Portugal acontece na mesma data da morte de Camões. A ironia é trabalho de grande fineza: na altura em que se assinala o apagamento de uma das maiores vozes lusas, festeja-se a nacionalidade.

 Mas, entre o povo, o Poeta não está verdadeiramente morto e há quem saiba a diferença, cientificamente exacta, entre Camões e um português médio:

– Camões distingue-se do português médio por ter menos uma pala nos olhos – diz-me um transeunte com as mãos cheias de jarros de sangria. – Coragem (vírgula) portugueses, só vos faltam as qualidades – afirma ele, com as suas sobrancelhas de Frida Kahlo, citando Almada Negreiros (que foi o português mais integral de todos).

 Fiz cara de Adamastor e fui-me embora sem me alongar no tema.

 Dizem que, neste dia, o Presidente da República costuma discursar, o que pode ser verdade, mas o lisboeta está perdido entre as suas sardinhas. Para ele, nesse dia, o Presidente não passa de um boato político. Quanto às sardinhas, esse baluarte da cultura popular e do bairro castiço, costumam estar suficientemente obesas para a efeméride. As sardinhas engordam para o Verão, exactamente ao contrário do que fazem as mulheres lisboetas que, por essa altura, tentam caber no biquíni, ou mesmo na praia. Tudo isto é copiosamente regado com vinho tinto, sangria e cerveja.

 – Sendo a Pátria bem maior do que o País, é curioso como ela cabe cá dentro. – pergunta o homem que me serve um jarro de sangria. (pergunta? Me parece que ele afirma. )

– Sabe como é – respondo-lhe eu –, também ninguém diria que o conteúdo desse jarro viesse a caber neste estômago (aponto para a minha barriga musculada – a nossa visão é sempre privilegiada), mas, garanto-lhe, caberá. Sirva-me uma sardinha, se faz favor.

 As sardinhas assam-se, em todas as esquinas, a preços delinquentes: somos assaltados cada a vez que comemos uma. Pelo menos um euro por peixe, que, diga-se, não mede mais do que um palmo. Cada vez que me tentam vender uma sardinha, eu, por reflexo, ponho as mãos atrás da cabeça e entrego a carteira e o relógio. (ã... complicado fazer as coisas nesta ordem! Melhor pôr as mãos atrás de cabeça depois de entregá-los)

 Para comer tal preciosidade marítima, põe-se uma fatia de pão por baixo do peixe, para recolher a abundante gordura, e não se usam talheres. Quase nove séculos de História para festejarmos a nacionalidade comendo com as mãos. Quando Portugal fizer mil anos de vida, cá estaremos para aprender a usar talheres como faz o mundo civilizado.

 E há o vinho, que tem mais qualidades divinas do que mero sangue de Cristo na eucaristia: o vinho, nestas festas, é omnipresente. Aliás, as pessoas sóbrias não existem nesta data. Podemos procurar, mas as ruas estão pejadas de pessoas envinhadas. Um vizinho de copos, um homem mais avantajado do que os Lusíadas garante-me que os Descobrimentos foram quase compulsão:

– Não há grande mérito: Se o povo tem espanhóis dum lado e mar do outro, só lhe resta inventar as caravelas.

 – Mas alguma coisa boa deve haver – proponho eu.

 O homem, depois de se nutrir com um cardume de sardinhas, adianta-me:

– Para que fique claro, a portugalidade define-se assim: o nosso sucesso é uma ponte entre dois fracassos. Para ver, caro amigo optimista, a quantidade de pessimismo que existe em cada português: uma ponte entre dois fracassos.

– Tenho dúvidas que esse fatalismo seja uma realidade tão real.

– Nós somos um povo fatal, senhor cronista, fatal: para nós, o destino está escrito. Mas a caligrafia é péssima.

– Isto não é só defeitos. Temos a vantagem de ter a Europa mesmo aqui ao lado. E temos o nosso passado. Pode ser uma coisa de futuro.

– O passado não existe. É uma invenção de historiadores para terem trabalho a escrever livros.

– Mesmo assim...

– Virgílio Ferreira disse que isto é um país de analfabetos e alguns destes não sabem ler. E ainda lhe digo mais, para seu desespero: Da mesma maneira que os franceses vivem perto do centro da Europa e os escandinavos vivem perto do Pai Natal, nós vivemos perto da bancarrota. E os nórdicos ainda têm a vantagem de ter aquelas loiras altas que já bastas vezes foram avistadas entre os fiordes. Nós ficámos com as sardinhas, que fazem parte daquele ditado tão nosso: a mulher quer-se pequenina como a sardinha. E nesta altura do ano até pingam gordura.

– Sim, mas e não há qualidades?

– Há. Mas fugiram do país.

Autor:  Afonso Cruz

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Rendeu-me a maior gargalhada deste desafio!

10,0

Lorenza

Ligeira sensação de déjà vu em algumas piadas (como em "só lhe resta inventar as caravelas" e a vantagem de "ter a Europa mesmo aqui ao lado"). Para um leitor português isso talvez revele falta de imaginação, mas, como não sou portuguesa...

 

9,8

Cida

Muito boa.

9,4

Marco

Enfim, uma crônica para não se colocar defeitos: uma aula de como se faz!

10,0

Betty

Bárbaro...!

10,0

Luci

Espirituoso, redação impecável.

10,0

Total

59,2

Crônica 8

RÉQUIEM PARA UM NATAL

Uma vez, ainda menino, tive medo do Natal. Culpa de um Papai Noel, daqueles contratados para animar lojas. Talvez por não ter a face rubicunda e escandinava própria para o ofício, trazia grudada ao rosto uma máscara de plástico flexível na qual vinham incrustados assustadores olhos de vidro azuis, muito azuis. Tudo bem, justifica-se o uso pela tradição, por trás daquele rosto artificialmente bochechudo e rosado poderia estar um negro ou um oriental. Mas que a máscara era horrenda, era.

Pouco tempo se passou, e para salvação de minha sanidade infantil, percebi que o Natal era mais que um improvável velho gorducho, de barbas brancas, vestido no verão com espalhafatosas roupas de inverno e pouco afeito a cumprir a promessa de presentear a garotada. Notei que as pessoas se transformavam às vésperas daquela celebração. Os tímidos arriscavam bons-dias, mesmo que de olhos baixos. Os avaros cediam aos pobres, sob pressão interna ou externa, uma moeda de pouco valor. Os rabugentos permitiam-se sorrir amarelo ou furta-cor. E, maravilha das maravilhas, as escolas entravam em férias, o que por si só representava o advento de um novo tempo, de esperanças renovadas.

O fato é que, depois dessa experiência com o bom velhinho, outro personagem veio perturbar minha percepção do Natal. Nas aulas de catecismo e na igreja que eu frequentava assistematicamente – para dizer o mínimo com o máximo de eufemismo – o aniversariante de 25 de dezembro era tratado como em eterno suplício, por culpa dos meus precoces pecados. Porém, num flagrante contraste, essa vítima abatida e acusadora era o mesmo homem cuja vida havia mudado o calendário ocidental e que fora co-autor, em parceria com Deus e com o Espírito Santo, da obra mais lida de todos os tempos. 

Todavia, ao ler em algum lugar que esse Jesus – homem por opção, note-se bem, pois bem poderia ser só Deus –, que esse Jesus já nascera sabendo de sua futura crucificação, ai meu medo voltou. Que terror! Saber por antecipação das circunstâncias de seu fim!

Saber, e todos sabemos, que um dia vamos morrer traz a inescapável verdade: festejar o nascimento – e o Natal é o mais célebre deles – implica a comemoração da morte. Assim, uma só festa concentra as únicas duas certezas num mundo só de incertezas. É a boa e a má notícia num mesmo enunciado: nascemos... mas morremos.

Schopenhauer, o filósofo do pessimismo, disse com acerto, na minha opinião, da incoerência de nos preocuparmos tanto com o que nos sobrevenha após a morte e não nos preocuparmos em absoluto com o que nos ocorreu antes do nascimento. Faz sentido – para ele o antes e o depois eram um só.

A possível explicação para esse lapso é a nossa cultura de negação do passado – este já está sepulto no tempo, e seu passamento nos alça à condição de vitoriosos sobreviventes. É o futuro, e principalmente o "nosso futuro", que nos horroriza. E se a morte é o precipício derradeiro do que virá, ela assusta mais que um Papai Noel vermelho com olhos de vidro azuis – mesmo que muito azuis.

O medo de morrer, que é também o medo póstumo por ter nascido, pode inclusive levar a imagens lúgubres, como a cantada pelo poeta Augusto dos Anjos, ao ver futuros defuntos nos bebês ainda em fraldas. É a ironia cruel do morrer embutido no nascer. 

Todo esse preâmbulo sombrio vale para dizer que o Natal nos brinda com as mais belas e dissonantes analogias, como a de imaginarmos que estamos todos numa imensa manjedoura chamada Terra; nossa Mãe sagrada e para sempre virgem é toda a natureza; e, filhos de mãe solteira, mantemos acesa a esperança de um dia encontrarmos nosso verdadeiro Pai.

Algo no Natal nos assopra ao ouvido um misto de indefinida tristeza e indizível alegria (lugar-comum).

Há quem diga que essa celebração é apenas a mais antiga e terna forma de coação da Igreja, ou a mais eficiente alquimia de transmutar sentimentos em faturamento nas lojas. Se fosse por isso, e só por isso, o aniversário de Jesus representaria não um nascimento, e sim algo como a estranha harmonia que antecede a morte súbita.

Mas justamente aí, me parece, o Natal nos obriga ao nosso destino maior: o de, ao menos por um dia, sermos o que somos.

Por ele, conseguimos extrair de nossa absurda mortalidade a essência da vida, que consiste em sermos capazes de nos renovar quando e quantas vezes quisermos, ainda que tenhamos a divina licença para não o fazer.

E por virmos sozinhos, pelo nascimento, de um lugar incerto e não sabido, e para ele retornarmos também solitários após a morte, há que se celebrar, nas igrejas e nos shoppings, nas bebedeiras e nos ritos, a alegria de estarmos vivos e acompanhados. Por mais azuis e medonhos que sejam seus olhos, não existirá jamais um Papai Noel capaz de, pelo medo, conter por muito tempo essa ânsia humana e quase infantil. 

O Natal nos lembra que, da manjedoura à cruz, numa condição absurda, nascemos e morremos um pouco a cada dia.

E é isso que nos faz trágicos e belos.

Autor: MarceloLarroyed

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Boa crônica

9,5

Lorenza

Boa crônica, apenas um pouco repetitiva. Os dois últimos parágrafos poderiam ser dispensados. 

 

8,8

Cida

Parabéns.

9,7

Marco

Belo!

10,0

Betty

Muito bom. Profundo.

10,0

Luci

Muito bem construído. Redação esmerada.

 

9,8

Total

57,8

Crônica 9

SOB OS PODERES DA VOVÓ BAIANA

 

            O dia dos namorados é maravilhoso para todo mundo, menos para os mal-amados, evidentemente. Certos cronistas, obrigados a tomá-lo como tema, são outros que se aborrecem com dia dos namorados. Mas cronistas não entram em consideração neste momento.

Aqueles que têm relacionamentos definidos e consolidados vêem sua felicidade bem sublinhada por esta data sagrada, instituída pelo Clube dos Diretores Lojistas. Os que têm relações afetivas apenas sofríveiscasos meia-boca e casamentos carunchados – ainda podem pegar alguns respingos da alegria que está por . Sempre é alguma coisa. Mas, para os infelizes mal-amados, mergulhados na hidromassagem do desamor, o dia dos namorados é um tormento.

Pessoas desse tipo, infelicitadas por amores jamais correspondidos, poderiam passar o dia cuidando dos seus negócios, sem que se lembrassem de quem deveria amá-las. A propaganda do CDL, entretanto, vem para lhes mostrar a crueza que é passar a existência sem lembrancinhas carinhosas. Sem amor, isto é, sem de quem receber e a quem dar presentes, essas pessoas são tomadas por uma amargura nervosa. Seu desespero reivindica vítimas. Sinceramente, para pessoas nessa condição não vejo outro caminho que se socorrerem das consultas à Vovó Baiana.

            Por seu lado, os escribas que insistem em escrevinhar sobre o dia dos namorados não têm quem os socorra. Vovó Baiana não ajuda ninguém a escrever. Ela escreve os panfletos de sua própria propaganda.

            Vovó Baiana atende no meu bairro. Nos panfletos o endereço está em negrito e itálico. Sua residência – e local de trabalho – situa-se em uma esquina movimentada. Para os padrões do lugar, é uma casa bastante ampla. É aquele casarão verde e silencioso, de janelas sempre fechadas. Um banner no portão informa as atividades ali exercidas. Quando os amigos passarem por aqui, poderão ver um senhor moreno, de bigodinho branco e canelas finas, balde na mão, a lavar o alpendre. Ele usa bermuda bege e camisa xadrez de manga curta. Deve ser o marido da Vovó Baiana, fazendo as vezes de empregado doméstico, espécie de mordomo e pau para toda obra. Rapidamente ele introduz os consulentes aos recintos do casarão misterioso. vi um ou outro desses consulentes, empurrados casa adentro pelo velhote. São homens calvos, de olhar desconfiado, e moças esbaforidas, de andar miúdo.

            Se a Vovó se dispusesse a dar consultas sobre literatura, certamente eu também adentraria pressuroso os aposentos da casa verde. Lamentavelmente a literatura não é especialidade da casa.

 A especialidade da Vovó Baiana é o amor. Naqueles panfletos, ela promete que “traz a pessoa amada em três dias”. O amor não correspondido é urgente. O panfleto avisa que a Vovó Baiana é mestra nosmistérios da linha branca”. Vê-se que é uma Vovó “do bem” e, por conseguinte, seus sortilégios jamais fazem mal a quem quer que seja.

            Mas, me pergunto, e os que se tornam alvo desses feitiços? Estes homens e mulheres que são magicamente coagidos a corresponder a um amor que não pediram? Será que concordam que nenhum mal lhes é feito? É o que questiono quando leio os tais panfletos. Pessoas distraídas são involuntariamente conduzidas a um amor que não desejaram em sua alma. Em apenastrês dias” estão atados a um sentimento que em verdade não é seu, mas mera emanação do casarão da Vovó Baiana. Sem mais nem menos, cidadãos desprevenidos se vêem em suores noturnos, sonhos perturbadores com pessoas que se julgam no direito de serem amadas. Podem ocorrer certas intumescências inoportunas.

Observo o correr do dia e logo me lembro da casa verde na esquina. Quem sabe se toda a atividade namoradeira em curso não é uma ficção da Vovó Baiana? Talvez muitas dessas pessoas não queiram, realmente, estarem sentadas no gramado do Parque Municipal, de mãos dadas, olhando para coisa nenhuma. Vejam que alguns passeiam nos patéticos pedalinhos em forma de cisne, no lago do Parque. Podem saber: Pelo menos um dos membros do casal passeante é consulente da Vovó Baiana. Um tipo carrega um embrulho debaixo do braço. Inconscientemente a serviço das forças astrais, ele leva um ursinho de pelúcia envolto num papel brilhante. Mocinhas muito jovens, mentes e corpos ainda em formação, carregam caixas em formato de coração, repletas de chocolates.

            No entanto, faz um sol claro que em junho. fora tem um céu azul que dói, de tão bonito. Os bem-te-vis gorjeiam ávidos de viver. Tenho de reconhecer: Sejam que poderes escolheram este dia paradia dos namorados”, escolheram muito bem. A luz e o azul de junho tudo perdoam, inclusive as consultas à Vovó Baiana. Pois, enfim, poesia é a feitiçaria tornada possível. Todo mundo acha muito legal, e eu também acho.

            Mas está acontecendo uma coisa que não é legal. Um escriba está a escrevinhar sobre o dia dos namorados. Ele não conta com as bênçãos da “linha branca”. É um chato que não gosta de fazer compras em Shoppings. Aliás, do Shopping, ele conhece a praça de alimentação. Por que será que é logo esse cara que vai escrevinhar sobre o dia dos namorados? Ninguém se consultou com a Vovó Baiana por causa dele! Ele que pare de escrever imediatamente.                       

           

Autor: Denis Reis

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Interessante a questão de quem vai ser amarrado pela vovó, não?

9,7

Lorenza

O quarto e o sexto parágrafos poderiam se encaixar melhor no final. Eles parecem aquelas coisas que a gente escreve enquanto pensa noutra coisa, e depois esquece de recortar e colar no lugar certo.

 

9,5

Cida

Muito criativa.

9,8

Marco

Excelente! Divertida, perspicaz e original.

10,0

Betty

Muito bom.

10,0

Luci

Leitura agradável. Falta revisão. “Não queiram realmente estar...”

 

8,5

Total

57,5

Crônica 10

É Páscoa.

 (de novo)

 

 

            Odeio feriados. Não me entendam mal, não sou daqueles workaholics que, incapazes de sentir prazer no dolce fare niente dos dias de folga, amaldiçoam cada momento em que estão afastados - injustamente, diriam - do corre-corre, do estresse do trabalho. (com travessões, não hífens)

Na verdade, quem me vê trabalhando tanto não tem ideia da minha incomensurável capacidade de fazer nada. Não. Não é essa a origem do meu ódio.

O que me incomoda nos feriados não é o feriado em si, mas a sua motivação. É como se em certas datas fossemos obrigados a ter comportamentos específicos a cultivar e demonstrar sentimentos... datados. O espírito natalino nos obriga a ser generosos, compreensivos, a cumprimentar quem gostaríamos de ignorar, a sorrir àqueles a que gostaríamos de socar. Uma festa a fantasia no Dia de Finados? Nem pensar! Mau humor no carnaval? Só se estiver doente (do pé ou ruim da cabeça). E, não houvesse feriados e comemorações suficientes, ainda há o dia das mães, dia dos pais, dia dos namorados, dia do médico, dia do professor, dia da secretária, todos a nos obrigar a sermos gratos, gentis e, especialmente, não esquecer das lembrancinhas.

Não bastasse minha aversão natural às datas comemorativas, a pauta que recebi esta semana encomendava um texto sobre a Páscoa. Todos os anos nossa revista tem que publicar alguma matéria sobre a páscoa nessa época do ano. É receita de colomba pascal, faça seu ovo em casa, coelhinhos de páscoa coloridos, bibelôs em forma de coelho, ovos de pata pintados à moda russa, cardápio do almoço de páscoa... Não há como ser criativo. Há quase um século todas as publicações do ocidente publicam as mesmas matérias.

Esta é uma data especialmente difícil. É difícil especialmente para dois tipos de gente: Os gordos e os chocólatras. Quase insuportável para os que somos os dois.

Não se despreze o sofrimento dos que são assaltados, durante quase um mês, por ofertas ubíquas de chocolates. Não se respeitam os esforços sobreumanos que as pessoas fazem para se manterem em forma. Nas televisões, nos jornais, nas revistas semanais, em cada direção em que se olhe: anúncios de chocolates. Nos supermercados, à frente de cada gôndola, há cachos de ovos de páscoa. Em todas as gôndolas! Você vai comprar arroz integral, ovos de páscoa; leite desnatado, ovos de páscoa; sucos de frutas zero-açúcar, gelatina light, papel higiênico, lá estão os ovos de páscoa com e sem recheios, de todos os quilates, formas, cores e porcentagens de cacau.

Há, ainda, os que têm a cara de pau de estampar em letras graúdas e chamativas “LIGHT – 60% menos calorias”. E na tabelinha impressa em letras geradas por nanotecnologia a comparação “normal: 1milhão de quilocalorias / light: 600mil quilocalorias”. Grande vantagem! É como perguntar ao condenado à forca, sisal ou nylon?

Nas gôndolas em que não há os famigerados ovinhos, estes são substituídos por indefectíveis coelhinhos de chocolate insinuando-se à sua frente, tentando-o como a serpente a Eva, quase a obrigá-lo a levar só-unzinho-que-não-vai-fazer-mal. Pois sim! Acredite quem nunca tomou Xenical antes de uma libação de chocolate quente com chantili.

Houve um ano em que uma aposentada que conheço decidiu que não ia a supermercados. Preparou-se. Na época do carnaval, logo antes da quaresma, fez um estoque para dois meses de tudo que costumava comprar. Assim não daria de cara com aqueles íncubos em forma de coelho. Assinou uma TV a cabo para não ter de assistir aos anúncios comerciais, cancelou os jornais e revistas que recebia e fez um estoque de livros de autoajuda do tipo “seja magro e feliz”. Comprou uma esteira elétrica, um AB-Stretch e um Wallita Juicer, trancou-se em casa e espalhou para os amigos e parentes que ia passar uma temporada em Jericoacoara, numa vila de pescadores sem telefone nem internet. Seguiu rigorosamente as recomendações que havia recebido da nutricionista. Estava decidida a perder os quilos que a médica recomendara.

Finalmente, na segunda-feira, 16 de abril, tinha a sensação do dever cumprido. Seis quilos a menos! Havia passado toda a quaresma e a Semana Santa incólume. Vitória!

Vitória era a faxineira de muitos anos que resolveu fazer um agradinho a patroa querida... Em uma semana, e os seis quilos voltaram acompanhados. Chocólatra é assim, basta a primeira mordida.

É preciso fugir do chocolate, dos coelhos ovíparos (tradição muito instrutiva para os pequenos), das receitas e decorações de festas. Talvez uma abordagem menos trivial que as que costumamos ver publicadas na Semana Santa, menos previsível que o final da historinha aí de cima, mais profunda, como convém a um cronista que se pretende sério. Quem sabe, uma abordagem religiosa. Talvez falar da Pessach judaica (sem notas de rodapé), da ressurreição tão cara aos cristãos. Ou, ainda, reacendendo meus ímpetos anticapitalistas da época da faculdade de jornalismo (pré-queda do muro de Berlim), podia escrever sobre como a fútil sociedade capitalista, em sua sanha de transformar belos sentimentos em produtos vendáveis, explorando a boa fé dos trabalhadores oprimidos, no bojo do imperialismo . . . (a frase não fecha. Foi intencional?) Talvez não.

Resolvi que seria científico. Depois de longa exaustiva pesquisa, (como se qualquer pesquisa pudesse ser longa e exaustiva em época de Google), decidi publicar a fórmula para calcular o dia e o mês em que caiu ou cairá a Páscoa em qualquer ano que se queira desde 1582, quando foi determinado por decreto do Papa Gregório XIII que a Páscoa cristã seria a marca da ressurreição de Cristo. Usando-se tabelas eclesiásticas que consideram o calendário Gregoriano, pode-se calcular o dia da páscoa pela fórmula1 que se segue, em que “A” é o ano, “M” o mês e “D” o dia (é só fazer as substituições, desprezando os decimais e os restos das divisões):

c = a/100
n = a - [19×(a/19)]
k = (c - 17)/25
i = c - c/4 - [(c-k)/3] +(19×n) + 15
i = i - [30×(i/30)]
i = i - {(i/28)×[1-(i/28)]×[29/(i+1)]×[(21-n)/11]}
j = a + a/4 + i + 2 -c + c/4
j = j - [7×(j/7)]
L = i - j
m = 3 + [(l+40)/44]
d = l + 28 - [31×(m/4)]

            Simples, não?

 

1 http://astro.if.ufrgs.br/pascoa.htm

Autor: Ari Gurcz

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Bem humorada e original.

10,0

Lorenza

Só uma nota de rodapé já é uma bênção! Algumas das queixas são previsíveis e o final, a parte "científica", ficou meio solta do resto.

 

9,5

Cida

Excelente texto com exceção da finalização.

9,3

Marco

Divertida e caloricamente verdadeira.

9,9

Betty

Muito original...

10,0

Luci

Divertido, mas pode ser enxugado.

8,9

Total

57,6

Crônica 11

O rigor nas coisas humanas

 

Num mundo onde morrer é uma questão de tempo, celebrar o facto de estar vivo é compreensível. Há dois momentos principais em que os homens tomam consciência aguda da circunstância e a celebram: quando fazem anos — festa sobretudo privada e individual, que louva o momento especial de um nascimento — e quando se inicia um novo ano. São momentos de exaltação da vitória sobre o tempo inexorável e um voto de esperança num triunfo continuado. No momento de celebração colectiva de nascimento de um novo ano, os homens estão irmanados num sentimento de aniversário comum. Todos estão de parabéns, por iniciarem mais um ano, como se renascessem.

É natural que essa festividade colectiva aconteça num momento muito preciso e significativo, que marque objectivamente uma passagem especial relacionada com a medição do tempo no nosso planeta. Os festejos acontecem na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro. Quando os ponteiros do relógio se sobrepõem, à meia-noite, as pessoas do meu país costumam comer doze passas de uva, uma a uma, enquanto vão formulando, em pensamento, outros tantos desejos. Há abraços e beijos, votos de um novo ano cheio de saúde, amor e realizações pessoais. Um sentimento de comunhão com os outros enche os corações. Na rua, ouvem-se foguetes e algazarra. Nas grandes cidades, há lançamento de elaborado fogo de artifício. Bebe-se champanhe e dança-se até de madrugada.

O momento é preciso, mas apenas nos relógios de cada país.

Se um ano é o tempo que a Terra demora a dar uma volta completa em torno do Sol, então a celebração devia acontecer sempre no mesmo ponto determinado dessa translação, que, por alguma característica, seja mais importante que os outros. O que acontece é que quando os brasileiros estão a comemorar o ano novo, já a Terra viajou mais de um milhão de quilómetros, desde o ponto em que os australianos o comemoraram. Alguém não acertou no momento sideral.

Pelo menos, o dia é o mesmo. Será o mais pequeno do ano, para comemorar um regresso do Sol triunfante, depois de uma morte invernal? Não; no hemisfério norte, esse momento — o solstício de Inverno — anda à volta do dia 21 de Dezembro.

Será o dia em que a Terra está mais próxima do Sol, como celebração dessa união cósmica? Não; o ponto em que a Terra se aproxima mais do Sol — o periélio — acontece por volta do dia 4 de Janeiro.

Além de tudo isso, a precisão temporal/astronómica seria sempre relativa, já que umas vezes se celebra o ano novo 365 dias após o último festejo, e outras, 366, conforme os anos sejam comuns ou bissextos.

Afinal, por que se comemora o novo ano a 1 de Janeiro? Na verdade, só nos países que aceitam a influência triunfante do cristianismo. Na China, o ano novo não coincide com o nosso, assim como no grande universo dos países islâmicos, além de noutras culturas de menores dimensões.

Mas, se Cristo nasceu a 25 de Dezembro, porque é que o ano — e a era de Cristo — começam a 1 de Janeiro? Com certeza, não se sabe quando Cristo nasceu. Actualmente, pensa-se que nasceu cinco a sete anos antes da nossa era. Por volta do ano 532 da nossa era, foi indicado o dia 25 de Dezembro, do ano 38 da era de César, como a data desse acontecimento e o início da nova era, o que não impediu que a era de César continuasse a ser usada durante séculos.

O início do ano civil estava fixado, desde os Romanos, em 1 de Janeiro, por ser o primeiro dia do mandato dos seus cônsules. No entanto, o início do ano litúrgico cristão foi variando, conforme a época e os países, mas sempre associado a Cristo. No que ficou conhecido como o estilo da Incarnação ou da Anunciação, o ano novo começava a 25 de Março, dia apontado como o da anunciação à Virgem de que ia ser mãe. No estilo da Natividade, o ano começava a 25 de Dezembro. O estilo da Páscoa usava o dia desta festa móvel, o que era pouco prático. Finalmente, em 1582, os cronologistas católicos aderiram ao início do ano a 1 de Janeiro, a que se chama estilo da Circuncisão, por coincidir com a circuncisão de Cristo, já que era uso, entre os Judeus, circuncidar as crianças no oitavo dia após o nascimento.

Assim, curiosamente, celebramos o dia que não é do nascimento, nem da incarnação, nem da morte de Cristo, mas da ablação do seu prepúcio!

 

As festividades foram especialmente grandiosas na passagem do ano 1999 para o 2000. Toda a comunicação social, comandada pelo mercado, exaltou a «passagem do milénio». Só que, na era de Cristo, não existe o ano zero. Convencionou-se que começou a 1 de Janeiro do ano 1. No fim do dia 31 de Dezembro do ano 1, completou 1 ano, como qualquer criança que nascesse no mesmo momento. Neste método, claro e lógico, no fim do ano 2, passaram 2 anos desde o início da era; no fim do ano 100, passaram 100 anos; no fim do ano 1999, passaram 1999 anos desde o início da era. Falta um ano para completar dois milénios. Não parece um número muito redondo, para tão grandes festejos.

A falta de rigor nas coisas humanas sempre me surpreendeu.

Autor:  Joaquim Lopes Bispo

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Esta discussão já foi em demasia explorada. No entanto, a crônica tem suas qualidades.

9,4

Lorenza

Nem todas as explicações são necessárias: mais concentrada, a crônica provocaria maior efeito.

 

8,8

Cida

Boa crônica, mas merece enxugamento.

9,2

Marco

Boa crônica, sem um ponto muito empolgante, mas cumpre sua função.Muito argumentativa!

9,5

Betty

Bom.

9,8

Luci

Quanto mais explicativo, menos interessante.

 

9,5

Total

56,2

Crônica 12

SORRISO

Estacionei sem grandes dificuldades. Naquele dia, não estava nem um pouco disposto a chegar atrasado. Apanhei as bolsas, tranquei o carro e me dirigi para o pátio da escola. Estava vazio, como era de se esperar, faltando ainda uma hora para o início da programação. Data importante, sem dúvida; a última festa junina de que minha filha participaria naquela escola. Munido dos acessórios indispensáveis a todo bom pai coruja dos dias de hoje – câmera fotográfica, filmadora e uma boa dose de orgulho e expectativa –, me postei no lugar que parecia ser mais adequado para obter os melhores instantâneos e as tomadas mais belas. Nem precisava ter me dado o trabalho, já que o ponto escolhido era, ao mesmo tempo, o mais evidente e o menos confortável para a platéia. Seria visto por todos os que estivessem em ambas as arquibancadas, pagando o clássico mico de tentar chamar a atenção da garota quando ela entrasse.

Aos poucos, os convidados foram chegando. Pais, mães, avós e alguns outros parentes ansiosos por ver os pequeninos dançando ao som de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Elba Ramalho e outros mais.

Começou a festa. Primeiro, os mais novos. Crianças há pouco saídas das fraldas se balançavam, timidamente, enquanto a caixa de som fazia os tímpanos zunirem com os versos do sertanejo sofrido: “Que braseiro, que fornalha! Nem um pé de plantação. Por falta d’água, perdi meu gado; morreu de sede meu alazão”. E todo mundo achando aquilo lindo. As pobres crianças não tinham idéia do que dizia a letra da música – duvido que muitos dos adultos presentes já tivessem ao menos prestado atenção na mesma –. (se tem ponto no final da frase, não precisa de outro travessão) E daí? Ninguém estava ali para elaborar profundas reflexões  (lugar-comum) acerca do sofrimento do retirante. O que todos queriam mesmo era ver os pequerruchos sacudindo-se desajeitadamente e repetir: “que gracinha!”

Veio a segunda turma. Esses eram um pouco maiores. Já conseguiam coordenar alguns passos e, vez por outra, fazer uma roda ou andar em fila. Motivo de orgulho, sem dúvida. Principalmente para as professoras, que deram um duro danado para convencê-los a não sair correndo quando vissem toda aquela gente estranha olhando sua acanhada exibição. “Ela só quer, só pensa em namorar”, guinchava o alto-falante, denunciando que o volume estava insuportavelmente mais alto do que a capacidade do equipamento e me fazendo praguejar em silêncio contra o inventor do amplificador micro processado. E, enquanto tentava me esquivar dos empurrões dos retardatários que insistiam em ver o mais de perto possível sua prole, eu me afundava no azedume de meus devaneios. Aquilo era música que se colocasse para crianças daquela idade dançarem?

Mais uma turma entrou, para a encenação do casamento na roça. O padre, a noiva, o xerife com uma espingarda (que, por conta do politicamente correto, fora substituída por uma pistola d’água) e o pai da noiva, que deveria fazer cara de bravo mas – até por conta da timidez característica da idade – mais parecia querer sair correndo e enfiar a cabeça num buraco.

Foi nesse ponto que aquela tortura emocional vespertina começou a mexer comigo. Me lembrei de quando era criança; das vezes em que eu mesmo estive fazendo aquele papel de bobo; de quanto, no fim das contas, me divertira. Uma certa nostalgia me invadiu, ao recordar minhas próprias festas juninas, quando tinha que improvisar roupas remendadas, já que minha mãe não tinha dinheiro para comprar fantasias prontas. Uma ponta de tristeza se fez presente, quando lembrei das vezes em que dancei quadrilha, procurando, inutilmente, por um de meus pais, que sabia terem ficado em casa. Mas, sobretudo, uma boa dose de saudade se apossou de mim. Saudade daqueles tempos em que a vida era bem mais simples; em que qualquer coisa era motivo de alegria; em que, fosse qual fosse a dura realidade invocada pelas letras das músicas, apenas seu ritmo me contagiava, levando-me a dançar, a sorrir e a festejar a vida, junto com os demais.

Chegou o momento tão aguardado. Minha filha entraria na quadra em instantes. Preparei a filmadora, tirei a tampa da lente da máquina fotográfica e me posicionei.

As crianças começaram a entrar e, entre elas, minha menina. Não foi difícil reconhecê-la: a mais alta da turma, a mais bela, a que tinha o olhar mais distante. Através da lente da câmera, pude captar aquele olhar que parecia se perder no vazio em busca de algo que temia não estar lá. Mas não consegui tirar a foto.

Eu sabia que olhar era aquele. Sabia o que ela procurava. Sabia que algo precisava ser feito imediatamente. Me pus de pé e, cumprindo cabalmente meu papel de pai coruja, chamei seu nome, acenando com espalhafato. Perdi a foto, mas ganhei um sorriso que ficará gravado em minha memória. E tudo o que a filmadora captou daquele momento foi um par de sapatos mal engraxados – os meus –. Uma grande sorte, diga-se de passagem. Seria um tanto embaraçoso ver gravada a pequena lágrima que rolou por minha face.

Não demorou e a menina identificou sua mãe, sentada na arquibancada. Sua alegria foi indisfarçável. O efeito daquilo seria impossível de se descrever em palavras. A criança acanhada deu lugar a uma menina altiva, elegante, orgulhosa por estar ali, reproduzindo a coreografia cuidadosamente ensaiada, diante dos olhares que, para ela, mais importavam.

Terminada a apresentação, fui parabenizá-la. Me recebeu com um abraço apertado e um beijo caloroso. Não fez questão de esconder – embora não pudesse traduzir em palavras – o quanto estava feliz. E eu também não me esforcei nem um pouco para disfarçar meu orgulho.

Sinceramente, nunca fui muito fã de festas juninas, até aquele dia.

O dia em que perdi uma foto, mas ganhei um sorriso.

Autor: Gerson Perru

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

O final emociona com sua verossimilhança.

9,8

Lorenza

Muito bonita, mas um pouco previsível.

 

9,3

Cida

Aspectos de Conto, mas, na dúvida,  belíssimo.

9,5

Marco

Bonita.

9,3

Betty

Que bonitinho...

10,0

Luci

Crônica singela, de leitura agradável. Quem já recebeu um sorriso desses entende o seu significado.

9,2

Total

57,1

Crônica 13

As Profundezas do Amor de Mãe

 

            Dizem que não há limites para o amor de uma mãe. Concordo. Porém, acredito ser importante compreender as várias dimensões dessa afirmação.

            “A totalidade é um paradoxo”, nos dizia o psicólogo analista Carl G. Jung. A realidade em si, operando com toda a sua potência, não é unidimensional. Não é apenas positiva. É negativa também. Multidimensional, plural. Não busca uma ordem e não é exatamente o Caos.

            Nessa lógica, tomemos a figura da mãe. Lembremos que a idéia da Grande Mãe, em suas diversas representações, possui sempre um lado sombrio. Ao lado da mãe acolhedora, temos a mãe devoradora. Opressão pelo amor. Ditadura da proteção.

            É importante termos essa dinâmica negativa da imagem da mãe em mente. É ela que explica que qualquer mãe, mesmo fazendo mal aos filhos, ama. Há verticalidade no amor – exalta-se e deprime-se. Ao contrário da linearidade do tempo mundano, o amor é puro tempo vertical.

            O leitor pode acreditar então que estou querendo colocar o amor, especificamente o amor materno, em uma balança. Se pender para um lado, é ruim. Quando pender para o outro, é bom. Não, leitor, esse não é meu objetivo. Há sim uma balança, mas não há julgamento de bom ou ruim. Meu ponto de vista é que o amor materno, independente do lado que pende, transforma.

            Falemos enfim do Dia das Mães. Festivo dia que ocorre sempre no segundo Domingo de maio, ao menos na maioria dos países que possuem tal data marcada no calendário oficial. A história da criação deste dia demonstra bem ao menos uma parte do que desejo expressar. (“ter” nem sempre é “possuir”. Embora ‘possuir’ sempre seja “ter”.)

            É possível encontrar registros de festividades próximas ao que entendemos hoje desse dia desde a Grécia Antiga. Quando a primavera chegava em Maio, comemorava-se o dia de Rhea, a mãe dos deuses, mulher de Cronos. Já no mito vemos a questão do amor materno: Cronos desejava matar todos seus filhos, temendo uma futura traição. Rhea salva um de seus filhos, Zeus, que mais tarde tomou realmente o lugar do pai.

            Na concepção moderna que temos do Dia das Mães, encontramos sua origem no início do século XX, pela norte-americana Anna Jarvis. Ela havia perdido sua mãe, e por isso entrara em profunda depressão. Decidiu dedicar um dia para homenagear a memória dela, e mais tarde decidiu dividir a idéia com sua comunidade. Mães, vivas ou mortas, seriam homenageadas nesse dia. Anna então encontrou a cura para sua depressão através da força da homenagem, da força de seu amor.

            Alguém poderia dizer que sua mãe lhe a fez muito feliz enquanto viva e a lembrança dessa felicidade a mergulhou em profundas águas de tristeza. Seria um aspecto positivo do amor? Se alguém pensa assim, eu compreendo, mas não posso concordar completamente.

            Da maneira que vejo, a saudades pela mãe é opressiva. É um aspecto negativo. Perfeitamente natural, obviamente. Mas saudades e pesar pelos mortos é sempre algo difícil de se lidar. Saudades é algo opressivo. Contudo, o Dia das Mães foi impulsionado por um “pesar”, por uma introspecção. Não é à toa que “depressão” significa também “ir para baixo”. Talvez esses sentimentos ainda estejam vagando por aí.

            Em 1914, o Dia das Mães foi oficializado como feriado nacional nos Estados Unidos. Hoje, tornou-se uma das datas que mais impulsionam o consumo. Há inúmeros setores do mercado que fazem previsões de grande obtenção de lucro somente baseados nesse dia.

            Eu gostaria de amar tanto minha mãe quanto Anna amava a sua. Não consigo. Não sou capaz. Ela ainda é viva, mas morreu para mim no dia que me teve, no dia que perdeu sua juventude. Sou o responsável pela morte da juventude de minha mãe, juventude essa que ela buscou recuperar se separando de meu pai. Sou assassino. Por toda a minha vida, deverei levar esse fardo: eu sou o agente complicador da simples vida de minha mãe. Hoje, cresci. Só piorou: se antes eu era apenas empecilho, sou agora obrigado a ser filho responsável e maduro.

            Certa vez, ainda em minha infância, ela disse que me considerava muito mais minha amiga do que minha mãe (que “se” considerava, suponho...). Dizia que não se sentia bem indo à minha casa, pois sentia-se uma intrusa ao lado da minha madrasta.

            Eu a entendo. Passei a entendê-la depois de adulto. Mas isso não tira o peso insuportável dos anos de distância. Minha mãe foi, por muito tempo, uma estranha.

            Talvez isso explique porque o Dia das Mães sempre foi doloroso para mim. Desculpe pela franqueza, leitor, mas não há outra forma de falar disso. Confesso que não sou bom parar falar do Dia das Mães. Não sou a pessoa mais indicada para a tarefa. Sempre me foi um dia difícil. Ter que ver minha mãe nesse dia, por causa de uma data do calendário, foi sempre algo nauseante. E me perdoe Anna, mas eu não gostaria de ser obrigado a ver alguém que não desejo, só porque sua idéia foi tão bem aceita pelo resto da sociedade. Eu gostaria de não ser obrigado a passar por isso, mas sou.

            Como em um feitiço, parece que a opressão da depressão de Anna, que mencionei anteriormente, ganhou vida própria e perverteu-se. Continua oprimindo, mas apenas isso. Deixou de ser depressão. A O Dia das Mães é apenas opressivo. Um ditador disfarçado de presentes. Não suporto todas as festividades, as propagandas, os presentes. É tudo falso e sem sentido. Nunca senti balança de amor pendendo para lado algum. A balança do amor materno que mencionei antes, para mim, nunca sequer existiu.

            Hoje, realmente considero minha mãe minha amiga. Não tenho mágoas. Não sinto ódio. Só não me sinto filho. Talvez eu seja uma pessoa má por isso, não sei. Entendo que ela é humana e errou. Ou não. De repente, ela está certa. Sabe Deus!

            Para aqueles que têm mães opressivas, que sofrem pelo seu aspecto “negativo”, e que talvez não se sintam muito à vontade com o Dia das Mães por isso,vai aí uma pequena provocação: talvez seja melhor ser oprimido por uma figura de amor tátil do que por um Dia Vazio, pois o peso desse vazio às vezes é insuportavelmente insustentável.

Autor: Ivan Mizanzuk

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Um texto que incomoda. Se fosse menos didático, talvez tivesse maior carga dramática.

9,6

Lorenza

A dificuldade para enfrentar o tema pode até ter sido inventada, mas ficou evidente na redação. Precisa de revisão.

 

8,6

Cida

Profundo; raro.

10,0

Marco

Interessante, um pouco soturna, mas cumpriu sua proposta.

9,0

Betty

Excesso de referências e citações no início. Depois, o tom confessional não salvou a crônica.

8,9

Luci

O forte desta crônica é a sinceridade.

 

8,8

Total

54,9

Crônica 14

Um passo em falso e...

 

É verdade, a maldição do Dia dos Namorados existe e afeta de forma arrasadora as mulheres. E falo isso porque sou uma vítima dessa praga. Por isso, alerto: fiquem atentas aos detalhes.

 

Àqueles que não acreditam, sugiro ir fazer compras no dia 12 de junho. Iniciem os trabalhos após o almoço. Irão constatar que todo mundo resolve fazer o mesmo. Parece que na última hora as pessoas começam a acreditar que se não fizerem nada, o grande infortúnio irá se abater sobre suas vidas. Algo pior que os sete anos de azar que ocorrem após a quebra de um espelho.

 

O medo da tal desgraça no universo feminino é tão grande que enfrentamos uma verdadeira Via Sacra que começa pelo salão de beleza, afinal, precisamos estar impecáveis. É aquilo, em dias normais a impressão que se tem é que nossos pares sequer notarão se as unhas estão mal feitas ou se os pelinhos das pernas se apresentam crescidos. Porém, nesse dia é fundamental que não haja vestígios de raízes escuras, cutículas ou pêlos em lugares indesejados. E lá se vão algumas horas em um local abarrotado de mulheres. Trocamos idéias sobre os presentes que vamos oferecer, porém, que ainda não compramos.

 

Aproveitamos para nos inteirar das notícias e lemos revistas de fofocas. Aquelas entre nós que não gostam de saber quem casou com quem e porque deram certo, optam pelos jornais. Pelo caderno especial do Dia dos Namorados. Lá são encontrados os melhores destinos para se ir a dois: Paris, Veneza, Londres... sim, como se fosse possível a uma cidadã comum fazer o passaporte, arrumar as malas, comprar as passagens e realizar todo o resto a ponto de sair do Brasil no dia 12 e chegar no mesmo dia a Europa. Abrindo um parêntese, fico me perguntando por que é que sempre fazem essas matérias sendo que praticamente ninguém vai poder comprar os pacotes e chegar aos destinos em tempo de comemorar a data. Não seria mais inteligente fazer isso com pelo menos uma semana de antecedência? Enfim...

 

Como dizia, por temor de a praga se abater em nossas vidas, perdemos todo esse tempo e mais horas e horas em filas para entrar em shoppings. Esperamos para sermos atendidas por comerciários cansados e estressados que muitas vezes nos informam que o produto desejado já acabou. Mas, movidas que somos pelo medo, não desistimos. Caminhamos e aguardamos o que for necessário para conseguir experimentar, escolher e comprar as mais variadas coisas.

 

As lojas ficam apinhadas de gente. Nem mesmo as de brinquedo escapam. De dentro delas saem legiões de mulheres com pacotes dos mais diversos tamanhos e cores. A pergunta é: se mulheres saem de lá, isso já não deveria ser um indicativo de que os homens não gostam de pelúcias? E o que dizer das sessões de lingerie? Todas procuramos pelos itens fundamentais ‘beleza, conforto, preço e sensualidade’ condensados em uma mesma peça.

 

Isso sem falar que para sair dos centros comerciais temos de enfrentar uma nova fila. Sim, porque em datas comemorativas acompanhadas de uma maldição é sempre melhor encarar mais uma fila a deixar o carro na rua e ter de esperar para que a pessoa que trancou o seu carro volte das compras. Fora de cogitação.

 

O outro ponto fundamental é a janta. A refeição preparada pela mulher é um forte indicativo de que coisas ruins não irão acontecer. Isso, claro, desde que a candidata a cozinheira saiba cozinhar, tenha conhecimento do que é um magret e, claro, que encontre todos os ingredientes. E, importante, não vale trocar pimenta-do-reino branca pela comum. Aliás, nenhum ingrediente pode ser trocado. E o vinho, ah, esse precisa ser seco. Particularmente acredito que quem inventou a história de fazer jantas em casa foi um namorado sovina que queria economizar o dinheiro do restaurante e, por conseguinte, do motel. Todavia isso não vem ao caso.

 

A realidade é que nos arriscamos ao fazer os mais variados pratos a fim de agradar nossos pares. Ao cortar uma cebola, por exemplo, uma unha pode lascar. Nada que um retoquezinho com esmalte não dê jeito. O cabelo, bem, esse já não estará mais tão perfumado, porém, ao finalizar o prato podemos recorrer às maravilhas cosméticas. É fato que ao fim do dia, as pernas estarão inchadas, afinal, ficou-se muito tempo em pé. Item que pode ser resolvido ao se colocar as pernas para cima por alguns minutos antes da chegada do namorado.

 

Quando isso acontece vemos que ele estava ansioso por nos encontrar. Prova disso é que ele chega com a roupa que saiu de manhã, trazendo sem embrulhar o DVD do Revelação (aquele que compramos juntos há umas três semanas) ... bem, a praga se abateu. Alguma coisa saiu errada. Revelação é demais! Aí o negócio é beber o vinho todo e capotar mesmo, afinal estamos amaldiçoadas por um ano inteiro.

 

Autor: Kalinka Tavares

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

O longo inventário de atividades impacienta o leitor. O desfecho poderia ser melhorado.

9,3

Lorenza

Bem redigida, mas não escapa da previsibilidade do estilo Revista Nova.

 

8,5

Cida

Uma abordagem desinteressante do tema.

8,5

Marco

Boa, mas sem aquele ponto-de-vista original que salve  a crônica.

9,1

Betty

Já que não há romance, o rol de lamentações precisaria ser ao menos engraçado, para valer a pena ser lido. Muito mau humor e pouco senso de humor. 

8,9

Luci

Texto leve, um pouco repetitivo. É preciso revisão.

 

8,2

Total

52,5

Crônica 15

Carnaval – em ritmo de sonho

Me dê a mão, vamos pro meio do salão
A lua lá no céu é artificial
Porque é carnaval”

Amor de Carnaval, 1968, Zé Kéti

Hoje, meus queridos leitores, sou um palhaço anunciando a chegada da festa. Meu megafone de brinquedo divulga que o nosso ano vai começar na quarta-feira de cinzas, mas até lá as contas podem esperar.

Contem para mim, em segredo. Contem para si mesmos, no espelho.

Qual é a sua fantasia?

Qual o sonho da sua vida?

Quem deseja ser por quatro dias?

Hoje digo a vocês, companheiros de jornada, que possuem quatro dias para escolher uma nova vida e vivê-la sabendo que ela logo irá perecer. (ter nem sempre é possuir...)

Quando o ano começou, todos nós comemoramos entusiasmados. Brindamos com espumante (sidra), vestidos de branco (trapos), na praia pulando ondas (na areia dormindo). Festejamos a oportunidade renovada (a mentira deslavada) de que tudo poderia ser diferente porque trocamos o dígito final do ano.

Obedientes que somos ao calendário, nos comprometemos com promessas necessárias: o que seremos, o que queremos, o que precisamos.

Entretanto, desobedientes ao mesmo tempo, ignoramos esse início e só permitimos que o ano comece depois do carnaval.

Porque precisamos sonhar sem compromisso.

Necessitamos da fuga para um tempo em que podemos ser tudo ou adiar tudo. Em que temos a ilusória capacidade de viver o que não está ao nosso alcance.

Comunidades alvoroçadas por meses de preparativos, sem tiros ao fundo e sem invasões militares às portas, desejam ser a notícia da primeira página do Globo (depois podem voltar às laudas policiais).

Somos sambistas cheias de glamour, uma Priscila num deserto de confetes, e roubamos beijos atrás do trio elétrico.

No entanto, essa vida de fantasia logo vai embora. A mentira que contaremos a nós mesmos não será digna de sobreviver. Na próxima semana estaremos todos de volta: a balconista, o engenheiro e dois estranhos.

Se o poeta é fingidor, como dizia Fernando Pessoa, eu – o cronista destes dias – transformei-me no espectador da multidão e fingirei não fazer parte da mentira coletiva.

Estou percorrendo ruas com o Zé Pereira resgatado do museu, fazendo o barulho para chamar a todos “Venham! Venham! O ano ainda não começou! Venham sonhar junto comigo! Venham desfilar no meu bloco a mocinha que treinou o ano todo para ser rainha da bateria, a gorducha que esperou pacientemente e deseja vestir a baiana, o menino negro sorrindo porque sabe que do passista ninguém desvia, com medo, na avenida.”

Não importa que a rainha escolhida da bateria seja a beldade global. Que ao final do desfile os pés inchados da baiana mal se agüentem em pé. Ou ainda que o passista volte a ser o garoto temido nas esquinas dos caixas automáticos.

Nada disso interessa. Nesse momento o passado e o futuro se mesclam nas ruas. Na avidez dos corpos roçados, na ausência do pudor imposto, no esquecimento do amanhã que ninguém esqueceu. Podemos ser todos Napoleões sem casaca, loucos mutantes, pierrôs perdidos no tempo.

Falem-me sobre seus sonhos, caros leitores! Contem-me onde estão escondidos os devaneios mais improváveis para que os realizemos nas lojas de fantasias.

Digam-me. Eu aguardo suas cartas, os telefonemas, me parem na rua!

Porque o carnaval é apenas isso: a fantasia que se aceita, a folia com a qual se foge.

Seja no meio da bagunça ou longe do barulho, no carnaval todos adiamos nossa vida até que termine.

Por fim, ele se foi... O ano começa!

As contas chegaram. O seguro-desemprego acabou. O prazo vai vencer. O expediente vai começar.

Agora é para valer.

Feliz ano novo.

Autor: Ana Marcques

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Boa crônica

9,4

Lorenza

Formato interessante e bem realizado; apenas algumas idéias muito previsíveis.

 

9,8

Cida

Linda.

9,9

Marco

Bom, sem entusiasmo, mas bom.

9,0

Betty

Legal a implicação de que o ano só começa depois do Carnaval.Mas antes disso a crônica foi morna.

8,9

Luci

O ritmo de sonho oscila.

8,7

Total

55,7

Crônica 16

DIA DA CRIANÇA, DIA DA IMAGINAÇÃO

Hoje será um dia muito especial. Se alguém disser que criança é só alegria, devo concordar. Mas apenas hoje. Ninguém vai me colocar para dormir, nem me arrancar da cama na hora que desejarem. Neste dia, no meu dia da criança, escolhido por mim, o universo será meu brinquedo. Meu quarto terá a minha cara e meu cheiro. Cara de um palhaço espalhafatoso, de bolinhas de vidro misturadas com meias sem par e tênis esgarçados e sujos. O cheiro será o da rua. E ninguém entrará pela porta querendo colocar ordem em tudo, com expressão de que toda a mágoa da família advém de meu jeito de ser. Nada de vozes dando ordens. Hoje ninguém vai me cobrar lição da escola. Vou comer o que bem entender, na hora em que bem quiser, e almoçar se tiver vontade.

Hoje acordei com a macaca. Não sei, nem quero saber, que horas são. Não preciso passar pela cozinha, posso sair e ir direto à sorveteria. Não há nada mais gostoso que um sorvete como primeira refeição. Também vou descobrir que minhas moedas não valem muito. Irá quase tudo no sorvete duplo, de chocolate e creme, que tenho na ideia. Não fosse o dia de hoje, o escolhido, nem pensar em sair de casa sem estar calçado. Ainda mais com a manhã nublada, ameaçando chuva. Mas vou sair sem os sapatos. Pode existir algo mais gostoso que ter os pés afundados em barro? E ter a chuva todinha só para você? Ignorar os cadernos pelo menos por um dia... Esquecer escola e professora.

Dia da criança com os pais em casa não tem graça alguma, tudo funciona como se o dia pertencesse a eles. Eles acordam a gente para um café especial, querem que vistamos o que eles desejam, dão presentes que não pedimos e nos levam para passeios a lugares que escolheram. Mais se parece com o dia dos pais. Daí minha felicidade. Para mim, o dia de hoje será o verdadeiro dia da criança. Não vou tomar café da manhã. No lugar, sorvete. Depois, brincar de carrinho de rolimã, de pipa, de bolinha de vidro. Permanecerei o dia todo com a mesma roupa, não ouvirei a voz de minha mãe me chamando para o almoço, retornarei no final da tarde, sujo, suado e cansado. Sem a ordem de ninguém, mas apenas pelo corpo quebrado de tanto brincar. Banho? Nem pensar! Vou tomar refrigerante gelado com bolacha doce ou pipoca, sem me preocupar com o sofá novo. Assistirei aos programas permitidos apenas para adultos, aqueles que eles escondem da gente quando nos colocam para dormir. Nem vou perceber com a chegada dos sonhos que adormeci no sofá da sala.

Hoje vou chamar todos meus amigos de rua e dizer a eles que devemos renunciar dos pais. Como dizem os adultos, vamos fazer uma greve; de pais. A rua vai ficar cheia de meninos e meninas na maior algazarra. Será proibida a presença de qualquer adulto. Que não se atrevam a invadir o dia de hoje, o dia da criança escolhido por mim. Nenhuma briga terá apartes de gente grande. Ninguém roubará da criança seu direito à perversidade e de fazer xixi na rua. Toda criança terá direito de levar para casa quantos gatos e cachorros desejarem, sem ter de ouvir os sermões dos pais. Nenhum adulto terá o direito de vasculhar e retirar a cera do ouvido de qualquer criança, de dar bronca e reclamar de ferimentos de qualquer espécie.

Hoje nenhum vizinho poderá reclamar de barulho, de bolas estragando seus jardins, de palavrões ditos ao acaso, das marcas dos pés sujos de barro nos muros. No dia escolhido por mim, como dia da criança, só será permitida a presença de avós, desde que ajam como tal, sempre respeitosos em relação ao dia, mas apenas na rua e em suas casas, que dar uma fugida na casa dos avós no dia da criança é sempre bom demais, acho que devem pensar como eu. Avós sempre são mais maleáveis, permissivos, deixam-nos fazer coisas que os pais não deixariam. Acho que devem ter saudades do que não fizeram na infância.

Para viver um dia assim, da criança, só meu, invento que meus pais saíram de férias e me esqueceram em casa. Cabeça de criança é assim, simples. Sempre sonhei com esse dia. Ele chegou. Criança tem a vantagem de poder imaginar, brincar de coisas impossíveis, com o imponderável, mesmo na minha idade, quando na verdade os pais já partiram para outra, e a crônica me permite um dia da criança, absolutamente único. Na outra infância, fui um pouco o monstro produzido na fábrica dos adultos.

Autor: Carlos Pessoa Rosa

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Começa melhor mas se excede um pouco no desenvolvimento.

9,2

Lorenza

Se não fosse por mais nada, já mereceria o dez pela última frase.

10,0

Cida

Gostei muito do fechamento, crítico, surpreendente.

9,9

Marco

Perfeito

10,0

Betty

Meio que apelando para o comovente, sem chegar a sê-lo

9,0

Luci

Só a última frase tira o encanto do texto. Revisão gramatical.

 

9,3

Total

57,4

 



[1] O dia em que acontece o quê? Se é para ficar sem complemento, melhor pôr “o dia em q acontecem”.