A História é uma História

Colocação

CONCORRENTE

NOTA

local

NÚMERO DE VEZES EM QUE ESTEVE NA PRIMEIRA COLOCAÇÃO

1

Rodrigo Fernandes

58,0

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

2

2

Denis Reis

57,9

BRASIL – MINAS GERAIS

1

Afonso Cruz

57,9

PORTUGAL

3

Maria de Fátima M.Correia

57,9

PORTUGAL

 

 

5

Marcelo Azevedo Larroyed

57,2

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

6

Ari Gurcz

57,0

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

7

Kalinka Tavares Iaquinto

56,5

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

8

Cinthia Kriemler

56,0

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

9

Ana Marques

55,0

BRASIL – RIO DE JANEIRO

 

10

Joaquim Bispo

54,5

PORTUGAL

 

11

Ivan Mizanzuk

54,1

BRASIL – PARANÁ

 

12

Roberto Klotz

54,0

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

Washington Dourado

54,0

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

14

Gerson Perrú

53,5

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

15

João Carlos B.Guimarães

52,9

PORTUGAL

 

1

 

Antonio Paulo Pinheiro Lima

52,5

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

PARABÉNS AOS QUE DEIXAM A COMPETIÇÃO AQUI PELA HONROSA POSIÇÃO QUE OBTIVERAM DE TER SOBREVIVIDO ATÉ A SEMIFINAL

 

Clemens Soares dos Santos

51,5

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

 

 

Carlos Alberto Pessoa Rosa

51,5

BRASIL – SÃO PAULO

 

 

Jurandir Araguaia.

51,3

BRASIL – GOIÁS

 

 

Leo Borges

50,8

BRASIL – ESPÍRITO SANTO

 

 

Pablo Amaral Rebello

52,5

BRASIL – DF

 

Fora

Da

competição

As correções nos textos são da Prof. Betty Vidigal!

Atenção:

Depois da primeira etapa da semifinal, apenas 10 passarão para a segunda etapa, sua nota da primeira etapa será somada com a da segunda e a da primeira etapa da final, assim, para a segunda etapa da final, só seguirão os 5 primeiros colocados na soma das 3 notas.

 

Amanhã o Desafio 8 já será revelado para que todos os que passaram para a próxima etapa já possam começar a trabalhar.

 

Crônica 1

[...] porque este Sagrado Ofício ordenou-me que abandonasse completamente a falsa opinião, a qual sustenta que o Sol é o centro do mundo e imóvel, e proíbe abraçar, defender ou ensinar de qualquer modo a dita falsa doutrina [...] Eu desejo remover da mente de Vossas Eminências e da de cada cristão católico esta suspeita corretamente concebida contra mim; portanto, com sinceridade de coração e verdadeira fé, abjuro, maldigo e detesto os ditos erros e heresias, e em geral todos os outros erros e seitas contrários à dita Santa Igreja” Galileu Galilei, 22 de junho de 1633.

Maastricht, 25 de junho de 1633,

 

            Primavera quente esta que se encerra em terras romanas. Nesta semana, nas dependências do convento dominicano de Santa Maria Sopra Minerva, em Roma, o julgamento do famoso físico Galileu Galilei chegou ao seu termo. Seis meses nos separam da denúncia aceita pelo Santo Ofício de que o antigo protegido de Roma seria responsável pela divulgação de ideias heréticas com a publicação de seu Dialogo sopra i due Massimi Sistemi del Mondo Tolemaico e Copernicano, obra que passa a integrar o Índex Librorum Prohibitorum em sua mais nova edição.

            Como de costume, o Index serve como uma espécie de lista dos mais vendidos. Uma eficiente publicidade para os que vivemos em terras onde as garras papais não são capazes de alcançar os que dos católicos discordam. Mas do que trata o texto? Merece tamanha consideração?

Na obra, uma animada conversa entre três personagens que discutem suas visões do cosmo, Urbano VIII foi travestido em Simplício, um argumentador inepto em favor da clássica teoria Ptolomaica do geocentrismo. Já o exuberante Salviati, alterego do próprio Galileu, defende com brilhantismo as ideias tornadas públicas por Nicolau Copérnico, de que a Terra, não mais o centro do universo, junta-se a todos os outros astros celestes numa ciranda em volta do Sol. Ao cabo do desigual desempenho, Sagredo, a pretensa encarnação dos leitores do Diálogo, embevecido com a lógica clara e incisiva apresentada, acaba por aceitar como verdadeiro um dos dois sistemas cosmológicos.

Se há cuidado com o estilo, com a linguagem cristalina, fazendo do texto, que em mãos menos hábeis poderia tornar-se num árido desfile de fórmulas matemáticas e herméticos argumentos, um passeio agradável pelas estrelas; se o autor consegue conduzir prazerosamente o leitor ao longo das páginas ao fim que pretende, a ideia central do livro que agora se proíbe, no entanto, carece de originalidade. Nem mesmo Copérnico foi o criador da teoria heliocentrista. Mesmo ele já havia extraído de textos mais antigos, obtidos com frades copistas, a concepção de que o Sol, fixo que é, seria o astro cortejado pelos demais corpos da cúpula celeste.

Há quase meio século o próprio Santo Ofício já havia considerado o conceito heliocentrico como uma heresia, mas nenhuma fogueira ardeu por isso.

Por que motivo, então, depois de tantas décadas de indiferença, passou Roma a implicar com o senhor Galileu? Logo Galileu, tão devoto, amigo pessoal de Urbano?

Talvez sejam reflexos da preocupação do sucessor de Pedro e sua corte com as derrotas sofridas frente aos questionadores de sua autoridade. Talvez os Luteros, Calvinos e Erasmos tenham chegado longe demais e o Santo Ofício queira reafirmar seu poderio e autoridade.

Não deixa de ser um movimento inteligentemente calculado de Roma. Afinal, se até um amigo do fiorentino Maffeo Barberini feito Papa pode ser condenado, que dizer dos demais súditos dos reis papistas por toda a Europa.

Não questione! é a moral a que chega a história da condenação de Galileu Galilei. A verdade deve ser aceita. Se é verdade, é inquestionável. E a verdade é a de Roma. Experimentos e teorias exóticas são recompensadas com a condenação do espírito, com a pecha da heresia estampada a ferro e fogo pelos inquisidores.

Roma se expande novamente. O Papado imprime sua marca em seu rebanho. Não nas ancas, como os demais pastores, nas almas é que está seu selo. Se a mancha do medo da espada se pode lavar com espada com melhor fio e sangue e coragem guerreira, a nódoa do medo da danação eterna, essa é indelével.

Uma mensagem foi enviada aos quatro cantos de nossa Terra: Roma tem o poder sobre seu rebanho como o tem sobre o pasto que o sustenta. Poder sobre as pessoas, sobre seus destinos, sobre suas almas. Roma pode decidir o que se pode ou não se pode pensar. Roma tem poder até sobre o movimento dos astros no céu. Sobre a Terra e sobre o Sol. Roma decidiu: o Sol move-se no céu. A Terra é fixa.

"Eppur si muove!"

Autor: Ari Gurcz

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

O texto tem um pouco de resenha, um pouco de ensaio, apesar de bem escrito. Perde um pouco ao final, quando se torna emocional.

8,5

Lorenza

Correta, situa o leitor no assunto e depois oferece um ponto de vista pessoal.

9,5

Cida

Muito boa

9,5

Marco

Competente da primeira à última linha!

10,0

Betty

Bela análise política. Admirável base histórica.

10,0

Luci

Ótimo texto, cuidadosa pesquisa histórica.

9,5

Total

57

 

Crônica 2

O Relato de Chajuti

O meu nome é Chajuti da casta dos Sudras. O meu povo é da cor da fértil terra da Índia e a minha família há muitas gerações que serve o clã dos Sákias, claros arianos da casta dos Xátrias. Fui encarregado por Rahula, que reina em Kapilavastu, de recolher todas as informações que consiga sobre a vida de Sidarta Gautama, o seu pai, que acabou de falecer com 80 anos em Kuchinagara, e lhas relatar pormenorizadamente.

Eu estou numa posição vantajosa para tomar conhecimento de muitos factos da sua vida porque tive acesso a uma fonte privilegiada: sou neto de Chana, o escudeiro de Sidarta, quando este era um jovem e despreocupado príncipe herdeiro. Pelo meu avô, fiquei a saber que Sidarta sempre foi muito protegido pelo pai e viveu os doces prazeres da corte até muito tarde, sem ter grande consciência dos dramas sociais que se desenrolavam fora do palácio. Casou aos 19 anos com uma prima, não tendo filhos até aos 29. Então, nasceu Rahula, o que me parece ter sido o que determinou a ruptura brutal com a vida que levava até aí. Há mulheres que renegam os filhos que parem, talvez pelas dores que estes lhes provocaram para nascer. Há homens que ficam aterrorizados com o significado intrínseco do nascimento de uma vergôntea sua, que, fatalmente, lhes surge como o seu substituto. Acho que foi o que sucedeu a Sidarta, segundo contou o meu avô: abandonou a mulher e a criança e foi refugiar-se entre os ascetas de umas serras perto de Rajgir.

Cá para mim, foi cobardia. O homem não suportou o peso das responsabilidades futuras, quer da paternidade, quer da liderança de um reino. E a culpa foi do pai, que o manteve afastado das realidades da vida. Segundo o meu avô, Sidarta era um jovem meditativo e ficava chocado com as coisas mais triviais do dia a dia: a vista de um velho fragilizado pela idade, ou de um leproso, perturbavam-no como a uma criança de poucos anos. Jovem mimado e rodeado de conforto, não entendia por que existiam tantos sofrimentos no mundo. Como uma criança, ficou deslumbrado com a visão do porte sereno e sábio de um desses ascetas maltrapilhos que vagueiam pelas aldeias mendigando algo para comer. Deve ter entrevisto nessa vida sem compromissos a solução para fugir às pressões cada vez maiores que a sua vida de nobre enfrentava. Ele nunca soube o que é a pressão da luta pela vida, por isso se assustou.

É claro que a maioria destas minhas conclusões nunca chegará aos ouvidos de Rahula, que, embora tenha sido abandonado pelo pai em menino e mais tarde tenha recebido dele, como herança, apenas um manto e uma tigela, pai é pai, e seria muita imprudência minha afastar-me da narrativa propalada pelos discípulos de Sidarta que o endeusaram em vida, o que, sejamos justos, não era uma situação de seu gosto.

Dizem que, após atingir, pela meditação, os estádios do «domínio do nada» e do «domínio além do pensamento» se manteve insatisfeito e se reuniu aos ascetas Sadus da floresta de Uruvela. Existe, na nossa Índia, a ideia enraizada de que para se atingir o saber e o poder sobre as realidades profundas da vida, há que fazer jejuns, vigílias e outras penitências e mortificações. Com cinco companheiros jejuou e mortificou o corpo durante seis anos, até que pressentiu que debilitar o organismo, diminuindo-lhe a capacidade de meditar, não era a via do conhecimento e quebrou o jejum, para grande repúdio dos companheiros. (“para grande repúdio”?) Só mais tarde, quando ele lhes revelou as suas iluminações, obtidas em estado de longa e solitária meditação, o reconheceram como Buda, isto é, Desperto, e se tornaram seus discípulos. (seria melhor aqui “reconheceram-no como” ou “foi reconhecido como”)

Que verdades profundas eram essas, que ele atingiu apenas pela meditação? Coisas elementares, que a maioria das pessoas simples usa com frequência, mas que ele sistematizou em oito princípios, a que chamou «Caminho Ariano dos 8 Passos»: ideias correctas; aspirações correctas; linguagem correcta; conduta correcta; meio de vida correcto; esforço eficaz; atenção correcta; meditação correcta. Cada um destes passos foi objecto de esclarecedores desenvolvimentos, sujeitos a um princípio geral de Impermanência: tudo é impermanente; todas as coisas estão interligadas e interdependentes, por isso mudam, nada permanece para sempre. Se as pessoas se apegarem demais às coisas, vão sofrer com essa mudança. A causa do sofrimento é o apego, seja a um objecto, a uma ideia, ou a uma condição social. Libertando-se do apego, o ser humano alcança a libertação que procura. Ou seja, nada de mortificações, nada de apego excessivo às coisas do mundo, vida frugal em todas as suas facetas.

Não é uma religião, nem Sidarta dedicou grande atenção à religião. Talvez por isso os Brâmanes não o vissem com bons olhos. É uma espécie de manual de auto-ajuda para que o ser humano, através de esforço e método, alcance a iluminação nesta vida – um bem-estar espiritual a que se chama Nirvana.

É isto que vou transmitir a Rahula. O que eu penso é um pouco diferente. Penso que se aprende mais da vida em contacto com os membros da sua família e da sua casta, e observando os membros das outras castas, sejam Brâmanes, Vaixás ou Párias, que de olhos fechados a meditar. Penso que é muito glamouroso ser um grande pensador, mas, para mim, acho tanto ou mais importantes os homens que produzem os alimentos. Sem eles, o mundo estava cheio de meditativos jejuantes a descobrir verdades profundas da vida, com o estômago a roncar. Mas guardo esta e outras opiniões para mim, que já me têm acusado de ser um ignorante materialista. Reconheço, no entanto, que sem grandes pensadores como Sidarta, os homens estavam condenados a vidas sem esperança da redenção que possuir uma verdade fundamental confere. Na verdade, todos têm o seu lugar.

 

 

Autor: Joaquim Lopes

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Está mais para um relato do que para uma crônica, mais para o descritivo do que para o opinativo. Poderia ter comentado mais a questão da herança espiritual e sua utilidade para o mundo.

8,0

Lorenza

A frase "Cá para mim, foi cobardia" soou como uma introdução à parte humorística da crônica, mas esse humor não se consuma e logo fica evidente que nem era essa a intenção do autor. Ruído transatlântico à parte, para a nota 10 faltou apenas o cronista dar menos voltas a explicar seus motivos para escrever uma coisa, quando pensa outra (cá para mim, foi cobardia).

9,5

Cida

Bonita, mas se enxugasse um pouco...

9,0

Marco

Bom ponto de vista, embora, como foi pedido, pudesse ser dispensada a estorinh!

9,0

Betty

Adorei os “meditativos jejuantes”.

10,0

Luci

O tom didático atrapalha. Bem pesquisado.

9,0

Total

54,5

Crônica 3

O fim do muro – silêncio em queda

eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo

mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
força o resgata”

Carlos Drummond de Andrade In Fazendeiro do Ar

Um segundo eterno se tornou.

Os olhos de Riccardo (Ehrman, jornalista italiano) fitavam os olhos de Günter (Schabowski, porta voz da RDA) e fizeram o questionamento. A resposta inesperada a (com crase) pergunta que – esperado seu momento chave – não se calou.

…nós decidimos encontrar uma regulamentação que permita a todo cidadão da RDA viajar ao exterior através dos postos fronteiriços. Isso entrará em vigor imediatamente”.

Não era essa a intenção, mas a notícia se espalhou. Funcionários sem orientação adequada, diante da massa que foi se juntando a sua frente, perderam-se de seus protocolos e o muro emudeceu.

As pessoas exaltadas, maravilhadas diante do fim de vinte e oito anos de uma separação forçada, foram todas em direção àquele que as isolava. O que antes era foco de medo deu o sinal de que a libertação era um fato. Hoje. Agora. Já. E todos, isentos do terror que os fazia rastejar naquele perímetro, se dirigiram ao muro – o símbolo – para finalmente destituí-lo de poder destruindo-o. Não tinham receio. Estava na televisão que sua liberdade havia sido restituída. Não tinham porque temer represálias. Dessa forma, o poder da multidão, segura de seu direito, subjugou a falta de informação dos guardas fronteiriços.

E a fronteira se foi...

Vai tarde, pensei eu.

Vai tarde, cantaram todos.

Vai tarde? - perguntaram-se os colegas do camarada Günter ao se verem obrigados a aceitar como definitiva a decisão que ainda ensaiava os primeiros passos, engatinhando estratégias.

Ainda bem que foi, muitos esperavam há tempos por isso.

A história, essa caprichosa feita de eras e minutos, criava-se ali quase no meu quintal. Seus adornos prontos a mudar o mundo e a fazer dos últimos anos de separação, representados na imensa parede que dividia Berlim, uma folha virada de livro didático. Estavam condenados a ser um suspiro poético-literário na minha crônica triste dessa manhã.

Triste? Por que seria triste, não é mesmo, meus amigos?

Ah... Porque eu poderia tê-lo visto cair.

Eu queria ter apreciado a festa. Cantado a travessia. Sapateado juntos aos seus tijolos infames e adoraria tê-lo feito!

Mas este aqui, que fala com vocês hoje, estava em casa enquanto a história acontecia.

Depois de noites insones farejando que um furo importante estava em andamento – sexto sentido aguçadíssimo! – pescando notícias e chamadas nos jornais, ouvidos atentos às conversas baixas de policiais (mesmo que eles apenas discutissem a cor das meias de lã), circulando a pé madrugada afora próximo às fronteiras, afinando olhares e interpretações para qualquer movimento diferenciado...

Exausto, eu desgraçadamente dormia...

Cara virada na almofada, televisão sem som passando os furos todos que tanto desejei vivenciar, corpo despencado no sofá da sala.

Nada ouvi. Nada vi.

Meu cansaço enganou-me (logo ontem?!). Colocou-me a nocaute no momento mais importante da história da minha vida. Do meu país. Do mundo!

Maldito sono.

Deixei de participar das comemorações, do primeiro cruzamento, da festa e da queda.

Que tristeza a minha!

Que inferno!

Oras bolas!

Esvaiu-se o momento exato de desaparecer com o sentimento de vergonha em me dizer alemão numa cidade partida.

Perdi a história que se perdeu de mim.

Hoje, toda minha frustração mal saindo do forno, poderia apostar minha veia cronista que o meu cansaço – esse infeliz! Macambúzio! Salafrário! – é comunista!

 

Autor:  Ana Marques

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

O autor se coloca de forma interessante, como a testemunha que dormiu na hora H.

9,0

Lorenza

O cronista fugiu dos perigos da obviedade com muita graça!

10,0

Cida

Um pouco apelativa.

8,5

Marco

Bom, com momentos realmente notáveis, mas, no todo, um crônica desigual!

9,5

Betty

Excelente.

10,0

Luci

O texto se concentra na experiência pessoal, menos interessante que o fato histórico.

 

8,0

Total

55

Crônica 4

TEMA: MORTE DE LINCOLN

 

O Erro de Booth

 

            Lincoln morreu. Não há como ser mais claro do que isso. Não há o que dizer. Confesso que, em primeiro momento, eu sequer gostaria de escrever essa crônica. Esta página deveria estar em silêncio, de luto. Mas logo em seguida pensei mais sobre o momento. Decidi arriscar algo. Há algo que deve ser dito.

            Lincoln foi um gênio. Isso deve ser dito. Freqüentou apenas 18 meses de escola. O resto de sua educação foi realizada graças a sua postura de autodidata. Essa louvável atitude o tornou um dos presidentes mais importantes da história dos Estados Unidos. Arrisco-me a dizer que ele é o melhor exemplo de como a democracia é especial. Ela permite que alguém que não teve as melhores oportunidades na vida torne-se presidente da República, desde que se demonstre capaz para isso. Não é o título de nobreza que importa aqui. É o seu caráter.

            A Guerra da Secessão foi uma página sangrenta da história americana. Durou alguns anos, acabou há menos de um mês. Custou milhares de vidas. Custou também um presidente.

            Alguém poderia dizer que o preço da liberdade é caro. Não estaria errado. A libertação dos escravos não foi bem aceita por todos os Estados, e a guerra tornou-se inevitável. Dentre tantas pressões políticas e pessoais, Lincoln manteve-se convicto em sua posição – de que os Estados Unidos nada mais tinham a ganhar com a escravidão.

            Só que não nos enganemos aqui: há um risco de Lincoln tornar-se uma figura histórica apenas libertária; alguém que amava a liberdade por si só, e por isso acreditava que a escravidão deveria acabar. Mas inúmeras vezes vimos ele nos falar em como o fim da escravidão era uma medida tomada de forma que ajudasse o desenvolvimento do país. Não era exatamente na condição de vida dos escravos que Lincoln estava pensando. Ele pensava no seu país.

            Claro, a atitude é tão louvável quanto. Contudo, arrisco-me a dizer que o seu assassinato contribuirá simbolicamente para seu caráter. Ele se tornará maior do que jamais planejou ser. Vejamos.

            Lincoln foi assassinado durante uma peça de teatro. Seu assassino era um ator. Seu assassinato foi teatral. Em meio às risadas inflamadas da peça Our American Cousin, ouviu-se um tiro. John Wilkes Booth, um conhecido ator e confederado, foi o autor do ato. Após o tiro dado, Booth pulou no palco, gritou alguma coisa sobre tirania e foi embora. Uma comédia que terminou em tragédia. Fórmula teatral que os gregos nunca imaginaram.

            Booth achou que estava fazendo algo de importante para sua causa. Deve ter se inflamado de ódio quando soube que Lincoln planejava não mais apenas libertar os escravos, mas dar-lhes também poder de voto. E, como bem sabemos, não há nada mais natural do que um homem inflamar-se e cometer atos idiotas.

            Matar Lincoln foi um ato idiota. Não há outra palavra que defina a situação. Se Booth achava que ia conseguir fazer algo de significativo para sua causa, acabou fazendo exatamente o contrário: tornou-a ridícula. Nunca houve um presidente americano morto durante o mandato. Booth transformou Lincoln em mártir, e nós bem sabemos como o sacrifício é bem visto pela história – vide aquela do maior sacrifício que já existiu, narrado no bom Livro.

            É engraçado pensar como os mecanismos históricos funcionam. Há poucos meses, estávamos nos momentos mais delicados da guerra civil. Quando a guerra acabou, todos os turning points que tinham que ser passados passaram. Não havia mais o que fazer. Lincoln poderia ser conhecido futuramente apenas como o presidente que comandou o país durante a guerra civil. Aliás, os mecanismos da história poderiam acabar por dar razão justamente aos seus maiores críticos (Booth estaria aqui incluso), que tanto o chamaram de “tirano”.

            Sabe Deus o que as análises históricas futuras aguardariam para ele e toda a sua campanha anti-escravagista! Consigo até imaginar algum historiador do futuro, daqui a 100 anos, pacifista, reclamando sobre como Lincoln estava equivocado em realizar a guerra, que deveriam haver modos mais humanos de se libertar os escravos. A história realmente é uma coisa curiosa.

            Mas Booth, ao assassinar o presidente, seu maior inimigo, em uma equivocada atitude simbólica de vingança, achando que assim iria lutar pela sua causa, acabou transformando seu maior inimigo em um deus. Por causa de sua morte, os historiadores futuros não terão coragem de criticar o governo Lincoln – ao menos não por muito tempo.

            Booth errou. Errou feio.

            De qualquer modo, que fique claro que eu acreditava em Lincoln. Considerava-o um bom presidente. Não sei como será o governo de Andrew Johnson daqui pra frente, mas sei que ele estará sempre na sombra de Lincoln. Talvez, todos os presidentes americanos, daqui pra frente, estarão sob a sombra de Lincoln. (“talvez venham a estar”. Ou a frase pode ser categórica, com “estarão” e sem “talvez”) talvez estejam. Não porque ele tenha sido o melhor presidente, mas porque s historiadores dirão que ele morreu pelo seu país (mesmo que tenha sido depois da guerra, em um teatro, divertindo-se, assassinado por um frustrado).

            É nessas horas que me pergunto se a história tem algum sentido. Concluo que não. O que a história tem é sentimento.

 

Autor: Ivan Mizanzuk

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Boa crônica

9,0

Lorenza

Bem escrita, mas o cronista se mostra "profeta" demais.

9,0

Cida

Agradável de ler, de pensar.

9,0

Marco

Uma crônica que chega aflertar com a dubialidade de estar apoiando a causa de Booth, quase lamentando seu zelo equivocado. Perturbadora!

9,6

Betty

Boa crônica.

9,5

Luci

Há muitas oscilações. Revisão ortográfica e gramatical.

 

8,0

Total

54,1

Crônica 5

Planos para o fim do mundo

As notícias desencontradas que chegam à Redação não me permitem firmar uma opinião acerca do que vem por aí. Não sei o que esperar do futuro. Tudo que leio ou ouço me remete ao “fim de mundo”. É o apocalipse beirando meu mundo. O que fazer em momentos como estes?! Nada de respostas. Só de perguntas. Fecho minha máquina de datilografia e vou para casa dormir. Demoro a pegar no sono e começo a divagar contando carneirinhos e ouvindo a ABC.

Adormeço. As imagens chegam todas ao mesmo tempo, e tenho dificuldades de dar uma ordem lógica às coisas. Atrevo-me a contar para vocês, leitores, um pouco dessa minha loucura convertida em sonho.

Imaginando o fim do mundo, planejo tudo que, nos poucos dias que me restam, poderia realizar.

Inicialmente, começarei minhas aulas de canto popular. Canto no banheiro desde criança. Para criar uma desculpa e continuar cantando, inventei um chuveiro imaginário que levo para todos os lugares. Cantar é uma das coisas que estão acima do bem e do mal. Se alguém me diz: “sua voz é linda!”, aceito o elogio e continuo cantando. Mas se maldizem o dia que aprendi a falar e a soltar a voz, eu arremato dizendo: “tudo bem, seguirei cantando!”. Cantar para mim é algo mais natural que respirar. Aliás, ao respirar já estou cantando...

Com as aulas de canto, começarei também aulas de violão. Tenho um jeito de cantar tão peculiar que aquele que se arrisca a me acompanhar tem grande chance de ser reprovado em qualquer platéia de botequim.

Já que a coragem para começar estas aulas me motiva a pensar em mil coisas para fazer antes de morrer, como se tudo o que vivi até aqui fosse incompleto, continuarei a fazer a minha lista de incompletudes para ver se as completo antes que uma bomba qualquer me pegue de “calças curtas”...

Comporei uma canção. Já ensaiei fazê-lo por diversas vezes, mas, no final, as notas cantadas ao léu descem pelo ralo como a água do chuveiro. Se eu canto a melodia, falta-me a letra. Se tenho a letra, a melodia nunca chega a tempo. E tudo se vai... Tudo se vai algum dia... Ou o que é mais poético: iremos nós antes e depois de tudo...

Antes que o mundo voe pelos ares por causa de qualquer ato insensato dessa tríade de senhores do destino alheio, escreverei um livro. Uma biografia. Uma autobiografia para ser exato. Pouco importa se o livro não será lido por alguém. Talvez assim eu possa me sentir livre para confessar tudo que ainda não fiz, toda uma vida de coisas pela metade, inacabadas. Minha família saberá, no máximo, que escrevi um livro. Para eles, não importa muito qual é o assunto. Nunca foram amantes da literatura. Não se tornarão do dia para a noite. Ainda mais agora que para muitos nada mais faz sentido. Mas ficarão orgulhosos do meu pseudo-sucesso editorial.

Quero contrariar a ordem. Que ordem?! Sei lá! Qualquer uma delas. Farei algo diferente. Logo eu que sempre fui ordeiro... Para quem o certo é o que a lei determina e o que os costumes não condenam. Contrariarei todos! Pelo menos, antes de morrer, um gesto de rebeldia... Atitude de homem!

E meu sonho segue... Faço planos para o dia seguinte como quem faz planos para o ano novo.

Esse comportamento confessional ocorre-me quando chegam notícias de um embate inevitável entre os Estados Unidos e a União Soviética. Conflito que chamam de frio, mas que já pressinto a lenha sendo colocada na grande lareira. Este conflito, de consequências inimagináveis, causa pânico na população. Muitos começam a construir abrigos subterrâneos para proteger-se de um ataque iminente. Outros listam coisas que gostariam de fazer antes de morrer. Outros confessam seus crimes, seus pecados, suas falhas. Pedem perdão a Deus a aos homens. Alguns, que entesouraram bens por toda a vida, querem livrar-se de suas posses para eliminar o grande peso que atormenta suas consciências. Talvez por desejarem um céu que os acolha depois da morte...

Lembro-me de anedotas que precederam ao ano 1000 (precederam o ano), quando muita gente distribuiu seus bens, achando que o mundo iria acabar. Na manhã seguinte, quando o mundo continuava “inteirinho da Silva”, alguns estavam na miséria, enquanto outros tentavam reaver os bens doados.

E se o fim do mundo não chegar tão cedo?!

Acordo e continuo com aquela obrigação de pensar em um tema para minha coluna do jornal. Tenho certeza de que, apesar de todo esforço, os críticos me condenarão pela falta de originalidade do texto, pelos erros recalcitrantes de gramática... Enfim, resta-me saber se serei absolvido pelos meus leitores...

 

Autor:  Clemens Soares

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

A crônica segue ao sabor do vento, sem muita direção e sem discutir o proposto.

7,5

Lorenza

Os planos são bons, o fecho da crônica é que nem tanto.

9,0

Cida

Finalizou muito bem, mas foi prolixo no durante. Nota

8,5

Marco

Esse foco tão pessoal num momento de tamanha gravidade term-me-ia parecido leviano.

8,5

Betty

Muito convincente.

10,0

Luci

A abordagem humorística, neste caso, serve para fugir ao tema.

 

8,0

Total

51,5

Crônica 6

                        Amargas emoções    

 

                        A coisa não anda nada doce aqui em Havana. O espaço nos silos, antes usados para a estocagem de cana-de-açúcar, virou armazém de mísseis soviéticos. Bom, a diferença entre um tipo e outro termina no singelo formato cilíndrico de ambos. A cana, um dos insumos que mantém a saúde comercial cubana, acabou cedendo lugar aos longilíneos e robustos artefatos de guerra russos, todos direcionados para o território norte-americano por conta (Sugestão: procurar “por conta de” nos dicionários. Não significa “por causa de”. “Por conta” tem diversas acepções, mas não esta. Provavelmente terá, dentro de uns 10 ou 20 anos: tudo o que “todo o mundo” fala errado acaba se transformando no certo; é assim que as línguas evoluem. Até mesmo “todo o mundo” virou, há pouco tempo, oficialmente, “todo mundo”. Mas, por enquanto, “por conta de” não é “por causa de”.) da birra que se instalou entre Estados Unidos da América e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O mundo está verdadeiramente em pânico, percebendo que, caso a guerra ocorra mesmo, o preço do açúcar – que certamente exorbitará – venha a ser o menor dos problemas. (ou temendo “que venha a ser” ou “percebendo” que virá a ser.)

                                   Bom seria se a angústia toda se resumisse ao fim do milk shake, mesmo porque aqui na ilha dos novos comandantes – Raul e Fidel Castro – esse tipo de guloseima com nome inglês se tornou escasso desde o início dos anos 60. Nos anos anteriores, quando Washington não apenas nutria simpatia como era praticamente parceiro do Fulgêncio Batista (nutre-se simpatia por alguém ou algo. É preciso refrasear. Sugestão: “quando Washington não apenas nutria simpatia por Fulgêncio Batista como era praticamente parceira dele” ou “sua parceira”), o clima caribenho de descontração e influência americana era quase sempre destaque na imprensa. Eu, inclusive, cansei de cobrir matérias sobre as exuberantes festas na sofisticada casa noturna da sempre simpática Regla Mariantes, local onde se curtia a melhor banana split, regada à (sem crase) salsa e rumba, da América Central. (melhor alternar adjetivos antes do substantivo com adjetivo depois do substantivo que, afinal, é a forma direta em Português)

                        Desde que o tal de Che Guevara apareceu por aqui, a situação – se não chegou a perder a ternura – endureceu. O cavalheiro Fulgêncio correu e a família Castro franziu as sobrancelhas para os yankees. Ou foram os americanos que torceram o nariz para o verniz socialista do nosso novo presidente? Esta dúvida ainda me causa pruridos, pois quero passar aos meus leitores a situação sem deixar nuvens sobre o assunto. Não estou disposto a aceitar a mensagem “politicamente correta” da vizinhança sem um bom argumento e nem a bancar a pungente virilidade dos socialistas, ora reinante, sem um conceito ideológico mais concreto. Sei que muitos vão dizer que esse negócio de não saber pra que lado se vai não condiz com um cronista. Dizem que muitos jornalistas, nos últimos anos, conheceram um fim misterioso por conta de portarem dúvidas parecidas. Eu sempre tomo partidos das causas (toma-se partido nas causas, não “das causas”. Mas toma-se o partido “de” alguém.), sejam doces ou amargas, mas o bom senso, neste delicado momento, me impele a agir com serenidade. Dentro desta perspectiva, capitalismo versus socialismo, eu tomo o partido apenas da boa notícia, pois desta maneira, (sem vírgula. Ou com vírgula antes e depois de “desta maneira”.) equilibro-me com racionalidade em cima desse peculiar muro (de topo largo como o de Berlim) construído à base de fortes emoções.

No ano passado os americanos haviam tentado um desembarque pela Baía dos Porcos. Poderia dizer que o nome da Baía estava bem apropriado ao tipo de ataque proferido pelo Kennedy. Mas não estariam eles tentando um resgate da democracia, haja vista que o que houve em Cuba foi um golpe de Estado? Certo é que os Estados Unidos vêm tentando ser a nação-patrulha desde o fim da Segunda Guerra. O problema é que, se eles não dosarem a força do porrete, a Terceira Guerra pode eclodir ainda esta semana. Curiosamente, o sonho que tive ontem me relaxou um pouco. Sonhei que havia aportado em algum país do Oriente Médio no futuro, e só o fato de existir “futuro” já mostrou – pelo menos no meu sonho – que a Humanidade ainda irá ter alguma sobrevida no planeta. Nesse futuro, não sei bem se em 1992 ou 2006, vislumbrei os incansáveis norte-americanos fazendo outras de suas blitz internacionais, dizimando alguns milhares de iraquianos e afegãos, em nome, é claro, da boa e velha democracia.

Hoje estamos no décimo dia desse impasse belicista, cujo epicentro é aqui mesmo, na nossa charmosa Ilha. Apertar um botão de lançamento de míssil, seja de que lado for, é até mais leve do que a força que eu emprego para teclar na minha máquina Olivetti, onde escrevo minhas crônicas. A conseqüência, porém, é tão diferente quanto à (sem crase) analogia entre canas e torpedos. Um texto influencia uma atitude, mas um bombardeio atômico cala tanto o formador de opinião quanto os que por ele são formados. Nessas horas, adultos de ternos, altamente sofisticados, elegantes e de fala séria, parecem crianças briguentas em um jogo de futebol. A derrota pode significar humilhação e desentendimento numa mente já propensa ao conflito. E quando o lado emocional se quebra a razão pede licença, vai dar uma volta e os ditos “seres racionais” resolvem a parada aos tabefes mesmo, como sempre fizeram os nossos ancestrais.

O bom futebol regado a uma boa carga de emoção foram (o sujeito é “o bom futebol”. A “carga de emoção” é um atributo que você deu a ele, não é sujeito. O verbo, portanto, deveria estar no singular). do sujeito. Portanto, por sinal, muito bem ilustrados na última Copa do Mundo pelo esquadrão brasileiro que se sagrou bicampeão de futebol no Chile. O contágio emocional, como se vê, se dá por vários aspectos. Infelizmente, o instante em que vivemos agora está sob um ângulo emocionalmente tenso, crítico e perturbador (o ponto de vista pode estar sob um ângulo, o instante não). Só mesmo um copo d’água com açúcar para acalmar os ânimos dos norte-americanos e soviéticos. Isto se, a esta altura do campeonato, ainda houver alguma cana para ser transformada em açúcar.

 

Autor: Leo Borges

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

O autor navega buscando um final para o texto, mas sem muito conhecer o seu norte. Fico sem saber se a fragilidade da razão que está sendo discutida é a dos envolvidos no conflito ou a do cronista, que na efervescência dos fatos discute milk-shake, banana split, rumba, etc.  

8

Lorenza

O tom explicativo tira a naturalidade do texto, mas se justifica se imaginarmos que a crônica será publicada fora de Cuba, para leitores que não conheçam sua realidade.

9,0

Cida

Boa crônica, com excelente finalização.

8,0

Marco

Um desenvolvimento pouco vigoroso, com desvio do tema!

8,0

Betty

Fugiu ao tema. O tema era a instalação dos mísseis soviéticos em Cuba, mas os russos nem foram mencionados na crônica. O “tal Che” não tem nada a ver com isso,

8.0

Luci

Excelente. Destoa apenas a referência à seleção brasileira.

 

9,8

Total

50,8

Crônica 7

Eu não disse?

Sabemos que a regra número um para viver e, claro, sobreviver em Roma nos dias atuais é ouvir as mulheres. Aos que não concordam, digo apenas para olharem o que não escutar a esposa e a cartomante fizeram com César (“para olharem o que não escutar fez com César”. Não faz diferença quantas pessoas ele não escutou... O fato de ter sido mais de uma não leva o verbo para o plural.) De nada adiantou ter sido tão senhor de si. Agora está lá, durinho, prestes a ser queimado.

Tudo bem, ele virou um herói ainda maior e, acredito, será lembrado por muitas e muitas gerações. Mas, o fato é que está morto (melhor não usar vírgula depois de “mas”). E de que nos adianta um herói morto? Achou besteira o sonho da esposa? Coisas de mulheres? Sim, sei. E a cigana? Uma doida? Está certo. Mas ambas estão vivas e César, morto pelas mãos de ninguém menos que Brutus. Um cidadão com cara de bobo e total e completamente manipulável, tal como a maioria de nós. E, ressalte-se, que também não escutou a mulher.

Como vocês sabem, nunca simpatizei muito com Júlio César, porém, a burrice de partidários da oposição é decepcionante. Não contentes em transformar César em mártir (afinal, os assassinados têm esse destino), deixaram que Marco Antônio - que escutou a esposa-, (aqui, travessões em vez de hífens) o imortalizasse e galgasse postos mais altos dentro do Senado romano. Daqui a pouco veremos o quê? Antônio desposando uma das viúvas de César? Absurdo!

Aos que esperavam uma briga de Titãs após a morte de César, resta a decepção. O que vimos foi um enfraquecido e desprestigiado (para não dizer covarde) Cícero, retirar-se sem conseguir alcançar seu objetivo e, pior, sem fazer defesa de seus discípulos. O homem da oratória calou-se.

Ao pensar em Brutus e Cassius até entendo. Fico me questionando de onde foi que alguém tirou a idéia de que eles conseguiriam agir e pensar ao mesmo tempo. É algo impossível. Muita massa reunida, pouco cérebro, entendem? Sim, estou sendo movido pela cólera. É péssimo ter de admitir que Antônio foi brilhante e, confesso, de que minha mulher tinha razão sobre alguns pontos. O que me irrita ainda mais.

O que falar de maneira eloqüente não faz hoje em dia! E não faço alusão a apenas juntar as letras emitindo sons que formem palavras muito bem pronunciadas. Qual! Refiro-me a expor idéias. Na manhã de ontem vimos pessoas serem levadas a odiar e, em questão de horas, voltar a amar o que há pouco odiavam (o quê? o que é que foram levadas a odiar e depois voltar a amar?). Peças de um perigoso jogo, no qual ganha quem melhor souber movimentar suas pedras.

Se pensam que neste o ganhador foi apenas Marco Antônio, discordo. Seu discurso de fato foi brilhante. Ele deu uma rasteira nos dois pupilos de Cícero. E com que ironia: ‘Brutus é um homem honrado’! ... Vergonhoso.

Mas a verdadeira vitoriosa foi sua esposa. Certamente ela lhe dirá quando chegar a casa: “Não disse que junto ao corpo teria melhor feito? Não disse?”. (Teria melhor feito? Qual o feito? Ou teria feito o quê?)

De fato as palavras têm poder ... de fazer nascer em nós a ira.

 

 

Autor: Kalinka Tavares

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Muito boa crônica

10,0

Lorenza

Perfeita, escrita por um cronista imerso no calor do momento e dirigida a pessoas como ele, sem concessões ao didatismo.

10,0

Cida

Linda.

10,0

Marco

Excelente

10,0

Betty

Começo ótimo. Depois, as idéias não ficaram muito claras.

9,0

Luci

Texto apressado. Falta revisão.

 

7,5

Total

56,5

Crônica 8

Julga que estamos aqui pelos privilégios?

 

 O cristianismo tornou-se a única virtude oficial e Constantinopla tornou-se opressiva o suficiente para ser difícil respirar. Especialmente para mim que já não vou para novo.

 Sobre o Imperador há que dizer que é um ser vivo prudente, capaz de perceber que a homogeneidade do espírito religioso num só credo aproxima, unifica, todas as províncias romanas. Sob as suas garras.

 Os homens que antes frequentavam os mistérios de Mitra e Dionísio, Zeus me perdoe, agora decoram o credo cristão e dão-se àquela álgebra difícil onde o que é um é três e o que é três é um. Os templos fecham, os prognósticos das pitonisas já não erram com a exactidão de antigamente. As obras que ofendem a moral cristã sucumbem à censura. Os judeus também foram incluídos nestas perseguições e os cristãos, de acossados, tornaram-se algozes. É uma cruz que todos os que não se benzem terão de carregar.

 Há muita gente promovida a bispo pelas mãos do próprio Imperador, mas muitos continuam a adorar os mesmos deuses, enquanto outros nem sequer acreditam em Deus. Mas, para compensar, Deus também não acredita neles. (o cronista falou em Zeus no início, parecendo ser um devoto dos deuses do Olimpo. O “Deus” com maiúscula destoa do que veio antes.)

 Dirigi-me ao palácio imperial e observei aquelas hordas de novos convertidos que se acotovelavam para receber, das mãos do próprio Imperador, o báculo episcopal.

 Junto a mim estavam dois futuros eclesiásticos, dois profissionais da escalada social, um alto e um baixo. O mais próximo, o baixo, de barriga pagã e jóias douradas, que fazia lembrar um sapo, falou-me das suas pretensões:

 – Eu não sou um sapo. Sou um príncipe por beijar – disse-me como se os meus pensamentos fossem um livro revelado. – Mal tenha o anel no dedo – continuou –, beijar-me-ão as mãos. É muito bonito ser bispo, é uma coisa que nos eleva a cargos públicos apenas graças ao nosso mérito. As pessoas respeitam-nos e podemos usar saias em público. Quando era adolescente – tempo de loucuras – era completamente neoplatónico. Sabe como é, as mulheres ficam loucas quando lhes sussurramos Plotino com aquela voz grave acabada de estrear. Ou mesmo Jâmblico. Não resistem a uma exortação sobre a relação da Mónada com a pluralidade aparente das coisas. Mas há que crescer, senhor, há que crescer. Deixei-me desses paganismos espúrios e voltei a cara para Deus Pai, Deus Filho e Deus Mãe, o único Deus verdadeiro e Trino. Os outros são uns falsos. (mas, se voltou a cara a eles, não diria “que Zeus me perdoe” no início da crônica.)

 – Não é Espírito Santo?

 – Quem?

 – O terceiro da Trindade.

 – Disso não sei nada, mas afianço-lhe que há que pôr de lado as bacantes e as pitonisas. Uma pessoa não pode ser adolescente a vida toda que isso não é cristão: tanta depravação, tanta borbulha. Veja o exemplo de Orígenes: teve tantas dificuldades com a heresia da parte debaixo do corpo que a arrancou à faca.

 – À faca?

 – À faca. Para evitar ressurreições. Aquela zona do corpo ergue-se dos mortos com muita facilidade.

 Antes, a palavra “heresia” significava, literalmente, uma escolha, uma opção, uma escola de pensamento. Agora, passou a algo que deve ser cortado à (sem crase. Pense em algo no masculino: “cortado a machado” – e não “cortado ao machado“) faca. A obra de Irineu, “Adversus Haereses”, serve de manual de compulsão.

 – Mas não cheguemos a extremos – acautelei.

 O outro futuro bispo, o alto (mas de pensamentos baixos), respondeu-me:

 – Nem seria preciso, nem seria preciso. O Deus verdadeiro gosta de pecadores. Diz que prefere a ovelha tresmalhada.

 – Gosta dos pecadores e dos pobres de espírito – sublinhou o mais rasteiro dos dois.

 – Nisso, é tal qual o Governo deste império – sugeri.

O homem de altura mais tímida benzeu-se. O alto copiou-lhe os gestos.

 – E o senhor, adora o Deus único ou não quer ir para o Céu? – perguntou-me uma das ovelhas tresmalhadas.

 – Fui, em tempos – respondi eu –, meio neopitagórico e, mais tarde, aventurei-me pelo maniqueísmo (loucuras da puberdade) antes de ser verdadeiramente religioso e passar a duvidar. Desde que li Luciano de Samósata, Pirro e, especialmente, Sexto Empírico, que tenho muitas incertezas completamente dogmáticas. Julgo que não irei para o mesmo Céu que os senhores, mas tenho esperanças de ainda poder conversar com Platão.

 Os futuros bispos benzeram-se e eu, com algum pudor, arrisquei criticar as políticas estatais. Fui prontamente interrompido:

 – A nossa governação – responderam em uníssono – é como a concepção de Nossa Senhora. É imaculada. Julga que estamos aqui pelos privilégios?

 

Autor: Afonso Cruz

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Boa crônica

9,0

Lorenza

Difícil pinçar a maior qualidade entre tantas! 

10,0

Cida

Excelente.

10,0

Marco

Conseguir humor com esse tema foi um requinte.

9,4

Betty

Muito bom.

9,5

Luci

Leitura deliciosa

10,0

Total

57,9

Crônica 9

Toba morreu.

Durante o seu reinado, que durou aquilo que o tempo demora a matar 16 primaveras, pouco fez que deixe saudades. Ninguém aqui exultará as qualidades magnânimas, os dotes artísticos ou a tendência para o mecenato (será que você pretendeu dizer “exaltará? Exulta-se com alguma coisa). Não haverá hokkus a perpetuar as suas ilimitadas benfeitorias aos menos favorecidos desta nossa confusa sociedade feudal.

Toba nasceu Munehito e estava destinado a imperar. Seria o 74º imperador do Japão quer quisesse quer não, quer tivesse para isso qualificações, quer destas não houvesse sequer uma réstia no seu intelecto. Agora que está morto, que dificilmente poderá fazer com que a lâmina da sua espada castigadora persiga o meu delicado pescoço, posso dar-me ao luxo de dizer o que não lhe disse todos estes anos.

Viver em casa do patrão, ter o palácio imperial por dormitório, foi todos estes anos um privilégio. Se durante este tempo vivi em cinismo, se até aqui me submetia aos seus caprichos, protegido pelo papel de escrivão-mor que me confiou, posso agora, que me sinto livre das suas garras, contar aos netos dos meu netos quem foi Toba.

Uma criança imbecil rodeada de sôfregos ambiciosos, de interesseiros audazes, de sorridentes congeminadores de traições.

Como qualquer criança a quem se faz uma vontade, também Toba retribuía a graça.

Bastava que um destes senhores viesse com uma prenda brilhante e lustrosa para que o imperador lhe devolvesse o gesto em géneros. Todos os dias víamos novas terras destas nossas celestiais ilhas serem anexadas a, já de si, desproporcionais propriedades privadas. Todos os dias havia mais alguém que retinha para si, livre de impostos, uma nova parcela anteriormente detida pelo povo.

Toba vivia no palácio, levava a típica vida de uma criança atípica. Brincava, comia, cagava, dormia. Se alguém ousasse negar-se a entrar numa da suas brincadeiras, o julgamento sumário e sua pena inapelável, cumprida no acto, resultava invariavelmente na redução drástica do sopro vital do insultante. O poder cego e inquestionável deste semideus crescia com o seu crescimento, com o alargar da sua arrogância, que alardava com tiques de malvadez sempre que se sentia questionado.

Mas isto é a vida no palácio. No palácio há jardins e lagos, servos para todos os serviços e mordomias sem fim. (mordomias? Seria bom verificar a adequação dessa palavra, para ser usada por um cronista no Japão do século X.) – (verifiquei: mordomo foi palavra criada no séc. XIII; mordomia, no século XVII.)

Lá fora é bem diferente.

Saindo da porta dourada que nos separa da realidade, a organização é um conceito em permanente mutação.

O alargamento das propriedades dos privados, alargou também o seu poder, dando-lhes a possibilidade de ignorar as ordens da capital e de subjugar as populações rurais.

Haverá quem diga: “dividir para conquistar”. Quem o disser terá razão. Se a união faz a força, também o contrário é verdade, mas de modo inverso. A separaração das terras, a sua distribuição desigual atendendo apenas ao critério de quem mais influência tem junto do iludido poder central não trará nada de bom a mais ninguém que ao próprio administrador. O povo deixa de ter sustento, o trabalho rural deixa de ser pago e, em alguns sítios, até já paga impostos. Pagar para trabalhar, é a isto que chegámos.

Está o nosso império destroçado, nunca dizer que vivemos em ilhas fez tanto sentido. Quem tem mais dinheiro é que manda e quem mais manda mais pode. E é por aí que vai a luta.

Os exércitos que protegiam o poder do imperador e a paz da plebe perderam o Norte. Como a formiga cuja rainha foi morta, estão os soldados sem saber o que fazer. Começam a desertar, a desmotivar, a passar e a, simplesmente, estar. Servem agora apenas para proteger os nobres que ocupam os seus lugares de comando. Não é novo o conceito do lugar de chefia que estes sangue azul detêm. Mas nunca pensámos assistir a uma tal degeneração na personalidade dos nossos melhores a ponto de se servirem de um exército tão só e apenas para lhes permitir não fazer nada. É esta a herança que deixamos aos que nos seguem. O povo que fomos e aquilo que seremos depende do que fazemos hoje, e hoje não fazemos nada.

Os tradicionais guerreiros rurais, aqueles que realmente representam o que é ser japonês estão finalmente a acordar. Armam-se e organizam-se e diz-se, em surdina, que muito em breve virão à capital obrigar à restauração da ordem.

Na morte como na vida, Toba não fez bem a ninguém.

Mandam as leis das dinastias imperiais que o filho mais velho, o primogénito agraciado com a pureza da primeira reprodução imperial, suceda ao pai no trono e no comando do destino desta terra. O nosso imperador, não satisfeito com o chorrilho de asneiras que são as suas páginas nos anais da história do Japão, resolveu dar primazia ao quarto filho, Akihito, em detrimento do primogénito Masahito. É certo e sabido, é do conhecimento geral que os dois irmãos, separados entre eles por mais quatro irmãos dos quais nada rezará a história, mal se conhecem. Mas odeiam-se o suficiente para não conseguirem sequer viver na mesma ala do palácio. A preferência de Toba pelo filho mais novo ainda estará por explicar. A sua não preferência pelo mais velho é fácil de perceber. Este, educado pelos melhores do império para suceder a seu pai, sempre foi contra as suas leis e regras desproporcionais. Sempre viu que aquilo que se passava fora do palácio era o oposto do que reza a história da sua terra e que a ilusão opiácea da vida da corte toldava o julgamento, já de si parco, de seu pai.

Queria mudança, pediu-a, exigiu o trono que é seu por direito sucessório e viu-lho negado por capricho. Não será para já a volta da harmonia ao nosso povo. Akihito será imperador, mas apenas durante o tempo que demorar Masahito a organizar a revolta. À laia de premonição (laia? Não faz sentido. À laia? Menos ainda. Seria “à guisa de”?), que a idade e a experiência me permitem conjurar, diz-vos este vosso escriba, que já viu muito e muito espera ainda ver, que não demorará a que os caprichos reais voltem a mergulhar o Japão na desordem que é a herança do imperador morto. 

 

 

Autor: João Guimarães

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Apesar de se manter ainda como crônica, já caminha para um relato,

8,0

Lorenza

Um pouco redundante, porque o cronista já fez ver sua opinião e suas razões bem antes do fim do texto.

9,0

Cida

Texto muito pesado.

8,5

Marco

Um tema árido que vai, frase a frase revelendo o bom cronista.

9,9

Betty

Crônica política opinativa. Tema difícil, bem analisado.

9,0

Luci

A primeira parte é mais interessante. Revisar a pontuação.

 

8,5

Total

52,9

Crônica 10

EPPUR SI MUOVE?

 

            Eppur si muove! Murmura-se que o venerado Galileu Galilei pronunciou esta frase diante da sentença do Santo Ofício. Pronunciou-a não em voz alta mas entre os dentes, como fazem os indiscretos, quando querem se fazer ouvir sem, todavia, tomarem a si a autoria de seus ditos.

A sentença do Santo Ofício, para que não restassem dúvidas quanto ao amor do douto astrônomo à Igreja e ao pontificado de Urbano VIII, pediu-lhe obsequiosamente que denegasse de modo formal a realidade do sistema de Copérnico e que se recolhesse ao ambiente privado, onde melhor poderia se aprofundar nesses estudos — cujo aclaramento é tão necessário ao mundo — e muito se confiar a Deus em orações piedosas, de que sua alma está tão precisada.

É preciso que se esclareça que coube ao doutíssimo cardeal Roberto Belarmino a solução divinamente inspirada, posto que a sentença deixa toda a pesquisa livre para aplicação dos espíritos mais adestrados, mas toda a realidade metafísica das coisas para a palavra da Igreja de Cristo, único recipiente das verdades divinas. Destarte, o doutor Belarmino livrou a Igreja de tragédia semelhante àquela que acometeu frei Giordano Bruno, sucesso de tão lamentável memória. Pelo que a Igreja ainda há de muito louvar e santificar esse cardeal de abençoada sabedoria.

Todas essas louvações são justas. Só o vulgo apreciaria o espetáculo de um auto-de-fé a culminar em pena capital, que coisa mais execrável não há. Mas Eppur si muove? Por que teria tido tal comportamento messere Galileu Galilei, um sapiente astrônomo e douto homem da nova ciência? Lembro-me de suas barbas brancas e severas, com que ele se afigura autêntico profeta de uma nova era. Recordo-me de suas diatribes em que se ajuntavam o acurado conhecimento da filosofia e o entendimento arguto das novas querelas. Nesses momentos, tal como um homem de nossa época, Galilei punha a campo seu espírito livre e com graça jogava com a boa ira e a ironia. Todos se lembram que, assim, ele enfrentou galhardamente o primeiro processo movido pelo Santo Ofício, ocasião em que granjeou forte simpatia e acolhimento junto ao mesmo Belarmino e ao então cardeal Barberini, hoje papa Urbano VIII.

Diante disso, seria Galilei homem de tartamudear frases à socapa, como um colegial ressentido diante de uma reprimenda do professor? Ou ainda se comportaria como um pirralho que, após levar uma surra numa briga de rua, mostra a língua para o seu contendor? Ao menos sob essa forma, o Eppur si muove não me parece verossímil.

Penso que o rumor em torno desta frase deve-se antes aos discípulos e sectários da nova ciência, que têm como humilhante a abjuração que messere Galilleu Galilei, com notável serenidade, aceitou fazer. Prefeririam, estes discípulos, novo e espetaculoso martírio em nome de sua causa. Surpreendidos com a reação de um de seus mestres mais eminentes, pedem uma nota que denote sua constância frente ao inimigo. É estranho como, desde os primórdios da cristandade, os discípulos querem seus mestres por mártires de suas causas. Galilei soube ainda evitar esse duvidoso galardão.

Contudo, mesmo que seja inverossímil no contexto de sua enunciação, gosto dessa frase. Aprecio a poesia contida em três simples palavras. Sua sonoridade, que a língua toscana tão bem acentua, traz um ritmo que parece clamar pela continuidade. É uma frase que invoca um futuro. Por isso, talvez, agrade tanto à juventude estudiosa que a espalha urbis et orbis. Inconscientemente, a pretendida frase poetiza profundas verdades a respeito da nova ciência. Ao que me parece, ela não soa como um protesto contra um inimigo mais poderoso, repúdio pueril de uma força contrária. Mais justo é interpretá-la como uma afirmação do que como uma negação. De sorte que Eppur si muove se refira mais ao movimento científico de nossa época do que ao sistema dos planetas, tal como defendido pelos copernicanos.

Mesmo que não tenha sido pronunciada, a frase põe, sob forma quase que musical, a atitude de messere Galileu Galilei diante de seus juízes. A proclamação Eppur si muove é uma abdicação que supera a abjuração. A ciência se livra do pesado fardo das verdades teológicas e metafísicas, para se ater ao mero registro dos movimentos das coisas. É o que bastará para que dê os frutos que as nações da Europa esperam, para o bem ou para o mal. A causa final do movimento físico não interessará muito aos burgueses, desde que se produzam máquinas eficazes para suas manufaturas. Os exércitos não perguntarão pela necessidade divina da queda dos corpos pesados, desde que se fabriquem canhões cada vez mais certeiros e potentes.

Galilei descobriu a moralidade que melhor convém ao espírito da nova ciência: A abdicação contra abjuração. Uma ética que é afirmação dos próprios métodos e recuo diante dos princípios e modos alheios. Uma fuga metódica para o que lhe é imanente em detrimento de tudo que lhe estrangeiro e transcendente.

Conta-se que os povos da Rússia muitas vezes derrotam os invasores de seu país, recuando para dentro dos seus territórios imensos, deixando o inimigo a sucumbir diante do vazio. O Eppur si muove é, no plano do pensar, análogo a este modo guerreiro de agir.

Obediente, Galilei recolhe-se em oração, enquanto uma nova moralidade paira sobre a terra. Em futuro próximo, os adversários da ciência perceberão como é árduo lutar contra um inimigo que os evita e recua para dentro de si mesmo a toda velocidade. A nova ciência é o prodígio que na própria fuga cria os territórios por onde escapa.

 

 

Autor: Denis Reis

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Excelente

10,0

Lorenza

Do início até o meio da crônica fiz uma leitura arrastada, mas os três ou quatro parágrafos finais são excelentes.

9,9

Cida

Mini-ensaio?

8,5

Marco

Excelente!

10,0

Betty

Interessante e bem escrita.

9,5

Luci

Intrigante. Redação perfeita.

10,0

Total

57,9

Crônica 11

14 de Julho

 

Imponente fantasma do terror, a Bastilha foi tomada pelo povo.

Seria o início da tarde quando atravessei a praia da Grève repleta de gentes. No Hotel de Ville os deputados estavam reunidos em permanência. Pelas arcadas, entrava e saía muita gente. Eu que demandava o rio, nem fui senhor do meu andar: era levado pelo povo, empurrado por um mar de gente. Se der em morte, pois que o seja – foi o que senti perpassar na multidão.

Era Paris sob um céu que amanheceu pardo: o dia órfão de sol, que esta Primavera não mais se desprende do Inverno rigoroso a acrescer incómodos, que já não basta a miséria deste reino. Que não tem sido fácil a vida de artesãos e mestres e doutores de leis e gente de escrita e físicos. Paris gritando pela boca do Terceiro Estado. Hordas de gente a exigirem pólvora e a sonhar com pão e liberdade. A descerem a rua Saint Antoine, a convergirem no Arsenal, para os lados da Bastilha.

Soltei-me da turba e deambulei pelo Paris doente, em convulsões. Paris a purgar feridas quase insaráveis que são os altos impostos e o pão que escasseia e o grão pago a peso de ouro por taxas insensatas.

Paris a morrer de fome e a corte atulhada em doces e em prazeres do corpo. Paris esmagado em injustiça e despotismo. Paris e o resto do país adoecendo num mal-estar que advém de tantos casos ignaros. Lembro apenas os marinheiros de Aix-en-Provence. Eles que não recebiam soldo há muito, condenados à roda por terem cometido o crime de roubar um pão. Um exemplo entre tantos deste poder absoluto que eu acredito que esteja a soçobrar nas pedras ensanguentadas da Bastilha. Luís XVI e o Clero e essa Nobreza torpe. Assim seja correcta a leitura que faço dos acontecimentos de hoje. Assim sejam sinal de mudança as notícias que me trazem e o que vi nas ruas.

Numa pequena multidão que terá atravessado a Ponte Nova, um rapazito andrajoso,  (sem vírgula)  diz-me que estão a saquear a Catedral. Nem Notre-Dame se salva: ninguém mais os pára. E eu que ia escrever a palavra fome, fico a olhar os que vão chegando com notícias e fecho os olhos para melhor reflectir, para que o texto escrito não macule o acontecido. Se eu fosse um Marat, estaria reverberando textos que chegassem às mãos deles, que fossem como bandeiras. Mas o meu fazer é parco: umas crónicas para o jornal de Brissot encerrado há uns tempos por ordens reais a mostrarem o medo que lhes faz a palavra impressa. Esta crónica será publicada algures e dirá deste dia: do ulular do povo, do tenir das baionetas, do tilintar das espadas e do soar intermitente dos tiros de fuzis e canhões. Dirá fome, que é disso que se trata quando a Bastilha cai nas mãos da plebe.

O rapazito confirma-me que a guarnição da Bastilha (uns Suíços, uns tantos Inválidos) se passou para o lado dos populares; que eram também de soldados as vestes que pediam: decapite-se. Diz ele, que levaram a cabeça do comandante da prisão real, espetada numa vara, até ao Hotel de Ville. Uma mole de gente a gritar em esgares que são sorrisos de quem sente que chega a hora de libertar-se de um jugo. E eu oiço e receio novos modos de justiça.

O ruído das notícias sobrevoa os telhados da cidade. Pela rua de Saint-Honoré, grita-se que a Bastilha caiu e é um grito de alegria e ódio. Convocam-se de uma casa a outra, para que a noite não surpreenda incautos, se o rei enviar tropas. Paris irá fazer vigília pela liberdade. E eu lembro que foi publicado há uns dias o Traité Élementaire de Chimie, de Antoine Lavoisier. O homem que tornou mais pura a pólvora que o povo hoje exigiu. O mesmo que nos desvendou que é por via de maior ou menor grau calórico que a matéria pode ser sólida líquida ou gasosa. Um cobrador de impostos que defende que os camponeses sejam libertados do trabalho gratuito na construção de estradas, que acabem as prisões arbitrárias e a censura. Contradições desta época. E eu sinto que se está a desenrolar uma página de História.

O suor dos corpos tem um cheiro pestilento e fervilha de ódios à luz encarniçada dos archotes. Num canto, a mulher que vi esta tarde na rua. Ou quiçá a confundo: o mesmo rosto enegrecido, os mesmos ossos assomando sob a pele, a mesma criança mal enrolada num xaile de cor incerta, sujo como ela. A mesma mulher ou outra, a personificação do povo indigente que acompanhei uns instantes. Eu a tentar desviar-me do cortejo para uma rua transversal e a mulher no ritmo, que era um passo estugado, marcado pelo avançar da turba. Uma mulher com um rosto que emanava uma força estranha. Não era ódio. Era determinação em adquirir a todo o custo o alimento para os seios que ela tinha secos, que já nem chorar lhe sabia o filho. Uma mulher lutando num desespero, os olhos de um azul límpido e os lábios ressequidos a gritarem: queremos a Bastilha. E que saberia ela do que assim dizia, indago-me e sinto-me ingrato: que o homem suporta quase tudo, mas a fome, o corpo a desfazer-se, fraco, os olhos sobrando dos ossos descarnados, ver isso nos filhos, não há homem que suporte sem que se solte a besta, a essência animal da sobrevivência.

Ou será que a alma do homem estiola, que estoira em pedaços e sobra dela apenas o senso de justiça a gritar por liberdade, igualdade, fraternidade.

Terá sido disso que se ergueu esta tarde o povo a derrubar o mito indestrutível da Bastilha.

 

 

Autor: Maria de Fátima Correia

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Boa crônica

9,0

Lorenza

Em algum ponto o estilo me lembrou o Hugo do "93", e fiquei pensando se isso era bom ou mau. Ora, pois: o "93" não é, mas Hugo sempre foi meu romântico preferido. E que final bonito tem esta crônica.

10,0

Cida

Forte, mas carregada.

9,0

Marco

Impressiona a veracidade desse passeio por uma Paris famélica.

9,9

Betty

Boa imersão no espírito da época.

10,0

Luci

Esta crônica vibrante e sensível me comoveu.

10,0

Total

57,9

Crônica 12

O Iluminado

 

Hoje, morreu o Desperto. E me veio de imediato esta curiosidade pelas coisas que cercaram a sua vida: pessoas, revelações, caminhos.

Fiquei sabendo da notícia no templo, logo pela manhã, e aproveitei para recolher ali mesmo a reação dos seus seguidores. Não houve um só pranto. Apesar de parecerem pequenos e perdidos no isolamento de sua meditação, havia naqueles corpos separados entre si, estranhamente, a harmonia de uma união silenciosa.

Se é verdade que a serenidade é uma conquista do ser que aprendeu a apenas seguir a vida sem se preocupar com o futuro ou o destino, eu lhes diria que a encontrei naqueles rostos distendidos.

Avaliando agora aquela não-reação contemplativa, percebo que tais homens são como seu mestre, criaturas cujo domínio de si mesmos vai além do pensamento; além, até mesmo, do nada.

De repente, me sinto um pouco órfão de um pai que nunca conheci. A morte do Iluminado me provoca sensações desencontradas e, para mim, há traição nessa partida sem aviso.

Meu primeiro encontro com o Desperto foi em Rajagriha, quando ele iniciava sua vida religiosa. Conversamos e vi nele um obstinado. Apesar do empenho, achei difícil que Siddartha conseguisse se desvencilhar do pai protetor, que jamais havia lhe permitido (melhor “lhe havia permitido”) conhecer a dor, a miséria, a desgraça. Essa vida irreal que o viu crescer me deu a certeza de que ele não conseguiria chegar à Verdade. Mas não era esse o seu caminho.

A impermanência cruzou a estrada de Siddartha, e o peso da velhice, a dor da doença e a certeza da morte se apossaram dele, libertando-o da pequenez humana. Depois daquele dia, fui acompanhando sua trajetória, por meio de notícias que me chegavam, gradualmente. Hoje, posso dizer que percorri a distância que transformou Siddharta e Buddha em homem e divindade.

O Iluminado custou noites de sono aos meus desejos mundanos. Na sede da luxúria, no prazer da gula, na impertinência da intolerância comecei a me cobrar moderação. Então, um dia, me peguei analisando os ensinamentos de Buddha. Não tirar a vida do que vive. Não pedir, não tomar, apenas aceitar. Não permitir o proibido. Não mentir, nem dizer a verdade inoportunamente. Não intoxicar os sentidos.

Se existe alguma coisa que posso lhes falar de Buddha é sobre a superação. O Caminho do Meio, que o Iluminado nos mostra ser a opção mais simples em direção ao Nirvana, é a lei, a lei que rege todas as coisas que vivem. Simples assim. Inexplicável assim.

Buddha me ensinou a caminhar para o silêncio. Percebo hoje, nos rituais que acompanham a sua morte, que as atitudes contam mais a História que palavras, fatos, reações. E enquanto procuro o que relatar sobre o Desperto, vou, pouco a pouco, percebendo que as confissões, as palavras e as análises não bastarão.

Não há consolo em compreender a vida do Iluminado. Não há regras, ensinamentos, pensamentos que possam me dizer o que preciso saber para viver. A única luz da vida é a morte. E mesmo a morte, percebo agora, é uma conquista. Uma conquista dos que alcançam Verdade e Bem.

Em uma semana o corpo de Buddha será cremado. Cada parte da terra receberá suas cinzas fertilizantes. Estarei aqui, esperando esse sopro de esperança em partículas.

Enquanto escrevo, observo, mais uma vez, os rostos dos seguidores do Iluminado. E, subitamente, tenho a certeza de que a morte de Buddha é a beleza da plenitude.

 

Autor: Cínthia Kriemler

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Muito bom

10,0

Lorenza

Elogio previsível, mas bem escrito.

9,0

Cida

Singela.

9,0

Marco

Muuito Bom!

10,0

Betty

Bem escrito, mas frio.

9,5

Luci

Texto correto, às vezes, didático.

 

8,5

Total

56

Crônica 13

BADERNA GERAL NA TERRA DO SOL NASCENTE

Dá até desgosto olhar em volta. O país está em ruínas. Com seu discurso do tipo “cinquenta anos em cinco”, a Dinastia Heian virou o Japão de pernas para o ar: confinou os sacerdotes nos monastérios, impôs uma reforma ortográfica, promulgou uma Constituição, implantou um novo sistema de governo e, como sempre acontece quando a elite não dá conta de administrar o caos político que ela mesma instaurou, tirou o time de campo, torcendo para que ninguém lhe cobre a conta pela baderna generalizada.

Sim, foram cinquenta anos em cinco. Quinhentos, na verdade. Cinco anos para implantar a reforma e quinhentos para o país pagar a conta.

O Japão, agora, pode se orgulhar de ter um alfabeto próprio, com apenas vinte e seis símbolos para os fonemas. Grande coisa. De que adianta ter uma escrita tão primorosa se ninguém lê direito? Que fossem quarenta e oito! O número de letras do alfabeto faz pouca diferença quando não se sabe o que fazer com elas.

A megalomania de nossos governantes os impede de enxergar que não se muda a cultura de um povo decretando que, a partir de determinado momento, se escreverá de uma forma ou de outra. Cultura é algo que brota do povo; não,  (sem vírgula)  algo que lhe possa ser imposto. Nossos quatro mil e oitocentos kanjis ainda hão de perdurar por séculos, quer os poderosos queiram, quer não.

E quem tem tempo ou tranquilidade para ler, quando sabe que pode, a qualquer momento, ter sua casa invadida por salteadores ou ser atingido, no aconchego do seu lar, por uma flecha perdida? Porque nem mesmo os samurais – a tropa de choque dos senhores de terras – conseguem mais manter um mínimo de segurança pública por aqui. É perigoso sair às ruas; é perigoso ficar em casa.

Enquanto os samurais exibem sua truculência para o populacho, os ninjas, sorrateiros, tratam de silenciar a oposição no fio de suas katanas. São bisbilhoteiros oficiais; agem na calada da noite. Vigiam a todos sem que ninguém os vigie. Acreditam ter mandato para agir acima da lei e, não raro, à sua margem. Preferem passar despercebidos, embora nem sempre isso seja possível.

Sem oposição, o kampaku faz o que bem entende, sem se dar conta de que as bases que sustentam todo o sistema estão em ruínas.

Era de se esperar. Os Heian deixaram o governo a cargo de seus subordinados para se ocuparem de tarefas mais árduas, como a de produzir filhos em profusão. A família Fujiwara, aproveitando-se disso, se apossou do poder, instaurando uma ditadura. Mas o kampaku, em sua ânsia por manter o controle absoluto sobre tudo o que acontece no império, acabou deixando vazar por entre seus dedos (metáfora excessivamente usada; vira lugar-comum) o poder. Se perdeu na própria paranóia, como sói acontecer com todo ditador.

O resultado é esse que estamos vendo aí. Muita gente manda, mas ninguém governa de fato. E, enquanto as elites do império desfilam com toda a suntuosidade, o povo padece na mão de vigaristas e salteadores. Dá até desgosto olhar em volta.

Mas essa situação absurda não pode sustentar-se eternamente. O Japão é maior que seus governantes e é só uma questão de tempo até que as coisas mudem e esta nação gloriosa acerte o passo rumo à sua verdadeira vocação.

O Japão tem tudo para se projetar como uma das potências mundiais – acima, inclusive, da onipotente China –. E, mais cedo ou mais tarde, esse potencial há de se materializar, trazendo riqueza e prosperidade, não para um bando de corruptos que se arrogam o título de governantes, ou para uma elite política que não é capaz de enxergar um palmo adiante de seus próprios interesses mesquinhos, mas para todos aqueles que se orgulham de ser filhos da Terra do Sol Nascente.

Para que isso aconteça, é necessário que nossos políticos aprendam a enxergar as coisas por outro ponto de vista. Eles precisam entender que o poder deve ser exercido sempre com algum controle, sob pena de causar mais danos do que trazer vantagens. Ouvi dizer que os bretões já aprenderam isso: lá, o monarca faz questão de manter um indivíduo, o bobo da corte, que tem liberdade absoluta para falar mal de quem quer que seja – inclusive de Sua Majestade –. Não me surpreenderei se, um dia, a Bretanha vier a ser a nação mais poderosa do mundo.

Outra coisa que nossos políticos precisam aprender é que o povo não precisa de tutores, mas de líderes. O japonês não precisa de quem pense por ele e lhe entregue respostas pré-fabricadas; precisa de quem pense com ele, que o conduza, que lhe mostre o caminho, que o incentive a seguir adiante. Não é a truculência dos samurais ou a ação dissimulada dos ninjas que imporá a ordem. Porque a ordem não se impõe. Ela é conquistada quando o povo – esse mesmo povo que tem sido, há séculos, usado como massa de manobra – se une em torno de objetivos claros e atingíveis; quando as pessoas sabem onde querem chegar (“aonde”. Chega-se a algum lugar) e coordenam suas ações para chegar lá.

Quando isso acontecer, quando a família imperial resolver descer de seu pedestal e cumprir o papel que lhe cabe, de guiar, liderar e incentivar o povo; quando os ninjas deixarem de usar suas habilidades para calar os opositores e as canalizarem para alvos mais danosos, como a corrupção e o crime organizado; quando os samurais usarem sua força para proteger os campesinos, em vez de decepá-los, tentando impor uma ordem artificial e insustentável; e quando os senhores de terra entenderem que precisam de seus lavradores tanto quanto estes deles, nesse dia, o Japão estará pronto para assumir o posto que lhe está reservado no cenário mundial.

Esse dia há de chegar. O dia em que o sol nascente há de tremular na flâmula imperial e brilhar no coração de cada japonês.

 

 

Autor: Gerson Perrú

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

O leitor permanece como um estrangeiro na leitura deste texto. Não consegui me localizar o suficiente para absorver as suas considerações.

8,0

Lorenza

Inflamada, contagiada pelo calor do momento (como a crônica 7). O final prescritivo incomoda, mas não muito.

9,0

Cida

Texto pesado.

8,5

Marco

Pra lá de bom! A atualização da crise japonesa foi precisa!

10,0

Betty

Muito bom. Conseguiu fazer uma crítica atual falando por “parábolas”.

10,0

Luci

Algum humor no começo, muito didatismo no meio e uma confusão geral.

 

8,0

Total

53,5

Crônica 14

O PROTESTO DE WITTENBERG

            Inicialmente, peço perdão aos caros leitores que me acompanham nesta coluna semanal, por tantos anos, pela chatice do tema escolhido para esta edição.

            Todos sabem que sempre procurei os assuntos mais palpitantes de cada semana para comentar, nunca deixando os queridos amigos sem uma análise e opinião.

            Hoje, porém, os que virarem a folha imediatamente, procurando a página de esportes ou a coluna social têm desde já o meu perdão, embora, por dever de ofício, seja eu obrigado a suplicar que não o façam ainda.

            Com tanta coisa acontecendo neste nosso cada vez mais vasto mundo, notícias fresquinhas nos chegam da América, África e China a todo instante. São tantas as revoadas de pombos-correio entupindo as caixas de entrada de nossos pombais que descartamos a maioria sem as termos lido, tal a azáfama em nossa redação.

            Não sou dado a queixas, mas talvez seja esta a última crônica que aceito assinar sob uma pauta feita pelo editor, que como todos sabem é o conde Markus Von Antunemann. E, se ainda hoje, (sem vírgula)  aceito o desafio de fazê-lo, é apenas por força de um compromisso pessoal. (ou com vírgula TAMBÉM antes de “ainda”)

            Pois vejam que no meio da agitação, em plena efervescência cultural destes nossos tempos pós-medievos, encarregou-me o sensaborão de comentar um evento de tão ínfima importância e atrativo que mal posso resistir à tentação de remeter o leitor diretamente ao nosso caderno C que, aliás, traz uma entrevista bombástica com o badaladíssimo pintor italiano Michelangelo Buonarroti que, finalmente, conseguiu uma licença ambiental e a liberação da verba do PAC (Programa de Artes Católicas) e pôde, finalmente, concluir a decoração do teto da Capela Sistina. (os dois “finalmente” ficaram bons, nesta frase.)

            Só porque sei que muitos de vocês são monges desocupados (desculpem o pleonasmo) e talvez ainda estejam aí, é que dou a notícia, pois de tão irrisória, (sem vírgula) (ou com vírgula TAMBÉM depois de “pois”) certamente terá passado despercebida da maioria: Chegou, esta semana, de nossa sucursal em Wittenberg o correio, dando conta de que esta semana, mais precisamente, no dia 31 de outubro, um padre local, revoltado com as condutas da matriz em Roma e, especialmente do CEO, Papa Leão X, afixou na porta da catedral uma enorme lista reivindicações. (todo o trecho sublinhado poderia estar sem nenhuma vírgula. Mas, em as tendo, precisa de uma depois de Wittenberg)

Fomos informados de que a pauta teria 95 itens. Entre os pontos principais estariam as acusações contra o papa e o alto clero de tráfico de influência, venda de sentenças, perdão de dívidas mediante suborno e muitos outros referentes à burocracia interna. Ninharias, principalmente sem nenhum caseiro ou cocheiro como testemunha para lastrear a acusação ante o Supremo, já que o acusado tem foro privilegiadíssimo.

De interessante, apenas, as críticas às remessas de lucros para o exterior, que tanto têm prejudicado nosso balanço de pagamentos e, pasmem, a exigência do fim do celibato para os padres católicos. Cheguei até a pensar que era coisa do Erasmo, aquele holandês maluco que, advogando em causa própria, defende o fechamento de todos os manicômios.

            Ia tudo bem até aí, mas neste ponto eu percebi que o padreco devia mesmo era estar apaixonado por alguma noviça rebelde e não estava disposto a largar a sinecura e ter que prestar um concurso público. É sempre assim, ninguém quer largar o osso.

            Sem mais delongas, vou enterrando o mirrado episódio que não merece tanta tinta. O próprio autor, o tal do padre Lutero, que já deve estar sóbrio, nem vai se lembrar deste episódio. Nem ele, nem ninguém; e certamente, se um dia, alguém que tenha um sonho, um grande sonho, for chamado de rei, não terá sido por sua causa.

Autor: Washington Dourado

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Foge da discussão da liberdade de crença e de opinião. A crônica é engraçada

8,5

Lorenza

Nada como ler um autor com senso de humor!

10,0

Cida

Bem-humorada.

9,0

Marco

Não considero cumprido o tema

7,0

Betty

Excelente!

10,0

Luci

Criativo e divertido.

9,5

Total

54

 

Crônica 15

O último jogo de bilboquê na França

 

Há um mês estive em Versalhes e presenciei uma disputa animadíssima de bilboquê entre o cardeal e o duque. Cada um fez 17 arremessos consecutivos e certeiros. (melhor escrever os numerais, pelo menos até 20, por extenso. Pelo menos é o que se faz na maior parte dos jornais). Foram muito aplaudidos pela enorme platéia empoada. A orquestra começou a tocar e o banquete foi servido. Abandonaram o vinho branco e foram servidos de vinho tinto, acompanhamento mais adequado ao fois grãs (foie gras. Fois significa “vez”.), cogumelos frescos, moelas e o pato ao crème fraiche. Quem não gostasse de maçãs recheadas com passas e cobertas com chantili poderia tomar o champanhe acompanhado de trufas e chocolates.

Hoje, o dia começou com nuvens pretas sobre o Palácio Royal. Li um dos panfletos distribuídos: prevenia e incitava a população. Dizia que a tropa real seria enviada para uma repressão feroz contra o povo. Tumultos e badernas, agora, seriam combatidos na ponta da baioneta. As guilhotinas estariam prontas para receber os pescoços dos líderes. De tão quente, o papel pegava fogo em minhas mãos.

Li de novo e tive a sensação de que as nuvens negras também estariam fazendo sombra em outros palácios e castelos.

Uma multidão se juntou e, furiosa, desceu a rua em direção a um dos prédios dos Inválidos, onde antigamente era o hospital. Escolheram o edifício que abrigava o armamento. Quase não houve reação. Rapidamente tomaram as instalações e saquearam tudo. Dizem que eram mais de três mil espingardas e, mesmo assim, não deu para todo mundo. Além das armas leves, arrastaram canhões. Correu o boato que na Bastilha estariam a munição e a pólvora.

O povo gritava. Estava insatisfeito e revoltado contra o clero e os palacianos que sobreviviam à custa do Estado. Enquanto passavam fome devido às geadas que arrasaram a safra agrícola, os barões saboreavam patos recheados. Enquanto eram chamados de sans-culottes, outros desfilavam veludo, sedas e bordados. Enquanto eram seqüestrados e mortos quando não pagavam impostos, os nobres eram isentos de tributos e ainda usufruíam do tesouro real por meio de pensões e cargos públicos.

Carregados de muito ódio e algumas armas, lentamente, começaram a marcha rumando para Bastilha. (melhor para “a Bastilha”. Afinal, para os franceses, sempre foi La Bastille)

Saí do meu conforto. Eu também coloquei no meu peito três fitas: Bleu, blanc, rouge. Fui para a rua gritar. A cada quadra a multidão engrossava. Paris caminhava em direção à Bastilha (agora sim! Se está com crase, é por que é “a” Bastilha). Alguns carregavam armas e atiravam para o alto. Outros empunhavam bandeiras. Vive la France! Vive la France! Vive la France!

Quando chegamos na Ile de Saint-Louis. Confesso que fiquei com medo. (é com ponto mesmo, entre as duas frases?) Nunca vi tanta gente. Nunca senti tanto rancor. Jamais percebi tanta determinação. O povo sentiu-se forte para invadir um símbolo do absolutismo. Na prisão da Bastilha, muitos foram torturados e morreram. Durante décadas, as masmorras estiveram lotadas de gente que discordara do rei. Todas as barbaridades aconteciam dentro dos muros da Bastilha. Ninguém escapava de lá. Ouvi mais tiros.

Estava sem uma pistola, não uso espada e andava desprovido de uma simples faca. Lutar com os punhos eu não iria mesmo. Minhas pernas trêmulas decidiram por mim. Atravessei a Pont Marie e avancei apenas mais 50 metros. Curiosamente próximo e prudentemente distante da fortaleza, ouvi o primeiro tiro de canhão.

Não acredito que o rei tenha ouvido. O rei não ouve. O monarca não ouve ninguém. O rei só tem palavra. É dele a última palavra sobre a justiça, a economia, a diplomacia, a paz e a guerra. É dele a última palavra sobre os destinos da nação. Também é dele a raiva que sentimos. Quem se opuser à palavra de Luís XVI é preso. (ficaria melhor com a frase sublinhada no final do parágrafo...)

A correria foi grande. Atearam fogo em coches e carruagens. O fogo ardia por todos os cantos. Explosões e fumaça denunciaram a sangrenta batalha. A cavalaria real veio em socorro dos soldados da Bastilha. O povo era maioria, lutava por melhores condições de vida. Lutava contra a fome. O povo já estava morto, por isso nada temia.

Do lado de fora da fortaleza, combateram desempregados, marceneiros, diaristas, negociantes de vinho, chapeleiros, agricultores que saíram do campo, operários insatisfeitos. Do lado de fora estava toda Paris. Os do lado de fora representavam a insatisfação de todos os franceses.

Também ficamos do lado de fora, eu e meus colegas do jornal, gastando penas e tinta. Discutíamos o futuro, tentamos adivinhar o resultado da batalha. Cada um de nós opinava diferentemente. A artilharia cessou. A Bastilha caiu nas mãos do povo. Gritos de alegria. Libertaram os prisioneiros e decapitaram o marquês, chefe da prisão. A cabeça do nobre foi espetada numa lança e conduzida em macabro triunfo.

A horripilante imagem da bola espetada levou-me a uma analogia terrível com o joguinho predileto da nobreza.

Não tenho mais dúvidas: o fútil bilboquê vai sair de moda na França.

 

Autor: Roberto Klotz

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Texto bem escrito. Poderia ter comentado mais a questão proposta.

9,0

Lorenza

A crônica é apenas correta, pois o autor não consegue compensar a previsibilidade com um ponto de vista mais original ou pessoal.

8,0

Cida

Muito Boa

9,0

Marco

Excelente e Provocativo

10,0

Betty

Eta! Foi até chocante, este final.

10,0

Luci

Começa bem. Narrativa entrecortada. Revisão ortográfica.

8,0

Total

54

Crônica 16

Era Apenas um Murinho...

 

 

            Onde eu me encontrava em 1989, especificamente no dia em que o Muro de Berlim veio à lona tombado pela sofreguidão de uma multidão movida a bafo de cerveja? Terei que pensar para responder. O mesmo esforço não é necessário quanto à queda das Torres Gêmeas, da qual me lembro em detalhes, quando, ao chegar do trabalho, testemunhei o segundo jato estilhaçando janelas com suas turbinas guiadas a fanatismo. Inusitado foi o que ocorreu com meu cunhado médico que, passando pela sala de espera, viu um paciente assistindo a tudo, ao que lhe perguntou:

            - O que aconteceu?

            - Parece que um aviãozinho bateu em um prédio. – Respondeu o moço.

            - Que erro do piloto. – Pensou meu cunhado. Somente horas depois ficou sabendo que o prédio era o World Trade e que o teco-teco, (sem vírgula)   que imaginara, (sem vírgula)  se convertera em poderosos boeings.

            Uma característica dos grandes eventos históricos é que nem sempre nos alertam a respeito da sua importância, surpreendendo-nos em meio à movimentação frenética do cotidiano. Ou alguém acredita que um dos soldados que pregou Jesus na cruz carregava a menor idéia dos desdobramentos que se seguiriam? A queda do Muro era muito desejada, o que me perturba é não me recordar do que fazia no dia, na exata hora em que ruiu aquele símbolo fálico (fálico?? Um muro?) que tão bem retratava o regime soviético: incongruente e deslocado.

            Sei apenas que concluíra o curso de Educação Física e que, na academia em que trabalhava, o horário do Jornal Nacional era de febril movimentação:

            - Professor, mede o meu pulso. – Deve ter sido uma das coisas que ouvi enquanto o topete de Sérgio Chapelin brilhava, ladeado por Cid Moreira anunciando em tom apocalíptico:

            - Caiu o Muro de Berlim. – Em seguida cortavam para o Pedro Bial, naquele tempo jornalista de verdade ao invés de apresentador do Big Brother. Será que o próprio imaginava que desceria tanto? De repórter promissor a âncora de um programa recheado de jovens ¨sarados¨ em busca de uma glória efêmera? O futuro não foi bom para ele. (julgamento de valor...) (que mania de malhar o bbb...)

            Tenho nas minhas retinas a imagem do Muro como um aparato cinza que isolava o resto do mundo das inúmeras mentiras que os comunistas contavam para suas crianças na hora de dormir:

            - Para que essa boca tão grande! – Perguntou Chapeuzinho Vermelho ao lobo do Tio Sam.

            - Para te devorar! – Cada um propaga a versão que lhe agrada.

            Não quero ressuscitar uma antiga batalha ideológica da qual ninguém mais suporta ouvir falar, embora dinossauros fálicos (de novo?! Por que “fálicos”?) (e por que “dinossauros”? que se chame a Fidel “dinossauro”, vá lá... – mas aos outros dois?? Não são antigos nem grandes... Talvez venham a ser, com o tempo) como Fidel, Hugo e Evo ainda nos assombrem por aqui. No entanto, torna-se difícil falar do Muro sem lembrar da querela que lhe deu origem. Os nossos irmãos vermelhos temiam que uma nova onda fascista assombrasse o lado oriental de Berlim. Foi essa a história da carochinha que o povo ouviu. O real motivo eram as constantes fugas para o lado ocidental. Alemão não é bobo.

Ergueram-no para impedir a fuga para um lado mais lúcido. Não que o capitalismo seja imune a efeitos colaterais, como recentemente testemunhamos, a questão é que exageraram na dose e o paciente entrou em coma.

            Creio mesmo que quando os ventos da mudança sopram, (sem vírgula, ou com vírgula também depois do “que”. Ficaria mais elegante sem vírgula. Por outro lado, poderia dar a impressão de que “os ventos sopram o universo”. Melhor as duas vírgulas.) o próprio universo conspira para que os eventos acelerem, e eles aceleram. Recordo das imagens do povo alemão, sempre tão frio e calculista, dançando e cantando. Foi emocionante ver as pessoas arrancando nacos daquele monumento à ignorância. Fizeram carnaval ouvindo Bach.

            Na academia, ao som de músicas modernas, eu me ocupava em medir o abdome de um aluno com mais de cem quilos:

            - 108 de cintura. O senhor vai precisar emagrecer. - Logo vinha outra aluna pedindo uma nova série de abdominais. Além disso, devia correr com os preparativos do meu casamento que se daria no dia 8 de dezembro do mês seguinte à queda. Via-me entre convites, músicas para a Igreja e se os lírios ficariam melhores que as tulipas no altar. Não estava, evidentemente, muito interessado no que ocorria fora do meu habitat.

O casamento era o evento que ocupava o meu foco e não havia espaço para mais nada. É muito raro que percebamos, enquanto figurantes da história, que nos encontramos diante de um evento que venha a mudar o seu curso. Ao passo que construímos nossas vidas, o mundo ao redor parece apenas um detalhe ao fundo de embotada vitrine. Vestido desse estado de espírito cheguei à casa da minha noiva e comentei:

- Viu o que aconteceu no jornal?

- Aquilo? Era apenas um murinho. – E fomos rever a lista de convidados.

Autor:  Jurandir Araguaia

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Boa crônica. Só não entendi o muro e os dinossauros fálicos.

8,5

Lorenza

Não entendi bem o que têm de fálicos um muro e uns ditadores (ou aspirantes, que sejam), nem a frase preconceituosa sobre os alemães, mas a crônica acerta no alvo ao falar do nosso papel de "figurantes da história".

9,0

Cida

Leve e forte.

9,0

Marco

Sem grande expressividade!

8,8

Betty

Interessante, mas você deveria ter escrito como se estivesse em 1989... e não como quem vive hoje e se lembra do que houve.

8,0

Luci

Texto confuso. O autor se perde em meio a tantos assuntos.

 

8,0

Total

51,3

 

Crônica 17

Sobre Torres e Heróis

            Choque. [Do fr. Choc.] S. m. “Abalo emocional, comoção: Levou um choque ao saber da trágica notícia”.

            O dicionário não poderia ter melhor definição para o sentimento despertado pelos ataques de ontem. Já imagino, daqui a dez, vinte, trinta anos, as pessoas dizendo (tal qual fizeram após o assassinato do Presidente Kennedy): “Lembro-me exatamente de onde estava quando ouvi a notícia”...

            Quando soube do acontecido, eu estava aqui na copa da Redação, tomando um café para dissolver os resquícios da noite mal dormida e dissipar a neblina do pensamento. Assistia ao noticiário esportivo quando o plantão de notícias interrompeu a programação normal. A xícara não se desprendeu de minha mão por milagre. Não penso que essa imagem irá desvanecer facilmente...

            Parecia coisa de filme. Diante de cenas tão insólitas, cheguei ao cúmulo de me perguntar se não era golpe de marketing para divulgar mais um blockbuster cujo tema, já tão banalizado, seria a aniquilação do nosso País.

            Trago essas pessoalidades movido pelo incontrolável impulso de comunicar as mais íntimas impressões, como se minha mente, após o impacto, precisasse repassar os fatos a fim de digeri-los...

            Numa visão global, não há dúvida de que o atentado de ontem desencadeará turbulências de proporções inimagináveis no relacionamento entre as nações. Não há espaço para a imparcialidade diante de um acontecimento como esse. O conflito está deflagrado, colocando em lados opostos o neoliberalismo e o fundamentalismo. A fratura está exposta...

            Deixando a aridez das análises macropolíticas para quem delas entende melhor, convido-o a trilhar o desafiador percurso de quem se aproxima do humano, do palpável, do vivido. Visto que é impossível realizar essa tarefa a contento se nos prendermos à larga escala da tragédia, ajusto as lentes do microscópio para captar o “h” minúsculo que se esconde dentro da História.

            Saí às ruas e me deparei com uma avalanche. Uma avalanche de poeira, pessoas, sentimentos, reações, gritos, sirenes, lamentos. Fazer entrevistas, naquele momento, me pareceu desumano. Optei por observar, nada mais...

            Policiais e bombeiros iam e vinham, buscando ordem naquele turbilhão. Vi nos olhos deles a tentativa desesperada de administrar o próprio pânico diante do descontrole da multidão. Afinal, também sabiam que, diante da instabilidade dos escombros, eles mesmos poderiam vir a se tornar mais um número no somatório de vítimas.

            Vi os paramédicos nas ambulâncias, no seu esforço sobre-humano de se manterem firmes diante da dor, do medo e da iminência da morte. É espinhosa a tarefa de cuidar da fragilidade do outro quando o indivíduo sente na pele, no corpo, nos nervos, a própria vulnerabilidade...

            Se o aparente (e necessário) sangue frio dos médicos, dos policiais e dos bombeiros me trazia sentimentos de solidariedade, o gelo ártico na atitude de alguns curiosos me despertava revolta. Morbidamente, como abutres em bando, desligavam-se da comoção que pulsava ao redor e punham-se a registrar em suas câmeras, entre risos frenéticos, a insolitude da cena. (será que houve isso? “acho” que quem registrou as cenas em suas câmeras fez isso horrorizadamente... assim como os fotógrafos profissionais)

            Mas esqueçamos as aves de rapina. Talvez eles também tenham sua importância no psicótico ecossistema em que vivemos...

            Voltemos aos heróis.

            Se até aqui enalteci a bravura dos grandes, reverencio agora a sabedoria dos pequeninos. Diante da sinfonia de ruídos (que mais parecia angustiantes experimentações psicodélicas), me espantei com a ausência de um deles: o choro das crianças. E elas também estavam lá. Em seu silêncio assustado, as crianças, mesmo as mais novas, pareciam perceber que tudo ao redor – inclusive quem as carregava nos braços – estava à beira do colapso, exigindo que elas contivessem o próprio desespero. Quando o abalo é muito grande, a natureza dá mostras de que consegue se equilibrar.

            Penso que o atentado nos convoca a agirmos como os heróis que, para absorverem o golpe e cumprirem seus papéis, precisaram passar por cima de si mesmos, das fraquezas, dos temores. Lembro-me de Nietzsche nos ensinando, com seu Amor Fati, que a fórmula para a grandeza do homem é "não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo".

            Deixo essas palavras, meu querido leitor, como um presente que, na verdade, se aproxima mais de um mea culpa. Penitencio-me por frustrá-lo diante da expectativa de encontrar aqui, nesta seção do nosso (meu e seu) jornal, o bom-humor e a serenidade habituais. Considere a minha sobriedade frente ao ocorrido como se fosse um minuto de silêncio. A verdade é que não encontrei em mim a fibra dos heróis que soterram o próprio luto. Como diria Milan Kundera, a leveza do Ser é, em certos momentos, insustentável...

 

Autor: Antonio Lima

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Crônica com um desenrolar confuso, onde o autor assume conclusões impossíveis àquela altura dos acontecimentos.

7,5

Lorenza

Previsível, mas bem escrita.

9,0

Cida

Belíssima. Mas sugiro que finalize na citação de Nietzsche.

10,0

Marco

Seu tema era o destino pessoal em contraposição à tirania da História. Bem, acho que esse aspecto seria mais bem visto pensando-se nas vítimas inocentes dentro dos aviões e do prédio. Sob a sua ótica, ficou um tanto banal.

9,0

Betty

Para quem está lá, no momento e no lugar, falta indignação e espanto. Crônica moderada e sóbria em demasia.

9,0

Luci

A definição do dicionário é dispensável, assim como a última frase. Há trechos bons e outros, didáticos.

 

8,0

Total

52,5

 

 

Crônica 18

Martinho, esse menino

 

 

A coisa está feia, feiíssima. Os novos tempos estão aí, batendo às portas e pegando todo mundo com as calças na mão, este feudal cronista, das antigas, incluso.

Como todo mundo sabe e já não é mistério pra ninguém eu preferiria falar sobre a nova obra prima do Botticelli, das arquiteturices de Michelangelo ou das frivolidades da corte, essas coisas inúteis e por isso mesmo essenciais. Mas o nobre editor dessa longeva e respeitosa folha pediu, bateu o pé, insistiu na pauta. Temos de seguir as atualidades, o frescor dos acontecimentos, o que está rolando. É claro que ele está certo, não dá para discutir com a razão, ficar dando murro na ponta da faca da sensatez. E como este pobre e vulgar barão feito cronista ainda está a pagar as prestações de seu humilde castelinho no bucólico Condado de Hamburgo não há mesmo como fugir do mote, não tem jeito, ou dá ou desce.

É óbvio que a causa de todo rebuliço é essa pessoa chamada Martinho Lutero. O moço está em todas, botando para rachar e os ossos dos profetas de Jerusalém tilintam como taças ébrias toda vez que ele apronta alguma, e ele não apronta pouco. Sua última arte foi simplesmente, veja só que coisa, dividir a Santa Madre Igreja Católica. Claro que isso não ia ficar assim, tudo tem limite e até os excelsos padres têm paciência. Primeiro Roma tentou ridicularizá-lo tachando-o de “O chucrute bêbado das teses”. Não adiantou. Muita gente, todos dados aos bons prazeres de Baco, se identificaram com ele. Agora o Papa o considera um herege desviado. Também não vai adiantar. O que mais tem hoje na Europa é herege, desviado, então, nem se fala. Se não fosse por medo da fogueira ou se não prezassem os benefícios de se ter a prega-rainha intacta eles teriam até partido político e fariam, não duvido, altas paradas. Maçons, hereges e simpatizantes. Se tudo mais falhar – e vai falhar – já se ventila a idéia da excomunhão. Pois digo aos senhores, vai ter uma multidão com inveja.

Dá pra entender essas pessoas. Setores nobres desse mui heróico burgo germano e de outras paragens menos cotadas pelo espírito santo estão descambando para o protestantismo do Martinho. O ex-monge é uma estrela internacional, entrou para o dancing das celebridades. É uma figura interessante, inegável. Sua retórica nervosa e sua rebeldia estudada têm charme. Uns tecidos mais finos e menos fechados não lhe cairiam mal, sua boina surrada não é ruim, não, não, lhe dá um ar distinto sem ser over. Pensando bem o mundo andava mesmo muito sem graça, escuro, nevoento, mais triste do que mudança de pobre em dia de chuva. A boa igreja – cala-te boca, infeliz – contribuindo para a mesmice. Falando tudo em latim, inventando burocracias, intermediando as graças, regulando mixaria. O povaréu quer opções. O tête-à-tête com o Divino, benesses, enfim, mais terrenas. A igreja precisa se abrir à portabilidade, esse negócio de monopolizar a fé não está com nada. Temos mesmo que dar moral pro Martinho, esse homem novo e arrojado. (este trecho contradiz o sublinhado acima. Não fica claro se um dos dois é irônico) Diversidade é tudo.

Óbvio que as mudanças cozinhadas por esse intrépido não vão ser servidas agora. O mundo anda a passos de cágado e não há o que fazer e estamos ultrapassados mesmo. A velha nobreza, o beautiful people, agora só é people e olhe lá. Zeitgeist pouco é bobagem. Paciência. Depois que a gente chega ao Cabo da Boa Esperança é difícil voltar atrás e entrar no esquema das novidades. Um tio meu, por exemplo, condutor de carruagens em Salzburgo, cismou, depois de velho, que é americano de coração, que isso de ser europeu já era e que o point agora é o novo mundo e coisa e tal. Tudo para arranjar alguma jovem fräulein deslumbrada. Plano, é claro, mais naufragado que uma caravela portuguesa. Seu único e retumbante sucesso é emporcalhar o brasão da família.

As mudanças virão, mas vamos com calma. Dosis sola facit venenum. Há quem aposte alto – por que com os bebedores de cerveja daqui não tem miséria, como entre os súditos da rainha – que Lutero vai acabar casando com uma freira e tendo logo uma penca de filhos para arregaçar de vez com as convenções. Outros vão além e juram que ele só vai casar para se separar depois. Criando de uma só tacada o divórcio e a pensão alimentícia. Se for para fazer, vamos fazer direito, exemplo de empreendedorismo é isso aí.

Um tempinho aí atrás, os homens da situação cismaram de dividir o planeta entre Portugal e Espanha, o famigerado Tratado de Tordesilhas, vocês lembram, foi um rebuliço. Agora vivemos a Tordesilhas da fé e quem está com a faca na mão é esse menino, Martinho. Resta saber quem vai ficar com a melhor e mais suculenta fatia do bolo. Dizem que esse senhor, Rei das Inglaterras, já anda fazendo pé-de-alferes para as idéias de Lutero. Se bem que as coisas da Ilha não me interessam, meu umbigo é pequeno, sendo minha dor de dente mais importante que qualquer guerra na China. Na verdade o que interessa é tomar meu absinto e seguir o ofício e ganhar uns ducados por que a vida não está fácil e Deus – do Martinho, do Papa ou de algum Islão qualquer – nos livrando da peste e dos monstros abissais já bom demais. Nós é fútil, mas é jóia. (curioso que os dois participantes que foram sorteados com esse tema tenham mencionado que prefeririam escrever sobre Micelangelo! Foi coincidência?)

Autor: Rodrigo Fernandes

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Monótona esta crônica não é, engraçada einteressante

9,0

Lorenza

O autor acertou no tom de colunista social de programação vespertina da TV aberta.

10,0

Cida

Excepcional.

10,0

Marco

Divertido, inteligente, bom uso do humor em equilíbrio com a análise histórica.

10,0

Betty

Engraçada. Tem um ar de conversa de bobo da corte, jester...

9,0

Luci

Divertido, muito bem escrito.

 

10,0

Total

58

Crônica 19

FUKUYAMA

Em 1989, após a derrocada da União Soviética, o professor Francis Fukuyama, então assessor do Departamento de Estado dos EUA, defendeu que a História chegara ao fim, com a supremacia política da democracia norte-americana e a hegemonia da globalização e do capitalismo. A luta incessante da tese contra a antítese, proposta por Hegel, gerara uma síntese definitiva, sem contraponto. Era o fim da História, o seu ápice.

Ontem, 11 de setembro de 2001, constatamos, perplexos e aterrorizados, que o professor estava errado, que todos nós, norte-americanos, estávamos errados.

Ontem éramos arrogantes, hoje temos medo.

O professor Fukuyama se esqueceu de que a vida é pólemos, é conflito eterno e sem vencedor. Esqueceu-se de que a História é humana, e o homem é um ser que não cabe em si, ele transborda qualquer previsão e surpreende sempre. 

Hoje, à esquerda da Estátua da Liberdade ainda fumegam os entulhos da Babel que era motivo de orgulho do povo, dos capitalistas e dos políticos norte-americanos. A flama seca na tocha do monumento compõe um estranho quadro com as chamas verdadeiras, que consumiram pessoas reais. A estátua parece mesmo petrificada e inerte frente à realidade. Desde que o primeiro dos aviões apontou no céu em direção às Torres Gêmeas, ela presenciou tudo, e, como nós, nada pode fazer, senão assistir atônita.

O avião como arma já completa mais de um século, tragicamente quase a mesma idade de sua existência. O avião como bala também não é novidade, pois os kamikazes japoneses, na Segunda Guerra, já o utilizavam. O professor Fukuyama, assessor do Pentágono nos anos oitenta, deve conhecer a história de seus ancestrais.

Mas dois aviões lotados de passageiros e tripulantes civis, pilotados por civis, rendidos por outros civis, e arremessados contra prédios civis, matando milhares de civis - sim, essa é a primeira vez na História.

O professor Fukuyama é o homem das listas. Capitalismo, globalização e hegemonia são listas.

Uma lista é uma pulverização. Uma lista não tem carne, sangue, sentimentos, família, passado, futuro e destino. As mais de 3.000 pessoas que se estima tenham morrido no atentado, constituem uma lista.

Uma pessoa, uma única pessoa, não. Essa é única.

Kaaria Mbaya tinha 39 anos de idade no dia 11 de setembro de 2001. Até o momento só se sabe que era natural de Nairóbi, no Quênia, e trabalhava na Cantor Fitzgerald, empresa de seguros situada na Torre Norte do World Trade Center, na qual era analista sênior de computador.

Podemos pensar em Kaaria como uma criança que passou muitas dificuldades na África. O Quênia não é propriamente uma Disneyworld. Mas lá estava o pequeno futuro consultor sênior estudando com poucos recursos, numa escola simples e despossuída de professores qualificados, material didático e acesso à tecnologia. Possivelmente acordava muito cedo, sol por levantar, tomava um café pobre e caminhava muitos quilômetros até a escola.

Posso quase ver o jovem Kaaria agora como aprendiz em alguma empresa de Nairóbi, admirando aquela nova e extraordinária máquina chamada computador. Emociona-se ao vê-la solucionando problemas, mostrando textos, imagens e filmes, e aproximando pessoas.

Daí para que Kaaria dedique sua vida a lidar com os computadores é uma história certamente de superação, muita, mas muita dedicação, e merecido sucesso, pois lá está ele, em 11 de setembro de 2009, no cimo do mundo, ou mais exatamente no 107º andar da Torre Norte do WTC.

Às 8h48, concentrado no trabalho, o que sabe ou pensa Kaaria dos conflitos árabe-israelenses, dos negócios da família Bush com os milionários líderes dos países da OPEP, da ira do Islã contra os EUA e do choque de civilizações Ocidente x Oriente?

Também não tem tempo de sentir seu corpo arremessado contra o blindex do escritório, estilhaçando-os – o corpo e o blindex.

Só já no abismo que se abre e o suga junto com pedaços de concreto, papel, madeira e gente, só aí, nos poucos segundos que lhe restam, o consultor sênior africano se desespera pela perda de sua conquista, de sua família, de sua vida.

Uma pessoa única.

O mundo mudará radicalmente. No início, é certo, o que vem por aí é vingança, travestida de justiça. O nacionalismo, segundo Samuel Johnson "último refúgio dos canalhas", será o mote mais invocado pelo belicoso atual governo, e justificará a tentativa de expansão e neocolonização de países no Oriente Médio.

Mas sou um otimista convicto. Creio que após esse primeiro momento de fúria os norte-americanos acabaremos nos impondo uma reflexão: por que os outros povos nos odeiam? Por que, a despeito de nossa admirável trajetória – e ela é admirável! –, estamos em dessintonia com o mundo? 

Em japonês, fuku significa felicidade e yama, montanha. Do alto de seu ideograma olímpico, o professor Fukuyama tem agora à frente, como trágico contraponto à sua teoria do fim da História, o espectro de duas torres, uma lista com mais de três mil mortos e uma pessoa, uma única pessoa, caindo para a morte: Kaaria Mbaya.

Autor: Marcelo Larroyed

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

A imagem da Torre de Babel é excelente. Crônica muito boa.

10,0

Lorenza

Previsível na maior parte, os melhores trechos da crônica estão na curta biografia da vítima queniana.

9,2

Cida

Linda.

10,0

Marco

Precisa!

10,0

Betty

Começou fria demais e depois ficou piegas.

9,0

Luci

Este texto faz refletir.

9,0

Total

57,2

Crônica 20 (fora do desafio)

A loucura das multidões

 

            César está morto. Ouvi isso pela primeira vez do gordinho afeminado e convencido que gosta de ser o porta-voz do governo na praça principal da cidade. Particularmente, nunca me interessei pelos jogos de poder praticados pelos nossos governantes. Já entendi um bom tempo atrás que tudo não passa de uma fogueira de vaidades, em que todos estão apenas de olho no prêmio final sem medir conseqüências para alcançá-lo. Vale de tudo no mundo da política para sair na frente dos outros.

            No entanto, conheço o suficiente desses jogos para imaginar os impactos que a morte de César pode trazer à nossa sociedade. Roma se transformou em um caldeirão de emoções capaz de entornar a qualquer momento. Admito que fiquei chocado com a morte do nosso ditador. Não me entendam mal. Lembro muito bem dos dias de guerra civil e desejei, como tantos, que César nunca tivesse atravessado o Rubicão. Mas o passado é o passado e nada podemos fazer a seu respeito. E o que importa, no fim das contas, é que ele tinha se mostrado um homem de palavra. Não ficou só nas promessas, que nos acostumamos a ouvir e ignorar da boca de outros políticos interesseiros. César realmente teve a coragem de implantá-las. De fazer valer a vontade do povo.

            Ao mesmo tempo, ele provocava temores em nossos corações ao correr atrás do título de imperador. As mesmas pessoas que o adoravam tinham medo de que ele provasse ser um lobo em pele de cordeiro. É realmente tão surpreendente que os amigos e conhecidos de César o tenham apunhalado como a um animal no senado, em plena luz do dia? Isso foi o que decidi descobrir quando o gordinho anunciou que Brutus e Marco Antônio fariam um pronunciamento a respeito da morte do ditador.

            Cheguei cedo à praça principal da cidade, que já se encontrava apinhada de gente. Precisei subir no pé de uma estátua para conseguir um lugar decente. De lá, pude ter uma visão mais geral da multidão e fiquei impressionado. Nem durante as melhores lutas de gladiadores no coliseu contemplei um público tão vasto e diverso como aquele. Parecia que a cidade inteira se reuniu (reunira) para ouvir os motivos que levaram à morte de César. Um burburinho se levantava do meio do povo, como o zumbido incomodo de uma mosca a passar próxima do nosso ouvido.

            Pesquei umas palavras aqui e outra ali, para sentir o clima da multidão. E o que pude constatar, ao menos das pessoas que se encontravam mais próximas a mim, é que ninguém sabia direito o que pensar. Só então percebi que a sociedade sofria de um choque pós-traumático severo (trauma, nesse sentido, é conceito criado por Freud. O conceito de “choque traumático”, idem. Se você estivesse fazendo uma crônica jocosa, cheia de alusões aos dias de hoje, como foram algumas, seria aceitável usar esse tipo de expressão. Mas mesmo nesses casos fica melhor quando o cronista realmente fala como falaria alguém daquele tempo). Até mesmo os bêbados, prostitutas e baderneiros estavam mais respeitosos do que de costume. Todos aguardavam pela chegada de Brutus e Marco Antônio, nossos homens no poder que prometiam nos curar com palavras esclarecedoras e definitivas a respeito do lúgubre destino de César.

            Claro que esse clima de enterro não durou muito tempo. Junte mais de duas pessoas em uma mesma sala que, após um curto período de tempo, ao menos uma delas tentará quebrar o silêncio com alguma pergunta estúpida. E assim foi com aquela imensa massa de gente. Bastou um comerciante berrar em busca de alguém disposto a provar as enguias fritas que carregava para o povo esquecer o motivo que tinha reunido todos ali. Os gritos do comerciante passaram como o fogo no matagal. Não demorou para a praça toda parecer uma feira em dia de domingo.

            Fiquei sentado no pé da minha estátua, a observar aquele estranho fenômeno. Sempre gostei de observar multidões. Acho impressionante como a massa de gente parece ressonar algo maior do que o indivíduo. Como se todos nós não passássemos de peças de um organismo maior. Embora eu tenha que admitir que esse organismo maior não me parece dotado de muita inteligência. Pelo contrário, me parece mais um amontoado de emoções à espera do gatilho ideal que o lance de encontro a algum inimigo obscuro.     

            Subitamente, Brutus subiu à tribuna e todos se calaram. O senador não sorria e parecia carregar o peso do mundo nas costas. Ele não tentou florear ou criar desculpas para a morte de César. Ao invés disso, foi direto ao ponto e discursou a respeito da necessidade do assassinato pelo bem da República. Brutus afirmou o que muitos temiam. Que César era um tirano. Que César pretendia escravizar a sociedade. Que César estava prestes a se transformar em um monstro mais temível do que todas as quimeras conhecidas pelo homem. Daí a necessidade de extirpar esse câncer do meio social. Daí a necessidade de matar César.

            A multidão explodiu em aplausos de aprovação ao discurso assim que Brutus se calou. O senador agradeceu a todos e se retirou da tribuna. “Sempre soube que César era uma cobra”, comentou um comerciante próximo do local onde me encontrava. “Expulsou os senadores de Roma quando voltou da Gália. Queria o governo só para si”, retrucou um mercador. Não quis expor minha opinião aos outros. Me encontrava por demais perplexo para falar qualquer coisa. Brutus acabava de confessar o assassínio de um homem e o povo batia palmas para ele.

            Então Marco Antônio subiu ao palco e a multidão novamente se calou. O tribuno começou por elogiar as palavras de Brutus e disse admirar sua coragem por expor assunto tão espinhoso de maneira tão concisa e didática. Aplausos do público. Marco Antônio pediu silêncio. Em seguida, mostrou a todos uma toga manchada de sangue e com vários furos de faca. A toga usada por César na hora de sua morte. Então Marco Antônio pôs-se a falar da injustiça cometida pelos senadores que levaram ao fim de um grande homem. Um homem que amava Roma acima de tudo e que deixou, em seu testamento, a quantia de setenta e cinco dracmas para cada cidadão romano. Marco Antônio mostrava a toga ensangüentada e citava os senadores que participaram do assassinato nominalmente.

Foi quando percebi uma mudança na multidão. Uma sede de sangue crescia em meio ao povo. As palavras de Brutus tinham sido sopradas como poeira ao vento. Mais do que aplausos, o público vibrava de ódio ao fim do discurso de Marco Antônio. Muitos clamavam por justiça. Eu apenas me recolhi à minha casa em silêncio e fiz questão de trancar a porta. Bem sei como fica Roma nesses momentos de mudanças políticas. Deixe a multidão e os poderosos com a sua loucura passageira. Deixe que manchem as ruas com o sangue dos corruptos. Prefiro manter minha opinião individual a me deixar influenciar pela burrice dos grandes aglomerados humanos.

 

Autor:

Jurado

Comentário

Nota

Oswaldo

Boa crônica

9,0

Lorenza

O enfoque escolhido e já descrito no título é ótimo, mas foi desenvolvido de forma pouco instigante, um tanto burocrática.

8,0

Cida