

|
Colocação |
CONCORRENTE |
NOTA |
NÚMERO
DE VEZES |
|
1 |
Afonso Cruz |
59,0 |
|
|
2 |
Maria de Fátima M.Correia
|
58,8 |
|
|
3 |
Ari Gurcz |
57,8 |
|
|
4 |
Rodrigo Fernandes |
56,4 |
|
|
5 |
Denis Reis |
55,3 |
|
|
6 |
Gerson Nagem Perrú |
54,5 |
|
|
7 |
Joaquim Bispo |
54,0 |
|
|
8 |
Marcelo Azevedo Larroyed |
53,7 |
|
|
9 |
Ana Marques |
53,2 |
|
|
10 |
Antonio Paulo Pinheiro Lima |
53,0 |
|
|
11 |
Kalinka Tavares Iaquinto |
53,0 |
|
|
12 |
Leo Borges |
52,5 |
|
|
13 |
Roberto Klotz |
52,5 |
|
|
14 |
Clemens Soares dos Santos |
52,2 |
|
|
15 |
Carlos Alberto Pessoa Rosa |
51,5 |
|
|
16 |
Washington Dourado |
51,5 |
|
|
17 |
Jurandir Araguaia. |
50,3 |
|
|
18 |
João Carlos B.Guimarães |
50,0 |
|
|
19 |
Cinthia Kriemler |
49,0 |
|
|
20 |
Ivan Mizanzuk |
49,0 |
|
|
|
Pablo Amaral Rebello |
48,0 |
|
|
|
Liliane Neves de Souza |
47,8 |
|
|
|
Aldmeriza Riker |
46,0 |
|
|
|
Mauro A Madeira |
44,8 |
|
|
|
Luís Miguel Vale F. Vale |
42,0 |
|
|
|
Eneida Coaracy |
DESISTÊNCIA |
|
Parabéns aos que deixam aqui o Desafio pela excelente participação!
Que os problemas familiares de saúde que tiraram Eneida do Desafio encontrem rápida e feliz solução!
Aos 20 sobreviventes, renovem o ânimo,pois agora é a reta final!

O insólito acontece
À
vista de uma notícia de que um jovem inglês, no Reino Unido, foi condenado a
dois anos de serviços comunitários por colocar seu pênis em um buraco na caixa de
correio, lembrei-me de um caso semelhante que ocorreu
Letícia,
jovem faceira, de bom porte e formas arredondadas (próprio das brasileiras,
como dizem) gostava de se divertir, ir às baladas e
sempre de acompanhante novo. Euládio apaixonou-se pela jovem dançarina e seus
requebros sensuais na roda de gafieira. Aos sábados, lá ia Euládio para a “Flor
Amorosa”. Conhecia quase todos no local já que era um freqüentador assíduo.
Dançava a noite inteira com todas as mulheres disponíveis e indisponíveis. Mas
Letícia era um caso particular, a timidez o segurava, não conseguia fazer
avanços em sua direção. Ele também não era aquele cara “cheguei”, mas tinha lá um certo quê, que não passava despercebido por muitas
mulheres.
Uma noite, havia bebido
um pouco mais, destravou a língua e declarou aos amigos que “não estava de
quatro, mas de seis” por Letícia - os quatro membros, a cabeça e algo mais. O
fato chegou ao conhecimento da jovem que não lhe deu importância, não porque
quisesse esnobar o rapaz ou fizesse pouco caso dele, mas não pretendia se
prender a ninguém. Depois de muito escutar as amigas de que o sujeito estava
apaixonado, que isso e mais aquilo, que devia prestar mais atenção nele e
que já era tempo de ela ter um compromisso com alguém, Letícia disse em tom de
brincadeira: Ah! Só se ele me mostrar seu “pinto” fantasiado, aí quem sabe? (há muitas formas corretas para o trecho sublinhado. Esta não
é uma delas. 2 exemplos: “Depois de muito escutar das
amigas que o sujeito estava apaixonado” ou “Depois de muito escutar as amigas
dizerem que o sujeito estava apaixonado”.)
Letícia
morava uma quadra abaixo da casa de Euládio e todos os dias ele a via passar
para o trabalho, em torno de seis e meia. Nessa hora da manhã, a rua era quase
deserta. De longe, ele escutava seus passos, apressava o café e saía à porta
para cumprimentá-la como se fosse por acaso.
Numa
sexta-feira, Letícia vê à janela, num lugar em que o vidro foi retirado,
adivinhem o quê? Nada mais nada menos que um pênis, em toda a sua volumetria, fantasiado de folião, com confete e
serpentina e, como fundo musical, uma marchinha de carnaval. Desnecessário
dizer que era fevereiro, em pleno carnaval. Ela a princípio se assustou, depois
lembrou-se do que havia dito às amigas. A cena mexeu
com ela o dia inteiro. No sábado, na gafieira, se acertaram. Aquela noite, ele
vestiu novamente a fantasia e viveram uma intensa
noite de amor. A brincadeira continuou. Todas as sextas-feiras, ele punha o
órgão fantasiado à mostra quando ela passava. Cada semana, uma fantasia
diferente. Era uma espécie de senha do que estava por vir para a noite de
sábado.
Euládio providenciou uma
agenda que continha as comemorações diárias durante o ano. Assim, na Semana
Santa, o membro apareceu encurvado, sem sua potencialidade, com um véu roxo a lhe cobrir-lo (cobrir é transitivo direto. Mas poderia ser, sei lá, “a
cobrir-lhe o prepúcio”, por exemplo... estou brincando, claro, mas do ponto de
vista gramatical ficaria correto) porque, afinal de contas, era época de
jejum. Já no Dia do Trabalho, mostrou sua força, sua virulência, todo
paramentado de operário. E assim, nas comemorações civil e religiosa
(melhor ambos os adjetivos no plural. Afinal, há mais
de uma comemoração civil por ano. Religiosa, idem. Se houvesse uma comemoração
civil e uma religiosa, a frase estaria correta.), ele usava sua
criatividade e, tal qual um artista, montava sua ensemblage. Dia dos namorados, em vermelho, salpicado de corações;
nas festas juninas, caipira, com direito a chapéu de palha; do mesmo modo, no
dia da enfermeira, do médico, do dentista, da secretária, do professor, do
estudante; até São Francisco, vestido à franciscana e Santo Antonio coberto com
a massa de pão, não escaparam à sua ousadia; dia da criança, nada mais
eloqüente que um elefante com a tromba levantada; dia do comerciante, do
aviador e por aí afora não faltaram datas nem motivações para Euládio. Em
dezembro, representação do Natal com os símbolos natalinos - Papai Noel,
pisca-pisca ou miniaturas de embrulhos de presentes. No réveillon, vestiu-se de
branco com um rótulo de champanhe e duas taças de cada lado.
Nas primeiras semanas de
janeiro, ele não se exibiu fantasiado à amante, nem se apresentou de alguma
outra forma para saudá-la. Letícia reclamou e ele se justificou de que se
tratava do mês nacional de férias no país, portanto o pênis também tinha
direito a um descanso “porque não era de ferro”.
Ela não compreendeu muito
bem, mas aceitou a justificativa. Fevereiro chegou e nas duas primeiras semanas,
nada, nem sinal de Euládio. Na terceira semana, Letícia não aguentou mais o
descaso, fez cobranças ao amante que lhe respondeu estar sem criatividade e
possivelmente estressado. Sentindo-se desprestigiada, Letícia ameaçou-o de
terminar com o romance, caso não voltasse a pretensa
criatividade. (Por que pretensa? A criatividade era real e comprovada...)
Venhamos e convenhamos,
sabe-se que todo artista tem sua fase boa e má. (melhor
redigir de forma a que não pareça que a mesma fase é ao mesmo tempo boa e má)
E também a fase branca, em que nada acontece. Euládio estava nessa fase.
Ele,
sob pressão, bem que tentou, mas não conseguiu nada que o satisfizesse.
Temeroso de que o namoro acabasse, não teve dúvida,
apresentou-se, no mesmo horário e dia, como veio ao mundo. Letícia, ao vê-lo
pelado, engoliu a frustração, sentiu-se ofendida. Ele está debochando de mim!
Pensou. Remoeu esse pensamento a semana inteira. Mas insistiu, fez novas
cobranças. Ele tentou explicar e, mais uma vez, ela não entendeu. Na outra semana,
novamente o pênis nu. Letícia ficou injuriada. Como vingança, arrumou algumas
testemunhas, foi à delegacia e deu queixas do rapaz - “ele mostra-me o pênis
quando passo em frente a sua casa”, foi o que disse ao delegado.
Intimado. Na delegacia,
Euládio confessou o crime e disse que fez por amor.
Adivinhe se o delegado
acreditou? Confesso que eu também não acreditaria se não soubesse dos detalhes.
.
|
Autor:
Aldmeriza Riker |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Enxuto, gostoso
de ler. Faltam vírgulas. |
8,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Excelente, mas é
conto. |
6,0 |
|
Betty
Vidigal |
Divertida, embora o causo contado não envolva a caixa do
Correio. |
9,0 |
|
Lorenza
Costa |
Ligeira,
divertida e bem escrita. |
9,5 |
|
Oswaldo
Pullen |
Não é crônica. |
6,0 |
|
Marco
Antunes |
Cadê a caixa de
correio? A crônica estava pronta e se emendou um início? |
7,0 |
|
TOTAL |
46 |
|

Gêneros
As meias. Talvez um dos mais universais
pontos de atrito entre gêneros seja o suscitado pelas meias. Menos no que se
refira ao feitio, tecido ou qualidade, antes ao destino que lhes é dado uma vez
que tenham sido usadas. As mulheres insurgem-se contra
a tendência masculina de considerar a ubiquidade uma das características
intrínsecas das meias, de achar que estas devem estar em todos os lugares,
exceto, é certo, nos cestos de roupa suja, lugar ao qual pertenceriam, insistem
as moças, por dever de ancestral convenção.
Ao que parece, há estudos
que demonstram que a distância que separa as meias usadas
dos respectivos cestos é inversamente proporcional a seu estado de limpeza e
diretamente proporcional ao que delas emana.
Para descontentamento
feminino, com frequência, às meias seguem-se as cuecas
sujas e os uniformes usados nos torneios de futebol de várzea.
Sabe-se que, em alguns
casos mais graves, essa desorganização e desleixo passam a contaminar outras
áreas da vida cotidiana. Quartos bagunçados, papéis em
cima da mesa de trabalho, chaves do carro e carteiras que nunca são encontradas
onde deveriam estar são exemplos eloquentes (ai,que
saudades do trema!) (eu também!).
Há registros de que a
tendência pode, mesmo, chegar a atingir os hábitos de higiene. É sabido que
todo menino pré-adolescente tem certa resistência a assimilar tais hábitos, mas
a disfunção costuma ser mitigada pelo passar dos anos e pela inserção dos
fedelhos na vida social. Há, no entanto, relatos de homens já maduros que se
recusam a tomar banho regularmente. Num caso extremo, o sexagenário indiano
Kailash Sing não toma banho há trinta e cinco anos. A justificativa de que seu
comportamento hidrofóbico seria um sacrifício à deusa Shiva para que lhe
concedesse a graça de gerar um varão, pai de sete filhas que é,
não impediu os vizinhos de evitar-lhe a companhia. Impensável flagrar uma
mulher com comportamento semelhante.
É possível que não se trate,
exclusivamente, de comportamento adquirido, esse apresentado pelo gênero
masculino. Neurocientistas (mulheres) trabalham há décadas para desenvolver um
método eficaz para reverter a situação e que possa ser
utilizado na vida diária por esposas e mães de todo o mundo. (“reverter” não é a melhor palavra, aqui. Reverter a situação
seria “voltar à situação anterior”) Não obtiveram sucesso sem que se
lançasse mão de práticas condenadas pela Convenção de Genebra de 1929.
Geneticistas (homens) têm
tentado encontrar marcadores moleculares no DNA masculino. É de conhecimento
geral que a diferença entre o cromossomo X e o Y é de, apenas, um pequeno
fragmento. Há os que defendam que a perninha que falta deve ter sido largada
pelo menino em algum lugar entre a ejaculação e a fecundação.
Seja adquirida ou geneticamente
determinada, essa incapacidade de dar destino adequado à roupa suja e demais comemorativos
da Síndrome do Esculacho e Emporcalhamento – SEE é, definitivamente, ligada ao
sexo. Tanto assim que pode ser observada desde a mais tenra infância em todos
os países e em todas as culturas.
Também é de se notar que um padrão de
comportamento pode ser observado entre as meninas: é generalizada a capacidade
de, embora sob protestos (por vezes veementes), suportar a desorganização
masculina. Por exemplo, não consta que, embora o sacrifício a Shiva não tenha
trazido o fruto esperado, a esposa do senhor Kailash Sing o tenha abandonado.
As sete filhas que tiveram reforçam a impressão.
E assim caminha a humanidade,
reproduzindo padrões que se repetem ao infinito. Apenas a quebra do padrão não pode ser suportada. Isso não! A
inversão dos comportamentos é absolutamente intolerável. Atesta-o o caso da alemã que, no Tribunal de Sonderhausen,
solicitou o divórcio porque o marido estava “constantemente a limpar” dizia a
notícia.
A inclinação de um homem para a limpeza
e organização doméstica é uma aberração, um verdadeiro atentado à natureza e,
como tal, só pode ser, mesmo, respondida com um divórcio. Pelo menos nos países
em que a pena capital não é aceita.
Ass.: Um
cronista
|
Autor:
Ari Gurcz |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Divertido. Ótimo
texto. |
9,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Muito boa, mas um
pouco asquerosa no final. |
9,0 |
|
Betty
Vidigal |
Muito divertida. |
10,0 |
|
Lorenza
Costa |
Ligeira,
divertida e bem escrita, mas um pouquinho assim previsível. |
9,3 |
|
Oswaldo
Pullen |
Excelente. |
10,0 |
|
Marco
Antunes |
Bem escrita,
inteligente, cômica. |
10,0 |
|
TOTAL |
57,8 |
|

Vou
O
|
Autor:
Denis Reis |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Abordagem criativa,
redação excelente. |
9,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Maravilhosa. |
10,0 |
|
Betty
Vidigal |
Argumentação
pouco convincente... |
8,5 |
|
Lorenza
Costa |
Uma graça, um
ponto de vista diferente. Pequenas falhas de revisão. |
9,3 |
|
Oswaldo
Pullen |
Boa crônica. |
9,0 |
|
Marco
Antunes |
Bem legal! Um ponto de
vista original, alguma criatividade e bom humor. |
9,0 |
|
TOTAL |
55,3 |
|

OLGA
O sujeito entra no estabelecimento, puxa a
arma e anuncia o assalto; o caixa o surpreende com um golpe de artes marciais,
o imobiliza e leva para os fundos do estabelecimento, onde o sevicia por dois
dias seguidos. Ao sair, o meliante se dirige ao hospital, para tratar dos
ferimentos, e à delegacia, para prestar queixa pelos abusos sexuais. Até aqui,
a história parece só mais um daqueles episódios de assaltos frustrados, tão
comuns hoje em dia.
Acontece que a coisa não para
por aí. É que o caixa em questão é,
na verdade, a caixa. Isso mesmo. Uma
mulher. Uma cabeleireira, para ser mais preciso. Ela surpreendeu
o assaltante armado com um golpe no peito, atou suas mãos com o fio de um
secador de cabelos, levou-o para o quarto dos fundos e, com o auxílio dos
avanços farmacêuticos da última década (uns comprimidos de Viagra), fez dele
seu brinquedinho sexual; depois de saciada, lhe deu um jeans novo e algum
dinheiro; e o deixou partir.
Insólito? Sem dúvida. E
vergonhoso para a cada vez mais desmoralizada classe masculina. Tão humilhante
que já circula, pela internet, uma versão do episódio na qual Viktor seria um
cabeleireiro delicado e Olga seria a assaltante estuprada. Mas não há como
escapar da verdade: o nome, Olga, pode até ser falso; mas as fotos divulgadas
junto com a matéria, nas quais os olhos aparecem desfocados por aqueles
quadradinhos irritantes, não deixam dúvidas de que se trata de uma mulher,
mesmo. E daquelas beldades que fazem suscitar comentários do tipo “do que é que
esse sujeito está reclamando?” Já a “vítima”, o assaltante desastrado, foi brindado com uma foto de corpo inteiro, sem tarjas e
trajando roupas colantes de ginástica.
Uma rápida varredura pela
teia cibernética mostrará ao leitor a consternação causada pelo caso: em um
blog, o comentarista reproduz a foto de Olga (vou continuar a chamá-la assim,
mesmo estando convencido de que o nome é falso), com a legenda:
“definitivamente, o crime compensa”; em outros sites, reações do tipo “essa
mulher se vulgarizou”, “ela é uma vergonha para as mulheres” e coisas do
gênero.
Permita-me discordar. Está
tudo errado.
Olga não devia esconder o rosto.
Devia tê-lo esculpido em bronze, com réplicas espalhadas pelos cinco
continentes; merecia uma estátua do tamanho da Torre Eiffel, postada ao lado da
Estátua da Liberdade. Seu nome não deveria ser ocultado: é digno de ser
eternizado ao lado de tantos outros, como Marie Curie, Simone de Beauvoir,
Margaret Thatcher e tantas outras que elevaram a mulher ocidental ao status de
que hoje desfrutam.
Olga mostrou que a mulher não
precisa ser recalcada para tomar uma atitude firme em defesa de seus
interesses. Basta que se prepare para isso. Sob esse prisma, o fato de estudar
artes marciais, longe de ser incidental, foi emblemático: deixou patente que a
tão propalada fragilidade e a tão discutível dependência femininas são, na
verdade, opções – em parte, culturais; mas, sobretudo, pessoais – e não
imperativos.
Olga bradou aos quatro ventos
que não precisa sufocar sua feminilidade para se afirmar na sociedade. É uma
cabeleireira, profissão tipicamente feminina. E, em seu ato de indiscutível
heroísmo, enalteceu sua profissão (nenhuma novidade: meu cabeleireiro é casado,
tem filhos e nunca o flagrei forçando um falsete) e seu gênero. De quebra,
me fez repensar a idéia de dar um secador de cabelos de presente à minha
esposa, em seu próximo aniversário. (esta é uma ótima
frase para encerrar a crônica)
Olga expôs na vitrine do
comportamento social um fato já reconhecido por muitos, mas insistentemente
negado pela grande maioria: o desejo sexual não é um componente secundário da
feminilidade, um efeito colateral do “verdadeiro” amor ou da paixão intensa,
mas um imperativo (hábil e competentemente sufocado pela estrutura ideológica
ocidental), tanto quanto o é nos homens.
Olga denunciou o que ninguém
quer ver: que a mulher,quando completar seu inexorável processo de descoberta
da identidade sócio-cultural, quando vencer seu conflito entre a caricatura que
lhe foi milenarmente impingida e a imagem a que efetivamente faz jus, ameaçará
as estruturas sociais ora dominantes com um potencial destrutivo maior do que a
Falha de San Adreas. E eu espero viver o suficiente para ver isso acontecer.
Sinceramente, um arrepio
percorreu a minha coluna, ao ler a notícia. Não porque a testosterona tenha
dado asas à minha imaginação, diante daqueles lábios carnudos e daquele cabelo
cuidadosamente escovado (não dá para se ver muito mais do que isso na foto),
mas porque a adrenalina aguçou meus sentidos, colocando-me em alerta absoluto
quanto à ameaça que ronda nossas cabeças. Fui acometido do
mesmo pânico que me atinge toda vez que vejo a Ministra Ellen Gracie, com seu
talento inigualável em transformar a sóbria (e, na visão de alguns, soturna)
toga de ministra em uma ode à elegância, pelo o mero acréscimo de detalhes
sutis e delicados ou pela combinação com outras peças do vestuário – uma demonstração
inquietante de que as mulheres, cada vez mais, estão tomando consciência de que
não precisam imitar os homens para lidar com eles.
E o pior é que nós, homens,
não percebemos isso. Causa angústia ver que nos contentamos tão facilmente em
nos sentirmos poderosos que não damos conta de que a revolução se avizinha e se
avoluma bem debaixo dos nossos narizes – e dos nossos lençóis.
Desde tempos imemoriais as
mulheres jogam com o ego masculino, aproveitando-se do fato de que o poder se
exerce na periferia dos núcleos dominantes. Rebeca mudou a sorte dos hebreus,
apresentando Jacó, em lugar de Esaú, para receber a bênção da primogenitura.
Ester livrou os hebreus do genocídio, seduzindo Assuero. E esses são apenas
dois exemplos dos inúmeros que podem ser encontrados ao longo da história. Mas
não é disso que estou falando. Me refiro ao fato de
que, dia após dia, as mulheres estão deixando a periferia e migrando para o
centro do poder; e, o mais perigoso, fazendo isso sem deixar de lado sua
própria feminilidade.
Quando é que nós, homens, vamos acordar? Quando vamos encarar o fato de que o batom
e o salto alto saíram das cozinhas e dos bailes definitivamente? Quanto tempo vamos levar para perceber que as mulheres já
caminham a passos largos em direção à sua identidade sócio-cultural, enquanto
nós ainda nos vemos às voltas com as ilusões de plenipotência com as quais
essas mesmas mulheres nos mantiveram sob controle por séculos?
Olga resolveu sair das
sombras. É só uma questão de tempo, até que a tarja desapareça de seus olhos e
ela exija ser referida por seu nome verdadeiro. Uma questão de pouquíssimo
tempo. Portanto, é melhor que os homens pensem duas
vezes antes de tratá-las como frágeis ou inferiores. (você estava falando da Olga, “ela”, no singular. Se quer
passar a falar “nas mulheres”, genericamente, deve mencioná-las antes de usar
esse pronome). Ou de assaltar um salão de beleza.
|
Autor:
Gerson Perrú |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
escrito, argumentação
perspicaz. |
9,5 |
|
Cida Sepúlveda |
Excelente |
10,0 |
|
Betty
Vidigal |
Alongou-se demais em alguns trechos e repetiu-se muito no
final. Crônica boa e divertida; se fosse um pouco mais compacta,
seria ótima. |
9.0 |
|
Lorenza
Costa |
O imperativo sexual feminino
é sufocado pela lógica "ocidental"? Eu por mim me dou por muito
sortuda por não ser oriental, nem média nem distante. Chatinha essa mistura
de complexo de culpa com rendição ao clichê dominante (tudo é culpa da
sociedade ocidental, da lógica do mercado ou do Bush), mas, no mais, é uma
boa crônica. |
8,0 |
|
Oswaldo
Pullen |
Boa crônica. |
9,0 |
|
Marco
Antunes |
A argumentação
poderia ser mais enxuta, pois o ponto de vista original, acaba se perdendo no
peso do excesso. |
9,0 |
|
TOTAL |
54,5 |
|

Aconteceu em Kaluga
As
mulheres, evidentemente, e há muito tempo, não são mais as mesmas. E quando é
que foram? – (com travessão, não hífen) Perguntaria
um amigo meu chegado a brincadeiras do tipo. Existe uma batalha sendo travada
diuturnamente em todos os recantos deste planeta. É uma guerra não muitas vezes
silenciosa, com requintes de crueldade (lugar-comum) que nem o mais criativo dos escritores
poderia elaborar. (é isso mesmo que você quis dizer? “não muitas vezes silenciosa”; ou seja: guerra “poucas vezes
silenciosa”, “muitas vezes barulhenta”?)
Quem
acreditava que Nelson Rodrigues tivesse ido longe demais precisa rever seus
conceitos. A realidade, muitas vezes, ultrapassa a ficção e nos obriga a
repensar valores. Devo dizer que sou a favor da liberdade, de qualquer
liberdade desde que respeite os limites do próximo e que não sangre direitos
sagrados como: a vida, o de ir e vir e o de não sofrer violências físicas, para
citar apenas alguns.
A
guerra de que falo visa a provar quem tem o domínio sobre o planeta: homens ou
mulheres? Pode parecer que a questão foi resolvida através de uma coexistência
até certo ponto pacífica, mas não é bem assim. Comumente as mulheres são
vítimas e a vantagem masculina, covardemente sustentada pela maior força
física, tem escorrido pelos dedos através de eventos incomuns e
desconcertantes.
No
entanto, existem contra-ataques. Um dos últimos lances
a questionar o domínio dos machos veio de um recanto inóspito da Rússia, sob o
nome de Kaluga, aonde dois
personagens surreais, que poderiam ter saltado lépidos de um quadro de Dali,
acrescentaram pimenta ao assunto.
Um
desses é o meliante Viktor. O ofício do rapaz é invadir, aterrorizar,
sequestrar os bens alheios e manter-se vivo, como
determinam as leis da sobrevivência desde que o primeiro homem (?) atacou a
tacapes outro homem (?) e carregou para a caverna a primeira mulher (?).
Poderia ter sido o contrário e a história deveria ser reescrita.
Não
sabemos muitos detalhes a respeito do enfrentamento no distante país dos velhos
kizares. Apenas foi relatado que o rapaz, em um momento de descuido, (descuido de quem? Talvez o rapaz fosse um “descuidista”, mas
um “descuidista” não age exatamente “num momento de descuido”) invadiu o
salão de beleza mantido a duras penas por sua distinta oponente nesta moderna
saga: Olga. Não posso dizer que fosse bela, não há registros ou informações a
respeito, mas diante do que se seguiu, creio que a moça precisava, desde muito,
dos braços fortes e acolhedores de um namorado. De qualquer namorado.
Teria
Viktor observado o salão de Olga por vários dias? Provavelmente sim. (o “sim” é desnecessário depois desse “provavelmente”.) Caso
tenha feito bem a lição de casa. Somente não sabia que Olga voltaria ao
local depois de ter saído, e que o surpreenderia atentando contra os pertences
de Olga (há formas para dizer isso sem repetir
“Olga”). Nesse momento coloco em dúvida se foi o primeiro homem a
arrastar para a caverna a primeira mulher. Olga parecia indefesa, aos olhos
lupinos do invasor crente na noção de superioridade que os homens são ensinados
a ter. Maldita testosterona. Creio mesmo que a quantidade de neurônios talvez
seja inversa à de testosterona. Com a palavra os cientistas. Nesse caso as
mulheres teriam muito mais neurônios, o que talvez seja verdade. De novo
conclamo os cientistas.
O que o sujeito não sabia
é que Olga praticava artes marciais. Seria a nobre proletária fã ardorosa do filme ¨Menina de Ouro¨?
Talvez
fosse essa a explicação mais plausível para o que sucedeu a seguir. A dedicada
moçoila desferiu-lhe poderoso golpe no peito, (vírgula) vindo Viktor a tombar. (se
fosse, por exemplo, “levando Viktor a tombar”, ou “fazendo Viktor tombar”, não
seria necessária a vírgula) O tacape voou longe. Utilizando os meios à
sua disposição, imobilizou-o com fios de um secador de cabelo. (o sujeito da frase anterior é “o tacape”. O desta,
certamente, deveria ser “a delicada moçoila”. Mas, da forma como está fraseado,
o que você está dizendo é que foi o tacape quem “o imobilizou”.)
Estando
o tacape no chão, Olga trabalhou no dia seguinte normalmente. As clientes
entraram e saíram do salão e viram o jovem amarrado,
humilhado e amordaçado junto a um móvel.
-
O que é isso? – Devem ter perguntado.
-
Nada, respondia Olga, apenas um ladrãozinho que botei em seu devido lugar.
O
pior deve ter sido Viktor ouvir horas de conversa ácida e ter de enfrentar
olhares zombeteiros. Intriga-me saber por que nenhuma das clientes aventurou-se
a chamar a polícia. Estariam as autoridades russas mais desacreditadas que a
nossa? Com a palavra as autoridades.
(lugar-comum. Sei que você está brincando, usando a frase num sentido
jocoso...)
O
mais provável é que Olga tenha compartilhado com as clientes amigas suas reais
intenções. A partir do momento em que o salão fechou, Viktor sofreu abusos por
parte de Olga por dois dias. Para manter o tacape em pé, a prudente vítima
comprou caixas de Viagra. Não duvidem que ela tenha sido cruel. Afirmou, em
depoimento à imprensa, que o alimentou, deu-lhe uma nova calça jeans e até
mesmo dinheiro, em gratidão pelos bons serviços forçosamente prestados.
Vejo-o
caminhando pelas ruas de Kaluga abatido, desnorteado e confuso:
-
Que homem sou eu? – Pergunta-se. Indignado, resolve
tomar satisfações da polícia:
-
Façam alguma coisa!
Viktor
deve ter virado, literalmente, a piada de salão da cidade enquanto Olga recebia
tapinhas nas costas das mulheres vingadas por séculos de maus tratos:
-
Muito bem, menina.
A
polícia pensa em prender os dois: o primeiro por roubo e a segunda por abuso
sexual. Viktor apenas pede que fiquem em celas separadas.
|
Autor:
Jurandir Araguaia |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Alguns trechos são engraçados,
outros estão confusos. Revisão ortográfica e gramatical. |
8,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Bem escrita, mas
pouco envolvente. |
9,0 |
|
Betty
Vidigal |
Excesso de conjeturas. Excesso de “talvez”, “provavelmente”,
verbos no condicional... O parágrafo final deu um bom fechamento. |
8,5 |
|
Lorenza
Costa |
A crônica é boa, mas
poderia melhorar ainda mais se o cronista abrisse mão dos seguintes cansativos chavões da mídia nacional: "precisar
rever seus conceitos", "fazer a lição de casa" e "com a
palavra, fulano de tal". |
8,8 |
|
Oswaldo
Pullen |
Transformar o fato em
evento da guerra dos sexos talvez não tenha sido uma solução feliz. Crônica
razoável |
8,0 |
|
Marco
Antunes |
É...! Ta...! Não conseguiu
despertar o entusiasmo, o ponto de vista é pouco original e o texto não
corrige a defasagem com algum charme adicional |
8,0 |
|
TOTAL |
50,3 |
|

Epifanias
Certa
feita ouvi no rádio
uma escritora declamando uma crônica. Ela havia escutado a noticia de que um
artista holandês criara uma secretária eletrônica para Deus, assim, decidiu
ligar e deixar um recado para Ele. (pontuação falha)
Numa clemência alvitante (“aviltante”!) ela espremeu uma singela satisfação.
Disse saber estar falando com uma pessoa de outro país que talvez não
entendesse seu imperfeito português. Mas de qualquer forma falaria, pois a
prece, disse ela, é encantar-se com os temas. E disso ela sabia viver. Confessou-se
confortavelmente casada, seus dois filhos criados eram homens bons. Sempre teve
a ânsia da concretude das coisas, fato que a fazia ser tão
maleável frente ao gosto dos outros. (1-“ter a
ânsia” de algo não é um “fato”. 2 - Melhor “o que a fazia”, simplesmente. As
duas frases anteriores também estão confusas.)
Essa concretude em
verdade não avistava a realização de seus anseios, mas tão somente a
necessidade de sentir-se útil e com essa serventia poder confessar de si para
si que a sua vida para algo servia. Esta confissão não durava muito, logo a
ânsia novamente lhe consumia os parcos minutos de glória (“confessar”, “confissão“, não são as palavras ideais aqui).
Era assim que sentia-se todos os dias, como se esse
desatino fosse a desculpa para sentir-se viva. Achava muito difícil encarar-se,
ela sabia. Só não entendia por quê. Dentro de si os sonhos não contavam
fronteiras, talvez a insegurança de uma possível
realização fosse o desmoronar de todo o mundo que lhe rodeia (que a rodeia), talvez a pessoa que enxergava
ao olhar-se no espelho teria decididamente (ou talvez ou decididamente) de se despedir do esplendor que seria se
vivesse sem suas auto-imposições.
Por uns instantes, desses
que se vivem quando estamos sós, ela era capaz
de olhar para as estrelas e pôr suas concepções
Pois que ao pensar nesta
escritora eu lembrei de meus rogos.
Se tivesse a real
possibilidade de ligar para Deus eu não pediria nada em concreto, apenas diria
as minhas necessidades e deste apelo aguardaria o que viesse. É melhor assim,
já que preciso de muito, mas de um muito humilde e extremamente complexo para
ser significado em numa palavra, pois preciso sorver de cada essência a sua
inconsistência, a sua vontade... e espraiar no
abstrato sideral a sanidade conclusiva do que só divinamente compreendi.
Preciso ouvir da boca de
alguém que a força que sentiu ao falar comigo foi a
mesma que eu também senti, que esta força não precisa ser racionalizada nem
condicionada às possibilidades ou impossibilidades que as incumbências diárias
nos afogam, precisa apenas ser vivida sem muito pensar, a vida é curta demais
para certas elucubrações. Essa resposta não precisa necessariamente vir por
palavras, mas por um ato. Talvez minha resposta fosse o silêncio, afinal, ele
me ensinou que apenas a essência guarda a perfeição do que sonhamos...
Mas é que eu preciso que
o amor me alimente e que a dor, sinceramente, me traga profundidade. Então condiciono-me a aprender com o que a mim vier e isto basta.
Talvez essa crônica de
nada valha, talvez ela nem mereça ser avaliada, já não
me importa. Sei que em poucos minutos eu a entregarei para seu revisor e ele é
o alguém do qual eu espero uma resposta. Logo aqui uma verdade aparece: Tudo
isto foi um pretexto para que, se houvesse alguma dúvida, ela agora se
dissipasse. Tudo caminhou para que esta verdade aparecesse desta forma. O
concurso, o tema, o momento em que ele me viu dançar na porta, a hora que ele
lembrou-me alguém que d´algum lugar conheço, a
oportunidade de ouvir que ele já viveu o momento, talvez o único de nossas
vidas, em que somos capazes de conceber tudo o que nos chega com uma
graciosidade imensa, dessas graças que abarcam totalmente a vida em derredor,
que não necessita de conceituações e idiossincrasias para mostrar-se belo e a
surpresa de saber que foi na cidade onde ele nasceu que eu também passei por
isto...
Posto que ao terminar
estas linhas, ao traçar o fio que envolve todas estas questões,
deparei-me com a sensação de que havia
rezado também uma prece, não por telefone, mas por estas linhas e papéis.
Achei Deus de uma grande
delicadeza.
|
Autor:
Liliane Neves |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Comentário: Este texto
poético às vezes se torna excessivamente dramático. Falta revisão. |
8,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Bonita em algumas
partes, melodramática em outras. |
8,0 |
|
Betty
Vidigal |
Rebuscado,
pomposo, pedante. Linda frase
final – que não salva o texto. |
7,0 |
|
Lorenza
Costa |
O segundo e o
terceiro parágrafos são turvos, com um rebuscamento artificial; depois a
crônica cresce muito. Precisa de revisão. |
8,8 |
|
Oswaldo
Pullen |
Texto arrastado, que
pouco prende a atenção do leitor. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
“Achei Deus de uma
grande delicadeza.“ É conhecida frase de Clarice Lispector, não pode ser
usada sem citação de créditos! Crônica monótona e previsível, embora bem
escrita. |
8,5 |
|
TOTAL |
47,8 |
|

Cheiros & Cheiros
Roqueiros são seres por
demais curiosos, não raro cultivam manias intrigantes. Alguns, por exemplo, que
coisa, chegam ao cúmulo de tocar instrumentos
musicais. Todo mundo sabe que roqueiro que se preza se confunde até com um
berimbau sem corda. Assim o é, eu não invento nada, pois me falta miolo,
engenho ou vivência para tal. Por isso tudo não entendo a gritaria da imprensa
internacional ao noticiar que o celecanto celacanto
mesozóico Keith Richards cheirou o próprio pai. Não vejo nada demais (não vejo nada de mais) na atitude do velho rocker.
Conheço gente que já cheirou carros, jatinhos e até apartamentos, com piscina e
tudo. Cheirar o pai é fichinha. Eu mesmo já cheirei o meu pai. Mais de uma vez
até.
É claro que aí se deve dar
um desconto, respeitar as devidas proporções. Esse povo do rock and roll
anda a mais de mil, eternamente plugado em duzentos e vinte volts e nós, pacata
gente de bem, sempre à beira do apagão final da rotina. Portanto, enquanto o
audacioso guitarrista edipianamente cafunga seu progenitor, sem saber se começa
pelas pernas, pelos braços ou pela orelha, eu, sereno cronista, apenas aprecio
o cheiro do creme de barbear e a lavanda Phebo do meu. Odores tão seus, tão
familiares quanto a névoa do frango que assava,
pontualmente, aos domingos da minha infância.
Era aos domingos que a
figura do meu pai se mostrava de forma plena e definitiva. De fato, era um dia
especial na minha casa suburbana, único dia em que se comprava o jornal.
Solene, meu pai pegava o pacote de folhas e com cuidado separava o caderno de
quadrinhos, era o que me cabia. Não gostava que desarrumassem o periódico que
ficaria em cima da estante durante toda semana, dando a ilusão de que havia
sido entregue no dia. Assim, durante anos, fomos assinantes da gazeta, sem
assinatura, nem taxa, nem entregador entregando errado, na casa da vizinha boa
e simpática, que merece mesmo um jornalzinho grátis.
Ele e o jornal. Sentado
na poltrona, limpo, passado, os cabelos regiamente penteados. (regiamente? Como se penteiam os reis?) Lendo a
novidade dos esportes enquanto sorvia em goles lentos uma caneca de café. O
cheiro, mistura da bebida com a colônia pós-barba, perfumava com vigor a sala
pobre de móveis. Meu pai, nem humilde nem severo, apenas ele. Era uma imagem
que me dava orgulho. Dava-me uma vontade danada de ser aquele homem, aquele
pai. Tão diferente dos outros dias da semana em que voltava à sua condição de
operário da fábrica de tecidos, gasto, roto, mastigado pela vida.
Com meu pai não havia
show, nem circo, nem Maracanã, nem piquenique ou pedalinho
− Gossypium Hirsutum, da
família Malvácea! Pode olhar no seu livro, pode conferir! Dizia com um
ar professoral que não tinha.
Muitas vezes andava pela
casa em silêncio, da sala para o quarto, do quarto para cozinha e daí para o
quintal, desperto, procurando mistérios, nunca chegando a lugar algum, sempre
de passagem. Seu único relaxamento era se indignar frente ao Jornal Nacional,
ofício que cumpria mal entre pesados cochilos. Minha mãe, às vezes, desligava a
televisão e ouvia sempre a mesma reprimenda:
− Não desliga, mulher. Estou ouvindo,
só estou descansando a vista.
Ali seu dia já havia
acabado, era sua senha secreta para que eu e meu irmão terminássemos nossas
estripulias, a hora sagrada do silêncio. Porém, para ele, fazer a barba antes
de dormir era um sacramento. Sua oração à Meca. Sua hóstia. Seu banho no
Ganges. Um ritual que se repetia metódico sem a mínima alteração. Água, espuma,
pincel, navalha. Seus apetrechos eram intocáveis, mágicos. Por muito tempo
minha aspiração era ter uma navalha só minha. Hoje, que coisa, uso uma lâmina de barbear das mais ordinárias. Herdei seus
pêlos, mas não seu capricho. Que Deus perdoe nossa triste degenerescência.
O cheiro do meu pai era
esse, de limpeza, do álcool que passava no rosto. Eu achava que só os adultos
tinham aquele olor, era aquilo, mais que tudo, que os faziam adultos. (fazer concorda
com aquilo, singular) Crianças eram outra
coisa, cheiravam ao talco que minha mãe me sufocava depois do banho, ou,
os mais crescidos, a chiclete de bola, não era um cheiro sério. (com que minha me sufocava. Sufoca-se alguém com
alguma coisa) Certa vez, por certo querendo virar gente grande, cismei
de fazer a barba que não tinha e tasquei um tanto de álcool no rosto, pulei
como um potro doido, arde até agora. Hoje, vivíssimo –
mais do que antes até – não vejo meu velho com a frequência que gostaria.
Porém, toda vez que estou com ele, seu cheiro lhe anuncia (o
anuncia. Seria “lhe” se algo estivesse sendo anunciado AO pai) e eu, sem
pudores, volto a cheirar meu pai. Com todo o orgulho do mundo.
|
Autor:
Rodrigo Fernandes |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Começo engraçado,
continuação nostálgica. |
8,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Bonita, mas poderia
ser mais enxuta. |
9,0 |
|
Betty
Vidigal |
Ótima crônica. |
10,0 |
|
Lorenza
Costa |
Perfeito, apenas os
dois últimos parágrafos parecem ter sido revisados às pressas. |
9,9 |
|
Oswaldo
Pullen |
Boa crônica |
9,0 |
|
Marco
Antunes |
Bela,como são belas as
coisas simples! |
10,0 |
|
TOTAL |
56,4 |
|

Um
presente para falar com Deus
Acordei
com o toque do celular. Ainda um pouco sonolenta não
reconheci de imediato a voz do outro lado da linha. Mais
algumas palavras e o meu coração deu pulos de alegria. Era Helena minha
amiga que há dois anos mora na França, onde faz uma especialização
-Você
precisa vir ao aeroporto agora, tenho duas horas aqui
Abri
os olhos. Olhei o relógio. 6.30h da manhã. Estava sonhando? Olhei o celular e
me certifiquei se realmente teria atendido ao telefone.
Enquanto
dirigia rumo ao aeroporto uma única pergunta martelando o meu juízo. Como falar
com Deus? Por um instante pensei: será que ela vai me matar?
O
aeroporto estava tranqüilo Subi as escadas rolantes e de longe vi Helena. Os
cabelos presos lhe davam um ar elegante. O seu belo sorriso de menina e um
longo abraço. Era o início de um domingo que ficaria marcado para sempre.
A
garçonete aproximou-se, trouxe duas canecas de café puro e pães de queijo
fumegantes. As palavras eram atropeladas pela quantidade de informações.
Enquanto sorriamos de nossas próprias conversas, ela parou e tirou da bolsa uma
caixinha e falou: - aqui tem a senha vai lhe fazer a mulher mais poderosa deste
país.
Fiquei
gelada e embora Helena falasse baixinho, essas mesas
de café são muito próximas, impossível não ouvir as conversas. Todos me
olhavam. Eram olhos de curiosidade. Eu não sabia se abria a caixa ou se falava
alguma coisa. As pessoas agora eram mais interessadas do que eu. Um gole de
café e aos poucos fui me recompondo.
A
caixa maravilhosa de porcelana com feixe dourado. Dentro um papel amarrado com
um laço de fita lilás. Era uma notícia de jornal: Deus tem uma secretária
eletrônica. O artista holandês Johan van der Dong instalou um número local de
telefone na Holanda para estimular as pessoas a deixarem suas mensagens para
Deus.
Van
der Dong disse que o objetivo é dar às pessoas uma oportunidade de parar e
fazer uma reflexão sobre a vida. “Como rezar, deixar uma mensagem falada é a
maneira de organizar seus pensamentos.”, ele diz. “É uma perfeita combinação
para a reflexão.”
Os
que discarem 06-4424-4901 (ou +316-4424-4901 para quem disca de fora da
Holanda) a partir de 7 de março ouvirão: “oi, aqui
quem fala é Deus. Eu não estou disponível agora, então deixe o seu recado
depois do bipe”.
Embaixo,
manuscrito em lilás: Quis dar a minha melhor amiga a oportunidade de ficar
famosa, sendo a primeira brasileira a falar com Deus. Carinhosamente, Helena.
Os
poucos minutos que nos restaram foram de muitos sorrisos. E Helena rapidamente
me falou da confusão que tomou conta da Holanda quando esta notícia foi
publicada nos jornais. O artista que virou celebridade para alguns e monstro
para outros. O jornal que teve sua edição esgotada em questões de minutos. (em questão de minutos) O Congestionamento das linhas
telefônicas e as secretárias eletrônicas de várias empresas que tinham seus
números confundidos com o de Deus e que receberam milhões de recados. As
igrejas superlotadas e os padres que não conseguiam dar explicações a todos que
queriam a garantia de que suas mensagens seriam realmente ouvidas por Deus. E
assim por alguns dias a Holanda pareceu viver o próprio apocalipse. Mas, pelo
fato extraordinário criado pela grande mídia o país se notabilizou como o primeiro
lugar do mundo com capacidade de um contado direto com o nosso Criador.
Discutimos
como uma simples notícia de jornal pode se transformar num fato grandioso capaz
de mudar a vida da população de um país inteiro com repercussões, não apenas na
questão religiosa, mas na economia e na própria política de Estado.
Helena
já se preparava para partir. Despedimo-nos ali mesmo no café. E fiquei olhando
ela caminhar em direção ao portão de embarque, quando ela virou e gritou: - Não
vai perder este número. É ele que vai te tornar a mulher mais poderosa deste
país. Afinal de contas tu és a única aqui no Brasil a ter o número da
secretária eletrônica de Deus.
O
café inteiro se virou. Silêncio. Silêncio. Um silêncio profundo. Eu fiquei
petrificada. Não conseguia mover um dedo. Aquela sensação de apatia. Por um
segundo foi como se um branco tomasse conta do meu cérebro. O que pensar? O que
fazer?Finalmente respirei fundo e consegui dizer: - calma. As pessoas não
entenderam o que quis dizer e foram se aproximando e antes que chegassem mais
perto, coloquei a caixinha na bolsa, olhei para um lado, olhei para o outro e
pernas pra que te quero,desci as escadas correndo. Ouvi apenas o barulho das
mesas e cadeiras que caiam trás de mim.
|
Autor:
Lúcia Ana de Melo e Silva |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Falta ritmo. Revisão
ortográfica e gramatical. |
8,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
É Conto. |
6,0 |
|
Betty
Vidigal |
Frases mal redigidas, sintaxe confusa. |
7,5 |
|
Lorenza
Costa |
Conto |
6,0 |
|
Oswaldo
Pullen |
Não é crônica. |
6,0 |
|
Marco
Antunes |
É um conto. |
6,0 |
|
TOTAL |
39,5 |
|

áxis
mundis
A
sociedade ocidental, fortemente influenciada pelo positivismo, ainda hoje vive agarrada
à ciência convencional, que na sua pressa pelas descobertas e na sua voracidade
pelo conhecimento, objectivo santo e sacro da “boa” ciência, esquece com
facilidade tudo ou parte daquilo que a precedeu, fundou ou fundamentou e
permitiu evoluir até ao estado presente. ( “permitiu que
evoluísse” ou “permitiu-lhe evoluir”)
Quando
somos confrontados com notícias como esta vinda do coração de África,
normalmente apresentadas em notas de rodapé jornalístico e consideradas, pelos
órgãos de comunicação social, bizarrias de um outro e imaginário mundo, o nosso
primeiro impulso emotivo, mas acima de tudo racional (porque somos formatados
positivamente) é rejeitar liminarmente tais ritos. Logo somos obrigados a
adjectivá-los e a remetê-los para tempos depositados nos negros anais da nossa
história e/ou a enquadrá-los com outras e estranhas civilizações que habitam
geografias distantes e as quais remetemos para um estado como que pré-moderno –
naquilo que é entendido por estádios de desenvolvimento civilizacional
experimentamos já três paradigmas diferentes: a pré-modernidade que contempla
todo o tempo anterior à revolução industrial, ao iluminismo e ao positivismo; a
modernidade, que surgiu nessa época e nos acompanhou até meados do século XX; e
a pós-modernidade, que supostamente experimentamos desde então e até aos dias
de hoje.
Nessas
civilizações ou culturas tradicionais pré-modernas, resistentes e
sobreviventes, que coabitam conosco o mesmo espaço (mundo) e o mesmo tempo
(contemporaneidade), o passado é respeitado e os símbolos são valorizados
porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. É a tradição que lhes permite, reflexivamente, compreender a sua própria
organização e comunidade, como é o meio ideal para lidar com o tempo e o
espaço, onde se insere cada actividade ou experiência na continuidade de
passado, presente e futuro. Nestas comunidades, mormente organizadas em tribos
e chefados, o conhecimento e o domínio das suas técnicas estão concentradas e são monopólio de poucos, normalmente, oligarcas, chefes,
xamãs ou feiticeiros, homens mais velhos e experimentados, que assim e com
esses equipamentos exercem o seu poder e a sua magistratura, mantendo os demais
vitaliciamente dependentes da sua influência e existência.
Aspecto
importante e que convém ter em consideração quando ouvimos ou lemos histórias
destas é o conceito de sagrado e de profano, dicotomia bem presente na
organização dos espaços e dos lugares, como por exemplo
o caos profano associado ao exterior da aldeia ou comunidade e à selva, e a
sacralidade da própria aldeia, no centro da qual estará o áxis mundi, exprimido pela casa do chefe, ou pela presença de uma
grande vara, que simbolicamente une o mundo dos deuses, o dos homens e o das
trevas. Por outro lado, os detentores do poder imbuem-se da sacralidade
necessária para manterem e protegerem o seu status
e importância no seio da comunidade ou grupo.
Neste
ambiente “naturalista” a Terra é sempre transparente, como se se oferecesse
continuamente como mãe nutridora universal com os seus ritmos cósmicos
geradores da ordem e da harmonia, que permitem a fertilidade e a permanência.
Mas para estes indivíduos e comunidades também é verdade que a Natureza é
sagrada e na sua convivência com esse sagrado existe, intrinsecamente, o
elemento sobrenatural, que será o factor derradeiro de esperança e de garantia
de tudo aquilo que os seus conhecimentos empíricos não conseguem explicar.
Porque, a jeito de foice, uma Natureza dessacralizada é algo recente, típica de
uma vivência moderna e, tendencialmente, ocidental, na qual os homens da
ciência no referido e abismal percurso se perderam.
A
morte é, por excelência, um dos momentos cuja compreensão será inatingível para
todos os seres humanos. A cada experiência de morte está associada
um ritual, uma moral e um preceito. Podemos encontrar por esse mundo fora mil e
uma manifestações diferentes, mas a verdade é que não há uma única cultura ou
civilização conhecida que não tenha o seu culto aos mortos. É algo de
universal. Nestas comunidades tradicionais, mesmo os “carismáticos” e os
“eleitos” não conseguem controlar e perceber a morte, portanto será sempre
importante para a sua condição encontrar uma justificação, ainda que através de
um bode expiatório ou tendo por base uma falsidade. A
recorrência a práticas de magia negra e vodun são comuns
nesta África Ocidental. Vividas como autênticas religiões, arrastam consigo a
crença e a consciência social destas comunidades.
Da
leitura que faço, este caso não será mais do que a
procura de justificação para algo que ultrapassa em muito o entendimento desses
indivíduos e, por isso nada melhor para empolgar e manter a fidelidade das
multidões do que construir uma culpa, por mais absurda que pareça ou seja. E
aí, quando essa culpa é formalizada e pronunciada, no seio da comunidade, não
há lei civil nem religiosa, ainda que impostas pela diplomacia, pela força ou
pela guerra da ocidental civilidade dos colonialismos, dos pós-colonialismos e
dos neo-colonialismos, que consiga calar essa secular
vivência e contrariar essa mundivisão.
Sem
querer de alguma forma desculpabilizar ou justificar tais
práticas, que em nada dignificam o ser humano, considero importante e
pedagógica uma leitura e uma atitude relativistas, no sentido de conhecer,
perceber e traduzir correctamente as diferentes expressões culturais com as
quais, inevitavelmente, continuaremos a partilhar este mundo. A estratégia para
se erradicar de vez este tipo de ritos passará obrigatoriamente pela educação e
formação, o que requer tempo e disponibilidade. Mais do que agir através da
força e da imposição de normas e padrões estranhos aos indígenas, importa
implicá-los num processo de reflexão e reavaliação sobre as suas próprias
tradições. Talvez assim, possam manter as suas
práticas e rituais fidedignos à sua herança cultural e, ao mesmo tempo,
preservar os mais básicos e fundamentais valores da vida humana.
|
Autor:
Luís Vale |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Muito bem escrito. |
8,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Mini ensaio. |
6,0 |
|
Betty
Vidigal |
Artigo acadêmico até o último parágrafo, quando adquire tom de
sermão. Não é crônica. Não diz a que fato ou notícia se refere. O leitor que não
tiver lido a lista de “fatos” não tem como adivinhar o que motivou as considerações
do autor. |
6.0 |
|
Lorenza
Costa |
Duas menções a uma
"história" e um "caso" que não são ventilados no texto. O
cronista esquece que a crônica é dirigida aos que leram e aos que não leram o
noticiário inteiro dos dias precedentes. Algumas passagens são
exageradamente explicativas e, no final, temos a opinião de alguém
pisando em ovos: um autor que não se decide entre o relativismo moral e
a necessidade de defender valores "básicos e fundamentais"
(usar outras palavras para "universais" já denuncia seu pouco
à-vontade). Da minha parte pode ser excesso de rigor; mas rigor é o que o
próprio cronista se impôs ao adotar o estilo didático. |
8,5 |
|
Oswaldo
Pullen |
“Desculpabilizar”? O
parágrafo que contém esta preciosidade é antológico. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
Trata-se de um
ensaio, um
ensaio arrastado e pouco interessante em que o autor não sai de cima do muro,
mas um ensaio. |
6,0 |
|
TOTAL |
42 |
|

O BEIJO DO AMOR VERDADEIRO
Assumir a tarefa de transformar-se em si mesmo é o mais árduo
e mais belo desafio que alguém pode se propor.
Mas em nosso tempo esta é uma prédica sem prática. Pregamos o
autoconhecimento mas o buscamos fora, no hedonismo e
no divã do psicanalista. Mas onde se compram bilhetes para uma viagem ao
interior de si mesmo? Assim, a busca atual é pela aparência, não pela essência.
Há muito, a simulação vale mais que a verdade. (melhor sem vírgula)
Por isso, histórias como a de Susan Boyle
nos trazem uma esperança: é sempre tempo, afinal, de sermos o que somos.
Esse conto de fadas com sinal invertido começa
no concurso Britain's got talent,
um show de calouros da televisão inglesa. O programa, em si, é tão
desinteressante quanto qualquer outro do gênero, com suas celebridades
fabricadas e jurados histriônicos. Em geral, são os cabeleireiros, maquiladores
e estilistas, e não os críticos musicais, quem mais trabalha nesses pseudo-reality shows. (quanto ao programa ser
“tão desinteressante qualquer outro do gênero”, pode-se dizer que é questão de
gosto, e o cronista não deve impor o seu como verdade categórica. Há quem ache
esses programas interessantíssimos. Se não fosse assim, não teriam a grande
audiência que têm.)
E lá vem ela, a escocesa com fisionomia de matrona russa.
Cabelos ralos e mal arrumados, parecendo um plátano no outono. Olhos pequenos,
ainda mais diminutos pelas sobrancelhas grossas. Sob o queixo duplo, a papada
farta. É a anticelebridade.
Um dos jurados pergunta por que está ali. Ela, 47 anos e
desempregada, numa voz quase infantil de garota travessa, diz querer se tornar
cantora profissional. Espanto na plateia, expresso nos olhares de incredulidade
e galhofa. Uma velha! Outro jurado, com pouca sutileza, questiona esse desejo
tardio e olha de alto a baixo o corpanzil redondo-quase-quadrado de Susan. Em
resposta, ela levanta parcialmente a saia, qual uma dançarina de can-can, e
arrisca uns passos, insinuando que "ali tem conteúdo". Só esse gesto
já faria prever uma daquelas bizarrices dos programas de auditório da tevê
mundial. A expectativa é de que a qualquer momento um anão em trajes de
príncipe saltará da coxia para cortejar a "princesa", enquanto esta
desafina uma canção tola, sob pateada geral.
Eis que após os primeiros acordes da simbólica I dreamed a dream (Eu
sonhei um sonho), a crisálida se rompe. Ali não está mais a gorda bochechuda,
descabelada e mal-vestida. Em seu lugar, a voz. Na voz, a arte. E na arte, a
emoção. É enternecedor vê-la cantando. É, de fato, uma daquelas surpresas
inesquecíveis e raras que a vida nos proporciona.
Conhecermos Susan Boyle é uma dádiva do Youtube. A
popularidade do seu vídeo, com mais de 5 milhões de
acessos em poucos dias, não poderia ser prevista nem por Larry Page e Sergei
Brin, os rapazes do Google, quando naquele almoço quase corriqueiro de negócios
adquiriram o Youtube pela bagatela de US$ 1,65 bilhões. Curiosamente, o valor
foi pago não pelo site em si (à época, dos mais ordinários), mas pelos milhões
de internautas que o usavam como antídoto para o anonimato, buscando seus 15
minutos de fama naquele espaço virtual. É o delírio narcisista da
autoexposição, marca do nosso tempo – músculos de rapazes seminus, coxas e
bundas de garotas quase impúberes, gafes, flagras, anomalias e edições-piratas.
Boa parte do conteúdo do Youtube é de "príncipes" e
"princesas", lindos, previsíveis e vazios.
A ingênua quarentona escocesa é minoria nesse mar de
vaidades. Ela é verdadeira.
Pode-se alegar, com justíssima razão, que houve todo um
aparato preparatório da apresentação de Susan. Prévias em Glasgow, ensaios
secretos e mesmo um making-off produzido por dois apresentadores do programa, para
ser apresentado minutos antes da entrada de Susan no palco. Sim, os produtores
sabiam o que tinham nas mãos. Mas isso não importa tanto. Ainda assim, Susan
era Susan.
Insisto, assim, no conto de fadas com sinal invertido, pois
por mais simpatia que a imagem inusitada de Susan Boyle nos inspire, o nosso
arquétipo de princesa, atávico, é o de Branca de Neve – órfã, mas linda – ou de
Cinderela – sujinha, mas linda.
Na verdade, Susan era uma espécie de Bela Adormecida, presa
num sono de 100 anos, ou de 47. Estava lá em potência, esperando para ser
despertada em toda sua plenitude.
(toda
a) Mas, (vírgula) cansada de esperar, ela própria toma das mãos do
príncipe o sapatinho de cristal e o calça. Este serve de imediato, à perfeição,
pois era o sonho dela e de ninguém mais. Participar do programa foi isso.
De minha parte, e com a
liberdade própria do cronista, prefiro pensar em Susan como a
princesa Fiona, de Shrek. A gorducha Fiona tem vida dupla: à luz do dia, na
aparência e nos caprichos que os outros esperam de uma princesa, lá está ela,
linda e vivaz; já sob a capa escura da noite, na verdade insconsciente e
temida, ela é a ogra feia mas emotiva e carismática.
Cabe a ela decidir sua forma verdadeira.
Quando Fiona opta por beijar Shrek e se tornar ogra para
sempre, é como se beijasse a si mesma, pois era aquela sua essência. Eis o O Beijo de Amor Verdadeiro, o mais puro e cobiçado de
todos os beijos, o mesmo que, ao participar do concurso, Susan Boyle teve
coragem de buscar. (melhor “teve
a coragem de”)
Essa é a mulher que, horas depois, confessou ao mundo talvez
o seu maior segredo: nunca fora beijada!
Comumente, o biógrafo escorrega na isenção e se apaixona pelo
biografado. No caso do cronista, essa paixão pode ser explícita, e é sempre
desejável.
Por isso, parafraseando Caetano Veloso, digo a você, Susan
Boyle:
"Tome esta crônica como um beijo."
|
Autor:
Marcelo Larroyed |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Leitura agradável
sobre “o conto de fadas com sinal invertido”. |
9,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Bonita. |
9,0 |
|
Betty
Vidigal |
O cronista deve expor-se, mas é melhor
não expor as próprias opiniões como verdades inquestionáveis. Isto acontece em diversos
pontos, nesta crônica. |
9,5 |
|
Lorenza
Costa |
Abordagem simpática mas previsível do tema (não à toa a noção de "conto
de fadas" reaparece na crônica 24). |
8,2 |
|
Oswaldo
Pullen |
Crônica razoável. |
8,0 |
|
Marco
Antunes |
Muito lindinho!
Precisamos de sonho! Precisamos, sim! Sem sonho somos “cadáveres adiados que procriam”, somo meio caminho entre o nada e
o esquecimento. Um homem sem sonho é capaz de tudo, de todas as corrupções de
duvidar de quem os tem, de massacrar os que cultivam, de fazer de si mesmo um
arremedo do Mal. Que bom essa crônica que saúda os sonhos! |
10,0 |
|
TOTAL |
53,7 |
|

O BEM-TE-VI E A FLOR
LILÁS
Vocês não sabem a cruz
que carrega um cronista de jornal. Foi-se a época de Rubem Braga ou Nelson
Rodrigues. Hoje o cronista está nas mãos do editor. Pior ainda é sujeitar-se ao
tal número de toques. É bom frisar que nessa tal contagem valem os espaços
vazios. Até a pausa, aquele vazio inútil e sem pontuação alguma, passou a
valer. Reticências, evitem. Usar interrogação e
interjeição como forma de expressar uma expressão dúbia, nem pensar.
Houve um tempo em que o
cronista era tão considerado quanto um magistrado. Época em que ninguém
arriscava corrigir ou mexer no conteúdo de seu texto e o linotipista somente recebia
ordem de montar a página quando a crônica chegava à mesa do editor. Mas
acabou-se. Não há mais o respeito quase sacro pelo cronista, nem a crônica é
tão reverenciada nas redações. E o cronista não era a
figura virtual de hoje. Absolutamente! Ele estava bem ali, palpável, respirando
na redação, sentado diante da Remington
Rand, os funcionários e colegas jornalistas evitando incomodá-lo,
mergulhados na fumaça provocada por um cigarro atrás do outro. Todos eram
complacentes com o humor do cronista, mesmo quando chegava carregado e
carrancudo, aceitavam as saídas inesperadas cinco minutos antes de fecharem o
jornal, apreensivos, mas tudo pela crônica, grande acontecimento do jornal e
criação muito pessoal.
Hoje? Além do problema
dos toques, somos obrigados a selecionar entre os temas propostos pelo humor do
editor o que está mais próximo do interesse do leitor. A crônica é escrita no
frio do escritório,
Nem sei,
leitor, se lerá esta crônica. Mas tudo é possível em redação de jornal! Tantas
são as informações que chegam via agências de notícias que o editor pode num
ato falho, provocado pelo stress e
pelo saco-cheio, autorizar a publicação. Com certeza, caso seja publicada, está
será minha última crônica neste periódico, precisarei procurar outro emprego.
Talvez... De repente você ache engraçado e original este meu desabafo, assim
como milhares de outros leitores, e transformem uma simples crônica semanal em
um grande acontecimento globalizado. Do desemprego à fama; à crônica diária.
Não! Por favor, diária nunca!
Não há nada mais
desagradável do que você ter um editor que acredita conhecer sua alma e
seleciona trinta textos de acontecimentos ocorridos no mundo, dos quais 30%
referem-se a casos bizarros relacionados à sexualidade, 30% a acidentes ou
alguma outra forma de violência; 20% à religião e 20% a casos totalmente
esdrúxulos. Não há dúvida que a escolha reflete a sociedade dita pós-midiática,
mas será também, com certeza, a responsável pela morte dos periódicos. Eu acredito, leitor, que há aí de seu lado cabeças que ainda
não tiveram seus neurônios curtidos em formol e que poderão fazer a diferença.
Pode ser teimosia
minha... Talvez resistência em aceitar as mudanças que ocorrem à velocidade da
luz, o que nos envelhece muito mais rapidamente. É possível,
mas me nego, a partir de agora, diante de meus leitores, a escrever sobre
padres que se deixam fotografar nus para calendários de qualquer espécie,
mulheres com cinto de castidade criando confusão por detonar o alarme de
qualquer aeroporto, cidadãos que colocam o pênis em uma caixa de correio ou
roqueiros que cheiram as cinzas do pai no lugar de cocaína, apenas para citar
algumas das perversidades universais.
Hoje, por exemplo, minha
alma não está nos temas propostos, mas muito próximo de casa. Moro no centro.
Hoje cedo dois fatos me chamaram a atenção: o primeiro,
experimentado logo ao acordar, foi a visita de um bem-te-vi na varanda
de meu apartamento, deliciando-se com o mamão que deixara na noite anterior
sobre um prato, e que, ignorando minha presença, fartou-se do fruto, abriu
asas, cantou um sonoro bem te vi, e voou. Só não segui o pássaro, como fez
Braga com a borboleta, porque seria suicídio, moro no sétimo andar, e por mais
que esteja entristecido com minha profissão, gosto de viver, e não seria um
modo agradável de visitar o cemitério; o segundo, ao sair para comprar pão, ao
me deparar com a flor aberta bem na fissura existente entre a guia da calçada e
o asfalto, com pétalas lilases e a corola amarela.
Estas duas experiências
levaram-me à decisão de que resistência e teimosia, por assuntos pertencentes à
alma no momento, serviriam à minha crônica semanal. Acho que cheguei lá, só não
sei se agradará ao editor... Mas estou me lixando!
|
Autor:
Carlos Pessoa Rosa |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Este cronista rebelde
produziu um ótimo texto. As manchetes na alma do autor também o seriam na
minha. |
9,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Bem escrita, boa
idéia, mas falta enxugamento |
8,5 |
|
Betty
Vidigal |
O autor
desconhece a realidade dos cronistas antigos. Sempre foi necessário submeter-se
à tirania dos “x toques”, só que não havia o Word para contá-los. Os textos
produzidos em “Remington” deviam ter x laudas, e uma lauda
equivalia a 30 linhas de 70 toques (sendo que os espaços eram
contados, sim, como um toque! É difícil contar “caracteres sem espaços”, isso
é novidade pós-Word). Os revisores eram figuras muito mais presentes do que
hoje, e os copidesques alteravam à vontade a redação das crônicas recebidas.
(O copidesque – ou copydesk – é um personagem que sumiu dos
jornais. ) |
8,0 |
|
Lorenza
Costa |
Boa crônica, apesar
da visão romantizada em excesso do jornalismo pré-computador. Como se
"número de toques" e palpite de editor fossem problemas do
jornalismo atual, e não do outro. |
9,0 |
|
Oswaldo
Pullen |
O texto não está ruim,
apesar de ter fugido da enormidade de temas propostos e, portanto, das regras
do certame. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
“não seria um modo agradável de visitar o cemitério” É mesmo? O ilustre
cronista rebelde poderia sugerir-me um? Seria alguma coisa tipo ir ao enterro
de um renomado canalha? É, vá lá! Se você tem uma alma vingativa como a
minha, existem, sim, modos agradáveis de ir ao cemitério! A crônica é muito
boa! |
9,5 |
|
TOTAL |
51,5 |
|

Considerações sobre o vazio
Tem dias em que uma
página em branco me deixa desesperado. Não importa se estou diante do
computador ou com um papel na mão. Meus olhos contemplam o branco imaculado, perfeito,
e minha mente entra
Escrever é um processo
complicado. Exige um momento de reflexão e de coragem. Coragem para manchar a
página em branco com algo que valha à pena (sem crase) reservar um tempo para ler. Coragem para transmitir
ao leitor pensamentos que me são tão caros e que podem dizer tanto a meu
respeito. Enfim, coragem para criar Vida.
Sim. Vida. Porque um bom
texto pulsa aos olhos de quem lê. Ele exige que a leitura não seja interrompida
sem um certo arrependimento. Ele nos puxa e nos prende
à sua intrincada rede de mensagens explícitas e subliminares. Muitos, (sem vírgula) exigem diversas releituras para que
seus segredos possam ser desvendados com maior exatidão. Segredos que, muitas
vezes, nem mesmo o próprio autor compreende totalmente. Pois quem pode entender
a Vida em sua totalidade?
Alguns textos se
manifestam de maneira tão selvagem que até mesmo ameaçam escapar do domínio dos
autores. Uma palavra puxa a outra e o mesmo se dá com as frases e os
parágrafos, que multiplicam-se como coelhos
descontrolados e alegres. E eis que me vejo no meio de uma narrativa tendo que
parar e pedir desculpas a você, caro leitor, pelas divagações a que minhas
linhas de raciocínio me levaram.
Não era minha intenção
discutir a Vida inerente aos textos, que tantos
nos atraem e fascinam pelos mais diversos motivos. Mas sim iniciar um diálogo a
respeito do vazio que precedeu a impressão de minhas palavras. Um vazio que, em
muito, me lembra o derradeiro momento, o fim de todas as coisas, a Morte em sua
manifestação mais pura e assustadora.
…
Talvez aí esteja a razão de ter fugido um pouco do cerne do texto que me
propus a escrever. Afinal, é tão chato falar da Morte. Da sensação de vazio que
ela nos deixa ao levar um ente querido de perto de nós. Ou uma pobre alma
desconhecida que tivemos a infelicidade de ver largada na beira da estrada,
após um triste acidente de carro. Basta sentir um frio na espinha para falarmos
que alguém andou sobre o nosso túmulo. (dizer e falar são coisas diferentes. Aqui, o correto é “dizer”) E de
repente pensamos no relógio biológico que carregamos conosco. No coração que um
dia parará de bater em nosso peito e nos levará diretamente ao encontro Dela.
Outro dia, fui ao cinema
com minha namorada assistir a Marley e eu. (assiste-se “a” um filme ou um espetáculo. Assistir, sem “a”,
é “ajudar”) Assim como paro de vez em quando antes de iniciar um texto,
hesitei em aceitar o convite para ver aquele filme. Não por achar que a
película não agradasse ao meu paladar. Mas por já conhecer o final da
história. E, se você ainda não teve a chance de assistir ao filme, peço desculpas por lhe
fazer essa revelação. Sim, o cachorro Morre no final. Sim, isso me deixou
abalado ao fim da sessão.
Chorei. Não tenho medo de
admitir isso. Me desmanchei em lágrimas nos braços da
minha namorada e me entreguei a uma dor que nem lembrava carregar. Aliás,
minto. Lembrava sim. Só não queria a encarar de frente.
O problema é que o filme me lembrou de uma pastora alemã que eu tinha. Seu nome
era Ursa e acredito que nunca tive uma cachorra mais atenciosa do que ela. E
aqui faço mais uma confissão, eu não fui o dono que ela merecia ter.
Ela não era a minha
preferida e creio que a magoei diversas vezes em Vida.
(por que maiúscula neste “vida”?) Até o dia em
que ela ficou doente e o veterinário me deu a opção de sacrificá-la ou iniciar
um doloroso tratamento que, ainda assim, terminaria com a sua inevitável Morte.
Senti um aperto no coração. Só então percebi o tanto que amava aquele animal.
Passei a valorizá-la mais do que tudo e a lhe dar todos os remédios receitados
religiosamente. (a redação da frase faz parecer que os
remédios foram religiosamente receitados)
Até o dia em que o
sofrimento dela se tornou insuportável e precisei sacrificá-la para fazer a dor
ir embora. Como chorei aquele dia. Me entreguei à dor
da perda, mas não o fiz completamente. Um sentimento de culpa, de não ter dado
o melhor de mim a ela, impediu que eu me entregasse completamente. Mas me senti
melhor depois de enterrá-la. Senti que seu espírito canino tinha encontrado a
paz. E isso me confortou.
No entanto, ficou um
vazio, que provavelmente já estava lá e continuará ali até o fim da minha Vida.
(quando você se referia à Vida, genericamente, no
início, era razoável usar a maiúscula. Mas quando fala na sua vida ou na do seu
cachorro, pensar um pouco na adequação dessa opção. Assim como “morre” com
maiúscula, acima, falando do personagem do filme. A essa altura, “vazio” também
mereceria inicial em caixa alta...) Vazio que acredito ser comum a todos
aqueles que, como eu, passaram por uma experiência
semelhante de perda. Sei que meu caso pode não parecer dos piores. Para muitos,
trata-se apenas da perda de um animal de estimação. Mas essas pessoas não
compreendem o sentimento de culpa que ficou. Que dá mais força à (sem crase) essa Morte específica do que a de outros
animais que tive ou mesmo de alguns conhecidos ou entes queridos.
Voltei a pensar nisso ao
descobrir outro dia um fato inusitado da vida do polêmico guitarrista do
Rolling Stones, Keith Richards. Ele contou em uma entrevista que cheirou as
cinzas do pai junto a uma carreira de cocaína. O próprio pai usado como droga.
Sei que trata-se de uma pessoa pública, que talvez
goste de dar respostas para chocar o público. Mas parei para pensar um instante
na dor daquele homem.
Cada ser humano tem um
jeito próprio de lidar com a dor da perda. Keith Richards, assumidamente
viciado em drogas, cheirou as cinzas do pai. E nisso eu posso ver o vazio que o
guitarrista deve ter sentido para chegar a ponto tão extremo. Se me concentrar,
chego a enxergar o arrependimento do astro do rock de não ter dito tudo que
queria para o pai. Da dor que provavelmente levará para o túmulo sem
compreender.
Todos
estamos
suscetíveis a esses sentimentos devastadores trazidos pela Morte. Pois nunca
chegaremos a compreendê-la plenamente
|
Autor: Pablo Rebello |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
No início o texto
“pulsa aos olhos”, mas depois vai perdendo o interesse. |
8,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Começou e acabou bem,
mas foi prolixo no durante. |
8,5 |
|
Betty Vidigal |
Boa crônica no breve trecho que fala sobre o assunto dado. Um
pouco extensa e cansativa ao conjeturar sobre a morte e ao falar da morte da
Ursa. Se foi tão importante, seria legal ter falado
um pouco da cachorra quando estava viva, para criar empatia no leitor. As
conjeturas sobre a vida e a morte não trouxeram nenhum pensamento original. |
8,0 |
|
Lorenza
Costa |
Às vezes repetitiva, às vezes piegas. Precisa de revisão. |
7,5 |
|
Oswaldo
Pullen |
Texto fraco, em que o
autor perde muito tempo no velho chavão da crônica sobre escrever
crônicas e toca só de leve no tema escolhido. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
Velhos temas,
sentimentalismo e um texto apenas bom. |
8,5 |
|
TOTAL |
48 |
|

A Bolsa da moça chinesa
Conta
a notícia que a mocinha chinesa teve roubada na rua a
sua bolsa, com documentos, dinheiro, celular, cartão de crédito etc. por um
jovem ladrão. Ela lhe enviou mais de vinte e-mails, solicitando a devolução das
coisas e concitando-o à boa ação, com sermões de cunho moral e talvez
patriótico. (ela não lhe mandou
e-mails! Mandou msgs de texto para o número do celular!)
O
verossímil na história é que ambos circulavam na rua de bicicleta e pouco provável o fato de que admoestações pudessem comover o autor
do furto. (ou “o verossímil é
que” e “o pouco provável é o fato de que” ou “Verossímil que“ e “pouco provável
que”, ambos sem “o”). Ao
final da história, o larápio devolveu a bolsa ao quintal da moça e prometeu se
regenerar com boas ações. Não sei como a moça teria achado o e-mail do rapaz. (não achou...)
Na China de hoje, cartões de crédito,
internet, e-mails são fatos reais, embora isso pareça estranho para quem ainda
imagina o antigo Império do Meio com suas tradições
milenares, ou envolvido na aura revolucionária da Grande Marcha de Mao-Tsé-Tung.
Na década de 1960, ouvíamos
a Radio Pequim transmitindo diatribes da turma de Mao contra os “renegados capitalistas” Liu-Chao-Shi e
Deng-Shiao-Ping, ainda na grafia antiga, e não entendíamos como, na China
comunista ortodoxa, um presidente da república e outro alto membro do PCC
poderiam ser “renegados capitalistas”. Não
conhecíamos nada da China. Só em 1978, dois anos após a morte de Mao,
Deng-Shiao-Ping rasgou o véu da nossa ignorância e começou a implantar, com
ferocidade e alta eficiência, o renegado capitalismo, de que fora acusado em
meio às querelas do partido comunista chinês, de cujas entranhas não sabíamos
nada. Hoje, a China é a grande potência capitalista, que em breve superará os
Estados Unidos da América.
Está aí explicado porque a
mocinha chinesa gosta tanto de celular e de computador, e o mocinho ladrão,
idem.
Poderíamos imaginar um
diálogo entre os dois :
--- Oh rapaz, em nome da
Praça da Paz Celestial, devolva-me a bolsa, o celular, o cartão de crédito. Com
o dinheiro pode ficar.
--- Nem te ligo, garota.
--- Eu insisto, porque ainda
acredito na bondade humana e até na força do pensamento de Mao-Tsé-Tung.
--- Bobagem, moça, Mao já
era. Agora é a vez de Deng. O que vale é ganhar dinheiro,
seja lá de que modo for. Eu estou dando minhas surripiadas, e vou virar
capitalista, empreendedor. Estou seguindo os conselhos de Deng
: não importa a cor do gato, e sim, que ele pegue ratos; enriquecei-vos
e dane-se o resto.
--- Que crueldade, rapaz,
lembre-se de que nosso país tem milhares de anos. Siga os conselhos de Confúcio
e de Lao-Tsé. Deng e seus discípulos vão passar. E você não tem medo dos
retratos de Mao na Praça da Paz Celestial ? Porque será
que a turma de Deng não jogou fora as fotos de Mao, nem o retirou das notas do
dinheiro que você me furtou ?
--- Ora, moça, as aparências
enganam. Ainda hoje os poderosos são membros do “Partido Comunista Chinês”, e os norte-americanos adoram negociar
com eles, não têm medo das suas bombas atômicas, embora reclamem da bombinha
coreana.
--- Não mude de assunto. O
que quero é minha bolsa de volta, principalmente meu celular e meu cartão.
Apelo para a sua dignidade humana e até para o seu patriotismo. Já pensou, se
vasa para o exterior a noticia de que rapazes chineses andam roubando moças no
meio da rua?
--- Pouco me importa, estou
desempregado e descobri que surripiar bolsa de garotas desatentas como você dá
mais dinheiro do que trabalhar doze horas por dia em fabricas de chips de
computador ou de telefone ou de lâmpadas fluorescentes.
--- Oh cara, você não tem
jeito mesmo. Você deve ser filho único, como manda a lei. Eu, que sou mulher,
escapei do infanticídio feminino, e tenho agora de me prevenir contra esses
filhos únicos, como você, que não têm caráter e só pensam em roubar os outros e
enriquecer. Vá para o inferno, e que o dragão o engula para sempre.
--- Menina, agora você me
comoveu. Eu sou mesmo filho único e tenho muita pena de não ter tido uma
irmãzinha. Meus pais ficaram lá no campo e eu vim para Pequim ganhar a vida de
qualquer jeito. Vou pensar no seu caso e talvez lhe devolva a bolsa. Não me
xingue mais, que eu ainda sou humano. Tchau.
|
Autor:
Mauro Madeira |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Falta sabor ao texto,
principalmente, ao diálogo. |
7,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
É conto. |
6,0 |
|
Betty
Vidigal |
A notícia fala
em “uma mulher” e “uma professora”. Nada leva a crer que se trate de “uma
mocinha”, “uma garota”. Bom diálogo,
criativo. A retrospectiva histórica é desnecessária. |
8,0 |
|
Lorenza
Costa |
Não havia necessidade
de explicar como e por que uma chinesa hoje tem acesso a cartão, celular e
e-mail. O diálogo, mesmo considerando a intenção humorística, não
se resolve muito bem. Há muita revisão a fazer. |
7,3 |
|
Oswaldo
Pullen |
Fraco. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
As
pessoas tem me perguntado por que ando tão bonzinho, mas, na verdade,
tenho gostado muito do que leio. Aqui no caso achei vigoroso o diálogo, a lembrança
de Arnaldo Jabor, que é chato, pretensioso e repetitivo de suas velhas ejá
cansadas fórmulas me incomodou um pouco. |
9,0 |
|
TOTAL |
44,8 |
|

Padres de calendário
A notícia dá conta de um calendário
que, e passo a citar, mostra 12 padres escolhidos por sua beleza física. E eu
penso que é um modo comum de actuar neste mundo de imagem. É até um método que
a igreja católica nunca reprovou, antes pelo contrário: passar a papel os seus
“santinhos”. A notícia não era de molde a mais reflexão, a que eu lhe desse
grande atenção. No entanto, indaguei na Net pelo calendário ao qual aludia a
notícia deixando um endereço.
Confirmei a beleza dos
moços, mas isso, por si só, não seria motivo para crónica: um calendário; doze
meses; doze homens belos, um a seguir ao outro. Passou uma tarde e dei comigo
matutando: doze homens castos desde o mês das Janeiras até ao Natal. Doze
padres soberbos: homens da mais pura beleza que deus deu. Padres da igreja onde
um dia tomei baptismo e confessei pecados. Deparei-me com o sincero espanto do
meu eu profundo e uma plêiade de
interrogações e ecos. Eu que deixei de saber rezar há
muito, vi-me a pedir: senhor, afasta este cálice dos meus olhos; que deus me
valha, e na falta dele, me acudam fadas ou duendes, mas não me deixem memória
sequer destes doze acólitos, diáconos e padres.
Ainda tentei desvalorizar
a intensidade daquele meu sentir, lembrando-me da história de um outro
calendário. Engano. Nem com senhoras nuas a fazerem cozinha, esse outro chegava
ao nível deste ilustrar dos meses que a notícia diz vender-se
Aflige-me imaginar a
reacção do turista que entra e sai da Capela Sistina. O calendário é dirigido a
ele. Como diz a notícia: em cada
fotografia vem um informativo aos turistas que visitam o Vaticano. Não tive
acesso a seu conteúdo, mas imagino o turista,
devoto e desprendido, confrontado com cada um dos retratos e o seu conjunto:
doze meses. (confrontar não é a palavra ideal aqui.
“Defrontando-se”, talvez). Terá decerto rezado aos deuses da cristandade
romana e apostólica e católica, ou que sejam outros os deuses e outra a
irmandade; terá orado, estupefacto, que nem um dos
fotografados, um que seja, esteja orando, de joelhos, ou prostrado em unção da
fronte sobre solo santo. Doze rapazes na força da idade. Doze futuros bispos.
Doze potenciais cardeais. Um deles poderá ser o futuro chefe da igreja. E se é
verdade, que uns tantos aparecem de paramentos brancos e doirados, rendas e
chapéus, que todos envergam batina e colarinho branco, parece
que os terão posto para mais despertar o que neles é apelo a que se lhes trate
com carinho o corpo, que neles é casto, ungido apenas pelos líquidos
baptismais e outros igualmente santos. Nem salivares ou outros líquidos, que
não seja o leite que lhes terá escorrido nos cantos da boca ao mamar, cada um
deles, o maternal seio.
E o turista devoto terá
clamado perdão, que pecava ao enfrentar os olhares de cada um dos padres
daquele calendário. E, na dúvida do préstimo para o espírito, que teria aquele
papel impresso, terá ficado pejada de retratos a Praça de São Pedro.
Uma pena, que tenham sido
assim espezinhados aqueles belos moços.
Depois que, via Net, a
notícia é divulgada pelo mundo, terá sido a loucura. Esgotam-se novas tiragens.
E hoje, que vos falo, andará meio mundo a enviar FW, a fazer cópias
pirata: um clique, um jacto de tinta, e ali está o calendário estendido
sobre a mesa de trabalho, resguardado por um vidro, colado no frigorífico.
Quiçá, aos pés da cama o coloquem os mais devotos, enquanto eu discorro a
encontrar a lógica desta divulgação inusitada de tanta carinha laroca da igreja
romana: os melhores, os padres mais garbosos. Eu a tentar reflectir sobre as
intenções de se editar um calendário destes: a notícia não diz e não achei na
Net.
Talvez no Vaticano ande
algum louco à solta, que disponibiliza pelo mundo os mais belos exemplares dos
seus padres e diáconos, futuros bispos e papas, apenas para arrecadar uns
cobres.
Ou, quem sabe, o alvo da
promoção da padralhada mais jovem através do calendário, seja o de ir fazendo o
caminho, avisando o povo, que a igreja está mudando,
que se preparem as beatas para um destes dias ser preciso que ajeitem
paramentos nas suas sacristias. Umas emendas nas mangas, descerem bainhas ou
acrescentarem, nas opas, um entremeio de renda, com cachinhos de uvas e
anjinhos. É que os padres que substituírem os que estão agora no activo, nem
terão barriga, nem serão baixinhos: moços na força da vida, habituados ao
ginásio e ao jogging, hão-de querer passar para outra hora a missa das seis,
que têm o squash nesse horário.
E, num a propósito,
aproveito para dizer que me parece que a Igreja seria decerto outra, mais
pujante, mais cheia de devotos nem só nos dias santos, se no supremo magistério
estivesse um daqueles garbosos homens tipo Gary Grant já grisalho, já
octogenário, mas que desse gosto ver passar na transparência no carro anti-bala ou falando da janelinha ao seu povo e a
transportar o ceptro o com outra função que não a de cajado.
Nesta linha, considero
que o calendário possa ter por único fito angariar novos adeptos para o
sacerdócio. Uma mensagem contida em cada foto, do tipo: “você ficará bonito
como noviço”. Ou, mais prosaico, mas mais incisivo: “seja um deles”. E ficar,
assim, a igreja com os mais jovens, saudáveis e belos homens no seu lote.
Ou, vendo a coisa noutro
prisma, talvez tenham feito os rapazes apenas serem isco, para angariar a
devoção de moças jeitosas, com belos cus e mamas, e assim dotar os locais de
culto de beatas à altura dos seus
padres. Substituir as tradicionais mulheres viúvas ou esposas mal casadas e
solteironas feias.
Como epílogo,
ainda deixo dito, do fundo do meu agnosticismo, que me fica como
convicção, que a finalidade inalienável deste calendário será fomentar a prece,
zelar pela salvação das nossas almas. Oraremos a olhar em cada mês um moço; a
percorrer-lhe o rosto e o que demais que possamos ver-lhe na foto; faremos
oração imaginando-o a nosso lado, de mãos postas, a orar connosco. Uma vez por
noite, doze meses, e ficaremos com um lugar no Céu.
Venham
pois mais calendários com mais moços padres.
Nota: E não resisto a
deixar um pedido fervoroso a quem de direito: editem calendários com fotos de
freiras escolhidas por sua beleza física.
Com calendários desses, estou em crer, muito mais a santa madre igreja ganharia
em orações e sacerdotes.
|
Autor:
Maria de Fátima Correia |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Provocativo. |
10,0 |
|
Cida Sepúlveda |
Excelente. |
9,5 |
|
Betty
Vidigal |
Excelente. |
10,0 |
|
Lorenza
Costa |
O melhor da crônica é
esse pasmo do cronista diante da notícia - pasmo que vem e vai, em movimentos
circulares, sem que ele nunca chegue a uma conclusão precisa sobre o que deve
pensar. Há várias passagens hilariantes, mas a nota final é sem graça.
Precisa de alguma revisão. |
9,3 |
|
Oswaldo
Pullen |
Excelente texto.
Sutil em sua malevolência. |
10,0 |
|
Marco
Antunes |
A crônica é
excelente! Confesso que o belos “cus” chocou minha
brasílica sensibilidade e verde-e-amarelo pudor, pois aqui não se diz assim,
“bunda” se pode, mas “cu”, no Brasil, é especificamente o ânus! E seu uso
choca qualquer ouvido tupiniquim! Não tem que saber disso a autora, mas achei
curioso comentar! Sobre o tema, muito bem desenvolvido pela autora, penso
nessa beleza da criação e lamento o silêncio do prazer diante da algazarra
dos dogmas sem fundamento e recordo a bela música de Gilberto Gil logo abaixo
transcrita, que é a mais bela visão do tema! |
10,0 |
|
TOTAL |
58,8 |
|

As Virtudes de Kailash Sing
Normalmente os homens lavam-se
e perfumam-se quando querem ter filhos. Aproximam-se da mulher com o seu melhor
cheiro e as coisas acontecem. Kailash Sing tenta uma abordagem diferente: não
toma banho há 35 anos. Já conheci hippies mais higiénicos.
– É mesmo verdade que
Kailash Sing não toma banho há 35 anos? – perguntei ao taxista.
– Não precisa. Está
imerso
– Como é que ele é
capaz?
– Um dia de cada vez.
Eu também estou a tentar largar o vício.
Talvez haja alguma
virtude no comportamento de Kailash Sing. O charme pelo qual se reconhece um
francês deve incluir, além da baguette debaixo do braço, uma higiene – como
dizer sem ofender? – mais dedicada aos perfumes. A água é utilizada com
parcimónia. Lembro-me duma campanha publicitária que dizia que certo
desodorizante “evita até o banho semanal” (juro que é verdade). E há povo mais
charmoso do que os franceses? Et voilà: Kailash Sing pode ter razão com a sua
humilde e inconsciente francofilia.
– Ele evita a água,
mas lava-se com fumo – informou-me o taxista.
– Eu, por outro lado,
há já cinco anos que não fumo.
– Isso! Um dia de cada
vez. No worry, no hurry, chicken curry, ha, ha, ha!
Lotário di Segni, que, um dia, viria a ser Papa com o nome de
Inocêncio III, escreveu umas coisas que, segundo ele, demonstravam como o ser
humano é um beco pouco recomendável. Dizia Lotário que, enquanto as flores e as
árvores exsudam óleos, seivas e perfumes, nós somos uns sacos de vermes, fezes,
gazes (gases), suor e urina. As palavras que ele
utilizou tinham menos tacto do que as minhas, mas a ideia é esta. E nunca me
canso de lembrar que Séneca morreu a tomar banho. Nunca a higiene foi tão
perversa nem tão inimiga do espírito. E Lucano, o poeta sobrinho de Séneca,
teve um fim idêntico ao tio. Fausta, mulher do imperador Constantino, também
sucumbiu na banheira. O rol é grande demais para ser enumerado, mas ficam estes
exemplos que serão suficientes para alertar o leitor do terror que o espreita
na banheira e no bidé.
– Kailash Sing é um
santo – disse-me o taxista. – Já vi saddhus ficarem com o braço levantado
durante 15 anos. Kailash Sing chegou mais longe no seu ascetismo.
Sou forçado a
concordar com o motorista, apesar de imaginar o pânico que seria se Kailash
Sing levantasse o braço, nem que fosse por distracção. Mas imagino-o capaz
daqueles milagres triviais: creio que aqueles pés serão capazes de fazer
crescer flores por onde passam. Elas gostam de ser estrumadas.
O taxista continuou em
defesa do homem:
– Os santos caminham
sobre as águas, Kailash Sing nem as toca.
– Não entendo as
reticências de Shiva – concordei.
– Ele merece um
herdeiro. Ele foi mais longe, muito mais longe.
Interrogo-me: E
Pilatos? E se ele não tivesse lavado as mãos? Há muita coisa em jogo que
favorece o asceta que não se lava.
Do lugar onde estou
consigo ver Kailash Sing junto a um templo em forma de linga, respeitosamente
afastado de qualquer lugar com água. Daqui ouve-se, claramente, o lamento dos
germes queixando-se daquele corpo demasiado povoado, mais lotado do que a
própria Índia. Kailash Sing não é uma pessoa com uma grande área habitável, o
seu corpo não tem aquelas pregas do americano médio, bem nutrido, que são
propícias à fermentação. Os germes chamam a isso condomínio de luxo. O corpo
agreste de Kailash Sing não permite mordomias.
– Aquilo é uma tanga
que ele tem à volta da cintura?
– É crosta.
E quando chove, aquando das monções, consigo imaginar Kailash Sing a
fugir desse diabo líquido que escorre dos céus. Deve fintar as gotas de chuva
com o seu corpo esguio.
– Como é que Kailash
Sing se dá em situações de grande pluviosidade, grande precipitação? –
perguntei ao condutor.
– Usa guarda-chuva,
mas as monções são um inferno.
Varanasi é uma enorme
oração, um lótus completo. As pessoas juntam-se, banham-se no Ganjes – essa
banheira sagrada – para pedirem a Shiva que acabe com a malária, o
cartesianismo e com a promessa de Kailash Sing. Shiva não ouve ninguém, foi o
primeiro a abandonar o panteão. Nem um deus aguenta aquele mau cheiro. Ainda
sugeriu – antes de debandar – que se usasse Kailash Sing como arma biológica
contra o Paquistão. Mas a ONU deixaria? Provavelmente sim, mas outros deuses se
oporiam. São, ao todo, 33 000, são muitas opiniões a ter
Eu sentenciei,
quase em sânscrito:
– Tal como a beleza
está nos olhos de quem olha, o mau cheiro está nas narinas de quem cheira.
A verdade é que
situação de Varanasi está próxima do insustentável. E até imagino a solução: Os
hindus são pessoas que transmigram muito. Com a crise não é tão fácil quanto
nos primeiros Yugas, mas pode ser uma saída. Shiva terá, em breve, de voltar ao
seu lugar divino e resolver a questão:
– Não transmigro – dirá, teimoso, Kailash Sing.
–Tem de ser –
assevera-lhe Shiva. – Tem de ser, meu caro devoto.
– Nem morto.
|
Autor:
Afonso Cruz |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Bem-humorado, bem
escrito. |
9,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Corrosiva. |
10,0 |
|
Betty
Vidigal |
Excelente. |
10,0 |
|
Lorenza
Costa |
Até o clima de conversa
com o taxista é convincente (naquela medida em que tipicamente conversamos
com o taxista evitando um excesso de exposição, enquanto ele, o taxista,
fala pelos cotovelos e tem opinião sobre tudo). Crônica engraçada e sem
concessões ao politicamente correto, o que já é uma bênção. |
10,0 |
|
Oswaldo
Pullen |
Ótimo, ótimo! |
10,0 |
|
Marco
Antunes |
Excelente! |
10,0 |
|
TOTAL |
59 |
|

Casal contrata vizinho
para gerar filho
Você conhece aquela do casal alemão que queria por que queria, (sem vírgula) ter filhos apesar do marido ser estéril? É muito engraçada.
O marido era improdutivo. E por isso resolveram contratar um vizinho, pai de dois moleques, para gerar a tão desejada criança. O vizinho se esforçava, comparecia três vezes por semana e a contratante nada de engravidar. Tantas fizeram e tantas vezes tentaram, por seis meses, e nada da mulher botar barriga. Até que o marido insistiu para que o contratado passasse por exames médicos. Os testes mostraram que o infeliz também era estéril. Os olhos acusativos concentraram-se numa pessoa. Por causa disso a esposa do vizinho confessou que as duas crianças não eram dele.
Não é piada. Foi manchete, com nome e sobrenome dos envolvidos, na revista Bild.
Eu me pergunto: o que leva um casal a essa loucura? Porque um estranho aceitaria a incumbência? Como seria o contrato entre gerador e geratriz? Será que a moça em questão era um sonho ou um pesadelo? Como seria a escolha do vizinho adequado? Quais as qualidades procuradas no gerador? Como seria a execução contratual?
Com tantas perguntas, para um caso tão bizarro, resolvi, eu mesmo, criar personagens e bastidores do fato. Vício de escritor.
Na minha opinião, a mulher em questão só pode ser uma balzaquiana fogosa, de personalidade forte e preocupada em atingir a idade em que a gravidez começa a representar risco. O homem realiza todos os desejos da amada, foi bonito e forte, agora já está passadito e cada vez mais mesquinho. Após 15 anos de casamento, ela só fala em crianças enquanto ele vê futebol na tevê. Só larga a cerveja para mudar de canal.
Eu, com certa experiência de vida, tenho cá os meus palpites.
Após 10 anos de insistência o marido fez os exames de fertilidade e comprovou-se porra nenhuma. A esposa desespera-se e propõe a fertilização in vitro. O muquirana do esposo sugere a adoção imediato, sensato e barato. Ela, por sua vez, levanta a blusa e diz que mãe, só de barriga. Nem adoção, nem inseminação. Quer tradição. Só para ficar na rima.
O marido faz cara de interrogação.
— E existe alguma outra forma?
— Para engravidar sem gastar, melhor um amigo fértil, (sem vírgula) chamar.
O marido se incomoda com outra rima pobre e coça uma pequena protuberância na testa.
— Como assim?
A gente podia chamar o Dieter que tem três filhos. Ou o Hans pai de duas filhas ou ainda o Fritz que tem seis herdeiros, todos loirinhos e de olhos claros.
— Você está absolutamente maluca! Essa idéia é ridícula, absurda, ofensiva e paranóica. Esses três bastardos moram muito longe. Recuso-me a pagar vale-transporte para neguinho vir, (sem vírgula) até a minha casa, (sem vírgula) trepar com a minha esposa.
— Se o problema for esse, podemos pedir a algum vizinho.
— Não gosto de pedir nada a vizinhos. Hoje a gente pede um favorzinho e amanhã o sujeito fica à vontade e se sente no direito de pedir emprestado sal, açúcar ou farinha. Onde já se viu?
Ela joga os cabelos por cima dos ombros, morde o lábio, provocativa.
— Amorzinho, eu te amo tanto. Em vez de pedirmos um favor, simplesmente, a gente poderia propor um trabalho profissional.
— Isso faz sentido. Mas você sabe muito bem que odeio a idéia de gastar dinheiro.
— Não se preocupe, olhe estas minhas coxas – levantou a saia . — Acho que o futuro pai das minhas crianças pode dar um bom desconto por causa delas.
— Ainda acho lunática a idéia de chamar alguém para fazer os nossos filhos.
— Que bonitinho. Você está com ciúmes. Isso é bobagem. Um contrato é o
melhor caminho para transformar pudores
Nestas alturas, concluo que a discussão entre o casal se transformou em uma reunião de negócios entre dois sócios que procuram viabilizar, objetivamente, assunto de alto interesse para o sucesso da empresa.
— O vizinho da casa 38 — propõe ela — é jovem e já tem dois rapazes e duas moças.
— Ele bebe muito, chega tarde e torce para o Bayern de Munique, nosso arquirival.
— O da 75 — não bebe, e é pai de sete filhos.
— Impossível. Esse desgraçado sempre estaciona o carro na frente do portão da nossa garagem. Toda vez que chego em casa tenho que ligar para ele e pedir que tire o carro.
— Parece que você tem birra dos seus chegados. Coisa feia. Que tal o da casa 69?
Ele olha torto e pensa exatamente o que você, leitor, está pensando.
— Tem certeza que quer fazer filhos?
— Também tem o da 112. Ele é forte, jovem, bonito, fala três línguas, tórax desenvolvido, pernas grossas...
O marido interrompeu.
— Você quer prazer ou filhos? Quem sabe o vizinho da casa 52? Ele está na faixa de 35 anos, tem dois filhos e uma esposa compreensível (compreensiva!). É alto, de boa aparência e precisa de dinheiro.
Chegaram ao consenso.
Não deve ter sido difícil convencer o morador da
Uma vez resolvida a questão do quem, meu caro leitor, consigo perceber a preocupação do marido em incluir cláusulas contratuais como prazo, local de trabalho, fiscalização e compartilhamento. É lógico que o compartilhamento está incluído. Ou você acha que ele não faria as preliminares, cabendo ao vizinho apenas a finalização?
O item final do contrato seria o sigilo absoluto. Ninguém pode saber de
nada. Muito menos algum cronista fofoqueiro.
|
Autor:
Roberto Klotz |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
O fato curioso
poderia ter sido mais bem aproveitado. Rever o uso dos porquês. |
8,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
- Está mais para
conto e a finalização deixa a desejar. |
6,0 |
|
Betty
Vidigal |
Excelente. |
10 |
|
Lorenza
Costa |
Engraçada, mas não
sei se o final é meio abrupto ou eu que fiquei com vontade de ler mais.
A desculpa do vale-transporte é ótima. Pequena revisão necessária. |
9,5 |
|
Oswaldo
Pullen |
Boa crônica. |
9,0 |
|
Marco
Antunes |
Humor perfeito! |
10,0 |
|
TOTAL |
52,5 |
|

A vingança de Zeus
Nos tempos de Homero, era
público que os deuses interferiam na vida dos homens, às vezes por motivos
mesquinhos e de maneira impertinente. Nos tempos que correm,
não pensamos em deuses traquinas quando as nossas vidas tomam rumos
inesperados, mas ficamos desconfiados da qualidade do argumentista da nossa
realidade.
Há tempos, na Alemanha, um
casal, desesperando de não conseguir ter filhos, como tantos outros, obteve dos
testes de fertilidade a mais cruel das respostas: o marido era infértil.
Para qualquer ser humano,
esta é uma notícia perturbadora. O seu eu físico, genético, fica por ali, não
se prolonga para lá dele, a eternidade fica condenada. Resta a possibilidade de
prolongar o seu eu cultural, memético, que, para muitos, é até mais
identitário. Para isso, há que arranjar uma criança, dê por onde der: adopção,
barriga de aluguer, inseminação artificial. Nesta última, ao menos, a parte
genética da mulher está presente.
Foi isso que os membros
do casal alemão – ele de ascendência grega, 29 anos, e ela por aí – decidiram,
mas, em vez de recorrerem a um banco de esperma, contrataram um vizinho para
cumprir a parte da fecundação, devido ao facto de ter extraordinárias
parecenças com o homem. Além disso, o vizinho dava garantias de sucesso: era
casado e pai de dois filhos, bem bonitos, por sinal. Será que, a partir daí,
entregaram o processo a um laboratório que se encarregasse de recolher o
esperma do vizinho e o colocasse no útero da mulher? Não. Fosse porque
desconfiam da tecnologia, ou por outra razão não revelada, o combinado foi que
o vizinho copulasse com a senhora, de modo natural, três vezes por semana, até
que ela engravidasse.
Não sabemos o que sentiu
o vizinho, mas adivinhamos. Deve ter agradecido a todos os deuses do panteão
germânico a graça que lhe tombou na cama. Copular de forma descomprometida, sem
ameaças de responsabilidades futuras, é a ambição de quase todos os homens.
Todas as fantasias masculinas tilintam de alegria ante tão excitante
perspectiva. Além disso, consta que a senhora é uma estampa de mulher, pelo que
não se percebe por que foi preciso pagar 2000 euros ao vizinho que, com 34
anos, não devia precisar de tal incentivo. Estamos, certamente, perante um
excelente negociador que obteve um pagamento pelo que teria feito de graça,
alegremente. Na verdade, foi só com o dinheiro que estava a ganhar que ele
argumentou à própria esposa, quando ela tomou conhecimento do propósito das
inúmeras saídas nocturnas do marido.
Neste ponto, tudo parecia
correr bem e a contento de todos: o vizinho tinha o melhor trabalho do mundo; a
sua mulher confortava-se com a entrada da receita extra; o homem esperava ter
em casa, brevemente, uma criança parecida consigo,
para educar; a mulher iria, finalmente, ser mãe, de maneira totalmente
humanizada, sem ter de recorrer a impessoais burocracias e frios procedimentos
laboratoriais. Mas, pode-se especular que o facto de saber quem era o pai
poderia vir a ser de enorme utilidade, se fosse necessário apontar a
paternidade biológica, em caso de carências futuras da criança – que estas
contas não se pensam, mas estão sempre presentes na
contabilidade genética inconsciente de cada um – que os genes não brincam na
hora de garantir a preservação.
Foi neste ínterim que
Zeus – quem mais? – interveio, para gorar os planos deste grupo tão bem
conluiado. Talvez se tenha apiedado da posição humilhada do seu infértil
compatriota, talvez tenha querido mostrar a Odin qual o panteão mais poderoso,
ou talvez tenha ficado invejoso da sorte olímpica do vizinho – que ele, apesar
de Zeus, tem de tomar formas de cisne, de touro, ou outras, para conseguir
unir-se à mulher ou até à deusa que deseja.
Bem que o vizinho alemão
se esforçava, pontual e assiduamente, mas a senhora não engravidava. A
eficiência do copulador contratado não merecia reparos, mas, ao fim de seis
meses e setenta e duas jornadas de trabalho, o casal começou a duvidar da sua
eficácia para terminar a obra dentro do prazo previsto e intimaram-no a provar
as habilitações. Mais uma vez, a resposta laboratorial foi desoladora – também
o vizinho era infértil – só que, desta vez, com consequências mais devastadoras.
O alegre copulador passou, repentinamente, do mais feliz dos homens para um dos
mais castigados pela sorte: não só a mulher o tinha traído,
como os filhos não eram seus e – supremo golpe – não poderia vir a tê-los. Ela,
quando confrontada sobre a origem da prole, ainda tentou desculpar-se com Odin,
disfarçado de padeiro, uma vez, e de técnico de televisão por cabo, da outra,
mas o marido já não vai em mitologias e exigiu o
divórcio. Do casal de soluções criativas, a mulher voltou à estaca zero, ou antes,
à estaca um, e, provavelmente, tenta lembrar-se onde é que viu um outro homem
parecido com o marido; este, dada a ausência de
resultados do contrato em que tanto investiu, sente-se o mais manso dos
herbívoros e, para readquirir alguma dignidade, lançou um processo judicial
contra o vizinho, para tentar recuperar, ao menos, os 2000 euros. Além disso,
deve precisar deles para o próximo contrato. O vizinho, que também pode vir a
precisar, foi quem mais perdeu, apesar das benesses. Não quer devolvê-los, argumentando
que forneceu a mão-de-obra – salvo seja – conforme combinado, mas nunca
garantiu a consecução do projecto.
O caso está para ser
decidido pelo tribunal de Estugarda, e é por isso que dele tomámos
conhecimento, através do jornal Bild, que pela boca de Zeus jamais o
saberíamos.
|
Autor:
Joaquim Lopes |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Leitura deliciosa. |
10,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Muito bom, mas é
conto. |
6,0 |
|
Betty
Vidigal |
Muito bom. |
10,0 |
|
Lorenza
Costa |
Vamos combinar que
o irrepreensível dispensa comentários! |
10,0 |
|
Oswaldo
Pullen |
Texto bem escrito,
porém morno. |
8,0 |
|
Marco
Antunes |
Tudo de bom! |
10,0 |
|
TOTAL |
54 |
|

SAC Divino
O
mundo contemporâneo é engraçado. Nunca vimos tantas coisas tão diferentes tão
juntas. É curioso percebermos como há zonas de interseção, “zonas cinzas”, que deixariam os pensadores modernos,
que tanto queriam ordenar toda a natureza em categorias bem definidas, ficariam de cabelo em pé. (“deixariam
de cabelo em pé”... ou muitas outras possíveis de construção, envolvendo
“ficariam”, mas sem “deixariam”) Mais curioso ainda é sentirmos como
essas zonas cinzas (o correto
é “zonas cinza”) vão se infiltrando em nosso imaginário, de maneira
sutil, quase imperceptível.
Nessa
estranha amálgama mundial, três coisas me
fascinam mais do que tudo: o Mercado, a Religião e a Tecnologia. Quando elas se
juntam, colocando em cena os atores da Liberdade, da Democracia, do Direito do
Consumidor, entre outros, o espetáculo torna-se único.
Como
pesquisador das religiões, interessa-me especialmente ver como se dão e se
desenvolvem os novos movimentos religiosos. Grupos como alguns neopagãos,
neognósticos, tudo o que é “neo” me é fascinante. Se tiver um “pós” então
(“pós-moderno”, “pós-cristão”, “pós-religião”), melhor ainda. Adoro ver os mais
jovens se defendendo, dizendo que suas espiritualidades não são religiões – são
filosofias de vida.
“Religião”
virou palavrão. Ser religioso hoje é feio. Ter qualquer tipo de ideologia é
algo perigoso hoje
Religião
hoje tem que ser algo light, “up”, algo que se adapte à minha vida - não o
contrário! Como consumidor, tenho esse direito e poder. (travessão, não hífen)
Isso
não é novidade.
O
artista holandês Johan van der Dong montou uma secretária eletrônica de Deus. É
uma forma que ele acredita ser válida para reflexão diária. Funcionaria como
uma oração, mas de forma moderna. Interessante ver como velhos hábitos, como o
de rezar, podem encontrar novas formas de expressão quando em contato com a
tecnologia nova.
Isso
também não é novidade. Afinal, no Brasil mesmo temos um site que é sensação no
momento, o SAC Divino. Um blog, no
qual você reclama para Deus “em pessoa” sobre seus problemas, e recebe
respostas (na maioria das vezes muito bem sacadas) pelo blogueiro que assina
como “O Criador”. Em plena época em que o
cidadão ideal é hoje “o Cliente”, tendo este razão em tudo, já não era sem
tempo que o próprio Deus criasse um órgão de atendimento de reclamações, antes
que Ele comece a ser processado judicialmente.
Percebe
a dinâmica, leitor? A lógica do Mercado permite que você, de sua casa, sem
muito esforço, use seu telefone ou computador para reclamar diretamente com o
Criador sobre como a sua vida tem problemas. Essa lógica permite que você se
encontre livre de qualquer responsabilidade, que a culpa seja dessa grande
corporação divina que criou todo o Cosmos. Essa é a lógica individualista,
egoísta, poderosa da mentalidade de mercado atual. Não há maldade nisso – é
apenas como as coisas são.
Nunca
entrei em contato com o SAC Divino. Acompanho O Criador pelo Twitter, e me divirto com algumas de
suas sacadas (como a recente mensagem “Ateus do mundo todo, quando se unirem, por
favor, tentem fazer chover, tá?”). Mas ao ouvir sobre a novidade do holandês,
não agüentei – fiz minha ligação.
“Deus, sou eu! Como está?”.
De
repente, me notei mudo. “O que falar para Deus?”, ponderei.
Nada.
Desliguei o telefone.
Confesso
que não sou religioso, mas senti-me incomodado pelo fato de ter ficado quieto. Me silenciei diante de Deus. Não por não ter o que dizer, já
que sempre temos algo a dividir com alguém, mas sim pela situação de não ter
nada que valesse a pena ser dividido. Percebi que me sinto incomodado pela
minha própria independência de Deus. Senti-me como a criança de 13 anos que
acredita ser madura o bastante, adulta o bastante para
fugir de casa, mandar nos pais, brigar com eles, e somente quando cresce
percebe o quanto foi tola. Repito: não sou religioso. Mas,
seja lá o que “Deus” é, o conceito que Ele representa é algo que foge de minha
compreensão – e o fato de não me sentir vazio com Sua ausência fez-me sentir
como essa criança revoltada, como nos casos de quando vemos nossos filhos e
sobrinhos, bem mais novos, cometendo certos erros, e culpamos sua juventude e
os humores que dela brotam.
Já
ouvi falar que a função da principal da arte é (ou deveria ser) trazer o
indivíduo a um estado de reflexão sobre si mesmo. Ouso dizer que van der Dong
conseguiu. Sua obra de arte é um telefone divino.
O mais assustador, o que realmente me surpreendeu, é que me
estou bem com tudo que refleti. Não me sinto mal. Sou egoísta, sou mesquinho.
Sou adulto, sim. Não me importo se estiver errado. Sou convencido. Se Deus
existe, não preciso mais Dele. Em meu egoísmo vou vivendo - basta evitar Sua
secretária eletrônica.
|
Autor:
Ivan Mizanzuc |
||
|
JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
|
Luci
Afonso |
Bom texto, só faltou
revisão. |
8,0 |
|
Cida Sepúlveda |
Uma crônica
responsável como o narrador. |
9,0 |
|
Betty
Vidigal |
Bom. |
9,5 |
|
Lorenza
Costa |
Respondendo: não,
não se percebe a dinâmica. A lógica do mercado precisa forçar muito a barra
para posar de vilã dessa história. Lembra o mesmo cacoete da crônica 4. Que é mesmo que a lógica do mercado tem que ver
com a fuga da responsabilidade individual (responsabilidade que é
originalmente uma das bases das economias de mercado) e com um sujeito
bem-humorado que criou um personagem no Twitter? O próprio cronista nem
tenta fugir do fato de que aquilo é uma brincadeira ("me divirto
com algumas de suas sacadas") que nada tem a ver com
religião nem com mercado. Tem a ver com as possibilidades da
tecnologia, para ficar nas três coisas "fascinantes" que ele lista
no início. Precisa de alguma revisão gramatical, mas o mais importante seria
rever a frase "é uma forma que ele acredita ser válida" -
estilisticamente ruim, destoou do restante do texto. |
7,5 |
|
Oswaldo
Pullen |
Afirmações e certezas
demais para uma crônica. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
Gosto mais do
relativismo que do absoluto! Um cronista que não consegue buscar o relativo
está num mal caminho! |
8,0 |
|
TOTAL |
49 |
|

Grandes
pequenas coisas
Se o vinte foi
o século dos extremos, nem ouso tentar adivinhar o que escreverão na etiqueta
no dedão do vinte e um. Afinal, este apenas engatinha.
Mas a tal velocidade que imagino um bebê cruzando a faixa dos cem metros rasos
à frente do Usain Bolt.
Em altas velocidades, são as coisas que passam. Parecemos
parados e os fatos, apenas previstos, já estão no retrovisor.
E o, por enquanto, eterno suceder de tudo vai sendo revogado
pela simultaneidade. Não há espaço no tempo para tanto fato.
Reflexão, análise são luxos que não mais nos podemos dar. Só
temos o tempo de um clique. Erramos mais, mas não importa. Aliás, tudo importa
cada vez menos. Nossa tela-janela já mostra outras cenas. Passamos para a
próxima fase.
E de tantas coisas
belaschocantesbizarrasemocionanteseseilámaisoquê que me entulham o email e
encharcam minhas sinapses de neurotransmissores, o clique redentor vai para a
história do moleque de três anos que estava dirigindo em alta velocidade quando
o pai tentou matar o outro filho de seis anos que estava embriagado e desmaiou
no banco de trás de um carro de polícia. (releia a
notícia...)
Acho que me chamou a atenção por ser exatamente o que eu não
faria. Nem aos três, nem aos treze e, muito provavelmente, nem aos cento e
trinta anos.
É que eu sempre fui... como direi
sem mentir e sem me depreciar demais? Ah! Já sei: Um bundão. Sabe aquele menino
certinho, abotoadinho, obediente, cumpridor de regras que dá engulhos? Era eu.
E, o pior, é que não o era por convicção filosófica (já que só há pouco ouvi
falar em imperativo categórico) nem por amor às regras
Voltando,
enfim, ao caso do moleque, que já está a guiar por um tempo muito superior ao
recomendável em sua tenra idade e pode, a qualquer momento, deparar-se com uma
blitz sem ter um trocado para a cervejinha; agora, que excluí todos os outros,
eu, em seu lugar, teria pensado assim: “Não posso passar para o banco da frente.
É proibido. Se o papai acordar, me dá uma surra. Não devo tentar dirigir porque
eu não sei e não tenho carteira. A polícia vai me prender e prender o papai
também”. Seriam essas as minhas considerações enquanto o carro não entrasse na
traseira de um caminhão e pegasse fogo, ou algo pior.
É por estas e outras que tanto admirei a atitude do menino destemido e que torço pelos
heróis anônimos, que, para fazerem o que é certo, o que a ocasião exige,
para fazerem uma diferença no mundo, não esperam pela certeza confortável, pela
adequação à norma. Movidos pela intuição ou sabe-se lá que outros ditames,
atiram-se num átimo e num impulso entre pupila, retina, cérebro, dedo; apenas
clicam em uma das infinitas alternativas que o instante apresenta.
Cada
momento inaugura trilhas no algoritmo que traça o mapa de nossa vida e que
levarão a outras encruzilhadas. Em seu caminho no
tempo, a vida se modifica, a gente cresce e tem novas oportunidades para
acertar ou errar, muitas vezes sem pensar, mas sabendo que cada opção feita é
irretratável, e que o veredicto, quando vem, nem sempre chegamos a conhecer.
Conforta-me
ouvir: “Esqueceu o crachá? Pode entrar que eu te conheço”. “Esqueceu o
dinheiro? Pague amanhã.” “Carimbo no recibo? Não precisa”. “Pagamento de sinal?
Não exigimos, o negócio está feito”. “Deu defeito? Sem problemas, trocamos na
hora.”... Esse tipo de coisa que a gente pouco ouve e nunca diz.
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Autor:
Washington Dourado |
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JURADO |
COMENTÁRIO |
NOTA |
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Luci
Afonso |
Começa interessante, torna-se
didático. |
8,0 |
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Cida
Sepúlveda |
Uma
crônica responsável como o narrador |
9,0 |
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Betty Vidigal |
O parágrafo final não se relaciona em nada com o texto até
ali. A notícia é mencionada de passagem (quem não a leu, não sabe do que o autor
está falando) e está toda alterada! |
9,0 |
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Lorenza
Costa |
Dois problemas: não
ficou claro se o resumo arrevesado da notícia foi proposital, porque, se
aquela frase foi construída com um sentido humorístico, não deu liga com
o que vem antes e depois. E palavra que não entendi o que o último parágrafo
está fazendo ali. Entre uma coisa e outra, uma crônica muito boa. |
9,0 |
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Oswaldo
Pullen |
Enfoque bom, em uma
crônica mal desenvolvida. |
8,0 |
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Marco
Antunes |
Poxa, o ponto de
vista era ótimo, pena que o autor se perdeu. |
8,5 |
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TOTAL |
51,5 |
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Os Novos
Adultos
Dizem-nos as estatísticas que os filhos saem cada vez mais
tarde de casa dos pais. Nesta sociedade moderna da era de aquário, um “jovem
adulto” com trinta e poucos anos pode perfeitamente viver no mesmo quarto que
ocupa desde que nasceu, com a mesma decoração infanto-juvenil, com a mãe a
tratar-lhe da roupa e da comida e o pai a dar-lhe mesada sem que ninguém ache
isso, mais que anormal, estranhamente bizarro. A bizarria não se configura pelo
facto da família se manter unida. A família, nas suas diferentes configurações,
é o elemento nuclear da sociedade e é essencial para que esta se mantenha à
tona das convulsões típicas destes tempos de incerteza que atravessamos.
No entanto, ao que parece, a educação que damos aos
nossos descedentes é cada vez mais condescendente. Cada vez protejemos mais as
nossas crianças dos horrores da vida lá fora e cada vez pintamos mais as coisas
de cor de rosa. As crianças são inocentes até prova em contrário e ai de quem
opine diferente. Os petizes têm o direito de crescer na ignorância daquilo que
os espera daí a uns anos e não precisam de se preocupar com isso até lá
chegarem. É deixá-los aproveitar a “boa vida” enquanto ela dura e depois logo
se vê. É um engano tremendo confundir a protecção da tribo com a deseducação da
prole. Mas é um erro comum.
A ideia com que se parte para a aventura da paternidade,
de que aquilo que queremos para os nosso filhos é tudo aquilo que nós nunca
tivémos, só pode ser tida como correcta se tivermos, efectivamente,
possibilidade de lhes proporcionar todas essas mordomias. De outro modo,
estamos à partida condenados ao fracasso.
A maioria dos pais, hoje em dia, não tem tempo para ter
filhos. Há a ideia que a escola é o lugar onde a educação é
ministrada e que os professores têm obrigação de substituir os pais, que estão
ocupadíssimos com as suas vidas profissionais e com a realização dos seus
objectivos pessoais. Mas não é ter filhos um propósito dos pais? Será que ter
filhos passou de objectivo de vida a capricho social? A função da escola é
formar e não educar. Os pais são os únicos responsáveis pelo adulto que
resultará do crescimento dos seus rebentos.
Uma criança que não seja, desde cedo, inteirada das
nuances desta vida comunitária que tanto que fazer nos dá, dificilmente será um
adulto equilibrado, vindo a ter problemas de integração e socialização.
Um dos maiores problemas que a sociedade vai enfrentar
nos próximos tempos é o da obesidade mórbida da população. Ao contrário do que
afirmam os gordos que processam as cadeias de fast food, não são estas as
responsáveis pelo seu estado de saúde, mas sim os seus progenitores, que não os
ensinaram a comer quando eram pequenos, permitindo-lhes todos os exageros que
os levaram à sua situação actual. O “big fat love” é uma doença da moda que se
substancia pela substituição dos carinhos humanos pela comida de plástico,
altamente calórica e açucarada, geradora de conforto instantâneo naquele que a
devora e de paz de espirito a quem a oferece, pela sensação de missão cumprida.
Do mesmo modo que os pais arranjam padrastos no fast
food, também o mimo que a criança recebe em casa a balizará no futuro. Uma
criança que não partilha das tarefas da casa dos seus pais será um adulto que
não sabe gerir a sua própria casa.
Nos estados unidos (iniciais maiúsculas), um pai
viu-se obrigado a chamar a polícia para mandar o filho limpar o quarto. O
jovem, provavelmente derivado da educação permissiva que teve, acha por bem se
comportar como se vivesse com animais ou como se houvesse lá em casa quem
tivesse a obrigação de limpar o que ele suja. A polícia Norte Americana (iniciais em caixa baixa), habituada a todo o tipo de situações anormais, cumpriu
o seu papel e mandou um raspanete ao rapaz. Este, (sem vírgula) admitiu e a sua falha e prometeu redimir-se,
afirmando que a partir de então seria um bom filho, arrumado e asseado.
O método “venha cá senhor polícia pregar um susto ao meu filho que ele está-se a portar mal”