Quinta Semana

 

 

 

 

Os pequenos fatos do Mundo que fazem a Crõnica

 

Colocação

CONCORRENTE

NOTA

NÚMERO DE VEZES EM QUE ESTEVE NA PRIMEIRA COLOCAÇÃO

1

Afonso Cruz

59,0

 

2

Maria de Fátima M.Correia

58,8

 

3

Ari Gurcz

57,8

 

4

Rodrigo Fernandes

56,4

 

5

Denis Reis

55,3

 

6

Gerson Nagem Perrú

54,5

 

7

Joaquim Bispo

54,0

 

8

Marcelo Azevedo Larroyed

53,7

 

9

Ana Marques

53,2

 

10

Antonio Paulo Pinheiro Lima

53,0

 

11

Kalinka Tavares Iaquinto

53,0

 

12

Leo Borges

52,5

 

13

Roberto Klotz

52,5

 

14

Clemens Soares dos Santos

52,2

 

15

Carlos Alberto Pessoa Rosa

51,5

 

16

Washington Dourado

51,5

 

17

Jurandir Araguaia.

50,3

 

18

João Carlos B.Guimarães

50,0

 

19

Cinthia Kriemler

49,0

 

20

Ivan Mizanzuk

49,0

 

 

Pablo Amaral Rebello

48,0

 

 

Liliane Neves de Souza

47,8

 

 

Aldmeriza Riker

46,0

 

 

Mauro A Madeira

44,8

 

 

Luís Miguel Vale F. Vale

42,0

 

 

Eneida Coaracy

DESISTÊNCIA

 

Parabéns aos que deixam aqui o Desafio pela excelente participação!

Que os problemas familiares de saúde que tiraram Eneida do Desafio encontrem rápida e feliz solução!

Aos 20 sobreviventes, renovem o ânimo,pois agora é a reta final!

 

 

 

 

 

Crônica 1

 

 O insólito acontece

 

 

         À vista de uma notícia de que um jovem inglês, no Reino Unido, foi condenado a dois anos de serviços comunitários por colocar seu pênis em um buraco na caixa de correio, lembrei-me de um caso semelhante que ocorreu em São Paulo. Isso não chega a ser algo incomum que mereça muitas elucubrações porque, vez ou outra, sabe-se de exibicionistas que mostram seus atrativos como se fossem a sétima maravilha do mundo. E há mulheres que até ficam assustadas, não porque nunca tenham visto, mas porque neste mundo de violência é mais uma das armas que certos indivíduos rudes utilizam para coagir sua vítima de estupro. Bem, o que vou lhes narrar não é alguma espécie de patologia, mas um caso de amor. Amor? Vejam .

         Letícia, jovem faceira, de bom porte e formas arredondadas (próprio das brasileiras, como dizem) gostava de se divertir, ir às baladas e sempre de acompanhante novo. Euládio apaixonou-se pela jovem dançarina e seus requebros sensuais na roda de gafieira. Aos sábados, lá ia Euládio para a “Flor Amorosa”. Conhecia quase todos no local já que era um freqüentador assíduo. Dançava a noite inteira com todas as mulheres disponíveis e indisponíveis. Mas Letícia era um caso particular, a timidez o segurava, não conseguia fazer avanços em sua direção. Ele também não era aquele cara “cheguei”, mas tinha lá um certo quê, que não passava despercebido por muitas mulheres.

Uma noite, havia bebido um pouco mais, destravou a língua e declarou aos amigos que “não estava de quatro, mas de seis” por Letícia - os quatro membros, a cabeça e algo mais. O fato chegou ao conhecimento da jovem que não lhe deu importância, não porque quisesse esnobar o rapaz ou fizesse pouco caso dele, mas não pretendia se prender a ninguém. Depois de muito escutar as amigas de que o sujeito estava apaixonado, que isso e mais aquilo, que devia prestar mais atenção nele e que já era tempo de ela ter um compromisso com alguém, Letícia disse em tom de brincadeira: Ah! Só se ele me mostrar seu “pinto” fantasiado, aí quem sabe? (há muitas formas corretas para o trecho sublinhado. Esta não é uma delas. 2 exemplos: “Depois de muito escutar das amigas que o sujeito estava apaixonado” ou “Depois de muito escutar as amigas dizerem que o sujeito estava apaixonado”.)

         Letícia morava uma quadra abaixo da casa de Euládio e todos os dias ele a via passar para o trabalho, em torno de seis e meia. Nessa hora da manhã, a rua era quase deserta. De longe, ele escutava seus passos, apressava o café e saía à porta para cumprimentá-la como se fosse por acaso.

         Numa sexta-feira, Letícia vê à janela, num lugar em que o vidro foi retirado, adivinhem o quê? Nada mais nada menos que um pênis, em toda a sua volumetria, fantasiado de folião, com confete e serpentina e, como fundo musical, uma marchinha de carnaval. Desnecessário dizer que era fevereiro, em pleno carnaval. Ela a princípio se assustou, depois lembrou-se do que havia dito às amigas. A cena mexeu com ela o dia inteiro. No sábado, na gafieira, se acertaram. Aquela noite, ele vestiu novamente a fantasia e viveram uma intensa noite de amor. A brincadeira continuou. Todas as sextas-feiras, ele punha o órgão fantasiado à mostra quando ela passava. Cada semana, uma fantasia diferente. Era uma espécie de senha do que estava por vir para a noite de sábado.

Euládio providenciou uma agenda que continha as comemorações diárias durante o ano. Assim, na Semana Santa, o membro apareceu encurvado, sem sua potencialidade, com um véu roxo a lhe cobrir-lo (cobrir é transitivo direto. Mas poderia ser, sei lá, “a cobrir-lhe o prepúcio”, por exemplo... estou brincando, claro, mas do ponto de vista gramatical ficaria correto) porque, afinal de contas, era época de jejum. Já no Dia do Trabalho, mostrou sua força, sua virulência, todo paramentado de operário. E assim, nas comemorações civil e religiosa (melhor ambos os adjetivos no plural. Afinal, há mais de uma comemoração civil por ano. Religiosa, idem. Se houvesse uma comemoração civil e uma religiosa, a frase estaria correta.), ele usava sua criatividade e, tal qual um artista, montava sua ensemblage. Dia dos namorados, em vermelho, salpicado de corações; nas festas juninas, caipira, com direito a chapéu de palha; do mesmo modo, no dia da enfermeira, do médico, do dentista, da secretária, do professor, do estudante; até São Francisco, vestido à franciscana e Santo Antonio coberto com a massa de pão, não escaparam à sua ousadia; dia da criança, nada mais eloqüente que um elefante com a tromba levantada; dia do comerciante, do aviador e por aí afora não faltaram datas nem motivações para Euládio. Em dezembro, representação do Natal com os símbolos natalinos - Papai Noel, pisca-pisca ou miniaturas de embrulhos de presentes. No réveillon, vestiu-se de branco com um rótulo de champanhe e duas taças de cada lado.

Nas primeiras semanas de janeiro, ele não se exibiu fantasiado à amante, nem se apresentou de alguma outra forma para saudá-la. Letícia reclamou e ele se justificou de que se tratava do mês nacional de férias no país, portanto o pênis também tinha direito a um descanso “porque não era de ferro”.

Ela não compreendeu muito bem, mas aceitou a justificativa. Fevereiro chegou e nas duas primeiras semanas, nada, nem sinal de Euládio. Na terceira semana, Letícia não aguentou mais o descaso, fez cobranças ao amante que lhe respondeu estar sem criatividade e possivelmente estressado. Sentindo-se desprestigiada, Letícia ameaçou-o de terminar com o romance, caso não voltasse a pretensa criatividade. (Por que pretensa? A criatividade era real e comprovada...)

Venhamos e convenhamos, sabe-se que todo artista tem sua fase boa e má. (melhor redigir de forma a que não pareça que a mesma fase é ao mesmo tempo boa e má) E também a fase branca, em que nada acontece. Euládio estava nessa fase.

         Ele, sob pressão, bem que tentou, mas não conseguiu nada que o satisfizesse. Temeroso de que o namoro acabasse, não teve dúvida, apresentou-se, no mesmo horário e dia, como veio ao mundo. Letícia, ao vê-lo pelado, engoliu a frustração, sentiu-se ofendida. Ele está debochando de mim! Pensou. Remoeu esse pensamento a semana inteira. Mas insistiu, fez novas cobranças. Ele tentou explicar e, mais uma vez, ela não entendeu. Na outra semana, novamente o pênis nu. Letícia ficou injuriada. Como vingança, arrumou algumas testemunhas, foi à delegacia e deu queixas do rapaz - “ele mostra-me o pênis quando passo em frente a sua casa”, foi o que disse ao delegado.

Intimado. Na delegacia, Euládio confessou o crime e disse que fez por amor.

Adivinhe se o delegado acreditou? Confesso que eu também não acreditaria se não soubesse dos detalhes.

.

 

 

Autor: Aldmeriza Riker

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Enxuto, gostoso de ler. Faltam vírgulas.

 

8,5

Cida Sepúlveda

Excelente, mas é conto.

6,0

Betty Vidigal

Divertida, embora o causo contado não envolva a caixa do Correio.

9,0

Lorenza Costa

Ligeira, divertida e bem escrita.

 

9,5

Oswaldo Pullen

Não é crônica.

6,0

Marco Antunes

Cadê a caixa de correio? A crônica estava pronta e se emendou um início?

7,0

TOTAL

46

 

 

 

 

Crônica 2

 

Gêneros

 

         As meias. Talvez um dos mais universais pontos de atrito entre gêneros seja o suscitado pelas meias. Menos no que se refira ao feitio, tecido ou qualidade, antes ao destino que lhes é dado uma vez que tenham sido usadas. As mulheres insurgem-se contra a tendência masculina de considerar a ubiquidade uma das características intrínsecas das meias, de achar que estas devem estar em todos os lugares, exceto, é certo, nos cestos de roupa suja, lugar ao qual pertenceriam, insistem as moças, por dever de ancestral convenção.

         Ao que parece, há estudos que demonstram que a distância que separa as meias usadas dos respectivos cestos é inversamente proporcional a seu estado de limpeza e diretamente proporcional ao que delas emana.

         Para descontentamento feminino, com frequência, às meias seguem-se as cuecas sujas e os uniformes usados nos torneios de futebol de várzea.

         Sabe-se que, em alguns casos mais graves, essa desorganização e desleixo passam a contaminar outras áreas da vida cotidiana. Quartos bagunçados, papéis em cima da mesa de trabalho, chaves do carro e carteiras que nunca são encontradas onde deveriam estar são exemplos eloquentes (ai,que saudades do trema!) (eu também!).

         Há registros de que a tendência pode, mesmo, chegar a atingir os hábitos de higiene. É sabido que todo menino pré-adolescente tem certa resistência a assimilar tais hábitos, mas a disfunção costuma ser mitigada pelo passar dos anos e pela inserção dos fedelhos na vida social. Há, no entanto, relatos de homens já maduros que se recusam a tomar banho regularmente. Num caso extremo, o sexagenário indiano Kailash Sing não toma banho há trinta e cinco anos. A justificativa de que seu comportamento hidrofóbico seria um sacrifício à deusa Shiva para que lhe concedesse a graça de gerar um varão, pai de sete filhas que é, não impediu os vizinhos de evitar-lhe a companhia. Impensável flagrar uma mulher com comportamento semelhante.

         É possível que não se trate, exclusivamente, de comportamento adquirido, esse apresentado pelo gênero masculino. Neurocientistas (mulheres) trabalham há décadas para desenvolver um método eficaz para reverter a situação e que possa ser utilizado na vida diária por esposas e mães de todo o mundo. (“reverter” não é a melhor palavra, aqui. Reverter a situação seria “voltar à situação anterior”) Não obtiveram sucesso sem que se lançasse mão de práticas condenadas pela Convenção de Genebra de 1929.

         Geneticistas (homens) têm tentado encontrar marcadores moleculares no DNA masculino. É de conhecimento geral que a diferença entre o cromossomo X e o Y é de, apenas, um pequeno fragmento. Há os que defendam que a perninha que falta deve ter sido largada pelo menino em algum lugar entre a ejaculação e a fecundação.

         Seja adquirida ou geneticamente determinada, essa incapacidade de dar destino adequado à roupa suja e demais comemorativos da Síndrome do Esculacho e Emporcalhamento – SEE é, definitivamente, ligada ao sexo. Tanto assim que pode ser observada desde a mais tenra infância em todos os países e em todas as culturas.

         Também é de se notar que um padrão de comportamento pode ser observado entre as meninas: é generalizada a capacidade de, embora sob protestos (por vezes veementes), suportar a desorganização masculina. Por exemplo, não consta que, embora o sacrifício a Shiva não tenha trazido o fruto esperado, a esposa do senhor Kailash Sing o tenha abandonado. As sete filhas que tiveram reforçam a impressão.

         E assim caminha a humanidade, reproduzindo padrões que se repetem ao infinito.         Apenas a quebra do padrão não pode ser suportada. Isso não! A inversão dos comportamentos é absolutamente intolerável. Atesta-o o caso da alemã que, no Tribunal de Sonderhausen, solicitou o divórcio porque o marido estava “constantemente a limpar” dizia a notícia.

         A inclinação de um homem para a limpeza e organização doméstica é uma aberração, um verdadeiro atentado à natureza e, como tal, só pode ser, mesmo, respondida com um divórcio. Pelo menos nos países em que a pena capital não é aceita.

 

Ass.: Um cronista

 

 

 

 

Autor: Ari Gurcz

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Divertido. Ótimo texto.

9,5

Cida Sepúlveda

Muito boa, mas um pouco asquerosa no final.

9,0

Betty Vidigal

Muito divertida.

10,0

Lorenza Costa

Ligeira, divertida e bem escrita, mas um pouquinho assim previsível.

 

9,3

Oswaldo Pullen

Excelente.

10,0

Marco Antunes

Bem escrita, inteligente, cômica.

10,0

TOTAL

57,8

 

 

 

 

 

Crônica 3

 

EM DEFESA DA LEVEZA

 

Enquanto a vida passa pesadamente, leio uma notícia que me chega pela internet. Na Romênia, um menino de onze anos falsifica dinheiro por conta própria, sem ajuda de ninguém. Aprendeu a falsificar dinheiro ao assistir a um programa de televisão. O menino ainda distribui o dinheiro falso entre os colegas de escola. Corrompe, vejam! Com o dinheiro falsificado a gurizada compra guloseimas. É muito mal-estar para uma notícia : O consumismo, a irresponsabilidade da televisão, o descuido dos pais, a irrelevância da escola. Está tudo ali: conjunção de fatores que no mundo contemporâneo conduzem a infância ao crime. Pois, é verdade, falsificar dinheiro é crime. As professoras estão preocupadas, mais até do que a polícia. “Era um menino bonzinho, bom aluno, agora fez uma coisa dessas...” Lamenta uma mestra.

         Não, senhora professora! Compreendo seu papel de educadora, mas eu não vejo todo o mal moral que se aponta. Pelo contrário, defendo o menino. Ele se chama Florin, nome de uma moeda medieval que também foi moeda nacional da Holanda. Talvez ele quisesse mesmo comer sanduíches, sem pagar “de verdade”. Quem sabe, Florin queria mesmo é fazer sucesso junto a seus colegas de classe. Contudo Florin carregava um destino inscrito no próprio nome.

         Vou defender o moedeiro falso mirim, não por implicância com os adultos, muito menos com as professoras primárias da Romênia. Tenho motivos um pouco mais nobres. Uma notícia do cotidiano, da longínqua Romênia, me trouxe alguma leveza. Florin me deu esta oportunidade. Achei uma fresta de infância por onde respirar.

         Em nosso socorro, invoco Ítalo Calvino, poderoso mestre: “Cada vez que o reino do humano me parece condenado ao peso”, escreve ele, “digo para mim mesmo que à maneira de Perseu eu devia voar para outro espaço (...). Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob outra ótica, outros meios de conhecimento e controle.” Florin não fez outra coisa, preferiu ser leve por um momento e voar um pouco acima do chão.

Sobre o mundo pesa mais o grande peso do dinheiro. Busquem algum sítio noticioso na internet e vejam se não é verdade. O dinheiro é tudo o quenão podemos” – a não ser que nos curvemos a ele. Quero sentir o gosto de alguma guloseima; não posso porque não tenho dinheiro. Quero estar feliz, ao lado dos amigos meus; com dinheiro poderei ter essa alegria. O dinheiro é um grande trapaceiro. Nós nunca ficamos com ele, ele é que fica com tudo. Mesmo se o temos “de verdade”, ele tem o exato peso da nossa pobreza. O dinheiro sempre é o que precisamos ter.

O poder do dinheiro – vejam como é simplescomeça com a beleza das notas, suas cores, as composições de figuras e matizes. Tem gente que até coleciona, de tão bonitas que são. As cédulas são objetos verdadeiramente artísticos, eu sei. Para mostrar toda sua feitiçaria sedutora, as notas de dinheiro são feitas com engenho e arte.

         Mas alguém pegou o dinheiro pelo calcanhar. O menino romeno soube ver o poder feiticeiro das notas de dinheiro. Entendeu que seu poder principia com os bonitos desenhos que as notas trazem. Os jogos de figuras e cores das cédulas, tão boas para brincadeiras. As belas roupas com que o dinheiro se veste, para iludir os homens com suas cores ilusórias, tornam-se lúdicas nas mãos de um menino. A televisão mostra como fabricar as notas, isto é, mostra o falso para assustar os adultos. Os adultos se deixam pegar pelo medo da bruxaria. O menino aprende a cor que faz a nota brilhar. As crianças querem o que no dinheiro é brinquedo.

Em poucos dias, tudo está pronto: As notas falsas são distribuídas durante recreio escolar, junto com a amizade, sanduíches e risadas. Como se dizia antigamente, o menino “fez arte”. É traição! Reclama a professora de Florin. Concordo, é mesmo uma traição das boas. Alegria mesmo é trair um trapaceiro. Eis um dos bons jogos que a vida gosta de jogar. O dinheiro falsifica a vida, que tal retrucar falsificando o dinheiro? O desmascaramento de um trapaceiro, trair quem nos tenta trapacear.

Eu defendo a leveza que na pequena Romênia nos deu o ar de sua graça. Por favor, não me entendam mal: Não estou pelos os maus costumes (“pelos os”...?) e, muito menos, pelocrime”. Sou adulto e, assim me dizem, bastante responsável. Tenho de tomar cuidado, pois sou – com o perdão da palavra – imputável.

Mesmo assim, de agora em diante, toda vez que eu ler o noticiário econômico, ou der uma olhada no meu triste extrato bancário, vou me lembrar desse menino romeno. Um dia os homens também hão de agir como adultos e fazer arte como meninos, traindo o dinheiro, e retrucando seus feitiços. Para isso terão de reencontrar a leveza a tempo. Embora eu saiba que não é fácil. É difícil, depois de velho, fazer-se leve.

 

 

 

 

 

Autor: Denis Reis

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Abordagem criativa, redação excelente.

9,5

Cida Sepúlveda

Maravilhosa.

10,0

Betty Vidigal

Argumentação pouco convincente...

8,5

Lorenza Costa

Uma graça, um ponto de vista diferente. Pequenas falhas de revisão.

 

9,3

Oswaldo Pullen

Boa crônica.

9,0

Marco Antunes

Bem legal! Um ponto de vista original, alguma criatividade e bom humor.

9,0

TOTAL

55,3

 

 

 

 

Crônica 4

OLGA

 O sujeito entra no estabelecimento, puxa a arma e anuncia o assalto; o caixa o surpreende com um golpe de artes marciais, o imobiliza e leva para os fundos do estabelecimento, onde o sevicia por dois dias seguidos. Ao sair, o meliante se dirige ao hospital, para tratar dos ferimentos, e à delegacia, para prestar queixa pelos abusos sexuais. Até aqui, a história parece só mais um daqueles episódios de assaltos frustrados, tão comuns hoje em dia.

Acontece que a coisa não para por aí. É que o caixa em questão é, na verdade, a caixa. Isso mesmo. Uma mulher. Uma cabeleireira, para ser mais preciso. Ela surpreendeu o assaltante armado com um golpe no peito, atou suas mãos com o fio de um secador de cabelos, levou-o para o quarto dos fundos e, com o auxílio dos avanços farmacêuticos da última década (uns comprimidos de Viagra), fez dele seu brinquedinho sexual; depois de saciada, lhe deu um jeans novo e algum dinheiro; e o deixou partir.

Insólito? Sem dúvida. E vergonhoso para a cada vez mais desmoralizada classe masculina. Tão humilhante que já circula, pela internet, uma versão do episódio na qual Viktor seria um cabeleireiro delicado e Olga seria a assaltante estuprada. Mas não há como escapar da verdade: o nome, Olga, pode até ser falso; mas as fotos divulgadas junto com a matéria, nas quais os olhos aparecem desfocados por aqueles quadradinhos irritantes, não deixam dúvidas de que se trata de uma mulher, mesmo. E daquelas beldades que fazem suscitar comentários do tipo “do que é que esse sujeito está reclamando?” Já a “vítima”, o assaltante desastrado, foi brindado com uma foto de corpo inteiro, sem tarjas e trajando roupas colantes de ginástica.

Uma rápida varredura pela teia cibernética mostrará ao leitor a consternação causada pelo caso: em um blog, o comentarista reproduz a foto de Olga (vou continuar a chamá-la assim, mesmo estando convencido de que o nome é falso), com a legenda: “definitivamente, o crime compensa”; em outros sites, reações do tipo “essa mulher se vulgarizou”, “ela é uma vergonha para as mulheres” e coisas do gênero.

Permita-me discordar. Está tudo errado.

Olga não devia esconder o rosto. Devia tê-lo esculpido em bronze, com réplicas espalhadas pelos cinco continentes; merecia uma estátua do tamanho da Torre Eiffel, postada ao lado da Estátua da Liberdade. Seu nome não deveria ser ocultado: é digno de ser eternizado ao lado de tantos outros, como Marie Curie, Simone de Beauvoir, Margaret Thatcher e tantas outras que elevaram a mulher ocidental ao status de que hoje desfrutam.

Olga mostrou que a mulher não precisa ser recalcada para tomar uma atitude firme em defesa de seus interesses. Basta que se prepare para isso. Sob esse prisma, o fato de estudar artes marciais, longe de ser incidental, foi emblemático: deixou patente que a tão propalada fragilidade e a tão discutível dependência femininas são, na verdade, opções – em parte, culturais; mas, sobretudo, pessoais – e não imperativos.

Olga bradou aos quatro ventos que não precisa sufocar sua feminilidade para se afirmar na sociedade. É uma cabeleireira, profissão tipicamente feminina. E, em seu ato de indiscutível heroísmo, enalteceu sua profissão (nenhuma novidade: meu cabeleireiro é casado, tem filhos e nunca o flagrei forçando um falsete) e seu gênero. De quebra, me fez repensar a idéia de dar um secador de cabelos de presente à minha esposa, em seu próximo aniversário. (esta é uma ótima frase para encerrar a crônica)

Olga expôs na vitrine do comportamento social um fato já reconhecido por muitos, mas insistentemente negado pela grande maioria: o desejo sexual não é um componente secundário da feminilidade, um efeito colateral do “verdadeiro” amor ou da paixão intensa, mas um imperativo (hábil e competentemente sufocado pela estrutura ideológica ocidental), tanto quanto o é nos homens.

Olga denunciou o que ninguém quer ver: que a mulher,quando completar seu inexorável processo de descoberta da identidade sócio-cultural, quando vencer seu conflito entre a caricatura que lhe foi milenarmente impingida e a imagem a que efetivamente faz jus, ameaçará as estruturas sociais ora dominantes com um potencial destrutivo maior do que a Falha de San Adreas. E eu espero viver o suficiente para ver isso acontecer.

Sinceramente, um arrepio percorreu a minha coluna, ao ler a notícia. Não porque a testosterona tenha dado asas à minha imaginação, diante daqueles lábios carnudos e daquele cabelo cuidadosamente escovado (não dá para se ver muito mais do que isso na foto), mas porque a adrenalina aguçou meus sentidos, colocando-me em alerta absoluto quanto à ameaça que ronda nossas cabeças. Fui acometido do mesmo pânico que me atinge toda vez que vejo a Ministra Ellen Gracie, com seu talento inigualável em transformar a sóbria (e, na visão de alguns, soturna) toga de ministra em uma ode à elegância, pelo o mero acréscimo de detalhes sutis e delicados ou pela combinação com outras peças do vestuário – uma demonstração inquietante de que as mulheres, cada vez mais, estão tomando consciência de que não precisam imitar os homens para lidar com eles.

E o pior é que nós, homens, não percebemos isso. Causa angústia ver que nos contentamos tão facilmente em nos sentirmos poderosos que não damos conta de que a revolução se avizinha e se avoluma bem debaixo dos nossos narizes – e dos nossos lençóis.

Desde tempos imemoriais as mulheres jogam com o ego masculino, aproveitando-se do fato de que o poder se exerce na periferia dos núcleos dominantes. Rebeca mudou a sorte dos hebreus, apresentando Jacó, em lugar de Esaú, para receber a bênção da primogenitura. Ester livrou os hebreus do genocídio, seduzindo Assuero. E esses são apenas dois exemplos dos inúmeros que podem ser encontrados ao longo da história. Mas não é disso que estou falando. Me refiro ao fato de que, dia após dia, as mulheres estão deixando a periferia e migrando para o centro do poder; e, o mais perigoso, fazendo isso sem deixar de lado sua própria feminilidade.

Quando é que nós, homens, vamos acordar? Quando vamos encarar o fato de que o batom e o salto alto saíram das cozinhas e dos bailes definitivamente? Quanto tempo vamos levar para perceber que as mulheres já caminham a passos largos em direção à sua identidade sócio-cultural, enquanto nós ainda nos vemos às voltas com as ilusões de plenipotência com as quais essas mesmas mulheres nos mantiveram sob controle por séculos?

Olga resolveu sair das sombras. É só uma questão de tempo, até que a tarja desapareça de seus olhos e ela exija ser referida por seu nome verdadeiro. Uma questão de pouquíssimo tempo. Portanto, é melhor que os homens pensem duas vezes antes de tratá-las como frágeis ou inferiores. (você estava falando da Olga, “ela”, no singular. Se quer passar a falar “nas mulheres”, genericamente, deve mencioná-las antes de usar esse pronome). Ou de assaltar um salão de beleza.

 

 

 

 

 

Autor: Gerson Perrú

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

escrito, argumentação perspicaz.

9,5

Cida Sepúlveda

Excelente

10,0

Betty Vidigal

Alongou-se demais em alguns trechos e repetiu-se muito no final.

Crônica boa e divertida; se fosse um pouco mais compacta, seria ótima.

9.0

Lorenza Costa

O imperativo sexual feminino é sufocado pela lógica "ocidental"? Eu por mim me dou por muito sortuda por não ser oriental, nem média nem distante. Chatinha essa mistura de complexo de culpa com rendição ao clichê dominante (tudo é culpa da sociedade ocidental, da lógica do mercado ou do Bush), mas, no mais, é uma boa crônica.

8,0

Oswaldo Pullen

Boa crônica.

9,0

Marco Antunes

A argumentação poderia ser mais enxuta, pois o ponto de vista original, acaba se perdendo no peso do excesso.

9,0

TOTAL

54,5

 

 

 

 

Crônica 5

 

 

Aconteceu em Kaluga

 

         As mulheres, evidentemente, e há muito tempo, não são mais as mesmas. E quando é que foram? – (com travessão, não hífen) Perguntaria um amigo meu chegado a brincadeiras do tipo. Existe uma batalha sendo travada diuturnamente em todos os recantos deste planeta. É uma guerra não muitas vezes silenciosa, com requintes de crueldade (lugar-comum) que nem o mais criativo dos escritores poderia elaborar. (é isso mesmo que você quis dizer? “não muitas vezes silenciosa”; ou seja: guerra “poucas vezes silenciosa”, “muitas vezes barulhenta”?)

         Quem acreditava que Nelson Rodrigues tivesse ido longe demais precisa rever seus conceitos. A realidade, muitas vezes, ultrapassa a ficção e nos obriga a repensar valores. Devo dizer que sou a favor da liberdade, de qualquer liberdade desde que respeite os limites do próximo e que não sangre direitos sagrados como: a vida, o de ir e vir e o de não sofrer violências físicas, para citar apenas alguns.

         A guerra de que falo visa a provar quem tem o domínio sobre o planeta: homens ou mulheres? Pode parecer que a questão foi resolvida através de uma coexistência até certo ponto pacífica, mas não é bem assim. Comumente as mulheres são vítimas e a vantagem masculina, covardemente sustentada pela maior força física, tem escorrido pelos dedos através de eventos incomuns e desconcertantes.

         No entanto, existem contra-ataques. Um dos últimos lances a questionar o domínio dos machos veio de um recanto inóspito da Rússia, sob o nome de Kaluga, aonde dois personagens surreais, que poderiam ter saltado lépidos de um quadro de Dali, acrescentaram pimenta ao assunto.

         Um desses é o meliante Viktor. O ofício do rapaz é invadir, aterrorizar, sequestrar os bens alheios e manter-se vivo, como determinam as leis da sobrevivência desde que o primeiro homem (?) atacou a tacapes outro homem (?) e carregou para a caverna a primeira mulher (?). Poderia ter sido o contrário e a história deveria ser reescrita.

         Não sabemos muitos detalhes a respeito do enfrentamento no distante país dos velhos kizares. Apenas foi relatado que o rapaz, em um momento de descuido, (descuido de quem? Talvez o rapaz fosse um “descuidista”, mas um “descuidista” não age exatamente “num momento de descuido”) invadiu o salão de beleza mantido a duras penas por sua distinta oponente nesta moderna saga: Olga. Não posso dizer que fosse bela, não há registros ou informações a respeito, mas diante do que se seguiu, creio que a moça precisava, desde muito, dos braços fortes e acolhedores de um namorado. De qualquer namorado.

         Teria Viktor observado o salão de Olga por vários dias? Provavelmente sim. (o “sim” é desnecessário depois desse “provavelmente”.) Caso tenha feito bem a lição de casa. Somente não sabia que Olga voltaria ao local depois de ter saído, e que o surpreenderia atentando contra os pertences de Olga (há formas para dizer isso sem repetir “Olga”). Nesse momento coloco em dúvida se foi o primeiro homem a arrastar para a caverna a primeira mulher. Olga parecia indefesa, aos olhos lupinos do invasor crente na noção de superioridade que os homens são ensinados a ter. Maldita testosterona. Creio mesmo que a quantidade de neurônios talvez seja inversa à de testosterona. Com a palavra os cientistas. Nesse caso as mulheres teriam muito mais neurônios, o que talvez seja verdade. De novo conclamo os cientistas.

O que o sujeito não sabia é que Olga praticava artes marciais. Seria a nobre proletária fã ardorosa do filme ¨Menina de Ouro¨?

         Talvez fosse essa a explicação mais plausível para o que sucedeu a seguir. A dedicada moçoila desferiu-lhe poderoso golpe no peito, (vírgula) vindo Viktor a tombar. (se fosse, por exemplo, “levando Viktor a tombar”, ou “fazendo Viktor tombar”, não seria necessária a vírgula) O tacape voou longe. Utilizando os meios à sua disposição, imobilizou-o com fios de um secador de cabelo. (o sujeito da frase anterior é “o tacape”. O desta, certamente, deveria ser “a delicada moçoila”. Mas, da forma como está fraseado, o que você está dizendo é que foi o tacape quem “o imobilizou”.)

         Estando o tacape no chão, Olga trabalhou no dia seguinte normalmente. As clientes entraram e saíram do salão e viram o jovem amarrado, humilhado e amordaçado junto a um móvel.

         - O que é isso? – Devem ter perguntado.

         - Nada, respondia Olga, apenas um ladrãozinho que botei em seu devido lugar.

         O pior deve ter sido Viktor ouvir horas de conversa ácida e ter de enfrentar olhares zombeteiros. Intriga-me saber por que nenhuma das clientes aventurou-se a chamar a polícia. Estariam as autoridades russas mais desacreditadas que a nossa? Com a palavra as autoridades.  (lugar-comum. Sei que você está brincando, usando a frase num sentido jocoso...)

         O mais provável é que Olga tenha compartilhado com as clientes amigas suas reais intenções. A partir do momento em que o salão fechou, Viktor sofreu abusos por parte de Olga por dois dias. Para manter o tacape em pé, a prudente vítima comprou caixas de Viagra. Não duvidem que ela tenha sido cruel. Afirmou, em depoimento à imprensa, que o alimentou, deu-lhe uma nova calça jeans e até mesmo dinheiro, em gratidão pelos bons serviços forçosamente prestados.

         Vejo-o caminhando pelas ruas de Kaluga abatido, desnorteado e confuso:

         - Que homem sou eu? – Pergunta-se. Indignado, resolve tomar satisfações da polícia:

         - Façam alguma coisa!

         Viktor deve ter virado, literalmente, a piada de salão da cidade enquanto Olga recebia tapinhas nas costas das mulheres vingadas por séculos de maus tratos:

         - Muito bem, menina.

         A polícia pensa em prender os dois: o primeiro por roubo e a segunda por abuso sexual. Viktor apenas pede que fiquem em celas separadas.

 

 

 

 

Autor: Jurandir Araguaia

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Alguns trechos são engraçados, outros estão confusos. Revisão ortográfica e gramatical.

8,0

Cida Sepúlveda

Bem escrita, mas pouco envolvente.

9,0

Betty Vidigal

Excesso de conjeturas. Excesso de “talvez”, “provavelmente”, verbos no condicional...

O parágrafo final deu um bom fechamento. 

8,5

Lorenza Costa

A crônica é boa, mas poderia melhorar ainda mais se o cronista abrisse mão dos seguintes cansativos chavões da mídia nacional: "precisar rever seus conceitos", "fazer a lição de casa" e "com a palavra, fulano de tal".

8,8

Oswaldo Pullen

Transformar o fato em evento da guerra dos sexos talvez não tenha sido uma solução feliz. Crônica razoável

8,0

Marco Antunes

É...! Ta...! Não conseguiu despertar o entusiasmo, o ponto de vista é pouco original e o texto não corrige a defasagem com algum charme adicional

8,0

TOTAL

50,3

 

 

 

 

Crônica 6

Epifanias

 

Certa feita ouvi no rádio uma escritora declamando uma crônica. Ela havia escutado a noticia de que um artista holandês criara uma secretária eletrônica para Deus, assim, decidiu ligar e deixar um recado para Ele. (pontuação falha)

Numa clemência alvitante (“aviltante”!) ela espremeu uma singela satisfação. Disse saber estar falando com uma pessoa de outro país que talvez não entendesse seu imperfeito português. Mas de qualquer forma falaria, pois a prece, disse ela, é encantar-se com os temas. E disso ela sabia viver. Confessou-se confortavelmente casada, seus dois filhos criados eram homens bons. Sempre teve a ânsia da concretude das coisas, fato que a fazia ser tão maleável frente ao gosto dos outros. (1-“ter a ânsia” de algo não é um “fato”. 2 - Melhor “o que a fazia”, simplesmente. As duas frases anteriores também estão confusas.)

Essa concretude em verdade não avistava a realização de seus anseios, mas tão somente a necessidade de sentir-se útil e com essa serventia poder confessar de si para si que a sua vida para algo servia. Esta confissão não durava muito, logo a ânsia novamente lhe consumia os parcos minutos de glória (“confessar”, “confissão“, não são as palavras ideais aqui). Era assim que sentia-se todos os dias, como se esse desatino fosse a desculpa para sentir-se viva. Achava muito difícil encarar-se, ela sabia. Só não entendia por quê. Dentro de si os sonhos não contavam fronteiras, talvez a insegurança de uma possível realização fosse o desmoronar de todo o mundo que lhe rodeia (que a rodeia), talvez a pessoa que enxergava ao olhar-se no espelho teria decididamente (ou talvez ou decididamente) de se despedir do esplendor que seria se vivesse sem suas auto-imposições.

Por uns instantes, desses que se vivem quando estamos sós, ela era capaz de olhar para as estrelas e pôr suas concepções em xeque. Tudo implodia com a sua vaguidão e em meio aos destroços ela achava-se finalmente liberta das contradições da existência. Era capaz de olhar para a fonte inicial de onde jorram todas as relevâncias e significações e escolher a dedo do que se moldaria. Mais profundo ainda, uma batida ressoava n´algum lugar donde sentia-se pertencida (donde? Não seria “ao qual”?). Era capaz de asseverar a quem por hora passasse que a finitude é um conceito vago, na verdade o que existe para além de nós é a arrebatadora incógnita do infinito (não seria “porventura” ou coisa parecida, em vez de “por hora”?) Esse pertencimento assegurava a sua certeza e de seus olhos brilhava uma gota de lágrima reluzente, dessas que não escorrem sob as faces, apenas dão brilho ao olhar. Era tão bonita quando assim se via, nenhum complexo de beleza lhe atingia (a atingia) da altura que se encontrava, era capaz de passear por qualquer caminho e nele sentir-se impressa. Fechava os olhos e ia dormir. A lágrima finalmente escorria e era esta mesma lágrima que, cedo ao acordar, corria a procurar no espelho. Somente aquele vago resquício da passagem era toda a herança dos momentos magistrais que vivia sozinha, longe, ainda muito longe do ser que caminha em direção aos outros. Posto que pedia, se fosse para pedir algo, que nunca acordasse na manhã seguinte à noite em que esta magia com ela acontecia.

Pois que ao pensar nesta escritora eu lembrei de meus rogos.

Se tivesse a real possibilidade de ligar para Deus eu não pediria nada em concreto, apenas diria as minhas necessidades e deste apelo aguardaria o que viesse. É melhor assim, já que preciso de muito, mas de um muito humilde e extremamente complexo para ser significado em numa palavra, pois preciso sorver de cada essência a sua inconsistência, a sua vontade... e espraiar no abstrato sideral a sanidade conclusiva do que só divinamente compreendi.

Preciso ouvir da boca de alguém que a força que sentiu ao falar comigo foi a mesma que eu também senti, que esta força não precisa ser racionalizada nem condicionada às possibilidades ou impossibilidades que as incumbências diárias nos afogam, precisa apenas ser vivida sem muito pensar, a vida é curta demais para certas elucubrações. Essa resposta não precisa necessariamente vir por palavras, mas por um ato. Talvez minha resposta fosse o silêncio, afinal, ele me ensinou que apenas a essência guarda a perfeição do que sonhamos...

Mas é que eu preciso que o amor me alimente e que a dor, sinceramente, me traga profundidade. Então condiciono-me a aprender com o que a mim vier e isto basta.

Talvez essa crônica de nada valha, talvez ela nem mereça ser avaliada, já não me importa. Sei que em poucos minutos eu a entregarei para seu revisor e ele é o alguém do qual eu espero uma resposta. Logo aqui uma verdade aparece: Tudo isto foi um pretexto para que, se houvesse alguma dúvida, ela agora se dissipasse. Tudo caminhou para que esta verdade aparecesse desta forma. O concurso, o tema, o momento em que ele me viu dançar na porta, a hora que ele lembrou-me alguém que d´algum lugar conheço, a oportunidade de ouvir que ele já viveu o momento, talvez o único de nossas vidas, em que somos capazes de conceber tudo o que nos chega com uma graciosidade imensa, dessas graças que abarcam totalmente a vida em derredor, que não necessita de conceituações e idiossincrasias para mostrar-se belo e a surpresa de saber que foi na cidade onde ele nasceu que eu também passei por isto...

Posto que ao terminar estas linhas, ao traçar o fio que envolve todas estas questões, deparei-me com a sensação de que havia rezado também uma prece, não por telefone, mas por estas linhas e papéis.

Achei Deus de uma grande delicadeza.

 

 

 

 

 

Autor: Liliane Neves

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Comentário: Este texto poético às vezes se torna excessivamente dramático. Falta revisão.

8,5

Cida Sepúlveda

Bonita em algumas partes, melodramática em outras.

8,0

Betty Vidigal

Rebuscado, pomposo, pedante.

 

Linda frase final – que não salva o texto.

7,0

Lorenza Costa

O segundo e o terceiro parágrafos são turvos, com um rebuscamento artificial; depois a crônica cresce muito. Precisa de revisão.

8,8

Oswaldo Pullen

Texto arrastado, que pouco prende a atenção do leitor.

7,0

Marco Antunes

“Achei Deus de uma grande delicadeza.“ É conhecida frase de Clarice Lispector, não pode ser usada sem citação de créditos! Crônica monótona e previsível, embora bem escrita.

8,5

TOTAL

47,8

 

 



 

 

Crônica 7

Cheiros & Cheiros

 

Roqueiros são seres por demais curiosos, não raro cultivam manias intrigantes. Alguns, por exemplo, que coisa, chegam ao cúmulo de tocar instrumentos musicais. Todo mundo sabe que roqueiro que se preza se confunde até com um berimbau sem corda. Assim o é, eu não invento nada, pois me falta miolo, engenho ou vivência para tal. Por isso tudo não entendo a gritaria da imprensa internacional ao noticiar que o celecanto celacanto mesozóico Keith Richards cheirou o próprio pai. Não vejo nada demais (não vejo nada de mais) na atitude do velho rocker. Conheço gente que já cheirou carros, jatinhos e até apartamentos, com piscina e tudo. Cheirar o pai é fichinha. Eu mesmo já cheirei o meu pai. Mais de uma vez até.

É claro que aí se deve dar um desconto, respeitar as devidas proporções. Esse povo do rock and roll anda a mais de mil, eternamente plugado em duzentos e vinte volts e nós, pacata gente de bem, sempre à beira do apagão final da rotina. Portanto, enquanto o audacioso guitarrista edipianamente cafunga seu progenitor, sem saber se começa pelas pernas, pelos braços ou pela orelha, eu, sereno cronista, apenas aprecio o cheiro do creme de barbear e a lavanda Phebo do meu. Odores tão seus, tão familiares quanto a névoa do frango que assava, pontualmente, aos domingos da minha infância.

Era aos domingos que a figura do meu pai se mostrava de forma plena e definitiva. De fato, era um dia especial na minha casa suburbana, único dia em que se comprava o jornal. Solene, meu pai pegava o pacote de folhas e com cuidado separava o caderno de quadrinhos, era o que me cabia. Não gostava que desarrumassem o periódico que ficaria em cima da estante durante toda semana, dando a ilusão de que havia sido entregue no dia. Assim, durante anos, fomos assinantes da gazeta, sem assinatura, nem taxa, nem entregador entregando errado, na casa da vizinha boa e simpática, que merece mesmo um jornalzinho grátis.

Ele e o jornal. Sentado na poltrona, limpo, passado, os cabelos regiamente penteados. (regiamente? Como se penteiam os reis?) Lendo a novidade dos esportes enquanto sorvia em goles lentos uma caneca de café. O cheiro, mistura da bebida com a colônia pós-barba, perfumava com vigor a sala pobre de móveis. Meu pai, nem humilde nem severo, apenas ele. Era uma imagem que me dava orgulho. Dava-me uma vontade danada de ser aquele homem, aquele pai. Tão diferente dos outros dias da semana em que voltava à sua condição de operário da fábrica de tecidos, gasto, roto, mastigado pela vida.

Com meu pai não havia show, nem circo, nem Maracanã, nem piquenique ou pedalinho em Paquetá. Não havia horas mortas em sua rotina. Durante toda a semana parecia estar sempre atento, fazia pequenos consertos, trocava uma lâmpada, arrumava a antena, limpava a caixa d'água, podava o algodoeiro que ele mesmo havia plantado. (toda semana = toda e qualquer semana. Toda a semana = a semana inteira) Era um orgulho muito seu aquela planta, chegara a decorar seu nome científico.

 

Gossypium Hirsutum, da família Malvácea! Pode olhar no seu livro, pode conferir! Dizia com um ar professoral que não tinha.

 

Muitas vezes andava pela casa em silêncio, da sala para o quarto, do quarto para cozinha e daí para o quintal, desperto, procurando mistérios, nunca chegando a lugar algum, sempre de passagem. Seu único relaxamento era se indignar frente ao Jornal Nacional, ofício que cumpria mal entre pesados cochilos. Minha mãe, às vezes, desligava a televisão e ouvia sempre a mesma reprimenda:

 

− Não desliga, mulher. Estou ouvindo, só estou descansando a vista.

 

Ali seu dia já havia acabado, era sua senha secreta para que eu e meu irmão terminássemos nossas estripulias, a hora sagrada do silêncio. Porém, para ele, fazer a barba antes de dormir era um sacramento. Sua oração à Meca. Sua hóstia. Seu banho no Ganges. Um ritual que se repetia metódico sem a mínima alteração. Água, espuma, pincel, navalha. Seus apetrechos eram intocáveis, mágicos. Por muito tempo minha aspiração era ter uma navalha só minha. Hoje, que coisa, uso uma lâmina de barbear das mais ordinárias. Herdei seus pêlos, mas não seu capricho. Que Deus perdoe nossa triste degenerescência.

O cheiro do meu pai era esse, de limpeza, do álcool que passava no rosto. Eu achava que só os adultos tinham aquele olor, era aquilo, mais que tudo, que os faziam adultos. (fazer concorda com aquilo, singular) Crianças eram outra coisa, cheiravam ao talco que minha mãe me sufocava depois do banho, ou, os mais crescidos, a chiclete de bola, não era um cheiro sério. (com que minha me sufocava. Sufoca-se alguém com alguma coisa) Certa vez, por certo querendo virar gente grande, cismei de fazer a barba que não tinha e tasquei um tanto de álcool no rosto, pulei como um potro doido, arde até agora. Hoje, vivíssimo – mais do que antes até – não vejo meu velho com a frequência que gostaria. Porém, toda vez que estou com ele, seu cheiro lhe anuncia (o anuncia. Seria “lhe” se algo estivesse sendo anunciado AO pai) e eu, sem pudores, volto a cheirar meu pai. Com todo o orgulho do mundo.

 

 

 

 

 

 

Autor: Rodrigo Fernandes

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Começo engraçado, continuação nostálgica.

8,5

Cida Sepúlveda

Bonita, mas poderia ser mais enxuta.

9,0

Betty Vidigal

Ótima crônica.

 

10,0

Lorenza Costa

Perfeito, apenas os dois últimos parágrafos parecem ter sido revisados às pressas.

9,9

Oswaldo Pullen

Boa crônica

9,0

Marco Antunes

Bela,como são belas as coisas simples!

10,0

TOTAL

56,4

 

 

 

 

Crônica 8

Um presente para falar com Deus

 

Acordei com o toque do celular. Ainda um pouco sonolenta não reconheci de imediato a voz do outro lado da linha. Mais algumas palavras e o meu coração deu pulos de alegria. Era Helena minha amiga que há dois anos mora na França, onde faz uma especialização em comunicação. Estava de volta ao Rio de Janeiro e fazia uma conexão em Brasília.

-Você precisa vir ao aeroporto agora, tenho duas horas aqui em Brasília. Trouxe-te um presente que vai mudar a tua vida: a possibilidade de falar com Deus. Encontro-te no café. Desligou o telefone. (Acertar vírgulas, travessão...)

Abri os olhos. Olhei o relógio. 6.30h da manhã. Estava sonhando? Olhei o celular e me certifiquei se realmente teria atendido ao telefone.

Enquanto dirigia rumo ao aeroporto uma única pergunta martelando o meu juízo. Como falar com Deus? Por um instante pensei: será que ela vai me matar?

O aeroporto estava tranqüilo Subi as escadas rolantes e de longe vi Helena. Os cabelos presos lhe davam um ar elegante. O seu belo sorriso de menina e um longo abraço. Era o início de um domingo que ficaria marcado para sempre.

A garçonete aproximou-se, trouxe duas canecas de café puro e pães de queijo fumegantes. As palavras eram atropeladas pela quantidade de informações. Enquanto sorriamos de nossas próprias conversas, ela parou e tirou da bolsa uma caixinha e falou: - aqui tem a senha vai lhe fazer a mulher mais poderosa deste país.

Fiquei gelada e embora Helena falasse baixinho, essas mesas de café são muito próximas, impossível não ouvir as conversas. Todos me olhavam. Eram olhos de curiosidade. Eu não sabia se abria a caixa ou se falava alguma coisa. As pessoas agora eram mais interessadas do que eu. Um gole de café e aos poucos fui me recompondo.

A caixa maravilhosa de porcelana com feixe dourado. Dentro um papel amarrado com um laço de fita lilás. Era uma notícia de jornal: Deus tem uma secretária eletrônica. O artista holandês Johan van der Dong instalou um número local de telefone na Holanda para estimular as pessoas a deixarem suas mensagens para Deus.

Van der Dong disse que o objetivo é dar às pessoas uma oportunidade de parar e fazer uma reflexão sobre a vida. “Como rezar, deixar uma mensagem falada é a maneira de organizar seus pensamentos.”, ele diz. “É uma perfeita combinação para a reflexão.”

Os que discarem 06-4424-4901 (ou +316-4424-4901 para quem disca de fora da Holanda) a partir de 7 de março ouvirão: “oi, aqui quem fala é Deus. Eu não estou disponível agora, então deixe o seu recado depois do bipe”.

Embaixo, manuscrito em lilás: Quis dar a minha melhor amiga a oportunidade de ficar famosa, sendo a primeira brasileira a falar com Deus. Carinhosamente, Helena.

Os poucos minutos que nos restaram foram de muitos sorrisos. E Helena rapidamente me falou da confusão que tomou conta da Holanda quando esta notícia foi publicada nos jornais. O artista que virou celebridade para alguns e monstro para outros. O jornal que teve sua edição esgotada em questões de minutos. (em questão de minutos) O Congestionamento das linhas telefônicas e as secretárias eletrônicas de várias empresas que tinham seus números confundidos com o de Deus e que receberam milhões de recados. As igrejas superlotadas e os padres que não conseguiam dar explicações a todos que queriam a garantia de que suas mensagens seriam realmente ouvidas por Deus. E assim por alguns dias a Holanda pareceu viver o próprio apocalipse. Mas, pelo fato extraordinário criado pela grande mídia o país se notabilizou como o primeiro lugar do mundo com capacidade de um contado direto com o nosso Criador.

Discutimos como uma simples notícia de jornal pode se transformar num fato grandioso capaz de mudar a vida da população de um país inteiro com repercussões, não apenas na questão religiosa, mas na economia e na própria política de Estado.

Helena já se preparava para partir. Despedimo-nos ali mesmo no café. E fiquei olhando ela caminhar em direção ao portão de embarque, quando ela virou e gritou: - Não vai perder este número. É ele que vai te tornar a mulher mais poderosa deste país. Afinal de contas tu és a única aqui no Brasil a ter o número da secretária eletrônica de Deus.

O café inteiro se virou. Silêncio. Silêncio. Um silêncio profundo. Eu fiquei petrificada. Não conseguia mover um dedo. Aquela sensação de apatia. Por um segundo foi como se um branco tomasse conta do meu cérebro. O que pensar? O que fazer?Finalmente respirei fundo e consegui dizer: - calma. As pessoas não entenderam o que quis dizer e foram se aproximando e antes que chegassem mais perto, coloquei a caixinha na bolsa, olhei para um lado, olhei para o outro e pernas pra que te quero,desci as escadas correndo. Ouvi apenas o barulho das mesas e cadeiras que caiam trás de mim.

 

 

 

 

 

Autor: Lúcia Ana de Melo e Silva

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Falta ritmo. Revisão ortográfica e gramatical.

8,0

Cida Sepúlveda

É  Conto.

6,0

Betty Vidigal

Frases mal redigidas, sintaxe confusa.

7,5

Lorenza Costa

Conto

6,0

Oswaldo Pullen

Não é crônica.

6,0

Marco Antunes

É um conto.

6,0

TOTAL

39,5

 

 

 

Crônica 9

 

 

áxis mundis

 

A sociedade ocidental, fortemente influenciada pelo positivismo, ainda hoje vive agarrada à ciência convencional, que na sua pressa pelas descobertas e na sua voracidade pelo conhecimento, objectivo santo e sacro da “boa” ciência, esquece com facilidade tudo ou parte daquilo que a precedeu, fundou ou fundamentou e permitiu evoluir até ao estado presente. ( “permitiu que evoluísse” ou “permitiu-lhe evoluir”)

Quando somos confrontados com notícias como esta vinda do coração de África, normalmente apresentadas em notas de rodapé jornalístico e consideradas, pelos órgãos de comunicação social, bizarrias de um outro e imaginário mundo, o nosso primeiro impulso emotivo, mas acima de tudo racional (porque somos formatados positivamente) é rejeitar liminarmente tais ritos. Logo somos obrigados a adjectivá-los e a remetê-los para tempos depositados nos negros anais da nossa história e/ou a enquadrá-los com outras e estranhas civilizações que habitam geografias distantes e as quais remetemos para um estado como que pré-moderno – naquilo que é entendido por estádios de desenvolvimento civilizacional experimentamos já três paradigmas diferentes: a pré-modernidade que contempla todo o tempo anterior à revolução industrial, ao iluminismo e ao positivismo; a modernidade, que surgiu nessa época e nos acompanhou até meados do século XX; e a pós-modernidade, que supostamente experimentamos desde então e até aos dias de hoje.

Nessas civilizações ou culturas tradicionais pré-modernas, resistentes e sobreviventes, que coabitam conosco o mesmo espaço (mundo) e o mesmo tempo (contemporaneidade), o passado é respeitado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. É a tradição que lhes permite, reflexivamente, compreender a sua própria organização e comunidade, como é o meio ideal para lidar com o tempo e o espaço, onde se insere cada actividade ou experiência na continuidade de passado, presente e futuro. Nestas comunidades, mormente organizadas em tribos e chefados, o conhecimento e o domínio das suas técnicas estão concentradas e são monopólio de poucos, normalmente, oligarcas, chefes, xamãs ou feiticeiros, homens mais velhos e experimentados, que assim e com esses equipamentos exercem o seu poder e a sua magistratura, mantendo os demais vitaliciamente dependentes da sua influência e existência.

Aspecto importante e que convém ter em consideração quando ouvimos ou lemos histórias destas é o conceito de sagrado e de profano, dicotomia bem presente na organização dos espaços e dos lugares, como por exemplo o caos profano associado ao exterior da aldeia ou comunidade e à selva, e a sacralidade da própria aldeia, no centro da qual estará o áxis mundi, exprimido pela casa do chefe, ou pela presença de uma grande vara, que simbolicamente une o mundo dos deuses, o dos homens e o das trevas. Por outro lado, os detentores do poder imbuem-se da sacralidade necessária para manterem e protegerem o seu status e importância no seio da comunidade ou grupo.

Neste ambiente “naturalista” a Terra é sempre transparente, como se se oferecesse continuamente como mãe nutridora universal com os seus ritmos cósmicos geradores da ordem e da harmonia, que permitem a fertilidade e a permanência. Mas para estes indivíduos e comunidades também é verdade que a Natureza é sagrada e na sua convivência com esse sagrado existe, intrinsecamente, o elemento sobrenatural, que será o factor derradeiro de esperança e de garantia de tudo aquilo que os seus conhecimentos empíricos não conseguem explicar. Porque, a jeito de foice, uma Natureza dessacralizada é algo recente, típica de uma vivência moderna e, tendencialmente, ocidental, na qual os homens da ciência no referido e abismal percurso se perderam.

A morte é, por excelência, um dos momentos cuja compreensão será inatingível para todos os seres humanos. A cada experiência de morte está associada um ritual, uma moral e um preceito. Podemos encontrar por esse mundo fora mil e uma manifestações diferentes, mas a verdade é que não há uma única cultura ou civilização conhecida que não tenha o seu culto aos mortos. É algo de universal. Nestas comunidades tradicionais, mesmo os “carismáticos” e os “eleitos” não conseguem controlar e perceber a morte, portanto será sempre importante para a sua condição encontrar uma justificação, ainda que através de um bode expiatório ou tendo por base uma falsidade. A recorrência a práticas de magia negra e vodun são comuns nesta África Ocidental. Vividas como autênticas religiões, arrastam consigo a crença e a consciência social destas comunidades.

Da leitura que faço, este caso não será mais do que a procura de justificação para algo que ultrapassa em muito o entendimento desses indivíduos e, por isso nada melhor para empolgar e manter a fidelidade das multidões do que construir uma culpa, por mais absurda que pareça ou seja. E aí, quando essa culpa é formalizada e pronunciada, no seio da comunidade, não há lei civil nem religiosa, ainda que impostas pela diplomacia, pela força ou pela guerra da ocidental civilidade dos colonialismos, dos pós-colonialismos e dos neo-colonialismos, que consiga calar essa secular vivência e contrariar essa mundivisão.

Sem querer de alguma forma desculpabilizar ou justificar tais práticas, que em nada dignificam o ser humano, considero importante e pedagógica uma leitura e uma atitude relativistas, no sentido de conhecer, perceber e traduzir correctamente as diferentes expressões culturais com as quais, inevitavelmente, continuaremos a partilhar este mundo. A estratégia para se erradicar de vez este tipo de ritos passará obrigatoriamente pela educação e formação, o que requer tempo e disponibilidade. Mais do que agir através da força e da imposição de normas e padrões estranhos aos indígenas, importa implicá-los num processo de reflexão e reavaliação sobre as suas próprias tradições. Talvez assim, possam manter as suas práticas e rituais fidedignos à sua herança cultural e, ao mesmo tempo, preservar os mais básicos e fundamentais valores da vida humana.

 

 

 

 

Autor: Luís Vale

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Muito bem escrito.

8,5

Cida Sepúlveda

Mini ensaio.

6,0

Betty Vidigal

Artigo acadêmico até o último parágrafo, quando adquire tom de sermão.  Não é crônica.

Não diz a que fato ou notícia se refere. O leitor que não tiver lido a lista de “fatos” não tem como adivinhar o que motivou as considerações do autor.

6.0

Lorenza Costa

Duas menções a uma "história" e um "caso" que não são ventilados no texto. O cronista esquece que a crônica é dirigida aos que leram e aos que não leram o noticiário inteiro dos dias precedentes. Algumas passagens são exageradamente explicativas e, no final, temos a opinião de alguém pisando em ovos: um autor que não se decide entre o relativismo moral e a necessidade de defender valores "básicos e fundamentais" (usar outras palavras para "universais" já denuncia seu pouco à-vontade). Da minha parte pode ser excesso de rigor; mas rigor é o que o próprio cronista se impôs ao adotar o estilo didático.

8,5

Oswaldo Pullen

“Desculpabilizar”? O parágrafo que contém esta preciosidade é antológico. 

7,0

Marco Antunes

Trata-se de um ensaio,  um ensaio arrastado e pouco interessante em que o autor não sai de cima do muro, mas um ensaio.

6,0

TOTAL

42

 

 

 

 

Crônica 10

 

O BEIJO DO AMOR VERDADEIRO

Assumir a tarefa de transformar-se em si mesmo é o mais árduo e mais belo desafio que alguém pode se propor.

Mas em nosso tempo esta é uma prédica sem prática. Pregamos o autoconhecimento mas o buscamos fora, no hedonismo e no divã do psicanalista. Mas onde se compram bilhetes para uma viagem ao interior de si mesmo? Assim, a busca atual é pela aparência, não pela essência. Há muito, a simulação vale mais que a verdade. (melhor sem vírgula)

Por isso, histórias como a de Susan Boyle nos trazem uma esperança: é sempre tempo, afinal, de sermos o que somos.

Esse conto de fadas com sinal invertido começa no concurso Britain's got talent, um show de calouros da televisão inglesa. O programa, em si, é tão desinteressante quanto qualquer outro do gênero, com suas celebridades fabricadas e jurados histriônicos. Em geral, são os cabeleireiros, maquiladores e estilistas, e não os críticos musicais, quem mais trabalha nesses pseudo-reality shows. (quanto ao programa ser “tão desinteressante qualquer outro do gênero”, pode-se dizer que é questão de gosto, e o cronista não deve impor o seu como verdade categórica. Há quem ache esses programas interessantíssimos. Se não fosse assim, não teriam a grande audiência que têm.)

E lá vem ela, a escocesa com fisionomia de matrona russa. Cabelos ralos e mal arrumados, parecendo um plátano no outono. Olhos pequenos, ainda mais diminutos pelas sobrancelhas grossas. Sob o queixo duplo, a papada farta. É a anticelebridade.

Um dos jurados pergunta por que está ali. Ela, 47 anos e desempregada, numa voz quase infantil de garota travessa, diz querer se tornar cantora profissional. Espanto na plateia, expresso nos olhares de incredulidade e galhofa. Uma velha! Outro jurado, com pouca sutileza, questiona esse desejo tardio e olha de alto a baixo o corpanzil redondo-quase-quadrado de Susan. Em resposta, ela levanta parcialmente a saia, qual uma dançarina de can-can, e arrisca uns passos, insinuando que "ali tem conteúdo". Só esse gesto já faria prever uma daquelas bizarrices dos programas de auditório da tevê mundial. A expectativa é de que a qualquer momento um anão em trajes de príncipe saltará da coxia para cortejar a "princesa", enquanto esta desafina uma canção tola, sob pateada geral.

Eis que após os primeiros acordes da simbólica I dreamed a dream (Eu sonhei um sonho), a crisálida se rompe. Ali não está mais a gorda bochechuda, descabelada e mal-vestida. Em seu lugar, a voz. Na voz, a arte. E na arte, a emoção. É enternecedor vê-la cantando. É, de fato, uma daquelas surpresas inesquecíveis e raras que a vida nos proporciona.

Conhecermos Susan Boyle é uma dádiva do Youtube. A popularidade do seu vídeo, com mais de 5 milhões de acessos em poucos dias, não poderia ser prevista nem por Larry Page e Sergei Brin, os rapazes do Google, quando naquele almoço quase corriqueiro de negócios adquiriram o Youtube pela bagatela de US$ 1,65 bilhões. Curiosamente, o valor foi pago não pelo site em si (à época, dos mais ordinários), mas pelos milhões de internautas que o usavam como antídoto para o anonimato, buscando seus 15 minutos de fama naquele espaço virtual. É o delírio narcisista da autoexposição, marca do nosso tempo – músculos de rapazes seminus, coxas e bundas de garotas quase impúberes, gafes, flagras, anomalias e edições-piratas. Boa parte do conteúdo do Youtube é de "príncipes" e "princesas", lindos, previsíveis e vazios.

A ingênua quarentona escocesa é minoria nesse mar de vaidades. Ela é verdadeira.

Pode-se alegar, com justíssima razão, que houve todo um aparato preparatório da apresentação de Susan. Prévias em Glasgow, ensaios secretos e mesmo um making-off produzido por dois apresentadores do programa, para ser apresentado minutos antes da entrada de Susan no palco. Sim, os produtores sabiam o que tinham nas mãos. Mas isso não importa tanto. Ainda assim, Susan era Susan. 

Insisto, assim, no conto de fadas com sinal invertido, pois por mais simpatia que a imagem inusitada de Susan Boyle nos inspire, o nosso arquétipo de princesa, atávico, é o de Branca de Neve – órfã, mas linda – ou de Cinderela – sujinha, mas linda.

Na verdade, Susan era uma espécie de Bela Adormecida, presa num sono de 100 anos, ou de 47. Estava lá em potência, esperando para ser despertada em toda sua plenitude.  (toda a) Mas, (vírgula)  cansada de esperar, ela própria toma das mãos do príncipe o sapatinho de cristal e o calça. Este serve de imediato, à perfeição, pois era o sonho dela e de ninguém mais. Participar do programa foi isso.

 De minha parte, e com a liberdade própria do cronista, prefiro pensar em Susan como a princesa Fiona, de Shrek. A gorducha Fiona tem vida dupla: à luz do dia, na aparência e nos caprichos que os outros esperam de uma princesa, lá está ela, linda e vivaz; já sob a capa escura da noite, na verdade insconsciente e temida, ela é a ogra feia mas emotiva e carismática. Cabe a ela decidir sua forma verdadeira.

Quando Fiona opta por beijar Shrek e se tornar ogra para sempre, é como se beijasse a si mesma, pois era aquela sua essência. Eis o O Beijo de Amor Verdadeiro, o mais puro e cobiçado de todos os beijos, o mesmo que, ao participar do concurso, Susan Boyle teve coragem de buscar. (melhor  “teve a coragem de”)

Essa é a mulher que, horas depois, confessou ao mundo talvez o seu maior segredo: nunca fora beijada!

Comumente, o biógrafo escorrega na isenção e se apaixona pelo biografado. No caso do cronista, essa paixão pode ser explícita, e é sempre desejável.

Por isso, parafraseando Caetano Veloso, digo a você, Susan Boyle: 

"Tome esta crônica como um beijo."

 

 

 

Autor: Marcelo Larroyed

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Leitura agradável sobre “o conto de fadas com sinal invertido”.

9,0

Cida Sepúlveda

Bonita.

9,0

Betty Vidigal

O cronista deve expor-se, mas é melhor não expor as próprias opiniões como verdades inquestionáveis. Isto acontece  em diversos pontos, nesta crônica.

9,5

Lorenza Costa

Abordagem simpática mas previsível do tema (não à toa a noção de "conto de fadas" reaparece na crônica 24).

8,2

Oswaldo Pullen

Crônica razoável.

8,0

Marco Antunes

Muito lindinho! Precisamos de sonho! Precisamos, sim! Sem sonho somos “cadáveres adiados que procriam”, somo meio caminho entre o nada e o esquecimento. Um homem sem sonho é capaz de tudo, de todas as corrupções de duvidar de quem os tem, de massacrar os que cultivam, de fazer de si mesmo um arremedo do Mal. Que bom essa crônica que saúda os sonhos!

10,0

TOTAL

53,7

 

 



Crônica 11

 

O BEM-TE-VI E A FLOR LILÁS

Vocês não sabem a cruz que carrega um cronista de jornal. Foi-se a época de Rubem Braga ou Nelson Rodrigues. Hoje o cronista está nas mãos do editor. Pior ainda é sujeitar-se ao tal número de toques. É bom frisar que nessa tal contagem valem os espaços vazios. Até a pausa, aquele vazio inútil e sem pontuação alguma, passou a valer. Reticências, evitem. Usar interrogação e interjeição como forma de expressar uma expressão dúbia, nem pensar.

Houve um tempo em que o cronista era tão considerado quanto um magistrado. Época em que ninguém arriscava corrigir ou mexer no conteúdo de seu texto e o linotipista somente recebia ordem de montar a página quando a crônica chegava à mesa do editor. Mas acabou-se. Não há mais o respeito quase sacro pelo cronista, nem a crônica é tão reverenciada nas redações. E o cronista não era a figura virtual de hoje. Absolutamente! Ele estava bem ali, palpável, respirando na redação, sentado diante da Remington Rand, os funcionários e colegas jornalistas evitando incomodá-lo, mergulhados na fumaça provocada por um cigarro atrás do outro. Todos eram complacentes com o humor do cronista, mesmo quando chegava carregado e carrancudo, aceitavam as saídas inesperadas cinco minutos antes de fecharem o jornal, apreensivos, mas tudo pela crônica, grande acontecimento do jornal e criação muito pessoal.

Hoje? Além do problema dos toques, somos obrigados a selecionar entre os temas propostos pelo humor do editor o que está mais próximo do interesse do leitor. A crônica é escrita no frio do escritório, em casa. Não é incomum o editor dizer nas rodas de amigos “que a crônica expressa o que foi manchete na alma do cronista”. Fosse verdade, não imporia ao cronista selecionar entre trinta manchetes apenas uma que servisse ao trabalho. Isto mesmo: trabalho. Há muito tempo a crônica de jornal deixou de ser expressão da alma de quem quer que seja. Ou melhor, até a alma do cronista foi vendida ao diabo do capital e da tiragem.

Nem sei, leitor, se lerá esta crônica. Mas tudo é possível em redação de jornal! Tantas são as informações que chegam via agências de notícias que o editor pode num ato falho, provocado pelo stress e pelo saco-cheio, autorizar a publicação. Com certeza, caso seja publicada, está será minha última crônica neste periódico, precisarei procurar outro emprego. Talvez... De repente você ache engraçado e original este meu desabafo, assim como milhares de outros leitores, e transformem uma simples crônica semanal em um grande acontecimento globalizado. Do desemprego à fama; à crônica diária. Não! Por favor, diária nunca!

Não há nada mais desagradável do que você ter um editor que acredita conhecer sua alma e seleciona trinta textos de acontecimentos ocorridos no mundo, dos quais 30% referem-se a casos bizarros relacionados à sexualidade, 30% a acidentes ou alguma outra forma de violência; 20% à religião e 20% a casos totalmente esdrúxulos. Não há dúvida que a escolha reflete a sociedade dita pós-midiática, mas será também, com certeza, a responsável pela morte dos periódicos. Eu acredito, leitor, que há aí de seu lado cabeças que ainda não tiveram seus neurônios curtidos em formol e que poderão fazer a diferença.

Pode ser teimosia minha... Talvez resistência em aceitar as mudanças que ocorrem à velocidade da luz, o que nos envelhece muito mais rapidamente. É possível, mas me nego, a partir de agora, diante de meus leitores, a escrever sobre padres que se deixam fotografar nus para calendários de qualquer espécie, mulheres com cinto de castidade criando confusão por detonar o alarme de qualquer aeroporto, cidadãos que colocam o pênis em uma caixa de correio ou roqueiros que cheiram as cinzas do pai no lugar de cocaína, apenas para citar algumas das perversidades universais.

Hoje, por exemplo, minha alma não está nos temas propostos, mas muito próximo de casa. Moro no centro. Hoje cedo dois fatos me chamaram a atenção: o primeiro, experimentado logo ao acordar, foi a visita de um bem-te-vi na varanda de meu apartamento, deliciando-se com o mamão que deixara na noite anterior sobre um prato, e que, ignorando minha presença, fartou-se do fruto, abriu asas, cantou um sonoro bem te vi, e voou. Só não segui o pássaro, como fez Braga com a borboleta, porque seria suicídio, moro no sétimo andar, e por mais que esteja entristecido com minha profissão, gosto de viver, e não seria um modo agradável de visitar o cemitério; o segundo, ao sair para comprar pão, ao me deparar com a flor aberta bem na fissura existente entre a guia da calçada e o asfalto, com pétalas lilases e a corola amarela.

Estas duas experiências levaram-me à decisão de que resistência e teimosia, por assuntos pertencentes à alma no momento, serviriam à minha crônica semanal. Acho que cheguei lá, só não sei se agradará ao editor... Mas estou me lixando!

 

 

 

 

Autor: Carlos Pessoa Rosa

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Este cronista rebelde produziu um ótimo texto. As manchetes na alma do autor também o seriam na minha.

9,5

Cida Sepúlveda

Bem escrita, boa idéia, mas falta enxugamento

8,5

Betty Vidigal

O autor desconhece a realidade dos cronistas antigos. Sempre foi necessário submeter-se à tirania dos “x toques”, só que não havia o Word para contá-los. Os textos produzidos em “Remington” deviam ter x laudas, e uma lauda equivalia a 30 linhas de 70 toques (sendo que os espaços eram contados, sim, como um toque! É difícil contar “caracteres sem espaços”, isso é novidade pós-Word). Os revisores eram figuras muito mais presentes do que hoje, e os copidesques alteravam à vontade a redação das crônicas recebidas. (O copidesque – ou copydesk –  é um personagem que sumiu dos jornais. )

8,0

Lorenza Costa

Boa crônica, apesar da visão romantizada em excesso do jornalismo pré-computador. Como se "número de toques" e palpite de editor fossem problemas do jornalismo atual, e não do outro.

9,0

Oswaldo Pullen

O texto não está ruim, apesar de ter fugido da enormidade de temas propostos e, portanto, das regras do certame.

7,0

Marco Antunes

não seria um modo agradável de visitar o cemitério” É mesmo? O ilustre cronista rebelde poderia sugerir-me um? Seria alguma coisa tipo ir ao enterro de um renomado canalha? É, vá lá! Se você tem uma alma vingativa como a minha, existem, sim, modos agradáveis de ir ao cemitério! A crônica é muito boa!

9,5

TOTAL

51,5

 

 

 

Crônica 12

Considerações sobre o vazio

 

Tem dias em que uma página em branco me deixa desesperado. Não importa se estou diante do computador ou com um papel na mão. Meus olhos contemplam o branco imaculado, perfeito, e minha mente entra em pânico. Como posso conspurcar aquele templo perfeito, repleto de possibilidades, com palavras limitadas e que não expressam tudo o que pretendo passar para o leitor? Como posso quebrar o equilíbrio dessa página com idéias que eu mesmo não compreendo totalmente?

Escrever é um processo complicado. Exige um momento de reflexão e de coragem. Coragem para manchar a página em branco com algo que valha à pena (sem crase) reservar um tempo para ler. Coragem para transmitir ao leitor pensamentos que me são tão caros e que podem dizer tanto a meu respeito. Enfim, coragem para criar Vida.

Sim. Vida. Porque um bom texto pulsa aos olhos de quem lê. Ele exige que a leitura não seja interrompida sem um certo arrependimento. Ele nos puxa e nos prende à sua intrincada rede de mensagens explícitas e subliminares. Muitos, (sem vírgula) exigem diversas releituras para que seus segredos possam ser desvendados com maior exatidão. Segredos que, muitas vezes, nem mesmo o próprio autor compreende totalmente. Pois quem pode entender a Vida em sua totalidade?

Alguns textos se manifestam de maneira tão selvagem que até mesmo ameaçam escapar do domínio dos autores. Uma palavra puxa a outra e o mesmo se dá com as frases e os parágrafos, que multiplicam-se como coelhos descontrolados e alegres. E eis que me vejo no meio de uma narrativa tendo que parar e pedir desculpas a você, caro leitor, pelas divagações a que minhas linhas de raciocínio me levaram.

Não era minha intenção discutir a Vida inerente aos textos, que tantos nos atraem e fascinam pelos mais diversos motivos. Mas sim iniciar um diálogo a respeito do vazio que precedeu a impressão de minhas palavras. Um vazio que, em muito, me lembra o derradeiro momento, o fim de todas as coisas, a Morte em sua manifestação mais pura e assustadora.

Talvez aí esteja a razão de ter fugido um pouco do cerne do texto que me propus a escrever. Afinal, é tão chato falar da Morte. Da sensação de vazio que ela nos deixa ao levar um ente querido de perto de nós. Ou uma pobre alma desconhecida que tivemos a infelicidade de ver largada na beira da estrada, após um triste acidente de carro. Basta sentir um frio na espinha para falarmos que alguém andou sobre o nosso túmulo. (dizer e falar são coisas diferentes. Aqui, o correto é “dizer”) E de repente pensamos no relógio biológico que carregamos conosco. No coração que um dia parará de bater em nosso peito e nos levará diretamente ao encontro Dela.

Outro dia, fui ao cinema com minha namorada assistir a Marley e eu. (assiste-se “a” um filme ou um espetáculo. Assistir, sem “a”, é “ajudar”) Assim como paro de vez em quando antes de iniciar um texto, hesitei em aceitar o convite para ver aquele filme. Não por achar que a película não agradasse ao meu paladar. Mas por já conhecer o final da história. E, se você ainda não teve a chance de assistir ao filme, peço desculpas por lhe fazer essa revelação. Sim, o cachorro Morre no final. Sim, isso me deixou abalado ao fim da sessão.

Chorei. Não tenho medo de admitir isso. Me desmanchei em lágrimas nos braços da minha namorada e me entreguei a uma dor que nem lembrava carregar. Aliás, minto. Lembrava sim. Só não queria a encarar de frente. O problema é que o filme me lembrou de uma pastora alemã que eu tinha. Seu nome era Ursa e acredito que nunca tive uma cachorra mais atenciosa do que ela. E aqui faço mais uma confissão, eu não fui o dono que ela merecia ter.

Ela não era a minha preferida e creio que a magoei diversas vezes em Vida. (por que maiúscula neste “vida”?) Até o dia em que ela ficou doente e o veterinário me deu a opção de sacrificá-la ou iniciar um doloroso tratamento que, ainda assim, terminaria com a sua inevitável Morte. Senti um aperto no coração. Só então percebi o tanto que amava aquele animal. Passei a valorizá-la mais do que tudo e a lhe dar todos os remédios receitados religiosamente. (a redação da frase faz parecer que os remédios foram religiosamente receitados)

Até o dia em que o sofrimento dela se tornou insuportável e precisei sacrificá-la para fazer a dor ir embora. Como chorei aquele dia. Me entreguei à dor da perda, mas não o fiz completamente. Um sentimento de culpa, de não ter dado o melhor de mim a ela, impediu que eu me entregasse completamente. Mas me senti melhor depois de enterrá-la. Senti que seu espírito canino tinha encontrado a paz. E isso me confortou.

No entanto, ficou um vazio, que provavelmente já estava lá e continuará ali até o fim da minha Vida. (quando você se referia à Vida, genericamente, no início, era razoável usar a maiúscula. Mas quando fala na sua vida ou na do seu cachorro, pensar um pouco na adequação dessa opção. Assim como “morre” com maiúscula, acima, falando do personagem do filme. A essa altura, “vazio” também mereceria inicial em caixa alta...) Vazio que acredito ser comum a todos aqueles que, como eu, passaram por uma experiência semelhante de perda. Sei que meu caso pode não parecer dos piores. Para muitos, trata-se apenas da perda de um animal de estimação. Mas essas pessoas não compreendem o sentimento de culpa que ficou. Que dá mais força à (sem crase) essa Morte específica do que a de outros animais que tive ou mesmo de alguns conhecidos ou entes queridos.

Voltei a pensar nisso ao descobrir outro dia um fato inusitado da vida do polêmico guitarrista do Rolling Stones, Keith Richards. Ele contou em uma entrevista que cheirou as cinzas do pai junto a uma carreira de cocaína. O próprio pai usado como droga. Sei que trata-se de uma pessoa pública, que talvez goste de dar respostas para chocar o público. Mas parei para pensar um instante na dor daquele homem.

Cada ser humano tem um jeito próprio de lidar com a dor da perda. Keith Richards, assumidamente viciado em drogas, cheirou as cinzas do pai. E nisso eu posso ver o vazio que o guitarrista deve ter sentido para chegar a ponto tão extremo. Se me concentrar, chego a enxergar o arrependimento do astro do rock de não ter dito tudo que queria para o pai. Da dor que provavelmente levará para o túmulo sem compreender.

Todos estamos suscetíveis a esses sentimentos devastadores trazidos pela Morte. Pois nunca chegaremos a compreendê-la plenamente em vida. E todos nos encontraremos com Ela no final. É o grande mistério. A barreira final. A página em branco que me atormenta sempre que decido dar vida a um texto, seja ele qual for.

 

 

 

 

 

Autor:  Pablo Rebello

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

No início o texto “pulsa aos olhos”, mas depois vai perdendo o interesse.

8,5

Cida Sepúlveda

Começou e acabou bem, mas foi prolixo no durante.

8,5

Betty Vidigal

Boa crônica no breve trecho que fala sobre o assunto dado. Um pouco extensa e cansativa ao conjeturar sobre a morte e ao falar da morte da Ursa. Se foi tão importante, seria legal ter falado um pouco da cachorra quando estava viva, para criar empatia no leitor. As conjeturas sobre a vida e a morte não trouxeram nenhum pensamento original.

8,0

Lorenza Costa

Às vezes repetitiva, às vezes piegas. Precisa de revisão. 

 

7,5

Oswaldo Pullen

Texto fraco, em que o autor perde muito tempo no velho chavão da crônica sobre escrever crônicas e toca só de leve no tema escolhido.

7,0

Marco Antunes

Velhos temas, sentimentalismo e um texto apenas bom.

8,5

TOTAL

48

 

 

 

Crônica 13

 

 

A Bolsa da moça chinesa

         Conta a notícia que a mocinha chinesa teve roubada na rua a sua bolsa, com documentos, dinheiro, celular, cartão de crédito etc. por um jovem ladrão. Ela lhe enviou mais de vinte e-mails, solicitando a devolução das coisas e concitando-o à boa ação, com sermões de cunho moral e talvez patriótico. (ela não lhe mandou e-mails! Mandou msgs de texto para o número do celular!)

         O verossímil na história é que ambos circulavam na rua de bicicleta e pouco provável o fato de que admoestações pudessem comover o autor do furto. (ou “o verossímil é que” e “o pouco provável é o fato de que” ou “Verossímil que“ e “pouco provável que”, ambos sem “o”). Ao final da história, o larápio devolveu a bolsa ao quintal da moça e prometeu se regenerar com boas ações. Não sei como a moça teria achado o e-mail do rapaz. (não achou...)

 Na China de hoje, cartões de crédito, internet, e-mails são fatos reais, embora isso pareça estranho para quem ainda imagina o antigo Império do Meio com suas tradições milenares, ou envolvido na aura revolucionária da Grande Marcha de Mao-Tsé-Tung.

Na década de 1960, ouvíamos a Radio Pequim transmitindo diatribes da turma de Mao contra os “renegados capitalistas” Liu-Chao-Shi e Deng-Shiao-Ping, ainda na grafia antiga, e não entendíamos como, na China comunista ortodoxa, um presidente da república e outro alto membro do PCC poderiam ser “renegados capitalistas”. Não conhecíamos nada da China. Só em 1978, dois anos após a morte de Mao, Deng-Shiao-Ping rasgou o véu da nossa ignorância e começou a implantar, com ferocidade e alta eficiência, o renegado capitalismo, de que fora acusado em meio às querelas do partido comunista chinês, de cujas entranhas não sabíamos nada. Hoje, a China é a grande potência capitalista, que em breve superará os Estados Unidos da América.

Está aí explicado porque a mocinha chinesa gosta tanto de celular e de computador, e o mocinho ladrão, idem.

Poderíamos imaginar um diálogo entre os dois :

--- Oh rapaz, em nome da Praça da Paz Celestial, devolva-me a bolsa, o celular, o cartão de crédito. Com o dinheiro pode ficar.

--- Nem te ligo, garota.

--- Eu insisto, porque ainda acredito na bondade humana e até na força do pensamento de Mao-Tsé-Tung.

--- Bobagem, moça, Mao já era. Agora é a vez de Deng. O que vale é ganhar dinheiro, seja lá de que modo for. Eu estou dando minhas surripiadas, e vou virar capitalista, empreendedor. Estou seguindo os conselhos de Deng : não importa a cor do gato, e sim, que ele pegue ratos; enriquecei-vos e dane-se o resto.

--- Que crueldade, rapaz, lembre-se de que nosso país tem milhares de anos. Siga os conselhos de Confúcio e de Lao-Tsé. Deng e seus discípulos vão passar. E você não tem medo dos retratos de Mao na Praça da Paz Celestial ? Porque será que a turma de Deng não jogou fora as fotos de Mao, nem o retirou das notas do dinheiro que você me furtou ?

--- Ora, moça, as aparências enganam. Ainda hoje os poderosos são membros do “Partido Comunista Chinês”, e os norte-americanos adoram negociar com eles, não têm medo das suas bombas atômicas, embora reclamem da bombinha coreana.

--- Não mude de assunto. O que quero é minha bolsa de volta, principalmente meu celular e meu cartão. Apelo para a sua dignidade humana e até para o seu patriotismo. Já pensou, se vasa para o exterior a noticia de que rapazes chineses andam roubando moças no meio da rua?

--- Pouco me importa, estou desempregado e descobri que surripiar bolsa de garotas desatentas como você dá mais dinheiro do que trabalhar doze horas por dia em fabricas de chips de computador ou de telefone ou de lâmpadas fluorescentes.

--- Oh cara, você não tem jeito mesmo. Você deve ser filho único, como manda a lei. Eu, que sou mulher, escapei do infanticídio feminino, e tenho agora de me prevenir contra esses filhos únicos, como você, que não têm caráter e só pensam em roubar os outros e enriquecer. Vá para o inferno, e que o dragão o engula para sempre.

--- Menina, agora você me comoveu. Eu sou mesmo filho único e tenho muita pena de não ter tido uma irmãzinha. Meus pais ficaram lá no campo e eu vim para Pequim ganhar a vida de qualquer jeito. Vou pensar no seu caso e talvez lhe devolva a bolsa. Não me xingue mais, que eu ainda sou humano. Tchau.

 

 

 

 

Autor: Mauro Madeira

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Falta sabor ao texto, principalmente, ao diálogo.

7,5

Cida Sepúlveda

 É conto.

6,0

Betty Vidigal

A notícia fala em “uma mulher” e “uma professora”. Nada leva a crer que se trate de “uma mocinha”, “uma garota”.

Bom diálogo, criativo. A retrospectiva histórica é desnecessária. 

 8,0

Lorenza Costa

Não havia necessidade de explicar como e por que uma chinesa hoje tem acesso a cartão, celular e e-mail. O diálogo, mesmo considerando a intenção humorística, não se resolve muito bem. Há muita revisão a fazer.

7,3

Oswaldo Pullen

Fraco.

7,0

Marco Antunes

As pessoas tem me perguntado por que ando tão bonzinho, mas, na verdade, tenho gostado muito do que leio. Aqui no caso achei vigoroso o diálogo, a lembrança de Arnaldo Jabor, que é chato, pretensioso e  repetitivo de suas velhas ejá cansadas fórmulas me incomodou um pouco.

9,0

TOTAL

44,8

 

 

 

 

Crônica 14

Padres de calendário

A notícia dá conta de um calendário que, e passo a citar, mostra 12 padres escolhidos por sua beleza física. E eu penso que é um modo comum de actuar neste mundo de imagem. É até um método que a igreja católica nunca reprovou, antes pelo contrário: passar a papel os seus “santinhos”. A notícia não era de molde a mais reflexão, a que eu lhe desse grande atenção. No entanto, indaguei na Net pelo calendário ao qual aludia a notícia deixando um endereço.

Confirmei a beleza dos moços, mas isso, por si só, não seria motivo para crónica: um calendário; doze meses; doze homens belos, um a seguir ao outro. Passou uma tarde e dei comigo matutando: doze homens castos desde o mês das Janeiras até ao Natal. Doze padres soberbos: homens da mais pura beleza que deus deu. Padres da igreja onde um dia tomei baptismo e confessei pecados. Deparei-me com o sincero espanto do meu eu profundo e uma plêiade de interrogações e ecos. Eu que deixei de saber rezar muito, vi-me a pedir: senhor, afasta este cálice dos meus olhos; que deus me valha, e na falta dele, me acudam fadas ou duendes, mas não me deixem memória sequer destes doze acólitos, diáconos e padres.

Ainda tentei desvalorizar a intensidade daquele meu sentir, lembrando-me da história de um outro calendário. Engano. Nem com senhoras nuas a fazerem cozinha, esse outro chegava ao nível deste ilustrar dos meses que a notícia diz vender-se em solo Vaticano e estar a esgotar tiragens. E eu a elucubrar: o calendário leva decerto a palma aos calendários de meninas que forram as paredes da oficina do meu sapateiro. Eu a deparar-me com a essência da notícia, o que é subliminar nela, escrevo de jacto, sem poupar uma linha ao espaço que me é devido.

 

Aflige-me imaginar a reacção do turista que entra e sai da Capela Sistina. O calendário é dirigido a ele. Como diz a notícia: em cada fotografia vem um informativo aos turistas que visitam o Vaticano. Não tive acesso a seu conteúdo, mas imagino o turista, devoto e desprendido, confrontado com cada um dos retratos e o seu conjunto: doze meses. (confrontar não é a palavra ideal aqui. “Defrontando-se”, talvez). Terá decerto rezado aos deuses da cristandade romana e apostólica e católica, ou que sejam outros os deuses e outra a irmandade; terá orado, estupefacto, que nem um dos fotografados, um que seja, esteja orando, de joelhos, ou prostrado em unção da fronte sobre solo santo. Doze rapazes na força da idade. Doze futuros bispos. Doze potenciais cardeais. Um deles poderá ser o futuro chefe da igreja. E se é verdade, que uns tantos aparecem de paramentos brancos e doirados, rendas e chapéus, que todos envergam batina e colarinho branco, parece que os terão posto para mais despertar o que neles é apelo a que se lhes trate com carinho o corpo, que neles é casto, ungido apenas pelos líquidos baptismais e outros igualmente santos. Nem salivares ou outros líquidos, que não seja o leite que lhes terá escorrido nos cantos da boca ao mamar, cada um deles, o maternal seio.

E o turista devoto terá clamado perdão, que pecava ao enfrentar os olhares de cada um dos padres daquele calendário. E, na dúvida do préstimo para o espírito, que teria aquele papel impresso, terá ficado pejada de retratos a Praça de São Pedro.

Uma pena, que tenham sido assim espezinhados aqueles belos moços.

Depois que, via Net, a notícia é divulgada pelo mundo, terá sido a loucura. Esgotam-se novas tiragens. E hoje, que vos falo, andará meio mundo a enviar FW, a fazer cópias pirata: um clique, um jacto de tinta, e ali está o calendário estendido sobre a mesa de trabalho, resguardado por um vidro, colado no frigorífico. Quiçá, aos pés da cama o coloquem os mais devotos, enquanto eu discorro a encontrar a lógica desta divulgação inusitada de tanta carinha laroca da igreja romana: os melhores, os padres mais garbosos. Eu a tentar reflectir sobre as intenções de se editar um calendário destes: a notícia não diz e não achei na Net.

Talvez no Vaticano ande algum louco à solta, que disponibiliza pelo mundo os mais belos exemplares dos seus padres e diáconos, futuros bispos e papas, apenas para arrecadar uns cobres.

Ou, quem sabe, o alvo da promoção da padralhada mais jovem através do calendário, seja o de ir fazendo o caminho, avisando o povo, que a igreja está mudando, que se preparem as beatas para um destes dias ser preciso que ajeitem paramentos nas suas sacristias. Umas emendas nas mangas, descerem bainhas ou acrescentarem, nas opas, um entremeio de renda, com cachinhos de uvas e anjinhos. É que os padres que substituírem os que estão agora no activo, nem terão barriga, nem serão baixinhos: moços na força da vida, habituados ao ginásio e ao jogging, hão-de querer passar para outra hora a missa das seis, que têm o squash nesse horário.

E, num a propósito, aproveito para dizer que me parece que a Igreja seria decerto outra, mais pujante, mais cheia de devotos nem só nos dias santos, se no supremo magistério estivesse um daqueles garbosos homens tipo Gary Grant já grisalho, já octogenário, mas que desse gosto ver passar na transparência no carro anti-bala ou falando da janelinha ao seu povo e a transportar o ceptro o com outra função que não a de cajado.

Nesta linha, considero que o calendário possa ter por único fito angariar novos adeptos para o sacerdócio. Uma mensagem contida em cada foto, do tipo: “você ficará bonito como noviço”. Ou, mais prosaico, mas mais incisivo: “seja um deles”. E ficar, assim, a igreja com os mais jovens, saudáveis e belos homens no seu lote.

Ou, vendo a coisa noutro prisma, talvez tenham feito os rapazes apenas serem isco, para angariar a devoção de moças jeitosas, com belos cus e mamas, e assim dotar os locais de culto de beatas à altura dos seus padres. Substituir as tradicionais mulheres viúvas ou esposas mal casadas e solteironas feias.

Como epílogo, ainda deixo dito, do fundo do meu agnosticismo, que me fica como convicção, que a finalidade inalienável deste calendário será fomentar a prece, zelar pela salvação das nossas almas. Oraremos a olhar em cada mês um moço; a percorrer-lhe o rosto e o que demais que possamos ver-lhe na foto; faremos oração imaginando-o a nosso lado, de mãos postas, a orar connosco. Uma vez por noite, doze meses, e ficaremos com um lugar no Céu.

Venham pois mais calendários com mais moços padres.

 

Nota: E não resisto a deixar um pedido fervoroso a quem de direito: editem calendários com fotos de freiras escolhidas por sua beleza física. Com calendários desses, estou em crer, muito mais a santa madre igreja ganharia em orações e sacerdotes.

 

 

 

 

 

Autor: Maria de Fátima Correia

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Provocativo.

10,0

Cida Sepúlveda

Excelente.

9,5

Betty Vidigal

Excelente.

10,0

Lorenza Costa

O melhor da crônica é esse pasmo do cronista diante da notícia - pasmo que vem e vai, em movimentos circulares, sem que ele nunca chegue a uma conclusão precisa sobre o que deve pensar. Há várias passagens hilariantes, mas a nota final é sem graça. Precisa de alguma revisão.

9,3

Oswaldo Pullen

Excelente texto. Sutil em sua malevolência.

10,0

Marco Antunes

A crônica é excelente! Confesso que o belos “cus” chocou minha brasílica sensibilidade e verde-e-amarelo pudor, pois aqui não se diz assim, “bunda” se pode, mas “cu”, no Brasil, é especificamente o ânus! E seu uso choca qualquer ouvido tupiniquim! Não tem que saber disso a autora, mas achei curioso comentar! Sobre o tema, muito bem desenvolvido pela autora, penso nessa beleza da criação e lamento o silêncio do prazer diante da algazarra dos dogmas sem fundamento e recordo a bela música de Gilberto Gil logo abaixo transcrita, que é a mais bela visão do tema!

10,0

TOTAL

58,8

 

 

 

Crônica 15

 

As Virtudes de Kailash Sing

 Normalmente os homens lavam-se e perfumam-se quando querem ter filhos. Aproximam-se da mulher com o seu melhor cheiro e as coisas acontecem. Kailash Sing tenta uma abordagem diferente: não toma banho há 35 anos. Já conheci hippies mais higiénicos.

 – É mesmo verdade que Kailash Sing não toma banho há 35 anos? – perguntei ao taxista.

 – Não precisa. Está imerso em orações. Banha-se em rezas.

 – Como é que ele é capaz?

 – Um dia de cada vez. Eu também estou a tentar largar o vício.

 Talvez haja alguma virtude no comportamento de Kailash Sing. O charme pelo qual se reconhece um francês deve incluir, além da baguette debaixo do braço, uma higiene – como dizer sem ofender? – mais dedicada aos perfumes. A água é utilizada com parcimónia. Lembro-me duma campanha publicitária que dizia que certo desodorizante “evita até o banho semanal” (juro que é verdade). E há povo mais charmoso do que os franceses? Et voilà: Kailash Sing pode ter razão com a sua humilde e inconsciente francofilia.

 – Ele evita a água, mas lava-se com fumo – informou-me o taxista.

 – Eu, por outro lado, há já cinco anos que não fumo.

 – Isso! Um dia de cada vez. No worry, no hurry, chicken curry, ha, ha, ha!

 Lotário di Segni, que, um dia, viria a ser Papa com o nome de Inocêncio III, escreveu umas coisas que, segundo ele, demonstravam como o ser humano é um beco pouco recomendável. Dizia Lotário que, enquanto as flores e as árvores exsudam óleos, seivas e perfumes, nós somos uns sacos de vermes, fezes, gazes (gases), suor e urina. As palavras que ele utilizou tinham menos tacto do que as minhas, mas a ideia é esta. E nunca me canso de lembrar que Séneca morreu a tomar banho. Nunca a higiene foi tão perversa nem tão inimiga do espírito. E Lucano, o poeta sobrinho de Séneca, teve um fim idêntico ao tio. Fausta, mulher do imperador Constantino, também sucumbiu na banheira. O rol é grande demais para ser enumerado, mas ficam estes exemplos que serão suficientes para alertar o leitor do terror que o espreita na banheira e no bidé.

 – Kailash Sing é um santo – disse-me o taxista. – Já vi saddhus ficarem com o braço levantado durante 15 anos. Kailash Sing chegou mais longe no seu ascetismo.

 Sou forçado a concordar com o motorista, apesar de imaginar o pânico que seria se Kailash Sing levantasse o braço, nem que fosse por distracção. Mas imagino-o capaz daqueles milagres triviais: creio que aqueles pés serão capazes de fazer crescer flores por onde passam. Elas gostam de ser estrumadas.

 O taxista continuou em defesa do homem:

 – Os santos caminham sobre as águas, Kailash Sing nem as toca.

 – Não entendo as reticências de Shiva – concordei.

 – Ele merece um herdeiro. Ele foi mais longe, muito mais longe.

 Interrogo-me: E Pilatos? E se ele não tivesse lavado as mãos? Há muita coisa em jogo que favorece o asceta que não se lava.

 Do lugar onde estou consigo ver Kailash Sing junto a um templo em forma de linga, respeitosamente afastado de qualquer lugar com água. Daqui ouve-se, claramente, o lamento dos germes queixando-se daquele corpo demasiado povoado, mais lotado do que a própria Índia. Kailash Sing não é uma pessoa com uma grande área habitável, o seu corpo não tem aquelas pregas do americano médio, bem nutrido, que são propícias à fermentação. Os germes chamam a isso condomínio de luxo. O corpo agreste de Kailash Sing não permite mordomias.

 – Aquilo é uma tanga que ele tem à volta da cintura?

 – É crosta.

 E quando chove, aquando das monções, consigo imaginar Kailash Sing a fugir desse diabo líquido que escorre dos céus. Deve fintar as gotas de chuva com o seu corpo esguio.

 – Como é que Kailash Sing se dá em situações de grande pluviosidade, grande precipitação? – perguntei ao condutor.

 – Usa guarda-chuva, mas as monções são um inferno.

 Varanasi é uma enorme oração, um lótus completo. As pessoas juntam-se, banham-se no Ganjes – essa banheira sagrada – para pedirem a Shiva que acabe com a malária, o cartesianismo e com a promessa de Kailash Sing. Shiva não ouve ninguém, foi o primeiro a abandonar o panteão. Nem um deus aguenta aquele mau cheiro. Ainda sugeriu – antes de debandar – que se usasse Kailash Sing como arma biológica contra o Paquistão. Mas a ONU deixaria? Provavelmente sim, mas outros deuses se oporiam. São, ao todo, 33 000, são muitas opiniões a ter em conta. Até o céu hindu é sobrepovoado.

 Eu sentenciei, quase em sânscrito:

 – Tal como a beleza está nos olhos de quem olha, o mau cheiro está nas narinas de quem cheira.

 A verdade é que situação de Varanasi está próxima do insustentável. E até imagino a solução: Os hindus são pessoas que transmigram muito. Com a crise não é tão fácil quanto nos primeiros Yugas, mas pode ser uma saída. Shiva terá, em breve, de voltar ao seu lugar divino e resolver a questão:

 – Não transmigro – dirá, teimoso, Kailash Sing.

 –Tem de ser – assevera-lhe Shiva. – Tem de ser, meu caro devoto.

 – Nem morto.

 

 

 

 

Autor: Afonso Cruz

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Bem-humorado, bem escrito.

9,0

Cida Sepúlveda

Corrosiva.

10,0

Betty Vidigal

Excelente.

10,0

Lorenza Costa

Até o clima de conversa com o taxista é convincente (naquela medida em que tipicamente conversamos com o taxista evitando um excesso de exposição, enquanto ele, o taxista, fala pelos cotovelos e tem opinião sobre tudo). Crônica engraçada e sem concessões ao politicamente correto, o que já é uma bênção.

10,0

Oswaldo Pullen

Ótimo, ótimo!

10,0

Marco Antunes

Excelente!

10,0

TOTAL

59

 

 

 

Crônica 16

 

Casal contrata vizinho para gerar filho

Você conhece aquela do casal alemão que queria por que queria, (sem vírgula) ter filhos apesar do marido ser estéril? É muito engraçada.

O marido era improdutivo. E por isso resolveram contratar um vizinho, pai de dois moleques, para gerar a tão desejada criança. O vizinho se esforçava, comparecia três vezes por semana e a contratante nada de engravidar. Tantas fizeram e tantas vezes tentaram, por seis meses, e nada da mulher botar barriga. Até que o marido insistiu para que o contratado passasse por exames médicos. Os testes mostraram que o infeliz também era estéril. Os olhos acusativos concentraram-se numa pessoa. Por causa disso a esposa do vizinho confessou que as duas crianças não eram dele.

Não é piada. Foi manchete, com nome e sobrenome dos envolvidos, na revista Bild.

Eu me pergunto: o que leva um casal a essa loucura? Porque um estranho aceitaria a incumbência? Como seria o contrato entre gerador e geratriz? Será que a moça em questão era um sonho ou um pesadelo? Como seria a escolha do vizinho adequado? Quais as qualidades procuradas no gerador? Como seria a execução contratual?

Com tantas perguntas, para um caso tão bizarro, resolvi, eu mesmo, criar personagens e bastidores do fato. Vício de escritor.

Na minha opinião, a mulher em questão só pode ser uma balzaquiana fogosa, de personalidade forte e preocupada em atingir a idade em que a gravidez começa a representar risco. O homem realiza todos os desejos da amada, foi bonito e forte, agora já está passadito e cada vez mais mesquinho. Após 15 anos de casamento, ela só fala em crianças enquanto ele vê futebol na tevê. Só larga a cerveja para mudar de canal.

Eu, com certa experiência de vida, tenho cá os meus palpites.

Após 10 anos de insistência o marido fez os exames de fertilidade e comprovou-se porra nenhuma. A esposa desespera-se e propõe a fertilização in vitro. O muquirana do esposo sugere a adoção imediato, sensato e barato. Ela, por sua vez, levanta a blusa e diz que mãe, só de barriga. Nem adoção, nem inseminação. Quer tradição. Só para ficar na rima.

O marido faz cara de interrogação.

— E existe alguma outra forma?

— Para engravidar sem gastar, melhor um amigo fértil, (sem vírgula)  chamar.

O marido se incomoda com outra rima pobre e coça uma pequena protuberância na testa.

 — Como assim?

A gente podia chamar o Dieter que tem três filhos. Ou o Hans pai de duas filhas ou ainda o Fritz que tem seis herdeiros, todos loirinhos e de olhos claros.

— Você está absolutamente maluca! Essa idéia é ridícula, absurda, ofensiva e paranóica. Esses três bastardos moram muito longe. Recuso-me a pagar vale-transporte para neguinho vir, (sem vírgula) até a minha casa, (sem vírgula)  trepar com a minha esposa.

— Se o problema for esse, podemos pedir a algum vizinho.

— Não gosto de pedir nada a vizinhos. Hoje a gente pede um favorzinho e amanhã o sujeito fica à vontade e se sente no direito de pedir emprestado sal, açúcar ou farinha. Onde já se viu?

Ela joga os cabelos por cima dos ombros, morde o lábio, provocativa.

— Amorzinho, eu te amo tanto. Em vez de pedirmos um favor, simplesmente, a gente poderia propor um trabalho profissional.

— Isso faz sentido. Mas você sabe muito bem que odeio a idéia de gastar dinheiro.

— Não se preocupe, olhe estas minhas coxas – levantou a saia . — Acho que o futuro pai das minhas crianças pode dar um bom desconto por causa delas.

— Ainda acho lunática a idéia de chamar alguém para fazer os nossos filhos.

— Que bonitinho. Você está com ciúmes. Isso é bobagem. Um contrato é o melhor caminho para transformar pudores em ofício. Tudo será profissional, sem nenhum tipo de envolvimento pessoal.

Nestas alturas, concluo que a discussão entre o casal se transformou em uma reunião de negócios entre dois sócios que procuram viabilizar, objetivamente, assunto de alto interesse para o sucesso da empresa.

            — O vizinho da casa 38 — propõe ela — é jovem e já tem dois rapazes e duas moças.

— Ele bebe muito, chega tarde e torce para o Bayern de Munique, nosso arquirival.

— O da 75 — não bebe, e é pai de sete filhos.

 — Impossível. Esse desgraçado sempre estaciona o carro na frente do portão da nossa garagem. Toda vez que chego em casa tenho que ligar para ele e pedir que tire o carro.

— Parece que você tem birra dos seus chegados. Coisa feia. Que tal o da casa 69?

Ele olha torto e pensa exatamente o que você, leitor, está pensando.

— Tem certeza que quer fazer filhos?

— Também tem o da 112. Ele é forte, jovem, bonito, fala três línguas, tórax desenvolvido, pernas grossas...

O marido interrompeu.

— Você quer prazer ou filhos? Quem sabe o vizinho da casa 52? Ele está na faixa de 35 anos, tem dois filhos e uma esposa compreensível (compreensiva!). É alto, de boa aparência e precisa de dinheiro.

Chegaram ao consenso.

Não deve ter sido difícil convencer o morador da 52. A esposa do 52 discutiu, esperneou, relutou, sugeriu e quase convenceu o casal que o morador da 112 deveria ser reconsiderado. Na argumentação dela, o Peter, vizinho da 112, tinha todos os quesitos e atributos para ser um bom reprodutor, só não tinha filhos porque era solteiro.

Uma vez resolvida a questão do quem, meu caro leitor, consigo perceber a preocupação do marido em incluir cláusulas contratuais como prazo, local de trabalho, fiscalização e compartilhamento. É lógico que o compartilhamento está incluído. Ou você acha que ele não faria as preliminares, cabendo ao vizinho apenas a finalização?

O item final do contrato seria o sigilo absoluto. Ninguém pode saber de nada. Muito menos algum cronista fofoqueiro.

 

 

 

Autor: Roberto Klotz

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

O fato curioso poderia ter sido mais bem aproveitado. Rever o uso dos porquês.

8,0

Cida Sepúlveda

- Está mais para conto e a finalização deixa a desejar.

6,0

Betty Vidigal

Excelente.

10

Lorenza Costa

Engraçada, mas não sei se o final é meio abrupto ou eu que fiquei com vontade de ler mais. A desculpa do vale-transporte é ótima. Pequena revisão necessária.

9,5

Oswaldo Pullen

Boa crônica.

9,0

Marco Antunes

Humor perfeito!

10,0

TOTAL

52,5

 

 

 

Crônica 17

A vingança de Zeus

Nos tempos de Homero, era público que os deuses interferiam na vida dos homens, às vezes por motivos mesquinhos e de maneira impertinente. Nos tempos que correm, não pensamos em deuses traquinas quando as nossas vidas tomam rumos inesperados, mas ficamos desconfiados da qualidade do argumentista da nossa realidade.

Há tempos, na Alemanha, um casal, desesperando de não conseguir ter filhos, como tantos outros, obteve dos testes de fertilidade a mais cruel das respostas: o marido era infértil.

Para qualquer ser humano, esta é uma notícia perturbadora. O seu eu físico, genético, fica por ali, não se prolonga para lá dele, a eternidade fica condenada. Resta a possibilidade de prolongar o seu eu cultural, memético, que, para muitos, é até mais identitário. Para isso, há que arranjar uma criança, dê por onde der: adopção, barriga de aluguer, inseminação artificial. Nesta última, ao menos, a parte genética da mulher está presente.

Foi isso que os membros do casal alemão – ele de ascendência grega, 29 anos, e ela por aí – decidiram, mas, em vez de recorrerem a um banco de esperma, contrataram um vizinho para cumprir a parte da fecundação, devido ao facto de ter extraordinárias parecenças com o homem. Além disso, o vizinho dava garantias de sucesso: era casado e pai de dois filhos, bem bonitos, por sinal. Será que, a partir daí, entregaram o processo a um laboratório que se encarregasse de recolher o esperma do vizinho e o colocasse no útero da mulher? Não. Fosse porque desconfiam da tecnologia, ou por outra razão não revelada, o combinado foi que o vizinho copulasse com a senhora, de modo natural, três vezes por semana, até que ela engravidasse.

Não sabemos o que sentiu o vizinho, mas adivinhamos. Deve ter agradecido a todos os deuses do panteão germânico a graça que lhe tombou na cama. Copular de forma descomprometida, sem ameaças de responsabilidades futuras, é a ambição de quase todos os homens. Todas as fantasias masculinas tilintam de alegria ante tão excitante perspectiva. Além disso, consta que a senhora é uma estampa de mulher, pelo que não se percebe por que foi preciso pagar 2000 euros ao vizinho que, com 34 anos, não devia precisar de tal incentivo. Estamos, certamente, perante um excelente negociador que obteve um pagamento pelo que teria feito de graça, alegremente. Na verdade, foi só com o dinheiro que estava a ganhar que ele argumentou à própria esposa, quando ela tomou conhecimento do propósito das inúmeras saídas nocturnas do marido.

Neste ponto, tudo parecia correr bem e a contento de todos: o vizinho tinha o melhor trabalho do mundo; a sua mulher confortava-se com a entrada da receita extra; o homem esperava ter em casa, brevemente, uma criança parecida consigo, para educar; a mulher iria, finalmente, ser mãe, de maneira totalmente humanizada, sem ter de recorrer a impessoais burocracias e frios procedimentos laboratoriais. Mas, pode-se especular que o facto de saber quem era o pai poderia vir a ser de enorme utilidade, se fosse necessário apontar a paternidade biológica, em caso de carências futuras da criança – que estas contas não se pensam, mas estão sempre presentes na contabilidade genética inconsciente de cada um – que os genes não brincam na hora de garantir a preservação.

Foi neste ínterim que Zeus – quem mais? – interveio, para gorar os planos deste grupo tão bem conluiado. Talvez se tenha apiedado da posição humilhada do seu infértil compatriota, talvez tenha querido mostrar a Odin qual o panteão mais poderoso, ou talvez tenha ficado invejoso da sorte olímpica do vizinho – que ele, apesar de Zeus, tem de tomar formas de cisne, de touro, ou outras, para conseguir unir-se à mulher ou até à deusa que deseja.

Bem que o vizinho alemão se esforçava, pontual e assiduamente, mas a senhora não engravidava. A eficiência do copulador contratado não merecia reparos, mas, ao fim de seis meses e setenta e duas jornadas de trabalho, o casal começou a duvidar da sua eficácia para terminar a obra dentro do prazo previsto e intimaram-no a provar as habilitações. Mais uma vez, a resposta laboratorial foi desoladora – também o vizinho era infértil – só que, desta vez, com consequências mais devastadoras. O alegre copulador passou, repentinamente, do mais feliz dos homens para um dos mais castigados pela sorte: não só a mulher o tinha traído, como os filhos não eram seus e – supremo golpe – não poderia vir a tê-los. Ela, quando confrontada sobre a origem da prole, ainda tentou desculpar-se com Odin, disfarçado de padeiro, uma vez, e de técnico de televisão por cabo, da outra, mas o marido já não vai em mitologias e exigiu o divórcio. Do casal de soluções criativas, a mulher voltou à estaca zero, ou antes, à estaca um, e, provavelmente, tenta lembrar-se onde é que viu um outro homem parecido com o marido; este, dada a ausência de resultados do contrato em que tanto investiu, sente-se o mais manso dos herbívoros e, para readquirir alguma dignidade, lançou um processo judicial contra o vizinho, para tentar recuperar, ao menos, os 2000 euros. Além disso, deve precisar deles para o próximo contrato. O vizinho, que também pode vir a precisar, foi quem mais perdeu, apesar das benesses. Não quer devolvê-los, argumentando que forneceu a mão-de-obra – salvo seja – conforme combinado, mas nunca garantiu a consecução do projecto.

O caso está para ser decidido pelo tribunal de Estugarda, e é por isso que dele tomámos conhecimento, através do jornal Bild, que pela boca de Zeus jamais o saberíamos.

 

 

 

 

 

Autor: Joaquim Lopes

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Leitura deliciosa.

10,0

Cida Sepúlveda

Muito bom, mas é conto.

6,0

Betty Vidigal

Muito bom.

10,0

Lorenza Costa

Vamos combinar que o irrepreensível dispensa comentários!

10,0

Oswaldo Pullen

Texto bem escrito, porém morno.

8,0

Marco Antunes

Tudo de bom!

10,0

TOTAL

54

 

 

 

 

Crônica 18

 

SAC Divino

 

         O mundo contemporâneo é engraçado. Nunca vimos tantas coisas tão diferentes tão juntas. É curioso percebermos como há zonas de interseção, “zonas cinzas”, que deixariam os pensadores modernos, que tanto queriam ordenar toda a natureza em categorias bem definidas, ficariam de cabelo em pé. (“deixariam de cabelo em pé”... ou muitas outras possíveis de construção, envolvendo “ficariam”, mas sem “deixariam”) Mais curioso ainda é sentirmos como essas zonas cinzas (o correto é “zonas cinza”) vão se infiltrando em nosso imaginário, de maneira sutil, quase imperceptível.

         Nessa estranha amálgama mundial, três coisas me fascinam mais do que tudo: o Mercado, a Religião e a Tecnologia. Quando elas se juntam, colocando em cena os atores da Liberdade, da Democracia, do Direito do Consumidor, entre outros, o espetáculo torna-se único.

         Como pesquisador das religiões, interessa-me especialmente ver como se dão e se desenvolvem os novos movimentos religiosos. Grupos como alguns neopagãos, neognósticos, tudo o que é “neo” me é fascinante. Se tiver um “pós” então (“pós-moderno”, “pós-cristão”, “pós-religião”), melhor ainda. Adoro ver os mais jovens se defendendo, dizendo que suas espiritualidades não são religiões – são filosofias de vida.

         “Religião” virou palavrão. Ser religioso hoje é feio. Ter qualquer tipo de ideologia é algo perigoso hoje em dia. O que está “na moda”, o que é aceito, são espiritualidades – coisas leves, filosofias de vida, basicamente auto-ajuda, que você pode comprar à vontade na livraria. Alguma dúvida do motivo pelo qual O Segredo vendeu tão bem? Atingir o êxtase religioso sem sacrifício, mantendo sua vida financeira intacta ou melhorando-a – é o sonho mercadológico. Nada de esforço, basta pensamentos positivos (ou “basta ter pensamentos positivos” ou “bastam pensamentos positivos”). Felicidade virou produto de consumo. Religião também.

         Religião hoje tem que ser algo light, “up”, algo que se adapte à minha vida - não o contrário! Como consumidor, tenho esse direito e poder. (travessão, não hífen)

         Isso não é novidade.

         O artista holandês Johan van der Dong montou uma secretária eletrônica de Deus. É uma forma que ele acredita ser válida para reflexão diária. Funcionaria como uma oração, mas de forma moderna. Interessante ver como velhos hábitos, como o de rezar, podem encontrar novas formas de expressão quando em contato com a tecnologia nova.

         Isso também não é novidade. Afinal, no Brasil mesmo temos um site que é sensação no momento, o SAC Divino. Um blog, no qual você reclama para Deus “em pessoa” sobre seus problemas, e recebe respostas (na maioria das vezes muito bem sacadas) pelo blogueiro que assina como “O Criador”. Em plena época em que o cidadão ideal é hoje “o Cliente”, tendo este razão em tudo, já não era sem tempo que o próprio Deus criasse um órgão de atendimento de reclamações, antes que Ele comece a ser processado judicialmente.

         Percebe a dinâmica, leitor? A lógica do Mercado permite que você, de sua casa, sem muito esforço, use seu telefone ou computador para reclamar diretamente com o Criador sobre como a sua vida tem problemas. Essa lógica permite que você se encontre livre de qualquer responsabilidade, que a culpa seja dessa grande corporação divina que criou todo o Cosmos. Essa é a lógica individualista, egoísta, poderosa da mentalidade de mercado atual. Não há maldade nisso – é apenas como as coisas são.

         Nunca entrei em contato com o SAC Divino. Acompanho O Criador pelo Twitter, e me divirto com algumas de suas sacadas (como a recente mensagem “Ateus do mundo todo, quando se unirem, por favor, tentem fazer chover, tá?”). Mas ao ouvir sobre a novidade do holandês, não agüentei – fiz minha ligação.

         “Deus, sou eu! Como está?”.

         De repente, me notei mudo. “O que falar para Deus?”, ponderei.

         Nada. Desliguei o telefone.

         Confesso que não sou religioso, mas senti-me incomodado pelo fato de ter ficado quieto. Me silenciei diante de Deus. Não por não ter o que dizer, já que sempre temos algo a dividir com alguém, mas sim pela situação de não ter nada que valesse a pena ser dividido. Percebi que me sinto incomodado pela minha própria independência de Deus. Senti-me como a criança de 13 anos que acredita ser madura o bastante, adulta o bastante para fugir de casa, mandar nos pais, brigar com eles, e somente quando cresce percebe o quanto foi tola. Repito: não sou religioso. Mas, seja lá o que “Deus” é, o conceito que Ele representa é algo que foge de minha compreensão – e o fato de não me sentir vazio com Sua ausência fez-me sentir como essa criança revoltada, como nos casos de quando vemos nossos filhos e sobrinhos, bem mais novos, cometendo certos erros, e culpamos sua juventude e os humores que dela brotam.

         Já ouvi falar que a função da principal da arte é (ou deveria ser) trazer o indivíduo a um estado de reflexão sobre si mesmo. Ouso dizer que van der Dong conseguiu. Sua obra de arte é um telefone divino.

         O mais assustador, o que realmente me surpreendeu, é que me estou bem com tudo que refleti. Não me sinto mal. Sou egoísta, sou mesquinho. Sou adulto, sim. Não me importo se estiver errado. Sou convencido. Se Deus existe, não preciso mais Dele. Em meu egoísmo vou vivendo - basta evitar Sua secretária eletrônica.

 

 

 

Autor: Ivan Mizanzuc

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Bom texto, só faltou revisão.

8,0

Cida Sepúlveda

Uma crônica responsável como o narrador.

9,0

Betty Vidigal

Bom.

9,5

Lorenza Costa

Respondendo: não, não se percebe a dinâmica. A lógica do mercado precisa forçar muito a barra para posar de vilã dessa história. Lembra o mesmo cacoete da crônica 4. Que é mesmo que a lógica do mercado tem que ver com a fuga da responsabilidade individual (responsabilidade que é originalmente uma das bases das economias de mercado) e com um sujeito bem-humorado que criou um personagem no Twitter? O próprio cronista nem tenta fugir do fato de que aquilo é uma brincadeira ("me divirto com algumas de suas sacadas") que nada tem a ver com religião nem com mercado. Tem a ver com as possibilidades da tecnologia, para ficar nas três coisas "fascinantes" que ele lista no início. Precisa de alguma revisão gramatical, mas o mais importante seria rever a frase "é uma forma que ele acredita ser válida" - estilisticamente ruim, destoou do restante do texto.

7,5

Oswaldo Pullen

Afirmações e certezas demais para uma crônica.

7,0

Marco Antunes

Gosto mais do relativismo que do absoluto! Um cronista que não consegue buscar o relativo está num mal caminho!

8,0

TOTAL

49

 

 

 

 

Crônica 19

 

Grandes pequenas coisas                                                                               

 Se o vinte foi o século dos extremos, nem ouso tentar adivinhar o que escreverão na etiqueta no dedão do vinte e um. Afinal, este apenas engatinha. Mas a tal velocidade que imagino um bebê cruzando a faixa dos cem metros rasos à frente do Usain Bolt.

         Em altas velocidades, são as coisas que passam. Parecemos parados e os fatos, apenas previstos, já estão no retrovisor.

         E o, por enquanto, eterno suceder de tudo vai sendo revogado pela simultaneidade. Não há espaço no tempo para tanto fato.

         Reflexão, análise são luxos que não mais nos podemos dar. Só temos o tempo de um clique. Erramos mais, mas não importa. Aliás, tudo importa cada vez menos. Nossa tela-janela já mostra outras cenas. Passamos para a próxima fase.

         E de tantas coisas belaschocantesbizarrasemocionanteseseilámaisoquê que me entulham o email e encharcam minhas sinapses de neurotransmissores, o clique redentor vai para a história do moleque de três anos que estava dirigindo em alta velocidade quando o pai tentou matar o outro filho de seis anos que estava embriagado e desmaiou no banco de trás de um carro de polícia. (releia a notícia...)

         Acho que me chamou a atenção por ser exatamente o que eu não faria. Nem aos três, nem aos treze e, muito provavelmente, nem aos cento e trinta anos.

         É que eu sempre fui... como direi sem mentir e sem me depreciar demais? Ah! Já sei: Um bundão. Sabe aquele menino certinho, abotoadinho, obediente, cumpridor de regras que dá engulhos? Era eu. E, o pior, é que não o era por convicção filosófica (já que só há pouco ouvi falar em imperativo categórico) nem por amor às regras em si. Era por medo mesmo. Sempre temi as conseqüências, desde que pela primeira vez elas se manifestaram em minhas avantajadas nádegas pelos chinelos maternos. Só não escrevi o Poema em linha reta porque outra Pessoa já o havia confessado antes, mas quando o li, era eu.

Voltando, enfim, ao caso do moleque, que já está a guiar por um tempo muito superior ao recomendável em sua tenra idade e pode, a qualquer momento, deparar-se com uma blitz sem ter um trocado para a cervejinha; agora, que excluí todos os outros, eu, em seu lugar, teria pensado assim: “Não posso passar para o banco da frente. É proibido. Se o papai acordar, me dá uma surra. Não devo tentar dirigir porque eu não sei e não tenho carteira. A polícia vai me prender e prender o papai também”. Seriam essas as minhas considerações enquanto o carro não entrasse na traseira de um caminhão e pegasse fogo, ou algo pior.

         É por estas e outras que tanto admirei a atitude do menino destemido e que torço pelos heróis anônimos, que, para fazerem o que é certo, o que a ocasião exige, para fazerem uma diferença no mundo, não esperam pela certeza confortável, pela adequação à norma. Movidos pela intuição ou sabe-se lá que outros ditames, atiram-se num átimo e num impulso entre pupila, retina, cérebro, dedo; apenas clicam em uma das infinitas alternativas que o instante apresenta.

Cada momento inaugura trilhas no algoritmo que traça o mapa de nossa vida e que levarão a outras encruzilhadas. Em seu caminho no tempo, a vida se modifica, a gente cresce e tem novas oportunidades para acertar ou errar, muitas vezes sem pensar, mas sabendo que cada opção feita é irretratável, e que o veredicto, quando vem, nem sempre chegamos a conhecer.

Conforta-me ouvir: “Esqueceu o crachá? Pode entrar que eu te conheço”. “Esqueceu o dinheiro? Pague amanhã.” “Carimbo no recibo? Não precisa”. “Pagamento de sinal? Não exigimos, o negócio está feito”. “Deu defeito? Sem problemas, trocamos na hora.”... Esse tipo de coisa que a gente pouco ouve e nunca diz.

 

 

 

 

Autor: Washington Dourado

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Começa interessante, torna-se didático.

8,0

Cida Sepúlveda

Uma crônica responsável como o narrador

9,0

Betty

Vidigal

O parágrafo final não se relaciona em nada com o texto até ali. A notícia é mencionada de passagem (quem não a leu, não sabe do que o autor está falando) e está toda alterada!

9,0

Lorenza Costa

Dois problemas: não ficou claro se o resumo arrevesado da notícia foi proposital, porque, se aquela frase foi construída com um sentido humorístico, não deu liga com o que vem antes e depois. E palavra que não entendi o que o último parágrafo está fazendo ali. Entre uma coisa e outra, uma crônica muito boa.

9,0

Oswaldo Pullen

Enfoque bom, em uma crônica mal desenvolvida.

8,0

Marco Antunes

Poxa, o ponto de vista era ótimo, pena que o autor se perdeu.

8,5

TOTAL

51,5

 

 

 

Crônica 20

Os Novos Adultos

 

Dizem-nos as estatísticas que os filhos saem cada vez mais tarde de casa dos pais. Nesta sociedade moderna da era de aquário, um “jovem adulto” com trinta e poucos anos pode perfeitamente viver no mesmo quarto que ocupa desde que nasceu, com a mesma decoração infanto-juvenil, com a mãe a tratar-lhe da roupa e da comida e o pai a dar-lhe mesada sem que ninguém ache isso, mais que anormal, estranhamente bizarro. A bizarria não se configura pelo facto da família se manter unida. A família, nas suas diferentes configurações, é o elemento nuclear da sociedade e é essencial para que esta se mantenha à tona das convulsões típicas destes tempos de incerteza que atravessamos.

No entanto, ao que parece, a educação que damos aos nossos descedentes é cada vez mais condescendente. Cada vez protejemos mais as nossas crianças dos horrores da vida lá fora e cada vez pintamos mais as coisas de cor de rosa. As crianças são inocentes até prova em contrário e ai de quem opine diferente. Os petizes têm o direito de crescer na ignorância daquilo que os espera daí a uns anos e não precisam de se preocupar com isso até lá chegarem. É deixá-los aproveitar a “boa vida” enquanto ela dura e depois logo se vê. É um engano tremendo confundir a protecção da tribo com a deseducação da prole. Mas é um erro comum.

A ideia com que se parte para a aventura da paternidade, de que aquilo que queremos para os nosso filhos é tudo aquilo que nós nunca tivémos, só pode ser tida como correcta se tivermos, efectivamente, possibilidade de lhes proporcionar todas essas mordomias. De outro modo, estamos à partida condenados ao fracasso.

A maioria dos pais, hoje em dia, não tem tempo para ter filhos. Há a ideia que a escola é o lugar onde a educação é ministrada e que os professores têm obrigação de substituir os pais, que estão ocupadíssimos com as suas vidas profissionais e com a realização dos seus objectivos pessoais. Mas não é ter filhos um propósito dos pais? Será que ter filhos passou de objectivo de vida a capricho social? A função da escola é formar e não educar. Os pais são os únicos responsáveis pelo adulto que resultará do crescimento dos seus rebentos.

Uma criança que não seja, desde cedo, inteirada das nuances desta vida comunitária que tanto que fazer nos dá, dificilmente será um adulto equilibrado, vindo a ter problemas de integração e socialização.

Um dos maiores problemas que a sociedade vai enfrentar nos próximos tempos é o da obesidade mórbida da população. Ao contrário do que afirmam os gordos que processam as cadeias de fast food, não são estas as responsáveis pelo seu estado de saúde, mas sim os seus progenitores, que não os ensinaram a comer quando eram pequenos, permitindo-lhes todos os exageros que os levaram à sua situação actual. O “big fat love” é uma doença da moda que se substancia pela substituição dos carinhos humanos pela comida de plástico, altamente calórica e açucarada, geradora de conforto instantâneo naquele que a devora e de paz de espirito a quem a oferece, pela sensação de missão cumprida.

Do mesmo modo que os pais arranjam padrastos no fast food, também o mimo que a criança recebe em casa a balizará no futuro. Uma criança que não partilha das tarefas da casa dos seus pais será um adulto que não sabe gerir a sua própria casa.

Nos estados unidos (iniciais maiúsculas), um pai viu-se obrigado a chamar a polícia para mandar o filho limpar o quarto. O jovem, provavelmente derivado da educação permissiva que teve, acha por bem se comportar como se vivesse com animais ou como se houvesse lá em casa quem tivesse a obrigação de limpar o que ele suja. A polícia Norte Americana (iniciais em caixa baixa), habituada a todo o tipo de situações anormais, cumpriu o seu papel e mandou um raspanete ao rapaz. Este, (sem vírgula)  admitiu e a sua falha e prometeu redimir-se, afirmando que a partir de então seria um bom filho, arrumado e asseado.

O método “venha cá senhor polícia pregar um susto ao meu filho que ele está-se a portar mal”