Quarta Semana

Grandes Acontecimentos 
de Nosso Tempo

 

 

Cronistas, cada desafio tem dificuldades diferentes e bem calculadas com riscos previsíveis que vocês devem pensar bem antes de enfrentar afim de que possam evitá-los!

Aqui o risco era, pela seriedade dos assuntos, cair no ensaio ou no artigo político.

A crônica não pode perder a leveza, mesmo carregando pesadas considerações tem que voar!

 

Reparem que mesmo os jurados tem limites diferentes para o que consideram crônica e conto, nosso objetivo aqui não é normatizar essas diferenças, mas expor aos autores os conflitos que podem surgir num crítico na hora de classificar um trabalho quanto ao seu gênero. Claro que, na vida literária propriamente dita essas diferenças são pouco significativas, mas como se trata de um concurso, achamos importante apontar esses limites. Mas não será esse o único tema em que os jurados não terão acordo. Isso ébom para o autor perceber a multiplicidade de olhares que incidem sobre seu trabalho, não tentamos aqui disfarçar ou minimizar essas diferenças.

 

Os grifos vermelhos e comentários nos textos são de autoria de Betty Vidigal, aconselhamos a ler tudo, mesmo que não seja o seu texto, sempre é um aprendizado.

 

Marco acrescentou uns poucos grifos em azul.

 

Os comentários de Lorenza,em razão de problemas pessoais,  serão publicados até quarta.

 

Cronistas

PAÍS DO CONCORRENTE

E ESTADO

Terceiro

DESAFIO

SEMANAL

 

Denis Reis

BRASIL – MINAS GERAIS

58,0

 

cLASSIFICADOS
PARA A PRÓXIMA
ETAPA

Rodrigo Fernandes

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

58,0

Gerson Nagem Perrú

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

56,5

Mauro A Madeira

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

56,3

Cinthia Kriemler

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

56,0

Marcelo Azevedo Larroyed

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

55,3

Carlos Alberto Pessoa Rosa

BRASIL – SÃO PAULO

55,0

Jurandir Araguaia.

BRASIL – GOIÁS

55,0

Ivan Mizanzuk

BRASIL – PARANÁ

53,5

Kalinka Tavares Iaquinto

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

53,0

Joaquim Bispo

PORTUGAL

52,0

Liliane Neves de Souza

BRASIL – BAHIA

52,0

Maria de Fátima M.Correia

PORTUGAL

51,5

Antonio Paulo Pinheiro Lima

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

50,5

Afonso Cruz

PORTUGAL

50,0

Leo Borges

BRASIL – ESPÍRITO SANTO

50,0

Washington Dourado

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

49,8

Ari Gurcz

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

49,5

Eneida Coaracy

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

49,5

João Carlos B.Guimarães

PORTUGAL

49,0

Roberto Klotz

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

47,0

Clemens Soares dos Santos

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

46,5

Luís Miguel Vale F. Vale

PORTUGAL

46,0

Aldmeriza Riker

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

45,0

Ana Marques

BRASIL – RIO DE JANEIRO

44,5

OS DOIS, PELAS REGRAS DO DESAFIO, PASSAM PARA A PRÓXIMA ETAPA, MAS APENAS SEGUIRÁ NA DISPUTA AQUELE QUE OBTIVER A MAIOR MÉDIA, DESDE QUE ESSA MÉDIA, NATURALMENTE O CREDENCIE A PERMANECER ENTRE OS VINTE SOBREVIVENTES, O SEGUNDO COLOCADO ENTRE DOIS, INDEPENDENTE DE TER MÉDIA PARA CLASSIFICAÇÃO  ENTRE OS VINTE, SERÁ EXCLUÍDO.

Pablo Amaral Rebello

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

44,5

Simone Barbariz

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

41,5

EXCLUÍDOS – PARABÉNS PELA HONROSA E DIGNA PARTICIPAÇÃO

Ricardo Vicente

PORTUGAL

39,0

Lúcia Ana de Melo

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

36,0

Soraia Maria Silva

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

0

DESCLASSIFICADA

Fora do Desafio –  A autora apresentou mas sem concorrer

 

PATRICIA TOLLENDAL

BRASIL

53

 

 

 

 

 

 

Crônica 1

Quase xenofobia

            Nos momentos de crise, podemos observar um fenômeno oposto ao que ocorre nos momentos de fartura. E isso não é somente prerrogativa de Estados, nós, pessoas normais, também tomamos algumas medidas para podermos superar os momentos de infortúnio: como frequentarmos menos o boteco ou pararmos de promover encontros ou festas em casa, meio que afastando quem é “alienígena” àquele micro-ecossistema domiciliar.

Em termos de Governo, podemos observar que o Japão, por exemplo, grande importador de mão-de-obra estrangeira, onde todos os imigrantes são legais e que foram “a convite” de alguma empresa, está adotando políticas para que os trabalhadores, agora, excedentes, voltem a seus países de origem, tentando proteger o seu mercado humano interno e evitar a proliferação da pobreza e da criminalidade, haja vista que milhares de postos de trabalhos foram extintos e várias empresas fecharam as suas portas. Num sentido humanitário, de quem já passou por um arraso total, como na Segunda Grande Guerra, há políticas, também, de retroatividade de benefício previdenciário e auxílio-moradia para tentar contornar o problema e, nessas medidas, entram alguns estrangeiros, também, numa demonstração de gratidão por ter ajudado ao país a crescer e a ser o que era até bem pouco tempo atrás. O que serve de exemplo, mas que, infelizmente, outros países não seguiram, enfraquecendo, assim, minha fé na humanidade – se é que, algum dia, tive –.

            De forma menos diplomática, os países da Europa, em geral, estão adotados medidas um tanto ou quanto duras em relação aos estrangeiros, (“tanto quanto” e “um tanto ou quanto” são expressões com significados diferentes.) principalmente porque, em sua maioria, são pessoas que adentraram ilegalmente o país, em busca de sobrevivência, já que, em seus países de origem, a situação já era complicada mesmo antes da crise econômica mundial.

            Causa-me imenso constrangimento e deixa-me estupefata, enquanto ser humano, medidas como as adotadas na Itália, onde os médicos dos hospitais estão sendo obrigados a delatarem os estrangeiros ilegais que, por ventura, venham a atender. Isso viola os Direitos Humanos desses imigrantes, porque “perderam” o seu direito à saúde, com medo de serem denunciados e deportados para uma realidade que não desejam. Com essa medida, há casos de vários imigrantes que se mudaram para a rede de esgoto desse país para não serem descobertos. É uma situação muito triste causada pela intolerância das grandes potências econômicas, agora, quase falidas e que tentam, com um último suspiro, recuperarem-se, mas, para isso, tentam jogar fora o “lixo”, isso é, os “ratos” do esgoto, porque podem ser um entrave à sua recuperação. Lamentável ponto de vista, mas que, infelizmente, se propaga e causa-me verdadeira angústia e dúvidas em relação de como essas pessoas sonhadoras serão tratadas se as pegarem: serão tratadas com respeito, obedecendo aos tratados de Direitos Humanos que esses países assinaram? Ou será que usarão de violência para persuadir a esses estrangeiros a nunca mais pensarem em pôr os pés por aquelas paragens? Assusta-me a capacidade do homem fazer mal ao próprio homem, ainda mais se começam a ver esses imigrantes como verdadeiros inimigos, que se reverte, na própria sociedade, (se tirarmos os adjetivos desses chavões, a frase melhora muito) como violência até mesmo contra as pessoas que estão legalmente estabelecidas por lá. Como é o caso dessa petrolífera e de outras tantas empresas no Reino Unido.

            Mas o problema imigratório foi causado por eles mesmos: países ricos, que, até bem pouco tempo, tinham a política de sugar os países em desenvolvimento e os subdesenvolvidos, aumentando, assim, o abismo entre eles e empobrecendo estes últimos. Com isso, muitas pessoas vão tentar a vida nos países em que a situação está melhor; mas, para se evitar uma legião de desvalidos, adotam políticas migratórias rigorosas, aumentando o número de pessoas que passam a viver na ilegalidade, fugindo das autoridades como baratas, sem direitos, sem nada, apenas com o sonho de poderem vencer na vida, chance que, provavelmente, não teriam em seu país de origem.

            É uma situação muito triste, apiedo-me das pessoas se escondendo como ratos, com uma subvida, quando, na verdade, o que querem é ter o direito a uma vida digna e confortável. Não há nada demais em se desejar o que a mídia nos empurra, quase como que uma lavagem cerebral: compre isso, beba aquilo, coma em determinado lugar... E o tom imperativo das propagandas somente aumentam (o sujeito deste verbo é o tom, no singular; não as propagandas, no plural) o desejos das pessoas, que não conseguem cumprir essas “ordens”, de procurarem, em um país distante, o “sonho americano”, mesmo que não seja nos Estados Unidos. Elas somente estão em busca da felicidade. E que mal há em sermos felizes?

            Com vistas a poupar o nosso Brasil de ter uma legião de imigrantes ilegais, assim como os países europeus e os Estados Unidos, porque nos destacamos em relação ao restante dos países da América Latina, nossa política externa é a da “camaradagem”: nós estamos com um déficit, na balança comercial, com relação à Bolívia, importando metros cúbicos de gás em excesso para que aquele país não entre em uma situação sócio-econômica mais complicada ainda e venha uma verdadeira avalanche de bolivianos invadir nossas praias, aumentando o número de pessoas pobres e miseráveis, além de aumentar a criminalidade, porque não serão absorvidas como mão-de-obra por aqui, simplesmente, porque não há postos sobrando, mesmo nós estando, economicamente, numa situação mais confortável do que o resto do mundo.

Aplaudo nossa iniciativa, ao contrário do predadorismo adotado por outras potências até bem pouco tempo. É a “sustentabilidade” chegando à política internacional e não teríamos tantos problemas migratórios, como observamos hoje, se os outros grandes tivessem visto no que isso poderia dar, muita dor e sofrimento poderia ser economizado e as pessoas poderiam sonhar em seu próprio lar, sem se arriscarem em busca do sonho de ser.

Autor: SIMONE BARBARIZ

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

O texto pede uma profunda revisão gramatical. Além disso, não é crônica.

 

6,0

Cida Sepúlveda

Um mini ensaio.

6,0

Betty Vidigal

Argumentação um tanto confusa. Tem mais jeito de Carta do Leitor do que de crônica. (sugestão: verificar as regras para o uso do infinitivo flexionado)

 

7,5

Oswaldo Pullen

Predadorismo” de tão feio, é palavrão.  O texto é monótono.

7,5

Marco Antunes

O que falta aqui é charme, jogo de cintura, aquele modo íntimo, insinuante que o bom cronista tem de se comunicar; ao contrário, o que se vê aqui é mera dissertação com o inconveniente, nesse caso, de que o autor dá sua opinião, nada original aliás, em um concurso público não decepcionaria muito, a não ser pelas intromissões do auotr, mas como literatura não basta só isso.

7,0

Lorenza Costa

 

  7,5

 

TOTAL

41,5

 

 

Crônica 2

Gripe suína: sinal do apocalipse?

            Em tempos de gripe suína, dizem os sabidos, cautela pouca é bobagem. Dito de outro modo: a paranóia está instalada. Dia desses, no ônibus que leva ao aeroporto de Confins, em Minas Gerais, havia um senhor com sintomas de gripe sentado na poltrona em frente à minha. Espirros – recheados – em profusão, fungadas possantes, tosses de motor V8. O lenço dele já estava em petição de miséria. Não havia nem mais um cantinho de pano que não tivesse sido batizado. (Cada espirro robusto que ele dava era redundante: só estava chovendo no molhado.) Cena de dar dó. O velhinho inspirava cuidados, como se precisasse de calor humano. Numa situação como essa, o que se espera é uma atitude solidária, como oferecer um remedinho, um casaco, ou um lenço novo. Até mesmo um abraço reconfortante, que seja! O que eu fiz, então? Procurei, imediatamente, um lugar pra ficar o mais longe possível do velho. Ah, monstro cruel!

            O castigo divino veio na hora: não tinha mais lugar no ônibus. Só me restou apelar para a reza. Minha mulher me tranquilizou: “Calma, lindo, hoje de manhã eu tirei o anjo da saúde no Livrinho dos Anjos!”. Ah, então, tudo bem. Sim, porque os presságios da minha mulher são mais confiáveis do que qualquer vacina.

            Pois não é que, na sala de embarque do aeroporto, o diabo do velho gripado veio sentar ao meu lado?? Pedi licença a Dostoiévski, fechei meu livro e olhei, abatido, para a capa: “Recordações da Casa dos Mortos”. Opa! 1 a 1 nos presságios! Melhor fugir! Levantei calmamente, com uma deslavada cara de paisagem, e fingi caminhar até o free-shop. Tudo isso para me afastar do pobre velho gripado. Vai que a gripe dele é suína, não é verdade?

            Pra não dar chance ao azar, troquei de leitura. Botei “Os Mortos” pra dormir e peguei uma revista. Reportagem em destaque: o nobre Governador de São Paulo, José Serra, fartou-se de uma bela picanha suína diante das câmeras fotográficas. Era pra demonstrar, ostensivamente, que não havia perigo em ingerir carne de porco, pois não é assim que se pega a gripe suína (não adianta me vir com “gripe A-H1N1”, porque a gripe é suína, e ponto). Que clichê... Serra poderia ter inovado: já que ele faz tanta questão de dizer que é palmeirense – numa clara tentativa de se fazer popular, tal qual Lula com o Corinthians –, e já que é a elite, apenas, que pode se dar ao luxo de comer picanha em restaurante chique, o Governador deveria ter ido à Parada Gay com a camisa do Palmeiras e gritado, a plenos pulmões, Olêêê, Porcôôô!!”. Dessa forma, ele teria transmitido com mais eficiência ao povão a mensagem de que não há risco em comer um lombinho de porco de vez em quando... (além disso, também ficaria clara a ressalva de que a carne precisa ser bem fresquinha!). Deixa pra lá...

            Infelizmente, chegando em casa, lá estava eu com moleza no corpo e uma coriza insuportável. Minha mulher, tadinha, já nem se lembrava mais do anjo da saúde: “Amor, vamos ao hospital? Essa gripe pode ser suína...”

            Como eu não gosto de hospital, preferi não ir. Afinal, se a minha gripe não fosse suína, era capaz até de eu voltar de lá com uma. Além do mais, não havia necessidade de pânico, pois, como diz o nome de uma banda de Rock que eu vi, “37 não é febre”.

            O fato é que, nos dias que se passaram, meus espirros fortuitos e minha voz, mais fanhosa do que o normal, despertaram no meu trabalho indisfarçáveis olhares de apreensão. Nessa hora, me lembrei do velho gripado e fiquei com pena... e remorso! (Em tempo: se você for um leitor cibernético, amigo, não se acanhe em colocar sua máscara, pois computador também passa vírus, viu?!)

            Não dá pra culpar as pessoas que se assustam, mas também é de espantar o tanto que essa doença tem gerado aflição! Isso a despeito dos números: ouvi no rádio que não há indícios para concluir que a gripe suína seja mais letal do que a comum. Será que é o medo de que a doença seja um dos primeiros sinais da chegada do apocalipse de 2012? Vai saber, são tantas catástrofes previstas...

            Mas eu penso que não! Não há nada na realidade exterior que justifique o medo exagerado, tanto da gripe quanto do apocalipse. São incontáveis as datas que já marcaram para o fim do mundo, e aqui estamos, no nosso lindo (porém mal-frequentado) planetinha. Talvez essa gripe seja apenas outra válvula de escape para nossas mais íntimas apreensões... Ou, em outras palavras, para o medo da morte.

            Todavia, mais útil do que temer a morte, (sem vírgula) seria questionarmos o que estamos construindo em vida, não é mesmo? Acho que todo mundo deveria ler os “Instantes”, de Borges, e criar a sua própria lista do que gostaria de ter feito mais vezes – ou do que não poderia deixar de fazer antes de morrer. (obs.: o texto não é de Borges... Leia aqui http://www.revista.agulha.nom.br/autoria.html . Mas há outras referências.) Já que é pra ficar paranóico, com medo do apocalipse, ou de pegar doença e morrer, que a gente possa fazer isso de maneira construtiva, oras! Pode reparar: todo mundo que chega perto de bater as botas mas, na hora H, é salvo pelo gongo, adota uma postura diferente diante da vida. Ou, em outras palavras, quem sente o pescoço arrepiar pelo toque gelado da Foice passa a “ganhar dinheiro com poesia” (impossível filosofar sobre a vida sem lembrar de Vinícius)... Que bela imagem pra sintetizar uma vida bem vivida aqui na Terra, não é verdade? Batalhar o sustento é necessário, mas não significa que precisamos trocar carne e osso por concreto armado...

            E, se depois de toda essa revolução, ainda formos açoitados por gripes de aves, de porcos ou do próprio Cão, deixemos de lado os protocolos e adotemos a receita do Doutor Bezerra (não o de Menezes, mas o da Silva): “Toma mais um limão qui-qui-qui-qui-qui-qui você fica bão!

Autor: ANTÔNIO LIMA

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Crônica simpática, apesar do uso forçado do “não é verdade?” Estranhei os “espirros recheados em profusão”. Os trechos mais sérios podem ser enxugados.

 

8,0

Cida Sepúlveda

Gostei bastante, principalmente do final que enriqueceu o ritmo arrastado. 

 

8,5

Betty Vidigal

Ótima crônica.

 

10,0

Oswaldo Pullen

Boa crônica.

9

Marco Antunes

Esta tem sabor de crônica, um agradável tom de intimidade com o leitor, um humor que procura ironizar os costumes, etc... Bem, esses são os méritos, mas tem os vícios. Primeiro: “Instantes” é atribuído a Borges, mas, com uma certeza equivalente à de que Picasso nunca pintou retrato de madame,  garanto que o gênio Argentino jamais escreveria naquele modo tão a Paulo Coelho; segundo: o humor só funciona se respeitar a inteligência do leitor, o tal vírus do computador, nesse sentido, garante a escolha mais infeliz do texto; terceiro: o tom francamente pueril muitas vezes observado (como na cena do Governador na parada gay e sua constrangedora insinuação de sexo) desacredita o autor e eu, que deveria me sentir íntimo e cúmplice do cronista, me pego, repentinamente, pensando naquele conhecido bobão que adora bancar o engraçadinho e faz piadas mais constrangedoras que eficientes; quarto: detalhes como o ônibus indo para confins e não voltando denunciam a inexperiência em contar.

7,5

Lorenza Costa

 

7,5

 

TOTAL

50,5

 

Crônica 3

Fé Cega, Faca Amolada.

            Tortura é crime hediondo, todos sabemos e concordamos. É tão inaceitável que o presidente Obama, retomando promessa de campanha eleitoral, cogita do fechamento da base americana de Guantánamo por causa das denúncias de tortura nos interrogatórios dos suspeitos de participação em atos de terrorismo, principalmente no atentado de onze de setembro.

            A iniciativa tem amplo apoio da opinião pública internacional e mesmo americana. Apesar da gravidade das acusações e da periculosidade dos presos, é difícil achar quem defenda abertamente sua prática neste caso ou em qualquer outro.

            Independentemente de crença religiosa, temos, quase todos, noções básicas do certo e do errado. Desde crianças aprendemos ou mesmo apreendemos que é errado bater em alguém indefeso, que é uma covardia o mais forte agredir o mais fraco e que quem faz coisas feias ou erradas merece ser castigado, etc. Essas noções, mesmo que não tenham sido formuladas verbalmente, vão sendo incorporadas ao longo da vida e passando a fazer parte de nosso patrimônio ético e moral.

            Se o grau de “hediondo” é usado para definir os crimes cuja gravidade desperta em nós sentimentos de revolta pela violência, pela crueldade; se a pena é mais severa quando a vítima está indefesa, o que dizer então quando as vítimas são crianças?

            O que dizer, ademais, quando além de atingirem crianças indefesas, as sessões são repetidas, tantas vezes por anos e anos? Não sei. Penso, reviro a memória e não adianta, não sei mesmo. Preciso de um dicionário. Não, não preciso de sinônimos, preciso é de aumentativos. Aumentativos para hediondo, para crime, para revolta, para nojo, para indignação...

            Mas, mais ainda, o que dizer, ou melhor, o que bradar ante a constatação de que os criminosos são os próprios educadores? Vejam só o cúmulo, educadores e, pior ainda, em instituições religiosas católicas... Preciso de hipérboles!

            E o pior, no caso, é que sabemos que muitas dessas verdadeiras bestas são padres. Sacerdotes ordenados, falando em nome de deus, capciosos, concupiscentes, da mais reles vileza, (vírgula) aproveitando-se da inocência de vítimas inermes e da posição de autoridade inquestionável.

 Símbolos de respeitabilidade acima dos próprios pais, brandindo ameaças de danação, de fogo eterno, aterrorizando vítimas cada vez mais fragilizadas... Impiedosos e ímpios. Não passam de farsantes descrentes, pois só estando convictos da inexistência do seu deus (impensável a conivência) ousariam afrontá-lo de tal forma. Excrescências, santarrões de merda... Para além das hipérboles, às imprecações !!!

            Mas as palavras, mesmo as mais feias, pouco podem fazer. Talvez algumas, belas, se bem empregadas, pudessem ajudar a aliviar um pouco do sofrimento. Talvez outras não tão belas (estas) sirvam apenas para demonstrar solidariedade e engrossar o coro de indignação, mas isto ainda é muito pouco.

 

Precisamos mesmo é de atitudes. Precisamos urgentemente afastar nossas crianças de todas as igrejas, de todos os templos, de todas as religiões! Livremos as crianças de todas as crenças, de toda a fé! Assim, além de preservarmos seus corpos, preservaremos também suas mentes. Não nos indignemos apenas com a violência física...

            Mas as palavras não são completamente inúteis, afinal. Algumas até que poderiam ajudar. Poderíamos começar afixando à entrada de cada templo uma placa: IMPRÓPRIO PARA MENORES DE 18 ANOS.

 

Autor: WASHINGTON DOURADO

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Texto contundente e bem escrito. Boa escolha do título.

8,5

Cida Sepúlveda

Muito boa, com fechamento quebrando a mesmice do discurso.

 

8,5

Betty Vidigal

Começou muito bem. O tom foi se tornando mais e mais panfletário à medida que o autor foi se entusiasmando. Bem escrita.

8,5

Oswaldo Pullen

Um pouco mais de equilíbrio seria bem-vindo. Faltou um fio condutor, uma espinha dorsal, limitando-se a crônica a uma mera peroração.

7,5

Marco Antunes

Os probleminhas de revisão existem, mas o texto tem méritos,tem um norte, pois essa busca nervosa por uma palavra ainda não desgastada ou à altura da indignação, que perpassa todo o texto, ajuda a estabelecer aquela atmosfera de cumplicidade entre autor e leitor que se deseja na crônica. A idéia da prova que esses sacerdotes dão de que não acreditam eles mesmos em Deus é interessante. A frase final é de grande efeito.

9,0

Lorenza Costa

 

7,8

 

TOTAL

49,8

 

 

Crônica 4

836 palavras.

 

Em frente ao computador eu me prostro cansada. Em verdade espero o momento certo para começar a escrever. É de meu desejo o arrebatamento inspirado por um ato de criação, recolher um pedaço de vida de mim ou de uma pessoa e orná-la com pitadas de lirismo ou de filosofia, ou de algo que combine com a dada expressão. Mas nesta busca pelo circunstancial, pelo acidental, pelo deslumbramento ou pela pequenez do cotidiano, eu estou magoadamente fechada. Perco-me diante do essencial que se dilata e expecto os atos como um ente ressequido de significações a dar. Sem perder as esperanças, lanço-me então ao dado concreto de um tema de jornal, noticia que figura diariamente os noticiários afora, mas que a nossa sociedade, anestesiada que está pelo fetiche à miséria alheia, passa os olhos por eles sem maiores preocupações ou revoltas.

Na foto em destaque há uma mulher vestida de preto. Seu vestido curto denota a preocupação em mostrar-se sensual, a postura do erótico na exacerbação de poses e gestos, superlativiza-se pelo ambiente em que se encontra: Uma avenida movimentada à noite, em frente a um bar. Fecho os olhos e imagino o dia em que vi uma cena que fez minha percepção abarcar dois opostos em mim. Até então.

 De um lado havia o conceito de que uma prostituta é, essencialmente, uma pessoa cuja sensibilidade fugiu a muito, dando lugar a uma persona non grata, dessas cujo humor escrachado não prescinde do vulgar, já que é por ele e através dele que ela se conota. Para mim, a questão do arbítrio - substantivo que responsabiliza as nossas escolhas - era o maior peso desta balança (travessões, nesta frase, em vez de hífens). Ela havia escolhido aquela vida e ponto final.

Do outro lado havia também o meu humanismo em construção, cujo pendor sustentava a própria vida humana em sua singularidade. Lutava dentro de mim para conceber o convívio harmônico com todas as pessoas ao mesmo tempo em que as minhas arestas não aparadas riscavam o corte de outras e por vezes produziam faíscas. A minha utopia era bastante civilizatória, porém em sua prática, debatia-se com o outro e seus estratagemas (ou vírgula antes e depois de “em sua prática”, ou vírgula nenhuma). Não adianta querer mudar afora – disto eu ainda não sabia – a vida é mesmo assim.

Posto que do banco de trás do carro de um amigo, ao passar à noite por uma movimentada avenida, vejo uma mulher parecida com a moça do noticiário do jornal, só que esta vestia vermelho. O carro à nossa frente, certamente apinhado de jovens fanfarrões, abaixou o vidro da janela e gritou alguma coisa para aquela mulher. Apesar de não ter ouvido o que pronunciaram, pelo tom das vozes e pela própria força do testemunho, subentendi que era alguma espécie de chacota ou xingamento.

Olhei para ela, vazia que estava de qualquer idéia ou posicionamento sobre aquele fato. Olhei somente pelo ato de olhar. E esta ingenuidade frente à cena foi talvez o ingrediente que me possibilitou a ascese destes meus incongruentes internos supra-expostos. Era um ser esquivo que compunha aquela imagem. A mulher de vermelho limitava-se a olhar para baixo, ansiosamente vaga, como se aquela ânsia pela vaguidão fosse a válvula de escape de toda e qualquer dor que a sua condição pudesse lhe acrescer. Ainda deu para ver, enquanto o carro virava a rua, o suspiro que ela deu. Foi este o ponto chave do que se enredou.

Devo ter precisado de minha própria maestria para não tê-la invadido com a minha similitude. Pois antes de tudo isso existir, ou mesmo após, quando só restarem rumores de vida, aquele ser prostrado na esquina era tão somente um ser humano. E foi por esta condição primeira que, de repente, assaltou-me a idéia de que eu era muito parecida com ela.

Nesse instante consegui iluminar a sucessão de trevas que existia dentro das minhas denominações. Apenas com minha solidariedade, defronte da minha semelhança, recapturei a fronteira entre seu suspiro e minhas aspirações. Com as mesmas ferramentas captei também uma verdade doída: Estas fronteiras subjazem a nossa essência. Não é algo de que se pode prescindir. (prescinde-se “de” alguma coisa)

É preciso resignar-se com a trêmula presença da distinção entre os seres, olhar o mundo como parte de si e ao mesmo tempo conseguir a isenção do adorno do outro. A mulher do jornal, foto de capa da denúncia do turismo sexual, a mulher de vermelho, a ocorrência visível da noticia e eu, o olhar indissolúvel de todas estas condições. Somos apenas fatos de uma realidade infinita que caminham para fora de uma possibilidade latente deixando nela o resquício do testemunho.

Se a situação da prostituição apresenta um quadro preocupante em nossa sociedade, hoje eu olho como sendo a postura que todos assumem frente às suas necessidades e as alheias. Eu descobri enormes espaços de imamnente (a intenção foi usar a palavra imanente?) construção dentro das pessoas ao olhar aquela prostituta, espaços apenas atravancados pela comunhão que a sociabilidade nos oferta.

É preciso compreender a astuta pluralidade dos outros para poder recriar-se a si, como se recria a proporcionalidade entre uma foto e uma realidade visível. Esta sim, de todos nós.

Autor: LILIANE NEVES

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Título atraente, texto sofisticado. Corrigir “fugiu há muito”.

9,0

Cida Sepúlveda

Maravilhosa.

 

10,0

Betty Vidigal

Bonita, lírica. Mas não escapou do tom exortativo de ter que nos dizer o que é que “é preciso”.

 

9,0

Oswaldo Pullen

Faltou simplicidade a um texto que, no entanto,  no momento em que começa a humanizar o estereótipo da prostituta, cresce.

8,5

Marco Antunes

Cuidado, cronista, palavras esdrúxulas ou usos raros para verbos e palavras, afastam a intimidade com o leitor! E, cronista, você não se irrita quando alguém tenta te pegar pela mão e conduzi-la a uma verdade única e, supostamente, evidente? Não fica meio enjoada quando recebe dos moralistas de televisão aquelas conclamações emocionadas para agirmos em prol de...?  Pois é! Tem um jeito charmoso de fazer isso, o “conduzido” nem percebe que o foi e chega lá, no mesmo lugar, sem se dar conta de que foi levado! Onde se aprende a fazer isso? Dê uma volta em Rubem Braga e passeie pelos jardins de sua cidade literária, você conhecerá um cicerone habilidoso. Ocorre-me, agora, uma praça específica dessa urbe do bom gosto: “A Traição das Elegantes” (Texto Abaixo).

7,5

Lorenza Costa

 

8,0

 

TOTAL

52

 

Crônica 5

Eu, o Clima

Vejamos um monólogo entre o Tempo, a medida do movimento, como bem o denominou o Filósofo Grego, e o Clima, a quem os gregos sabiamente denominaram como inclinação do tempo. (como pode haver um monólogo entre 2 interlocutores? Não seria um diálogo? ou o monólogo de um e o de outro, mas sem o “entre”) Dizia o Clima ao Tempo, paciente: Eu sou, antes de qualquer outra coisa, indomável. Ando livre desde sempre, desde que o mundo é mundo. Aliás, muito antes de tudo existir. Estou aqui antes de qualquer vida na Terra e estarei quando nada mais pulsar.

Os seres vivos, mesmo os menos desenvolvidos, aprenderam a convier comigo, adaptando-se para continuarem existindo. Se os dinossauros foram extintos, a culpa não é minha, mas de um meteoro metido à besta. Foi prestar atenção ao que não era da conta e saiu da rota, vindo parar aqui. Então, uma imensa escuridão cobriu meus olhos e não pude ver mais nada. Quando a poeira abaixou e recuperei a visão, não havia sobrado nenhum “resquício da era paleozóica" para contar a história.

O Tempo, dizia o Clima, passou e outras formas de vida começaram a florescer e a adaptar-se aos meus ditames, sem reclamar. Mas antes que o Tempo pudesse responder, foi bruscamente interrompido: aí vieram os seres humanos com sua mania de dominar, querendo mandar em tudo: na natureza e até nos outros homens. Comigo tentam, mas não conseguem. Sou indomável, já disse! Até aqui, quem “manda no pedaço” sou eu!

Eles adoram transformar tudo que faço, com liberdade de artista, no rol das desgraças naturais: as avalanches, os deslizamentos, as inundações e as secas. Pousam de coitados, mas fingem não saber que são eles os grandes culpados pelo “azedamento da massa”. Agora já foi não dá mais para segurar, Tempo amigo...

Não é à-toa que sou um eterno incompreendido. (Lugar-comum. Se se referisse ao Tempo, o uso da palavra ‘eterno’ poderia ficar engraçado) Ninguém me entende, nem me conhece direito, mas adoram (o oposto de “ninguém” é todos, o verbo fica no plural) me culpar por tudo que acontece de errado no mundo. Se lá no sul do Brasil está muito frio e reclamam que as pessoas estão morrendo congeladas, dou uma forcinha e mando um solzinho básico para lá. O danado gosta e fica mais Tempo do que devia, transforma tudo numa seca dos infernos e eu levo a culpa. No Nordeste do Brasil, a seca assola sem dó nem piedade e o sertanejo sofre com a falta de água e de comida. Reza pela chegada da chuva ou do próximo caminhão-pipa. Eu, que sou muito emotivo, mando um ”cadinho” de chuva prá lá, pensando estar fazendo uma boa ação e o que acontece?! Peso na mão, faço chover demais, alaga tudo, ensopa tudo e a o estrago é inevitável! Até o gado morre: não de sede, mas afogado.

E em todo canto do mundo é assim. Continuo sem agradar. Na Indonésia, sou persona non grata. Ridicularizam com toda a minha geração. Um Tsunami aqui, uma enchente acolá, e minha reputação já está na lama. Infelizmente lama com muitas vidas. Foi um acidente natural, e os homens que invadiram o ambiente são inocentados, enquanto eu sou condenado? Saíram, nos jornais e nas revistas, páginas inteiras falando da grande tragédia: “O Clima está maluco!” Cientistas do mundo todo teorizaram sobre o ocorrido. Não é que tudo isso seja banal. É que sempre fui assim sem controle, movia-me conforme o planeta ia evoluindo, mas de uns Tempos para cá, os humanos têm exagerado na sua mania de intervir na natureza, o que me confunde todo.

Os homens com suas idéias desenfreadas de progresso e desenvolvimento lançam todos os dias uma quantidade enorme de poluentes na natureza. É tanta poluição que nem dá para ver o céu. Há quem reclame dessa baderna progressista. Grupos de ativistas que se prendem em torres de fábricas, bloqueiam navios cargueiros, interrompem o trânsito nas grandes cidades, mas você, nobre Tempo, sabe de tudo: quando chegam em casa, acendem um cigarro e soltam uma horrenda fumaça, tomam cerveja para comemorar a passeata e jogam as latas no quintal do vizinho. Mas continuam ativistas...

Dizem que estou ficando maluco nestes Tempos modernos, mas se esquecem que também me condenaram no passado. O aquecimento das correntes equatoriais que nascem logo ali no Peru é o responsável por várias mazelas climáticas pelo globo. Dizem, também, que os homens tentam remediar o que eu provoco. Não é bem assim. Eu faço chover para florescer a vida, as plantas, o verde da floresta, a água para as cidades. Eles destroem as margens dos rios e não canalizam as cidades, inundando tudo. Eu faço os vulcões respirarem, eles fazem as fábricas que eclodem todos os dias, em várias partes do mundo, com mais intensidade do que todos os vulcões juntos. Eu brinco com o vento, eles colocam casas no caminho por onde passo. Do que devo me culpar?! Não sendo eu, o causador de tantos prejuízos, como posso ser tão perseguido?

Até mesmo quando tive a chance de ser uma estrela e de ser visto como vítima, não algoz de tudo o que acontece, um candidato à presidência dos Estados Unidos virou celebridade em meu lugar,

Enquanto isso, o Tempo, já impaciente, mostrava sinais de distanciamento, certo que o Clima estava tão perturbado quanto o homem.

 

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Autor: CLEMENS SOARES

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Interessante dar voz ao clima. A mistura do tom erudito com o coloquial “azeda a massa”.

 

8,0

Cida Sepúlveda

Bem escrita, mas falta originalidade. 

 

8,0

Betty Vidigal

Esse antropomorfismo do Clima, esse narrador fictício falando na primeira pessoa, além de inverossímil, também não convence como personagem de fábula Eu não leria isto até o fim, se não tivesse que avaliar o texto. Teria parado logo no começo.

 

7,0

Oswaldo Pullen

Nada de novo.

7,5

Marco Antunes

Revisão, cronista, revisão! Sempre são constrangedores e meio que ajudam a desacreditar o escritor. A idéia foi interessante, na mesma linha de duas peças de oratória geniais: “O Elogio da Loucura” de Erasmo e a genial crônica de Machado “O Elogio da Vaidade” (Veja Texto abaixo). Valeu!

9,0

Lorenza Costa

 

7,0

 

TOTAL

46,5

 

Crônica 6

O Diabo se instalou na casa de Deus

 

Quando leio uma manchete, por pior que seja a notícia, procuro extrair o lado bom, a mensagem útil, qualquer aspecto que some algum valor à humanidade, ao cidadão ou simplesmente a mim. Desta vez é impossível. Abriram as portas do inferno.

Abro o jornal logo cedo, pela manhã, junto com o café. As frutas têm sido os únicos acompanhamentos possíveis na digestão das notícias de corrupção e escândalos impunes.

            A foto de Evo Morales, em um abraço cúmplice com o nosso presidente, me arrepiou. O fanfarrão conseguiu transformar mandato presidencial em cargo vitalício. Vai-se a primeira garfada despedaçada.

            Li que um deputado, flagrado em fraudes e ilícitos, inverte valores e acusa o colega, que tem a obrigação de investigá-lo, de algoz e perseguidor. Vai-se outra e mais outra. Enfim, dezenas de garfadas despedaçadas.

            Tudo já está banalizado. È (acento) corriqueiro. Tomamos conhecimento, ficamos incomodados e viramos a página em busca de alguma notícia mais suave.

            Minha página seguinte não foi suave. Ao contrário. Foi terrível. Nem a maciez do mamão papaia suavizava a ingestão: padres abusaram de 2 mil meninos durante 60 anos.

            Inacreditável! Pobres e ricos crêem que a igreja só deseja o bem. Que a religião só preconiza a mensagem de bondade e caridade.

            Fecho os olhos, viajo para a Irlanda, volto no tempo. Faz frio, muito frio. É janeiro de 1931. Abro os olhos e estou em Dublin. A inflação está alta. A Europa sofre com a recessão. Faltam alimentos e empregos. Muitas mulheres perderam os maridos na guerra.

Qualquer um consigue imaginar algumas cenas irlandesas:

A mulher miserável, cinco vezes mãe e grávida novamente. Desesperada, após a missa, combina com o marido de entregar dois filhos a um orfanato desejando um futuro decente para as crianças. (apelativo...) (pode ter certeza de que essa mãe de 5 filhos bateria nos filhos. E o pai, bêbado, idem. Esse negócio de que ‘em criança não se bate’ é coisa recente. Em Leite Derramado, Chico Buarque insere as lembranças das “surras de cinta” que o personagem centenário tem da infância, com a pele cortada pela fivela. Era coisa comum no mundo todo, não só na Irlanda.)

O lorde paga fortunas para ter seus filhos nas escolas religiosas, na crença de que terão a melhor formação ética e espiritual possível. Os herdeiros serão orientados para o caminho certo em suas condutas pessoais pelo resto de suas vidas. (A Inglaterra foi o último país do mundo a abolir a palmatória, em 1989. os castigos físicos foram abolidos das escolas – não só as escolas religiosas.)

A comunidade da periferia se une na fé e resgata criancinhas, que passam os dias desamparados nas ruas, levando-as para as instituições de caridade, acreditando que os pequenos terão alguma oportunidade para uma vida melhor e protegida.

O governo panfleta campanhas educativas, banca creches, orfanatos e escolas conduzidas por religiosos católicos. Na Irlanda, o estado apóia a igreja. A população participa ativamente das missas e, pensando nas criancinhas, entrega espontaneamente seus dízimos nas mãos dos piedosos padres. Aos domingos, todos confessam, comungam e recebem em paz as penitências dos julgadores terrenos que possuem o supremo poder de perdoar pecados e prometer a vida eterna no paraíso.

Nas missas, vestem-se de santos. Os padres são a voz de Deus. Representam a esperança, a verdade, pregam a bondade divina e falam do amor ao próximo. Detêm o conhecimento. A eles, todos confiam a criação e a educação.

Após as bênçãos finais, os fiéis se retiram da missa, as portas se fecham e cortinas são vedadas. Em alguns, ocorre a transformação.

Louvam a hierarquia. Exigem respeito. São inflexíveis na autoridade. Impõem obediência cega. Batem naqueles que escrevem com a mão esquerda, surram os que conversam durante as refeições. Apanham todos que não decoraram os dez Mandamentos. Em vez do amor ao próximo, ensinam que Deus deve ser temido.

As crianças precisam de amor e afeto. Alguns padres resolvem a questão tirando a roupa de cordeiro para oferecer carinho aos inocentes e indefesos. Castigos, chicotes, punições, cascudos, bofetadas, abuso sexual, enxofre e forcados.

Algumas instituições do bem se transformam em casas de terror. Abusaram com o horror durante 60 longos anos!

Tudo é estarrecedor. O Diabo se instalou na casa de Deus.

Somente o ser humano é capaz de tamanha crueldade e inversão de papéis.

Por baixo do manto da sagrada orgia, está a grande notícia: a igreja que relutou em permitir a divulgação do relatório, se despe da soberania e reconhece que seu rebanho não é apenas de ovelhas. Entre elas há homens. E homens erram. A igreja irlandesa, através do seu cardeal, se envergonha, pede desculpas in nomine Patris et fillii et Spiritus Sancti. e indeniza.

Amen.

Não devemos ser tementes a Deus. Devemos temer o homem.

Autor: ROBERTO KLOTZ

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

O título promete, o texto vai bem até “alguma notícia mais suave”. Depois, torna-se panfletário.

7,5

Cida Sepúlveda

Bem escrita, mas falta originalidade.

 

8,0

Betty Vidigal

Extremamente sanctimonious... não acho palavra pra isso em português. O autor é o dono da Verdade, o sábio Juiz que dá conselhos ao leitor (“As crianças precisam de amor e afeto.”).

7,5

Oswaldo Pullen

Texto monótono.

7,5

Marco Antunes

O uso da memória rítmica e da forma verbal do célebre poema de Raimundo Correia  (veja texto abaixo) foi muito interessante.  Não retomar a condução das frutas foi um erro, procura-se no final uma alusão, qualquer coisa como uma analogia, uma metáfora até um trocadilho de bom gosta, mas nada, o fio condutor foi, simplesmente, abandonado! A ida em imaginação e sentidos à Irlanda foi ótima, mas também não tem continuidade!

9,0

Lorenza Costa

 

7,5

 

TOTAL

47

 

 

Crônica 7

O Rosto da Epidemia

 

            A notícia chegou-me como um longínquo sussurro. Assim que o médico proferiu as derradeiras palavras foi como se o minha mente se apartasse do meu corpo. “Tem Gripe A.” Fiquei por momentos estático, o coração quedou-se e durante largos segundos recusou-se a bater. Os meus braços pendiam desolados e o meu rosto despregou-se das feições sorridentes e mergulhou num esgar de assombro. É nestes momentos incrédulos que exclamamos “Como pode isto acontecer-me?” Julgamos que estas coisas só afectam os outros, mas quando nos toca a nós ficamos desarmados e inconsoláveis. “A partir de agora tem de ficar de quarentena, isolado, para que não se propague mais.”

            Fui conduzido a outra ala do hospital. A ala dos “infectados com Gripe A” ouvi a um dos enfermeiros comentar, por debaixo da máscara que lhe tapava a boca e o nariz.

            Assim que entrei fui colocado num dos bancos disponíveis, num corredor comprido. Ao longo desse corredor amontoava-se pessoas esperando triagem. Certamente, os casos mais graves seriam atendidos primeiro, pensei. Apesar de tudo eu sentia-me bem, apenas um pouco fatigado e constipado. Comparando com algumas pessoas que ali estavam eu sentia-me saudável.

            Alguns enfermeiros usando máscaras e luvas corriam de um lado para o outro tentando rastrear os casos mais graves. Pulseiras com várias cores eram usadas nos pacientes para os distinguir e, assim que se definia o estado deles, eram reencaminhados para locais específicos. Olhei para a minha pulseira. Era verde.

            Nesse preciso momento alguém se levantou. Um homem de meia idade, bem vestido e de boa aparência gesticulava no meio do corredor com alguns dos enfermeiros. O suor escorria-lhe pela fronte luzidia e a sua calvície acentuava-se de cada vez que uma grotesca veia encarnada lhe inchava na testa. Gritava desconsolado.

            “Eu já estou aqui há muito mais tempo que esse indivíduo! Quero ser atendido! Eu também estou doente, mereço a melhor atenção da vossa parte. Sou um cidadão que sempre pagou os seus impostos e que sempre foi cumpridor da lei, sou uma pessoa influente na sociedade e desempenho um cargo importante no serviço público.

            Os seus olhos fervilhavam tempestuosos. Os enfermeiros tentavam em vão acalmar aquele homem que se perdia em acusações. O tal indivíduo, apoiado por um dos enfermeiros, cambaleando, com os olhos quase fechados, parecia ausente da realidade. Aparentava estar mesmo mal, mas isso não demoveu o homem de vociferar ferozmente contra ele. Tão inflamado estava que após algum tempo outras vozes, alguma incógnitas pelo escuro do corredor, se lhe juntaram nos seus clamores.

            “Deve estar a delirar com a febre!” exclamou um dos enfermeiros. E logo o homem rompeu em mais uma erupção de raiva. Recordo-me de ver o indivíduo doente cair desamparado no chão enquanto os enfermeiros tentavam aplacar fisicamente a fúria do homem que claramente perdera a razão e se encontrava perdido nos seus fundamentos. Mas, não obstante esse facto, foi curioso reparar que várias pessoas acorreram rapidamente em apoio do homem alterado. O indivíduo jazia no chão, padecendo, esquecido.

            Tanta confusão alertou os seguranças. Entraram de rompante, munidos de máscaras, para acabar com a desordem. Eu refugiei-me mais atrás, longe daquela pequena demonstração de anarquia social. É estranho, embora algo compreensível, constatar que face ao medo o Homem facilmente perde a sua serenidade e capacidade de raciocínio. Quando confrontado com a possibilidade de algo para o qual não tem qualquer defesa qualquer pessoa quebra, qualquer pessoa, nem que seja por breves momentos, retorna ao seu estado indefeso, à sua inocente forma de ver a vida em que tudo corre bem, em que o mal é ficção. Mas a vida é real e esta é uma doença real. O homem vocifera face à impotência de se salvar e face ao medo e à insegurança transmitida pelos média, que debitam informações em forma de sensação e em que, quanto mais escandalosa ou grave for, mais vende. Nem sempre o jornalismo se ocupa da verdade. Por vezes, uma semi-verdade é preferível se isso acrescentar mais uns trocos ao seu bolso.

            No corredor da gripe as pessoas começavam, em geral, a ficarem em stress. Consegui manter a minha calma, talvez por ainda não acreditar concretamente no que significava ter Gripe A. Mas a maioria dos presentes principiava uma revolta interior contra a doença. Mães com filhos ao colo chegavam-se perto dos seguranças e praticamente lhe depositavam os filhos nos braços numa tentativa desesperada de que os seus filhos encontrassem uma rápida cura junto dos médicos. Todos se precipitavam para cima dos seguranças e enfermeiros, numa crescente paranóia de salvação.

            “Não existe cura!” gritou um dos enfermeiros. Um silêncio sepulcral abateu-se sobre a ala dos infectados. Seguranças, enfermeiros e agiotas, todos ficaram inertes face àquela revelação abismal.

            “Que quer dizer com não há cura?” alguém timidamente questionou. Eu, mecânicamente, avancei passo a passo em direcção à resposta. O enfermeiro encolhia-se como que subitamente atacado por uma profunda vergonha.

            “Eu..” tartamudeou o enfermeiro, sentindo-se fuzilado pelo olhar dos pacientes. Mais ao longe uma criança irrompeu em choro compulsivo. Os olhares fixados no enfermeiro exigindo uma resposta breve. Ouvia-se a sua pesada respiração por debaixo da boca temerosa camuflada pela máscara anti-contágio.

            “... o fármaco usado para curar a Gripe A.. acabou! São demasiados pacientes...”

            Um silêncio sinistro (lugar-comum) tomou conta dos presentes. Sentaram-se desolados, mudos, cegos e surdos. Apenas as palavras do enfermeiro a ecoar em seus pensamentos. Eu olhei-os à distância, na altura não me senti deveras afectado por aquelas palavras. Mas agora, à media que os dias foram passando e os meus sintomas avançam a sua vertiginosa ascensão, reflicto sobre o seu significado. As passo que escrevo estas palavras a cura ainda não está disponível. E os meus olhos cavos, aos poucos, perdem o seu brilho e sentem já dificuldades em reconhecer as palavras que escrevo.

Autor: RICARDO VICENTE

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

É preciso revisão gramatical. É conto, não crônica.

 

6,0

Cida Sepúlveda

É um bom conto. Se fosse concurso de conto eu daria nota 8,5.

 

6,0

Betty Vidigal

Imaginativa.

9,0

Oswaldo Pullen

Não é uma crônica.

6,0

Marco Antunes

Atenção às concordâncias, cronista, aliás, perdão, mas devo dizer contista e aí está o problema! Mesmo se fosse uma crônica seria uma crônica frágil, sem empatia com o leitor, a leveza do gênero é seu segredo. Se fosse um concurso de contos, daria 7,5, mas é um concurso de crônicas e não posso premiar um conto com boa nota, pois tenho que considerar, como bem lembrou Lorenza aos demais jurados, que outro candidato pode ter sofrido para produzir uma crônica sobre o tema e obtido nota baixa (talvez até mesmo tenha vislumbrado uma ótima idéia para um conto, mas preferiu seguir as regras e foi penalizado) então não seria justo com esse candidato aceitar gato por lebre...E o presente texto, infelizmente, mia!

6,0

Lorenza Costa

 

6,0

TOTAL

39

 

Crônica 8

A minha vitória hoje tem sabor de mel

 

‘A minha vitória hoje tem sabor de mel’, canta D. Darcília de Lima e Silva para o repórter que terminava de entrevistá-la para um segmento do Globo Repórter sobre bancos comunitários, que foi ao ar recentemente. O ‘mel’ que transformara a vida de D. Darcília, chama-se banco comunitário, um tipo de instituição financeira que faz empréstimos populares sem cobrar juros, impor avalistas, nem requisitar comprovantes de renda. Os documentos exigidos são apenas CPF, carteira de identidade e comprovante de residência (os empréstimos só são dados a moradores do bairro), o que é checado com vizinhos. D. Darcília iniciara uma pequena fábrica de roupas há dez anos com apenas três máquinas de costura e hoje, a grife ‘Palma Fashion’ possui quarenta e quatro máquinas, produzindo duas mil e quinhentas peças por mês. A existência de um sistema financeiro que priorizava empréstimos a taxas mínimas de juros dera um sabor de mel à luta desta senhora.  Ela, entusiasmada, descrevia para o repórter a vida difícil naquela época e suas conquistas atuais graças à ajuda financeira conseguida através do sistema de empréstimos comunitários de um banco local.      

Assisti com muito interesse a reportagem sobre o Banco Palmas do conjunto do Palmeiras, em Fortaleza, que faz empréstimos pessoais em moedas sociais. Placas anunciando ‘Aceitamos ‘Palmas’, a moeda corrente local, estão espalhadas por todo o bairro, divulgando a surpreendente ‘economia das Palmas’(moeda corrente que circula somente no conjunto do Palmeiras). Neste sistema, uma Palma equivale a um Real e permite que qualquer cidadão do bairro faça um pequeno empréstimo pessoal para pagá-lo sem juros em até noventa dias. Após este prazo, são cobrados juros de 1.5% a 3% ao mês.

Este sistema financeiro, simples e desburocratizado, transformou uma grande favela em um bairro decente, com saneamento, asfalto, luz e escola. Tem até gramados e pracinha hoje! Nele, a palavra do vizinho vale mais que uma nota promissória. Retorna-se ao ‘ Meu fio de bigode é a minha palavra’ de antigamente.  Lá, o banco comunitário ajudou a criar quarenta pequenos negócios, promoveu grandes mudanças no dia-a-dia dessa comunidade e incentivou gente a se mobilizar e acreditar que são capazes de vencer desafios.

Entretanto, estou falando do viço de uma economia regional, cuja pujança desafia o emaranhado de soluções que já foram propostas para escaparmos da crise econômica mundial, que avassala principalmente as economias dos países do ME e dos Estados Unidos e, lentamente, começa a afetar a economia brasileira. Entretanto, entre as inúmeras propostas para discussão e elaboração de um plano de ação alternativo às medidas neoliberais de contenção da crise econômica mundial, felizmente, também se fala da criação de instituições bancárias com base nas carências das pessoas e na necessidade de impulsionar formas populares de empréstimo baseadas na reciprocidade e na solidariedade.

A criação dos bancos comunitários no conjunto do Palmeiras em Fortaleza parece confirmar a eficácia da criação de instituições bancárias nos moldes descritos acima. Privilegiar os empréstimos, a taxas mínimas de juros, para satisfazer necessidades sociais e ambientais e para reforçar a crescente economia social significou alavancar a produção de uma região pobre e mal atendida e transformar seus habitantes em cidadãos confiantes e respeitáveis. Vi nessa reportagem que os habitantes do Palmeiras cumprem seus deveres e pagam suas dívidas com pontualidade, sem terem assinado pilhas de papéis que possivelmente os comprometeriam por anos a fio, a custa de juros impagáveis, com as instituições financeiras a que recorreram.

Também percebi a simplicidade com que as informações eram prestadas pelos vizinhos sobre o candidato a um empréstimo. A pergunta-chave era, ‘Você teria coragem de emprestar cem reais para ela?’ Claro que o vizinho poderia queimar a ficha do candidato, mas como todos sabiam que a palavra de um poderia afetar o destino de outro e, em uma reação em cadeia, de toda a comunidade carente, todos pareciam compartilhar um indiscutível código comum de ética, que os mantinha unidos e leais aos princípios deste sistema. A prova disto estava no baixo número de calotes, na confiança que os moradores depositavam no sistema e, principalmente, na ética e valores compartilhados por toda a comunidade, o que resultara em um profundo sentimento de cidadania diariamente posto à prova ao desafiar e resistir à sedução do desgastado modelo financeiro neoliberal vigente neste país. Institucionalmente, no conjunto do Palmeiras a palavra de ordem era: aplicar critérios sociais (incluindo condições de trabalho) e ambientais a todos os empréstimos, contando-se também com os destinados a fins comerciais. Socialmente, a resposta que ecoava era: personalizar, desburocratizar, descomplicar e confiar mais no cidadão comum.

 Ao relacionar estes fatos, não tive absolutamente a intenção de reduzir as questões econômicas mundiais ao micro-cosmo do conjunto do Palmeiras. Mas sim, mostrar que mesmo dentro da conjuntura de uma profunda crise econômica mundial, pequenas iniciativas como esta ainda são possíveis e simples de serem adotadas. Basta determinação, vontade de mudar o atual (e desgastado) modelo econômico e aproveitar a oportunidade que a crise nos oferece para trazer alternativas viáveis e motivadoras para a praça pública, alternativas estas nas quais muitos de nós já vimos trabalhando há algum tempo. Momentos de crise também liberam a criatividade. Honestamente, acredito que seguindo iniciativas semelhantes poderemos fazer muitas outras donas Darcílias cantarem ‘A minha vitória hoje tem sabor de mel.’ Os nossos passarinhos, presos em gaiolas financeiras ultrapassadas, silenciaram sob o peso de juros impagáveis. Palmas para os moradores do conjunto do Palmeiras!

Autor: ENEIDA COARACY

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

É artigo, não crônica.

6,0

Cida Sepúlveda

Excelente, eu só tiraria o “honestamente” do parágrafo final.

 

10,0

Betty Vidigal

Bom

8,5

Oswaldo Pullen

Poderia haver um pouco mais do autor no texto. Quase que se limitou somente à notícia.

8,5

Marco Antunes

Falta charme, falta estabelecer cumplicidade, mas é bom texto.

8,0

Lorenza Costa

 

8,5

TOTAL

49,5

 

Crônica 9

De cara com “O Cara”

          A notícia de que o Irã testou o míssil SEJIL 2, com alcance de 2000km, colocou a mídia em polvorosa. Os correspondentes internacionais se espremiam e se acotovelavam para enviar a notícia, em primeira mão, e com certo estardalhaço, para a editora de seus respectivos jornais.

 O fato caiu, quase como o próprio míssil, na Casa Branca. O presidente dos EUA, Barack Obama, (vírgula) exclamou aborrecido: Problemas à vista! Vou ter uma queda de braço com Ahmadinejad muito antes do que eu esperava! Michelle, que estava por perto, vestindo sua malha para a aula diária de musculação, respondeu: Falando em braço, vou cuidar dos meus, quem sabe você pode precisar deles também. E acrescentou vaidosa: Agora os paparazzi estão de olho nas minhas pernas! (Nada indica que a frase iniciada por “Michelle” seja narração, e não fala. Melhor optar por aspas, travessão, itálico.... qualquer coisa.)

 Obama não a escuta. Preocupado, vai direto para o Gabinete Executivo e convoca uma reunião urgente, de caráter sigiloso, com a secretária de Estado Hillary Clinton, o secretário de Defesa Robert Gates, e o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. O assunto tratado é a Defesa do Estado americano. Obama mostra-se preocupado e determina a cada um o desempenho de algumas tarefas. Termina a reunião com um breve discurso: - O desenvolvimento de uma tecnologia nuclear avançada pelo Irã, (sem vírgula) impõe-se como uma grave ameaça de que Ahmadinejad pretende desbancar-me da posição de xerife frente às nações do mundo! (hífen não serve para indicar a fala)

 É o tom para que cada secretário fique imbuído do seu dever de Estado.

Ao secretário de Defesa, ordena-lhe aparelhar os serviços de inteligência – CIA, FBI, INTERPOL e outras siglas e montar uma central de informação e contra-informação em países estratégicos como Polônia e República Tcheca; identificar que países, organizações militares e para-militares se alinham com a ideologia islâmica e seu principal fornecedor de tecnologia nuclear, armas e estratégia militar; proceder ao grampeamento nos aparelhos de telefonia móvel e imóvel - computadores, Palm Tops e Pocket Pcs das principais vozes de comando do Governo do Irã; providenciar um número maior de câmaras e “raquetes eletrônicas” nos aeroportos para a revista de todos os passageiros de fisionomia muçulmana que entram e saem do país.

             A secretária de Estado, sabatinada pelos congressistas, justifica a elevada cifra de bilhões de dólares para a Pasta de Defesa, não só pela ameaça de uma corrida armamentista no Oriente Médio, mas também “está em jogo o nosso cacoete internacional de querer mandar em tudo”. E acrescenta, em off, que uma parte dessa quantia, (sem vírgula) influenciará o resultado da eleição em 12/06 próximo, no País Islâmico, o que nocauteará Ahmadinejad em suas próprias bases.

Para o porta-voz, Obama orienta que reforce junto aos canais de comunicação de massa, a sua imagem sorridente e descontraída, mas preocupado com os conflitos no Oriente Médio. À noite, no horário nobre, faz um pronunciamento à nação quando dirige ameaças de sanção internacional ao Governo de Teerã, caso ele não abandone suas ambições e desista do programa nuclear.

            Ahmadinejad, cheio de esperteza, antevendo a reeleição, pronuncia-se a favor do diálogo, declara que seu programa tem fins pacíficos. E quanto às declarações beligerantes que saíram na imprensa, alega tratar-se, de nada mais nada menos, que distorções de pseudo-jornalistas, estagiários, “fominhas” de notícias.

            No final do expediente, o secretário de Defesa entrega ao Presidente o relatório das informações onde consta que um dos países que mais colabora para o poderio militar de Teerã, encontra-se encravado na América do Sul e que está sendo apontado, pela mídia internacional, como líder emergente desse continente. Cientifica o presidente dos métodos utilizados, por esse país, para encobrir a transferência de dados científicos e tecnológicos – além do intercâmbio estudantil e dos bolsistas das diversas universidades e centros de pesquisa em excelência, o transporte também é feito em maletas ou valises de fundo falso e até em cuecas; o conhecido tráfico de mulheres (estudantes disfarçadas), verdadeiras “mulas” que fazem o trânsito de informações, além de agentes, especialmente treinados, que “engolem” ou escondem em orifícios do corpo pequenas cápsulas do conhecimento. Com esses procedimentos, realiza-se a troca de tecnologia nuclear, que vai da venda de lança-mísseis, aviões de caça, porta-aviões e fuzis de longo alcance, a manuais de treinamento militar intensivo. Obama, quase incrédulo, examina a ficha do signatário da nação: origem operária, líder sindicalista, carismático, demagógico e, de vez em quando, responsável por declarações atrapalhadas e ambíguas. Uma foto é colocada, na tela grande, à frente de Obama, que não contém um grito de espanto: - É o “cara”! O cara, a quem fiz algumas adulações na cúpula do G-20! soube que ele é um líder nato e que pode ser meu aliado na America Latina junto a associação de Morales e Chávez. E acrescenta: - Chamei a atenção da imprensa internacional para o “cara” e ainda lhe cedi o lugar junto à rainha. Depois, em conversa com jornalistas, ele disse que eu “era a cara deles” e me chamou de “baiano”. Não sei se isso é uma troca de gentileza.

No intervalo dessas euforias, o secretário informa-lhe que o país sofre de alguns vícios permanentes na política, como corrupção, uso indevido de cartões, farras de passagens aéreas, CPIs constantes e graves denúncias de protecionismo que não escapam a alguns membros do colegiado da mais alta Corte.

Obama, ainda não refeito da surpresa: - Temos que achar o ponto fraco desse “cara”!

O secretário vai enumerando a lista.....  Stop! Stop! grita Obama, entusiasmado. Achei! O terceiro mandato! O “cara” é meu.......!

Autor: ALDMERIZA RIKER

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

O humor anunciado não se concretiza. É preciso rever a pontuação e o uso de tempos verbais.

 

7,0

Cida Sepúlveda

Bem escrita, mas não gostei do conteúdo, excessivamente negativo. O autor não balanceia as posições, ataca. É um tipo de texto que serve para agredir, detonar, e não dá ao leitor a mínima possibilidade de reflexão.

 

8,0

Betty Vidigal

Muito pouco convincente, mesmo no terreno da sátira política. Não dá pra imaginar Hillary referindo-se ao “nosso cacoete internacional”. Exigiria uma autocrítica que nenhum político, de país nenhum, tem.

7,5

Oswaldo Pullen

Não tem características de crônica.

6,0

Marco Antunes

O cronista vai construindo a partir de paroxismos e caricaturas o perfil de uma idéia que se concretiza num evidente deboche à falsidade das relações diplomáticas e dos discursos de governo. Poderia ser uma página de Jabor, nas raras vezes em que ele acerta o tom e consegue tornar sua escritura didática e irônica no bom sentido.

9,0

Lorenza Costa

 

7,5

TOTAL

45

 

Crônica 10

Acredite na Crise

A minha geração nasceu em paz. Nunca passámos pelo infortúnio das grandes convulsões sociais trazidas pela falta de estabilidade política dos países nem pela ausência da benesse que é viver sem guerra (que frase arrevezada! Nunca ter passado pela ausência de uma benesse é simplesmente ter tido a benesse... Mas, ainda por cima, trata-se da benesse de “não” ter algo – no caso, guerra. Certamente dá pra escrever isto numa frase que não contenha 3 negativas!) Nunca vivemos em crise, não saberíamos o que fazer com ela.

Chegámos depois da revolução que livrou a terra da ditadura, nascemos da geração que operou a mudança. Foi-nos sempre incutido um espirito de “tu podes o que quiseres e tens direito a isso tudo e mais que te aprouver”. Porque sim, porque é natural querermos sempre mais e agora temos liberdade para tudo o que nunca tivemos antes.

Foi aqui que despontou o erro. Foi com a abertura desmesurada do leque de possibilidades que nos lixámos. Para um povo, qualquer povo, que não estava antes habituado a poder fazer absolutamente nada sem pedir licença por escrito ao Estado ter, de repente, o horizonte por medida é obra. Acabam de repente os filtros, as medidas, os travões.

Crescemos a pensar que o mundo é cor de rosa, que a vida é mesmo assim de leve, que não há que ter mais preocupações que aquelas que se limitam com o chegar do ordenado ao fim do mês, pagar as contas, comprar caprichos e levar uma vida despreocupada a rir e a cantar, qual cigarra no estio, porque no fim do mês que vem o nosso está certo outra vez.

 

Aproveitando este clima de faustoso optimismo, os bancos, os verdadeiros mandantes do rumo da nossa nave azul, cientes que o negócio é a verdadeira arte e, como tal, o valor dado à arte é aumentado consoante o marketing que tem por trás, oferecem-se para nos vender mais dinheiro. E nós, porque é extremamente indispensável para o equilíbrio da nossa vida social, compramos dinheiro a taxas altíssimas que depois aplicamos em bens patrimoniais que nos vão permitir envelhecer desafogadamente. Era bom que assim fosse. Aproveitámos a liberdade financeira e os seus facílimos de usar cartões de crédito para comprar televisões tão grandes que não nos cabem em casa, carros maiores que os do vizinho, férias em paraísos tropicais, roupas de marcas italianas e tudo o mais que as máquinas publicitárias nos enfiam pelos olhos no intervalo das telenovelas.

Estamos assim, extremamente bem vestidos, (todos nós?) com um gosto irrepreensível, (lugares-comuns) a ver televisão nos nossos monitores megalómanos, andamos de carro ao fim de semana pela avenida com o braço de fora e os óculos de griffe pendurados do nariz. Mas no fim, em casa, não temos o que comer. Porque o ordenado, o tal que vem sempre no fim do mês, não chega nem para começar a pagar o dízimo a que nos obrigam os nossos amigos banqueiros e que, maravilha, cresce de mês para mês.

Os nossos governantes, do cimo dos seus fatos couture, aparecem nos noticiários a dizer que não há motivos para alarme, que 10% de desempregados é um exagero, que há qualquer coisa errada nos números, que é preciso ser optimista e não parar de investir, que é das crises que nascem as grandes oportunidades, que o mundo pula e avança e que temos de correr atrás dele.

Dizem-nos que é agora que tudo melhora, que para o ano já passou tudo, que continuemos a comprar e a gastar como se não fosse nada connosco.

E nós acreditamos. Acreditamos porque é mais fácil assimilar numa mentira colorida vestida de verde esperança do que a cinzenta realidade premonitória da hecatombe que se aproxima.

Não nos dizem, ou tentam que não saibamos, que há cada vez mais patrícios a viver no limiar da pobreza, que há crianças que vão para a escola todos os dias com a barriga vazia e que só lá, às custas do Estado, têm a primeira e última refeição do dia. Não querem que relacionemos o aumento da criminalidade violenta com o crescente desespero da população, não é suposto apercebermo-nos da falência das instituições do estado, da fuga de capital intelectual para o estrangeiro a um ritmo diário, por falta de possibilidades de desenvolvimento de carreira na sua terra.

Tudo está bem, dizem eles. Mas não está.

Equanto as máquinas políticas encobrem o estado das coisas, as coisas chegam a um estado de sítio de onde dificilmente sairemos sem mácula. A protecção secular dada aos barões da banca continua a acontecer. Quem provoca a crise deveria ser responsável pela sua resolução e no entanto é o oposto que acontece. Há cada vez mais pessoas a perder as suas casas e os seus empregos. Fecham fábricas todos os dias e os números dos novos desempregados são às centenas. Saem todos os anos resmas de novos licenciados das universidades, verdadeiras fábricas de diplomas sem conteúdo, que passarão cada vez mais tempo a engrossar as fileiras dos centros de emprego até encontrarem um e, mesmo então, será abaixo das suas competências e expectativas.

O que fazem os nossos líderes? Protegem a banca, subsidiam-na e pagam-lhe as contas, salvam-na da falência, pseudoprivatizam-na deixando-lhe a porta aberta para voltar a ser uma máquina privada de fazer dinheiro para alguns assim que o mercado estiver estável outra vez.

Ao indivíduo médio, resta-lhe manter-se no extremo mais afastado do processo de decisão, da cadeia de benefícios, da alavanca de desenvolvimento. E esperar que chegue a sua vez, que alguém lhe dê migalhas que, no estado de desespero em que já estará, lhe parecerão um banquete.

Mas não é só a economia financeira que está em maus lençóis. A economina ecológica está em total desequilíbrio. A percentagem daquilo que gastamos do que achamos que temos direito a devassar na natureza é muito superior à taxa de reposição desses mesmos recursos, muitos deles por serem findos, não reutilizáveis, não recicláveis e não recriáveis. Caminhamos para um planeta estéril e falido a passos largos, mas parecemos não nos importar muito com isso.

 

Não se trata aqui, ao passo que a linguagem, sempre traiçoeira, poderá dar esse ar, de espicaçar a plebe a rebelar-se contra as instituições. Isso será uma decisão individual de cada um.

Aquilo que precisamos é de estimular a participação (Aquilo de que precisamos é de estimular a participação) de todos num processo que a todos diz respeito. É imperativo manter-nos informados. A velocidade a que as notícias são produzidas, difundidas e arquivadas nos dias que correm faz com que, à maioria de nós, estas nem sequer cheguem ou nos pareçam vindas de um passado demasiado distante para terem qualquer importância.

Nada mais errado. Como todos os ditos populares têm um fundo de verdade, também “a informação é poder” o tem.

Saber com que linhas nos cosemos é essencial para sermos melhores cidadãos, para podermos reivindicar com segurança e para sermos parte activa na melhoria das nossas condições de vida e nas que queremos para a nossa prole.

Autor: JOÃO GUIMARÃES

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Ótimo... ensaio. A fuga do gênero é que dita a nota.

6,0

Cida Sepúlveda

Muito assunto para uma crônica. Está mais para ensaio.

 

8,0

Betty Vidigal

Começou bem, depois se perdeu em bom-mocismo e pontos de vista politicamente corretos, com exortações óbvias como “é imperativo manter-nos informados”.

 

8,0

Oswaldo Pullen

Boa crônica

9,0

Marco Antunes

Cuidado com a regência! É uma crônica boa, mas não empolga, pois falta um ponto de vista mais interessante para sustentar o texto, dando até uma certa aparência de ensaio ou artigo, mas percebe-se que se trata de uma crônica pelo fio condutor da identificação de sua geração e vivências.

8,0

Lorenza Costa

 

10,0

TOTAL

49

 

Crônica 11

A parede de Oenoanda

 

 Uma das mais perversas higienes é a lavagem ao cérebro. Praticada em muitos países que são, normalmente, avessos à democracia, ela suja as cabeças de quem a frui. Ou seja, a lavagem suja. Nesses países, a publicidade das ruas serve para convencer o cidadão de que, por exemplo, a “Pátria” e a “Revolução” são mais importantes do que a compra de um celular de último modelo. (???) Em oposição a isto, na sociedade em que quase todos vivemos, democracias musculadas, tenta-se convencer o cidadão de que o celular de último modelo é mais importante do que o do modelo anterior. Com isto temos outro tipo de lavagem, uma que nos leva a comprar. Para onde quer que olhemos à nossa volta, o que vemos são coisas para comprar. Digo isto em forma de crítica mas, afinal, creio ingenuamente no oposto, ou seja, que a comunicação massificada pode ser o veículo da Salvação. Julgo que, bem utilizada, poderá ser o grande veículo, aquele que os budistas chamam de Mahayana e eu chamo outdoor. Explico melhor:

 Diógenes de Oenoanda – epicurista que viveu nos primeiros séculos d.C. – era, sem ofensa, um homem rico. Mas sem desprimor para os seus cofres, o seu grande tesouro não era pecuniário, era uma coisa que os mortais (como ele?) chamam de filosofia (e os imortais também chamariam, se existissem.). Diógenes mandou construir um muro, no meio de Oenoanda, onde inscreveu uma súmula do seu epicurismo, um texto de 25000 palavras (é evidente que os gregos antigos não percebiam o significado da palavra “súmula”). Para (?) Diógenes, que tinha encontrado a felicidade através da filosofia, decidiu-se pela mais nobre das acções humanas: a dádiva. Ele sabia muito bem que não se é rico pelo que se tem, mas pelo que se dá, como diria Erich Fromm. Assim, distribuiu pelo povo aquilo que ele achava ser a melhor maneira de viver (distribuiu o quê? O verbo distribuir é bitransitivo. Será que é “distribuir” no sentido de “divulgar”?). E esse pão (que pão?) multiplicava-se como peixes. A felicidade distribuía-se pelas pessoas em forma de pensamentos. Não sei se houve outro exemplo destes na História, mas este chega para o que pretendo: muito do que se escreveu nesse muro criticava o consumo, o excesso. Esse era um ponto central desta súmula de milhares de palavras. E é muito importante reter o seguinte e repetir como um mantra: era um problema que já existia nos dois primeiros séculos da nossa era. Não tinha, por certo, a dimensão que terá nos dias de hoje (nem era apodada de crise), mas teria importância suficiente para encher um muro com 25000 palavras. Há dois milénios – ainda eu não tinha nascido (ah...!) – e já havia quem se preocupasse com o consumo desregrado. Para se ver que a lucidez não apareceu quando se inventou a televisão.

 Mas esta preocupação é ainda mais antiga, tão antiga que até podemos dizê-la mesopotâmica. Dito isto, passemos a uma pequena exposição (uma súmula, mas não no sentido grego, descanse, caro leitor) do acúmulo de bens: Nasce com a sedentarização. O nómada viajava atrás da comida; não acumulava porque é desconfortável viajar com celeiros. Andava atrás dos pastos, atrás da Primavera. O seu irmão sedentário, de quem somos fiéis herdeiros, tinha de acumular no Verão, (sem vírgula ou com 2 vírgulas) o necessário para viver no Inverno. Esta mudança do nomadismo para o sedentarismo, este novo paradigma social, obrigaria a trabalhar tanto, mas tanto, que permitiria encher celeiros. Esse excesso acumulado era uma verdadeira riqueza, digna de cobiça. Nasceram as fechaduras. E daqui as correntes e os escravos (curiosamente, foi um escravo – Esopo – que escreveu a fábula da cigarra e da formiga, um conto zoologicamente errado que faz apologia do trabalho sedentário: a cigarra é um bicho que, digamos assim, hiberna, não precisa de mendigar comida no Inverno. À cigarra basta-lhe cantar). A comida passou a estar trancada, coisa que nunca se tinha visto antes. E assim, há 10000 anos, com as primeiras grandes cidades nasceram as classes sociais, as Sete Maravilhas da Antiguidade, a necessidade de policiamento, o sobrepovoamento e a rapacidade humana. A depredação do planeta viria então a ser o nosso modus vivendi. Tudo isto permitiu-nos trabalhar o dia inteiro para não ter tempo de ser feliz.

 Exposta esta completíssima sinopse do nascimento da sociedade moderna, convém referir que apesar de grandes males, (sem vírgula ou com 2 vírgulas) todo este trabalho também nos trouxe inúmeras vantagens que seria fastidioso enumerar. E eu tenho esta insofismável certeza (lugar-comum) que me corre nas veias (também pode ser sangue), que me dá a imponderável convicção de que esta sociedade recheada de injustiças profundas  (lugar-comum) tem, também, as suas virtudes: o ideal não será, portanto, destruir o edifício construído, mas corrigi-lo onde apresenta defeitos.

 O endividamento, o colapso financeiro, em conjunto com as outras crises todas, terão de ter uma solução transversal e profunda e não apenas um remendo capaz de sanar a superfície da crise económica. Ou então metade do mundo continuará, com a sua extrema pobreza, (lugar-comum. Esta expressão, especificamente, é muito utilizada em relatórios oficiais e de ONGs. Aí, torna-se cabível. Num texto literário, melhor ou evitar o adjetivo ou procurar outro.) a fazer enriquecer uns poucos e a alimentar a classe média dos países ricos. Resolveremos o problema de alguns sectores económicos, mas no Bangladesh vai-se continuar a viver – como dizer? – mal. E isso é que é uma verdadeira crise. Os nossos problemas não devem ser problemas endémicos, mas problemas de todos, globais (esta é uma palavra tão vasta que chega a incluir países como a Somália e a Etiópia, por exemplo). As soluções que se propõem, sejam a nacionalização dos bancos ou outras, procuram resolver esta crise, efémera, mas não procuram resolver o caroço, aquilo que a provoca e, com toda a certeza, a fará ressurgir. Continuaremos a exaurir todos os recursos conhecidos com a mesma voragem de sempre.

 O que todos nós precisamos é de um novo paradigma social, precisamos de desejar, prioritariamente, outras coisas que não passem por um consumo excessivo e desregrado (que confundimos com felicidade). Criaram-nos falsas necessidades, e há a crença de que, por exemplo, não se pode alcançar o Nirvana sem um iphone. (boa frase)

 Urge seguir o exemplo de Diógenes: fazer publicidade – não para comprar mais, mas para moderar o consumo de um modo sustentado – e substituir esses desejos que nos enfiaram na cabeça, por outros que sejam verdadeiramente humanos e nos dêem alguma esperança, alguma sabedoria, mesmo que continuemos sem saber muito bem como ser mais felizes.

Autor: AFONSO CRUZ

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Excelente texto, mas não é crônica. Por isso, a nota.

6,0

Cida Sepúlveda

Excelente. Rica de conteúdo. O autor conseguiu juntar muito assunto num texto leve.

 

10,0

Betty Vidigal

Tem boas sacadas em frases, mas não em idéias. Mais uma vez, não é crônica. Não escapou do tom de exortação. Pretende ‘catequizar’ o leitor, levando-o a fazer o que, na opinião do autor, é o certo. O problema é que toda a torcida do Corinthians também acha que isso é o certo... Mesmo quem não age de acordo com isso.

 

8,0

Oswaldo Pullen

Um líbelo contra o consumismo. Cheio de certezas demais.

8,0

Marco Antunes

Vide crítica a crônica 4: Cronista, você não se irrita quando alguém tenta te pegar pela mão e conduzi-la a uma verdade única e, supostamente, evidente? Não fica meio enjoada quando recebe dos moralistas de televisão aquelas conclamações emocionadas para agirmos em prol de...?  Pois é! Tem um jeito charmoso de fazer isso, o “conduzido” nem percebe que o foi e chega lá, no mesmo lugar, sem se dar conta de que foi levado! Onde se aprende a fazer isso? Dê uma volta em Rubem Braga e passeie pelos jardins de sua cidade literária, você conhecerá um cicerone habilidoso. Ocorre-me, agora, uma praça específica dessa urbe do bom gosto: “A Traição das Elegantes” (Texto Abaixo). Pois é! Cabe o mesmo aqui.

8,0

Lorenza Costa

 

10,0

TOTAL

50

 

Crônica 12

O lançamento de um míssil: uma ameaça

Celeste era uma senhora de uns setenta e cinco anos. Não fossem os cabelos brancos era possível dizer que era uma mulher de no máximo cinquenta anos. Morena de olhos grandes e de uma vitalidade de fazer inveja a muitos jovens. Céu como era chamada na intimidade acordava cedo todos os dias. Antes do café ela ia até o jardim pegar os jornais que os correios deixavam nas primeiras horas do dia.

Céu alimentou o hábito saudável da leitura durante todos estes anos que mudou para a chácara nas proximidades de Brasília. A sua condição de aposentada não diminuía o seu interesse pelo que acontecia pelo resto do mundo. Todos os vizinhos gostavam de conversar com ela pela capacidade crítica que tinha e pela atualidade das informações.

Era uma quinta-feira ainda cedo quando Antenor, um amigo que morava nas proximidades, chegou para tomar um café e discutir sobre política, o seu assunto preferido. Exatamente naquela manhã ele encontrou Céu um pouco triste e um tanto lacônica.

O que teria acontecido? Antenor ficou cismado, mas não quis fazer a pergunta direta. Então muito habilidoso foi puxando uma conserva mais pessoal tentando entender o que se passava. Ele olhou para a mesa de centro e viu um jornal com a manchete: Obama diz estar ‘preocupado’ com desenvolvimento de mísseis pelo Irã. Imediatamente olhou para Céu e viu uma nuvem de pavor sobre o seu olhar.

A sala foi tomada pelo silêncio. Não foi preciso nenhuma palavra para que Antenor compreendesse o que realmente acontecia. Ele se aproximou de Céu e a abraçou como quem protege a uma criança. Durante alguns minutos o calor daquela amizade foi o suficiente para o conforto de Céu.

Eles foram até a varanda. Ela sentou num banco de madeira rústica e ele sentou num tamborete de madeira já desgastado pelo tempo. Apenas um vaso de azaléia rosa mostrava cor naquele ambiente.

As palavras de Céu começaram tímidas e aos poucos pareciam um canto de saudades. Céu falava de um amor distante, da família dividida, a luta para construir a sua pátria, a dor, a guerra, a paz , a política e a religião. Céu falava de Israel como um solo sagrado. Era uma terra marcada pelo amor de seus antepassados. Ninguém tinha o direito de destruir um Estado. Os judeus tinham direto à sua terra. Céu agora já não falava e sim cantava um hino de amor a Israel.

Depois das declarações do porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs sobre a preocupação do presidente dos EUA com o desenvolvimento do programa iraniano de mísseis, quando eles anunciaram já ter lançado um míssil capaz de atingir Israel, Céu ficou doente diante da possibilidade da destruição da terra natal do povo judeu.

O jornal dizia que o lançamento do míssil foi um sucesso. Como poderiam os iranianos comemorar um teste que significa a destruição do outro? Céu continuava ali com o olhar distante. Tudo era escuro. As notícias eram sombrias e por mais que os sentimentos permeassem a sua voz de afeição, a sua alma estava angustiada diante do que poderia acontecer. E no meio daquele conflito de sensibilidade e pressentimento, os olhos grandes da mulher aflita por um instante pareciam uma luz.

Antenor até o momento era o amigo ouvinte. A cena que acabara de assistir era de rara beleza. Talvez seja difícil ver o belo associado à dor. Uma declaração de amor feita da simplicidade e da certeza da necessidade de que seu povo tem de ter um porto seguro.

Céu entrou em casa e voltou com o jornal na mão. Sentou novamente e leu em voz alta para o amigo: ”O míssil Sejil 2, que possui uma avançada tecnologia, foi lançado hoje... e caiu exatamente no alvo”, disse presidente Mahmoud Ahmadinejad durante uma visita à província de Semnan, norte do país, que a agência oficial Irna informou ter sido o local do lançamento.

Novamente a voz que se ouvia na varanda era de Céu. Agora era falava pausadamente e mais uma vez suas palavras eram carregadas de emoção por não entender o porquê dos países em desenvolver projetos armamentistas. (pode ser “a teimosia dos países em + verbo” ou “a insistência”, ou “a obsessão”. Com “o porquê”, tem de ser “o porquê de os países desenvolverem projetos armamentistas”. Aqui, sim, com infinitivo flexionado.) O que faz um país mais poderoso é o seu poder de destruição. Céu não conseguia ter alegria diante da realidade que vivia: Israel ameaçado.

O velho amigo até ali apenas ouvia o lamento. De repente ele também começou a falar e disse das suas esperanças com a eleição de Obama como presidente dos Estados Unidos da América. Era a voz de um país forte que se levantava contra a política belicista. Antenor também falou de todos os avanços no sentido de recuperar a destruição causada pelas guerras. Falou das perdas durante a segunda guerra mundial e confidenciou os ganhos. O que poderia ganhar num período onde o terror tomou conta do mundo? A amizade e o amor que nasceu onde os refugiados foram acolhidos como filhos e como irmãos.

Era meio-dia e os dois amigos continuavam conversando. Um tentando se fortalecer com o carinho do outro. Ele um brasileiro, um democrata, um nacionalista que continuava lutando por um Brasil mais forte e mais justo na expressão maior do seu povo. Ela uma armênia, com uma história dividida pela guerra e pelo medo, mas com a convicção de que a paz é o bem maior da humanidade.

Os dois levantaram e enquanto se despediam no portão. O céu da cidade foi cortado pelos aviões de caça da Força Aérea Brasileira que faziam exercícios de rotina. O barulho foi ensurdecedor e os dois ainda envolvidos pelos seus temores caíram abraçados no chão como se protegendo de um bombardeio.

Não era a guerra. Não era um míssil. Era simplesmente a vida que continuava.

Autor: LÚCIA DE MELO

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Conto

6,0

Cida Sepúlveda

Conto.

 

6,0

Betty Vidigal

Por que usar personagens fictícios, se não acontece nada com eles? Se apenas externam suas opiniões? Se a intenção é mostrar as opiniões da autora, não é preciso inventar personagem de nenhum tipo.

6,0

Oswaldo Pullen

Não é crônica

6,0

Marco Antunes

Há muitos problemas com o presente texto que vão de correção a propriedade vocabular, tenho certeza de que onde a autora usa “Estado” desejaria, se conhecesse a distinção dos termos “Nação” ou mesmo “país”! Mas o mais desanimador é mesmo a puerilidade dos argumentos e da tentativa canhestra de produzir emoção criando duas personagens cuja inverossimilhança é de uma evidência constrangedora! Para completar, é conto!

6,0

Lorenza  Costa

 

6,0

TOTAL

36

 

Crônica 13

As meninas do viaduto

 

Nem sei quantas noites faz que o farol do meu carro bate nos mesmos corpos franzinos das meninas do viaduto. Há muitos anos faço sempre este caminho para casa, todas as noites.

Vou enxergando as silhuetas magras que se destacam na imundície da calçada. Sempre juntas, como pombas em bando, seriam meninas não fosse o sexo que já carregam rompido por dentre as perninhas mal-feitas.

Uma come um pirulito toda noite, outra aninha uma boneca no colo. Duas menorzinhas vivem abraçadas mesmo com tempo quente.

Todo ano, percebo que algumas sumiram, algumas pintaram o cabelo, outras deixaram de sorrir. Já encontrei uma delas, moça feita, disputando com um travesti o ponto numa rua de comércio. Reconheci por um defeito no braço.

Observo o cafetão que não trabalha. Sentado na grama, ao lado de uma mulher adulta, vigia disfarçadamente as meninas e, quando a polícia passa, finge ser o pai de uma família necessitada. A polícia também finge.

Do sinal fechado eu fico vendo que, de tempos em tempos, uma das mais velhas vai lá e entrega ao homem um monte de notas miúdas. Depois volta para pastorear as outras. Descobri que essa menina mais velha é poupada dos programas. Só vai se o cliente exigir. Sua obrigação é fazer com que as menores trabalhem. Faz tempo que eu percebi que o pirulito serve para amansar o choro. A rebeldia é impedida com porrada mesmo. Briga de meninas de rua: quem dá bola?

Meu carro não desperta interesse. As unhas pintadas e os requebros caricatos se assanham somente para os homens. Qualquer um. Uns meses atrás, peguei um flagrante. Só deu pra ver a mão chamando da janela do carro, balançando a ponta de uma nota de R$10,00. A menina entrou no carro bem rápido e eu não tive tempo de ver mais nada.

Semana passada, parei pra conversar com elas. Fiquei com medo do cafetão, mas segui a regra: paguei adiantado com uma nota de R$20,00. Nas minhas contas, dava pra dois programas. Depois que o dinheiro trocou de mãos, ele nem se preocupou mais em saber o que eu queria.

A regra é simples: a pequena recebe, a maiorzinha recolhe. Daí a pequena entra no carro. É tudo num piscar de olhos. O sujeito fica parado, de faróis apagados, e ninguém que passe tem coragem ou interesse de olhar lá pra dentro.

De perto, elas são ainda mais novas. Meu carro ficou cheirando a álcool barato e a uma outra coisa que não identifiquei. Talvez thinner, talvez outro solvente.

Fui avisada: “Tu não pode me apertá com força, nem batê. Pode mexer aqui em cima, ó...mas em baixo tu só pode oiá. Se eu gritá o pai vem atrás de tu, viu?”.

Não tinha mais criança ali.

De repente, meu deu uma vergonha de alguém me ver parada com aquela menina no carro. Todo o mundo sabe o que fazem os carros que param e apagam os faróis.

- Vai ficá aí me espiano, é tia? Se não andá logo o tempo acaba.

Antes do tempo acabar, meu estômago embrulhou.

A maiorzinha chegou de novo perto do carro e eu estiquei a mão pra fora com outra nota de R$20,00. Não dava pra ir embora antes de saber se ainda tinha alguma coisa inviolada na menina.

Nada. Dela só arranquei que queria crescer pra trabalhar numa boate e dançar em cima de um queijo. De biquíni prateado e bota. Queria ganhar um dinheiro só pra ela.

As meninas não chegam nem perto dos R$10,00 reais de cada programa. Ganham balinhas, bonecas baratas e uma noite de sono tardia numa cama de barraco. Isso se não for a noite de o cafetão aparecer pra conferir a mercadoria.

Quando levantei a mão para afagar o cabelo da pequena me lembrei que qualquer gesto seria mal-interpretado como uma carícia sexual. Parei a mão no ar e comecei novamente a sentir ânsia. Não tem coisa que me deixe mais impotente do que uma criança corrompida.

- Tu não é cana que eu sei...Mas tu deve ser dessas muié que quer tirá a gente da rua, ?

Quem dera! Parei no ponto delas por curiosidade. Para fingir que me importo. Para ser diferente de quem passa e vai embora.

Depois disso, me afastei do viaduto das meninas por várias semanas. Mas acabei voltando, porque continua a ser o caminho mais curto até em casa.

A cada vez que o sinal fica vermelho, o cafetão se levanta e fica me encarando até eu ir embora. Não sei por quê. Eu continuo inútil.

Autor: CÍNTHIA KRIEMLER

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Esta crônica comove sem cair no pieguismo. É um bom exemplo da simplicidade que caracteriza o gênero.

9,5

Cida Sepúlveda

Texto forte pelo conteúdo, mas desliza quanto ao gênero.

 

8,0

Betty Vidigal

Interessante. Principalmente ao mostrar o sonho da menina, de crescer e continuar na mesma vida, só que independente. Nunca imaginei que as meninas e seus agentes impusessem barreiras tipo “em baixo tu só pode oiá”. Mas é muito convincente.

9,5

Oswaldo Pullen

Crônica bem escrita, que mostra a realidade da prostituição infantil.

9,0

Marco Antunes

Excelente! Atenção, cronistas, é isso, viram? Não é preciso fazer um discurso ou posar de boa gente, isso não convence ninguém, isso não consegue empatia de muitos, pelo simples fato de que todo mundo sabe da hipocrisia pessoal de suas atitudes e ninguém, de verdade, acredita na sinceridade dos semelhantes (ou pelo menos desconfia muito dela).  Por fim, ainda que seja verdadeiro o heroísmo ele é menos real literariamente que a indiferença pura ou a indiferença com remorso.

10,0

Lorenza Costa

 

10,0

TOTAL

56

 

 

Crônica 14

Ignomínia Social

 

Vivemos, de facto, num mundo hiper-mdiatizado, no qual tudo é informação. Com a massificação das novas tecnologias, a toda a hora, a todo o segundo, somos bombardeados com soundbytes provenientes de toda a parte e arredores, tornando a comunicação algo caótica e humanamente impossível de absorver na sua totalidade. Quem produz toda essa informação sabe que aquilo que faz se destina a um consumo self-service, ou seja, a uma auto-gestão do consumo dessa oferta informativa. (ninguém produz “toda” essa info!) A velocidade e a quantidade destes processos de comunicação é tal que somos obrigados a criar filtros para aquilo que nos importa e queremos saber, através de critérios de relativização. Uma outra consequência desta massificação dos processos de comunicação foi a redução simbólica do planeta Terra, pois com tal volume de informações disponíveis, provenientes de todos os confins do mundo, é-nos permitido conhecer, ainda que virtualmente, esses mesmos recantos, que de outra forma nunca conheceríamos. É-nos possível ver em nossa casa, confortavelmente instalados, os horrores e as desgraças das vidas alheias, que numa sequência abismal desfilam diante dos nossos olhos. Este fenómeno permite-nos afirmar, com alguma razoabilidade, que habitamos um lar do tamanho do mundo inteiro.

Foi nesse conforto do lar que, nos últimos dias, fomos assaltados pelas chocantes notícias que nos chegaram da Irlanda, a propósito dos sistemáticos abusos sexuais de que as crianças e jovens, institucionalizados em organizações religiosas, foram vítimas (alguém é vítima de alguma coisa) ao longo das últimas seis décadas. Mais do que o próprio abuso, o que impressiona e nos deixa completamente desarmados é a descrença e a insegurança que sentimos nas instituições (descrença nas instituições, ok, mas insegurança quanto às instituições), que , (vírgula) à partida, mereciam todo o nosso respeito, a nossa solidariedade e a nossa confiança. Afinal, em quem podemos confiar os nossos filhos, as nossas crianças!?... Esta será a questão ou a dúvida que assaltou a consciência de toda a gente, que de uma forma ou de outra, sente também seu este drama. Impressiona como foi possível, durante anos e anos, décadas e décadas, gerações e gerações de crianças indefesas e abandonadas, terem sido abusadas psicológica e fisicamente sem nunca ninguém as ter defendido, sem nunca ninguém ter denunciado tal situação.

Bem sabemos que nada de novo aconteceu e, tendo em conta o conhecimento de outras situações similares que vão acontecendo e são notícia, um pouco por todo o mundo, aprendemos já a relativizar e desprezar tudo aquilo que não nos diz directamente respeito. Bem sabemos que não foi a primeira vez, nem será a última que tal sucederá, mas importa enfatizar estes factos, pois nunca será demais nem o suficiente para os evitar. Também porque considero que esta traumática existência não diz só respeito àqueles que a sentiram na sua pele, mas sim a todos nós que nos preocupamos e pretendemos construir um mundo melhor e assim o legar às gerações futuras.

Diz-se que o melhor do mundo são as crianças. Algo em que eu, particularmente, acredito piamente (acredita-se em alguma coisa.). Chamem-me inocente ou ingénuo, não me importo!.. Não poderei é ficar impávido e sereno perante tal horror. Lutarei o que puder para o combater. Como progenitor sei que tenho como responsabilidade cuidar, proteger e educar os meus filhos; como cidadão sei que tenho como responsabilidade contribuir para o cuido, a protecção e a educação daqueles e daquelas que, infelizmente, não tiveram, não têm ou terão acesso a um lar e a uma família. Perante tamanha agressão aos nossos valores civilizacionais teremos que rever, urgentemente, a nossa posição perante determinados comportamentos e perante determinadas instituições. Não importa aqui quem são os criminosos – se professores, se monitores, se guardas, se padres, ou mesmo bispos. Não importa se o palco desses horrores são instituições religiosas, associativas ou seculares. Não poderemos tolerar mais que aqueles que deveriam ser a guarda e o seguro dos mais desprotegidos, sejam os seus mais terríveis predadores e, assim, destruam de vez a vida de tanta gente, que acabem com os cândidos sonhos de criança, transformando-os em horrendos pesadelos.

E ninguém cuidou de todas estas vidas esfrangalhadas?!.

Muitos deles e delas só agora, que chegam ao fim das suas (possíveis) vidas, quebraram o silêncio, só agora conseguiram admitir e partilhar essas terríveis experiências. Tantas e tantas vidas destruídas, tantas vidas adiadas para nunca mais, tantos e tantos traumas que terão resultado em errâncias, em violência e em desgraça. Quem se responsabilizará agora por todos esses danos causados!?...

Não podemos aceitar que o carácter totalizante de tais instituições sirva pervertidamente as taras e desvios de alguns. Revolta-me as entranhas o atroz silêncio imposto por essas organizações religiosas que durante tanto tempo promoveu estas pérfidas parafilias. Basta.

É o Estado através dos nossos impostos que tem a responsabilidade última de garantir uma existência digna a todos os carenciados e, por isso, está na hora de exigir a verdade e a moralização do sistema; é o tempo de uma justiça que puna exemplarmente a depravação e a ignomínia social. Quero que o Estado, tal como promove, e bem, a existência das instituições de acolhimento para crianças, jovens, doentes e idosos, promova também a existência de instituições que acolham compulsivamente todos os indivíduos que sejam condenados por tais actos. Sinceramente, mesmo sabendo que nenhum passado seria recuperado, nem que nenhuma experiência seria modificada, sem excepção ou atenuantes e sem dó nem piedade, gostava de ver sofrer dos mesmos horrores todos aqueles e aquelas (que gostaria de adjectivar, mas que a falta de vocabulário próprio me impede), que um dia assim se comportaram. Para meu bel-prazer, lenta, sádica e violentamente.

Autor: LUÍS VALE

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Bem escrito, próximo do ensaio, mas ainda com características de crônica.

 

8,0

Cida Sepúlveda

Linguagem excessivamente formal.

8,0

Betty Vidigal

Não é crônica: é um discurso para político em campanha, criticando os outros e exaltando as próprias qualidades morais (“Não poderei é ficar impávido e sereno perante tal horror. Lutarei o que puder para o combater”, etc.)

6,0

Oswaldo Pullen

Texto pesado, de difícil leitura.

7,5

Marco Antunes

Diante do padrão português tenho alguma dúvidas para julgar, uma vez que não domino a expressão popular de Portugal, pois, as cinco vezes em que estive lá foi sempre na condição de Turista. Por isso não sei se formas como “é-nos” são de domínio popular ou erudito (como seria aqui no Brasil) pois, se não for popular, é estranho ao ambiente da crônica!  O autor é piedoso e, em determinados momentos, é tanta piedade e bom-mocismo que acaba por soar para quem lê a mais legítima prática de um vício chamado cabotinismo, que, como costumo dizer, ninguém consegue, a um só tempo, dele fazer uso e ser discreto quanto a isso!

7,5

Lorenza Costa

 

9,0

TOTAL

46

 

Crônica 15

PSICODRAMA CIVILIZATÓRIO

A grande imprensa noticiou com alarde, há poucos dias: um míssil iraniano, supostamente capaz de atravessar 2000 quilômetros de distância – e também 2000 anos de atraso tecnológico – cruzou os céus do Oriente e caiu em local não divulgado.

Se essa notícia é mais produto da mágoa oriental ou da mídia do ocidente, não se pode afirmar. Contudo, já foi dito, e com muita propriedade, que os grandes erros e tragédias humanos, em todas as épocas e lugares, acontecem pela incapacidade de nos colocarmos no lugar do Outro.

O outro. Sim, esse ser estranho, chamado Outro, que costuma responder por todos os erros do mundo, à exceção dos cometidos pelo Sistema ou pelo Rapaz – “foi falha do sistema", “foi culpa do rapaz". O Sistema, o Rapaz e o Outro, esse seres mitológicos, são três faces para um mesmo arquétipo, o do Culpado, que nunca somos nós. 

O Outro! Ele é sempre o terrorista a nos atazanar a nacionalidade. É sempre o Outro o traidor. É sempre o outro que se esqueceu de acionar a descarga da privada.

Também assim no confronto de civilizações. O problema não é um míssil no céu da província de Semnan ou todo um arsenal deles no deserto de Nevada. A grande questão, pouco difundida, é a Alteridade. Só conseguiremos superar esse impasse Ocidente-Oriente se exercitarmos a capacidade sublime de vermos a realidade sob a ótica do outro verdadeiro, assumindo por um instante sua visão de mundo. Esse é o caminho da aproximação.

Por isso, é necessário buscarmos uma solução diferente das convencionais. E para isso, proponho o psicodrama civilizatório.

Como funciona? Ora, de maneira semelhante à do psicodrama tradicional, proposto por J. Levy Moreno em 1920. Hoje amplamente difundida, essa técnica promove a catarse de problemas e traumas por meio da simulação. Finge-se que é o outro, para compreendê-lo. Assim, também podemos nos ver de fora, encarnados na pessoa do outro, que passa a nos representar.

Faremos assim: pelo psicodrama civilizatório, nós, ocidentais, vamos acompanhar os passos de um iraniano ilustre, para sentir como é sua realidade oriental, como pensa o Islã e sua gente.

Comecemos.

O presidente norte-americano se chama Barack Hussein Obama II. Então não há problema de, em nosso exercício, o presidente iraniano chamar-se John Smith. Será esse o seu nome. Vamos acompanhar-lhe os passos por um dia, na alegre Teerã, e notar o que lhe interessa, aflige e fascina.

"Mister president" John levanta-se pela manhã, e em genuflexão faz suas preces na Mesquita Branca. Em seguida, come ovos com bacon... Ops! Bacon é porco, e os muçulmanos não o comem por causa do pé fendido. Ou seriam os judeus? Ou ambos? (Ah!, não precisamos ser tão exatos.)

O presidente toma o seu café matinal e segue para uma reunião no Salão Oblongo. Nas paredes do corredor principal ele contempla o retrato dos "pais fundadores" do Irã: Abrahão, Maomé e Benjamin... Franklin.

Ao final do corredor, abre-se uma grande porta. O Conselho de Estado delibera sobre o novo programa de proteção aos Estados Unidos do Irã, pois estes podem sofrer um repentino ataque de mísseis carregados de armas biológicas – talvez gripe suína: a República Islâmica Norte-Americana (NAIR, no original) pode aproveitar a baixa tolerância ao tuíco e usá-lo como matéria-prima para bombardeio bio-psicológico. Sem falar na abominável pasta de amendoim.

Na reunião, propõe-se o uso da propaganda para enxovalhar a NAIR. Um dos conselheiros do presidente toma a palavra e defende o patrocínio a filmes de Bollywood, na Índia, que retratem os norte-americanos como sujos, agressivos e poligâmicos – neste último caso, sob o argumento de que muitos deles são mórmons.

Outro assessor considera que essa ação é tímida e com resultado incerto, pois o cinema tem alcance restrito e a mensagem subliminal pode ser detectada e transmutada pelos comunas infiltrados na cultura. Propõe, então, arregimentar a mídia, por meio de polpudas somas, para insistir na ideia de que a NAIR faz parte do Eixo do Mal, ao lado do Reino Unido de Dod Al Fayed (FADUR, no original). Afinal, todos sabem que a NAIR e o FADUR são países bárbaros e violadores dos direitos humanos, além de pouco afetos à democracia, pois suas eleições são indiretas, comumente fraudadas e, na prática, com apenas dois pseudopartidos.

O Secretário de Estado bate com o punho na mesa e adverte para a ameaça constante representada pelos afegãos, aqueles vizinhos próximos, incômodos, revolucionários, comunistas, barbudos e alegres. 

Todas essas preocupações fazem parte dos debates. Mas o cerne do encontro consiste em aprovar a criação de um aparato estratosférico para conter e disparar mísseis. Ao final do encontro, por unanimidade é escolhido o nome do projeto: Guerra nas Estrelas de Belém. Por pressão dos congressistas iranianos, a Lockhead Arabic é escolhida para fabricar os mísseis, contando com uma verba pública inicial de 1 bilhão de riais (isso mesmo, a moeda iraniana se chama rial).

Encerrada a reunião, John Smith almoça um hambúrguer no Habib's. Entre uma bocada e outra, o presidente deixa escapar que o gasto com armamentos abalou as contas públicas, e essa notícia chega rápido à Bolsa de Valores de Teerã, cujos operadores enlouquecem ao temor da crise, abalando o Índice Dow Jonas e Índice QADSAN, de alta tecnologia.

Pressionado pela crise que se instala, o presidente Smith solicita à Organização das Nações Xiitas autorização para bombardear Nova Iorque e Londres, pois lá estão escondidos os líderes terroristas aiatolá Warren Buffet (verdadeiro tapa na cara do Oriente), e a sabotadora cultural e de costumes, odalisca Britney Spears.

 

Assim o dia termina, e o pobre presidente e cidadão iraniano John Smith, angustiado, senta-se para fumar um narguilê da Camel, enquanto observa estrelas cadentes riscando o céu de Teerã. 

É o fim de nosso exercício de empatia. Está encerrado o psicodrama civilizatório.

Viram? Colocar-se no lugar do outro é simples. Só precisa de um pouco de treino e boa vontade.

Mas e Israel? O psicodrama a partir de Tel-Aviv é complexo. Os judeus se parecem mais com a gente. Mas tentaremos, um dia, com mesma isenção que conseguimos neste primeiro exercício...

Ah!, antes que me esqueça: você se lembra do nome do criador do psicodrama, J. Levy Moreno?

O "J" é de Jacob.

Autor: MARCELO LARROYED

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

tom aparentemente sério, felizmente, é logo desmascarado. Criativo e divertido.

 

9,8

Cida Sepúlveda

Uma crônica inteligente.

 

9,0

Betty Vidigal

Delícia de crônica. Até conseguiu usar um “é necessário” sem ficar com cara de manifesto político. Faz rir, e as crônica que fazem rir são as melhores. Muito original

10,0

Oswaldo Pullen

Crônica boa. Inda que confusa, algumas vezes.

8,5

Marco Antunes

2000 anos de atraso tecnológico é uma pouco justa inverdade, pois, como se sabe, os muçulmanos, em especial os persas, na primeira metade do último milênio tinham a primazia da ciência e da cultura no mundo,inclusive da matemática necessária para o excepcional feito tecnológico agora em tela! Mas quem sabe, sabe! Que crônica sensacional!

10,0

Lorenza Costa

 

8,0

TOTAL

55,3

cob.

Crônica 16

GRIPE SUÍNA

            Coisa chata essa tal de gripe suína. Nova epidemia ou pandemia que ataca os meios de comunicação. Fantasma para assustar paranóicos e hipocondríacos de todos os tipos.

            Lembram-se do bug do milênio? Os internautas e os adictos do computador entraram em pânico.

 No dia primeiro de janeiro de 2000, os dados sumiriam da memória dos computadores do mundo, o admirável mundo novo da cibernética viraria de cabeça para baixo, desapareceria nas profundezas abissais da era pré-informática, em que vivíamos todos, caneta na mão, dedos na máquina de datilografia, tabuada na cabeça, sem Word, nem Excel, nem Power Point, nem Internet, nem aqueles barbarismos de Inicializar, Disponibilizar, Escanear, USB, e-mail, drivers, mouse, hardware, software etc. e tal.

            Entrou o novo século – e milênio – e o bug se dissipou como a nuvem por Juno. A pandemia do bug da informática era apenas assombração. Não digo que a gripe suína o seja, não quero desmoralizar a OMS e os Ministérios da Saúde do mundo. Por enquanto, ela rasteja por aí como uma gripe qualquer; e desejo que os fatos não me desmintam. Entre a hipocondria e a irresponsabilidade, prefiro esta.

 Em todo caso, sigo o conselho de um simpático biólogo da internet, que sugeriu que se evitem apertos de mão. As pessoas espirram ou tossem e têm o bem comportado hábito de levar a mão à boca. Em seguida todos se cumprimentam com o cortês aperto de mãos, e, pronto, lá vem gripe suína, veiculada pelos vírus e bactérias que se escondem nas mãos não lavadas, e não no beijinho da face. Este, por incrível que pareça, seria menos nocivo. (Não falo do beijo na boca dos russos). Agora, se bilhões de pessoas lavarem as mãos a toda hora, com medo da gripe suína, vai faltar água no mundo, e ficará inútil o conselho do ambientalista de urinar durante o banho, para poupar a água da descarga.

            Parece que ninguém levou a sério o conselho do biólogo. Lula anda apertando a mão de qualquer estadista pelo mundo afora. É o mal das viagens. O papa João Paulo II gostava de beijar o chão dos aeroportos, não acreditava nos germes do chão, ou será que o cerimonial local metia água sanitária, antes ?

            A gripe suína parece candidata a doença de alta classe, com todos os cuidados preventivos, avisos, alarmes. Seria a nova aids (prefiro sida) da imprensa. Há doenças que não obtêm prestígio, ibope nos meios de comunicação. Por exemplo, doença de Chagas (um amigo meu morreu com ela antes dos quarenta), esquistossomose. Talvez porque sejam doenças rurais, ou doenças de pobre.

            As epidemias por vezes têm seus efeitos colaterais benéficos. Boccaccio e seus amigos se enfurnaram em um convento, para fugir da peste negra medieval, e o resultado das conversas fesceninas foi o memorável Decamerão. É possível que outras obras primas tenham surgido do retiro do escritor, quer em fuga de epidemia, quer em busca de solidão produtiva.

Castro Alves, Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, nossos poetas da tuberculose – outra doença sem ibope -- se nutriram da tristeza da sua sina, e produziram poemas de terrível beleza, a que não faltou a sensibilidade pelos problemas e mazelas do seu tempo.

                        Voltando ao nosso, os Estados Unidos acabam de anunciar o investimento de um bilhão de dólares para pesquisar uma vacina para a gripe suína. É sinal de que levam pouco a sério a pandemia, já que previram no orçamento noventa e um bilhões de dólares para as suas queridas guerras no Iraque e no Afeganistão. A destruição dos talibans vale noventa vezes mais que a vacina da gripe. Talvez o vírus muçulmano deles seja mais letal.

Alguém poderia aconselhar o Pentágono, por medida de economia, a espargir como napalm sobre o Afeganistão milhões de espirros e tosses de mexicanos e outros contaminados, ou melhor, incentivar o turismo deles por lá, com garantidos e frenéticos apertos de mãos, não lavadas, claro. Se o costume por lá for o beijo na boca, fará o mesmo efeito. A dificuldade inicial será contaminar as mulheres, que vivem enclausuradas e emburkadas. Os maridos farão o serviço.

Se isto for humor negro, me perdoem os críticos e julgadores. Segundo Flávio Moreira da Costa, na introdução de Os 100 Melhores Contos de HUMOR da Literatura Universal, o humor não se resume a gargalhar nas piadas, e “são muitos e variados os humores” e “o humor por vezes é muito perigoso” e “o bem-humorado não faz humor; quando alguém faz humor é sinal que está mal-humorado”.

Chega de citações, para não acabar de vez com o humor de vocês. E que a gripe suína volte para os porcos!  

Autor: MAURO ALBUQUERQUE

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Ótima crônica. O penúltimo parágrafo, dirigido aos “críticos e julgadores”, é totalmente desnecessário.

9,0

Cida Sepúlveda

Simples, leve, objetiva, uma crônica agradável de ser ler.

10,0

Betty Vidigal

Divertida. Muito engraçada a idéia de mandar os mexicanos para o Afeganistão. 

 

9,5

Oswaldo Pullen

Os dois últimos parágrafos não eram necessários. No mais, crônica divertida.

9,5

Marco Antunes

Adorei você derrubar a quarta parede entre você cronista e nós jurados, afinal os primeiros leitores, ou leitores preferenciais de cada crônica. O humor é ótimo!

9,5

Lorenza Costa

 

8,8

TOTAL

56,3

 

Crônica 17

Tentando entender umas coisas

 

A Europa é um lugarzinho engraçado. O mundo é um lugarzinho engraçado e o nosso tempo muito curioso, sim, senhor. O que me deixa besta, mais besta que o normal que já é muito, é justamente a perenidade das coisas. Tudo – e aí vai de casamentos realizados em Las Vegas à economia mundial – está sempre por um fio puído. O que era super bacana num dia, em míseras vinte quatro horas vira uma tragédia. Isso sem falar no mundo virtual que em si já é feito da névoa das manhãs, coisa moderna, da nossa época pra frente. Mas disso o cronista não se atreve a falar, sendo assunto para entendidos em bits e bytes, e este que vos escreve mal estacionou nos comandos do liquidificador.

      Antigamente existia um troço chamado instituição. Tudo que era instituição durava mais do que as pilastras do Palácio Monroe. Já não existe mais nem um nem outro. Assim, hoje, as únicas coisas de fato sólidas e imutáveis nesse planeta vêm a ser a glória do Bangu Athletic Club e minha exuberante galhada. Tão cuidadosamente cultivada ao longo das décadas com o esforço imoderado das donas que conviveram com este escriba. Tenho certeza, elas não mediram esforços. E se não a vejo ao menos intuo que a ramagem é das grandes.

      Todo esse devaneio, sem sentido, para comentar com a incerteza que me é peculiar, que essa manchete de jornal que me chega cruzando mares não me espanta (acertar as vírgulas. Há várias possibilidades corretas. Inclusive deixar sem nenhuma.) A gente se acostuma com tudo e, tirando nascimentos e mortes, nada mais surpreende ninguém. O que ainda causa surpresa e me deixa encafifado é a velocidade estúpida de como tudo muda. No Reino Unido os protestos contra trabalhadores estrangeiros estão correndo solto, como o diabo. Tudo bem, eu entendo o sempre fleumático povo da ilha. Se algum dia eu atinasse que um angolano, ou ainda, um coreano, estivesse tomando meu trabalho eu também tomaria as devidas providências, não faço, mas tenho quem faça. Até aí, natural, ninguém é obrigado a soltar rojões toda vez que um navio senegalês cheio de refugiados aporta em seu país. Sorte a deles é que somos bem educados e até hoje repetimos, errado, a historinha do pai do Chico de que somos um povo cordial. O sobrenatural da história é que há pouco tempo a mesma folha (ou seria outra, concorrente? Não sei dizer. O que sei, aliás?) destacou o desespero dos europeus em ter filhos. Não pelas gostosuras da obra, que isso de fazer gostoso revirando os olhinhos é coisa nossa. Eles querem fazer filhos é para trabalhar mesmo. Com todo mundo dobrando o Cabo Horn e prestes a se encontrar com Odin, e com outros tantos – gente esclarecida e estudada, todos de boa estirpe e linhagem imperial, pessoal da melhor qualidade – se recusando a pegar no pesado, o mercado de trabalho europeu se encontra mais desenxabido que água de salsicha. Ou seja, penso eu do cume da minha ignorância: precisa-se dos peões, ninguém quer ser peão, os estrangeiros querem ser peões, não querem deixar os coitados serem peões, ou seja, continua faltando peões. Deve ser complicado mesmo ser europeu, é muita cultura para pouca cabeça. Fosse lá em riba tenho certeza que tudo ia se resolver num instante. A gente não sabe mesmo das inteligências que há por aí.

      Aqui, de fato, não tem isso não. Dom João chegou logo abrindo os portos. Os italianos vieram, os japoneses vieram e foram lá plantar seu arrozinho. A galegada chegou e foi direto pro sul, hoje dominam a maior produção de mulher bonita do planeta, um montão por hectare, a gente tropeça nessas moças. Os americanos vieram na época da guerra e montaram base. Os holandeses deixaram um monte de gente com olho azul no nordeste. No Rio de Janeiro tem um lugar chamado Saara onde a judeusada e outros povos das Arábias só se pegam para ver quem vende mais barato. Única ameaça de carro-bomba foi a Kombi do meu tio, que certa vez entrou na rua do comércio com o motor fervido e a bomba de óleo dando pau.

- É a bomba, é a bomba!

Gritava ele frenético no meio de um fumacê dos infernos. A infame Kombi se assemelhava a um carro alegórico representando a explosão do Krakatoa. Todo mundo correu do bólido flamejante desse meu tio, depois correram atrás dele. Mas isso foi exceção, pois a paz impera nesse nosso país tropical. E mesmo sem já termos empregos pros filhos da terra e mesmo sem termos educação, e cultura e saúde e tudo o mais para nós, a gente não se aperta e recebe quem quiser vir, de onde vier. Aqui não tem essa frescura de dois pesos, duas medidas, Deus nos livre e guarde. Por essas plagas abraçamos o irmão d`além fronteira. Cabra batalhador que chega para dar emprego para a rapaziada daqui que não se preocupa com essas coisas de ser patrão e bom do jeito que e se melhorar estraga. Vamos dar as mãos a esses que, palpito, são mais brasileiros que muitos mascarados. Afinal, vamos raciocinar, o sujeito pode ir para qualquer outro lugar mais civilizado e escolhe vir para cá. E mais, ele vem, constrói e planta e colhe. Continuo, pois esse mesmo talzinho depois de explorar tudo de bom daqui, e aí vai do massapê as morenas manteúdas, bem que podia voltar coberto de glória e honra para sua terra, nem que fosse para dizer ao seu parente incréu e interesseiro: vi, venci e voltei. Mas não, esse estrangeiro, que aqui não passa os perrengues de outros cantos, prefere ficar aqui, se enterrar aqui e muitas vezes muda de nome para parecer menos gringo e toma Parreira, Pereira, Silva e Lima. A gente vive aqui por que nasceu aqui e daqui não tem como sair. Eles estão aqui por que querem. Nessa história toda só não dá pra aliviar esse povo vindo das Argentinas. Tudo tem limite, até nossa brodagem, não vamos abrir as pernas, esse povo é marrento e se a gente bobeia, eles montam. Hermano nada. Hermano é o cacete.

Autor: RODRIGO FERNANDES

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Texto enxuto, de leitura agradável

9,0

Cida Sepúlveda

Muito boa.

 

10,0

Betty Vidigal

Ótima.

 

10,0

Oswaldo Pullen

Excelente texto.

10

Marco Antunes

Muito boa a crônica. Só vou bronquear quanto a essa desnecessária exclusão dos argentinos, mesmo correndo o risco de ser chamado de traidor da brasilidade, devo dizer que todas as vezes que visitei o lindo país aí de baixo fui tão carinhosamente recebido que acho que eles tem exatamente o que talvez falte à brasilidade: aquele auto-respeito orgulhoso! No mais, tudo de bom!

9,5

Lorenza Costa

 

9,5

TOTAL

58

 

Crônica 18

Os olhos de Maria

 

            Tudo pode acontecer após o pôr do sol. Meu carro corta a escuridão como uma bala prateada em busca de justiça. As ruas e becos da cidade me revelam os segredos mais sujos e cruéis. As almas mais desesperadas. Uma morena de lábios escarlates sorri para mim com malícia. Como ela, centenas de outras prostitutas lançam promessas vazias de felicidade e satisfação sexual noite afora. Penso em Maria e estremeço por um segundo. Não devia me envolver nessa história assim.

            Como jornalista, vislumbrei tudo que a humanidade tem de pior. Ou quase tudo. O horror sempre arranja uma nova máscara para contemplar a humanidade. Ele invade nossas casas, polui as nossas mentes e amortece nossos sentidos. Tanto, que muitos nem o percebem mais. Ele passa a ser uma mosca irritante a atrapalhar o nosso sono, com zombarias e pesadelos terríveis. Ele nos mantém acordados madrugada adentro, acuados em um canto sem saber o que tanto nos assusta. E as crianças, pobres crianças, ele devora e despedaça sem a menor cerimônia.

            Basta passar na Rodoviária de madrugada e assistir aos passos entorpecidos dos pequenos abandonados, capazes de vender seus corpos por míseros R$ 5 para que possam comprar mais cola e esquecerem que estão vivos. Uma BMW pára próxima de uma menina que não pode ter mais de dez anos e as portas do inferno se abrem diante dela. A garota não hesita. Nem por um segundo. Não importa o que aquele desconhecido pretende fazer com ela. Não importa a violência que seu corpo de criança está prestes a sofrer. Tudo que importa é o dinheiro que aquele programa pode render. No mundo cão em que esses meninos e meninas vivem, isso demonstra esperteza.

            Novamente, olho para o retrato de Maria pendurado no quebra-sol. Vejo seu sorriso luminoso e a inocência expressa em seus olhos castanhos. Um retrato da verdadeira e autêntica felicidade. Algo que sentimos somente quando criança (o certo seria “quando crianças”, já que o sujeito é “nós”. Mas a frase ficaria esquisita. Melhor, então, “na infância”, por exemplo) e que adormece em nossos corações diante de todo sofrimento que esse mundo tem a oferecer. Desvio o olhar e me lembro das lágrimas de Leonora, mãe da menina. Lembro de seus olhos aflitos a me implorarem por ajuda. Suas palavras a martelarem em minha consciência por dias a fio.

            Leonora trabalha como empregada doméstica na casa de um diplomata, que nunca lhe deu a menor atenção. Ela passa a semana toda a arrumar camas, lavar roupas, fazer almoços, lanches, jantares e a cuidar dos filhos de desconhecidos. Não reclama nem discute com os patrões. Tudo porque tem uma filha linda para criar que é a alegria da sua vida. A pequena Maria, de 12 anos, que só vê nos fins de semana, quando tem folga do trabalho. A avó cuida da menina a maior parte do tempo. A leva para escola, confere os deveres de casa e assiste às novelas com a pequena. Ou assim fazia até um mês atrás, quando a menina foi levada por um desconhecido enquanto brincava de boneca em frente de casa.

            Não tenho coração-mole. Minha profissão não permite esse luxo. Mas admito que o apelo de Leonora me tocou profundamente. Ela pegou três ônibus para conversar pessoalmente comigo e para me entregar a foto da filha. Me contou que já tinha dado queixa na polícia, que não havia movido uma palha para encontrar a menina. Me relatou toda sua triste história em meio a muito choro e a voz embargada de uma mãe desesperada.

            Prometi que faria de tudo para ajudá-la com a consciência de que provavelmente isso não significava muito, visto que casos de desaparecimentos como o de Maria existem aos montes e poucos são realmente solucionados. Mas pensei que, ao pressionar um pouco a polícia, poderia conseguir algum resultado positivo. E foi o que fiz. Liguei para alguns delegados, questionei outros agentes e criei um pequeno rebuliço. Nada que fosse capaz de localizar a menina, no entanto.

Leonora me procurou mais uma vez. Expliquei para ela que estava dando o melhor de mim. Ela replicou que o melhor de mim não era o bastante. Não nos falamos mais depois disso. E a verdade é que ela estava certa. Eu não estava fazendo o bastante. Estava acomodado. Não era minha filha que estava desaparecida. Não era o meu sofrimento. Tentei deixar aquela história de lado, mas o olhar inocente de Maria me perseguia em sonhos e pensamentos lúgubres. Pensei em todas as desgraças que podiam ter ocorrido àquela pobre menina (e, na minha linha de trabalho, não são poucas as desgraças que posso imaginar) e decidi ir mais à fundo naquela história. Decidi ir a campo.

Peguei meu caderninho, caneta, e rumei para o endereço de Leonora. Conversei com a avó de Maria, com professores do colégio, com vizinhos e até com o pastor da igreja evangélica local. Fiquei a par das fofocas da vizinhança e procurei reunir o máximo de informações possíveis que me dessem uma pista de onde a pobre menina podia ter ido parar. Visitei abrigos do governo, orfanatos e pontos onde os jovens se reúnem para usar drogas e se prostituir. Nada me deixou mais perto de descobrir aonde Maria tinha ido parar.

Confesso, fiquei obcecado. Tentei juntar as peças do quebra-cabeça de todas as formas possíveis, mas elas pareciam não se encaixar de forma alguma. Até que uma luz se acendeu na minha cabeça. Uma idéia terrível se apossou de mim. Uma idéia que só alguém muito acostumado a lidar com as histórias mais sórdidas poderia ter. Liguei para um policial amigo meu e pedi que tentasse localizar uma determinada pessoa. Ele conseguiu. E, assim, aqui estou. Junto de um batalhão da Polícia Militar em um cortiço na parte mais violenta da cidade.

Eles adentram o prédio e dão voz de prisão para um homem de quarenta e poucos anos, cafetão da área e pai de Maria. Algumas prostitutas discutem com a polícia e tentam barrar a nossa entrada. Perco a paciência e as empurro para o lado. Vasculho todos os quartos do lugar sem nada encontrar. Até que vejo a porta do porão. As mulheres gritam atrás de mim. Um suor frio desce pela minha testa. Eu abro a porta e olhos cheios de medo me encaram, desesperados. Vejo uma menina de 12 anos, nua, acorrentada a uma cama. A inocência perdida na escuridão do mundo, longe do olhar de Deus...

Autor: PABLO RABELLO

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

É conto. Por isso, a nota.

6,0

Cida Sepúlveda

Lindo, mas é conto.

 

6,0

Betty Vidigal

Muito bom

10,0

Oswaldo Pullen

Sinto a crônica do concorrente mais voltada para um relato. Um pouco mais de clareza no início seria aconselhável, na identificação de quem é a Maria tratada pelo autor.

8,5

Marco Antunes

É muito tênue a linha que pode separar em alguns casos o conto da crônica, o jornalista aqui é tão personagem que chega quase a não ter volta no caminho da pura ficção, a mãe e a menina, no entanto, são claramente “tipos” simbólicos de sua categoria humana, e as diversas opiniões emitidas pelo autor conseguem trazer o texto para o universo da crônica.

8,0

Lorenza Costa

 

6,0

TOTAL

44,5

 

Crônica 19

ANTI-ROSA ATÔMICA

Domingo... Faz um frio danado. Encontro marcado logo cedo na Casa das Rosas. Pego o metrô na Vila Madalena e desço na estação Paraíso. Estou sempre adiantado. Mania de neto de funcionário da desativada São Paulo Railway, dos tempos em que os trens respeitavam os segundos.

Para fazer uma hora, paro no jornaleiro e vasculho as manchetes dos jornais. Ganho alguns minutos. Os americanos estão preocupados com o míssil lançado pelo Irã. Medo de o tiro sair pela culatra?! Experimentar as úlceras abertas na pele e na alma dos japoneses? Justa preocupação. Afinal, foram os primeiros a utilizar a radioatividade para fins militares.

Melhor caminhar, ficar parado aumenta a sensação de frio. A cidade é perfeita sem os ruídos provocados pelos carros. Um morador de rua espreguiça-se enquanto desfaz a cápsula-dormitório feita de papelão. Os americanos sabiam muito bem o que estavam fazendo... E agiram sem a cara feia e barbuda dos aiatolás. Não vá pela cara, dizia meu avô, o coração é quem manda.

O portão está aberto. Opto pela varanda lateral da casa, modo de aproveitar o sol de maio. Sento-me no sofá estrategicamente colocado para traseiros preguiçosos. Dentro das casas o frio é mais intenso. Detesto o frio! O jardim está cheio de rosas. Rosas brancas, róseas, amarelas... Sempre gostei de presentear as mulheres que me agradam com rosas ou cravos. Há uma rosa de cor estranha. É a primeira à esquerda para quem entra no jardim pelo portão principal. Com certeza, fruto de algum japonês manipulando o núcleo das células. Agrada-me a diversidade. Bem diferente das técnicas de exterminação praticadas nas guerras.

Os pilotos apertaram o botão e saíram em retirada deixando para trás um rastro de poeira, calor e mortes, inebriados pela beleza do cogumelo formado pela explosão. Não são mais necessários aviões pilotados, o míssil é um transportador teleguiado. Um jogo virtual, desses que as crianças brincam diante do computador. Opera-se o projétil à distância na direção do alvo. Assiste-se ao espetáculo no conforto de uma sala, via satélite, com o champanha preparado para o brinde, com a mesma perversidade com que os jornais da época relataram o feito. São militares, cientistas e financiadores privados.

Mas não se trata de uma vingança oriental. O míssil vem de uma região habitada por sujeitos barbudos e com cara má, com expressão desértica nos rostos, os ditos aiatolás. Quem vive no deserto não deve temer o inóspito que seguirá a explosão. Estão acostumados com o vento de areia, com a magia de um verde que desponta na alucinação da sede. Talvez os desenhos e as cores das tapeçarias iranianas tragam um pouco do jardim perdido pelo homem, mas é interesse do mundo o petróleo, não as tapeçarias de Naim, Moud, Kashan, Bidjar, Mehraban ou Saruk.

Todos sabemos os efeitos da irradiação, os americanos usaram o deserto para experiência com a bomba atômica. No ápice do cinema, criaram cenários do que aconteceria com a população quando exposta ao vento e ao calor provocados pelo artefato bélico. Nagasaki e Hiroshima confirmaram o ensaio. Enquanto os americanos mostravam ao mundo o cogumelo atômico, a alma do japonês experimentava uma dor que nunca mais cicatrizaria, inspiração poética para Akira Kurosawa em Rapsódia em Agosto.

É certo que os americanos sempre foram mais afeitos às práticas de guerra que à poesia, à ação que à reflexão. Então, nessa história, como separar Daniel dos leões? Uma coisa é certa, eu não suportaria ver a vegetação tropical curvar-se diante de uma arma atômica. Pudesse me sentar com os aiatolás, faria uma sugestão, que transportassem uma massa inerte no míssil ao invés de irradiação, forrassem o planeta com rosas multicoloridas plantadas pelos japoneses, mais o poema de Vinícius de Moraes escrito em todas as línguas:

Pensem nas crianças/ Mudas telepáticas/ Pensem nas meninas/ Cegas inexatas/ Pensem nas mulheres/ Rotas alteradas/ Pensem nas feridas/ Como rosas cálidas/ Mas oh não se esqueçam/ Da rosa da rosa/ Da rosa de Hiroshima/ A rosa hereditária/ A rosa radioativa/ Estúpida e inválida/ A rosa com cirrose/ A anti-rosa atômica/ Sem cor sem perfume/ Sem rosa sem nada.

Sonho. Alguma proibição em sonhar? No entreato das cores e do poema, o silêncio... E a companheira a despontar no portão sobre um tapete voador Persa; que sonhar é isso, pertencimentos, invencionices, de quem ama...

Autor: CARLOS PESSOA ROSA

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Começa interessante, torna-se didático.

8,0

Cida Sepúlveda

Boa crônica.

 

8,5

Betty Vidigal

Bom. (Opinião pessoal: forçar noutros países um poema nosso traduzido seria imposição. Melhor que cada língua use um original seu.)

10,0

Oswaldo Pullen

Tratou do assunto com emoção e, importante, sem ser piegas.

10,0

Marco Antunes

Crônica no melhor sentido. Sem apelar para o humor, o cronista consegue abordar o tema, dar seu recado e ainda produzir momentos de lirismo e boa literatura.

 

10,0

Lorenza Costa

 

8,5

TOTAL

55

 

Crônica 20

A Dança dos Pequenos Demônios

 

            Demônios há. Neles não creio; mas que existem, existem. Denzel Washington na instigante película A Queda (Fallen), (ou sem vírgula ou com vírgula também antes de “na instigante”) veste a pele de um detetive que ganhou notoriedade ao prender um serial killer. Descobre muito mais. O psicopata não passava de instrumento utilizado por um dos mais terríveis demônios (Azazel) que a Caixa de Pândora espalhou pelo mundo. Basta um toque em qualquer parte do corpo para que o demônio salte de um corpo a outro. Denzel descobre ser ¨imune¨ às investidas pululantes da endiabrada entidade que, em meio a calçadas apinhadas de gente faz verdadeiro estrago, alternando suas vítimas em um vigoroso pique-pega.

            Não fica difícil traçar um paralelo entre este demônio e o vírus N1H1, provavelmente vindo do México. Teriam os Maias deixado algo na terra além das pirâmides vindo o despertar da fera a ocorrer agora? Qual o cavaleiro do apocalipse que teria acordado o dragão? Fico imaginando um jovem ¨Indiana Jones¨ explorando algumas das antigas pirâmides e encontrando um misterioso artefato. Ao polir a preciosa peça uma poeira, há muito adormecida, carrega em seu bojo um vírus ¨adormecido¨ que do cientista passa à comunidade local. Daí para alcançar o resto do mundo será questão de poucas horas.

A tecnologia, a comunicação rápida, as turbinas a jato, transformaram o mundo em uma pequena aldeia na qual compartilhamos quase que instantaneamente nossas dores e alegrias. Um flagrante na Polônia em pouco espaço de tempo chega à Tailândia; o mesmo podendo ocorrer com qualquer novo e indesejável micro-organismo. A recente onda de falências financeiras acabou provocando quebradeiras no mundo real. Tudo causado pelos nossos medos, o verdadeiro combustível que nutre os demônios desta e de outras eras.

Sendo real ou imaginária a nossa teoria do ¨Demônio Incubado¨, a verdade é que minha filha chegou em casa assombrada. O professor de Geografia, travestido em moderno Nostradamus, afirmou que o calendário Maia somente vai até 2012. A menina chegou envolvida por um hálito de horror:

- Pai, não terei tempo de entrar para a faculdade. – Dos males o menor. Realmente o fim está próximo. Tive vontade de esganar o professor. Lembrei de quanto eles ganham e recuperei a calma. Eventos como a gripe suína, somados à nossa fértil imaginação, multiplicam o pânico. O diabo anda solto e tripudia sobre a nossa ingenuidade. Nossos demônios interiores não nos deixam em paz e a histeria pessoal de cada um, unindo-se à do próximo, constitui um novelo que cresce exponencialmente.

            No entanto, o demônio suíno não é o único a nos tirar as noites de sono. Nas terras tupiniquins o demônio da dengue é uma verdadeira pandemia, mas as autoridades parecem inertes, prioritariamente calculando sempre os dividendos políticos de manobras escusas com o erário; leia-se: nosso dinheiro. Minha pobre mãe, vítima de dengue pela quarta vez, (vírgula) recebeu do médico o vaticínio:

            - Esta última foi hemorrágica. A senhora não sobreviverá na próxima.

            O demônio se alojou lá em casa.

            Dizem que temos um surto quando uma doença atinge alguém da sua localidade. Temos uma epidemia quando atinge seu amigo ou vizinho e uma pandemia quando bate à sua porta. A dengue é nossa e a suína prepara suas garras para saltar nas nossas praias.

            Intriga aos historiadores desconhecer por que os Maias abandonaram, sem rastro, antes do advento dos espanhóis, muitas de suas cidades às moscas. Teria qual demônio aportado por lá?

            Podemos elaborar muitas questões, o que nos atrapalha é o novelo infinito de respostas nem sempre satisfatórias. Por que não há informação no Brasil aos que chegam de fora? Por que não há informação para ninguém? Uma família que recentemente desembarcou dos EUA em nossa cidade aos espirros, (sem vírgula) (o sujeito desta frase é longo, mas é sujeito... e não deve ser separado do verbo por vírgula) foi deslocada por quatro instituições sem que soubessem ao certo o que fazer com a mesma (que tal “ela” em vez de “a mesma”? “A mesma” dá um tom burocrático a qualquer texto). Passou inclusive por um Posto de Saúde que não possuía sequer um analgésico. O pânico precedeu a prudência e tiveram contato com dezenas de pessoas antes do contágio ser descartado. O demônio conta com nossa imperícia.

            Os Maias teriam visto o fim do seu mundo através das reluzentes espadas ibéricas ou foram consumidos por algum pequeno organismo letal? Desde a Guerra dos Titãs, sucessivas civilizações têm assistido ao final do seu próprio tempo. Os próprios dinossauros podem ter sido vítimas de uma famigerada gripe que sucedeu à queda do meteoro, facilitando que o bastão de senhor do mundo passasse aos mamíferos. Os demônios também podem vir do espaço.

Seria a gripe suína o sinal que antecede a queda que nos removerá do trono terreno? Teremos até 2012 para descobrir. A sabedoria dos antigos renasce, nesses momentos, para nos alertar. Minha avó materna, apesar de ter recebido uma instrução básica, portava aquela aura das almas que sabem ler nas entrelinhas da vida e, em evidência profética, já me alertava: ¨devemos temer não somente os inimigos que vemos, mas, principalmente, os que não vemos¨. Diante das ocorrências que nos cercam, podemos ter a certeza de que enquanto os pequenos demônios bailam, nós dançamos.

 

Autor: JURANDIR ARAGUAIA

JURADO

COMENTÁRIO

NOTA

Luci Afonso

Ótimo título, boa crônica. Falta melhor encadeamento em alguns trechos.

 

9,0

Cida Sepúlveda

Boa crônica.

 

8,5

Betty Vidigal

Muito bom.

10,0

Oswaldo Pullen

A abertura incomoda-me um pouco, com o seu dito adaptado e sem referência à origem, dispensável em meu entender. O texto logo melhora, com a comparação entre o toque de Azazel e a transmissão por vírus. A crônica é boa, imaginosa.

9,0

Marco Antunes

Fallen, no Brasil, recebeu o nome de “Possuídos”, para quem desejar se situar melhor em relação ao filme citado. A crônica é excelente. Tudo bem colocado, idéia pertinente, fio condutor entusiasmante. Que mais se pode esperar?

 

10,0

Lorenza Costa

 

8,5

TOTAL

55

 

 

Crônica 21

NÃO VOLTARÁS

 

Ao se analisar a atual crise capitalista, dizem os comentaristas econômicos, deve-se principiar por uma correta abordagem do crédito subprime. É um justamente o que não vou fazer: Não vou falar palavrões num momento desses.

 De minha parte, prefiro começar com a mulher de : Sim, senhor! Uma figura deplorável, a mulher de . Ela foi alertada, mas desobedeceu. Quando os anjos os libertaram dos tarados de Sodoma e girolas Gomorra (não falta um “de” aqui?), a tonta olhou para trás. Se olhassem para trás, pereceriam, foram avisados. Mas ela se voltou, quer dizer, ela, a mulher de , lamentou abandonar a vida que teve. Seu pecado foi desejar o passado. A mulher de , suspensa no tempo, na forma de estátua de sal. Iaweh, às vezes, é inventivo em suas punições.

Entrementes, do outro lado do Mediterrâneo, na Grécia, Orfeu também olhava para trás, ao resgatar sua querida Eurídice dos infernos helênicos. A infeliz transformou-se em um frágil e esgarçado fantasminha. Numa fuga, não se olha para trás. Se olharmos, alguém ficará nas mãos do Capeta.

Eu sei! estão me puxando a manga da camisa. Dizem-me que deveria escrever a palavra derivativos assim mesmo, no plural. Não adianta insistir! avisei que não vou usar palavrões aqui!

Devo dizer, no entanto, que ano passado, ainda no princípio da crise econômica, vi na TV um grupo de bancários britânicos. Estavam todos demitidos. Deram breves entrevistas para um desses repórteres que ficam nas esquinas das grandes cidades, à espreita da infelicidade alheia. Havia também outro repórter num helicóptero que sobrevoava a imperial e imponente City londrina – o Tâmisa, a St. Pauls Cathedral, a London’s Bridge, grandes glórias do capitalismo clássico.

 O editor da reportagem – notoriamente um sentimentalóide – intercalava os símbolos do grande capital com imagens dos bancários demitidos. Os bancos faliam. O governo de Sua Majestade daria montes de dinheiro para os investidores, sem recorrer à palavra estatização. Temia, Sua Majestade, que a menção desta palavra levasse os grandes investidores a retirar suas aplicações dos fundos bancários. Os súditos comuns entrariam em histeria, neste caso. Os coitados tinham cadernetas de poupança. Nas crises, é assim mesmo, prevalece a semântica.

 Eu não imaginava que o governo de Sua Majestade tivesse dinheiro suficiente para enfrentar o desastre financeiro, mas tinha. O dinheiro era tanto que parecia infinito. Onde todo aquele dinheiro estava guardado? Era até bastante estranho. Os bancários, por seu lado,