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Cronistas |
PAÍS DO CONCORRENTE E ESTADO |
Terceiro DESAFIO SEMANAL |
|
Afonso
Cruz |
PORTUGAL |
57,7 |
|
Marcelo
Azevedo Larroyed |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
56,2 |
|
Roberto
Klotz |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
56,2 |
|
Denis
Reis |
BRASIL – MINAS GERAIS |
55,9 |
|
Rodrigo
Fernandes |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
55,9 |
|
Joaquim
Bispo |
PORTUGAL |
55,5 |
|
Ana
Marques |
BRASIL – RIO DE JANEIRO |
55,3 |
|
Maria
de Fátima M.Correia |
PORTUGAL |
53,7 |
|
Antonio
Paulo Pinheiro Lima |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
53,5 |
|
Aldmeriza
Riker |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
53,0 |
|
Jurandir
Araguaia. |
BRASIL – GOIÁS |
53,0 |
|
Simone
Barbariz |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
51,2 |
|
Ari
Gurcz |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
51,0 |
|
Liliane Neves de
Souza |
BRASIL – BAHIA |
51,0 |
|
Ricardo
Vicente |
PORTUGAL |
51,0 |
|
Carlos
Alberto Pessoa Rosa |
BRASIL – SÃO PAULO |
50,0 |
|
Eneida
Coaracy |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
50,0 |
|
João
Carlos B.Guimarães |
PORTUGAL |
49,5 |
|
Leo
Borges |
BRASIL – ESPÍRITO SANTO |
49,5 |
|
Mauro
A Madeira |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
49,5 |
|
Pablo Amaral
Rebello |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
49,5 |
|
Cinthia
Kriemler |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
49,0 |
|
Kalinka
Tavares Iaquinto |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
48,5 |
|
Gerson
Nagem Perrú |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
48,0 |
|
Ivan
Mizanzuk |
BRASIL – PARANÁ |
46,5 |
|
Clemens
Soares dos Santos |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
46,0 |
|
Washington
Dourado |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
46,0 |
|
Lúcia Ana de Melo |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
45,5 |
|
Soraia
Maria Silva |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
45,0 |
|
Luís
Miguel Vale F. Vale |
PORTUGAL |
45,0 |
|
Ana
Luisa Faria |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
42,0 |
|
Giovani
Iemini |
BRASIL – DISTRITO FEDERAL |
41,5 |
|
Fora da Competição |
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Patrícia Tollendal |
52,5 |
|
Aos
que deixam a competição aqui, nossos parabéns pela participação!
Sem Título (Tema 1)
Cidade pequena é bom por isto: quando pega doença num, o resto todo se
aproveita. Melhor ainda se o povo for mexeriqueiro, que nem aqui
Aconteceu que deu de dar uma gripe do porco em todo mundo. Não era só aqui não, lá na capital, nas cidades outras grandes que não eram capital também. Um diacho dum excomungado me chega duma dessas cidades para passar férias aqui e o homem tava bichado com a tal da doença. Danou-se. O homem ficou ruim, mas ruim, mas ruim... Acabou morrendo. Foi prefeito pra lá, vereador pra cá, tentando abafar o caso. Abafou, até. Disseram que o homem tinha morrido de tuberculose. Uns acreditaram. Outros não. O negócio é que o homem nem conhecido aqui era. O problema mesmo foi que a desgramada da gripe pegou o Zé da quitanda, e que a danada da doença era braba.
Discute aqui, discute acolá, decidiram chamar um médico da capital. Era tarde... o Zé já tava ruinzim que só. Meio assim que desmaiado sempre, sabe? De dar dó, o coitado. A cidade inteira comentava. Todo mundo tinha medo do negócio espalhar, passava até longe do hospital, mas também tinha pena do pobre do quitandeiro. Que é que se havia de fazer? Ah, nessas horas a gente inventa uma solução, não é mesmo?: a senhora do Zé, temente a Deus, fez uma promessa. Foi na igreja matriz e de joelhos pediu pro marido sarar, que se assim fosse pela graça e louvor de Nosso Senhor ela ia dar “aquele” presente pro Zé.
Fofoca é quem nem fogo morro acima moço – tem quem pare, não. Dia seguinte todo mundo queria saber que tal de presente era aquele. A dona Zica – a mulher do Zé, dizia que não falava, que isso era lá entre ela e o Zé. “E Deus, né Zica – entre ocê, o Zé e Deus”. Ela ficava vermelha que nem um tomate : “Ah, não mete Deus nisso que promessa de doença a gente faz pro Divino, por isso fui à igreja, mas o pagamento é pro Zé.” E você pensa que o povo ficou satisfeito com essa explicação? Ficou não, moço. E continuou o falatório – no boteco, na barbearia, nas escolas, até nas irmandades de igreja as beatas falavam disso. O negócio ficou feio. A coitada da Zica já não agüentava mais o mexerico. Trancou-se em casa e só saía de lá para visitar o marido, e isso quando o doutor deixava ela ver o Zé...
Agora veja só o senhor isso, que parecia até castigo: vai de cá, vai de lá, alguém apareceu espirrando na cidade. Pombo-Limpo virou um inferno. Deram o jeito de internar a criatura, claro. Uma menininha, coitadinha. Quer saber o que acontece? No mesmo dia a mãe da criança estava lá na igreja, prometendo que se a anjinha ficasse boa ela ia dar “aquele” presente para a filha.
Dois dias depois o Juca relojoeiro aparece com febre. Hospital nele. E a família inteira prometendo dar “aquele” presente se o Juca melhorasse. Daí pra frente, a coisa degringolou – uma semana depois parecia que a cidade toda estava no hospital e todo mundo devendo presente para todo mundo.
Ninguém
sabe muito bem como que aquele jornal foi parar
Não foi fácil – a gente destas bandas é meio desconfiada. Mas fazer o que a tal da moça da recepção dizia também não podia fazer mal, não é mesmo? E dá-lhe correria para as lojas, e dá-lhe gente viajando para comprar presente, e dá-lhe empréstimo no banco...Foi um sufoco. Veio gente da televisão da capital. Pombo-Limpo ficou famosa. Saiu no Brasil inteiro que aqui tinha gente imitando uma doidera que decidiram fazer na Colômbia, antecipando o Natal. Os cientistas diziam que a economia da cidade era exemplo para o país, porque todo mundo gastava conforme o presidente tinha mandado. A cidade, é claro, entrou no clima – tinha luzinhas nas casas e chapeuzinho de Papai Noel e bolinhas brancas de isopor para todo canto. Dezembro em pleno mês de maio.
O padre é que não gostou nadinha. Reclamou, chiou, mas foi voto vencido. No fim das contas, foi visto saindo de uma loja de brinquedos com uma caixa enorme, embrulhada em papel de presente vermelho. (Sabe-se lá para quem era aquilo...). A cidade decidiu, por lei aprovada pelo prefeito e tudo, que ia ser Natal no dia 25 do mês. E foi o que se sucedeu...
A gripe? Ah, a gripe se foi, moço. Não sei se foi a presentaiada ou se o tal do homem da cidade grande tinha morrido mesmo era de tuberculose. O fato é que todo mundo ficou bom. Sarou. E todo mundo recebeu presente. O do meu pai fui eu. Pois é, moço, minha mãe era muito esperta, que Deus a tenha. Dona Zica, a mulher que me pariu, sabia o tempo todo que a promessa era assim meio fajuta, porque quando feita, ela já sabia que esperava o maior presente que meu pai já recebeu – a filha, a única prole dele, que acabou por nascer bem depois, no dia 25 de dezembro.
|
Autor: Ana Faria |
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Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
É um “causo”. Um causo de mineirim
(“tem quem pare, não”; “o Zé já tava ruinzim que só”; etc). O causo é que causo não é
crônica. |
8,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
A
linguagem está artificial. A conexão entre a gripe e o Natal está forçada. A
primeira parte do texto está mais envolvente, mas quando entra a história do
Natal, a história decepciona. Por fim, o texto está mais para conto do que
pra crônica. |
7,0 |
|
Lorenza
Costa |
Conto inspirado no fato. |
7,0 |
|
Luci
Afonso |
É conto, bem narrado, mas decepciona no final. |
6,0 |
|
Marco
Antunes |
O cronista tentou disfarçar, mas trata-se do famoso causo, isto é, um conto, interessante, mas não passa por crônica. |
6,5 |
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Oswaldo
P.Parente |
Texto com altos e baixos. Poderia ser enxugado. |
7,5 |
|
Total |
|
42 |

O NATAL É QUANDO UM HOMEM QUISER (TEMA 1)
Itagui é o município com a maior densidade populacional da Colombia. Em 17 km2, estima-se que vivam umas estrondosas 230.000 almas. É uma cidade industrial e alberga a maior prisão de segurança máxima do país, onde cumprem pena os piores criminosos daquelas bandas.
Vendo a cidade por esta perspectiva, caracterizando-a pelo seu lado mais caricato, não será de espantar a conclusão a que chegamos ao ler a notícia que nos traz aqui hoje. Em Itagui, três jovens com nomes começados pela letra “O”, resolveram comemorar um natal extemporâneo.
Num território conhecido sobretudo pelas suas feições menos bonitas, haverá concerteza muitas almas a salvar. A massa social deste tipo de populações dissolve-se facilmente no cinzento da rotina dos dias passados entre a fábrica e a casa, os transportes públicos atabalhoados de gente até ao cimo, o ar que de puro nada tem e que não se renova por falta de espaço, porque as fábricas trabalham 24 horas por dia e é isso que gera a parca riqueza que chega, invariavelmente à conta, para pagar as contas do mês e beber uns copos para esquecer as amarguras.
Óscar, Óscar e Orlando, quais três reis magos do oriente, entre a 5ª e a 6ª cerveja morna daquela tarde de sábado lamacento, tiveram uma epifânia. Comemorar o natal em Agosto, meses depois do seu tempo certo e meses antes do que ainda estava para vir.
Socialmente, a sequência de
comemorações religiosas e pagãs adstritas à sociedade ocidental,
maioritarimente católica, está desenhada de forma a que o crente não tenha
tempo para pensar na vida e nas consequências dos seus actos e muito menos na
sua fé. Somos programados para comemorar o natal
No verão, temos liberdade para aproveitar o sol e a energia natural que ele nos dá. No verão não precisamos tanto de apoios esotéricos, temos a praia, temos as férias, temos os copos, temos o sexo fortuito provido pelas alterações hormonais típicas dos tempos quentes.
Mas nem só de bom tempo e relax vive o homem. É preciso festas e animação. O ser humano, com a sua alta capacidade de raciocínio e pensamento abstracto, além de não parar de nos surpreender com ideias novas a todos os momentos precisa, para que elas continuem a fluir, de ser incentivado. Bottomline: o ser humano precisa de festas. Estou firmemente em crer que uma solução rápida e consistente para a depressão que assola a maioria da população nos tempos acelerados desta era tecnológica que vivemos seria a realização mensal de festas de bar aberto para toda a população patrocinadas pelo próprio estado. Uma gigantesca bebedeira mensal para esquecer as mágoas e socializar. Pouparíamos milhões em drogas químicas de laboratório. Os gregos e os seus bacanais é que tinham razão.
Daí que esta ideia dos três “O”s, de comemorar o natal em Agosto, apesar de ter nascido dos vapores alcoólicos, faça todo o sentido, porque é certo e sabido que o natal é apenas mais uma desculpa para beber à vontade.
Se a crença popular mais disseminada é que houve um tipo que nasceu e morreu há dois mil anos com o único propósito de nos salvar, que seguindo à risca as indicações por ele dadas aos seus seguidores poderemos obter a vida eterna e a salvação dos nossos sujos pecados, que é necessário comemorar a sua curta vida e a memória dos seus familiares, tanto próximos como afastados, então comemoremos. Mas comemoremos quando nos der na real gana.
As datas são apenas isso. Números marcados num papel, que variam de ano para ano e de semana para semana. O tempo é subjectivo e é aquilo que fazemos dele. O desespero das pessoas é tal que dificilmente podem esperar até à altura certa, marcada pelo calendário solar e pelo prelado de roma à sua melhor conveniência para disfrutarem da sensação de alma limpa e leve, da sensação de vazio e ignorância feliz que vem com o êxtase das comemorações grupais dos eventos religiosos. Está provado que as sensações se propragam em multidões como rastilhos acesos à procura de pólvora para explodir. Aquilo que aquela pessoa pensa que sente tem um ar tão agradável que eu acho que quero sentir o mesmo, seja por inveja ou necessidade, vaidade ou desejo puro. O efeito psicológico das movimentações da turba é um dos fenómenos mais perigosos. É ele que gera revoluções e é ele que faz com que os paradigmas mudem e o mundo evolua. Ou involua.
Assim se percebe a aceitação da ideia dos três magos na população de Itagui. A população abraçou a ideia, a população quer é festa e o povo é que manda.
É bom de ver agora, em pleno agosto de tempos estupidamente quentes, grupos de rapazes vestidos de pai natal, mulheres de xaile e mantilha pela cabeça prostradas a rezar, famílias inteiras a derrubar a pouca floresta que resta à cidade pela segunda vez no ano para ter uma árvore de natal maior e mais frondosa que a do vizinho, crianças reclamar que o musgo está seco e que o presépio não é bem o mesmo quando feito com relva artificial de plástico. Mas não há problema, afinal de contas, o carnaval, perdão, o natal é quando um homem quiser.
|
Autor: João Guimarães |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
O
texto de referência não fala |
7,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
O autor se dispersa muito, o que
resulta num texto prolixo |
7,0 |
|
Lorenza
Costa |
A crônica poderia
estar mais costurada ao fato original (nem é verão na Colômbia em agosto...).
A frase truncada que começa com “Surgiria”, no quinto parágrafo, parece
sintomática de um autor pouco à vontade com o assunto que lhe impuseram, e
esta característica ressurge aqui e ali, apesar do texto correto. |
8,5 |
|
Luci
Afonso |
Análise bem conduzida. Descuidos na ortografia. |
8,0 |
|
Marco
Antunes |
Indefectível! Crônica na melhor acepção da palavra, excelente uso do tema, perfeita ilação do seu sentido profundo. |
10,0 |
|
Oswaldo
P.Parente |
Crônica interessante. Alguns erros ortográficos, mesmo consideradas as diferenças de além-mar. |
8,5 |
|
Total |
|
49,5 |

Pluto vai à rua (Tema 2)
O mundo é uma interminável sucessão de acontecimentos. Uns pitorescos; outros trágicos. Mas a rapidez com que a informação transita é o que nos dá a sensação de mudança abrupta dos tempos. Antes, nos tempos da minha avó, a notícia de um fato pitoresco demorava tanto para chegar ao jornal da minha cidade natal, que, quando chegava, já não tinha mais graça. Uma notícia que saía na coluna “Ultima Hora” do jornal local tinha ocorrido há pelo menos dois meses. Mas o que importava? Todos na cidade estavam mesmo fora do tempo. Hoje, com os novos e rápidos meios de comunicação, tudo chega rapidinho. Não importa se o fato aconteceu aqui ou no outro lado do mundo. Se há dois dias ou há dois minutos. É tudo aqui e agora, como em um filme de curta metragem.
Outro dia, li em um jornal eletrônico que um assaltante havia tentado roubar uma loja fantasiado de Pluto, o dócil cão do ratinho Mickey. O fato não teria ganhado notoriedade, se não fosse pelo desfecho da história. Ao ser assaltado por um homem vestido com uma máscara de um personagem de desenho animado, a vítima teve um ataque de riso tão intenso que deixou o meliante sem ação. Na verdade, o ladrão ficou tão ridicularizado com a reação da vítima que nem esboçou reação. Colocou o rabinho entre as pernas e foi chorar em outras plagas.
Dá para acreditar em um assaltante desses?! Nestes tempos, até bandido está perdendo as referências. Não sabe mais qual comportamento a sociedade espera dele.
Sem voltar muito no tempo, lembro-me de que, para meter medo nas crianças, homens fantasiavam-se de “zabiapungas”, personagens do folclore baiano, que vestiam calças pretas e camisas coloridas, com chocalhos espalhados pelo corpo, e usavam uma máscara bem feia. Causavam verdadeira aflição em mim e nos moleques da minha rua. Se um desses chegasse perto, pedindo o que quer que fosse, na barraquinha de doces que eu tomava conta, eu sairia correndo em pânico para bem longe. E ele, ao ver o meu pavor, com certeza daria boas gargalhadas. Como eles sempre andavam em bandos, eu tinha a impressão de que faziam parte de uma quadrilha de monstros-ladrões que roubavam e comiam criancinhas.
Notícias assim, não saiam no jornal. Tudo era mais solene para os adultos. Notícia era coisa séria para eles. Não pensavam que para mim e para as outras crianças da cidade nada era mais assustador dos que os “zabiapungas” e suas máscaras monstruosas.
Hoje, a notícia se rebuscou e se tornou mais célere, não necessariamente, mais rigorosa. Com tantos fatos acontecendo ao mesmo tempo, nem sempre é tão óbvio para o jornalista cobrir um assalto ou o último affair de um famoso.
Voltando ao caso do Pluto, quer dizer, do frustrado ladrão, ele não conseguiu sequer fazer parte da página policial. Coube-lhe um cantinho da coluna “Ria se puder”. Na minha cidade, o meliante nem tentaria sair de casa fantasiado de cachorro, pois correria o risco de ser alcançado por uma matilha de vira-latas, que existem aos montes por lá, ou perceberia, a tempo, o ridículo que seria aparecer assim, na frente de quem quer fosse.
É que, na minha cidade, basta um deslize, e o azarado já está na boca do povo. É preferível que ele seja confundido com um dos cães do pedaço. Pelo menos, com os cães, ao encontrá-lo, um deles começaria o ritual de aproximação com aquele gesto para lá de nojento, que é ficar lambendo o que não interessa (cachorro é um cachorro mesmo!). Se um cara se arriscasse ao vexame de fantasiar-se de cachorro para assaltar alguém, logo passaria por acusação de atentado violento ao pudor, e, logo pela manhã, sairia no jornalzinho uma manchete avassaladora “bicha fantasiada assalta à mão armada”. Ninguém vai pensar que ele usava um revolver 38, e sim, uma navalha, como Madame Satã, famoso homossexual que aterrorizava nos morros cariocas. E a reputação (por pior que seja, todo mundo tem alguma)? Quem iria botar fé num cara desses? Estava condenado a permanecer no anonimato. Guardaria o segredo só para si.
Situação distinta, bem mais ameaçadora, seria uma máscara com a foto de algum político desses que estão na moda, quer dizer, no noticiário. De tão escaldado que o povo está, falar em político é motivo de esconjuro e mau agouro – “pé-de-pato mangalô três vezes” – dizem os mais superticiosos. Não há quem acredite nas figuras públicas. Também, já que os ladrões modernos não facilitam nosso comportamento, não seria diferente com alguns tipos políticos...
Mas a notícia do assaltante trapalhão me trouxe boas lembranças cinéfilas. Quem não se lembra de um filme da década de 70 – “A gang dos Dobermanns” –, este filme, não sei se foi o primeiro a retratar um assalto feito por caninos. Na época, os mais temíveis, os poderosos dobermanns. Só de encontrar com um, era motivo de começar a tremer... Nos tempos modernos, já não se precisa ser tão convincente. Uma cara feia, um olhar atravessado, um andar meio suspeito, e nos colocamos prontos para ceder ou correr.
Deve ser o condicionamento. Basta alguém dizer: “É um assalto!” E já estamos todos deitados no chão. Imóveis. Rezando para que nada nos aconteça. Tempos modernos...
Outro dia, andava meio desligado pelo bairro onde moro, e um morador de rua me pediu um trocado. A simples menção de me pedir algo me deu um susto tão grande, mas tão grande, que dei um daqueles pulos inesperados que assustou o pedinte. De tão assustado, nem esperou para ver se eu tinha algo para lhe dar ou não. Saiu ele, também assustado, embora eu tivesse insistido aos gritos para que ele voltasse. Deve ter pensado que sou um louco. Não é para menos; estamos todos à beira de um ataque de nervos.
E depois de comparar todas estas loucuras e violências modernas, fico curioso para saber o que passava pela cabeça do assaltante americano que resolveu travestir-se de Pluto e avançar contra um comerciante do seu bairro. Porém, antes de julgamentos precipitados, pensemos em possíveis atenuantes para o crime. Em tempos de crise, não se pode dar ao luxo de escolher fantasia. A primeira que encontrou lhe serviu para esconder o rosto. Será que tinha vergonha do seu ilícito? Será que ele era um ex-empregado insatisfeito, ou simplesmente mais um daqueles sem plano nem futuro? Com certeza ele deveria ser um trapalhão conhecido. Daqueles para quem nada dá certo. Não arranja emprego, não tem namorada, nem amigos. Resta-lhe, enfim, os episódios repetidos de Mickey Mouse e seu inseparável cão, o Pluto.
|
Autor: Clemens Soares dos Santos |
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Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
Muito
longa.... e perde o rumo a
partir de certo ponto. Depois que o assunto já acabou,
o cronista ainda se estende, no estilo “ah, e por falar nisso”. |
7,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Bom texto, mas requer
enxugamento. |
8,0 |
|
Lorenza
Costa |
Ausência de foco,
vários assuntos com pouca liga, alguns clichês, repetição desnecessária de
palavras, necessidade urgente de revisão. “Nestes tempos, até bandido está
perdendo as referências” é uma ótima frase. O cronista faria bem
em explorar suas pequenas pérolas assim, num texto mais curto,
porém mais marcante. |
7,5 |
|
Luci
Afonso |
O texto se perde em vários fatos desconectados. Revisão ortográfica e gramatical. |
7,5 |
|
Marco
Antunes |
Peço, em nome da organização, que os autores atentem melhor ao limite de 80 linhas, pois na formatação ideal, esta crônica tem 83 linhas, assim 3 linhas parecem sobrar, como há linhas com apenas uma palavra, Vamos considerar, desta vez a tarefa cumprida, mas pedimos cuidado.Houve, em alguns momentos a sensação de que o autor tinha achado um bom gancho (perda de referências) mas depois se perde em tantos afluentes que não aproveita bem a correnteza do assunto. |
8,0 |
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Oswaldo
P.Parente |
Numa crônica que em alguns momentos me passa a sensação de ter tal tamanho meramente para cumprir tabela, o concorrente se agarra ao tema com comparações e digressões sem uma linha de desenvolvimento clara. |
7,5 |
|
Total |
|
46 |

“The Big Whale in the Room”
(tema 3)
Os nativos da língua inglesa possuem uma expressão bastante curiosa. Para explicá-la, recorro a um exemplo: lembremos da administração do presidente Clinton e todos os problemas que ele passou durante seu último governo nos EUA, particularmente aqueles em relação às suas escapadas sexuais. Imaginemos agora as reuniões que o ex-presidente teve de atender durante aquele período. Reuniões com os mais variados temas: discussões para melhoramento dos programas de saúde pública, educação, segurança, por aí vai. Pessoas engravatadas discutindo assuntos de importância nacional. O clima de desconforto que deveria existir em cada uma das reuniões, muitas exigindo seriedade em assuntos de importância nacional, frente aos indiscretos atos sexuais de Clinton, e o fato de que os participantes dessas reuniões tinham que simplesmente ignorar esse “problemão”, que ocorria nas esferas mais íntimas da Casa Branca (às vezes até contendo-se para não caírem em risadas crônicas, devido a bizarrice do cenário), tudo isso pode ser considerado um “big elephant in the room” (grande elefante na sala). Em outras palavras, esse “elefante” é sempre uma situação gritante, quase impossível de ser ignorada, mas que assim o é, geralmente por causa de restrições sociais.
Nos aventurando pelo campo da filosofia, podemos pensar que Lyotard estava certo: o espírito do nosso tempo atual, seja pós-moderno ou não, não nos permite mais as grandes ideologias. Qualquer ideologia é hoje vista como perigosa. Se você for declaradamente de Direita, poderá ser chamado pejorativamente de capitalista, conformado, fascista, entre outras coisas; se for de Esquerda, arrisca ser chamado de marxista ultrapassado, comunista utópico, historicamente hipócrita, etc; se você for cristão, não importando se é católico, protestante, gnóstico, espírita, nova era, enfim, qualquer ramo que se diga cristão, você será ignorante, supersticioso, ultrapassado, alienado, etc. É um mundo perigoso para ideologias. Um tempo perigoso também. “É por isso que o terrorista nos fascina tanto”, diria Jean Baudrillard. Afinal, como lidar com um homem que está disposto a morrer por uma causa que, em nosso mundo secularizado, não faz sentido algum? Como “morrer por Deus”?
Aliado ao fim das ideologias, vemos também a morte de uma Ética fixa, estática. Sempre brinco com meus alunos que, atualmente, o conceito sobre o que é Ético tornou-se extremamente relativo. É bem possível que alguém seja um ladrão, e, ainda assim, ser considerado um cara “legal” ou “justo” - vide a figura do traficante nas favelas, atuando como um gerente de relações sociais, usando dinheiro ilegal para investir em sua própria comunidade, tornando-se uma espécie de Robin Hood da periferia urbana. A figura do traficante, uma denominação que por si só deveria ser considerada nociva ao bem comum, hoje ganha ares de César.
Gosto desse assunto. Sempre o debato com meus alunos em sala de aula, e é interessante notar como existe ao menos uma ideologia que torna-se cada dia mais forte, mesmo em um mundo tão resistente e crítico às mais diferentes meta-narrativas. No caso, estou falando do discurso Ecológico. Pois não estão cercando as favelas do Rio de Janeiro com muros, exatamente baseados no discurso ecológico, dizendo que a favela está destruindo a mata atlântica?
Notem: já houve um tempo em que era possível dizer que não se gostava de pobreza. Você não seria uma pessoa má por isso. O relativismo ético e o desenvolvimento por uma sensibilidade social levaram-nos a um ponto em que não temos mais direito a ter tais opiniões, pois o quadro tornou-se demasiado complexo (ainda bem!). Mas até que ponto o discurso ecológico não se tornou uma hipocrisia, uma “carta branca” para fazermos tudo o que desejamos? O relativismo ético e o sentimento democrático tornaram-se tão fortes que, apesar de serem ideologias em si, desfragmentaram todos os ramos de uma possível discussão sobre o que é verdadeiramente bom. Implodiram. Já a Ecologia, uma forma de espiritualidade disfarçada, permite até que as empresas automobilísticas vendam mais, desde que falem que possuem consciência sustentável – situação essa que, se analisada friamente, é um insulto intelectual. Fulano pode ser o maior mau-caráter da história do mundo – se ele recicla o lixo, é um cara legal! De todos os discursos objetivos, o único que parece aceitar combater o relativismo diretamente é o discurso ecológico. E como todo discurso objetivo, se for bem aceito, é como um porto seguro frente as furiosas águas da indeterminação relativa. Tornou-se discurso de Mercado. Vende muito falar-se em sustentabilidade, reciclagem, consciência ecológica.
Não estou com isso querendo dizer que apóio regimes ditatoriais, nem algo do tipo. Ao contrário: sou defensor dos ideais democráticos, do relativismo ético, dos princípios sustentáveis. Mas sempre me pergunto se não estamos indo um pouco longe demais, se não estamos querendo montar uma Torre de Babel, almejando atingir céus que estão sempre longe demais. Frustramo-nos diariamente. Somos uma geração de frustrados – situação inevitável, já que nossas ideologias operantes, capengas, sacos-sem-fundo, não conseguem nos dar chão. Definitivamente, Heráclito estava certo.
Falando em Heráclito e seu rio, fiquei sabendo que esses tempos uma baleia passeou pelo Tâmisa, em pleno centro de Londres. Aparentemente, anos antes tivemos golfinhos nadando por lá. O Tâmisa, rio que já foi apelidado de “Grande Fedor”, é tido por muitos ecologistas como um dos maiores exemplos de que ainda temos salvação. Em uma época que nem se falava de consciência ecológica, o rio foi limpo, e seu lendário fedor tornou-se apenas uma lembrança, uma curiosidade histórica. E tudo ia muito bem no rio, até a aparição da baleia. Um fato com certeza engraçado, curioso, mas que deve nos fazer refletir também. É um ato violento. É um lembrete, um aviso. Para o bem ou para o mal, não se brinca com a natureza – ela sempre nos surpreende.
Será que a Revolução dos Bichos orwelliana começou? Como que Orwell a escreveria hoje? Usaria um fundo ecológico? Será que em breve teremos mais baleias transitando em nossos rios? Quem sabe, da mesma forma que invadimos a mata, encontraremos um dia um tigre na fila do cinema. Obviamente, usando bengala. Não duvido que um dia essa revolução aconteça, com direito à formação de ministérios e tudo que se tem direito. Concursos públicos para eqüinos. Até uma ONU animal seria possível.
Adaptando a expressão inglesa, constatamos que “há uma baleia na sala”. Essa é a maior mensagem que a baleia no Tâmisa pode nos passar. E, como tudo que se diz pós-moderno, é indeterminado, vazio, aberto, não possui definição clara. Como o urinol de Duchamp, incomoda pelo simples fato de estar lá. Essa baleia, assim como o elefante, perturba. Mas tanta perturbação sem resposta é sadismo. A baleia é uma sádica, se divertindo às nossas custas. Resta-nos lutar para que, um dia, nós, pobres humanos, encontremo-nos livres de sua tirania.
Isso se a revolução dos bichos não nos pegar antes.
|
Autor: Ivan Mizanzuk |
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Jurado |
Comentário |
Nota |
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Betty
Vidigal |
Longuíssima!
Isto não é crônica, é um ensaio. Quando chegou em “Definitivamente, Heráclito
estava certo”, pareceu ter chegado ao fim. Mas não: só aí entrou-se
no tema dado: a baleia. |
7,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Gostei
muito do conteúdo, mas acho que o texto poderia ser mais enxuto, com menos
digressões. |
8,5 |
|
Lorenza
Costa |
A relação entre o texto e o tema ficou forçada porque o cronista divaga muito entre o primeiro parágrafo (“big elephant in the room”) e o penúltimo. É necessária alguma revisão. No mérito, pouco aprofundamento da discussão sobre idéias de arrepiar: estamos num ponto em que “não temos mais direito a ter tais [ou quais] opiniões” (grifo meu) e ele acha sem mais nem menos que “ainda bem”? Brrrrrrrrr... |
7,5 |
|
Luci
Afonso |
Texto bem escrito, mais próximo do gênero ensaio. |
8,5 |
|
Marco
Antunes |
O aproveitamento do tema começou prometendo ilações pertinentes e produtivas, depois entra por um desvio labiríntico e se afasta até á perversão do caminho sugerido. Algumas piadas como a do tigre de bengala são perfeitamente desnecessárias. |
7,5 |
|
Oswaldo
P.Parente |
Crônica cansativa, com trajetória meramente tangencial ao assunto proposto. Aprofunda-se em considerações paralelas e chega à baleia do Tâmisa somente ao final do texto. |
7,5 |
|
Total |
|
46,5 |

Continuar
ou não, eis a questão (Fato 3)
Em tempos de crise, amanheci com uma dúvida: continuar com a terapia ou passar a fazer ginástica? Optei pela segunda hipótese e lhes explico por qual razão.
Todos vocês devem ter acompanhando o recente caso da baleia bico-de-garrafa, na Inglaterra. Aos que porventura não saibam do que se trata, faço um breve resumo para situá-los. Há alguns dias o tal cetáceo saiu das águas do Atlântico Norte e entrou em Londres via Tâmisa. Lá virou motivo de curiosidade (e mesmo de chacota) e, após nadar por tudo, acabou encalhando em um dos pontos mais movimentados do trajeto. A insólita situação virou notícia e o mundo inteiro viu seu sofrimento. Por fim, a retiraram do rio, porém, infelizmente ela não sobreviveu a tamanha humilhação.
O que me apavora nessa história toda é que não há alguém que questione o que motivou a baleia a sair nessa missão suicida. Por isso fui atrás e vou mostrar a vocês, por 'a' mais 'b', que fiz a escolha correta ao me decidir pelo acompanhamento de um personal.
A baleia em questão era jovem, com cerca de sete toneladas e seis metros de comprimento. Filha mais velha de pais separados, considerava-se feia e gorda. Seu trabalho era uma fuga. Há alguns meses começara a fazer uso de medicação controlada para evitar crises (sofria de distúrbio bipolar e de depressão). Além disso, os médicos já a tinham alertado sobre sua saúde: era muito estressada e sofria as consequências disso. Extremamente ansiosa, descontava suas frustrações em cima da comida o que já lhe causara problemas no fígado e dores fortíssimas provocadas pela artrite. Como vocês devem deduzir, para sobreviver ela fazia terapia... há três anos e meio, e com a mesma terapeuta.
Tenho certeza que dias antes da viagem à Londres sua analista deve ter dito: 'arrisque, o que você tem a perder? Desapegue-se?'. Também acredito piamente que se a baleia soubesse o que a esperava diria: 'minha dignidade'. Mas, não foi o que ocorreu. Cheia de iniciativa e coragem, a baleia seguiu o conselho à risca. Pediu demissão, disse umas boas verdades ao chefe, desfez-se de uma série de coisas que estavam entulhadas em sua casa, acabou o namoro e se jogou no mundo a la ‘Thelma e Louise’. Ansiava por curtir uma nova vida em mares (e rios) por ela nunca antes navegados. Como já sabemos, morreu ou desistiu de viver. Triste, mas a verdade. Nessa história toda, sua terapeuta nada sofreu. Obviamente deve falar a todos que não tem culpa alguma e que seus relatórios já apontavam a baleia como uma tresloucada inconsequente.
Confesso a vocês que me sensibilizei com a tragédia. Não pude deixar de ser solidária. Identifiquei-me de pronto. Porém, antes de fazer a mesma bobagem, meus olhos se abriram. Ela literalmente nadou, nadou e morreu no rio. E, notem, gorda, pobre, sem roupas adequadas a Londres e literalmente encalhada. Admiro a sua coragem, mas, sem falso moralismo, decidi usar meu dinheiro e meu tempo para outras coisas que não as sessões de terapia (as quais também faço há anos). Decidi que é melhor ser louca, porém com barriga de tanquinho - mesmo que não a minha, mas sim do personal.
|
Autor: kalinka Tavares |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
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Betty
Vidigal |
Tendo optado por usar ‘baleia’em
sentido figurado, o autor não tinha muito como salvar a crônica. Pois uma baleia
humana, por mais gorda que fosse, não entalaria no
Tâmisa. E claro que uma baleia animal só teria pais separados no universo das
HQ e dos desenhos animados. A frase final foi boa... |
6,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Ótima
crônica, engraçada, séria e despretensiosa. |
9,5 |
|
Lorenza
Costa |
Muito divertida, apesar do final abrupto. As referências ao dilema e à escolha da cronista poderiam se concentrar no final, tornando a crônica menos previsível. |
9.0 |
|
Luci
Afonso |
A tentativa de humor não funciona. Revisão ortográfica e gramatical. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
O humor não me convenceu por não mergulhar profundamente no universo alegórico deixando a baleia híbrida, um ser entre humano e cetáceo. Repito um conselho que ouvi de uma amiga: foi no inferno? Então beije o capeta! |
8,0 |
|
Oswaldo
P.Parente |
Boa crônica. |
8,5 |
|
Total |
|
48,5 |

Não é piada (Fato 4)
Quando o Evo Morales quis se apropriar das instalações da Petrobras eu achei que fosse piada. E de péssimo gosto. E não era anedota de português, mas de boliviano, que fez dela uma realidade. Quando o Itamaraty viu que no meio da brincadeira estava a supressão do abastecimento de gás, a coisa ficou séria.
País que não é sério na América Latina só o Brasil, já dizia o francês Charles De Gaulle. A Venezuela, Colômbia e Bolívia são nações absolutamente sérias e não aceitam nenhum tipo de galhofa em termos diplomáticos. Tão sisudas que, às vezes é necessário alguém na assembléia da ONU pedir o retorno de um ambiente mais ameno com um “porque no te callas?”. Mas isso já é outra história.
A questão é que o presidente eleito Evo Morales, legítimo representante da ala indígena boliviana, chegou ao poder com fama parecida ao do seu colega Chávez, na Venezuela. Muita mídia, muito discurso contra a pobreza e querendo os holofotes do mundo para o seu problema. Mas, logo no início um gaiato humorista espanhol já colocou um nariz de palhaço nessa onda toda.
O que era, de início, apenas brincadeira, tomou um verniz sério, como, claro, tudo o que acontece por aqui na América do Sul. O sangue latino ferveu e os cocaleiros já se aprumaram querendo saber que palhaçada foi essa.
Pouco antes de a farsa montada pela rádio ultradireitista COPE (Cadeia de Ondas Populares da Espanha) ser desmascarada, o pessoal do gabinete Evo estava satisfeito. Como se sabe, o termo “ultra” une esquerda e direita, pois na extremidade todas as ideologias acabam se parecendo.
E, afinal, a vitória nas urnas foi brindada como uma “maneira triunfal à nova ordem”. Isso para ouvidos como os de emergentes na política, loucos para mostrarem quem são e a que vieram, ainda mais com a verve da foice e marreta incrustada no espírito, era como acordes musicais de algum instrumento Inca.
Eu imagino o Evo falando à imprensa
Como é boa a ilusão! O grande problema dela é justamente a desilusão. E no caso do Evo ela não tardou a chegar. Quando o pessoal do Velho Continente soube da situação, logo tratou de segurar o entusiasmo dos sulamericanos, coisa que, vamos combinar, é difícil de conter.
Quando o trote foi revelado, os cocaleiros não gostaram. E não é para menos. Esse negócio de fazer piada com irmãos de mesma língua não pode. Só mesmo os brasileiros é que fazem isso com os portugueses (e vice-versa). O que era uma achincalhe de uma rádio irresponsável acabou quase gerando um conflito diplomático de grandes proporções. Possivelmente a turma do Evo pensou em nacionalizar a espanhola Repsol YPF para não deixar a coisa passar impune. Mas a vizinhança certamente deve ter desencorajado esse ato insensato.
A poeira só baixou mesmo quando o embaixador espanhol Montalbán pediu desculpas pela gaiatice de seus conterrâneos. Evo, que já devia estar achando que a alma de Francisco Franco estaria pairando por Madri, teve de entender que brincadeiras acontecem e não podem ser cerceadas de forma totalitária.
Tudo bem que desde que o governo
Morales assumiu, a dívida interna boliviana aumentou mais de 40% segundo a
Fundación Jubileo, organização de igrejas católicas. E também que
|
Autor: Leo Borges |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
Está bem escrito, bem analisado,
mas não é uma crônica. É um artigo político opinativo. |
9,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Excelente.
Principal característica: focada. |
10.0 |
|
Lorenza
Costa |
O texto nem sempre
flui e o cronista passa mais tempo dando a notícia do que fazendo um
comentário. Uma revisão estilística viria bem (há rima, muitas frases
iniciadas com o pobre recurso “quando o sujeito fez tal coisa”, e uma
construção danada de ruim no sexto parágrafo – com certeza o autor,
revisando, vai encontrá-la rapidinho). |
8,0 |
|
Luci
Afonso |
Texto superficial, nada acrescenta ao fato. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
Corretinha e pouco inspirada! |
8,0 |
|
Oswaldo
P.Parente |
A frase do General De Gaulle não é bem esta, e “callas”, para mim, está mais para Maria Callas. Crônica regular, também cumprindo tabela. |
7,5 |
|
Total |
|
49,5 |

03 de junho de 2006 •
Uma mulher apaixonou-se por uma cobra e casou-se
com ela em uma cerimônia tradicional hindu, no Estado de Orissa, na Índia.
Bimbala Das usou um vestido de seda na
cerimônia em que o noivo foi representado por uma réplica de latão.
Habitantes
da vila estavam felizes com o casamento e acreditam que trará sorte para os
moradores. Uma grande festa foi feita no dia, com direito a dois mil convidados.
A notícia rodou mundo: “Mulher se casa com cobra na Índia”.
Comentários encheram os sítios da internet que divulgaram o fato. Gracejos, os mais óbvios, repetiram-se à náusea. Entre grosseiros e pueris, eram capazes de desagradar desde feministas convictas a sogras tradicionalistas e balzaquianas casadoiras.
Sociedades protetoras dos animais insurgiram-se contra o abuso, a falta de respeito com aquele pobre réptil era um descalabro que só reforçava a idéia de que os humanos são o cancro do planeta.
Religiosos protestaram contra o que consideravam insulto a Deus. A serpente do Paraíso foi invocada por dezenas, o demônio por outros tantos, o fim do mundo pelos mais exaltados.
Durante semanas falou-se e escreveu-se sobre as bodas viperinas.
É de se notar que nenhum habitante da cidade onde ocorreu a cerimônia manifestou-se pela web. “Estavam felizes com o casamento e acreditam que trará sorte para os moradores” dizia a notícia. É provável que tenham permanecido alheios ao murmurinho por não ter acesso aos computadores pessoais ou talvez por não entenderem tanta repercussão. Talvez por não se importarem.
Impressiona como, apesar desta teia que se tornou o planeta, apesar da possibilidade virtualmente ilimitada de conhecer costumes, saberes e fazeres, os mais diversos, de cada comunidade que habite cada recanto de cada país, não tenhamos o hábito de exercer a tolerância. O que é diferente causa repulsa que é expressa, a depender do grau de sinceridade a que está disposto o interlocutor, como indignação ou como escárnio. Faces do mesmo sentimento de incomodidade.
Ao que parece, saber do que difere não estimula a capacidade de transigir, antes exacerba a desconformidade, reforça a identidade excludente: não é como nós. E daí ao não merece respeito é um átimo. É feio o que não é espelho diria o Narciso de Caetano.
No que pode ser menos respeitável a crença da senhora
Bimbala Das quando
comparada à de que um pedaço de couro pintado e costurado pode trazer prestígio
e alegria, desde que tenha sido marcada com o símbolo de uma grife famosa? Em que pode ser condenável a esperança daquela
população na sorte trazida pelo casamento interespécie quando comparada à de
que água e óleo aspergidos enquanto sacerdotes proferem bendições podem mudar a
essência da alma e a sorte espiritual de quem os recebe? Crer em espíritos
habitando em animais é mais antigo e tão popular quanto a
reencarnação em ciclos na maioria das culturas.
Nossas crenças, sejam certezas íntimas ou esperanças coletivas de saber a
verdade, deveriam ser tratadas exatamente como o que são: crenças. Respeitáveis
todas. Respeitáveis com a mesma intensidade, com a mesma indulgência que
esperamos sejam as nossas tratadas pelos que delas não compartilham.
Deixemos Bimbala Das a ter ao pé da cama seu réptil amado ou, ao menos, que tenha como conforto a réplica de latão usada na cerimônia. Ocupemo-nos em garantir que ninguém seja imolado por suas crenças.
|
Autor: Ari Gurcz |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
Muito sério, e não é uma
crônica. É um comentário sobre a intolerância. |
9,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Ótima. Focada. Convincente. |
10,0 |
|
Lorenza
Costa |
O cronista soube escolher um foco e mantê-lo, produzindo um texto que, se não chega a empolgar, passa o recado com competência. |
9,0 |
|
Luci
Afonso |
Crônica feita às pressas, em tom moralista. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
Perceber na notícia um aspecto e falar competentemente sobre ele é o que se espera neste presente desafio semanal, diria que isso soma 9, os outros dez graus decimais até a nota máxima ficam para a solução original, a tirada criativa, a percepção genial, a tecedura brilhante das idéias, etc |
9,0 |
|
Oswaldo
P.Parente |
Lição de moral monótona. |
7,0 |
|
Total |
|
51 |

ZOOGAMIA (Fato 5)
Dois mil convidados, um vestido
de seda e uma escultura
Sei que é um tanto difícil resistir à tentação de fazer piadinhas – a maior parte delas, de gosto duvidoso – diante de espetáculo tão insólito. Tão difícil quanto deixar de emitir juízos de valor que, ainda que travestidos de uma pretensa análise acurada, não passam de uma verborragia impregnada de preconceitos e auto-complacência: preconceitos, porque dificilmente o analista buscou compreender os reais motivos por trás dos fatos; auto-complacência, porque se aproveitou da ocasião para afirmar ao mundo (como se isso interessasse a mais alguém) que há quem seja – ou se mostre – mais ridículo do que ele próprio.
De pouco ou nada adiantaria explicar que o elaborado e caro ritual consiste em uma artimanha engendrada com o intuito de afastar, da desafortunada noiva (estar solteira aos quarenta anos de idade não é, naquela cultura, um sinal de boa sorte), os maus augúrios. Não tardaria a aparecer um pretenso pensador que, apregoando o óbvio, asseverasse que mesmo os motivos por trás da bizarrice poderiam ser classificados como nada mais do que mera superstição, como se cada um de nós não estivesse inexoravelmente impregnado de crenças infundadas e, não raro, injustificáveis. A tendência a apontar os “erros” e “defeitos” alheios, como uma tentativa de camuflar os próprios, devolveria o foco da discussão para o ponto certo: a mulher que, na Índia, casou com a cobra.
Casar pessoas com animais não parece tão raro, assim, por aquelas plagas. Em uma rápida busca na internet, encontrei três casos diferentes. Em dois deles, o nubente era um canino. As justificativas apresentadas sempre se relacionam com a quebra de maldições ou o afastamento de maus presságios. Nada muito diferente de jogar sementes de romã por cima do ombro na virada do ano novo, fazer o sinal da cruz defronte a um cemitério ou evitar passar embaixo de escadas (se bem que, neste último caso, a superstição pode ser útil – especialmente se, no topo da mesma, houver um pintor bêbado). Assim como nós temos nossas crendices, os indianos têm as deles.
Mas sempre aparecerá um ateu à toa, materialista convicto, que jurará por Nossa Senhora que tudo isso não passa de um monte de bobagens, de crença no nada, de perda de tempo; ou um defensor dos direitos dos animais (aqueles sujeitos que acham mais importante salvar o habitat do macaco-martelo-de-cabeça-amarela-e-orelha-verde do que construir uma hidrelétrica que acabará com as enchentes em oito cidades e gerará energia para trinta milhões de casas), afirmando que é um acinte submeter os pobres bichinhos a tamanho constrangimento.
É assim mesmo. Mais fácil ridicularizarmos os outros do que refletirmos sobre nossas próprias tolices.
Para não fugir do tema: quer coisa mais ridícula do que duas pessoas passarem três anos pagando uma festa da qual eles mesmos aproveitam quase nada? Ou você já viu uma noiva – umazinha só, que seja – que não estivesse à beira de um ataque histérico, recheando um vestido caríssimo, que jamais teria a ousadia (ou a estupidez) de trajar em qualquer outra ocasião, entrando pelo corredor da igreja com um sorriso forçado, torcendo para aquilo tudo terminar logo para tirar os torturantes sapatos pelos quais pagara uma fortuna e que ninguém viu? Ou um noivo que não estivesse tremendo mais do que vara verde em dia de ventania, suando sob um smoking alugado, se perguntando o tempo todo o que diabos estava fazendo ali e torcendo para que uma de suas ex-namoradas não resolvesse aparecer e dar chilique na hora do sim?
Antes de rir da mulher que casou
com a cobra, pare um pouquinho e pense: você acredita mesmo que aquele “até que
a morte os separe” é pra valer? Não, não é ao caso indiano que estou me
referindo. É àquelas belíssimas palavras pronunciadas pelos sacerdotes ocidentais,
nas cerimônias tão luxuosas quanto efêmeras. Você acha, sinceramente, que basta
alguém vir e declarar que dois humanos são marido e mulher para que eles sejam
felizes para sempre? Então, sinto muito informar-lhe que, de cada dez
casamentos brasileiros, sete acabam
Casar-se com uma cobra é, sim, profundamente irracional. Mas irracionais são quase todas as atitudes humanas. E, se não estamos dispostos a abrir mão das nossas tolices, não é de bom tom criticarmos as alheias.
Se queremos, mesmo, que os indianos levem a sério nossa crença de que as mulheres só estão prontas para casar seis anos depois de estarem preparadas pela natureza para conceber, não devemos criticar a crença deles, de que o casar com uma cobra (ou um cachorro, ou uma árvore) prenderá os maus espíritos a esse primeiro matrimônio, deixando o nubente livre para novas núpcias, agora com alguém de sua espécie.
Desculpe se pareci moralista demais. É que certas coisas me irritam profundamente.
Agora, se me dá licença, tenho que me apressar. O padrinho já bateu três vezes na porta, avisando que o carro da noiva chegou. E, ainda que a Cindy seja uma Collie Rough bastante amável e paciente, o voo do sacerdote sai daqui a duas horas; e há três cabras e um pônei esperando por ele, para casar, na Índia.
|
Autor: Gerson Heringer |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
O tom paternalista com o leitor
tira parte da validade da crítica. |
9,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Excelente
crônica. A crítica aos nossos costumes é corajosa. |
10,0 |
|
Lorenza
Costa |
O cronista se
irritou e nem sempre argumentou com lógica. Se ele não está disposto a abrir
mão de suas próprias tolices e por isso não critica ninguém (bem, ninguém
além dos analistas menos brilhantes que ele, dos “pretensos pensadores”, dos
“ateus à toa” e dos “defensores dos animais”), que fale apenas por si.
Defender uma idéia qualquer sob o argumento de que ela é universal (não
é) e imune a críticas (nada é, nem o universal), e depois sair a
criticar meio mundo... É o tipo de cronista que, num jornal, eu não leria
duas vezes. A brincadeira no final não o redime. |
7,0 |
|
Luci
Afonso |
Texto confuso e preconceituoso. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
Agradou-me o final, o resto é chato,preconceituoso, sentencioso e um pouco irritante. |
7,5 |
|
Oswaldo
P.Parente |
A justificação do ato, a sua defesa moral, não me parecem necessárias. Uma “viagem” em torno do fato seria muito mais agradável. |
7,0 |
|
Total |
|
48 |

A Serpente e o Gênio da Lâmpada
(Fato 6)
Uma notícia inusitada vinda do
Japão atraiu a atenção de muita gente na semana passada: em um zoológico de
Tóquio, uma serpente se tornara amiga de
sua presa, um pequenino hamster que, em vez de alimento, passara a ser
companheiro de todas as horas, chegando até mesmo a dormir confortavelmente
instalado em seu dorso.
Em Cuiabá, outra notícia
atraiu a atenção de milhares de leitores e telespectadores das redes nacionais
de TV, também por se tratar de uma situação pouco comum: uma mulher fora
sequestrada ao entrar em seu carro, levada para um esconderijo no interior do
estado e mantida em cativeiro por vários dias em troca de um resgate envolvendo
alta soma de dinheiro. Até aqui, nada de
excepcional, mas com o desfecho sim.
Após o dinheiro ter sido entregue conforme combinado, a famíla recebeu
uma carta de próprio punho da sequestrada, informando sobre um desfecho insperado para o crime: ambos
haviam se apaixonado e iriam sumir pelo
mundo, vivendo às custas do dinheiro
pago pelo seu próprio resgate.
O que há de comum entre estes
dois fatos? O desfecho inusitado e surpreendente, claro. Em ambos casos, o
leitor, desde a primeira linha, tem uma
expectativa que não é preenchida - um desfecho trágico na primeira situação, ou
no mínimo muito complicado de ser resolvido em ambos os casos. Em suma,
é apanhado de surpresa por uma virada surpreendente no final das duas
estórias.
No caso do pequenino hamster,
podemos especular que a serpente o rejeitou como alimento por estar acostumada
a comer animais mortos. Não lhe apeteceu
um bicho vivo. Entretanto, solitária,
agradou-se da companhia de um ser vivo ao seu redor. Permitiu que vivesse e que até tomasse certas
liberdades no convívio diário. Gostou de
dividir sua solidão com outro bicho. Enfim, preferiu poupar o pequeno animal e
deixá-lo viver.
Já no caso do sequestro,
creio, a mulher sequestrada sentiu-se atraída por uma vida de aventuras,
certamente muito mais motivante do que a que levava, apesar de todo o conforto
e segurança. Preferiu a imprevisibilidade
à monotonia de um destino certo, provavelmente tranquilo e linear. Botou marido, emprego, casa, vizinhança, tudo
num mesmo saco e fez uma troca no valor de cinco milhões de reais. O que deixa para trás é o que já não mais
quer comer. Está farta como a serpente.
Está empanzinada.
Ao rejeitar uma comida que não
lhe apetecia, a nossa amiga serpente do zoológico japonês descobriu casualmente
o valor da companhia de outro ser, o gostoso efeito de um cafuné feito por
patinhas caminhando em seu dorso, o calorzinho confortante de um corpinho aquecido
se esfregando no seu, geralmente frio e escorragadio. Deixou-se levar. Deixou prá lá. Agradou-lhe ter companhia. Mas desde quando podemos afirmar que cobra,
muito menos serpente, gosta de companhia?
Não sabemos. Mas desde quando podemos afirmar que
sequestradores são boa companhia? Não sabemos. Entretanto, a sequestrada de
Cuiabá arriscou tudo: deixou uma vida inteira para trás em troca de uma grande
aventura com uma serpente.
A sequestrada e a
serpente. Que dança ensaiarão por trás
de véus enfunados pelo sopro morno dos ventos da paixão repentina?
Provavelmente montarão num tapete colorido e voarão em sonhos mágicos que só a
serpente conhece. Velha alquimista, ela
enfeitiçará a mulher sonhadora e a levará por florestas densas, cipoais e
duendes ‘a
Como o pequenino hamster, a mulher se aninhará no
colo do seu herói, que a entorpecerá com um beijo quente ao entardecer e a fará
dormir suavemente...infelizmente, para acordar repentinamente ao som de
pancadas fortes na porta do quarto do hotel onde estão residindo.
‘Polícia! Gritam os agentes ao arrombarem a porta com
um violento chute. ‘Mãos na cabeça e não
se mexam!’
Apanhados de surpresa na
véspera de tomarem um avião para Dubai, a Maimi dos árabes, paraíso dos ricos e
milionários do século XXI, a sequestrada e sua serpente vêem o sonho da viagem
no tapete mágico de Aladim se esfumaçar.
‘Cadê o Gênio da Lâmpada?’
O Gênio da Lâmpada não
apareceu desta vez e a mulher voltou à Cuiabá para junto da família de quem
queria se livrar, para junto do marido gordo e rico e da sogra rabugenta, para ser
devorada por outro predador, pior que a serpente: uma velha conhecida chamada
monotonia.
|
Autor: Eneida Coaracy |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
Passa do relato objetivo para o lirismo.
Talvez fosse possível juntar os dois enfoques, mas aqui eles não se misturam.
O começo é realista; do meio para o fim, é delirante. |
8,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Excelente. Devoradora. |
9,0 |
|
Lorenza
Costa |
Essa crônica é a definição do verbo “desandar”. Que final é aquele? Estava indo tão bem! |
8,0 |
|
Luci
Afonso |
O paralelo entre os dois fatos é interessante. A crônica vai bem até “uma grande aventura com uma serpente”. Poderia terminar aí. O gênio da lâmpada está completamente fora de lugar. |
7,5 |
|
Marco
Antunes |
Muito curioso o cotejamento entre as duas situações. Não sei se me agrada o final! |
9,0 |
|
Oswaldo
P.Parente |
Correlação interessante. |
8,0 |
|
Total |
|
50 |

AMOR, ETERNO AMOR (Fato 6)
À primeira vista é um fato inusitado. Por isto mesmo chegou a ser noticiado em vários países, como algo extraordinário, a aparente amizade entre uma cobra e um hamster. Fato em si mesmo desimportante e sem grandes conseqüências, esta convivência pacífica entre predador e presa, tão improvável à luz dos conhecimentos científicos ocidentais.
Se chamados a analisar o caso, os etologistas mais destacados das universidades prontamente apresentarão várias hipóteses plausíveis para o fenômeno, todas fundadas no mais puro raciocínio lógico e em evidências cientificas.
Porém, felizmente, sempre existem outras formas de se apreciar a mesma situação. À luz dos preceitos da milenar religião hindu, trata-se de acontecimento banal, de explicação singela.
Ocorre, como é do conhecimento corrente, até mesmo dos ocidentais que se interessam um pouco pelo assunto, que, para o hinduísmo, é ocorrência normal a metempsicose como parte do longo caminho de aperfeiçoamento do espírito rumo ao nirvana.
Acontece que espíritos de pessoas que se amaram nesta vida, podem se reencontrar quando reencarnados em formas de animais, e, mesmo sem poderem se expressar de forma inteligível pelas pessoas, podem comunicar-se por um tipo de telepatia, fazendo com que não sejam apenas frutos do acaso esses encontros.
Assim, podemos imaginar que ao serem colocados casualmente na presença um do outro, os amantes se reconheceram em pensamento mesmo antes de se olharem, logo se buscaram e procuraram mutuamente se consolar pela perda, e certamente, combinaram reencontrarem-se assim que reassumirem a forma humana, porque esta é a mais perfeita neste mundo para a expressão do amor.
Vê-los juntos, mesmo nestas condições, significa que o amor é maior que a vida, pois transcende a própria morte. A morte, que para nós é o fim, para eles é apenas um de muitos fins. Um –para nós impensável- fim provisório.
|
Autor: Washington Dourado |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
Esta foi excessivamente curta...
|
7,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Simples e bonita. Poderia ser
mais desenvolvida. |
9,0 |
|
Lorenza
Costa |
A redação podia ser
mais cuidadosa num texto tão enxuto: o vocabulário usado é muito
pobre (fato/fato; ocorre/ocorrência; podem/poderem/podem;
casualmente/mutuamente/certamente). O cronista trouxe uma visão diferente,
mas ficou faltando saber o que ele mesmo pensa sobre o assunto: deu a
impressão de um hinduísta envergonhado. |
8,5 |
|
Luci
Afonso |
Crônica apressada, não chega a desenvolver o tema. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
Tenho sérias dúvidas se esta crônica cumpre o número mínimo de linhas. O uso do tema, foi obviamente descoberto e realizado às pressas. |
6,0 |
|
Oswaldo
P.Parente |
Crônica curta. Bela imagem. |
8,0 |
|
Total |
|
46 |

Impasse no Quênia: o amor está de greve? (Fato 7)
Parece não haver limites para a
leviandade com que as pessoas entram com processos na Justiça. Pois não é que
um queniano está reclamando danos morais porque sua esposa, imbuída no espírito
de contestação política, aderiu a uma semana de greve de sexo? As organizadoras
do protesto afirmam que o objetivo da greve é criticar a negligência dos
governantes e a violência que assolou o país desde as eleições de 2007. O
queniano James Kimondo, por sua vez, alega que está agoniado,
estressado e cheio de dores porque sua mulher, Teresia Wanjiku, o está
deixando à míngua. Que situação...
Fico imaginando como terá ocorrido
esse impasse na intimidade do casal:
O marido, após um dia cansativo de
trabalho, chega em casa, toma um banhozinho
caprichado, passa aquela loção especial e entra no quarto, com uma cueca nova e
duas taças de vinho na mão:
-
Kimondo quer Wanjikuuuu...
A esposa, de pijamas, coloca de lado
o seu exemplar de O Capital, leva os óculos até a ponta do nariz, olha o
marido de cima a baixo e retruca, insolente:
-
Só que hoje não tem Wanjiku pra ninguém, não!
- Por quê??
-
Porque não! Aderi a um protesto contra a violência dos governantes do
nosso país, e isso significa que passaremos uma semana sem sexo nesta casa!
-
Mas não é possível! O que eu tenho a ver com isso?!
-
Tudo, meu amor! Francamente! Você é queniano ou não é? Deixa de ser alienado!
Você devia estar orgulhoso de mim, e aderir à causa junto comigo!
-
Teresia, vamos fazer o seguinte: o que se
passa entre quatro paredes não é da conta de ninguém. Então, que tal a gente
apoiar o protesto de dia e fazer um amorzinho à noite?
-
James Kimondo! Que decepção!! Como é que você pode me propôr uma coisa dessas! Você está pior do que os
políticos que prometem paraísos quando todo mundo tá olhando e, na surdina, jogam sujo!
-
Amor, deixa de bobagem... e,
olha só: eu acabei de tomar banho, tô todo limpinho, não tem nem como eu jogar
sujo!
-
James, pára de palhaçada. Eu tô falando sério.
O negócio tá muito feio aqui no Quênia e eu farei o
que for possível para dar voz aos excluídos!
-
Ah! Então, é isso! Quer dizer que me fodem no trabalho, na política, no
futebol, enfim, em tudo quanto é lugar e, na hora que eu quero foder um
pouquinho também, minha mulher vai regular mixaria???
-
Ah, James, que baixo nível... e, quer saber?
Fim de papo. Não vou dar, e pronto. E agora, vão ser duas semanas: uma pelo
protesto e outra porque você é muito grosso! E ainda me chamou de mixaria!
-
Não, não, não, peraí, Teresia. Desculpa. Eu perdi a paciência. Olha,
não tem nada de mixaria não. Você tá mais linda do que nunca! Tão linda que eu
fico louco só de pensar em ficar tanto tempo sem te amar! Eu te quero, delícia!
Teresia não resiste, dá um sorrisinho e adota uma fala mais moderada:
-
Tá bom, meu amor. Você me reconquistou...
-
Eba!! Então vem,
linda, que agora você vai ver quem é Kimondo!!
-
Epa! O que é isso, rapaz?? Você ganhou de
volta só a segunda semana! Eu estou firme e forte no
propósito da primeira! Uma semana sem sexo, meu amor! Tudo pelos excluídos!
Aí, deu no que deu... No dia
seguinte, lá estava James Kimondo no Tribunal de Pequenas Causas (talvez nem
tão pequenas assim, afinal, os africanos tem fama de... deixa pra lá). Penso
que a agonia, o estresse e a fadiga alegadas por ele
não se devam simplesmente à privação de sexo, mas sim, ao desgaste da briga com
a esposa. E também ao sentimento de indignação por ter que pagar o pato por
crimes que ele não cometeu! Pior: talvez Kimondo tenha até sido mais uma
vítima, afinal, ele faz parte do povo! Quanto às dores nas costas, provavelmente
resultam do fato de ele ter ido dormir no sofá da sala depois da contenda, ou,
então, está dolorido porque abusou da criatividade no alívio solitário de seus
desejos. Coitado de Kimondo...
Mas saltam aos olhos algumas
questões importantes referentes a esse episódio. Em primeiro lugar, o que dizer
desse marido? Está tão falida a comunicação entre os casais que, agora, até
questões de alcova são levadas aos tribunais de justiça?
E quanto à forma escolhida pelas
mulheres para fazer o protesto? Em vez de irem às ruas, paralisarem estradas ou
bloquearem edifícios públicos, optaram por montar piquete no que há nelas de
mais íntimo! O que isso representa? Será que a principal função social que
atribuem a si mesmas é a sexual?
Enfim, o que se depreende de tudo
isso é um grande paradoxo. As mulheres quenianas parecem dizer: “Vamos
privá-los de amor, pra que haja mais amor!”. Prefiro a coerência de John
Lennon, que, pra protestar contra a guerra, se enfiou debaixo dos lençóis com
sua amada.
|
Autor: Antonio Lima |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
Boa crônica. |
10,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Excelente.
Acho que não se deve colocar a bizarrice da atitude do marido no mesmo nível
da bizarrice que pode ser a greve de sexo. |
9,5 |
|
Lorenza
Costa |
A crônica é bem
engraçada quando se propõe a isso (apesar de duas piadas vulgares e
previsíveis), mas não se equilibra bem entre o humor inicial e a seriedade
dos parágrafos finais. |
8,5 |
|
Luci
Afonso |
O diálogo é pálido, a análise que o segue, frágil. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
O humor é inquestionável, o uso do tema original e coerente. |
9,5 |
|
Oswaldo
P.Parente |
Dei boas risadas. Os três últimos parágrafos, a não ser pelo limite inferior de 60 linhas, seriam dispensáveis. |
9,0 |
|
Total |
|
53,5 |

Trair e coçar... nada mais fora de moda! (Fato 8)
Hoje
amanheci assim, com uma veia poética crônica, lembrando de um amor perdido e
meu coração poeta começou: ...eu te amei como a montanha ama o mar, como o céu
ama a terra e como a árvore o seu chão. Mas os meus olhos verdes recém nascidos
olharam a tela do computador, ainda em brumas, e eis o fato: anúncios de uma empresa canadense que promove infidelidade entre casais com um serviço
que permite aos usuários enviarem mensagens pelo celular como maneira de
praticar traição de "forma segura e em qualquer lugar". A notícia não
me chamou atenção pelo fato em si, que não provoca nehuma reação ao navegante
errante acostumado às vicissitudes mundanas, às narrativas poligâmicas da
novela das 8 e a um vizinho simpático que fêz ontem 69 anos (ele estava muito
feliz com a sensualidade dos números invertidos). Bom, logo me lembrei desse
amor perdido, como tantos outros, pela minha própria incapacidade de amar.
Fechei os olhos amarelos da minha solidão que nessa manhã parecia vasta e
melancólica. Tantos encontros e desencontros e essa tarefa de escrever sobre o
tal fato. Esse fato fado enfadonho, mais pela rima que pelo fado em si (obra
prima de meus amigos portuguêses, esses sim de um lirismo fiel e fundamental),
me parece velho como as páginas amareladas de jornais antigos, tão antigos como
a própria serpente do jardim do édem, que binária provoca o lívre arbítrio.
Comer ou não comer? Eis a questão! Eva não teve dúvida. No entanto as mulhers
quando estão sozinhas não
arbitram muito bem mesmo. A culpa foi de Adão. Onde você estava Adão?
Provavelmente em algum site de traição. E Eva alí seduzida por aquele belíssimo
fruto vermelho, da cor do bem e do mal, e você bombando nos seus torpedos. Bom
Deus é sábio e FIEL, o único aliás, e se por um “homem” todos pecaram, o
segundo Adão Jesus Cristo, pode nos libertar de tal destino enfadonho e cruel,
encrustrado em nossa carne: a traição. Curioso foi que me lembrei de uma
revista lida na sala de espera da fisioterapia. Enquanto esperava pacientemente
a minha vez de enfrentar a rotina vi uma revista diferente, não era Caras e não
era Foco, as revistas mais frequentes na clínica. Ela tinha um formato
interessante e um papel de fino tato, era agradável com bonitas fotos. Dois
artigos me chamaram a atenção, um falava de como uma relação estável estava
entre os bens de consumo mais desejáveis do planeta, e que significava, em termos
de economia, números mais relevantes que uma gorda poupança. O outro artigo
falava da última exposição de uma artista plástica francesa muito cultuada
desde a década de 70. O curioso é como essa artista tinha produzido a sua obra.
Ela estava namorando um simpático rapaz, estava muito feliz e eis que um dia o
guapo termina com a artista por meio de uma mensagem no celular, desta feita
dizendo que ele gostava muito dela mas que infelizmente, como para ela era
importante uma relação monogâmica, ele a estava deixando, não por uma mulher,
mas por várias. No final da mensagem ele ainda frizou que ela se cuidasse bem.
E foi o que a senhora, já não tão jovem, fêz tratou de mostrar a mensagem para
o maior número de amigas e pediu que elas dançassem, pintassem, interpretassem
e cantassem a mensagem, ajudando-a, desse modo, a entender o gesto do honesto moço. Das fotos
dessa experiência resultou a sua obra. Bom, comecei a rir e pensei: tenho que
conseguir aquela revista, tenho que ler os artigos novamente eles vão me ajudar
a escrever esta crônica. Saí cantando o frio do dia na esperança de encontrar
aquela revista. Chegar à clínica e explicar que só fui lá para pegar a tal
revista me parecia um mico considerável, mas lá fui eu. A vida tem os seus
mistério, a dona da clínica, uma fisioterapeuta bem miuda de olhos claros e
ouvidos atentos logo me observou, fui direta e muitos olhos me olharam. Logo
expliquei a finalidade de encontrar o norte da minha crônica, aquela revista
tinha algumas pistas, falei do desafio, do fato e todas as senhoras presentes
ficaram solidárias, o jovem nem se mexeu. A mulher mais jovem me ajudou: “olha,
eu acho que você está certa uma relação estável é um bem muito precioso, esses
dia eu até estava conversando com minha mãe sobre uma entrevista que eu vi com
a Rita Lee, o reporter perguntou a ela como é que ela ainda hoje estava casada
com o mesmo marido e por tanto tempo, aí ela respondeu que sepre foi vanguarda,
pois quando era moda a estabilidade nos lares ela veio quebar tabus com a sua rebeldia
e quando o comum passa a ser a instabilidade das relações ela mais uma vez vem
contra o tempo e se mantém estável em seu casamento, o mais tradicional
possível”. Adorei aquela intervenção, e disse a ela: “é isso mesmo, vou
escrever sobre isso”. Saí dali convícta do tema, sem a revista nas mãos.
Cheguei em casa, depois de passar pelo super-mercado pensando em comprar um
hiper-marido, mas o artigo era raro e estava
|
Autor: Soraia Maria Silva |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
Também meio longa. |
8,5 |
|
Cida
Sepúlveda |
Lindíssima. |
10,0 |
|
Lorenza
Costa |
Essa falta de parágrafo será experimentalismo ou preguiça? Tanto faz. “Experimentalismo” não é salvo-conduto: nada impede que a coisa seja experimental e ruim. Autores mais competentes já fizeram experiências parecidas e conseguiram um texto fluente (ocorrem-me agora o óbvio Saramago e o García Márquez de “O outono do patriarca”). Além disso, esta crônica tem a mais aleatória distribuição de acentos que eu já vi. Com tanto ruído, fica difícil fixar a atenção naquilo que o cronista pretendia dizer. |
6,0 |
|
Luci
Afonso |
Texto confuso, mistura vários assuntos sem aprofundá-los. |
7,0 |
|
Marco
Antunes |
QUE COISA INSUPORTÁVEL ESSA OPÇÃO PELA FALTA DE PARÁGRAFOS! Por que alguns escritores iniciantes se fascinam por essas literatices? (Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: — não façam literatice. O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra. – Nélson Rodrigues) A verdadeira literatura não está, não pode estar nesse tipo de bobagem, acham engraçadinhas essas “originalidades” à moda de Saramago e enganam-se achando que seu sucesso está aí, diria que seu sucesso existe em que pese a isso, existe porque seu talento e genialidade suplantam esses detalhes. Aqui sobram argumentos moralistas e pseudo-poéticos e falta literatura. É crônica, está dentro do número de linhas, não foge do tem, apenas o realiza mal! Então, sou impedido de baixar de 7, se pudesse, didaticamente, atribuiria nota menor. LER TEXTO AO FIM SOBRE O TEMA |
7,0 |
|
Oswaldo
P.Parente |
“Fato em si” e “Navegante errante”? O texto – um só bloco – desceu quadrado. |
6,5 |
|
Total |
|
45 |

A gota d’água (ou a última brasa) (Fato 9)
Os homens nas cidades são como ratos em labirintos, sempre em busca de uma saída, sem perceberem o quanto estão realmente perdidos. Os prédios, casas e túneis que os cercam bloqueiam a visão e aprisionam os pensamentos. Sem a amplidão do horizonte a alimentar seus sonhos, os homens contentam-se com a idéia de fazerem parte de um sistema em constante evolução. Um sistema repleto de regras de conduta que os homens devem seguir de boa vontade se não quiserem sentir o poder do Estado.
O que importa se algumas dessas regras são absurdas e sem sentido? O importante é ser uma pessoa educada, civilizada e que sabe seguir a norma vigente como um bom autômato. Às vezes, é assim que vejo meus semelhantes. Como robôs. Minha terapeuta me sugeriu uma viagem para tentar afastar essas conjecturas nefastas da minha mente. De preferência para algum lugar fora de rotas turísticas, do qual nunca ouvi falar antes. Talvez, desse modo, eu me convencesse de que nem tudo está perdido. Na hora, aquilo me pareceu uma boa idéia. Foi dessa maneira que acabei indo parar em Wuhan, capital da província de Hubei, na China.
Já no aeroporto, percebi a mudança
de cultura. Fora a língua incompreensível, notei uma velha acender
despreocupadamente um cigarro enquanto esperava pela mala no desembarque. Olhei
para o guarda, que parecia estar a par da situação, mas que não deu nenhuma
bola para a senhora. Achei estranho. Voltei a olhar para a senhora. Ela fumava
como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. E
ninguém ao seu redor reclamava ou tossia
Admito, fiquei impressionado. Por alguns poucos minutos, acreditei estar diante de pessoas dotadas de livre arbítrio sem medo de sofrer sanções de um Estado autoritário e patriarcal. Mas, como diz o ditado, felicidade de pobre dura pouco. Assim que saí do desembarque, percebi que tinha algo errado. Uma nuvem de fumaça pairava dentro do aeroporto e não consegui evitar a tosse. Para onde quer que olhasse, via alguém com um cigarro aceso na mão. Até mesmo policiais, que deveriam fiscalizar esse tipo de comportamento impróprio, competiam para ver qual deles soltavam o melhor arco de fumaça no ar.
Não sou fumante. Apenas admiro pessoas dispostas a combater o sistema, como pensei equivocadamente ser o caso quando desembarquei do avião. Saí do aeroporto em busca de ar fresco e de um meio de transporte para longe da convenção dos fumantes inveterados. A primeira coisa que o taxista me perguntou com seu inglês macarrônico quando entrei no carro, antes mesmo de perguntar para onde iria, foi se eu gostaria de um cigarro.
Foi a gota d’água. Questionei o homem que fixação maluca era aquela com o fumo. “É a lei”, me respondeu ele laconicamente enquanto acendia um cigarro. A resposta não me satisfez. Fiz mais perguntas. E o homem se abriu como uma flor. Taxistas e motoristas em geral adoram contar histórias, sejam elas quais forem. Logo, descobri que a loucura começou em uma pequena cidade de Hubei. Um lugar chamado Konga ou algo parecido. Uma lei forçou os funcionários públicos do local a consumir uma determinada cota de cigarros por mês. Como conseqüência, a indústria tabagista conseguiu se firmar e iniciar exportações de maços para outros países, levantando a economia local como nunca antes.
Outras cidades gostaram da idéia e resolveram criar leis ainda mais abrangentes, que permitiam inclusive a venda de cigarros para menores de idade. Pelo que o taxista me contou, os próprios dentistas estimulavam as mães a comprarem cigarros para os filhos com o argumento de que assim poderiam evitar cáries que teriam se comessem doces e outras besteiras. Perguntei a ele o que ocorria com os não-fumantes. O homem riu. Disse que não valia a pena ser um não-fumante. Que os impostos eram muito caros. No entanto, quem não gostava de fumar simplesmente comprava as butucas de cigarro dos fumantes mais assíduos para provar aos chefes e autoridades que estavam de acordo com as regras.
Perguntei ao taxista sobre o que os médicos achavam da situação. Certamente ao menos eles estariam indignados com uma norma tão estúpida quanto àquela. Imaginei gráficos mostrando o aumento de câncer de pulmão e outras doenças causadas pelo cigarro. O taxista se animou. “Ouvi uma história ótima de um cirurgião outro dia”, contou. “Peguei ele num bar. Tinha brigado com a mulher e estava na fossa. Entrou no meu táxi mais para lá do que pra cá. A corrida até a casa dele era longa, então puxei conversa para passar o tempo. Falamos um pouco sobre tudo. Até que perguntei o que ele achava a respeito da lei do fumo obrigatório...”
O taxista fez uma pausa dramática e olhou diretamente para mim. Pedi que continuasse. Estava ansioso para ouvir uma opinião inteligente sobre aquele absurdo. Algo que me mostrasse que ainda existia vida inteligente em meio à civilização. Que não estávamos todos doentes e presos a uma selva de pedra, fria e sem sentimentos, pela qual nos movíamos como formigas inconscientes e sem vontade própria. Qualquer coisa que me provasse o meu erro em pensar nos homens como um bando de macacos adestrados.
Mas o taxista não me daria esse gosto. Ao invés de dar uma opinião inteligente, o médico bêbado apenas contou para ele uma história besta de como deixou uma guimba de cigarro cair por acidente no intestino grosso do prefeito enquanto realizava um procedimento cirúrgico para diminuir o estômago do coitado. Nem perguntei o que um médico fazia fumando durante um procedimento tão delicado. Estava nauseado. O taxista acabou de contar a história no momento em que chegamos ao hotel onde eu me hospedaria. No entanto, decidi não permanecer naquele local nem mais um segundo. Pedi que voltasse para o aeroporto. Tinha uma longa viagem de volta para casa diante de mim, uma terapeuta para despedir e a decisão de me mudar de uma vez dos grandes centros urbanos para uma casa no campo.
|
Autor: Pablo Rebello |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
Assim que é bom. Crônica que é crônica
mesmo! Divertida, leve, imaginou fatos fictícios a partir do fato real, coisa
boa de ler. |
10,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Muito bonita. O fechamento ficou
um pouco clichê. |
9,0 |
|
Lorenza
Costa |
O formato do desafio desta terceira semana parecia tão simples: pensei que nenhum autor fosse sentir a necessidade de escrever um conto disfarçado de crônica. Pois vamos fazer de conta que este cronista foi mesmo à China e está dando a notícia em primeira mão: o texto ficou meio sem graça e muito inverossímil. |
7,5 |
|
Luci
Afonso |
Texto bem escrito, apesar dos clichês. |
8,0 |
|
Marco
Antunes |
Não convincente! É o que se pode dizer! |
7,5 |
|
Oswaldo
P.Parente |
Crônica monótona e de difícil trânsito. |
7,5 |
|
Total |
|
49,5 |

A Era do controlo
Humano (Fato 9)
A província chinesa de Hubei, tal como outras províncias do mesmo país, decretou que os funcionários públicos devem fumar. Mas não se fica por aqui. Para além da obrigação de fumar os funcionários têm uma quota específica de cigarros a consumir e ainda marcas de tabaco predefinidas. Se fumar já é mau só por si, então ter de fumar uma marca que não nos cai bem nos pulmões é algo impensável. Os funcionários, no entanto, decidiram aceitar a curiosa decisão do governo regional, certamente com consentimento do governo central. A razão dada é simples. Dinamizar a economia local; fazer florescer a industria do tabaco e o arrecadamento de impostos no governo regional. Existe ainda, talvez, uma outra situação inerente. O crescimento de afluência aos serviços de oncologia com casos diagnosticados de cancro do pulmão e o hipotético aumento do número de óbitos e consequente aumento de volume de negócios das funerárias, igrejas e ainda do governo, que gere os cemitérios. Quem disse que com a desgraça dos outros não se lucra!? E se, porventura, for admitido um jovem menor em regime de voluntariado ou de pré-emprego numa instituição pública será ele também obrigado a fumar? E as mulheres grávidas, ou com problemas respiratórios ou outro tipo de problema de saúde inerente ao sistema respiratório?
Mas existe certamente mais por detrás deste inusitado facto, uma outra intenção do governo, um outro objectivo para além da suposta revitalização da economia. Que razões obscuras poderá ter o governo para querer obrigar os seus funcionários/cidadãos a adoptar um vício destrutivo? Poderá o governo estar a tentar encontrar outra forma de controlar o crescimento incessante da população chinesa a longo prazo, seja pelo aumento das doenças ou da infertilidade? Um controlo silencioso, gradual e graciosamente maquiavélico.
É sabido que o governo chinês tem alguma tendência a adoptar medidas que para nós, países ocidentais, poderão parecer medidas contrárias ao direitos dos seus cidadãos. Pegando neste caso em concreto, obrigar pessoas a adoptar um comportamento sobre o qual possam ter repulsa ou reservas parece quase uma espécie de domesticação das massas. Só por si obrigar a adoptar comportamentos é uma violação da liberdade do indivíduo enquanto cidadão. O conceito de que todo o homem nasce livre independentemente da sua raça, credo ou nação é utópico e irreal neste contexto, numa sociedade em que os interesses económicos e os interesses da minoria governamental se sobrepõem em grande escala à dos cidadãos votantes. Mas é algo usual e mesmo enraizado num sistema comunista como o da China, em que a imprensa, para exprimir a sua liberdade, tem de lutar constantemente contra a censura fortemente instaurada naquele país.
Curioso é ainda o caso da investigação dos cinzeiros. O governo criou uma unidade de controlo a pontas de cigarros suspeitas. Em tempo de crise é mais um punhado de postos de trabalho. Mais um ponto para o governo por tentar inverter os números do desemprego com este novo ofício. Pontas de cigarros de outras províncias não considerados como uma espécie de imigrantes ilegais, prontamente confiscados e seus fumadores expeditamente admoestados. Os cigarros tomam assim mais um malefício para quem os consome. Para além de criarem doenças e matarem, são ainda assassinos de carteiras.
Face às diversas críticas a esta medida alguém responsável veio a público dizer algumas palavras. Não é controlo. É apenas uma sugestão (forçada). É apenas uma forma (forçada e injusta) de dinamizar a economia local ao invés da economia externa. E eu pergunto-me, neste contexto regionalista, se os líderes do governo passam sem o seu charuto cubano ou os seus cigarros Malboro! Entre as baforadas prazenteiras de fumo ocidental é por mais certo que se coíbem de sair aos corredores das instituições públicas, não vão eles ter de respirar o fumo das baforadas regionais dos comuns trabalhadores.
Desde tempos imemoriais que os líderes se colocam acima de todos. Se o conceito de líder justifica esse facto – se o líder desaparece, o rebanho dissolve-se confuso – o conceito de humano desgasta-se face às injustiças perpetradas conta os liderados. Como é comum, em tempo de discórdia e vulnerabilidade do ser humano, os lideres têm lugar cativo no bote da salvação! E uma crise financeira e/ou económica não é excepção.
Agora analisemos algumas teorias mais extravagantes, aquelas que o olho e percepção humanas não conseguem facilmente discernir. Todo esta situação pode facilmente ocultar motivos mais obscuros por parte do governo. É sabido que uma população em revolta ou descontente é uma fera difícil de domar. Passem esta expressão para a realidade chinesa e têm milhões de feras para domar que ao se juntarem, pela facilidade dos números, eventualmente conseguem suplantar os líderes. Líder que se preze tem sempre um Plano B para as eventualidades, medidas extremas ou graciosamente inéditas e quase imperceptíveis de dominar as massas.
Maquiavel mostrou no seu livro “O Príncipe” como um príncipe deve agir para manter o seu estatuto superior e a sua riqueza à custa dos seus súbditos. Como deve agir para induzir aos seus súbditos que é um bom líder, preocupado e merecedor de respeito. É quase como que um manual de instruções em como ser um líder calculista e francamente interesseiro.
No caso chinês, o tabaco pode muito bem ser uma ferramenta de controlo das massas e do comportamento humano. Por um lado, incutindo um comportamento globalizado com o acto de fumar cigarros, por outro lado, podendo adicionar aos cigarros regionais, livres de fiscalização externa, alguma espécie de substância que vise orientar o comportamento dos súbditos ou ainda, mais sinistro, uma forma simples de etiquetar todas as pessoas do serviço público com sistemas de escuta e localização implantados nos cigarros.
Embora esta teoria possa ser questionável, lembrem-se que existem chips de controlo sub-cutâneos que podem ser uma forma de controlo. Mas não precisamos de ir tão longe, somos sobejamente controlados com algo rotineiro: o nosso cartão de crédito.
Para terminar, seja com a implementação de um “fumar obrigatório” ou de outro qualquer
tipo de comportamento é a liberdade do indivíduo que está
|
Autor: Ricardo Vicente |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
Longa....
É um tratado! O texto começa bem, mas vai ficando mais e mais sério à medida
que avança. As ‘teorias da conspiração’ aventadas são criativas, mas excessivamente
paranóicas... |
9,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Excelente. |
10,0 |
|
Lorenza
Costa |
Se existe um
governo no mundo que pode ser encarado como a provável mãe
de todas as conspirações, concordo com o cronista: este governo só
pode ser o chinês - riquíssimo, tentacular, onipresente e cheio de
desprezo pelos direitos humanos. Mesmo assim, a sugestão do nono parágrafo
vai um tantinho longe demais na sua paranóia. |
8,5 |
|
Luci
Afonso |
Análise interessante, texto de qualidade. |
8,5 |
|
Marco
Antunes |
Meu Deus, como é cacete esse texto! Ok! Rendo-me: está bem escrito! Ok! Concedo: o autor consegue realizar ilações pertinentes ou ao menos concebíveis sobre o assunto; mas...Meu Deus! Que texto chato! |
7,5 |
|
Oswaldo
P.Parente |
Texto monótono, arrastado. A teoria do Big Brother não é nova. |
7,5 |
|
Total |
|
51 |

UM
A
Sabemos
Os
Na
E o
Fico pensando
nesse
No
O
|
Autor: Denis Reis |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty
Vidigal |
Legal! |
10,0 |
|
Cida
Sepúlveda |
Excelente crônica, mas protesto
contra seu conteúdo. |
9,0 |
|
Lorenza
Costa |
O único problema é
a repetição da metáfora da “gambiarra”, que funciona tão bem na primeira
ocorrência. |
9,9 |
|
Luci
Afonso |
Curiosa comparação entre o cérebro e a gambiarra. Ótimo texto. |
9,0 |
|
Marco
Antunes |
Inteligente, oportuno e bem escrito. |
10,0 |
|
Oswaldo
P.Parente |
A tese é interessante. Em alguns momentos o texto cansa um pouco. |
8,0 |
|
Total |
|
55,9 |

A falta que um Paulo Mendes Campos nos faz (Fato 10)
Várias vezes,
formal e informalmente, já caí de pau na imprensa desse nobre e glorioso país
tropical. Cala-te boca, Rodrigo. Estamos bem. Melhores que a maioria. Outro
dia, lendo um magazine made in England caí na real. As letras gringas
são tendenciosas, sensacionalistas e oportunistas. Tanto que dá raiva. O
leitorado, cúmplice, não fica atrás e comparece ao cartório com sua parcela de
culpa. Caruncho só se sente em casa quando encontra madeira mole.
Na tal
revista picareta uma manchete alardeava aos quatro ventos que sabichões
franceses, descobriram, vejam só, um homem sem
cérebro. Um pobre diabo, pai de família, cumpridor de seus compromissos e que,
por acaso do destino vil, saiu da linha de montagem descerebrado. É claro que
se trata de uma apelação, é claro que se trata de uma imensa trapaça. Ser
chamado de otário de vez em quando faz parte, mas não vamos exagerar, aqui
também há gente esperta e douta, muitos terminam o ensino médio e até fazem
vestibular, ainda vamos chegar lá. Dito isto, chego à infalível conclusão que
de fato não sei quem é mais leso, o sujeito desmiolado da matéria ou eu, que
faço questão de chover no molhado trombeteando essa
sandice sem tamanho, fazendo todo mundo de bobo e enchendo a boa paciência de
quem não merece. O problema não é a notícia, o problema é publicarem
a notícia. Afinal, pergunta esse ignaro cronista suburbano: qual é o homem que
tem cérebro? Eu não conheço nenhum, se vocês conhecem algum, me avisem, vou
tratar de empalhar o talzinho e cobrar uns centavos pela visitação. A gente racha
a grana.
Dizer que um
homem não tem cérebro é o mesmo que afirmar que o palhaço Bozo é um palhaço ou
que a água em estado líquido é líquida, ou, ainda, que o Vasco da Gama é um
time da segunda divisão. É o óbvio do óbvio. A poltronice do gênero masculino é
histórica, endêmica e reincidente, sinceramente não entendo como chegamos até
aqui. Os exemplos estão por aí e fosse eu me estender no assunto ia encher fácil mais volumes que a biblioteca de Alexandria. A Kombi,
por exemplo. Essa coisa feia, barulhenta e antiquada que polui os poucos ares
ainda limpos com eficiência germânica e atravanca o trânsito das cidades. É
evidente que o inventor da Kombi só podia ser um homem. Dou nome ao boi,
holandês, Ben Pon, que cometeu o crime no final dos anos 40. Para pagamento dos
nossos pecados a Kombi permanece com o modelo praticamente idêntico ao
original, não mudou nadinha, não melhorou, é um pau que vai morrer torto. Já
fui atropelado por uma Kombi sem freio, já rasguei meus fundilhos na lataria
enferrujada de uma delas. Meu tio, este exemplo de civilidade, comprou uma
delas para entrar no esquema do transporte pirata, digo, alternativo, e quase
foi fazer companhia aos ilustres moradores do Caju, cemitério dos mais
badalados do Rio de Janeiro, tudo isso por uma mera divergência trabalhista,
coisa boba. Esse negócio de suborno, digo, de comissão, é
complicado mesmo, todo mundo se enrola. A gente sempre faz a conta para menos,
meu tio não tem culpa, números são misteriosos. Enfim, nem para se trabalhar
honestamente essa infâmia sobre rodas se presta. Kombi, definitivamente, dá
azar. Tenho certeza científica que uma mulher nunca inventaria uma tranqueira
dessas. Até por que quando a mulherada não cria, é inspiração, das boas.
Ferraris, Lamborghinis, Mercedez, essas belezas de curvas e potências, não à
toa são substantivos femininos.
O futebol. O
nobre esporte bretão por certo foi inventado por uma mulher, um gênio eclipsado
pelas brumas do anonimato. Só uma delas, de cérebro evoluído e sensibilidade à
flor da pele para enxergar a beleza e a honra de um grupo de vinte e dois
marmanjos se digladiando por uma pelota. E esse foi só o começo. De quebra
nasceu também o Bangu Athletic Club, eterna glória da raça. Chega a ser
espantoso.
E qual
vacilão pode negar a elas o mérito da invenção da poesia, do jazz, da lua, da
cinta-liga rendada, do pão de queijo e do Rubem Braga? A democracia também é
coisa delas, inegável. A própria anatomia das moças é um sábio convite ao
ecumenismo e não comporta o preconceito. Ninguém em seu estado normal fica
imune ao encanto da uma pele mulata coberta com pêlos dourados de relva. A
perfeição. Sol e noite, ambos convivendo bonito, na santa paz da harmonia. Um belo dia irão descobrir, sem nenhum espanto, que quem
juntou John, Paul, George e Ringo foi alguma visionária esquecida pela
história. A noite do Rio tem marca de batom. Mulheres têm sacadas geniais,
homens têm sorte.
Por outro
lado as guerras, o overbooking, o gosto da Novalgina, o estacionamento
de shopping, a letra de médico, o efeito estufa, o solo de bateria, a
segunda-feira e a solidão possuem nossa inconfundível assinatura, está na cara.
O campeonato de som automotivo também, embora, suspeite eu
sem certeza de nada, que esse é um caso da esfera da psicológica. Nunca se sabe
o que um trauma por ter pinto pequeno pode causar num espírito fraco. Não tenho
vocação para Cabo Anselmo. Dito isto, até um anão de jardim pode juntar os
pontos. Vamos lá, até você consegue, meu irmão: temos
mais neurônios, certo? Certo. Usamos pouco ou quase nada, certo? Certo.
Portanto, mais neurônios pouco usados, igual a homens. Neste caso mais é mais,
burrice. Evidente que os machões de plantão vão achar que estou exagerando e me
ameaçarão com cascudos e piparotes. Os entendo perfeitamente, e mais, os apóio.
Ninguém pode ir mesmo contra a própria natureza e o punho é o idioma de quem
não tem cérebro.
Nossos
pensamentos, quando há algum, são exatos demais. Somos Brasília, cartesianos,
sem esquinas. Elas são Veneza, eternamente se alternando ao sabor das marés
lunares. Convenhamos, nos falta capacidade, somos uns
bestas. O cronista não se exclui do balaio. O cronista, com um “O” bem grande,
sem miolo.
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Autor: Rodrigo Fernandes |
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Jurado |
Comentário |
Nota |
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Betty Vidigal |
Me chateou o machismo disfarçado. Boa crônica, se
fosse para uma revista masculina, em que “nós” se refere aos homens e
não à humanidade. As Kombis entraram meio
gratuitamente. |
8,5 |
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Cida Sepúlveda |
Excelente.
Poética e engraçada. |
10,0 |
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Lorenza Costa |
Nem todos os exemplos de invenções geniais femininas têm a mesma graça. Mas há muitas frases geniais, como aquela que junta gosto de novalgina e solo de bateria na mesma classe de desgraças. Isso é que é insight. |
9,9 |
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Luci Afonso |
Muito divertido. |
9,0 |
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Marco Antunes |
Fui capaz de perceber alguma graça, fluência e bom uso do tema. |
8,5 |
|
Oswaldo P.Parente |
Muito bom. |
10,0 |
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Total |
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55,9 |

O homem-árvore (Fato 11)
O meu tempo de correspondente nos Estados Unidos da América rendeu-me experiência e conhecimento. E durante os meses que ali fiquei assisti a uma infinidade de cenas e fatos inusitados que certamente poderiam ser parte de um livro de estórias no mínimo estranhas.
Quando o jornal me enviou aos EUA, o meu trabalho era exatamente acompanhar o dia a dia dos norte-americanos e escrever sobre fatos diferentes e semelhantes da nossa cultura. Era mostrar o que nos diferenciava e o que nos aproximava.
Foi um período curto, mais de um
aprendizado fantástico. Fiquei
O noticiário local era a minha matéria prima. Todos os dias, enquanto tomava o meu café, ouvia a TV, o rádio e lia os jornais. Impossível sair de casa sem ter cumprido esta tarefa. Um domingo de julho, um fato me chamou atenção: Nos EUA homem rouba banco disfarçado de árvore, esta era a manchete principal do segundo caderno do jornal local. Reli várias vezes a notícia. O homem usou galhos de árvores para esconder sua identidade. Entrou no banco, foi até o guichê, anunciou o assalto e fugiu com o dinheiro. No mesmo dia à noite o ladrão foi preso em sua casa.
Sabes quando aquela notícia fica na tua cabeça e tu não consegues fazer nada até examinar cuidadosamente o que realmente aconteceu?Foi exatamente o que aconteceu comigo. Era preciso saber mais daquele fato. Ele me parecia incompleto. O que levaria um homem a se fantasiar de árvore? E porque voltaria a sua residência? Faltava uma peça pra entender o que de fato aconteceu. Decidi então falar com os envolvidos. O melhor era começar pelo homem-árvore.
Na delegacia aguardei uns trinta minutos até ser atendida pelo delegado. Um homem de uns cinqüenta anos, corpo de atleta, cabelos grisalhos, pele branca e olhos azuis. A sala era pequena, mas muito confortável. Em cima da mesa uma pilha de papéis e um cinzeiro que, penso, estava ali mais como um objeto de decoração. A conversa foi interessante, consegui sensibilizar a autoridade local da necessidade que tinha de falar com o homem-árvore. Talvez assim pudesse esclarecer melhor este fato que na verdade, mesmo com a prisão do ladrão deixava dúvidas.
Às vezes fica difícil compreender o ser humano apenas pelas atitudes. Não importa se elas são boas ou más. É necessário tempo para esmiuçar um pouquinho mais todas as possibilidades. Neste caso especificamente encontrei brilho numa réstia de luz quase imperceptível.
Ouvia atentamente o Sr. John Gregg, este era o seu nome. Um homem de estatura baixa, cabelos negros e olhos um pouco amendoados, um autêntico representante da comunidade hispânica, acho que é isso mesmo. Falava lentamente e conseguia com seu olhar distante e gestos firmes me levar para o seu objetivo maior. A preservação do verde. O Sr. John Gregg era um ambientalista e na última década tinha se dedicado exclusivamente à proteção da espécie Betula papyrifera, principal árvore do Estado, ameaçada pela exploração da mineração. Várias campanhas foram feitas. Então citou cada uma das iniciativas em nome da preservação do meio ambiente, campanhas no rádio; movimento nas escolas; passeatas nas ruas; audiências com autoridades; mini-comícios nas praças públicas, enfim uma lista enorme de todas os atos para salvar a pequena floresta de Betula papyrifera de Nova Hampshire.
Nada do que foi feito sensibilizou o Estado e há uma semana ele foi surpreendido com o anúncio da instalação de uma grande mineradora que chegava de Nova York para se fixar em Manchester.
Segundo o homem-árvore, como ficou conhecido na cidade, ele não teve outra alternativa, a não ser cometer um crime. Fazer algo que repercutisse nacionalmente e assim ele teria como se explicar e divulgar os verdadeiros motivos de sua ação. Era uma ação desesperadora que certamente lhe levaria às páginas dos jornais, ao noticiário das TVs , mas que também lhe daria a oportunidade de falar para o Estado inteiro sobre a preservação da vida de Nova Hampshire.
Quando foi preso em sua residência na noite do sábado, o homem-árvore estava com todo o dinheiro do assalto, que seria restituído ao banco e junto com o pacote de dinheiro, havia uma caixa de folhas com o cartão da preservação do verde.
De volta para a redação do jornal sentei na praça e enquanto observava as pessoas que andavam em silêncio pelas ruas como se solitárias dentro de suas próprias verdades, vi que era necessário fazer alguma coisa. É preciso fazer algo em prol da dignidade. É preciso perceber o valor da vida. Não podemos admitir que o crime seja uma janela para o diálogo, mesmo quando o ato é grandioso.
Liguei para meu editor no Brasil e sugeri um novo quadro no jornal, um espaço para manifestações das pessoas, entidades, ONGs, enfim a abertura de uma interlocução direta dos cidadãos. Um espaço onde não exista pequena ou grande causa, onde a preocupação com a vida seja sempre compreendida como uma causa nobre.
No dia seguinte ao ligar a televisão tomei um susto ao ver a multidão que se manifestava em frente ao Palácio do Governo exigindo a suspensão do contrato com a mineradora. De caderno na mão e mochila nas costas fui para o meio do povo.
Acredito que é tarefa também nossa, enquanto comunicadores, abrir caminhos para ajudar na conquista da cidadania. Não deixemos, por omissão, que o nosso povo se torne homens-árvores para ser ouvido.
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Autor: Lúcia Ana de Melo e Silva |
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Jurado |
Comentário |
Nota |
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Betty Vidigal |
Os 3
parágrafos finais não fazem parte desta crônica. Estava ótima até chegar
neles. São panfletários, estragaram
tudo. Subitamente o cronista se coloca
como exemplo, tipo “eu faço a minha parte, e você?”. |
9,5 |
|
Cida Sepúlveda |
Achei
a argumentação fraca, o que torna o texto desinteressante. |
8,0 |
|
Lorenza Costa |
Conto inspirado no fato. Não é
porque o personagem é jornalista que um conto vira crônica. |
6,0 |
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Luci Afonso |
Relato sem emoção, terminando com uma lição de moral. |
7,5 |
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Marco Antunes |
Estou inclinado a pensar neste texto como conto, mas vá lá, tem pitacos demais do autor para ser conto, tem até aquele pitaco moralista e piegas do final. |
7,0 |
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Oswaldo P.Parente |
Texto cansativo e com final piegas |
7,5 |
|
Total |
|
45,5 |

Homem-árvore assalta banco (Fato 11)
Para alguns a tarefa de cronista é penosa, para outros é prazerosa. Jogo no segundo time. De manhã, enquanto sigo o meu trajeto diário até a redação, fico antenado procurando captar alguma coisa que chacoalhe a alma. Na maioria dos dias, presto atenção no trânsito. As luzes verdes para a escrita só acontecem quando abro e leio pequenas notícias espalhadas no jornal.
Esta foi uma semana farta de fatos extraordinários: baleias entraram em greve de sexo; traficantes colombianos fizeram carnaval com o Natal; espanhol disparou torpedo contra Evo Morales; serpente bígama teve caso com mulher e hamster; homem enfartado no coração de NY é reconhecido graças à coleira do cachorro; médicos franceses esquecem guimba em cirurgia encefálica. O jornal de hoje traz uma pequena nota internacional que sacode meus sentidos: um homem, para não ser identificado, disfarçou-se de árvore para roubar um banco. A notícia mesmo sendo curtíssima, informou também que, apesar da camuflagem, o homem foi preso. Só. Só isso, mais nada. A nota acabou por aí.
Resolvo desvendar o curioso assalto passo a passo. Meu editor não vai pagar passagens nem hospedagem. Devo viajar na minha criatividade. Mentalmente, entrevisto todas as testemunhas e reescrevo a nota tal qual deveria ter sido escrita desde o início.
A esposa, aborrecida com a vida sedentária e vegetativa do marido, imaginou-o trabalhando em uma profissão digna e incentivou-o a trazer dinheiro para casa.
O marido, sempre acomodado, resolveu que o mais fácil seria assaltar um banco. A escolha recaiu num da mesma rua em que morava, o que facilitaria muito sua vida, pois poderia ir e voltar a pé do trabalho.
O maridão era acomodado, mas não bobo. Planejou algo simples e infalível: entraria, apontaria a arma, pegaria o dinheiro e voltaria para casa. Faltava o detalhamento. Foi até a agência fazer um reconhecimento. Anotou horários, contou o número de guichês, verificou que o café oferecido estava frio e que várias câmaras monitoravam os clientes.
Pensando em escapar da identificação teria que criar um disfarce. Na loja de fantasias, experimentou de cowboy, tigre do sucrilhos, Mickey Mouse, astronauta e Bob Esponja. Aluguéis caríssimos. Voltou para casa e encontrou a solução no jardim. Iria disfarçado de árvore. Na mesma hora cortou vários galhos e costurou uma roupa. Resolveu que faria o assalto no dia seguinte, antes da fantasia murchar.
Logo cedo, fincou raízes na calçada em frente do banco. Para sua alegria, nenhum dos pedestres fez qualquer pergunta ou olhou com desconfiança. Apesar do frio e desconforto, ganhou mais confiança quando um cachorro levantou a perna para regar-lhe o tronco. O tempo passou. Vários clientes se aglomeraram na entrada esperando a abertura da agência. A porta abriu e um velho cegueta apagou o cigarro nos seus pés. Todos entraram rapidamente, exceto ele, pois árvores com os pés queimados, não costumam se locomover com rapidez.
Entrou na fila destinada a idosos, grávidas, deficientes físicos e mentais. Embora fosse um banco americano, a fila, por demorada, era brasileira.
Esperou calmamente. Na sua vez, apontou a arma:
— Isto é um assalto!
O caixa, assustado, olhou de baixo para cima.
— Não pode ser. Árvores não falam. Não pode ser um assalto, talvez uma fábula!
— Sem gracinhas! Ponha a grana na cestinha! Rápido.
Depois de esvaziar as gavetas dos três caixas retirou-se.
A polícia só chegou depois de quinze minutos, quando o homem-árvore já havia sumido.
Os investigadores começaram o trabalho imediatamente. No interrogatório às testemunhas, descobriram que o homem-árvore, nem grande nem frondoso, estava muito mais para homem-arbusto. Logo chegaram à conclusão que era um sujeito muito bem mandado, sem opinião e que era podado pela mulher. De acordo com as fichas de assaltantes de bancos, os suspeitos naturais seriam: João Oliveira, Pedro Carvalho e José da Mata. Porém, tratava-se de uma casa bancária americana e por isso os suspeitos, John Oliver, Peter Oak e Jo Forest, estavam em outra lista.
Para evitar nova onda de roubos a bancos, o FBI contratou o melhor
detetive de todos os tempos e, já no dia seguinte, a polícia cercou o domicílio
do perigoso meliante. Um helicóptero e pelo menos cinqüenta carros entraram
Quando todas as câmaras estavam ajustadas, o xerife cuspiu o chiclete e gritou no megafone para o bandido sair sem reagir, senão ia dar galho — mocinhos de filmes americanos sempre fazem trocadilhos idiotas nos momentos mais tensos.
Treeman saiu de braços erguidos e perguntou como encontraram o seu esconderijo.
O famoso detetive deu uma tragada profunda no cachimbo e ergueu uma das sobrancelhas.
— Elementar, meu caro Watson. Nós estamos no outono. Nesta época, as árvores perdem as folhas. Bastou seguir o rastro das folhas até a sua casa.
Agora, cá entre nós, o bobo, o idiota, o preguiçoso, o culpado de tudo, foi o estagiário de jornalista que não soube colher os frutos da deliciosa matéria.
|
Autor: Roberto Klotz |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty Vidigal |
Muito bom! |
10,0 |
|
Cida Sepúlveda |
Tem
qualidade, mas abusou do “humor”. |
8,5 |
|
Lorenza Costa |
Não há zona cinzenta entre ficção e realidade, entre o personagem e o cronista, entre o factual, o inventado e o interpretado. Por isso é uma crônica, e não um conto. A parte inventada se estende além da conta, e a pontuação pode ser melhorada |
8,5 |
|
Luci Afonso |
Engraçado e bem construído. |
9,2 |
|
Marco Antunes |
Engraçadíssimo, bem sacado, pertinente, deliciou-se o autor com o seu tema. |
10,0 |
|
Oswaldo P.Parente |
O texto é todo humor e nos leva, com risadas, do início até o final. |
10,0 |
|
Total |
|
56,2 |

Excentricidades (Fato 12)
Ao chegar em casa, Chicó veio ao meu encontro, abanando a cauda freneticamente. De imediato, lembrei-me da notícia que li. Enquanto o cão dava vivas demonstrações de alegria, olhei com certa curiosidade o movimento de sua cauda – a distensão dos músculos e o esforço despendido para aqueles movimentos contínuos. Continuei a olhar o cão, que nem estava aí para o que eu estava pensando, e fui mais além. Pensei em fazer uma experiência: se num período de 24h, eu entrasse e saísse de casa, de cinco em cinco minutos, quantas vezes sua cauda poderia balançar até a exaustão?
Levado por esse pensamento esquisito, entrei na cozinha. Uma barata, que sondava o recinto, tentou se esconder. Passei a mão no inseticida e depois de algumas corridas atrás da infeliz, joguei o veneno na pobrezinha que se debateu até morrer. Fiquei ali, parado, olhando o desenlace. Pensei na fragilidade do inseto, mas também no terror que ele causa a muitas pessoas e até vislumbrei a hipótese de medir a velocidade de sua corrida. Surpreendi-me com essa última idéia, mas tinha certeza que era reflexo da notícia que li.
Uma aranha apossou-se do canto da parede da sala, soberana, no centro de sua malha, aguardava, estática, o alimento. Veio-me à mente, a notícia que li. Olhei aqueles fios e tentei imaginar quantas vezes ela vomitou para conseguir a gosma necessária para tecer a teia, o tempo de tecedura e qual a permanência no ciclo estático. E se não aparecer o inseto para servir-lhe de alimento? Essas indagações fervilhavam em minha cabeça.
Um ruído de passos na rua chamou-me a atenção. Na tentativa de testar minha audição, reuni os sons próximos e tentei reconhecer cada um. Em conjunto, formam uma onda sonora, mas o automatismo do cotidiano anula-nos essa percepção. Fiz uma reflexão sobre a extensão desses ruídos no mundo, o total de decibéis. Que sensação acústica o indivíduo teria se ouvisse todos, simultaneamente, com absoluta nitidez?
No quintal, a imaginação apropria-se de asas. Agora o efeito da pressão atmosférica sobre a borboleta que voava de uma lado para outro; o número de vezes que uma asa toca na outra, a maior distância percorrida, a permanência em pouso, e assim por diante. Tudo por causa da notícia que li.
Depois de extenuantes explorações insólitas, tanto dentro como fora de casa, voltei a atenção para minha pessoa. Imaginei por quanto tempo poderia ficar de olhos abertos sem piscar e o quanto isso afetaria minhas pupilas. A seguir, qual o total de degraus da escada que subo e desço, várias vezes ao dia, e quantas vezes o gastrocnêmio, glúteo, tibial e sartório (são alguns dos nomes esquisitos dos músculos das pernas) fazem o trabalho de extensão e flexão por toda minha existência. As células do corpo! Quantas permanecem descamadas no lençol, após 8 horas de sono? Fiquei tentado a comprar uma lupa. Número de pregas.....epa! tudo por causa da notícia que li.
No final do dia, cheguei à conclusão de que havia entrado num jogo sem me dar conta e conclui que nenhum desses fatos eram inusitados. Senti-me nocauteado, reconheci que a pesquisa demandava esforços, tempo e uma inteligência acima da média, se não superior, para descobrir o excepcional, o excêntrico.
Ainda obcecado, telefonei para alguns amigos e indaguei se eles tinham conhecimento daquela notícia (expliquei-lhes do que se tratava). Alguns me responderam que nunca tinham ouvido falar, dois ou três sabiam superficialmente alguma coisa, um ou dois leram a notícia, riram, mas não lhe deram importância.
Decidido a perseverar nessa obsessão, montei uma estratégia: comprei um complexo vitamínico – vitalizante físico e mental, e um livro que continham exercícios para malhar o cérebro. Ainda não satisfeito, convoquei os amigos a quem telefonei, expliquei-lhes meus planos, mostrei-lhes a lista anual e fundamos um clube, cujo objetivo principal era reunir o maior número de experimentos esdrúxulos. Os requisitos para permanecer como sócio eram: obrigatoriedade de malhar o cérebro, pelos menos três vezes por semana, e comparecer à reunião mensal com o resultado de suas experiências.
Desde que aquela notícia caiu-me nas mãos, temos nos reunido assiduamente. Em cada reunião, utilizamos dez livros de ata, cada livro para um membro do grupo que totalizam dez. Deixe-me ver....no livro de ata há as páginas, as linhas, as palavras, as letras maiúsculas, minúsculas,....a pressão da letra no papel, sua inclinação para direita ou esquerda;...durante a reunião,.... o volume da voz..... Uhm...confesso que estou deveras cansado!
Mas hoje recebi uma notícia extraordinária. Um telegrama com o carimbo de URGENTE. Sem perder a mania, observei o grau de ansiedade com que eu abri o envelope e contei as batidas no peito, quando li a convocação para o grupo receber, na Universidade de Harvard, o prêmio IgNobel da Dinâmica da Perseverança de Tempo Mal Empregado. Senti-me deveras lisonjeado, não tanto pelo prêmio, mas pelo reconhecimento.
Enfim......tudo por causa daquela notícia que li.
|
Autor: Aldmeriza Riker |
||
|
Jurado |
Comentário |
Nota |
|
Betty Vidigal |
Divertido. Mas faltou dizer QUAL NOTÍCIA
FOI LIDA! O leitor da sua crônica, em tese, não tem a lista de ‘fatos’
fornecida pelo Marco. |
8,5 |
|
Cida Sepúlveda |
Um
pouco dispersa e monótona. |
8,0 |
|
Lorenza Costa |
A crônica é boa desde que se cumpra um requisito: repercussão intensa da notícia que lhe deu origem, de forma que seja lícito ao cronista pressupor conhecimento dela por parte de todos os seus leitores. Precisa de revisão. |
8,5 |
|
Luci Afonso |
Criativo e divertido. |
9,5 |
|
Marco Antunes |
Brilhante, original, inteligente, perspicaz, em suma: tudo de bom! Criatividade e excelente uso da notícia! |
10,0 |
|
Oswaldo P.Parente |
Crônica bem comportada. Boa a idéia da obsessão com as medições. Poderia ter um algo mais ao final, um quê de insólito, talvez. |
8,5 |
|
Total |
|
53 |

Sem Título (Fato 12)
Disse para comigo a sorrir-me, a soletrar palavras no silêncio da mesa onde lia o jornal: Carago! eles lá devem ter as suas razões.
E imaginava cérebros de gafanhotos enrolados em fiozinhos, que só podiam ser de microns ou até menores, ou ter-lhes-iam colocado sensores. E ria-me de os imaginar refastelados em poltronas de veludo, com alface e folhas de amoreira ao lado, atentos cada um deles, que seriam ao menos uma dúzia por via de uma amostra com rigor científico, a observar o desenrolar de um episódio do Star Wars: os olhinhos remirando a luz projectada de um écran minúsculo, uma plateia de bicharocos esverdeados, os olhinhos redondos como se fossem missangas encarnadas, quietos cada um deles, nem denunciando a variação que se desse, uma diferença de potencial milimicronizada num circuito, sinal legível como comportamento a relacionar à posteriori com tal ou tal efeito. Talvez se desse um pico quando o gafanhote avistasse o R2-D2 a balançar-se no écran.
E eu que ainda me sorrio na esplanada de inverno, vazia à hora vespertina
em que aqui me sento, interrogo-me se não serão muitos dos nossos prestimosos
saberes oriundos de pesquisas tidas como tontas. Investigações e escritos e
estudos, todos eles improváveis, num seu início, ou se vistos por gentes
incultas ou não tão sabedouras de que é importante estudar daquele modo aquele
assunto. Como, por exemplo, a função da luzinha do pirilampo que tanto nos
cativa, se hoje sabermos que é usada, piscando, como chamamento para o sexo,
terá para isso sido dispendido muito estudo, minuciosos procedimentos que,
observados por outros, terão semelhado absurdo, coisa de quem nem tem mais nada
o que fazer ou sofre da mente. Pesquisas
inúteis, terá pensado alguém, mesmo, ou sobretudo, se a frequentar o meio.
Será assim tão absurdo que se
faça pesquisa da pressão do fluido que corre num corpo vivo e, neste caso, não
sangue, mas fezes? A notícia não refere, porque escolheram pinguins e não outro
animal, deverá estar associado com o ambiente em que o
bicho gera a sua caca, ou à latitude em que vive. Cá estou eu curioso por
saber, por entender se será
importante a gente saber se os homens (e mulheres ?!)
nadam mais depressa em água (presumo que doce) ou
E esta curiosidade que não me deixa, abona em favor do estudo qualquer que ele seja: gerar esse sentimento de querer saber. Sejam eles trabalhos de investigação sérios e úteis nas suas conclusões, que as haja, fundamentadas, ou estudos, sem qualquer utilidade ou futuro, ao menos em aparência ou no contexto em que decorre.
Caros leitores. Caríssimos. Não resisto e
confesso: eu mesmo já tive a tentação de fazer estudos os quais seriam tidos,
decerto, como inusitados. Não foi uma, mas imensas vezes, que naqueles minutos
breves de aliviar o corpo, sonhei estudar o registo dos sons ouvidos nas
retretes de estações de serviço ou hipermercados: o ruído dos traques, o som
das urinas a correr despudoradas e a fazer sinfonias nas águas do buraco.
Esses, e mais ruidos, como seja a dissonância no correr dos autoclismos.
Catalogar o intervalo entre cada descarrego, estudar a
gama de sons em função da hora, num dia de semana ou aos domingos, quando o
povo se passeia. Imagino até que os dados recolhidos poderiam ser matéria de
estudo em áreas como a acústica, a música, a sociologia, ou mesmo em
literatura, na criação de novas onomatopeias.
Neste âmbito de estudo, poderiam analisar-se as qualidades sonoras,
intensidade, altura e timbre, do peido dado, em WCs de zonas de apoio de
autoestradas, por cus transportadas em camionetas de excursão
ou em carros topo de gama. Como hipótese de trabalho, neste caso, eu
propunha: “hão-de existir mais harmónicos associados à frequência dominante nos
peidos dos transportados em automóveis”. E explicaria as minhas razões.
E mesmo tendo eu este desejo investigativo que ora confesso, continuo a
interrogar-me: o que move aqueles que derretem pestanas, mesmo que alguns até
sejam galardoados com um prémio? Fá-lo-ão por verdadeiro desejo de criar saber?
Não tenho dúvida que assim seja, mas sobretudo, eu acho que eles devem
divertir-se à brava, deve dar-lhes um gozo imenso aquilo em que se metem. E
devem relaxar do stress de outros estudos, ao desatarem a imaginar temáticas
que culminem em testículos artificiais para cachorros (esta calou-me fundo!) ou
na construção de um despertador que foge do seu dono…
E agora por isso: que horas são?! Tenho que entregar esta crónica antes do
meio-dia e ainda a tenho só
|
Autor: Maria de Fátima Marques Correia |
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Jurado |
Comentário |
Nota |
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Betty Vidigal |
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