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Crônica |
Colocação Para Betty |
Colocação Para Oswaldo |
Colocação Para Cida |
Colocação Para Luci |
Colocação Para Lorenza |
Colocação Para Marco |
TOTAL |
|
Afonso Cruz |
2 |
1 |
6 |
1 |
1 |
5 |
16 |
|
Denis Reis |
3 |
4 |
1 |
5 |
2 |
1 |
16 |
|
Cínthia Kriemler |
1 |
2 |
5 |
3 |
3 |
4 |
18 |
|
Marcelo Larroyed |
5 |
5 |
4 |
4 |
5 |
2 |
25 |
|
Ari Gurcz |
4 |
3 |
3 |
2 |
6 |
3 |
21 |
|
Maria de Fátima Correia Santos |
6 |
6 |
2 |
6 |
4 |
6 |
30 |
CRÔNICA 1
Acontece sempre aos personagens
Cinthia Kriemler
Um dragão exausto. Isso sou eu sentada aqui neste começo de noite gelada, soltando neblina pela boca e pelas ventas. Já aqueci os dedos murchos e a garganta com duas xícaras de chocolate quente com chantilly, raspinha de casca de limão e um leve escorrer de licor. Aceita uma xícara?
Estou escutando músicas antigas enquanto decido se vou ao cinema ou se abro um vinho mais tarde e assisto a um filme em casa mesmo.
Eu vejo o futuro repetir o
passado... O tempo não para, não, não para...
Que coisa! O tempo não para é de vender essa imagem de inesgotável. Bobagem. É um grande ilusionista, isso sim; um fanfarrão elegante. O que ele faz, e bem, é aplicar recursos. Mas não resiste a um olhar mais de perto, a uma avaliação mais detalhada. De perto, é fácil ver que os acontecimentos, as histórias e as vontades são sempre os mesmos, ciclicamente. Guerras, amores, terremotos, mortes, tudo se repete. Modernizam-se os instrumentos, as palavras e os atores. As tramas, nunca. Uma mesmice.
Pois saiba você que o tempo sobrevive mesmo é das percepções, como num truque houdiniano. O que eu vejo não é o que você vê. Não vemos na mesma hora. Não nos importamos do mesmo modo a respeito do que vemos. O truque é esse: impedir que a gente tenha consciência de que de inesgotável mesmo só as desigualdades das nossas percepções. Uma vez ou outra, é claro, passeamos, sem querer, na mesma sintonia, por uma fração de segundos. Déjà vu! − gritamos. − Que déjà vu que nada! É o tempo escorregando na gestão. Mera digressão.
Costumo pensar em cada um de nós como um grande globo de metal, igual ao que se usa nos bingos ou nos sorteios de prêmios. No início de nós, o tempo nos recheou de uma vez com todas as datas e fatos e sentimentos que iríamos precisar para ter uma vida. Mas se tocou que um bom planejamento pensa no futuro, e aí decidiu que era melhor liberar uma pedra por vez. Acrescentou o mexe e remexe aleatório do globo para assegurar transparência e criar um pouco de frisson na plateia.
Por isso, o meu bingo nunca é, foi ou será igual ao seu. Eu recebo o amor aos 20; você aos 35; ele, nunca. Você aprende o sofrimento aos 10; nós, aos 38; eles, ainda sofrem. Tudo culpa do mexe e remexe. Não me importo com o estratagema. Do tempo, só registro uma queixa: para si mesmo, nunca traz velhice; para nós, rugas dolorosas no corpo e na alma. Injustiça!
Ah, não? Você não acha? Deixe ver se eu entendi... Experiência. É assim mesmo que você desculpa o reumatismo que proíbe às suas juntas de subir escadas? Segurança é o nome mais interessante que você encontra para o seu platô de conformismos? Está bem. Entrego os pontos. Eu mesma apelidei de ‘maturidade’ o assassinato dos meus arroubos. Aliás, melhor dizer massacre, porque os exterminei em conjunto para não ouvir mais suas vozes insensatas.
O tal do ‘amor maduro’, então, é o pior dos disfarces. Preciso forçar mais a memória, um dia desses, e me lembrar quando foi que aprendi a gritar “Bingo!” na pedra da desistência. Logo eu que nunca dispensei um amor maldito, uma paixão inconsequente, me conformar com um amorzinho morno, centrado, sem tempero?
Pois me escute: o mal é que a gente aceita qualquer coisa depois das
rugas. E não adianta reclamar: Hei! Eu
quero aquele olhar que vi na mocinha de ontem, na fila do supermercado. Quero
aquela roupa sensual da vitrine do shopping. Quero atravessar a piscina sem
perder o fôlego. Reclamar só traz mais rugas.
O que foi? Se apavorou? Descobriu que lhe furtaram as possibilidades? Finalmente você começou a entender que o tempo é ladrão. Como eu lhe disse, um ilusionista. E você aí pensando que eram seus o amor, a alegria, as gargalhadas e os sonhos! Eu sei como é isso. Mas não se preocupe, você não é bobo sozinho. Acontece sempre aos personagens.
Ainda dá tempo de me acompanhar numa xícara de chocolate. Mas, se preferir, venha tomar um vinho mais tarde. Afinal, ainda não falamos sobre a melhor parte disso tudo. Aquela onde eu lhe conto que insônia, depressão e amor despedaçado também mudam de corpos. É o tempo, redistribuindo recursos. Acontece sempre aos personagens.
CRÔNICA 2
A
Denis Reis
Dizem
—
Somos, necessariamente, uma
Kant dizia
“As cousas
-se o
Ouço
CRÔNICA 3
CRONOS
Marcelo
Larroyed
Filho do Céu
e da Terra, o titã Cronos
era o senhor do tempo para os gregos.
Cronos, o deus do tempo; Cronos, o deus da crônica.
Desde então
é papel do cronista aprisionar pedaços de tempo e os transformar em texto,
como um deus faria. O cronista é uma espécie de deus decaído, tentando juntar
os cacos de tempo de si mesmo, dos outros e, no limite, do mundo.
Mas que tempo? Não existe tal coisa!
O calendário é invenção humana, uma convenção,
há diversos calendários válidos e
Num exemplo simplório, tentam
nos descrever o tempo como uma espécie de rua curta, onde houvesse uma
alfândega no início e outra no final. Quando nos reconhecemos como gente, como indivíduos, já passamos pela primeira barreira e dela não
temos lembrança alguma. Com um pouco mais de idade, talvez após uma dezena de
passos, sabemos que logo ali à frente há outra alfândega, e que cada novo passo
é um a menos para lá chegar.
O curioso e trágico é que esse é um caminho
desejado em si, não por sua chegada. O caminhante quer caminhar e só.
Mas não percamos tempo.
Voltemos à crônica e ao cronos.
Certo, calendários e relógios medem
arbitrariedades, e o tempo humano é mera convenção.
Mas que inexistência é essa que nos aborda
várias vezes ao dia, todos os dias? Do tempo que se arrasta na espera de uma
fila ou do que voa nas conversas entre apaixonados?
Nesse sentido, tem razão o filósofo quando diz
que “o tempo é a tardança do que se espera”. Esse desejo incontrolável que
temos de realização, de expandir nossa cerca sempre um pouco além, de querer
buscar no fim do arco-íris o pote de ouro, de ser um Ponce
de León e partir para a floresta desconhecida em
busca de uma improbabilíssima fonte da juventude –
todos esses sonhos, tão caros ao ser humano, fazem dele um quebrador de
barreiras e de limites, físicos e temporais.
O tempo, ah!, esse
adversário medonho do ser humano.
O ser humano luta contra a
tempo pela tentativa de se imortalizar, registrando sua presença na
Terra. A rocha pré-histórica, as tabuinhas e tijolos cobertos de cera, as peles
de animais, os papiros, os livros, as gravações em áudio e vídeo, os hologramas
– tudo uma tentativa desesperada do homem de registrar sua passagem após o fim,
de evidenciar que é um ser criativo.
A criação! De ordinário, o tempo passa rápido,
mas se congela quando criamos, pois aí, parece, nos transformamos em deuses,
erigindo universos. O escritor, o artista plástico e o religioso com frequência morrem velhinhos - é o contato diário com a
essência, e a essência é atemporal. O tempo parece não transcorrer nos momentos
em que você está pleno, em que você - enfim e contra todas as interferências e
expectativas - em que você se transforma
Então o tempo seria um coeficiente de
transformação, rumo à degradação ou à excelência.
O problema é que nisso também há controvérsia.
Alguns filósofos pré-socráticos acreditavam que quando os astros se realinhassem exatamente como na criação do universo, tudo
recomeçaria. Também era essa a crença na cultura maia - o tempo cíclico. Das
profecias à mediunidade, do déja vu às
coincidências cotidianas, passando por Nietzsche e os físicos quânticos e
pós-quânticos, todos defendem essa tese. O universo seria um mesmo grupo de
crônicas escritas uma só vez e publicadas em edições sucessivas.
O Eterno Retorno: como é bela e assustadora
essa analogia! A história humana perde em importância, pois se repetirá e se
repetirá e se repetirá. Mas e o homem? Ah!, esse, no
tempo que se repete, parece-me um herói digno desse nome. Ele resiste à cópia e
tenta se diferenciar. Mesmo que a história em seu conjunto se repita, o ser
humano, cada um de nós, tenta sempre, no fundo, não ser réplica dos outros ou
de si mesmo. Tenta ser sua própria crônica.
E por isso, justamente por essa individualidade
profunda, o tempo que mais nos importa é o intervalo extraordinário que
percorremos do nascimento à morte.
O que mais nos aflige e move é o transcurso
rapidíssimo da criação de nossa consciência para o mundo, o amadurecimento dela
e a triste despedida final. É reconhecer que a rua é curta, muito curta, mas
que caminhar é preciso e dele não se pode fugir.
Assim, a crônica dos homens na Terra é um
contínuo mastigar de nacos de tempo. Há frutas e pedras nesse mastigar.
Entre o
telhado do Céu e o piso da Terra, somos prisioneiros dessa discutível
temporalidade. Na dúvida, narramos.
Somos todos cronos e crônica.
CRÔNICA 4
Tempo/s
Maria de
Fátima
Ou bem que
falo do tempo das nuvens e das depressões localizadas sobre a minha região,
aquele que alguém na mesa ao lado questiona: “Como está o tempo por aí?
Chove?!” aquele tempo que sempre é mote quando cai a conversa, ou a ver se a
gente não desfalece na reunião: “Está um calorão dos diabos nesta sala!”.
Ou o termo
tempo se me diaboliza em tanta questão, que nem sei
que fazer se me dão o encargo de escrever sob o tema: “o tempo, ele mesmo”.
Eu farei
perguntas: muitas perguntas, que nem sei de algumas se terão resposta.
Que te interessa saber do tempo, seu conceito físico ou que
seja outro, se o tempo que te mede é o das luas, o tempo em que te inicias,
pecaminoso e adultero ou, quase virgem, de um amor impoluto. Um tempo que te
oferece o fluxo e refluxo das marés.
Pergunto.
Que te interessa um tempo relativo e o espaço euclidiano
associado: quatro dimensões de um universo plano. Ou que seja ele curvo pela
gravidade a imiscuir-se.
Pergunto.
Que te interessam relógios atómicos
se tens o ciclo do sol e o da lua.
Pergunto.
Tu
a quereres saber as condições iniciais de uma cosmologia direccionada
a um fim ou a um recomeço: um instante, uma singularidade que te
originou ser vivente capaz de perguntar: como?
para quê? de onde?
Tu a saberes
que cada pergunta será respondida como coisa estatística, ferramenta
fundamental dos sistemas imensos: a probabilidade, mesmo que reduzida, de que o
tempo flua em sentido inverso e tu possas recordar o futuro.
E tu a
pensares no improvável.
Tu a dizeres ontem
e amanhã e hoje e a desejares o agora.
Tu a
perceberes que só nos intervalos te és ser consciente da tua permanência.
Tu na busca do
instante e a tecnologia a simular-to, a doar-te o
quase simultâneo entre ti e um acontecer muito, muito longe: o instante
apetecido quase tornado real e tu a ficar sem datas nem efemérides, nem
estações do ano em que te encontres.
E tu a perderes-te da estrutura que te permite
ser dotado apenas para esta e não para outra conjuntura de espaço-tempo-gravidade.
Tu a
vislumbrar a contradição suprema que será possuíres o âmago do tempo, apenas no
final do intervalo que te foi permitido: o instante da morte.
Que tu te
indagas como seria se fosses instante, só instante, sem antes nem futuro. Sem a
espera. Sem te aperceberes de ciclos.
Poeira apenas, se o instante te fosse concedido.
Pergunto.
Tu a quereres
perceber o porquê do fluxo unidireccionado,
irreversível. A querer perceber essa tua inaptidão de recordar o futuro.
Tu a colocares
a hipótese de que seja pelo modo como foste concebido: algo originado aquando da criação do universo. Antes, muito antes, de
seres sequer um projecto mapeado no espaço-tempo.
E tu a crer que é no local dos sonhos que se encontra a excrescência
que restou desse órgão, ou que seja gene, ou algum outro nem sequer dito
pelo homem que ainda nem escrutinou dos seus mistérios a esmagadora parte. Lá,
no local dos sonhos, o que daria de ti o ser completo num tempo sem antes nem
futuros.
Tu a
perceberes-te oriundo daquele início e não de um que lhe fosse simétrico.
Tu a pensares
se as constantes, universais e sem arredondamentos, seriam diversas se fosse
outro o início: outra a fronteira, outra a energia, outras as leis.
Tu a dizer de
um tempo, cada vez mais rápido: galáxias e o demais a desviarem-se para a luz
vermelha, quiçá uma estereotipada visão de inferno, ou que seja apenas um fenómeno semelhante quando passa por ti um apito cada vez
mais agudo.
O Universo a expandir-se para que possa o tempo caber nele.
Pergunto.
Tu a perceber
um universo ajoujado dos antes e dos futuros e de todos os instantes, éteres e
plasmas e buracos negros a moverem-se para parte
nenhuma, que será vazio e lixo, coisa degradada ao seu expoente máximo.
Tu a dizer da
flecha apontando ao máximo de entropia.
Diz assim a segunda lei, ou erro.
Pergunto.
E tu a indagar
como seria se cada um fosse apenas esse ou talvez um par, umas duas dezenas.
Poucos.
Tu a indagar
se seria outra a probabilidade, se fosses só tu e mais
uns quantos: nada de números muito grandes.
Seria outro o tempo, ou seria mesmo inexistente.
Pergunto.
E tu serias como luz que se acendesse e apagasse sem limite
de velocidade.
Ficaria eu
ainda perguntando.
CRÔNICA 5
Ari Gurcz
Não sou cronista. Assenta-me melhor a ficção, que me sinto mais livre a inventar o que me vier à cabeça, nenhuma relação com o real, com o cotidiano, com a pauta, com o veículo.
Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de afastar-se; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. Tempo de crônica, tempo de conto, tempo de romance. O tempo é o mais sábio dos conselheiros. Quem sabe, com o tempo, é possível aprender, amadurecer as escritas, experimentar, arriscar. E a cada risco corrido, erro cometido, críticas sofridas ou assimiladas, possa aprimorar um estilo. Talvez, num futuro distante, em uma arqueologia das minhas gavetas possa garimpar algum indício do que viria a ser um estilo próprio. Afinal, O melhor profeta do futuro é o passado.
Talvez, um dia admita que me prefiro leitor que escritor, que as aventuras literárias foram perda de tempo. Quem mata o tempo não é assassino, mas sim um suicida. O homem que tem coragem de desperdiçar uma hora do seu tempo não descobriu o valor da vida. Neste ponto, no entanto, o prazer, ainda que fugaz, me mantém no teclado. O tempo que se gosta de perder não é tempo perdido. É um quantum de vida ganha. Que a vida não é perdida na morte, a vida é perdida minuto a minuto, no dia a dia aborrecido, e em todos os milhares de modos medíocres. Já o tempo que se passa rindo, é um tempo que se passa com os deuses, mesmo que seja um momento.
Falta-me tempo, no entanto. Não só para as letras, mas para outros prazeres, outros sabores e sons e convivências. Por vezes, tenho a impressão que estamos em campos opostos, eu e o tempo. Tanto o que fazer, tanto o que querer... e estou perdendo a batalha. O tempo é um inimigo subtil que ataca fugindo. Chego a invejar algumas pessoas que conseguem permanecer mais tempo em uma hora do que outras em uma semana.
O tempo passa. Nem sempre fica mais pesada a bagagem.
Por vezes, mais leve é que fica, que as recordações
pesam pouco e a idade pode nos ajudar a descartar algumas couraças de certezas
e preconceitos que a juventude impõe no afã de alcançar as conquistas comuns
aos mais velhos. Picasso chegou a dizer que tornarmo-nos
jovens leva muito tempo.
É claro que nem todos seremos Picassos. Há os que envelhecem com a idade. Os que pensam que a tragédia da velhice não está em se ser velho, mas sim em se ter sido jovem. Que a primeira metade da vida passa-se a desejar a segunda; a segunda, a recordar a primeira.
Há os que
vivem as recordações, mais vívidas que o presente, os que andam de costas a
mirar o passado, na tentativa de fazer o tempo parar. Mas O tempo não pára! Só a saudade é
que faz as coisas pararem no tempo.
.
Haja Hoje para tanto Ontem
Dentro de algumas pessoas mais velhas há uma pessoa jovem - se
perguntando que diabos aconteceu. E passam a devotar-se ao hábito do lamento. O
homem começa a envelhecer quando as lamentações começam a tomar o lugar dos
sonhos. Os dias passam incômodos com lampejos de tragicidade. O tempo corre em direção com sua bandeja
de hospital repleta de narcóticos,deixando-nos preparados para a sua operação
inevitável e fatal, vaticinou Tenessee Williams. O
Tempo é um ótimo professor. Pena que mata seus alunos. A
longo prazo estamos todos mortos.
Resta-nos o exemplo dos que transcendem.
Cansei de ser moderno,
agora quero ser eterno.
Para sempre é muito tempo.
Citações de:
Deus, Plutarco,
Lord Byron, Millôr
Fernandes, Charles Darwin, Bertrand Russell, Machado de Assis, Stephen Vincent Benet, Mario Quintana, William Dean Howells A. Karr,
Paulo Leminski, Oscar Wilde, Pablo Picasso John Barrymore, Jean Rostand, Charles Chaplin, Cora Harvey Armstrong, Tennessee Williams, Hector Berlioz, John Maynard Keynes, Platão, Jorge Luis Borges, Carlos Drummond de Andrade,
CRÔNICA 6
OS RELÓGIOS SÃO MUITO RELATIVOS
Afonso Cruz
O pior do tempo é ter de esperar. É por isso que existem aquelas salas com revistas desactualizadas que, por coincidência kafkiana, costumam ficar imediatamente antes dos consultórios médicos e logo a seguir à nossa paciência. Dá para ter uma ideia de que o Purgatório é que é um inferno.
Disse-me a senhora que tinha a senha com o número antes do meu:
– Há pessoas que ouvem a voz de Deus, ao passo que eu ouço a voz dum apresentador de boletim meteorológico norueguês. E, roa-se de inveja, tenho-me comunicado com um Einstein que se alojou no meu pavilhão auricular esquerdo. Porque é que o senhor está aqui? Ou o senhor não está aqui?
– Estou aqui, apesar de não o poder assegurar com toda a certeza científica, mas do que sei da filosofia cartesiana, sim, estou aqui.
– E queixa-se do quê?
– Tenho problemas com o contínuo espaço-tempo. Especialmente com os prazos de entrega dos trabalhos. E a senhora?
– Queixo-me de Santo Agostinho quando dizia que o tempo não existe senão na nossa percepção. E queixo-me de algum desconforto no pavilhão auricular esquerdo.
– Ah, O tempo! É o grande inimigo do peixe fresco – interveio um senhor muito pequenino. Mal se via atrás da senha da senhora que estava à minha frente. – Por outro lado, há o vinho do Porto. Esse dá-se muito bem com o passar dos anos. Mas repare no que o tempo nos faz, repare nesta cabeça: cabeluda como um ovo – disse, passando a mão pela careca.
– É verdade que Cronos pode ser devastador para a nossa beleza – comentou a senhora da senha antes da minha –, mas por outro lado compensa-nos com falta de visão. Nunca chegamos a ver muito bem o que é que aconteceu com a nossa cara.
– Discordo! – exclamou o senhor pequenino. – Eu vejo muito bem. Uma pessoa contaminada pelo tempo pode usar óculos.
Do consultório saiu um senhor velhíssimo, de chinelos, a arrastar as ideias pelo chão. Parou perto de mim, fitou-me durante uns segundos pendurados na sua lentidão e perguntou-me:
– Já ouviu falar na lei da gravidade?
– Claro. Sempre cumpri essa lei. Hoje, por exemplo, sinto-me pesaroso, ha, ha, ha!
– Não tem piada.
– Desculpe.
– A gravidade, tal como o nome indica, é uma coisa séria. Uma lei muito amiga do tempo e das bengalas. O pescoço – continuou ele – é a melhor maneira de começar a cabeça. É ou não é? Mas diga-me: onde está o meu pescoço? Bateu no iceberg do tempo e foi-se afundando nos ombros. O tempo faz muito mal às costas. Faz-nos encurvar e depois passamos a vida a contemplar o chão que será o nosso derradeiro leito. O tempo obriga-nos a olhar para o nosso futuro que fica, como se sabe, debaixo da terra. Não é curioso que andemos todos a pisar o nosso próprio futuro?
O senhor muito pequenino, afastando a senha do caminho, asseverou-me:
– É como este senhor diz: Não se valoriza o dia de amanhã. O passado é muito bonito, mas o futuro é muito mais moderno. Já reparou como o passado está fora de moda? Homens com caras medievais, casas em forma de caverna, roupas perfeitamente mesopotâmicas.
– Aliás, o passado só serve para nos arrependermos – concordou a senhora da senha antes da minha.
– Quando era novo – disse-me o homem que andava com os seus chinelos a pisar o futuro – passava os dias à procura de Deus. Até tinha comprado umas botas e tudo. Mais tarde percebi que são raros os homens que falam suficientemente baixo para que Deus os possa ouvir. Eu nunca fui um homem desses. Porém, acredito no Paraíso, apesar de correr o boato que não tem uma segurança social tão boa quanto a dinamarquesa. Mas é sobre o tempo que eu gostaria de lhe dizer umas coisas: ele tende a acumular-se na barriga e nas artérias. Não se vê a olho nu, mas as análises mostram-no sempre acima dos 200 mg/dl. Muito acima.
– Não seja tão negativo, senhor de chinelos, leia Cícero, leia aquele livro, “Catao Maior, de Senectude”, onde ele bate palmas à velhice. Vá desfrutando do caminho e evite olhar para o destino. Já basta que, nos dias de hoje, ande tudo tão rápido que não se veja a paisagem. Kavafis dizia, numa das suas poesias, que o destino de Ulisses não era Ítaca. Ítaca era a viagem, o verdadeiro destino era a viagem.
– A paisagem que se desfruta pelo caminho é uma coisa muito sobrevalorizada – garantiu-me o senhor muito pequenino. – Por mim, evito-a. Vou directo ao destino onde normalmente se podem comprar bons postais. E porque é que o caminho há-de ter melhor paisagem do que o destino? Se fosse assim, o caminho é que era o destino e ninguém ia passar férias às Maldivas, ficávamos pelo mar, a ser comidos pelos tubarões, tal como fazem os náufragos. O que é que esse Kadafi percebe de férias na praia?
– Kavafis. Alguém tem horas? – perguntei.
– Nunca usei relógio – disse o senhor que pisava o futuro. – Olhe para este pulso completamente nu. Sinta-o, não se acanhe. Os relógios, como diria Einstein, são muito relativos. O tempo mede-se é com o coração. Quando ele parar de fazer tiquetaque, acabou-se o tempo!