Final

Crônica

Colocação

Para Betty

Colocação

Para Oswaldo

Colocação

Para

Cida

Colocação

Para

Luci

Colocação

Para Lorenza

Colocação

Para Marco

TOTAL

Afonso Cruz

2

1

6

1

1

5

16

Denis Reis

3

4

1

5

2

1

16

Cínthia Kriemler

1

2

5

3

3

4

18

Marcelo Larroyed

5

5

4

4

5

2

25

Ari Gurcz

4

3

3

2

6

3

21

Maria de Fátima Correia Santos

6

6

2

6

4

6

30

 

CRÔNICA 1

 

 

Acontece sempre aos personagens

Cinthia Kriemler

 

Um dragão exausto. Isso sou eu sentada aqui neste começo de noite gelada, soltando neblina pela boca e pelas ventas. Já aqueci os dedos murchos e a garganta com duas xícaras de chocolate quente com chantilly, raspinha de casca de limão e um leve escorrer de licor. Aceita uma xícara?

Estou escutando músicas antigas enquanto decido se vou ao cinema ou se abro um vinho mais tarde e assisto a um filme em casa mesmo.

Eu vejo o futuro repetir o passado... O tempo não para, não, não para...

Que coisa! O tempo não para é de vender essa imagem de inesgotável. Bobagem. É um grande ilusionista, isso sim; um fanfarrão elegante. O que ele faz, e bem, é aplicar recursos. Mas não resiste a um olhar mais de perto, a uma avaliação mais detalhada. De perto, é fácil ver que os acontecimentos, as histórias e as vontades são sempre os mesmos, ciclicamente. Guerras, amores, terremotos, mortes, tudo se repete. Modernizam-se os instrumentos, as palavras e os atores. As tramas, nunca. Uma mesmice.

Pois saiba você que o tempo sobrevive mesmo é das percepções, como num truque houdiniano. O que eu vejo não é o que você vê. Não vemos na mesma hora. Não nos importamos do mesmo modo a respeito do que vemos. O truque é esse: impedir que a gente tenha consciência de que de inesgotável mesmo só as desigualdades das nossas percepções. Uma vez ou outra, é claro, passeamos, sem querer, na mesma sintonia, por uma fração de segundos. Déjà vu! gritamos. Que déjà vu que nada! É o tempo escorregando na gestão. Mera digressão.

Costumo pensar em cada um de nós como um grande globo de metal, igual ao que se usa nos bingos ou nos sorteios de prêmios. No início de nós, o tempo nos recheou de uma vez com todas as datas e fatos e sentimentos que iríamos precisar para ter uma vida. Mas se tocou que um bom planejamento pensa no futuro, e aí decidiu que era melhor liberar uma pedra por vez. Acrescentou o mexe e remexe aleatório do globo para assegurar transparência e criar um pouco de frisson na plateia.

Por isso, o meu bingo nunca é, foi ou será igual ao seu. Eu recebo o amor aos 20; você aos 35; ele, nunca. Você aprende o sofrimento aos 10; nós, aos 38; eles, ainda sofrem.  Tudo culpa do mexe e remexe. Não me importo com o estratagema. Do tempo, só registro uma queixa: para si mesmo, nunca traz velhice; para nós, rugas dolorosas no corpo e na alma.  Injustiça!

Ah, não? Você não acha? Deixe ver se eu entendi... Experiência. É assim mesmo que você desculpa o reumatismo que proíbe às suas juntas de subir escadas? Segurança é o nome mais interessante que você encontra para o seu platô de conformismos? Está bem. Entrego os pontos. Eu mesma apelidei de ‘maturidade’ o assassinato dos meus arroubos. Aliás, melhor dizer massacre, porque os exterminei em conjunto para não ouvir mais suas vozes insensatas.

O tal do ‘amor maduro’, então, é o pior dos disfarces. Preciso forçar mais a memória, um dia desses, e me lembrar quando foi que aprendi a gritar “Bingo!” na pedra da desistência.  Logo eu que nunca dispensei um amor maldito, uma paixão inconsequente, me conformar com um amorzinho morno, centrado, sem tempero?

Pois me escute: o mal é que a gente aceita qualquer coisa depois das rugas. E não adianta reclamar: Hei! Eu quero aquele olhar que vi na mocinha de ontem, na fila do supermercado. Quero aquela roupa sensual da vitrine do shopping. Quero atravessar a piscina sem perder o fôlego. Reclamar só traz mais rugas.

 O que foi? Se apavorou? Descobriu que lhe furtaram as possibilidades? Finalmente você começou a entender que o tempo é ladrão. Como eu lhe disse, um ilusionista. E você aí pensando que eram seus o amor, a alegria, as gargalhadas e os sonhos! Eu sei como é isso. Mas não se preocupe, você não é bobo sozinho. Acontece sempre aos personagens.

Ainda dá tempo de me acompanhar numa xícara de chocolate. Mas, se preferir, venha tomar um vinho mais tarde. Afinal, ainda não falamos sobre a melhor parte disso tudo. Aquela onde eu lhe conto que insônia, depressão e amor despedaçado também mudam de corpos. É o tempo, redistribuindo recursos. Acontece sempre aos personagens.

 

 

CRÔNICA 2

 

 

 

A MAÇONARIA DAS SEGUNDAS-FEIRAS

Denis Reis

Dizem por que a maioria da população não gosta das segundas-feiras. Eu, porém, venho confessar que não gosto dos domingos. Felizmente conheço pessoas que concordam comigo. Eu as reconheço em meio à multidão. Às vezes, algumas dessas pessoas até se aproximam de mim e, em surdina, me confidenciam:

            Nós também não gostamos dos domingos, preferimos as segundas-feiras!

            Somos, necessariamente, uma espécie de sociedade secreta informal. Temos de tomar cuidado. Representamos uma posição minoritária entre maiorias autoconfiantes. O populacho, entusiasmado pelo próprio número, levantaria muitos argumentos, nem sempre verbais, contra nós, caso nos manifestássemos individual e publicamente.

            Em verdade, quando aqueles que compartilham da minha opinião se aproximam para me confidenciar seu desgosto com os domingos, não é porque estejamos fazendo proselitismo para o partido das segundas-feiras. Somos sempre discretos. Reconhecemo-nos por sinais, como todos os partidários de causas impopulares. Basta, por exemplo, que me vejam amuado, comendo minha pizza dominical, após uma sessão vespertina no cinema do shopping center. Em meio a berros de crianças, ouve-se a voz fanhosa de senhoras de idade. São vovós e netinhos. Papai e mamãe também estão presentes. Não é raro que esses personagens troquem tapas e beliscões nas pizzarias de domingo. Há muito choro e zanga de parte a parte. É algo que causa forte impressão nas testemunhas. Quando este domingo acabará? Questionamos em silêncio. No entanto, o pai de família exibe o tradicional sorriso vexado. Sei que é mais um irmão que espera pela segunda-feira e a liberdade.

            Camaradas, domingo é o niilismo em ato! Quando, pela manhã, acordamos com o sol alto, a televisão do vizinho, ou da nossa própria casa, sintonizada nos canais de desenho animado, a turma de malas prontas, de partida para o clube social, não podemos nem imaginar o quanto as coisas vão piorar até o fim da noite. À noite, de modo desavergonhado, o domingo há de se mostrar em sua nua realidade. Os restos da macarronada, finada e fria, necrosando na geladeira, observam a nossa desilusão. A voz agônica do Galvão Bueno, derramada via satélite, espalha-se pelo espaço sideral. Dizem que poderá ser captada em outros planetas, onde houver aparelhos adequados. O que os alienígenas pensarão de nós e dos nossos domingos? Pergunto-me angustiado. O domingo é real demais para ser verdadeiro.

            Meus irmãos e irmãs de segunda-feira! De onde viria, afinal, tanta realidade que nos sufoca? Creio que posso responder. O domingo é o tempo em estado bruto: o tempo congelado em seu estado natural, sólido, incontornável e, lamento dizer, até mortífero. Tudo isso vale, principalmente, para as horas fatais em que a última esperança do homem é o Fantástico – o show da vida. O estômago alcança um intolerável PH ácido, sem que saibamos se é por causa da azeda programação televisiva ou pela fanta laranja, ingerida em quantidades domingueiras.

            Kant dizia que o tempo não é próprio da “coisa em si”, isto é, o tempo não pertence à natureza dos fenômenos objetivos. Para este filósofo do século XVIII, o tempo é tão somente uma categoria da subjetividade, uma forma da mente humana apreender e pôr em ordem o mundo que nos rodeia. Eu não concordo de jeito nenhum. Mesmo consciente da temeridade que é discordar de um filósofo alemão, eu discordo. Subjetivo, uma ova! Se existe alguma coisa real nesse mundo é o tempo. Nos domingos, quase podemos tocá-lo, como se fosse uma coisa metálica, pesada e gélida.

As cousas não tem significação: têm existência”, master dixit. Vamos guardar este verso como uma definição do termo domingo a pizza, a fanta tamanho-família, o cheiro acre-doce da pipoca de microondas, a radiação da tela de televisão existem, assim como a pilha de pratos sujos na pia da cozinha. São as coisas em seu puro existir temporal, sem significado e sem destino. Sem nos dar satisfação, em qualquer sentido. Um tempo que é cheio de coisas, mas vazio de acontecimentos.

            Irmãos e irmãs, camaradas de nossa informal maçonaria! Vocês que me sorriem constrangidos, sentados nos bancos de praças e gramados de parques, nas vazias tardes de domingo! Proponho que organizemos, de fato e de direito, a Maçonaria das Segundas-Feiras. Até hoje, viveu-

-se o tempo liso, cíclico ou linear, com momentos específicos e ordenados em que, de maneira muito limitada, se faziam os acontecimentos humanos, a vida autêntica que nos importa. Contrária a este tempo de acontecimentos fugazes e isolados, a nossa Maçonaria deve propor uma nova temporalidade. Reivindicamos que cada instante seja uma pletora de acontecimentos. Organizados, faremos para nós e nossos semelhantes dias e dias cheios de preparações e vida verdadeiramente acontecida. O nome disso é alegria. Viveremos numa eterna manhã de segunda-feira. Algumas destas horas poderão ser árduas, mas tristes nunca serão, pois tristeza é a hora sem acontecimentos. Que a Maçonaria das Segundas-Feiras declare: Queremos um tempo que seja de acontecimentos

Ouço alguns murmúrios. Vozezinhas acusadoras nos chamam, a nós da Maçonaria das Segundas-feiras, de místicos. Acusam-nos de recusar o cotidiano, por ordinário e comum. Minha resposta é uma : Nada é mais cotidiano do que uma segunda-feira. Recusamos apenas o que não é acontecimento. Preferiremos sempre a significação dos acontecimentos à existência paralisada em um tempo vazio. Rejeitamos as noites de domingo. Queremos as manhãs de segunda-feira. Significação é alma. Podem nos chamar de místicos, se quiserem.

 

CRÔNICA 3

 

 

CRONOS

Marcelo Larroyed

Filho do Céu e da Terra, o titã Cronos era o senhor do tempo para os gregos.

Cronos, o deus do tempo; Cronos, o deus da crônica.

Desde então é papel do cronista aprisionar pedaços de tempo e os transformar em texto, como um deus faria. O cronista é uma espécie de deus decaído, tentando juntar os cacos de tempo de si mesmo, dos outros e, no limite, do mundo.

Mas que tempo? Não existe tal coisa!

O calendário é invenção humana, uma convenção, há diversos calendários válidos e em vigor. O relógio também é invenção humana, supostamente para medir o tempo, porém basta um decreto e lá vem de novo o horário de verão, obrigando a um rabugento acordar com as galinhas ou convidando a comemorar o chope ao sol, após o expediente. Toda a estrutura do mundo, em todos os tempos, nos tenta fazer crer que há algo apreensível pelos sentidos e pela física, e que regula a passagem de tudo.

Num exemplo simplório, tentam nos descrever o tempo como uma espécie de rua curta, onde houvesse uma alfândega no início e outra no final. Quando nos reconhecemos como gente, como indivíduos, já passamos pela primeira barreira e dela não temos lembrança alguma. Com um pouco mais de idade, talvez após uma dezena de passos, sabemos que logo ali à frente há outra alfândega, e que cada novo passo é um a menos para lá chegar.

O curioso e trágico é que esse é um caminho desejado em si, não por sua chegada. O caminhante quer caminhar e só.

Mas não percamos tempo.

Voltemos à crônica e ao cronos.

Certo, calendários e relógios medem arbitrariedades, e o tempo humano é mera convenção.

Mas que inexistência é essa que nos aborda várias vezes ao dia, todos os dias? Do tempo que se arrasta na espera de uma fila ou do que voa nas conversas entre apaixonados?

Nesse sentido, tem razão o filósofo quando diz que “o tempo é a tardança do que se espera”. Esse desejo incontrolável que temos de realização, de expandir nossa cerca sempre um pouco além, de querer buscar no fim do arco-íris o pote de ouro, de ser um Ponce de León e partir para a floresta desconhecida em busca de uma improbabilíssima fonte da juventude – todos esses sonhos, tão caros ao ser humano, fazem dele um quebrador de barreiras e de limites, físicos e temporais.

O tempo, ah!, esse adversário medonho do ser humano.

O ser humano luta contra a tempo pela tentativa de se imortalizar, registrando sua presença na Terra. A rocha pré-histórica, as tabuinhas e tijolos cobertos de cera, as peles de animais, os papiros, os livros, as gravações em áudio e vídeo, os hologramas – tudo uma tentativa desesperada do homem de registrar sua passagem após o fim, de evidenciar que é um ser criativo.

A criação! De ordinário, o tempo passa rápido, mas se congela quando criamos, pois aí, parece, nos transformamos em deuses, erigindo universos. O escritor, o artista plástico e o religioso com frequência morrem velhinhos - é o contato diário com a essência, e a essência é atemporal. O tempo parece não transcorrer nos momentos em que você está pleno, em que você - enfim e contra todas as interferências e expectativas - em que você se transforma em Você Mesmo. Você está vivendo sua própria crônica.

Então o tempo seria um coeficiente de transformação, rumo à degradação ou à excelência.

O problema é que nisso também há controvérsia. Alguns filósofos pré-socráticos acreditavam que quando os astros se realinhassem exatamente como na criação do universo, tudo recomeçaria. Também era essa a crença na cultura maia - o tempo cíclico. Das profecias à mediunidade, do déja vu às coincidências cotidianas, passando por Nietzsche e os físicos quânticos e pós-quânticos, todos defendem essa tese. O universo seria um mesmo grupo de crônicas escritas uma só vez e publicadas em edições sucessivas.

O Eterno Retorno: como é bela e assustadora essa analogia! A história humana perde em importância, pois se repetirá e se repetirá e se repetirá. Mas e o homem? Ah!, esse, no tempo que se repete, parece-me um herói digno desse nome. Ele resiste à cópia e tenta se diferenciar. Mesmo que a história em seu conjunto se repita, o ser humano, cada um de nós, tenta sempre, no fundo, não ser réplica dos outros ou de si mesmo. Tenta ser sua própria crônica.

E por isso, justamente por essa individualidade profunda, o tempo que mais nos importa é o intervalo extraordinário que percorremos do nascimento à morte.

O que mais nos aflige e move é o transcurso rapidíssimo da criação de nossa consciência para o mundo, o amadurecimento dela e a triste despedida final. É reconhecer que a rua é curta, muito curta, mas que caminhar é preciso e dele não se pode fugir.

Assim, a crônica dos homens na Terra é um contínuo mastigar de nacos de tempo. Há frutas e pedras nesse mastigar.

Entre o telhado do Céu e o piso da Terra, somos prisioneiros dessa discutível temporalidade. Na dúvida, narramos.

Somos todos cronos e crônica.

CRÔNICA 4

 

 

 

 

Tempo/s

Maria de Fátima

 

 

Ou bem que falo do tempo das nuvens e das depressões localizadas sobre a minha região, aquele que alguém na mesa ao lado questiona: “Como está o tempo por aí? Chove?!” aquele tempo que sempre é mote quando cai a conversa, ou a ver se a gente não desfalece na reunião: “Está um calorão dos diabos nesta sala!”.

Ou o termo tempo se me diaboliza em tanta questão, que nem sei que fazer se me dão o encargo de escrever sob o tema: “o tempo, ele mesmo”.

Eu farei perguntas: muitas perguntas, que nem sei de algumas se terão resposta.

 

Que te interessa saber do tempo, seu conceito físico ou que seja outro, se o tempo que te mede é o das luas, o tempo em que te inicias, pecaminoso e adultero ou, quase virgem, de um amor impoluto. Um tempo que te oferece o fluxo e refluxo das marés.

Pergunto.

Que te interessa um tempo relativo e o espaço euclidiano associado: quatro dimensões de um universo plano. Ou que seja ele curvo pela gravidade a imiscuir-se.

Pergunto.

Que te interessam relógios atómicos se tens o ciclo do sol e o da lua.

Pergunto.

 

Tu a quereres saber as condições iniciais de uma cosmologia direccionada a um fim ou a um recomeço: um instante, uma singularidade que te originou ser vivente capaz de perguntar: como? para quê? de onde?

Tu a saberes que cada pergunta será respondida como coisa estatística, ferramenta fundamental dos sistemas imensos: a probabilidade, mesmo que reduzida, de que o tempo flua em sentido inverso e tu possas recordar o futuro.

E tu a pensares no improvável.

Tu a dizeres ontem e amanhã e hoje e a desejares o agora.

Tu a perceberes que só nos intervalos te és ser consciente da tua permanência.

Tu na busca do instante e a tecnologia a simular-to, a doar-te o quase simultâneo entre ti e um acontecer muito, muito longe: o instante apetecido quase tornado real e tu a ficar sem datas nem efemérides, nem estações do ano em que te encontres.

 E tu a perderes-te da estrutura que te permite ser dotado apenas para esta e não para outra conjuntura de espaço-tempo-gravidade.

Tu a vislumbrar a contradição suprema que será possuíres o âmago do tempo, apenas no final do intervalo que te foi permitido: o instante da morte.

Que tu te indagas como seria se fosses instante, só instante, sem antes nem futuro. Sem a espera. Sem te aperceberes de ciclos.

 

Poeira apenas, se o instante te fosse concedido. 

Pergunto.

 

Tu a quereres perceber o porquê do fluxo unidireccionado, irreversível. A querer perceber essa tua inaptidão de recordar o futuro.

Tu a colocares a hipótese de que seja pelo modo como foste concebido: algo originado aquando da criação do universo. Antes, muito antes, de seres sequer um projecto mapeado no espaço-tempo.

E tu a crer que é no local dos sonhos que se encontra a excrescência que restou desse órgão, ou que seja gene, ou algum outro nem sequer dito pelo homem que ainda nem escrutinou dos seus mistérios a esmagadora parte. Lá, no local dos sonhos, o que daria de ti o ser completo num tempo sem antes nem futuros.

Tu a perceberes-te oriundo daquele início e não de um que lhe fosse simétrico.

Tu a pensares se as constantes, universais e sem arredondamentos, seriam diversas se fosse outro o início: outra a fronteira, outra a energia, outras as leis.

Tu a dizer de um tempo, cada vez mais rápido: galáxias e o demais a desviarem-se para a luz vermelha, quiçá uma estereotipada visão de inferno, ou que seja apenas um fenómeno semelhante quando passa por ti um apito cada vez mais agudo.

 

O Universo a expandir-se para que possa o tempo caber nele.

Pergunto.

 

Tu a perceber um universo ajoujado dos antes e dos futuros e de todos os instantes, éteres e plasmas e buracos negros a moverem-se para parte nenhuma, que será vazio e lixo, coisa degradada ao seu expoente máximo.

Tu a dizer da flecha apontando ao máximo de entropia.

 

Diz assim a segunda lei, ou erro.

Pergunto.

 

E tu a indagar como seria se cada um fosse apenas esse ou talvez um par, umas duas dezenas. Poucos.

Tu a indagar se seria outra a probabilidade, se fosses só tu e mais uns quantos: nada de números muito grandes.

 

Seria outro o tempo, ou seria mesmo inexistente.

Pergunto.

 

E tu serias como luz que se acendesse e apagasse sem limite de velocidade.

 

Ficaria eu ainda perguntando.



 

CRÔNICA 5

 

 

 

Tempo

Ari Gurcz

            Não sou cronista. Assenta-me melhor a ficção, que me sinto mais livre a inventar o que me vier à cabeça, nenhuma relação com o real, com o cotidiano, com a pauta, com o veículo.

Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de afastar-se; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz.  Tempo de crônica, tempo de conto, tempo de romance. O tempo é o mais sábio dos conselheiros. Quem sabe, com o tempo, é possível aprender, amadurecer as escritas, experimentar, arriscar. E a cada risco corrido, erro cometido, críticas sofridas ou assimiladas, possa aprimorar um estilo. Talvez, num futuro distante, em uma arqueologia das minhas gavetas possa garimpar algum indício do que viria a ser um estilo próprio. Afinal,  O melhor profeta do futuro é o passado. 

Talvez, um dia admita que me prefiro leitor que escritor, que as aventuras literárias foram perda de tempo. Quem mata o tempo não é assassino, mas sim um suicida.   O homem que tem coragem de desperdiçar uma hora do seu tempo não descobriu o valor da vida.  Neste ponto, no entanto, o prazer, ainda que fugaz, me mantém no teclado.  O tempo que se gosta de perder não é tempo perdido.   É um quantum de vida ganha. Que a vida não é perdida na morte,  a vida é perdida minuto a minuto, no dia a dia aborrecido, e em todos os milhares de modos medíocres. o tempo que se passa rindo, é um tempo que se passa com os deuses, mesmo que seja um momento.

Falta-me tempo, no entanto. Não só para as letras, mas para outros prazeres, outros sabores e sons e convivências. Por vezes, tenho a impressão que estamos em campos opostos, eu e o tempo. Tanto o que fazer, tanto o que querer... e estou perdendo a batalha. O tempo é um inimigo subtil que ataca fugindo. Chego a invejar algumas pessoas que conseguem permanecer mais tempo em uma hora do que outras em uma semana.  

O tempo passa. Nem sempre fica mais pesada a bagagem. Por vezes, mais leve é que fica, que as recordações pesam pouco e a idade pode nos ajudar a descartar algumas couraças de certezas e preconceitos que a juventude impõe no afã de alcançar as conquistas comuns aos mais velhos. Picasso chegou a dizer  que tornarmo-nos jovens leva muito tempo.

É claro que nem todos seremos Picassos. Há os que envelhecem com a idade. Os que pensam que a tragédia da velhice não está em se ser velho, mas sim em se ter sido jovem. Que a primeira metade da vida passa-se a desejar a segunda; a segunda, a recordar a primeira.

Há os que vivem as recordações, mais vívidas que o presente, os que andam de costas a mirar o passado, na tentativa de fazer o tempo parar. Mas  O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo.

.

 

Haja Hoje para tanto Ontem

Dentro de algumas pessoas mais  velhas há uma pessoa jovem - se perguntando que diabos aconteceu. E passam a devotar-se ao hábito do lamento. O homem começa a envelhecer quando as lamentações começam a tomar o lugar dos sonhos. Os dias passam incômodos com lampejos de tragicidade.  O tempo corre em direção com sua bandeja de hospital repleta de narcóticos,deixando-nos preparados para a sua operação inevitável e fatal, vaticinou Tenessee Williams. O Tempo é um ótimo professor. Pena que mata seus alunos. A longo prazo estamos todos mortos.

Resta-nos o exemplo dos que transcendem.

Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno.

 

Para sempre é muito tempo.

 

 

Citações de:

Deus, Plutarco, Lord Byron,  Millôr Fernandes, Charles Darwin, Bertrand Russell,   Machado de Assis,  Stephen Vincent Benet,  Mario Quintana,   William Dean Howells  A. Karr,  Paulo Leminski,  Oscar Wilde,    Pablo Picasso  John Barrymore,  Jean Rostand,   Charles Chaplin,   Cora Harvey Armstrong,  Tennessee Williams,  Hector Berlioz,  John Maynard Keynes,  Platão,  Jorge Luis Borges,  Carlos Drummond de Andrade, 

 

CRÔNICA 6

 

 

OS RELÓGIOS SÃO MUITO RELATIVOS

Afonso Cruz

 O pior do tempo é ter de esperar. É por isso que existem aquelas salas com revistas desactualizadas que, por coincidência kafkiana, costumam ficar imediatamente antes dos consultórios médicos e logo a seguir à nossa paciência. Dá para ter uma ideia de que o Purgatório é que é um inferno.

 Disse-me a senhora que tinha a senha com o número antes do meu:

 – Há pessoas que ouvem a voz de Deus, ao passo que eu ouço a voz dum apresentador de boletim meteorológico norueguês. E, roa-se de inveja,  tenho-me comunicado com um Einstein que se alojou no meu pavilhão auricular esquerdo. Porque é que o senhor está aqui? Ou o senhor não está aqui?

 – Estou aqui, apesar de não o poder assegurar com toda a certeza científica, mas do que sei da filosofia cartesiana, sim, estou aqui.

 – E queixa-se do quê?

 – Tenho problemas com o contínuo espaço-tempo. Especialmente com os prazos de entrega dos trabalhos. E a senhora?

 – Queixo-me de Santo Agostinho quando dizia que o tempo não existe senão na nossa percepção. E queixo-me de algum desconforto no pavilhão auricular esquerdo.

 – Ah, O tempo! É o grande inimigo do peixe fresco – interveio um senhor muito pequenino. Mal se via atrás da senha da senhora que estava à minha frente. – Por outro lado, há o vinho do Porto. Esse dá-se muito bem com o passar dos anos. Mas repare no que o tempo nos faz, repare nesta cabeça: cabeluda como um ovo – disse, passando a mão pela careca.

 – É verdade que Cronos pode ser devastador para a nossa beleza – comentou a senhora da senha antes da minha –, mas por outro lado compensa-nos com falta de visão. Nunca chegamos a ver muito bem o que é que aconteceu com a nossa cara.

 – Discordo! – exclamou o senhor pequenino. –  Eu vejo muito bem. Uma pessoa contaminada pelo tempo pode usar óculos.

 Do consultório saiu um senhor velhíssimo, de chinelos, a arrastar as ideias pelo chão. Parou perto de mim, fitou-me durante uns segundos pendurados na sua lentidão e perguntou-me:

 – Já ouviu falar na lei da gravidade?

 – Claro. Sempre cumpri essa lei. Hoje, por exemplo, sinto-me pesaroso, ha, ha, ha!

 – Não tem piada.

 – Desculpe.

 – A gravidade, tal como o nome indica, é uma coisa séria. Uma lei muito amiga do tempo e das bengalas. O pescoço – continuou ele – é a melhor maneira de começar a cabeça. É ou não é? Mas diga-me: onde está o meu pescoço? Bateu no iceberg do tempo e foi-se afundando nos ombros. O tempo faz muito mal às costas. Faz-nos encurvar e depois passamos a vida a contemplar o chão que será o nosso derradeiro leito. O tempo obriga-nos a olhar para o nosso futuro que fica, como se sabe, debaixo da terra. Não é curioso que andemos todos a pisar o nosso próprio futuro?

  O senhor muito pequenino, afastando a senha do caminho, asseverou-me:

 – É como este senhor diz: Não se valoriza o dia de amanhã. O passado é muito bonito, mas o futuro é muito mais moderno. Já reparou como o passado está fora de moda? Homens com caras medievais, casas em forma de caverna, roupas perfeitamente mesopotâmicas.

 – Aliás, o passado só serve para nos arrependermos – concordou a senhora da senha antes da minha.

 – Quando era novo – disse-me o homem que andava com os seus chinelos a pisar o futuro – passava os dias à procura de Deus. Até tinha comprado umas botas e tudo. Mais tarde percebi que são raros os homens que falam suficientemente baixo para que Deus os possa ouvir. Eu nunca fui um homem desses. Porém, acredito no Paraíso, apesar de correr o boato que não tem uma segurança social tão boa quanto a dinamarquesa. Mas é sobre o tempo que eu gostaria de lhe dizer umas coisas: ele tende a acumular-se na barriga e nas artérias. Não se vê a olho nu, mas as análises mostram-no sempre acima dos 200 mg/dl. Muito acima.

 – Não seja tão negativo, senhor de chinelos, leia Cícero, leia aquele livro, “Catao Maior, de Senectude”, onde ele bate palmas à velhice. Vá desfrutando do caminho e evite olhar para o destino. Já basta que, nos dias de hoje, ande tudo tão rápido que não se veja a paisagem. Kavafis dizia, numa das suas poesias, que o destino de Ulisses não era Ítaca. Ítaca era a viagem, o verdadeiro destino era a viagem.

 – A paisagem que se desfruta pelo caminho é uma coisa muito sobrevalorizada – garantiu-me o senhor muito pequenino. – Por mim, evito-a. Vou directo ao destino onde normalmente se podem comprar bons postais. E porque é que o caminho há-de ter melhor paisagem do que o destino? Se fosse assim, o caminho é que era o destino e ninguém ia passar férias às Maldivas, ficávamos pelo mar, a ser comidos pelos tubarões, tal como fazem os náufragos. O que é que esse Kadafi percebe de férias na praia?

 Kavafis. Alguém tem horas? – perguntei.

 – Nunca usei relógio – disse o senhor que pisava o futuro. – Olhe para este pulso completamente nu. Sinta-o, não se acanhe. Os relógios, como diria Einstein, são muito relativos. O tempo mede-se é com o coração. Quando ele parar de fazer tiquetaque, acabou-se o tempo!