Notas da primeira Semana
Os comentários nos textos são de Betty
Vidigal. Atenção, autores!
Crônica 1 – Ana Lúcia Nogueira
O Funk de Jesus
Os fatos aconteceram na ordem exata em que vou narrá-los. Talvez o leitor não compreenda de imediato, assim como eu também não compreendi, o significado histórico desses fatos e sua repercussão para toda a humanidade. Por isso é importante ter a mente aberta e os olhos atentos, pois cada detalhe dessa história é fundamental para que se alcance toda a sua grandeza.
O dia de
ontem amanheceu quente e abafado
Eram mais ou
menos 11 horas quando comecei a ouvir o burburinho, vindo de fora, misturado à
poeira amarela que entrava pela janela. Impressionante como há pó
Fui apurando os ouvidos, mas não entendia direito. Tomei um rápido banho, vesti uma túnica leve de linho branco e desci correndo as escadas para alcançar a praça, de onde partia o som.
Caixas de som anunciavam uma revelação que mudaria os destinos da humanidade. A horda reagia, num clamor histérico. Coloquei-me sob uma coluna num templo mais alto, de onde tinha uma visão mais ampla, e comecei a tomar notas.
A praça estava tomada de gente. No centro, protegidos por cordões de isolamento, três elefantes ricamente paramentados, com alegorias egípcias e romanas, sustentavam uma espécie de cercadinho, digamos assim, sobre o qual se apoiavam duas imensas caixas de som e algumas pessoas da organização. Atrás dos elefantes, arquibancadas com cobertura abrigavam as autoridades. O ar-condicionado não havia sido inventado, mas havia eunucos em profusão abanando a elite. Em volta, a multidão de pé sob o sol inclemente se impacientava, à espera do início do festival.
Confesso que estava achando tudo um pouco chato. Não havia coca-cola, meu iPod não funcionava, e o guaraná Jesus, que era distribuído gratuitamente, estava morno e sem gás. Eu já me preparava para voltar ao hotel quando o organizador subiu no elefante do meio e anunciou: “E agora, com vocês, abrindo o maior festival da terra, as Três Marias!
Maria Ivete, Maria Cláudia e Margareth Maria surgiram, animadas e seminuas, cantando “Vou passar cerol na mão / assim / assim”... O pancadão tinha começado.
A praça se transformou completamente. O tuntistum das caixas potentes fazia tremer os elefantes e os templos ao redor. Na arquibancada chique, um faraó egípcio dava pinta, requebrando os quadris de um modo muito pouco masculino, até mesmo para uma sociedade que não estranha um homem que tem os olhos delineados com kajal.
Na praça, a multidão sacudia ao som de “Só as cachorras! / Tum Tum tumtistum Tum / As preparadas”, enquanto no cercadinho uma guerra de vaidades tinha lugar, mas ninguém percebia. Sobre o elefante, as Três Marias disputavam com energia o título de ‘mais-mais’ do festival, revezando-se na voz, no requebrado e, comenta-se à boca pequena, na cópula de bastidores, para assegurar o título de ‘primeira das rainhas a engravidar’. Mas essa é outra história. Voltemos.
Lá pelas tantas, uma pausa. A platéia, na expectativa, se aquieta. O faraó egípcio ensaia um muxoxo, mas aproveita o intervalo para retocar o batom. O organizador reaparece, agora no elefante maior, agradece aos patrocinadores e em seguida pede a atenção da platéia. “E agora o momento mais esperado de hoje. É com muito orgulho que anuncio a revelação deste festival, vamos receber, com muito entusiasmo, aquele que é único, aquele que é mágico, aquele que é santo, o deus do funk, o MC tão esperado pelo povo de Israel, abram alas porque lá vem ele, MC Jesus! (Sim, leitor, eu fiz o trocadilho, espero que você me perdoe, mas era inevitável.)
A multidão enlouquece em meio a assobios, aplausos, cornetas, crianças berrando. Os cadeirantes fazem manobras radicais e o pessoal das muletas faz saudações sonoras, batendo-as no ar. Abre-se, como se o povo houvesse ensaiado anos a fio, um corredor por entre a horda, que aclama a chegada do MC, gritando: “Meu rei! Meu rei! Meu rei!”
MC Jesus, usando largas correntes douradas e óculos escuros de cor indefinida, atravessa o corredor cercado por seus seguranças. A multidão se curva e brada: “o MC está aqui! O MC chegou!”
Jesus escala o elefante maior e mais rico da praça, enquanto a multidão silencia. Já no cercadinho, pega o microfone enrolando o fio, dirige-se às Três Marias com intimidade – “e aí, sis?” – e depois, dirigindo-se a platéia, diz: “E aí, galera! Essa praça vai bombar!”
Nem bem Jesus proferiu essa frase, a multidão, em pânico, começou a correr, desatinada, claramente sem saber pra onde ia, demonstrando um medo difícil de compreender, em se tratando de um povo tão pacífico.
Na arquibancada, Rosana Mascarada, amante de um faraó e dublê de cantora com carreira encerrada, percebe que o pessoal do Pânico está filmando tudo e enxerga, ali, uma oportunidade de retomar o sucesso. Num salto de gazela manca, alcança o cercadinho, toma o microfone e, com lágrimas nos olhos, mirando Jesus com ternura, entoa, à capela: “Como uma deeeeeeeeeeeeusa...”
Aquela voz maviosa detém a multidão, que se volta para Jesus.
Rosana nas alturas!
MC Jesus, lacrimoso, agradeceu a providência.
Rosana nas alturas!
O pancadão continuou até de manhã. Mesmo quem não gostava de funk[1], (sem vírgula) não resistiu ao funk de Jesus e converteu-se ali, naquela praça.
Rosana nas alturas!
Betty Vidigal - Excelente. Um pouco longo
para ser “crônica”. Nota 10.
Marco Antunes - Olha, eu confesso que, com
certo mau-humor, acompanhei a crônica até a sua metade, já pronto pra criticar
o aproveitamento um tanto grosseiro das sugestões da provocação do Editor, mas
depois nada pode segurar meu riso e não houve má-vontade que me impedisse de
derramar algumas lágrimas de riso. Diante disso, que fazer?! Arte não é o que
se aponta como arte, é o que se impõe como tal, pior pro meu preconceito; ótimo
para o autor que fatura um 10! Nota 10
Lorenza Costa - O texto não permite que o
leitor se situe: é um samba-do-crioulo-doido proposital, mas o humor se perde
em algum lugar pelo exagero e pelo excesso de informação. Nota 8
Luci Afonso – Muito
criativa, divertida e bem escrita. Nota: 9,5
Oswaldo Pullen - Solução fácil e já muito
utilizada. O apelo ao escracho também não é novidade. Em alguns momentos o
autor apela para siglas e trocadilhos irreconhecíveis. Nota 7,5
Cida
Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa
Nota
Total: 45
Crônica 2 -
Patrícia Tollendal
Copa do Mundo
de 1990 – brasileiros eliminados por quem? Por quem, meu Deus? Justo pelos
“hermanos”?! - , um grupo de amigos reuniu-se no bar de uma Maria, nossa
amiga, que, para nossa conveniência, fechou o estabelecimento,
deixando-o por nossa conta. Começo do segundo tempo, ouve-se uma
confusão na escada. Gritos, ameaças, mulheres refugiam-se na cozinha. Todas
menos, claro, nossa valente Maria, que só entrou na cozinha para pegar garrafas
e arremessá-las na cabeça dos provocadores. Dias depois, o brigão ferido
comenta o acontecido com um amigo: “Rapaz, no jogo do Brasil, fui pro Gilberto
Salomão e só por causa de uns copos tomei uma surra de um ‘armário’. Meus
amigos tentaram me ajudar mas o cara também tava
Já não sendo poucos os esclarecimentos a dar quanto à obscura relação entre Jerusalem e a copa de 90, mas esta cronista se sente na obrigação de esclarecer-se cristã de nascimento, católica de criação e tolerante por insistência da vida. Comecemos por um pouco de história, fundamental para situar o leitor mais distraído: depois da queda do Império Otomano, a região da Palestina ficou sob a administração dos ingleses, que caíram fora pouco depois, deixando pra trás a confusão proposta pela ONU e não aceita pelos árabes nativos da região: a partilha da região, mais ou menos meio a meio, com os judeus . Conflito pouco é bobagem, Egito, Jordânia, Líbano, Síria e Iraque “tiram suas casquinhas”, deixando árabes palestinos a ver camelos no deserto... Uma verdadeira onda de palestinos, oriundos dos diversos países árabes ocupou a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Surgiu a OLP. Mas duas intifadas, várias invasões israelitas, inúmeros homens-bomba e mísseis depois, resta ainda o problema de se querer dois Estados com uma única capital: a histórica, sagrada e sangrada cidade de Jerusalém. Sagrada para uns e outros e ainda para nós, cristãos, que não menos beligerantes matamos x árabes, em y cruzadas pela retomada da “Terra Santa”.
O resumo de tudo isso é: “Aquele que não tiver pecados” – perdoem-me os demais por citar o Mestre – “que atire a primeira pedra.” A quem podemos atribuir a razão? A nenhum e a todos, eu creio. Talvez recaia a culpa, como eu dizia, à falta de disposição para ver o outro lado da história ou dar o braço a torcer, elegendo a si e aos seus como povo eleito, merecedor único das graças e da terra e pintando o outro como o inimigo poderoso e desarrazoado.
Quem são os judeus e que direito têm (a reforma ortográfica tirou o circunflexo de veem, mas não de têm) à terra? Judeu é qualquer pessoa que tenha a mãe judia ou que tenha se convertido ao judaísmo, de acordo com Halacha, a lei religiosa judaica. Esta definição, por si só, exclui o racismo. O judaísmo não procura os convertidos, mas aqueles que se convertem são aceitos com base na igualdade. Judeus acreditam que Adão foi criado à imagem de Deus e que ele é o ancestral comum de toda a humanidade. Os pais judeus em todo o mundo abençoam suas crianças, todo Sabbath e feriados, e o fazem da mesma forma há séculos. Se for menina, a bênção é "Que Deus a abençoe como Sara, Rebeca, Raquel e Léa." Nenhuma dessas matriarcas era judias de nascimento, todas eram convertidas ao judaísmo. Se for menino, a bênção é "Que Deus o faça como Efraim e Menashe". A mãe desses dois era uma egípcia que se converteu ao judaísmo e se casou com José. Se uma pessoa é um bom judeu, não pode ser um sionista e se for um sionista não pode ser um bom judeu. Ou seja, judeus verdadeiros não se julgam um povo privilegiado que possa agir, em relação aos outros como bem entendem. Além disso, há justificativa para que se sintam donos da terra? Certamente: são contemporâneos dos filisteus. Anteriores aos árabes muçulmanos. Certo. Então, certamente não são eles o problema.
Vejamos os palestinos, que na verdade são árabes e chegaram quase quinhentos anos depois. Mas pode-se argumentar que a terra já não era exatamente dos judeus já que os romanos haviam dominado tudo. E mesmo que o Império Otomano era fundalmentalmente islâmico e durou cinco séculos. E ainda que os judeus sionistas que vieram depois da Segunda Guerra não tem qualquer relação com os judeus originais. Argumentos justíssimos!
Depois de me sentar por duas horas no computador para tentar uma mediação razoável, fui para a cama e um sonho lúcido e magnânimo fez a costura entre a garrafada da minha amiga e o conflito entre judeus palestinos: um novo Messias, montado no George Bush e saudado por toda uma multidão de judeus e árabes que se abraçavam e sacudiam Torahs e Alcorões, chegava em Jerusalém, com um Nokia na mão e um Motorola na outra, fazia a intermediação entre Javeh e Alá, que do alto dos céus, comemoravam o fim da carnificina. Amigos, sonhar ainda é livre...E viva a copa de 94, que a de 90, os hermanos levaram!
Betty Vidigal - Nota 8
Marco Antunes - Parafraseando Stanislaw
Ponte Preta, eu diria: e tudo isso aconteceu “
Lorenza Costa - O texto sofre de alguns
defeitos (repetições, pontuação, acentuação etc.) típicos da escrita feita às
pressas, coisas que se corrigem facilmente numa segunda leitura quando não há a
pressão do prazo. O que não dá para corrigir é a impressão de que a idéia por
trás da crônica foi pensada às pressas. O "miolo" flui razoavelmente,
mas o primeiro parágrafo e o último parecem enxertos exóticos. Além disso, há
uma fuga parcial do tema, com Jerusalém vista muito de longe. Nota 7,0
Luci Afonso – A ideia de costurar diferentes épocas é
interessante, mas resulta
Oswaldo Pullen Parente - Foge ao tema sugerido ou, no máximo, o
tangencia de longe. A parte mais forte está nos entreveros das comemorações da
copa e no humor. Nota:8,5
Cida Sepúlveda: Nota
Total: 38,5
Crônica 3
A Borboleta de Ouro – Letícia Levenhagen
Tomava uma bebida forte. Não era cedo, o dia já ia quente. Ouvia barulho, pouco mais que o de costume. O barulho vinha da entrada da cidade. Imaginou o caixeiro viajante, com suas bugigangas pesadas e aqueles atrativos todos que reuniam ao seu redor os seres mais barulhentos da Terra: as mulheres e as crianças. Aguardava-o ansioso, pois fizera-lhe encomendas para o armazém há semanas e, como as vendas tivessem aumentado muito, já estava com a oferta de alguns artigos comprometida.
Passou o olho pelo estabelecimento. Havia prosperado bastante nos últimos anos. O comércio em Jerusalém ganhara força e o dinheiro circulava farto entre aqueles que trabalhassem bem. Tinha planos de abrir uma outra casa, do outro lado da cidade e também pensava em vender seus artigos no templo. Os filhos já estavam crescidos, três rapazes fortes que sempre o ajudaram e que, sob sua orientação, podiam ampliar ainda mais o negócio. Tinham tino para o comércio, sabiam fazer dinheiro.
No balcão, avistou a filha. Era menina ainda e parecia não ter aprendido mesmo nada com ele ou com os irmãos. Pouco lhe interessavam os bens da família ou as burras repletas de dinheiro. Não era de falar e ele pouco sabia daquilo que pensava. Passava os dias ocupada com os afazeres domésticos ou conversando com os animais. Ainda era cedo para casa-la, os irmãos precisavam dos seus préstimos e ele próprio, viúvo e sozinho que era, necessitava dos seus cuidados, mas já lhe escolhia um pretendente à altura. Pensava em desposa-la com[2] algum filho de comerciante de cidade. Um rapaz que tivesse tanto tino para os negócios quanto ele. Um rapaz que pudesse dar-lhe tudo aquilo que ela valia, uma menina bem nascida e bem criada.
Desde que perdera sua esposa, cuidava para que não lhe faltasse nada. Dava-lhe tudo (se não fosse o fato de a esposa estar morta, a frase seria dúbia, pois os “lhe” parecem referir-se à pessoa mencionada na frase, ou seja, à esposa) o que sabia ser do agrado das mulheres e, ao viajante, encomendava bonecas de porcelana e confortáveis chinelinhos vindos de longe. Deixara que ela aprendesse a conhecer as letras e a fazer contas com os irmãos, embora não visse nisso nenhuma serventia, e, para uma menina, era bastante inteligente. Certa feita, pedira a ele um livro de presente. Como achasse que livros não eram assim tão úteis para as necessidades de uma moça, dissera-lhe que o caixeiro viajante não conseguira compra-lo e, para agrada-la, deu-lhe no lugar uma linda correntinha de ouro. Era um bom pai para ela, estava certo disso.
A menina levantou-se e caminhou até a porta do estabelecimento. Havia sido atraída pelo barulho, cada vez mais próximo. Também ele aproximou-se da janela da frente. Não se via nada, mas pelo alvoroço que se ouvia, ou o caixeiro viajante distribuía de graça sua mercadoria ou vendia a solução para todo e qualquer problema do povo. Com um sinal de cabeça, mandou que a filha voltasse para trás do balcão. Não havia nada ali para ser visto. Ela obedeceu em silêncio, mas antes de virar-se, deu uma última espiada no final da rua. Viu a multidão que vinha, viu um homem montado num jumento.
Antecipando-se à multidão, um moleque entrou correndo no armazém e falando sem respirar, trocando as palavras e cuspindo saliva para todos os lados, contou de forma desencontrada que um nazareno entrara em Jerusalém dizendo-se filho de Deus e prometendo a salvação aos homens que o seguissem. O comerciante gargalhara, dizendo que há muito esperava um salvador. Ria alto, tentando lembrar-se das palavras proféticas proferidas pelo último insano que passara pela sua porta. Multiplicavam-se esses vagabundos preguiçosos que, recusando-se a trabalhar, ganhar dinheiro e prosperar, vinham pregar a miséria, a humildade e o amor a todo custo. Conhecia bem esse tipo. O moleque, sem fôlego, dizia que desta vez era diferente. Ele quis saber o que havia. Deixou o moleque a falar e caminhou determinado até a rua. Já podia distinguir alguns sons. As pessoas davam vivas, cobriam com seus próprios mantos o caminho por onde passava aquele forasteiro. Era surpreendente a quantidade de pessoas que o cercavam, evocando o nome de Deus e dando glórias e Hosana. O comerciante pensou logo que o melhor era baixar as portas do seu estabelecimento, uma vez que aquele bando miserável devia estar faminto e, apesar de não estarem armadas, não causaria espanto se aquelas pessoas decidissem saquear tudo o que vissem pela frente. Entusiasmo para tanto parecia não faltar.
Movido por esses pensamentos, voltou-se para o armazém, mas antes que pudesse dar mesmo o primeiro passo, paralisou-se, com um frio na espinha. O que via na porta do seu estabelecimento era incompreensível para ele. Parada no primeiro degrau da escada, vestida com uma sandália de couro fabricada ali mesmo na cidade, usando um vestido puído e segurando com as duas mãos um grosso livro, estava sua filha. Seus sentidos faltaram-lhe por alguns instantes. Pensou estar confundindo-se, pois a filha não estava vestida assim há alguns minutos. Refeito do mal-estar, certificou-se de que era mesmo sua menina. Caminhou até ela sem de fato entender o que acontecia:
- Meu pai,vou seguir Jesus.
Aquelas palavras não faziam sentido para ele. “Seguir Jesus para onde?”, perguntava-se.
- Meu pai, toda a sua vida tem sido uma incessante luta para conservar e multiplicar o ouro que acumulastes. Hoje, quando vi aquele jumentinho carregando no lombo aquele homem, pensei que talvez a vida tenha mais sentido se for vivida para conservar e multiplicar algo mais leve. As bonecas sempre agradaram meus olhos, meu pai. Os chinelinhos sempre reconfortaram meus pés e as correntinhas fizeram de mim uma bela moça. Mas quando hoje o moleque repetiu as palavras de Jesus, estive certa de que o único adereço capaz de me fazer sorrir é uma borboleta em meus ombros. Adeus, meu pai.
Betty Vidigal: Bonito, poético. Essa frase
final da menina não é convincente: está muito certinha, empolada (“incessante
luta”, por exemplo), e ao mesmo tempo muito errada (ex.: sua
vida/acumulastes). Nota 8.
Marco Antunes – O autor precisa estudar um
pouquinho as características do conto e da crônica para não voltar nas próximas
semanas, se continuar na disputa, a produzir contos. Muitas vezes o limite
entre um gênero e outro é mesmo tênue, mas existe e aqui não resta dúvida, é
mesmo conto! Onde está aquela (que pode ser até sutil) interferência da visão
do autor que é o melhor pedigree da crônica? Mas esta semana combinamos que
seríamos bonzinhos e não crucificaríamos ninguém por desvio de gênero, mas é
mesmo só dessa vez. Quanto ao texto, fora os erros de português, percebe-se um
certo talento narrativo mal usado, pois o resultado é piegas e candidata o texto a se tornar uma daquelas
histórias da revista mensal da Congregação
Mariana: que são bonitinhazinhas, mas clichês e sem inspiração. Nota:
6,0
Lorenza Costa: Foge completamente ao
gênero. Como conto, ainda que um pouco previsível e nada convincente na
caracterização da época, mereceria uma nota maior. Nota 6,5
Luci Afonso – Está mais próximo do conto e apenas resvala
no tema proposto. O final é abrupto. Revisão ortográfica e gramatical. Nota:
7,8
Oswaldo Pullen Parente - Boas descrições e encaminhamento. O texto
está mais, no entanto, para um conto e, apesar do inverossímel da presença de
livros e da gratuidade da borboleta, mantém o interesse do leitor. Nota: 8
Cida
Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa
Nota
Total: 36,3
Crônica 4
Jerusalém em seu tempo – Luís Mazzaro
A reportagem no jornal me faz parar no título e começar a pensar. Afinal, já se tem aí uma dúvida: no tempo de quem? Sim, pode ser no tempo da Cidade Santa, no atual cenário conturbado e suas relações com o passado ou, em outra visão, esse “seu tempo” pode ser o meu, o nosso, o tempo do leitor.
Essa é a capacidade que as grandes cidades, grandes no sentido histórico e carismático, têm de mexer com a gente. Parecem acumular História e, de quando em quando, liberá-la em ventos ou suaves brisas (lugar comum) pelo momento presente, deixando partículas do que passou, para tornar um pouquinho diferente o que está aí e, quem sabe, mudar o que está por vir. (ótima frase) É um movimento mágico Criador versus Criatura, a cidade mudando as pessoas, que então mudam o que vêem da cidade e mudam...a própria cidade.
Jerusalém no seu tempo, no tempo dela, sofre com divisões, físicas ou intangíveis. Sofre com bombas e tiros, que ecoam pelos prédios e por todo o Mundo, diariamente. Sofre por mentes emperradas e corpos endurecidos. Mas sua complexidade e aparente falta de soluções condensa, talvez, de forma quase única no Planeta, em um só lugar, História, questões sociais e filosóficas e derivações religiosas que atravessam vertiginosamente várias estradas que, vez por outra, se cruzam rapidamente mas não terminam nesses pontos de reunião.
Jerusalém, no tempo de quem lerá a reportagem em que parei no título, causa preocupação, angústia e incerteza. Ou mesmo indiferença de quem está longe dela. Aparentemente longe de seus problemas mas tão perto deles. Causas diferentes por lá e cá, ali ou acolá. Intolerância, preconceito e violência tem as mesmas consequências mesmo quando nascem de fontes diversas. As reflexões de quem está por lá, no olho do furacão e busca uma solução, podem coincidir em boa parte com as de quem está em frente à folha do jornal e poderá, ao fechá-lo, passar por outros vendavais, com os mesmos sons de balas, pedras ou gritos agressivos.
Mas, agora,
penso em outra interpretação dentro do pequeno título da reportagem. Se não
sabemos bem de quem é o tempo, se de Jerusalém ou do leitor, fica difícil
também saber quando é esse tempo. Cidades com rica e extensa História também
têm esse poder. Podemos escolher um certo tempo nos muitos séculos de Jerusalém
e dele tirar muitas observações. E, no tempo de cada um que se propõe a esse
pensar, poderá ele encontrar um reflexo de Jerusalém, ainda que disso não se
apercebesse até esse mágico momento. Orientações religiosas e suas
controvérsias pessoais de nossa infância e juventude estarão lá, certamente,
Jerusalém é assim. Como o Jesus que deixou sua marca na História de lá e de todos os lugares, a Cidade é Senhora e Servidora. Se muitos a fizeram e fazem a cada instante, ela é também nossa criadora, pois trazemos um pouco de seu ar, respirado no primeiro momento em que nascemos. Temos partes de você e você parte de nós, em relação carnal que se entranha a cada instante.
Alguns podem dizer que Jerusalém mudou e não foi para melhor mas, afinal, nada existe de permanente a não ser a mutação. Pequenos demais, quem somos nós para compreender sua mudança de feições e cenários, os atos do teatro permanente no palco dos limites da Cidade? Talvez mudamos nós para pior e transferimos nossas angústias para o retrato da cidade. O retrato pintado com alma já não é do modelo e sim do artista. E como andará nossa alma, se já não a enxergamos na Cidade?
- É ilusão a sua História... dirão as almas de pedra, estátuas que ocultam os verdadeiros monumentos da Cidade. - Nada mais triste que a morte de uma ilusão... responderei do alto de outro monumento que levantarei em alguma praça ou bem nas pedras dos muros de Jerusalém, para defesa contra os que não enxergam a sua magia. Se já tentam me arrancar do coração Jerusalém, para voltar às outras notícias do jornal, eu grito: não arrancarão Jerusalém do meu coração!
E se a Arte é uma colaboração a quatro mãos entre Deus e o artista, lá se tem a Cidade-Arte. O espírito não se engana e não pode envelhecer. Está na cidade-parceira que nos renova e que renovamos com ciúme de nós mesmos.
Nem leio mais o jornal, esqueço a reportagem e saio às ruas. Esqueço o jornal mas não esqueço de Jerusalém, do seu e do nosso tempo, de suas lições e de sua História e, principalmente, da maior de suas experiências e vivências: a de ter, nas suas pedras e na sua poeira, ainda um pouco de seu maior passante, um dos maiores da Humanidade, origem e solução, afinal, de seus problemas...
Betty Vidigal: Muito bem escrita, muito
erudita. Pro meu gosto, um pouco ‘chata’, por não ter estorinha nem defender
algum ponto de vista polêmico. Nota 9.
Marco Antunes: Temos aqui uma crônica
legítima, mas... Impressionou-se o autor com o título do Desafio e desprezou a
provocação central, como, porém, esta semana, estamos advertindo para depois punir, vou preferir destacar o ótimo
texto e suas qualidades indiscutíveis.
Nota 9
Lorenza Costa: Acho que a crônica não
responde diretamente ao pedido do editor (por isso a nota baixa), mas ele
acabaria por publicá-la e muitos leitores se dariam por satisfeitos (como eu).
Nota 8,5
Luci Afonso – O autor analisa o significado da cidade de
Jerusalém e do tempo, sem narrar o fato pedido no desafio. Nota: 8,8
Oswaldo Pullen Parente -
Falta leveza ao texto, o qual é contaminado também por um lirismo
desnecessário. Nota: 7
Cida Sepúlveda
julgará a partir da 3º etapa Nota
Total: 42,3
Crônica 5
Por ela – Ana Faria
Brasileiro é
mesmo uma praga: tem sempre um ao seu lado, esteja você vivendo na China ou
O Nazareno
chega e todos se calam, esticam os pescoços para vê-lo melhor. Estou aqui para
cobrir o fato, mas confesso que o magnetismo da personalidade desse novo Jesus
excita a mim também. Ele não tem nada de extraordinário fisicamente, mas sua
presença é algo extremamente atrativo. O Messias do século XXI, contudo, não é
lá tão humilde como um carpinteiro – filho de um empresário israelense, estudou
Economia na França e tem mestrado
Homens,
mulheres e crianças, eufóricos, vestindo só a parte de baixo de suas roupas
correm para a entrada do templo, que se fecha assim que o Messias entra no
recinto. Aparentemente, ele não falará à multidão hoje – tem um encontro com os
líderes do G-20, para os quais discursará sobre solidariedade, compaixão e
controle do mercado financeiro. Espera-se que consiga convencer Sarkozy de que
o Panamá não é um paraíso fiscal. “Amanhã”, diz alguém que se denomina assessor
do Nazareno, “Amanha ele falará a vocês.” A multidão exulta. Alguns choram. Os
estranhos se abraçam, seminus, sem o pudor que a civilização judaico-cristão
ocidental (e de quebra, a islâmica centro-oriental) os
lhes incutiu desde a infância. Muitos dizem:
estamos libertos! O corintiano chora por não ter conseguido ter
sua estátua abençoada, mas crê que Ronaldo há de se curar para sempre, só
porque o Messias havia pisado na camisa onde se lia “Gaviões da Fiel”. As
crianças se engalfinham de novo. A senhora desbocada jura que nunca mais dirá
um palavrão e a filha agradece aos céus pelo milagre. O judeu ortodoxo parece
feliz como pinto no lixo, diante de tantos corpos femininos quase nus. O senhor
que falava sozinho grita Hosana! Hosana! e o bêbado... está parado no mesmo
lugar onde estava desde que o vi pela primeira vez. Está vestido e tem um bafo
de whisky insuportável. Aproximo-me dele e pergunto o que estava fazendo. Com a
voz emplastada, ele me diz: “Ah, dona, eu só queria conhecer essa mulher aí que
o povo diz que aparece quando o cara do elefante passa por aqui. Essa tal de
Rosana....”
Betty Vidigal : Excelente, convincente,
cômica, crítica. Daquelas que provoca
fúria
Marco Antunes: Divertido e eficiente, o tom
crítico é, precisamente, o atestado da crônica, valendo por comentários do
autor, tudo divertido, tudo bem realizado e bem expresso. Nota 10
Lorenza Costa: Com um Jesus formado em
Harvard e a presença da praga corintiana, o jornalista bem poderia ter passado
sem a infame piadinha final. Nota 9,3
Luci Afonso – Muito divertido, só falta um final mais
elaborado. Revisão ortográfica e gramatical.
Nota: 9
Oswaldo Pullen Parente -
Beira o nonsense. Mantém a leveza e informalidade até ao final. Se
contradiz em um ponto, mas no todo segura o interesse do leitor. Nota: 9
Cida Sepúlveda
julgará a partir da 3º etapa Nota
Total: 47,3
Crônica 6
Ei-lo: o Messias de Jerusalém – Ana Marques
É Páscoa! A comemoração se espalha por toda a cidade. O cheiro de sangue misturado à poeira. Odor de gente misturado às palmas nas mãos de todos. Rapidez, caminhadas, oferendas, festa!
E um novo messias bate à porta de Jerusalém.
Ironizando todo o festejo e pompa, em um jumento adentra a cidade.
Ei-lo: o Messias: auto-intitulado O filho do homem. Eis que finalmente está entre as pessoas de seu povo para que todos possam segui-lo e observar seus prodígios.
Ei-lo: o Messias. O que tantos milagres operou sobre a Terra. O que veio ao encontro do próprio destino.
Não era para haver fausto ou circunstância em sua entrada. Nem para existir pessoas que o esperassem. Seu tapete vermelho foram as roupas daqueles a quem acenava com a libertação, jogadas aos pés do asno. Os altos sacerdotes não se dignaram a saudá-lo, dessa forma a festa popular o acolheu.
Ei-lo: o Messias.
Quer seja para sempre. Quer seja por uma Páscoa.
“Hosana nas alturas” – clama o povo nas ruas.
“Hosana nas alturas” – clamam os seguidores que vieram com ele desde a cidade de Bethânia.
É Páscoa e não por acaso aquele que é conhecido como o Filho do Homem entrou na cidade. Aclamado por seus discípulos, aclamado pelos habitantes e visitantes da cidade. Amado, ou quase, por todos os que agitavam palmas à sua passagem. Compreendido por poucos, santificado por muitos. A multidão concentrava novas multidões para glorificá-lo. Ninguém precisava exatamente compreender o Messias que seguia montado no jumento, bastava a eles que o sacralizassem enquanto sua passagem despertava interesse e fazia da festa uma “comemoração” ainda maior.
Ei-lo eivado de homenagens do populacho, recebido pelos braços sofridos e mal alimentados. Ei-lo recebendo homenagens da prostituta, da criança, do comerciante e do ladrão.
Ei-lo entrando, observado por milhares de olhos sedentos de novidades, de compaixão, de esperança.
Comentava-se quem seria? Qual seu propósito? Diante da ignorância de seus motivos, ei-lo festejado pela festa em si, mais um componente apenas, um novo rosto a se adorar, novas palavras a se beber, mais significados perdidos nas areias desérticas.
Ei-lo: o Messias. Pleno de conhecimento. Amando cada um dos rostos que não lhe prestam atenção ao encararem-no tão de perto.
Ei-lo: o Messias. Repleto do incondicional amor aos filhos do pai de todos.
Ei-lo incompreendido pela urbe, negligenciado pelos fortes, trazendo em suas mãos e vestes a aura de aceitação somente acessível aos iniciados. Trazendo em seu coração a pureza de suas intenções, a resignação de uma vida, a tristeza do descrédito.
Dizem que sua vinda findará nessa visita. Que sua entrada para a terra prometida de Jerusalém será sua saída direta para os braços daquele que chama de PAI.
Dizem que
suas mãos milagrosas ressuscitam pessoas, curam leprosos, transformam água
Dizem que seus sermões são purificadores. Aqueles que o ouviram falar mudaram sua vida, mudaram seus conceitos, mudaram sua alma. Como o alquimista mais habilidoso, ele pode transformar o chumbo desesperador de almas mesquinhas em ouro polido de uma nova consciência.
Dizem que ele não deseja riquezas, mulheres ou beleza. Que sua busca se encontra além deste mundo e que o reino do qual será rei pertence ao espírito eterno.
Dizem que seu reino é imenso e todos que aprenderem a amar estarão neles. Que aprenderem a amar a todos, a si mesmos, uns aos outros como ele amou a todos.
Dizem que ele perdoa antes de acusar. Dizem que ele ama antes de julgar. Dizem que ele compreende antes de castigar.
Quase nada sabe-se do Filho do Homem, exceto aquilo que dizem, que sussurram e que inventam. Qual a fronteira entre a invenção e a realidade de sua existência?
Não se sabe.
Mas eis que adentrou a cidade, pronto a revolucionar todos os conceitos ligados a ela, o homem: o Messias de Jerusalém.
Betty Vidigal :Poético, bem escrito, um
tanto convencional. “É Páscoa! A comemoração se espalha por toda a cidade”
entra na categoria “É Natal! Bimbalham os sinos”. Pelo estilo lírico e pelo
Português correto, 10. Pela capacidade de divertir e surpreender com a leitura,
6. Nota 8. (crônica tem que ser divertida...)
Marco Antunes – Inteligente o recurso de
mostrar diretamente o messias como quem se exime de opinar, mas vai opinando a
cada passo. Construção de surpreendente delicadeza e refinado senso estético,
nada óbvio, estilo sutilíssimo que obriga o leitor a colher nas entrelinhas.
Esse penúltimo parágrafo como resposta à pergunta imediatamente anterior seria
desestimulante se ainda não guardasse o autor uma última surpresa para o leitor
nesse mais que hábil comentário final. Soube aproveitar a carta do editor e
prever que a solução pelo humor seria predominante e fugiu pela sugestão de
lirismo. Nota 10
Lorenza Costa - O cronista demonstra muitos
dons proféticos para alguém que acabou de testemunhar a chegada de Jesus, e uma
ou outra pessoa, como esta aqui, pode achar o estilo pomposo demais. Mas
continua a ser um bom texto. Nota 9
Luci Afonso – O texto narra o fato com reverência, quase
numa prece. Revisão ortográfica e gramatical. Nota: 8
Oswaldo Pullen Parente - A repetição dos termos “Ei-lo” e “Dizem”
cansa o leitor. Está mais para a apologia e o proselitismo do que para a
crônica. Nota: 7
Cida
Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa
Nota
Total: 42
Crônica 7
Um muro de intransigência – Joaquim Lopes
O que
aconteceu esta manhã conta-se em poucas palavras: um lunático entrou em
Jerusalém vindo da Cisjordânia, acompanhado por um pequeno grupo de adeptos
determinados. Devem ter passado, dispersos, as barreiras militares do muro,
para não levantar suspeitas do Tzahal. Chegados às imediações da cidade, o
líder mandou dois discípulos buscar[3]
uma burra, que estava presa não muito longe com a sua cria. Quando a trouxeram,
os discípulos aparelharam-na com simples panos, ele montou-a e assim entrou
O episódio foi ignorado por quase todos os correspondentes estrangeiros, devido ao seu carácter[5] irrisório e quase anedótico.
Quem me relatou os pormenores deste caso foi um homem de nome Zaqueu que, por ser pequeno, trepou a uma palmeira e assistiu a tudo. Disse-me que o chefe do grupo nasceu na Galileia, numa aldeia chamada Nazaré, actualmente ocupada por Israel. Viu a terra, que ele amou na adolescência, ser colonizada aos poucos por gentes vindas de várias partes do Mundo e tornou-se um revoltado. O seu carácter meditativo não o atirou, porém, para os braços da OLP ou do Hamas. Formou, porém, um grupo de activistas pacifistas que pretende, através da persuasão e de acções não violentas, consciencializar [6] os habitantes de ambos os lados para a necessidade de se aceitarem mutuamente e partilharem o território em dois estados irmãos. Diz ele que não faz sentido que Israel queira reconstituir o estado com o mesmo território que dominou nos tempos áureos, mas que foi desmembrado há mais de dezanove séculos. Essa pretensão, diz, é tão absurda como os Árabes quererem reconstituir o califado de Córdoba no território da Península Ibérica, extinto, também, há séculos, ou o povo Inca tentar reanimar o seu antigo império destruído pelos Espanhóis ou os descendentes dos Cátaros reivindicarem o Languedoc para reorganizarem a sua religião. Mais inaceitável ainda seria que qualquer desses grupos organizasse um exército e começasse a expulsar os habitantes actuais desses territórios, recorrendo ao morticínio se necessário. Avesso à violência, também condena os actos de intolerância dos palestinianos para com os ocupantes, mas compreende o seu desespero. Diz ele, falando aos que param a ouvi-lo:
– Um homem plantou uma vinha, cavou-a, tratou-a, construiu-lhe um lagar e uma adega. Um dia, vieram uns lavradores e propuseram arrendar-lhe a vinha. Assim se fez, mas quando o dono da vinha enviou emissários a recolher a renda, estes foram apedrejados, feridos e alguns mortos. O mesmo fizeram ao filho do dono da vinha, cuidando apoderar-se definitivamente da herança dele. Agora, dizei-me compatriotas, quando vier o dono da vinha, que fará ele àqueles lavradores?
Com exemplos propícios à reflexão, como este, vai tentando mostrar que a outra parte também tem a sua razão.
Parece ser muito sagaz, embora idealista. O episódio de entrar em Jerusalém a cavalgar uma burra parece ter sido preparado meticulosamente para corresponder à profecia de Zacarias (Zc 9,9): «Regozija-te ó filha de Sião. Eis que vem a ti o teu Rei, justo e salvador. Ele é humilde e vem montado numa burra, e sobre o potrinho da burra.» Nicodemo, um membro do Knesset, que acedeu a comentar o episódio, é da opinião que esta entrada messiânica em Jerusalém foi uma estratégia pensada para chegar aos judeus mais conservadores. Aparentemente, esta mensagem visual não passou, apesar da relativa algazarra que os jovens militantes anti-guerra produziram durante todo o percurso da comitiva até à esplanada do Muro das Lamentações, onde muitos judeus fanáticos cabeceavam a afirmação dos seus preceitos religiosos. Aí, talvez por não ter tido a atenção que esperava, começou a gritar palavras de ordem em aramaico, a plenos pulmões, provocando os orantes, enquanto puxava as melenas a uns e desbarretava outros, sempre numa atitude de grande irreverência e insolência. O burburinho foi imediatamente detectado por uma patrulha militar que, com grande eficiência bélica, o intimou a parar. O homem, (sem vírgula) não só não parou, como começou a apontar a mão estendida para os soldados, com dois dedos unidos levantados. Não se sabe se os soldados entenderam esse gesto como agressivo, ou se simplesmente não toleraram a desobediência; certo é que alguns disparos foram ouvidos e o nazareno caiu com a túnica ensanguentada. Morreu pouco depois no hospital. Os companheiros foram presos e estão acusados de alteração da ordem pública, que poderá, eventualmente, evoluir para traição. Só então as agências noticiosas se movimentaram e conseguiram comprar uma gravação de telemóvel feita por um turista.
Este episódio
é bizarro, mas estará esquecido
Betty Vidigal - Muito bom. Assim como na ‘crônica
Marco Antunes – Está aí uma crônica m estilo mais português
que brasileiro. O autor é ótimo, o estilo provocativo, contido por um rigor que
mais atrapalha que ajuda. Um pouco mais de ousadia teria sido a resposta
perfeita ao desafio. Nota 9,5
Lorenza Costa - Uma ressalva apenas: quando
o cronista é sisudo, só o lê com prazer quem concorda com ele. O autor parece
ter potencial para provocar também (sem ter provocado agora) aquele deleite
literário, puramente estético, que não se explica nem se ensina. Nota 9,9
Luci Afonso – Abordagem irônica e lúcida do tema, em
texto refinado. Sugiro apenas a substituição de palavras repetidas na mesma
frase.Nota: 9,2
Oswaldo Pullen Parente - Na medida em que é opinativo, o texto tem
conferidas as suas características do gênero solicitado. No mais, boa
imaginação, com um desfecho talvez repentino. Nota: 8,7
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota
Total: 46,3
Crônica 8
A curiosidade adiou a fome – Leo Borges
Eu confesso que
só percebi o tumulto quando um sujeito desastrado derrubou meu prato com kebab
no Al-Essawi, no meu ponto de vista, um dos melhores a havia pouco tempo na Palestina, ainda estava
tentando entender o que poderia ser. Israel bombardeando o local? Improvável.
Até porque a situação na Faixa de Gaza havia se estabilizado. A última notícia
que ouvira sobre um homem-bomba se explodindo em cima dos militares judeus
havia pelo menos três semanas, e mesmo este cidadão não ganhou muita notoriedade,
haja vista que conseguiu a façanha de não levar ninguém com ele para o tal
paraíso das virgens.
A turba se formou, pelo que pude perceber, por conta de[8] um camarada que vinha ao longe montado num parrudo elefante de belos marfins. Se fosse só isso a confusão não teria muito sentido, já que não é algo tão incomum no Oriente Médio pessoas usando tal animal como meio de transporte. Perguntei para o camarada que havia derrubado meu espetinho de carne no chão o que, de fato, estava criando aquele estardalhaço. Ele falou, num misto de apreensão e desconfiança, que se tratava do Messias.
Bom, Messias por Messias eu conheço pelo menos dois. O Messias que morava na Siqueira Campos, na divisa com a Ladeira dos Tabajaras, inclusive, me passou um cheque sem fundo quando comprou meu notebook. O borrachudo era a cara dele mesmo, do tipo “Jesus, um dia ele volta”. O cheque eu não vi mais, mas o Nazareno, pelo jeito, estava a caminho.
É claro que
encarava aquilo como uma grande gaiatice, afinal, o mundo está repleto de
Filhos de Deus de todos os gêneros. Apesar da fome – não ia me voltar à
refeição com uma boa novidade acontecendo – eu curtia. O que eu estava gostando
ali é que, de algum modo, o homem sobre o elefante estava conseguindo o intento
básico para quem quer ser Messias: chamar a atenção. E mais que isso, ele já
estava criando forte comoção em algumas mulheres. O anúncio nos alto-falantes
da avenida principal era enfático e não deixava dúvidas quanto a isso:
“Atenção! Atenção! As mulheres devem recolocar suas roupas imediatamente!”. (LOL)
Alguém que consegue isso pode até não ser o Messias dos livros sagrados, mas que já angariou toda a minha admiração, sem a menor dúvida. Artistas como os do Largo da Carioca, no Centro do Rio, sempre me fizeram pensar que a vida é mais do que pura rotina. Um evento mambembe como esse, que desperta paixões, é sempre interessante pelo ponto de vista do desvario que ele consegue.
Uma aclamação sub-reptícia que fechava em “...ana, ...ana” ficava mais forte à medida que o camarada, vestido de branco e com barba comprida marchando sobre um bem adornado elefante, chegava mais perto de onde eu estava. Achei mesmo que o público gritasse algo como “Hosana, Hosana”, de modo semelhante ao que o padre lia nas missas: “Hosana nas alturas”. Fiquei na dúvida, porque o número de cristãos ali era ínfimo e a cântico não parecia ter muito sentido dentro do contexto.
Foi então que percebi que o brado era “Rosana” e não “Hosana”. Quem seria Rosana? Tentei perguntar para o atabalhoado do empurrão no prato de kebab, mas esse já havia sumido. O povo cantava, vibrava ao seu modo, e minha dúvida só aumentava. Sabia que o nome Rosana vinha de algo como “rosa graciosa”. Mas não seria essa simplória resposta a solução para tamanho agito. Poderia ser a Rosana Bond, uma interessante escritora que narrou com emocionante minúcia os conflitos entre palestinos e judeus. Mas também era incongruente um pensamento literato como esse.
Foi quando alguém levantou alegremente a foto do elefante. Talvez fosse isso! Rosana era o nome do elefante, o ilustre protagonista do festejo. Sabe-se lá o grande feito que ela teria protagonizado ou mesmo qual seria a interligação – além da empírica, carregador e carregado – desse mamífero com seu condutor, considerado o Redentor pela alcunha que detinha. Pedi um outro kabeb[9], pois com o fim do mistério, mesmo que não fosse esse, eu ainda estava com fome.
Betty
Vidigal: Excelente. Nota 10.
Marco
Antunes – Incrível a tentação a que a maioria sucumbiu de trazer a história
para os dias atuais para provocar humor, era uma solução tão previsível que,
claro, prevaleceu! Esta crônica é bem escrita e tem algum humor, mas não
empolga. Nota 8
Loreza
Costa: Durou pouco a
curiosidade do cronista. Ficou mais parecido com um desses turistas acidentais,
sempre de passagem e loucos para voltar para casa, sem a menor intenção de
entender os lugares e as coisas vistas. (Por favor, "estava há pouco tempo
na Palestina". Um erro assim logo no começo causa a pior impressão.) Nota
8
Luci Afonso – Texto leve e engraçado, mas falta revisar
erros gramaticais, pontuação, repetições desnecessárias. Nota: 8,8
Oswaldo Pullen Parente - Texto leve e bem humorado. Fiquei confuso com
a verdadeira localização dos eventos. Nota: 8,7
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 43,5
COGNATO – João Guimarães
Crônica 9
incorrendo na possibilidade de abusar da paciência dos caros leitores, de os alienar à partida e de ficar sem público para o que resta desta minha missiva, permitam-me começar este relato com uma ressalva: na palestina nada de novo.
as notícias que vão correndo sobre a chegada de um novo messias, do “tal” salvador que o pobre povo espera e desespera não são mais que pura ficção. todas as semanas aparecem novos pretendentes ao trono do filho Dele. e todas a semanas são desmascarados como vulgares usurpadores baratos de personalidades alheias. o maior impedimento para o sucesso dos seus estratagemas prende-se, sobretudo, com o facto de não haver informação segura de como será esse ser supremo de amor e perdão, que virá a todos salvar das suas pequenas vidas miseráveis.
apenas se passa de boca em boca, há demasiado tempo para a informação ainda ser fiável, que o filho do Criador há-de vir e que quando vier quem nele acredita será salvo e terá uma vida melhor. mas que o caminho dos fiéis é longo e tortuoso e que a salvação reside na abnegação e na vida humilde, na aceitação da condição de casta menor, de servidão humana deplorável aos senhores desta terra, dos quais depois o filho do Pai se há-de vingar por todos.
tudo muito bonito e muito poético, tudo muito verde esperança. tudo muito bem elaborado. porque é um trabalho de labor aquele que tem sido feito ao longo dos séculos na preservação do mito desse jovem sensível e bem falante, justo e carinhoso, que um dia há-de vir.
as mentes
mais iluminadas já perceberam o esquema. esse salavador
não passa de uma lenda inventada por roma para manter a plebe calma. enquanto
oram e desenham novas preces, riem-se os altos mandatários de roma e os 11
juízes soberanos. quem está anestesiado não estrebucha.
quando a vida nos corre mal, é bem mais fácil culpar o exterior pelas nossas falhas. quando aquilo que fazemos transforma a nossa vida em algo bem menos interessante do que o que esperávamos ou do que nos prometaram os nossos pais ou os nossos pregadores, quando estamos num beco sem saída e não há futuro brilhante à vista, quando não temos solução em perspectiva, quando há que atribuir razões para tudo isto, a culpa é sempre de outro. e é assim, caro leitor, que vamos andando na palestina.
se somos pobres é porque Deus quer, se não temos boas casas é porque Deus quer, se os nossos filhos nascem, crescem e morrem escravos é porque Deus quer, se ainda não é nesta geração que somos salvos é porque Deus ainda não quer. não! Deus quer, Deus está para nos salvar, é esse o seu único propósito de existir. Ele criou a terra e o homem, deu-lhe o pecado original e todos os outros sucedâneos. deu-nos as infracções que haveriamos de cometer e as regras impossíveis de cumprir com o único propósito de, posteriormente, nos vir salvar. ele há-de vir. nada disto é culpa nossa, se seguirmos os seus ensinamentos, transmitidos por inúmeras interpostas pessoas, um dia ele há-de vir.
e é assim que vão vivendo estes pobres seres. vivem da ignorância de não querer saber mais sobre si, deixando o seu destino nas mãos de um lorde que nunca viram, que regula todas as suas acções, mas que nunca se deu sequer ao trabalho de lhes permitir um simples cruzar de olhos, quanto mais um olá ou, hipótese ainda mais remota, um filho redentor.
aquilo que já sabemos também (de fonte segura e anónima), e que este vosso vos conta em primeira mão, é que há uma revolta prestes a estalar. um grupo de patriarcas informados, inconformados com a sua situação e com as eras de espera que não passam, resolveu tratar do assunto por si mesmos. se Deus existe, ele há-de querer o melhor para os seus filhos e, mesmo encarando a possibilidade de encarar a sua ira, desenharam um plano.
o salvador, filho do Pai dele, há-de ser filho de um homem comum, quanto mais comum melhor. escolheu-se um carpinteiro, profissão imprescindível, honrada e pouco letrada. convencido o filho do homem que é filho de Deus, porque a prosápia é um dom terreno que se treina, e treinados estão os patriarcas, entra este em campo, qual louco alucinado, a anunciar-se como a boa nova que todos esperam. o povo, desejoso da mudança, acredita. e acredita ainda mais quando são os seus próprios lideres a legitimar-lhes a escolha.
o sistema em vigor é de hierarquia piramidal. se Deus não aparece para confirmar o envio da encomenda, o mandante directamente abaixo tem o poder de falar em seu nome. e assim fizeram os organizadores deste embuste.
e é assim que, neste dias de alarido, vemos o povo num lufa lufa a preparar-se para ser salvo. o jovem, que josé carpinteiro chamou de jesus, está nas suas sete quintas. é carregado em braços e até já tem uma equipa de 12 aprendizes de feiticeiro que o seguem para todo o lado, acolitando as suas supostas actividades milagrosas. jesus, acredita piamente que tem poderes sobrenaturais. jesus não sabe que os mandantes desta farsa congeminam ao pormenor cada passo do seu dia, com a ajuda de uma dos deus doze acólitos, judas, o espião infiltrado. onde haverá um milagre, lá estará alguém preparado para dizer que começou a ver, a andar, que a lepra desapareceu, que a fome passou. começou recentemente a circular o boato que, imaginem, o jovem jesus haveria transformado água em vinho. ora se os ensinamentos de seu suposto Pai mandam o crente abster-se da pinga, haveria seu filho de promover o alcoolismo?
bom de ver, acreditem, é o efeito destes seus feitos na feições deste povo antes oprimido. o processo iniciado pelos patriarcas, de perfeita capacitação, está a dar os seus frutos.
o próximo passo, dizem os nossos informadores, é a criação de um livro de regras, escrito a várias mãos, num estilo entre o romance histórico e a ficção cientifica, que faça perdurar o exemplo deste processo no tempo e que permita a outros replicar o seu efeito.
daqui de jerusalém sairá apenas o exemplo de como a fé, apesar de ôca e ficcionada, move montanhas.
Betty Vidigal: Nota 10.
Marco Antunes: Um texto corajoso, a adoção
desse incréu como o cronista que nos fala é um achado ficcional a justificar
sua cacetíssima análise sócio-antropológica. O autor parece português, não sei
se chegou a conhecer a famosa “filha de Fumanchu” (no dizer de Caetano Veloso)
conhecida por Paulo Francis, mas, se não o conheceu, certamente o incorporou
mediunicamente!. Nota 10
Lorenza Costa: Perfeito no ritmo, na
escolha do tom, no domínio da técnica, no recurso inicialmente irritante à
letra minúscula para tudo que não seja "deus". Uma aula. Nota 10
Luci Afonso – Texto irônico e perspicaz, de agradável
leitura. Não entendi o uso das iniciais minúsculas. Nota: 9
Oswaldo Pullen Parente - O texto oscila
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 48
Crônica 10
A Profeta – Jeanne Maz
Hoje tive um sonho no mínimo bizarro (lugar comum: tem 13.600 no Google. Sem aspas, tem 102.000):
senti-me ser transportada para as ruas de
Jerusalém, não a antiga mas sim a Jerusalém de hoje. Estava na Igreja do Santo
Sepulcro quando me aparecia uma adolescente esguia, de cabelos castanhos
compridos, que se dizia ser a próxima profeta da humanidade, aquela que era
esperada para salvar o mundo.
Parei perplexa num sorriso que já começava ensaiar. Indecisa estava entre sair correndo ou procurar alguém que a acompanhasse à sua casa, pois só podia ser uma louca e ainda estava perdida, com certeza. Mas sabe como é sonho, né? Não temos controle de nada e ela sem se fazer de rogada começou a me passar o filme todo.
Dizia que se havia uma ínfima chance de resolver este conflito religioso que tem foco maior em Jerusalém, mas com teias disseminadas por todos continentes, seria nascendo um filho de Abraão - quis dizer um ultra tatataraneto, claro - que unificasse todas as três maiores religiões monoteístas numa só religião.
E ela me explicou em detalhes como se daria o fato. O Judaísmo espera a vinda do Messias que representará Jeová. Então não vai achar estranho se surgir esse outro Moisés, digo uma outra Messias. Os Cristãos, do seu lado, esperam a volta de Jesus Cristo e acostumados com a Santíssima Trindade e com Maria irão aceitar até mais facilmente essa Cristo (é que Crista fica esquisito, e nos remete a outras estórias...)
O problema é no Islamismo, né? mas ela frisou que não seria impossível. Tudo bem que Maomé há uns 1380 anos afirmou que ele foi o último e o maior dos grandes profetas, seguindo Adão, Noé, Abrão, Moisés, Davi e Cristo. Mas ele falou "o último" e nós estamos falando da "última", que é primeira também.
Ela é filha de uma islamita sunita para facilitar, já que os sunitas correspodem a 85% dos mulçumanos e são menos radicais que os xiitas. E para não haver contestações a mãe é oriunda de Meca, mesma cidade em que nasceu Maomé no ano de 570. Sendo a mãe de família abastada, rebelde de carteirinha, teria ido estudar Arquitetura em Jerusalém.
O pai da criança um judeu, filho de um proeminente rabino, cuja família morava em Jerusalém, desde 1948, na época do em que os judeus, pelo acordo da ONU, assumiram 55% do território da Palestina e fundaram o estado de Israel. Eles, os legítimos descendentes do Rei Davi, migraram de várias partes do mundo para a "Terra Prometida".
E aqui já começa a complicar a história com um segredo. É que a esposa do rabino era cristã ortodoxa, sobrinha de arcebispo, filha de uma família tradicional cristã que remonta à época de Jesus Cristo. Mas foi convertida ao judaísmo quando casou.
E aí foram criadas as condições necessárias para a concepção de uma herdeira dos três reinos de Abraão. Os dois jovens se conheceram quando estudavam, na aula de arquitetura, a Mesquita, considerada por muitos a mais bela construção de Jerusalém. Enquanto o professor explicava, que ela foi construída em 691 para abrigar a grande rocha, que foi palco da ascensão do profeta Maomé ao paraíso e que durante alguns anos foi mais venerada pelos mulçumanos do que Meca e Medina, o casal jovem não ouvia mais nada.
Após a aula se apresentaram e marcaram um encontro na praça que fica defronte o Muro das Lamentações, onde naquele momento vários judeus rezavam. E os dois se conheceram e se apaixonaram. E o casal de Romeu e Julieta pós-moderno se casou.
Um ano de casamento e nasce então a linda menina, gorducha, que o pai, ainda na maternidade, percebe ter um sinal semelhante a Estrela de Davi, ele quase sem fala corre para contar ao avô que aceita a menina judia e desde então resolve ensiná-la o Torah.
Quando a mãe restabelece um pouco do parto e vai dar o primeiro banho na menina, percebe no ombro esquerdo uma mancha cognoscível: a Estrela de Ali. É a chance que ela queria para ligar para os seus pais. Toda família se regojiza com essa menina que nasceu na mesma cidade onde Maomé subiu aos céus e tem o símbolo do Islã no corpo.
E a criança iluminada, cresce assim entre as duas religiões, uma menina inteligentíssima que logo cedo percebe que para viver em paz precisa conhecer muito bem as leis do Corão e do Talmud. E estava indo tudo tranqüilo até que no dia do seu aniversário de 15 anos ela está passeando com as amigas na parte antiga de Jerusalém, mais precisamente quando se perde do grupo e se dirige a uma montanha próxima do Monte do Templo.
Diz ela ter sentado para procurar na bolsa imensa o celular quando aparece um anjo, obviamente que o mesmo Anjo Gabriel. Sei que é estranho um anjo nos dias de hoje mas uma anunciação desta não podia ser por e-mail ou torpedo. E já que ele apareceu para Daniel, Virgem Maria e Maomé, não seria possível outra figurinha não é?
Do alto ele troca a sua característica trombeta e anuncia para ela, o propósito da sua missão de unir as três tribos numa só religião. A pergunta dela não conseguiu esperar o silêncio da pausa e já se lançou no ar : Você deve estar brincando, né? Eu vou ser morta rapidinho.
Nisso eu concordei. Mas o anjo não. Aliás eu ouvi quando ele falou: “Não isso não vai acontecer pois são os desígnios de Deus-Alá-Jeová e ele que irá lhe proteger”.
Ela calmamente responde " Você não está entendendo, meu querido anjo Gabriel, de boa, presta atenção. Eu já tenho de viver no maior malabarismo diário para dar conta de não confundir os ensinamentos do Torah e do Alcorão. E você ainda quer acrescentar Jesus Cristo e o estudo da bíblia nesta história? Numa boa, é impossível.
Ainda tem outro detalhe Sr Anjo, você melhor que eu sabe que Cristo só ficou pronto para enfrentar seus desígnios com 33 anos e Maomé só recebeu sua anunciação aos 40 anos, por que eu uma garotinha indefesa receberei essa incumbência agora, no auge da minha ingenuidade e inexperiência. Isto não é justo.
O anjo se ficou confuso não deixou
aparentar e já exclamou em voz firme: “Vamos entrar
“ Já que foi você Anjo Gabriel que ditou o Corão para Maomé, sabe que se estou predestinada, não poderei fazer nada. Assim está escrito, assim se dará. Mas gostaria que você negociasse algumas coisinhas com Ele para mim, pois meu avó, o rabino, me ensinou que não podemos deixar passar a oportunidade de defender os nossos interesses comerciais”.
Fala para Ele que sou uma dama e que enquanto estiver me ocupando de apreender todos os ensinamentos das três religiões eu não posso ficar me defendendo de perigos ou gastando energia com minha subsistência. Então precisarei de um lugar confortável para viver e dormir, uma biblioteca vastíssima para eu estudar. Preciso também de um personal trainner para me orientar já que terei de estar em forma para enfrentar tantos percalços que virão; uma nutricionista para poder ter uma dieta equilibrada e não engordar, pois já sabe que se eu ficar gorda tudo será mais difícil.
E se não for pedir muito gostaria também de saber se posso ter uns 12 apóstolos como Cristo e um esposo rico que me sustente, assim como Khadija, a esposa de Maomé o financiou e blá, blá, blá...
Bem, (vírgula) foi nesse instante que eu acordei. E por mais que eu tente esquecer não me sai da cabeça a garotinha e a curiosidade reina. Como saber se eles entraram em acordo, se ela resolveu ser só uma simples adolescente ou se nossa profeta já está no deserto se preparando para nos salvar ?
Betty Vidigal: longa demais. E está mais
para conto do que para crônica. Nota 7
Marco Antunes: Tive certa dúvida sobre o
gênero, porque às vezes, é mesmo difícil classificar, mas, vá lá, vamos entender
que o autor se valeu do recurso do
“sonho” para lançar olhos bastante críticos (suas opiniões sob todo esse
disfarce parabólico) referente ao
messianismo e ao alto grau de exegese de que necessita para justificar-se,
valendo-se, para tanto, dessa personagem inventada, misto de feminista
contrariada e dondoca assumida. O problema acaba sendo mesmo a incompetência em
prender o leitor ao desenrolar de seu texto, pois o resultado é monótono e
pouco atraente. Nota 7,9
Lorenza Costa - Trata-se de um conto, não
de uma crônica. Tropeça em vários erros de português e no didatismo inicial,
mas (como conto) consegue um bom efeito cômico a partir do encontro com o anjo.
Nota 6,5
Luci Afonso – O autor tem muita imaginação, mas o texto
ficou longo e confuso. É preciso fazer revisão ortográfica e gramatical. Nota:
7,5
Oswaldo Pullen Parente - A difícil leitura é compensada, em parte,
pelo bom humor do texto. A idéia de uma messias é interessante, mas não
original. Nota: 7,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 36,4
Crônica 11
Jerusalém, a nova Babel – Roberto Klotz
O zum-zum-zum correu boca-a-boca: o Rei dos Judeus chegaria a Jerusalém logo mais à tarde. A fama de milagreiro chegara muito antes. Ouvíramos falar que ele mostrara arco-íris a cegos, que possibilitara a surdos a ouvirem música[10] e ensinara coxos a pularem como cervos.
Muito ansiosos, esperamos por ele. Precisamos de mudanças, mas acho que exageram um pouco na esperança que a profecia das escritas sagradas se concretize. Dizem que reinará com justiça, será um abrigo contra a tempestade, será como um teto protetor contra a chuva torrencial, será como a água em lugar ressequido e será como a sombra de um alto rochedo em terra árida.
Falam que nasceu pobre, que é gente do povo. Que não usa coroa, nem manto nem jóias. Que seus trajes são iguais aos nossos. Dizem até que fala a nossa linguagem.
Ninguém aguenta mais os pesados impostos, a falta de pão e, principalmente, a humilhação dos poderosos. Precisamos de mudanças.
Todos queriam saudar a chegada do Messias, o salvador. Nos portões da cidade, havia multidões somadas aos costumeiros aleijados, corcundas, leprosos e outros farrapos humanos. A aglomeração e a sujeira naquele local estavam insuportáveis.
Procurei um lugar tranqüilo, menos tumultuado, longe da entrada para ver a chegada do futuro rei. Havia muita gente em toda estrada, da cidade até onde me postei. Estenderam vestes cobrindo o chão para recebê-lo. Resultou muito mais bonito que os tapetes do templo. O caminho estava tão colorido e vivo que lembrava um tapete de flores.
Fazia muito calor. Os ambulantes cobravam fortunas por um copo d’água, por uma vasilha de coalhada ou um punhado de damascos. Apesar de antiecológico, fiz como todo mundo, cortei uma folha de palmeira para me abanar.
Está cada dia
mais difícil de morar
Se a procedência dos mascates é variada, variadas também são as moedas. Colocam no mesmo saco dracmas, denários e pondios de prata, sestércios de latão, musmis e kutruns de bronze. Assim como necessitamos de cambistas, precisamos dos tradutores. Há um, lá no templo, com uma placa que diz: ab hoc et ab hac – discorrer sobre alguma coisa que não entende. De que adianta? Poucos sabem ler.
A nós, hebreus, cabe conviver nessa nova Babel.
E agora, chega mais um forasteiro diretamente de Nazaré, lá da Galiléia. Este, ao menos é judeu e traz a expectativa de melhores tempos.
Por causa da peregrinação da Páscoa milhares de peregrinos vieram Jerusalém. Os ambulantes montam e desmontam suas barracas num piscar de olhos. Há gente de todo lugar: gregos, fenícios, romanos. Até acredito ter visto um japonês tirando fotos.
A tarde foi passando e enquanto o profeta não vinha fui a uma barraca de um fenício para comer um espetinho de pomba passado na farofa. Fiquei furioso porque, além do carneiro e das pombas, no braseiro havia carne contrabandeada. Carne de porco! Os rabinos proibiram a carne de porco há muito tempo. Eu protestei com o assador, mas ele fez de conta que não entendia nada do que eu dizia. Devolvi a pomba e exigi meus shekels de volta. Preciso anotar isso, estou convicto que um dos cavaleiros do apocalipse trará a gripe suína.
Minutos depois Cristo apareceu na curva. Foi a minha sorte estar com as mãos vazias, peguei a minha folha de palmeira e também abanei o homem que veio trazer a fé por dias melhores.
Quase toquei nele, passou bem pertinho. Pude ver o brilho dos seus olhos. Cavalgava ereto. Usava um manto vermelho desbotado pelo sol e sandálias iguais às minhas. O belíssimo cavalo branco estava com a crina aparada e parecia saber que estava levando alguém importante.
Jesus, a família dele, seguidores, escribas, e o pessoal de uma emissora de tevê, todos acompanharam o mestre. Todos no mesmo caminho, pisando e tropeçando sobre o tapete de vestes.
Em vez de seguir a multidão, resolvi esperar um pouco e comer alguma coisa numa barraca de um compatriota. Eu saboreava um kishke quando um romano, naquele sotaque carregadíssimo, comentou comigo que o rei chegara de jerico.
Ele entendeu tudo errado, distorceu a realidade: Jesus veio de Jericó!
Eu imagino que esse deve ser um daqueles exploradores que têm uma lojinha no templo e se diz tradutor juramentado. Depois dizem que eu não capto a importância daquilo que passa na frente do meu nariz.
Betty Vidigal - Interessante. Nota 8
Marco Antunes- O texto flerta com o humor o
tempo todo, mas nem entabula um namoro e muito menos pede
Lorenza Costa- Nem todo conto em primeira
pessoa pode passar por crônica, mas vamos dar a este o benefício da dúvida. Há
algumas inconsistências de tempo verbal no começo, mas o problema principal é a
indecisão com que o autor se aproxima do humorismo: tanto que o ato
"antiecológico" me pareceu um caso de humor involuntário, e só
ficou clara a intenção do autor na altura do espetinho de pombo com
farofa, isto é, no fim. Nota 7
Luci Afonso – A alternância entre seriedade e humor causa
muitas oscilações. Revisão ortográfica e gramatical. Nota: 7,5
Oswaldo Pullen Parente - A ausência de coesão entre os parágrafos
atrapalha o desenvolvimento da história. Quando trata do dia-a-dia de Jerusalém e dos mercadores, a narrativa se
fortalece Nota: 7,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 38
Crônica 12
Que os bons ventos nos levem – Kalinka
Tavares
Como se diz por aí, quem conta um conto, aumenta um ponto. Elefante como estão propagandeando? Nunca. A menos que nas bandas de cá jumentos tenham essa denominação, o que duvido muito. Rosana? Até deveria haver algumas entre as tantas pessoas que lá estavam, porém, nenhuma delas era aclamada.
Aos amigos que estão lendo esta coluna o
que posso dizer é que nem mesmo eu, acordado e aturdido pelos gritos, sei ao
certo o que aconteceu e está acontecendo aqui
Logo ao raiar do dia algo que seria definido pela minha mãe como sendo semelhante a ‘um bando de caturritas’ invadiu o local. Aos que, como eu, deixaram seus sonhos de sobressalto, o grupo que adentrava Jerusalém se assemelhava aos arruaceiros comuns a todas localidades. Descabelados e mal vestidos, gritavam e bradavam frases como “Hosana ao Filho de Davi” (Hosana e não Rosana, como os caros podem perceber). Mas nada é perfeito e, como um dia alguém sabiamente dirá: a massa é burra. Assim, houve até quem perguntasse: “Davi já é pai? Tão novo!”.
Sim, muitas pessoas daqui andam perdidas e sem a menor noção sobre política, mesmo sofrendo diante dos inúmeros abusos de Roma. E é essa apatia social e política que as torna tão suscetíveis e até levianas. Tal como seguem os ventos dos ‘arruaceiros’ que entram em Jerusalém hoje, podem, amanhã ou depois, seguir os vendavais romanos e se voltar contra os nazarenos. Fato que se acontecer, acredito, não será esquecido tão cedo.
Enfim, essas mesmas pessoas pediam por serem salvas. Clamavam pela ajuda daqueles que chegavam à cidade - em especial a um deles, o que vinha no jumento e a quem chamam Jesus de Nazaré. Esses sim eram movidos por algo maior.
Estivessem sendo levados pelos ares do momento ou não, a verdade é que algo mágico pairava sob a multidão a qual se aglomerava como se algum item estivesse sendo distribuído gratuitamente. Era como se determinada coisa, esperada há muito tempo, acontecesse no exato momento em que aquele rapaz passava por eles... por nós, confesso. E, note-se, isso ocorria mesmo que cada pessoa ali presente tivesse desejos diferentes. Não sei ao certo se o fato se deu por estarmos todos cansados dos mandos e desmandos do Império Romano, por fé e esperança em algo ou pela soma disso.
Pode parecer mentira que nos tempos atuais existam pessoas que acreditem em algo que não seja o trabalho e as moedas romanas. Pois pasmem, há. E foi o que vi naqueles rostos. Muitos dos quais derramavam lágrimas ao observar ou serem tocados por aquele rapaz que passava montado no asno.
Moço, no auge de seus trinta e poucos anos, olhar sereno e físico comum, esse é o Jesus que vi passar. Alguém a quem você, em um dia normal, talvez olhasse e não desse absolutamente nada por ele. Eu não daria e ainda diria que sou mais eu. Porém, quando ele fala mostra que não é tão pacífico e nem tão inofensível quanto sua figura morena nos mostra. Apesar de franzinho e aparentemente magro demais, ele nos impele a lutar por direitos. Opa! Direitos? E quem de nós sabe o que é isso? Poucos. Quase ninguém. E os que desconfiam saber fingem não ter conhecimento para não precisarem agir.
Bem, mas é exatamente para que esse conceito de justiça não se alastre que o sinal de emergência máxima é acionado. Entre a multidão ouvi rumores de que ele seria o novo Messias, o novo Rei de Jerusalém. E, ao escutar isso garanto que seria mesmo bom... como se tal fosse possível!
Sensibilidades e falta de fé à parte, esse nem-tão-inocente-rapaz, (sem vírgula) incomoda. A nós, simples mortais, por mexer em coisas que nem mesmo sabíamos existir. Aos poderosos, por mexer em coisas que nós também não sabemos existir, mas que eles (os poderosos) sabem e querem manter escondidas de nós (simples mortais).
A realidade é que será muito difícil Roma largar esse rico ‘osso’ que hoje lhe pertence. Digo o mesmo daqueles dignos e austeros senhores da Assembléia. Qual! Esses sim ficarão próximos aos romanos como unha e carne. Nenhum deles quer um novo Rei, um Salvador. ‘Para quê?’ – questionam. E, se me permitem uma modesta opinião, entre calar o suposto Salvador e uma multidão, bem, usam-se os ventos e os boatos que se utilizam deles para viajar de ouvido em ouvido e fazer silenciar quem se pretende Salvador dos demais.
O que posso lhes dizer é que ainda não temos como garantir nada. A euforia de hoje ainda persiste, porém, os maus ventos sopram e já escutamos algumas impropriedades. Inclusive vindas das bocas daqueles que reverenciavam o rapaz. Há quem o chame de blasfemador e não mais de Salvador. Dubiedade inerente à condição humana. Assim como faz parte da História termos mártires sendo reverenciados. Se isso acontecer, o feitiço irá se virar contra o feiticeiro.
Obs.: Ah, e que fique claro: ninguém tirou suas vestes e as jogou no chão. Não houve quem ficasse nu à passagem de Jesus. Ao contrário do que alguns têm divulgado, o caminho do jovem foi inusitado, não bizarro: foi feito de palmas e ramos, alguns deles mastigados pelo burrico, afinal, saco vazio não pára em pé.
Betty Vidigal - É o primeiro que realmente
fez uma crônica que parece dirigida a um jornal, aos seus leitores ‘usuais’.
Excelente. Nota 10.
Marco Antunes - Tem mão de cronista o
autor, isso se nota a cada linha, mas há sombras no paraíso: um pouco mais de
cuidado e revisão fariam bem, uma visão mais aprofundada, ainda que sarcástica
ou jocosa poderia ter feito a diferença entre um resultado médio e outro
excelente. Nota: 9
Lorenza Costa – Prejudicada por construções
mal-resolvidas e alguns erros de português, peca pelo excesso de generalidade
com que o autor, tentando abranger todos os aspectos da situação, arranha-lhes
a superfície. Nota: 7,5
Luci Afonso – O texto começa em tom de humor, torna-se
sério, volta ao humor. Uma abordagem única daria um resultado mais coerente.
Nota: 8
Oswaldo Pullen Parente - Com bom humor, o autor nos leva através de um
texto bem desenvolvido e sem exageros Nota: 9,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 44
Crônica 13
O Silêncio de Jerusalém – Ivan Mizanzuc
Há diversas formas de silêncio. Não sei se o leitor me achará louco por acreditar nisso, mas espero que eu possa me explicar devidamente até a última linha. Por muitos anos eu venho viajando o mundo, e me é sempre uma experiência especial ouvir o silêncio de cada cidade. Cada cidade possui seu cheiro, seu som, sua cor. É como um ser qualquer, vivendo sua própria vida. E o que mais me encanta em cada uma delas é o silêncio da pequena rua, da tranqüila loja, da fria noite. Há um silêncio encantador em determinados lugares. Alguém poderia falar de uma voz do silêncio, e não estaria errado. Há uma voz, pois há uma alma – a alma do tempo de cada lugar.
Pois Jerusalém, a cidade onde resido já há alguns anos, é hoje uma cidade com um novo tipo de silêncio, um que eu nunca havia experimentado. Da noite para o dia, sua alma mudou. Multidões em exorbitada euforia se reúnem, pouco se importando com a guarda romana ou os costumes das leis judaicas. É uma euforia silenciosa, respeitosa, denunciando a busca por um lógos.
Há um novo homem na cidade. Ele tem trazido esse novo silêncio. Durante o dia, enquanto se reúnem ao seu redor, todos ouvem suas palavras inspiradoras – impossível negar que o são. Dizem que ele morava por aqui anos atrás, mas ficou por uns 20 anos desaparecido. Ouvindo-o falar, tenho certeza que esse camarada conheceu os textos gregos. Ele fala muito de liberdade e amor. E o que me faz ter certeza que ele conhece os gregos é a maneira pela qual fala do amor não em seu aspecto Eros, que os romanos aqui residentes tão bem conhecem, mas sim o aspecto Agapê, ou seja, o amor desprovido de qualquer pré-julgamento físico ou sentimental. O amar por amar, o amor em si. É claro, ele não usa desses termos tão rebuscados. Ele sabe falar com o povo. Eles não precisam se prender em detalhes tão insignificantes, como os conceitos de amor e as palavras que o designam. Para essas pessoas que tanto sofrem, basta sentir o amor prometido. Fica-lhes claro a diferença.
Se todas as estradas levam à Roma, esse camarada tem mostrado que a Grécia pode começar a cobrar o pedágio.
Ouvi esses dias que ele tem se intitulado o “único filho de Deus”, como um enviado especial. Também ouvi falar que um tal de Tomé, aparentemente um de seus discípulos mais próximos, conta sempre que um dos ensinamentos mais importantes é que todos podemos ser como seu mestre – ou seja, todos podemos ser “o único filho de Deus”. Não estive presente em nenhum desses discursos. Apenas acho curioso o fato de que uma única pessoa possa causar boatos tão diferentes sobre si mesmo. Sem dúvida, ele veio para incomodar.
Não sou um homem religioso. Talvez isso me torne desqualificado para falar sobre esse novo cidadão de Jerusalém. Mas, talvez, eu seja o único que possa falar. Há algo de mais especial no mundo do que um homem como eu sentir o que é ter uma alma?
Confesso que seria injusto reduzir seus discursos ao conhecimento grego. Há algo mais ali. Eu conheço os textos gregos. Nunca chorei os lendo. Mas chorei no último discurso que vi desse homem.
Chorei não enquanto ele falava, mas exatamente nos momentos de silêncio. O tema da reflexão é sempre trazido. Fala-se muito de um “Deus-Pai”, aparentemente já conhecido pelos judeus da região, mas ainda assim diferente.
Ontem de tarde, ele falou ao povo novamente. À noite, o silêncio era ensurdecedor. Era possível ouvir o espírito de cada cidadão que havia atendido ao seu chamado, cada um em profunda reflexão. A alma de Jerusalém efervesce. Novos tempos estão surgindo, sem dúvida. Será esse camarada um novo líder? Será ele realmente o novo logos? Conseguirá manter essa promessa?
Por mais que eu me emocione com sua presença, não sei dizer se acredito na capacidade do homem amar, como ele sugere. Sou mais pessimista. Bastante pessimista. Já vi horrores suficientes dentro nos limites dessa cidade, e não duvido que um dia teremos que isolar a cidade em muros para que os horrores parem. Inspiração é sempre bem-vinda para entendermos o que é o amor, essencialmente em seu aspecto Agapê, e exatamente por isso não duvido que ainda prenderão o camarada por ficar nos inspirando.
Alguns dias atrás, tentaram apedrejar uma mulher. Me falaram[11] que era uma prostituta, mas não posso afirmar. De qualquer maneira, esse homem supostamente interveio, disse algumas palavras, e o povo se calou. Voltaram para a casa. A mulher, através do poder da palavra desse homem, foi salva.
Correndo o risco de me contradizer,
concluo afirmando que não são as palavras dele que têm comovido o povo.
Claramente, tem sido o silêncio que elas causam. No caso da mulher prestes a
ser apedrejada, não havia palavras para resposta. Neste momento, não há
palavras para descrever o silêncio da cidade esta noite. Torço apenas que esse
silêncio poético, de um fundo quase místico, não se perverta em medo ou
traição. Temo muito que essa perversão, tão comum ao homem em momentos de
desespero, tome conta do espírito silencioso que é extremamente encantador. E o
caminho que esse camarada nos sugere não é nada fácil. Suas palavras não
passarão
Apesar do pessimista que sou, não desejo perder meu silêncio. Torço para estar errado. Volto ao meu silêncio, à minha comunhão com Jerusalém, que hoje ouve o silêncio da cidade e o canta comigo.
Betty Vidigal - Excelente, também. Nota 10
Marco Antunes - Inteligente eleição de forma e personagem
para o “cronista” que nos reporta, supostamente, não o que está sendo dito em
Jerusalém, mas o que se sta calando, os muitos silêncios da cidade naquele momento
são apontados sem alarde com grande
sugestão. Silêncios densos e perigosos que em uma semana calarão não somente as
pedras, mas também o homem que alegava saber fazê-las cantar. Nota: 10
Lorenza Costa – Como a crônica anterior,
esta é prejudicada por construções equivocadas e alguns erros. Mas o autor
conseguiu criar um ponto de vista original e uma identidade convincente para o
narrador.Nota: 8,5
Luci Afonso – Belo texto, com alguns erros gramaticais
(por exemplo, “haverão”). Pela unidade dramática, creio se tratar de conto.
Nota: 8,8
Oswaldo Pullen Parente - Ponto de vista original, em texto bem
estruturado, sem arroubos nem exageros. Perde um pouco no final, quando adota
um tom emocional. Nota: 9
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 46,3
Crônica 14
Conjecturas – Maria de Fátima Correia
O cabeçalho do jornal a estrebuchar notícia da Cidade, e eu, que até fui à catequese, respiro com um leve sopro e sento-me de olhos semi-cerrados ao sol de fim de tarde.
O jornal baloiça à brisa de sueste. Coloco uma pedrinha redonda sobre a folha e fica uma sombra rolando na fotografia: um carro amarelo, desses das obras e o que parece entulho. Um atentado diz no cabeçalho. Dizem as palavras em negro que houve mortos e que o condutor tinha trinta anos. Em Jerusalém, domingo de manhã.
A mesma Jerusalém do meu manual de História: Mattoso do liceu, que o Ferronha recontava percorrendo a sala de um canto ao outro, as mãos atrás das costas e os olhos pelo chão. Meu saudoso professor, no Huambo, dita Nova Lisboa: uma outra página, a mesma História.
Jerusalém e os Homens, Jerusalém e as Religiões. Antes e depois de Cristo: a Cidade de David e Salomão e Herodes. Milénios a seguir a mais milénios: judeus e cristãos e mouros e hereges e tantos outros. Jerusalém, a cidade de Deus.
Aquele monte e não um outro. Não no Atlas ou uma Serra na Ásia. Aquele local preciso na imensidão do Universo: uma cidade que Deus escolheu para começo. Assim dizem os livros de um Deus que é Omnipresente, o Deus da minha catequese: o Deus do Inferno e do Purgatório e da remissão dos pecados pelo sacrifício.
Um Deus que eu julgo diverso, está a espreitar-me por entre as árvores, balança para cima e para baixo naquele raio de luz que se difracta entre dois raminhos de oliveira.
E eu a ofuscar-me d’Ele, não encontro o sentido de milhares e mais outros milhares, de tempo e gente, a convergir na direcção da Cidade em nome do mesmo Deus que comanda a retroescavadora, dirige o passo determinado do homem-bomba e a mão na coronha escaldante da metralhadora do guarda numa das portas de Jerusalém.
Conjecturas que me sobrevêm da notícia de primeira página em um mês de Verão do ano dois mil e oito depois de ter nascido Cristo. Filho de Deus, como dizem os livros.
Eu que me remexo na cadeira enquanto o sol adormece sob uma nuvem, a rememorar fogueiras, pesadelos da minha adolescência: as labaredas a exorcizarem “se pensas de outra maneira”, “se não acreditas”, “se crês por outras palavras que não as do Santo Livro”.
Eu aqui sentada num jardim com oliveiras. Não no Monte das Oliveiras: apenas num jardim com uma esplanada onde Deus espreita atrás de um tronco, ou num raminho, que se Ele existe está em toda a parte e será em cada sub-partícula, cada molécula, cada átomo.
E a retroescavadora, muito da cor de bagos de milho, a ilustrar a notícia no jornal, sobre a mesa, onde o empregado coloca o meu pedido, num sem ruído de quem suspeita que eu esteja rezando, eu que rebobino imagens no meu fraco arquivo de memórias de tempos muito idos: Nabucodonosor e o Tigre e o Eufrates e a Cidade onde Cristo falou Doutores e de onde Maomé, Profeta, se elevou ao Céu. Contam assim os livros.
Contam também a verdade que é o Tempo da Cidade sempre empapado de sangues e de dores.
Jerusalém onde oram, lado a lado: um pai e seu filho num balanço monocórdico e um guarda, dependurada a arma da alça, sobre o ombro. Rostos colados na pedra que lhes absorve o choro e devora pedidos colocados nos interstícios. Séculos e milénios de pais para seus filhos, através de ditos e através da pele e através da palavra escrita e dos sinais transmitidos por satélites. O Templo que Deus concedeu ao Povo escolhido. Assim dizem os livros.
A chávena a escaldar-me os lábios e eu que me deixo levar aos campos de batalha muito verdes, a cavalgar, milhas e mais milhas, por serros e por vales, rios transparentes, neves e sóis quentes, até à Cidade, a saldar uma desonra ou um atropelo. Milhas, a caminhar em nome de Deus. Nem auto-estradas, nem sequer caminhos ou o ar irrespirável do monóxido de carbono, que nem cabines de aviões ou carros e nem cidades que não fossem atrás de muralhas, passava a turba peregrina muito ao longe. Campos de flores e neves e pássaros: dias e meses e mais meses e depois vir quase morto ou nem sequer ter vindo; ou nem sequer ter feito o caminho inteiro, não ter passado as suas portas, não ter resgatado a Cidade de mãos infiéis.
Milhares de anos de ignorância e morte, de crença deturpada pelo medo, pelo pavor do homem se encontrar a sós com ele próprio. E Jerusalém prenha dos fiéis que a apregoam e dela fazem morte.
Reabro os olhos. O sol tomba atrás das oliveiras e eu a sorrir à minha conjectura que é ser Jerusalém a Cidade de Todos, homens e seus credos. Não é assim que está escrito nos livros.
Ser este um Tempo de revirar uma página da História. O Tempo de reconciliar o Povo da Cidade sem máquinas amarelas, nem bombas e sem igrejas nem sacerdotes, nem outros templos erigidos, que não seja o templo de cada Homem, seu coração e sua alma, em Amor e Bondade, a colher o pão no cereal, que a água de muitas fontes espalhadas pela Terra brotará de novo, límpida e abundante.
Jerusalém Cidade de Deus e Cidade dos Homens.
Sem retroescavadoras e sem homens bomba. Sem Sacerdotes, Deuses ou Igrejas.
Betty Vidigal - Muito bem escrito, mas não
muito interessante. Nota 9,5.
Marco Antunes - Esta semana não estamos pesando a mão em que
foge do tema ou do gênero, mas é só para dar as boas-vindas aos cronistas,
porque já semana que vem, não daremos perdão. Este trabalho ´excelente bem
redigido, em que pese a fugir do tema. Nota: 9
Lorenza Costa – A prosa perfeita logo
coloca o leitor preguiçosamente sentado à mesa num café, com seu jornal, vendo
a luz do sol passar pelos raminhos de oliveira, seguindo os pensamentos e os
devaneios do narrador. A nota baixa deve-se à fuga parcial do tema, pois a
entrada de Jesus na cidade não está no centro da crônica.Nota: 8,5
Luci Afonso – Excelente, apesar de não narrar
explicitamente o fato pedido no desafio. Nota: 9,8
Oswaldo Pullen Parente - O autor nos leva com alguma dificuldade ao
longo do texto que por sua pouca fluidez se torna cansativo. Nota:7
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 43,8
Crônica 15
Sem título – André Cidade
Não vi o nazareno entrar na cidade. Me chegaram notícias, no entanto, do furor e da agitação do povo e me informei dos acontecimentos. É verdade o que dizem, que nesta terra há mais profetas e homens santos que súditos do imperium. Mas o mesmo pode ser dito de muitas terras, e talvez mesmo de Atenas e Roma. E, dizem que não foram poucas as superstições e profecias de que se utilizou o Divino Augusto. Parece, mesmo assim, que o furor religioso aqui é diferente e, a cada nova manifestação, os fiéis acompanham todo o processo com uma esperança maníaca. E nós, incrédulos, observamos cada novo profeta com um crescente desinteresse.
Nesta terra os milagres não são raros, pelo contrário, são cada vez mais freqüentes e necessários. Por toda parte no território da Judéia se ouve falar sobre os arbustos em chamas, sobre as curas, sobre os mananciais secretos. Muitos interpretam esses milagres como sinais da relação direta dos profetas com o deus dos judeus, outros vêem política e manipulação, ou loucura. Mas os judeus esperam mais, pois não é com alegria, ou mesmo com resignação, que eles aceitam o jugo dos romanos. Dizem eles que já sofreram demais o domínio estrangeiro, que os romanos não são os primeiros a governá-los, mas que serão os últimos, e dizem que a hora da chegada de seu messias está próxima, e que a era abençoada de David está por retornar.
Também fora da Judéia a paz de Augusto não parece tão segura e por todo lado nos saltam aos olhos os sinais das incertezas desses tempos. E não é de se estranhar que aqui tudo pareça pior. Não é uma época boa para ser judeu, ou ao menos para se viver na Judéia. Mesmo desfrutando das benesses do governo dos romanos, como outros povos, a nação de David tem fé em seu deus, e espera que ele os liberte da humilhação de se ver governada em seu próprio solo. Neste momento, o que brota no solo duro desta terra são profecias e promessas. Aqui, o medo e a esperança são irmãos, verdadeiramente. A esperança aqui causa medo, pois dá ânimo mas jamais frutos, e o medo é a esperança de uma certeza. Pois em Jerusalém não se sabe pelo que torcer. Há facções demais, chefes e senhores em demasia, muitos credos e povos diferentes, e nenhuma certeza. O príncipe em Roma está longe demais, e não inspira a mesma reverência de seu antecessor. Seu representante aqui depende das armas e da boa relação com todas as facções locais. O Sinédrio é temido, mas não é respeitado, e é com prazer que suas determinações são desobedecidas. Os judeus têm dificuldade para concordar sobre qualquer coisa, e todos os estrangeiros são suspeitos, até mesmo honestos gregos vendedores de tecido. Assim, todos temem as vielas, a noite, as tochas e os punhais.
Já estive em Roma, e digo que a desconfiança e a intriga pairam mais pesadamente sobre Jerusalém.
Foi nesse clima que o nazareno que chamam de Jesus entrou pelo portão dourado de Jerusalém, debaixo dos cantos de “Hosana!” e “Abençoado”. Penso que algo mais foi exclamado pela multidão, mas o visível desconforto dos oficiais romanos e o consequente medo dos meus informantes me impediu de saber mais. Também não pude ver o ocorrido no templo, mas dizem que o profeta expulsou os vendedores e agiota (é pra ser no singular, mesmo?) que lotavam as escadarias, mas não pude saber o porque.
Dizem que ele vem de Belém, dizem que ele escapou do massacre de Herodes, dizem que ele era carpinteiro e agora anda pela terra curando leprosos e inválidos. Dizem que esteve desaparecido por muito tempo e que voltou diferente. Muitos o seguem por algum tempo, mas todos querem ouvi-lo, e aparentemente tem um grupo pequeno e restrito de discípulos. Por vezes ele é explícito e diz o quer, mas às vezes fala em parábolas e enigmas, de forma que na maior parte das vezes é difícil imputar-lhe culpa ou intenção. Não disse nada para ameaçar o poder dos romanos, ou o domínio do Sinédrio, mas mesmo assim consegue irritar as pessoas erradas e agradar as pessoas erradas. Todos os que estão do lado errado do poder o idolatram, como idolatraram mil antes, e idolatrarão mil outros. Alguns vêem nele a descendência de Davi, outros um cínico ambicioso.
Evidente que nada disto vi com meus próprios olhos, apenas recolhi informações de meus informantes, e registro aquilo que acredito ser confiável e provável. Se tudo isto for verdade, confesso que já vi criaturas mais controversas, mas dizem também que é preciso ver o nazareno, ouvir sua voz e tocá-lo.
É verdade que alguns zombam do nazareno, e não apenas nós, estrangeiros, mas também vários dos judeus mais instruídos. Outros no entanto, e não só os crédulos, ousam chamá-lo de christós, e messias. Ouvi dizer que o Sinédrio não verá com bons olhos a popularidade do homem, e que os romanos estão apreensivos com o clamor popular. Juro que por vezes não consigo dizer do que todos têm medo, inclusive eu, mas essa[12] promete ser uma semana difícil, alguns distúrbios ocorreram pela cidade e, como se fosse a vontade do deus dos hebreus, uma chuva veio do deserto e se abateu sobre a cidade. Uma tempestade como, me asseguram os mais velhos, não se vê por aqui há muitas gerações. Apesar dos problemas inevitáveis que tais fenômenos trazem, há o lado bom de mandar a maioria das pessoas para suas casas, e nos lembrar que, de vez em quando, há problemas maiores, e urgências mais prementes. Nem mesmo os fanáticos permanecem nas ruas.
Ninguém pode dizer o que acontecerá com o nazareno, nesta região imprevisível. O vi[13] apenas uma vez, ontem durante a chuva. Fui pego de surpresa no meio de meus negócios e tive que voltar durante o dilúvio. O encontrei em uma praça. Eu corria entre os toldos, me cobrindo com minhas vestes. Ele estava cercado de seus companheiros, não mais de uma dúzia, creio. Eles também se cobriam e baixavam suas cabeças. Mas o nazareno estava de cabeça erguida, no meio da praça, e sorria enquanto andava. Apenas dessa vez o vi, e penso que deverá ser assim, pois hoje saio da cidade, com rumo à minha terra, de onde saí faz muito tempo, e não sei se retornarei um dia à terra dos judeus. Mas deixei instruções para que meu amigo Niketas, homem de minha terra, me escreva contando os acontecimentos.
Me sinto estranhamente sozinho e isolado saindo assim de Jerusalém, voltando para minha terra. Talvez seja o frio trazido pela chuva, algo incomum para esta época, assim como os céus encobertos. Talvez não seja o melhor momento para viajar, e confesso que desejaria ficar, mas todos temos nossos deveres e o meu me leva para fora desta cidade agora.
Betty Vidigal - Nota 10.
Marco Antunes - Estimulante análise da Jerusalém que se
abriu para receber mais um messias. O autor teve a sensibilidade de se colocar
na pele de um estrangeiro, lembrando aquele célebre ideal de imparcialidade ,
isto é, ser “um suíço em trânsito”. O retorno para a própria terra com a
sensação de deixar para trás um fato importnte inacabado foi perspicaz, pois a
longa construção da simpatia do leitor com o narrador promove aqui uma oportuna
catarse. Nota: 10
Lorenza Costa – A crônica efetivamente se
aproxima de uma carta ao editor, mas o estilo é muito burocrático. Todas as
frases iniciadas com pronome oblíquo incomodam Nota: 7,8
Luci Afonso – O texto atende ao desafio, mas o final
ficou incompleto. Alguns erros de acentuação e ortografia. Nota: 8,5
Oswaldo Pullen Parente
- A essência da presença do Messias em
Jerusalém nos é transmitida, inda que em crônica que, em alguns momentos, se
torna algo morna. Alguns elementos incomodam por sua gratuidade, principalmente
no último parágrafo. Nota: 8
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 44,3
Crônica 16
Sem Título 2- Luís cláudio de Lima Nobre
Todos os dias pela manhã, desde os cinco anos de idade, acompanhava meu pai até o estábulo. Fazia isso não por obrigação, mas porque gostava. Agora com sete anos recém completados, podia deixar um pouco de lado as brincadeiras e de fato ajudá-lo nas tarefas. Tínhamos Tristonha, uma jumenta, Trigo, um jumentinho, quatro cavalos e dois camelos. Papai me deixava decidir como iria chamá-los. Tristonha e Trigo já estavam conosco há mais tempo, eu os conhecia bem, eram meus preferidos e, por isso, pude lhes dar nomes adequados. Mas não havia tratamento diferenciado, eram todos igualmente importantes, pois deles dependia boa parte de nosso sustento. E aquele domingo quente de primavera era especial. Estávamos a cinco dias do início da Pessach[1], e nossa esperança de alugar os animais e poder atravessar as festividades com um pouco mais de dinheiro era grande.
A manhã ainda guardava um pouco de seu frescor quando dois homens surgiram à porta do estábulo. Anunciaram-se discípulos de um homem chamado Jesus, por quem foram incumbidos de buscar uma jumenta e um jumentinho. Coincidência ou não, podíamos atendê-los! Dois aluguéis e de uma só vez! Eu estava exultante. Papai, ao contrário, havia perdido toda sua costumeira serenidade, estava agitado, estampava em seu rosto um sorriso nervoso, descontrolado. Enquanto gaguejava algumas palavras, entregou os animais aos dois homens, lhes agradeceu várias vezes e os contemplou partir com a promessa de que iriam retornar a Jerusalém logo mais com seu mestre. Minha exultação, tão passageira, foi então substituída por uma enorme curiosidade. Quem eram aqueles homens? Por que papai reagiu daquela maneira? Quem era afinal Jesus?
Todos meus
esforços para conseguir respostas às minhas perguntas foram
Uma multidão já havia tomado toda a área que antecedia a entrada de Jerusalém. Havia todo tipo de gente, a poeira subia alta, a mistura de vozes era quase ensurdecedora e o calor, insuportável. Apesar de tudo isso, assim como meu pai e minha mãe, a maioria dos homens e mulheres presentes demonstravam estar felizes e, acima de tudo, ansiosos. Ali, no meio de toda aquela confusão, consegui que minha mãe me explicasse melhor o que havia acontecido momentos antes no estábulo e o significado de tudo aquilo. Agora, também eu estava tomado de euforia.
Não demorou
muito e a entrada de Jesus foi anunciada. Em meio ao empurra-empurra, por entre
a poeira e as pernas à minha frente só pude ver os pés de Jesus, um pouco da
Tristonha e do Trigo. Puxei as vestes de meu pai e de minha mãe, queria
chamar-lhes a atenção para nossos pequenos e queridos animais. Foi
Novamente busquei a atenção de minha mãe. Olhando para cima, para o rosto dela, puxei-lhe a mão, e antes que eu pudesse lhe perguntar se podíamos ir para casa, disse ela a mim e a meu pai: “Vamos!”. Começamos a correr em direção ao templo onde Jesus iria pregar e, quem sabe, operar alguns milagres. Minha terceira corrida em poucas horas. Minha felicidade durou pouco. Deus não atendeu meu pedido. Talvez não fosse um bom menino, talvez já estivesse sendo castigado. Ao longo do caminho, enquanto observava meus pés um após o outro baterem rápido e forte no chão poeirento, prometi ao Senhor que seria um menino melhor se Ele me concedesse a graça de sobreviver àquele domingo.
Chegando ao templo, papai me colocou sobre seus ombros. Livrou-me do aperto da multidão. Acho que se compadeceu de mim, de meu cansaço. Jesus estava pregando. Não era diferente da maioria dos homens de Jerusalém. Pele queimada de sol, cabelos e barba escuros. Em determinado momento, tive a impressão de que seus olhos eram azuis. Olhei mais atentamente, torcendo para que fosse verdade, pois até aquele momento sentia-me um pouco frustrado. A união do cansaço e do calor intenso haviam me pregado uma peça. Seus olhos também eram escuros. Jesus pregava a paz. Acredito que para Ele não poderia haver outra alternativa, pois sua magreza o deixaria em desvantagem em qualquer combate corpo a corpo. Disso eu entendo, de ser magro. Nesse aspecto me assemelhava a Ele. Desde que me entendo por gente, nunca fui um garoto forte, nunca consegui acompanhar os outros meninos nas brincadeiras que exigiam mais vigor. Já apanhei várias vezes, inclusive de meus melhores amigos. Papai e mamãe sempre me consolam, não me deixam desanimar. Dizem que quando crescer, serei grande e forte como Sansão. Procurava acreditar neles, apesar de tudo. Meus pensamentos, que haviam levado minha atenção para longe dali, foram interrompidos. Jesus voltou-se para nós, veio em nossa direção e se colocou à nossa frente. Olhou nos olhos de minha mãe e, após um breve silêncio, disse com a voz serena: “Mulher, enxuga tuas lágrimas”. Eu não havia percebido que minha mãe chorava. Fiquei assustado. “Em verdade, em verdade te digo, teu filho será forte como um touro”. Então, voltando seus olhos para os meus, com um sorriso completou: “E ele correrá como o vento!”.
Betty Vidigal - Bonitinho, final comovente.
É um conto, não uma crônica. Nota 10.
Marco Antunes - Aqui não há dúvidas possíveis, é um conto
e, claro, a criançanão poderia ser o cronista que recebeu a incumbência de
narrar o ocorrido é interessante, mas um
tanto banal demais para o meu gosto pessoal. Nota: 8
Lorenza Costa – O texto consegue transmitir
o acontecimento através de um olhar pessoal, mas nem sempre o narrador-criança
narra efetivamente como criança. Nota: 8
Luci Afonso – Texto leve, redação impecável, leitura
agradável. Nota: 9
Oswaldo Pullen Parente - Interessante gancho utilizado pelo autor
quando busca a visão dos eventos através dos olhos do menino, o filho do dono
dos jumentos. A crônica está bem desenvolvida, inclusive com um humor que lhe
fica bem. Nota: 9
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
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Crônica 17
Os olhos de Jerusa – Washington Dourado
Descendo o Monte das Oliveiras em companhia de minha filha vejo os peregrinos, que vêm ao Templo de Salomão fazer suas preces. Eu os observo, admiro suas vestes, atavios e seus modos compenetrados. Já ela acha tudo normal, indiferente passa direto ao longo do muro.
Adiante, mais gente. Outros modos e roupas, outras origens. Linguagens estranhas por toda parte. Cada grupo que passa parece vir de um confim diferente. Mesmo que tentássemos expulsar os romanos, seria muito difícil a união de tantas tribos.
Continuamos andando e, de Jerusa, ninguém prende a atenção. Apenas segue, olha, não se encanta nem se atemoriza com os gritos e gestos exagerados, com os cânticos, com os mais diferentes odores que as ruas exalam e que mudam a cada passo. Incensos, essências do oriente, almíscar, frutas, suor, estrume, poeira, camelos, gente, muita gente. Mercadores às dezenas, mendigos aos milhares, religiosos com seus séquitos, soldados com seus chicotes. Uma algazarra infernal. Jerusa não se abala apesar da pouca idade. Caminho ao seu lado e apenas a observo. É a primeira vez que caminhamos assim pelas ruas.
Hoje é domingo, a cidade está mais agitada que de costume e, de fato, quando uma história se espalha assim, não pode ser totalmente falsa. Apesar de tantos oportunistas se terem aproveitado da boa-fé do povo, finalmente parece que algo novo surgiu.
O povo não apenas quer. Precisa de um messias. Precisa de esperança contra a miséria e a opressão e este pregador que surgiu não se sabe de onde, tem feito renascer a esperança em dias melhores. Ele sabe muito bem o que o povo quer ouvir.
Já o vi pessoalmente, presenciei um de seus sermões a que milhares de pessoas compareceram. Ele faz sucesso entre os mais pobres, geralmente menos instruídos, pois lhes promete privilégios para quando implantar seu reino. Sim, ele se proclama rei dos judeus, como tantos outros já fizeram e diz descender da casa de Davi.
Os romanos parecem preocupados com este novo pregador que defende a união das tribos para combatê-los, restaurar nossos antigos ritos e lhes tomar o poder. Ele prega a guerra santa e o extermínio dos inimigos, por isto é tão popular. Por onde passa é aclamado, sua imponente e bela figura causa imediata admiração.
Interrompo meu passeio para admirar o espetáculo de uma de suas aparições. Soam trombetas, homens fortes e bem vestidos abrem caminho entre a multidão. Os mais fracos, empurrados, não reclamam, parecem até gratos pela força de que tanto precisam. Seus olhos brilham ao vê-lo subir as escadarias do templo e derramar frases de efeito repletas de ódio contra o invasor e contra os ricos.
Chega sempre montado num elefante ricamente adornado, como muito bem já descreveram os escribas locais e, de fato, as pessoas despem suas túnicas e as estendem no chão para que ele passe, dão gritos de louvor em êxtase, entoam cânticos e, com todo o cuidado, o carregam nos ombros. Sua voz forte e sonora parece cativar a multidão, principalmente as mulheres, afinal, ele é belo, forte e jovem. Exatamente o contrário dos antigos profetas, velhos fracos e medrosos que pregavam o medo e a submissão.
Ele diz coisas estranhas que não pode provar. Fala em vida eterna, em um reino nos céus para quem o adorar, diz que é o único caminho, alfa e omega e outras coisas sem muito sentido. Acho que toda a água que ele bebe se transforma em vinho, ou que venha usando alguma erva mágica em seu narguilé, tal a expressão exaltada que assume e a veemência com que se expressa.
A toda hora surgem novos boatos, histórias que
vão crescendo e se enfeitando ao passarem
de boca a boca. Já dizem até que tem poderes mágicos, que um dia desses depois
de falar por horas seguidas, alimentou toda a multidão que o seguia apenas com
um cesto de pães e alguns peixes. Dizem que faz curas milagrosas e até mesmo
chegou a ressuscitar um leproso!
Incrível mesmo é a credulidade desses que o seguem. Pobres e explorados. Até quando Deus permitirá que se cometam tantos abusos em Seu nome? Como um homem que nasceu pobre e agora se cobre de ouro, vive em palácio e pratica orgias com prostitutas e moços, regadas a vinho se atreve a pregar a caridade e a pobreza? Estaremos todos cegos?
Mais uma vez o povo deposita todas as suas esperanças num homem e ele se acha um deus. Eu mesmo acabo de presenciar o tumulto da multidão exaltada que ele arrasta ao sair do templo. Parei e, de repente, percebi que apenas uma pessoa em toda a praça não estava adorando o pregador: Minha filha, que com um sorriso nos lábios e nos olhos fitava atentamente o desconhecido que acabava de entrar na praça, em direção ao templo, sozinho, maltrapilho, montado numa jumenta que parecia até mancar um pouco. Não, não estamos todos cegos.
Betty Vidigal - Fina ironia. Nota 10.
Marco Antunes - É uma crônica, está razoavelmente bem
escrita, mas não me convenceu, não me encantou, não me moveu,
Lorenza Costa – Uma bela idéia e uma boa
caracterização do clima da cidade. Nota:
9,5
Luci Afonso – Belo título, texto fluente, bom ritmo.
Nota: 8,8
Oswaldo Pullen Parente
- O exagero torna o personagem
apresentado pouco convincente. Uma eventual referência ao fitar de Jerusa é
pouco para justificar o título da crônica. Nota: 7,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 43,8
Crônica 18
Jerusalém em seu tempo – Eliz pessoa
Seu nome é pronunciado desde o tempo em que o tempo se perdia. Quando os homens levavam anos para conhecer o envelhecer, ou morriam tentando construir a História.
Seu tempo é milenar, cotidiano, como um texto que se desenvolve sem trégua aparente.
Nascida no ventre da Judéia, e apadrinhada pelos mares, Mediterrâneo e Morto, ela nunca se esconde em si, muito menos do mundo cheio de curiosidade que a circunda. E, às vezes, parece não definhar com a lida constante das horas que teimam em contar teu passado. (“teu”?? onde está a transição entre o “ela” com que a crônica começou e o “tu” de agora?)
Hoje, amadurecida, és cobiçada pelas mãos de homens de fé cega. Carregada de misticismo, cismas, heróis, resistência, conflitos, ignorâncias e muitas religiões distantes da etimologia da palavra e sua intenção de religar, onde ali, se desliga.
Mas saberíamos encontrar o tempo de tua essência? Ou ainda, haveria tempo para descrevê-la sem pressa ou ansiedades, sem contar teus feitos e defeitos, tuas prosas e teus livros, tão mal interpretados mundo afora?
Talvez seu
tempo seja incurável e siga seu caminho por entre fantasias e memórias,
rasgando o verbo de suas indecências atemporais. E mal sabemos por que te
despiram assim! Sem tirar todos os véus carregados do tempo que se perdeu. (voltou ao “seu”)
Eis que se confundem seus méritos e suas inconstantes verdades, e nem o tempo que te envelheceu, é suficiente para uma única dose de sabedoria em sua idade.
Jerusalém e a
insanidade de tua ira, de cegueiras
incuráveis, do fanatismo de fé adoentada pelos homens que desaprenderam a lição
de seus avatares. Você ainda nos confunde
muito e há em quem arrisque entender teus
apelos. Seu tempo é a guerra e sua busca é a paz que caminha lentamente nos rumos
do amanhã constestável. Cidade de paz para os
Hebraicos, a “Sagrada” para os Árabes. Já para nós, uma incógnita. E teu segredo guardaria a raiz de tua essência,
resguardada pelos teus fantasmas e redigida estranhamente pelos véus do tempo?
Capital do mundo seria, caso as diferenças não formassem contra si mesma uma faixa de Gaza. [14]
Eu me recordo de você, em meio aos textos bíblicos, nos contos da infância, e por essas razões é que tua lembrança está diretamente ligada ao peso das religiões, às palavras de mães, aos restos do passado que contaram você, cheia de magia e labirintos. E hoje, com o decorrer das horas, com a transformação do tempo dentro da gente, tua memória é estampada nos noticiários, nas bases de muitas falácias e pouco conhecimento de outras verdades, que também são partes integradas de tua geografia e cultura, da importância de teu papel na construção de um mundo novo, cheio de detalhes de tua personalidade.
Filha de
Israel, herdeira de um patrimônio imensurável disputado por israelenses e
palestinos, capital dos contratempos, dos montes, de Cristo, Maomé, Davi e
Salomão, detentdora dos textos sagrados,
da intolerância religiosa, dos resquícios da vida que se estende em cada
detalhe de tuas entranhas, do mito que se formou em tua volta e se espalhou
pelo mundo, como os quatro cavaleiros de um
apocalipse qualquer.
Teu tempo é hora
que se desfaz em tentativas de narrar tua epopéia. Como se isso fosse
possível... Plausível dentro do espaço que se forma todo santo dia, à tua
volta. E tua alma não cabe somente no
monoteísmo. Vai além de suas (aqui o “sua” está
correto, porque se refere a “ela, a alma”) fronteiras orientais, ou da
soberania palestina sobre sua (aqui, deveria ser “tua”)
capital. Porque de um outro lado, Israel, também pede mais uma dose do
cálice de seu vinho, derramado em sangue de todos os povos, que ali buscaram moradas,
que multiplicam as estatísticas do lugar, como suas doze tribos (não ficou claro se Israel
é o sujeito, se é quem pede mais uma dose etc”, quando então não deveria haver
uma vírgula depois de Israel, ou se aqui se trata de um vocativo, quando
então deveria ser “que em ti buscaram morada”. Morada, nesse tipo de situação, não tem plural.) Agora,
vindas de todos os lugares do mundo, seja pela curiosidade de conhecê-la, ou
ainda, pela oportunidade de vivenciá-la em nossas vidas (faltou um verbo nesta frase. Ou então ela se remete à frase anterior, mas
não está claro.)
És a soberana do Oriente, ícone de muitos reflexos e sons ecoados pelo mundo, em seu clamor de uma nova era.
Tua base é santa, embora a fome de teus discípulos desamolam tuas ações e percorrem um tempo. Mas você não se compõe apenas por detritos de muitas batalhas. Sua ação é vasta e através de suas universidades e seus centros de cultura, são suficientes para lhe contar de outras maneiras, com olhos mais amplos, enxergando um horizonte de vastas informações, como se àquela velha Jerusalém, fosse por um tempo esquecida e substituída por arte, teatro e música e todas as suas ramificações. E assim, o seu Muro das Lamentações, não reclamem mais tantas dores.
E no presente um turista visite o Monte das Oliveiras, e sem temor algum sobre o amanhã, uma prece de celebração do tempo.
Sua conquista ainda não se fez, pois todos os povos a cobiçaram, desejando tuas entranhas, teus mistérios, tua elegância, feita para os olhos do mundo. Veia para o curso de muitas castas.
Eu me rendo aos teus apelos de cidade pronta para um mundo confuso e atormentado pelo passado, pela pressa do tempo que desalinha o pensamento dos homens, pelo infindável contraste entre o que somos e o que poderíamos ser diante do nada.
Alá que a proteja!
Betty Vidigal - Bonito, mas cheio de erros.
Não é uma crônica. Nota 7.
Marco Antunes - Aqui os erros chegam, de fato, a exasperar o
leitor, a confusão entre falar de Jerusalém na terceira pessoa e com ela na
segunda pessoa tornam o texto um inferno logístico! Nota: 6
Lorenza Costa – Mais uma crônica sobre
Jerusalém, que desconsidera o tema principal - a entrada de Jesus na cidade. As
mudanças abruptas da terceira para a segunda pessoa ("ela/tu", depois
"você/tu"), às vezes dentro da mesma frase, chegam a dificultar a
compreensão do sentido de algumas construções. Nota: 7
Luci Afonso – O autor focalizou o título do desafio, sem
narrar o conteúdo. Pequena revisão ortográfica. Nota: 8,5
Oswaldo Pullen Parente - O tratamento dado ao texto o afasta do gênero
proposto. Pomposo e truncado, dificulta o entendimento do leitor. Nota:6,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 35
Crônica 19
Hosana! O rei está chegando! – Clemens
Soares
O povo lotou
as ruas apertadas de Jerusalém para ver a passagem de um novo líder
carismático, chamado de Jesus, o nazareno. Não é nenhuma novidade nessas bandas
a aparição de salvadores-da-pátria. São incontáveis nestes tempos de
insatisfação coletiva os que arrebanham multidões para criticar o domínio romano.
Mas boa parte deles apenas criticam. Não
passam disso. Carecem de fermento social para crescerem.
Em relação a esse novo líder, as notícias que circulam aos quatro cantos é que esse tal de Jesus veio da Galiléia à Jerusalém para defender o seu trono, pois se considera descendente direto do Rei Davi. Com tantos atributos, parece-me que pode ser mesmo que ele consiga tomar o poder. Não disse ainda como vai fazê-lo. Não disse quem vai apoiá-lo. Não disse com que recursos pretende fazer esse novo reino.
A chegada desse Jesus foi impactante, mas não apoteótica, como em inúmeros outros casos. Ao invés de elefantes indianos, raros por aqui, coube-lhe uma montaria quixotesca, laçada de última hora pelos seus militantes. Chegou montado em um jumento. Além disso, mandou cortar ramos de árvores, ramagens e folhas de palmeiras para cobrir o chão por onde passava. Como marketing pessoal, estas duas sacadas foram geniais! A idéia pode não ser muito elegante, mas o impacto na multidão foi certeiro. Aproximar-se dos mais pobres, (sem vírgula) garantiu a ele empatia imediata. Muitos dos que estavam nas ruas pararam para ver o motivo da gritaria vinda da pequena multidão.
No caminho por onde passou, homens, mulheres e crianças gritaram “Hosana”, “o rei está chegando”. Um novo rei está chegando para tomar o poder das raposas velhas do conselho religioso e dos interventores romanos.
Mas, a despeito do marketing deficiente, (mas não foi dito logo acima que o marketing era genial?) parece que desta vez o caso é sério. Pelo menos este já chegou agradando ao povo e criando confusão com a ortodoxia religiosa e com os governantes... Seu discurso é convincente e toca direto nos corações desejosos de mudança. Corações cansados de serem explorados pelo governante da vez. Existe solo mais propício do que este para uma aparição profética? Parece que não.
Os antigos discursos não atingiam o povo porque estes profetas não lhes toma (seria “tomam”, já que os profetas são o sujeito deste verbo. Mas ainda assim a frase continuaria errada, pois o correto seria “o” tomam, e não “lhes” – referindo-se ao povo) como parte do projeto de mudança. Porque a mudança que desejam é somente a de substituir os que lá já estão. Assim, suas “revoluções” são efêmeras e se resolvem ou pela morte do líder ou pela cooptação deste. Em ambos os casos, o resultado para as massas é negativo, pois o fracasso arrefece o desejo de mudança.
De tanto não dar em nada, notícias assim já deixam os mais velhos ressabiados[15] de mais um engodo, pois, de tempos em tempos, estes profetas aparecem prometendo acabar com a dominação dos romanos e acabar com as mordomias e privilégios de alguns judeus... Vejam, porém, que no caso do Nazareno, Ele[16] diz que vai criar um novo reino, onde não haja corruptos e nem corruptores. Onde os desonestos não se sintam ratificados pela impunidade. Onde os que dizem proteger o povo e as tradições, (sem vírgula) ) não se sintam confortáveis em enganá-los.
Este novo
líder parece se destacar mais pelas suas atitudes que pelas suas palavras.
Ainda que, pelo que tenho ouvido, não seja desprovido de boa oratória, mesmo
falando por parábolas. Não buscou aliança com os poderosos; aproximou-se do
povo. Não se aliou aos religiosos; mostrou outra dimensão para a religião. Em
um dos seus discursos, disse que não são justos os privilégios de juízes e
legisladores judeus, em detrimento do povo. Se os romanos são invasores e,
portanto, não merecem a obediência dos judeus, muito menos merecem admiração
aqueles que, sendo judeus, se aliaram aos que estão no poder para levar
vantagem da situação.[17]
É nessas horas que me pergunto se já não ouvi esta história em meu próprio país. Os políticos que elegemos não são tão diferentes destes fariseus. Aliás, fariseu significa “aquele que está separado”. Separado do povo, como uma casta à parte. A comparação com os nossos políticos é inevitável...
Mas, para além do adjetivo que se queira dar à sua entrada na cidade, seu discurso causou furor na elite daqui. Prometeu transparência na administração das coisas públicas, condenação do enriquecimento ilícito e da prática da religião como ópio do povo, dos milagres a preço de ouro e do comércio da salvação. Mas, é verdade, não falava diretamente para eles. Aliás, essa também é uma atitude dos bons oradores: fala-se para a multidão, mas, indiretamente, para os ouvidos dos que estão no poder. É como se o palanque desse eco ao discurso e ele fosse parar nos palácios e sinagogas, para que seja ouvido pelos que estão em condições de entender a mensagem.
A sapiência
de Jesus, o nazareno, está no fato de saber que enfrentar quem está no poder
exige sempre uma dose de coragem e duas de loucura. Quem tem o poder, (sem vírgula) não têem interesse em
dividir. É dá própria natureza mesma do poder, (sem vírgula) ser
indivisível. E não entender este fenômeno, (sem vírgula) talvez tenha sido o erro dos que lhe o antecederam.
Em outras vezes, não demorou muito para crucificar os que tentaram tomar o
poder sem a participação do povo, sem incluí-los na briga e sem desejar que
eles também governassem. A máxima de governar pelo povo e não governar com o
povo nem sempre dá certo.
Talvez não seja mesmo necessário ter o vil metal (lugar-comum, só se usa ironicamente... Talvez tenha sido usado assim, não está claro). Não é por falta de dinheiro que andamos mal aqui e acolá. Talvez não seja mesmo necessário ter armas poderosas. Até hoje elas não foram suficientes para trazer a paz. Por fim, talvez não seja mesmo necessário o apoio de ninguém. A revolução de verdade, daquela das boas, começa no coração de cada um. E, se for mesmo verdade, já deve ter começado no coração dele. Esperemos para ver.
O que nos resta desta história é sabido.
Betty Vidigal - Excessivamente “construtivo & edificante”. Apesar dos muitos erros,
no geral tá bem escrito, com frases originais. Nota 7.
Marco Antunes – Algumas incoerências
distraem o leitor do conteúdo e desmerecem a crônica que soa um pouco enfarada
do assunto que elegeu. Nota: 7,5
Lorenza Costa – A crônica responde bem ao
pedido do editor, mas ressente-se do estilo burocrático e de alguns
lugares-comuns. Nota: 7,8
Luci Afonso – Crônica competente, com alguns erros
gramaticais. Nota:8
Oswaldo Pullen Parente - Conseguiu se aproximar do evento através de
sua abordagem informal. Perde um pouco quando, dentro do contexto, dá o Nazareno
como certeza. Nota: 8,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 38,8
Crônica 20
O canto de um novo tempo – Ana Miosótis
Era cedo,
ainda observava as mulheres no poço. Desde que cheguei à
Palestina fui seduzida por este ritual matinal, de uma magia (cacófato. Melhor dizer “de magia”) capaz de encantar
qualquer sul-americana pela força manifesta na beleza dos costumes de um povo.
Trabalho silencioso que todas as manhãs se repete aqui no outro lado do mundo.
Sentada em um monte de pedras apreciava aquela movimentação onde em que (“onde” se
refere a lugar) o único barulho era o canto da roldana. Estava envolvida
pelo prazer que este cenário me proporcionava quando de repente o meu silêncio
foi quebrado por gritos (o silêncio foi quebrado... não o seu silêncio. Só a sua voz poderia quebrar o seu silêncio) Eram
brados de uma multidão que corria pelas ruas.
Peguei minha máquina fotográfica e corri entre os montes. O vento forte batia no meu rosto acompanhado por uma melodia de encantamento que me vestia de luz. E foi com esta luminosidade que naquele momento entrei na cidade.
A cidade era pequena e se mostrava acolhedora. Jerusalém acordava iluminada pelo sol. O tempo era quente e tinha um calor de conforto. Entrei no hotel. Da janela, tentava identificar o melhor ângulo para acompanhar o som.
O hotel fica numa ampla praça de onde se pode ver o templo. Era domingo e as portas da igreja estavam abertas para as orações.
Da janela procurava me localizar para ver de onde vinha aquele barulho que aumentava como uma tempestade que se aproxima. Questão de segundos e tenho diante de mim uma multidão: homens, mulheres e crianças aos gritos de “Ele é o meu Senhor. Bendito o que vem em nome do Senhor”. Todos seguravam na mão um ramo de oliveira ou uma folha de palmeira o que produzia uma sonoridade celestial que embalava aquela caminhada de fé.
Tudo acontecia tão rápido e como num passe de mágica a minha tela objetiva retrata um grande tapete que cobria toda a rua e chegava até a porta do templo. Eram folhagens, flores e mantas que forravam o chão. Uma passarela onde o verde da esperança dançava com o colorido das flores, uma demonstração de amor que mostrava o tamanho da generosidade daquele povo. Era a beleza do ato de receber que vestia a simplicidade com trajes de nobreza.
Os gritos foram ficando tão forte que eu já parecia parte da procissão. A multidão por um instante fica paralisada, quando uma mulher que ainda carregava o seu cântaro, como se do poço tivesse vindo direto para a praça, subiu nos degraus da praça, a sua roupa estava molhada e os seus cabelos despenteados, o seu semblante era de serenidade e tranqüilidade, mas a sua voz soou como um comando de guerra:
-“Ele chegou! É Jesus, o Homem de Nazaré!”
Todos se ajoelharam e em orações o reverenciavam como um rei.
Surge Jesus, um homem alto, magro, cabelos longos e desfeitos, barba também longa e um sorriso capaz de iluminar toda a multidão. Sua voz era doce e suas palavras tinham o encantamento das sementes que germinam vida. Por onde passava ficava o perfume das sálvias.O cheiro suave que possibilita o alimento da alma. E nesse andar de aproximação seu canto de louvor chegou como a verdade. Seus passos lentos sobre o tapete verde eram passos de quem desfilava sobre um piso sagrado. Eram passos do homem que conhecia o futuro da humanidade. Eram passos firmes na busca de um mundo novo. E foi assim que ele entrou no templo.
Enquanto observava a multidão que se comprimia na busca de um espaço para melhor ouvir a palavra do Senhor, pude ver mulheres com suas vestes molhadas e ainda carregando suas jarras como se fosse parte de um adorno que lhe embeleza as vestes. .Ali do lado de fora do templo elas silenciosamente saciavam a sede de todos que chegaram para se alimentar da palavra de Deus.
Aquela noite enquanto processava as imagens em minha cabeça e no meu coração fui tomada por um sentimento de gratidão de ter sido presenteada com uma cena memorável que certamente fará parte da história. Cheguei na janela, e apenas as estrelas iluminavam o céu da Palestina.Não conseguia dormir, o farfalhar das palmeiras era uma música forte dentro da noite e quando o sono vinha chegando, imediatamente despertava com o canto das águas que corriam pelas pedras que circundavam os poços.
Levantei cedo e quando comecei a fotografar as mulheres no poço, percebi que cantavam e tive a certeza de que Jesus de Nazaré trouxera (tenho a certeza de trouxe, tive a certeza de trouxera) consigo a alegria que batizou um novo tempo.
Betty Vidigal - Nota 6.
Marco Antunes - Esta crônica não se resolve, não se sabe
bem a que veio. Nota: 7,5
Lorenza Costa – Erros de pontuação e
inconsistências na mudança de um tempo verbal para outro dificultam a leitura.
Não está claro a que veio esse Jesus que entra triunfante num cenário moderno.
Nota: 7
Luci Afonso – Esta crônica poética requer algumas
correções na ortografia e pontuação, além da uniformização de tempos verbais.
Nota: 8,5
Oswaldo Pullen Parente - Um pouco mais de isenção daria o toque de
realidade que faltou. Quando enfoca a atividade das mulheres, principalmente no
primeiro parágrafo, agrada mais. Nota:7,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 36,5
Crônica 21
Um novo rei na velha Salém – Guido Heleno
De fato, há
um inquietante clima de agitação em Jerusalém nesta ensolarada manhã
de domingo. Como é sabido, nas festas da Páscoa, a cidade recebe milhares de
fieis e turistas, se transformando em um autêntico vespeiro humano. São
pessoas humildes, advindas dos mais longínquos recantos deste imenso
país de Canaã, a maioria delas utilizando apenas os próprios pés como meio
de transporte. (abuso do recurso da inversão, do hipérbato.
Em excesso, torna-se um vício de linguagem.)
Estou aqui nas proximidades do Templo Sagrado, local de maior concentração de pessoas, atento a tudo, sempre no exercício de minha árdua missão de informar, imparcialmente, tudo que acontece. Posso adiantar que recorri às minhas fontes e, até mesmo, lancei mão do serviço de alguns informantes, tudo para poder passar, em primeira mão, informações quentíssimas.
Pelo que apurei, tudo começou pouco antes de minha chegada, quando o centro de Jerusalém – Salém para os íntimos – foi palco de um dos mais explosivos tumultos já ocorridos por estas redondezas. Tudo começou quando dezenas de ambulantes, desafiando a lei, tentaram instalar suas rústicas bancas na parte externa do Templo. Eram pequenos artesões do ramo de alimentação, tentando comercializar produtos caseiros, como sucos de uva, queijos de leite de cabra, figos e damascos em passas, além e vinhos típicos da região. Sei disso muito bem porque minha prima, Maria Madalena é uma dessas abnegadas micro empresárias, na verdade, melhor fabricante de coalhada síria de toda a Galileia.
Mas, voltemos aos fatos... A ação repressiva foi mais uma demonstração de força, mais uma ação engendrada pela equipe de estrategistas contratada pelos sacerdotes do Sinédrio e pela Secretaria do Tesouro do Império Romano, visando aumentar a arrecadação. Em meio ao tumulto, ao corre-corre, fui informado de que um hilário episódio é também digno de nota. Não é que um indivíduo, aparentando debilidade mental, ocupou o mais alto degrau do Templo e, completamente irado, começou a protestar contra o que ele chamou de tritributação. Tentou argumentar que, há décadas, o cidadão jerusalenino é obrigado a pagar tributos aos romanos, aos sacerdotes do Templo e ao rei Herodes Antipas. Antes mesmo de terminar seu confuso discurso, o tresloucado sujeito foi prontamente recolhido à carceragem.
Como se pode
perceber, Jerusalém vive hoje um dia atípico, no qual tudo pode acontecer.
Imagine só que, para piorar as coisas, a cidade vive um clima de variados e
desencontrados boatos. Em busca da verdade e graças ao meu prestígio junto a um
notório sacerdote do Sinédrio, fiquei sabendo de que um pretenso Messias
anuncia que adentrará, hoje à tarde,
Tranqüilizo a todos e peço para não se
alarmarem com essas informações, uma vez que, em dias festivos, Jerusalém é
invadida por mágicos, prestidigistadores, ilusionistas e também profetas oriundos
dos mais diversos recantos. Mesmo assim, desdobro-me à cata de mais
informações, uma vez que não só os sacerdotes estão preocupados com esse
aludido Messias. Sei que até mesmo Pôncio Pilatos, o atual prefeito da Judeia,
vem perdendo horas de sono, tudo devido a boatos que dão conta de que Cristo,
também conhecido por Jesus, vem fazendo milagres surpreendentes, como o de
transformar água
Outro que se sente prejudicado em sua imagem de mandatário é Herodes, legítimo governador da Galileia, por benesses do grande Imperador Romano. Se ele, Herodes, com todo prestígio político, é apenas governador, como é que agora vem um nazareno qualquer querer ser rei em seu quintal? Essa, não!!
E as coisas podem piorar ainda mais. Imagina se este novo Messias se atrever a expulsar, a chicote, os vendilhões do Templo, honrados comerciantes que pagam em dia suas taxas e tributos? Resumindo, diante de tudo isso, Jesus Cristo, o Nazareno, o Messias não pode ser confundido com mais um aventureiro qualquer de plantão.
Conversei, há pouco, com um tal de Pedro, um desses fanáticos seguidores de Cristo, em busca de informações de cocheira. Identificando-se como um dos apóstolos de Jesus, Pedro garantiu que realmente a entrada de Cristo será o acontecimento do ano, quiçá do século. Confesso que, até mesmo eu, acostumado a conviver com os mais estranhos e extravagantes acontecimentos, fiquei impressionado com a convicção de Pedro, com a firmeza de suas palavras.
Estou agora
em ponto privilegiado, área restrita aos que transmitem informações, e vivo as
mesmas expectativas vividas pela multidão que se acotovela, se espreme uns
contra os outros, mas não arreda pé do local. De repente, pelo aumento do
burburinho, pressinto que este novo rei está se aproximando. Dou-me conta de
que uma espontânea e contagiante euforia todma conta de todos. Há gritos de Hosana nas alturas. E
Hosana, no bom hebraico, significa Glória. Ou seja, este novo Messias é
realmente poderoso.
Incrédulo, perplexo, e por que não confessar, completamente aturdido, vejo que a rua é forrada por mantos e outras peças do vestuário, em um improvisado tapete. Galhos de oliveiras e outras palmáceas são agitados, com frenesi, em uma original coreografia. Os gritos desordenados ganham agora ritmo, tornam-se uníssonos e ecoam por todas as praças, ruas e becos de Jerusalém: “Viva o rei! Viva o rei!
Diante de tanta pompa e circunstância, esperava eu que, quando o novo Rei e Messias desse o ar de sua graça, estaria eu diante de alguém realmente especial e à frente de um luxuoso e requintado cortejo. Mas, o que vejo? Tão somente um homem simples, sem nada de extraordinário, montado, pasme, em um jumentinho.
No primeiro momento pensei que havia perdido meu tempo ali e que tudo não passara de muito barulho por nada. No entanto, sou obrigado a confessar que, em determinado momento, ele olhou para mim. Um olhar que me ofuscou, como se fosse o mais forte dos raios de Sol.
E olhe que, até este preciso momento, juro, não tomei uma única caneca de vinho.
Betty Vidigal - O final tá muito bom. Mas a
crônica como um todo tá chata...! Nota 6.
Marco Antunes - Interessante, não entusiasmante, mas
conseguiu mobilizar minha atenção. Nota: 9
Lorenza Costa – A crônica não encontra seu
eixo, oscilando entre o humor e uma monótona prosa jornalística descritiva,
típica de um foca (como na enumeração de produtos vendidos no templo). Acredito
que o resultado seria melhor se o autor se decidisse pelo humor e exagerasse
ainda mais no "jornalês", abusando de ótimas expressões como
"prontamente recolhido à carceragem" e outras que lemos e ouvimos por
aí todos os dias. Nota: 7,5
Luci Afonso – Bem-humorado, mantém o ritmo. Pequena
revisão ortográfica e gramatical. Nota:
8,5
Oswaldo Pullen Parente - Bem humorado, o texto se desenvolve
misturando os comentários do jornalista com fatos históricos. Apesar do “quê”
de reportagem ao vivo, agradou. Nota:9
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 40
Crônica 22
JERUSALÉM TRANSFIGURADA – Aldemeriza Riker
Um dos assistentes, no céu, confundiu-se com os inúmeros botões que tinha que acionar numa grande máquina. Na terra, Jesus prepara-se para a entrada em Jerusalém e pede a um dos discípulos que traga um jumentinho para, humildemente, entrar na cidade. Logo pressente algo, desvia-se para o monte das Oliveiras que está próximo e roga: - “Pai, mais uma vez, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!” Deus ainda quis intervir, mas um assessor sussurra-lhe ao ouvido: - É falha do sistema! Deus: - Nada posso fazer, filho! De imediato, processa-se uma grande transfiguração. O Nazareno entra em Jerusalém numa Ferrari 250 GTO amarela e a multidão que o segue, ao passar no portal da cidade, também se transfigura. A praça principal encontra-se cheia de anúncios luminosos, com luzes néon coloridas, as pessoas com trajes excêntricos, cabelos e acessórios extravagantes, outros ostentam seus Chevrolets e Fords de cores berrantes, rosa, vermelho. Nas paredes da praça, encontram-se expostas grandes reproduções serigráficas de retratos sequenciados, em cores vibrantes e sorrisos estereotipados, dos mitos da sociedade capitalista, como também alguns símbolos de consumo, sopas Campbell, garrafas de coca-cola e outros. Uma das mulheres retratadas chama-lhe muito a atenção. As pessoas amontoam-se na praça para ver o visitante, a transformação do local e delas próprias. O único lugar, incólume, de toda aquela parafernália, é o Sinédrio. O Sumo Sacerdote vê de longe toda aquela manifestação, convoca seus pares, os anciãos e os escribas para uma reunião urgente. O que lhe chega aos ouvidos é que se trata de um jovem, de aparência esquisita que, com seus discursos carismáticos, à frente de um grupo de doze seguidores fiéis, incita a multidão que acorre a todos os lugares onde ele se apresenta.
- Sinais do tempo! Imagine! Até o templo virou salão de festa!
Enquanto isso, o jovem já enfadado com as constantes aclamações e fama crescente, ocasionalmente, pede a dois ou três sósias que compareçam em seu lugar para honrar os inúmeros compromissos. Visto ao mesmo tempo, em locais diversos, o povo credita-lhe mais milagres a quem chama de Messias ou o Salvador, esperado conforme a profecia de Isaías.
O Conselho reunido permanentemente, sem solução para o caso, envia espiões para se misturar à multidão para ver se o incrimina por alguma palavra ou frase contra o César.
Aproximando-se o dia dos ázimos e prestes a cumprir sua missão na cidade, ele pede a um dos seguidores que procure um local discreto, de preferência no piso superior de uma casa, para uma ceia restrita ao grupo dos Doze, para tratarem de assuntos particulares ligados aos próximos eventos. A única exceção, uma convidada especial, àquela do retrato, na praça, por quem ele se interessou que, entre os íntimos, era conhecida por Madá. Para não chamar a atenção do povo e escandalizar o grupo dos doze, pediu ao seu discípulo preferido que trocasse de roupa com ela e cedesse o seu lugar a fim de que ela sentasse ao seu lado e pudessem conversar com mais intimidade. Sabe-se que, no cardápio, foi oferecida sopa enlatada Campbell, como entrada; no prato principal, hambúrguer com coca-cola e na sobremesa, frutas da região.
Após intermináveis discussões sobre a acusação mais apropriada a ser proferida contra o visitante, o Conselho do Sinédrio chega a um consenso: violação da ordem pública. De imediato, os soldados romanos, em obediência à ordem dada, saem em busca do transgressor.
No céu, uma equipe especializada, em aparatos eletrônicos, tenta detectar os possíveis defeitos da máquina. Deus, impaciente, anda de um lado para outro. Não quer usar os seus poderes para não desagradar aos assessores e desmoralizar a equipe técnica.
O jovem, cansado e querendo ficar só, esgueira-se, junto aos muros da cidade e sai em direção ao monte das Oliveiras. Aconchega-se junto a uma das pedras e passa a refletir sobre essa mudança visual inesperada. Num dado momento, fala em voz baixa: - Agora essa, travestido dos anos 60, fama efêmera! O artista tinha razão, “um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama”. Logo, aumenta a voz: - Mas, eu Sou o Filho do Pai! Minha glória será eterna! Em seguida, parece resignar-se, pois com o olhar perdido ao longe, seu semblante ora se contrai, ora se distende num sorriso. Provavelmente, seus pensamentos trazem lembranças de sua infância junto ao pai marceneiro, a primeira ida ao templo, o garoto superdotado que prega aos sacerdotes. Muito novo deixa a casa dos pais, a travessia dos desertos, o dom carismático para conclamar multidões, os milagres, o ensino por parábolas. A mãe, sempre compreensiva: “Ele tem que cumprir sua missão!”; ainda pensativo, certamente recorda outros episódios, como o batismo junto ao rio Jordão, a escolha dos companheiros, os Doze, como ele os chama. E as mulheres, abnegadas, que o acompanham em sua missão? Joana, Susana, Marta e várias outras. Possivelmente, sente a falta de uma companheira. - Ah! Se eu pudesse encontrar com Madá antes de deixar a cidade! Vozerio e ruídos quebram suas reflexões. Os centuriões cercam-no. Dois ou três dos Doze, que ali chegam à sua procura, tentam reagir, mas ele pede calma e diz: “Seja feita a vontade do Pai!” No céu, Deus se acalma, a engrenagem da máquina volta a funcionar. De repente, um homem sai da multidão, corre com um pequeno saco onde se ouve o tilintar de moedas e, ofegante, grita em voz alta : - Calma aí, camaradas! Ainda não beijei o cara!
Betty Vidigal - Engraçado em alguns pontos,
mas esforçando-se excessivamente por ser engraçado. Mal escrito, não tanto por
erros de português, mas por falta de lógica dentro de algumas sentenças. O
final é interessante. Nota 6.
Marco Antunes – Quem procura o humor de
fato pode achá-lo? Este conto (jamais uma crônica) ressente-se dos males que
tomam conta da filmografia humorística americana: busca-se o humor sem sutileza
e a inverossimilhança acaba demolindo a possibilidade de realizá-lo, o
resultado é falso! Diria um texto careteiro e histriônico como uma atuação do
Jim Carrey Nota: 6
Lorenza Costa – Ficou difícil enxergar uma
crônica escondida por trás deste conto engraçado e cheio de agilidade, apesar
das trocas inconsistentes de tempo verbal e erros de pontuação. Nota: 6,5
Luci Afonso – Nonsense
frenético e divertido. Nota: 9,8
Oswaldo Pullen Parente - Mais para conto do
que para crônica, o trabalho se perde em
alguns momentos. No entanto, sua qualidade o sustenta até o seu ponto forte,
que é um final surpreendente. Nota: 8,7
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 37
Crônica 23
Jesus de Nazaré – helenice Paes Landim
Caro editor, as impressões por mim enviadas talvez possam esclarecer os fatos e dar-lhe idéia da dimensão que os fatos aqui ocorridos no domingo próximo passado podem tomar.
Ao chegar por aqui já ouvi a notícia de um homem que prega o amor e a igualdade entre as pessoas, e que estava realizando milagres em nome de um Deus de amor e bondade. Tal homem não me parece diferente dos que conheço, suas vestes não diferem das de seus seguidores, ele senta-se à mesa, em qualquer casa e come e bebe como qualquer um de nós. Estive observando-o de longe para melhor compreender e avaliar suas ações, a princípio acreditei ser Ele um profeta como outros que já ouvimos falar e encontramos em templos pregando a palavra de Deus, mas este vai onde o povo está. Ouvi dizer que o mesmo não busca resgatar os justos, mas os pecadores, enquanto todos querem estar ao lado dos que agradam, ele põe-se ao lado dos renegados e oprimidos, isto o difere de muitos homens, mas ainda o vejo homem e não o enviado que os vilarejos gritam aos quatro cantos, anunciando a chegada do “novo rei”. Que rei é esse que não tem trono, que não tem um exército ao seu dispor e que ele e seus súditos andam de pés descalço, sem nenhum ouro, com veste simples e sem nenhum cavalo pra montar? Seu banquete é feito de peixe coletados por seus discípulos e doado por moradores das vilas por onde ele passa. Que ser divino é esse que não transforma a pobreza de sua volta em riquezas e facilidades pra quem está ao seu lado? Que rei é esse que não tem palácio e nem cama pra dormir? Que riquezas possui esse homem pra ser chamado de “Rei de Israel”? Esse falatório tem chegado aos ouvidos dos governantes romanos os quais não têm demonstrado afeto pela idéia, de um rei vindo do povo, que se diz ser de outro mundo. Não sei o que o torna rei.
Esgueirando-me pelas vilas, ouvi dizer que ele foi concebido pelo espírito santo, é filho de Deus. Mas afinal não somos todos filhos de Deus? Só porque ele pensa diferente, é melhor que eu? E que Deus é esse que dá uma vida miserável a seu filho? Como pode um Salvador ter aparência tão humilde, andar entre os pobres e desdenhar dos ricos? Mas como pode um homem fazer um cego enxergar, um mudo falar, e transformar água em vinho? Como é possível a coexistência de coisas tão diferentes em um homem tão humano? Quem pode explicar-me melhor sobre este homem que dizem ser divino, ou sobre o divino que parece homem? Se alguns profetas estão confusos, imagine eu.
A voz do povo ecoou testemunhando seus feitos o que esta deixando inquietos os profetas do templo. E no domingo pela manhã disseram ter visto dois dos seus seguidores levarem um jumentinho que nunca havia sido montado, e anunciaram que o rei de Israel viria nele, a notícia espalhou-se e aos poucos foi aglomerando-se pessoas na entrada da cidade, e quando o homem chamado Jesus apareceu em cima do jumentinho, quem tinha capas tirou as e as colocou no chão para que ele passasse; outros desprovidos delas, estes em maior quantidade, tiraram ramos das plantas mais próximas e cobriram o caminho. A meu ver algo desnecessário, tanta algazarra para um homem que nunca se importou, segundo dizem, em pisar seus pés em poeiras e lamas. Será que eles não queriam que seu manto arrastasse no chão devido à pequena estatura do animal que o carregava? A entrada desse movimentou toda a cidade, e de longe se escutava o povo aclamando – Hosana - o que ouvi dizer ser uma saudação referente a possível divindade do tal homem, ou um agradecimento a Deus por enviar um salvador. Não ouvi falar de nenhuma Rosana como entendestes por aí, mas de uma tal de Maria Madalena, que parece ser a pessoa mais chegada, ou intima do Nazareno, alguns dizem ser ela é a esposa dEle. O que a meu ver é normal e de se esperar, pois nós seres humanos necessitamos de carinho e afeto e uma boa companheira para conversar no final do dia. Portanto não percebo onde esse homem é diferente dos outros.
Amigo editor, a vida parece estar zombando de mim. Vi a movimentação que causou a entrada de tal homem, e segui-o de longe, animei-me quando Ele parou para falar, procurei escutá-lo buscando compreender o porquê de este povo adorar e segui-lo. E então fui traído por mim mesmo, suas palavras envolveram-me como uma melodia que te embala ao entardecer, e trás de volta a lembrança do colo de mãe,e ternura do afago de avó. Sentei-me para escutá-lo, e suas palavras pareciam direcionadas a mim, elas se encaixavam perfeitamente em minha vida e Ele estava mostrando como eu podia fazer a diferença. Loucura, como pude deixar-me envolver com palavras de um homem que não tem nenhuma aparência melhor que eu, é um homem simples que precisa de água pra beber e pão pra comer, e envolveu-me com suas palavras e paralisou-me com suas ações. Ele não parece querer nada deste mundo, fala de um reino onde não se usa dinheiro ou qualquer bem material, mas o povo o declara “rei dos judeus”.
Não sei quando eu me perdi de mim e quis que aquele homem me falasse mais das maravilhas que este “pai eterno” pode oferecer. Agora aqui sentado embaixo de uma árvore escrevo-lhe observando o homem simples, que disse que a minha ação é a diferença deste mundo, e encontro-me feliz em estar próximo, ou ao lembrar-me de sua existência, pergunto-me se Ele entrará para a história como entrou pra minha vida.
Não conheço o homem, mas acredito no filho de Deus.
Betty Vidigal - Tem tom de carta ao Editor,
não de crônica dirigida aos leitores do jornal. Erros de sintaxe. Nota 6.
Marco Antunes - Mais um desastre logístico: o autor não
soube realizar com boas mãos a transição entre o jornalista que procura ser
imparcial e o fiel que se confessa convertido. O tom pio me desagrada sobremaneira! Nota: 6,5
Lorenza Costa – A transição entre os estados de espírito
conflitantes - do jornalista desconfiado para o novo discípulo de Jesus - não
foi muito bem realizada, pois nos dois momentos da carta o cronista dá a
entender que está falando de seu estado de espírito atual, no momento em que
escreve. O texto precisa de uma boa revisão. Nota: 7,5
Luci Afonso – A gramática precisa ser revista com
cuidado, pois compromete a leitura. Nota: 7,5
Oswaldo Pullen Parente - O desenvolvimento da narrativa é cansativo,
com parágrafos compactos, em uma escrita com problemas de concordância e
pontuação. Nota: 6,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 34
Crônica 24
Jesus de Nazaré: chegou o salvador? –
Antonio Lima
Adentrou as portas de Jerusalém, nesta manhã, mais um profeta. Chama-se Jesus, e veio de Nazaré. Chegou à cidade sagrada acompanhado de centenas de seguidores. Montava um jumento (não um elefante, como corre à boca pequena), e tinha ao redor de si a aclamação de um povo ansioso pela salvação de seus pecados e por um lugar no Reino dos Céus. Tratavam-no como se fosse ele uma espécie de porta-voz do próprio Deus. Chamavam-no “Filho de Davi” - em alusão àquele Rei pequenino, mas com boa pontaria, que defendeu os israelitas contra os filisteus. No momento em que escrevo, porém, se agitam os poderosos, com medo de que esse jovem possa inflamar a plebe contra a ordem estabelecida.
O que tem esse nazareno a acrescentar? Qual é a sua mensagem? O que tem ele de diferente, em comparação com tantos outros profetas?
Bom, em primeiro lugar, há algo de especial nesse homem. Ah, isso há! Em sua compleição física, nada de extraordinário. É um homem comum, de nosso tempo. Então, penso cá com minha túnica: por que tanto magnetismo? Ele se diz filho de Deus e, como afirmam os seus seguidores, já realizou alguns prodígios. Caminhou sobre águas, curou os incuráveis, multiplicou pães... Tudo isso é admirável e desperta a minha curiosidade, mas, apesar dos milagres alegados, sinto que o mais impressionante nesse nazareno é o que ele profere. E o modo como ele profere... Em sua voz existe algo de especial. Provoca um estado espontâneo de reverência e silêncio, como se tudo ao redor perdesse importância naquele instante.
Esse fenômeno é espantoso, pois, quando soube dos “milagres”, confesso que imaginei tratar-se de mais uma farsa, mais um embuste para arrebanhar multidões e chegar ao poder. Todavia, não é isso que se sente na presença de Jesus, nem quando se escuta o seu discurso. É um discurso, basicamente, de fraternidade, paz, liberdade e amor incondicional. E o que dizer de seu carisma extraordinário? Repito: há algo de inusitado nesse nazareno! Devo fazer mais uma confissão: ao recordar minhas impressões diante do contato com esse profeta, chegam-me lágrimas aos olhos... Lágrimas que não se explicam, mas que descrevem o que se pode sentir na presença desse rapaz (e alertam para o fanatismo que ele pode despertar!).
Dizem as más línguas que um rio de sangue está prestes a correr, tendo como nascente o temor dos poderosos. Diante da apreensão que sentem frente à ameaça de Jesus de Nazaré, mais especificamente, à capacidade do profeta de mobilizar o povo, tanto o Sinédrio quanto Pôncio Pilatos podem tomar medidas drásticas. E isso com a aprovação de boa parte do povo, especialmente os mais ligados às tradições e ao status quo vigentes. Pessoalmente, não creio que deixarão Jesus de Nazaré falar livremente por muito tempo...
A ganância dos poderosos não é novidade; o que me custa entender é o que há no discurso desse rapaz que possa alavancar o ódio em pessoas do povo! Penso que, mais uma vez, o ódio é fruto do medo. O medo da mudança. O medo de se deparar com uma verdade maior do que a que estão acostumados.
Pelo que contam, ele já deixa um legado, mas eu, sinceramente, gostaria de ouvir mais de suas palavras. São profundamente interessantes e revolucionárias. Há algo em meus pensamentos que duvida, que questiona, que julga, mas... o que dizer da emoção que esse profeta suscita? Tive a oportunidade de estar bem próximo quando a comitiva dele passou pelas redondezas, e, não sei se pela adoração do povo, ou por algo de luminoso que ele realmente carrega, percebi uma profunda e sublime imponência em sua presença.
Todavia, reconheço que a figura de Jesus de Nazaré também pode ser altamente danosa. Vejo-o despertando adoração e ódio. Vejo-o atraindo multidões - para exaltá-lo ou para vociferar difamações. E o que há nisso de tão perigoso? Ora, ele deflagra o que há de mais visceral nos homens. Seja para o Bem ou para o Mal. E o maior risco nesse fenômeno é que as pessoas se distanciem de suas questões pessoais para se debruçar exclusivamente na figura desse homem, ou seja, que parem de enxergar a si próprias e passem a viver segundo outrem. Que passem a detectar o Bem e o Mal somente no mundo exterior, projetados em figuras externas, e não percebam que as centelhas de Deus e do Diabo podem acender fogueiras em seus próprios corações e pensamentos.
Me preocupa quando, em seus discursos, Jesus usa as expressões “EU SOU a verdade e a vida”; “EU SOU o caminho”. Me preocupa pensar que o povo possa confundir parábola e realidade, desejando tornar-se de fato um rebanho desse homem. Dizem os sábios: “Queres conhecer alguém? Dê a ele poder”. Como reagirá Jesus ao secto que se avoluma cada vez mais ao redor dele?
Honestamente, não penso que ele faria mal uso da influência que exerce; seria muito incoerente com suas próprias palavras. Em conversa particular comigo, um dos seguidores mais próximos de Jesus (reservo-me o direito de não nomear a fonte, nesses tempos de intolerância religiosa) me confidenciou que ele não pretende fundar igrejas ou templos para a religião que anuncia. Segundo a fonte supracitada, a expressão usada pelo nazareno foi: “O verdadeiro templo de Deus não é feito de pedras, nem de madeira; o verdadeiro templo de Deus está dentro de cada pessoa, debaixo de cada pedra, no abrir de cada porta”.
Em acesso raro de falta de humildade, eu acrescentaria à fala de Jesus que o Inferno do Diabo também não está abaixo de nossos pés, nem nas profundezas da terra; ele está bem vivo, nas trevas de nossas próprias almas. Sim, eu reafirmo, como outros já fizeram antes de mim: além dos anjos de meu Deus, nossas almas também são habitadas por terríveis demônios. Cabe-nos a sagrada e dificílima missão de decidir a quem dar ouvidos. E, apesar dessa tarefa ser absolutamente pessoal, penso que o nazareno tem contribuições a nos dar, desde que tenhamos a plena consciência de que a verdadeira redenção não virá de fora, mas, sim, da pureza de nossas próprias escolhas.
Será que, ao proferir o já famoso “EU SOU...”, o nazareno não quis transmitir a ideia de que, ao pronunciarmos com nossa própria voz essa invocação, estaremos imediatamente fazendo um retorno a nós mesmos, assumindo a responsabilidade e o direito divinos de criarmos nosso próprio caminho?
Enfim, dito isso mais aquilo, peço que marquem esse nome: Jesus de Nazaré. Pressinto que ele não passará em branco pelos pergaminhos da História...
Betty Vidigal - Nota 6
Marco Antunes - Interessante, bem escrita, provocante. Nota: 9,5
Lorenza Costa – Tenho a impressão de que a
publicação deste texto em jornal, depois de uma boa revisão, cumpriria uma das
funções de toda crônica: provocaria uma enxurrada de cartas do leitor.
Nota: 8,5
Luci Afonso – Crônica bem redigida, com cara de ensaio.
Nota: 8,5
Oswaldo Pullen Parente - O ponto de vista do cronista é confuso, em um
texto pouco fluente. Nota: 6,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 39
Crônica 25
Jerusalém – refundação de uma teogonia –
Luís Vale
As notícias que iam chegando à grande cidade, através de viajantes, de comerciantes, de militares e de mensageiros enviados pelos governantes, não só iam alimentando a curiosidade e a agitação popular, como eram recebidas e percebidas pelo poder vigente como potenciais focos de desestabilização social e de ameaça real às instituições estabelecidas. Era com crescente agitação e ansiedade que Jerusalém recebia as novas vindas do lado de fora das suas muralhas e de geografias distantes. Nas adegas, nas tabernas e nos prostíbulos por onde eu deambulava não se falava de outra coisa, num misto de curiosidade e de assombramento, mas com o devido cuidado e desconfiança. Com facilidade percebi esse ambiente intimidatório e de censura, imposto por uma legião de detractores pagos a soldo. A custo de algumas canecas de vinho, fui conseguindo sussurrar com alguns viajantes que diariamente chegavam à cidade (sussurrar o quê? não se sussurra “com” alguém. Sussura-se algo a alguém, ou simplesmente sussurra-se, sem objeto nenhum). Foi através deles que ouvi falar pela primeira vez de um messias, filho de Deus. Foi também assim que pude perceber que o seu caminho viria a cruzar-se, em breve, com a cidade que eu também visitava.
Os testemunhos desses nómadas, viajantes e negociantes, de carácter duvidoso e com discursos mais ou menos fantasiosos, com os quais fui falando ao longo das últimas semanas relatavam-me experiências formidáveis, nunca antes vistas: da cura de enfermos à promessa de um reino no céu, da ressurreição de mortos ao despojamento de bens terrenos, da simplicidade dos modos e do verbo ao convívio e defesa dos proscritos. Práticas e discursos que facilmente atraíam indigentes, foragidos, bandidos, miseráveis e todas as hordas de marginalizados pelas sociedades, que em tumulto e anarquia o recebiam, ouviam e seguiam. Tudo isto me parecia estranho, muito estranho e, por isso, a minha curiosidade inicial deu lugar a um entusiástico interesse. Praticamente abandonei aquilo que me trouxera a esta magnífica cidade e resolvi aguardar mais uns tempos na expectativa de poder conhecer tal personagem. Assim fui ficando, adiando sine die o meu regresso ao Norte e à rotina de meu ofício.
Neste tempo de espera pude conhecer uma cidade fervilhante, agitada e confusa. Ruas inundadas de rotinas seculares e impregnadas de panóplias de odores. O dia-a-dia de Jerusalém desenrolava-se assim e, condicionado pelo meu saber, em cada olhar, em cada gesto ou palavra descobria um entendimento que se assemelhava a uma grande conspiração na qual eu interessado participava. Mas se a rua assim vivia, quem governava a cidade não se reprimia ao manifestar o seu desconforto com a eminente chegada do profeta. Os rumores que chegavam à rua e a mim, vindos do Sinédrio, esse Olimpo dos senhores de Israel, onde se sentam os juízes a conversar, a discutir e a decidir sabiamente as leis para a cidade, eram de um ambiente radicalmente tenso e de afrontamento de opiniões e perspectivas. O consenso estava dali arredado e, sendo o coração do poder simbólico da cidade, naturalmente os seus guardiões tentavam reagir e proteger o seu poder, preparando-se para a chegada do auto-denominado filho de Deus. Foi com enorme repressão que a ordem foi mantida, tentando distrair o povo com festas e oferendas.
Enfim o grande dia. Ao contrário do que é meu hábito e sem sentir qualquer maleita, tivera uma noite agitada. Acordei ainda antes da aurora. Sem nenhum afazer resolvi sair das muralhas e passear sem destino pelos campos e pomares que rodeiam ao longe a grande muralha urbana. Estava uma manhã fresca, razão pela qual estendi por mais tempo o meu passeio matinal, afastando por completo da mente a turbulência que vivenciara nesses últimos dias. Num recanto do caminho, perto de um pequeno ribeiro, decidi parar para descansar um pouco e refrescar-me. Em tranquilo silêncio e debruçado sobre o fio de água fresca, sem me aperceber, ouço uma voz perto, muito perto, perto demais e que apesar de estranha logo reconheci. Num sobressalto levantei-me e dirigi o olhar na direcção dessa voz. Num calmo e claro tom aquele indivíduo, rodeado por uma dezena de homens e mulheres, perguntou-me se podiam beber daquela água e descansar um pouco perto de mim. Estremeci e a custo consegui reagir ao deslumbramento daquela visão. Não tive qualquer dúvida, logo percebi que estava perante o profeta, aquele de quem todos falavam e acerca de quem todos especulavam. Ali, à minha frente, e a pedir-me algo…
Estupefacto fiquei durante largos minutos a
observá-los e a tentar refazer-me do espanto inicial. Instalaram-se
confortavelmente na erva incerta, como quem se deita na melhor das camas e
assim ficaram
Num movimento suave e calmo todos se levantaram e se prepararam para seguir viagem. Convidou-me para o acompanhar naquele pequeno percurso. Acedi e pusemo-nos a caminho. À medida que nos aproximávamos das portas da cidade consegui perceber que o grupo crescia. Eu seguia-o de perto, apenas à distância do perímetro dos seus fiéis acompanhantes. Mesmo antes de entrarmos na cidade, fui engolido pelo mar de gente que se abeirava nos caminhos e não mais consegui aproximar-me. Segui no mesmo sentido, atropelado, empurrado e comprimido pela força centrífuga daquele movimento, mas percebia que cada vez me afastava mais e regressava à minha condição inicial. Aquilo que se passou a seguir foi indescritível: a cidade em peso nas ruas, num completo caos e desordem. Por um lado, a vontade popular de chegar perto e tocar o profeta. Por outro, a repressão das forças militares que, sem pudor ou senso, maltratavam os seus concidadãos, numa desesperada tentativa de contrariar aquela genuína vontade e manter qualquer réstia de ordem.
Enquanto cronista que continuará a vaguear por este mundo que, a cada dia, parece cada vez maior (ou “que a cada dia parece maior”, ou “que parece cada vez maior”), tenho por desejo conseguir transmitir-vos aquilo que os meus sentidos, com veracidade, experimentaram. Espero eu, e que os deuses me auxiliem, que tudo aquilo que o meu olhar testemunhou, nestes dias, chegue até vós e que, através da minha humilde condição e arte, consigais ter uma pequena ideia da loucura que os dias de hoje viveram. Garanto-vos que, em vários momentos, cheguei a desconfiar da minha sanidade mental, pois estas experiências foram por demais intensas, eu diria mesmo, de pura excitação individual e exaltação colectiva. Os dias de amanhã não me pertencem, não os poderei inventar, mas gostava muito de os conseguir antever e de saber o que acontecerá a este “louco”, que em nome de um Deus único, tem revolvido os paradigmas instituídos e, acima de tudo, tem posto em causa os fundamentos éticos, morais e religiosos das comunidades por onde tem passado. Tal como esse filho de Deus tem ensinado a quem o segue e escuta: a partir de agora o futuro a Deus pertence, apenas e só.
Betty Vidigal - Nota 6,5
Marco Antunes - Bem escrito e interessante, pude perceber o
homem de imprensa em cada palavra do cronista, construir um tal retrato e prcorrer com
segurança as armadilhas do enredo proposto é tarefa para raros. Nota: 10
Lorenza Costa – É um texto correto,
mas falha na transmissão daquilo que, segundo o cronista no último
parágrafo, teria sido seu desejo transmitir. O encontro casual com Jesus num
ambiente campestre, fora das muralhas, depois de uma noite anormal, lembra
demais os clichês da literatura romântica. Nota: 8
Luci Afonso – Texto irretocável, narrativa envolvente.
Nota: 9,5
Oswaldo Pullen Parente - Bem escrito e bem desenvolvido, talvez com
uma erudição desnecessária para o gênero Nota:9
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 43
Crônica 26
Multiplicação de votos – Rodrigo Fernandes
A sete longos meses do início do ano eleitoral um mercador estrangeiro, recém-chegado a esse mui heróico burgo de Jerusalém, pode achar que já estamos em pleno e acirrado pleito. Ele não estaria de todo errado. Que Jeová nos proteja de tanta afobação, amém.
Até as rochas da Judéia sabem que por essas bandas orientais a fauna política é rica e exuberante. As figuraças caem das videiras como maná do céu, não raro o povão abraça a apelação. Barrabás, por exemplo. Já ouvi boatos bem concretos que o nome desse senhor está sendo cogitado como possível candidato da oposição, é mesmo capaz de alguns apoiarem o velho salteador, não me surpreendo. A cabeça dessa gente é mais imprevisível que um camelo com fome. Jesus Cristo é outro. Saído de Nazaré como quem não quer nada o homem anda fazendo barulho. Numa linha socialismo-místico já disparou duríssimas críticas aos coronéis do sinédrio judaico, expulsou a máfia de muambeiros do templo e, veemente, cobrou a investigação do assassinato de João Batista, o Joãozinho do Jordão, ligado à bancada evangélica e seu padrinho político. A gente vê que nesse rapaz atitude não falta. Ele põe a cara pra bater e ainda oferece o outro lado. Tanta saúde civil chega a dar gosto. Tanta disposição dá certa invejinha.
Ao que parece JC não é filiado a nenhum partido, embora seu discurso, articulado, seja pródigo de citações... Hummm... Digamos... Reveladoras. Joio e trigo, pobres, ricos, tempo de semear, tempo de colher. Alusões a uma possível coligação com movimentos rurais? Pode ser. Quem viver, verá.
Independente,
a campanha do candidato é franciscana. Cristo gosta mesmo é do corpo-a-corpo
com o eleitorado. Envergando túnicas empoeiradas, sandálias surradas e apenas
doze cabos eleitorais, o barbudinho tem ganhado um bocado de adeptos fiéis.
Outro dia, o Monte das Oliveiras ferveu mais do que Fla-Flu em véspera de
feriado, todos querendo ouvir as boas-novas do nazareno. Neste fim de semana
uma multidão o espera
De fato, é um esforço eleitoreiro controverso e recheado de factóides obscuros que desafiam a fé do eleitor mais sensato, ou insensato, meu caso. Ele anda sobre as águas, alimenta multidões com meia dúzia de pães, vence as tentações da oposição e expulsa demônios. Se já tivessem inventado a web com certeza o candidato seria um fenômeno no Youtube. A reforma do legislativo é uma meta. O bom homem anda espalhando aos quatro ventos a intenção de enxugar os dez mandamentos para apenas dois. O que cortaria a burocracia do purgatório, diminuiria a população carcerária do inferno e deixaria mais fácil a vida do cidadão consciente e temente a Deus. Corações e mentes agradecem. Mas seu foco é mesmo na área da saúde. Jesus curou coxos, saneou leprosários fez cegos enxergarem e ressuscitou mortos bem defuntos. Com uma fila de pandemias batendo à porta do mundo sua popularidade deve ganhar uns bons pontos.
Com tanta moral – o colegiado cristão vai de Hebrom à Cesaréia, Palestina coast to coast – é claro que o pregador atrairia adversários pesos-pesados. A história de transformar água em vinho pegou mal (drinques não tem feito bem aos nossos homens públicos) e sua proposta habitacional também gera desconfiança. Jesus anda prometendo um bocado de moradias celestiais e todo mundo sabe que seu Pai é o maior empresário do ramo imobiliário da paróquia, na verdade de todas as paróquias. Nepotismo não é um pecado capital, mas devia ser. Segundo dizem, Cristo também já tem seu ministério formado: Pedro para a secretaria de pesca, Mateus para fazenda, Lucas para saúde, Tomé para o turismo e Judas para economia. Clima de “já ganhou”? Salto alto? Pode ser. Mas como censurar um sujeito que quando nasceu teve uma estrela como abajur?
Bem, ditos ou desditos, a personalidade do homem é barroca. Para alguns, um moderado, para outros, um revolucionário biruta. Um amigo meu, hoje vendedor de tâmaras em Canaã e que conheceu o candidato quando ambos militavam no sindicato dos carpinteiros de Nazaré, me assegurou que não existe debaixo dos céus criatura mais serena. Intermediava as maiores tretas sem levantar a voz, uma dama. Outro conhecido, tratador de mulas, presenciou Jesus subindo nos tamancos por uma questão vulgar. Os diretores de campanha não conseguiam convencer um eleitor endemoninhado e o futuro messias – as pesquisas lhe dão boa fatia das intenções de voto – botou pra quebrar em cima de seus correligionários no melhor estilo ditador sul-americano com chilique.
Santo ou carrasco, prodígio ou marqueteiro, oportuno ou oportunista? As fronteiras são tênues. Jesus é, enfim, uma esfinge. Talvez suas promessas de campanha sejam promessas demais, nada menos que o paraíso. De qualquer forma, estamos na torcida. Afinal, quem quer ficar de fora do reino dos céus? Eu não. Lembre-se de mim, Senhor.
Betty Vidigal - Interessante! Muito bem
escrito. Seria um artigo político mais do que uma crônica, exceto pelo final.
Nota 9.
Marco Antunes - Excelente! Irretocável! Nota: 10
Lorenza Costa – Engraçadíssima: as
extravagâncias não foram misturadas aleatoriamente, mas na medida para provocar
o riso. Nota: 10
Luci Afonso – Delicioso, do
princípio ao fim! (Apenas dois detalhes: corpo a corpo perdeu o hífen com a
reforma; “drinques não têm feito bem...”) Nota:10
Oswaldo Pullen Parente - Bom humor e informalidade. Iconoclasta, sem
recorrer à baixaria. Nota: 10
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 49
Crônica 27
Brindemos ao Senhor! – Jurandir Araguaia
Prezado Senhor Editor do Jornal ¨A Coluna Grega¨,
Desejando que o pombo correio voe depressa e leve consigo este pendor, a par dos que nos toca, mas não toque tão profundamente, afinal, não sou chegado à coisa como o era Aquiles, encontramos com um ou outro indivíduo que veio a nos esclarecer a respeito da aparente convulsão social, ora reinante em Jerusalém, não querendo nos estender ou eximir, pretendíamos partir logo cedo na próxima galera, que se encontrava alimentada por numerosos escravos núbios, os melhores na função, conforme bem o sabe, afinal, bárbaros de outras e tantas terras, não se prestam bem à arte de atracar-se aos remos, tratamos de vasculhar nas tabernas, o melhor local para se colher notícias e detalhes frescos, visto ser sabido que o sabor do vinho seduz todas as línguas, relatos do alvoroço do dia anterior, sem ferir os calos dos romanos, nervosamente eriçados e grilados com as famigeradas e intrigantes irritações causadas pelos judeus, que, sem perder o talento, botam para quebrar capacetes de legionários, crentes que um tal Messias há de descer, a qualquer momento, em uma carruagem flamejante, colocando todos a correr, com o quê, obviamente, Roma não seria a mesma.
O capitão da galera afirmou que me espera por um dia, depois de molhar-lhe a mão com trinta moedas, turco desgraçado (*), devidamente certificadas contra-recibo, que, segundo nosso trato, a tribuna nos há de restituir, e corri a preencher pergaminhos com fatos quentes, ciente de que a próxima a aportar em Atenas levará pelo menos 3 luas cheias, o que não posso esperar, pois pretendo assistir ao advento da chegada do meu próximo rebento, júbilo familiar que o amigo não há de me negar.
O
editor sabe que quero sair da cidade antes que as autoridades libertem um
prisioneiro no período, fato comum no advento da Páscoa, sabido que tumultos
separatistas oportunistas sempre ocorrem nesta época e transformam esta
maravilhosa cidade
Não se preocupe, no entanto, meu prezado editor, com o absurdo dos eventos aqui acontecidos, afinal, esta é uma terra aonde prospera o faz-de-conta e a fértil imaginação, devido, talvez, ao calor escaldante do deserto, sendo que, outro dia, aparentemente este mesmo sujeito que adentrou os portões da cidade sobre um jumento alado (vê-se?), cuidou de flutuar sobre as águas, ao passo mesmo que assassinou um bando saudável de porcos fazendo-os correr em debandada e saltar de um precipício. O folclore judeu é muito rico em pilhérias do tipo, acreditando eles, por exemplo, que um tal Jonas passou três dias dentro de um peixe.
A questão dos porcos me foi contada por uma fonte em noitada laboriosa, que quase matou de tanto gritar o candidato a profeta nazareno, segundo dizem, afirmando que aquilo não se fazia, somente não indo aos fatos de uma via agressiva por que uma dúzia de elementos mal encarados, que sempre acompanham o agitador, protegeram-no.
O sujeito, maltrapilho e barbudo, era chamado pelos outros de Filho do Homem, que Homem era este ninguém o sabe (e quem há de saber?), afirmou apenas, que os porcos incorporaram demônios que saltaram do corpo de um endemoniado que libertara de anos de sofrimento.
A mesma testemunha ocular de muitos eventos, nesta taberna bendita que os deuses hão de conservar, afirmou ainda que lhe disseram que aquele mesmo agitador já havia andado sobre as águas, além de ter alimentado uma multidão de milhares de pessoas, a partir de apenas 5 pães e 2 peixes, ou seria o contrário? Temos ainda o advento inusitado de ter ressuscitado um morto, provavelmente um comparsa que tenha fingido morrer, a troco de boa paga, visando angariar a simpatia da gente humilde para uma nova e insurgente seita que aparentemente tentam criar.
O povo de Jerusalém nem parece ter botado fé, além do quê, muitos tiraram um pouco das roupas expondo-as para secar o suor no solo em brasas, enquanto se abrigavam sob as marquises, abanando-se com ramos de oliveira para aplacar o calor, como é de costume, quando o nazareno entrou na cidade, nisso, uma louca, conhecida pelas tentativas fracassadas de suicídio, uma tal Rosana, subiu no alto de um mirante ao que o povo gritava agitando braços e ramos:
- Rosana nas alturas! Rosana nas alturas!
O resto é boato, portanto, antes que o capitão parta e me deixe à mercê de fatos inusitados, brindemos ao senhor!
Atenciosamente,
Seu amigo e genro.
(*) no original: anatólio desgraçado.
Betty Vidigal - Nota 7,5
Marco Antunes - Engraçado, imaginativo e muito provocativo. A
explicação para as roupas e palmas é um achado! Nota: 10
Lorenza Costa – Apenas alguns retoques na
pontuação poderiam melhorar ainda mais o relato hilariante do grego nervoso.
Nota: 10
Luci Afonso – Muito criativo e divertido! (pombo-correio; “a par dos que nos toca”) Nota:
9,8
Oswaldo Pullen Parente - Peca com períodos excessivamente longos,
como é o caso do primeiro parágrafo. Tem humor e imaginação. Nota: 8
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 45,3
Crônica 28
Jerusalém de pernas para o ar! – Simone
Barbariz
Eu estava indo queimar um par de pombinhos no Templo, em graças ao Senhor, no meu véu de algodão cru – pois sou uma mulher de respeito em minha sociedade: que busco lã e linho e os trabalho com as minhas mãos, vestindo a todos com o fruto do meu tecer na roca; acordo cedinho, noite ainda, e dou ordem às minhas servas e trago o pão da família, todos os dias –, foi quando eu ouvi toda aquela barulheira e me aproximei para ver o que se sucedia. Eram pessoas cantarolando e gritando: “Hosana!” (uma espécie de saudação local para pessoas importantes), roupas e ramos sendo atirados ao chão, fazendo um imenso tapete para uma entrada triunfal de um tal Rei judeu – e nem sabia que tinha outro além de Herodes na Judéia –, que adentrou nossa cidade montado num jumentinho! Isso mesmo! Num filhote de jumenta – nada de elefante, como chegou aos seus ouvidos, mas sabe como dizem: quem conta um conto, aumenta um ponto... –, tentando transparecer uma falsa modéstia ou tentando não chamar a atenção, se é que isso é possível com tamanho ror que o acompanhava e o aclamava.
Mas, antes de se chegar a esse verdadeiro pandemônio, há rumores que esse tal Rei judeu realizara notáveis façanhas – outros dizem que são verdadeiros milagres as suas obras – e, por conseguinte, arrebatou numerosos seguidores.
Corre à boca pequena que esse Rei judeu seria de Nazaré. Como isso é possível? Eu não sei, pois, naquela terra... Melhor deixar para lá! E que o primeiro feito dele fora transformar água em vinho de excelente qualidade. Essa estória não colou muito bem, pois, numa festa de casamento, regada a vinho, as pessoas já estavam um pouco alteradas e parece que esse Rei judeu-nazareno ficou incumbido de ir buscar mais vinho na despensa; mas algum bebum, antes dele, foi até lá, tentar saciar sua sede pelo fruto da vinha e, meio zonzo, não achou os odres, achou somente os de água e, por isso, essa notícia – típica de tablóide de quinta categoria – correu por aí. O que mais esperar de bêbados?
E foi assim que a fama dele começou e, o pior, o Rei judeu-nazareno não mexeu um dedo sequer para tentar desfazer o mal-entendido, até parecia se divertir com toda aquela publicidade barata. E, aproveitando-se dela, correu por toda Judéia, numa verdadeira tournée, pregando coisas estranhas e sem sentido: como um tal conto para plantadores, que jogam as suas sementes ao léu ou que deixam a sua plantação nas mãos de outros que não dos seus filhos ou dos seus parentes próximos; tem, também, aquela em que ele quer ensinar culinárias às mulheres – veja se tem cabimento um homem tentar ensinar a uma mulher a arte de cozinhar? Até parece que nós, mulheres, não sabemos a quantidade de fermento que se deve misturar a uma determinada quantidade de farinha! –. E as pessoas ouviam tudo aquilo, estupefatas, e não entendiam – se é que tinha o que se entender nessas estórias malucas, sem pé e nem cabeça –, e falava com toda a propriedade de um profeta. Realmente, até parecia um daqueles que adoram pregar o final dos
tempos – não sei que prazer eles têm de amedrontar o povo... Ah! Sei sim! É uma das formas de se ter domínio, de ter tudo sob o mais absoluto controle (segundo o meu marido) –, tentando nos aconselhar a rezar e a vigiar, como se nós já não fizéssemos isso.
Uma coisa que choca é que ele anda perto dos doentes, não pega as enfermidades e até os consegue curar! Com toda certeza, ele foi estudar alquimia com os gregos, só pode! E conhece alguma vacina ou remédio para lepra, por exemplo, mas que recusa a nos ensinar. Parece se divertir em as pessoas acreditarem que ele tem esse poder sobrenatural de cura, quando, na verdade, trata-se desses avanços modernosos na área da saúde.
Outra das proezas – que dizem ser milagrosas – foi alimentar, de pães e de peixes, até se fartarem e sobrar cestos e mais cestos, grande multidão que o seguia, de perto, para ouvir suas palavras – dizem que ele seria mais sábio que Salomão e, por isso, cada vez mais pessoas o seguiam para ouvir os seus conselhos, mesmo sem os entender –; mas, para um Rei, não deve ser difícil alimentar multidões, pois eles são donos de verdadeiras fortunas, portanto, nada de miraculoso nisso; haja vista que ele tem uma comitiva de doze lacaios que podem, muito bem, ter ido comprar tais alimentos ou até mesmo já tê-los consigo.
Uma atitude muito excêntrica que esse tal Rei judeu-nazareno tinha: sendo ele rico, aconselhava os outros a se desfazerem dos seus bens e o segui-lo! Acho que ele queria mais lacaios, sem pagar o devido valor por os adquirir; além de não querer concorrência em riqueza, aconselhando que a pobreza fazia bem. Desde quando não ter nada é bom? Trabalhamos e suamos para manter o nosso oliveiral e o nosso rebanho de ovelhas, pois temos que alimentar e vestir os da nossa casa: marido, filhos, noras, servos e servas e sua prole, além de vendermos nossos produtos para alimentar e vestir mais pessoas; se não tivermos nada, todos morreremos de fome e de frio. Acho que nunca ouvi tanta sandice! Mas o que esperar de alguém que anda com párias: prostitutas, publicanos e pecadores?
Mas essa Rei judeu-nazareno fever está com os dias contados, com toda a certeza! Herodes sente-se ultrajado com a afronta de alguém querendo tomar o seu lugar e os sacerdotes do Sinédrio querem pôr fim a tantas heresias contra o nosso Deus – será que esse pseudo-profeta não sabe o que já passamos por tê-Lo desobedecido anteriormente?–, sem contar a megalomania desse Rei judeu que se auto-intitula filho d’Ele! Realmente, tal disparate merece, mesmo, uma pena de morte na cruz, pois maldito é aquele que morre no madeiro.
Essas são as últimas daqui, de Jerusalém. Agora, preciso voltar aos meus afazeres, tenho muitas bocas para alimentar e um cordeiro para assar.
Betty Vidigal - Nota 7,5
Marco Antunes - A crônica (?) quer fazer humor, mas não
prospera em seu intento, a graça é pouca e como humor forçado é igual
cabotinismo discreto, ninguém consegue fazer. Nota: 7
Lorenza Costa – A crônica é bem feliz na
construção dessa narradora desconfiada, conservadora e dependente da opinião
dos outros. Nota: 9,5
Luci Afonso – A estória começa bem, mas perde o ritmo ao
longo do texto. Pequena revisão gramatical. Há confusão de tempos verbais. Nota: 8,8
Oswaldo Pullen Parente - Boa incorporação da personagem, trazendo os
pontos de vistas de uma habitante cética da cidade. Nota: 9,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 42,3
Crônica 29
Quem conta um conto... – Fausto Darci
Pereira
Ao regressar a Jerusalém para celebrar a festa da Páscoa com a minha família, após a minha breve viagem a Jericó, deparei-me com um rumor extraordinário. Corria nas ruas uma história transcendente acerca de um Rei que teria chegado à cidade dias antes. Dizia-se nos aglomerados de pessoas que um tal “Messias” teria chegado à cidade e teria sido recebido em grande apoteose.”Uma entrada triunfal” alguém disse. Curiosa história, (vírgula) pensei, apesar de algumas pessoas não terem opinião formada sobre o sucedido, porque nada viram e, (vírgula) com uma história tão envolta em pressupostos, tudo parece uma espécie de lenda.
Mais tarde soube o seu nome. Jesus. Já
ouvira falar desse nesse (falar “de” alguém é falar mal; falar “em”
alguém é mencionar) Jesus cujo nome sonante vagueava os desertos havia algum
tempo. Era um nome que fazia o olhar das pessoas reluzir de esperança, onde
outrora existia apenas descontentamento. Mas tudo isto soava irreal. Sempre fui
uma pessoa céptica, com a razão muito mais afiada que apenas o sonho. Quem
seria este homem? Poderia ele ser o tal profeta? “Cura os enfermos.. expulsa os
demónios... perdoa os pecados!” Quem poderá fazer tal coisa? Intrigado e até
estupefacto pela reacção da maioria das pessoas na cidade face a este
misterioso homem, decidi investigar mais a fundo esta história; tentar
realmente perceber o que se passara durante a minha ausência.
Dirigi-me a casa de um Fariseu meu conhecido, homem de classe média bem colocado e abastado. Certamente ele estaria a par dos acontecimentos e poderia dar-me uma luz acerca do sucedido. Recebeu-me alegremente em sua casa, ornamentada com finas tapeçarias persas. Questionei-o acerca do “Messias”. Ele franziu o sobrolho.
“Vi-o. Esse Jesus. A entrar na cidade rodeado pelos seus. Dizem que são os seus defensores, impiedosos para com os seus inimigos. A verdade é que apenas o vi de relance, tal era a quantidade de multidão que se apinhava e se comprimia uns aos outros. Mas mais tarde contaram-me que ele ia montado num jumento robusto, enorme, muito imponente, mais que o normal. Jesus estava vestido como um Rei, com fina túnica branca. A multidão clamava o seu nome à sua passagem e levantavam ramos de palmeira para o proteger do sol abrasador. Não vi mais nada. Fui grotescamente pisado e empurrado pela multidão absurdamente extasiada. E após isso retirei-me.”
Declinei suavemente ver as suas feridas e saí da casa do Fariseu. Por qualquer motivo sentia que a história que me contara era simplesmente demasiado superficial. Precisava de saber mais. Decidi ir fazer uma pequena visita ao meu conhecido cobrador de impostos. Geralmente, ele sentava-se perto da entrada da cidade. Por certo teria assistido a tudo.
“Claro que o vi! Estava sentado a tratar dos meus assuntos quando entrou pelas portas da cidade um homem a correr, completamente esbaforido. Gritava que o “Messias” estava a caminho da cidade, que em breve chegaria a Jerusalém para salvar o povo da tirania de Roma. Gradualmente, as pessoas foram-se juntando para o receber, trouxeram música, vestiram as suas roupas mais delicadas, e prostraram-se irrequietos à entrada da cidade esperando o tal “Messias”. Ainda esperaram umas boas horas e até houve alguns que se cansaram de esperar e se retiraram. Mas ele acabou por chegar.. sim, chegou montado num estranho animal que vinha coberto com uma manta de seda pura e esse “Messias” estava rodeado de soldados, tantos que se perdia a conta. Estou convencido que do outro lado da rua, numa varanda escondida, se encontrava um romano que à socapa espiava os acontecimentos. Como são os soberanos certamente estão muito preocupados e se sentem ameaçados com a hipótese de uma rebelião. Sim, porque este “Messias” vem para destruir os Romanos, ouvi dizer e salvar Jerusalém da tirania. Intitula-se o Rei dos Judeus e digo-te que todos estão com esperança que este novo Rei lhes restitua o que Roma lhes tirou e que é dos Judeus por direito. Ele diz que vem de Deus, por isso deve ter legiões de anjos para lutar com ele e deve comandar o fogo divino. Contra estas armas os Romanos nada poderão fazer.”
Após ouvir o seu relato dos acontecimentos, afastei-me um pouco para pensar, algo desconcertado pela crescente confusão que se formava no meu íntimo. Agora, Jesus aparecia-me como um guerreiro brutal e não como o Profeta do fariseu. Iria esmagar a tirania e não se assemelhava nada ao Jesus que eu ouvira os outros falar ao longo deste tempo todo, um homem sábio, que ensinava nos montes e nas margens dos rios, que tinha sempre uma palavra de coragem e esperança para os mais desafortunados. Afinal, quem é ele? O Rei guerreiro ou o Rei redentor?
Fui vagueando pelas ruas que fervilhavam de gente. Em breve dei por mim numa ruela sem saída. Sentei-me no chão para aproveitar um pouco a calmaria do local, longe do zumbido da sociedade. Não reparei, mas ao meu lado estava um homem, vestido de uma forma pobre mas com olhos simpáticos. Falou-me. Perguntou-me porque estava perturbado. Então contei-lhe o que sucedera. Ele disse-me que tinha estado com Jesus. Fazia parte da multidão com a qual ele entrou na cidade e que de bom grado me diria exactamente o que aconteceu. Aceitei e agradeci o acaso de encontrar este homem.
“Caminhávamos já há alguns dias. Jesus
mais que todos os outros. Então ele disse a um dos seus seguidores que estava
cansado, talvez devessem parar. Um homem que caminhava connosco ouviu e prontamente cedeu o seu burro.
Cobriram o seu dorso com túnicas para tornar a viagem de Jesus mais
confortável. Também o burro estava cansado, mas assim fomos caminhando até
Jerusalém. Ao chegar uma multidão imensa esperava-nos, gritavam o nome de
Jesus, uns porque acreditavam que ele era um profeta, outros porque pensavam
que ele era um guerreiro. Mas ele é apenas um homem simples, que estava cansado
e subnutrido, procurando um local para descansar. As pessoas atiravam as capas
para o chão para que ele passasse e agitavam ramos de palmeira por cima da sua
cabeça e ele ficou agradecido pela recepção, mas tamanha euforia e nem uma só
pessoa nesta cidade compreendia o significado dos seus ensinamentos.”
Apareceram outros homens que o chamavam. Ele disse-me que tinha de ir, tinha compromissos. Sorriu-me e seguiu o seu caminho. Senti-me satisfeito por alguém me ter contado pormenores do sucedido de uma forma simples e realista. É estranho como cada pessoa adapta um acontecimento consoante a sua vontade, os seus sonhos e a sua percepção da vida. Eu não presumo. Eu procuro.
Dias mais tarde, passando no templo, reencontrei o homem que me narrara a história. Estava rodeado de gente e todos o chamavam de Jesus.
Betty Vidigal - Nota 7
Marco Antunes - Dialética sempre me agrada, o humor com que
se demonstra sua prática na vida
social é que ficou um pouco a dever. Nota:
8,0
Lorenza Costa – Simpática, porém previsível
e contaminada por um certo didatismo. Nota: 8
Luci Afonso – Texto bem construído, que virou um conto. O
depoimento de Jesus é muito interessante. Nota: 8,5
Oswaldo Pullen Parente - Boa crônica. Perde um pouco, ao final, com
uma pieguice desnecessária. Nota: 8,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 40
Crônica 30
OS PÉS DO NAZARENO – Marcelo Larroyed
Povo escolhido por Jeová, nós, judeus, aguardamos a vinda do Senhor dos Exércitos para nos libertar de mais este cativeiro, o romano, e de nossa própria soberba.
Pois egresso de Betânia e natural de Nazaré nos chegou mais um messias, dos tantos que se alucinam nos caminhos, à margem das cidades, nutridos pela fome física e espiritual do povo.
– O Rabi! Já se aproxima o Rabi!
No burburinho ocre, à entrada monumental de Jerusalém, a multidão aguarda outro desses pequenos espetáculos cotidianos.
Viesse sobre camelo, ou a cavalo, não causaria espécie. Mas, envolvido em manto alvo e rústico, surgia um vulto alto e empertigado... no lombo de um jumentinho.
Paródia? Estratégia? O profeta Zacarias anunciou a vinda humilde do nosso Salvador "montado num jumento, num jumentinho". Dizem que o nazareno alardeia o cumprimento em si de muitas das profecias – se por insídia ou por crença em sua missão não tenho elementos para afirmar.
Se correu a notícia de que vestes foram estendidas para honrar o caminho do rabi, elas não procedem. A carência de tecidos entre os habitantes de Jerusalém e das regiões próximas é bem conhecida. Notei que sim, no lombo eriçado do jumento, havia vestes sobre as quais estava sentado o profeta. Mas lançados ao chão viam-se apenas ramos de palmeira e de salgueiro, distribuídos ao povo por alguns dos discípulos, que sobraçavam feixes desses ramos e incitavam o povo para que os agitasse e lançasse à passagem do mestre. Interpelei um deles, dito Cephas, cujo nome correspondia bem ao dono, pois me respondeu com um repelão. Em meio à balbúrdia, não consegui contato direto com nenhum dos outros onze apóstolos, como são denominados os principais seguidores.
Fato curioso e digno de nota é que o jumentinho às vezes tracionava para comer os ramos lançados, no que era tangido pelo discípulo mais próximo. Focinho e orelhas compridas, voraz mas bom ouvinte, o animal obedecia.
– Este é Jesus, profeta de Nazaré da Galiléia! – bradavam alguns.
Outros diziam ter presenciado a ressurreição de um certo Lázaro. Havia os que também atribuíam ao rabi a cura de cegos, paralíticos e morféticos. Para isso teria bastado um toque, ou a simples imposição das mãos, e houve até quem jurasse ter comprovado uma cura a distância. Mas o povo, sabemos, é por natureza impressionável e anela conviver com abantesmas, sortilégios e acenos de imortalidade.
Havia uma claque, é certo, composta pelos discípulos mais próximos e pelos populares menos afortunados pela vida. Excessos dos seguidores eram contidos com dureza.
– Salva-nos, te pedimos! Hosana! – gritavam os mais contritos, tentando tocar o mestre.
No entanto, seguindo máxima popular de há muito repetida, também este profeta não agradou a todos.
– Toque nessa ovelha e transforme-a num rebanho, Mestre! – ouviu-se o grito zombeteiro de alguém que passava com uma ovelha aos ombros, para oferecê-la aos fiéis retardatários que à última hora compravam animais para a libação no templo.
Comentários ouvidos aqui e ali me alertaram para um certo mal-estar pela presença do Galileu, como também é conhecido o profeta. Acusam-no de blasfemar e conspurcar as escrituras dizendo-se filho único de Deus ou o próprio Jeová, e de incitar o povo à revolução, contestando a legitimidade do Sinédrio. Mais grave: profetiza que Jerusalém cairá sob a força dos exércitos divinos, comandados por ele próprio.
Quanto a essas últimas acusações, soaram-me irônicas, pois eu não avistava o persa Dareios e suas hordas, ou o grande conquistador Alexandros, o macedônio. Apenas um pobre e comprido galileu montado sobre o pelo ruço de um jumentinho.
– Tremei, Jerusalém! – pilheriava outro.
Tudo isto narro por ter visto e ouvido, seguindo o exemplo de isenção do sábio Herodotus, cronista admirável.
Por isso, também em nome da honestidade devo narrar, desculpem-me a aparente contradição, um "imenso pormenor".
Nem tanto o perfil magro, porte altivo e olhar perdido, escanchado no lombo de um jumentinho, seus pés de quando em quando roçando o chão.
Mas os pés! Aqueles pés!
Os pés do nazareno, enormes, desproporcionais à sua compleição, causaram-me espanto e reverência. Como se o homem fora concebido em pedestal próprio, de sangue, ossos e nervos, verdadeiros coturnos de carne. Em verdade, o observador pouco atento dir-lhe-iam inchados; um exame mais meticuloso, porém, revelou-me a natureza originária daqueles pés rudes. Não se tratava de aleijão – antes, robustez excessiva.
Não há pés bons nem os há maus, é certo. De ordinário, são simples operários do movimento – comandados pela cabeça, nas escolhas; pelo coração, no amor-ódio das paixões; e pela insubordinação de nossos intestinos.
Pés são dutos, são rodas, caminhos e escolhas.
Assim, o que poderemos esperar de mais esse andarilho, desse messias, daqueles que a pobreza atual e a eterna insatisfação humana criam aos milhares?
Sinceramente, não sei.
Só sei que aqueles pés pisaram-me a alma.
Aqueles pés, sim: parecem capazes de caminhar pela Eternidade, sempre sob o risco de guiar ou esmagar os homens.
(Depois ouvi falar num quebra-quebra junto ao templo, promovido pelo nazareno entre as mesas dos cambistas e vendedores de animais e imagens. Evito comentar, pois esse conflito não presenciei. A essa altura, eu já batera a poeira das sandálias às portas de Jerusalém, e com pés humanos partira para encontrar o meu próprio caminho.)
De Jerusalém
Elohim Carná
Cronista
Betty Vidigal - Nota 7
Marco Antunes – Tudo de bom Nota: 10
Lorenza Costa – A crônica mostra como
simplicidade e sensibilidade, andando juntas, sempre fazem bem à
literatura. Nota: 10
Luci Afonso – Abordagem singular, ótima crônica. Nota: 9,5
Oswaldo Pullen Parente - A abordagem
inesperada dos pés de Jesus dá um tom insólito à crônica. Poderia talvez ter
encerrado um pouco antes, para manter a força dos enormes pés do Salvador. Nota: 9
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 45,5
Crônica 31
O Sorriso do Messias (que era como andar
sobre as águas) – Afonso Cruz
Amanhecia um dia prometedor, pelo menos era o que parecia da varanda do meu hotel. Desci, depois dum café turco e dum cacho de uvas, e misturei-me com a turba para melhor observar a exaltação que ensopava as ruas. Pude constatar facilmente que o mundo conhecido era dominado por um povo que usava toga e que tentava impor o seu latim. Ninguém o levava a sério.
Mesmo em frente ao átrio do hotel estava um grupo de turistas egípcios, facilmente identificáveis pelo sotaque cheio de hieróglifos. Alguns deles indignavam-se por o deus Set -- que, como toda a gente sabe, nos seus piores dias tem forma de asno -- estar a ser montado por um nazareno com aquele aspecto tão humano que os caracteriza. Para espanto destes egípcios (curiosamente foram sempre vistos de lado), a maior parte da populaça aclamava, em vez do asno, o Homem.
O Messias trajava uma túnica simples, de meia
estação, e o seu porte denotava ser divino, apesar das sandálias de couro
(ligeiramente pitagóricas, não na filosofia, mas no modelo, com correias de
cobre e tudo). Tinha um sorriso que ficava entre um céu claro e uma catedral
gótica -- edifício ainda por inventar -- e os seus gestos eram calmos como uma
oração dominical dita
Um pouco mais abaixo, entre os zelotes, estava
Wittgenstein, acompanhado pelo círculo de Viena e alguns bailarinos. O
filósofo, sem grandes certezas do que via, expunha a sua epistemologia ali
mesmo
Mais perto do Homem gritavam-se “hossanas” enquanto os saduceus conspiravam com as suas barbas de patriarca, penteadas com grande geometria, cujos pêlos pareciam caracteres habraicos. Um deles limpou a barba à manga que ficou cheia de bocadinhos dos primeiros capítulos da Torah, do Bereshit. Junto daquela ortodoxia toda, estava um homem atrás dum bigode e com nome alemão – Nietzsche – que garantia que o homem em cima do jumento estava morto.
-- Deus morreu – gritava ele no meio do povo.
O grupo dos fariseus prontificou-se a aplaudir, apesar de não perceberem nada de alemão.
Um senhor meditabundo, talvez essénio a julgar pelos pés, disse que o Homem em cima do burrico vinha de Belém, o que originou uma contenda com uma senhora do Pará que argumentava que o tal Homem não era sua conterrânea[18]. Por causa do sotaque nitidamente galileu.
-- Deus está morto – insistia o alemão do outro lado da praça.
Um estóico -- seguidor de Zenão de Cítio -- que por ali filosofava disse que aquilo era a vida e que a vida é algo sublime em cima dum burro. Uma noção enternecedora capaz de virar epitáfio. A vida é um burro montado por algo sublime. Daria um livro de filosofia ou mesmo um filme indiano. Mas a verdade é que a vida não é nada disso. Não é nada sublime em cima duma irracionalidade. A vida, meu caro leitor, é uma massagem nas costas dada em cima duma cama de pregos. Isso é que é a vida.
Mas voltemos a Jerusalém que a manhã já se faz tarde. Ao meu lado estava um senhor de bigodinho, óculos e chapéu que dizia frases como esta, meio poema, meio Fernando:
-- Deus, diz o catecismo, revela-se
Também havia uma personagem de Eça de Queirós,
um vendilhão completamente indignado. Fora expulso do Templo e reclamava que o
tal Homem o havia privado do seu sustento e que tinha uma família tão faminta
quanto numerosa. Apupou enquanto pôde, mas ninguém, hoje em dia,
-- Está morto, está morto – insistia Nietzsche enquanto os romanos usavam toga.
Um vate previa uma grande crucifixão para os próximos dias.
O Homem mantinha-se alheio à confusão e o seu sorriso era como andar sobre as águas. A túnica e os cabelos compridos davam-lhe aquele ar démodé que não combina com o aramaico, mas dá um certo ar de pescador de almas gerado sem pecado. A sua sombra tinha a forma de cruz e um leve cheiro[19] a madeira. Os romanos tentaram instaurar a ordem mas a população não os levava a sério. Por causa das togas.
Este Messias tinha um discurso dos anos sessenta (e um aspecto dos anos setenta), incitando ao amor livre, dizendo:
-- Amai-vos uns aos outros.
Para os romanos isso era fácil já que tinham apenas aquelas togas, mas o resto da população não levou o conselho literalmente e ficaram-se por uns apertos de mão cordiais.
O alemão continuava a afirmar que Deus estava morto. O vate elucidou-o:
-- Sim, mas no domingo ressuscita.
-- O tempora! O mores! -- dizia um romano obeso que por ali pontuava.
-- Está morto – reclamava o germânico com uma cerveja na mão e espuma no bigode.
O vate condescendeu:
-- Não está morto, mas vai estar. Passados três dias ressuscita – e virando-se para o romano, disse na língua morta do outro e apontando para o burro: -- Es stultior asino (és mais estúpido do que um asno).
O romano levantou a toga e fez um gesto com a língua que não parecia nada morta.
-- Tua mater! – disse ele.
E o alemão continuava a gritar:
-- Está morto, está morto!
Betty Vidigal - Ri muito e me encantei com
a erudição do autor. É tudo o que se espera de uma crônica. Eta escritor bão! Nota
10
Marco Antunes - Hilério e inteligentíssimo! (Só pra constar:
eu leio Eça, eu recomendo Eça, eu nem dirijo a palavra a quem não
Lorenza
Costa – Perfeita transformação de Jesus em um trecho de texto escrito que
se mistura a todos os outros. (Tiraria apenas a identificação explícita de
Nietzsche no quarto parágrafo, entre travessões, já que o bigode e a
citação falam por si.) Nota: 10
Luci
Afonso – Em alguns momentos o nonsense e
o absurdo soam como gratuitos. Seria bom um cuidado maior em sua utilização.
Nota: 9,5
Oswaldo Pullen Parente - Em alguns momentos o nonsense e o absurdo
soam como gratuitos. Seria bom um cuidado maior em sua utilização. Nota:8
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 47,5
Crônica 32
PANTOMIMA SUICIDA – Gerson Perrú
A areia fina ainda teima em se alojar entre meus dedos. Espero que, um dia, inventem calçados mais eficientes do que essas malditas sandálias. É uma droga ter que lavar os pés toda vez que entro em casa! E quando vou visitar um amigo, então? Logo vem uma serviçal com uma daquelas bacias (que sabe Deus que pés imundos pisaram), uma toalha (não menos encardida que os pés que pretende enxugar) e um vaso de barro com perfume (estou enjoado de alfazema! Não dá para ser outra coisa? Um pouco de mirra, por exemplo?), senta-se no chão, me tira as sandálias (ah, as sandálias!) e começa uma verdadeira cerimônia. Sei, sei. Estou muito rabugento. As pobrezinhas só estão cumprindo com sua obrigação. E até que elas são prestativas, coitadas. Algumas até aquecem a água...
Espero, também, que aquele doido saiba bem o que está fazendo. Se continuar provocando as autoridades desse jeito, vai acabar açoitado em praça pública ou espetado no Calvário. Onde estava com a cabeça, quando resolveu fazer uma caricatura tão grotesca da entrada triunfal de Judas Macabeus em Jerusalém? Mantos abertos pelo chão, formando um tapete improvisado para dar passagem ao Messias; palmas sacudidas no ar, formando um espetáculo visual digno de nota; gritos de hosana, saudação reservada aos messias; prantos e risos. A celebração total! E, no meio disso tudo, alguns sicariotes, seguidores de um outro Jesus, de sobrenome Barrabás, apenas esperando o momento certo para deflagrar o combate.
Parece que pouca gente se deu conta da troça. Natural. A massa (se é que se pode chamar algumas centenas de pessoas de massa) não pensa. Mas qualquer um que olhasse à distância (e, acredite, havia muita gente importante olhando à distância) veria os traços da caricatura: em vez do cavalo branco, um burrico; no lugar de um exército bem armado, um punhado de homens (que mais se assemelham a pregadores do que a soldados) armados com espadas de segunda mão, muitos dos quais tiveram que vender parte das próprias roupas para comprar as armas. É piada? Só pode. Uma grande provocação, sem dúvida.
Provocação para os romanos: um homem saído da Galiléia (berço das inúmeras tentativas de revolução que têm sacudido a Palestina ultimamente), cercado de pessoas revoltadas, bradando a plenos pulmões que o reino de Deus está próximo, criticando, em discursos inflamados, os políticos da região (os mantenedores do stablishment). Esse homem entra na capital da Judéia, na semana em que as ruas da cidade estão tomadas por visitantes de toda a região, imitando – ainda que grotescamente – o maior libertador da história judaica.
Provocação para os judeus: um nazareno (E desde quando pode vir alguma coisa boa de Nazaré?), se dizendo filho de Deus, anunciando um novo reino e começando seus discursos com “eu sou”! Ninguém, em toda a Judéia, ousa iniciar uma frase com “eu sou”. Essa é a expressão que o próprio Deus usou para definir a si mesmo! Onde é que esse lunático está com a cabeça? Dizem, por aí, que ele chegou a chamar Deus de seu pai e se disse tão íntimo dele que é como se fossem um só. Se os homens da centúria pegarem o infeliz, dá até pra imaginar a cena: vai ganhar uma coroa de espinhos na cabeça, pra aprender o que é que acontece com quem pretende ocupar o lugar de Herodes...
Maldita areia! Bem que podiam calçar as ruas de Jerusalém com pedras, como fazem os romanos com suas estradas. Meus pés mais parecem cascos de cavalo. Se bem que, hoje, valeu a pena ir à rua. Ver aquela cena esdrúxula foi impagável. Como é que ninguém percebeu que aquilo não passava de uma pantomima? Não é possível. Alguém deve ter notado. Estava mais evidente do que esta taça de vinho à minha frente, agora. Aquele tal de Jesus pode ser tudo, menos sutil. Chamar Herodes de raposa velha e os fariseus de sepulcros caiados não é a melhor forma de passar despercebido...
Dizem que o vinho clareia as idéias. Pode
ser. Talvez, as quatro taças que já tomei estejam fazendo com que veja as
coisas sob uma ótica bem particular; talvez, não. Pense comigo: quantas pessoas
você conhece, que são capazes de provocar tanto estardalhaço em tão pouco
tempo? A maioria dos presentes, ali, sequer sabem o sobrenome de Jesus. Uns o
chamam de nazareno; outros, talvez tão alucinados quanto ele, o chamam de Messias.
E, no entanto, o seguem[20]
cegamente. Há quem diga que é porque ele realizou uma dúzia de milagres (o que,
nestes tempos em que profetas aparecem em todos os cantos, com a mesma profusão
que a maldita areia do deserto, não é nada demais). Mas havia outros presentes:
fariseus, escribas, essênios, herodianos. Muitos deles, claro, espiões a mando
do Sinédrio. Cheguei a reconhecer alguns sicariotes (a quem alguns, por aqui,
chamam de zelotes) infiltrados entre os seguidores mais próximos do pretenso
Cristo. E havia, também, cobradores de impostos, médicos (detesto essa raça! É
repugnante a idéia de conviver com alguém que toca
Meus pés estão
Se quer saber, valeu a pena o sacrifício. Nunca, antes, vira um espetáculo tão bem elaborado; e duvido que, por mais que eu viva, possa presenciar outro de tamanha grandiosidade. Não que o cenário fosse dos mais sofisticados; não que os coadjuvantes (travestidos de platéia, diga-se de passagem) tivessem consciência de serem mais do que marionetes nas mãos de um fantástico manipulador. O espetáculo foi fenomenal por conta de seu protagonista. Ele merece, sim, palmas e hosanas. Seu brilhantismo é incomparável.
Não me interprete mal. Não faço parte do grupo que acredita estarmos diante de um novo salvador da pátria. Minha admiração tem outro fundamento.
É que eu duvido que já tenha existido – ou venha a existir – um indivíduo capaz de engendrar e perpetrar, com tanto brilhantismo e eficiência, o próprio suicídio.
Betty Vidigal - Nota 10.
Marco Antunes - Adorei esse cronista mal humorado! Nota: 10
Lorenza Costa – Preferiria que o autor andasse em linha
reta em direção à conclusão, como é perfeitamente possível fazer numa
crônica. As alusões às próprias sandálias talvez se justificassem num
conto, mas aqui serviram para deixar o texto a meio caminho entre uma
coisa e outra. Nota: 8
Luci Afonso – Texto irônico, com bom ritmo. Nota: 9
Oswaldo Pullen Parente - Imaginoso e bem escrito.Nota: 10
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
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Crônica 33
Exu e o Nazareno – Eneida Coaracy
Da varanda da frente da casa consigo ouvir o rebuliço causado pelo novo Messias chegando a Exu, diretamente de Jerusalém, como anunciam os altos alto-falantes, digo, alto-berrantes, ao percorrerem as ruas estreitas e poeirentas do meu bairro. Se pelo menos anunciassem a vinda do irmão do Exu que deu nome a esta cidade perdida no sertão pernambucano, tudo bem. Mas... Vamos lá ver de que se trata.
‘Com mil exus!’, desabafei em voz alta ao me levantar. ‘Mais um...’
A velha Kombi cinza (ou melhor, cor de ‘burro quando foge’, segundo descrição local deste tom de cinza sujo), cuja lataria amassada parecia papel amarfanhado e atirado fora, perambulava, tonta, pelas ruazinhas deste lado da cidade. Além de engasgar e tossir, como se tivesse acabado de dar uma grande talagada de cachaça, o carro de som que anunciava a chegada do Nazareno não tinha placa, nem freios. A rua em que moro - claro - não havia sido esquecida fora da rota deste alarde. De repente, meus ouvidos foram violentamente agredidos por uma buzina estridente para, em seguida, serem surpreendidos por ruídos infernais, desta vez pura estática. O locutor, exasperado, soprava o microfone, tentando se fazer ouvir:
A Caravana do Santo Suor de Cristo convida a população de Exu a comparecer à Praça do Açum Preto, logo ali junto ao campinho de futebol da Igreja da Matriz, às 5 horas da tarde. (E imediatamente repetir): Às 5 horas da tarde, hora em que o sol se esconde, morto de vergonha dos vossos infames pecados e abre espaço para que a voz do Salvador penetre nos corações de todos, juntando, assim, o rebanho de Cristo no rumo certo: a Igreja Universal do Templo de Exu! Venham! Venham conhecer aquele que aqui está para salvar a nossa cidade, já abençoada com a graça do nome que lhe foi dado. O Nazareno de que vos falo é o próprio Cristo ressuscitado no sertão da caatinga, que aqui veio para aliviar o sofrimento do sertanejo, cansado de falsas promessas de água que nunca jorra, cansado de sonhar com plantações que nunca verdejam e com um gado não fica de pé, forte e sadio. Você que aí está me ouvindo, não deixe a salvação para depois, porque a mão de Deus não se estende mais de uma vez... A mão de Deus...A mão de Deus...
A mão, pesada, do Deus anunciado parecia arremeter diretamente dos céus em cima da nossa cidade, nessa hora do dia, já amofinado com o calor sufocante da tarde ensolarada que não queria dormir. Ela vinha através da voz rouca do locutor ensandecido, repetindo-se ao longe, convocando a população para o Grande Encontro com o Nazareno da Caatinga, aquele que viera para aliviar o sofrimento do retirante, do oprimido, do sertanejo e da sua vida severina.
Olhei para o relógio de pulso: quase cinco horas. Vou dar uma chegada lá... Por que não? Ainda não tinha visto nem ouvido nenhum Nazareno da Caatinga apresentar qualquer proposta de salvação desde a minha transferência para a sucursal do jornal em Exu. É... Vamos lá, decidi.
Como a tal praça ficava perto, fui a pé mesmo, pois afinal, precisava dar umas caminhadas de vez em quando para manter a boa forma. Notei um movimento muito maior na principal avenida que levava à Igreja da Matriz. As pessoas andavam apressadamente, todas segurando um pedaço de pau na mão.
Por que levariam um pedaço de pau nas mãos? Estariam indo para onde eu pretendia ir? Como que aquele alto-falante esganiçado havia arrebanhado tanta gente assim? Tava na cara que era mais um engodo desses milhares de igrejas que se multiplicam por aí, que nem coelho, pelo interior deste país, já não mais tão católico, apostólico, romano, como soubera ser nos bons tempos de outrora, discursava para mim mesmo, à medida que me aproximava mais do caminhão.
Para não ser diferente, peguei também um pedaço de pau e levei comigo. Mais em frente, já podia avistar uma grande multidão se aglomerando ao redor de um caminhão-tipo-trio-elétrico-falido. Em cima, o mesmo locutor conclamava os futuros fiéis para se aproximar e deitar seus pedaços de pau ao lado direito do caminhão, onde se faria uma grande fogueira. Frenético, ele alardeava:
Aproximem-se, caros amigos. Vamos queimar vossos pecados no fogo desta grande fogueira, que será abençoada por Aquele que ressuscitou na caatinga para vos livrar do fogo impiedoso do Inferno de Além-Morte. Esta é a fogueira que vos livrará agora do peso de todos os atos indignos de vossas vidas até este momento. Ele hoje aqui se encontra para vos presentear com o benefício do Perdão. Mas, peço que, antes de acender o fogo que libertará vossas almas de todos os pecados, depositem vossas contribuições para a manutenção do trabalho do Grande Salvador da Caatinga. Cabe-me lembrá-los de que a quantia que cada um contribuirá deverá ser do tamanho dos vossos pecados. Assim, ponham primeiramente vossas mãos em vossas cabeças (e pedia, através de gestos, que o imitassem) e sintam o peso de vossas consciências para melhor avaliarem o quanto deverão depositar neste pequeno caixote vermelho, preso logo ali na frente, ao lado da querida Irmã Divina, aquela que zela pelo bem-estar do nosso Salvador, sempre onipresente. Irmã Divina foi escolhida como a representante oficial do Nazareno da Caatinga quando Ele não puder comparecer a qualquer encontro de amor e caridade organizado em seu nome. Irmã Divina, lava, passa e cozinha para que o Mestre esteja sempre limpo, saudável e bem disposto para ouvi-los e aconselhá-los quando a Ele forem pedir-lhe bênçãos.
Fogueira, contribuições, pecados, fogo do inferno... Já tinha visto algum filme assim antes, caros amigos. Nunca com uma Irmã Divina na estória. Marias Madalenas, sim. Mas onde estaria o Nazareno da caatinga? Essa questão da onipresença ser usada para explicar a ausência física do Todo-Poderoso também já era minha velha conhecida. Mas um Nazareno mulher, freira e loura só poderia mesmo ser uma armação de Exu.
Betty Vidigal - Bem escrita, original, mas
um pouco cansativa. Nota 9,5.
Marco Antunes - Humor pede economia. Isso, só isso,
faltou. Quem alonga a piada, perde a
plateia. Nota: 9,5
Lorenza Costa – Sem dúvida o autor encontrou o ambiente ideal
para a volta de Jesus Cristo à Terra, mas o lado humorístico da crônica
tem um pequeno problema de timing: desde o discurso gritado da Kombi
já se sabe que o cronista vai encontrar mais uma igreja picareta.
Nota: 8,8
Luci Afonso – Curiosa transposição da estória para o sertão nordestino. Faltou uma melhor finalização. Nota: 8,5
Oswaldo Pullen Parente - Texto original e lastreado na realidade das
promessas onde o povo paga, e não vê. Alguns lugares comuns não chegam a
comprometer seriamente a qualidade do trabalho. Nota: 9,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 45,8
Crônica 34
O Cordeiro de Tsión – Cínthia Kriemler
Nesta época
do Pessach, escuto dos peregrinos de que apinham as ruas de Tsión cochichos de
conspirações, de novas seitas, de curas miraculosas, e faço com o que o cálamo
deite os relatos no pergaminho, para depois enviá-los a toda a Palestina.
No sábado, tendo ouvido uma história de cura sobre um tal de Lázaro que, segundo afirmam testemunhas, foi ressuscitado dos mortos pelo tal profeta Jesus, o Nazareno, que se autoproclama “o filho de Deus”, dirigi-me ao Monte das Oliveiras para escrever em lugar fresco. Fui interrompido na escrita pelo bulício de uma multidão variada de homens e mulheres que apontou no sopé do monte. A caravana, quantificada em centenas de peregrinos, parecia vir de um trajeto nas cercanias, talvez Betânia, talvez Betfagé, pois assim o atestavam as sandálias pouco sujas da turba.
Percebi logo tratar-se do séquito de mais um profeta e quase desisti de dar atenção aos caminhantes, mas chamou-me a atenção que no grupo houvesse muitas prostitutas, assim como também observei que as vestes dos homens que cercavam o vaticinador gritavam dessemelhantes origens e castas. A esses sinais, percebi que por pura sorte havia me deparado com o tal Jesus e seus seguidores, e acerquei-me do grupo para registrar impressões.
A turba invocava pela alcunha de “Rei dos Judeus” a um judeu moreno, de lábios grossos e cabelo espesso, mas não havia naquele homem qualquer sinal físico de fidalguia. Falava de um reino que não pertence a este mundo e das promessas de felicidade eterna que Deus cumprirá aos que crerem na seita de nome Cristianismo. Um engodo, um agitador do povo, como tantos que se lançam contra Roma.
A certa altura, chamou ao seu lado dois dos doze homens a quem denomina apóstolos, Pedro e João, e lhes pediu que seguissem até o cruzamento de Betfagé com a Betânia, tomassem da mãe um jumentinho que estaria a ela atado e o trouxessem para ele, como montaria. No entanto, o gesto de montar o jumento, considerado de humildade e amizade, não condisse com algumas espadas que enxerguei aqui e acolá nos cintos dos seus seguidores, levando-me a pensar que cada homem ali interpretava de forma peculiar a doutrina do Nazareno.
Era perto da primeira hora do domingo quando aconteceu de Jesus sentar-se às mantas sobrepostas por seus apóstolos ao lombo do animal e tomar o rumo de Jerusalém. Pelo caminho, uma multidão cada vez mais numerosa o saudava, balouçando ramos que arrancavam apressados das oliveiras. Os mais afoitos jogavam ao chão seus mantos para que o Nazareno e o animal não tocassem a terra, em grande demonstração de subserviência e fanatismo, o que me deu a perceber que o povo tentava construir para o profeta a réplica de uma estrada real, a exemplo da que se prepara para a passagem dos reis. Centenas e centenas acompanharam a caminhada de Jesus até Tsión, onde ele principiou a entrar em triunfo, sob gritos de “Hosaná, Hosaná! Salva-nos já, Senhor!”.
Fazendo uso de inteligente estratégia, que lhe permitia fazer-se notar e proteger-se dos sacerdotes, entrou publicamente em Tsión sob a aclamação dos peregrinos que o seguiam e de muitos cidadãos, impedindo, dessa maneira, qualquer reação do Sinédrio, já que o medo das autoridades pelas manifestações do povo é conhecido em todas as regiões da terra.
Alguns fariseus tentaram impedir a manifestação, pedindo ao próprio profeta que mandasse a multidão se acalmar. A isso respondeu-lhes o Nazareno que não os podia calar, porque se manifestavam em louvor ao filho de Deus. Veio-me, naquele instante, a sensação de que uma carnificina comandada pela rebelião de Jesus aconteceria a qualquer momento, porque a turba que o seguia estava tomada por um grande sortilégio.
Seus próprios
seguidores, a quem chama de apóstolos, estavam inquietos, proclamando-se
contrários àquela entrada pública e ruidosa
Ao aproximar-me dos dois apóstolos para conhecer de onde lhes vinha a calma, respondeu-me João com uma sentença enigmática: “Não é por acaso hoje o dia em que as famílias judias procuram um cordeiro pascal para ser imolado? Eis aí o cordeiro vivo, aquele que entregará o seu espírito em sacrifício pela salvação de todos os povos”.
De súbito, num clarão, realizei que o Nazareno queria se deixar matar como um cordeiro! Esperava com isso convencer os homens de que era realmente o filho de Deus, o Cristo esperado pelos judeus que se doaria em sacrifício pelos pecados e fraquezas dos homens! Não havia no semblante do profeta qualquer resquício de maldade ou subversão, apenas uma dor serena e conformada.
Compreendi meu equívoco e percebi, finalmente, o verdadeiro Jesus de Nazaré, um pobre tolo visionário, um crente ingênuo em ensinamentos de paz. Naquele ponto, separei-me da procissão que seguia aos gritos, já dentro de Tsión. Não tive mais notícias do profeta e desejei sinceramente que nenhum derramamento de sangue desse ao Sinédrio o motivo que precisava para encerrar o inofensivo Nazareno na prisão.
Somente uma coisa ainda me aguça o espírito: obter entendimento de como nem todo o ouro dos grandes de Roma, nem todas as promessas dos sacerdotes de Jerusalém jamais tenham sido capazes de reunir em torno de um só rei ou sacerdote tantos e tão díspares seguidores, como o faz o crédulo Jesus. O medo que têm dele as autoridades, por certo, vem da ignorância sobre tal resposta.
Proponho-me enfeixar e distribuir num códice relatos sobre a seita do Cristianismo, pois que interessa-me o entendimento sobre como a fragilidade da ovelha pode andar adiante do poderio dos lobos. Contudo, em respeito ao Pessach, deixarei para conversar com Jesus de Nazaré assim que findar este mês de Abib.
Betty Vidigal - Bem escrito, mas não segura
o interesse ao longo de todo o texto. Nota 9,5.
Marco Antunes - Tempo e oportunidade, esses são dois dos
segredos da ficção. Alquimia para raros. Aqui faltou isso que em inglês se diz timing, que consiste em perceber o
melhor ritmo para a evolução das palavras e frases no texto Nota: 9
Lorenza Costa – O cronista vê e entende muito mais detalhes do que
seria razoável. A impressão que fica é de que o autor teria preferido abordar o
assunto em um conto, em terceira pessoa, mas fez concessões para
transformá-lo
Nota: 8,5
Luci Afonso – O
cronista, ao mesmo tempo em que narra os fatos, reflete sobre seu significado.
Ótimo final. Nota: 8,8
Oswaldo Pullen Parente - Crônica bem desenvolvida, onde um tom cético
lhe confere verossimilhança e interesse. Peca em algum momento no vocabulário
erudito
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 44,8
Crônica 35
Retorno do messias, a grande jogada
mercadológica – Meio Tom
O mundo todo já sabe do ocorrido nesta sexta-feira santa em Jerusalém, mas os boatos foram muitos e confusos durante todo o dia, o que desencadeou, diante de informações desencontradas, uma onda de desassossego e expectativa na comunidade local e mundial quanto a um possível retorno do Messias. Diante do grande interesse despertado pela notícia e da falta de coerência das informações recebidas, os editores de todos os meios de comunicação pressionaram seus jornalistas para que descobrissem o que estava realmente ocorrendo em Jerusalém.
De certo modo, a sorte esteve ao meu lado. Fui testemunha logo cedo do ocorrido, ao ser acordada com o povo nas ruas a gritar "Hosana", forma de católicos e judeus saudarem quem veio para salvá-los, como é de conhecimento dos leitores. Incrível a cena que presenciei nas ruas ao abrir a janela do quarto, ao ouvir o som ainda muito mais forte. Quase impossível descrever tão intensa e envolvente a manifestação popular. Milhares de pessoas, entre anciãos, jovens e crianças, em uníssono nas ruas, nas janelas e portas das casas, do comércio e dos prédios; seria capaz de afirmar que até do cemitério.
Não me perturbasse a força sonora e visual da manifestação, ao verificar que o motivo da reação vinha de um elefante que carregava um sujeito baixo e gordo, vestido como Marajá, muito diferente de Jesus, nos seus 83 quilos, 1,80 de altura, acostumado ao jejum, teria retornado à cama, às gargalhadas, já que, (sem vírgula) é fato comum por aqui o aparecimento de algum Messias. Entretanto, (vírgula) a cena não impressionou apenas esta cronista, mas todos os jornalistas e observadores estrangeiros que acompanham os conflitos na faixa de Gaza, e levou dezenas de fotógrafos e cinegrafistas às ruas para registrar do melhor modo o que estava acontecendo em Jerusalém.
Estranheza foi o que senti ao ver a população saudar um sujeito que, pelo peso, certamente não jejua, corpo mais para crise de gota que de atleta, nada semelhante a um guerreiro ou pacifista, vestido ao modo de um Rei, adentrando a cidade sobre um animal pesado e lento, e não uma jumenta. O animal carregava uma faixa em cada lado do corpo onde se lia JESUS NAZARENUS, REX JUDAEORUM, algo mais para caricatura capitalista do retorno do Mashíach, do Rei-Messias, do Salvador, o animal representando a opulência do capitalismo, e o homem, a desmedida consumista.
Diante do fato, que para mim, de início, mais parecia um embuste, para o povo que seguia à frente do animal, deixando a própria vestimenta no chão para o animal passar, aos gritos de "Hosana", estavam diante do Salvador. O ritual era o mesmo da entrada de Jesus, sobre uma jumenta, no Templo Sagrado, quando agiu violentamente contra os comerciantes que ali vendiam seus produtos. Em algum momento, lembrei-me da afirmação de Hélio Pelegrino de que a ressurreição é a última grande utopia do ser humano, já que não está nada fácil sobreviver com tanta injustiça e violência, como nos dias atuais.
Logicamente há limites para o exercício da liberdade de expressão em qualquer lugar do planeta. Por aqui a situação não é diferente, talvez até mais crítica em função do conflito entre palestinos e israelenses. A polícia agiu com rapidez e presteza, dispersando o povo, utilizando-se de todos os recursos disponíveis. Houve início de reação, mas logo contida, sendo o Messias levado dali junto do animal, não se soube para onde. Dizem que na prisão ele teria confessado ser judeu de linhagem real, parente de Jesus, e que vinha para reivindicar não apenas o ressarcimento pelo mal causado ao parente no passado, criticando o fato de o mesmo não ter recebido a pena de apedrejamento como era o costume, sendo crucificado, e também exigindo uma política pacifista, e não militar, com a Palestina.
Cálculos grosseiros falam que nas ruas havia pelo menos dez vezes mais pessoas que à época de Jesus, relatando a bíblia que 50000 pessoas presenciaram a entrada dele, sobre a jumenta, no Templo Sagrado. Diante da manifestação popular, seria aceitável a possibilidade de representantes religiosos, do Sinédrio e de Roma, vendo-se ameaçados economicamente, intuindo que os políticos não aceitariam a proposta pacifista, lavarem mais uma vez as mãos, deixando a decisão quando ao destino do Messias, à justiça, omitindo-se outra vez segundo uma das versões históricas, jogando a culpa nos romanos.
Durante todo o dia as informações ditas oficiais foram desencontradas, sinalizando um jogo de empurra entre religiosos e autoridades, o que levou os canais de televisão a interromperem a programação para novas notícias (leia-se também boatos) diversas vezes, ora confirmando, ora desmentido notícias colocadas no ar. Somente mais à noite, ao chegar, em casa, depois de um dia cansativo à caça de informações junto a colegas, autoridades e políticos, soube, estupefata, sentada diante da televisão, tomando um chá com torradas, os pés descansando sobre a mesa de centro, qual fora o verdadeiro motivo do ocorrido. Posso jurar que tive ímpetos de me atirar do segundo andar, mas desisti, poderia apenas me ferir. Talvez telefonar para o editor e passar-lhe um pito pelo sufoco por nada.
Você a essas alturas, ao ler esta crônica, já sabe a que me refiro, está em todos os canais do mundo, o verdadeiro motivo do ocorrido era parte de uma tática mercadológica do lançamento de uma nova marca de sabonete especialmente para as mãos, e que passou a ser divulgada globalmente na mídia televisiva, apresentando a cena filmada na rua até a prisão do Messias seguida da cena onde líderes políticos e religiosos, junto a cidadãos comuns, lavavavam as mãos. Portanto, ao ler esta crônica no meio impresso, com certeza, o leitor já terá na saboneteira de casa um produto com o nome: GAZA. (Façam bom uso...)
Betty Vidigal - Nota 8
Marco Antunes - Interessante, mas monótono, mesmo para a mais desperta dasatenços. Nota: 8
Lorenza Costa – A leitura não flui bem por problemas na
pontuação e expressões sem sentido ("desmedida consumista" e
"informações ditas oficiais"), e a idéia geral fica prejudicada por
dois lados: primeiro, a cronista quer manter um suspense que não tem
sentido, já que o mundo inteiro, segundo ela mesma, já sabe do que se trata;
segundo, se fosse o caso de suspense, a solução do mistério não poderia estar
no título.Nota: 7,5
Luci Afonso – A ideia da campanha do sabonete é
interessante. Algumas frases precisam ser reestruturadas. Nota: 8
Oswaldo
Pullen Parente - Desenvolvimento bom,
final um tanto forçado. Nota: 8
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 39,5
Crônica 36
Accende lumem sensibus – Liliane Neves
Certa noite eu sonhei que era um caminho. Coisa um tanto difícil de compreender.
Para ser um caminho – para ser qualquer coisa na vida – há de se ter certa ciência, uma gama de códigos e significados... Enfim, aparatos necessários para que o “eu” tenha consciência de sua existência. Eu sabia, em sonho, que existia conscientemente como um caminho.
Decerto sei que o entendimento não é fácil, mesmo para mim que tive o sonho. Para lembrar-me da experiência é preciso que eu me remeta à sensação que experienciei, pois as sensações são um tanto mais universais que a razão, esta compete à condição existencial para que signifique alguma coisa.
Um pouco da ciência de ser caminho é explicável em linguagem humana, existem signos que decodificam parte disto, porém outra parte desta ciência só é compreendida quando se é um caminho, ou quando se sonha, como no meu caso.
Ser caminho é buscar o inatingível. Sim, pois um caminho não tem limites nem fronteiras. Não é uma trilha que se abre no mato ou uma viela perdida da cidade. Não, não é isto. Ser caminho é como ser destino, mas ser destino é outra coisa... Então digamos que seja algo entre destino e direção. Difícil, não? Eu avisei.
Ser caminho é um vir a ser latente, pois o caminho se abre com o andor – por isto não é destino – e este andor modifica-se com o que encontra no caminho – por isto não é direção-. Disto pode-se inferir que o caminho modifica o andor, mas não é bem assim, isto é tarefa do destino...
O caminho é testemunho do passo, um caminho se mostra e se sustenta, desatina-se com o caminhar. Ele é o que é, mas também é o passo de quem anda, o destino, a direção e o próprio ser dá o passo.
Não vou mais explicar, é melhor continuar.
Falarei de outro aspecto que tornou este meu sonho ainda mais especial: O passo. Ele está para o caminho assim como a língua portuguesa está para quem vos escreve. Eu enxergava tudo sob a ótica do passo e assim sabia tanto de mim como de quem me andava. Agora sim, depois desta importantíssima alusão ao passo, posso enfim contar meu sonho.
Quando eu dei por mim, estava no cume do Monte das Oliveiras e quatro patas me marcavam. Sabia que não era humano o que me tocava porque algo em seu passo estava em uma dimensão particular onde tudo se abespinha com notório resígnio e aquele animal – descobri o que era – estava tão mais próximo do sentido da sua existência que os outros pés que o cercava. Estes sim eram de gente. Difícil mesurar a quantidade de dimensões particulares, eram muitas mentes humanas, cada uma significando-se por diferentes maneiras. Alguns passos me escreviam como apóstolos, outros como transeuntes, curiosos, crianças, revolucionários, espiões, pobres, infelizes... Eram muitos pés e passos, e pela maneira de andar presumi que estava no ano 33 d.C. Todos os passos falavam algo, mas nenhum sabia o que faziam ali caminhando.
E eu era este caminho. Todos me percorreram montanha abaixo. Senti que presenças imateriais faziam com que todos andassem por mim no sentido do portão de entrada oriental da cidade de Jerusalém.
Todos em seus passos escreviam uma história individual e a História daquele acontecimento. Enxergar nesta amplitude é uma grande dádiva de ser caminho.
Os passos seguiam o burrinho que carregava algo muito maior que a massa humana em suas costas. Eu não sabia quem era, mas intrigantemente sabia que eu, caminho, existia como tal e me dava um sentido tão imensamente inenarrável que sentia que a minha existência, apesar de composta por milhares de passos, era apenas o caminho Dele, pois Ele sempre dizia: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” e a mim ele falava: “O Caminho e a Verdade estão na Vida.”. Lições distintas para seres distintos...
Na iminência de entrar na cidade todos os passos pararam e alguma coisa abateu-se sobre aquelas pessoas. De repente um lado delas aflorou e seus passos, agora seguros, mudaram. Eram passos antigos, desses que reconhecem a pura nobreza, pois tem vivência suficiente para distinguir valores. Todos aqueles passos agora saudavam o Rei que montava o burrinho. Tiravam suas vestes sem se preocuparem com os ditames do Sinédrio e ornavam um tapete para o homem distinto passar. Ramos de oliveiras chacoalhavam e suas folhas caiam dispersas sobre mim.
Foi quando o Rei saltou do burro. Era Jesus, o Nazareno e ao dar-me conta disto percebi que estava sonhando. Agora era eu, um ser humano, que presenciava esta passagem na vida do Messias. Ele olhou para mim - eu, que nem sei de que lugar achava-se meus olhos! – e sorriu ternamente. Ele sabia que eu estava ali. Ele sabia de tudo.
Tentei a todo custo voltar a sonhar ser caminho e dar continuidade ao sonho, mas aos poucos a visão foi escurecendo e só via do alto o instante gravado de minha existência. A marca dos passos e a trilha de roupas sobre a cidade de Jerusalém, na véspera da Páscoa, cercada de muros e autoritarismos de Roma, dos Fariseus, um povo oprimido como no tempo de quem sonha e a esperança humana montada num burro desafiando predições e corações e ele, o burrinho que sabia de si, ou estava perto de saber.
Não sei se sonhei ou se vivi, mas afinal, a linha que separa estas duas definições é mesmo muito tênue...
Betty Vidigal - Corretamente escrito, mas
estendendo-se demais em alguns pontos. Nota 9.
Marco Antunes - Muito bom! Nota: 9,8
Lorenza Costa – Sem dúvida, até aqui o mais
feliz e original de todos os esforços para situar o cronista em Jerusalém,
dar-lhe um papel a partir do qual pudesse testemunhar os fatos. O texto
pede uma revisão mais cuidadosa.Nota: 9,9
Luci Afonso – Ser o caminho de Jesus é um belo sonho. O
texto pede alguma revisão gramatical. Nota: 8
Oswaldo Pullen Parente - A sua linguagem metáforica foge ao gênero. Ao
final, a pieguice incomoda também. Nota: 6,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 43,2
Crônica 37
EM JERUSALÉM, DOMINGO – Denis Reis
Domingo fui à feira. Realmente presenciei cenas que, com alguns reparos, se assemelham às descritas no informe do editor. Não observei com muita atenção, é verdade. Não me encontrava ali como cronista, mas na qualidade de simples cidadão: Comprava provisões para a Festa da Páscoa.
No mercado, a
multidão imensa após o longo e silencioso Sabath. Aliás, me restava algum
mal-estar pelas libações que entretive com amigos no dia anterior, após a
vigília na casa do meu sogro. Não me encontrava assim com disposição e tempo
para os pormenores de uma crônica. Meu sogro Mordechai, como se sabe, participa
de uma seita muito devota e, sendo assim, se sente no direito de me prender
durante dois dias em intermináveis orações, e me obriga a rituais há muito
Mesmo assim, no domingo, cumpri minhas obrigações de marido indo à feira. Sou casado com as duas filhas de Mordechai. Tenho o dia cheio de deveres diversos. Quem sabe, senhor editor, se tivesse apenas uma esposa, pudesse me dedicar com mais constância à escrita, que tanto estimo.
Enquanto pechinchava – que costume cansativo! - com um comerciante de farinha de trigo, notei a balbúrdia nas ruas do mercado. Ouvi o barulho, a gritaria do povo. O sol claro magoava meus olhos. Minha cabeça doía. Chegava mais um dos profetas de domingo.
Desde que os romanos aqui se estabeleceram em definitivo, Israel se vê infestado de novos profetas. Um fenômeno característico da nossa época. Eu mesmo tenho como patéticos estes acontecimentos que se tornaram um hábito domingueiro. Praticamente não há semana em que a velha cidade, a Jerusalém sagrada dos reis, não receba um novo Elias, um autoproclamado Messias, ou qualquer coisa desse naipe. Chegam quase sempre nas grandes feiras dominicais. Jerusalém é populosa. E hoje os judeus aqui coabitam com de gente de toda a parte do Império. Até bárbaros, povos de fora do Império, em verdade desconhecidos dos antigos, sem nenhuma menção no Livro, para aqui afluem em grande número, atraídos pela riqueza e poder do Império. Um alarido sem fim, é que temos no domingo, um renascimento de Babel, eis a verdade. Que Deus me proteja!
Domingo, como informava, chegava um homem, saudado por seus sectários como o “profeta anunciado”. Vinha montado num desses monstruosos animais a que chamam elefantes. O deformado quadrúpede estava ornamentado com guirlandas coloridas e panos em sequências de tonalidades azuis de um lado e vermelhas de outro. O tal profeta trazia uma barba grisalha e desgrenhada. Tinha argolas de ouro no nariz – o que me causou profunda repugnância! Não é de admirar que o meu sogro Mordechai e seus colegas se empenhem tanto em restabelecer os antigos rigores da religião. Eu mesmo, judeu nascido em Roma, educado na língua latina, por vezes me espanto com essas heresias. São profundamente contraditórias. Misturam à palavra do Livro toda sorte de doutrinas estrangeiras, sejam do Rajastão ou da Etiópia.
Entretanto, homens do mercado atiraram moedas para que o elefante do profeta as pisoteasse. Com este gesto auguravam riquezas. Grande é a preocupação do homem de nosso tempo com a riqueza e o poder que dela deriva. Dia a dia, senhor editor, o dinheiro se apossa do Império. É voz corrente que muitos desses pretensos profetas pagam claques que os aclamem nas ruas. Todo um populacho miserável e desocupado se apega ao óbulo impuro. Homens de todas as raças que mal sabem pronunciar algumas palavras do hebraico antigo. Vê-se que o comércio das coisas sagradas não é mais um privilégio dos grandes. O tumulto chegou ao máximo quando algumas mulheres, que talvez nem fossem judias, retiraram os véus e os lançaram ao chão para que servissem de tapetes ao cortejo do falso profeta. Houve um princípio de confronto, pois havia ali muitos fariseus.
Preocupado com as tarefas do dia - eu ainda tinha de visitar vários curtumes à tarde – procurei sair dali rapidamente. Tenho uma família numerosa e um sogro a me atormentar. Não posso perder tempo com as disputas e anarquias do mercado.
Mas a confusão continuou. Logo após o homem montado num elefante, veio outro montado num burrico. Cada novo Messias tem preferência por um quadrúpede diferente. Em Jerusalém cada objeto ou animal é um signo. Era um profeta de barba negra, cerrada, e pele morena. Tinha olhos negros e profundos. Sem serem miseráveis, seus seguidores pareciam ser todos pobres. Acenavam-lhe com ramos e folhas de palmeiras. Ele - este sim! - era um nazareno, me disseram alguns fariseus. Curiosa foi a reação dos fariseus diante do jovem profeta: Estavam irritados com ele, mas um involuntário respeito os impedia de reagir à sua presença.
Isto foi tudo. No resto do dia cuidei de
negócios, andando de curtume em curtume em nome de Mordechai, meu sogro. A
semana passará como todas as outras. Certamente, na sexta-feira, dia dos
julgamentos, o Sinédrio condenará alguns desses pretensos profetas como
arruaceiros e inimigos de Deus. O procurador do Império há de concordar
Nós que aqui vivemos não vimos nada de novo nesse domingo, mas entendo que Jerusalém desperte tanto interesse desperte nos editores da capital. Não é novidade o poder do Sinédrio. Não são surpreendentes as arbitragens do Procurador Imperial. O que Jerusalém tem de novo, o que nela nos é perturbador, é o viver comum de homens e povos tão diversos. Jerusalém, multíplice cidade futura. O que os estranhos profetas dos domingos anunciam, do modo abstruso que eles sabem, é a novidade do encontro: Jerusalém do judeu e do samaritano, do caldeu e do latino, do sírio e do etíope. Jerusalém espanta por mostrar o mais comum da humanidade: Os afetos em sua necessidade vital. Pois, vejam bem, mistura é aventura. Jerusalém da nossa alegria e, às vezes, do desespero sem nome.
Betty Vidigal - É um conto, não uma crônica. Não atendeu ao pedido
“do Editor”, não escreveu como um cronista aos seus leitores. Nota 8.
Marco Antunes - Seria um bom
texto, mas peca por um certo excesso de informações que, salvo melhor juízo,
não acrescentam nenhuma informação vital, ou humorística, ou estética à crônica. Nota: 8
Lorenza Costa – Os detalhes do cotidiano do cronista não têm
relação com as idéias dele, principalmente as do último parágrafo. Não é a
única crônica neste desafio que tem texto sobrando, como se a caneta
andasse a esmo, para fazer volume antes da frase de efeito final (que nessa
altura já perdeu o efeito todo). A prosa pode ser boa mesmo sendo
compacta.Nota: 8
Luci Afonso – Relato apressado e um pouco confuso, como uma
feira de domingo. Nota: 7,8
Oswaldo Pullen Parente - Jesus
como segundo profeta a chegar no mesmo dia é surpreendente. O texto é um pouco
confuso, mas se sustem por sua originalidade. Nota: 8
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 39,8
Crônica 38
O Novo Profeta – Giovani Iemini
É fervorosa a comoção dos judeus, e até de alguns romanos, em torno deste jovem profeta, o rabi. Sua chegada em Jerusalém era cercada de expectativa, diziam ser majestosa, afinal trata-se de um pretenso filho de algum deus, deveria ostentar a pompa do cargo, porém, ele apareceu no lombo de uma besta, trajado como um mendigo e cercado de doze seguidores maltrapilhos.
Fui ter com ele em sua humilde tenda aos muros da sinagoga. Lavou-me os pés como boas vindas, ofereceu-me pão e peixe. Após a generosa mas modesta refeição, cercado dos seus, pôs-se a discursar:
-
bem-aventurados os pobres de vaidades, pois será rico em valores no reino dos
céus. (é isso mesmo? O profeta fala errado? Pode ser...
mas, se ele fala certo, é “serão”)
Mais um, pensei, que oferece a redenção após a morte.
- quando, Rabi? – Perguntei.
- logo que cumprirmos nossa missão.
Ah, é fatalista também. Eu quis encerrar por ali o papo, já conhecia o tipo; esses utópicos viajandões das estradas surgiam como pragas por toda a Galiléia, questionavam o sistema com simplórias visões de igualdade, arrumavam seu séquito e saiam pelo mundo pregando a boa nova. A cada semana um iluminado diferente aparecia esmolando atenção e trocados.
Puxei uns
sestércios e os joguei na tijgela em que me lavou os pés. Eu ia cair fora, já vira
o suficiente.
- para você, homem santo. espalhe a palavra e tente fazer do homem um ser melhor.
Ele sorriu. Parecia sincero e, juro, tive a impressão que sua pele brilhava.
- santo é você, meu amigo, que ajuda mesmo sem crer nos desígnios.
Pela primeira vez em tantos anos entrevistando os profetas na cidade sagrada, senti que ali havia algo mais, quase sábio, uma espécie de simplicidade complexa. Com uma curiosidade descrente, permaneci para ouvir mais.
- que desígnios?
- veja: você nos dá dinheiro quando queríamos apenas amizade. mesmo sem crer nas nossas intenções, propõe que tentemos fazer algo bom. – Ele exalava o aroma de rosas, eu me inebriava. – você é santo, só não acredita no homem. – Sorriu novamente. – cada um dá o que pode.
Sim, ele estava certo, eu sempre me senti um estranho entre as gentes, nunca entendi por que as pessoas não se ajudavam mais para criar um ambiente mais feliz para todos. Nós achava muito egoístas.
- o homem é fraco.
- mas você é forte! – Redargüiu. Seu sorriso estava radiante, parecia gostar de me ver incomodado.
- sim... sou.
- e és um homem que sabe que precisamos nos respeitar para sermos felizes.
Ele lia minha alma. A certeza e franqueza com que falava preenchiam meu coração com um calor que eu nunca pensei que fosse possível. Ele me falava as palavras que eu precisava ouvir, dizia o que eu acreditava ser importante, confirmava tudo que eu queria ver num profeta para segui-lo apostolicamente. Havia invadido meu corpo com sua luz.
- como te chamas, Rabi? acho que tuas bênçãos alcançarão os cantos do mundo. – Eu escreveria um elogioso artigo.
- ah! – Ele enxugou o suor da acentuada calvície. – sou apenas um irmão. se quiser conhecer alguém realmente sábio, aguarde, conheci na estrada um jovem bem interessante. também está vindo para cá. disse se chamar Jesus.
Eu, que estava maravilhado com aquele humano, nem atentei para a sugestão. Queria, agora, ajudar a espalhar aquela visão, aquele sentimento de amor mútuo, precisava ajudar aquele profeta e, conseqüentemente, a todos os homem. Se o tal Jesus fosse realmente mais sábio, o que eu realmente duvidava, provavelmente teria que ser um enviado dos deuses, ou coisa assim.
Betty Vidigal - Excessivamente religioso,
sem espaço para a dúvida. Nota 9.
Marco Antunes – Muito pio, não me toca como
literatura! Nota: 7
Lorenza Costa – O truque, muito evidente,
não funciona. Não parece que o texto tenha passado por uma segunda leitura, que
dirá por uma revisão, e o uso das letras minúsculas não se justifica.Nota: 7
Luci Afonso – Os erros ortográficos e gramaticais, assim
como a superficialidade, comprometem o texto. Nota: 7,5
Oswaldo Pullen Parente - Interessante o engano na identificação do
Messias. O texto teria mais elementos do conto do que da crônica. Nota: 8
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 38,5
Crônica 39
O passo dos condenados – Pablo Amaral
Rebello
Vivemos em tempos muito, muito estranhos. Basta um breve passeio pelas ruas de Jerusalém, coração de todo o mundo, para constatar a veracidade dessas palavras. A vida pulsa nessa cidade como em nenhuma outra construída por mãos humanas. Naquela manhã, observei o passo dos condenados rumo ao Golgotá, onde os pecadores expiam seus pecados antes de abandonarem esse plano e serem julgados pelo Todo Poderoso. Francamente, não lhes dei muita atenção. Tinha assuntos mais sérios em que pensar do que o destino miserável de assassinos, ladrões e trapaceiros. Até onde eu sabia, eles provavelmente mereciam o castigo que estavam prestes a receber. Ou assim me acostumei a pensar ao longo dos anos, embora um encontro fortuito tenha me feito pensar duas vezes sobre as adversidades da vida.
O passo dos condenados não me interessava naquela manhã. E nem a mais ninguém, fora os soldados romanos que os escoltavam, chicotes na mão, prontos para administrar castigos apropriados aos mais rebeldes. Em uma rua malcheirosa, me deparei com um dos vários profetas do fim do mundo que tomaram a cidade nos últimos dias. Ele tentou me convencer de que o Sol seria engolido por alguma criatura abissal e que a noite eterna recairia sobre a humanidade. Os demônios se apossariam das almas dos homens e os fariam de fantoches em jogos sádicos e intermináveis. Dei uma moeda de cobre para me livrar do velho. Ele me agradeceu, mas fez questão de avisar que meu dinheiro não me garantiria um lugar no paraíso.
Dei de ombros. Loucos como ele passaram a atormentar os cidadãos de bem dessa cidade desde que um nazareno, filho de carpinteiro, passou a andar entre nós e fazer milagres a torto e a direito. Dizem que seu nome é Jesus e que ele é filho do Deus Único. Nem preciso dizer que isso deixou os judeus loucos de raiva. Particularmente, não sei o que pensar. Mesmo para uma mente educada como a minha, tenho encontrado dificuldades em separar a verdade dos boatos que proliferam como gafanhotos nas plantações.
Já ouvi todo tipo de história sobre esse tal Jesus. Outro dia, esbarrei com um camarada meio esquelético, de rosto ossudo e olhos sempre atentos na fila do mercado. Ele ficava olhando sobre os ombros e fazendo comentários obscuros como “A morte passou aqui perto” ou “A vida é um presente que ninguém aproveita”. Coisas sem sentido dignas de uma mente insana. Perguntei a ele se tinha ouvido falar do santo milagreiro, só para puxar assunto, e o rosto do sujeito se iluminou como uma vela. “Jesus é meu chapa”, me disse ele. “É o camarada que me tirou da terra dos pés-juntos”, complementou. Ele ficou empolgado com a conversa. Disse que se chamava Lázaro e queria saber notícias dos Apóstolos. Preferi mudar de fila a continuar um diálogo com o maluco.
E não pára por aí. Outro dia, teve uma velha desdentada que revelou o milagre que Jesus tinha performado ao deixá-la fértil novamente. Ela me convidou, de uma forma um tanto bruta, a provar os frutos da ação do filho do Senhor. Naturalmente, recusei. No dia seguinte, foi a vez de um taberneiro me convencer que Jesus tinha transformado a água do poço artesiano dele no mais doce e magnífico vinho provado por lábios humanos. Me cobrou uma pequena fortuna por um gole da bebida, que achei amarga e azeda.
Outro bêbado se enfezou com a tentativa do taberneiro de lucrar com o nome do “Mestre”. Tive que me intrometer na discussão para evitar uma briga. Mas as coisas se acalmaram depois que paguei uma jarra de cerveja pro esquentadinho. Sentamos em uma mesa no fundo da taberna e perguntei quão bem ele realmente conhecia Jesus. O homem me encarou como se estivesse olhando um babuíno e respondeu que era um dos discípulos dele. E um dos mais famosos. Como o sujeito estava ficando nervoso de novo, lhe perguntei como era Jesus. “Jesus é grande”, me respondeu o homem. “Grande demais para a humanidade”.
Fiquei surpreso com a aparente comoção daquele homem com o tal santo milagreiro. Tanto que lhe pedi para me marcar um encontro com o Messias. Mas desisti da idéia depois que o sujeito me cobrou trinta moedas pelo serviço. Rodei essa cidade de cima a baixo em busca de um sinal do homem santo. Tanto de dia quanto de noite. E tudo que encontrei foram histórias fantásticas mescladas com uma devoção assombrosa que parece não conhecer limites. Depois de tanta correria, simplesmente desisti daquela busca inútil. Se tivesse que acontecer, aconteceria.
Assim, sem pensar no assunto, eu caminhava pelas ruas da cidade quando vi um homem com a pele escurecida pelo Sol, cabelos longos e barba bem aparada contemplar de expressão séria um ponto além dos limites de Jerusalém. Alguma coisa na postura dele me chamou a atenção. Parei ao seu lado e segui sua linha de visão. Ele olhava com tristeza os condenados crucificados em Golgotá. “Perdoe-os Pai, eles não sabem o que fazem”, disse o homem com uma voz baixa, poderosa e calma. Então me dei conta de quem era e, sem ao menos perceber, me ajoelhei diante Dele. “Excelência”, falei.
Jesus se virou para mim e olhou dentro dos meus olhos. Não importa quantos dias eu venha a viver nessa Terra, tenho certeza que nunca vou conhecer uma paz como a que aquele olhar foi capaz de me transmitir. Olhos dourados de um verdadeiro leão angelical. As lágrimas correram pelo meu rosto. Ele sorriu e se ajoelhou ao meu lado. “Não importa o que penses a respeito daqueles que considera maus. Eles são teus irmãos do mesmo modo que vós és irmão deles”, me revelou o Senhor. “Não cabe ao homem decidir quem vive e quem morre. Esse julgamento, só meu Pai pode fazer”, concluiu, se levantando em seguida.
Não respondi. O que poderia dizer para Ele? Apenas permaneci onde estava e o contemplei com a adoração de um pupilo que acaba de descobrir uma verdade fundamental sobre a realidade. “Que Deus esteja convosco”, Ele me disse antes de partir a passos lentos, sem a menor pressa, com a decisão que só quem sabe onde suas pernas o estão levando pode ter. Por algum motivo, tenho certeza que não nos encontraremos novamente. Mas, desde aquele encontro, passei a observar o passo dos condenados com um nó no coração. Imagino qual seria o motivo disso...
Betty Vidigal - Nota 9.
Marco Antunes - Inteligente bem conduzida.O que faltou? Aquele plus que só os grandes textos
conseguem: entusiasmar o leitor. Nota:
9
Lorenza Costa – A conversão do cronista é
convincente, mas a escolha de um registro dúbio prejudica o texto (Jesus
com seu tradicional "que Deus esteja convosco" e um discípulo com um
"ele é meu chapa"?). Ou lá ou cá, para uma crônica que evidentemente
não tem pretensões humorísticas. Nota: 8
Luci Afonso – Uma abordagem diferente. A última frase
poderia ser suprimida sem prejuízo ao texto. Nota: 8,2
Oswaldo Pullen Parente - Com bom desenvolvimento, perde ao final
quando se torna num “testemunho”, muito comum em eventos religiosos. Nota: 7,8
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 42
Crônica 40
Um Nazareno em Jerusalém – Mauro de
Albuquerque
As muralhas de Jerusalém hoje tremeram de alegria e temor. A plebe estava ouriçada com a chegada de um homem barbudo, de sandálias, de túnica empoeirada, de seus trinta e poucos anos, montado num jumento, mas com ar absorto de visionário, cercado por discípulos, crianças, mulheres, mendigos e espertalhões. Ninguém sabia de onde tinha vindo. Sua aparência tresloucada, olhos faiscantes, gestos ora suaves, ora enérgicos, poucas palavras que eletrizavam os mais próximos, tudo indicava nele a encarnação do desejo das multidões.
Eu, centurião romano, cansado de aturar esse povo inquieto, apreciava de cima dos muros aquela entrada triunfal, desconfiado do tumulto que algum novo profeta ou milagreiro iria fabricar junto àquela massa de gente que se aglomerava à sua passagem. Não sei por que esses hebreus gostam tanto de esperar, a cada esquina de ruela, a cada mês ou ano, pelo aparecimento de uma figura estranha que venha salvá-los do nosso domínio ou da sua pobreza. Escaparam do Egito, da Babilônia, há muito tempo brigam com seus vizinhos, que chamam de filisteus, mas não se acostumam com a águia de Roma, não aceitam a nossa benigna autoridade, que lhes permite a sua língua, costumes, idiossincrasias e a mania de esperar por um messias. Daí acreditam que qualquer maltrapilho desmiolado, pregador de alegorias e parábolas, possa vir do alto com a missão de reinventar o seu reino, a sua glória.
Nosso governador Pôncio é um homem calmo que lhes deixa a liberdade de sonharem com um rei nativo, de se agitarem nas ruelas desta velha cidade, deitando ao chão seus tapetes, vestimentas, toalhas, ramos de palmeira, para que passe solene o seu novo profeta.
Do alto da muralha, vi que se dirigiam para o Templo. Desci para acompanhá-los discretamente. Gritavam hosanas ao filho de Davi, ao que me consta, um antigo rei deles dos bons tempos. Até entendo que não gostem de nós. Mas estamos aqui para mantê-los sob controle. Em séculos futuros, quem sabe, seremos substituídos por alguma outra potência. Sempre será preciso mantê-los sob o jugo, senão serão capazes de se tornar tão opressores quanto acham que nós somos. Tudo é relativo, e a História sempre está a favor dos mais fortes.
Lá adiante, me deparei com umas mulheres apaixonadas que choravam de dor ou de alegria pela passagem do seu profeta, que diziam ser nazareno. Perguntei pela razão desse nome e me disseram que existe um lugarejo chamado Nazaré, de onde teria vindo aquele santo homem. Não sei dos antecedentes daquele indivíduo que conseguia comover tanta gente. O povo vai atrás de qualquer novidade. Lá em Roma, a plebe festeja os generais vitoriosos, os gladiadores, e por vezes até algum poeta, amigo do Imperador.
Aproximei-me do Templo e fiquei abismado com a audácia daquele áugure mal vestido. (Em Roma temos dos nossos). Ele começou a expulsar e agredir os pequenos comerciantes que lá vendiam suas bugigangas, sandálias, cordões, medalhas, broas, farinhas, peixes, toalhas. E começou a insultar os sacerdotes do Templo. Isso é muito perigoso. Nosso governador mantém boas relações com eles e através deles mantém a plebe mais ou menos obediente. Fiquei pensando, o que é que nós viemos fazer aqui, no meio desse povo irrequieto. César não se cansa de estender seus domínios, e nós, soldados, é que temos de agüentar as balbúrdias desses bárbaros. Estou vendo que teremos de dar um jeito em mais esse agitador, com cara de doido manso, com alguns repentes de fúria. Se o povo achar que ele é o Filho de Jeová, o Filho de Davi, o Messias, vem encrenca grossa. O governador vai ter de meter nossas legiões em cima da multidão, e eu vou ter de largar a pena desta crônica e empunhar a lança e a espada contra esses diabos rebeldes. Por enquanto, neste dia de festa, em que o povo encheu as ruas de ramos, galhos, flores e tapetes, o seu Messias está triunfante, audacioso. Depois, ninguém sabe. Se aparecer a tropa, todo mundo corre e talvez deixe seu candidato a rei na mão dos sacerdotes do Templo. Estes não gostam desses falsos profetas, que sempre incomodam, porque dizem coisas fora da rotina, do ritual, até fazem milagres e perturbam a cabeça da gente simples. Já estou até com pena do nosso governador, um sibarita que ama banquetes e detesta se envolver com as querelas de doutrina e crença desse povo.
O crepúsculo já está dourando as pedras do chão e as rochas por detrás das oliveiras. Vou voltar para o meu posto na muralha, escrever ao meu amigo Tito Andrônico e pedir notícias do Coliseu e do Capitólio, de certo mais interessantes do que estórias de profeta nazareno.
Betty Vidigal - Corretamente escrito, mas o
personagem narrador não é um jornalista, como foi pedido no enunciado. -Nota 8.
Marco Antunes - Boa idéia; deficiente realização! Nota: 7,5
Lorenza Costa – Menos didatismo e mais
desabafo melhorariam a crônica. O centurião está clarividente demais
e incomodado de menos com mais este estorvo que acaba
de chegar a Jerusalém. Nota: 8
Oswaldo Pullen Parente - Texto com momentos melhores, quando examina,
sob o ponto de vista de um romano médio, o caráter do povo judeu. Perde em
outros momentos, quando se utiliza de frases toscas, e pouco elaboradas. Nota: 7,8
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 39,3
PORANGATU
Crônica 41
Hosana ao filho de Davi! – Soraia Maria
Silva
Prezados
amigos, estamos completamente estarrecidos com o acontecimento sobre o qual
pedem notícias. O nazareno a que dizem ser o grande profeta, o filho do Deus
vivo, está levando grande parte dos habitantes de Jerusalém a um estado de no
mínimo apreensão absoluta. Cidadãos de todas as classes sociais a cada dia se
convencem da lenda vigente. Jesus é o nome mais falado nas sinagogas, nas
esquinas, nas feiras e nas casas de família cujos membros nem sempre convergem
em suas opiniões a respeito desse líder maior, propagador de uma nova religião,
seita ou arte mágica que invade a cidade de Jerusalém. O caos está instaurado.
Realmente estarrecedores são os últimos acontecimentos. Não que o referido
homem esteja fazendo uso de grandes recursos materiais para a projeção de sua
liderança nata, comprando admiradores carentes de bens fundamentais básicos
para uma digna sobrevivência humana. Ao contrário, o novo líder vem aumentando
o seu séquito em função de um viver completamente inusitado. Rompendo com toda
a tradição judaica, seu discurso, nada sofista, tem frases polêmicas e de uma
simplicidade estarrecedora. Ele é um contador de histórias nato “Quem de mim se
alimenta por mim viverá” essa é uma de suas frases polêmicas e que anda na boca
do povo estarrecido e comovido. Seu carisma excede e é inegável. Literalmente
ele oferece o seu ser àqueles que o contemplam, seus olhos já não são desse
mundo. Esse messias ou mestre como é muito chamado por seus discípulos, os
quais têm aumentado assustadoramente, fato que tem alarmado as autoridades
locais, tanto as religiosas quanto as governamentais, realmente chamou atenção
de toda a população local com a sua última e triunfante performance, evento
sobre o qual me pedem notícias. Mas amigos, o histórico desse homem é
impressionante, sabe-se que foi recentemente batizado em águas pelo não menos
polêmico João Batista, o profeta dissidente mais comentado entre os rabinos e
que anda por aí com trapos sobre o corpo anunciando a vinda do verdadeiro
messias. Dizem que João testificou em Jesus a prova cabal do Espírito de Deus,
mas o curioso é que ele mesmo não seguiu o novo líder (mas não se sabe o
motivo). Dissidências espirituais à parte, o fato é que o nazareno tem feito
coisas realmente impressionantes. Bom, me certifiquei pessoalmente de alguns
feitos de Jesus. Sua entrada triunfal em Jerusalém foi realmente o evento do
ano, duvido que algo igual aconteça nos próximos tempos. Toda a multidão, tanto
a que o precedia quanto a que o seguia, aclamava em altos brados: “Hosana ao
filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores
alturas!”. Vejam, isso não é pouca coisa, uma aclamação dessas faz as bases de
uma cidade tremer. A princípio pensávamos ser
ele um arruaceiro qualquer tentando provocar um levante político, mas seu
discurso tem uma coerência estranha, não encontramos nele defeito algum que o
condene. Até mesmo a sua entrada triunfal se deu em cima de um jumentinho, sua
aclamação foi total e absoluta e, no entanto lá estava ele em absoluta
simplicidade sobre o jumentinho, e, diga-se de passagem, o tal jumentinho foi
emprestado de uma aldeia vizinha. “Em verdade, em verdade” para usar uma
expressão típica de Jesus, o orgulho não é uma qualidade presente nesse novo
líder. Talvez essa simplicidade e humildade genuínas sejam a chave de todo o
seu carisma. Eu mesma testifiquei a experiência de algumas pessoas que
estiveram próximas a ele. Um jovem rico, por exemplo, que eu encontrei bastante
acabrunhado, estava inconformado, ele havia estado com Jesus poucos dias atrás
e assistia como eu o desfile triunfal do nazareno. O rapaz estava quieto e não
era um dos que aclamava o novo profeta, ele dizia baixinho: “ele quer que eu
venda tudo e dê aos pobres!”, foi quando me aproximei e o indaguei sobre quem
gostaria que ele vendesse tudo e desse aos pobres .O pobre rapaz rico me
respondeu: “esse nazareno que agora entra triunfalmente, me interessou muito,
me cativou profundamente, pois tenho sido correto em minha vida, tenho
preservado toda a lei não mato, não roubo, não adultero, pago os impostos,
também não dou falso testemunho, honro os meus pais e tenho amado o meu
próximo, mas quando lhe perguntei o que era necessário fazer de bom para se
alcançar essa vida eterna que ele vem divulgando ele me disse que bom só existe
um, mas que se eu quisesse ser perfeito deveria vender todos os meus bens e dar
aos pobres, assim eu teria um tesouro nos céus e em seguida eu deveria segui-lo
” . O jovem me parecia mesmo inconformado, acho que ele não conseguiu os
conselhos de Jesus... Segui o meu caminho e o perdi na multidão. E por grande
surpresa minha me deparei com dois homens
que gritavam desesperadamente aclamando Jesus mais que todos na multidão, seu
olhos estavam completamente arregalados e contemplavam coisas obscuras para
mim, aqueles dois me comoveram profundamente e pude perceber algo
extraordinário na experiência deles. A multidão que acompanhava Jesus vinha
desde Jericó e uma senhora me disse que aqueles dois eram cegos e que tinham
acabado de obter a cura de suas cegueiras pelo toque das mãos de Jesus em seus
olhos. Confesso que nesse momento fiquei completamente perdida, um grande
sentimento de alegria invadiu o meu ser e eu não mais queria pensar em nada,
aquela multidão toda ali, aclamando Jesus pulsava dentro do meu coração e a minha
boca também se abriu, também aclamei Jesus. Era uma energia muito grande que
estava espalhada no ar, um poder vindo não sei de onde, mas naquele momento
Jesus, naquele burrinho, me parecia o maior dos líderes por mim já visto antes
. Meus amigos, eu gostaria muito de poder explicar detalhadamente, mas uma
espécie de transe e torpor tomou conta de todo o meu ser. A tarde estava mais
dourada que nunca e os meus olhos estavam cegos pelo esplendor daquela cena
jamais vista. Ali com aquela multidão e Jesus, me senti tranqüila e segura, eu
realmente iria a qualquer lugar e faria qualquer coisa para continuar sentindo
o que estava sentindo. Quando Jesus entrou no templo o alvoroço foi maior
ainda, ele literalmente derrubou violentamente as mesas dos que negociavam ali,
e disse que aquele lugar era a sua casa e que era um lugar de oração. Não
resisti à incrível atração daquele homem e entrei no templo junto com os cegos
e os coxos, os quais iam sendo tocados e curados por Jesus. Ao me aproximar do
mestre não pude conter um grande suspiro de alegria e junto com as crianças
exclamei: Hosana ao filho de Davi! Jesus virou-se olhou-nos nos olhos e disse
aos sacerdotes que o observavam estarrecidos: “Da boca de pequeninos e crianças
de peito tirastes perfeito louvor!” Dizendo isso saiu do templo, e no mesmo
instante toda a luz dourada e o calor do transe das cenas anteriores se
esvaneceram. Na escuridão e frio do lugar restava-me um sentindo do ridículo de
toda aquela situação, o que está acontecendo afinal? Não sabemos bem ao certo,
mas amigos: Eu Vi!
Betty Vidigal - Atendeu ao “pedido do
Editor”, mas o relato forma um bloco de texto excessivamente descritivo – e
muitas dessas descrições são lugares-comuns. Nota 8.
Marco Antunes - Posso até enfeitar a crítica,mas a palavra
que estará ecoando em minha cabeça é uma só: chato! Nota: 7
Lorenza Costa – O texto parece escrito às
pressas, sem cuidado com o estilo, as repetições e a pontuação. O viés
escolhido também não é dos mais originais. Nota: 7
Luci Afonso – O texto precisa de reestruturação
gramatical. Nota: 7,5
Oswaldo Pullen Parente - A construção em um único bloco impede a boa
compreensão do texto. Um dos pressupostos da boa crônica é a sua informalidade,
e facilidade de entendimento, o que a afasta de um texto experimental. Nota:
6,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 36
Crônica
42-
Calendas
de Junius – Ari Gurcz
Calendas de Junius[21][3]. Já se vai a meio nosso ano de 787. Jerusalém agora está em paz, mas o Beit Hamiqdash[22][4] experimentou um ano turbulento, especialmente durante os dias de Adib[23][5]. É verdade que a época da Pessach[24][6] nunca foi das mais tranquilas nessas terras hebraicas do Império. Hebreus de todos os cantos assomam às portas de Jerusalém para o Sacrifício e as comemorações. Trazem nas almas a fé em Yahweh[25][7] que anima seus dias, na memória ancestral a Passagem da escravidão à liberdade e nas bolsas as moedas que animam as almas dos comerciantes e enchem os cofres dos sacerdotes e dos coletores de impostos.
Como todos os anos, com os peregrinos chegam levas de pedintes e esfaimados em busca d’algum alento para o estômago e, em troca, oferecem às consciências algum consolo. No seu rasto, vêm os que aproveitam o ajuntamento para incitar a revolta contra Roma, contra Herodes, os Sacerdotes do Templo, os coletores de impostos e a seca e a chuva e o Deus Único e os deuses dos Césares, contra tudo que lhes venha à cabeça e encontre ressonância entre as pessoas nas praças ou nos banhos públicos.
Há excentricidades para todos os gostos. Os que profetizam, os que dizem curar, os que fazem bendições, os que prometem saúde e prosperidade à troca de uns tostões. Há os que sonham com Moisés e os que ouvem anjos. Há os que pegam em espadas, mas, não sendo páreo para as centúrias, são logo convencidos de que a submissão é sábia e a rebelião imprudente.
As centúrias, é de se notar, costumam ser bastante persuasivas quando se trata de manter a ordem nesta nossa cidade romana. É disso que vivem e por isso paga-os o Cesar. Seus argumentos, se por vezes pouco sutis, são sempre tão mais eficazes quanto mais afiados. E fazem coro os soldados de Herodes, graduados em bons modos na mesma escola que os romanos.
Na maior parte dos anos, os casos se repetem e as reações dos braços armados do Rei Hebreu e de Pilatos são previsíveis. Na última comemoração da Passagem, no entanto, o painel de exotismos e excessos costumeiros foi ligeiramente variado. Ocorre que um galileu de nome Yeshua, sabedor de uma velha profecia do livro de Zacharias que vaticinava que o Meshiah[26][8], descendente de David, entraria em Jerusalém no lombo de um asno para regozijo e libertação de todo o povo de Israel, resolveu encenar a tal entrada triunfante com direito a saudação efusiva de alguns de seus seguidores, que bramiam aos sete ventos a chegada do Rei e agitavam ramos verdes em sua homenagem.
Seus partidários encarregaram-se de divulgar os prodígios que havia
perpetrado desde a infância mais tenra e os doentes que havia curado e as almas
que por sua interseção estavam salvas. Nisto assemelhava-se aos outros profetas
que se encontravam em cada esquina da cidade. O que fez que fosse eleito como
uma ameaça mais séria, foi que, enquanto os demais eram anunciadores da chegada
do Meshiah, este galileu ousou ir além. Dizia-se o próprio filho encarnado de Yahweh. Espalhou-se
pela cidade, como fogo em palha seca, o escândalo que havia protagonizado nas
dependências do Beit Hamiqdash. Bradava que os comerciantes, cujo
trabalho sempre foi indispensável ao bom andamento dos korbanot[27][9],
eram todos ladrões e que estavam transformando a casa de Seu Pai num covil.
Relegou a condição inferior não só o Reino de Israel, mas Roma. Seu reino era
maior, era um reino muito mais importante, um reino de um mundo superior, o
Reino de Yahweh. E o mais grave, sua voz começava a ser ouvida.
Crescia em número e em importância seu séquito.
Os sacerdotes, herdeiros de Salomão, guardiães da Arca da Aliança, cimeira da hierarquia espiritual do povo hebreu,
estavam desassossegados. Herodes e Pilatos incomodaram-se. Logo puseram a
cabeça de Yeshua a prêmio, expediente sempre eficaz. Em algumas horas tinham
preso e subjugado o ousado galileu.
Ao cabo da semana, dezenas de execuções haviam tomado lugar nas colinas
fora dos muros da cidade. Yeshua entre ladrões, assassinos e blasfemos,
crucificado à moda romana. Dizem ter-lhe roubado o corpo, quem sabe para que
fim ritual.
Os festejos passaram, as confusões passaram, os prodígios passaram.
Passaram os profetas e os revolucionários. Passou Yeshua, o Meshiah galileu. Só
não passa Jerusalém, que voltou à calma habitual e o Templo de Salomão, que é
eterno, assim como o Império Romano.
Betty Vidigal
- Correto, mas não prende a
atenção. Nota 8.
Marco Antunes
- Interessante e inteligente, mas não
chega a empolgar! Nota: 9
Lorenza Costa – O último parágrafo é o melhor da crônica. O
restante sofre de didatismo em último grau, acentuado pelas notas de rodapé
explicativas - todas dispensáveis, hoje em dia, num texto que não seja
técnico. Pense numa crônica de jornal com nove notas de rodapé...
Nota: 7,8
Luci Afonso – O texto, muito bem fundamentado, dá uma visão
abrangente e crítica da época. Nota: 9
Oswaldo Pullen Parente - O excessivo uso de notas interrompe a
leitura, e compromete o entendimento. Texto sem maiores novidades. Nota: 7,5
Cida Sepúlveda julgará a partir da 3º etapa Nota:
Total: 41,3
[1] (sem vírgula – “quem não gostava de funk” é o sujeito e “não resistiu” é verbo... não se separam)
[2] Não se “desposa com” alguém; desposa-se alguém. Pode ser “pensava em casá-la com” ou “pensava em fazer com que desposasse algum” ou “pensava em fazê-la desposar um”...
[3] raridade: alguém que sabe conjugar no infinitivo!!!
[4] “Transeunte” não é uma palavra adequada, já que naquele momento eles não estão ‘transitando’.
[5] autor português?
[6] Brasileiros dizem “conscientizar”...
[7]
“respaldada, que está, no apoio incondicional” – Não sei dizer se isto é
correto,
[8] “por conta de” – em breve significará “por causa de”: todos os erros que são cometidos por muitas pessoas tornam-se forma correta em pouco tempo. Mas, por enquanto, “por conta” não tem esse significado. Você pode dizer corretamente que “as bebidas ficam por conta do Fulano”. Um coloquialismo nordestino diz que “Fulano ficou por conta”, significando que ficou zangado.
[9] é para ser assim mesmo??
[10] ... muitas possiblidades para corrigir a concordância desta frase.
[11] Seria melhor “me diseeram”. Falar e dizer não são sinônimos.
[12] dentro do contexto, deveria ser “esta”.
[13] deselegante começar começar uma frase com os pronomes oblíquos “o” e “a”. Não é coloquial e não é correto. Quando se usa uma construção não correta, tem de ser pelo menos coloquial.
[14] ou “Capital do mundo seria, caso as diferenças não formassem contra ela mesma uma faixa de Gaza.”, ou “Capital do mundo seria, caso as diferenças não a fizessem formar contra si mesma uma faixa de Gaza.”
[15] Não se fica ressabiado “de” alguma coisa, mas sim “por” alguma razão. No entanto, não bastaria dizer “ressabiados por mais um engodo”. Poderia ser “ressabiados por engodos anteriores”, ou qualquer coisa que desse esse sentido. Se o autor usasse “desconfiados”, seria preferível. Aí o “de” ficaria correto.
[16] Se o narrador não sabe que aquele nazareno é filho de Deus, não tem sentido usar maiúscula em “Ele”.
[18] é assim mesmo que você quer? no feminino? Inda se fosse o alemão falando... Mas, diante de autor tão erudito, não vou contestar.
[19] lugar-comum
[20] Melhor não começar uma frase com os pronomes “o, a, os, as”. Outros pronomes oblíquos, ok. Aqui, teria sido melhor “seguem-no”.