Segunda Semana

As notas de Betty Vidigal, por um problema de internet não chegaram a tempo e  não foram computadas, mas isso não alterara substancialmente o resultado.Abaixo publicamos os comentários.

Como dois candidatos enviaram o primeiro trabalho sob pseudônimo e o segundo com seus nomes, o WEBMASTER não os somou, estamos reparando agora, razão pela qual duas candidatas antes na zona de classificação estão, na verdade fora. Nossas desculpas pelo equívoco!

A Organização

 

TERCEIRO DESAFIO DOS ESCRITORES

 

Cronistas

PAÍS DO CONCORRENTE

E ESTADO

 

 

PRIMEIRO

DESAFIO

SEMANAL

SEGUNDO

DESAFIO

SEMANAL

TOTAL

3

Afonso Cruz

PORTUGAL

47,5

38,5

86,0

2

João Carlos B.Guimarães

PORTUGAL

48,0

36,5

84,5

4

Ana Luisa Faria

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

47,3

37,0

84,3

7

Joaquim Bispo

PORTUGAL

46,3

36,5

82,8

1

Rodrigo Fernandes

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

49

33,3

82,3

12

Cinthia Kriemler

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

44,8

36,7

81,5

17

Washington Dourado

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

43,8

36,8

80,6

10

Jurandir Araguaia.

BRASIL – GOIÁS

45,3

34,0

79,3

15

Luís Cláudio de Lima Nobre

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

44,0

34,5

78,5

5

Gerson Nagem Perrú

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

47,0

31,5

78,5

14

Kalinka Tavares Iaquinto

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

44,0

33,7

77,7

25

Ari Gurcz

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

41,3

35,2

76,5

16

Maria de Fátima M.Correia

PORTUGAL

43,8

32,2

76,0

8

Marcelo Azevedo Larroyed

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

45,5

30,5

76,0

18

Leo Borges

BRASIL – ESPÍRITO SANTO

43,5

32,3

75,8

13

André Cidade

BRASIL – SANTA CATARINA

44,3

31,5

75,8

6

Ivan Mizanzuk

BRASIL – PARANÁ

46,3

28,8

75,1

11

Ana Lúcia dos S.Nogueira

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

45,0

30,0

75,0

9

Eneida Coaracy

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

45,5

29,0

74,5

29

Carlos Alberto Pessoa Rosa

BRASIL – SÃO PAULO

39,5

34,0

73,5

20

Luís Miguel Vale F. Vale

PORTUGAL

43,0

30,5

73,5

24

Pablo Amaral Rebello

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

42,0

31,0

73,0

31

Antonio Paulo Pinheiro Lima

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

39,0

33,0

72,0

19

Liliane Neves de Souza

BRASIL – BAHIA

43,2

28,2

71,4

36

Aldmeriza Riker

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

37,0

33,7

70,7

43

Ricardo Vicente

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

40,0

30,7

70,7

23

Ana Marques

BRASIL – RIO DE JANEIRO

42,0

28,3

70,3

21

Simone Barbariz

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

42,3

28,0

70,3

32

Clemens Soares dos Santos

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

38,8

31

69,8

35

Roberto Klotz

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

38,0

30,8

68,8

30

Mauro A Madeira

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

39,3

29,5

68,8

28

Denis Reis

BRASIL – MINAS GERAIS

39,8

28,5

68,3

40

Soraia Maria Silva

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

36,0

29,5

65,5

37

Ana Miosótis

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

36,5

29,0

65,5

33

Giovani Iemini

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

38,5

26,0

64,5

38

Jeanne Maz

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

36,4

28,0

64,4

41

Eliz Pessoa

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

35,0

24,5

59,5

22

Luis Wagner M. A. Santos

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

42,3

 

42,3

26

Guido Heleno

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

40,0

 

40,0

34

Patrícia Stein T. Pacheco

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

38,5

 

38,5

39

Letícia Levenhagen

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

36,3

 

36,5

42

Helenice Paes Landim

BRASIL – DISTRITO FEDERAL

34,0

 

34,0

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os participantes no setor lilás do gráfico por não apresentarem os dois trabalhos estão fora da competição

 

O Costume do Humor

 

Nota da Organização:

Como já havíamos anunciado até em textos do julgamento do Primeiro Desafio, fomos e seremos absolutamente rigorosos a partir desta semana. Fomos obrigados a desclassificar alguns trabalhos por excesso de linhas, alguns porque a hora de postagem foi superior à definida em regulamento, uma desistência e um por já estar publicado na internet. O tema é bastante amplo, mas exige-se ineditismo no certame e, pressupõe-se, sempre, que o trabalho tenha sido produzido para o Desafio. Não vamos perder essa ilusão! Os concorrentes foram avisados da decisão.

Tantos problemas somados à realização do sarau de ontem e ao fato do provedor ter ficado fora doar por algumas horas provocaram o atraso na publicação.

 

 

Crônica 1:

 

A vingança do Sousa

 

 

 

Eram sete e meia da manhã quando ele abriu o e-mail e pipocaram onze mensagens da Glorinha. Onze. E era ainda terça-feira.

A Glorinha era daquelas pessoas que parece convencida de que amizade e amor se demonstram com Power Points e que bom humor a gente envia por spam. Quem tem uma amiga como a Glorinha sofre um bombardeio diário de mensagens divinas, lições de moral e piadas sem graça. Isso sem mencionar  os vídeos – ah, os vídeos! – e as “fotos mais incríveis do mundo”. Essas,  pelas contas do Sousa, já eram quinhentas e trinta e seis, incluindo quatrocentas e cinquenta e oito repetidas.

Com os onze e-mails daquela terça-feira fatídica, foi alcançada a soma impressionante de cento e noventa e seis  e-mails inúteis enviados por aquela bem intencionada criatura no ano de 2008 – e ainda estávamos em junho. Sim, o Sousa estava contando.  Ele não sabia bem com que finalidade, mas tinha resolvido montar uma planilha onde anotava, diariamente, os e-mails de Glorinha, desde as dezessete mensagens de votos para o ano novo recebidas nos seis primeiros dias de janeiro. Aquilo não podia ser normal.

O Sousa era um cara pacato. Boa praça, bom vizinho, bom funcionário, bom filho, educado,  prestativo e amistoso, o Sousa era um cara pacato. Botafoguense, tímido, classe média, o Sousa sempre fora pacato. Não se tem notícia de nenhum episódio em que o Sousa tenha perdido as estribeiras, nem nos tempos rebeldes de adolescência. Mas o Sousa estava visivelmente irritado. E essa irritação, que ele não conhecia, parecia abrir as fronteiras para um outro Sousa. E este novo homem se perguntava por que uma pessoa tortura um conhecido com Power points  de gosto duvidoso, poemas horríveis atribuídos a grandes escritores,  advertências ameaçadoras envolvendo cinemas, agulhas, drinks e rins retirados em banheiras – e tudo isso achando que está praticando o bem? O novo e nada pacato Sousa que emergia naquela manhã comum queria compreender o que move Os Repassadores,  esses seres sem rosto que estão dominando o planeta e torrando a paciência dos seres normais.

Levantou-se, afagou o cão, foi até a cozinha e ligou a cafeteira, colocou dois pães de forma na torradeira, voltou,  pegou o jornal na porta da sala, foi até  o escritório, sentou-se novamente diante do computador e, para sua surpresa, ainda estava irritado. Marcou as onze mensagens para deletar, mas não houve alívio. Ardia nele um sentimento estranho, uma agitação miúda e nova, misto de irritação, de inconformação e de sede de justiça. Aquilo precisava parar. O Sousa precisava dar um jeito. O novo Sousa podia.

Com os dedos frenéticos, digitou www.aquipodetudo.com e em segundos adentrava um mundo obscuro e novo onde se podia conhecer e testemunhar as mais inenarráveis bizarrices sexuais de que se tem notícia. Foram necessários menos de dez minutos para que ele encontrasse o vídeo perfeito, cujo enredo  envolvia uma mulher, um homem, fezes humanas e um cachorro, não necessariamente nessa ordem.

Deixou baixando o arquivo e retornou à cozinha, onde fez com calma o  desjejum e alimentou  Major. Em seguida, imbuído de uma calma perigosa, que em tudo destoava do olhar vidrado, voltou ao escritório, sentou-se diante do computador, verificou o tempo restante para o download e, experimentando uma satisfação indescritível, deu início à sua vingança. A primeira.

Muito serenamente, como quem planejara a maldade durante décadas, selecionou uma das mensagens da Glorinha  e decidiu responder:

Glorinha, minha safadinha,

Só ver seu nome na minha caixa postal já me deixa excitado. Não consigo esquecer nossa última ‘brincadeira’ –  para ser sincero, não paro de pensar nisso. Você é a mulher com quem me sinto livre para realizar todas as loucuras, porque você não é apenas a mais gostosa de todas, você é moderna, sem preconceitos nem frescuras.  Eu e Major estamos loucos para repetir a dose, estou pensando em marcar para quinta-feira no horário da sua caminhada, assim não teremos problemas com desculpas, o que você acha? Seu marido desconfiaria, nesse horário?

Não deixe de ver o vídeo que estou enviando para nos inspirar. Não é nada perto do que já fizemos – esse pessoal parece amador! *rs – mas serve para atiçar a lembrança e abrir o apetite. Da próxima vez, vou filmar nós três para poder matar a saudade depois.

Do seu taradinho ansioso,

Sousa”

O download estava concluído. Renomeou o arquivo com o nome de “Eu, você e Major”, anexou, selecionou a opção responder a todos e enviou. O engraçado é que o Sousa de verdade, o Sousa pacato era virgem e jamais conhecera Glorinha pessoalmente. Mas isso, claro, eram detalhes que os trinta e seis destinatários da mensagem não sabiam.

Tomou banho e saiu em seguida, perigosamente calmo, para comprar uma lanterna e uma corneta. Era o dia de estréia de Jornada nas Estrelas e o Sousa, o novo Sousa, decidira ir ao cinema atormentar um pouco os espectadores, só para variar. 

 

 

ANA LÚCIA NOGUEIRA

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Delícia de crônica!

10

Lorenza Costa

É um conto, não uma crônica.

6,0

Luci Afonso

Muito divertida esta crônica sobre a perigosa categoria dos repassadores.

 

9,5

Marco Antunes

A construção da personagem foi impecável, o humor é que me pareceu duvidoso, sinceramente, considero a tarefa cumprida, mas fui incapaz de me identificar com o Sousa e, na lógica do texto, essa catarse era essencial. Coprofilia?! Pelo amor de Deus! Isso devia ser engraçado? Em que planeta?

7,5

Oswaldo P.Parente

Cadê o resto? O autor cria um suspense que não é resolvido, e nos traz um pedaço de conto, em vez da crônica solicitada. No entanto, parece levar jeito, apesar de ter se atrapalhado por aqui...

7,0

Total

 

30

 

 

 

 

 

Crônica 2:

PelaBoca Morre o Peixe

A cuscuvilhice é o desporto favorito da plebe. como dantes a religião era o ópio do povo e o futebol é o xanax sem prescrição médica, falar da vida alheia é uma espécie de tónico revitalizante para as psiques mais simplórias.

A explicação é simples: as vidas que levamos são tão vazias que precisamos de as preencher de emoções com as emoções dos outros, dos que vivem mesmo.

No entanto, não terá a cuscuvilhice a mesma sorte que as sogras? de tão mal fadadas no geral pela cultura popular, que aquelas que são gente boa até têm vergonha dizer que o são. Haverá boa cuscuvilhice?

 

Se pusermos as coisas em perspectiva, histórica neste caso, e apreciarmos alguns eventos ao pormenor, veremos que a cuscuvilhice é das melhores amigas do Homem.

 

Se judas escariote não fosse uma maria bilhardeira, jesus não teria sido preso e crucificado, seriamos todos pecadores inveterados e não teríamos para onde ir quando morressemos. porque o céu e o inferno, e mesmo o limbo, os devemos a judas escariote e à sua propensão para dar à língua.

Agradeçamos também as férias da páscoa e as do natal e todos os feriados religiosos, essas perfeitas desculpas para apanhar bebedeiras gigantescas em família. Das poucas vezes que a família se senta à mesa toda junta e é, precisamente, para ingerir alcoól fermentado até ao estado de já não sei bem como é que me chamo mas acho muita graça a isto tudo.

Mais, se não fosse a cuscuvilhice, concerteza ninguém leria nada do que se escreve. A simples ideia de pegar num livro (ou numa revista do social…), abrir e começar a ver o que lá está dentro é cuscuvilhice. Estamos a vasculhar o cérebro de quem produziu aquilo que ali está. Mas não faz mal, agora chama-se “cultura”.

Se a vizinha de alguém não tivesse comentado com a vizinhança toda que o filho da vizinha dorme com homens, com certeza que não teria havido a união entre todos os interessados para exigir finalmente direitos iguais aos demais. Essa vizinha já se deve ter arrependido milhares de vezes do seu acto impensado pois agora, acrescidos do seu empodeiramento social, imaginem, a sua filha e o seu filho se assumiram gays. e o marido também.

E tudo graças à coscuvilhice, essa maltratada filha bastarda da oratória elitista.

 

 

JOÃO GUIMARÃES

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Algumas frases começam com minúscula, outras não, sem que pareça haver razão para isso.

Crônica meio curta, não? E bruscamente interrompida! Até que tava boa... mas não completou o pensamento.

8,5

Lorenza Costa

Dez pontos pelo senso de humor e menos meio pela revisão apressada.

9,5

Luci Afonso

Humor refinado, texto idem. Aprendi uma nova palavra.

9,0

Marco Antunes

Tarefa cumpridíssima nesta crônica quanto ao uso do humor para tocar nas inconveniências dos costumes, mas é justamente o seu humor que ainda carece de mais perspicácia e surpresa, pois a idéia não é original e, sendo assim, não causa aquela surpresa impactante que faz descobrir o humor.

8,0

Oswaldo P.Parente

Sem reparos.

10,0

Total

 

36,5

 

 

Crônica 3:

Remédio para mágoas

 

Remédio para mágoas profundas ou dessas mais banais. Mágoas, enfim, que serem elas fundas ou superficiais é coisa de cada um e mesmo porque as referidas tendem a mudar de um estádio a outro, consoante. Esta conversa não tem assim um propósito, que cada um sabe de si e, consta, algum deus sabe de todos. E nem sequer tem o propósito de dizer o que entendo por mágoas, pois que há quem as chame de desgostos e quem as confunda com raivas.

Nisto, como em muita coisa, cada um que tome do termo o que bem precise. Por mim, apenas gostava de deixar por escrito as mezinhas que tenho aprendido e me dão resultado. Que nisto da vida o preciso não é chorá-las que existem as danadas, mas debelá-las e nisso nada melhor que o bom o humor e um sorriso. Mas ainda acrescento, a modos que para que fique esclarecido de ao que venho e o que entendo. É que de mágoas há-as que se espalham como tinta em mata-borrão, que deixam uma mancha que desce abaixo do pescoço, espalha-se na zona dos pulmões, assesta-se sobre o coração e, nas piores alturas, investe nos intestinos podendo dar em diarreias. Mas não é este o aspecto mais frequente, que as mais das vezes, a mágoa é como uma larvazinha insidiosa caminhando em volta da nossa glote, a tornar o respirar mais perro e engasgando todo o mundo quando come ou bebe. Acontece, também, tomarem a forma de um duende brincando de abre e fecha torneiras, nos olhos da gente. Dos vários modos de elas se dizerem, há um que é verdadeiro sinal de alerta : dá-se então a mágoa em parecer-se com qualquer coisa bailando no de dentro da gente, assim como um dizer continuado: "não esqueças! olha o que vai acontecer!". Nestes casos, anda uma forma grave a instalar-se. Posto esta ressalva, vamos ao que de que se trata, que é a dita receita, ou várias, que, ainda mais em tempo de crise, pode fazer tanta falta.

Atente: Defume o ambiente em que elas medram com alecrim ou outra erva de bom cheiro. Lave seja o que seja, como pode ser o seu corpo ou toda a casa, com sabonete de algas e, se dá, use um toque de um perfume caro. Nada de demasias, umas gotas esparsas, mas coisa das químicas é precisa: mais fixadas as moléculas, mais escolhidas embalagens, os frascos mais seleccionados. Use fragrâncias etéreas sem olhar a preços.

Muito, mas mesmo muito importante: imprescindível é que a intervalos curtos, adoce as mágoas com um sorriso iluminado. Um sorriso seu que arraste a boca de uma a outra face. Nada de novo, nada de importante, mas feito de modo preciso, pensado no momento exacto em que, se soltaria, irreverente, uma lágrima. Deixe descansar com o sorriso bem aberto, por um momento. Não mais que o tempo exacto de afastar pensares. Você é quem melhor sabe quais. Caso duvide, aguarde. Sorria intermitente. Caso demore a localizar a causa, repita a dose. Pode demorar neste estado um dia ou mais. Entretanto, devore um doce, remédio também ele santo para o apaziguar de mágoas e ainda mais se mescladas com dores. Deve o doce ser bem açucarado, com amêndoa e fios de abóbora chila e muitos fios de ovos a cobrirem tudo. E baba de moça e leite condensado cozido em vapores. Coma devagar. Sugue, chupe, faça barulho, agarre o docinho escolhido entre os dentes e a língua e delicie-se. E enquanto isso, inale o perfume de um pauzinho de incenso que pode substituir, com o mesmo proveito, por casca de laranja seca num defumador.

Tome cuidado: O doce como lenitivo dura pouco. Melhor seria um maço de cigarros. Mas não aconselho, por razões várias entre elas porque faz mal ao corpo. E esse, minha amiga, não o deteriore mais porque ele faz isso sem a sua ajuda. Devore pois o doce, que se for na rua pode ser uma boa tablete de chocolate.

E não esqueça que está sempre sorrindo a enxotar aquela puta de mágoa. Melhor seria que não a tivesse, mas lhe garanto que este tratamento as dirime, as ensina a saberem viver de bem consigo. Vai ver, experimente. Continue lendo. Não disperse.

Proibido: esta receita, não se compadece com idas a shopings nem hipermercados, sejam eles Franceses, Suecos, ou Americanos. Qualquer que seja a nacionalidade, fuja deles! Que me perdoe algum tipo de mágoas que aí busca alívio, anda enganada, transviada, fora de seu juízo.

Mas não se meta em casa. Apanhe ar na cara. Caso os haja na terra, meta-se num eléctrico e corra a cidade de um a outro lado. À janela claro, a não ser que chova, mas então melhor será que meta nos pés umas botas, um impermeável e apanhe água durante uns bons quilómetros, E não esqueça que cada tratamento está sempre acompanhado de um sorriso largo. Na falta de eléctrico ou de chuva, vá para junto de um curso de água. De preferência o mar, mas pode ser um rio ou um lago. Uma piscina também serve, mas não é o ideal. Seria bem melhor que fosse ao cimo de um monte. E uma actividade que resulta sempre bem é o chamado ir ver as montras. Mas vá às lojas antigas. Aquelas em que se atravessa a rua e há carros e semáforos e até há chuva.  E para apaziguar uma grande mágoa nada melhor do que aquela compra… Mas tenha muito cuidado. Não se descuide que as mágoas adoram disfarçar-se em s vestidos caros e sobretudo malas e bijutaria.

Não confunda: Demasiadas vezes, as mágoas vêm em embalagens disfarçadas.

Sedosos embrulhos de papel de seda, muito fino, cor-de-rosa ou azul-bebé, contêm lá no fundo uma raiva.É bom que não confunda, mas adianto que é um sentimento pior que ácido a corroer metal. Muito pior que aqueles produtos de tirar nódoas em lençol ou blusa. Aconselho a nunca deixar entrar a criatura. Mas, caso não consiga, oiça o que lhe digo.

Nunca esqueça: A mágoa é sua. A raiva é de outra gente. Detecte a raiva a preceito. Invista nisso tempo. Elimine-a. Este modo não falha. Experimente. Pense alto, escreva ou grite ou cada um ou todos até que resulte: o filho da puta não me merece este sentimento que me faz doer aqui dentro. Rua! Vai ver que a raiva desiste.

Se ficar só com mágoas, deleite-se a tratá-las, verá que se habitua a conviver com elas. Passei-as no jardim pela tardinha e chore naquele recanto sossegado debaixo de uma tília. Depois, há-de o corpo parecer-lhe entorpecido e os olhos acidados. Não receie: a mágoa adormeceu. Nestes momentos, pegue um cineminha ou vá a um concerto, ou faça um varal com aquela máquina de roupa que há uns dias não lhe apetece.

Em desespero de causa, experimente a receita do bife à camassutra.**

Uma nota à margem: dizem que tomar umas cervejas ou outras bebidas com mais ou menos álcool, é remédio santo. Experimente. Eu não me dou bem. Mas se quiser, tente.

Imprescindível!! Tanto quanto o manter do sorriso!! Faça sexo… Faça muito sexo… Ou, na falta, invente!

** receita escrita em transparente no lado detrás desta página

 

 

 

MARIA DE FÁTIMA MARQUES CORREIA

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Interessante, original.

As marcas dizem respeito a trechos onde há vírgula de mais ou de menos.  Verbos no infinitivo depois de um “a” não devem ser flexionados.

9,5

Lorenza Costa

Para fazer jus ao estilo "reportagem com dicas infalíveis" da Revista Nova, a crônica está longa demais - em especial, a introdução.

 

9,0

Luci Afonso

Texto muito bom, mas faltou o humor pedido no Desafio. O final merece ser enxugado.

8,2

Marco Antunes

O humor tem um elemento cultural evidente e iniludível, o que vale dizer que com muita dificuldade um australiano, embora fale o mesmo idioma(ou aproximado) dificilmente rirá de uma boa anedota inglesa. Aqui, confesso-me no impasse de ter que ser justo como jurado e julgar, sendo brasileiro, um humor português: caráter tão intraduzível quanto a Poesia, pois embora operado sob o mesmo código, nossa amada Língua Portuguesa, estatela-se a diferença em nossa cara! Tento ser justo (ou saio pela tangente) humor e verborragia raramente andam juntos, excesso de racionalidade também não ajuda e tudo isso faz pesar o texto e mata o tempo do humor.

8,0

Oswaldo P.Parente

O autor foge ao tema, permanecendo em um texto morno, sem realces.

7,0

Total

 

32,2

 

 

Crônica 4:

O Espírito Mercedes

Há quem se queixe que os Mercedes nunca fazem piscas. Dizem que os condutores de carros desta marca são de extremas arrogância e sobranceria, as mesmas que os levaram a comprar um carro que pensam que os coloca acima das regras da estrada e das normas de cidadania, mesmo quando não passa de uma lata velha de marca, como se ela lhes conferisse um qualquer estatuto Mercedes. Dizem que têm desprezo pelos peões que esperam que o carrão passe, para atravessar a rua, e pelos automobilistas que, no cruzamento à frente, aguardam que o Mercedes passe, quando o condutor, afinal, vira antes. Que faz várias pessoas esperar em vão, embora ele já saiba que vira lá atrás. Fazer piscas é que não. Está acima dos seus princípios. Dizem que ignoram acintosamente os automobilistas que atrás deles têm que fazer travagens, guinadas apressadas ou perdem tempo sem razão. Que antes uma falência que fazer piscas.

 

Nada de mais errado. Os condutores de Mercedes são, duma maneira geral, pessoas com um alto sentido de cidadania. Fazem sempre piscas, cada vez que mudam de direcção, mesmo que não vejam peões ou automóveis atrás ou à frente de si. Tomam por princípio que, mesmo que não o estejam a ver, pode haver um peão ou um automobilista dependentes da sua trajectória e, em conformidade, accionam os piscas, exaustivamente, a cada curva mais acentuada. Essa é a sua postura cidadã, simplesmente, o sistema do carro não permite que os piscas sejam vistos no exterior. É um problema de estatuto assumido pela marca, há muitos anos. Cada Mercedes está equipado com um detector que foi programado com os dados biomédicos médios de um condutor de Mercedes. A antena do detector está alojada na estrela de três pontas inscrita num círculo, que constitui o símbolo da marca. Cada vez que o condutor dum Mercedes faz piscas, o detector analisa o sinal e, se a origem for um verdadeiro condutor de Mercedes, bloqueia a transmissão do sinal. É uma espécie de firewall para prevenir que um qualquer condutor desses carros pífios que por aí se arrastam se faça passar por um verdadeiro piloto de Mercedes. Sim, piloto é uma designação muito mais adequada a quem conduz uma dessas máquinas transcendentes.

Sabedores desta informação, se alguma vez virem um Mercedes a fazer piscas, tomem uma coisa como certa: o carro foi roubado. Não duvidem disso só pelo facto de verem um bronco ao volante. Também há ladrões de carros que têm esse ar. Mas aconselho a que não vão logo chamar a Polícia. É que o carro pode ter a firewall avariada.

 

Dizem que tudo começou com uma alteração que um mecânico habilidoso introduziu num Mercedes, a pedido do dono. Era um cliente que sentia o apelo do estatuto Mercedes e temia que uma distracção ao volante o levasse a mostrar consideração pelo próximo. Rapidamente, o exemplo foi seguido por centenas de outros condutores de Mercedes, até que a marca integrou essa novidade nos modelos seguintes, para os interessados, ou seja, todos. Outras marcas seguiram o exemplo da Mercedes e hoje é frequente ver carros de outras marcas a não fazer piscas, tanto que se chegou a falar em estatuto BMW e estatuto Audi. A propagação do fenómeno vulgarizou demasiado o termo estatuto, pelo que se escolheu uma designação que, na verdade, corresponde a outra realidade – o espírito Mercedes. Esta atitude pode ser adoptada por qualquer condutor, mesmo que não possua melhor máquina que um «carocha». É, também, o espírito do condutor de táxi que, embora pilotando um Mercedes, não tem, em geral, estatuto Mercedes. Socorre-se, então, do espírito Mercedes, não sinalizando a marcha, ultrapassando pela direita, queimando vermelhos, parando a um metro do passeio.

 

O estacionamento, aliás, é um dos melhores indicadores do espírito Mercedes: é este espírito que transforma qualquer rua duma cidade populosa, por mais larga que seja, numa via de faixa única; percebe-se, quando um condutor estaciona a ocupar três lugares; adivinha-se, quando vemos vazios os lugares de estacionamento pago e cheios os passeios contíguos; sente-se, quando, após esperarmos uma hora com o carro «trancado» ouvimos o piloto informar que «estava ali no café!», como quem diz: «porque é que não me foi chamar?». É então que nos apercebemos que o espírito Mercedes está amplamente disseminado e estrutura toda a nossa sociedade. Esta é fundada na liberdade. Ocupar dois ou três lugares num estacionamento com linhas marcadas no chão é, não só, evitar fazer amolgadelas nos carros alheios com as suas portas, mas, sobretudo, afirmar uma independência em relação às regras da sociedade que, não sofismemos, são limites à liberdade de cada um.

Eu penso que é este o espírito que deve nortear a sociedade ocidental. Não faria sentido que o mercado auto-regulado incentivasse todas as formas de individualismo e, depois, viesse aconselhar um detentor de espírito Mercedes a deixar passar a ambulância ou a informar o coxo, por meio de piscas, que caminho o seu carro vai tomar. Seria reconhecer a existência do outro, que ele pode ter direitos e, pior que tudo, seria aceitar a vida colectiva. Isso seria intolerável.

Se querem piscas, inventem um automatismo que permita que o carro os faça automaticamente, assim como acende os «stops» quando trava. Até lá, cultivemos o espírito Mercedes!

 

 

 

JOAQUIM LOPES

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Excelente

10

Lorenza Costa

Poderia terminar em "É que o carro pode ter a firewall avariada"; perder a oportunidade ideal de encerrar um texto constitui crime de lesa-leitor e normalmente é motivo para nota 8, mas o que vem depois continua tão bom que não há como deixar de perdoar o cronista. 

 

10,0

Luci Afonso

A ironia é empregada com brilhantismo nesta crônica. Adorei a expressão “fazer piscas”!           

9,5

Marco Antunes

Interessante e cômico o achado do “Espírito Mercedes”. Aliás, quero testemunhar que, nas vezes em que andei por estradas portuguesas pude testemunhar que essa preferência nacional portuguesa dos esnobes, a Mercedes, de fato costuma ser guiadas por tipos nada cidadãos! Ainda não é aquele humor arrebatador, mas é muito bom!

9,0

Oswaldo P.Parente

Há um humor implícito no linguajar do patrício que lhe dá duas cabeças de vantagem. No entanto, o texto não evolui muito e, em alguns trechos, se torna cansativo

8,0

Total

 

36,5

 

 

Crônica 5:Um Talento Único

 

 

Na corte do Príncipe se encontrarão todos os vícios e defeitos da humanidade. A começar pelo próprio. O Príncipe não tem talentos, nenhum que valha a pena mencionar pelo menos, mas todos os dias, ao acordar, conseguia achar um sinal de que era um governante habilidoso e abençoado.            

Seu primeiro ministro o odiava. Não começou como uma questão pessoal, o ministro apenas considerava o homem um inútil, um desleixado e um preguiçoso, incapaz de governar. Uma besta, em suma. Quando ouvia a voz do Príncipe, de manhã, chegando ao salão de Conselho, dando ordens, pensando em voz alta, falando sobre seus méritos, o ministro se esforçava para não comer seu chapéu. Pensava constantemente em como o principado estaria bem servido com ele no comando, e tramava contra o Príncipe, ainda que não tivesse realmente coragem de fazer nada.

O secretário do ministro era covarde e ambicioso. Nascera numa pequena vila, no interior do principado, e logo viu que era melhor que os camponeses de sua terra, simplórios e parvos, todos eles. Saiu de sua terra e foi para a capital onde, através de maquinações e esquemas, conseguiu duas coisas. Primeiro, conseguiu ser admitido na burocracia da corte. Segundo, e mais importante, aprendeu que era melhor não apenas que os camponeses de sua terra, mas de todo a pátria. Era a mente mais brilhante do principado, e todo dia, ao encontrar o ministro, e ao ver o Príncipe, o secretário reclamava para si mesmo da injustiça e da cegueira do destino, que impedia que gênios como ele governassem a terra, e permitia que  homens sem escrúpulos estivessem no comando. Um erro.

O serviçal, em quem até o secretário mandava, tinha inveja. Queria estar no lugar do príncipe, do ministro, ou até no lugar do mais baixo dos nobres. Não era movido por idéias nobres, não pensava que sua pátria e seu povo estariam melhor servidos se estivesse no comando pois, no fundo, mal imaginava o que faziam (ou deveriam fazer) aqueles que estavam no poder. O serviçal tinha inveja, e era isso. Tinha inveja das mulheres, do luxo, da mordomia, do prestígio, do dinheiro, do poder. E tinha desprezo pelo secretário, o qual era, em sua opinião, moleirão e sem vigor.

Dentre aqueles para quem o serviçal repassava as ordens de cima estava o cozinheiro. O cozinheiro odiava o serviçal, porque este era arrogante e se tinha em alta conta, enquanto que o cozinheiro o tinha por alguém sem personalidade e sem méritos. O odiava porque o serviçal devia, como parte de suas funções, subir até a sala do Conselho, entrar nos domínios do ministro e do Príncipe, estar entre os enviados de outros reinos, entre o poder e a glória. Enquanto que ele, o cozinheiro, devia, como parte de suas funções, ficar no porão da cozinha o tempo inteiro, permanecer engordurado e sujo o tempo todo, respirar o ar engarrafado e quente, suar como um porco e estar na companhia dos rabanetes, dos temperos e do barulho.

O assistente do cozinheiro era depressivo e inútil. Não gostava do fato de que era ele, e não o cozinheiro, quem tinha que queimar as mãos ocasionalmente no fogão. Também não gostava de sair da cozinha e ter de ir tratar com os brutos do mercado, e não gostava das receitas do cozinheiro. Mas não tinha ódio, nem inveja, nem era arrogante. Era, isso sim, acomodado e preguiçoso. Não queria fazer nada para progredir, nem queria impressionar ninguém, nem queria bajular ninguém. Na verdade, não queria fazer nada, não tenho certeza que queria acordar todo dia.

E qualquer um que trabalhasse no castelo, ou na corte, era invejado pelos de fora. E qualquer que morasse na capital era odiado pelos de fora. Os nobres não gostavam dos ricos, e os pobres não gostavam dos nobres. E assim é a corte do Príncipe, onde todos se pensam melhores que os outros, todos se pensam mais capazes, melhores. Uma terra onde o cozinheiro pensa que pode governar o país, e onde nem o assistente de cozinha quer ter que ir na despensa.

Nesta minha terra onde todos pensam demais de si mesmos, ou são preguiçosos. Onde todo mundo tem uma ambição irrefreável, ou uma inveja irresistível. Às vezes penso que nesta minha terra o único com bom senso, direção e controle sou eu. Quem mais há, que entre tão profundamente na alma de meu povo? Quem mais o entende tão bem? Quem mais é capaz de apontar as causas e as soluções para nossos problemas?

Mas é claro, não há quem me ouça nesse principado. Os professores da universidade são parvos, gulosos, desinteressados e ambiciosos. Não merecem o posto que ocupam. Jamais me ouviriam, e não quero servir uma instituição falida e corrupta. Não tenho paciência para bajular o serviço público, uma instituição controlada pelos nobres e sem compromissos reais. Não há ninguém que me coloque como conselheiro do Príncipe, e não sou do tipo que se rebaixa. Sou único, e especial demais para esses caminhos comuns

Assim é que minha pátria está perdida nas mãos dos arrogantes, dos pedantes, dos ambiciosos e dos preguiçosos, que querem o caminho fácil e os privilégios. Meus inestimáveis serviços estão destinados permanecer anônimos.

 

 

 

ANDRÉ CIDADE

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Bom

9

Lorenza Costa

Repetitiva por natureza, se esta crônica fosse mais enxuta conseguiria melhor efeito, porque o leitor não teria tempo nem de se cansar, nem de prever o final.

 

8,5

Luci Afonso

Curiosa construção do texto. Pequena revisão ortográfica e gramatical.

9,0

Marco Antunes

Uma parábola pobre, uma fábula óbvia, um humor tão previsível que parece adiantar a piada!

7,5

Oswaldo P.Parente

Muito distante de uma crônica, em um texto cansativo em que o tema proposto não é tocado.

6,5

Total

 

31,5

 

 

Crônica 6:

Parecências

 

O ser Para-si e o ser Em-si são bem parecidos. Descobri isso hoje quando levei uma fechada no trânsito e tive vontade de xingar todos os santos do Ser-Que-Me-Fechou. Feladamãe. Não esqueço nunca das fechadas no trânsito e desconfio que isso de se refletir na minha conta de débitos e créditos cármicos para todo o sempre amém.. Sirvo-me da Palavra Que Liberta, em ocasiões como essa: FODA-SE! E do que mais me esqueço é de Sartre, com sua complicada teoria sobre o eu e o outro (um jeito simples de dizer ser Para-si e ser-Em-Si)

Acontece que num desses dias a teoria do filósofo francês deu o ar da graça em minha vida. Eu ia pela estrada afora bem sozinha (que nem a Chapeuzinho Vermelho), quando, por obra do Destino, eu fecho um cidadão que estava passeando com a família. (Sim, dessa vez era eu que estava errada). Por pouco os carros não batem. E na frente de suas três crianças, esse mesmo cidadão diz, com toda a força dos pulmões: Vá te catar, lavadeira!...Eu juro, mas juro por tudo quanto é santo no mundo, que eu não ia dar atenção. Afinal de contas, esse negócio de xingar, para dar certo mesmo, para que a humanidade continue xingando livremente, tem que ser um troço unilateral. Em outras palavras: aquele que foi xingado deve ignorar o xingamento. Senão, dá briga. Aí o negócio complica. O problema é que dessa vez o cara me chamou de lavadeira, que é o típico xingamento machista de quem não consegue admitir que mulheres também dão belas fechadas no trânsito. Meu sangue subiu. Parei o carro e comecei a berrar: Lavadeira é sua mãe, seu porco! Vai aprender a lavar a boca com ela, idiota! As crianças continuavam olhando. “Lavadeira, sim, senhora, não conhece regra de trânsito não, sua imbecil?” Mais algumas amabilidades trocadas e o trânsito parava. “Sua anta, por que você não vai para a puta que te pariu, seu barbeiro?” Um pouco mais de nomes feios e uma pequena aglomeração se formava na calçada. Agora, as mulheres tomavam minhas dores, ficavam do meu lado: “Seu machista, porco, escroto”. Os homens, é claro, se armavam do lado do pai de família que dirigia o carro. “Volta para casa lavar roupa, dona.”,,, Aos poucos, aquilo virou um pandemônio.

De repente, um grito desesperado destoa do xingatório: “A meninaaaaa”. Todos se voltam para a mulher que esguelava no meio da rua, apontando para o capô do meu carro. Lá, uma das filhas do cidadão com quem eu brigava, estava de pé. Miúda, a menina não devia ter mais que cinco anos de idade. Tinha uma chupeta na boca e carregava uma bonequinha surrada nos braços. Notou que as atenções se fixavam nela e, calmamente, percebendo que era o momento de falar, disse docemente: “Moça, você quase bateu no carro do papai. Vai tomar no cu.”

Um silêncio culpado tomou conta de todos, de mim principalmente. O pai da menina veio me pedir desculpas e eu acabei fazendo o mesmo com ele. Estávamos todos meio sem-graça, a multidão se dispersava, o trânsito voltava a fluir. Quando entrei novamente no carro, ainda vi a menininha ainda com a expressão serena me dar um tchauzinho inocente, como se nada tivesse dito de mal. A bonequinha que ela segurava nos braços se parecia bem comigo quando criança. Nem preciso dizer que odeio Sartre e que o ser Em-Si e o ser Para-si naquele dia se esvaíram e foram, os dois, fazer um troço que uma menininha de cinco anos mandou.

 

 

ANA FARIA

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Divertida

10

Lorenza Costa

Praticamente irrepreensível, mexe com o leitor para além das piadas. Tive a má idéia de ler no trabalho e fui obrigada a imprimir para as colegas saberem de que eu estava rindo.

10,0

Luci Afonso

Muito engraçado este “barraco” no trânsito! Só está sobrando “que nem a Chapeuzinho Vermelho”.

 

9,5

Marco Antunes

O palavrão, como recurso humorístico, tem seu lugar, mas dosagem é fundamental. O recurso de o colocar nos lábios da criança (às vezes da honorável velhinha) não é original. Interessante aqui foi o contraponto com a filosofia.

8,5

Oswaldo P.Parente

Mantém a atenção todo o tempo. A candidez da assertiva da pequena menina surpreende o leitor. Perde um pouco no último parágrafo, além do hermetismo do “ser-em-si”, etc... É só trocar o finalzinho que a crônica fica ótima. Deixar mais clara a questão do Sartre também não vai fazer mal.

9,0

Total

 

37

 

 

Crônica 7:O Doce Cotidiano

 

            O leitor pomposo que me perdoe, mas eu gosto das coisas pequenas. Tenho plena consciência de que tal frase, ao sair da minha boca (ou pena, ou teclado) é perigosa. Se ouvida por algum fanfarrão de primeira, é um convite para ser “zoado”, como diz a gurizada por aí. Conotação sexual implícita, não intencional, contudo consciente, proporcionando tal possibilidade. Não me importo. Repito: gosto das coisas pequenas. Amo o doce cotidiano.

            Há algo de Bloom, o Ulisses joyceano, nessa minha afirmação. Isso porque não há grandes narrativas, epopéias ou odisséias propriamente ditas. A genialidade e beleza do estilo de Joyce nesta obra foi justamente conseguir transformar o banal em extraordinário. Difícil arte. Mas, quando bem executada, torna-se ouro.

            É um labor alquímico, alguém poderia dizer, ver o cotidiano, o banal, o comum, como fonte de sabedoria e beleza. Muitos têm preconceito disso tudo. Acho que têm medo. Medo bobo, infantil, como pelo escuro e o trovão. Mas ora, quantos adultos não conhecemos que ainda têm pavor dessas coisas? Por que não os mandam crescer? Aliás, crescer pra quê? Nada mais natural temermos certas coisas bobas.

            Ah, o doce cotidiano! “Afinal, o que é isso exatamente?”, o leitor pode acabar se perguntando. A resposta: é saber que o cobrador de seu ônibus teve um primeiro amor. Que ele foi criança, adolescente, e que, em alguma dessas fases, ele perdeu noites de sono. Chorou por alguém. Depois se recuperou, deu a volta por cima. Teve um pai e uma mãe, que passaram pelas mesmas situações. Todos riram, choraram, sofreram, deram voltas por cima algumas vezes e outras vezes se perderam. O doce cotidiano é o desenvolvimento de um sentido, de uma percepção mais clara do profundo universo que existe em cada homem e mulher. “Todo homem e toda mulher é uma estrela”, dizia o mago Aleister Crowley, inspiração para Raul Seixas. É saber que todos morrem, e que as coisas pequenas valem a pena; que o ticket guardado do primeiro cinema, do primeiro encontro, do primeiro toque, do primeiro beijo, vale tanto que não pode ser vendido por preço algum. Acima de tudo, é saber que essa mesma pessoa que foi seu primeiro amor, seu primeiro inimigo, o desconhecido do dia-a-dia, todos eles, sem exceção, amam, sofrem, sonham, transam, sentem dor e cagam.

            Sim, todos cagam.

            Que jogue a primeira pedra quem nunca passou por situações embaraçosas por causa dessa função corporal tão mal-vista em nossa cultura. Não tenho dúvidas: os casais recém-formados são os que mais sofrem. O que fazer quando a vontade de ir ao banheiro bate? O que falar para o parceiro/parceira? “Amor, vou no banheiro e vou demorar um pouquinho”? Não, não dá.

            E digamos que a vontade era tão grande que não havia solução senão realmente ir ao banheiro. Educadamente, o jovem de 16 anos, enfrentando a ira do recém-conhecido sogro (que visa proteger de sua princesinha o máximo possível de máquinas de esperma e bombas de hormônio ambulantes, como o jovem namorado obviamente aparenta ser), de modo mais discreto possível, finalmente vai ao banheiro. Imaginem o número de possibilidades embaraçosas que estão aí implícitas!

            Voltando ao jovem namorado, cheio de hormônios, maltratado pelo novo sogro (não é à toa que “ogro” está dentro da palavra), durante seu ato de alívio na situação um tanto desconfortável, começa a pensar se não está demorando demais no banheiro. Começam os pensamentos, “será que estão comentando minha demora? Será que estão notando? Aposto que estão à porta, me esperando, o sogro com seu olhar reprovador. Vai querer entrar aqui logo depois de mim, cheirar o ambiente, ver se não sujei a privada”.

            Levanta-se correndo, sobe as calças. Acontece o que mais se temia: a descarga não funciona. Se o leitor já passeou pelo livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, há de concordar comigo que tal situação é típica de um desafio heróico. Jung devia ter escrito sobre isso, o “arquétipo da descarga com defeito”, de tão comum que essa situação é. Eleva-se da condição de simples situação ordinária e passa a ser uma prova de iniciação. Há um sentido místico na descarga que não funciona na casa do sogro.

            “O que fazer?”, pensa o jovem. Ele aperta a descarga, mas a água não vem. Não há baldes por perto.

            Pela primeira vez em anos, ele reza.

            Tenta a descarga novamente. Eis que é atendido em sua prece - a descarga funciona! Mas, para novo desespero, ela não teve força suficiente para levar todos os dejetos. O jovem, a bomba de hormônios ambulante, aquele que se sentia tão importante na escola com os amigos, o ídolo das meninas da oitava série, artilheiro do time da escola, chora. A merda não quer ir embora.

            Aperta a descarga de novo. A água não vem. Ouve-se um barulho: é a caixa d’água enchendo. “Há esperança!”, pensa. Mas a espera é angustiante. Os segundos se arrastam a ritmos moluscóides.

            Mais pensamentos ruins: “será que ouviram a descarga? Ora, é claro que ouviram! Devem estar esperando do lado de fora, sem dúvidas! Devem estar se perguntado ‘por que diabos ele não sai logo? Ele já deu a descarga!’”. Mais segundos se arrastam, e a caixa nunca enche. Nosso jovem herói cagão está desesperado.

            Eis que o pior acontece: alguém tenta abrir a porta. A maçaneta girou, a porta estava trancada. Não há palavras ditas. O jovem prende a respiração. Acha que assim vai ficar invisível. Logo percebe que não ficará invisível – nem ele, nem a merda.

            A caixa enche. Dá-se a descarga. A merda finalmente vai embora.

            Nosso herói sai triunfante do banheiro.

            O sogro entrou logo em seguida, sem o jovem ver. Mais tarde, comentou com a esposa que o novo namorado de sua filhinha é um cagão. O jovem nunca soube de nada disso. Até hoje, alguns anos após a filha continuar namorando aquela máquina de produção de esperma, ainda existem as piadas internas. Mas o cagão e a princesa estão felizes juntos, e é isso que importa.

            Se você já passou por situação parecida, ou conhece alguém que calçou tais sapatos, a ponto de um leve sorriso apontar no canto de sua boca, diga-me sinceramente: é ou não é o doce cotidiano a poesia do dia-a-dia? Glórias aos heróis cagões que somos!

           

(Nota: o cronista pede desculpas aos leitores. Ele é um fanfarrão. Tentou enganá-los, fazendo-os pensar que esta seria uma crônica digna de se escrever em um power point, com alguma música do Kenny G de fundo, possibilitando assim o envio para suas tias-avós e “aquele lado mais sentimental da família”. Obviamente, não foi o caso)

 

 

IVAN MIZANZUK

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Meio forçando a barra... Situação explorada em inúmeras comédias estadunidenses de censura livre, feitas para adolescentes. Algumas frases não se completam. Longo para crônica.

7

Lorenza Costa

Incomoda no começo pelo estilo Martha-Medeiros-com-lição-de-moral-grátis (não adianta se desculpar nem remediar em nota final: se a incomodação era intencional, isso tinha de estar claro durante, e não depois do texto). A transição, para funcionar, exige um leitor com um senso de humor muito específico, disposto a sorrir à mera menção do verbo "cagar". Isso lembrou o filme "Porky's", da minha adolescência. Nada bom.

 

7,5

Luci Afonso

A crônica parece se dividir em duas partes inconciliáveis. A situação é engraçada, mas o autor não consegue transmitir humor no texto, que às vezes se torna muito explicativo. A observação entre parênteses está sobrando.

 

7,8

Marco Antunes

Labor é? Essa é uma palavra tão esquisita quanto o tal lábaro em “o lábaro que ostentas estrelado” de nosso, dizem os ingleses, belíssimo hino nacional. Outra palavra que causa implicância neste crítico é a palavra “cagar” e derivadas. Irregular, sem unidade, ritmo indefinido!

7,0

Oswaldo P.Parente

Escatológico e lugar comum. Não agrada.

6,5

Total

 

28,8

 

 

Crônica 8:

Casa de ferreiro, espeto de pau.

 

É de minha autoria a frase que diz que o humor é um malabarista. E sei bem por que. De um lado estamos nós, os artistas mambembes e do outro, a bolinha colorida das ações. Este relato que segue aconteceu na Bahia, na praia de Itapoan, num domingo à tarde...

Num Fiat Uno apertado, pé duro como costumamos falar, estávamos eu, minha amiga Larissa, seu pai e seu tio. Ainda era cedinho e o carro sem ar condicionado ou vidro elétrico – que por conta disso também era adjetivado de academia a quatro rodas, por ser sauna e aparelho de musculação ao mesmo tempo - sacolejava ao som de É o Tchan, estilo musical muito apreciado pelos coroas do carro, mas que eu e minha amiga costumamos torcer o nariz. Após um longo percurso do Rio Vermelho até a dita praia, saltamos do carro morrendo de sede e sujas de farelo da empada de frango que o pai de Larissa insistia em levar a cada ida a barraca do Luciano, da qual era sócio e assíduo freqüentador.

Como de costume, sentamos numa mesa perto da beira da praia, escoltados por um garçom baixinho que trajava a veste de marinheiro e era carinhosamente apelidado pelo tio de Larissa, seu Eliomar, de Popeye. A conversa não era das mais cultas, porém era interessante. Eles estavam a ironizar ditados populares.

-Ás vezes é melhor ficar quieto e deixar que pensem que você é um idiota do que abrir a boca e não deixar nenhuma dúvida! – Dizia, entre risos, o Eliomar.

-Essa foi boa, Elinho, mas tome cuidado, pois de pensar morreu um burro!!! – Replicava, entre tosses de engasgo, Seu Elias, o pai da minha amiga.

-Cuidado com essa tosse, Elias, meu cachorro morreu assim!

E desse modo foi passando a manhã: com um zombando do outro. Eu e minha amiga conversávamos os nossos assuntos e por vezes riamos da figura dos dois ali na praia. Ambos gordinhos e com barriga de chope, era difícil eleger o mais engraçado. Enquanto um usava uma sunga vermelha, azul e branca que era quase engolida pelas dobras da barriga, o outro estava de sunga preta e uma blusa de típica do artesanato de Pernambuco. Um tubarão mostrando os dentes. Na frente estava escrito: Fui a Recife. Nas costas: E voltei...

 Por volta do meio dia apareceu uma figura emblemática na praia que foi o estopim da confusão do dia. Era uma mulher bem gordinha, que usava um maiô azul-escuro, devia ter uma idade em torno de 37 anos e estava acompanhada de cinco rapazes provavelmente da mesma idade que ela.

Sentaram-se como nós em uma mesa próxima à beira-mar e pediram uma rodada de cervejas. Assim que ela tirou a canga e foi dar um mergulho no mar, eu e Larissa nos entreolhamos, lá vinha um comentário.

-Ih, rapaz! – Exclamou Eliomar – Lá vem Free Willy.

-Então vamos chegar para trás que agora o nível do mar aumenta... – Replicou Elias.

A moça dava mergulhos, pegava jacaré, enfim, se esbaldava na beira da praia. Nossos companheiros não se agüentavam:

-Vai encalhar! Vai encalhar! – gargalhava um.

-Chama o reboque, pega o guindaste! – Gritava o outro.

Nesse momento passou uma linda negra que usava um biquíni vermelho mínimo, que não escapou ao crivo dos nossos críticos espectadores:

-Parece uma coca-cola, assim de vermelho...

-Não fala isso não, meu pai, que você também é preto e usando essa sunguinha azul, vermelha e branca, se não for coca-cola passa muito bem por Pepsi. – Falou Larissa. Todo mundo riu, mas o assunto – eles implicaram – continuou sendo a gordinha no mar.

Isso não se faz, meu tio – disse eu – Vocês também são gordinhos, nada podem falar. Isso é muita hipocrisia. Falar da vida dos outros, por sinal, é um péssimo costume social. As pessoas acham banal, mas é grave, gravíssimo! Julgam sem saber do que falam, fazem chacotas sem se importar com o sentimento alheio... Não gosto disso e não concordo com a atitude de vocês. Não adiantou falar. Eles nem me deram ouvidos. E quando não chamavam “Popeye” para servir mais um chope, quando não davam uma mordida da empada de frango ou ralhavam em cima deles próprios, a gordinha era o alvo de todo o bafafá.

Foi quando, inesperadamente, a gordinha olhou em nossa direção e devagar saiu da água. Meu coração veio à boca e por alguns instantes eu ainda tinha a esperança que ela fosse sentar na sua mesa. Mas não. Ela calmamente andava em nossa direção. Os coroas perceberam e ficaram sério. Quando ela chegou, minha amiga já estava quase entrando por debaixo da mesa.

Ela olhou para todos, seus olhos pareciam duas lanças de afiado corte.

-Vocês sabem quem eu sou? – Perguntou – Respeito é bom e eu gosto!

-Oxente, senhora? O que foi que nós fizemos? – Retrucou, sem graça, Eliomar.

--Vocês pensam que sou burra é? Acham que eu não estava ouvindo os comentários ridículos de vocês dizendo que eu ia encalhar? Eu ouvi bem!

-Não, minha senhora – Pensou rápido o Elias – Eu estava falando do tubarão! – E apontou para a camisa de Eliomar.

-É, minha senhora, é o tubarão que encalhou lá em Recife, não sabe? O tubarão, aqui, ó.

Minha amiga não conteve o riso. Ninguém da mesa e ao redor. A gordinha ainda reclamou bastante, mas aquela história do tubarão foi mesmo um estouro. Não demorou muito e o clima ficou sem graça para continuarmos na praia. Viemos embora para a casa. Houve outras idas à praia e a chacota – infelizmente - nunca deixou de existir, mas depois desta vez, eles não falaram tão alto dos banhistas que por lá passaram.

 

 

LILIANE NEVES

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Final chocho. E afinal quem era a moça? Quando alguém pergunta “vocês sabem quem eu sou?”, em geral espera-se alguma revelação bombástica depois.

6

Lorenza Costa

O problema com esta crônica não é incomum: parece que ela relata um caso verdadeiro, que deve ter sido muito engraçado quando aconteceu. Por isso, o autor optou por contá-lo em seus mínimos e realísticos detalhes, acabando com a graça. Nada mais antipático e pretensioso que esse cronista que faz questão de contar no jornal como passou um pito politicamente correto nos dois debochados, e como o constrangimento teria sido evitado se ele, a voz da razão, não tivesse encontrado ouvidos moucos. Mesmo que a coisa tenha se passado assim, não é assim que se conta.

7,5

Luci Afonso

O humor não funciona nesta narrativa. Revisão ortográfica e gramatical.

 

7,2

Marco Antunes

Itapoã! Autor, um justíssimo puxão de orelha: como pode nem ir sequer ao Google procurar a grafia e ainda optar por esse esdrúxulo “n” ao final de palavra tão indígena? Frases como “nada podem falar” são inimigas mortais do humor (e assassinas da Poesia) pois são inverossímeis, ninguém fala assim no Brasil, resulta em rejeição imediata do plausível e o humor vai pra Recife e lá fica! “Duas lanças de afiado corte” eu vou me poupar de comentar! O desfecho é infantil e pobre.

7,0

Oswaldo P.Parente

Como diz a própria autora, é um relato, longe, portanto, da crônica.

6,5

Total

 

28,2

 

 

Crônica 9:

No Chão

Fidalgos, filhas, esposas, sogras e amantes d’algo, pilhados todos a pilhar os cofres públicos, a correr mundo às custas da Viúva. Por certo que os parlamentares não podem ser responsabilizados por esses desvios. Afinal, que fazer com as dezenas de passagens aéreas que os obrigam a receber anualmente? Deveriam, por acaso, usar todas para sair de Brasília, a viajar Brasil afora? E suas obrigações parlamentares, como ficariam com tanta ausência?!  Deveriam transportar seus currais eleitorais para a capital? Isso seria indecoroso. Não, senhores cabos eleitorais, por mais impopular que se mostre a medida, nossos políticos acertam em negar-lhes esta mordomia. Já a família... Não se pode pretender que a esta seja negada a possibilidade de conviver com o seu membro amado, até porque, parte indissolúvel e indispensável do próprio mandato. Se os familiares estarão comungando em seu estado natal, em Brasília, em terras européias ou norteamericanas, isso é irrelevante.

Não, senhores, nossos políticos estão inocentes. Nem mesmo o sistema político brasileiro pode ser responsabilizado, como não o pode ser a cultura política do povo brasileiro. O grande culpado por propiciar esses desvios e por outras mazelas muito mais graves é o senhor Santos Dumont. Capetas do vale devem ter encostado no pobre mineiro perturbado e incutido essa infame idéia de que o homem podia voar.

Poder, podia. Mas não devia. Essa história de voação é um anátema. Está por traz das maiores desgraças da história da humanidade. Antes, as guerras eram travadas em território restrito. Um monte de coitados liderados por celerados de um lado, uns animais comandados por mentecaptos do outro e brigavam até que um dos lados desistisse ou desaparecesse. Os sobreviventes voltavam para casa com remorsos, transtornos de adaptação que os acompanhavam por toda uma vida, convictos de haverem cumprido seu dever – sofrer pelo bem comum – e de que a guerra é um mal a ser evitado. Depois da tal da invenção, os mentecaptos não veem as caras dos celerados, os animais não conhecem os uniformes dos coitados e é muito mais fácil matar famílias inteiras e voltar para comer um BigMac no jantar. 

Haveria pandemias instantâneas de gripe aviária ou suína sem essa invenção do capeta? Antes as doenças levavam meses para se espalhar pelo mundo. Com frequência ficavam restritas a algumas regiões. Mas não. Tinham que se meter a botar asa nesse povo... Haveria Hiroshima, sem avião? Onze de setembro? Desastres da Gol e da Tam? Barrinha de Cereal com coca-cola?

Tem coisa pior que barrinha de cereal com coca-cola? Quando anunciaram que uma tal empresa aérea brasileira passaria a ter voos internacionais, fiquei imaginando como seriam as refeições ao longo da viagem... Um quilo de barrinha de cereal e uma coca-cola de 2,5 litros pra cada passageiro.  As equipes de engenheiros da Boeing e da Airbus desesperadas para refazer os cálculos: a pressão interna da cabina aumentaria vertiginosamente “Não vai dar, não vai dar!” gritaria o engenheiro chefe. Os purificadores de ar não aguentariam, as aeromoças fariam greve para ganhar adicional de insalubridade. Máscaras contra gases seriam acomodadas nos bolsos da frente, junto com o sick bag. O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos soltaria logo uma nota oficial classificando como ato de terrorismo a aproximação dessas aeronaves do espaço aéreo a norte do equador: ”armas químicas são consideradas ilegais, até pelo presidente Bush” diria o comunicado.

Não que eu tenha medo de voar. Nem tenho medo de avião, desde que esteja pousado. Só me causa algum desconforto a idéia de cair o avião comigo dentro. Fomos feitos para o chão. O máximo admissível é um salto com vara e, mesmo assim, porque tem um colchão enorme do outro lado. Tem uma equipe da ANAC correndo embaixo de cada voo com um colchão daqueles? E o pior é que nem desfarçam. A primeira coisa que se ouve antes do avião decolar são as instruções a seguir em caso de desastre. É como se dissessem: “Já estão avisados. Se continuarem, problema seus”.  Lá pelas tantas: “a partir desse momento desliguem todos os aparelhos, inclusive telefones celulares e jogos eletrõnicos.”, “Por quê, moça?”, porque as emissões eletromagnéticas podem interferir nos instrumentos de voo e causar um acidente.” Olha, se um joguinho infantil pode derrubar o avião, eu me recuso a acreditar que essa porra é segura.. É um cilindro de metal e plástico, geralmente com algumas décadas de idade, que pesa várias toneladas, com as asas cheias centenas de litros de um líquido altamente explosivo,  que tem a pretensão de voar e pode ser derrubado por um game boy! E querem me convencer que é o meio mais seguro de viajar?

E as Linhas Aéreas Regionais? Já voou numa Linha Aérea Regional?  A rampa de concreto não alcança a portinha. Tem que ir andando, mesmo. E cada passo em direção à chamada aeronave é um suplício. A primeira coisa que se percebe são as hélices. São duas. Uma de cada lado. Não tem estepe de hélice, hélice sobressalente. Se aquela desgraça quebra, não dá pra ir pro acostamento trocar.    As asas não são embaixo da fuselagem, são por cima. Pela altura do aparelho, deve ser pra que as hélices não batam no chão e se depedacem antes de levantar voo. Em pé do lado de fora, sua cabeça fica na altura das janelinhas. A escadinha tem meio metro de largura e cinco degraus. Parece ônibus urbano. Estava esperando encontrar um trocador e uma roleta. “Não entra pela porta de trás não, ô moleque! Na próxima parada vai ter que descer, senão vou chamar os tira!”

No alto da escada estão esperando as aeromoças e o piloto, vestidos de escoteiros, muito sorridentes, a lhe dar as boas-vindas. Ninguém me tira da cabeça que aquele sorriso é de sarcasmo: “entra, besta, entra.”    Assim que se entra, como a altura do teto não deve passar de um metro e meio, a menos que você não tenha mais que dez anos de idade, vai precisar manter-se curvado pelos próximos quarenta minutos, até que os demais passageiros consigam desvencilhar-se da complexa tarefa de encontrar seus assentos, que estão claramente marcados em seu cartão de embarque e que, grande surpresa, estão distribuídos de forma sequencial no único corredor existente. Você chega ao seu assento e descobre que há um sujeito que resolveu sentar ao lado da namorada, esperando que o voo estivesse vazio. “Ih! Nem percebi que a moça do balcão tinha posto a gente separado. O senhor não se importa de trocar?” É claro que você não se importa. E vai sentar na poltrona perto da saída de emergência, que não inclinam o encosto, ao lado de um senhor que é o dobro do seu tamanho e que dorme e ronca no seu ouvido por toda a viagem. Aí, passa a aeromoça com aquele sorrisinho irritante.

Alguém já notou como as aeromoças estão sempre muito maquiadas, com seu uniforme impecável, com os cabelos muito lisos, bem amarrados para trás. Todas iguais. Será que aquilo não dá dor de cabeça? Aquela coisa amarrada, será que eles tem alguma máquina que puxa os cabelos da moças e empacota sempre do mesmo jeito? Todas com o mesmo sorriso, sem rugas e com um traço meio oriental. Aí é que você se dá conta de que aquele sorriso permanente deve ser mantido às custas da amarração do cabelo. Soltou, despenca tudo, é pé de galinha, olheira, papada e cara de buldogue.

Não, senhor. Eu fico no chão.

 

 

ARI GURCZ

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Longo demais. Texto engraçado, mas não muito original. Esses argumentos contra o avião já ouvi todos, com exceção dos que se referem às aeromoças. A parte final foi melhor.  

8,5

Lorenza Costa

Poderia ser ainda mais engraçada se o autor não escolhesse tratar de todas as mazelas da aviação no mesmo texto. Revisão ortográfica necessária.

 

9,0

Luci Afonso

Muito bem escrita. Pequena revisão ortográfica e gramatical.

 

9,2

Marco Antunes

desfarçam”? Nem um corretor de texto, querido autor?! “eu me recuso a acreditar que essa porra é segura” Curioso! Leiam os grandes mestres do gênero (Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Luiz Fernando Veríssimo) O palavrão ou não existe (a graça sim) ou é usado com precisão cirúrgica! “As asas não são embaixo da fuselagem, são por cima. Pela altura do aparelho, deve ser pra que as hélices não batam no chão e se despedacem antes de levantar voo.” Isso é de um senso de observação que raia a genialidade! “senão vou chamar os tira!”” Tentativa desesperada de fazer graça, mas ninguém fala assim! E a tal da “correção dos costumes” pedida pelo sempre ignorado Editor deste desafio?

7,0

Oswaldo P.Parente

Humor o tempo todo, em crônica que vale a pena ser lida. Os eventuais erros de ortografia serão por conta da pressa, com certeza!

10,0

Total

 

35,2

 

 

Crônica 10:

Momentos Omn

 

Momento 1: acordar

Acordar, para quem tem insônia, é uma das piores coisas que pode acontecer. E, desculpem-me por dizer isso, é o que ocorre logo pela manhã. Pois bem, ontem quando me deitei pensei que dormiria o sono dos deuses. Afinal, esperança é a última que morre. Demorei-me um tempinho incomodado com o ‘tun-ti-tum’ que vinha acompanhado de risadas do apartamento ao lado do meu. Amaldiçoei o fato de: 1- ter vizinhos; 2- ter vizinhos barulhentos; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

Como ninguém é de ferro, lá pelas tantas adormeci. Sei disso porque mal fechei os olhos e de repente escutei o som da vinheta do Plantão Nacional: tan - tan tan - tan tan- tantan tantan. Não há sono que resista a isso. Acordei de sobressalto pensando que uma tragédia estava sendo anunciada. Meio zonzo notei que o quarto parecia rodopiar e, para minha surpresa, quando a TV passou por mim vi que ela estava desligada.

Maldito celular!, pensei. Essa maravilha tecnológica que já vem com tudo embutido: telefone, agenda, computador, televisão e, claro, despertador. Tentei dormir mais uns minutinhos e… tan - tan tan - tan tan- tantan tantan. Era a porcaria da função soneca. Quem foi que inventou essa droga que insiste em nos lembrar que mais cedo (5 minutos) ou mais tarde (15 minutos) teremos de levantar?

Depois de mais alguns toques de despertar e resistindo ao impulso de jogar o aparelho contra a parede – o que por um lado seria ótimo, pois o barulho poderia acordar os vizinhos da noitada. Porém, por outro, seria péssimo, afinal meu aparelho é de última geração-, levantei-me.

 

Momento 2: o trânsito

Com o ‘bom’ humor que me é peculiar nessas situações tomei banho e escovei os dentes. Obviamente não tomei café, afinal estava atrasado. Entrei no carro correndo e notei que a gasolina estava por um fio, mas que ‘daria pra chegar’. Segui rezando silenciosamente para que desse mesmo, afinal, não existe nenhum posto no caminho para o trabalho. E mudar o trajeto seria arriscado, pois desde o dia anterior o tanque estava quase vazio. Isso sem falar em quanto uma mudança de rota me atrasaria.

            Saí da garagem, liguei o rádio e pensei: ‘meu dia será feliz e tranquilo’. Doce ilusão. Logo ao pegar a primeira via rápida me perguntei qual a razão de dizerem que ela seria rápida. Após refutar o primeiro pensamento “será um cortejo fúnebre?”, voltei à dura realidade e notei que simplesmente TODAS as pessoas pareciam não estar com a menor pressa de chegar a algum lugar. Imbuído de ira fui para a pista da esquerda e colei no carro da frente, um palio vermelho cujo senhor que estava dirigindo lia seu jornal tranquilamente. Pergunto: é melhor viver ou ler o caderno de esportes? Mais, como alguém consegue ler e dirigir ao mesmo tempo?

Antes de buzinar e o mandar para a casa da mãe Joana, lembrei de ser educado e o ultrapassei. Pensei que tudo se resolveria. Qual! Logo à frente fiquei preso atrás de um corsa cinza cuja motorista, uma moça loira e de óculos enormes, falava ao celular ao mesmo tempo em que passava batom. Juro para vocês que pensei estar em uma gravação do “Isso é Incrível”.

Bufando por estar preso atrás de uma roda presa que acabou por ficar emparelhada ao lado de outros dois carros conduzidos de igual forma, prometi a mim mesmo que faria placas com xingamentos para mostrar aos demais motoristas em momentos como aquele. Peguei um retorno e quase bato em um carro que foi acionado pela seta do meu carro. Sim, porque algumas pessoas pisam fundo no acelerador ao notar que outros querem trafegar na mesma via na qual estão. Amaldiçoei o fato de: 1- liberarem carteiras para pessoas que trafegam na pista da esquerda para ler ou se maquiar; 2- existirem faixas de deslocamento; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

 

Momento 3: o elevador

Como sou é filho de Deus e, ele é brasileiro, de um jeitinho misterioso cheguei ao estacionamento do trabalho faltando três minutos para o horário de eu começar a trabalhar. Estacionei o carro na única vaga que havia e que, claro, fica longe da entrada do prédio. Mas ok, dos males o menor. O médico recomendou-me caminhadas. Caminhei – na verdade corri- no sol escaldante até chegar ao prédio no qual trabalho. Percebi que o elevador acabara de subir. Cogitei ir pela escada. Mas em tempo percebi que isso seria besteira. Se andar 200 metros já me deixara esbaforido e suado, imagine subir 24 andares. Vi que estava atrasado, mas tudo bem. O que é um peido para quem está cagado, não é mesmo? Além do mais, era o primeiro e único da fila, esperava ser o único no elevador.

Isso até que aquela senhora de mais de meia idade chegar acompanhada de umas sete pessoas. A fila foi se avolumando e notei que a senhora estava parada com uma empáfia que dizia: ‘vou entrar primeiro porque sou mulher’. Discretamente dei um passinho para frente e ela fez o mesmo. Mais um, ela idem. O elevador chegou e... bingo! Ela se mete na minha frente. Bufando de raiva me segurei para não dizer: ‘que bom que a senhora entrou antes, acho importante as pessoas exercerem os direitos garantidos pelo Estatuto do Idoso’. Para piorar a dita cuja era daquelas que fura a fila e empaca bem na porta do elevador. Ela desceria no 19° andar, mas queria sentar na janelinha.

Irritado e atrasado notei que o ascensorista só fazia marcar mais e mais números. Se tivesse uma arma, juro, colocaria na cabeça dele e sequestraria o elevador. Como não tinha, tentei exercer minha paciência. Porém, não deu. Uma voz esganiçada ressoava: “Ai amiga, você tem que ver se a gaiola do Bolota e da Bolinha está na varanda… mas não pode deixar eles sozinhos não… fale para o porteiro subir aí se chover”. Era ela, a de mais de meia idade. Além de mal educada era uma folgada. Sem vontade de ter acesso a tanta intimidade em um elevador lotado, tentei abstrair. Impossível.

A inconveniente não parava de tagarelar e, para piorar, olhava com desdém para todos que esbarravam nela (como se fosse possível não fazer isso!). Amaldiçoei o fato de: 1- aquela mulher existir; 2- descer depois dela e não ter a chance de empurrá-la ao sair em meu andar; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

 

Momento 4: no trabalho

Quando a mulher desceu decidi que não me abalaria e que a paz volta a reinar. Com esse sentimento entrei em meu ambiente de trabalho. Abri a boca para dizer bom dia e escutei: “seu horário de entrada é as nove e não vinte minutos depois”… Prestes a ter um surto psicótico, mentalmente entoei o tal mantra budista. Fui para minha mesa e vi a solicitação do editor: uma crônica bem humorada sobre vícios e costumes de nossa sociedade. Piada, só podia ser. Amaldiçoei o fato de: 1- ter um editor; 2- não ter espírito humorístico; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

 

***

Muitas são as coisas que nos deixam irritados. Desde uma torneira pingando no meio da noite a um “boa tarde” que não encontra resposta. Agora, uma coisa é certa, existem comportamentos e costumes que simplesmente nos tiram do sério. Sejam coisas pequenas ou grandes, detalhes ou costumes rotineiros, em alguns dias parece que nada, mas absolutamente nada nos passa despercebido. Nesses momentos, caro leitor, amaldiçôo o fato de não saber outro mantra budista além do chatíssimo ‘Ommmmnn’.

 

 

KALINKA TAVARES

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Melhor sem o parágrafo final.  

                                                     

8,5

Lorenza Costa

Divertida. O cronista acerta ao rir, no final, do seu "chatíssimo ommm", que já começava mesmo a ficar insuportável. A redação merecia maior carinho.

 

9,0

Luci Afonso

O ritmo frenético espelha bem a vida atual. É preciso corrigir o uso do hífen.

 

9,2

Marco Antunes

O texto tem muitos clichês e aquela expressão odiosa e desnecessária do peido!  Identifiquei-me em tudo com o autor. Sou vítima preferencial de pessoas que usam celular em elevador e gente que ainda não entendeu que o tempo é um bem coletivo e que não pode ser monopolizado para o exercício de propósitos individuais que impedem o movimento alheio de fluir. Um estádio ainda posterior da evolução humana! Ommmmnn.! Mas a crônica é chata!

8,0

Oswaldo P.Parente

O pos-scriptum é desnecessário. A excessiva itemização incomoda. A referência a gases fétidos e a material sólido da pior natureza é gratuita, depõe contra. No entanto, com mais prática, pode melhorar.

7,5

Total

 

33,7

 

Crônica 11:

Poluições

 

A obviedade de se dizer que placas sempre serviram para avisos que não deveriam ser óbvios (pois se fossem óbvios não precisariam das placas) vem ganhando um viés, pelo menos para mim, hilário. Uma dessas, cuja proliferação é endêmica, é a tal da “Sorria, você está sendo filmado”. Esse primor de criatividade remete aos tempos do fotógrafo de praça, conhecidos como lambe-lambe, onde eram produzidas, de forma rudimentar, as conhecidas fotos 3 por 4. Na hora do clique, o homem, com a manta negra sobre a corcunda, bradava: “olha o passarinho!”, no intuito de que a pessoa fotografada sorrisse. Daí evoluiu para “faz o ‘X’” e outras pérolas. Levando-se em conta que ninguém nunca ficou bonito numa foto desse tipo, é engraçado o apelo ao “sorria” para filmagens e fotografias. Parece que temos de sair de uma de enfado para, então, deixarmos nossa marca “alegre” em algum documento.

O grande problema nisso, entretanto, não é a mensagem que coage o sujeito ao riso forçado, mas o público a quem ela se destina. Ora, quando entramos num banco, salvo exceções, não queremos rir ou emprestar qualquer traço de felicidade para alguma câmera escondida (ainda mais quando o tamanho da fila nos é apresentado). Queremos resolver nossos assuntos financeiros de forma rápida e sem firulas. Portanto, pasmem!, a singela plaquinha é direcionada, nada mais, nada menos, aos mal intencionados. Ou seja, há uma comunicação insólita, quiçá uma cumplicidade, entre as instituições e o possível delinqüente. E junto dela vem a carinha risonha e ridícula do totem conhecido como “Smile”.

Eu realmente gostaria de saber se nos presídios, principalmente os chamados de “Segurança Máxima”, onde existem inúmeras câmeras, há também o aviso de forma adaptada à ocasião: “Sequestrador, sorria, você está sendo filmado”. Por falar em presídio de Segurança Máxima, os estabelecimentos que não carregam esse eufemismo tão sisudo, “Segurança Máxima”, seriam o quê exatamente? De Segurança Mínima ou Média? Enfim...

A necessidade de se comunicar ultrapassou o limite da necessidade e invadiu o terreno do supérfluo. Se parasse aí, tudo bem. Acontece que algumas pessoas precisam mostrar para as outras o que querem ou que fazem. O famigerado adesivo veicular “Eu amo minha esposa”, que é de uma pieguice esplendorosa, quer deixar claro que há amor naquele casamento – pelo menos por parte do marido. O que eu não vi, e que não seria assim tão óbvia, é algum decalque como: “Eu amo os pedestres”. O motorista      que implentasse algo do tipo estaria, ainda por cima, dando uma baita lição de amor, inclusive para consigo mesmo, já que, quando saísse do carro, também viraria um amado pedestre.

Interessante também são as pichações que são entendidas pelos que a praticam como “arte de rua”. Alguns desenhos são multicoloridos e representam, de acordo com os grafiteiros, “o âmago da sociedade despolitizada transcendendo o ambiente de consumo e subvertendo a ordem capitalista”. Bonito. Mas eu gostaria de saber se a prefeitura teve essa mesma percepção, porque um vizinho meu, além de não a ter tido, ainda mandou pedra pra cima do glorioso artista.

Mas, pior que a irritante poluição visual que assola as grandes cidades, é o barulho infernal que o famigerado telefone celular causa. Há vinte e cinco anos atrás todo mundo vivia (bem) sem esse aparelho. Mas, como o ser humano é pródigo em arrumar coisas que pisquem e façam barulho, não tardou para inventar esse novo e imprescindível sistema de comunicação. E vão dizer: “ah, mas médico e policial precisam ter um celular para atenderem mais rapidamente as ocorrências!”. De fato. Mas passaram a ter de usar muita criatividade para se livrarem dele quando estão dando a (coisa mais antiga que o celular) pulada a cerca.

O que causa mais incômodo, entretanto, não é a possibilidade de ser flagrado numa situação inconveniente. O que me desagrada é aquela pessoa que, aos berros, dá evidências de que não quer apenas falar com seu interlocutor, mas com todos ao redor. Não sei se é problema de surdez ou algo do tipo, mas sendo problema auditivo, então, o melhor seria que o emissor dos gritos não portasse um celular. O ouvido, ao contrário dos olhos, não pode ser fechado movendo os músculos ao redor. E quando a discussão em questão é o relacionamento afetivo, a coisa corre o risco de não ter fim. Se for uma viagem de ônibus interestadual o melhor é torcer para a bateria, o sinal da antena ou a paciência da namorada do outro lado da linha acabar logo.

 

 

LEO BORGES

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Curiosidade: “diga x” vem da expressão “say cheese”, em inglês. Presume-se que para conseguir dizer isso a pessoa coloque a boca em posição semelhante à do sorriso.

8

Lorenza Costa

Nem toda a crônica mantém a qualidade, contrapondo boas frases a pieguices de redação duvidosa, como dar "uma baita lição de amor, inclusive para consigo mesmo". O final é abrupto.

8,0

Luci Afonso

Leitura agradável. Correções gramaticais.

8,8

Marco Antunes

Pueril!

7,0

Oswaldo P.Parente

Boa crônica, apesar de dispersiva.

8,5

Total

 

32,3

 

 

Crônica 12:

A GELADEIRA, O HÁBITO E O DEDO NO NARIZ

                  Entrei na sala do gerente, um tanto ressabiado. Não tinha nada a temer. Meu trabalho estava em dia, cumpria o horário tão rigorosamente quanto a média dos brasileiros (o que não chegava a ser um problema, desde que o serviço fosse de boa qualidade) e não havia rusgas com nenhum colega de trabalho. Ou seja: meu profissionalismo era inquestionável. E esse era o ponto.

                  – Você precisa ser mais humano – explicou o gerente –. Não se aproxima de ninguém. Seus colegas não sabem nada a seu respeito. Meu rapaz, isso aqui é uma família! Nós trabalhamos juntos, mas também nos divertimos juntos. Vamos aos bares, jogamos sinuca...

                  Fiquei um tanto confuso no início, mas logo cedi. Resolvi me enturmar. E perdi o emprego em três meses.

                  Passei os cinco anos seguintes tentando entender o que aconteceu, sem muito sucesso. Até que, um belo dia, a revelação me atingiu como um raio. Ou melhor: ela veio na forma de uma amiga. Uma daquelas pessoas – você certamente conhece uma dúzia delas – que faz questão absoluta de provar que é sua amiga do peito, que está ao seu lado para o que der e vier e que entre vocês não precisa existir nenhum segredo.

                  Pois bem, numa certa tarde, essa amiga chegou na minha casa e, depois de se convidar para almoçar, enfiou a cara na minha geladeira – sem pedir licença, diga-se de passagem – e gritou, lá da cozinha:

                  – Nossa! Que cheiro de ovo podre! Você não limpa essa geladeira, não, cara? Que nojo!

                  Por sorte, eu estava na sala, diante da televisão, tentando dissipar da memória o colossal arroto com o qual a gentil dama expressara seu contentamento por destroçar o bife que lhe fora servido. Assim, pude fazer de conta que não escutei e ela pôde assaltar meu refrigerador, passando a mão na minha última lata de cerveja. Aquela mesma que eu tinha guardado para beber vendo o jogo do Vasco.

                  Ora, bolas! O que diabos aquela criatura inconveniente foi fazer na minha cozinha? Se não quisesse sentir cheiro de ovo podre, que não enfiasse o nariz onde não foi chamada!

                  O meu pai me ensinou que o hábito não faz o monge, mas o apresenta. E me parece um tanto óbvio que, se o monge usa hábito, é porque não pretende que os outros vejam nada além do que pretende mostrar. Mas é incrível essa mania brasileira de não sossegar enquanto não enfiar a cabeça embaixo do hábito. E o pior é que, depois, o enxerido faz cara feia, bradando aos quatro ventos que o despudorado monge não usa cuecas!

                  O nome disso é bisbilhotice. E é como catapora: sofrer com ela é só uma questão de tempo. Do mesmo modo que os motociclistas se dividem em dois grupos, os que já levaram um tombo de moto e os que ainda vão levar, os bisbilhoteiros também se dividem entre aqueles que já se meteram na nossa vida e os que ainda o farão. E se você acha que está imune a estes últimos, não quero nem estar perto quando descobrir o quanto está enganado...

                  O pior dos bisbilhoteiros não é nem o fato de ficarem fuçando a nossa vida atrás de informações que – por definição – não são de sua conta. O pior é que, quando se encontram de posse dessas informações, não têm a menor ideia de o que fazer com elas. E, via de regra, fazem bobagem.

                  Quer um exemplo? Nos últimos meses, o Brasil tem sido assolado por uma avalanche de “denúncias” sobre a malversação do dinheiro público. O Executivo comprou lençóis de quinhentos reais cada, uma unidade do Exército gastou dois mil reais em cerveja em um só dia, o órgão tal comprou duzentos e sessenta e cinco mil reais em cadeiras e por aí vai. Quem viu a notícia e não parou pra pensar nela, certamente ficou escandalizado (até porque, como todo bisbilhoteiro que se preze, a equipe de reportagem fez questão de pintar o quadro com as cores mais berrantes que tinha à disposição). Mas um olhar um pouco mais atento logo veria ali a mais descarada – e cara – bisbilhotice dos últimos tempos. E lá vão os agentes públicos desperdiçar seu precioso tempo para explicar que os tais lençóis se destinavam a forrar as camas de dignitários estrangeiros em visita ao País, a cerveja mencionada foi usada na festa de comemoração do aniversário de uma unidade do Exército e as cadeiras se destinavam a abrigar os recém-chegados traseiros dos novos – e ainda iludidos – funcionários aprovados no último concurso público.

                  Espere aí! O que é que esse pessoal espera? Que a Presidência da República adquira lençóis na feira da esquina para preparar a cama onde se deitará o Príncipe Charles? Que se sirva água de torneira em uma festa de aniversário? Que os servidores se sentem em cadeiras de plástico, daquelas que sempre se arrebentam quando a gente se entusiasma um pouco mais, na mesa do bar?

                  E o estardalhaço feito soa ainda mais ridículo para quem sabe que os gastos previstos no Orçamento Geral da União para o ano de 2009 ultrapassam um trilhão e meio de reais. Tão ridículo quanto alguém enfiar o nariz na minha geladeira, sem ter sido convidado a tal, e reclamar que ela está fedendo.

                  É indiscutível que os movimentos pela transparência no serviço público têm prestado inestimáveis favores à sociedade. Não que eles tenham descoberto algo realmente escalafobético (mesmo porque sua fonte de informações é o conjunto de dados que foram disponibilizados na internet pelos próprios órgãos, o que, em si, já poria em xeque a noção de “transparência”), mas porque tiraram do agente público aquela sensação de que pode fazer qualquer coisa, já que ninguém está vendo. Mas, sejamos sinceros: as notícias veiculadas ultimamente não passam de pura bisbilhotice; e, como toda bisbilhotice, não fazem muito mais do que irritar a quem ouve.

                  Se você quer que eu seja menos impessoal no trabalho, precisa estar preparado para lidar com aqueles meus defeitos de personalidade que o profissionalismo esconde; se quer enfiar a cara na minha geladeira, precisa estar pronto para sentir cheiro de ovo podre; se faz tanta questão, assim, de ver de perto as contas da União, precisa ter em mente que vai ver muita coisa, ali, com que não concorda, mas que não necessariamente está errada.

                  O homem que instala um circuito interno de tevê em casa não pode achar ruim se flagrar a própria esposa futucando o nariz através das câmeras.

 

 

GERSON HERINGER

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

De certa forma, a gente fica esperando que a amiga explique ao personagem a razão objetiva de ele ter sido demitido em 3 meses.

8,5

Lorenza Costa

O cronista não consegue manter o ritmo ao interligar três casos para demonstrar um ponto de vista, principalmente porque os dois primeiros são cristalinos e bem contados, enquanto o último exige um bocado de digressão exaltada mas pouco rigorosa (como se o erário fosse comparável a uma geladeira ou qualquer outro bem de propriedade particular).   

 

8,0

Luci Afonso

A crônica começa bem, mas muda de assunto, toma um caminho diferente do previsto e perde o interesse.

8,0

Marco Antunes

Desproporção é a palavra que procuro para falar da comparação da geladeira com os cofres públicos? Pode ser! A Crônica é inteligente, mas não empolga. É, de algum modo verdadeira, a imprensa sem pauta, que precisa encher dezenas de páginas (esses espaços que têm que separar um anúncio de outro)  comete uma forma de abuso que a lei não pega: ver anomalia e corrupção onde só há uma necessidade específica  que,citada fora de contexto, parece à opinião pública abuso e gastança!  O dia em que Televisão for entendida como concessão pública e vasculhada por esses bisbilhoteiros com licença para matar de raiva alguns salários como o de Bonner e Bernardes e longas férias de certos apresentadores podem pegar muito mal para a opinião pública, aí não será de estranhar se algum jornalista responder que estase lixando pra isso!  Mas a crônica é só média!

8,0

Oswaldo P.Parente

Crônica confusa e sem uma espinha dorsal, um fio condutor. Começa, e a seguir troca de assunto, sem parar. Ao final, intenta fechar o primeiro tema, mas sem grande sucesso.

7,5

Total

 

31,5

 

 

Crônica 13:

O feitiço do tempo

No meu tempo, homem que pintava os cabelos era “transviado”. Tamanho era o preconceito, que quase sempre se omitia o prefixo para avacalhar ainda mais o sujeito. Não era de admirar, portanto, que por mais prafrentex que o cara fosse, sempre procurasse disfarçar a qualquer custo, o próprio disfarce.

            Ninguém queria dar na pinta que era um coroa, mesmo que fosse enxuto. Bem verdade que os brotinhos daquele tempo não chamavam a gente de tio (cúmulo da maldade que se pode perpetrar contra um homem maduro, é verdade, mas apenas um pouco mais que a cocotinha em questão) quando as convidávamos para dar uma voltinha em nosso carango envenenado.

            Hoje é bem mais fácil disfarçar a idade. A qualidade das tinturas melhorou muito, a liberdade do vestuário é muito maior, netinhos e vovôs usam bermuda, camiseta, tênis, boné, às vezes só o que entrega a idade são as inscrições nas camisetas. Pink Floyd, Stones, Kiss...vovô. RBD, Jonas Brohers...neto.

            Isso, sem falar nos músculos. Naquele tempo não existia academia.  Ninguém malhava. Até os super-heróis que apareciam nas telas das TVs em preto-e-branco, como o Tarzan, Nacional Kid, Batman, pareceriam raquíticos perto destes das TVs de LCD de 50 polegadas.

 Hoje, quase não se vêem pelancas, a não ser nos açougues, não necessariamente nas filas. Por falar nisto, são tantas plásticas; lipos; mini-lipos; liftings; aplicações de silicone; botox e tais que estamos quase alcançando o prodígio de pular a velhice. Vejam , demora-se tanto a sair da juventude e tanto dura a meia idade que já vamos  direto para a eternidade, de preferência via crematório, que é mais moderno e dispensa a inscrição da data do nascimento ao lado daquela estrelinha.

 Dizíamos, muitas vezes, que fulano não teve infância. Logo não teremos é  velhice.

            Não raro, homens sarados, com abundantes cabelos louro-acobreados da Loreal de Paris e dentes perfeitos_tudo implantado, claro. Com belos pares de peitorais e glúteos recém adquiridos e ainda não totalmente quitados no cartão de crédito; um belo dia, depois de mais uma participação em concorrida prova de triatlo, apesar de todos os suplementos e vitaminas, contraem uma pneumonia e são levados  a um hospital pela atual, que foi colega de faculdade da filha caçula. Lá, tendo que declarar e encarar a verdadeira idade, morrem subitamente, pois havia muito, fujiam de uma consulta com o geriatra.

O pior vem declarado no atestado de óbito. Causa mortis: falência de mútiplos órgãos e... senilidade.

Na verdade, vinham tentando passar despercebidos pela iniludível, que como diz o nome, não pode ser enganada para sempre. Só que agora, a indesejada das gentes é esta outra que normalmente a precede, a velhice, que só aparece  no cinema para ganhar o Oscar de melhor maquiagem e efeitos especiais e também nas melhores vagas dos estacionamentos lotados dos shoppings e nos caixas preferenciais.

 

            Bem, já me arrisquei demais, a carapuça está muito grande e deve estar servindo em tantos leitores que é melhor parar, se quiser continuar a ser lido.

            Longe de mim a intenção de ridicularizar todas as pessoas que, com maior ou menor razão, mas sempre com alguma, querem manter uma aparência jovem e saudável. Rogo apenas que tenham o mesmo zelo com suas coronárias, pois a arterioesclerose...

            Sei que, um dia, num futuro longínquo, até eu mesmo posso precisar de uma recauchutada. Sabe como é... ninguém é de ferro, e, se fosse, todo mundo ia querer ser inox. “Sic transit gloria mundi”, eis a questão.

Se não me falha a memória.

 

 

 

WASHINGTON DOURADO

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Regular

7

Lorenza Costa

O cronista saiu em desvantagem pela escolha do tema batido, mas produziu um bom texto, com alguma novidade. É preciso revisar a pontuação, ortografia e a expressão "mas apenas um pouco mais que a cocotinha em questão" - um pouco mais o quê?).

9,0

Luci Afonso

Adorei! Delícia de leitura! Corrigir apenas o hífen e “fujiam”.

9,8

Marco Antunes

Piada boa é assim: rápida e direta. Humor não tem capítulos! O tema está gasto, alguns defeitos de redação pesam, mas o texto é bom!

9,5

Oswaldo P.Parente

Boa crônica com assunto atual. A construção das frases e o vocabulário utilizado poderiam ser mais elaborados.

8,5

Total

 

36,8

 

 

Crônica 14:

Entre Televisões e Gatos

Ele era honesto.

Claro que era.

O “jeitinho” que dava volta e meia não afetava sua consciência, afinal eram apenas ‘estratégias de sobrevivência’ na selva tributária e legal em que estava afogado.

Aquela vez que sonegou imposto... bem, todos enganam a Receita um pouquinho! Documentos falsificados? Bobagem... apenas um ajustezinho entre as suas contas e a realidade! Multas? Que multas? Foram todas “erros” do sistema devidamente corrigidos, o que importa se precisou liberar um acué? Antes pagar pelo seu sumiço do que entregar uma fortuna para um governo que só quer o seu sangue, ?

Peças defeituosas vendidas, trocas mal feitas, pequenas mentiras em lojas para trocar produtos quebrados – estes seres abjetos com fome do dinheiro alheio que nunca entregavam o que prometiam bem que mereciam este pequeno prejuízo, isso era justiça social, oras! –  inúmeros CDs e DVDs piratas...

Nada disso era realmente crime. E mesmo se fossem, bem, ninguém precisava ficar sabendo...

Ele era... bem... quer dizer...

O que ele queria dizer mesmo?

Então, claro que ele era honesto.

Sábado de manhã, sofá, cerveja e preguiça, Marcão vem com “A” novidade que iria mudar-lhe a vida:

- Cara, TV a cabo! Negócio da China. Instalação, aparelho e sinal por 100 pratas. E o melhor, brother! Zero chance de descobrirem. Seguro, muito seguro, garanto!

Sentiu-se seduzido pelas imagens em cascata, pelas milhares de opções e totalmente anestesiado pelas infinitas possibilidades. Sem dois segundos de reflexão aceitou a oferta para a instalação do aparelho e - uau! – todos os canais com os quais sempre sonhara! Orgulhoso, ele exibiria para a mãe, o vizinho, o cachorro e a árvore do quintal os milhares de canais disponíveis. Nunca mais o tédio televisivo! Programação a preço de feira, qualidade de primeiro mundo e satisfação garantida, tudo junto numa só salada refestelada no sofá dominical com a família. Nunca mais o plim-plim chato com horas e horas de programas que deixavam as tardes de domingos ainda mais depressivas.

Ajudou Marcão na instalação, precisou subir no teto da casa, quebrou algumas telhas, quase caiu, foram feitas uma série de ligações esquisitas, mas o choque que tomara fora apenas um susto. Marcão era especialista naquilo, sabia o que estava fazendo e garantira que tudo daria certo.

Bom demais pra ser verdade!

Depois de tudo pronto – maravilha! - com o aparelho no lugar e a ansiedade para ver todos os canais com os quais sempre sonhara, poderia, enfim, comentar as séries sem precisar esperar os capítulos atrasados na TV aberta. Veria filmes sem precisar alugá-los. Quem sabe até fazer umas sessões de cinema com os canais de filme? Cobrar alguma coisa e de repente tirar um troco? Idéias fervilhavam!

Finalmente o domingo! Fizera um churrasco com muita carne para todos, cerveja para os adultos, refrigerante para a garotada. Uma alegria só ter a família reunida! Entre farofas, pães e lingüiças, todos esperavam o momento de poderem ter certeza que estavam livres de cacetadas e afins. Teriam apenas para si maravilhosos e infinitos canais, plenos de informações, filmes e desenhos!

Algumas horas depois estavam todos enfastiados de comida e preparados: pipoca no colo, bebidas nas mãos. A televisão é ligada, a antecipação quase palpável no ar e certo deslumbramento que parecia perpassar os presentes à espera da maravilhosa imagem. O controle remoto a postos, quem o segurava em êxtase!

Eis que a imagem aparece!

Vovó Ludmila tampa os olhos. Vovô Teobaldo arregala-os! Meninas e meninos deixam o queixo cair... Tias solteironas desmaiam, tios solteirões uivam, a dona da casa parece que vai explodir de tão vermelha se encontra.

Ficaram embasbacados olhando as cenas que se desenrolavam à sua frente.

Ninguém acreditava no que estava vendo.

Todos olham a TV e olham para ele. Olham a TV e olham para ele.

Trocam-se canais desesperadamente. Nada.

Ele, tão honesto, tão ciente de seus deveres, tão calmo e controlado... Joga a TV no chão com estrondo e começa a gritar:

- Marcão, filho da ....! Eu disse apenas UM canal de sacanagem! Um só!!!!

 

 

ANA MARQUES

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

Improvável... O cara não ligou a TV nem uma vezinha antes da visita da família?

7,5

Lorenza Costa

Só com muito esforço dá para supor que se trate de uma crônica, e não de um conto. Tempos verbais incoerentes, redação apressada e trama inverossímil.

 

6,0

Luci Afonso

Divertida. Algumas frases e tempos verbais precisam ser revistos.

8,8

Marco Antunes

Inverossimilhança mata qualquer humor, não dá pra rir quando não se acredita na história ou ao menos na coerência da fábula. É o caso aqui.

7,0

Oswaldo P.Parente

Está muito longe de uma crônica.

6,5

Total

 

28,3

 

 

Crônica 15:

Nós, os brasileiros.

Os brasileiros entendem que o brasileiro é a experiência mais importante que a natureza já aventurou produzir. Somos a condensação de pecados, virtudes, vícios, hábitos e comportamentos que nos fazem únicos na Terra. Falar da nossa singularidade como povo é empreitada difícil de ser sistematizada e, ao mesmo tempo, fácil para livres comentaristas. Vemos tantos defeitos em nosso compatriota, que nem parecemos à primeira vista pertencer ao mesmo caldeirão étnico. Mas que não se enganem os que pensam ao contrário: é só uma ilusão à primeira vista. Basta continuar a conversa e toda a falsa pompa se desmorona, quando voltamos a ser todos iguais, como um caminhão de japoneses, a quem achamos todos iguais.

Pois bem. Todo brasileiro que se preza tem sua lista de censuras ou de coisas que são insuportáveis – nos outros, pois como diria Sartre, o inferno são os outros. Vá lá leitor, eu, todos nós somos também o inferno dos outros. Também devo ter comportamentos reprováveis que fazem parte da lista de alguém, ou de muitos. Que seja. Como não tenho pretensão de ser unanimidade onde esta nunca existirá, reprovo defeitos nos outros que nem sei se existem em mim. O topo da minha lista de costumes reprováveis é o usuário de celular, o homus tecnologicus. Depois, bem coladinho a ele, vem o de cigarro.

No Brasil, adoramos celular. Essa maravilha tecnológica que um dia serviu apenas para fazer e receber ligações, hoje é tocador de mp3, rádio, GPS, lanterna, espelho para retocar a maquiagem, e tudo mais que a máquina do consumo é capaz de inventar para perturbar a paz alheia. Mas é quando dele se utiliza a função mais simplória – fazer e receber ligações – é que a tal falta de educação ganha notoriedade entre nós. É “ó do borogodó” como se diz lá na “boa terra”, para expressar a ênfase na deselegância.

Sempre tem um sujeito ou sujeita que adora exibi-los ruidosamente para a platéia e que para anunciar o feito, falam tão alto, que por vezes tenho dúvida se aquilo é um telefone ou um megafone desses usados na Rua 25 de Março do centro de São Paulo, ou mesmo se é necessário fazer uso de tal artifício. Por certo, alguém que esteja no Japão é capaz de ouvir. Que dirá um interlocutor na mesma cidade! E olha que neste caso todos nós, os outros, estamos a míseros 30 centímetros do epicentro do barulho. É insuportável.

Incrivelmente, essas tragédias auditivas se tornam mais estridentes em ambientes silenciosos. Quanto mais silencioso é o local, mais evidente se tornam o barulho e a deselegância.

 Vocês já devem ter passado por isso: Na semana passada, marquei uma consulta ao oftalmologista para exames de rotina. Chegando lá, sento-me entre duas cadeiras vazias para um maior aproveitamento da luz. Nesses casos, sempre levo um livro para passar o tempo, e também para impedir-me de estrangular a atendente e o médico, cada um a sua vez. A leitura começa interessante e, depois de algumas páginas, estou envolvido com a trama bem bolada do escritor. Passam-se alguns minutos de paz e felicidade literária, até que se senta ao meu lado uma dessas loiras de última hora (agora todo mundo quer ser loira). Vestia calça jeans e camiseta branca. Usava uma bolsa amarelo-ouro, duas vezes maior do que seu tronco, um sapato de salto alto com uma ínfima ponta tocando o chão, que se sabe lá como conseguia equilibrar-se naquele troço (este é um outro costume que não compreendo). Seu corpo era de uma beleza brasileira. Sua bunda altiva e seus seios insolentes pulavam num decote que insistia em olhar meus olhos. Depois da minha admiração masculina, volto à minha leitura. Nem bem recomeço, o sinal da trombeta anuncia que vai começar uma conversa ao celular, ali bem pertinho de mim.

– Alô Marília, pode falar agora? Pergunta à loira.

Ouço a amiga dizer que está dirigindo. Mas a loira diz que é coisa rápida, só para matar o tempo (dos outros provavelmente).

– Sabe da última?! A Martinha pegou o namorado com outra em um restaurante. Foi o maior barraco. Ela começou a bater nele e a falar todo tipo de palavrão. Estava possessa de raiva e por pouco não bateu também na cretina que estava com ele!

E eu, já não me concentro na leitura. A conversa invade meus ouvidos, contrariando o meu desejo de continuar na bela companhia de um bom livro. Mas o diálogo não dá sinais de término. E ela prossegue.

– Não te conto. O Janine está de volta da França com o último tratamento para cabelos tingidos. E você sabe não é?! Loira que se preza mantém a cor no salão de beleza! Diz em tom de deboche. Agora, um pouco mais séria diz para a amiga:

– Tive um 'poblema' sério com meu namorado... E a conversa se arrasta em voz alta entre dramas pessoais e trivialidades. E eu ainda tentando me concentrar na leitura, pigarreio. Retorço-me na cadeira. Levo a mão ao nariz em sinal claro de descontentamento, e aquela voz nasalizada continua reverberando em meu ouvido até não poder mais. Quando já estou prestes a dizer-lhe um impropério, a atendente vem salvá-la: “Senhor, o doutor lhe espera no consultório sete.

Ufa! Essa foi por pouco!

Demorei uma hora e meia na sala de espera, ouvindo bobagens em alta voz. O doutor leva dois minutos para concluir a consulta. “Tudo ótimo com o senhor. Quando sair, chame o próximo, por favor.” Outra vez me calo e vou embora...

Infernalmente, saio do consultório, pego o elevador e nele encontro um homem com uma barba bem fechada e com um odor insuportável de cigarro recém-fumado, combinado com um banho atrasado. Nunca um elevador demorou tanto para descer dez andares! De imediato, pergunto-me silenciosamente se este condenado não tem nariz! Ele me olha indiferente, como se ali não existisse ninguém. O nada mesmo. Só ele e ele.

Sem que este seja um julgamento acerca de procedimentos politicamente corretos, ratifico minha bronca com os fumantes. Normalmente, estão sempre nos lugares impróprios como praga que se alastra incontrolável no milharal. E é inútil dissuadi-los de que seu prazer fumegante se dá à custa de um enfisema pulmonar alheio. Eles continuarão fumando até o dia do juízo final.

Saio do prédio e chego à rua. No caminho até o estacionamento, vejo toda sorte de comportamento condenável: carros estacionados na calçada, filas duplas, buzinaços próximos a um hospital e muitos motoristas dirigindo com um celular em punho e com a cabeça nas nuvens. O inferno não tem fim.

Volto ao trabalho. Tenho uma reunião de negócios com um grupo estrangeiro. Um argentino, que estava sentado mais próximo a janela, observa o movimento da cidade e se apressa em vir falar comigo em “portunhol Cómo podem ser muito bons em futebol e tener tan mala educacao?” No que lhe respondo secamente: Mal educados? Quem? Nós brasileiros? Nunca!

Falar mal de brasileiro é privilégio nosso. Só nosso.

 

 

CLEMENS SOARES

Jurado

Comentário

Nota

Betty Vidigal

... em todo país se age assim; só os nativos podem falar de seu povo. E falam. Isso não é coisa de brasileiro.

A mania de falar ao celular, o expor-se em público ao falar, nada disso é ‘coisa nossa’. Cronista mal humorado, no estilo Walcyr Carrasco, é cativante quando é engraçado. Aqui não vi graça, só crítica azeda.

8

Lorenza Costa

É um texto correto (apesar de "dissuadir" em lugar de "persuadir"), mas as situações e soluções são previsíveis. 

7,8

Luci Afonso

A primeira parte, do celular, é engraçada. Há frases sem sentido e confusão de tempos verbais.

 

8,2

Marco Antunes

como um caminhão de japoneses, a quem achamos todos iguais.”  Explicar o que se quis dizer é um antídoto para o humor! De resto , há várias pegadas da inexperiência em trabalhar com o texto humorístico. Os diálogos não convencem, não ajudam na graça, antes testemunham que aqui não se tem costume de fazer humor. As situações são mal  escolhidas e irreais como a conversa com o argentino. O autor tem um longo caminho pra aprender as manhas do humor.

6,5

Oswaldo P.Parente

Senti falta do inesperado, talvez de um assunto novo. Inda assim, conseguiu me deixar irritado com a loura e com o cidadão tabagista.

8,5

Total

 

31

 

 

Crônica 16:

As desvirtudes humanas

            Há muito tempo atrás, antigamente no passado, nos primórdios e desde tempos pregressos, nossas desvirtudes sempre foram uma incomensurável e uma rica fonte de inspiração para a psicanálise e para os comediantes. Sim, o “complexo de Poliana” não nasceu com a publicação do livro “Poliana”, ele veio da capacidade dos seres humanos rirem de suas próprias desgraças, dos seus próprios usos e costumes, enfim, tudo não passa despercebido, principalmente, aos olhos dos fazedores de comédia.

            Falando em desvirtude, não há coisa mais irritante do que pessoas que acham que desafios mortais são bacanas, são cool. É, são um cool mesmo. Em busca de poder ostentar seu nome no Guinness Book, para a posterioridade lembra-se deles, fazem verdadeiras sandices e até criam novas categorias, anteriormente, inimagináveis nesse livro – nesse aspecto, eu diria que concordo com Einstein quando ele falou algo que envolvia o universo e a estupidez humana –. Um exemplo dessa megalomania de achar que se pode subjugar os poderes da Física – contrariando, assim, os ensinamentos de Newton –, foi uma pessoa achar que podia viajar pendurada em diversos balões de festa. É, aquelas “bexigas” que enchem as paredes, os tetos, as mesas e, depois, a criançada estoura tudo, parecendo mais que você está no meio de um bombardeio na Guerra do Iraque ou num tiroteio entre policiais e traficantes nos morros cariocas; diga-se, de passagem, que é uma coisa muito ribombante – para não dizer irritante –. Pois bem, pergunto-me o que leva uma criatura maior de idade, formada e respeitável a ainda acreditar em desenhos animados? Sim! Viajar de balão de festa é algo que vemos nos desenhos animados, é algo lúdico, cujo objetivo é tão somente o divertimento dos pequenos, nada mais! E uma criatura dessas, em um acesso de loucura, me faz isso?! Será que ele achou que estava no set de filmagens de “Uma cilada para Roger Rabbit”? Tinha que dar no que deu.

            Dar no que deu, também, é algo extremamente usual e costumaz em nossa geração
coca-cola – hoje, mais coca do que cola –. Parece que o sujeito não abre os ouvidos para os mais experientes, como na cultura oriental e só acreditam naquele “colóquio para bovino conciliar o sono” quando se dá mal. “Imagina se aquele velho sabe alguma coisa, está gagá!” é o argumento mais comum. Mas, depois, esses jovens tolos voltam com cara de Madalena arrependida, porque, como diria nosso ilustre Presidente: “sifu” e verificam que o “velho gagá” não estava assim tão gagá... É. A teimosia matou um gato!

            Não! A teimosia não matou um gato, mas a curiosidade, sim. Por falar em curiosidade, não tem coisa mais enervante do que a curiosidade humana. Verdade que a curiosidade trouxe vários avanços tecnológicos para nossa sociedade, mas também, trouxe a imprensa marrom, os paparazzi, as revistas e os programas de fofocas... Cara, deixe as celebridades em paz! Assim como você, elas têm direito a uma vida pessoal e privada – por favor, pelamordeDeus, grife a palavra privada! –. Se uma atriz está com crise de TPM e, por isso, não sorri quando vê um fotógrafo, é taxada de antipática, estúpida e vem sempre aquele infeliz comentário: “custava ela sorrir para a câmera?”. Sim! Custava! Sabe-se lá se ela estava se convulsionando em cólicas; como ela conseguiria sorrir numa situação vermelha dessas?

            Falando em vermelho, não entendo como um País pode ter e não ter ideologia ao mesmo tempo. Parece que o brasileiro está sofrendo de esquizofrenia. Cazuza frisou bem a falta de uma ideologia procurando, desesperadamente, uma para viver. Por outro lado, há uma onda vermelha que se mostra forte e imperiosa em toda época de eleição: em comícios de alguns candidatos, você só vê pessoas usando vermelho. É, de dois em dois anos, vermelho deve ser a cor do São Paulo Fashion Week. Só pode! O brasileiro não tem ideologia normalmente e só a tem porque, de uma hora para outra, acha que pode mudar o mundo ou, pelo menos, o Brasil, mesmo estando careca de saber que se muda para continuar tudo igual, porque brasileiro não gosta de radicalismo, ele gosta mesmo é de reclamar de barriga cheia: cheia de churrasco, com umas boas cervas e assistindo ao futebol.

Ainda sobre essa questão ideológica, sabe o que é mais engraçado? O aborrecente quer ser diferente, quer ser um ser único e, ao mesmo tempo, igual a todo mundo: os mesmos gostos, os mesmos estilos, o mesmo tudo para não se ser excluído. Há coisa mais esquizofrênica do que isso? Bem, segundo Raul Seixas, ser uma metamorfose ambulante é melhor do que ter uma opinião formada sobre tudo, ou seja, para que ideologia? E o Cazuza morrendo por uma... É. Nós somos bem sui generis.

            Sobre a questão de gênero, estamos num momento que, per si, já é cômico: hoje, quando uma mulher grávida vai fazer o ultra-som e pergunta a seu médico se é homem ou mulher, este, por seu turno, responde: “quando tiver dezoito anos, ele decide”. A coisa anda tão complicada e, para evitar tais tipos de constrangimentos, vários estabelecimentos estão adotando banheiros unissex. Isso está trazendo alguns embaraços também, uma vez que você vê um mulherão de costas, bonita, bem vestida, bem cuidada e fazendo xixi em pé!? É... O conceito de mulher-macho mudou radicalmente.

            Ainda sobre gênero, observamos, também, outro fenômeno: as jovens que são lesbos, elas assim o são porque é fashion mulher beijar mulher, mesmo elas gostando mesmo é de homem; não tem problema, depois, elas passam a beijar mulheres do mesmo jeito, justamente porque os homens gostam.

            E uma coisa que eu não posso deixar de falar é como nossas crianças estão mal-educadas. Tudo “é coisa de criança”: birra? “É coisa de criança.” Pirraça? “É coisa de criança.” Querer mandar nos adultos? “É coisa de criança.” E não fazem absolutamente nada a respeito! É... Coisa de criança... Será que não perceberam que é coisa de criança mal-educada?! Pior é quando você vai a um restaurante um pouco mais elegante (depois da crise, até o restaurante chique está em recessão), porque marcou um jantar romântico e, na mesa ao lado, tem uma criança dessas. Não há coisa mais inconveniente do que as pessoas levarem os filhos para um restaurante no horário de jantar: gritos, talhares sendo batidos ou na mesa ou no prato – nisso, já foi embora o romantismo –, fazendo guerra de comida, comendo e cuspindo – aí, já foi embora o jantar –. É uma cena dantesca! E os pais ainda têm coragem de levar os seus fedelhos para um restaurante e acham tudo lindo e maravilhoso! Será que já ouviram falar de McDonalds? Por favor! Usem o bom senso! Respeite os casais sem filhos ou que tiveram a consideração de deixarem os seu em casa para que todos pudessem jantar em paz... e amor!

            E assim, caminha a humanidade, sem rumo, verdade; mas que dá uma comédia, isso dá.